Alcobaça Terra de Paixão
Não há amor como o primeiro dizem, e eu estou totalmente de acordo.
Alcobaça é uma cidade calma longe do fulgor industrial e comercial que teve até ao ano 2000. Não acabou o Mundo como era profetizado, mas acabou uma época de crescimento. Actividades industriais, muitas com história, desapareceram e hoje são motivo de lembrança em museu de cerâmica a visita obrigatória.
Vivi na Av. Bernardino Lopes de Oliveira e passei à sua residência (palacete na rua da Conceição, hoje Dr. Nascimento e Sousa) pelo menos quatro vezes por dia, durante 14 ou 15 anos, e nada sabia do nome desse ilustre alcobacense.
No passado mês de Junho foram os alcobacenses convidados a participar numa visita guiada a dez palacetes de Alcobaça.
Ao ler esta notícia lamentei não poder participar, mas trouxe-me à lembrança os edifícios apalaçados da minha juventude. Alguns ainda existem, outros desapareceram para sempre dando lugar a prédios de apartamentos.
Mas voltando ao nome da rua onde morei desde 1963 até aos fins dos anos 70. Bernardino Lopes de Oliveira foi um dos regressados que fizeram fortuna no Brasil, que ao chegar ficou chocado com o atraso da vila e decidiu dedicar-se a tentar remediar as carências – Assim fundou o Gabinete de Leitura de Alcobaça, o Asilo Para Infância Desvalida, sendo ainda Fundador e Provedor do Hospital da Misericórdia de Alcobaça. Republicano, participou no 5 de Outubro de 1910 e, na 1.ª República, obteve cargos como Vice-cônsul do Brasil e presidente da Câmara de Alcobaça.
Palacete Bernardino Lopes de Oliveira
Em matéria de palacetes construídos em finais do Século XIX, arquitectura romântica e apontamentos vindos do Brasil, está Alcobaça bem fornecida de História, bem de nomes importantes. Continuam muitos desses edifícios de plena saúde e utilidade. Exemplos como o do Pena que foi residência do senhor Francisco Oriol da Pena. Foi construído nos terrenos de uma antiga Gafaria Pena, hoje Câmara Municipal de Alcobaça.
Palacete de Francisco Oriol da Pena
O palacete das Escadinhas como nós garotos conhecíamos foi residência do director da companhia de fiação e tecidos depois externato Dr. Cabrita e por fim alugado à CEERIA, cooperativa de ensino especial, é posteriormente comprada por esta no seguimento da falência da empresa COFTA. No seguimento das obras de manutenção regressou à sua cor inicial que ocre.
Palacete das Escadinhas
O Palacete da Cova Da Onça foi residência do senhor António Magalhães, um dos meus patrões enquanto trabalhei na Crisa Cristais de Alcobaça. Embora fossem vários irmãos sócios, o senhor António Magalhães era um industrial que nasceu rico mas soube modernizar-se e modernizar a sua empresa (chegou a ser a mais avançada da Europa na área do cristal). Dizia ele que tinha uma caneta guardada para firmar acordos com o duro sindicato vidreiro, habituado às lutas e reivindicações, bem como às perseguições politicas.
Trabalhavam lá famílias inteiras como a minha.
Tinha cooperativa de abastecimento para os seus empregados, creche com horário para as mães amamentarem, comparticipação nos medicamentos, e quando eu fui para a tropa ainda funcionava uma cantina onde podíamos almoçar por um valor irrisório.
Eu ainda guardo as recordações de a minha tia me enviar a esta casa, com a roupa que a senhora dona Regina mandava limpar na lavandaria, onde a minha tia era empregada. Está claro que a gorjeta era o principal incentivo.
Palacete da Cova da Onça
Embora só aqui tenha mencionado uns poucos, não posso deixar de falar do palacete Rino mais conhecido como o da Rina.
O construtor deste palete foi um grande lavrador poprietário de terras que se estendiam pelos concelhos de Alcobaça e Batalha, chegando a ser dono do mosteiro de Cós. Foi casado com a filha do fundador da fiação e tecidos a que lhe chamou Maria Cristina Rino. Ela foi casada com um filho do nosso escritor Eça de Queiroz e, posteriormente, com Dr. Pereira de Matos, historiador que se dedicou ao estudo da região.
Foto do Casamento, em Paris, de Maria Cristina Rino com António Eça de Queiroz, filho do famoso escritor Eça de Queiroz.
Bem mas a história não acaba aqui. A dona Maria Cristina Rino após a viuvês duou o Chalet a uma ordem religiosa de S. José de Cluny que assim beneficiou de um dos recheios mais ricos da região. É habitado pelas freiras e julgo que funciona uma cresche nas suas instalações.
Mas como tudo na vida na vida desta Dama foi-se o brilho e o lustro, nos últimos anos da sua vida sem criados, tinha algum apoio de pessoas da terra, entre elas a minha colega Alice (rata) que fazia recados e ajudava na casa. Está claro que cá para fora veio muito do que passava lá dentro. Conta-se que uma bela vez, a peixeira que vendia pelas portas, ao vê-la pegar num carapau com ar enjoado lhe de disse: - “O qué foi dona? O carapau ca…… “descuidou-se?”.
Palacete Rino
Há muito para observar e apreciar a sua beleza mais alguns, bem como casas apalaçadas que para muito terá contribuído o êxito das visitas guiadas.
Casa Tomaz Silveira Raposo
Palacete da Fonte Nova hoje uma unidade hoteleira
Casa Ilda Serrano mesmo em frente ao Mosteiro
Os seus palacetes, o Mosteiro, a sua zona histórica onde poderão ouvir o Belo Canto num dos arcos entre duas praças, jantar, enfim dar razão à Maria de Lurdes Resende quando cantava:
Quem Passa Por Alcobaça / Não passa sem lá voltar.
De Silva Tavares e Belo Marques
_____________
Nota do editor
Último post da série de 19 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28360: Os nossos seres, saberes e lazeres (750): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (271): Heidelberg, cidade poupada na Segunda Guerra Mundial, pilhada pelos exércitos de Luís XIV em 1689, as ruínas mais famosas do romantismo - 6 (Mário Beja Santos)




















«

















