METER O CHICO
No tempo em que estive na tropa, havia dois termos depreciativos, se não ofensivos, Chico e Básico
Na recruta cedo travei conhecimento com os dois postos militares.
O Básico era um indivíduo sem qualquer especialidade, incapaz de marchar e manusear armas, enfim, servia para limpezas e recados dentro do quartel. Mandava em nós recrutas pois ainda éramos menos que básicos. Lidei mais de dois anos com um básico, que o era, vá se lá saber porquê.
O Santos de Grijó, esperto, desenfiado, bom de bola, indisciplinado, pronto para a malandragem, enfim figura incontornável. Estava ao serviço do Tenente Raposo que invariavelmente o mandava à procura de alguém. Esse alguém nunca aparecia, nem o Santos, e quando o tenente lhe perguntava por onde tinha andado, ele respondia que tinha andado à procura do fulano, mas que o não tinha encontrado.
Tantas vezes a bilha foi à fonte que um dia deixou lá a asa, e o Santos acabou preso na barbearia/prisão com uma porrada do Tenente-Coronel, que depois foi agravada pelo Comando-Chefe, e assim o também conhecido por Grijó, esteve praticamente um mês livre de fazer recados e de encostar a barriga ao balcão da cantina seu lugar preferido. Durante a noite fazia companhia aos camaradas na porta de armas, pois todos lhe abriam a porta e assim tirá-lo do calor horroroso que aquelas paredes do exíguo cubículo absorviam durante ar horas de sol escaldante. Um dia fez uma maldade, a jogar a bola, ao furriel Fernandes e levou logo uma chapada e, embora a contragosto, teve que ficar com ela.
Os chicos eram uma espécie imprescindível. Por cá eram eficazes em secretarias e tudo que dissesse respeito a orgânica militar. Os primeiros-sargentos eram na verdade os comandantes de companhia, os amanuenses, os que compravam e distribuíam. Era um posto invejável com benesses e lucros.
Também eram seres humanos, embora a malta desconfiasse da fartura. Na recruta, ia eu todo bem fardado a preparar-me para ir a casa pela primeira e vez faço continência a um sargento de cigarro na boca. O homem ainda me deixou passar, mas depois chamou-me e lá levei uma ensinadela.
Mas na CCS do 3872 todos os oficiais do quadro eram oriundos da GNR ou Guarda Fiscal. O tenente-coronel e o capitão já em fim de carreira, e dois sargentos promovidos a tenentes em duas passadas, acabando o tenente Raposo em comandante da companhia, nem seis meses após a nossa chegada a Galomaro.
Pródigo em ameaças, nunca castigou ninguém e maldisse a sua sorte de estar entregue a semelhante canalha. Era também conhecido por tentar aliciar para as meninas dos seus olhos, a GF e a GNR, todos os apanhava a jeito. A maior parte mantiveram as promessas em lume brando e outros aceitaram integrar essas forças onde fizeram carreira. Nunca me convidou a mim, vá-se lá saber porquê.
O outro chamava-se Moscoso, nunca o conheci bem embora fosse voz corrente que não era flor que se cheirasse.
Devem ter morrido pois já não eram jovens e já se passaram mais de cinquenta anos. O Caramba ainda se encontrou com o já Capitão Raposo ainda de serviço na sua amada Guarda Fiscal.
Que a terra lhes seja leve bem como ao Santos que morreu pouco tempo depois de cá chegar.
Juvenal Amado
28/08/2025
Na foto o nosso Tenente Raposo e do Caramba.
Na foto estão: de pé, o Caramba; o Aljustrel; o sargento Silva e outro que não me lembro o nome pois esteve quase sempre em Bissau; o Tenente Raposo e o Santos Grijó. À janela o Ermesinde, já falecido._____________
Nota do editor
Último post da série de 28 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27163: Felizmente ainda há verão em 2025 (26): O Meu Poema Azul (Versão do fim da tarde) (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)
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