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sábado, 30 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27168: Os nossos seres, saberes e lazeres (698): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (219): Um novo e belo museu regional, de visita obrigatória, o do Bombarral - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Julho 2025:

Queridos amigos,
Estamos de regresso ao Palácio Gorjão, já se falou da Pré-História, há aqui testemunhos de grande significado, seguiu-se a visita a peças de arte religiosa, onde se destacam artistas com relevância na arte portuguesa, como é o caso de Josefa de Óbidos, Baltazar Gomes Figueira, Leopoldo Almeida e António Lino. Não se quis perder uma exposição sobre a Cerâmica Bombarralense, exposição temporária, deu para disfrutar obras de Júlio Pomar, Maria Barreira e Vasco Pereira da Conceição. Não faltam pedras de armas numa região que desde a Idade Média gozou da presença de uma aristocracia rural influente, a par da presença das ordens religiosas, como a Ordem de Cister; dentro da concepção deste espaço museológico em quatro salas, impressiona até pela qualidade didática a homenagem a dois escritores ligados ao Bombarral, Anrique da Mota e Júlio César Machado. Não tenho dúvidas em que o leitor, podendo, aqui irá deliciar-se com este espaço patrimonial onde só sentia falta da expressão económica, o Bombarral situa-se numa área potencialmente frutícola e vitivinícola, pressinto que mais tarde ou mais cedo a história desse património também aqui terá assento.

Um abraço do
Mário



Um novo e belo museu regional, de visita obrigatória, o do Bombarral - 2

Mário Beja Santos

Continuamos a visita ao museu do Bombarral que reabriu no fim do mês de junho. Situa-se no Palácio Gorjão, deu-se uma súmula da sua história, vale agora a pena reproduzir uma chamada de atenção sobre o Bombarral, como aqui se pode ler. Área rural diretamente influenciada pela reorganização territorial inerente ao processo de Reconquista Cristã. Em terras próximas daqui houve a presença de ordens militares ou religiosas, como a Ordem de Cister. Região essencialmente agrícola há muitos séculos. É nesse contexto que devemos apreciar o Palácio Gorjão, um doa certificados da fidalguia rural. Não é por acaso que no museu se encontra um conjunto de pedras de armas destas nobres famílias, a dos Henriques, a dos Motas e a dos Gorjões. Durante a Idade Média, entre os séculos V e XV, o brasão de armas era colocado nos elmos e nos escudos como forma de reconhecimento em batalhas ou torneios. Primeiro como identificação pessoal, depois como distinção de família, era conquistado por dedicação à Coroa por feitos ilustres ou por tarefas administrativas. Os brasões eram usados nos pertences pessoais, em edifícios, gravados em pedra.
Início do Século XX, sendo visível a Sul uma habitação, o muro da propriedade e a mata ali existente. A Norte são visíveis o muro e um portão de entrada. Em frente do Palácio é visível a Ermida do Espírito Santo demolida em 1932 para alargamento da estrada.
Frente do Palácio Gorjão (década de 1960)
Pedra de armas dos Henriques e dos Motas. Andou pelo Palácio dos Henriques, esteve depois colocada na antiga Igreja Matriz do Bombarral e, mais tarde, no museu. É do século XVIII.
Exemplos da cerâmica bombarralense

Está patente uma exposição temporária no museu do Bombarral intitulada “Ecos da Cerâmica, produção artística no Bombarral”, poderá ser visitada até 26 de outubro. O móbil da exposição é recuperar e valorizar uma memória fundamental da vila: a sua história na produção cerâmica. Aqui se monstram peças reunidas por colecionadores, celebra-se a interligação entre arte, indústria e comunidade, revisitando um tempo em que o Bombarral se destacou como centro de criatividade, técnica e saber-fazer no panorama da cerâmica nacional. É no decurso da exposição que se dão informações importantes ao visitante:
“O nome Bombarral terá origem no termo medieval Mons Barralis, que significa monte de barro, o que reflete uma característica do território – os solos argilosos, que terão motivado outros topónimos, como Barrocalvo, Barro Lobo, Barreiras. Além do forno romano-lusitano e de olarias mais antigas, nomeadamente no Barrocalvo, existem fornos de tijolo e telha canuda ou mourisca no Salgueiro. Em 1920, o concelho do Bombarral noticiava a entrada em funcionamento de uma fábrica no Bombarral, destinada à produção de tijolo e telha Marselha. A Cerâmica Bombarralense (1944-1954) ganhou substancial relevo a nível local. Durante a segunda metade do século XX, laboraram as empresas Olaria dos Matinhos, Ceramarte, Bomcer.
A Cerâmica Bombarralense teve entre os seus acionistas dois artistas de renome, Júlio Pomar e Vasco Pereira da Conceição. A fábrica produzia louça doméstica, faiança artística, azulejos de vários estilos e louças comuns e sanitárias. Aqui se acolheram nomes importantes das artes e da cerâmica como Júlio Pomar, Luís Ferreira da Silva, Margarida Tengarrinha, Alice Jorge, Maria Barreira e Vasco Pereira da Conceição.”

Pratos fabricados por Júlio Pomar
Reprodução de painel cerâmico de Júlio Pomar, 1950. É um painel de uma das paredes do Botequim do Lago, no Campo Grande, em Lisboa. Foi aplicado em 1950, aquando da restruturação da zona segundo um projeto do arquiteto Keil do Amaral. O painel foi a primeira experiência de Júlio Pomar com azulejos, produzido na Cerâmica Bombarralense
Mulheres na lota, Júlio Pomar, 1952, linogravura, empréstimo de Alexandre Pomar
Nazarena por Maria Barreira, 1968

Maria Barreira foi bolseira da Fundação Gulbenkian em Paris, marcou presença nas várias Exposições Gerais de Artes Plásticas, como artista e organizadora. Realizou desenho, ilustração, cerâmica e medalhística, mas foi a escultura que lhe conferiu maior notoriedade.
Busto de Júlio César Machado, por Cesare Sighinolfi

Estamos agora na última das salas, a Sala Palavras, aqui se homenageiam dois escritores ligados ao Bombarral, Anrique da Mota (cerca de 1470 - cerca de 1545) e Júlio César Machado (1835-1890), notabilizado pela sua paixão pelo teatro. A organização museológica e museográfica da sala propõe um encontro com dois tempos e dois estilos, revelando como a escrita, nas suas várias formas, reflete, não só a individualidade dos autores, mas também o espírito do tempo e a identidade de um território.
No edifício requalificado temos aqui a entrada do belo museu do Bombarral, numa das pontas de uma praça desafogada onde se ergue a Câmara Municipal. Foi uma visita inesquecível, não hesito em recomendá-la a todas e todos.
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Nota do editor

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