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domingo, 25 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28462: Documentos (70): "Relatório Periódico da Acção Psicológica n° 2: período 01 a 29Fev64; um exemplo, amadorístico, de "fazer psico", ainda do tempo do brig Louro de Sousa, com-chefe






Legenda: " A África é nossa amiga. A família e os amigos abraçam a gente do mato que estva enganada e não vivia na tabanca há muito tempo".



Guiné > c. 1965 > Estamos a reproduzir os postais de propaganda das NT, dirigidas ao IN e à População. Fazem parte de uma colecção do Joaquim Sequeira (1940-2024), ex-1º cabo canalizador, BENG 447 (Brá, 1965/67), carinhosamente tratado por "Sintra" (ele morava no Mucifal, concelho de Sintra, e era assíduo frequentador da Magnífica Tabanca da Linha).

Trata-se de uma sequência de banda desenhada, sob a forma de um folheto desdobrável com uma meia dúzia de postais, impressos de um lado e do outro. Ccmeça com uma imagem do mapa da Guiné ("Guiné Portuguesa, Guiné Feliz"). À direita está escrito, esferográfica azul: "Do Sintra, 8/65".

Estes postais de propaganda têm vindo a ilustrar os últimos da série "Documentos" dedicados à "ação psicossocial" das NT no CTIG (*).

No primeiro postal mostra-se um grupo de "homens do mato" (nunca "guerrilheiros"), feridos, esfomeados, esfarrapados, desmoralizados. Os combatentes do PAIGC nunca são tratados como tal, mas simplesmente como "homens do mato" (leia-se: bandidos, foragidos, indivíduos que estão fora da lei e da ordem).

Aliás, no nosso tempo, "ir no mato" era, no falar das gentes da Guiné ( a começar pelos soldados do recrutamento local), juntar-se à guerrilha, fugir das zonas sob administração portuguesa (civil e militar).

Portugal, de resto, nunca reconheceu o PAIGC como inimigo, no sentido militar e legal do termo, nem a luta contra o "terrorismo" (ou a "subversão) como uma situação de guerra, face à Convenção de Genebra.

O título do primeiro postal é : "No mato, há doença, fome e morte", A legenda, por sua vez, acrescenta o seguinte: "O Chefe do Grupo do mato julga que vai morrer. Foi gravemente ferido". Deduz-se que são os sobreviventes de uma ação ofensiva das NT.

No 2º postal vemos o mesmo grupo de "homens do mato", desalços, vestiados apenas de tanga ou calções (!), a entregar-se às autoridades militares portuguesas da zona.

Depois do chefe do mato ter ido falar com o "homem grande da tabanca" (o régulo, que veste à maneira fula, o que está longe de ser inocente, já que os fulas eram os nossos grandes aliados), o homem grande intercede por eles junto da tropa. Legenda: "O Homem Grande diz à tropa que estes homens foram enganados, estão arrependidos e fartos da guerra".

No 3º postal, vemos os "homens do mato, arrependidos" serem bem tratados pelas autoridades portuguesas: (i) a começar pelos enfermeiros da tropa que cuidam dos seus ferimentos, (ii) bebem referigerantes com os nossos soldados do recrutamento local; (iii) recebem alimentos (pão, arroz, conservas) da tropa.

No 4º postal, vemos uma tabanca ou aquartelament com tabanca ao lado, sob a bandeira portuguesa- Legenda: 

"A África é nossa amiga. A família e os amigos abraçam a gente do mato que estava enganada e não vivia na tabanca há muito tempo".  

Julgamos haver alguma ingenuidade e sobretudo desconhecimento do território por parte do ilustrador gráfico. Por outro lado, a legenda "A África é nossa amiga" pode parecer um "remake" de um célere slogan de 1961, "Angola é nossa", ou então um "lapsus linguae"... 

Para um cartaz dirigido aos guineenses, fazia mais sentido dizer "A Guiné é nossa amiga"...Que a África, essa, ou pelo menos a OUA (Organização de Unidade Africana), éramos cada vez mais hostilll

Apresenta-se a seguir um excerto de um dos primeiros relatórios periódicos de acção psicossocial. Data do tempo do tempo brig Louro dos Santos. É contemporâneo da Op Tridente. O mínimo que se pode dizer, é  que um exemplo ainda muito amadorístico da acção das NT... Ainda não naão a Rep ACAP (Assuntos Civis e Ação Psicológica). O Exercito aí da estava a aprender a "fazer a psico" e contava com escassos recursos, de médicos a professores, de engenheiros a antropólogos...  Mas, enfim, cabe sobretudo aos leitores comentar.

Todavia, ficamos a saber algumas das coisas que se passavam no terreno, no mês de fevereiro de 1964: 

  • sete batalhões era o essencial do dispositivo das NT;
  • "ainda a guerra era uma criança" (embora já estivesse a decorrer a Op Tridente. jan / mar 64);
  • Guileje acabava de ser ocupado pelas NT (jan64), tal como Cumbijã e Ganturé;
  • ainda se cultivava mancarra (na zona leste), a "semente do diabo" (como lhe chamavam os fulas), obrigados a cultivá-la para fazer patacáo e pagar o imposto de palhota:
  • as minas e armadilhas não eram apenmas um instrumento de terror, mas também de propaganda;
  • continuava, por parte do PAIGC, a prática da intimicao e do assassinato (dos régulos fiéis as NT);
  • cortar orelhas aos que colaboravam com as NT também fazia parte da "justiça revolucionária";
  • o IN que deixa panfletos nos trilhos dirigidos aos "Caros inimigos" (sic);
  • de um lado e do outro, sabe-se que ganha a guerra quem tiver o apoio das populações;
  • percebe-se que a administração civil colapsou com o início da guerra;
  • ainda era difícil, a nível de comando, operacionalziar o cocneito de "propaganda";
  • referida a importância da rádio e dos "jornais de parede";
  • ainda não havia uma aposta forte na assisténcia sanitária (limitada na prática à distribuição da "milagrosa pastilha LM", ou seja, a "aspirina" do Laboratório Militar que funcionava como panaceia (cura para os males);
  • a assistência económica ainda era  "miserável" (um arremedo de "caridade") (se a compararmos com o tempo do gen Spínola);
  • quanto às NT, e ao fim de  um ano, "(continuavam) a dar provas da sua grande capacidade de adaptação e resistência fisica".

Foto (e legenda): © Joaquim Sequeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI]


"Relatório Periódico da Acção Psicológica n° 2: período 01 a 29Fev64
 

(Excertos de: CECA, 2014, pp. 271/278)


Acção Psicológica


Para se dar uma noção do trabalho de acção psicológica ao nível das unidades e QG/CTIG apresenta-se como exemplo:

"Relatório Periódico da Acção Psicológica n° 2: período 01 a 29Fev64

Este relatório foi elaborado com base nos relatórios enviados pelas seguintes Unidades:

  • BCaç 506 (*), 
  • BCaç 507 (*), 
  • BCaç 512 (*), 
  • BCaç 513 (*), 
  • BCaç 599 (*), 
  • BCaç 600 (*)
  • e BCaç 619.
(*) Apenas composto de Comando e CCS, não dispondo de subunidades operacionais orgânicas.
 


Dispositivo das NT em 1 de julho de 1964. Fonte: adapt de CECA (2013)



Guiné > Região de Tombali _ Qiuitafine > CCAÇ 726  (Guileje, out 1964/ julho de 1966)> Cambança de um rio... Foto: Arquivo pessoal de Alberto Pires, o "Teco" (Adapt de CECA, 2014.  Restituição e colorização digital, com recurso a IA/ChatGPT)



1. Generalidades

a. Segundo se constata de alguns relatórios recebidos, a acção psicossocial desenvolvida, apesar de todas as dificuldades, tem dado resultados apreciáveis cujos frutos já se colhem, em alguns sectores;

b. No aspecto social nota-se que, em certas regiões do Gabú, a campanha da mancarra aumentou os proventos da população, tornando menos necessária a acção dos nossos elementos. Inversamente, nas regiões que confinam com aquelas onde o ln exerce a sua actividade, a miséria tem aumentado e com ela a necessidade de intervenção das NT;

c. No campo psicológico, além do mencionado no relatório anterior, a acção sobre as populações tem sido alargada, nomeadamente na região de Guileje, ocupada no princípio do mês;

d. A acção psicológica sobre o ln continuou a ser feita principalmente, através da actividade operacional. É de admitir que a dificuldade que o adversário tem encontrado em aliciar determinadas populações e a fidelidade incontestável de outras lhe crie problemas de natureza psicológica.

2. Acção Psicológica conduzida pelo adversário

a. A acção psicológica desenvolvida pelo ln continuou tendo como objectivo principal a obtenção do apoio da população a qual procura indispor contra as NT.

Admite-se que a colocação de minas e engenhos explosivos nas e stradas que passam próximo das povoações, tenha, também, por fim levar-nos a supor que foram essas populações que os implantaram e sobre elas exerçamos acções punitivas, as quais eles exploram a seu favor;

b. Enviou duas mensagens (assinadas por Nicolau Correia) ao Régulo Malan Soncó de Missirá, cujo conteúdo é "um convite a retirar as tropas de Missirá e um ajuste de contas futuras, nem que seja daqui a 10 anos".

Na região de Ingoré, cortou uma orelha a quatro nativos do Sedengal como represália por terem colaborado connosco na região de Bula-Binar. 

Continua a amedrontar as populações tendo, entre outras acções, morto o chefe da tabanca de Pete (15451205 Hl) e espancado os filhos por terem também colaborado com as NT.

No Senegal, o ln tem impedido o regresso de numerosos manjacos a Teixeira Pinto, dizendo-lhes que a tropa os vai matar.

Sobre a actividade psicológica ln considera-se de interesse transcrever a seguinte passagem dum relatório duma Unidade:

" ao que se julga o ln está a enveredar algo frequentemente pelo campo de intimidação ou até da violência. 

Será um mau caminho, porquanto o nativo vítima terá dois termos de comparação - a acção das NT e as suas possibilidades e a acção do ln com a sua nomadização, doença, pilhagem e promiscuidade - entre os quais o esclarecido e bem orientado não terá dúvidas em escolher. 

Admite-se, como conclusão, que a acção psicológica conduzida pelo adversário sobre as populações nativas não está em campo de progressão. Antes, sim, de regressão. A mentira, de que com frequência lança mão, acaba por vir ao de cima e só nos pode vir a beneficiar, à medida que vai ficando patente";

c. A acção psicológica que o ln por vezes ensaia sobre as NT não tem obtido qualquer resultado. 

Durante o período a que este relatório se refere foi encontrado um panfleto ln na região de Missirá, no qual nos manifestam o seu desejo de combater e nos convidam a regressar à Metrópole.  Como nota curiosa salienta-se o facto de nos tratarem por "Caros Inimigos".

3. Acção Psicológica conduzida por órgãos estranhos à Unidade

Duma maneira geral, os relatórios enviados das Unidades não  contém ou contém muito poucas informações acerca destas actividades.

Reconhecem as melhores ou piores relações existentes entre as diferentes autoridades e as variações que as mesmas vão sofrendo, conforme a evolução dos acontecimentos se verifica ou não de modo a satisfazer os seus pontos de vista. 

Reconhece-se a vantagem de existir um plano de conjunto no qual todos se integrariam o que, além do mais, permitiria tirar maior rendimento dos meios existentes.

4. Acção Psicológica conduzida pelas Unidades

a. A acção psicológica desenvolvida sobre as populações teve os seus aspectos mais relevantes pelo que respeita à ocupação de diferentes localidades ao longo da fronteira sul. 

Do relatório do Batalhão respectivo transcreve-se o seguinte:

"A ocupação de Guileje, Cumbijã e Ganturé moralizou extraordinariamente as populações. Antes de efectuada esta ocupação, teve-se o sentimento de que as populações, por influência da propaganda do ln, punham algumas reservas sobre a possibilidade de um dia voltarem às suas terras. Mais saliente no régulo Abibo, de Gadamael, este sentimento, agora felizmente desvanecido."

- O mesmo comando considera que os êxitos obtidos só ficarão completos quando o régulo Abibo lograr atrair à tabanca a população que está dispersa ou quando se verificar a ocupação de outras localidades consideradas de importância.

- Pelas Unidades competentes foi exercida uma determinada acção psicológica sobre os elementos da população que, tendo sido raptados pelo ln e levados para o Como, agora
regressaram às suas tabancas por acção das NT.

- Fez-se uma reunião com os grandes de Missirá e de outras tabancas, tendo-se salientado as intenções da tropa e chamado a atenção para as diferenças de procedimento entre os terroristas e as NT.

- As NT têm visitado frequentemente a população do Geba, começando a verificar-se modificação na sua maneira de  ser. Primeiramente apresentavam-se ressentidos mas com a
assiduidade da nossa presença tornaram-se mais comunicativos e até já se realizaram jogos de futebol entre equipas de militares e civis. 

(1) Propaganda

Além do que tem sido dito nos relatórios anteriores, pouco mais se poderá acrescentar. Julga-se, no entanto, que, com o fim de unificar o conceito de propaganda existente
nas diferentes Unidades não será descabido transcrever a seguinte definição de tão discutido termo:

" Propaganda é qualquer informação, ideia, doutrina ou apelo especial, disseminado com o fim de influenciar opiniões, emoções, atitudes e comportamento dum determinado grupo cujas reacções devem beneficiar os promotores directa ou indirectamente".

(2) Contrapropaganda

Acerca deste parágrafo, por se considerar de interesse transcreve-se o que consta dum dos relatórios recebidos:

" Nunca se esgota o tema da cooperação entre a acção benéfica das NT e a violência, a mentira e o não cumprimento do prometido por parte do adversário. Este campo é melindroso e tem de ser trilhado com tacto e não a esmo.

Devem estabelecer-se ideias fixas esclarecidas sobre o que deve dizer-se ao nativo nas "conversas" em que tal ponto se debate. 

As atitudes que vêm sendo frequentes, da apresentação de cumprimentos pelos chefes e homens grandes, às autoridades militares são sempre aproveitados para tal doutrinação".

(3) As informações fornecidas não impedem que tivessem circulado alguns boatos, principalmente relacionados com as operações em curso. 

Igualmente é de referenciar o aparecimento de um boato que, já há bastante tempo circula e que diz respeito ao tempo de permanência das Unidades nas Províncias Ultramarinas.

b. A acção psicológica sobre o ln fez-se sentir principalmente na região de Como, Caiar e Catunco onde se têm realizado importantes acções militares.

As operações realizadas ao longo da fronteira sul devem também ter afectado o ln que, por via delas, vê dificultadas as suas possibilidades de movimento e a sua acção de propaganda junto das respectivas populações.

c. A acção psicológica sobre as NT tem-se processado normalmente sendo de admitir que tem tido boa aceitação o programa de rádio diariamente emitido.

 Esta actividade tem tido apenas um carácter recreativo e são muito frequentes os pedidos de músicas preferidas, as quais, dentro das possibilidades, tem-se procurado satisfazer.

- Algumas Unidades têm publicado jornais de parede o que, segundo afirmam, também tem tido bom acolhimento por parte das praças e se confirma ser um bom meio para aumentar os seus conhecimentos e ajudar a formular as suas opiniões.

5. Acção Social


a. Enviadas pela Cruz Vermelha Portuguesa foram recebidas  apreciáveis quantidades de medicamentos, vestuários e leite condensado que serão brevemente enviadas para os Batalhões a fim de que possam contemplar os elementos que julgarem mais merecedores.

b. A acção social tem-se mantido sem alteração nos diferentes campos de acção.

(1) Assistência sanitária

Durante o período a que este relatório se refere foi possível obter os seguintes dados estatísticos referentes a este tipo de assistência:



A assistência sanitária administrada em 3 dezenas de localidades , tantas quantas onde havia aquartelamentos das NT no início de 1964  (Fonte: Adapt de CECA, 2014)



Mais uma vez as Unidades são unânimes em afirmar que este tipo de assistência é o que tem dado melhores resultados. A testemunhar esta opinião, num dos relatórios pode ler-se:


" De todas as actividades sociais, continua a ser a assistência sanitária a que mais parece sensibilizar as populações, até porque o estado de doença é o que, psiquicamente, mais valoriza a humanitária tarefa de quem sabe tratar de igual modo corpos e almas. 

Daí o papel importantíssimo desenvolvido pelos médicos militares, a merecer as maiores atenções até para além do âmbito estritamente militar".

(2) Assistência religiosa

- A nota mais saliente da actividade religiosa desenvolvida durante o período é a que se refere à celebração da missa em Geba, por um capelão militar, à qual assistiu elevado número de pessoas.

- Este período foi também caracterizado pelas festas do Ramadão que permitiu a vários elementos qualificados das NT assistirem, como convidados, a alguns dos seus actos
de culto religioso ou manifestações festivas.

O respeito pelos seus usos e costumes deve ser objecto de cuidada doutrinação dentro das NT, nomeadamente entre os menos cultos.

(3) Assistência educativa

- Embora com as dificuldades mencionadas no relatório anterior têm continuado a funcionar as escolas mantidas no âmbito da Acção Psicossocial.

- Extraiu-se dum relatório recebido a seguinte passagem julgada de interesse:

" Num domingo, foi feita uma visita à escola de Jugudul onde se sabia que os alunos estavam a jogar à bola. Com  
o pretexto de ver a escola, provocou-se uma reunião com
os alunos que, na quase totalidade, estavam presentes.

Um aluno da 4ª classe que é auxiliar do professor, foi buscar giz e pediu para darmos aula. Perguntou-se o que queriam saber e aproveitou-se a oportunidade para, ao mesmo tempo que se faziam perguntas se explicarem as proporções entre as superfícies dos territórios ultramarinos e da metrópole, comparando com as populações que
habitam esses territórios e realçando o valor do conjunto como unidade nacional. Isto pareceu bem compreendido.

Foi evidente a diferença entre a expressão de estranheza e receio revelado pelos alunos à nossa chegada e o ar confiante que mostraram no fim da visita".

- Em várias localidades tem-se realizado competições desportivas entre equipas mistas de militares e civis, o que tem servido de pretexto para estreitamento das relações
entre uns e outros.

(4) Assistência económica

Entre outras actividades relacionadas com este tipo de assistência destacam-se as seguintes:

- protecção a nativos nos trabalhos agrícolas nas áreas ameaçadas pelo ln;

- facilitados muitos transportes de colheitas e de haveres de habitantes deslocados por acção do terrorismo;

- auxílios diversos para funerais;

- distribuição em quase todos os quartéis, de sobras de alimentação;

- ofertas de géneros e por vezes de refeições a elementos da população necessitados;

- dádiva de determinada quantia a dois régulos que se encontravam em precária situação económica;

- distribuição de tabaco e cola a caçadores fulas;

- retribuição de ofertas feitas por nativos (por exemplo: uma saca de farinha a uma padeira que ofereceu galinhas);

- distribuição de leite e açúcar a algumas parturientes e de guloseimas a crianças:

- facilidades para construção de moranças em diversas localidades;

- facilitado o aproveitamento da mão de obra, bem remunerada;

- compra por justo preço de artigos vendidos pelos nativos para alimentação das tropas.


6. Conclusões

a. A população continua aceitando bem o contacto com as NT.

As populações vivendo em zonas que confinam com aquelas onde o ln actua, sentem receio pelo seu futuro e pedem a protecção da tropa.

b. O estado psicológico das NT mantém-se estacionário, continuando a dar provas da sua grande capacidade de adaptação e resistência fisica.

c. Apesar da considerável endoutrinação do ln é de admitir que, psicologicamente, a sua situação tivesse sido abalada por virtude das operações efectuadas pelas NT.

d. Presume-se que o ln, executando acções em sectores onde tem estado relativamente mais calmo, pretende levantar o seu nível psicológico [...]."

Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 271/278.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
 
_________________


Vd. dois últimos postes anteriores:

17 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28443: Documentos (68): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (II)

16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28440: Documentos (67): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (I)

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27366: O início da guerra (Armando Fonseca, ex-sold cond, Pel Rec Fox 42, mai 62 / jul 64) - VI (e última) Parte: Depois de Sangonhá, Cacoca (em 24 de junho de 1964)...A 2 de julho, emboscada em Cumbijã com duas minas, uma autiometralhadora e um granadeiro destruídos, 2 mortos, 3 feridos graves... O fim da comissão.



 ´
Guiné > Zona Sul >  Região de Tombali > Setor de Cacine > Cacoca > CART 1692 (1968/69) > " Um dos nossos condutores, o António Andrade Júnior, que, por opção, 'viviam' em Cameconde. O outro era o Alcides Pereira de Lima (Unimog 404), de quem não sabemos nada".

A CART 640, a que se refere o monumento, foi mobilizada pelo RAP 2, partiu para o TO da Guiné em 25/2/1964 e regressou em 27/1/66. Passou por Bissau, Farim, Sangonha, Cacoca e Bissau. Comandante(s): Cap art Carlos Alberto Matos Gueifão; e cap art José Eduardo Martinho Garcia Leandro.

A ocupação de Cacoca e o início da instalação das NT datam de 24/6/1964. 

Foto (e legenda): © António J. Pereira da Costa (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legtendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné > Zona Sul > Região de Tombali > Sangonhá, a sul de Gadamael-Porto > c. 1967/68 > Vista aérea do destacamento, "uma espécie de fortim do faroeste", com um heliporto, uma pista de aviação, barracões e três poilões...  Um sítio desolador...

Na altura estava a chegar uma coluna militar [lado esquerdo]. Foto, provavelmente tirada de uma aeronave DO 27, de autor desconhecido. Proveniência: Álbum fotográfico Guiledje Virtual. Cortesia do nosso saudoso amigo Pepito (1949-2014), cofundador e líder da AD - Acção para o Desenvolvimento (Bissau) até à data da sua morte (em Lisboa). Foto, entretanto, modificada por LG.


Foto (e legenda): © Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados (2007)  




Guiné > Mapa da província >  Escala 1/500 mil (1961) > Detalhe: Posição relativa de Sangonhá e Cacoca, junto à fronteira com a Guiné-Conacri, a sudeste. Estes dois destacamentos e tabancas foram abandonados pela CCAÇ 1621 em 29/7/1968

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)


1. O Armando Fonserca, de alcunha o "Alenquer", ex-soldado cond cav, Pel Rec Fox 42 (1962/64), foi dos primeiros militares de cavalaria a chegar à Guiné, quando "oficialmente" ainda não havia guerra. 

Para a nossa historiografia militar, para a CECA - Comissão de Estudo das Campanhas de África, e para a "hagiografia" do PAIGC, a guerra só começa... em 23/1/1963, em Tite; mas não para nós, aqui no blogue,  em 1961 e 1962 já havia  guerra, uma guerra surda e suja, de um lado e do outro, se bem que não haja registo de mortos, entre as NT, nos anos de 1961 e 1962, segundo a CECA. O primeiro comandante do PAIGC a morrer, apanahdo numa "rusga" militar, foi o Vitorino Costa, em meados de 1962.

O Armandino Fonseca teve uma comissão de serviço relativamente tranquila desde que chegou a Bissau, em 28/5/1962, até setembro de 1963...

Permaneceu em Bissau mais de um ano até finais de agosto de 1963, fazendo segurança à cidade e ao aeroporto em Bissalanca. No início de setembro de 1963 até jullho de 1964, vai percorrendo uma boa parte da Guiné. E conhecendo a guerra, pura e dura. Descobre o inimigo mais temido da sua autometralhadora Fox, a mina anticarro.

Ajuda a ocupar e a construir os primeiros aquartelamentos na zona de fronteira, a sudeste, importante corredor de infiltração do PAIGC: Guileje, Ganturé, Sangonhá, Cacoca...

A sua narrativa acaba aqui (*), Já não nos dá pormenores sobre a ocupação e o início da construção do aquartelamento de Cacoca, em 24 de junho de 1964. Em 2/7/1964, o Pel Rec Fox 42, praticamente na véspera do seu regresso à Metrópole, sofre o seu mais duro revés, no Cumbijã (ação IN também não referida no livro da CECA, 2014, na parte respeitante a atividade operacional do ano de 1964).

Eis aqui o relato do "Alenquer" (que vive na Amadora, desde 1965, mas de quem não temos tido notícias mais recentemente):

 
(..) "Seguiram-se os destacamentos de Sangonhá e Cacoca e até aqui embora tenham havido várias emboscadas, e tenham sido descobertas várias minas anticarro, do meu pelotão só eu tinha sido ferido na cara por duas vezes, sempre coisa de pouca gravidade. 

No dia 2 de julho de 1964 foi montada pelo inimigo uma emboscada, onde rebentaram duas minas destruindo por completo uma autometralhadora e um granadeiro, matando dois camaradas nossos e ferindo com muita gravidade mais três, os quais levaram algum tempo para reconstruir os órgãos afectados e ainda hoje sofrem dessas maleitas.

A partir desta data nós ficamos totalmente desanimados e já não fizemos mais nada, até porque já tínhamos ultrapassado o tempo previsto para a nossa comissão. 

Regressámos então para Bissau numa lancha da marinha a fim de aguardar o regresso que teve lugar no dia 21 no Paquete Índia, chegando a Lisboa a 30 de julho.

À chegada esperavam-me os meus familiares que me receberam com toda a alegria e eu mais alegre estava porque em determinadas alturas pensava que já não regressava para os tornar a ver.

Nesse dia não pude seguir com eles visto que ainda tive que ir a Castelo Branco fazer o espólio dos fardamentos que trazia e receber as guias que permitiam passar à vida civil e só no dia 30 regressei.

Nesse dia tinha então todos os meus familiares e amigos à minha espera e começou aí uma nova vida". (...)



Guiné > Bissau > Cemitério Municipal > Talhão dos Combatentes Portugueses > s/d > 

Fonte: CECA (2001)


Os dois camaradas nossos, do Pel Rec Fox 42, terão sido os dois primeiros militares  de unidades de específicias de cavalaria (EREC / Pel Rec),  a morrer no CTIG, em 2/7/1964, no Cumbijã. 

Os seus corpos tiveram destinos diferentes, devido provavelmenmte à condição socioeconómica das respetivas famílias:

  • o 1º cabo AM Panhard Vitorino António Costa, natural de Monchique, ficou inumado no cemitério de Bissau, no talhão dos antigos combatentes portugueses, campa nº 956,
  • o sold AM Panhard José Carlos Firme Pires, natural de Lisboa, foi inumado no cemitério de Dois Portos, Torres Vedras.

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2001), pp. 65/66.


No final de 1964, o CTIG dispunha já de um total estimado de 15150 militares ( incluindo tropas do recrutamento local):  eram 9650 em 1963 e serão  já 17100 em 1965. O número de mortos já ascendiam a 129 (em 1964) (contra 51 no ano anterior).

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015), pp. 359.



Guiné > Regão de Tombali > c. agosto de 1968 > Sangonhá destruída. Aqui está a prova do que restou de Sangonhá. Esta foto tem Direitos de Autor. Foi tirada com uma CANON

Foto (e legenda): © Mário Gspar (2015). Todos os direitos reservados (Edição:: L.G.).






Guiné > Carta da província >  Escala 1/500 mil (1961) > Detalhe: Posição relativa de Sangonhá,  Cacoca e Cameconde, junto à fronteira com a Guiné-Conacri, a sudeste.  

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27355: O início da guerra (Armando Fonseca, ex-sold cond, Pel Rec Fox 42, mai 62 / jul 64) - Parte V: Depois de Ganturé, Sangonhá (maio / junho de 1964)

 

 Guiné > Região de Tombali > Sangonhá  > CCAÇ 1477 (1965/67) > O José Parente Dacosta, 1º cabo cripto, CCAÇ 1477 (Sangonha e Guileje, 1965/67), junto ao monumento da CART 640 ("Quartel ocupado e construído pela CART 640, desde 21/5/1964. [CART] 640 / RAP2".

Há poucas fotos de Sangonhá, Cacoca, Cameconde, quartéis que ficavam na linha fronteiriça e que irão ser abandonados, em 1968.

Foto (e legendas): © José Parente Dacosta (2017). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Guiné > Zona Sul > Região de Tombali > Carta de Cacoca (1960) (Escala 1/ 50 mil) > Posição relativa de Gadamael, Ganturé, Sangonhá, Cacoca, rio Cacine, fronteira com a Guiné-Conacri, parte do Quitafine/Cacine e do Cantanhez  

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025


O início da guerra (Armando Fonseca, ex-sold cond, Pel Rec Fox 42, mai 62 / jul 64)

Parte V - Depois de Ganturé, Sangonhá (mai/junho  64)


Depois de, em Ganturé, existirem as condições mínimas de sobrevivência para a instalação das tropas que aí permaneciam, o Pel Rec Fox 42 juntamente com tropas recém chegadas à Guiné   [CART 640 ] e com um Pelotão de Milícias rumou até Sangonhá a 21 de maio de 1964 [e não março, como por lapso indica o autor ].

Petromax a petróleo
marca Hipólito, modelo 
350
Como de costume segue-se a capinagem, a vedação de arame farpado em volta da tabanca, que seria agora um quartel, a colocação de cavaletes para instalação dos candeeiros a petróleo (petromaxes), a que alguns “valentes” iam dar pressão de ar durante a noite, sempre que necessário.

Também era norma que,  quando chegávamos a um novo local, não se consumia água da que ali existia sem ser certificado de que ela estava em boas condições de utilização, assim, recorria-se sempre ao aquartelamento mais próximo para nos abastecermos desse precioso líquido.

Então no dia 23 de maio de 1964, pela tarde lá vamos nós a Guileje encher os reservatórios de água regressando já ao lusco-fusco, âquela hora em que já não se vê muito bem mas também ainda não é preciso acender faróis.

Assim o IN que decerto nos vigiava não deu pela chegada dos carros da Cavalaria e entenderam ser muito fácil um ataque às tropas recem instaladas para mais que a maior parte tinha as pernas muito brancas,  o que indiciava pouca experiência naquelas andanças e que se tornaria uma tomada do local com a maior das simplicidades.

E, então pelo meio da noite de 23 para 24, qual não é o espanto do sentinela que se encontrava do lado da estrada que ligava a Guiné à Guiné-Conacri, quando vê aparecer um grupo de guerrilheiros pela estrada acima, descontraidamente a aproximar-se da entrada trazendo uma metralhadora e outros armamentos,  parecendo que passeavam. 

Essa sentinela chegou a estar confundido sem saber se devia atacar ou esperar julgando que eles se vinham entregar às nossas forças.

Entretanto quando eles se encontravam a cerca de vinte metros do arame, a sentinela que se encontrava dentro do granadeiro,  reagiu e fez uma rajada que despoletou um ataque feroz, à volta da aquartelamento. 


Parece ser uma metralhadora pesada,
 de calibre 12.7
de origem soviética,
a Degtyarev (DShK) m/938,
com tripé
Havia mais duas metralhadoras iguais à que aquele grupo transportava, cuja foto envio, e várias outras armas mais ligeiras, aquelas "costureirinhas" que quase todos conhecemos.

As nossas tropas reagiram e o tal grupo procurou uma elevação no terreno e instalaram-se para fazer fogo sobre nós, mas como os nossos carros tinham um grande poder de fogo, depressa o anulámos, isto com a ajuda do comandante da milícia, visto que a certa altura devido à proximidade do IN não se sabia muito bem de quem eram os tiros,  se das nossas tropas se do IN. 

Depois de anulado esse grupo cuja maioria ficou lá assim com o respectivo armamento, que se encontra no museu militar, todo o ataque foi sendo anulado e o IN retirou em debandada.

Ao raiar da aurora fomos então fazer o reconhecimento, e do grupo que fora avistado estavam seis mortos, a metralhadora, pistolas-metralhadoras e pistolas e um rolo de corda. 

Depois de examinados os outros locais de onde vieram os piores ataques, restavam montes de invólucros e os vestígios das metralhadoras terem sido arrastadas no final do ataque, pelo que se deduziu que o cordão encontrado seria exactamente para atar ao suporte da metralhadora para que um dos intervenientes recuasse para local seguro e puxasse a metralhadora no final do ataque, caso este corresse mal como foi o caso, só que neste caso não houve tempo para a execução dessa operação.

Passada esta primeira confusão, permanecemos em Sangonhá até 23 de junho  [de 1964 ], continuando a manter as devidas precauções e a segurança das tropas aí instaladas, até que eles atingissem a maturidade para se defenderem a si próprios.

Depois de Sangonhá, seguiu-se Cacoca (...) (**)

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

2. Comentário do editor LG:

Há uma divergència de datas entre o texto acima reproduzido e a versão da CECA.  O Armando Fonseca queria dizer "maio" e não "março", aliás de acordo com o final  do poste anterior: "Permanecemos em Ganturé até 20 de maio. No dia seguinte fomos para Sangonhá (...) (**).

Excerto do livro da CECA (2014, pág. 250);

(...) Em 10Mai, forças das CArt 494 e 495 e Pel Rec Fox 42, com auxiliares Fulas, na região de Bomane, avistaram um grupo ln que e deslocava em direcção à fronteira. Montada uma emboscada e aberto fogo quando os guerrilheiros estavam a 5 metros, as nossas tropas provocaram 4 mortos ao ln e capturaram 1 prisioneiro e material diversificado.

No dia 21, conforme planeamento para controlar a fronteira sul, realizou-se a operação "Jacaré" com vista á ocupação de Sangonhá, em zona de intensa actividade inimiga.

Em 24, um grupo ln atacou, de todas as direcções, o estacionamento da CArt 494    [ou CART 640 ?, a CART 494, comandada pelo cap art Coutinho e Lima, estava em Gadamael, mas participou na Op Jacaré ] em Sangonhá, causando dois feridos; a reacção pronta das NT causou 5 mortos, 1 prisioneiro e ainda baixas não estimadas; capturada 1 metralhadora pesada e levantada 1 mina A/C "TM-46" na estrada para Gadamael Porto, além de numeroso material de guerra. (...)

Fonte:  Excerto de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014),  pág. 250.

Observ -  Sabemos, pela ficha de unidade, que a CART 640:

(i) chegou a Bissau em 3 de março de 1964;

(ii) após um curto período de permanência em Bissau,  onde fez a IAO, destacou dois pelotões
para a realização de operações na região de Cuntima, a partir de 24Mar64, em
reforço do BCaç 512;

(iii) em 08Abr64, foi deslocada para Farim para actuação em operações nas regiões de
Jumbembém, Cuntima e Jabicó, em reforço temporário do BCaç 512 e depois do
BCav 490; 

(iv) em 11Mai64, foi substituída pela CCav 487 e recolheu a Bissau até 20Mai64;

(v) em 21Mai64, um pelotão tomou parte na Op Jacaré para ocupação e instalação em Sangonhá, para onde a subunidade se deslocou, por fracções, entre 25Mai e 22Jun64, tendo repelido um forte ataque desencadeado em 24Mai64 e causado pesadas baixas ao inimigo;

(vi)  em 25Jun64, na sequência da Op Veloz, ocupou também com dois pelotões, a localidade de Cacoca, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 513 e depois do BCaç 1861.

(vii) pelo armamento e munições capturadas e baixas causadas ao inimigo, destaca-
-se a Op Gira  na região de Bantael Silá e um golpe de mão efectuado à tabanca de Mareia em 24Ju165, entre outras;

(viii) em 08 e 14Jan66, foi rendida no subsector de Sangonhá, por troca, pela CCaç 1477 (...)

____________

Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de 22 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18125: Tabanca Grande (455): José Parente Dacosta, ou 'José Jacinto', ex-1º cabo cripto, CCAÇ 1477 (Sangonha e Guileje, 1965/67)... Natural da Covilhã, vive em Dijon, França... Passa a ser o nosso grã-tabanqueiro nº 764.


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27334: O início da guerra (Armando Fonseca, ex-sold cond, Pel Rec Fox 42, mai 62 / jul 64) - Parte IV: Depois de Guileje, Ganturé (fev/mai 1964)





Guiné > Zona Sul > Região de Tombali > Pel Rec Fox 42 > 1964 > Ganturé


Fotos (e legendas): © Armando Fonseca (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Sul > Região de Tombali > Carta de Cacoca (1960) (Escala 1/ 50 mil) > Posição relativa de Gadamael, Ganturé, Sangonhá, Cacoca, rio Cacine, fornteira com a Guiné-Conacri, parte do Quitafine/Cacine e do Cantanhez (e as míticas matas de Camaiucuntane, Catabá, Catonco, Casséfunda)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025



O início da guerra (Armando Fonseca, ex-sold cond, Pel Rec Fox 42, mai 62 / jul 64)

Parte IV - Depois de Guileje, Ganturé (fev/mai 64)




Armando Fonseca,
o "Alenquer", ex-sold cond,
Pel Rec Fox 42 (1962/64)
Durante a permanência do meu pelotão em Guileje (*), enquanto ia avançando a construção do aquartelamento, nós deslocávamo-nos com frequência a Aldeia Formosa, Buba, Bedanda, etc.

Nessas deslocações sofríamos algumas emboscadas e, como reagíamos de imediato, porque tínhamos um forte poder de fogo, depressa eram aniquiladas.

Lembro-me,  de uma das vezes em que fomos a Bedanda, termos sofrido uma emboscada e na sequência desse ataque, em certa altura ver um arame a ir pelo ar, saindo debaixo da minha autometralhadora. Esse arame não era nada mais nada menos do que o comando de uma mina que,  depois de levantada,  tinha o bonito peso de sete quilos.

Pelo que se deduziu, o arame foi puxado no exacto momento em que uma das rodas o pisava e por isso se partiu e a mina não explodiu. Depois de bem examinado o local, ainda havia mais outra mina idêntica,  uns metros mais à frente, mas que devido à nossa rápida reacção, o IN 
partiu em debandada e não houve tempo de a fazer explodir.

Depois do aquartelamento de Guileje ter condições de alguma segurança para defesa do pelotão que aí se instalou (a CART 495),  nós rumámos para outras paragens.

Em Gadamael Porto encontrava-se uma companhia que se encontrava totalmente isolada por estrada, devido às dezenas de árvores que ocupavam as estradas que comunicavam com essa localidade vindas de Norte. Ali só se chegava de barco ou de helicóptero.

Essa companhia era constantemente flagelada pelos ataques do IN e toda aquela gente vivia em frequente sobressalto, até que foi posta em marcha a Operação “Furão” que tinha por fim pôr transitável a estrada entre Guileje e Gadamael.

Então, a 2 de fevereiro de 1964, lá vamos nós a escoltar os Caçadores e a Engenharia a fim de desobstruir a estrada. Assim: depois de quase um dia, e de várias dezenas de árvores cortadas e retiradas para as bermas da estrada, chegámos a Ganturé que se situa a cerca de três quilómetros de Gadamael Porto.(**)

Ao chegarmos, foram detectados vários vestígios da presença do IN que aí se tinha instalado, porque as tropas que estavam em Gadamael não conseguiam vir até aí sem que sofressem grandes emboscadas que as obrigavam a voltar para trás.(**)

Depois de instalado em Ganturé um perímetro de segurança, o Pelotão de Cavalaria deslocou-se a Gadamael onde foi recebido com pompa e circunstância; havia um grande lanche pà nossa espera com comida e bebida à descrição.

Nesse dia,  eu que nem sou de muitas bebidas, apanhei o maior pifo da minha vida, que nem sei como regressei a Ganturé, nem por onde o carro passou, só sei que acordei no outro dia de manhã debaixo do carro, deitado em cima de um pouco de capim seco que alguma alma caridosa se encarregou de lá colocar.

Durante os próximos dias seguiram-se a montagem do arame farpado à volta do aquartelamento, a escavação de abrigos, a melhoria de habitabilidade das palhotas ali existentes, que eram agora as nossas habitações, e escoltas aos arredores a fim de serem minados os possíveis acessos do IN.

O meu Pelotão deslocava-se a Gadamael várias vezes por dia visto que era lá que funcionava a cozinha e as messes de Sargentos e de Oficiais. Por vezes também nos deslocávamos a Guileje.

Nessas deslocações, nos locais que se julgavam perigosos, fazia-se fogo de reconhecimento e numa dessas vezes aconteceu um caso pouco vulgar:

Ao serem feitas algumas rajadas para reconhecimento, no cruzamento entre Ganturé, Gadamael Porto e Gadamael Fronteira, senti uma leve comichão no pescoço e um liquido viscoso a correr-me pelo peito. Qual não foi o meu espanto ao verificar que já existia uma quantidade de sangue dentro da camisa.

Coloquei um penso e,  ao chegar a Gadamael,  o médico verificou que havia um corte provocado por um objecto metálico. Como não tínhamos ouvido nenhum tiro por parte do IN,  isso criou-nos alguma admiração. No regresso fomos averiguar no local se havia alguns vestígios de algum atirador isolado, mas o que se encontrou foi uma lasca de ferro tirada de um poste dos fios telefónicos que era de ferro, o que nos levou a supor que foi o nosso próprio fogo que me provocou esse ferimento.

Quem havia de dizer que aquela lasca, arrancada pelo fogo das nossas metralhadoras, vinha entrar pela janela de visão do condutor, que é muito limitada em tamanho, cerca de 40 cm x 15cm.

Cerca de um mês depois, quando nos deslocávamos ao encontro de uma coluna que se destinava ao abastecimento do aquartelamento de Guileje vinda de Aldeia Formosa (pois como anteriormente referi, nunca os dois Pelotões de Cavalaria se encontravam do mesmo lado do rio Balana, por causa da possível destruição da ponte), sofremos uma emboscada.  E voltei de novo  a ser ferido por uma rajada que,   batendo na frente da autometralhadora junto da janela, os estilhaços das balas juntamente com tinta vieram.se  espetar na minha cara.

Fiquei com quatro ou cinco ferimentos ligeiros, e o resto eram pedaços de tinta espetados por toda a cara. O alferes,  ao ver a minha cara,  ficou estupefacto, ainda ficou mais preocupado do que eu.

Até esta altura, março de 1964, já com 22 messes de comissão, nunca tínhamos tido ninguém ferido, mas aqui o nosso bom anjo parecia ter-nos abandonado.

Permanecemos em Ganturé até 20 de maio. No dia seguinte fomos para Sangonhá (...)

(Continua)


(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


(**) "Em 19 e 20Fev74, efectuou-se a operação Furão, que consistiu numa  coluna de Aldeia Formosa com destino a Gadamael Porto com apoio aéreo. Foram retirados 50 abatizes; abatido 1 elemento ln e apreendido armamento." 

(...) "A operação Ganturé foi realizada por um Grupo de Combate/CArt 494, Pelotão Rec Fox 42 e um Pelotão da CCaç 555; o Grupo fixou-se, no dia 21Fev64, em Ganturé. O Pel Rec Fox 42 patrulhou até Guileje e regressou a Ganturé. No dia seguinte o Pel Rec Fox e elementos de sapadores, percorreram a estrada Ganturé-Bricama e minaram os caminhos de acesso da fronteira a Gadamael. O Pel/CCaç 555 patrulhou Cabedú Nalú e capturou 3 suspeitos.

Fonte: Excertos de ECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da actividade operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, 2014), pág. 198.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26430: O segredo de... (49): António Medina (1939-2025) - Parte V: Comentários (2014): (I) Vasco Pires / Luís Graça / Manuel Carvalho / António Graça de Abreu / Joaquim Luís Fernandes / Júlio Costa Abreu / Manuel Luís Lomba / António Rosinha / António Medina / César Dias / Carlos Pinheiro / João Lemos



Guiné > Região do Cacheu > Zona Oeste > Sector 01 (Teixeira Pinto) > Jolmete > "Eu com o Dandi Djassi, futuro capitão de milícia, em pose para a foto".

Foto de Manuel Resende.  ex-alf mil, CCaç 2585/BCaç 2884, Jolmete, Pelundo e Teixeira Pinto, 1969/71.

Foto (e legenda): © Manuel Resende (2012). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Major General Hélio Esteves Felgas (1920-2008): duas comissões na Guiné  (Bula, 1963/64; Mansoa, Tite, Bafatá, 1968/69); um dos militares portugueses da sua geração mais condecorados, autor de dezenas de livros e artigos sobre a "luta contra o terrorismo", a guerra ultramarina... Comparou a Guiné ao Vietname. Também considerava que a solução para a Guiné não era militar mas política... Foi, todavia, um crítico de Spínola que lhe terá roubado, entretanto, a ideia dos reordenamentos (aldeias estratégicas) (1). Um oficial intelectualmente brilhante mas controverso, dizem alguns dos seus pares, mais novos. (Foto gentilmente cedida ao nosso blogue pela filha, Dra. Helena Felgas, advogada, que era amiga do prof Jorge Cabral.)
 


1. Na altura, a "partilha do segredo" do António Medina (1939-2025) (*) provocou diversos comentários (**) que merecem ser aqui revistos, incluindo a resposta do autor (que infelizmente acaba de nos deixar no início deste ano). Também o Vasco Paris (1948.2016), camarada da diáspora lusófona já não está entre nós (morreu no Brasil).

Outro camarada da diáspora lusófona é o Júlio Costa Abreu, é contemporâneo dos acontecimentos tal como o Manuel Luís Lomba. Camnaradas de épocas diferentes, mas que conheceram o "chão manjaco": Manuel Carvalho, António Graça de Abreu, Joaquim Luís Fernandes e João Lemos, além do António Medina.


(i) Vasco Pires (1948-2016) (ex-alf mil. cmdt, 23º Pel Art, Gadamael, 1970/72),

"War is hell,"

"You cannot qualify war in harsher terms than I will. War is cruelty, and you cannot refine it; and those who brought war into our country deserve all the curses and maledictions a people can pour out. I know I had no hand in making this war, and I know I will make more sacrifices to-day than any of you to secure peace."


General William Tecumseh Sherman

Parabéns, Camarada, por conseguires exorcizar os teus "fantasmas".

terça-feira, 24 de junho de 2014 às 20:25:00 WEST 

 PS -  (...) Fiz a citação do major-general Sherman, por se tratar de um militar da terra de adoção do camarada Medina.

Citei-o também, por ser o autor da célebre frase "War is hell", repetida até hoje à exaustão.

Transcrevi a frase seguinte, por ter sido feita, por um militar considerado intransigente, num momento de decisão particularmente difícil - a evacuação e incêndio de Atlanta.

Quanto a juízos de valor,nada tenho contra quem os faz, contudo, eu tento não os fazer. (...)


(ii) Luís Graça, editor

Nunca é demais recordar uma das regras básicas do nosso blogue, sem a qual não pode haver "partlha de memórias e de afetos":

(...) "recusa da responsabilidade coletiva (dos portugueses, dos guineenses, dos fulas, dos balantas, etc.), mas também recusa da tentação de julgar (e muito menos de criminalizar) os comportamentos dos combatentes, de um lado e de outro" (...)


(iii) Manuel Carvalho Manuel Carvalho (ex-fur mil armas pesadas inf, CCAÇ 2366 / BCAÇ 2845, Jolmete e Quinhamel, 1968/70)


 
(...) Cerca de quatro anos depois junho de 68 a minha companhia 2366 chegou a Jolmete e aí permanecemos cerca de um ano. O Blog tem fotos minhas desse mesmo barracão que era o edifício com mais qualidade que existia em Jolmete.A pouca população que havia tinha sido recuperada no mato. O régulo atual de Jolmete julgo que é o Cajan Seidi. Por acaso não te lembras do nome desse régulo? (...)


(iv)  António Graça de Abreu ( ex-alf mil, CAOP1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74):

Diz o António Medina:

"Não se trata de nenhuma minha criatividade ou ficção, mas sim a descrição verdadeira de factos sucedidos, contados a mim na altura por quem foi testemunha e participante de uma acção bastante degradante e vergonhosa."

Portanto o António Medina não assistiu aos "fuzilamentos", ouviu contar.

Não digo que não possam ter acontecido, todas as guerras são sujas, tudo é possível, até o assassínio de três majores e um alferes, mais dois guias, gente do meu CAOP 1, em 1970, militares desarmados que iam em negociações de paz, exactamente na estrada do Pelundo para o Jolmete.

Estive sete meses em Teixeira Pinto, em 1972/73, estive no Jolmete em 1972, jamais ouvi esta história. Eu sei que já haviam passado oito anos, mas "fuzilamentos" deste tipo costumam deixar lastro na memória das gentes.

Gostava que estes "fuzilamentos" fossem confirmados por mais pessoas que se possam pronunciar com verdade, com factos, não de ouvir contar. (...)
 

(v) Joaquim Luís Fernandes (ex- alf mil, CCAÇ 3461/BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, 1973, e Depósito de Adidos, Brá, 1974):
 
(...) Eu sou um sentimentalão! E se calhar muito ingénuo.

Ao ler esta narrativa sentia uns arrepios e um desgosto profundo e interrogava-me: Como terá sido possível tão medonho ato por parte de um corpo do exército português, formado e enquadrado por valores éticos,que condenariam em absoluto tal procedimento? Ou havia nesse tempo outra doutrina que eu desconheço?
E porque duvidar da verosimilhança da descrição do camarada António Medina?...

Tudo isto mexe comigo. Porque vivi aí os meus primeiros medos e pisei esse chão incerto e instável,sou remetido para as questões que tantas vezes coloquei a mim próprio: Porquê a antipatia que via espelhada nos rostos dos manjacos e a sua desconfiança e má vontade?

Teria a ver com a memória desses factos, ou eram memórias bem mais antigas, do tempo de Teixeira Pinto ou ainda mais antigas do tempo dos escravos do Cacheu?

Em 1973, em Teixeira Pinto, coabitávamos em paz aparente com a população local,(velhos, mulheres alguns jovens adolescentes e crianças) mas sentia que eramos "personas non gratas". Toleravam-nos enquanto os serviamos Diziam-me os meu soldados: "Eles fazem de nós seus criados".

Também ainda não consegui encaixar bem toda a tramoia dos assassinatos dos três majores, do alferes e dos acompanhantes, em 1970. Apesar de tudo o que li, ficaram-me vários hiatos sem explicação. Agora fico com mais esta dúvida: Será que um acontecimento não tem nada a ver com o outro? A minha intuição diz-me que sim. Pelo menos o local escolhido foi o mesmo. Porquê?... Esta história tem muito por contar! (...)


(vi) Júlio Costa Abreu (ex-1º cabo 'cmd', Grupo Centuriões, Cmds do CTIG, Brá, 1964/66)

(...) Ser ou não ser , e questão ter ou ter razão.

E de quem foi na culpa de terem fuzilado em Banbandinca depois do 25 de Abril tantos soldados Comandos, como por exemplo o Jamanca e muitos outros, ou será que depois de eles terem confiado nos novos donos da Guiné foi a paga que lhes deram? 

Isso também motivo para serem assassinados ?  E guerra realmente nunca foi limpa mas isso e normal.

Julio Abreu (
Crupo de Comandos Centurioes, ex-Guiné Portuguesa)


(vii) Manuel Luís Lomba (ex-fur mil cav, CCAV 703/BCAV 705, Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66):

(...) Terei sido contemporâneo destas circunstância.Chegamos a Bissau (BCav 705) em 26/7/64 e a minha subunidade (CCav 703) foi de intervenção para Bula em Agosto, fez o seu baptismo de fogo em Naga e durante 20 dias reforçou a atividade operacional o BCaç 507, comandado pelo então tenente-coronel Hélio Felgas - que alinhava no mato.

Sem pretender sindicar a memória do camarada António Medina, acho algo de estranho. Aquele comandante exortava-nos à implacabilidade em relação à gente que nos recebesse à bala ou granada, mas incitava-nos ao cuidado de poupar populações. Enfatizava o dilema das mesmas - colocados entre a tropa e os "terroristas". 

Havia bastantes presos, junto à casa da guarda que recebiam o rancho geral e não me apercebi de maus tratos. Isto dois meses após esses eventuais factos. Cercar tabancas e fazer capturas foi o nosso dia a dia nosso de cada dia operacional. 

Aconteceram atos lamentáveis? Com certeza. Mas o fuzilamento dos capturados diferido dois meses suscita melhores provas. Luís Cabral não refere esse evento no seu livro "Crónica da Libertação". E aquele foi o tempo da prisão de importantes paigcistas, como Rafael Barbosa, Fernando Fortes, sem esquecer os que vieram a conspirar e assassinar Amílcar Cabral que não foram eliminados. (...)


(viii) António Rosinha (ex-fur mil, Angola 1961/62, e topógrafoda TECNIL, Guiné-Bissau, 1987/93)

(...) Todos os crimes e fuzilamentos e atrocidades cometidos pelos tugas estão adaptados ao discurso anticolonial conveniente às autoridades revolucionárias que tomaram conta do poder em toda a África.

Isto desde o início da guerra em 1961, sempre se acreditou em tudo o que vinha de Argel, Moscovo e Brazaville e Conacry.

Desde os números arredondados tipo os 50 mártires do Pidjiquiti até aos milhares de turras da UPA lançados ao mar, pelos luxuosos PV2 da FAP, tudo está "provado" e "comprovado".

Só falta descobrir o segredo das valas comuns e da contagem dos respectivos cadáveres. (...)

quinta-feira, 26 de junho de 2014 às 13:51:00 WEST 
 
(ix) António Medina (1939-2025) (ex-fur mil,
OE, CART 527 /  (Teixeira Pinto, Bachile, Calequisse, Cacheu, Pelundo, Jolmete e Caió, 1963/65).

 (...) 
Acabo de tomar conhecimento de comentários feitos por alguns camaradas, mostrando certa relutância em aceitar a narrativa dos factos acontecidos na área de Jolmete. Cada um tem o direito de aceitar ou discordar e até pedir provas mais concretas desde que estejam disponíveis.

Segundo a teoria aplicada pelo comandante do Batalhão de Bula , ver comentaário do camarada Manuel Lomba porque assim reza o seu segundo parágrafo:

” Aquele comandante exortava àimplacabilidade em relação às gentes que nos recebessem à bala  ou granada mas incitava-nos ao cuidado de poupar populações" ,

Ora, o que foi feito em Jolmete ?

Pouparam, sim, a vida das mulheres e crianças. Mas sem condescendência, como vingança, exterminaram os homens da tabanca,considerando o facto que talvez fossem coniventes com os autores da tal emboscada ou assim evitar o perigo de virem a pegar em armas. Foi uma ação bastante secreta como é obvio.

Se enquadra ou não na teoria operacional daquele comandante  ?

Sabemos que casos semelhantes aconteceram não só na Guiné mas também em Angola e Moçambique, em grupos ou a nível individual.

O camarada Manuel Carvalho se refere ter estado em Jolmete em 1968, quatro anos depois , assim como que a pouca população que havia em Jolmete tinha sido recuperada no mato. isto vai ou não ao encontro do que escrevi, da fuga da população que restou e se refugiou no mato?

Estava eu em Bissau como empregado do BNU quando em 1970 se deu o caso dos três majores, um alferes e outros na estrada de Jolmete. Não obstante fossem militares e em guerra, o caso consternou os civis da cidade de Bissau. Teria sido vingança do PAIGC sobre a tropa colonial ?  (...)
 

(x) César Dias, ex-fur mil sapador, CCS/BCAÇ 2885, Mansoa, 1969/71)

(...) Camaradas, não tenho dificuldade nenhuma em considerar veridica a narrativa do António Medina, já era diferente se estes episódios se tivessem passado durante a era de Spinula, tanto quanto me apercebi não era possivel uma situação destas, com ou sem PIDE. (...)
 
segunda-feira, 30 de junho de 2014 às 13:06:00 WEST 


(xi) Carlos Pinheiro (ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens do STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70):

(...) Fiz a minha comissão na Guiné de outubro de 68 a novembro de 70. Desembarquei cá no dia da Operação Mar Verde.

 Ao longo daqueles 25 meses tive conhecimento de tanta coisa mas, como respondi ao inquérito, dessas cenas macabras nunca ouvi falar com consistência. Estava lá quando os 3 Majores e o Alferes foram selvaticamente assassinados nessa zona de Jolmete. Um horror. 

Mas estava lá também quando foi a evacuação de Madina de Boé quando morreram aquelas dezenas de militares na jangada que se virou. Mas uma coisa conclui hoje. O comandante de Bula falado no poste foi o mesmo que coordenou o abandono de Madina de Boé. E no ano seguinte levou uma Torre e Espada ao peito no Terreiro de Paço. Coincidências? Não sei. (...)


(xii) João Lemos  (ex-alf mil sapador, CCS/BART 6521/72, Pelundo, 1972/74)


(...) Pertenci à CCS do BART 6521/72, onde era alferes miliciano sapador. Estive no Pelundo desde 1972 até à entrega deste quartel, tal como os de Có e o de Jolmete, ao PAIGC, em 1974. Em Jolmete estava a 3ª Companhia do BART 6521/72. 

Fui muitas vezes a Jolmete, pois comandei muitas vezes as escoltas entre Jolmete e João Landim. Passei muitas vezes na “2ª bolanha”, onde foram assassinados os Majores, o Alferes e os dois guias negros em 1970.

 Cheguei portanto a esta zona 8 anos depois dos factos narrados pelo camarada António Medina. Convivi muito com Dandi Djassi que veio a ser fuzilado, tal como o “Sete”, pelo PAIGC, depois da saída das tropas portuguesas da Guiné Bissau. 

Dandi Djassi era de Jolmete, mas vivia no Pelundo, onde, juntamente com as milícias desta localidade, combatia o PAIGC ao lado das tropas portuguesas. 

Nunca ouvi falar dos factos narrados pelo camarada António Medina, mas, tal como diz o comentário anterior do camarada Cesar Dias, "não tenho dificuldade nenhuma em considerar verídica a narrativa do António Medina, já era diferente se estes episódios se tivessem passado durante a era de Spínola, tanto quanto me apercebi não era possível uma situação destas, com ou sem PIDE”. (...)

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor:

(**) Vd,. poste de 5 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P18988: Blogues da nossa blogosfera (103): "Memórias de Jolmete", de Manuel Resende: Cajan Seidi, o atual régulo de Jolmete, neto de Cambanque Seidi, o régulo de Jol que, em 1964, foi uma das cerca de 20 vítimas de represálias das NT (Manuel Resende / Eduardo Moutinho Santos)