Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Arnaldo Schulz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arnaldo Schulz. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27620: Notas de leitura (1883): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (8) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Creio que o Boletim desapareceu de morte natural em 1966, o falecimento do presidente da Direção, António Flamengo constituiu uma pesada perda, terá diminuído bastante o número de associados, as rubricas dos primeiros anos envolvendo legislação consultório, informação de contactos estabelecidos com as autoridades, os dossiês económicos, etc, vão minguando, o Boletim tenta socorrer-se de colaboradores externos como Teixeira da Mota, e nos últimos números apresenta-se um diagnóstico socioeconómico publicado em novembro de 1965 que, por um lado, se revela totalmente alheio aos acontecimentos inerentes à luta armada, e, por outro lado, não esconde críticas à natureza oligopolista do comércio de exportação entregue, esmagadoramente, a três empresas, que têm as suas sedes na Metrópole, onde se utilizam as respetivas matérias-primas exportadas da Guiné. Este boletim, estou seguro, interessará todos os investigadores que queiram conhecer o import-export destes anos cruciais da década de 1960.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 8


Mário Beja Santos

Foi verdadeiramente traumático o desaparecimento de António José Osório Flamengo, alegam-se outras razões para a perda de periodicidade do Boletim. Quem assume a responsabilidade deste não esconde as extremas carências da vida associativa:
“De todos é conhecido de sobejo as dificuldades enormíssimas que na Província se foram acumulando desde o ano de 1963, resultante da situação anormalíssima que tivemos de enfrentar, guerra que teria forçosamente de mais fazer ruir as já debilitadas condições da nossa balança de pagamentos”.


Ainda se procura reagir, informa-se os associados que está definido o projeto da piscina, falta ainda uma máquina para fazer o furo para a captação de água. Publica-se a segunda parte do artigo de Teixeira da Mota intitulado “Um Príncipe de Bissau batizado em Lisboa no ano de 1994”.

Saltando para o número de janeiro a junho de 1966, retira-se do relatório da Direção: “Queremos referir no comércio uma concorrência desmedida, desleal e até antieconómica, que se tem vindo agravando e a que qualquer Direcção, que agora seja eleita, certamente terá junto dos jovens de procurar sanar e rápida e vigorosamente como se impõe, dadas as gravíssimas consequências que poderão advir para todo o comércio, e ainda para a economia da Província.”

Faz-se uma exposição dos assuntos superiormente tratados, destacam-se:
“– Contrabando que se faz com chapas de zinco ondulado, vendendo-se por preço a que o comércio estabelecido não pode concorrer;
- A quase nula afluência de autóctones a Bissau para ali venderem os seus produtos, devido à adopção de medidas de segurança que poderiam ser atenuadas;
- Solicitaram-se medidas idênticas às já estabelecidas para os transportes marítimos de Bissau para Bafatá, que fossem aplicadas a Farim, estabelecendo-se uma carreira de barcos do Estado;
- Denúncia do abuso do contrabando de sapatilhas, chinelas, laranjadas, receptores e transístores, colchas, tapetes, etc.”


Não se esconde que as receitas da Associação continuavam na sua curva descendente. Dá-se a notícia do oferecimento da Gulbenkian, na pessoa do Dr. Azeredo Perdigão, para uma exposição com alguns valiosíssimos quadros de artistas contemporâneos. Foi recebido um subsídio de trezentos contos para a construção da piscina. A Associação ofereceu uma Espada de Honra ao Governador Arnaldo Schulz pela sua promoção a General.

Um dado de considerável importância é a publicação do diagnóstico apresentado pela Comissão Técnica do Planeamento e Integração Económica da Província da Guiné, estudo datado de novembro de 1965.

O diagnóstico, escreve-se, respira fundadas esperanças no potencial agrícola da Província, se se metodizar a produção. São consideradas estimulantes as possibilidades reais das culturas do arroz, da mandioca, do caju, da palmeira do azeite e da bananeira; conclui-se que a cana sacarina é uma cultura pouco favorável. Apresenta-se um quadro desolador da pesca, admite-se que tudo pode mudar com a abertura de uma estância frigorífica em Bissau. Também o diagnóstico cita algumas potencialidades reais no campo das indústrias transformadoras e complementares da agricultura, potencialidades essas que teriam de obedecer a um critério de prioridades.

Também se reconhece que o desenvolvimento da Província está mal servido de crédito. O BNU usa uma taxa de desconto tal que torna o dinheiro local mais caro que o de Angola, Moçambique e Macau. Termina o diagnóstico concluindo que dadas as contingências da Província, tão anormais, terá de ser o Estado a incrementar as diversas atividades, por pouco se esperar da iniciativa privada, nada confiante; e de que será indispensável a montagem do serviço de financiamento, com uma Caixa de Crédito Agropecuário.

Relendo com mais cuidado o estudo, acho que vale a pena ainda referir que os autores consideram que o aspeto negativo da economia guineense tem a ver com a sua característica oligopolista, já que a comercialização da mancarra e do coconote é exercida pelas três grandes empresas locais, que não estimulam o progresso da Província, já que fazem incidir as suas atividades sobre a exportação daqueles produtos, que representam 92,7% da exportação.

O último número que se encontrou deste Boletim é o de julho a setembro de 1976. Ainda há o recurso nestes últimos números tão minguados ao aparecimento de alguns artigos de carácter pedagógico, e parece-me bem curioso o contributo de Alexandre d’Almeida que em dado passo das suas referências culturais fala na indústria dos panos, a panaria.

Segundo ele, proviria da República da Guiné, os panos do Rio Pongo, os chamados panos da costa, proferidos em Cabo Verde por longo tempo.
“E como o Arquipélago necessitou de braços do Continente africano para as suas necessidades de colonização e fomento, e porque o vestuário característico da maioria da gente importada era o clássico e tradicional pano, a indústria de tecelagem e tintura prosperaria, porquanto, ainda por largas décadas, subsistiria a diferenciação primitiva entre amos e servos, a começar pela indumentária.
Na nossa já longínqua meninice víamos uma velhinha, escrava-liberta dos nossos avós, proceder à tintura de panos chamados galãs com a diluição de pães cinchados de folhas trituradas de anileira, secas, em coada de potassa obtida de cinzas de caule de bananeira, campeche e capa-rosa, na qual mergulhava o pano cru, por dias sucessivos, com refegos adequados à estampagem desejada. E durante esta fase dizia-se que o pano estava ‘na tinta’. Igualmente, ainda nos lembramos de um velho tecelão, também descendente de gente importada e que estivera na Demerara (Guiana holandesa) a trabalhar numa leva de escravos, que de lá trouxe o mester, e que nos entretinha com tantas histórias da terra e o tratamento que ele e companheiros suportaram, até o milagroso resgate.
Ora, estas singelas referências não corroboram, em parte, em que a indústria proviera da Costa africana e nunca levada da Metrópole pelos colonizadores reinóis do Arquipélago? O tear, o mais rudimentar possível, é ainda uma cópia perfeita do que hoje é usado na Guiné, e ele laborava algodão branco e amarelo crescido nas ilhas, esfiado em dobadouras, igualmente rudimentares.”


Perguntou-se à Biblioteca Nacional de Portugal se havia outros números do Boletim. A resposta é de que nem um havia. Existe uma coleção na rede das bibliotecas de Lisboa, e o número de Boletins existentes coincide com o número daqueles que eu pude ler na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Bolanha de Pessubé
Pescadores Mancanhas
Sapateiros Mandingas
Mulher Fula

Estas quatro imagens foram retiradas de vários números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1965
_____________

Notas do editor

Vd. poste anterior de 2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27596: Notas de leitura (1880): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (7) (Mário Beja Santos)

Último post da série de > 7 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27613: Notas de leitura (1882): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VI: "Apenas dois capelães foram expulsos do Exército"

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27592: Efemérides (381): Aconteceu há 60 anos em Bissau, passagem de ano na Associação Comercial, Industrial e Agrícola, a comer do melhor marisco, e na mesa onde até estava o Governador da Guiné (Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil)


1. Mensagem do nosso camarada Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil da CCAÇ 816 (BissorãOlossato e Mansoa, 1965/67) com data de hoje, 1 de Janeiro de 2026:

UMA LINHA MUITO TÉNUE SEPARA O ESTAR COM O NARIZ ENTERRADO NA BOLANHA E “ELAS” A PASSAREM POR CIMA, DO ESTAR NUMA PASSAGEM DE ANO A COMER DO MELHOR MARISCO E NA MESA ONDE ATÉ ESTAVA O ENTÃO GOVERNADOR DA GUINÉ

Eu e um amigo ocasional do Porto, (conhecemo-nos no Hospital Militar de Bissau), bem enfarpelados, entramos logo atrás do Schulz, o Governador da Guiné, pois então!
Estávamos em 31 de Dezembro o último dia do ano de 1966 e havia passagem de Ano na Associação Comercial e na UDIB (ver fotos), pelo menos; também nas sedes do Benfica e do Sporting, clubes locais (ver fotos destas sedes também em anexo).

O edifício da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Bissau era um edifício de linhas modernas com uma boa sala de jantar do lado esquerdo e uma sala de estar e de jogos no rés-do-chão, do lado direito, e, atrás, virados para a estrada que ligava o Quartel da Amura cá em baixo junto da marginal para Santa Luzia lá em cima, onde estava o Quartel General, serviço SPM, Adidos e outras instalações militares, estrada alcatroada e marginada de mangueiros, haviam 1 campo de ténis e uma boa piscina.
Quando se passava lá era olhar e andar. Aquilo era tabú para nós. A nossa vida era no mato, aos tiros.

Só que na passagem de ano eu e o meu conhecido há pouco, armamo-nos em finos e apostamos no baile na Associação o que não seria fácil.
Boas instalações. Vida boa para o colono e militares de patente super. Também se viam lá negros, mas… a servir à mesa. Ah(!) e o porteiro.

Então eu e o meu amigo do Porto, como já disse, conhecido (há pouco), do Hospital Militar de Bissau, onde estávamos internados, eu por uma lesão no joelho, vestidos a rigor, camisa branca “casca d‘ovo” que muito se via por lá, brancas e azuis clarinhas, diziam que vinham de Macau, gravata à maneira e fato tirado do fundo da mala, com vincos saturados nas dobras, agora bem disfarçados com a ajuda dos joelhos, e a cheirarem a naftalina, esta disfarçado com água de colónia, e então escolhemos tentar a sorte na Associação. Aquilo ali era mais chique.
Humm, não devia ser fácil entrar ali!...

Tanto eu como o meu amigo apostamos com parada alta.

Cerca das 23 horas aproximamo-nos da entrada, um pouco timidamente e era só saber como é que havíamos de entrar, o que se antevia difícil. “Fardados” bem à civil e bem penteados e bem engravatados, estávamos nós, mas isso podia não chegar.
Até que chega de automóvel o dono da “Ancar”. Estabelecimento e fabricante (?) de artigos de livraria ali em Bissau. Uma loja perto do mercado de Bissau. Parecia-me ser cabo-verdiano e como era empresário… devia ser mesmo.

“Alto (!) é agora”, pensei. Eu quando vinha a Bissau defendia as cores da Ancar em Andebol de Sete e portanto era aqui a grande chance. E ali o meu presidente mesmo à mão.
Dirigi-me a ele a dizer que era uma atleta da Ancar o “grande” guarda-redes de andebol e ele, sim, disse que me conhecia bem, mas, mais palavra menos argumento, “mandou-me prá bicha”, que não era ele que mandava, etc. e tal, que tivesse paciência, que era afinal o que nós tínhamos menos na altura, digo eu.
Pronto, gorada aquela que me parecia ser uma grande hipótese!

Passam-se mais alguns minutos e já pertinho da meia-noite eis que chega um grande carro preto com bandeirinhas sobre os guarda-lamas e sair de lá Arnaldo Schulz, o Governador, com comitiva e com grande pompa.
Entrou com as devidas honras. Recebido, julgo, por elementos da Comissão organizadora, um casal de brancos, muito elegante, meia-idade. Subiram os degraus para o piso superior (Salão de Festas) e tudo voltou ao normal, isto é, o porteiro indígena, de luvas brancas e uma secretária (mesa) à sua frente e ali perto dois maduros desenfiados do HM 241, que não desarmavam.

- Vamos dar qualquer coisa ao preto e ele deixa-nos entrar.
- Não, isso pode ser pior - respondeu o outro.
- Carago, o que havemos de fazer?

Estávamos ali a cogitar quando nos saiu a taluda!
O porteiro dirige-nos e pergunta se nós éramos os convidados do Sr. Virgílio.
- Somos, somos - dissemos a uma só voz.
- Já podiam ter dito. Façam o favor de entrar.

Antes que houvesse alguma dúvida galgamos os degraus de acesso ao salão sem antes termos esbarrado no porteiro (que queria a nota?), e entramos no Salão de Festas com aparente calmaria e de peito inchado.

Caiu a meia-noite!

Ainda hoje estou por saber quem era esse Sr. Virgílio, ou se foi uma bela jogada do preto que viu ali uma rara oportunidade para ganhar algum, pois mal ele nos abordou e ao ver-nos passar por ele como flechas teve tempo de estender a mão e não era para nos cumprimentar, sabíamos nós. Lá que ficamos os três bem na fotografia lá isso foi verdade e ninguém saiu a perder, pelo menos nós os dois, os desenfiados
Olha que dois! Ou que três!

Passado o reconhecimento do terreno já estávamos a dançar, cada um com o seu par, claro.
No salão, encostada a uma das paredes laterais, estava uma larga mesa, bem decorada com leitão, cabrito e mariscos variados com a lagosta a sobressair e outros diversos comes bem apetitosos.
Um conjunto musical cabo-verdiano animava a festa com “coladeras”, “mornas”, etc.

À hora de “abrir” a mesa (meia-noite), aproximamo-nos e um pouco timidamente. O meu amigo, noutro ponto estratégico, fazia-se rogado, mas por pouco tempo. Vencidas as “sentinelas” comemos bem a nossa parte. Lá no hospital ou no mato o rancho era bem diferente.

Bela noite. Um sonho realizado em pleno palco de guerra.
Saímos já madrugada alta e viemos por a Avenida abaixo. Passamos pela UDIB e o baile também estava a terminar. Ainda deu para ver porrada à porta. Afinal a porrada estava na moda por toda a Guiné.

E pronto, foi regressar ao HM e tudo voltou à normalidade. Aí, farda branca do hospital, de algodão fininho, e havaianas. Rancho do hospital, servido à mesa, mãos no pão, na fruta, e todo o mais, (não me esqueço que na altura que o soube andei com náuseas uns dias) nada mais nada menos que servido pelo Cabo que na morgue, atrás do Hospital, lavava os mortos e os punha nas urnas.
E depois do sonho... mato outra vez!

Um ótimo ano a todos os combatentes da Guiné.
Bem Hajam.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 24 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27570: Efemérides (380): Aconteceu há 60 anos em Jumbembem (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27382: Notas de leitura (1858): "Atlas Histórico do 25 de Abril", por José Matos; Guerra e Paz, 2025 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Maço de 2025:

Queridos amigos,
O nosso confrade José Matos é de uma delicadeza extrema, mal foi publicado este seu último livro deu-me conhecimento do seu conteúdo, autorizando a revelá-lo, sob a forma de uma súmula, a todos os camaradas. Habituou-nos ao rigor das fontes e dos documentos, ilustra com textos pontos sugestivos da obra, igualmente recorre a ilustrações que facilitam a compreensão dos factos. Em termos de narrativa, contextualiza toda a guerra de África e desvela os principais acontecimentos de 1973 que aceleraram a sublevação militar; são igualmente mostradas as etapas da sublevação a partir da legislação que criava um Quadro Especial de Oficiais, e assim progredimos até aos preparativos da sublevação, depois do insucesso da revolta das Caldas os militares esboçaram uma estratégia que contemplou os três ramos das forças armadas e uma multiplicidade de unidades espalhadas pelo continente. Da operação em si e dos acontecimentos do 25 de Abril e subsequentes se fará referência no próximo texto.

Um abraço do
Mário



Atlas Histórico do 25 de Abril, por José Matos, um confrade que nos dá imensa companhia (1)

Mário Beja Santos

Acaba de ser dada à estampa pela editora Guerra e Paz o Atlas Histórico do 25 de Abril, a obra mais recente do nosso confrade José Matos, publicação muito sugestiva que nos permite recordar as etapas fundamentais do 25 de Abril, acompanharemos os alvores da revolução, chega-se à obra de Spínola Portugal e o Futuro e será esmiuçada a queda do regime e revisitada toda a operação que vitoriou o MFA; leitura tão mais sugestiva pela apresentação de imagens e quadros esclarecedores dessas diferentes etapas.

Em 1973, ainda havia a ilusão de que a ditadura portuguesa teria condições para durar; mas nesse ano alterou-se profundamente o cenário internacional, mudou profundamente a situação dos teatros de operações da Guiné e também em Moçambique; chegar-se-á mesmo ao momento de questionar se a Guiné era defensável, foi tema abordado no Conselho Superior de Defesa Nacional, perto do final do ano, julgava-se que ainda havia uma janela de oportunidade, isto na altura em que Portugal começa a sofrer as consequências não só da crise petrolífera, o país é castigado pelo mundo árabe, a inflação torna-se galopante. O ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, procura uma solução para a falta de oficiais para a guerra, propõe um Quadro Especial de Oficiais, estala a indignação do corpo de oficiais do quadro permanente, vão começar as reuniões, a primeira na Herdade do Monte do Sobral no Alentejo.

Desenhado por Diniz de Almeida, o croqui com indicações para os militares chegarem ao Monte do Sobral (Arquivo Diniz de Almeida)

Marcello Caetano remodela o Governo, Silva Cunha passa para ministro da Defesa, os militares continuam a protestar como se verá na reunião de S. Pedro do Estoril. A política ultramarina do Estado Novo isolara Portugal, consumia cada vez mais recursos ao país. Mesmo os Aliados da NATO furtavam-se a apoiar Portugal e a compra de armamento era cada vez mais difícil. José Matos rememora os acontecimentos que envolvem tal política ultramarina, o aparecimento da luta armada a partir de 1961. Destaca o problema da Guiné. Refere uma carta do chefe do Gabinete Militar Arnaldo Schulz, Tenente-Coronel Castelo Branco, para o governador, então em Lisboa, dizendo que “o inimigo colocou-nos a mão no pescoço, como bom lutador de judo, e nós temos dificuldade em sair desta posição”. Toda a situação na Guiné é passada em revista, Spínola regressa da Guiné em agosto, não escondendo que a situação se tornou incomportável, não podia haver solução militar, impunham-se negociações. Marcello Caetano nomeia novo governador, ele escreverá nas vésperas do 25 de Abril que se chegara à exaustão dos meios. Nessa altura já Marcello Caetano procurara sigilosamente conversações com o PAIGC, que ocorreram em Londres, em março.
Os apartamentos de Dolphin Square em Londres (Arquivo José Matos), foi aqui que decorreram as conversações secretas entre o PAIGC e o cônsul português José Manuel Villas-Boas, toda esta operação fora urdida pelo embaixador britânico em Lisboa

Prosseguem as reuniões dos militares conspiradores, o autor descreve a atmosfera em que é publicado o livro de Spínola Portugal e o Futuro, a proposta de criar uma federação já não assentava na realidade, não só nenhum dos movimentos de guerrilha era a favor como Portugal perdera oportunidade de preparar o ambiente que permitiria a conjugação de todas estas vontades. Mas o livro foi o rastilho da revolução, como Marcello Caetano constatou após a leitura do livro, na noite de 22 de fevereiro de 1974. Caetano está já entre a espada e a parede, quer demitir-se mas Thomaz não consente, discursa na Assembleia Nacional, pede-lhe um voto favorável para a continuação da política ultramarina, recebe os oficiais generais, demite Costa Gomes e Spínola, enquanto discursa na Assembleia Nacional surge o manifesto dos capitães numa reunião que se realizou em Cascais, Melo Antunes lê aos presentes um documento por ele elaborado: o regime era incapaz de se autorreformar, a perpetuação da guerra não ia resolver um problema ultramarino; os povos africanos tinham direito à autodeterminação, embora devessem ser acautelados os interesses dos portugueses residentes no Ultramar; era necessário um novo poder político eleito democraticamente que fosse realmente representativo das aspirações e interesses do povo.

Com a demissão de Costa Gomes e Spínola, os militares já em estado de sublevação vão procurar, a partir das Caldas da Rainha, caminhar em direção a Lisboa, a operação não é sucedida, Caetano falará dela na sua última Conversa em Família. Pelas diferentes vias diplomáticas, tenta-se adquirir novas armas, suscetíveis de se equiparar com o armamento da guerrilha. Temendo o uso da Força Aérea por parte do PAIGC, é comprado o Crotale.

Originalmente desenvolvido para a África do Sul pela Thomson-CSF e pela Matra, o Crotale era um sistema de defesa antiaérea para alvos a baixa altitude. Uma bateria de Crotale era composta por dois a três veículos de disparo, cada um com o seu próprio radar de controlo de fogo e quatro mísseis prontos a disparar, e um veículo de vigilância/aquisição. Portugal assinou um acordo de compra com os franceses em Janeiro de 1974, mas este sistema já não seria entregue a tempo. A única bateria de Crotale chegaria em Setembro de 1974, após o fim da guerra, e com a ajuda de Thomson foi revendida à África do Sul em 1976.

Vamos ver agora os preparativos do golpe, estiveram a cargo de um estratega, Otelo Saraiva de Carvalho; ele teve o cuidado de envolver várias unidades militares espalhadas pelo país, era imperativo tomar a capital. Sede do Governo, aqui estavam a televisão e as mais importantes estações de rádio e o aeroporto. Todas as operações seriam comandadas a partir de um centro de comando do MOFA (mais tarde MFA), havia necessidade de um sistema de comunicações fiável, ficou a cargo do tenente-coronel Garcia dos Santos, foi ele o responsável por arranjar o material de comunicações para a revolta.

A fuga do tenente Castro Gil:

“No dia 31 de Janeiro de 1974, ao fim da tarde, os guerrilheiros abateram com um míssil terra ar um Fiat G.91 que prestava apoio de fogo ao aquartelamento de Canquelifá, que estava sob ataque do PAIGC. Este quartel na fronteira nordeste com o Senegal distava cerca de 200 km de Bissau e era uma zona flagelada com alguma frequência pela guerrilha. O piloto ejetou-se e aterrou em segurança, mas teve de fugir para não ser capturado pelo inimigo. Decidiu rumar a norte, para o Senegal, indo pelo mato rasteiro ainda com cinzas ardentes para que a aragem do ar apagasse o seu rasto. De manhã, regressou à Guiné e foi ter a uma aldeia. Aproximou-se e escondeu-se nuns arbustos, a observar o movimento dos naturais e a ver se via homens armados ou fardados como os guerrilheiros. Quando viu que era seguro, entrou na aldeia e pediu ajuda. Surgiu então um homem com uma bicicleta e mandou o tenente Gil instalar-se atrás, arrancando a pedalar em direção ao sul para o Quartel de Piche. No quartel, começou a grande festa da recuperação do jovem tenente, que, no dia seguinte, chegou à base aérea de Bissalanca, onde a receção foi apoteótica e onde a festa se prolongou até de madrugada. Bastante alcoolizado, o tenente acabou internado no hospital de Bissau amarrado a uma cama.”

Texto retirado da obra de José Matos.

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 31 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27370: Notas de leitura (1857): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (4) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26849: Notas de leitura (1801): "A Independência da Guiné-Bissau e a Descolonização Portuguesa", por António Duarte Silva; Afrontamento, 1997 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Maio de 2024:

Queridos amigos,
É extensíssima a bibliografia que António Duarte Silva incorpora neste seu primeiro volume, quando o escreveu não era propriamente um recém-chegado ao mundo da investigação, possuía também tarimba universitária, fora assistente do ISCTE e da Faculdade de Direito de Lisboa, assistente da Escola de Direito e assessor científico da Faculdade de Direito de Bissau, possuía escritos sobre Direito Constitucional, Direito Colonial e Descolonização. 

Estruturado de uma forma singular, este seu primeiro livro faz desenvolver uma narrativa que se prende com o gérmen nacionalista até à fundação do PAIGC, como Amílcar Cabral foi o dínamo da estratégia, da formação, da abertura à comunidade internacional para a sensibilizar quanto às razões que assistiam às lutas do PAIGC, sempre entremeando o direito, a política e a luta militar, esta obra de referência levar-nos-á até ao contexto que foi reconhecida a Guiné-Bissau e a sua admissão nas Nações Unidas. O autor estava assim a preparar a maturação de uma tese sobre o pensamento e a ação de Cabral que agora está traduzida numa nova obra de referência e que se intitula Amílcar Cabral e o FIm do Império.

Um abraço do
Mário



A independência da Guiné-Bissau e a descolonização portuguesa (1)

Mário Beja Santos

António Duarte Silva [na foto à direita] é indiscutivelmente o investigador com mais créditos no estudo no pensamento e ação de Amílcar Cabral, no direito e política, abrangendo o seu centro de investigação, a independência da Guiné-Bissau e o processo jurídico-político da descolonização da Guiné-Bissau, toda a sua obra maneja com alta perícia estes domínios. 

O seu primeiro livro é exatamente o que vamos analisar, A Independência da Guiné-Bissau e a Descolonização Portuguesa, Afrontamento, 1997, um trabalho de longo fôlego, assente em quatro partes: 

  • colonialismo e nacionalismo na Guiné; 
  • o ato inédito no direito internacional da declaração unilateral de independência; 
  • como se processou a descolonização portuguesa; 
  • e, igualmente, como teve lugar a formação do Estado.

Como é obrigatório, o autor apresenta a pequena parcela da Costa da Guiné explorada pelos portugueses a partir do século XV, como se foi modelando, à escala universal, o sentimento de mudança (de colonização para descolonização), assistiu-se à quebra das amarras das potências coloniais e dos povos tutelados; como se deu o despertar do nacionalismo em terras da Guiné, apareceu o Partido Socialista da Guiné, que pouco fez e pouco durou, irrompe a figura de Amílcar Cabral, a importância dos contactos que ele estabeleceu em Lisboa com outros estudantes africanos de colónias portuguesas, a sua presença como engenheiro na Guiné, onde, um ano depois de ele ter regressado a Lisboa, se tentou se criar um Movimento para a Independência Nacional da Guiné (MING), que Rafael Barbosa, que será figura fundamental do PAIGC até 1962, comentará que não passou de um campo de experiência.

Tudo irá mudar em 1959, mas no ano anterior um conjunto de nacionalistas decidiu formar um Movimento de Libertação da Guiné. A 3 de agosto de 1959, dão-se os trágicos acontecimentos do Pidjiquiti, haverá mortos de número indeterminado, tem lugar a 19 de setembro de 1959 uma reunião em Bissau, em que está presente Amílcar Cabral, em que se tomam importante decisões: deslocar a ação para o campo, mobilizando os camponeses, preparar-se para a luta armada e transferir parte da direção para o exterior. 

Ainda hoje não está historicamente aclarado a formação do PAI, dada como ocorrida em 1956. Entretanto, tem lugar a formação pelos movimentos nacionalistas da criação de organizações unitárias contra o colonialismo português, o autor dá-nos o quadro de toda esta construção, e assim chegamos à Conferência de Túnis em que em declaração pública Cabral fala da motivação da luta de libertação nacional; estamos em 1960, o líder do PAIGC passa a viver em Conacri, Rafael Barbosa é o condutor da mobilização de jovens guineenses que são encaminhados para a República da Guiné; em janeiro de 1961 partem dez militantes do PAIGC com destino à Academia Militar de Nanquim, China, irão tornar-se os principais comandantes de guerrilha, caso de Osvaldo Vieira, João Bernardo Vieira, Constantino Teixeira, Domingos Ramos ou Francisco Mendes.

Nos primeiros dias de outubro de 1960, o ainda PAI realizará em Dacar uma reunião de dirigentes, é nesse evento que foi adotada definitivamente a sigla PAIGC, aprovados os programas dos partidos, que tinham sido elaborados por Cabral, escolhida a bandeira do PAIGC, também por sugestão de Cabral; enviada uma vez mais ao Governo português a proposta de abertura de negociações, e a não haver deferência por parte do Estado português, teria início a luta armada. 

O quadro ideológico em que se irá mover Cabral irá diferir do proposto por outros intelectuais, líderes políticos ou líderes revolucionários. Embora sensível a paradigmas internacionais, Cabral irá cimentar o seu pensamento, no dizer de Mário de Andrade, pela convergência quanto à identidade cultural, ao nacionalismo, à identidade nacional, à guerra popular de longa duração, a uma nova ordem social, à natureza e ao controlo do futuro Estado independente.

Desde muito cedo que o líder do PAIGC busca apoios nesta altura fundamentalmente em África, URSS e países não alinhados. No início, Moscovo temia que o PAIGC estivesse dominado por tendências para os chineses. Conacri gera facilidades e dá ajuda concreta. 1962 é o ano em que Rafael Barbosa é preso na Guiné, é desmantelada a organização do PAIGC em Bissau e desencadeada a sublevação nas regiões do Sul. 

A luta armada propriamente dita inicia-se em janeiro do ano seguinte. O Ministro da Defesa, general Gomes de Araújo, numa entrevista a um jornal em julho de 1963 refere a preponderância do PAIGC no Sul, dizendo que tinham penetrado numa zona correspondente a 15% da superfície da província. 

Em meados desse ano, a guerra atingiu as florestas do Oio, tudo se vai complicar na zona Centro-Norte, é uma comoção demográfica impressionante com populações fugidas, tabancas abandonadas e destruídas, a vida administrativa e a atividade comercial profundamente afetadas.

 Nesta fase da luta, o PAIGC ainda tem um concorrente, a FLING, irá diluir-se a partir de 1965. O autor explica como Cabral procurou defender a sigla da unidade Guiné-Cabo Verde.

O período de 1964 a 1968 corresponde à unificação do poder civil e militar, Arnaldo Schulz é simultaneamente Governador e Comandante-Chefe, vai seguir e intensificar uma manobra de disposição de destacamentos e povoações em autodefesa, foi uma tentativa de agrupar a população que não quis expressamente ficar na órbita da guerrilha, se bem que no decurso de toda a guerra tenha vindo a avultar a problemática do duplo controlo. 

Neste período, consolida-se a posição do PAIGC no Sul, na região do Morés, os grupos do PAIGC atuavam praticamente no Sul abaixo do Geba e a Oeste do Corubal; Schulz e os seus comandos militares pronunciavam-se a favor do recurso às tropas de elite, ao reforço do poder aéreo e naval, foi favorável à africanização da guerra constituindo pelotões de caçadores nativos e pelotões de milícias, mais tarde companhias de caçadores , os efetivos militares metropolitanos foram crescendo, isto enquanto o PAIGC ia ganhando uma certa superioridade no armamento, na capacidade de flagelação, minagem das estradas e de muitos trilhos, obtendo um certo êxito na paralisação da atividade económica em certas regiões.

Nos cinco anos do Governo seguinte, tendo à testa Spínola, este pretendeu alterar significativamente a estratégia portuguesa, despachou para a metrópole um bom punhado de quantos militares, remodelou o dispositivo fazendo retirar a presença portuguesa sobretudo em áreas do Sul e na região Leste, no Boé. 

Pretendeu desde a primeira hora que se fizesse um esforço de contra penetração nas zonas fronteiriças, numa extensa ação psicológica fez lançar empreendimentos a que se deu o nome de reordenamentos populacionais, abriu caminho para os chamados Congressos do Povo, uma hábil forma de auscultação e uma simulação de democracia direta, iremos ver proximamente em que contexto dominante se foi montando uma estratégia conducente que levasse à independência, as iniciativas de Spínola para se chegar a um entendimento de autodeterminação, como se chegou à operação de declarar unilateralmente a independência e o apoio internacional imediato ao que se passou algures no leste da Guiné em 24 de setembro de 1973.

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 26 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26847: Notas de leitura (1800): "Gil Eanes: o anjo do mar", de João David Batel Marques (Viana do Castelo: Fundação Gil Eanes, 2019, il, 131pp.) - Parte I: A história do navio-hospital da frota bacalhoeira (Luís Graça)

segunda-feira, 10 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26571: Notas de leitura (1779): Habitação para indígenas em Bissau, 1968 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Novembro de 2023:

Queridos amigos,
A cidade de Bissau que conheci em 1968 ganhou outra fisionomia quando lá estive a última vez, em 2010. Sou capaz de identificar as imagens deste artigo de 1968 e custa-me dizer o que senti quando percorri os bairros de Missirá, Santa Luzia e Militar, instalou-se o caos urbano, via-se à vista desarmada que o crescimento demográfico não era acompanhado de infraestruturas minimamente capazes. Não sei a que título o arquiteto Fernando Varanda estudou os bairros do tempo de Sarmento Rodrigues e Arnaldo Schulz, mas há que reconhecer que faz observações pertinentes e a sua crítica assentava num tipo de habitação aberto à convivência e ao diálogo interétnicos, já que, do que vira em Safim e no Biombo, as etnias revelavam-se fechadas e seccionadas. Fernando Varanda, como poderão ver no Google, teve uma lustrosa carreira internacional em vários continentes trabalhando em planeamento urbano. Pode dar-se o caso de quem trabalha no planeamento urbano na Guiné-Bissau ache interessante as suas propostas.

Um abraço do
Mário



Habitação para indígenas em Bissau, 1968

Mário Beja Santos

A revista Geographica, da Sociedade de Geografia de Lisboa, publicou no número relativo a julho de 1968 um trabalho do arquiteto Fernando Varanda (1941-2023), doutor em Geografia Urbana, com assinalável carreira internacional, um artigo intitulado “Um estudo de habitação para indígenas em Bissau”. 

Refere o autor que no propósito do seu estudo se visa um princípio de organização de habitação para as populações indígenas alojadas em Bissau em condições muito precárias. A guerra provocara um autêntico êxodo para os centros urbanos, a população negra de Bissau aumentara nos últimos 5 anos de 22 mil para 30 mil habitantes (números aproximados). Em Bissorã, a população era de mil habitantes antes do início da guerrilha, ascendia agora a 12 mil. Impunha-se, pois, encontrar soluções para integrar as populações que poderiam não mais voltar aos seus ambientes anteriores.

A população negra envolvia a cidade branca, eram cerca de 30 mil habitantes alojados em construções feitas de materiais de ocasião, a falta de alojamento era enorme, os preços incomportáveis. A população distribuía-se por zonas de afinidade étnica. Tomavam-se medidas administrativas para distribuir os alojamentos por colunas ao longo das vias principais de acesso, tinha-se em linha de conta a segurança das populações e a segurança militar.

O arquiteto começou por observar alguns aspetos da habitação urbana indígena em Bissau e nos arredores – povoações das etnias Papel, do Biombo, Mancanha e Balanta, em Safim. Verificou-se que as zonas habitacionais estavam sombreadas por árvores de grande porte; quanto às zonas suburbanas, fez-se a observação da zona dos Papeis do Biombo, a 60 km de Bissau e a zona dos Mancanhas e Balantas de Safim, a 15 km da cidade. 

O esquema de agrupamento é sensivelmente o mesmo: famílias que se agrupam numa morança, e conjunto de moranças, relativamente próximas, formando uma espécie de povoação. Cada morança tem, em média, de uma a seis famílias. A casa é de planta redonda, na sua forma mais tradicional. Mas por influência de costumes europeus caminha-se cada vez mais pela opção para a planta retangular ou quadrada.

Do inquérito efetuado abrangendo os regulados de Antula, Bandim, Intim, apurou-se haver sensivelmente 28,250 habitantes. O inquérito, na parte referente ao alojamento, foi dirigido a cerca de 200 chefes de família, amostragem pequena, verificou-se a composição do agrupamento familiar, os salários, o valor das rendas, quem tinha casa própria ou arrendada. 

As habitações são quase totalmente de planta retangular em Bissau, a área de cada casa era de cerca de 60 m2, excluindo quintais e zonas sanitárias. Cada casa tem entre quatro a seis divisões, servem de quartos. Os materiais de construção eram dos mais variados, veem-se casas de paredes de adobe e cobertura de folha de palmeira, veem-se outras com paredes em blocos de betão e cobertura de zinco e até de telha; o chão é de terra batida ou de cimento (este em caso de blocos de betão e cobertura de zinco). As instalações sanitárias e de banho existem foram de casa, nos chamados “cercados”. Não há esgotos, não há balneários ou retretes públicas. A cozinha existe no alpendrado ou no quintal. A água é fornecida por poços ou fontes abertas pela administração de Bissau. O mobiliário é escasso, camas ou esteiras, uma arca, bancos e cadeiras. 

Apenas os Fulas e Mandigas se mantêm fiéis às casas de planta circular, a planta retangular deve-se à influência europeia. Os espaços de convivência são praticamente inexistentes: cada família vive para si, dentro de casa ou ao alpendrado sempre existente, as crianças brincam na rua. Os arruamentos são os que a administração europeia criou.

Fernando Varanda analisa a solução apresentada pelas entidades administrativas e procede à sua crítica. O primeiro esquema de organização vinha do tempo do governador Sarmento Rodrigues, pretendeu-se, nessa altura, criar um bairro na estrada de Santa Luzia, uma casa por família, com dois quartos, sala, cozinha e instalações sanitárias, o projeto ficou na construção de umas 38 casas. 

Ao longo do tempo foi-se verificando uma infiltração progressiva de “palhotas” no meio das casas existentes. Estava em construção já muito avançada o bairro da Ajuda, a 6 km do limite da cidade, iniciativa de Arnaldo Schulz depois do bairro original ter sido destruído por um incêndio, em 1965; este bairro da Ajuda situa-se em frente ao Hospital Militar. 

O plano geral deste bairro era o seguinte: numa primeira fase, estavam já construídas 140 casas, numa área de 700 por 300 metros, isto num plano que incluía mercado, estabelecimentos comerciais, escola primária, posto médico, igreja católica, mesquita, centro social, cinema, lavadores públicos, oficina de carpintaria mecânica. São casas de planta quase quadrangular, com um alpendrado em toda a volta. A divisão interior da casa é uma sala grande, dois quartos, um quarto independente (para hóspedes), cozinha e instalações sanitárias, no alpendre.

Na admissão ao bairro privilegiava as vítimas do incêndio. A crítica de Fernando Varanda era de que no caso de Santa Luzia como no caso da Ajuda se escolher um planeamento urbano de régua e esquadro, dividindo regularmente uma área em retângulos e situando-a ao longo de uma grande via de comunicação. 

A solução não tem nada a ver com o sistema de vida em comunidade que faz parte da tradição guineense. Por tal razão, o arquiteto apresenta uma solução. Ele parte de um agrupamento de várias famílias, normalmente da mesma etnia, em disposição mais ou menos concêntrica, núcleo que está em relações de vizinhança próxima com outros. O conjunto de vários núcleos constituirá uma unidade dotada de equipamento próprio. A sua intenção era agrupar núcleos de 10 famílias em unidades de 6 núcleos, constituiria uma zona com serviços públicos bem definidos. As zonas separar-se-ão por amplos espaços verdes, tanto quanto possível naturais, com acessos próprios utilizáveis por viaturas. A intenção é proteger a intimidade dos habitantes permitindo-lhes a criação ou a continuação das suas estruturas tradicionais, mas também para abrir caminho a uma aculturação progressiva e compreendida.

Os núcleos eram concebidos em torno de uma origem de água, o espaço central serviria para recinto de convívio diário entre as famílias. E justifica a essência da sua solução que era a de visar a possibilidade de poderem habitar próximo três tipos de famílias: pequena, média e grande, em que a pequena terá 3 ou 4 elementos e a maior poderá ir dos 12 aos 15. 

Diz ter optado por uma forma poligonal de planta, faz-se assim convergir a vida de cada casa para um pátio interior alpendrado. Justifica dois tipos de casas, conforme a dimensão familiar; as paredes seriam em betão de adobe, assentes sobre uma fundação em betão ciclópico sobre-elevada, para evitar a entrada de água das chuvas no interior da habitação; a cobertura seria em folha de palmeira. Era propósito do arquiteto dar toda a facilidade aos habitantes para serem eles próprios a construir as suas casas, fornecia-se a planta base, o tipo geral de construção, permitindo aos habitantes que adequassem as suas casas à sua maneira de viver.

A evolução dos acontecimentos alterou tudo, os planeadores urbanos que me ditem as soluções propostas por Fernando Varanda como forma de criar condições confortáveis nos bairros caóticos que hoje existem em Bissau. É um estudo que vale como propósito de um tempo, mas a visão do arquiteto, conceituado geógrafo urbano, é merecedora da observação de todos aqueles que pretendem dar mais dignidade à vida dos habitantes em Bissau e em todos os outros aglomerados.

Estrada de Safim, as novas edificações, construídas pela administração. Quilómetros de casas em duas filas largamente separadas por uma faixa de trânsito para veículos
Morança Mancanha (estrada de Safim – embora de um tipo já decadente, aqui ainda é possível a vida com um certo intimismo e conforto). Foram aldeamentos deste tipo que a administração substituiu
Biombo, casa Papel. Trata-se de um agrupamento cuja unidade é a função da unidade familiar. Constrói-se um núcleo; aumentando a família, outro se ergue ligado por um alpendre
Bairro de Santa Luzia, a estrada passa junto à margem esquerda
Bissau, zona indígena, Chão Papel
Cupelom de Baixo
Cupelom de Cima
_____________

Nota do editor

Último post da série de 7 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26561: Notas de leitura (1778): Philip J. Havik, um devotado historiador da Guiné: Negros e brancos na Guiné Portuguesa (1915-1935) (4) – 1 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26524: Notas de leitura (1775): Um outro olhar sobre a Marinha na guerra da Guiné em "Os Mais Jovens Combatentes, A Geração de Todas as Gerações, 1961-1974", por José Maria Monteiro; Chiado Books, 2019 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Outubro de 2023:

Queridos amigos,
José Maria Monteiro lançou-se num empreendimento solitário e invulgar: contar o que fez a Marinha de Guerra na Guiné, Angola e Moçambique, sínteses sobre as atividades operacionais e descrevendo até o dispositivo militar existente. Neste episódio elencam-se as atividades operacionais de 1964 até 1970, o autor regista as alterações operadas em 1968 por Spínola e passa em revista as grandes operações, quer no Sul quer no Norte, operações essas em que por vezes contavam com o Exército, com outras forças de elite e necessariamente contando sempre com a Força Aérea. Dá relevo a operações denominadas Catanada, Cocha e Cuco. Esmiúça a operação Mar Verde, ela tem sido de tal modo aqui tratada que seria repetitivo fazer-lhe aqui mais referência. Deixamos para o último episódio o sumário das atividades de 1971 a 1974, e haverá, espero, alguma surpresa com o que ele nos conta sobre o último militar a sair da Guiné.

Um abraço do
Mário



Um outro olhar sobre a Marinha na guerra da Guiné (2)

Mário Beja Santos


A obra intitula-se "Os Mais Jovens Combatentes, A Geração de Todas as Gerações, 1961-1974", por José Maria Monteiro, Chiado Books, 2019. O autor alistou-se em 1967 na Marinha, ofereceu-se como voluntário para a Guiné, nos dois primeiros anos desempenhou as funções de radiotelegrafista de uma lancha de fiscalização pequena; terminados os dois primeiros anos, passou para o Comando da Defesa Marítima da Guiné, continuando mais dois anos como marinheiro telegrafista. Foi aumentando as suas habilitações, concluiu o curso de Economia e, mais tarde, o de Direito.

Vamos ver agora as atividades da Marinha de Guerra na Guiné entre 1964 e 1968. Apareceram os primeiros engenhos explosivos aquáticos que afundaram alguns batelões enquadrados em comboios navais. Nos primeiros meses do ano de 1965, verificou-se um aumento das atividades da guerrilha nas regiões de Bajocunda, Canquelifa e Pirada, Schulz requereu a dois destacamentos que interviessem em Bigene, Barro e Ingoré, na zona Norte, e em Gadamael-Guileje. Em igual período cada um dos Destacamentos de Fuzileiros Especiais (DFE) atuava na bacia hidrográfica da sua responsabilidade, usavam-se as técnicas de desembarque em botes de borracha, que rapidamente foram abandonadas porque estes, após o desembarque, ficavam sem proteção; passou-se a usar o desembarque e o reembarque com apoio das lanchas nos principais cursos de água da Guiné. Dera-se, de 1965 para 1966, um avanço da guerrilha que passara à ofensiva na zona do Cantanhez. A operação Safari, constituída pelos DFE 10, 9, 4 e 3, e ainda pela CF 7, tinha por objetivo destruir a base central localizada no triângulo Cafal-Calaque-Darsalame, não foi possível devido aos violentos confrontos com os guerrilheiros.

Recorda o autor que a orientação militar, seguida pelo Comando da Defesa Marítima até 1968 pressupunha o controlo e o emprego das unidades de fuzileiros sob a sua alçada, que era lançada em operações específicas em coordenação com outras forças navais. No início de 1966, vários DFE tentaram conquistar a zona de Cafine, sem êxito; em meados do ano, o PAIGC ampliava todas as bases ao longo da fronteira com o Senegal, atacando em S. Domingos, Barro, Ingoré e Susana. Em agosto desse ano, o dispositivo militar naval foi reforçado com mais uma Companhia de Fuzileiros. O dispositivo militar naval era constituído por quatro DFE e duas CF atuando em Bissau, Ganturé, Cacheu, rio Grande de Buba, rios Geba, Mansoa e Corubal e rios Cacine e Cumbijã. Vamos agora entrar num novo período.

Em maio de 1968, Spínola vai alterar toda a estratégia naval, acabou com as atribuições de defesa e segurança das bacias hidrográficas criando comandos de agrupamento operacionais permanentes nos quais seriam integrados os fuzileiros. No último mês em funções, o comandante-chefe Schulz determinou à Marinha a realização de operações com fuzileiros a fim de cortar o corredor de Sambuiá e também na zona de Geba-Corubal. Nesse mesmo mês de abril chegou à Guiné o DFE 13, a quem foi atribuída a responsabilidade de fiscalizar as bacias hidrográficas de Cacine e Cumbijã. Para Spínola, o objetivo passava a ser cortar o abastecimento aos guerrilheiros, foram lançadas duas grandes operações no Norte, a operação Via Láctea e a operação Andrómeda, visando a destruição das rotas de infiltração de Canja, Sambuiã, Jumbembem e Sitato, a logística da guerrilha do PAIGC ficou temporariamente em muito mau estado. Observa o autor que Spínola não nutria grande admiração pelos fuzileiros, mas aqueles êxitos alteraram a visão do comandante-chefe. E sempre na sua linguagem de exaltação e triunfo, o autor acrescenta que a operação Dragão 68, levada a cabo pelos DFE 12 e 13, veio a confirmar a grande máquina de guerra que eram os fuzileiros. E observa também o autor que para ultrapassar a logística naval e não ficar dependente dos meios da Marinha, Spínola, a partir de 1969, pressionou o Governo Central para que lhe enviasse as célebres Chaimites V-200 que chegaram a Bissau no final de 1970, revelaram-se pouco eficazes no que diz respeito ao poder de fogo e da chapa blindada.

No início de 1969, foi lançada uma nova operação de grande envergadura, de nome Grande Colheita, na qual participaram algumas unidades do Exército, apreenderam-se várias toneladas de armamento e o autor dirá que, como resultado desta operação, o DFE 13 fez a maior apreensão de material de guerra por uma única unidade e numa só operação. Em fevereiro desse ano, coube ao DFE 10 uma das missões mais ingratas que se registaram na Guiné, pesquisar e recolher os cadáveres de militares que morreram na travessia do rio Corubal, fora uma grande tragédia.

O autor socorre-se de um texto de um outro fuzileiro, José Talhadas, publicado com o título Memórias de Um Guerreiro Colonial, pela Âncora Editora. A operação Grande Colheita apareceu associada às operações Cocha e Catanada, realizadas na região de Cumbamory, o objetivo era destruir as importantes bases instaladas nesta região senegalesa, foram levadas a cabo pelo DFE 12, entre 1970 e 1971. A operação Catanada iniciou-se em 3 de abril de 1970, com partida de Bigene, os fuzileiros tinham como reforço um pelotão do Exército e dois oficiais veteranos de fuzileiros que estavam em Ganturé. O pelotão do Exército ficou numa bolanha com a missão de apoio de fogo e também de apoiar os fuzileiros na retirada em caso de necessidade. José Talhadas conta as peripécias da operação, a reação havida pelo grupo do PAIGC, houve um desencontro de grupos de fuzileiros, só mais tarde é que Talhadas veio a saber que Luís Cabral, então comandante da Frente Norte do PAIGC se encontrava no interior de Cumbamory, daí a resistência a toda a prova.

Passamos agora para a operação Cocha, novamente na região de Cumbamory, a força do PAIGC foi apanhada de surpresa, descobriu-se uma grande quantidade de armamento, era preciso defender as posições para permitir levar tal espólio, e descreve-se o apoio da Força Aérea, como se aproximava a noite, houve que fazer explodir tudo, independentemente de se ter capturado tanto material de guerra. O autor observa que no decurso da guerra mais nenhuma outra força conseguiu entrar em Cumbamory e ocupá-la, ainda que a espaços, muito menos logrou apreender tamanha quantidade de armamento.

Temos agora a operação Cuco, realizada em setembro de 1970, visava-se atacar com golpe de mão um eventual aquartelamento do PAIGC que se encontrava algures junto ao povoado senegalês de Sanou. O DFE 12 seguiu de Bigene para Barro e daqui iniciou a progressão para o interior do Senegal. Ao amanhecer deu-se o ataque, havia moranças a arder e população a fugir e deu-se um episódio digno de registo: “O nosso guia, um balanta chamado Bacar Camará, chefe de tabanca em Bigene, assim que reparou que alguns dos elementos da população de Sanou eram da sua família, começou a correr na sua direção, chamando-os pelos nomes. Este facto causou alguma desorientação, o que levou alguns dos nossos a disparar naquela direção, supondo que ele iria desertar. Mas felizmente alguns elementos da população pararam ao chamamento de Bacar, ele voltou de novo caminhando na nossa direção com um grupo de populares atrás de si, todo feliz, e assinalava que eram seus familiares que tinham fugido de Bigene e tabancas vizinhas no início da guerra.” Na revista à base esta revelou-se fortemente logística, com centenas de uniformes, mochilas, havia granadas de canhão e livros escolares.

Seguidamente o autor fará a narrativa da operação Mar Verde, depois vem as referências aos anos de 1971 a 1974, o autor elenca as unidades especiais de combate, conta a história, já referida no nosso blogue da epopeia da LDM 302, faz a lista dos marinheiros mortos na Guiné e para o próximo e último episódio fica reservada a narrativa, bem curiosa daquele que foi o último militar a sair da Guiné.

A LDG Alfange
Chaimite V-200

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 17 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26504: Notas de leitura (1773): Um outro olhar sobre a Marinha na guerra da Guiné em "Os Mais Jovens Combatentes, A Geração de Todas as Gerações, 1961-1974", por José Maria Monteiro; Chiado Books, 2019 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 21 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26516: Notas de leitura (1774): Philip J. Havik, um devotado historiador da Guiné: A sua colaboração num livro de arromba, Orlando Ribeiro em 1947, na Guiné (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26504: Notas de leitura (1773): Um outro olhar sobre a Marinha na guerra da Guiné em "Os Mais Jovens Combatentes, A Geração de Todas as Gerações, 1961-1974", por José Maria Monteiro; Chiado Books, 2019 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Outubro de 2023:

Queridos amigos,
José Maria Monteiro permaneceu 4 anos na Guiné, ligado à telegrafia. A sua ambição é mostrar a exemplaridade da Marinha de Guerra na Guiné, em Angola e Moçambique, referindo que esta geração de todas as gerações foi a mais combatente, a mais sacrificada e a mais revolucionária. Temo que exagere nas laudes que faz ao desempenho dos fuzileiros (cuja bravura jamais alguém contestou), e faz-se uma síntese, de acordo com os elementos que ele apresenta da intervenção dos fuzileiros e da Marinha de Guerra em geral a partir de 1961. Ele recorda que no segundo semestre de 1962 já havia confrontos com a guerrilha, na região Sul, faz uma menção detalhada da operação Tridente e de outras que se seguiram, vamos proximamente continuar com a síntese das atividades que ele apresenta entre 1964 e 1968, as alterações impostas por Spínola à atividade da Marinha, haverá mesmo espaço para se falar da operação Mar Verde.

Um abraço do
Mário



Um outro olhar sobre a Marinha na guerra da Guiné (1)

Mário Beja Santos

A obra intitula-se "Os Mais Jovens Combatentes, A Geração de Todas as Gerações, 1961-1974", por José Maria Monteiro, Chiado Books, 2019. O autor alistou-se em 1967 na Marinha, ofereceu-se como voluntário para a Guiné, nos dois primeiros anos desempenhou as funções de radiotelegrafista de uma lancha de fiscalização pequena; terminados os dois primeiros anos, passou para o Comando da Defesa Marítima da Guiné, continuando mais dois anos como marinheiro telegrafista. Foi aumentando as suas habilitações, concluiu o curso de Economia e, mais tarde, o de Direito.

Começa por lamentar a indiferença com que o país no seu geral trata os que combateram pela pátria, refere o sentimento de revolta que atinge os ex-combatentes; depois faz um esboço dos inícios da guerra colonial, uma descrição do recrutamento dos mais jovens combatentes, como se processava a partida para os teatros de operações e entramos propriamente na guerra de guerrilhas da Guiné, tudo matéria bem conhecida dos leitores, incluindo o mantra que as coisas na Guiné não correram nada bem durante a governação de Arnaldo Schulz, que em 1968 os relatórios não escondiam avanços e sucessos dos guerrilheiros, esperava-se uma mudança providencial com o brigadeiro António de Spínola, refere as primeiras diretivas do novo comandante-chefe, também matéria conhecida dos nossos leitores.

E lança-se então na gesta da Marinha de Guerra na Guiné, então encomiástico, assim, enaltecendo os fuzileiros:

“Penetraram nas matas africanas até ao fim do mundo, com uma vontade férrea de um povo que insistia em manter viva a herança de séculos e séculos, sem pensar que, um dia, as Forças Armadas portuguesas viriam a pôr fim a uma guerra suicida. No final do ano de 1961 embarca um pelotão de fuzileiros para a Guiné. Em junho do ano seguinte, embarca, por via aérea, o Destacamento de Fuzileiros Especiais (DFE) N.º 2, no final de dezembro de 1962 registaram os primeiros feridos entre os fuzileiros. Com o ataque a Tite em 20 de janeiro de 1963, começam as grandes façanhas dos guerrilheiros em terras da Guiné, uma vez que eram os homens mais bem preparados para este tipo de guerrilha. Existindo no Sul do território algumas áreas sobre o controlo do IN, os DFE, apoiados por diversos meios navais, a fragata Nuno Tristão, a LFP Argos, a LFP Escorpião e a LFP Dragão, entre outras, iniciam no Sul da Guiné, concretamente nas ilhas de Como, Caiar e Catunco, penetrando pelas matas serradas naquelas ilhas. Nas operações Trevo, Seta e Lima, competia ao DFE n.º 2 e DFE n.º 8 bater toda a zona envolvente a Darsalame, ocupando-a, tendo em vista içar de novo a bandeira portuguesa, facto que veio a acontecer em novembro de 1963.”

Não terá sido exatamente assim pois o comandante-chefe Louro de Sousa começou a arquitetar a operação Tridente para expulsar os guerrilheiros destas ilhas. José Maria Monteiro descreve a operação Tridente até à sua finalização, ficou a partir de março de 1964 uma unidade do exército na mata do Cachil, a Norte da ilha do Como, com a missão de patrulhar a ilha, controlar a margens do rio Cobade, de modo a assegurar o abastecimento aos operacionais de Catió. Ainda sob o comando de Louro de Sousa, o DFE n.º 2 participa com forças terrestres na operação Alvor, na península Gampará, em busca do quartel-general de Rui Djassi, esta península nunca tinha sido percorrida por forças militares; o relato não deixa claro o que aconteceu.

Com a nomeação de Arnaldo Schulz o Comando da Defesa Marítima da Guiné é alterado e descentralizado, criando-se quatro comandos sediados em quatro zonas distintas: Bacia hidrográfica do rio Cacheu; Bacia hidrográfica dos rios Geba, Mansoa e Corubal; Bacia hidrográfica dos rios Grande de Buba e Tombali; e Bacia hidrográfica dos rios Cumbijã e Cacine. O autor volta a desfazer-se em elogios aos fuzileiros: “Todos os movimentos independentistas só tinham medo e temor aos homens brancos ou negros, com a boina azul-ferrete pertencente aos destacamentos de fuzileiros especiais, em qualquer frente de batalha.”

E vem a seguir novos parágrafos de exaltação:
Se
“Dada a elevada preparação destes jovens combatentes, os DFE eram chamados para participarem nas operações de maior envergadura, tendo no mês de setembro de 1964 participado nas operações Touro, Hitler e Tornado, em que, nesta última, além dos quatro DFE, também participaram três companhias de cavalaria, uma de artilharia, uma de caçadores e um pelotão de paraquedistas, apoiados por duas LFG, duas LFP, oito LDM, três LDP e um ferryboat, sem, no entanto, encontrar qualquer resistência da guerrilha na zona do Cantanhez. A atuação quase permanente das forças especiais da Marinha de Guerra em toda a zona Sul, mormente na região do Corubal e Cacine, conduziu a um notório abrandamento da atividade inimiga, obrigando o PAIGC a deslocar-se para Leste e para Norte, em que os guerrilheiros do PAIGC tiveram de alterar os seus corredores habituais.”

Compreende-se que o autor tenha um elevado espírito corpo, mas os factos históricos desmentem esta gesta laudatória. Mas vale a pena continuar a acompanhar esta escrita:
“Na sequência da operação Tridente, os contactos com o inimigo continuavam a ser frequentes, pelo que havia necessidade de efetuar operações de reconhecimento no extremo sul, a ideia das operações no rio Camexibó e da operação Hitler era estancar e intersetar os corredores intervenientes da Guiné-Conacri, nomeadamente através do corredor de Gadamael. A LDM 305 entrou na foz do rio Camexibó no dia 6 de fevereiro de 1964, em fase de preia-mar com o objetivo de efetuar uma fiscalização àquele rio durante cinco dias. Para o efeito, foi reforçada com uma secção de fuzileiros da CF 3. Dois dias depois, quando se preparava para fundear a montante do rio, um dos elementos da companhia de fuzileiros apercebeu-se de um grupo numeroso de homens armados na margem direita daquele rio. Inicialmente, houve troca de palavras entre os elementos da companhia de fuzileiros e um comandante dos guerrilheiros do PAIGC, conversa que durou pouco tempo uma vez que o oficial que comandava a companhia de fuzileiros deu ordem à guarnição da lancha e aos fuzileiros para dispararem, tendo os guerrilheiros fugido para o interior da mata com baixas muito pesadas. A lancha de desembarque continuou a subir o rio Camexibó, a intenção era patrulhar todo o rio até à confluência com o rio Nhafuane, não só para certificar que comunicaria com o rio Inxanche, mas também verificar se aquelas zonas permitiriam a navegação fluvial a lanchas como a LDM 305 ou mesmo a de porte superior. No dia 29 de fevereiro de 1964, a LDM 305 iniciou a descida do rio Camexibó, sempre na expetativa de ataques dos guerrilheiros, perto das oito da noite foram atacados perto das margens do rio, sem provocar danos humanos, mais adiante foram localizadas cinco canoas, que foram destruídas. A partir do conhecimento obtido no local e das experiências adquiridas naquelas intervenções, foi decidido levar a bom porto uma nova operação, a qual teve o nome de operação Hitler, entregue ao DFE 8, sob o comando de Alpoim Calvão.”

Observa o autor que nenhuma destas intervenções foi bem-sucedida. Vamos ver seguidamente o que o autor tem para nos dizer quanto à síntese das atividades da Marinha de Guerra entre 1964 e 1968.

Ilustração do livro de José Maria Monteiro

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 14 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26496: Notas de leitura (1772): Philip J. Havik, um devotado historiador da Guiné: Uma mulher singularíssima, Bibiana Vaz, século XVII (1) (Mário Beja Santos)