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sexta-feira, 28 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26624: Humor de caserna (108): dicas da "medicina do viajante"...(Do blogue "Africanidades", do nossso amigo e histórico da Tabanca Grande, Jorge Rosmaninho Neto, desaparecido do nosso radar)



Jorge Rosmaninho Neto, andarilho africanista...agora desaparecido do nosso radar. Era (é) um dos 111 da Tabanca Grande.




1. José Rosmaninho Neto: "jornalista, independentista, alentejano" (sic),   viajante, professor (ocasional ?) na Guiné-Bissau, autor do blogue "Africanidades"... Um dos históricos do nosso blogue. Tem 20 referências. Com perfil no Blogger desde 2003... Nunca soubemos ao certo o seu poiso... Creio que era de  Évora. Em 2021 vivia na Suiça. Se calhar continua por lá.  Como muitos dos nossos "emigras"...

 Em suma, deixou de estar no nosso radar, desde finais de 2007... De qualquer modo, um homem não poder ser andarilho toda a vida... Para onde quer ele esteja, aqui vai o nosso "alfabravo".

Até finais de 2007 ainda trocámos algumas mensagens e publicámos algumas das suas fotos da Guiné-Bissau. Ofereceu-se inclusive para nos ajudar a organizar uma possível viagem àquele país onde, na altura, era cooperante (professor, se não erramos).

Sempre tivemos muito apreço pelo seu blogue Africanidades (vd. aqui no Arquivo.pt) de que se publicaram cerca de 300 postes, entre setembro de 2006 e maio de 2009.  Depois passou a ter uma página no Facebook mas perdemos o seu rasto.

Para "matar saudades", aqui vai com a devida vénia um texto do nosso amigo (que nunca fez tropa, pelo que ele nos contava nem teria idade para isso)... Um pequeno texto bem humorado sobre a "medicina do viajante"...


por Jorge Rosmaninho Neto


Tenho um desaguisado antigo com um certo tipo de médicos que trabalham no Instituto de Medicina Tropical, em Lisboa. Já aqui o assumi, depois de certo amigo, pela primeira vez em África, ter sido aconselhado a viajar para estes trópicos....

  • de gola alta (ridículo!);
  • botas por cima das calças (estúpido!) 
  • e camisola grossa, de noite, para se proteger dos mosquitos (idiota!).

Há lá pelo Instituto muita gente competente, avisada de África, conhecedora da realidade. Mas há também muita maçariquice, por parte de um certo tipo de gente que (arrisco a dizer) nunca foi nem sequer à Trafaria, ali em frente, do outro lado do Tejo.

Uns amigos que por aqui passaram na última semana, confessaram-me que a médica que os (des)aconselhou, no Instituto, lhes perguntou a certa altura onde ficariam instalados. Perante a resposta (“ficaremos em casa de amigos”), a doutorazeca disse:

- Então têm que ter mais cuidado ainda, porque essas pessoas que vivem em África têm a mania que nada lhes faz mal.

Néscios comentários como este provocam dois tipos de reacções:

  • uma, menos grave: um sorriso, por parte de quem aqui habita, pois de facto África não é papão de boca larga à espera da melhor oportunidade para comer tenros ocidentais!;
  • outra, mais grave: constrange quem viaja, obrigando as pessoas a adoptarem atitudes e comportamentos que afectam as suas férias (há quem traga água de Portugal e só beba dessa, desconfiada da água engarrafada que aqui se vende).

Na falta de camas em hospitais psiquiátricos para estes médicos, sugiro que sejam enviados para África. Desta forma poderiam: por um lado conhecer na prática a realidade local; por outro dar consultas de “medicina ocidental” aos que cá moram (os tais que “têm a mania que nada lhes faz mal”), antes de estes efectuarem viagens para a Europa.

Os verdadeiros perigos para a saúde dos viajantes estão lá, no primeiro mundo. Em primeiro lugar no plástico que se come e bebe. Depois, nas opiniões de médicos como estes.

Postado por Jorge Rosmaninho às 01:13 

(Seleção, revisão / fixação d e texto: LG)

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Nota do editor:

Ultimo poste da série > 21 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26604: Humor de caserna (107): "Teixeira Pinto colonizou a Guiné sem arcas frigoríficas", disse o Intendente em Bissau... Ao que o capitão, no mato, retorquiu: "Solicito envio urgente do Teixeira Pinto" (Aníbal José da Silva, ex-fur mil SAM, Vagomestre, CCAV 2383, Nova Sintra e Tite, 1969/70)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Guiné 61/74 - P17377: Historiografia da presença portuguesa em África (76): Subsecretário de Estado das Colónias em visita triunfal à Guiné, de 27/1 a 24/2/1947 - Parte V: De regresso, de Bafatá a Bissau, sexta-feira, 7 de fevereiro, com passagem por Fá (Mandinga), Bambadinca, Xitole e Porto Gole


Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 2005 > O Rio Geba, junto a Porto Gole. Do outro lado, a margem esquerda. Mais à frente, para leste, o Rio Corubal vai desaguar no Rio Geba.

Foto: © Jorge Neto (2005)- Todos os direitos reservados {[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole > 2005 > Marco comemorativo do V Centenário da Descoberta da Guiné (1446-1946) > Porto Gole, na margem direita do Rio, na estrada Bissau - Nhacra - Mansoa - Porto Gole - Bafatá (interdita no meu tempo, 1969/71. L.G.). A fotografia é do Jorge Neto (pseudónimo,. Jorge Rosmaninho, autor do blogue "Africanidades (Vivências, imagens, e relatos sobre o grande continente - África vista pelos olhos de um branco") que não já está ativo).

Este monumento foi inaugurado em 8/2/1947 pelo subsecretário de Estado das Colónis, engº  Rui Sá Carneiro, sendo governador geral Sarmento Rodrigues

Foto: © Jorge Neto (2005)- Todos os direitos reservados {[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole > Pel Caç Nat 52 (1966/68) > 1966 > Marco comemorativo do V Centenário da chegada do primeiro explorador da Guiné, em Porto Gole, fotografado em 1966. Este é o lado oposto à fotografia do Jorge Nero. Dizeres, gravados na pedra: "Aqui chegou Diogo Gomes, primeiro explorador da Guiné, no ano de 1456". Foto de  Henrique Matos, o primeiro comandante do Pel Caç Nat 52 (Enxalé e Porto Gole, 1966/68), açoriano de São Jorge, que vive hoje em Olhão.

Foto: © Henrique Matos (2009). Todos os dreitos reservados.[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]











Recorte da primeira página do "diário de Lisboa", nº 8693, ano: 26, edição de domingo, 9 de fevereiro de 1947 (Director: Joaquim Manso)

Cortesia de Casa Comum > Instituição: Fundação Mário Soares > Pasta: 05780.044.11044 > Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos

Citação:

(1947), "Diário de Lisboa", nº 8693, Ano 26, Domingo, 9 de Fevereiro de 1947, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22338 (2017-5-19)


1. P
rossegue a viagem ("triunfal", segundo a imprensa da época) à Guiné, do subsecretário de Estado das 
 (Colónias, Engº Rui Sá Carneiro, pelo interior Norte, Centro e Leste (regiões do Cacheu, Oio, Gabú e Bafatá), uma década depois da última "campanha de pacificação" (Canhabaque, arquipélago dos Bijagós, 1936/37)(*). 

Recorde-se que era então, em 1947, governador-geral o comandante da Marinha, Manuel Sarmento Rodrigues,
futuro ministro das Colónias e depois do Ultramar.

O representante do Governo de Salazar tinha chegado ao território no dia 27 de janeiro de 1947, tendo por missão encerrar as comemorações do V Centenário do Descobrimento da Guiné (em 1446).



2. Da leitura da curta notícia da agência "Lusitânia", publicada no "Diário de Lisboa", na sua edição de 9/2/1947 (pp. 1), fizemos um resumo para ajudar os nossos leitores a perceber melhor o seu enquadramento:


(i) no dia 7 de fevereiro de 1947, sexta-feira,  ao fim da tarde, o subsecretário de Estado das Colónias, engº Rui Sá Carneiro,   chega à Praça do Império, em Bissau, depois de um périplo pelo interior da Guiné, que incluiu as regiões de Gabu e de Bafatá;


(ii) às 8h30 desse dia despede-se de Bafatá e segue em cortejo automóvel até Fá (Mandinga) onde visita a serração mecânica do português, o "madeireiro" Fausto Teixeira ou Fausto da Silva Teixeira, radicado na colónia há 20 anos; (no nosso tempo, meu e do "alfero Cabral", em 1969/71, já não havia vestígios desta serração mecânica, e muito menos do Fausto da Silva Teixeira);


(iii) entretanto, em Bambadinca (e não Sambadinca, grosseira gralha tipográfica), e sob a aclamação de "milhares de fulas" (sic), o representante do governo da metrópole procede à condecoração de "três grandes chefes, companheiros de Teixeira Pinto" (sic), durante as campanhas de pacificação (1913-15); é pena o jornalista não citar os seus nomes;


(iv) ainda em Bambadinca, uma centena de crianças das escolas católicas e da escola oficial,  cantam, por seu turno, o hino nacional;




Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Setor de Xitole > 10 de março de 2009 > A antiga ponte Marechal Carmona, sobre o Rio Corubal, de há muito em ruínas... Já não era usada no tempo da guerra colonial... O primeiro camarada nosso a falar dela foi o David Guimarães que a revisitou em 2001. Sabemos agora que foi construída em 1937, e que colapsou logo a seguir... Quem terá sido o "engenheiro"  ?

O nosso camarada Carlos Silva, na sua última viagem à Guiné, andou no encalce desta "jóia arquitectónica", a antiga "Ponte Carmona"... Com um guia local, de catana na mão, a abrir caminho, num antiga picada que ia do Xitole até à ponte (assinalada, de resto, no mapa do Xitole)... O Carlos ficou fascinado com a beleza desta obra de engenharia...

Foto: © Carlos Silva (2009). Todos os direitos reservados..[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



(v) durante o trajeto de regresso a Bissau, o engº Sá Carneiro ainda terá tempo de visitar "a grande ponte do Rio Corubal, de 210 de comprimento, construída em 1937", e que entretanto ruíra, num troço de 21 metros, durante a época das chuvas; ora esta ponte só pode ser a do Xitole,a ponte marechal Carmona,  sendo substituída mais tarde (1956) pela ponte general Craveiro Lopes, no Saltinho (**);

(vi) às 13 horas dessa sexta-feira, dia 7 de fevereiro de 1947,  o nosso homem está em Porto Gole, depois de cambar o rio Geba, em Bambadinca;


(vii) mas, antes disso, ainda teve tempo de condecorar "dois régulos" (provavelmente do Cuor e do Enxalé), pelos "relevantes serviços prestados a Portugal";  


(viii) no caso de Porto Gole, ficamos a saber, segundo a notícia dada pela agência "Lusitânia", publicada no "Diário de Lisboa", que se trata de uma povoação recentíssima, "com poucos meses de existência", ou seja, construída em 1946;


(ix) o jornalista da "Lusitânia" assinala que Porto Gole foi o primeiro ponto de penetração portuguesa no interior da Guiné, "há 91 anos" [gralha, deve ser 491 anos];


(x) aqui, os mandingas, em maioria, e também aos "milhares" (sic), assistem à inauguração do monumento a Diogo Gomes, o primeiro explorador do continente africano: reza a história que subiu o estuário do Geba com três caravelas (!); (estranha-se a ausência dos balantas do Óio);


(xi) antes do descerramemto do  monumento, foi proferido um discurso sobre o feito histórico, discurso esse que esteve a cargo do  2º tenente da marinha Teixeira da Mota, ajudante de campo do governador geral Sarmento Rodrigues; e foi brilhante, ou melhor "notável", como não podia deixar de ser, proferido pela maior autoridade da época em matéria de história da Guiné;


(xii) oferecido pelo administrador de Mansoa, sede de circunscrição, foi servido o almoço, à sombra dos mangueiros, em Porto Gole;


(xiii) o eng Sá Carneiro seguirá depois para Bissau, ainda a tempo de chegar e ser "vivamente aclamado", na Praça do Império, por: (i) funcionalismo; (ii)comerciantes; (iii) colonos; e (iv) indígenas;


(xiv) no  domingo, dia 9, partirá movamente para o interior, incluindo as "pitorescas ilhas dos Bijagós": irá visitar as ilhas de Bolama e Bubaque;





Guiné > Zona Leste > Circunscrição de Bafatá > Rio Geba > 1931 > Cambança do rio Geba, antes das pontes de cimento armado... "Jangada no Rio Geba. Passagem entre Bafatá e Contuboel"... Imagem reproduzida em "O Missionário Católico", Boletim mensal dos Colégios das Missões Religiosas Ultramarinas dos Padres Seculares Portugueses, Ano VIII, nº 81, Abril de 1931, p. 169 (Exemplar oferecido ao nosso blogue pelo camarada Mário Beja Santos).

Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017)
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 4 de maio de  2017 > Guiné 61/74 - P17318: Historiografia da presença portuguesa em África (75): Subsecretário de Estado das Colónias em visita triunfal à Guiné, de 27/1 a 24/2/1947 - Parte IV: No chão fula, Bafatá e Gabu, 6 de fevereiro de 1947...

(**) Vd. poste de 8 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5237: Memória dos lugares (53): Rio Corubal: As três pontes... (C. Silva / P. Santiago / M. Dias / Luís Graça)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Guiné 63/74 - P3646: Ser solidário (25): E se eu fosse o Pai Natal ? Mensagens de e para os guineenses da diáspora e não só...(Luís Graça)


Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > 2007 > Uma foto, retirada (com a devida vénia...) do blogue Africanidades, do andarilho Jorge Rosmaninho Neto ("jornalista, independentista, alentejano"...), membro da nossa Tabanca Grande (paga as quotas em géneros...).

O poste é de 31 de Janeiro de 2007 e tem por título Sempre Bijagós... Uma aventura pelas estradas e picadas de África que chegou ao fim - com muita pena de quem o seguia ao longe... Sim, chegou ao fim da linha, em 4 de Agosto de 2008... Entretanto, vale a pena transcrever três parágrafos onde o Jorge deixou expressa a sua gratidão à Mãe África, um belíssimo Último obrigado, dedicado simbolicamente à Mãe Ema:

"As plantas dos meus pés são de geografia fácil e as costas pouco exigentes. Vou a qualquer lado e durmo em qualquer cama. Até no chão, a mais espaçosa de todas. No entanto, nesta vida de andarilho há uma coisa que não se dispensa nunca: alguém que trate de nós.

"Quanto vale chegar a um lugar desconhecido, depois de umas valentes horas de estrada, e ter uma cama feita com uma rede mosquiteira branca a protegê-la, um balde de água limpa para tomar banho e uma vela para iluminar os fantasmas da noite? Muito. Se juntarmos a isto uma mamã perguntando-nos se preferimos peixe ou carne para o jantar… Talvez só o céu seja melhor! (...)

"A mãe Emma serve-me de metáfora às mães que têm tratado de mim nestes muitos quilómetros de estradas e picadas africanas. E foram muitas. A todas elas, muito obrigado. Obrigado em especial às minhas três mães de verdade, as de sangue, paixão e coração, que me criaram e criam com beijos e papas de leite, muitas vezes enviados por telefone ou apenas pelas correntes de ar que se passeiam por aí vagabundas – como eu – e me acompanham para onde quer que vá: Ana, Adelaide e Cláudia".


O penúltimo poste que ele publicou, em 3 de Agosto de 2008, no seu blogue (cinco anos, 300 mil visitas...) foi curiosamente um texto do Pepito (A sombra do Pau Torto), retirado do nosso blogue: 31 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3101: História de vida (13): Desistir é perder, recomeçar é vencer (Carlos Schwarz, 'Pepito', para os amigos)


Até à próxima encruzilhada, Jorge!
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Este período das festas de Natal e Ano Novo, não é o melhor para blogar, para comunicar através da blogosfera: há demasiado ruído, há demasiada saturação de um certo tipo de mensagens (por exemplo, pedidos de ajuda, manifestações de solidariedade, exibição da caridade dos ricos...).

Acabei de fazer uma limpeza à minha caixa de correio, profissional, relativamente ao ano de 2008, e fui deparar com meia dúzia de mensagens que li na devida altura mas que não reencaminhei para a caixa de correio do nosso blogue. Seleccionei algumas, vindas sobretudo de guineenses (que vivem na Guiné ou na diáspora, por exemplo no Brasil), e que me pedem coisas, sobretudo informação sobre as mais diversas coisas (desde direito a pensão de sangue a mapas e bibliografias)...

A publicação dessas mensagens seleccionadas, espero que ainda seja útil e vá a tempo. Conto com a boa vontade e o jeito solidário dos amigos e camaradas da Guiné que fazem parte da nossa Tabanca Grande. Mas também de muitos outros que não dão a cara (nem têm que dar) e que nos visitam regularmente. Este é também um blogue de afectos e de gente solidária (*)... Só tenho pena é de não poder ser, por enquanto, o Pai Natal da Guiné...

[ Mas eu fosse o Pai Natal, de verdade ? Se nós fôssemos o Pai Natal, de verdade ? Vá, digam lá, amigos e camaradas da Guiné, o que gostariam de poder fazer para tornar mais felizes os nossos amigos guineenses, homens, mulheres e crianças ? O que deixariam este ano no saco do Pai Natal nas tabancas da Guiné, em Bissau, nos Bijagós, em Catió, em Bafatá, no Cachungo, em Bambadinca, no Gabu ?] ... LG

1. Mensagem de 4 de Dezembro último, enviada por Ecylasaluy Moreira Borges

Assunto - Informações sobre Gabú

Boa noite Dr. Luís Graça,

Sou guineense e socióloga, no momento eu estou no Brasil terminando o mestrado em estudos étnicos e africanos, o meu tema é: será que o casamento precoce tem uma influência na gravidez das jovens islâmicas (fulas e mandingas) em Gabú, mais só que estou com muitas dificuldades em conseguir material, queria saber se o senhor poderia me indicar algumas referências bibliográficas.

Atenciosamente,

1. 1. Comentário de L.G.:

Cara amiga e confrade, era pressuposto o INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa , de Bissau, ter algum acervo documental sobre o problema do casamento precoce e a gravidez na adolescência entre a comunidade islamizada da região do Gabu... Mas nós sabemos o que aconteceu ao INEP e ao seu centro de documentação, na sequência da guerra civil de 1998... (Foi uma tragédia imensa: para além das vidas que se perderam, a Guiné-Bissau fiquei igualmente amputada de um importante património cultural, parte do seu acervo documental que representa a sua memória e a sua identidade)...

Fora da Guiné-Bissau, talvez possa procurar nas bibliotecas de instituições universitárias portuguesas (para além das brasileiras...) onde há cursos de sociologia e antropologia tais como o ISCTE - Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, a FCSH/UNL - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa ou o ISCSP/UTL - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa... Dê também um salto ao portal Memória de África, uma biblioteca virtual gerida pela Fundação Portugal-África, ligada à Universidade de Aveiro.

É, para já, a ajuda de emergência que lhe posso dar... Com tempo, posso pedir uma pesquisa bibliográfica sobre este temática. Tenha um bom Natal e boa continuação dos seus estudos, aí no Brasil, grande país da lusofonia...

2. Mensagem de 1 de Dezembro último, enviada por Eliude Maria da Silva

Oi Luís Graça:

Sou brasileira e tive conhecimento deste preciossímo site ainda este ano quando pesquisava sobre a vida de Florence Nighitngale na Universidade em que estudo. Seu site [Luís Graça, sociólogo: Saúde e Trabalho] foi-me muito útil e desde aquela ocasião tenho perdido horas a pesquisar por este valiosissímo acervo.

Recentemente conheci dois estudantes guineenses que fazem faculdade aqui em Florianópolis (UFSC) e, por uma questão de curiosidade, sadia, decidi-me a pesquisar sobre sua terra natal, a impressionante Guiné-Bissau. O que encontrei na internet não foi muita coisa, exeção a seu site que enriqueceu-me em conhecimento atravês do acervo fotográfico sobre este país.

Por estar cursando Enfermagem, interessei-me pelo Hospital Simões Lopes ou Simões Mendes, não me recordo agora muito bem o nome. Gostaria então, se possível fosse você enviar-me ou até mesmo indicar-me sites, leituras ou literaturas sobre este hospital e sobre Guiné-Bissau, bem como sua capital Guiné.

Qual a situação de Guiné (capital) hoje? É a mesma que as imagens de 1996,1998 e 2001 mostram em seu site, isto é, devastada, arruinada, abandonada? Como vivem os guineenses?

Pergunto isto porquê percebo que este dois estudantes guineenses quando falam dizem que nós, brasileiros, não conhecemos a realidade do país deles, isto é, não é só pobreza ou muita pobreza mas é um país muito bom para morar-se. É isto mesmo? Eles dizem que somos influenciados pelo negativismo que a grande mídia televisa joga em nossas mentes aqui no Brasil, não permitindo-nos pensar e ver a boa realidade de Guiné-Bissau.

Agradeço muitíssimo se puderes me ajudar e mais uma vez parabenizo-o pelo maravilhoso sítio.

Abraço fraterno
Eliude.

2.1. Comentário de L.G.:

Querida Eliude (mas que nome maravilhoso!):

Para além da minha página pessoal, que você já conhece, tenho também este blogue que se chama Luís Graça & Camaradas da Guiné... É hoje um blogue colectivo com contributos de muitas centenas de homens (e de algumas mulheres) que conheceram a a antiga colónia portuguesa da Guiné, na África Ocidental (hoje, Guiné-Bissau, país independente mas um dos mais pobres do mundo)... E conheceram-na na pior altura para se fazer turismo: quando há guerra...

A guerra da Guiné foi o nosso Vietname e durou cerca de 11 anos (1963/74). Somos, quase todos, veteranos dessa guerra... Claro, temos laços afectivos que nos prendem àquela terra e às suas gentes maravilhosas... Mas o nosso core business não é a Guiné-Bissau actual, os seus problemas de desenvolvimento (político, social, cultural e económico...).

Preferiria que foi um guineense a responder-lhe, a responder à sua pergunta. "Qual a situação de Guiné hoje? É a mesma que as imagens de 1996,1998 e 2001 mostram em seu site, isto é, devastada, arruinada, abandonada? Como vivem os guineenses?"...

Já pedi a uma dos nossos amigos, guineense, para lhe responder. Aguardo que o Prof Doutor Leopoldo Amado, neste momento a trabalhar na Universidade de Cabo Verde, me mande a(s) sua(s) resposta(s) à(s) sua(s) pergunta(s)... Eu poderia responder-lhe, não prefiro não o afzer em público: umas das nossas 10 regras de ouro é justamente a da "não-intromissão, por parte dos portugueses, na vida política interna da actual República da Guiné-Bissau (um jovem país em construção), salvaguardando sempre o direito de opinião de cada um de nós, como seres livres e cidadãos (portugueses, europeus e do mundo)"...

Apareça, será sempre bem vinda...


3. Mensagem de 14 de Outubro último, enviada por José Geraldo Freitas da Silva

Assunto - Quantitativo das FFAA portuguesas durante a guerra do Ultramar.

Prezado Senhor:

Sou brasileiro de Belém do Pará e estudioso de conflitos ocorridos na Africa, em particular a guerra do Ultramar. Assim, gostaria de saber qual o quantitativo das forças portuguesas (Exército, Marinha e Aeronáutica) empenhadas durante o conflito.

att,
José Geraldo Freitas Silva
(silgeraldo@gmail.com)

3.1. Comentário de L.G.:

Meu caro José: Boa pergunta. Não tenho aqui a resposta na ponta dos dedos, mas posso sugerir-lhe que consulte o sítio (como se diz aqui, em Portugal)Guerra Colonial 1961-1974, criado recentemente pela A25A- Associação 25 de Abril. Uma verdadeira enciclopédia sobre a guerra provavelmente mais longa do Séc. XX, travada por um pequeno país europeu, a milhares de quilómetros de distância, em África, em três frentes (Guiné, Angola e Moçambique).

Boas pesquisas, boas leituras.


4. Mensagem de Iaia Djamanca, com data de 9 de Outubro último:
Ao iniciar gostaria de poder agradecer do fundo do meu coração por este magnífico trabalho da Vossa excelência, Senhor Luís Graça, sociólogo do trabalho e da saúde, doutorado em saúde pública, professor na Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, em Lisboa.

Fiquei impressionada com este brilhante trabalho que me facilitou num simples pesquisa que tava fazendo na minha faculdade aqui no Rio de Janeiro (Brasil) com os colegas brasileiros que queriam tanto conhecer algo da minha terra e o nosso crioulo. Finalmente consegui encontrar dentre muitas que eram do crioulo de Cabo-Verde, o seu trabalho.

Gostei muito e peço a Deus que apareça milhares de trabalhos como o seu para a Guiné - Bissau.

Obrigado pelo trabalho...

De: Iaia Djamanca
Estudante de Biblioteconomia na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

4.1. Comentário de L.G.:

Querida Iaia (um nome feminino bem guineense, bem lindo):

Fico encantado com as suas palavras. Mas dispenso o... Excelência. Trate-me apenas por Luís, um amigo da sua terra e do seu povo mas que, infelizmente, não fala fluentemente o crioulo... Espero que volte depressa à sua terra e que tenha ocasião de aplicar as suas novas competências no domínio das ciências da documentação. O seu país precisa de si. Um beijinho.



5. Mensagem de 28 de Setembro de 2008, enviada por Adulai Gomes Rodrigues

Caro amigo Luis Graça!

Sou natural das ilhas Bijagós - ilha de Sogá, estou muito interessado pelas histórias de outrora que escreve relactivamente à guerra colonial na Guiné. Mas o mais relevante para mim é sobre as ilhas Bijagós, de formas que sempre lhe peço apoio no sentido de me ter como o seu menino. Estou a tentar escrever um livro de histórias sobre as ilhas Bijagós, mas tenho muitas dificuldades, sejam materiais assim como técnicas e morais, pelo que preciso muito do seu contributo.

Como é a primeira vez espero a resposta para mais um contacto.

Muito obrigado.

Adulai Gomes Rodrigues
Natural das ilhas Bijagós - Sogá, tabanca de Eticoba
Estudante de Economia na Universidade Amilcar Cabral em Bissau
Assistente pesquisador no Projecto de Saúde de Bandim.
Celular: (+245) 667 27 88 ou 722 56 61

5.1. Comentário de L.G.:


Meu caríssimo Adulai:

Não sei a sua idade, mas eu pela minha parte devo ter a idade do seu pai... A guerra colonial acabou em 1974 (terá acabado mesmo em 1974 ?) e eu regressei da Guiné em Março de 1971... Só lá voltei em Março... de 2008. Muito tempo... Infelizmente não conheci nem conheço hoje as ilhas (que me dizem maravilhosas...) do seu arquipélago... Posso adoptá-lo como 'meu menino', quero ajudá-lo, mas sinceramente não sei muito bem como... O mais simples é perguntar-lhe se ainda precisa da minha ajuda e como posso eu ajudá-lo... Em que ponto está o seu livro ?


Entretanto, há outros membros do nosso blogue que conhecem os Bijagós e provavelemente até a sua ilha (Sogá) e a sua tabanca (Eticoba)... Vamos contar com a sua (deles) ajuda e interesse... Mantenhas.
_________

Nota de L.G.:

(*) Vd. último poste da série > 9 de Novembro de 2008 >
Guiné 63/74 - P3428: Ser solidário (24): Em marcha a expedição de ajuda humanitária de 2009 (José Moreira / Pepito / Carlos Silva / Xico Allen)

domingo, 23 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2376: Recordações do 1º Comandante do Pel Caç Nat 52 (Henrique Matos) (6): Insularidade e solidariedade no Natal dos açorianos


Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole > Marco comemorativo do V Centenário da Descoberta da Guiné (1446-1946) > Porto Gole, na margem direita do Rio, na estrada Bissau - Nhacra - Mansoa - Porto Gole - Bafatá (interdita no meu tempo, 1969/71.

Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole 2005 > Monumento erigido pela CART 1661 (Porto Gole, Enxalé, Bissá, 1967/68). Dizeres, gravados na base do monumento, em pedra: "Para ti, soldado, o testemunho do teu esforço".

Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole > 2005 > Restos do brazão da CART 1661 (Porto Gole, Enxalé, Bissá, 1967/68). Dizeres, inscritos na chapa em bronze: "Coragem, Esperança".


Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole > 2005> O Rio Geba, visto de Porto Gole. Do outro lado, a margem esquerda. Mais à frente, para leste, antes do Xime, o Rio Corubal vai desaguar no Rio Geba.

Fotos: © Jorge Rosmaninho Neto (2005), ou melhor, Jorge Rosmaninho, o autor de Autor do blogue Africanidades ("Vivências, imagens, e relatos sobre o grande continente - África vista pelos olhos de um branco", um andarilho de África, incluindo a nossa Guiné-Bissau) que entretanto se mudou para um outro poiso: vd. a nova versão do Africanidades. Com a devida vénia, ao Jorge, desejando-lhe o possível melhor ano de 2008, para ele, para a nossa África e para os nossos amigos africanos. Estas fotos já tinham sido divulgadas em post publicado no nosso blogue (versão anterior) (1). Justifica-se a sua (re)publicação, em novo formato, por haver poucas referências e pouca documentação no nosso blogue em relação a Porto Gole onde o Henrique Matos passou, emboscado, o seu Natal de 1967. (LG)


1. Mensagem do do Henrique Matos, 1º comandante do Pel Caç Nat 52 (Enxalé, 1966/68), açoriano que vive hoje em Olhão (2):

Caro Luís e co-editores:

Hesitei antes de escrever este post pois não tenho qualquer episódio interessante relacionado com o Natal no mato. Pretendo apenas dar uma imagem das dificuldades acrescidas que os açorianos sentiam quando eram arrancados das suas ilhas para servir a Pátria.

Se achares interessante avança, se não também não há problema.Aqui vai com um título sugestivo:

2. Comentário de L.G.:


Obrigado, Henrique... Vou-te publicar estes apontamentos biográficos na tua série Recordações do 1º Comandante do Pel Caç Nat 52... Faço votos para que a tua insularidade seja apenas física, e que continues a contar, no Natal e pela vida fora, com a solidariedade dos teus velhos camaradas de tropa e de guerra. Daqui do Porto, onde vim passar o Natal, vai um Alfa Bravo para ti e todos os nossos camaradas açorianos (que infelizmente ainda são poucos na nossa Tabanca Grande: para além de ti, assim de repente só me lembro do Mário Armas de Sousa, ex-Fur Mil do Pel Caç Nat 54, 1968/70, que no entanto não tem dado notícias) (3). (LG).


3. O meu Natal no mato ou as peripécias dos natais de um ilhéu na tropa

por Henrique Matos


1.º Natal - Acabada a recruta em Dezembro de 66, já próximo do Natal, tínhamos umas férias de não sei quantos dias até começar aespecialidade. Ir aos Açores estava fora de questão, as viagens só se faziam de barco e demoravam 3 a 4 dias para cada lado, quando o mar deixava.

Estava assim preparado para passar o Natal no quartel tal como os outros açorianos que não tinham família no continente. Mas a sorte estava do meu lado. Tinha feito amizade com um camarada que me convidou a ir com ele. Lá fomos de comboio até Rio Torto, perto de Gouveia, onde encontrei uma família espectacular que me fez esquecer um pouco o primeiro Natal longe dos meus. Até deu para fazer uma grande festa, pois como tocava umas coisas em viola e bandolim, animei o grupo lá do sítio com umas Janeiras.


2º Natal - Este, [o de 1967, ] passado na Guiné, em Porto Gole, e de que guardo apenas a breve recordação de estar toda a noite de prevenção à espera de um grupo IN que uma mensagem codificada dizia ter atacado uma coluna Bissau-Mansoa seguindo depois na nossa direcção.

3.º Natal - Internado no HMDIC (Hospital Militar de Doenças Infecto-Contagiosas) na Boa-Hora, [em Lisboa,] mais uma vez estava na contingência de passar o Natal sozinho. Mas... lá está a sorte. Um camarada ali internado, também vindo da Guiné, convida-me e lá fomos fazer a consoada em casa de seus pais, ali mesmo em Lisboa. Neste caso deu apenas para ter uma ceia excelente porque tinhamos de regressar ao hospital antes da meia noite.

Depois disto resta apenas desejar a toda a tertúlia o melhor Natal do mundo e que no próximo ano sejam muito felizes. Como sempre com um grande abraço.

Henrique Matos

________________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 30 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXV: CCART 1661 (Porto Gole, Enxalé, Bissá, 1967/68) (Luís Graça)

(2) Vd. último post desta série:

18 de Outubro de 2007 >Guiné 63/74 - P2191: Recordações do 1º Comandante do Pel Caç Nat 52 (Henrique Matos) (5): O baptismo de um periquito no Enxalé
Vd. também post de 22 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1871: Tabanca Grande (15): Henrique Matos, ex-Comandante do Pel Caç Nat 52 (Enxalé, 1966/68)


(3) 26 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXIII: O açoreano Mário Armas de Sousa (Pel Caç Nat 54: Missirá, 1969/70) (Luís Graça)

(...) Caro colega: Sou ex-furriel miliciano e estive na Guiné de 1968 a 1970, em Porto Gole, Enxalé, Xime e Missirá. Também estou na fotografia da vossa página, tirada no quartel do Xime, junto dos bidões.Tenho alguma informação e fotografias do meu grupo de combate para acrescentar à vossa página se possível (...)

(...) Meu caro Mário:

Fico muito contente (e o resto dos camaradas também) por este feliz reencontro, ao fim de tantos anos. Andámos juntos, no mesmo sector, e na mesma altura (mais tarde conhecido como o Sector L1, Zona Leste, com sede em Bambadinca e que incluía entre outros aquartelamentos e destacamentos, além da sede, o Xime, o Enxalé, Mansambo, o Xitole, Missirá...

No meu tempo, Portogole creio que já pertencia a Mansoa (e não a Bambadinca). Esta povoação ficava na estrada Bafáta-Mansoa-Bissau (interdita no nosso tempo) (...)

sábado, 6 de outubro de 2007

Guiné 63/74 - P2156: Cusa di nos terra (10): Susana, Chão Felupe - Parte V: Casamento (Luiz Fonseca, exFur Mil TRMS)

Foto 1 > Guiné-Bissau > Chão Felupe > 2 de Novembro de 2006 > A magia do pôr do sol na África Ocidental...

Foto: © Jorge Rosmaninho (20906). Africanidades > 2.11.06 > Por aí... (com a devida vénia e o nosso Alfa Bravo para o Jorge...).


Foto 2> Pôr-do-sol no Chão Felupe

Foto: © Luiz Fonseca (2007) (Direitos reservados)


1. Mensagem do dia 1 de Outubro de 2007, do nosso camarada Luiz Fonseca, ex-Fur Mil Trms (CCAV 3366/BCAV 3846, Susana e Varela, 1971/73)

Caros editores:

Enviadas que estão algumas notas(1) chegou, talvez, a altura de questionar sobre o real interesse das mesmas, no presente contexto, para a maioria dos camaradas. Para isso conto com a vossa habitual frontalidade.

É evidente que todas elas, com todas as imprecisões que possam conter, resultam da possibilidade de, durante a minha comissão de serviço, procurar conhecer, em curtas e espaçadas incursões, com alguma (bastante) diplomacia à mistura, um pouco do mundo de uma etnia que, para os próprios guinéus, é praticamente desconhecida e, como consequência, motivo de medos e desconfianças.

Terminada a minha permanência naquele chão, o bichinho da curiosidade e, porque não dizê-lo desde já, admiração, já exponenciado, aumentou pelo que, de uma forma ou outra, tentei manter-me ao corrente, com grandes dificuldades na obtenção de informação fidedigna, do que ali se passava.

Africanidades, do Jorge Neto [opu melhor, Jorge Rosmaninho], foi o meu blog de sustentação e através dele tomando conhecimento do esquecimento a que, voluntária ou involuntariamente, votaram aquela gente e aquela região. Ela só surgia nas notícias dos media quando existiam problemas, na sua grande maioria envolvendo os vizinhos do norte, já antigos, e a que voltarei quando se afigurar oportuno.

No espaço que mantenho, 5ª Rep, já fiz sentir algumas opiniões sobre tal facto.

Mas voltemos ao que me propus.
Desta feita para falar em: Casamento.
Luiz Fonseca
(ex-Fur Mil Trms CCAV 3366)

2. Comentário dos editores

Caro Luiz Fonseca:

Os editores não têm qualquer dúvida em afirmar que os teus apontamentos sobre a etnia Felupe, com que nos tens presenteado regularmente, são do interesse da esmagadora maioria das pessoas que acedem à nossa página, combatentes ou não, porque dão a conhecer uma etnia com costumes muito próprios e desconhecidos de quase todos nós.

A África toca todos os portugueses e a Guiné, particularmente, a nós tertulianos do Blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné.

O Casamento (Felupe), que nos mandas agora, é um exemplo do que se acaba de escrever.
A tua narrativa é tão sugestiva que dispensa imagens.

Se cada um de nós tivesse recolhido elementos sobre o uso e costumes do Chão que pisou e o transmitisse nestas páginas, teríamos um fabuloso compêndio de antropologia sobre a Guiné dos nossos tempos.

Já agora fica a sugestão para que se houver entre nós mais alguém, a exemplo do Luís Fonseca, que tenha escritos sobre os usos e costumes dos povos da Guiné, apresente os seus trabalhos e contribua assim para aumentar o nosso conhecimento.
CV

Foto 3 > Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Varela > Iale > 2004 > Festa da saída da Cerimónia de Circuncisão (fanado, em crioulo) da etnia Felupe em Iale.

Foto: © Guiné-Bissau, portal da AD - Acção para o Desenvolvimento (2007) (Com a devida vénia)


3. Casamento (Felupe)

Por Luiz Fonseca

O casamento na etnia Felupe tem regras muito especiais que demoram anos a cumprir. Os preliminares podem começar quando um rapaz tem entre 10 e 14 anos. Ele pode escolher uma rapariga para sua namorada ou ser aconselhado nessa escolha pelos pais, mantendo, no entanto, a possibilidade de não aceitar as sugestões. Tal sucede com pouca frequência, embora a partir dos 15 anos os rapazes não necessitassem de autorização paternal para andar por qualquer lado do território.

Uma vez feita a escolha, o rapaz, pede ao seu pai para falar ao pai da rapariga escolhida que, por sua vez, perguntará à mesma se quer ficar "amiga" do rapaz em questão. Normalmente e por uma questão de pudor, simulado, a rapariga dirá que não conhece o rapaz pelo que numa próxima festa a sua mãe lhe dirá, indicando-o às escondidas, quem é o pretendente. Em qualquer altura posterior a rapariga tem a liberdade de recusar.

Depois da festa, o pai do rapaz leva ao pai da rapariga uma cabaça de vinho de palma e retira-se. Se a cabaça for devolvida vazia significará que o namoro foi aceite. Se a rapariga não aceitar o namorado devolverá o vinho.

A cerimónia do Edjurorai

Quando o rapaz tiver entre 15 e 16 anos tem lugar a cerimónia do Edjurorai. O rapaz tem que arranjar um galo (castrado) e uma galinha e irá, com alguns amigos da tabanca, antes do sol nascer, acordar a rapariga.

Esta deve matar o galo, batendo com a cabeça do animal no chão ou num tronco de árvore, enquanto o rapaz fará o mesmo com a galinha. Após esta cerimónia o rapaz trará os animais para a sua morança e vai comê-los com os amigos.

O Edjurorai é uma cerimónia colectiva feita na mesma madrugada por rapazes (cerca de 15) com namorada já escolhida. Depois desta cerimónia o pai do rapaz começa a criar um ou vários porcos, conforme o seu poder económico, para, passado cerca de um ano, ter lugar a cerimónia do Ebandai.

O porco ou porcos são mortos e divididos rigorosamente, exceptuando as cabeças. Uma das metades da carne é levada, no dia seguinte, muito cedo, pelas mulheres da tabanca do rapaz, à casa da rapariga, onde é distribuída pelos moradores. A família da rapariga retribui a oferta com mandioca e bananas, géneros que são consumidos pelas mulheres carregadoras, uma vez regressadas a casa do rapaz. A outra metade da carne de porco é distribuída pelos moradores da tabanca do rapaz. Nesse mesmo dia, começa a cozinhar-se, para serem comidas no dia seguinte, a cabeça ou cabeças dos porcos, com arroz fornecido por todos os elementos da tabanca do rapaz. A essa refeição assistem, como convidados, os elementos da tabanca da rapariga.


A cerimónia do Bubapassabu

Quando atingir os 21/22 anos, o rapaz começa a construir a sua casa nova, com o precioso auxílio dos amigos e outros rapazes da tabanca e o pai a juntar vinho de palma e galinhas para a cerimónia do Bubapassabu. O vinho e as galinhas são levados para casa do pai da rapariga, procedendo-se a várias cerimónias num santuário anteriormente combinado. Quando se acabam as galinhas o pai da rapariga avisa o pai do rapaz que pode ser realizado o casamento (Buiabu).

Quando existe já suficiente vinho de palma, o pai do rapaz avisa os moradores da sua tabanca enquanto os pais da rapariga fazem igual aviso aos seus, relativamente à data certa do casamento, realizado normalmente num Domingo Felupe (salvo erro Quinta-Feira no nosso calendário).


A cerimónai do Buiabu

Na manhã do dia do casamento há um toque especial do Bombolom, na tabanca do rapaz, após o que os jovens, rapazes e raparigas, vão ao mato buscar o vinho de palma que o noivo juntou, transportando-o para a casa nova. Ao princípio da tarde desse dia, a família da noiva leva para a casa nova um balaio com arroz, um pilão e o respectivo pau de pilar. Nessa noite os homens que são pais, levam o noivo para a mata. Igualmente na tabanca da noiva, as mulheres casadas, que já são mães, levam a noiva para a mata.

Os dois grupos ministram, separadamente, conhecimentos sobre o casamento. Passadas algumas horas, a noiva, chega à casa nova onde espera, acompanhada pela família, a chegada do noivo. A noiva tem, obrigatoriamente, de entrar na casa nova pela porta da frente. A chegada do noivo, que entra pelo quintal, carece do ritual de atravessar a casa seis vezes. Depois disso, o ritualista do Fanado conduz o noivo, para junto da noiva, ficando ambos sentados.

Segue-se a festa em que todos cantam, dançam e... bebem o vinho do noivo. Quando este terminar todos abandonam a casa ficando apenas o Arrontchenau, escolha do pai do noivo. Esta figura é uma espécie de encarregado do casamento e ao mesmo tempo padrinho. A mulher do padrinho leva a noiva ao quarto e ambas colocam uma esteira no chão, a mulher deve ficar sempre do lado da parede. Depois os padrinhos retiram-se, sendo consumado o casamento.

Na manhã seguinte, antes do nascer do sol, a noiva vai novamente para a casa paterna.


A cerimónia do Etuiai.

Nos dias seguintes, à noite, e durante cerca de três semanas, a noiva vai a casa dos padrinhos, pedir-lhes para a acompanharem à casa nova, onde dorme, voltando a sair na madrugada seguinte. Passadas as cerca de três semanas a noiva avisa a mãe que vai começar a fazer comida para o marido.

Esta avisa a sua tabanca e o pai do noivo, que por sua vez avisa a sua tabanca, que vai ter lugar a cerimónia do Etuiai.

O noivo deve arranjar arroz, peixe e vinho de palma. As mulheres da tabanca da noiva é que cozinham, só elas, não a noiva, e só se alimentam os jovens da tabanca do noivo, mas não este. No final da refeição toda a gente lava as mãos numa grande panela de barro com água que entretanto se tinha aquecido.

Após ter sido posta mais lenha no lume, de modo a fazer uma grande fogueira, o rapaz mais velho da tabanca do noivo, sem a presença de testemunhas, levanta a panela no ar e larga-a de modo a que ele se parta e apague o lume.

Depois disso todos saiem, com excepção dos padrinhos que transmitem à noiva que já pode cozinhar. Todavia, embora cozinhando, durante a primeira semana não come na sua casa, indo fazê-lo a casa dos padrinhos.

No final da semana, entra finalmente na rotina diária.

Tanto quanto consegui entender a lei Felupe não admite poligamia. Os casamentos são monogâmicos, permitindo-se no entanto a separação dos casais. O mais comum, contudo, é ver casais que permanecem unidos até morrer um dos conjuges.

Depois desta longa dissertação, o melhor é dizer
Kassumai

Luiz Fonseca
(ex-Fur Mil Trms CCAV 3366)

___________________

Nota do co-editor CV

(1) Vd. posts anteriores:

16 de Setembro de 2007 >Guiné 63/74 - P2110: Cusa di nos terra (9): Susana, Chão Felupe - Parte IV: Mulher e Comunitarismo (Luiz Fonseca

5 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2081: Cusa di nos terra (7): Susana, Chão Felupe - Parte III: Trabalho, lazer, alimentação, guerra, poder (Luiz Fonseca)

31 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2074: Cusa di nos terra (6): Susana, Chão Felupe - Parte II: Religião (Lui Fonseca)

15 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2052: Cusa di nos terra (5): Susana, Chão Felupe - Parte I (Luiz Fonseca)

terça-feira, 12 de junho de 2007

Guiné 63/74 - P1839: 10 de Junho de 2007: Manifestação da Associação dos Combatentes Portugueses na Guiné-Bissau (A. Marques Lopes)


Guiné-Bissau > Junho, o mês das mangas > "A caça às mangas : Sabem a mel, as mangas de Junho. Enganam a fome e divertem os miúdos, que se entretêm a derrubá-las da árvore com tiros certeiros. No tempo das mangas há pedrada que ferve! E de quando em vez um pára-brisas partido, dum veículo estacionado debaixo de uma mangueira. No tempo das mangas todos enchem a barriga" (Fonte: Africanidades, blogue do Jorge Rosmaninho > 30 de Maio de 2007)

Foto: Africanidades (2007) (com a devida vénia...).


Notícia da Lusa, divulgada pelo Diário Digital (Secção: Sociedade), e que chega ao nosso blogue por mão do A. Marques Lopes, o mais bem informado, de todos nós, sobre a actualidade política, social e económica da Guiné-Bissau.


FAP/Guiné: Antigos combatentes reivindicam pensões e reformas

Diário Digital / Lusa > 10-06-2007


Mais de 50 antigos combatentes guineenses das Forças Armadas Portuguesas (FAP) manifestaram-se este domingo frente à Embaixada de Portugal em Bissau para reivindicar o pagamento de pensões e reformas (1).

«Estamos aqui a reivindicar os nossos direitos que são reformas, pensões de sangue e invalidez» para as pessoas que, há 34 anos, combateram do lado dos portugueses, afirmou o presidente da Associação dos Combatentes Portugueses na Guiné-Bissau, Marques Vieira.

«França, Inglaterra e Alemanha pagaram os direitos aos seus antigos combatentes, porque razão Portugal não paga aos seus?», questionou o responsável, adiantando que também pretendem saber se vão «ser pagos na Guiné-Bissau ou se vai tudo para Portugal».

Lembrando que há antigos combatentes doentes sem assistência médica, o porta-voz da associação, Malam Mané, frisou que, quando os portugueses se foram embora daquele território, os guineenses foram perseguidos e alguns fuzilados.

Nesse sentido, a Associação dos Combatentes Portugueses da Guiné-Bissau apela ao Estado português para assumir as suas responsabilidades, após já se terem manifestado no passado dia 25 de Abril, com as mesmas exigências.

___________

Nota de L.G.:

(1) Sobre o problema dos antigos combatentes africanos e suas (justas) reivindicações, vd. posts de:

27 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P998: Antigos combatentes: sem pernas, sem braços mas com memória (Jorge Neto)

7 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1156: Dar voz (e fazer justiça) aos antigos combatentes africanos (Jorge Rosmaninho)

quinta-feira, 15 de março de 2007

Guiné 63/74 - P1598: Conto(s) do barqueiro do Geba (Luís Graça)



Africanidades > 8 de Março de 2007 > Do Casamança ao Cacheu

Foto: © Jorge Rosmaninho Neto (2007). (Com a devida vénia...). Extraído do seu blogue Africanidades (Vivências, imagens e relatos sobre o grande continente África vista pelos olhos de um branco... que, por sinal, é também um grande português do pós-império)


Jorge: Roubei-te o teu barqueiro, o teu belíssimo homem da piroga no Cacheu, que eu não conheço. Conheci o Geba, o Corubal, o Udunduma, outros rios, a mesma humanidade, a mesma africanidade...

Revisito de tempos a tempos o teu/nosso blogue, o Africanidades, as tuas vivências, imagens e relatos sobre o grande continente África (re)visto, sentido, cheirado, apalpado, (red)escrito, fotografado, amado por um grande português do pós-império, errante, inquieto, solidário, meridional, global...

Olha, em troca, deixo-te aqui um poema, uma lengalenga que um dia ouvi a um barqueiro do Rio Geba. Não sei fula, nem mandinga, nem balanta. Mas - imagino - a língua dos barqueiros não deve diferir muito de rio para rio, do Geba ao Tejo, e até ao rio da nossa aldeia, como diria o Alberto Caeiro/Fernando Pessoa (O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia /Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia)...

Ao Jorge e ao todos os portugueses errantes, de ontem, de hoje e de amanhã. A todos os barqueiros do mundo. A todos os rios sem ponte. A todos os que querem cambar um rio e não têm barqueiro, nem barca, nem ponte, nem margens, nem pontos de cambança ou de referência... Por fim, ao senhor barqueiro de Caronte para que, quando nos levar, de vez, na sua barca, nos leve com cuidado, com jeito, não vá a gente... acordar. (LG).


Conto(s) do barqueiro do Geba
por Luís Graça (1)


Um homem passa o rio,
a nado.
Um homem atravessa a ponte
sobre o rio.
Um homem cai ao rio,
baleado.

Há uma piroga
no tarrafo.
Metralhada.
E flamingos brancos,
tingidos de vermelho.

Um homem pensa na jigajoga
da vida e da morte.
Um homem olha-se ao espelho.
Um homem porfia,
e nem sempre alcança.
Um homem tem uma crise,
de confiança.

Um homem do norte
camba o rio.
A sul.
A vau.
O Geba Estreito.
Que a última coisa a perder
é a esperança.

Um homem desenha uma ponte,
imaginária,
entre dois pontos
de cambança.
Um homem farda-se,
a preceito.
Um homem põe-se a pau,
a caminho do Mato Cão.
O inferno em frente,
o rio serpente,
e Lisboa ali tão longe,
tão azul,
tão gregária.
Lisboa, o cais
de Alcântara,
uma multidão de pontos negros.
Outra ponte,
outro rio.
Saudades a mais.
Um nó na garganta.

Um homem do norte
faz o corte
epistemológico
dos pré-conceitos etnocêntricos.
Quem sou eu, viajante ?
Quem és tu, barqueiro ?

O homem é o mal escatológico
que atravessa o céu,
de bronze.
O homem é o jagudi
em voos concêntricos.
O homem é a hiena que ri.
O homem é o pássaro-bombardeiro.
O animal alado.
O helicanhão.
O falo de fogo.
O obus catorze.
O RPG Sete.

Um homem é apanhado pelo macaréu
da história.
Como um cão.
Sem glória.
E na bolanha de Finete
descobre que não há ponte
nem salvação,
que há terra e céu,
mas não há elo de ligação.

Um homem perde a memória,
ao afundar-se no tarrafo do Geba.
Um homem chama o barqueiro
da outra margem.
Em vão.
O barqueiro faz contas
à vida
que custa manga de patacão.
E ao progresso que não chega,
ao motor de explosão,
ao motor da Yamaha,
à explosão dos cinco sentidos,
aos Strela,
aos Katiusha,
ao cimento e ao aço,
à liberdade de circulação.

Um homem passa a ponte,
a passo,
a peso pluma.
A ponte armadilhada.
O barqueiro conta um conto
em cada viagem.
O barqueiro de Caronte.
Um peso, irmão.
Um bilhete de ida,
Sem regresso.

Um homem exorta o soldado
a que leve a guerra a peito.
É o capitão,
medalhado,
que nunca irá chegar a oficial general.
O fantasma do capitão-diabo,
vagueando pelo Cuor.
Estatuado,
na capital.

Vou no Bissau,
num barco à vela,
no barco da Gouveia.
Aproveito a maré-cheia
e o cacimbo sobre Ponta Varela.

O milícia, número tal,
vai morrer,
exangue,
como a última estrela
da manhã.
E eu espreito o rio,
da minha torre de Babel.
Um terceiro homem pára.
No semáforo.
Vermelho.
De sangue.
A caminho de Madina/Belel.

__________

Notas do editor do blogue:

(1) Vd. outros poemas do autor, de temática guineense ou africana:


5 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1342: Poema: os meninos da Ilha de Luanda (... pensando nos meninos de Bolama, de Chamarra, de Mansambo ou de Saré Ganá) (Luís Graça)

5 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1047: Alá não passou por aqui (Luís Graça)

1 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P930: O Relim não é um Poema (a propósito da Op Tigre Vadio) (Luís Graça)

10 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLII: A galeria dos meus heróis (2): Iero Jau (Luís Graça)

17 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - LIX: Esquecer a Guiné...por uma noite!(Luís Graça)

11 de Julho de 2004 > Blogantologia(s) - XVI: Luanda revis(i)tada (Luís Graça)

Outros textos poéticos disponíveis em:

Blogue-Fora-Nada e... Vão Dois

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1259: Dicas para o viajante e o turista (4): Um cheirinho a alecrim & rosmaninho (Luís Graça / Jorge Rosmaninho Neto)

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O Jorge algures em África: um homem entre homens... Fonte: © Africanidades (2006) (com a devida vénia...).

 O autor deste blogue é membro da nossa tertúlia e mantém connosco uma política, mutuamente vantajosa, de troca de serviços, de ideias, de afectos e de roncos...
Foto alojada no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.

Para quem chegou agora ao blogue e/ou à nossa caserna virtual, o Jorge Neto (aliás, Rosmaninho, em auto-homenagem à sua costela alentejana) é um branco, um tuga (não sei se ele gosta do termo), da nova geração - e que portanto não fez a guerra colonial, como nós-, que vive e trabalha em Bissau, e que dá voz (e imagem) aos guineenses que a não têm.
 
Há uns meses atrás (1), eu disse-lhe que continuava a apreciar (e a invejar) o seu trabalho como jornalista independente, lúcido, sensível e corajoso e sobretudo o seu blogue, o seu Africanidades (que agora mudou de poiso)... (Eu penso que ele é também mais coisas, como professor, formador...).

Continuo a pensar que o nosso Jorge (e mais um punhado de gente heróica e solidária, como o Pepito ou o Paulo Salgado) continua a fazer mais pela língua de todos nós, pela lusofonia, pela cultura portuguesa, e pela amizade luso-guineense do que todos os burocratas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, de cá e de lá, juntos e atirados aos jacarés do Rio Corubal... Dir-me-ão que é uma hipérbole, uma caricatura, uma metáfora... Seja. A verdade é que eu continuo a ser fã do Jorge, o nosso Alecrim & Rosmaninho em terras da Guiné...

Não resisto, por isso, a roubar-lhe, de tempos a tempos, um cheirinho daquelas terras por onde passámos nos nossos verdes anos (ou onde deixámos os nossos verdes anos)... Hoje transcrevo um saborosíssimo texto que ele postou, no seu blogue, no dia 1 de Maio de 2006, sob o título Buracos e Decibéis...

O Jorge não é um coleccionador do anedótico e do exótico, é um cidadão do mundo que ama sobretudo a aventura humana e que é capaz de se emocionar com o quotidiano dos homens e mulheres que (sobre)vivem em países tão belos e tão precários como a Guiné-Bissau... Conhecedor de África como poucos jovens da sua geração, não mete todos os africanos, povos e países, no mesmo saco da globalização pós-modernista, sendo capaz de fazer juízos diferenciais como este: "Na Guiné-Bissau admirei-me com o civismo (em geral acima da média africana) com que grande parte dos condutores locais conduz os seus veículos"...

Acho que esta é uma também boa dica, para a reflexão e a acção dos nossos camaradas e amigos que se preparam dentro de dias - no dia 17 - para partir para a Guiné (estou a pensar mais concretamente no Carlos Fortunato e no José Bastos) (2)... Enfim, é também uma pequena achega às valiosas dicas que o Vitor Junqueira, outro andarilho e amigo da Guiné e dos guineenses, já aqui nos deixou (3)... Mais dicas de outros tertulianos serão bem-vindas.
 
PS - Poder-me-ão acusar de paternalismo e de estar a projectar no Jorge - que eu, por infelicidade, ainda não conheço pessoalmente - os fantasmas, as culpas, as frustações, as expectativas e as ilusões da geração da guerra colonial (ou do Ultramar, como queiram)... Até pode ser, mesmo que ele, coitado, não tenha costas tão largas para arcar com tremenda responsabilidade... Mas não é isso: sendo da geração pós-colonial, só tendo conhecido a Guiné pós-independência, o Jorge está naquele país por vontade própria e em missão de paz, como paisano... E se acaso eu o invejo, é apenas porque ele substituiu a G-3 pelo portátil, a máquina digital e o gravador... Como eu gostaria de ter estado nessa situação em 1969/71!...


2. Buracos e decibéis
por Jorge Neto (aliás, Jorge Rosmaninho)

Fazendo por alto a soma do conta-quilómetros pessoal em transportes públicos africanos, calculo que a coisa se situe entre os 10 e os 15 mil. A estes ainda poderei juntar cerca de 10 mil quilómetros, palmilhados no conforto de veículos próprios, alugados ou emprestados.

Horas a fio de estrada. Incontáveis esperas sonolentas em paragens de pó e gasóleo (aqui um carro só anda depois de a lotação estar completa). Cansaço acumulado em estradas pavimentadas a buracos. Avarias na berma, pedidos de boleia à sombra de embondeiros. Furos. Um despiste e uma ressurreição, no Niassa, Moçambique, quando alguns companheiros de viagem morreram abalroados por um camião. Tinha deixado o local minutos antes.

No Zimbabué, cretinocracia habitada por gente com fome, decadentes autocarros mostraram-me um país de capim dourado e elefantes. No centro e norte de Moçambique visitei o paraíso em oxidados machimbombos e trôpegas chapas (as de caixa aberta e as históricas Toyota Hiace). Nas sept places [sete lugares] senegalesas (as também históricas carrinhas Peugeot 504) provei o sabor de um país bonito, recheado de gente oportunista. As neuf places [nove lugares] mauritanas (as mesmas Peugeot, mas com dois passageiros mais que no vizinho Senegal) fizeram-me voar, literalmente, pelas areias do deserto. Nos autocarros estufa (sem janelas ou ar-condicionado) do tórrido Mali desfiz-me em suor, procurando o sul do Sahara. Na Guiné-Bissau admirei-me com o civismo (em geral acima da média africana) com que grande parte dos condutores locais conduz os seus veículos.

No fim de tantas viagens aprendi uma máxima que guardarei para sempre no livro das errâncias por estradas africanas: aqui (como em todo o continente), um transporte público pode não ter faróis, piscas, seguro, chapa de matrícula ou travões, mas tem, de certeza, um potente rádio de colunas roufenhas a debitar decibéis e a desfazer, desta forma, a angústia de longas jornadas a consumir buracos. No interior de uma candonga todos se abanam, não ao som dos acordes, mas ao sabor das covas da estrada. Também poucos falam, que o condutor sempre faz questão de mostrar a potência das roufenhas colunas que adornam o veículo. A foto e o som do interior de uma candonga guineense para ver e ouvir em baixo

sábado, 4 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1245: Efemérides: Quarenta anos sobre Catió (João Tunes)

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Guiné > Região de Tombali > Catió > Vista aérea de Catió em 1968 (fotos, a preto e branco, de Vitor Condeço) e em 2005 (foto , a cores, de Jorge Rosmaninho).
 
Fonte: Africanidades (2006) (com a devida vénia...). O Jorge Rosmaninho é membro da nossa tertúlia e mantém connosco uma política, mutuamente vantajosa, de troca de serviços e de roncos...

Direitos reservados. Fotos alojadas no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.


Quarenta anos sobre Catió
por João Tunes

Quanto é que a distância no tempo e dos lugares pode impressionar a memória? Contento-me com o vago muito. E no remexer da memória, falando do registo em imagens, mais que uma velha fotografia que se desenterra e a que se limpa o pó, tanto é o tamanho do que impressiona ao rever um lugar onde ficou um bocado da pele e olhar-lhe as idas e voltas do tempo e a mudança da afirmação da sua modernidade (ou, por vezes, a sentença da decadência).

Há dias, mirando o blogue do Jorge Rosmaninho (*)(o Africanidades), dei com fotografias de Catió com quase quarenta anos de diferença. As duas mais antigas (de 1968), a preto e branco, tiradas por Vítor Condeço, mostra a Catió que bem conheci dois anos após o tempo do bater das fotos.

Em primeiro plano, a pista de aviação em terra batida e que era a nossa principal ligação ao resto da Guiné e ao mundo. Após a pista, a vila habitada por gente bem hospitaleira. Ao fundo, quase indistinto, o quartel sede de batalhão onde se viveram sufocos de morteirada e alegrias de excelentes convívios e camaradagens, além dos copos, muitos copos, para aguentar a espera do passar o tempo e arribar a hora de zarpar.

A recente, a cores e sob o mesmo ângulo, tirada há um ano, traz o verde especial do sul da Guiné e a mesmíssima (antiga) pista, agora recortada com trilhos e os sinais humanos de ocupação social do espaço.

Pela foto de hoje, imagino a importância que Catió hoje ocupa como capital de distrito. E que fará toda a diferença da Catió sitiada e flagelada, encrustada como testa de ponte e comando na resistência militar colonial a que o sul da Guiné (o famoso reino de Nino) não fosse o desastre absoluto da anunciada derrota na guerra como era seu destino.

E fixo-me naquela hoje transformada pista de aviação, pensando no contraste. Ficando a meia nau entre feliz e triste. Feliz porque antes assim. Triste porque me pergunto porque raio o tempo me levou ali, pousando naquela pista, no tempo que não o certo.

Confesso que é esta mesma perplexidade, este conflito de sentimentos, esta dualidade de querer e não querer, que me mantêm a força da recusa em voltar à Guiné e voltar a pisá-la com os meus passos. Por muita garantia que a voltaria a pisar, como o fiz de 1969 a 1971, com os cuidados devidos a quando se pisa terra de outros. Talvez daqui até 2008, seja tempo suficiente para acumular a energia de desinibição necessária para voltar a Catió em passagem para Guileje para poder mirar a excelente obra do Pepito e seus companheiros (3), rendendo-lhe o preito que eles tanto merecem. Oxalá vença a vontade sobre a desvontade. Oxalá.

Abraços para todos.

João Tunes
(Ex- Alf Mil Trms,
CCS/ BCAÇ 2884, Pelundo, 1969/7o; CCS/ B..., Catió, 1970/71)


(*) Porque diabo o Jorge Neto, num ápice, se crismou de Jorge Rosmaninho? O companheiro casou-se e adoptou o apelido da consorte? E, se por isso foi, como não pagou ronco ao pessoal? (2)

____________

Nota de L.G.:

(1) Vd. Africanidades, blogue de > 29 de Outubro de 2006 > Catió, ontem e hoje

Uma foto aérea tirada há pouco mais de um ano e outras duas enviadas por Vitor Condeço, que por ali passou nos anos 60 e muitos.

Segundo Condeço "pelo que é dado ver, a vila cresceu e ocupou também parte da pista. Será que foi um sinal de progresso? Gostava que sim! Para que compare a diferença 37 anos e meio decorridos, em anexo envio-lhe uma foto dessa mesma pista e uma vista da vila, tiradas por mim em Janeiro de 1968, e digitalizadas dos negativos, passados 38 anos, tem a patine do tempo."

Obrigado.

(2) A explicação vem do própiro, em e-mail de 6 de Outubro de 2006:

(...) Quanto ao nome, duas razões:

(i) o ter migrado para o Beta [, a migraçºao do Africanidades para a versão Beta do Blogger.com], abrindo uma conta no Gmail, que é Jorge.rosmaninho. Aliás, este passará a ser o e-mail de serviço (jorge.rosmaninho@gmail.com). O nome de guerra pode passar a ser este, mas quem quiser chamar pelo outro (ou se isso der mais jeito), não terá problema;

(ii) é mais alentejano! Esta é a minha costela do Sul. Uma questão de identidade mal resolvida, que quero recuperar! (...)

(3) Vd. post de 8 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1158: AD anuncia para 2008 simpósio internacional 'A memória de Guiledje na luta pela independência da Guiné-Bissau'