sexta-feira, 19 de maio de 2017

Guiné 61/74 - P17377: Historiografia da presença portuguesa em África (76): Subsecretário de Estado das Colónias em visita triunfal à Guiné, de 27/1 a 24/2/1947 - Parte V: De regresso, de Bafatá a Bissau, sexta-feira. 7 de fevereiro, com passagem por Fá (Mandinga), Bambadinca, Xitole e Porto Gole


Guiné > Região do Oio > Porto Gole > 2005 > O Rio Geba, junto a Porto Gole. Do outro lado, a margem esquerda. Mais à frente, para leste, o Rio Corubal vai desaguar no Rio Geba.

Foto: © Jorge Neto (2005)- Todos os direitos reservados {[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole > 2005 > Marco comemorativo do V Centenário da Descoberta da Guiné (1446-1946) > Porto Gole, na margem direita do Rio, na estrada Bissau - Nhacra - Mansoa - Porto Gole - Bafatá (interdita no meu tempo, 1969/71. L.G.). A fotografia é do Jorge Neto (pseudónimo,. Jorge Rosmaninho, autor do blogue "Africanidades (Vivências, imagens, e relatos sobre o grande continente - África vista pelos olhos de um branco") que não já está ativo).

Este monumento foi inaugurado em 8/2/1947 pelo subsecretário de Estado das Colónis, engº  Rui Sá Carneiro, sendo governador geral Sarmento Rodrigues

Foto: © Jorge Neto (2005)- Todos os direitos reservados {[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole > Pel Caç Nat 52 (1966/68) > 1966 > Marco comemorativo do V Centenário da chegada do primeiro explorador da Guiné, em Porto Gole, fotografado em 1966. Este é o lado oposto à fotografia do Jorge Nero. Dizeres, gravados na pedra: "Aqui chegou Diogo Gomes, primeiro explorador da Guiné, no ano de 1456". Foto de  Henrique Matos, o primeiro comandante do Pel Caç Nat 52 (Enxalé e Porto Gole, 1966/68), açoriano de São Jorge, que vive hoje em Olhão.

Foto: © Henrique Matos (2009). Todos os dreitos reservados.[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]











Recorte da primeira página do "diário de Lisboa", nº 8693, ano: 26, edição de domingo, 9 de fevereiro de 1947 (Director: Joaquim Manso)

Cortesia de Casa Comum > Instituição: Fundação Mário Soares > Pasta: 05780.044.11044 > Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos

Citação:

(1947), "Diário de Lisboa", nº 8693, Ano 26, Domingo, 9 de Fevereiro de 1947, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22338 (2017-5-19)


1. P
rossegue a viagem ("triunfal", segundo a imprensa da época) à Guiné, do subsecretário de Estado das 
 (Colónias, Engº Rui Sá Carneiro, pelo interior Norte, Centro e Leste (regiões do Cacheu, Oio, Gabú e Bafatá), uam década depois da última "campanha de pacificação" (Canhabaque, arquipélago dos Bijagós, 1936/37)(*). 

Recorde-se que era então, em 1947, governador-geral o comandante da Marinha, Manuel Sarmento Rodrigues,
futuro ministro das Colónias e depois do Ultramar.

O represenante do Governo de Salazar tinha chegado ao território no dia 27 de janeiro de 1947, tendo por missão encerrar as comemorações do V centenário do descobrimento da Guiné (em 1446).



2. Da leitura da curta notícia da agência "Lusitânia", publicada no "Diário de Lisboa", na sua edição de 9/2/1947 (pp. 1), fizemos um resumo para ajudar os nossos leitores a perceber melhor o seu enquadramento.


(i) no dia 7 de fevereiro de 1947, sexta-feira,  ao fim da tarde, o subsecretário de Estado das Colónias, engº Rui Sá Carneiro,   chega à Praça do Império, em Bissau, depois de um périplo pelo interior da Guiné, que incluiu as regiões de Gabu e de Bafatá;


(ii) às 8h30 desse dia despede-se de Bafatá e segue em cortejo automóvel até Fá (Mandinga) onde visita a serração mecânica do português Fausto Teixeira, radicado na colónia há 20 anos; (no nosso tempo, meu e do "alfero Cabral", em 1969/71, já não havia vestígios desta serração mecânica, e muito menos do Fausto Teixeira);


(iii) entretanto, em Bambadinca (e não Sambadinca, grosseira gralha tipográfica), e sob a aclamação de "milhares de fulas" (sic), o representante do governo da metrópole procede à condecoração de "três grandes chefes, companheiros de Teixeira Pinto" (sic), durante as campanhas de pacificação (1913-15); é pena o jornalista não citar os seus nomes;


(iv) Ainda em Bambadinca, uma centena de crianças das escolas católicas e da escola oficial,  cantam, por seu turno, o hino nacional;




Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Setor de Xitole > 10 de março de 2009 > A antiga Ponte Marechal Carmona, sobre o Rio Corubal, de há muito em ruínas... Já não era usada no tempo da guerra colonial... O primeiro camarada nosso a falar dela foi o David Guimarães que a revisitou em 2001. Sabemos agora que foi construída em 1937, e que colapsou logo a seguir... Quem terá sido o "engenheiro"  ?

O nosso camarada Carlos Silva, na sua última viagem à Guiné, andou no encalce desta "jóia arquitectónica", a antiga "Ponte Carmona"... Com um guia local, de catana na mão, a abrir caminho, num antiga picada que ia do Xitole até à ponte (assinalada, de resto, no mapa do Xitole)... O Carlos ficou fascinado com a beleza desta obra de engenharia...

Foto: © Carlos Silva (2009). Todos os direitos reservados..[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



(v) durante o trajeto de regresso a Bissau, o engº Sá Carneiro ainda terá tempo de visitar "a grande ponte do Rio Corubal, de 210 de comprimento, construída em 1937", e que entretanto ruíra, num troço de 21 metros, durante a época das chuvas; ora esta ponte só pode ser a do Xitole, sendo substituída mais tarde (1956) pela ponte Craveiro Lopes, no Saltinho (**);

(vi) às 13 horas dessa sexta-feira, dia 7 de fevereiro de 1947,  o nosso homem está em Porto Gole, depois de cambar o rio Geba, em Bambadinca;


(vii) mas, antes disso, ainda teve tempo de condecorar "dois régulos" (provavelmente do Cuor e do Enxalé), pelos "relevantes serviços prestados a Portugal";  


(viii) no caso de Porto Gole, ficamos a saber, segundo a notícia dada pela agência "Lusitânia", publicada no "Diário de Lisboa", que se trata de um povoação nova, "com poucos meses de existência", ou seja, construída em 1946;


(ix) o jornalista da "Lusitânia" assinala que Porto Gole foi o primeiro ponto de penetração portuguesa no interior da Guiné, "há 91 anos" (, ou seja, em meados do séc. XIX, c. 1856);


(x) aqui, os mandingas, em maioria, e também aos "milhares" (sic), assistem à inauguração do monumento a Diogo Gomes, o primeiro explorador do continente africano: reza a história que subiu o estuário do Geba com três caravelas (!); (estranha-se a ausência dos balantas do Óio);


(xi) antes do descerramemto do  monumento, foi proferido um discurso sobre o feito histórico, discurso esse que esteve a cargo do  2º tenente da marinha Teixeira da Mota, ajudante de campo do governador geral Sarmento Rodrigues; e foi brilhante, ou melhor "notável", como não podia deixar de ser, proferido pela maior autoridade da época em matéria de história da Guiné;


(xii) oferecido pelo administrador de Mansoa, foi servido o almoço, à sombra dos mangueiros, em Porto Gole;


(xiii) o eng Sá Carneiro seguirá depois para Bissau, ainda a tempo de chegar e ser "vivamente aclamado", na Praça do Império, por: (i) funcionalismo; (ii)comerciantes; (iii) colonos; e (iv) indígenas;


(xiv) no  domingo, dia 9, partirá movamente para o interior, incluindo as "pitorescas ilhas dos Bijagós".





Guiné > Zona Leste > Circunscrição de Bafatá > Rio Beba > 1931 > Cambança do rio Geba, antes das pontes de cimento armado... "Jangada no Rio Geba. Passagem entre Bafatá e Contuboel"... Imagem reproduzida em "O Missionário Católico", Boletim mensal dos Colégios das Missões Religiosas Ultramarinas dos Padres Seculares Portugueses, Ano VIII, nº 81, Abril de 1931, p. 169 (Exemplar oferecido ao nosso blogue pelo camarada Mário Beja Santos).

Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017)
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 4 de maio de  2017 > Guiné 61/74 - P17318: Historiografia da presença portuguesa em África (75): Subsecretário de Estado das Colónias em visita triunfal à Guiné, de 27/1 a 24/2/1947 - Parte IV: No chão fula, Bafatá e Gabu, 6 de fevereiro de 1947...

(**) Vd. poste de 8 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5237: Memória dos lugares (53): Rio Corubal: As três pontes... (C. Silva / P. Santiago / M. Dias / Luís Graça)

7 comentários:

Tabanca Grande disse...

Bolas, há 70 anos nasci eu, em 29/1/1947... Em 1969/71 andei por estes sítios todos, do Saltinho a Porto Gole... Bambadinca: chamei-lhe Imbecirgo... No Xitole, só não descobri a ponte Marechal Carmona, a tal construída em 1937 por um engenheiro que de pontes não percebia nada e muito menos do selvagem Rio Corubal, o único verdadeiro rio da Guiné!... Espantosa a minha visão do Rio Corubal no Saltinho... Voltaria lá 4 décadas depois... em 2008. Continua a ser fascinante enquanto os chineses não construirem lá uma barragem...

Porto Gole!...Imagino o que é os nossos antepassados chegarem a este sítio há quase 6 séculoss... De caravela!... De Porto Gole tenho sobretudo a imagem de um guerrilheiro do PAIGC, morto pelas NT, reduzido a um esqueleto, em poucos dias, "limpo" pelas formigas necrófagas!... Era mandinga ou biafada, a avaliar pelo seu caderninho com dizeres em árabe...

Tabanca Grande disse...

... E o Jorge Neto / Jorge Rosmaninho, cooperante, professor, por volta de 2005, no início da nossa aventura bloguística ? O que é feito de ti, Jorge ?

António Murta disse...

Luís Graça.

Estive na ponte Marechal Carmona em 1973, quando, após um levantamento de minas (nossas) fizemos uma incursão com o propósito de a conhecer, tal como relatei num dos postes que enviei ao nosso Blogue. Fiquei deslumbrado com aquela obra no meio da selva sobre um rio impressionante, diria até, medonho. O engenheiro podia não perceber nada de pontes, mas fez uma obra de grande beleza e proporções colossais.
Quando a conheci não tinha as formas ondulatória que se podem ver nesta fotografia recente.

Fico a agora com a noção da época em que se deu o colapso de um troço significativo da ponte que, no meu tempo lá, ora era atribuído aos nossos sapadores para que os guerrilheiros não passassem para o lado do Xitole, ora era atribuído aos guerrilheiros para que nós não passasse-mos para cá...

Grande abraço.
António Murta.

António Murta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tabanca Grande disse...

Obrigado, António Murta, fui diversas vezes ao Xitole (e algumas ao Saltinho), em colunas logísticas e operações no mato... Mas nunca tive ocasião de conhecer essa famosa ponte... Nem na época (1969/71) ouvi sequer falar da sua existência, só conhecia a do Saltinho (ponte Craveiro Lopes, que é também uma beleza e honra aa nossa engenharia).

Estive no tabuleiro da ponte Craveiro Lopes, no Saltinho, numa altura em que não se passava para o lado de lá... Aquilo metia muito respeitinho, no meio de uma natureza luxuriante e de um rio selvagem como eu nunca tinha visto!...

Quanto à ponte Marechal Carmona, só agora fiquei a saber que era de 1937 a sua construção e que collapse logo a seguir devido à fúria do rio... Não sei quem foi o pobre do engenheiro, que é quem paga as favas...

O PAIGC tinha as costas largas, tinha fama e proveito... mas não tinha, como tu sabes (ainda melhor do que eu), sapadores à altura de efetuarem uma sabotagem daquela envergadura...

Julgo que a ponte continuou, ao longo de todos estes anos, transitável para peões, não para veículos automóveis... Daí ter sido minada pelas NT com campos de minas à volate se calhar no tabuleiro...

Em 2001 o David Guimarães (fur mil de minas e armadilhas, da CART 2714, Xitole, 1970/72) andou por lá e tirou fotos... A ponte ficava a 5 km do aquartelamento do Xitole, na antiga estrada Bambadinca-Xitole-Aldeia Formosa.

Vou "recuperar" o teu poste...

Nunca atravessei o Rio Corubal para o lado de lá, andei sempre na porrada na margem direita, ao longo da qual o PAIGC tinha diversas tabancas, com alguns milhares de habitantes, que defendia com unhas e dentes... Nunca os conseguimos desalojar ao longo de toda a guerra!... Viviam miseravelmente, mas sentiam-se em "zona libertada", mesmo sujeitos aos bombardeamentos periódicos da FAP, da nossa artilharia (que não chegava lá, a do Xime e a de Mansambo, com obuzes 10,5...), e das nossas nossas operações terrestres, incluindo tropas helitransportadas...

Aquilo foi um matadouro, dum lado e do outro... Só mais tarde a marinha recomeçou a "penetrar" no Rio Corubal... Durante anos as margens direita (e esquerda, do lado de Fulacunda) foram um "santuário" do PAIGC... Mina / Fiofioli era a mata mais cerrada e de mais difícil acesso... Havia autênticas florestas-galeria naquela zona... Quando lá voltei, em 2008, a desflorestação da margem direita do Rio Corubal deixou-me um nó na garganta!... O mesmo se passou com o Cantanhez...

Antº Rosinha disse...

"Havia autênticas florestas-galeria naquela zona... Quando lá voltei, em 2008, a desflorestação da margem direita do Rio Corubal deixou-me um nó na garganta!... O mesmo se passou com o Cantanhez..."

Luís Graça, esse crime da desflorestação (não só na Guiné...mas também de outras áfricas inocentes) podes atribuir esse crime aos beneméritos,humanistas e demoráticos e amigos Suecos.

É que além de livros e professores ofereceram àquela gente enormes e sofisticadas máquinas e técnicos que os ensinavam a exportar madeira para muitos "IKEAS".

Pois é Luís...e o deserto alí tão perto!

Em 40 anos foram embora milhares de árvores seculares (inutilmente)e várias gerações de régulos apagados da memória(inutilmente)...desastradamente!

Posso parecer reaccinário dizendo isto, mas não sou cínico!

António Murta disse...

Amigo Luís Graça

Deves estar a fazer confusão quanto aos estragos na ponte Marechal Carmona. A derrocada provocou um corte tão grande que quase dava para passar o Navio Escola Sagres… Ainda assim, esse corte era uma pequena parte da enorme ponte e, claro, não dava para peões. Daí que naquele tempo só a conhecêssemos por “ponte interrompida” e só através do nosso Blogue descobri o seu verdadeiro nome. Ámen, à minha ignorância.

Creio que no poste que enviei mostro uma imagem de satélite, à falta de fotografia minha, que dá para ter a noção da grandiosidade da ponte. Pena que não dê para ver como era majestosa a floresta que dizes estar a desaparecer. Preferia não ver essa chaga criminosa.

Grande abraço do
António Murta.