quarta-feira, 17 de maio de 2017

Guiné 61/74 - P17365: Notas de leitura (957): está no prelo o II volume das "Memórias Boas da Minha Guerra", do José Ferreira da Silva (Lisboa, Chiado Editora, 2017).... Reproduz-se aqui um excerto do microconto "Promessas", que tem a ver com Fátima e os pagadores de promessas durante a guerra colonial

1. Está no prelo o Volume II das Memórias Boas da Minha Guerra, do José Ferreira da Silva, sob a chancela da Chiado Editora

Escrevemos-lhe, a seu pedido e com muito gosto, o prefácio a este segundo volume. E o título do prefácio está alinhado com o do livro: "Aqueles que souberam fazer a guerra e a paz, com 'sangue, suor e lágrimas'… e uma boa pitada de humor de caserna"...

Pelo índice, provisório, que o autor nos mandou por email, sabemos que um dos contos inseridos tem por título "Promessas".

Este segundo volume é uma seleção, feita pelo próprio, dos melhores textos ("short stories" ou microcontos) publicados no nosso blogue sob a série "Outras memórias da minha guerra", que se seguiu à série "Memórias boas da minha guerra".

A pretexto do centenário do  santuário de Fátima (1917-2017), e a propósito do inquérito sobre Fátima que termina hoje no nosso blogue (*), achamos oportuno reproduzir uma excerto desse história, "Promessas", justamente a última parte (**). Com a devida vénia ao autor... e votos de bom sucesso de vendas para este segundo volume. (***)


José Ferreira da Silva.
Foto: Chiado Editora
2. José Ferreira da Silva:  Memórias Boas da Minha Guerra, vol II, Lisboa, Chiado Editora,  2017 (no prelo) > 
Promessas (excerto)

(...) Quando se aproximou o 13 de Maio de 1969, já os dois filhos mais velhos da Ti Ana haviam chegado sãos e salvos [, o mais velho, de Angola, e o outro, o Mário, da Guiné] . Agora era preciso pagar as promessas.

A Ti Ana vivia dias felizes, de bem com Deus e com todos os santos, a quem prometera sacrifícios até ao fim da sua vida. De sua casa partiram em conjunto mais de 20 pessoas, com destino a Fátima, a pé. Entre elas, seguiam vários jovens vestidos de camuflado como o faziam lá na guerra, nas Operações Militares. Um deles, estava numa cadeira de rodas. O Mário, que cumpria a sua promessa pela negativa, abeirou-se do rapaz e perguntou:
– Também vais até Fátima?

Ele respondeu:
– Sim, com ajuda da malta e da N.ª S.ª de Fátima que, graças a ela, aqui estou salvo, lá chegarei. E tu, não vais?
– Eu, não. Não fiz promessas e tive sorte. Pelo contrário, tive amigos que lá ficaram e tinham prometido ir a Fátima, Arcozelo, Peneda e Sameiro.
– Pois, tiveste sorte, é porque alguém pediu muito por ti. – respondeu o rapaz

Vinte e cinco anos depois, a Ti Ana, já com uns 70 e tal anos, deixou de poder cumprir a promessa, indo a pé. Confessou a sua impossibilidade ao padre das Missões, onde passou a colaborar, e “renegociou” as suas Promessas: passaria a organizar 2 excursões anuais, em autocarro, mobilizando mais de meia centena de seguidores de N.ª S.ª de Fátima.

Com a mãe a aproximar-se dos 90 anos, o Mário resolveu dar-lhe a alegria de ir a Fátima numa dessas excursões, que era, agora, ajudada na organização, pela filha mais nova. Ele gostou imenso daquele ambiente popular e alegre e prometeu ir lá mais vezes.

Quando, estavam em Fátima, o Armindo interpelou a Ti Ana, na frente do Mário:
 – Como é que conseguiu que este herege viesse a Fátima?
 – Olha, menino, quanto mais velha, mais feliz me sinto. Hoje estou a cumprir a minha promessa mais difícil. Há mais de 40 anos que a estava a dever à N.ª S.ª de Fátima!
__________

Notas do editor:

(*)  Vd. poste de 16 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17363: Inquérito 'on line' (115): Fátima... Com 70 respostas no início da tarde, e a menos de 24 horas para o fim do prazo, conclui-se que todos lá fomos, pelo menos uma vez na vida, antes, durante ou depois da tropa... mais como turistas (58%) do que como peregrinos (18%)

(**) Vd. poste de 24 de março de  2012 > Guiné 63/74 - P9650: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (15): Promessas

(***) Último poste da série >  15 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17359: Notas de leitura (956): “Portugal e as Guerrilhas de África”, por Al J. Venter, Clube do Leitor, 2015, prefácio de John P. Cann (1) (Mário Beja Santos)

2 comentários:

Tabanca Grande disse...

A ideia que eu tenho, do meu tempo de puto, é que nunca se devia fazer promessas a Deus e aos santos que não se pudéssem cumprir... Como, por exemplo, ir a Fátima a pé, e dar não sei quantas voltas de joelhos à capelinha das aparições...

Não pagar uma promessa destas era pecado mortal, castigado com o fogo do inferno... Tremíamos que nem varas verdes ante esta perspetiva aterradora...

Hoje, as coisas parece que estão mais simplificadas: nem o Deus dos cristão é assim tão justiceiro nem o infermo é assim tão mau como o pintavam, no meu tempo de menino e moço...

De qualquer modo, promessas são mesmo para se cumprir. E hoje há várias formas de o fazer... Por exemplo, há já pagadores de promessas profissionais... Veja-se o sítio de Carlos Gil, na Net:

"Pagador de Promessas

"Se tem uma promessa para cumprir e não o pode fazer, ou se simplesmente quer agradecer a N.ª Sr.ª de Fátima as Boas Graças recebidas ao longo da vida, Carlos Gil caminha por si até Fátima, e transporta com ele o pagamento da sua promessa ou o seu agradecimento. Acende, em seu nome, o número de velas prometido no Santuário."...

Preçário:

Peregrinação Lisboa-Fátima > 2.500€

Rezar o terço > 250€

Acender uma vela > 25€

Outros serviços > sob consulta: barbudogil@gmail.com (passe a publicidade....)

https://peregrinoorg.wordpress.com/

No nosso tempo, havia mães que por tanto nos amarem, nos amarrarem de pés e mãos, a Fátima, "obrigando-nos" a ir com elas, a pé, ao santuário!... Nalguns casos, coitadas, tiveram que ir de carro, por razões de saúde ou de idade, enquanto os filhos fizeram a peregrinação a pé conforme a promessa...

Filhos devotos à santa das santas, que afinal é a nossa mãe...

José Ferreira disse...



Ainda sobre este assunto das "Promessas a Fátima", aconselho a lerem este extracto do meu Post P16054 - Religiosos de primeira e pobres (crentes) de segunda.
Como pagadora de promessas, esta Senhora Felismina Estaca era uma grande referência.
".....
Pois quando a manhã desse dia de Maio não ia além das 8h30, já toda a gente andava ocupada. Os homens tinham ido para as fábricas, os filhos para as escolas e as mulheres para o monte. Toda a rua estava deserta. A excepção surgiu, vinda do outro extremo da vila. Entraram pelo lado do caminho do Souto. Uma senhora, de chapéu de palha e de vestes claras, bem apresentável para os seus cinquenta e tal anos, de sombrinha fechada, que servia de bengala, bem ornada pela sua pega de prata, onde sobressaia uma pequena escultura de um crucifixo em forma estilizada. Também se lhe destacavam um vistoso terço ao pescoço com um medalhão da Senhora de Lourdes e uma concha de Santiago de Compostela e, ainda, um enorme broche ao peito, com a imagem da Virgem Maria. Logo atrás, seguia uma senhora de aspecto humilde, descalça, de giga à cabeça, aparentando cerca de sessenta e cinco anos. Naquela carga volumosa, apertada por uma escassa toalha, é bem visível um saco de batatas, panela, tacho, fogareiro a petróleo e ainda a asa de um garrafão. Com ela, a Felismina Estaca, vinha também um miúdo descalço, de cerca de 7 anos, com um saco de pano às costas. Era o seu neto Jeremias que vinha, para ficar em casa da sobrinha Conceição, durante esta sua deslocação a Fátima.

Bateu na porta dos Margaridos, com o referido cristo de prata, surgiu a Dona Juliana, que logo manifestou a sua relação afectiva com a visitante:
- Então, prima Joaquina, que andas por aqui a fazer? Bem dizias que ias a Fátima, outra vez.
- Sim, já te tinha dito que ia. Olha, com esta, é a vigésima sexta vez que lá vou. Já lá fui mais vezes do que tu. Enquanto Jesus Cristo quiser e a sua mãe Virgem Santíssima me ajudar, lá irei.

A Juliana interrompeu-a:
- Sabes lá o que custou ter criado um filho padre e aturar um marido fidalgo. Bem gostaria de te fazer companhia. Espero que Deus Nosso Senhor não se esqueça da minha penitência, quando chegada a hora de partir.

Voltou a Joaquina:
- É por isso que eu, apesar de não ter um filho padre, também espero que todas as minhas rezas e peregrinações contem para um bom lugar na vida eterna, à direita de Deus Nosso Senhor. Eu sei que me falta ir à Terra Santa, mas devo ir lá brevemente, custe o que custar. Mas, já disse, quando eu morrer, não quero que ponham nada na lápide no cemitério a lembrar as minhas peregrinações, como fizeram no jazigo da Baptistinha.
....."