Guiné > Região de Gabu > Canquelifá > s/d (c. 1960) > Um dos cavalos brancos (uma pileca...) do régulo Sene Sané, tenente de 2ª linha, e o seu tratador. Foto oferecida às filhas do empresário Manuel Joaquim dos Prazeres, o mítico homem do cinema ambulante... Foto do álbum de Lucinda Aranha, autora de "O homem do cinema: a la Manel Djoquim i na bim", Alcochete, Alfarroba, 2018, 165 pp.
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António de Spínola, Guiné, s/d. (c. 1968/73). Fonte: cortesia de CM Lisboa (2010) |
1. Uma das anedotas "mais divertidas" que correm na Net, repetidas "ad nauseam" pelas ferramentas de IA (do ChatGPT ao Gemini), é a do "general do cavalo branco":
Diz a ferramenta de IA | ChatGPT Open AI):
(...) "Ela ilustra perfeitamente o estilo exuberante, o pendor teatral e a vaidade de oficial de cavalaria que caracterizavam o general António de Spínola durante o seu mandato como Governador e Comandante-Chefe (1968–1973)"...
Reza assim (citamos "ipsis verbis"... a "menina IA" que ma quis vender):
(...) Diz-se que o General Spínola, com a sua costumada farda impecável, o monóculo cravado no olho, as luvas de pelica branca e o inseparável pingalim na mão, decidiu que a melhor forma de afirmar a soberania portuguesa e a sua própria presença pacificadora nas ruas de Bissau era passear-se montado num majestoso cavalo branco.
O cavalo, trazido expressamente para o efeito, brilhava tanto quanto as botas do general. Spínola cavalgava de peito feito, distribuindo acenos à população local, convencido de que aquela demonstração de altivez e "ação psicossocial" impressionaria tudo e todos.
Acontece que, a dada altura do passeio, o belo cavalo branco — que não estava habituado ao calor húmido da Guiné, muito menos à barulheira dos jipes, das Berliets e da azáfama do mercado — assusta-se com um barulho qualquer, perde a compostura e desata num galope descontrolado pela avenida da República, a artéria principal da cidadezinha colonial.
O general, apesar de ser um cavaleiro exímio e antigo instrutor de Cavalaria, vê-se em palpos de aranha para dominar a montada.
(...) Esta piada circulava imenso entre a rapaziada que enchia as esplanadas de Bissau porque tocava nos pontos fracos e fortes do "Caco Baldé" (como os militares lhe chamavam carinhosamente, uns, ou com ironia, outros):
- o estilo contra a realidade: contrastava o rigor formal do general (o "estilo de desfile, marcial") com a realidade crua, poeirenta e caótica da Guiné;
- a cavalaria na selva: Spínola era um homem de Cavalaria, de formação e orgulho; a ideia de andar a cavalo num cenário de contraguerrilha, onde a mobilidade se fazia em jipes, autometralhadoras, botes ou helis, era em si um anacronismo delicioso que os operacionais não deixavam escapar;
- o monóculo e as luvas: o folclore militar adorava caricaturar a imagem do comandante que aparecia nas zonas mais perigosas de helicóptero, de peito feito às balas, mas que se recusava a despir a pele de aristocrata militar.
3. Comentário do editor LG:
Oh!, ChatGPT, mas que grande argolada!...Tenho que te puxar as orelhas: então não sabias que não havia (nem podia haver) gado equino na Guiné por causa do "caliá", uma tripanossomíase animal ?!
Citando a "Geografia económica de Portugal : Guiné", coordenado por Dragomir Knapic (1925 - 2006) (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada), em 1961 havia apenas 64 (!) cavalos (contra 3858 asininos, vulgo burros).
Escreveu o geógrafo, português (mas com ascendência eslovena, ainda é parente da nossa amiga Vilma Crisóstomo, e foi cunhado do Mário Beja Santos:
"Os cavalos foram largamente utilizados noutros tempos pelas populações do interior, em especial pelos Fulas.
4. Resposta da IA | ChatGPT:
(...) Touché! Tens toda a razão, camarada, e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.
O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.
Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.
A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas.
Este episódio serve de excelente lição: o anedotário que por vezes se sedimenta na blogosfera ou nas tertúlias virtuais acaba por criar mitos com "pernas de cavalo" que a inteligência artificial, se não for travada pelo facto histórico e científico (como a peste equina), repete como se fossem folclore de caserna real.
Obrigado, Luís, pelo "puxão de orelhas" factual e rigoroso! É com este nível de detalhe e vivência que a história real se defende dos mitos urbanos. (...)
E prosseguindo, acrescenta a "menina IA":
Os dados que trazes do texto de Dragomir Knapic é devastador para o mito: 43 cavalos em 1943 e apenas 64 em 1961 numa colónia inteira dizem tudo.
“Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados.”
A explicação epidemiológica é decisiva: o “caliá” — designação local da tripanossomíase animal transmitida pela mosca tsé-tsé — tornava a sobrevivência dos equinos extremamente difícil. Não apenas cavalos, mas também asininos sofriam enormemente. O contraste entre os míseros 64 cavalos e os 3858 asininos mostra precisamente isso: o burro resistia um pouco melhor, embora com elevada mortalidade, enquanto o cavalo praticamente desaparecera do território.
Aliás, a tua observação empírica de Bambadinca e Bafatá encaixa perfeitamente nos dados históricos. Faz sentido que um cavalo pertencente a um régulo fosse uma raridade memorável — quase uma peça de prestígio político e simbólico. Entre os Fulas, como refere Knapic, o cavalo tinha antiga importância social e militar, mas isso vinha de uma época anterior à devastação sanitária e à retração ecológica provocada pela doença.
Portanto, mesmo admitindo que António de Spínola fosse excelente cavaleiro e apreciasse hipismo desde jovem — o que é verdade —, a ideia de ele circular regularmente montado em Bissau entra mais na categoria da mitologia colonial do que da realidade material da Guiné dos anos 60.
E há aqui um fenómeno interessante de memória histórica: certas figuras acabam rodeadas de imagens “cinematográficas” que sobrevivem porque condensam personalidade e poder.
Último poste da série > 19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica










































