sábado, 5 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15449: O PIFAS de saudosa memória (19): O Armando Carvalhêda no programa "Canções da Guerra", do Luís Marinho, na Antena Um: "O PIFAS, o Programa das Forças Armadas, era mais liberal do que a Emissora Nacional"...

  

A mascote do Programa [de Informação]  das Forças Armadas (PIFAS), da responsabilidade da Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica. Autor desconhecido. 

Imagem, enviada pelo nosso camarada Miguel Pessoa, cor pilav ref (ten pilav, Bissalanca, BA 12, 1972/74). 



1. O Armando Carvalhêda é outro dos grandes senhores da rádio (*) que passou pelo Programa das Forças Armadas, o popular PIFAS, entre abril de 1972 e  setembro de  1973, conforme ele recorda em conversa com o Luís Marinho, no programa da Antena Um, Canções da Guerra.  O seu depoimento pode ser aqui ouvido, em ficheiro áudio de 4' 55''.

Segundo o Armando Carvalhêda, o PIFAS,  transmitido pela Emissora Oficial da Guiné, era "mais liberal" do que a estação oficial, transmitindo  canções de "autores malditos",  como José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Zeca Afonso, que não faziam parte da "playlist" (como se diz agora) da Emissora Nacional, em Lisboa.

Armando Carvalhêda.
 Foto: cortesia do blogue Expressões Lusitanas
Eram os próprios radialistas, os locutores de serviço, jovens a cumprir o serviço militar e coaptados para a Rep Apsico, para o Serviço de Radiodifusão e Imprensa, que faziam "a pior das censuras", que era a autocensura...

O Armando dá um exemplo,  com o LP do José Mário Branco, "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" (que tinha sido editado em Paris, em 1971)... Havia um consenso tácito sobre algumas músicas que não deviam passar no PIFAS. Neste LP, era,  por exemplo,  o "Casa comigo, Marta!"...

Estava-se na época do vinil, o LP tinha seis faixas, de cada lado,... Intencionalmente ou não, ele uma vez deixou "cair" a agulha da cabeça do gira-disco na faixa do "Casa comigo, Marta" (cuja letra, "subversiva",  para a época, de crítica social corrosiva, se repoduz abaixo; recorde-se que o portuense José Mário Branco, compositor e músico,  era um conhecido opositor ao regime e à guerra colonial, estando exilado em Paris)... 

Ainda de acordo com o Armando Carvalhêda, o PIFAS era o produzido pela  Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica, a APSICO, a 2ª Rep do Com-Chefe, na Amura, por onde passaram nomes ligados ao 25 de Abril como Ramalho Eanes  e Otelo Saraiva de Carvalho. [Em 1969/71, o Serviço de  Radiodifusão e Imprensa foi chefiado por Ramalho Eanes.]

Mais diz  o conhecido autor e realizador de rádio, que não havia "confronto direto" com a Rádio Libertação do PAIGC  (e, portanto, com a "Maria Turra", a locutora do IN, a Amélia Araújo), "embora a gente os ouvisse e eles a nós"...

O Armando Carvalhêda lembra-se com emoção das gravações áudio  que fez, por toda a Guiné,  por ocasião das gravação das mensagens de Natal e Ano Novo. Recorda-se, em particular,  do Natal de 1972: havia soldados emocionados que recebiam o pessoal do PIFAS com grande entusiasmo e carinho. Num aquartelamento, o comandante já tinha selecionado quem iria falar para a rádio.  Um dos soldados que ficara de fora da lista,   quis "meter uma cunha" ao Armando Carvalhêda, oferecendo-lhe o fio de ouro que trazia ao pescoço...

Também se lembra do programa de discos pedidos, que era feito pelo  "senhor primeiro" [, o 1º sargento Silvério Dias] e a "senhora tenente [, a esposa, Maria Eugénia Valente dos Santos Dias]. Em geral o que passava então, nesse programa de discos pedidos, eram as "canções românticas", em voga na época, com letras de fazer chorar as pedras da calçada… O PIFAS recebia centenas, milhares de cartas/aerogramas com pedidos para passarem canções...

Já aqui temos falado do Armando Carvalheda, de resto conhecido do nosso grã-tabanqueiro Hélder Sousa,  dos tempos de juventude. Não sei se ele nos acompanha, ao nosso blogue, de qualquer modo ele tem a "porta aberta", na Tabanca Grande, para partilhar, connosco, mais memórias do tempo de Guiné, em geral,  e do PIFAS, em particular. Alguém aqui escreveu que ele estava colocado em Gadamael quando foi requisitado para o PIFAS. Já trabalhava na rádio, na vida civil, antes de ir para a tropa. (LG)




Um poema de Natal enviado de Farim, dezembro de 1967,  pelo  2º srgt art  Silvério Dias,  da CART 1802, mais tarde radialista no PIFAS (de 1969 a 1974)... O aerograma (edição especial de Natal do MNF) era endereçado à D. Maria Eugénia Valente dos Santos Dias, que morava em Carnide, Lisboa. Já na altura era um "poeta de todos os dias", o nosso camarada e grã-tabanqueiro Silvério Dias, um jovem de 80 anos... [Vd. aqui o seu blogue].

Foto: © Silvério Dias (2014). Todos os direitos reservados [Edição: LG]

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Casa Comigo, Marta
Música e ntérpretação: José Mário Branco
Álbum: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (1971)

Chamava-se ela Marta,
Ele Doutor Dom Gaspar,
Ela pobre e gaiata,
Ele rico e tutelar,
Gaspar tinha por Marta uma paixão sem par
Mas Marta estava farta, mais que farta de o aturar.
- Casa comigo, Marta,
Que estou morto por casar.
- Casar contigo, não, maganão,
Não te metas comigo, deixa-me da mão.

- Casa comigo, Marta,
Tenho roupa a passajar,
Tenho talheres de prata
Que estão todos por lavar,
Tenho um faisão no forno e não sei cozinhar,
Camisas, camisolas, lenços, fatos por passar
Casa comigo, Marta,
Tenho roupa a passajar.
- Casar contigo, não, maganão
Não te metas comigo, deixa-me da mão

- Casa comigo, Marta,
Tenho acções e rendimentos,
Tenho uma cama larga
Num dos meus apartamentos,
Tenho ouro na Suíça e padrinhos aos centos,
Empresto e hipoteco e transacciono investimentos.
Casa comigo, Marta,
Tenho acções e rendimentos.
- Casar contigo, não, maganão,
Não te metas comigo deixa-me da mão.

- Casa comigo, Marta,
Tenho rédeas p´ra mandar,
Tenho gente que trata
De me fazer respeitar,
Tenho meios de sobra p´ra te nomear
Rainha dos pacóvios de aquém e além mar.
Casas comigo, Marta,
Que eu obrigo-te a casar
- Casar contigo, não, maganão,
Só me levas contigo dentro de um caixão.

A música pode ser aqui ouvida.
A letra foi aqui recolhida. [Fixação de texto por LG.]

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Notas do editor:

(*) VIVA A MÚSICA! - Música ao vivo cantada na nossa língua. Um programa de Armando Carvalhêda.

Desde 1996, a ANTENA 1 tem no ar o programa VIVA A MÚSICA!, único espaço regular no panorama áudio-visual nacional que apresenta semanalmente, durante uma hora música cantada na nossa língua, ao vivo e em directo.

O programa desenrola-se no Teatro da Luz, em frente ao Colégio Militar, em Lisboa, todas as Quinta-feiras, entre as 15h00 e as 16h00, e é produzido por Ana Sofia Carvalhêda e realizado e apresentado por Armando Carvalhêda.
Por aqui desfilaram já quase todas as grandes figuras da música cantada em português como são os exemplos de: Carlos do Carmo, Pedro Abrunhosa, Ala dos Namorados,..

Guiné 63/74 - P15448: Ser solidário (189): Agradecimento da nossa leitora Hondina Cabral Fortes, enfermeira, guineense, a morar no Brasil: "Estou escrevendo para lhe informar que o meu irmão foi localizado e já se encontra junto da família novamento, graças a Deus. Agradeço o senhor pela sensibilidade e bondade".


De: Hondina Cabral Fortes 

Data: 28 de novembro de 2015 às 04:11

Assunto: Agradecimento


Boa noite, sr. Luís,

Sou Hondina Cabral Fortes, moro no Brasil.
No ano passado,  o meu irmão desapareceu em Bissau (*),  eu fiquei desesperada,  pedi ajuda e o senhor acatou o meu pedido. 

Agora estou escrevendo para lhe informar que o meu irmão foi localizado e já se encontra junto da família novamento,  graças a Deus.

Agradeço o senhor pela sensibilidade e bondade.  Que Deus te ilumine e te abençoe sempre. (**)
Grata


Hondina

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 27 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13656: Ser solidário (165): Estou desesperada, conto com a vossa ajuda para encontrar o meu querido irmão Nivaldo Biagué Fortes, de 16 anos, desaparecido de Bissau há 4 meses (Hondina Cabral Fortes, guineense, enfermeira, São Carlos, São Paulo, Brasil)

(**) Último poste da série > 11 de novembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15350: Ser solidário (188): Parabéns, Bambadinca!... Serviço Comunitário de Energia de Bambadinca (SCEB) que conta com a minirrede híbrida mais ampla do mundo: notícia e vídeo (Belarmino Sardinha)

Guiné 63/74 - P15447: Convívios (721): XXII Convívio da Magnífica Tabanca da Linha, Oitavos, Cascais, 19 de novembro de 2015: Os "piras" (Manuel Resende)


Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4


Foto nº 5




Foto nº 6


Foto nº 7


Foto nº 8

XXII Convívio da Magnífica Tabanca da Linha > Oitavos, Cascais, 19 de novembro de 2015 > Os "piras"...


Fotos (e legendas): © Manuel Resende (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]


1. Mensagem, com data de 26 de novembro último,  de Manuel Resende [, ex-alf mil da CCaç 2585 / BCaç 2884, Jolmete, Pelundo e Teixeira Pinto, 1969/71; fotógrafo oficioso da Tabanca Grande e adjunto do secretário geral e cronista-mor José Manuel Matos Dinis,  além de assessor do régulo Jorge Rosales, em suma. o homem dos sete instrumentos]: 


Assunto - Novos elementos para a Tabanca da Linha


Caro Luís,


Foi difícil identificar dois camaradas de Algés, e que só há pouco tempo consegui. Assim:
Os novos elementos "piras" que foram ao convívio do dia 19 passado (*) são:

1-Jorge (Nunes) Costa - Algés - Foto 7, primeiro à  à esquerda

2-Joaquim Grilo (de Almeida) - Algés - Foto 8, primeiro  à esquerda, camisa preta.

3-António Cardoso - Cascais - Foto 1 e 6
4-Arménio Conceição e esposa Madalena Conceição - Cascais - Foto 4 e 5

5-Carlos Carronha Rodrigues (Coronel) - Algueirão - Foto 1 e 3

6-João Maria Chaves Lopes - Lisboa - Foto 5

7-António (Gomes) Veloso - Massamá - foto 2

8-Carlos (António) Rodrigues - S. Pedro Estoril (2ª vez, mas da 1ª não teve realce) - Foto 1 e 3


Legenda das fotos: sempre da esquerda para a direita:

1-José de Jesus, Carlos Carronca Rodrigues, António Cardoso e Carlos (António) Rodrigues
2-António (Gomes) Veloso
3-Carlos Carronha Rodrigues e Carlos António Rodrigues
4-Arménio Conceição e esposa Madalena
5-Arménio Conceição e esposa Madalena, João Maria Chaves Lopes e João José Alves Martins
6-António Fernando Marques e António Cardoso
7-Jorge Costa
8-Joaquim Grilo

É eidente que no álbum há mais fotos com eles, mas estas são mais personalizadas.

Amigo , qualquer dúvida diz.

Abraço
Manuel Resende

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Notas do editor:

Último poste da série > 25 de novembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15407: Convívios (720): XXII Convívio da Magnífica Tabanca da Linha, Oitavos, Cascais, 19 de novembro de 2015 (José Manuel Matos Dinis / Manuel Resende)

Guiné 63/74 - P15446: Parabéns a você (995): José Pereira, ex-1.º Cabo At Inf da CCAÇ 5 (Guiné, 1966/68) e Manuel Carvalho, ex-Fur Mil AP Inf da CCAÇ 2366 (Guiné, 1968/70)


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Nota do editor

Último poste da série de 2 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15433: Parabéns a você (994): Herlânder Simões, ex-Fur Mil Art da CART 2771 e CCAÇ 3477 (Guiné, 1972/74)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15445: História de vida (43): Anda(va) meio mundo a enganar o outro... Ou o conto do vigário em que caiu a minha pobre mãe quando eu estava em Galomaro e lhe apareceu à porta de casa um falso camarada meu... (Juvenal Amado, autor de "A tropa vai fazer de ti um homem", Lisboa, Chiado, Editora, 2015, 308 pp.)

O Juvenal em Galomaro, c. 1972/74, junto ao arame farpado,
 num dos postes avançados do quartel. Foto do autor.
1. O CONTO DO VIGÁRIO E A GUERRA COLONIAL

por Juvenal Amado

[ Foto à esquerda, o ex-1.º cabo condutor autorrodas, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74; natural de Alcobaça, vive em Fátima, autor de "A tropa vai fazer de ti um homem!", Lisboa, Chiado Editora, 2015, 308 pp.]

Há gente capaz de tudo.

Com um esquema bem urdido, bem montado, acercam-se das pessoas que na sua vida simples nunca pensam que o diabo pode estar atrás da porta e, zás, são enganadas por vezes com coisas, de tão simples e credíveis, que ninguém se atreve a pôr em causa.

Penso que o conto do vigário é a trafulhice em que quase toda a gente pensa que nunca cai. Mas estamos enganados e lá vem o dia em que baixamos a guarda, abrimos as defesas e, pronto, somos enganados pela mais estapafúrdia das encenações.

Uns são enganados pela a ambição, outros são enganados pela sua noção de solidariedade e outros pelas suas fraquezas, pelo seu amor aos que estão longe. Tudo serve para enganar os incautos.

Veio este assunto à lembrança pois também alguém da minha família foi em tempos enganada, quando a mentira fez tocar as campainhas do seu desvelo, da sua preocupação quando eu estava a cumprir o meu tempo militar na Guiné.

Um dia, lá para o fim de 73, apresentou-se em casa dos meus pais um individuo praticamente da minha idade, que se apresentou como meu amigo e a cumprir comissão comigo na Guiné.

Pobre coração da minha mãe deu um salto, franqueou as portas e bebeu avidamente o que ele dizia. Que me conhecia muito bem, que eu mandava cumprimentos e que também lhe tinha transmitido alguns pedidos de coisas que pretendia que ele me levasse.

A minha mãe estava sozinha em casa e ofereceu-lhe almoço, ao que ele disse que não tinha tempo pois ia apanhar o comboio no Valado dos Frades para Lisboa, de forma a embarcar novamente para a Guiné. A minha mãe foi recolher o que ele dizia que eu lhe tinha pedido, embora estranhando pois nunca lhes pedia nada nas cartas, lá arranjou meias, cuecas e mais que ele inventou, juntou alguns chouriços,  uma garrafa de ginja David Pinto,  pois sabia bem a saudade que tinha desses petiscos. Aproveitou para me mandar umas fotos a cores de um rolo, que tinha mandado para ser revelado e deu-lhe o dinheiro todo que tinha em casa, pois também eu o tinha solicitado. Está claro que não deu muito, pois era coisa que não abundava lá em casa, mas deu-lhe o que lhe fazia falta,  de certo.

Já que ele não podia almoçar, fez-lhe um farnel para ele comer no comboio e, ala que se faz tarde, ele foi-se embora.

Capa do livro do Juvenal Amado.
Lisboa, Chiado Editora, 2015.
Tudo isto se passou de manhã e, quando o meu pai chegou a casa para almoçar, ela contou-lhe ainda toda eufórica o que se tinha passado, pois não era todos os dias que se tinha contacto com um amigo do filho, que lhe tinha ido dar de viva voz noticias suas. Ele disse-lhe logo, “já foste enganada”.

Foram logo à praça dos táxis, quando perguntaram pelo sujeito, logo o taxista,  até nosso vizinho, se apresentou como tendo sido ele a ir levá-lo, acrescentando que o dito tinha deixado esquecido um embrulho no banco de trás, que não sabia de quem era.

O que já se temia, ficou logo ali comprovado.

A minha mãe fartou-se de chorar, a debalde das tentativas do meu pai para minorar a importância do acontecido. As cuecas e meias voltaram para a respectiva gaveta, o resto desapareceu como desapareceu o dinheiro.

Costuma-se desejar quando nos enganam com dinheiro, que o patacão lhes sirva para o médico ou para a farmácia. Fraca, forte ou inútil a vingança, mas que parece que nos conforta, à falta de uma justiça mais imediata e vigorosa.

É o que na maioria dos casos a que se consegue arranjar.

Veio-se depois a saber que não foi só a minha mãe enganada pelo individuo que explorou os sentimentos e as saudades de quem tinha os filhos longe.

Crime e Castigo é uma obra de Fiódor Dostoiévski e conta a história de um criminoso que não consegue viver com o sentimento de culpa pelo crime que cometeu. Era bom que isso acontecesse aos criminosos, o Mundo seria um lugar muito melhor de se viver sem dúvida nenhuma.

Um abraço,
Juvenal Amado
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Nota do editor:

Último poste da série > 8 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15217: História de vida (42): Clube dos Octogenários - Narrativa de 80 anos de vida (Coutinho e Lima)

Guiné 63/74 - P15444: Notas de leitura (782): “Radiografia Militar”, por Manuel Barão da Cunha, Âncora Editora, 2015 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Dezembro de 2015:

Queridos amigos,
Em 1975, a apreensão do livro deu brado, discutiu-se calorosamente a liberdade de expressão. 40 anos depois, Barão da Cunha reformula a estrutura da obra, adiciona-lhe depoimentos, aclara conversas, introduz novos testemunhos.
Sugiro que estejam atentos ao que refere sobre a Guiné, obteve do dirigente máximo da PIDE em Bissau, Fragoso Allas, um depoimento onde este procura esclarecer o teor da conversa entre Senghor e Spínola. Fica indiciado que em Julho de 1973, no exato momento em que o PAIGC vivia uma euforia político-militar, Costa Gomes sugere-lhe uma intervenção junto de Nino Vieira, e Spínola terá comentado: "Agora? É tarde".
Uma longa viagem nas memórias de um coronel da cavalaria que recorda com imensa saudade o ideal de camaradagem e o espírito de corpo instilados na corporação, nos longínquos anos da década de 1950.

Um abraço do
Mário


Radiografia Militar, por Manuel Barão da Cunha

Beja Santos

A “Radiografia Militar” surgiu em 1975 e foi motivo de larga polémica por um sindicato se ter oposto à sua impressão. O Coronel Manuel Barão da Cunha voltou 40 anos depois aos motivos que o levaram a escrever esta série de reflexões sobre o MFA, os valores democráticos, o desenvolvimento e a descolonização e juntou-lhe novas achegas com comentários que foram produzidos até 2014: “Radiografia Militar”, por Manuel Barão da Cunha, Âncora Editora, 2015. Há diferentes secções que a obra contempla: as memórias do Cadete da Escola do Exército, onde se refletem o espírito de corpo, avultam amizades, a nobreza da camaradagem, críticas à pesporrência e vanidades de certos quadros militares, etc; as comissões em Angola e na Guiné, entremeadas de meditações em que o oficial de cavalaria passa a duvidar da natureza da guerra, como disse expressamente: “Depois a guerra foi perdendo a heroicidade, a motivação; foi-se banalizando. As pessoas foram-se cansando. Guiné; Moçambique… Partidas; chegadas… A guerra cansa; tudo cansa… os jornais falam de outras guerras e de futebol! Entretanto, há cidadãos que não fazem a guerra. Uns buscam o exílio, outros têm padrinhos (…) A Academia Militar qualquer dia tem mais professores do que alunos”.

Procura entender os movimentos sinuosos e ziguezagueantes do MFA, fala-nos demoradamente sobre Otelo, as divisões nas Forças Armadas, recolhe depoimentos, esboça o perfil de certos políticos, chega ao 11 de Março, continua a pensar, como outros, que foi uma armadilha montada pelo KGB; o seu livro apreendido deu-lhe matéria para discretear sobre a liberdade de informação, regressa ao passado para nos dar impressões sobre os cursos do Instituto de Altos Estudos Militares e não esconde um certo desprezo pelos oficiais do Estado-Maior, e de novo voltamos à formação militar, à intrusão da Legião Portuguesa e da Brigada Naval na esfera militar.

E assim chegamos à descolonização, aqui disparam críticas em diferentes direções, denuncia alguns dos erros maiores do colonialismo e enumera situações que dão conta da precipitação da saída de Angola, é nesse contexto que igualmente volta ao passado para nos descrever o seu desempenho e dos seus homens na Operação Viriato, dando-nos igualmente um quadro da impossibilidade de se defender o Estado da Índia, uma situação politicamente desastrada que os militares nunca esqueceram.

Segue-se a narrativa da sua comissão na Guiné, no regulado da Pachana, em primeiro lugar, vêm ao de cima novos desencantos com o comportamento da hierarquia; e por último assenta a sua lente sobre a guerra em Moçambique.

Assim chegámos ao depois e onde se interpretam o curso da guerra, o que se podia ter feito para evitar calamidades de parte a parte. Barão da Cunha colhe o depoimento do Inspetor-Adjunto Fragoso Allas, o dirigente máximo da PIDE na Guiné levado por Spínola. Fragoso Allas dá-nos a sua versão sobre os encontros de Spínola com as autoridades senegalesas, tem todo o interesse ouvir o que ele diz:
“O General Spínola, eu e o Embaixador João Nunes Barata, então alferes miliciano e seu secretário, fomos duas vezes a Cap Sikiring, no Senegal.
A primeira reunião, em 27 de Abril de 1972, foi com o Ministro da Informação do Senegal. Foi uma reunião preparatória com vista ao futuro encontro com o Presidente Senghor.
O ministro referiu: “(…) O facto do Senegal ter bastantes afinidades com Portugal e existirem na cultura senegalesa vincados casos de lusitanidade (…) ao povo guineense competia decidir o seu destino, mas também pensava que a Guiné deveria manter os seus laços de afinidade com Portugal, como o Senegal mantivera com a França (…)”.

A segunda vez, em 18 de Maio de 1972, foi com o próprio Presidente Senghor, na mesma localidade. O encontro iniciou-se cerca das 9h30. Após os preliminares, Senghor referiu-se em termos elogiosos à política em curso na Guiné e deu a entender que preferia ter-nos como vizinhos do que a Sekou Touré e que, entre africanos, o facto de nos conseguirmos sentar à mesma mesa para dirimir pontos de vista opostos, era meio caminho andado para a sua resolução. O resto viria depois, no espaço de um decénio, provavelmente.
Pareceu-me que ele (Senghor) estava convencido que Marcello Caetano era influenciado por militares no sentido de a guerra continuar. Manifestou “o desejo do Senegal ajudar Portugal a resolver o seu problema ultramarino, servindo de intermediário na busca de uma solução”.

O General Spínola referiu que “uma forma regionalista de inspiração federativa seria, a seu ver, talvez a que melhor correspondia às exigências do presente, ocupando o lugar de esquemas políticos rígidos que não servem os interesses de Portugal nem os do povo africano da Guiné”. E que “a solução do problema ultramarino português reside numa política de africanização nos moldes já definidos, preparando as populações para participarem a todos os níveis na administração da sua terra”.

E o diálogo prossegue, Spínola e Senghor parecem sintonizar-se. Senghor admite que haja a necessidade de um período de autonomia interna de, pelo menos 10 anos. Mais adiante, no seu depoimento, Fragoso Allas mostra-se reticente a que tenha havido uma terceira reunião, como alguns investigadores sugerem. Nunca enviara a Spínola, então em férias no Luso, qualquer mensagem dizendo que Amílcar Cabral estava na disposição de ir a Bissau, tal mensagem foi de Alpoim Calvão. Mais adiante, Fragoso Allas refere o seu encontro em 8 de Julho de 1973 com o General Costa Gomes, em Bissau. Costa Gomes ter-lhe-á dito que o Governo central estava disposto a contactar o PAIGC, pelo que queria saber se ele tinha contactos válidos de cúpula. Allas respondeu que, após a morte de Amílcar Cabral não tinha. Mas poderia contactar Nino Vieira, embora levasse tempo. E adianta: “Sabíamos que grande parte dos guerrilheiros já não queria combater e que queriam apresentar-se mediante condições, sendo este o único trunfo que tínhamos, levando em consideração que a ONU já havia decido reconhecer o PAIGC como único representante da Guiné… Costa Gomes disse-me para fazer o que pudesse… No primeiro despacho que tive com o governador, referi-lhe a conversa, mas ele limitou-se a comentar: “Agora? É tarde”.

O livro prossegue com nova diversidade de depoimentos. É uma longa viagem de memórias, parece que o Coronel Barão da Cunha quer que cada um de nós tire ilações em função do manancial de dados que nos oferece.
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Nota do editor

Último poste da série de 30 de novembro de 2015 Guiné 63/74 - P15425: Notas de leitura (781): A "Guiné do Cabo Verde" (1578-1684), por José da Silva Horta, Fundação Calouste Gulbenkian, 2011 (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P15443: Agenda cultural (443): Já saiu o livro do Juvenal Amado, "A tropa vai fazer de ti um homem! - Guiné 1971-1974"... Data e local da sessão de lançamento oficial: 23/1/2016, Livraria Chiado, Clube Literário, Fórum Tivoli, Avenida da Liberdade, Lisboa







Capa e contracapa do livro do nosso camarada Juvenal [Sacadura] Amado, nascido no concelho de Alcobaça em 1950, em Fervença, Maiorga. Depois da instrução primária, conheceu o caminho da fábrica como muitos jovens do seu tempo e da sua região. Trabalhou na Crisal - Cristais de Alcobaça, onde aprendeu pintura e desenho. Prestes a fazer os 22 anos,  foi requisitado pela Pátria.  Fez uma comissão de serviço militar no TO da Guiné, na zona leste, entre 1971 e 1974 (como 1º cabo condutor autorrodas,  CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74).

O Juvenal Amado é um dos nossos mais ativos, profícuos e entusiásticos membros da nossa Tabanca Grande. O seu talento para a escrita  já vem de longa data e pode ser comprovado nos cerca de 180 postes da sua autoria ou com referências ao seu nome.

"A tropa vai fazer de ti um homem! - Guiné 1971-1974" é o seu primeiro livro, publicado pela Chiado Editora. Tem já data e local para o lançamento oficial: 23 de janeiro de 2016, em Lisboa. Mas o livro já está no mercado livreiro, desde o mês passado, podendo ser comprado nas livrarias ou "on line", aqui, em formato digital (ebook) ou em papel.

Como se lê na nota biográfica, "a expressão 'A tropa vai fazer de ti um homem' era uma premonição de que só seriam verdadeiros homens quem passasse pelas vicissitudes que a vida militar e a guerra impunham, como se fosse impossível alcançar esse estádio sem esses sacrifícios. É com ironia que hoje recorda estas palavras. O título deste livro é, de certa forma, uma pequena provocação".

Ficha técnica:

Título: A tropa vai fazer de ti um homem - Guiné 1971-1974
Autor: Juvenal Sacadura Amado
Data de publicação: Novembro de 2015
Número de páginas: 308
Editora: Chiado Editora, Lisboa
ISBN: 978-989-51-5933-8
Colecção: Bíos
Género: Biografia
Preço de capa: €15,00 (papel) | €3,00 (ebook)

Sinopse

Caro Juvenal, saúdo-o pelo livro que escreveu. É uma compilação de histórias escritas, vividas e sentidas na primeira pessoa que ilustram um Portugal para muitos desconhecido e, para outros, esquecido.

Só preservando a memória se poderá evitar que a História se repita.

Um abraço, Nuno Miguel Oliveira



Anos 1950 > s/l [algures, no concelho de Alcobaça] >  Juvenal Amado atrás do cão da sua avó, com tias, tios, primo Hélder e a mãe


Foto (e legenda): © Juvenal Amado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]


1. Mensagem do Juvenal Amado com data de 12 de novembro último:



 Depois de ouvir atentamente a sociedade cívil,  como está na ordem do dia, tenho a dizer-vos que o lançamento do meu livro já está agendado para 23 de janeiro, sábado,  de 2016,  pelas 16 h30.

Local: Livraria Chiado, Clube Literário, Fórum Tivoli, Avenida da Liberdade, Lisboa.

Faltam os cartazes para a publicidade. Até lá, há que manter a serenidade

Um abraço


Juvenal Amado


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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P15442: Memória dos lugares (324): Galomaro e as tropas paraquedistas do BCP12 (Juvenal Amado, ex-1.º cabo condutor auto rodas, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74)


Foto nº 1



Foto nº 2


Foto nº 3

Guiné > Zona leste > Setor L5 > Galomaro > CCS/BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74) > A presença,  regular, desde 1969, dos valorosos camaradas do BCP 12.


Fotos: © Juvenal Amado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legenda:  LG]


1. Fotos do álbum do Juvenal Amado (ex-1.º cabo condutor auto rodas, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74)


Há, na Net,  um álbum de memórias do BCP 12. No nosso blogue, temos cerca de um centena de referências sobre o BCP 12 e alguns camaradas das respetivas companhias (CCP 121, 122 e 123) honram-nos com a sua presença na Tabanca Grande.

Na Net havia um página do BCP 12, com o historial da sua atividade operacional no TO da Guiné, que infelizmente desapareceu. Mas em tempos publicamos um extenso excerto, que está aqui disponível no poste P6953 (*).

Galomaro  também está bem representado no nosso blogue com cerca de 230 referências.   Faltam-nos no entanto infomação detalhada sobre a presença do BCP 12 em reforço do setor de Galomaro. (**)

No meu tempo (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71),
foi criado o COP 7,a  partir de Agosto de 1969, com sede em Bafatá. E os páras vieram reforçar este importante  setor que representava o flanco sul da zona leste (chão fula) e que passou a ficar mais vulnerável às infiltrações e ações ofensivas do PAIGC a partir da retirada, primeiro de Beli e depois de Madina do Boé e Cheche (em 6/2/1969).

Lembro-me que o mês de gosto de 1969 foi um mês de intensa atividade operacional, culminando com uma operação conjunta de forças do setor L1 (Bambadinca) (CCAÇ12, Pel Caç Nat 53 e CART 2339) e do COP 7 (estas representadas pela CCP 122 e por dois grupos de combate da CCP 123) (Op Nada Consta) (***).

As fotos do Juvenal Amado devem ser de 1972/73. E não trazem legendas.  No blogue temos oito referências ao COP 7. (LG)

PS - No final da guerra, Bafatá era sede do CAOP 2, formado pelos seguintes setores: L1 (Bambadinca), L2 (Bafatá), L3 (Nova Lamego), L4 (Piche), L5 (Gondomar) e L6 (Pirada)... mais 3 zonas de intervenção do Com-Chefe... Eram muitos milhares de homens em armas (mais de 7 mil, contando por alto), seguramente superior ao total de efetivos disponíveis do PAIGC, em todas as frentes e bases fronteiriças. O antecessor do COP 7 era o Comando de Agrupamento 2957 (1968/70), que teve à sua frente o cor inf Hélio Felgas, já falecido (maj gen ref) (LG).

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 8 de setembro de 2010 >  Guiné 63/74 - P6953: Estórias avulsas (41): A captura do incaracterístico guerrilheiro Malan Mané, no decurso da Op Nada Consta (Salvador Nogueira)

(...)  BCP 12: actividade operacional no TO da Guiné:

(...) A actividade operacional do BCP 12 ao longo da sua permanência na Guiné foi intensa, conduzindo a resultados reveladores da sua aptidão para combate.

Nos primeiros anos os Pára-quedistas foram empregues fundamentalmente em operações independentes no âmbito da Força Aérea, a qual tinha meios próprios de reconhecimento, ataque ao solo e transporte das suas forças Pára-quedistas.

Os grupos de combate eram normalmente empregues em operações que exigiam grande mobilidade e rapidez de actuação. Quando um grupo de guerrilheiros era detectado ou actuava contra aquartelamentos das unidades do Exército, as forças Pára-quedistas eram colocadas no terreno, através de helicópteros, ou noutros casos, dada a geografia própria da Guiné, através de lanchas da Armada. As forças Pára-quedistas eram usadas por períodos de tempo limitado mas de grande empenhamento.

Para além de operações independentes no âmbito da FAP, os Páras participaram também em operações conjuntas com forças do Exército ou da Armada. Destas destaca-se a operação PARAFUZO, efectuada na ilha de Caiar em Março de 1967, com forças dos Destacamentos de Fuzileiros Especiais nº 4 e 7. Da acção resultou a captura de 20 elementos inimigos.

A partir de meados de 1968 e com o General António Spínola como novo Comandante-Chefe na Guiné, o modo de emprego dos Pára-quedistas foi alterado.

As Companhias [, 121, 122 e 123, ] do BCP passaram a integrar os então criados Comandos Operacionais (COP) com outras forças militares, sob o comando de um oficial superior. Muitas vezes oficiais Pára-quedistas desempenharam essas funções. As forças eram então empenhadas, durante largos períodos, conjuntamente com as Unidades de quadrícula do Exército. As companhias do BCP 12 foram assim muitas vezes atribuídas de reforço às unidades instaladas junto às fronteiras com o Senegal e a Guiné-Conakry.

Foram inúmeras as operações desencadeadas neste período: a operação JUPITER, com 4 períodos no corredor de Guileje, no âmbito do COP 2, a operação TITÃO com o COP 6, a operação AQUILES I, com o CAOP 1, a operação TALIÃO, com o COP 7, entre tantas outras, com bons resultados.

Merece particular destaque a operação JOVE, realizada em Novembro de 1969 com forças das CCP 121 e 122. No dia 18 de Novembro a CCP 122 capturou o Capitão Pedro Rodriguez Peralta, do Exército Cubano, comprovando a ingerência de forças militares estrangeiras na guerra na Guiné.
Apesar das CCP continuarem a ser atribuídas aos COP que se iam activando consoante as necessidades, o Comando do BCP esforçou-se por continuar a levar a cabo algumas operações independentes, actuando como força de intervenção em exploração de informações obtidas e seria neste tipo de operações que se obtiveram alguns dos melhores resultados do Batalhão.

Apesar dos esforços a situação na Guiné continua a degradar-se. A pressão que os guerrilheiros vinham exercendo sobre os aquartelamentos no Sul do território começou a dar resultados. Em Maio de 1973 os guerrilheiros desencadeiam fortes ataques a Guileje,  obrigando mesmo ao abandono do aquartelamento dos militares do Exército. Nas proximidades, Gadamael Porto fica em posição delicada com flagelações frequentes de armas pesadas. 


A 2 de Junho as CCP 122 e CCP 123 são enviadas para Gadamael, seguindo-se no dia 13 a CCP 121. O próprio comandante do BCP 12, Tenente-Coronel Araújo e Sá tinha assumido o comando das forças que com a guarnição do Exército constituiram o COP 5. A posição de Gadamael Porto é organizada defensivamente com abrigos, trincheiras e espaldões, simultaneamente são desencadeadas acções ofensivas sobre os guerrilheiros. A resistência e a determinação das Tropas Pára-quedistas acabaram por surtir efeito e o ímpeto inimigo foi quebrado - Gadamael Porto não caiu. 

A 7 de Julho as CCP 121 e 122 regressam a Bissau e a 17 é a vez da CCP 123, a operação DINOSSAURO PRETO tinha terminado. (...).

(**) Último poste da série > 25 de novembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15411: Memória dos lugares (323): Biambe em 1969, fotos de José Maria Claro, DFA, ex-Soldado Radiotelegrafista da CCAÇ 2464

(***) Vd. poste de 7 de setembro de 2010 >  Guiné 63/74 - P6948: A minha CCAÇ 12 (6): Agosto de 1969: As desventuras de Malan Mané e de Mamadu Indjai nas matas do Rio Biesse... (Luís Graça)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15441: Agenda cultural (442): Lançamento do livro HISTÓRIA(S) DA GUINÉ PORTUGUESA, da autoria de Mário Beja Santos, com apresentação do Professor Eduardo Costa Dias, do ISCTE, e Dr. António Duarte Silva, investigador, dia 10 de Dezembro, 5.ª feira, às 18 horas, no Palácio Conde de Penafiel, Rua de S. Mamede ao Caldas, n.º 21 - Lisboa

C O N V I T E

Lançamento do livro HISTÓRIA(S) DA GUINÉ PORTUGUESA, da autoria de Mário Beja Santos, com apresentação do Professor Eduardo Costa Dias, do ISCTE, e Dr. António Duarte Silva, investigador, dia 10 de Dezembro, 5.ª feira, às 18 horas, no Palácio Conde de Penafiel, Rua de S. Mamede ao Caldas, n.º 21 - Lisboa.



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Novembro de 2015:

A todos os meus amigos, 
As "História(s) da Guiné Portuguesa" procuram avançar com mais hipóteses que venham no futuro a ser consideradas com alguma pertinência pela equipa de historiadores que meter ombros nessa tremenda lacuna da nossa cultura que é a ausência de uma história da Guiné Portuguesa. 
O meu livro procura introduzir dados novos que a moderna historiografia tem vindo a considerar, entre outros: a presença dos judeus na região da Senegâmbia; a natureza do tráfico de escravos na região; o impacto das guerras de pacificação, do século XIX para o século XX, na natureza de uma Guiné transformada em colónia-modelo; mais alguma iluminação sobre a natureza dos movimentos nacionalistas e o desenvolvimento da luta de libertação. 
Carreei, em sequência cronológica, muita documentação que não utilizei no livro a quatro mãos que escrevi em 2014 "Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro". Pedi a dois investigadores eméritos, Eduardo Costa Dias e António Duarte Silva, que na sessão de apresentação procedessem a um debate sobre as lacunas existentes e o modo de as preencher. 
Havendo hoje tanta investigação sobre o período colonial, tantas obras referentes à guerra colonial da Guiné, não se conhece nenhum estudo que abarque os quatros anos da governação de Arnaldo Schulz. 
Conto com a vossa companhia nesta sessão de lançamento e dentro das vossas possibilidades agradeço-vos a mais ampla divulgação possível. 

O reconhecimento e a cordialidade do 
Mário

Capa e contra-capa

Abas da capa e contra-capa
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Nota do editor

Último poste da série de 3 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15440: Agenda cultural (441): Joana Graça > "Riscos & Rabiscos: Estórias Abensonhadas" > Exposição de ilustração, Oeiras, Carnaxide, Biblioteca Municipal de Carnaxide, até ao final do ano...

Guiné 63/74 - P15440: Agenda cultural (441): Joana Graça > "Riscos & Rabiscos: Estórias Abensonhadas" > Exposição de ilustração, Oeiras, Carnaxide, Biblioteca Municipal de Carnaxide, até ao final do ano...





Joana Graça > Exposição de ilustração, novembro - dezembro de 2015

Oeiras, Carnaxide > Biblioteca Municipal de Carnaxide

Rua Cesário Verde, Edifício Centro Cívico 
2790 Carnaxide
Telef.: + 351 210 977 430
Fax: +351 214 170 328

De 3ª feira a 6ª feira das 10 às 19h00

Público-alvo > Comunidade escolar, pais, filhos, netos e bisnetos...



Pintura mural de Joana Graça, em paragem de autocarro, Atenor, Miranda do Douro. Foto da página do Facebook da artista, A Lua Mora Aqui

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Nota do editor:

Último poste da série > 30 de novembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15426: Agenda cultural (440): Apresentação dos livros Radiografia Militar e os 4 DDDD? e Tempo Africano, de Manuel Barão da Cunha, dia 3 de Dezembro de 2015, pelas 15 horas, na Messe do Porto, Praça da Batalha (Manuel Barão da Cunha)

Guiné 63/74 - P15439: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XXIV Parte): "Regresso, dois anos depois" e "Tantos anos depois: por quê recordar?"

1. Parte XXIV de "Guiné, Ir e Voltar", série do nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489, Cuntima e Alf Mil Comando, CMDT do Grupo Diabólicos, Brá; 1965/67.


GUINÉ, IR E VOLTAR - XXIV

1 - Regresso, dois anos depois 

O Uíge zarpou à hora prevista. Tripulação civil e transporte de tropas com as comissões dadas por findas. Como era costume naqueles tempos, os oficiais e sargentos ficaram alojados em camarotes, as praças iam nos porões, lá em baixo. Repartia o compartimento com um alferes do QG, um camarada simpático e muito falador, daqueles que nem precisam de troco, só parava de falar quando adormecia e mesmo assim ouviu-o mais que uma vez durante o sono.

De farda verde emprestada para o jantar, com camaradas alferes e o capitão Silva Viegas1

Ao jantar, o comandante do navio2, com o comandante de bandeira ao lado na mesa, deu-lhes as boas-vindas, desejou-lhes boa viagem. Que iriam directos a Lisboa, sem escalas.
Óptimo, vai ser mais rápido. Depois jantaram com aquelas cerimónias todas que a marinha, seja mercante ou de guerra, gosta de se tratar bem e gosta também que se veja. Quando terminaram, Bissau era uma mancha iluminada, já muito longe.

Encostado à amurada, sozinho, a olhar para trás, luzes já muito longe, uma brisa fresca, sentia-se febril, olhos com água.
O que fizeste aqui, que levas na memória? Farim, o Tenente-Coronel Cavaleiro, o Mealha, o infeliz do capitão de Cuntima, o Didi, o Fininho do bar. O enxerto de porrada que vira um deles dar a um que caíra na emboscada em Sitató. As mãos e os nós dos dedos a martelarem, e o infeliz não dizia nada, que não sabia nada. A cena do batuque. O pedido que lhe tinham feito para fazerem uma festa entre eles. Que sim, mas só até às 11 da noite. O batuque, muito para lá da meia-noite, não parava nem com o piquete ali, à espera que tudo acabasse. A ordem que dera para darem a festa por terminada. Vai já, vai já e nunca mais acabava. A tropa a querer descansar, iam sair para o mato lá para as cinco. Mande-os parar o batuque!
Porrada no gajo, o tipo no chão aos gritos, os batucantes em alvoroço. Parou tudo. Começou foi uns dias depois, um auto de averiguações e, se houvesse matéria, um auto de corpo delito, que só não teve seguimento porque o Ten-Coronel Cavaleiro lhe pôs ponto final. O administrador de Posto, civil, vira tudo de longe, fizera uma participação ao Governo-Geral, a relatar o que vira, um cabo a espancar um nativo. A psico, que chatice, a dar passos para trás.
Dias depois, em Farim, o Ten-Coronel pegou-lhe num braço, levou-o para um canto, quis ouvir a história da boca dele. Mandou vir à sua presença o oficial responsável pelo processo de averiguações, pô-lo ao corrente do que ouvira do alferes. Antes de terminar, ouviu-o dizer, não se bate nesta gente, nunca permita uma coisa dessas, ouviu? O que lhe custara mais nesta história foi a reacção do Didi, o camarada de Cuntima. Se eu for chamado a depor, ficas avisado que vou testemunhar contra ti, tu eras o responsável de serviço. Não se bate em ninguém, muito menos num desgraçado que não se pode defender contra uns tipos de G-3 na mão!
Custara-lhe ouvir, mas acabara por aceitar. Voltaram a falar-se e a ficar amigos, mais tarde.
Uma vez que foram lançados num final do dia na zona de Canjambari, nem queria acreditar, não podia ser, viu o saco, o que o capelão das calças do cocó lançara do Dornier, em Maio de 65! Não pode ser. Mas era! Farrapos do saco do pão, a olharem para ele, formigas brancas, enormes por todo o lado.
Os gajos de Canjambari, do alferes ao corneteiro, todos com os cabelos oxigenados, as gargalhadas interrompidas com as boas-vindas do PAIGC, duas morteiradas a caírem-lhes em cima.
A bela mulata escura, de Cuntima, que reencontrara quando lá voltara em 66, os dois sentados no alpendre da casa dela, a noite a abrigá-los. A estadia em Barro e Bigene a dar-lhe a volta, a marcá-lo.
Achas que a tua presença foi benéfica para a população, como te disseram tantas vezes? O capitão que conheceste em Bigene, todos os “rascas” com quem tiveste de conviver, em quartos espalhados por Buba, Tite, Xitole, Mansoa, no Hospital, pela Guiné toda. Até em ti encontraste um rasca, não uma vez, vezes demais.
O Joaquim com as costas todas furadas, eram balas 7,62, das nossas, de quem haviam de ser! Estou aqui há dez meses, conheço quase todos os calibres e formatos, estou habituado a ver disto, o médico feito legista para ele, no Hospital Militar. O Kássimo, o António Kássimo, voz de menina, um bailarino no mato, o Roberto e a carta da mulher endereçada ao capitão Leandro. A nossa filhinha morreu, cuidado com o meu marido, peço-lhes por tudo, senhores alferes e capitães, por tudo! Desenrasque-se, alferes, o capitão a chutar.
O Matos, o miúdo do AN-PRC103 com a coronha partida da G3 no meio do fogaréu, e agora, que porra? O Álvaro com um estilhaço alojado no ombro, a dizer que era porreiro, que não sentira nada.
O Caeiro, um bigodinho fino que lhe raparam no hospital, para lhe tirarem pedacinhos de metal e areia da cara, O Angola, um grande soldado, a saída prematura do Azevedo e a falta que fez.
E o Silva à procura da morte, mais de quinze dias depois de terminar a comissão, uma aselhice sem remendo. E logo ali, um minuto antes ou depois, um guerrilheiro desesperado, arma branca na mão para os dois metros curvados do Albino com dedos de artista para a MG-424, capaz de desenhar numa parede a cara de um tipo com um cigarro na boca, até o fumo subia. A carta do padre da aldeia do Silva a querer saber pormenores, a pedido da família. Que é que o padre quer que eu diga, meu capitão? Desenrasque-se, escreva qualquer coisa que fique bem, o capitão sempre a chutar. O Guimarães das Taipas, um falador e o Adulai Jaló que só falava quando alguém se dirigia a ele. O Moura, um beirão com pouco mais de metro e meio de altura e, pelo menos, três de valentia, o Bacar Jassi do caso de Barro, intelectual e com vontade própria, um assunto bem arrumado. O Black, o Pascoal, o valente Carvalho, um tipo quadrado cheio de força, a quem dera o fato novo que comprara em Lisboa, numa alfaiataria junto ao elevador de Santa Justa, um dia antes de embarcar. Para que queres o fato na Guiné, pá? É um azul invulgar, lá isso é, o Leite, o tal apanhado à mão em Sare Bacar, a opinar na Rua da Prata. O fato mudou de cor em Bissau, parecia um espelho, um azul eléctrico, faíscas para todo o lado.
O Caleiro, calças numa poça escura, sem um ai, encarrapitado nas costas de um deles a caminho do heli, “amor de Mãe e de fetura noiva” no braço tatuado pelo Albino. O Furriel Valente de Sousa e o Sargento Valente, a moderar-lhe os ímpetos.
E o caso de Jolmete, a arrastar-se quase até ao fim. Uns dias antes de ir para Mansoa, um alferes dos serviços de justiça do QG dissera-lhe que o Ministro do Exército lhe tinha agravado a pena para 10 dias de prisão disciplinar agravada. Como é? Isso ainda mexe, tantos meses passados? Ora, vamos lá ver. Era verdade, pois claro, estava lá na ordem de serviço, acabada de sair. Vou falar com o Brigadeiro! Vais mas é o caralho, pá!
Os caminhos com que nos cruzámos, nós e os nossos Inimigos. As bolanhas, o sol a arder, as chuvadas que entravam quico dentro pelas nossas cabeças e que saíam em esguicho de torneira, camuflado abaixo, até pela pila, água misturada com urina e quando o sol rasgava secava e passava a ferro tudo num rápido. A nós e a eles, em campos opostos, num diálogo a tiro, à morteirada e à roquetada nos Jabadás, Guileges, Guidages e Gadamaeis, conversas repetidas vezes sem número e sem nunca chegarem a acordo.
Odiei esta guerra. Mas cumpri a missão de que me incumbiram e orgulho-me de ter servido nos Comandos. Não quis morrer de graça, nem que alguém morresse. O que tivesse de ser seria e se chegasse a minha vez confiava que nem dava por ela.
Nunca hei-de contar a ninguém o que aqui vivemos, tenho vergonha que me chamem mentiroso. E por mais anos que viva, estes tempos passados aqui chegaram-me. Dou a vida por cumprida. Sinto-me velho, faço 23 dentro de dias, lembrei-me agora.

Deitava-se tarde, levantava-se tarde, ainda não arrumara as horas do sono. Tomava o pequeno-almoço e o almoço ao mesmo tempo. As tardes passava-as nos conveses, junto à balaustrada, sentado naquelas cadeiras que os navios têm. Sempre com bom tempo, mar também, olhava para longe, vinham-lhe lembranças, adormecia, voltava a olhar, e agora, como vai ser, como seria o reencontro com os seus, com a namorada. Arrepios de febre, de medo e contentamento.
Não deveria ter ninguém à espera, não avisara ninguém. Numa correspondência cada vez mais esporádica com o conhecimento de Angra, meses sem lhe dar notícias, ela na mesma. Recebera para aí há um mês um postal dela, de Lisboa, tinha vindo para o continente, fixara-se na Parede. Deves estar a sair daí, não?
Não voltes a escrever, não vale a pena, arranco no mês que vem, parece que vou no Uíge. No dia em que entrara com a mala nova ao quarto, tinha uma carta dela. Que ia procurar saber a data da chegada do navio a Lisboa, contava poder estar lá e, quem sabe, reeditar a correspondência ao vivo.
Não, agora é outro tempo. Foi bom, passou.


Uma noite daquelas, já se deviam ver as ilhas de Cabo Verde, o comandante do Uíge informou-os que teriam que escalar S. Vicente. Atracariam no Mindelo, só o tempo para meterem águas. Como é possível, para meter águas? Não as meteram antes, só agora é que se lembraram que lhes está a faltar água?
Nunca mais chego a Lisboa.


Metade de um dia no Mindelo. Tanta vontade de partir dali, que nem saiu do navio.

Ficou-se aquele tempo todo no barco, a olhar para a cidade, para os montes, clicks na Ricoh até acabar o rolo. Leva a máquina, tira umas fotos por mim, Black.


Mais horas do que lhes tinham dito, finalmente tiraram as amarras, outra vez o navio em boa rota.


Nem acreditava, devia estar a sonhar, um ponto ao longe primeiro, uma recta de pontos uns minutos depois, uma curva cada vez maior a olhar para ele, o Tejo a levá-lo até Lisboa, desde a manhã cedo desse dia, 27 de Janeiro.

Dois anos! Tinha embarcado em Lisboa em 10 de Janeiro de 1965, pôs os pés pela primeira vez em Bissau em 19 do mesmo mês e ano. Embarcou em Bissau em 19 de Janeiro de 1967, exactamente dois anos depois.

Uma cena já filmada muitas vezes, uma multidão no cais, na Rocha Conde de Óbidos, gente com roupas escuras, de inverno, algumas jovens e crianças também.
Tinha tudo preparado, mala e saco em cima da cama. Vais assim, só com a camisa vestida? É Janeiro em Lisboa, não sentes? Não tinha nada mais para vestir, também não tinha frio, o calor da Guiné, mais o calor que sentia de deixar para trás aquele tempo todo.
Foi lá para cima, para o ponto mais alto que pôde, ver a multidão, lenços no ar, os militares aos gritos, ó Nuno olha-me para aquela brasa, uma moça lá em baixo com um lenço na mão a acenar cá para cima, um contentamento que não há palavras que contem. Saíam aos trambolhões, malas com eles a rolarem pelas escadas.
Não vens? Fico para o fim, não tenho ninguém à minha espera, nem sequer quem eu queria.
Saíram todos, uns mais lentos, agora mais espaçados e lá em baixo, os abraços intermináveis, os choros de alegria.
É pá, os teus pais estão aqui em baixo! Saiu mais depressa do que contava, num rápido passava-se com ele o que se estava a passar com os outros, abraços e lágrimas nos olhos do pai, a mãe, o meu menino, o choro pela cara abaixo, uns óculos escuros no meio de um cabelo farto até aos ombros, um casaco preto comprido, uma figura que lhe fez lembrar a Juliette Grecco, era ela, o conhecimento de Angra, a meia dúzia de metros, sem saber o que fazer, depois discreta a acenar-lhe com um sorriso, a dizer-lhe adeus.

Depois, a carrinha a andar por aquela Lisboa, a 24 de Julho, o Terreiro do Paço, a rua da Prata, até ao Rossio. Os olhos a passarem por tudo.
Mataste muitos turras? Juntaste umas massas, não? Tinha perdido a fala, não sabia que dizer. Eram horas de tirar a farda. Passou por uma loja, na esquina do Rossio com os Restauradores, um casaco de lã azul-escuro, calças cinzentas de flanela, camisa branca e uma gravata a condizer, nem reparou que as calças e o casaco eram de um número abaixo, pelo menos.
Enquanto almoçavam no Solmar, o olhar perdia-se pelo salão do restaurante, dois anos e tudo na mesma, como se tivesse estado lá ontem.
No fim do almoço, Depósito de Adidos, um 1.º Sargento enfastiado disse-lhe que aguardasse. O que tiver que mandar envie pelo correio. Não demora, é só o tempo para lhe passar um papel para as mãos.
Passa à disponibilidade desde amanhã o Sr. alferes mil., indo domiciliar-se em, freguesia de, concelho de. O portador deste documento deverá apresentá-lo quando lhe for exigido pela autoridade militar ou civil, em substituição da sua caderneta militar. Quartel em Lisboa, 24 de Fevereiro de 19675. O Comandante, Fulano Ferreira de tal, coronel.

Na estrada para o Porto, mal deu pela viagem, fartou-se de dormir. Nem se lembra onde ficou, se em casa dos pais se na da madrinha no Porto.
Recorda-se, isso sim, do dia seguinte, a seguir ao almoço. O eléctrico na avenida dos Aliados para o Monte dos Burgos, o 6 por ali acima até ao Carvalhido, o passo acelerado até à rua dela, o toque na campainha, escadas duas a duas a subir, ela a vir por ali abaixo e um abraço sem palavras. Vamos? Vamos.
Um dia frio de fins de Janeiro. O Porto era o Porto do Sol escondido, o eléctrico chiava pela Carvalhosa e Cedofeita abaixo até aos Aliados. Os olhos nem sabiam para onde se virarem, o aroma era o mesmo Lancôme, de há dois anos. Dois anos depois, quase tudo na mesma. O que é? Por que olhas assim para mim?
Ao lado dele, ela linda, de sobretudo azul-escuro de botões prateados, os olhos levemente pintados, a cara lisa e redonda, os olhos magníficos. Atrix nas mãos dadas, rua de Santo António acima até à Batalha, muito mais silêncio que palavras de ocasião.
Um embaraço, tanto tempo depois, não tinham nada para dizer.
Por que não dizes nada? Mais perguntas, maior a dificuldade em falar. Um mundo diferente passava-lhe à frente. Pessoas nas ruas, sorridentes, a vida a correr e as recordações, confusas, não despegavam. Bolanhas, camaradas, coladeras, cerveja, colunas de viaturas verdes, picar estradas, minas, tiros, terra vermelha a ferver, pés queimados, noites escuras e brilhantes como se dia fosse. Outro mundo, uma semana e pouco depois.
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Notas
1 - Chefe do Estado-Maior do Exército em Março de 2001
2 - Oficial da Marinha Mercante. Nesses navios de transporte de tropas ia sempre embarcado um Oficial da Armada, o Comandante de Bandeira
3 - Transmissor-receptor portátil de frequência modelada que equipava as forças terrestres e meios aéreos
4 - Metralhadora ligeira muito apreciada pelos nossos militares
5 - Data da passagem à disponibilidade

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2 - Tantos anos depois: por quê recordar? 

Estava reformado há dias, ainda não tinha passado a primeira semana.
Daqui fala o Sargento-Mor R. Fonseca, também estive nos Comandos em Angola, estou a contactá-lo porque faço parte de um grupo encarregado de proceder à recolha de toda a informação que houver sobre os Comandos. O seu nome tem-me aparecido aqui em relatórios de operações e numa série de documentos. Tenho contactado com várias pessoas que fizeram a guerra da Guiné consigo, o Sargento Mário Dias, o Furriel João Parreira, o Marcelino da Mata, o Vassalo Miranda e outros.
A razão do meu telefonema é saber se dispõe de alguma documentação desse tempo e que me possa ajudar a reconstituir a história dos Comandos. Dos anos mais recentes temos tudo, agora dos primeiros anos da formação dos Comandos, da chamada fase de grupos, falta-nos muita informação.
Que já tinham passado muitos anos, quase quarenta, que sim, que se lembra de ter trazido da Guiné alguma documentação e fotos, e que a deixara em casa do pai, no Minho. Que, quando lá fosse, procuraria o material que tinha trazido e se o encontrasse, pois teria muito gosto em o entregar ao Arquivo Militar.
Quando se voltou a sentar em frente ao computador, os olhos saltaram pela janela para o movimento da avenida. Por uns momentos, a cabeça andou para trás.

As guerras não têm muito que contar, são todas iguais, a história é sempre a mesma, tiros, granadas, feridos, mortos, estrondos, nuvens de pó a subirem, folhas de árvores a caírem, rebentamentos, chicotadas de balas, gritos de ataque e de dor. É sempre igual, só isto, não há muito mais a dizer.

Cadetes em formatura na parada da Academia Militar, Amadora, 1963. 

Fornadas de jovens arrancados ao trabalho e ao estudo, espalhados pelas Mafras e Taviras do País, encaixotados nos comboios, nas camaratas, nos camarotes ou nos porões sujos e escuros dos Uíges e Niassas, de G3 na mão pelas matas, savanas, tarrrafos, bolanhas, corações aos saltos, T6 e Fiats G-91 no ar, helis à procura de locais para pousarem, macas com feridos e mortos, os regressos aos abarracamentos, partir para outra, sempre assim, até ao fim dos dois anos. As guerras são todas assim, Comos, Quirafos, Bubas, Madinas, Guidages, Guilejes, Gadamaeis, Xitoles, em toda a Guiné, foi tudo igual.
O que depressa se esqueceu foi o que se passou a seguir. O regresso, o esquecimento, o deles não, que muitos bem queriam mas não conseguiam. Até o sentimento de culpa por terem participado naquela guerra passou a viver com muitos deles.
E, valha a verdade, tudo foi feito para que vivessem assim, esquecidos. Para que aqueles jovens que deram o que tinham, se envergonhassem de terem defendido um governo colonialista. Foi o que Portugal lhes deu, interrompeu-lhes as vidas, ainda no começo, depois despacharam-nos com uma guia de marcha para as famílias, que tomassem conta deles.

Tempos depois, entrou no escritório que o pai tinha na casa, no norte. Olhou para a papelada acumulada, mais de quarenta anos de pó, do pai e dele. Gavetas para fora, virou-as ao contrário. Papéis amarelecidos, fotos daquele preto e branco com muitos anos.
Estava tudo mexido, alguém por ali tinha andado. Tudo fora da ordem, coisas misturadas, um papel com uns apontamentos à mão, numa letra de alguém que devia estar com uma pressa danada, uma data de Janeiro de 65, uma foto logo a seguir com quatro camaradas sorridentes, empoleirados numa barcaça de um navio, as fardas novinhas, ainda com os vincos a notarem-se nos calções, as pernas e os braços muito brancos, o sol a dar-lhes com um mar calmo à volta. E logo a seguir outra foto, com um deles a escorrer sangue que foi com certeza vermelho por uma daquelas pernas abaixo, 12 de Setembro de 65, granada, fulano de tal, nas traseiras da foto.
Há pretas bonitas aí onde estás? Dizem aqui que elas andam nas ruas sem soutien, já viste alguma, uma madrinha de guerra curiosa. Uma boina que já foi preta, um emblema de plástico, uma Playboy com a Marilyn na capa, as folhas da revista com sinais de muito uso, muitas mãos passaram por ali, pelo menos uma companhia inteira, capitão, corneteiros e tudo.
Um papel azul de 35 linhas, oficial, do Exército Português, DESPACHO, o título a meio, meia dúzia de linhas muito bem arrumadas, que é para aprenderes a respeitar a ordem pública. Mais uma foto, uma balanta, sorridente, uma cabaça com água na cabeça, as mãos a segurá-la, a água, sorridente também, a escorrer-lhe pelas mamas empinadas, mais apetitosas ainda.
Uma clareira, o sol a inundar a imagem, um pelotão em fila de pirilau, uns a olhar para o chão, outros para muito longe dali. Um relatório de operações, um ataque fulminante das NT desbaratou totalmente as forças IN que os emboscaram. Perseguidos pelo pelotão foram deixando para trás o material que abaixo se indica. E indicava-se. Uma granada de mão ofensiva, um porta-cartucheiras, cerca de 100 munições de vários calibres e mais material não especificado.
Uma carta de Bissau, uma foto com uma dedicatória, para te lembrares de mim.
E outra foto, numa mesa cheia de garrafas de cerveja um tipo com cara de sono, olhar morto, apalermado para a câmara.
E mais papéis. Outro documento do Exército, tão oficial como o outro, com o título a meio, PUNIÇÃO e mais uma série de linhas muito bem organizadas, letras a baterem certinhas, como se tivesse sido um desenhador a arrumá-las.
Meu filho, nesta altura que te escrevo já deves estar a fazer as malas para te vires embora. Embora ainda não, pai, há ainda muita tralha para pôr na ordem.
Outro documento do Exército, letras muito bem organizadas, o s também, sempre a insistir em querer ficar um pouco acima das outras letras, mas o título sempre a meio, LOUVOR do Comandante Militar. Não tarda e estás feito um militar como deve ser, se continuares assim ainda te espetam uma medalha, vais ver.
Escrevo-lhe esta para lhe dar conhecimento que o meu marido, o soldado tal do seu grupo deixou de me escrever, já não me manda uma carta vai para dois meses e meio. Eu sei que não lhe aconteceu mal nenhum porque as más notícias correm muito depressa. Peça por tudo ao meu marido que me escreva, por amor de quem lá tem, senhor alferes, que eu sei que é um homem direito.
Sabes de onde te estou a escrever? Na cama, com a televisão em frente, a ver o diário da volta, os ciclistas, serra da Estrela acima, com um calor que não imaginas. Fui sair depois do jantar, apanhar um pouco de fresco, encontrei o idiota do Pardal, não me larga nem por nada, não gostei da conversa, vim para casa. O calor, aqui dentro, pega-se. À falta de um balde de gelo onde eu coubesse, meti-me no chuveiro, e deixei-me estar com a água a correr até a mãe bater à porta. Nem roupa nem nada, estou assim, com o livro em cima dos joelhos, a servir de secretária e a escrever-te. Ainda te lembras do pôr-do-sol do Monte Brasil? E daquelas tardes loucas nos Biscoitos?
Ordem de serviço, abates à carga e ao efectivo, transferências, punições, louvores, comissões dadas por finda, prorrogações de comissão por mais um ano. Mais e mais fotos, uma cópia de uma operação, setas a vermelho e verde no croqui a papel vegetal. Não viemos por aqui. Que é que interessa agora se este croquis mente, se a entrada para o acampamento não foi por aí, mas sim pelo trilho que vem do Senegal?
Estojo, que é isto? A Star do pai, uma 6,35. Pegou nela, seis balas no carregador, a cor dos cartuchos, os projécteis dourados, como se tivessem saído ontem da fábrica! Veio-lhe à memória a jura que fizera a si próprio, ainda na Guiné, de nunca mais voltar a pegar numa arma.
Afinal os dois anos de há tantos anos ainda ali estavam. Uma data de horas a separar a papelada, cartas, fotografias, tanto tempo passado e parecia-lhe ter sido ontem. Vieram as recordações, uma, depois outra, uma catadupa a seguir e a Guiné a voltar à tona do charco.

No dia seguinte, no princípio de uma tarde de Janeiro, com a Star do pai no bolso do blusão, montou na bicicleta e foi pelo caminho fora, a caminho da Barca do Lago.
O areal imenso de há quarenta anos estava muito mais pequeno. Teria sido sempre assim ou os olhos já não eram os mesmos? Bicicleta encostada a um eucalipto, meteu-se pela areia fora, sentou-se em frente à casa dos Reids. Uma história infeliz nos meados dos anos 50 veio-lhe à lembrança. O dono daquela casa magnífica, nunca se soube porquê, metera uma bala na boca. Pegou na Star, esteve uns momentos a mirá-la, levantou-se e lançou-a, bem para o meio do rio. Sentado, uma tarde num instante, reviu a vida toda para trás, os rascas todos que conhecera, ele próprio. O Cávado, em frente, cheio de preguiça, sem vontade de se perder no mar.

Às 4 horas de uma tarde de Janeiro de 2005

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(Continua)
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Nota do editor

Poste anterior da série de 27 de novembro de 2015 Guiné 63/74 - P15417: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XXIII Parte): Lifna Cumba, o "Joaquim"; Um longo Dezembro e Os Últimos Dias

Guiné 63/74 - P15438: Inquérito 'on line' (21): num total de 109 respondentes, 59% diz que gostaria de poder ir até à Guiné-Bissau, por terra, atravessando o deserto do Sara... 36% diz que não gostaria... Os restantes 5% não sabe ou não tem opinião...




Matosinhos > 19 de fevereiro de 2009 > Expedição Humanitária à Guiné > Na garagem do Silvério Lobo, arruma-se resto da tralha que irá no jipe do Nina, ex-fur mec auto, da CART 6250, Os Unidos de Mampatá (Mampatá 1972/74)... Na foto, vê-se em primeiro plano o Carvalho de Mampatá (ex-fur mil enf) e em segundo plano, o Nina (de costas) e o Lobo (que esteve em Aldeia Formosa) (*).
Foto (e legenda): © José Manuel Lopes (2009). Todos os direitos reservados.



INQUÉRITO DE OPINIÃO: "AINDA GOSTARIA DE PODER IR ATÉ À GUINÉ-BISSAU, POR TERRA, PELO SARA..."


Votos apurados: 109 (**)
Sondagem fechada  2/12/2015 13h25

Discriminaçãop dos resultados:

1. Sim, gostaria muito  >37 
(33,9%)

2. Sim, gostaria  > 28 
(25,7%)

3. Não sei / não tenho opinião  > 5 
(4,6%)

4. Não, não gostaria  > 26 
(23,9%)

5. Não, não gostaria nada  > 13 
(11,9%)
Total > 109
(100,0%)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 15 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P4033: De regresso a Mampatá (Zé Manel Lopes) (1): Da Tabanca de Matosinhos ao Cabo Bojador

Guiné 63/74 - P15437: Os manuais escolares que nos forma(ta)ram (3): Geografia, Portugal e Colónias, 3ª e 4ª classes, de A. de Vasconcelos, c. 1940 - Parte III: "Amemos o Brasil, nação irmã muito amiga, onde temos muitos e muitos milhares de compatriotas que a essa abençoada terra foram procurar meios de viver com honra para nossa linda e querida pátria " (p. 34)



VASCONCELOS. A[ugusto Pinto Duarte] de - Geografia Portugal e Colónias, 3ª e 4ª classes, nova edição. Porto: Editorial Domingos Barreira, [1940], 118 + 1 pp., ilustrado, 18 cm.






Geografia..., op cit., pp. 31-34. O Brasil era dado na 3ª classe... Em três páginas, num manual com, um total de 118 páginas... 



Para além de saber ler, escrever e contar, o português dos anos 30 do séc. XX deveria ter um mínimo de literacia geográfica, para poder e saber... emigrar. No início da década de 40, Portugal tinha 7,7 milhões de habitantes, e o Brasil... mais de 40 milhões. Hoje tem mais de 200 milhões e uma megacidade como São Paulo com quase 45 milhões (!)...

Informação histórica do supracitado manual: o Brasil foi "colónia portuguesa" (sic), leia-se: "pertenceu" a Portugal desde 1500 até 1822, ano "em que se tornou independente" ... Enfim, é o destino preferido dos "portugueses que emigram", leia-se: "que vão procurar fortuna ou os meios de viver fora da Pátria, por nesta os não poderem adquirir" (sic).

E a curta lição acaba com uma exortação patriótica: "Amemos o Brasil, nação irmã muito amiga, onde temos muitos e muitos milhares de compatriotas que a essa abençoada terra foram procurar meios de viver com honra para nossa linda e querida pátria" (p. 34)...

Na realidade, o Brasil foi durante um século o principal destino da emigração transcontinental portuguesa... Segundo o grande geógrafo Orlando Ribeiro (1911-1997), entre 1890 e 1940, terão saído de Portugal 1,2 milhões de emigrantes, 92% originários do norte, 83% destinados ao Brasil...

Nos dois primeiros séculos da colonização do Brasil (de 1500 a 1700), a emigração é baixa: estima-se que tenham "emigrado" para aquele território 100 mil portugueses (uma média anual de 500).  É uma imigração restrita. Este número contrasta com os que, neste período, saíram do pís, dirigindo-se para as possessões portuguesas na África e Ásia: cerca de 700 mil emigrantes, aproximadamente:

280 mil (entre 1500 e 1580) (média anual: 3500);
300 mil (entre 1581 e 1640) (idem, 5000):
120 mil (entre 1641 e 1700) (idem, 200).

 Há um salto muito significativo entre 1701 e 1760, na emigração para o Brasil: somam-se mais 600 mil portugueses, atraídos pela descoberta de ouro (em  1696) e pedras preciosas... Uma média anual de 10 mil...  O período entre 1701 e 1850 é considerado como o transição da imigração (Venâncio, 2000):

A imigração de massa vai de 1850 a 1930. A partir de 1960, há claramente um declínio.

Entre 1881 e 1967, calcula-se que mais de 1 milhão e meio o número de portugueses que terá emigrado para o Brasil, assim distribuídos por período:

1881/1900 > 316.204 (média anual; 15.810)

1901/1930 > 754.147 (idem, 25.138) (o maior pico da emigração portuguesa para o Brasil)

1931/1950 > 148.699 (idem, 7.434)

1951/1960 > 235.635 (idem, 23.563)

1961/1967 > 54.767 (idem, 7.823)


Fonte: Venâncio, R. P. - Presença portuguesa: de colonizadores a imigrantes. In: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000.


Já agora, e para completar esta informação sobre a demográfica histórica brasileira, cite-se o IBGE (2000):

"No continente americano, o Brasil foi o país que importou mais escravos africanos. Entre os séculos XVI e meados do XIX, vieram cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças, o equivalente a mais de um terço de todo comércio negreiro. Uma contabilidade que não é exatamente para ser comemorada [, nos 500 anos do Brasil]".

O maior contributo para a formação da população brasileira, em 500 anos, foi portanto a imigração portuguesa,  imediatamenhte a seguir ao dos negros de África, levados como escravos.

Fonte: In: Instituto Brasileiro de Geografa e Estatística. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000.


Nos manuais do Estado Novo, de história e de geografia, em que estudámos (a geração que orá fazer a guerra colonial), havia uma clara tendência para ignorar ou escamotear o problema da escravatura africana...e o "colapso" da população indígena no Brasil  (que em 1500 podia ser estimada entre 2,5 e 6 milhões, variando muito as estimativas conforme as fontes).

(...) "No primeiro censo demográfico realizado no Brasil, em 1872, a população brasileira atingia 9.930.478 habitantes, dos quais 3.787.289 brancos, 1.954.452 pretos, 3.380.172 pardos e 386.955 'caboclos'. 'Pardos', na época, era o termo utilizado sobretudo para mulatos; de fato, enquanto o censo classificava a população livre em quatro categorias, a população escrava se dividia apenas em pretos e pardos. 'Caboclos' é o termo tradicional para mestiços de índio e branco; contudo, incluía, neste censo, a população indígena aculturada (...) . A população indígena não aculturada não foi contada, mas sabemos que era bastante reduzida. No censo de 2000, 128 anos depois, a população total havia crescido para 169.872.856, dos quais 91.298.042 brancos, 10.554.336 pretos, 65.318.092 pardos, 761.583 'amarelos' e 734.127 indígenas." (..:) 

Fonte: Modelo de Evolução da População no Brasil Colonial. [Em linha]. Ideias. Wikidot.com. 2011. [Consultado em 2/12/2015]. Disponível em  http://ideias.wikidot.com/modelo-de-evolucao-da-populacao-no-brasil-colonial