quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15437: Os manuais escolares que nos forma(ta)ram (3): Geografia, Portugal e Colónias, 3ª e 4ª classes, de A. de Vasconcelos, c. 1940 - Parte III: "Amemos o Brasil, nação irmã muito amiga, onde temos muitos e muitos milhares de compatriotas que a essa abençoada terra foram procurar meios de viver com honra para nossa linda e querida pátria " (p. 34)



VASCONCELOS. A[ugusto Pinto Duarte] de - Geografia Portugal e Colónias, 3ª e 4ª classes, nova edição. Porto: Editorial Domingos Barreira, [1940], 118 + 1 pp., ilustrado, 18 cm.






Geografia..., op cit., pp. 31-34. O Brasil era dado na 3ª classe... Em três páginas, num manual com, um total de 118 páginas... 



Para além de saber ler, escrever e contar, o português dos anos 30 do séc. XX deveria ter um mínimo de literacia geográfica, para poder e saber... emigrar. No início da década de 40, Portugal tinha 7,7 milhões de habitantes, e o Brasil... mais de 40 milhões. Hoje tem mais de 200 milhões e uma megacidade como São Paulo com quase 45 milhões (!)...

Informação histórica do supracitado manual: o Brasil foi "colónia portuguesa" (sic), leia-se: "pertenceu" a Portugal desde 1500 até 1822, ano "em que se tornou independente" ... Enfim, é o destino preferido dos "portugueses que emigram", leia-se: "que vão procurar fortuna ou os meios de viver fora da Pátria, por nesta os não poderem adquirir" (sic).

E a curta lição acaba com uma exortação patriótica: "Amemos o Brasil, nação irmã muito amiga, onde temos muitos e muitos milhares de compatriotas que a essa abençoada terra foram procurar meios de viver com honra para nossa linda e querida pátria" (p. 34)...

Na realidade, o Brasil foi durante um século o principal destino da emigração transcontinental portuguesa... Segundo o grande geógrafo Orlando Ribeiro (1911-1997), entre 1890 e 1940, terão saído de Portugal 1,2 milhões de emigrantes, 92% originários do norte, 83% destinados ao Brasil...

Nos dois primeiros séculos da colonização do Brasil (de 1500 a 1700), a emigração é baixa: estima-se que tenham "emigrado" para aquele território 100 mil portugueses (uma média anual de 500).  É uma imigração restrita. Este número contrasta com os que, neste período, saíram do pís, dirigindo-se para as possessões portuguesas na África e Ásia: cerca de 700 mil emigrantes, aproximadamente:

280 mil (entre 1500 e 1580) (média anual: 3500);
300 mil (entre 1581 e 1640) (idem, 5000):
120 mil (entre 1641 e 1700) (idem, 200).

 Há um salto muito significativo entre 1701 e 1760, na emigração para o Brasil: somam-se mais 600 mil portugueses, atraídos pela descoberta de ouro (em  1696) e pedras preciosas... Uma média anual de 10 mil...  O período entre 1701 e 1850 é considerado como o transição da imigração (Venâncio, 2000):

A imigração de massa vai de 1850 a 1930. A partir de 1960, há claramente um declínio.

Entre 1881 e 1967, calcula-se que mais de 1 milhão e meio o número de portugueses que terá emigrado para o Brasil, assim distribuídos por período:

1881/1900 > 316.204 (média anual; 15.810)

1901/1930 > 754.147 (idem, 25.138) (o maior pico da emigração portuguesa para o Brasil)

1931/1950 > 148.699 (idem, 7.434)

1951/1960 > 235.635 (idem, 23.563)

1961/1967 > 54.767 (idem, 7.823)


Fonte: Venâncio, R. P. - Presença portuguesa: de colonizadores a imigrantes. In: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000.


Já agora, e para completar esta informação sobre a demográfica histórica brasileira, cite-se o IBGE (2000):

"No continente americano, o Brasil foi o país que importou mais escravos africanos. Entre os séculos XVI e meados do XIX, vieram cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças, o equivalente a mais de um terço de todo comércio negreiro. Uma contabilidade que não é exatamente para ser comemorada [, nos 500 anos do Brasil]".

O maior contributo para a formação da população brasileira, em 500 anos, foi portanto a imigração portuguesa,  imediatamenhte a seguir ao dos negros de África, levados como escravos.

Fonte: In: Instituto Brasileiro de Geografa e Estatística. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000.


Nos manuais do Estado Novo, de história e de geografia, em que estudámos (a geração que orá fazer a guerra colonial), havia uma clara tendência para ignorar ou escamotear o problema da escravatura africana...e o "colapso" da população indígena no Brasil  (que em 1500 podia ser estimada entre 2,5 e 6 milhões, variando muito as estimativas conforme as fontes).

(...) "No primeiro censo demográfico realizado no Brasil, em 1872, a população brasileira atingia 9.930.478 habitantes, dos quais 3.787.289 brancos, 1.954.452 pretos, 3.380.172 pardos e 386.955 'caboclos'. 'Pardos', na época, era o termo utilizado sobretudo para mulatos; de fato, enquanto o censo classificava a população livre em quatro categorias, a população escrava se dividia apenas em pretos e pardos. 'Caboclos' é o termo tradicional para mestiços de índio e branco; contudo, incluía, neste censo, a população indígena aculturada (...) . A população indígena não aculturada não foi contada, mas sabemos que era bastante reduzida. No censo de 2000, 128 anos depois, a população total havia crescido para 169.872.856, dos quais 91.298.042 brancos, 10.554.336 pretos, 65.318.092 pardos, 761.583 'amarelos' e 734.127 indígenas." (..:) 

Fonte: Modelo de Evolução da População no Brasil Colonial. [Em linha]. Ideias. Wikidot.com. 2011. [Consultado em 2/12/2015]. Disponível em  http://ideias.wikidot.com/modelo-de-evolucao-da-populacao-no-brasil-colonial

2 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
Sobre a questão da "formatação dos espíritos" sugiro que leiam o Dec-Lei 21.103 publicado no Diário do Governo n.º 89, 1ª série de 15ABR932 que regula o ensino da História nos ensinos primário e secundário.
Podem assim compreender porque é que tínhamos que saber os reis de enfiada, com cognome e tudo, os descobrimentos com datas, nomes e locais e porque é que ganhámos aos franceses 10-0, a par de outras vitórias como das "campanhas de África" do final do Séc. XIX, início do Séc. XX. Lá tivemos aquele azar em Alcácer-Quibir e em 1580, mas depois... foi sempre a facturar.
Um Ab.
António J. P. Costa

Antº Rosinha disse...

Neste momento o Brasil e Angola em crise, são também uma crise portuguesa.

E provavelmente teremos com o correr dos próximos anos, dois dos mais atractivos destinos de emigração.

Embora esses países tenham sido dominados e continua, por enormes colónias em relação à nossa presença , esses dois países vão manter sempre um cantinho para os portugueses cronicamente emigrantes.

É uma mais valia tão importante esse cantinho, que só lhe damos valor se tivermos oportunidade de nos refugiarmos lá.