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domingo, 8 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27805: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (3): O beijo, tardio, da Pátria: para o António Lobo Antunes que ontem se despediu da Terra da Alegria...

Capa, à direita da edição do semanário Visão, de 27 de setembro de 2007, em que o escritor António Lobo Antunes (1942-2026) deu uma notável entrevista a Sara Bela Luís sobre "A Vida Depois do Cancro" (Vd. a antiga página, não oficial, do escritor, recuperada pelo Arquivo.pt: https://arquivo.pt/wayback/20081023014032/http://ala.nletras.com/)


1. Comentários dos nossos leitores aos postes P27802 e P3003 (*):

(i) Joaquim Costa
Subscrevo. Esta geração vai a chegar ao fim sem o tal beijo!
sábado, 7 de março de 2026 às 16:05:39 WET

(ii) Hélder Sousa

Muito oportuna esta repescagem. E que bem escrito! E que comovente! Só não se comoverá quem não conseguir "sentir" os ambientes. E, sim, a geração vai seguir o seu destino sem "beijos de despedida" pelo Poder. Mas talvez até seja bem melhor assim, sem falsidades, sem hipocrisia.
saábado, 7 de março de 2026 às 16:38:55 WET

(iii) Alberto Branquinho
(...) Vamos ver se conseguimos saber o número do micro-ondas para verificar se ainda mora lá alguém? (...)
sábado, 7 de março de 2026 às 17:37:37 WET

(iv) Abilio Duarte
Simplesmente bonito...que este camarada Lobo Antunes, descanse em paz.
sábado, 7 de março de 2026 às 18:15:38 WET

(v) Santos Oliveira
Também me correm algumas lágrimas, Graça Abreu, de alguma raiva e muita desilusão, pela minha impotência de não ver a minha Pátria, em nome de quem lutámos e morremos, ter dignidade para reconhecer, sem panaceias, o que é de plena justiça. Grato, Graça Abreu, por nos trazeres ao de cima as palavras do A.Lobo Antunes. No fundo, são uma âncora que nos amarra a uma esperança, e que, para nós, será a última a morrer.
segunda-feira, 30 de junho de 2008 às 18:49:00 WEST 

(vi) Hélder Sousa
Muito obrigado amigo A. Graça Abreu por teres tido a lembrança de colocares à disposição de todos (assim o entenderam, e bem, os nossos editores) este belo, duro e comovente artigo do Lobo Antunes. O raio do homem escreve mesmo bem e, quanto a entender estes sentimentos de quem andou "a batê-las lá longe", no mato, "onde o sol castiga mais",  é duma sensibilidade e acutilância, envolvida na crueza das situações, que é mesmo como se ainda estivesse tudo fresco.
terça-feira, 1 de julho de 2008 às 00:11:00 WEST 



2. Nenhum de nós, aqui, no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, seria levado a sério se escrevesse o que António Lobo Antunes escreveu, na sua crónica habitual na revista 
Visão, edição de 19 de Junho de 2008, a propósito dos antigos combatentes,  e que o nosso António Graça de Abreu em boa hora repescou, replicou e nos pediu para publicar (*):

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa!"...

O antigo alferes miliciano médico do BART 3835 (Angola, 1971/73) e em 2008 já famoso, aquém e além fronteiras, como escritor, põe o dedo na ferida da guerra colonial, ainda longe de ter sarado. 

Aliás, mesmo mais de meio século depois, é uma ferida que custa a sarar. O país espera que morramos todos, uns atrás dos outros ou então em massa, na próxima pandemia que há de vir: quando morre o bicho, morre a peçonha. 

Mas é aqui que o António Lobo Antunes, que também andou pelo "cu de Judas", volta bater na tecla do abandono e da ingratidão da Pátria em relação aos seus antigos combatentes. 

Para além do que o António Graça de Abreu, oportunamente acrescentou (*), apraz-nos registar mais o seguinte, podendo todavia esse mais parecer se redundante e até irritante (**).

2. Esta crónica do Lobo Antunes, já com 18 anos, não perdeu atualidade e também não passou despercebida a alguns de nós. 

Para além da sua beleza literária,  há aqui mágoa e dor que só quem viveu a guerra colonial pode compreender na sua plenitude. Não importa por onde passou (Angola, Guiné, Moçambique, Índia Portuguesa, Timor...). (Dor e mágoa que outros portugueses de antanho também sentiram e expressaram, com ironia ou sarcasmo,  de Camões ao padre António Vieira.)

Em homenagem ao camarada e ao escritor que ontem se despediu da Terra da Alegria (e que em vida sobreviveu a 3 cancros), permitam-me,  os nossos caros  leitores,  que destaque alguns pontos-fortes do texto (ou dos excertos que foram republicados) (*):

(i) A fraternidade dos "irmãos de armas"

Lobo Antunes não idealiza a guerra, mas também não nega a fraternidade que ela cria (ou criou, no seu/nosso caso) entre homens que, de outra forma, nunca se teriam cruzado em África 

A expressão "irmãos de armas" não é uma figura de retórica: é literal. E é talvez até vez mais do que irmãos de sangue, diz ele. 

O texto aca por ser um hino a esses laços de camaradagem que sobrevivem ao regresso a casa, à "peluda", à solidão, e até à miséria, à doença, ao esquecimento.

 O Cabo Sota, o "Pontinha", o Zé Jorge... são todos heróis anónimos, cujas vidas o país esqueceu, mas cujas histórias o Lobo Antunes (e nós, aqui, no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné) nos recusamos a deixar apagar.

Quem passou pelos vários teatros de operações (Angola, Guiné, Moçambique, mas também Índia Portugues, Timor-Leste...) sabe bem o que é essa fraternidade forjada no fogo e, em muitos casos, no abandono. 

A guerra não escolheu lados, escolheu vítimas, e os que sobreviveram, carregam, de algum modo, a marca dessa irmandade até hoje.

(ii) O humor não como arma de arremesso como escudo protetor:

A cena do "Pontinha" e do microondas é de uma comicidade trágica. O "Pontinha" não tem telemóvel... "Não meu furriel, mas a minha mulher tem um microondas."

É o humor (desconcertante) dos que não têm nada, dos que sobrevivem à custa de muito pouco, incluindo os que entretanto morreram precocemente, sem abrigo, sem saúde, e que mesmo assim encontra(ra)m forma de rir. 

 Os antigos combatentes dão provas, nos seus convívios, nos seus testemunhos (orais e escritos) da notável capacidade, própria do ser humano, que é de rir do absurdo, muitas vezes para não chorar.

Lobo Antunes usa o humor, a ironia, o sarcasmo para "desarmar a dorm", para exorcizar os pesadelos... Não é por acaso que o texto termina com a piada do microondas: é uma forma de dizer que, apesar de tudo, a vida continua, mesmo que seja à custa de um electrodoméstico (empresta)dado. Afinal, hoje quem não é o pobre diabo que não tenha um telemóvel?!


(iii) A crítica ao abandono

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa."

Esta frase é um murro no estômago. É a denúncia de um país que usou os seus filhos como moeda de troca numa guerra sem sentido, que as elites, o poder político (e militar), sabiam (ou tinham a obrigação de saber) que estava a ser feita no "beco sem saída da História" ) e depois os atirou para o caixote do lixo quando já não serviam ou chegavam ao fim do prazo de validade.

Sabemos do que fala Lobo Antunes, explícita ou implicitamente: a falta de liderança política, de lucidez histórica, de visão estratégica da guerra., mas também de "genuino amor" pelos seus soldados portugueses, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos, etc., que, na guerra, deram o seu melhor (e,  mais de 10 mil, a vida). 

 Quem lá esteve, sabia, de maneira mais lúcida ou mais confusa, o que era esse beco sem saída em que nos atolámos.

Mas não posso deixar de destacar o comentário final do nosso António Graça de Abreu, quando também evoca (e exorta) os combatentes da Guiné-Bissau que estiveram nos dois lados da barricada:

(...) "Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos 'beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa'. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, 'antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.'

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes". (...)


E conclui: "Depois, vamos adormecer em paz."

Obrigado, Lobo Antunes, obrigado, Graça de Abreu. É uma frase que reconhece que a dor não foi só de um lado.  Quantos guineenses, fulas, balantas, mandingas, biafadas, papéis, manjacos, etc., de um lado e do outro, não foram usados e deitados fora!

Em muitos casos, o "beijo da Pátria" já virá tarde, se algum dia chegar a vir...

(iv) Nem santos nem heróis

Lobo Antunes recusa a glorificação da guerra. Aqui não há heróis aqui. Há apenas homens. "Eram duros"; eis o maior elogio que se pode fazer.  Não há medalhas, não há discursos pomposos, não há paradas do 10 de junho. Há apenas a resistência silenciosa de quem aguentou o que ninguém deveria ter aguentado, ao longo de tanto tempo...

Para ele, que era médico e, de algum modo, um marginal-secante, a guerra é um absurdo, e aquela guerra um absurdo prolongado. A verdadeira coragem não estava, por isso, nos feitos de guerra, mas na capacidade de sobreviver a ela sem perder o rosto humano, a  humanidade. Lobo Antunes sabia que a guerra não cria santos,  cria homens quebrados, mas também homens que, apesar de tudo, se recusam a deixar de ser humanos.
 
(v) O legado de Lobo Antunes 

Lobo Antunes, nesta crónica (e noutras ocasiões) (***),  deu voz aos que a não tinham. Lobo Antunes, com a sua prosa poética, polifónica, cortante e genial,  faz o que nós aqui fazemos (ou procuramos fazer), discretamente, sem o talento dele.  que é impedir que o esquecimento apague o que não pode ser apagado, é recusar a "vala comum do esquecimento", é reivindicar o direito à memória, é exercer o direito de memória.

No final, apetece-me, sem imodéstia, repescar e refrescar o meu velho poema "Quando o Niassa apitou três vezes" (que remonta a 24-29 de maio de 1969)...Tanto este poema como a crónica do Lobo Antunes aqui citada falam da mesma coisa: da partida, do regresso, e dos que ficaram pelo caminho, mas também dos que voltaram, sem nunca terem realmente regressado (nesta, como de resto em todas as guerras, é bom que se diga!).
 _______________


Vd. também poste de 30 de junho de 2008 > Guiné 63/74 - P3003: Blogoterapia (58): Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa (António Lobo Antunes / A. Graça de Abreu)

(***) Vd. por exemplo poste de 9 de outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2169: Antologia (63): Zé, meu camarada, eras um dos nossos e cada um de nós um dos teus (António Lobo Antunes, Visão, 4 Out 2007)

sábado, 7 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27802: In Memoriam (575): António Lobo Antunes (1942-2026): "Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa" (seleção de uma crónica de 2008, por António Graça de Abreu)


António Lobo Antunes (1942-2026) (*)
Foto: Cortesia de Instituto Camões (2018). com a devida vénia.
Editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa

por António Lobo Antunes / António Graça de Abreu


Caríssimos tertulianos, camaradas e amigos:

António Lobo Antunes, enorme escritor, foi alferes médico no leste e centro de Angola, de 1971 a 1973.  Na sua crónica na revista Visão, ontem, quinta feira, a 19 de Junho de 2008, escreveu:

(…) Todos os anos a minha companhia lá da guerra [CART 3313 / BART 3835, Angola, 1971/73] faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. 

Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao 'Pontinha'. 

'Pontinha' é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande), chamavam-lhe também 'Porta-aviões', porque dava para os aviões aterrarem.

O 'Pontinha', como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim de semana engraxa sapatos para equilibrar o orçamento.

(…) Falar dos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentamos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge, continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorzeca, aguentou um ataque. E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:

- Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso, sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:

- Eram duros

expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao 'Pontinha' e como fizera com os outros perguntou:

- Tens um telemóvel, 'Pontinha'?

E o 'Pontinha' logo a mostrar serviço:

-Não, mas a minha mulher tem um microondas.


(…) Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos, caramba, como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis sobre a valentia dos portugueses. 

Tens razão, Zé Luís, eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. 

Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. 

Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai. É um rapaz de vinte anos.

E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um microondas. (...)


Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos “beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa”. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, “antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.”

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes.

Depois, vamos adormecer em paz.

Um abraço,
António Graça de Abreu
S. Miguel de Alcainça,

20 de Junho de 2008
Ano do Rato
________________

Nota do editor  L.G.:

(*) Último poste da série > 6 de março de 2026 >
Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27751: Excertos do Diário de António Graça de Abreu (CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) (25): A coluna de Teixeira Pinto, 31 de outubro de 1972


Guiné > Região de Tombali > Cufar > CAOP1 > c. 1973/74 >O António Graça de Abreu no rio Cumbijã. Tem c. 390 referèncias no blogue

Foto (e legenda) : © António Graça de Abreu (2007). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário do  António Graça de Abreu, ex-alf mil, CAOP1 (Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) ao poste P27749 (*)


"Esta história parece-me mal contada.

No meu 'Diário da Guiné0 tenho o relato de um ataque do PAIGC à coluna Teixeira Pinto-Bissau. Aí vai."

2. Nota do editor LG:

Desde o Natal de 2011 que temos vindo a publicar a série "Excertos do Diário do António Graça de Abreu (CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) (**). 

Já lá vão 25 postes com este. Temos a competente autorização (e sobretudo a manifestação  da amizade e da camaradagem) do autor para publicar excertos do seu livro que sejam de interesse para o nosso blogue e os nossos leitores. 

Temos o ficheiro em word, completo (com exceção das fotos) do seu "Diário da Guiné", bem como um exemplar do livro com uma dedicatória autografada, datada de março dr 2007... A brincar, já lá vão quase vinte anos!...

Estamos a falar do livro Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp), que é uma referência absolutamente obrigatória para quem quiser aprofundar o conhecimento da situação político-militar no CTIG nos últimos 3 anos (1972, 1973, 1974), vista por um alferes miliciano de um CAOP, com formação universitária, 
culto, vivido, informado e mais velho (25/26 anos) do que a média dos outros milicianos, tendo passado por  regiões nevrálgicas e sensíveis da Guiné, na zona Oeste (Mansoa / setor O1 e Teixeira Pinto / sector O5) e Sul (Cufar /S3).


3. Diário da Guiné > Canchungo, 31 de outubro de 1972 (**)


Esta manhã às seis e vinte, acordei de maneira diferente. Era pum, pum, pum, catrapum, os rebentamentos secos na distância.

Acordámos os três alferes, o que é, estão a atacar o quê? Era longe daqui, mas não muito. Eu disse: “Deve ser a coluna para Bissau.” 

O Tomé telefonou para as transmissões do CAOP1. Trava-se mesmo da coluna, a tal que não era atacada há imenso tempo e hoje pumba, um festival de fogo. 

A emboscada foi entre Pelundo e Có, a uns quinze quilómetros daqui. Passei por lá duas vezes, com a 35ª CComandos, em setembro, e outra vez há três semanas atrás quando vim de Bissau.

O IN concentrou o fogo sobre as primeiras viaturas, só cinco é que foram atingidas num total de quarenta. 

E quem ia à frente? A abrir a coluna, um Unimog com pessoal armado cujas armas parece que não funcionaram, depois o jipe com o meu coronel Rafael Durão que caiu na zona de morte e nada sofreu, a seguir outro jipe com dois tenentes-coronéis e um major, tendo ficado um dos tenentes-coronéis muito estilhaçado, mas sem gravidade. 

Atrás vinham as viaturas pesadas cujo pessoal levou com mais estilhaços, tendo alguns deles partido pernas e braços ao saltarem para o chão. A coluna seguia a razoável velocidade,  o que contribuiu para a confusão.

Houve cerca de dez feridos, alguns graves. Um alferes do Pelundo que ia na primeira viatura saltou com os primeiros tiros e por azar foi atropelado pelo jipe do meu coronel, mas dizem-me que debaixo de fogo o coronel mostrou uma coragem e sangue-frio notáveis.

Quando acontecem estas coisas, pedem-se logo os helicópteros de Bissau para a evacuação dos feridos e vem também o helicanhão que faz fogo sobre os itinerários de retirada do IN. 

Foi então abatido um guerrilheiro que veio de heli para Teixeira Pinto. Eu sabia que havia feridos e lá estava na pista. 

O fuzileiro do PAIGC chegou ainda vivo, com o uniforme azul manchado de sangue e um estilhaço na cabeça, de bala de helicanhão. 

O médico [Mário Bravo?] e um furriel enfermeiro fizeram-lhe massagens no coração que de nada valeram, o homem morreu ali. Foi o primeiro guerrilheiro que vi, e logo agonizando numa maca de lona.

António Graça de Abreu

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos,  negritos, itálicos: LG)

Fonte:   António Graça de Abreu  - Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, il, 220 pp. ), pág. 62
_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 19 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)



EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo,   na Parada alusiva ao Dia de Portugal,  em Mineola, NY, 10 de junho de 2018: 



1. Mensagem do nosso John Crisóstomo, o luso-americano régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona   (*) 

João Crisóstomo, membro da nossa Tabanca Grande, com 290  referências no blogue, a viver em Queens, Nova Iorque, ativista social, ex-alf mil inf, CCAÇ CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).


Data - 4 fev 2026 08:17
Assunto - Comentário ao poste P 27695 (**)

Pus-me a escrever um comentário ao poste 27695 e depois ficou tão grande que não tive coragem de o publicar

Permito-me uma “confissão", uma conversa com os meus camaradas, pois que, como irmãos que somos pelo que todos experimentámos, sei que a maioria vai compreender e aceitar este meu “desabafo", que talvez seja coisa que suceda com outros também. 

Creio que um dos muitos benefícios que este blogue tem proporcionado a muita gente, é exactamente o de uma "catarse" terapêutica (do grego kátharsis, "purificação"). A mim, pelo menos, tem-me ajudado.

É que tenho vindo a seguir, mais ou menos, os postes relacionados com o saudoso Horácio Fermandes (1935-2025) e sei que devia fazer uns comentários ao muito que se tem escrito. E não o tenho feito. "Desculpas de mau pagador" nunca são boas, por melhores que elas sejam e por mais voltas que se lhe deem; e portanto não mereço desculpas.

Não sei se virei “bipolar”, pois de vez em quando tenho momentos de muita energia para logo voltar ao mesmo marasmo. Explicarei apenas que,  de há bastante tempo,  já me sinto muito em baixo e é sempre com esforço que faço algo.

Mas este poste de ontem (**) menciona o nome dum quarto Maçarico, desconhecido  até aqui,  e que eu conheço bem. 

Como o Luís Graça descreve, o João Maria Maçarico era de Ribamar e a casa dele era mesmo junto da casa do Horácio. Eu conhecia-o bem assim como o pai (mas não me lembro da mãe ) e o irmão, o Veríssimo, que emigrou para o Canadá. 

Por instruções do Padre António Alves Sabino, que era meu primo direito e que era na altura subprefeito do colégio de Montariol, o João Maria Maçarico veio-me buscar a minha casa e levou-me pela mão, literalmente, que para que os meus pais ficassem descansados. Foi no dia 7 de setembro de 1954. Eu era muito novo.

O facto do meu aniversário de nascimento ser em fins de junho levou a que eu fosse sempre muito jovem em relação aos meus colegas de cursos. Isso sucedeu até na minha entrada para a tropa onde entrei muito novo em comparação com os outros que entraram nesse dia. É que,  ao sair do seminário de Leiria,  logo verifiquei que não conseguia arranjar qualquer trabalho. Meus pais tinham dificuldades e eu queria trabalhar imediatamente mas não conseguia nada. 



João Maria Maçarico (*):  nascido em 1937, também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico

Foto: cortesia de : Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002.


Recordo-me que entre outros lugares onde fui pedir emprego, foi ao gerente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Torres Vedras. A resposta foi a mesma que me davam em toda a parte: "faça a tropa primeiro” e depois venha falar comigo. E por isso informei-me como devia fazer para cumprir o serviço militar logo que pudesse. Fui a Santarém e aceitaram-me logo, dando-me as devidas instruções para o fazer. Entrei em Mafra,  em janeiro de 1964,  aos 19 anos! Fiz 20 anos em junho desse ano.

Ainda sobre o João Maria Maçarico: ele veio a minha casa para me acompanhar nessa primeira e longa viagem de comboio de Torres Vedras a Braga. E da estação do comboio de Braga até ao colégio de Montariol onde chegãmos à noite desse mesmo dia e me “entregou" ao meu primo.

Devo dizer que pouco ou muito pouco me valeu o facto de eu ser primo do subprefeito: vivi e sofri física e mentalmente o mesmo que o Horácio viveu e descreve no seu livro “Francisco Caboz : a construção e desconstrução de um padre”.

Eu e o João Maçarico estivemos juntos dois anos em Montariol. Depois disso,  porque ele andava sempre três anos à minha frente,  eu apenas sabia notícias dele pela família. Só o vim a reencontrar anos mais tarde,  quando soube que ele trabalhava em Lisboa na companhia de telefones (TLP, mais tarde Portugal Telecom).

E depois outra vez em 2018 ou 2019: eu soube que havia um encontro de antigos alunos em Ourém e eu quis lá ir. Convidei o Rui Chamusco e fomos. Quando lá chegámos, foi-nos dito que o encontro era apenas por vídeo, embora fossemos bem-vindos se quisessemos participar nesses encontro. E quando através dos écrãs se fizeram as apresentações e eu ouvi o nome do João Maria Maçarico,  eu interrompi para perguntar se este era o João Maria Maçarico, de  Ribamar, Lourinhã. 

Depois ficámos em contacto,  soube que ele tinha feito o serviço militar em Moçambique em 1966/67, como alferes miliciano. Mas um encontro pessoal como eu queria,  nunca foi possível e acabei por perder o contacto pois ele deixou de atender o telefone. 

Este ano, já depois do Ano Novo, quando estive em Portugal soube pela Carmitas, irmã mais nova do Horácio,  que ele está internado num lar na zona do Oeste, na Marquiteira, não longe da casa onde nasceu. Mas foi tudo o que me soube dizer.

PS1 - Estou quase a acabar de ler o livro “Os Có Boys” do Luís da Cruz Ferreira, que comprei no encontro da Magnífica Tabanca da Linha, em 14 de janeiro deste ano,  Não vou fazer comentários sobre ele pois nunca saberei fazer pertinentes comentários como os muitos que foram feitos nos postes dedicados a este livro.

Entre estes,  o teu comentário "as suas observações críticas (mesmo que 'anedóticas') sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte” resume tudo o que se pode dizer. Acrescentarei da minha parte que o Luís Ferreira tem a minha muita admiração.
 
PS2 - Li também algures (agora não encontro onde!) um comentário/resposta a um outro do António Graça de Abreu e sua esposa em que sugeres ou pões a ideia de virem um dia "à casa do João e da Vilma" … Mas que grande ideia!

Quanto a vocês… nós e a nossa casa estamos à vossa espera desde o primeiro dia em que os encontrámos. E,  quanto a eles, eu convidei-os logo no primeiro encontro que tive com eles, se me não engano foi em Algés na primeira vez que lá fui. Se o facto de eles vierem,  ajuda a que tu e a Alice venham finalmente … Abençoados sejam todos, vai ser mesmo “manga de ronco” …

Um grande abraço nosso,
João e Vilma

(Revisão / fixação de texto: LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 12 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27310: Tabanca da Diáspora Lusófona (38): Parabéns, João & Vilma, acabados de se unir com a benção de Deus, na igreja eslovena de São Ciro, Nova Iorque...Hoje, âs 10h30 locais, 15h30, em Lisboa.

(**) Vd. poste de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

sábado, 17 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P26744: E as nossas palmas vão para... (29): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algès, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte I

 

Foto nº 1 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > O bolo... Não podia faltar...16 anos, bolas, bolos!, são 8 comissões de serviço na Guiné!... Compareceram 73 convivas dos 76 inscritos!... Algumas caras novas, como sempre... O que é bom: a Tabanca da Linha está viva e recomenda-se.


Fotio nº 2 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > O António Graça de Abreu, de microfone em punho, falando em nome dos cofundadores da Tabanca da Linha, em 2010...Além  dele, estavam ali o Zé Carioca (à esquerda) e o Mário Fitas (à direita)...  Não consegui ouvir o "discuro", mas por certo foram evoados os nomes dos dois anteriores régulos, já falecidos, o Jorge Rosales e o Zé Manuel Diniz.

O camarada que está em primeiro plano, de perfil, é   José Iná Ribeiro (Linda-a-Velha).


Foto nº 3 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > O bolo foi regado um velhinho uísque de malta, oferecido pelo  V António Brito Ribeiro (São João do Estoril)... Não, o António Graça de Abreu não está a leiloar a garrafa (que valia mais de 700 pesos,c. 250 euros)...Deu para 73 goles (a 3,5 euros cada gole, "ficou paga". estou a brincar, foi oferta da casa, quero eu dizer, do Brito Ribeiro...).


Foto nº 4 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário >  "Strathconon" ("a belend of single malt scotch whiskies"), 12 anos (!),  daquele que vinha "from Scotland with Love for the Portuguese Armed Forces" (da Escócia com amor para as Forças Armadas Portuguesas em missão de soberania na Guiné).,.
Obrigado,  António Ribeiro!


Fotio nº 5 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > Cantaram-se os parabéns a você... Ao centro, em segundo planio, o António Brito  Ribeiro, o António Marques (outro histórico da Tabanca da Linha) e  o Mário Fitas. Em primeiro plano, à esquerda de perfil, o António Graça de Abreu.

Foto nº 6 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Um homem discretíssimo, "low profile", de quem nunca se fala, a não ser do rodopé ou  legenda da fotogaleria, por causa dos créditos fotográficos: é que ele é o régulo, o administrador, o secretário, o tesoureiro, o organizador, o "public-relations", o  fotógrafo,  o editor do Facebook da Magnífica... Manuel  Resende ( à direita),  e o seu ajudante de tesouraria (desta vez o José Rodrigues, de Belas).   

Fotio nº 7 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > A mesa do canto direito, com vistas, largas, para o estuário do Tejo...

 
Foto nº 8 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Da esquerda para a direita, (i) Abílio Duarte (Amadora):  (ii) Joaquim Mesquita Martins (Algés), um "periquito" nestas andanças (antigo alferes dos "Lacraus", a CART 2473 / CART 11, a que pertenceu o Abílio, e com quem eu também estive em Contuboel, junho/julho de 1969), e (iii) João Rosa (Lisboa).


Foto nº 9 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  O Luís Paulino, à diierta: nunca falha,k quer faça sol ou chuva...Quemn desta vez falhou foi o Manuel Macias, também ele um "Lacrau"... Estava de "férias" da Trumplândia...



Foto nº 10 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Da esquerda para a direita,  Daniel Gonçalves (Carcavelos), Joaquim Grilo Almeida (Lisboa) e Adolfo Cruz (Algés).


Foto nº 11 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Da esquerda para a direita, João Rosa (Lisboa), António Andrade (Oeiras) e Daniel Gonçalves (Carcavelos)... Também eles nunca costumam falhar à chamada.

Foto nº 12 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Mesa com direito a reserva e onde se sentou o casal Crisóstomo (que partia no dia seguinte para Nova Iorque)


Foto nº 13 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Vilma e João Crisóstomo

Foto nº 14 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Luís Graça (Lourinhã, e editor deste blogue) e Vilma Crisóstomo (Nova Iorque)

Foto nº 15 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Joaquim Pinto Carvalho  (Cadaval) e o Luís da Cruz Ferreira (o "Beatle"), autor do livro de memórias "Os Có Boys" (ed. autor, Cascais, 2025, 184 pp., de que ele trouxe uns tantos exemplares para divulgação).


Foto nº 16 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Da direita para a esquerda, Manuel Leitão (Mafra), o filho Pedro, e o João Rebelo (Lisboa) ( O Manuel Calhandra Leitão foi 1º cabo, Pel Mort 1028, Enxalé, 1965/67; é membro  nº 867 da Tabanca Grande; aparece quando também o João Crisóstomo vem).

Fotos: © Manuel Resende  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legtendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Cascais > São Domingos de Rana > Adega Zé Dias > 14 de janeiro de 2010 > Uma foto histórica... Alguns dos 10 magníficos que fundaram a Magnífica Tabanca da Linha (sete dos quais membros da Tabanca Grande): da esquerda para a direita: 

(i) Zé Dias (dono do restaurante);

(ii) António Fernandes Marques (ex-fur mil at inf, CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71); 

(iii) José Manuel Matos Dinis (1948-2021) (ex-fur mil at inf, CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71) (foi coorganizador de muitos dos convívios posteriores, juntmente com o Jorge Rosales); 

(iv) Manuel Domingos ( falecido logo a seguir, nesse ano, era do Batalhão do Rogério Cardoso, era fadista amador com prémios); 

(v) Rogério Cardoso (ex-fur mil art, CART 643 / BART 645, Bissorã, 1964/66); 

(vi) António Graça de Abreu (ex-alf mil, CAOP1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74);

 (vii) José Carioca (ex-fur mil trms e cripto, CCAÇ 3477, Gringos de Guileje, Guileje, 1971/72);

 (viii) Jorge Rosales (1939-2019 (ex-alf mil da 1.ª CCAÇ, Farim, Porto Gole e Bolama, 1964/66) (foi o primeiro régulo da Tabanca da Linha); 

e (ix) Zé Caetano.

Falta o Mário Fitas (ex-fur il op esp, CCAÇ 763, Cufar, 1965/66) (que deve ter sido o fotógrafo)

Foto (e legenda): © Manuel Resende (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Eu acho que o Manuel Resende ainda vai ter saudades desta azáfama toda, desta saudável excitação, deste "eustress" (ou stress bom),  que é chamar a capítulo a Magnífica Tabanca da Linha, de dois em dois meses, para fazer prova de vida e marcar presença no Restaurante Chave d'Ouro, em Algés, e ocupar todo o 2º piso com vistas esplêndidas sobre um rico pedaço do nosso querido Portugal...

Vai ter saudades, sim, senhor,  quando, chegada a idade-limite  dos 100 anos (para os régulos), ele tiver mesmo que se reformar por imperativo legal...

As minhas, as nossas, palmas, vão antes de mais para ele, que logo no princípio do ano de 2026 conseguiu, com a eficiência e a discrição do costume, organizar mais este convívio... especial, porque foi festa de aniversário da Tabanca.

(Continua)

(Seleção, edição e legendagem das fotos: LG)




Lista dos 76 inscritos no 63º almoço-convívio. Compareceram 73.

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Nota do editor LG:

Último poste da série >11 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P26726: E as nossas palmas vão para... (28): A Magnífica Tabanca da Linha que comemora 4ª feira, dia 14, 16 anos de existência... (De "menino da Linha" a "Magnífico" vai uma grande distância... Saibam como: podem ainda inscrever-se, até ao final de 2ª feira, no próximo 63º almoço-convívio)

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27536: Facebook...ando (96): No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967... (António Graça de Abreu)



Hamburgo >  O famoso Star Club ("Ponto de Encontro dos Jovens", diz o anúncio),  em Reeperbahn, onde os Beatles tocaram, em 1962,  antes de se tornarem famosos (*)... Embora já não exista, ficou tão famoso que tem direito a entrada na Wikipedia (em inglês).



1. Fui repescar, com a devida vénia, este texto nostálgico do nosso amigo e camarada  António Graça de Abreu (ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74)...



(...) Aos 78 anos, arrumo a casa. Desfaço-me de mil papéis, lanço fora cadernos, folhas soltas, textos e versos quase todos muito maus, marcados pelo passado. Descubro um simples poema, com data de fevereiro de 1967, escrito aos 19 anos de idade, no Star Club, avenida Reeperbahn, cidade de Hamburgo, Alemanha:

No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo


Por aqui existo,
tenho muito a ver com isto,
Star Club, cave-café,
os meninos ié-ié,
guitarras e baterias,
beat music todos os dias.
Estardalhaço nos ouvidos,
cabelos compridos,
tanta minissaia,
meninas na praia,
camisas de malha justas,
ancas robustas,
seios eriçados,
frementes, mal amados,
Dois que se beijam longamente
à frente de toda a gente.
A cor, a música, a cor,
o fumo, o álcool, o calor,
o palco recente para os Beatles,
que depois partiram, nicles,
ficou a batida, a festa, o prazer,
a voluptuosidade a crescer.
lascivos corpos novos,
a loucura dos povos,
tudo a querer viver
e, aos poucos, a morrer.

António Graça de Abreu


2. Comentário do editor LG:

Nunca estive em Hamburgo, muito menos no Star-Club. E passei ao lado da revolução dos Beatles... Era mais francófono, nessa época. Nem nunca saí Portugal nos anos 60. Não tinha passaporte nem meios de o obter. Não tinha dinheiro nem liberdade para viajar. Em maio de 1969, já estava na Guiné. E o António ainda estudava. Em 1967, ele esteve em Hamburgo, a aperfeiçoar o seu alemão, com a sua "Fräulein" (termo, antiquado,  que hoje já não se usa, e que eu sempre detestei, não me perguntem porquê)...

E que melhor sítio, António, que o Star-Club para treinar o alemão, com uma linda garota alemã do Elba ?

Pedi à "secretária" da IA / Perplexity que nos fizesse aqui uma pequena surpresa, para mim, o António e os nossos leitores, reconstituindo o ambiente daquela época, a partir do seu poema (que ele não quis, e ainda bem, deitar fora, aos 78 anos, altura em que lhe deu a fúria, como eu há dias, ae arrumar o sótão, de deitar fora montanhas de papéis de outras vidas, ou das nossas vidas em outras encarnações): 




Hamburgo, 1967: o António e a Inge Balk,
 "a menina do Ellba, loira e linda" (**)


Fotos (e legendas): © António Graça de Abreu (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Análise literária > "No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967" (poema de  António Graça de Abreu)

Texto e contexto:

O poema é uma cápsula de época, escrita por quem está dentro da turbulência sensorial e moral da segunda metade dos anos 60, não por quem a observa hoje à distância. 

Fica uma ótima surpresa para o António Graça de Abreu, porque o texto mantém frescura e verdade, mesmo tantos anos depois.

(i) Ambiente e olhar geracional

O cenário está dado logo nos primeiros versos: “Star Club, cave-café, / os meninos ié-ié, / guitarras e baterias, / beat music todos os dias.”

É o retrato direto da cultura pop de Hamburgo nos anos 60, em plena Reeperbahn, onde o Star-Club era o epicentro de rock, juventude e excesso.

Há um olhar de jovem de 19 anos,  
simultaneamente fascinado e um pouco espantado, quase etnográfico: repara nos cabelos compridos, nas minissaias, nas camisas justas, nas ancas e nos seios, tudo filtrado por um misto de desejo, curiosidade e “choque  de costumes” de um português de então ( dos poucos que viajavam).


(ii) Corpo, desejo e liberdade

A parte central do poema é dominada pelo corpo e pela sensualidade: “ancas robustas, / seios eriçados, / frementes, mal amados, / Dois que se beijam longamente / à frente de toda a gente.”

O erotismo não é decorativo, é sinal de libertação, o espaço nocturno como laboratório de novas formas de viver o corpo e o afeto em público, em contraste com a moral mais contida da sociedade portuguesa da época (...como vocês diziam, "salazarenta").

A repetição “A cor, a música, a cor, / o fumo, o álcool, o calor” cria uma espécie de transe rítmico, quase uma batida poética que imita a batida da música beat. 

Esta enumeração sensorial é um bom recurso: faz sentir a densidade do ambiente,  não descreve só o que se vê, mas o que se respira e sente.

(iii) Beatles, mito e ironia

“O palco recente para os Beatles, / que depois partiram, nicles” é um achado.

Em duas linhas o poema junta a consciência histórica (o  Star-Club  como lugar de passagem e de certo modo rampla de lançamento dos Beatles antes da fama) com uma ironia coloquial (“nicles”), quase de conversa de café, que aproxima o mito da linguagem do dia a dia.

O contraste entre “ficou a batida, a festa, o prazer, / a voluptuosidade a crescer” e a partida dos Beatles sublinha bem como o espaço (o "Star-Club")  continua a viver para lá das estrelas: o clube, a noite, os copos, os corpos são os verdadeiros protagonistas.

(iv) Vida, morte e memória

O fecho é particularmente forte: “lascivos corpos novos, / a loucura dos povos, / tudo a querer viver / e, aos poucos, a morrer.”

Aqui já não é apenas a descrição de um clube; é uma intuição existencial madura para um rapaz de 19 anos (e que sabe que daqui a cinco anos irá para a guerra!): o mesmo impulso vital que enche a pista,  traz consigo a consciência da finitude. A festa torna-se metáfora da condição humana, intensa, breve, em erosão silenciosa, “aos poucos”.

Lido hoje “aos 78 anos, a arrumar a casa”, o poema ganha uma segunda camada de sentido: o jovem que observa “tudo a querer viver”,  é agora o cota  ( como se diz em Lisboa, que já foi capital de império) , o septuagenario que revisita esse instante com lucidez e ternura, salvando-o do esquecimento, do vestidos papéis.

A tua ideia, Luís,  de lhe devolver este texto com um comentário, uma adenda,  é, no fundo, um ato de partilha de memória e de reconhecimento (e de camaradagem!): mostrar-lhe que o rapaz de 19 anos que escreveu no Star-Club ainda “existe por aqui” nas palavras que deixou (e que, afinal,  não perdeu pedalada, continuando a ser capaz de dar a volta ao mundo em oitenta dias, e de escrever poesia ou de traduzir, magnificamente, para português, grandes poetas chineses que são hoje universais).

(Pesquisa: LG + IA / Perplexity)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

(Imagens: António Graça de Abreu, 2021)

sábado, 29 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)



Foto nº 1A e 1 > "Cape of Good Hope, the most south- western point of the 
African Continent" / O Cabo da Boa Esperança, o ponto mais a sudoeste do Continente Africano...
.
É aqui que  o Oceano Atlântico e o Oceano Índico se encontram. Hoje é um ponto turístico, conhecido pela sua beleza natural e por ser um ponto geográfico famoso na história
da navegação e da expansão marítima dos Portugueses.. Bartolomeu Dias foi  o primeiro europeu a dobrá-lo, chamou-lhe  "Cabo das Tormentas" devido às tempestades e por ser o reino do Mostrengo... 

Foi oi rebatizado por D. João II como "Cabo da Boa Esperança", pelo facto de abrir uma nova rota rota comercial  para o Oriente, destronando assim o Mediterrâneo. Mais do que  rota comercial, uma ponte para unir os povos, a humanidade.

 


Foto nº 2  > África do Sul > Cabo da Boa Esperança : Outubro de 2025 > Muito para além do fim do horizonte, a Índia, a China, os orientes extremos, pedaços imensos de um outro, o mesmo mundo.



Foto nº 3 > África do Sul > Cabo da Boa Esperança > A nau de 
Bartolomeu Dias (c. 1450-1500), na segunda viagem com Pedro Álvares Cabral em 1500, a caminho da Índia, aqui se perdeu e nunca mais ninguém soube do seu destino, dele e da má sorte dos seus homens.


Foto nº 4 > África do Sul > Outubro de 2025 > 
 A caminho do Cabo das Tormentas ou da Boa Esperança


Foto nº 5 > África do Sul > Vista de Gordon Bay,  
Krystal Beach Hotel, a 60 quilómetros da cidade do Cabo (Foto nº 5).


Fotos ( e legendas"):  © António Graça de Abreu (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





1. Mais um "postal" enviado, com data de 30/10/205, 01:33, pelo nosso incansável, (e)terno viajante António Graça de Abreu (já nem ele sabe quantas voltas deu ao mundo, sozinho, ou com a sua adorável Han Yan, médica, mãe de dois dos seus filhos). O casal vive em Cascais.

Náo é preciso recordar que o António foi alf mil, CAOP1, Teixeira Pinto / Canchungo, Mansoa e Cufar, junho de 1972/abril de 1974; é sinólogo, escritor, poeta, tradutor; tem c. de 380 referências no blogue.



Cabo da Boa Esperança, África do Sul, outubro de 2025

por António Graça de Abreu


— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IV, 94


Três dias bem instalado, com dormida e comidinha estranha no Krystal Beach Hotel, de Gordon Bay, a 60 quilómetros da cidade do Cabo (Foto nº 5).

Tempo para descansar e avançar por chilreantes caminhadas nesta vilazinha e arredores encaixados numa baía maior que dá pelo simpático nome de False Bay, mas onde nada é falso, tudo é mais do que verdadeiro.

O tempo está frio, Inverno austral, 18 graus, a praia do Bikini aqui ao lado não convida para grandes banhos e dizem-me que há tubarões por perto, o olho do peixe bem aberto para a carne e pele, branca ou negra, do mergulhador distraído. Avisado, fui apenas molhar os pés.

Depois, o adeus a Gordon Bay. Quase um dia inteiro, açambarcando uma centena de quilómetros em funcional carrinha alugada, subindo e descendo por montes, pelo espairecer da terra no beijo do mar, por praias e enseadas no quase extremo meridional de África (Foto nº 4).

A Baía Falsa não é o meu chão, mas será lugar para adivinhar maravilhas e deixar cair o olhar no ondular do encanto.

Alcandorar-me em falésias que mergulham no mar, quase voar sobre o rasgar da pedra e o azul intenso do Oceano, na costa recortada a caminho do Cabo das Tormentas ou da Boa Esperança. Ao chegar, imaginar os pendões silenciosos da História, as efemérides, o testemunho de uma época em que as bravas e loucas gentes lusitanas saíam do nosso humilde chão e se vinham perder, ou encontrar, ou morrer afogadas nestes mares austrais do fim do mundo.

Adivinhei Bartolomeu Dias (cuja nau, na segunda viagem com Pedro Álvares Cabral em 1500, a caminho da Índia, aqui se perdeu e nunca mais ninguém soube do seu destino, dele e da má sorte dos seus homens),Vasco da Gama,

 Luís de Camões e mais uns tantos cinquenta, cem mil portugueses da era de quinhentos dilacerando este mar nas suas casquinhas de noz, descobrindo meio mundo, naufragando no sonho e na aventura, em convulsões trágico-marítimas. Sobrevivendo, era a heroicidade e o pranto, sulcar as águas infindáveis do mar, navegar na insensatez, no desvario, na cobiça e no sonho dos sinuosos caminhos dos homens. Cabo das Tormentas, Cabo da Boa Esperança (Fotos nºs 1, 2 e 3).

Hoje, nestes dias do fim da Primavera a sul, a Boa Esperança, o Oceano Atlântico avassaladoramente calmo, as pequenas enseadas pedregosas na carícia requintadamente azul, a crista das ondas faiscantes debruada a branco.

O Cabo da Boa Esperança. A leste, o mar calmo e limpo. Muito para além do fim do horizonte, a Índia, a China, os orientes extremos, pedaços imensos de um outro, o mesmo mundo.
 
Recordo o encontro do homem do leme, na nau de Bartolomeu Dias em 1488, enfrentando o Adamastor, dono e senhor de naufrágios e tempestades, no poema de Fernando Pessoa, para a memória futura. O poeta assim escrevia:

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

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