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terça-feira, 28 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27963: Armamento (32): Espingarda de Assalto 7,62mm m/961 AR-10 (também conhecida como AR-10, no modelo português) (Luís Dias)


Espingarda de Assalto 7,62mm m/961 AR-10. Fonte: Fonte: Wikipedia (com a devida vénia...)



Luís Dias
1. Mensagem do Luís Dias, o nosso especialista em armamento (*), agora com o estatuto de colaborador permanente; foi alf mil at inf, CCAÇ 3491 / BCAÇ 3872 (Dulombi e  Galomaro, 1971/74); recorde-se que integrou, desde 1975, a carreira de investigadores 
da Polícia Judiciária, tendo sido nomeado pelo Ministro da Justiça, 25 anos mais tarde, Director do Departamento de Armamento e Segurança (DAS). Hoje está reformado. Vive em Lisboa. 

A Espingarda automática AR-10 veio para Portugal com a designação de Espingarda de Assalto 7,62mm m/961 AR-10 (também conhecida como AR-10, no modelo português).

 A origem da arma é, como já referiram, de origem norte-americana e é uma invenção de Eugene Stoner, quando trabalhava na firma "Armalite" (uma divisão da "Fairchild Engine and Airplane Corporation"), entre 1954 e 1959. 

A AR-10 surgiu numa altura em que já se falava nos projécteis intermediários, como eram os da então URSS. Mas nenhum grande país opta por a adquirir. 

Então, em 1957, a firma “Artilerie-Inrichtingen Arsenal”, da Holanda, aceita fabricar a arma da Armalite em pequena série (algumas fontes referem 5 000, outras 10 000). 

Portugal decide adquirir armas onde elas estivessem disponíveis para enfrentar a guerra em Angola, em 1961. Umas fontes dizem que vieram para o nosso país um lote de 1 500 armas, outras dizem que foram muitas mais. 

Como foi já referido no blogue (*), a arma foi entregue às forças paraquedistas que operavam em Angola (BCP 21), mas não foi adoptada como a futura arma do exército português, porque era original dos EUA e fabricada na Holanda, que eram dos países que mais estavam contra a nossa política africana.

A arma tinha um configuração em que usava o alumínio forjado, de modo a reduzir o peso e tinha um inovador projecto de cano em linha recta/coronha e operava por meio de gás de impacto direto, com o calibre o 7,62x51mmNATO, conseguindo, segundo os que operaram com ela, um tiro automático muito preciso. Além  disso, podia o atirador, em caso de necessidade, operá-la apenas com uma mão.

O projecto da AR-10 evoluiria para a AR-15, já no calibre 5,56mmNATO, que seria adquirida, em 1962, pela firma “Colt Firearms Company”, vindo a ser adoptada pelos EUA como a Colt M16, entrando em produção em 1964 ( e muito utilizada na Guerra do Vietname). 

Os modelos iriam evoluir para a M16A1, A2, A3, A4. Esta mesma plataforma seria responsável pela “Colt M4 Carbine” (uma arma mais compacta, leve e modular para tropas especiais, tripulações de veículos e paraquedistas, sem perder o poder de fogo de uma espingarda de assalto).

A plataforma da AR-15 veio a dar origem a muitas outras armas quer nos EUA, quer em outros países, aliás como também a plataforma da Kalashnikov deu origem a larga dezena de modelos baseados nela.

(Revisão / fixação de texto, links: LG)
____________________

Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27962: Casos: a verdade sobre... (73): Kalasnikovomania - Parte VIII: Fui uma vez (e única) para o mato com uma AK 47 (que sabia manejar). Tinha um bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar... O capitão, "periquito", que foi comigo, também levava uma, mas nem sequer conhecia a arma (Paulo Santiago, cmdt, Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Subsetor do Saltinho > Março de 1972 >  Nas proximidades da foz do rio Cantoro > O Paulo Santiago, e junto dele duas espingradas automáticas AK 47, e numa delas o respetivo bornal (que levava 4 carregadores)

1. Texto publicado na página do Facebook da Tabanca Grande,  (sábado, 25 de abril de 2026, 00;46) pelo Paulo Santiago, ex-alf mil at inf, cmdt Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72), autor da série "Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos"(*). Tem mais de 210 referências no nosso blogue, para o qual entrou em junho de 2006.


Mais uma história em que entra a AK 47... 

por Paulo Santiago

Naquele dia, fins de março de 1072, facilitei, podia ter sido pior.


1- O capitão, comandante da CCAÇ 3490, que conhecera dias atrás, convenceu-me a ir numa operação com o objectivo de ir armadilhar um local chamado de CeloCelo.

2- Tinha o meu grupo, o meu pelotão disperso, parte em Galomaro,o restante no Saltinho. Por este facto,mostrei reticências em acompanhar os dois pelotões daquela Companhia, e também pelo mau conhecimento dos homens.

3- Em resposta ao choradinho do capitão, "que eu já conhecia a zona",  e também por ele ser miliciano, levou-me a aceitar o "convite".

4- Iria com cinco soldados do meu pelotão, Pel Caç Nat 53.

5- Quando da saída, aparece-me o capitão com duas AK 47, uma para ele e a outra para mim. (Existiam oito AK 47 e dois RPG 2 para serem utilizadas por soldados do Pel Caç Nat 53 quando saíssem com o Grupo  do Marcelino da Mata, e por mais ninguém).

Acabei por levar a arma, sabia trabalhar com ela.

6- Fizemos um alto para comer, por volta das 12.00 horas, junto da foz do rio Cantoro.

Houve militares que se puseram em tronco nu. Um dos meus soldados veio avisar-me da presença de um ninho de abelhas nas proximidades e seria melhor o  afastamento para outro local. O capitão não atendeu ao alerta.

7- Houve o ataque dos insetos, uma enorme confusão, nós os seis retirámos com calma, mas alguns dos que estavam em tronco nu ficaram cravados. Seis evacuados por helis.

8- Acabou a operação. Regressei ao quartel, com os meus cinco soldados,  por um trilho que vinha por Cansamange, não fomos esperar as viaturas ao Quirafo.

9- Nunca mais andei de AK 47. Havia uma bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar.

10- Soube posteriormente que o capitão nunca disparara uma kalash. (**)

(Revisão / fixação de texto, título, links: LG)

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Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 23 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27943: Armamento (31): Armalite AR 10, que foi a espingarda automática usada pelo BCP 21 em Angola (1961/75)

 

Angola > Leste > O alf mil paraquedista Jaime Silva, do BCP 21 (1970/72), em 1970, a norte do Rio Cassai, empunhando uma espingarda automática Armalite AR-10.

Foto do álbum de Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3ª Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; reside na Lourinhã, é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura"; residiu lá durante cerca de 4 décadas; tem página pessoal no Facebook).

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



ArmaLite AR-10, modelo português. Fonte: Wikipedia (com a devida vénia...)



1. A G3 foi a arma-padrão do Exército Português durante a guerra do ultramar / guerra colonial. Mas, em Angola, o BCP 21 usou, desde o início (1961) e até ao fim, a Armalite AR 10, uma espingarda automática, de assalto, de origem norte-americana, que teve uma vida efémera e uma história atribulada.

 Principais características técnicas:

Criador  > Eugene Stoner
Data de criação >  1955/56
Fabricante(s) >  ArmaLite  | Artillerie Inrichtingen (AI) | Colt's Manufacturing Company
Período de produção > 1956-presente
Quantidade produzida >  9.900

Especificações:

Peso >  3,29–4,05 kg c/carregador
Comprimento >  1050 mm
Cartucho  > 7,62×51mm NATO
Ação > Operado a gás, parafuso giratório
Cadência de tiro >  700 tpm
Velocidade de saída 820 m/s
Alcance efetivo >  630 m
Sistema de suprimento 20 tiros carregador de caixa destacável
Mira > Mira traseiro com abertura ajustável, mira frontal fixa. 

 O design final da empresa Artillerie Inrichtingen (um fabricante dos Países Baixos) ficou conhecido como o modelo português AR-10. 

 Esta versão final incorporou uma série de inovações e melhorias técnicas. Foram produzidas cerca de 4 a 5 mil exemplares do "modelo português" e quase todos foram vendidos ao Ministério da Defesa Nacional de Portugal pelo negociador de armas com sede em Bruxelas, SIDEM International, em 1960. 

 A AR-10 foi oficialmente adotada pelos batalhões de caçadores paraquedistas portugueses, e entrou na guerra de contrassubversão em Angola, logo em 1961, ao serviço do BCP 21.

 Tornou-se uma "arma de culto" devido às suas características inovadoras para a época: era mais leve que as concorrentes, graças ao uso de ligas de alumínio, e destacava-se pela precisão e confiabilidade em combate, mesmo em condições adversas de selva e savana. A variante portuguesa incluía melhorias como um regulador de gás simplificado e um extrator mais robusto. 

Os paraquedistas portugueses consideravam o AR-10 uma arma precisa e fiável, mas o seu uso acabou por ser limitado a algumas unidades aerotransportadas, mantendo-se em serviço até 1975, inclusive durante a descolonização de Timor Português. 

 A AR-10 foi preterida pela Heckler & Koch G3 por razões principalmente políticas e logísticas, e não tanto técnicas. 

A AR-10 era uma arma concebida nos EUA e produzida na Holanda, países críticos da política colonial portuguesa, o que dificultou a sua adoção generalizada. 

Além disso, a Holanda acabou por embargar novas remessas para Portugal, impedindo a expansão do seu uso. 

 Por outro lado, a G3, de origem alemã, beneficiou de um contexto de maior facilidade de aquisição e de produção sob licença em Portugal, além de se enquadrar na tendência de padronização de calibres dentro da NATO (7,62x51mm). 

 A G3 também se revelou mais robusta em condições de combate prolongado e permitia uma maior interoperabilidade com outros países da aliança. 

Estes factores, combinaddos, foram decisivos para a sua adoção pelas Forças Armadas Portuguesas como arma-padrão.

Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

 


Espingarda automática, checoslovaca, SA vz58 P (com coronha, punho de pistola, e guarda-mão; e bandoleira). Fonte: cortesia de Wikipedia




Ak-47, de origem soviética. Aos olhos de um leigo, estás duas armas podem confundir-se.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)




Foto nº 5B, 5A, 5> Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "O tenente guarda-costas (que ostenta o crachá dos cmds na boina, e está equipado com uma Kalash), aproveita para ler uma carta chegada da Metrópole, quero crer. Porquê? Porque o envelope é debruado pelo tracejado característico do correio aéreo."



Foto nº 2 e 2A > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "Depois das honras militares o general cumprimenta o cmdt de Nhala, cap Braga da Cruz, da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513. Atrás de si, o Oficial de Dia, alf mil Campos Pereira. [No lado esquerdo da foto, vè-se o ajudante de campo de Kalash em punho.]"


Foto nº 3 > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "A comitiva dirige-se para o aquartelamento. À esquerda da imagem o coronel Hugo da Silva, Chefe do Estado-Maior, cumprimenta o Oficial de Dia. Em primeiro plano, de Kalashnikov, o tenente Ajudante de Campo. E guarda-costas, pareceu-me."


Foto nº 11  > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "As visitas preparam-se para partir. Ao volante do jipe, o Cmdt do Batalhão Ten-Cor Carlos Ramalheira e, ainda a subir, à esquerda, o Cmdt de Operações do BCAÇ 4513, Capitão Cerveira. De cigarro, à direita, o Coronel Hugo da Silva. No jipe de trás o resto da comitiva, apenas se reconhecendo ao volante o Major Dias Marques  [e o ajudante de campo que se preparava para tomar o seu lugar, atrás, no lado direito, no jipe da frente]. A comitiva dirigiu-se a Aldeia Formosa, onde o general almoçou regressando logo a seguir a Bissau."


Fotos do álbum do António Murta, ex-alf mil MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74). Manteve-se a mesma numeração.(*)

Fotos (e legendas): © António Murta (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. É mais um caso de... kalashnikovomania ?! Podia chocar alguns de nós ao ver o ajudante de campo do governador e comandante-chefe que sucedeu ao gen Spinola optar, em vez da G3, por uma arma  com que os  homens do PAIGC nos matavam..

Mas há aqui uma dúvida: trata-se de um AK-47  (como diz o fotógrafo, António Murta)  ou de uma  SA Vz58 (como garante o nosso especialista em armamento, Luís Dias) ?

 Este último diz que é uma SA Vz58:

(...) "Na foto nº 5 é identificado um Tenente dos Comandos, referindo que o mesmo porta uma espingarda de assalto Kalashnikov. 

No entanto, a arma que ele transporta é uma SA Vz58, de origem Checoslovaca, com aparência semelhante à AK-47, mas opera num sistema diferente. 

Estas armas foram adquiridas aquando da Operação "Mar Verde", em 1970, efectuada na República da Guiné-Conacri. Continuaram a ser usadas por forças dos Comandos na Guiné (graduados) e era a arma preferida do então alferes Marcelino da Mata, quando comandava o Grupo de Operações Especiais, mais conhecido pelo Grupo do Marcelino da Mata. (...)

quinta-feira, 21 de março de 2024 às 11:41:00 WET 

2. Comentário do editor LG:

Luís Dias, obrigado pelo teu comentário. Tens "olho clínico", és  bom observador e sobretudo és especialista em armamento.... És capaz de ter razão, a arma do ajudante de campo ( e guarda-costas, o dois em um) não será uma AK-47 mas a tal SA Vz58 (a avaliar por pequenos pormenores como o feitio da coronha, o tapa-chamas, a alça. a mira, o guarda-máo,  o punho, etc., além do porta-carregadores em couro).

Do que tenho dúvidas é em relação às armas que foram adquiridas para equipar as forças que estiveram empenhadas na Op Mar Verde (22 de novembro de 1970). 

De acordo com o António Luís Marinho ("Operação Mar Verde: um documento para a história", s/l, Círculo de Leitores, 2005), foram compradas 250 espingardas automáticas AK-47, além de 20 morteiros  e 12 RPG-7, encomenda feita diretamente à então URSS (!) pela empresa portuguesa "Norte Importadora", de João Zoio, e paga pelo cheque nº 30983. no valor de 3450 contos, endossado ao inspetor da DGS, Barbieri Cardoso (pág.  79). (Essa importância seria equivalente, a preços de hoje, a mais de 1,2 milhões de euros, era muita massa.)

A título de curiosidade:

  • Cada AK-47 (equipamento completo, incluindo 4 carregadores) custava 5750 escudos em 1970 (c. de 2000 euros); loop
  •  Cada mil munições 7.62 para a Kalash custava mil euros (a preços de hoje);
  •  Já o RPG-7 (LGFog) custava 50750 escudos (c. 17,8 mil euros);
  • Cada granada-foguete perfurante (para a bazuca) andava à volta de 1750 euros;
  • O morteiro 82 era ligeiramenet mais caro que o LGFog: 53879 escudos (c. 18,9 mil euros);
  • A granada de morteiro, HE (Altamente explosiva), era mais baratinha: c. 300 euros...

(Seleção e edição de fotos, revisão/ fixação de texto, parênteses retos, título: LG)

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Notas do editor LG:

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27933: Em bom português nos entendemos (30): Kalashnikovomania, mania da Ak-47, culto da Kalash



AK-47 (ou simplesmente AK ou Kalash), objeto de culto pelos "rambos" de muitas guerras... Pode-se falar em "mania da AK-47" (ou kalashnikovomania) ?



1. Em bom português nos entendemos... É verdade ? Kalashnikovmania... ou kalashnikovomania ?

Segundo as ferramentas deIA que consultámioos, a últimagrafia é a mais aceitável (e é aquela que passamos a adotar)

A forma mais correta em português, seguindo critérios de adaptação ortográfica e clareza, seria “kalashnikovomania”.

Aqui vai o raciocínio:

“Kalashnikov” é um nome próprio russo (de Mikhail Kalashnikov, 1919-2013), e costuma manter essa grafia internacional em contextos técnicos ou culturais.

O sufixo “-mania” é produtivo em português (como em “bibliomania”, “tecnomania”, "cleptomania"), indicando obsessão ou atração intensa.

Avaliando as opções:
  • Kalashnikovmania → compreensível, mas menos natural na ligação (soa “colado” sem adaptação).
  • Kalashnikovomania → mais fluida, segue o padrão de ligação com “-o-” (como em “cinemania” vs. “cinemomania”, embora este último seja raro).
  • Kalachnicovomania → tenta “aportuguesar” demais e perde reconhecimento; não é uma forma usada.
Conclusão; a A grafia mais internacional / reconhecível mas também a mais natural dentro do português culto-formal é   kalashnikovomania (*).

2 Mas pode haver outras alternativas mais "eleganates" ou já usadas pelos falantes da língua portuguesa..

Se quisermos evitar um neologismo “pesado” como kalashnikovomania (8 sílabas!), há várias alternativas mais naturais em português:

  • mais neutras e descritivas:  fascínio pela AK-47, nteresse pela AK-47, atração pela AK-47, obsessão perla AK-47
  • mais formais / analíticas: apreço por armamento do tipo Kalashnikov, interesse por armas da família Kalashnikov, fetichização de armamento Kalashnikov;
  • mais expressivas (ou literárias): fixação pela AK-47, idolatria da AK-47, culto da Kalash, 
  • mais coloquiais ou informais: tara da Kalash, mania da AK-47.

Se quisermos manter o “espírito” de “mania”, podemos acrescentar o adjetivo "kalashnokoviano (que soa bem em português, como "kafkiano") (*):  obsessão kalashnikoviana, paixão kalashnikoviana, fixação kalashnikoviana

Em português, muitas vezes soa mais natural transformar o nome próprio em adjetivo (kalashnikoviano/a) do que colar “-mania” no fim. O melhor termo muda bastante com o contexto (relatório académico ou técnico, jornalismo, blogue, tertúlia, conversa de café, etc.).

Em resumo, criar um adjetivo (kalashnikoviano) às vezesa é preferível do que criar neologismos,  inventando palavras longas  como kalashnikovomania, que acabam por parecer artificiais.

 (Pesquisa: LG + IA (ChatGPT , Le Chat Mistral)

(**) kafkiano

(kaf·ki·a·no)

adjetivo


1. [Literatura] Relativo a Franz Kafka (1883-1924), escritor de língua alemã nascido em Praga, à sua obra ou ao seu estilo (ex.: universo kafkiano; angústia kafkiana). = KAFKAESCO, KAFKESCO

2. [Por extensão] Que é confuso, ilógico ou absurdo ou lembra o ambiente da obra de Kafka (ex.: situação kafkiana). = KAFKAESCO, KAFKESCO


adjetivo e substantivo masculino


3. [Literatura] Estudioso ou admirador de Kafka ou da sua obra.


origem:[Franz] Kafka, antropónimo + -iano.

"kafkiano", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/kafkiano.

Guiné 61/74 - P27932: Casos: a verdade sobre... (70): Kalashnikovomania - Parte V. eram ambas excelentes armas, a AK-47 e a G-3, ,mas a primeira foi a arma mais difundida a nível mundial... (Luís Dias, o nosso especialista em armamento)



Foto nº 1 Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L5 > Galomaro > CCAÇ 3491 / BCAÇ 372 (1971/74) >


Foto nº 2 > PPSh-41  

Legenda: Foto nº 1 > Luís Dias, alf mil op esp , empunhando uma pistola-metralhadora  Shpagin PPSH 41, no calibre 7,62 mm Tokarev, mais conhecida por "costureirinha" e com a particularidade de ter um carregador curvo de 35 munições, em vez do habitual tambor de 71". Foto:  (i) Luís Dias, reproduzida com a devida vénia, do seu blogue, Histórias da Guiné, 71-74: A CCAÇ 3491, Dulombi

Foto nº 2 > Fonte: Wikipedia > PPSh-41



1. Comentário do Luís Dias ao poste P27921 (*):


Primeiramente dizer que concordo com quase tudo o que o Mário Dias (*) referiu sobre as diferenças entre a G3 e a AK-47, que operavam em sistemas diferentes, até por terem como origem armas diferentes. 

A AK-47, mais ligada à MP44 ou StG44 alemãs (até pela fisionomia) e a HK G3 mais ligada à MP45 ou StG45 e mesmo à ML MG42 também alemãs, embora já do fim da II Guerra Mundial, foi depois lançada, pela RFA (República Federal Alemã) através da cópia da CETME de Ludwig Worgrimler (o desenhador da StG45), que depois de ter também desenhado uma arma baseada no sistema de roletes em França, que não foi aproveitada pela França, foi para Espanha, onde teve êxito com a CETME A e CETME B, que foi adoptada pelas Forças Armadas espanholas, em 1956. 

Em 1956, o governo alemão (RFA) adquiriram alguns exemplares da CETME Modelo B (G3) para testarem, tendo gostado bastante da arma espanhola.

A firma Heckler & Koch (HK) foi encarregue pelo governo da RFA (que recentemente tinha sido aceite na NATO), de adquirir os direitos da arma a Ludwig Worgrimler/CETME e, com algumas alterações, apresenta a Espingarda 3 (Gewehr 3/G3), no calibre 7,62x51mm NATO, aprovada para o Exército da RFA em 1959. 

E já sabemos do seu sucesso em termos internacionais. O mecanismo operativo da espingarda automática HK-G3 é semelhante ao da CETME e à StG45 (M). O seu funcionamento é por inércia, actuando os gases sobre a superfície interna do invólucro e a culatra retarda a sua abertura (“Roller-delayed blowback”) pela acção conjunta dos roletes de travamento (alojados na cabeça da culatra), da massa da culatra e da mola recuperadora. 

O percutor está alojado no interior do bloco da culatra, dando-se a percussão pela pancada do cão (existente ao nível do gatilho) sobre a cauda do percutor. A alimentação é garantida pela mola do depósito (carregador). O extractor de garra, situado na cabeça da culatra, efectua a extracção da cápsula detonada no movimento de abertura da culatra e a ejecção dá-se quando a base da mesma encontra (ao nível do punho), um ejector de alavanca. Após o consumo das munições do depósito, a culatra não fica retida à retaguarda, como na FN FAL.

Quanto à Kalashnikov, a luta para impor esta arma não foi fácil, pois teve de ultrapassar diversas fases do concurso contra concorrentes bem fortes, nomeadamente: a Bulkin AB-46, a AD de Dementiev e a AS-44 de Sudayev. 

Kalashnikov e o desenhador com quem trabalhava, Zaitsev, remodelaram a arma, recorrendo a modelos diversos existentes, como a Mkb42 e a StG44 alemães, as americanas USM1 Carbine e a espingarda de caça Browning/Remington M8 (a alavanca de segurança foi copiada desta última), mesmo copiando pormenores dos seus concorrentes (o pistão de gás de longo curso ligado ao ferrolho rotativo foi retirado da AB-46 de Bulkin; a ideia de grandes distâncias entre o conjunto do ferrolho e as paredes da caixa da culatra, com atrito mínimo das superfícies, foi inspirada na AS-44 de Sudayev), conseguindo, assim, ser a escolhida. 

Sofreu alterações a partir de 1951, ficando como o modelo AK-47/51. O modelo de produção inicial surgiu com uma caixa de culatra de metal estampado do Tipo 1 e o modelo posterior com uma caixa de culatra maquinada, coronha e guarda-mão de madeira e câmara e cano cromados para resistirem à corrosão. 

Trata-se, sem sombra de dúvida, da arma mais difundida mundialmente, participando em todos os conflitos importantes após II Guerra Mundial, em especial emprestando aos movimentos guerrilheiros uma arma que ficará como símbolo de independência e de resistência. 

É a única arma que surge na bandeira que representa um país, Moçambique.

O PAIGC, para além da AK-47 e AK-47/59, surgiram nos anos finais da guerra com modelos mais modernos como a AKS e AKM e até com recurso a um tambor como carregador. 

Do meu ponto de vista, o maior problema da HK G3 era o seu comprimento e mesmo o seu peso, mas eram ambas excelentes armas. (**)
 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27921: Casos: a verdade sobre... (68): Kalashnikovomania - Parte III: Continuo fã incondicional da G3 (Mário Dias)




 Guiné > Bolama > 1959 > 1º CSM >  O Mário Dias, à direita, assinalado com um círculo verde: no extremo oposto, à esquerda, a vermelho,  o Domingos Ramos (1935-1966, hoje herói nacional da Guiné-Bissau, morto em combate em 10/11/1966, em Madina do Boé; foram camaradas de armas e amigos, tendo frequentado o 1º Curso de Sargentos Milicianos, Bissau.

Foto do álbum do  Mário Dias ou Mário Roseira Dias, sargento comando na situação de reforma, histórico membro da Tabanca Grande (para onde entrou em 17/11/2005);  no TO da Guiné, foi comando e instrutor dos primeiros comandos da Guiné (1964/66), entre os quais alguns dos nossos camaradas da Tabanca Grande, como o Virgínio Briote, o João Parreira, o Luís Raínha, o Júlio Abreu, etc. Passou também por Angola e Macau.  Estava de sargento de dia, no Regimento de Comandos, no dia 25 de Novembro de 1975. 

É uma figura muito respeitada entre os comandos. Na vida civil, é também um conceituado arranjador e compositor musical, a par de maestro de coros. (Tinha um página no sapo.pt sobre partituras corais, que foi descontinuada cpom o fim dos alojamemntos naquele servidor, mas que pode ser consultada em arquivo morto, aqui: https://arquivo.pt/wayback/20071020033005/http://partiturascorais.com.sapo.pt:80/ )

 


Lisboa > Belém > Forte do Bom Sucesso > 24  de Setembro de 2005 > Um reencontro de velhos camaradas, 'comandos', militares portugueses que estiveram na Guiné, tendo participado na Op Tridente (Ilha do Como, de 14 de Janeiro a 24 de Março de 1964)... Quarenta anos depois, tiraram uma foto para a História estes seis bravos da mítica batalha do Como onde a G3 foi posta à prova mas não levou a melhor sobre a AK 47... simplesmente porque esta arma, de fabrico soviético, ainda não equipava a guerrilha.

Entre eles, está o nosso Mário Dias (o segundo, a contar da direita)... Já agora aqui fica a legenda completa (os postos, referentes a cada um, são os que tinham à época dos acontecimentos): 

Da esquerda para a direita: 

(a) sold cond auto João Firmino Martins Correia (CCAV 487 / BCAV 490, e Gr Cmds "Camaleões". 1963/65) (era comandado pelo alf mil 'cmd' Justino Godinho, já falecido, sendo o fur mil 'cmd Mário Dias um dos chefes de equipa):

(b) 1º cabo' cmd0  Marcelino da Mata (já falecido) (pertenceu, neste período,  ao Gr Cmds "Panteras", tal como o fur mil Vassalo Miranda);

(c) 1º cabo Fernando Celestino Raimundo (originalmenmte 1º cabo fotocine); 

(d) fur mil António M. Vassalo Miranda (Gr Cmds "Panteras"); 

(e) fur mil Mário Fernando Roseira Dias (hoje sargento na reforma); 

(f) sold Joaquim Trindade Cavaco (CCAV 487 / BCAV 490, e Gr Cmds "Camaleões", 1963/65).

Fotos (e legendas): © Mário Dias (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Sobre o nosso camarada Mário [Fernando Roseira] Dias, acrescente-se mais o seguinte:

(i) nasceu em 1937 em Lamego;

(ii) foi para a Guiné, com a família, em 1952, ainda adolescente (com 15 anos);

(iii) assistiu à modernização e crescimento de Bissau, capital da Província desde 1943;

(iv) conheceu, entre outros futuros dirigentes e combatentes do PAIGC, Domingos Ramos, de que se vai tornar amigo, na recruta e depois no 1º Curso de Sargentos Milicianos [CSM], que se realizou na Guiné, em Bolama, em 1959;

(v) com o posto de fur mil, partiu, em 29 de outubro de 1963, para Angola, integrando num grupo de Oficiais, Sargento e Praças, do CTIG, a fim de frequentarem um curso de Comandos, no CI 16 na Quibala - Norte, e on se incluía o major inf Correia Diniz; alf mil Maurício Saraiva; alf mil Justino Godinho, 2º srgt Gil Roseira Dias (irmão do Mário), fur mil cav Artur Pereira Pires, fur mil cav António Vassalo Miranda, 1.º cabo at inf Abdulai Queta Jamanca e Sold. At. Inf.ª Adulai Jaló.

(vi) este grupo esteve na origem da criação, em julho de 1965, da Companhia de Comandos do CTIG (CCmds/CTIG), tendo sido nomeado seu comandante o cap art Nuno Rubim, substituído em 20 de fevereiro de 1966 pelo cap art Garcia Leandro;

(vii) em 1966, seguiu para Angola, onde prestou serviço, seguindo a carreira militar;

(x) depois de reformado dedicou-se à música: dotado de grande sensibilidade e talentos artísticos, é mais conhecido por M. Roseira Dias, no meio musical, é autor de inúmeros arranjos musicais de canções populares como a açoriana Olhos Negros, e tantas outras que por aí circulam em Portugal e no Brasil.


2.  Texto de Mário Dias, enviado em 15 de Janeiro de 2008, publicado originalmente a seguir sob o título Em louvor da G3 (edição de Virgínio Briote, com um belíssimo comentário que merece também ser relido ). 

 Justifica-se a repescagem e republicação deste poste: é uma peça fundamental para o debate sobre a G3 "versus" AK47, no contexto da guerra colonial no CTIG, tratando-se para mais de um combatente  com grande experiência operacional. Mas no decurso da Op Tridente (jan/mar 1964), o PAIGC

Sobre a G3 temos 40 referências no blogue. Sobre a AK 47 (ou Kalash), 25. A primeira Kalash capturada pelas NT terá foi no  TO da Guiné em 29/11/1964.  Por outro lado,  e como é sabido, a G3 não  +e mais a arma-padrão do Exército Português.

Passados tantos anos sobre a guerra, continuo fã incondicional da G3

por Mário Dias


É muito vulgar e frequente tecerem-se comentários depreciativos à espingarda G3, quando comparada à AK 47. Em minha opinião, nada mais errado. Analisemos, à luz das características de cada uma e da sua utilização prática, os prós e contras verificados durante a guerra em que estivemos empenhados em África:

(i) Comprimento: G3 - 1020mm; AK47 - 870mm
(ii) Peso com o carregador municiado: G3 - 5,010Kg; AK 47 – 4,8Kg
(iii) Capacidade dos carregadores: G3 – 20 cartuchos; AK47 – 30 cartuchos
(iv) Alcance máximo: G3 – 4.000m; AK47 – 1.000m
(v) Alcance eficaz (distância em que pode pôr um homem fora de combate se for atingido): G3 – 1.700m; AK47 – 600m
(vi) Alcance prático: G3 – 400m; AK 47 – 400m

Passemos então a comparar.
(A) No comprimento e peso:
 A AK47 leva alguma vantagem. A capacidade dos carregadores, mais 10 cartuchos na AK47 que na G3, será realmente uma vantagem?

Se, por um lado, temos mais tiros para dar sem mudar o carregador, por outro lado esse mesmo facto leva-nos facilmente, por uma questão psicológica, a desperdiçar munições. E todos sabemos como o desperdício de munições era vulgar da nossa parte apesar de os carregadores da G3 serem de 20 cartuchos.

O usual era, infelizmente, “despejar à balda” sem saber para onde nem contra que alvo. 
Sem pretender criticar a maneira de actuar de cada um perante situações concretas, eu, durante todas as acções de combate em que participei ao longo de 4 comissões, o máximo que gastei foi um carregador e meio (cerca de 30 cartuchos). 
Por tal facto, em minha opinião, a dotação e capacidade dos carregadores da G3 é mais que suficiente, além de que os próprios carregadores são mais maneirinhos e fáceis de transportar que os compridos e curvos carregadores da AK47.
(B) Quanto ao poder balístico:
Também aqui a G3 leva vantagem pois, embora na guerra em matas e florestas seja difícil visar alvos para além dos 100/200 metros, tem maior potência de impacto e perfuração sendo a propagação da onda sonora da explosão do cartucho muito mais potente na G3, o que traz uma maior confiança a quem dispara e muito mais medo a quem é visado. 
A G3 a disparar impõe muito mais respeito.

Porém, os principais motivos que me levam a preferir a G3 à AK47 (creio que a fama desta última é mais uma questão de moda) são as que a seguir vou referir ilustradas, dentro das possibilidades, com as gravuras acima publicadas.
(C) A importância do silêncio e da rapidez de reacção

Deixem-me, então, começar a vender o meu peixe em louvor da G3. Todos sabemos a importância do silêncio e da rapidez de reacção numa guerra de guerrilha e de como o primeiro a disparar leva vantagem.

Normalmente o combatente numa situação de contacto possível em qualquer lado e a qualquer momento leva geralmente a arma com um cartucho introduzido na câmara e em posição de segurança. Eu e o meu grupo tínhamos bala na câmara e arma em posição de fogo desde a saída à porta de armas do aquartelamento até ao regresso e nunca houve um único disparo acidental. 

Mas, partindo do princípio que nem todos teriam o treino necessário para assim procederem, a arma iria então com bala na câmara e na posição de segurança.

Quando dois combatentes se confrontam, o mais rápido e silencioso tem mais possibilidades de êxito e, nesse aspecto, a G3 tem uma enorme vantagem sobre a AK47. Talvez poucos se tivessem dado conta dos pequenos pormenores que muitas vezes são a diferença entre a vida e a morte.


Um caso concreto:

Vou por um trilho no meio do mato e surge-me de repente um guerrilheiro. Levo a arma em segurança e tenho rapidamente de a colocar em posição de fogo. Do outro lado o guerrilheiro terá de fazer o mesmo. Em qual das armas esta operação é mais rápida e fácil?

 Sem dúvida alguma na G3.

Se olharmos para as gravuras observamos que na G3, levando a arma em posição de combate, à altura da anca com a mão direita segurando o punho dedo no guarda mato pronto a deslizar para o gatilho, utilizando o polegar sem tirar a mão do punho com toda a facilidade e de forma silenciosa passo a patilha de segurança para a posição de fogo e disparo.

E o portador de AK47?

 Sendo a alavanca de comutação de tiro do lado direito da arma e longe do alcance da mão terá que, das duas uma: ou larga a mão do punho para assim alcançar a alavanca de segurança ou então tem que ir com a mão esquerda efectuar essa manobra. Em qualquer das soluções, quando a tiver concluído já o operador da G3 terá disparado sobre ele.

Suponhamos agora que o homem da G3 vê um guerrilheiro e não é por este detectado. A passagem da posição de segurança à posição de fogo, além de rápida, é silenciosa pois a patilha de segurança é leve a não faz qualquer ruído ao ser manobrada. O guerrilheiro não se apercebe de qualquer ruído suspeito e mais facilmente será surpreendido. 

Ao contrário, um guerrilheiro que me veja sem que eu o veja a ele e tenha que colocar a sua AK47 em posição de fogo para me atingir, de imediato me alerta para a sua presença pois a alavanca de segurança dá muitos estalidos ao ser accionada. Assim, não é tão fácil a um portador de AK47 surpreender alguém a curta distância.

Outro caso concreto:

Todos certamente estaremos recordados de quantos vezes era necessário combinar o fogo com o movimento nas manobras de reacção a emboscadas ou na passagem de pontos sensíveis. Nessas ocasiões, em que fazíamos pequenos lanços em corrida para rapidamente atingirmos um abrigo para o qual nos teríamos de lançar de forma a ficarmos automaticamente em posição de podermos fazer fogo (a chamada queda na máscara), a G3, devido à sua configuração era de grande ajuda,  pois, não tendo partes muito salientes em relação ao punho por onde a segurávamos, (o carregador está ao mesmo nível) permitia que de imediato disparássemos com relativa eficácia.

E a AK47? 

Reparem bem naquele carregador tão comprido e saliente do corpo da arma. Como fazer manobra idêntica? Impossível. Mesmo colocando a arma com o carregador paralelo ao solo para facilitar a “aterragem”, isso faz com que tenhamos que perder tempo a corrigir a posição de forma a estarmos aptos a disparar. E em combate cada segundo é a diferença entre a vida e a morte.


(D) Defeitos

Um defeito geralmente apontado à G3 é que encravava facilmente com areias e em condições adversas.

Quero aqui referir que ao longo dos muitos anos da minha vida militar, tanto em combate como em instrução ou nas carreiras de tiro, tive diversas armas G3 distribuídas e nunca nenhuma se encravou. 

A G3 possui de facto um ponto sensível que poderá impedir o seu funcionamento se não for tomado em conta. Trata-se da câmara de explosão, onde fica introduzido o cartucho para o disparo, que tem uns sulcos longitudinais (6 salvo erro)* destinados a facilitar a extracção do invólucro.

 Acontece que se esses sulcos não estiverem limpos e livres de terra ou resíduos de pólvora não se dá a extracção porque o invólucro fica como que colado às paredes da câmara. Se houver o cuidado em manter esses sulcos sempre livres de corpos estranhos,  nunca a G3 encravará. 

Outra coisa que poderá levar a um mau funcionamento é as munições estarem sujas ou com incrustações de calcário ou verdete.

Nós tínhamos por hábito, como forma de prevenir este inconveniente, untarmos as mãos com óleo de limpeza de armamento, para esfregarmos as munições na altura de as introduzirmos nos carregadores. E resultou sempre bem.

São pequenos pormenores que deveriam ter sido ensinados na recruta mas, pelos vistos, nem sempre havia essa preocupação bem como muitas outras que foram, a meu ver, causa de algumas (muitas) mortes desnecessárias.



CONCLUSÃO

Depois de passados tantos anos sobre a guerra, continuo fã incondicional da G3. Se voltasse ao passado e as situações se repetissem, novamente preferia a G3 à AK47.


Mário Dias


[ Revisão / fixação de texto /  negritos / título: LG]

terça-feira, 14 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27919: Casos: a verdade sobre... (67): Kalashnikovomania - Parte II: Eu tinha 3 amores... (J. Casimiro Carvalho)




Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho empunhando, para a fotografia, A AK-47,  usada pelo Grupo do Marcelino da Mata, antes ou depois da operação de resgate do ten pilav Miguel Pessoa, cujo Fiat G-91 foi o primeio a ser abatido por um Strela sob os séus de Guileje, em 25 de março de 1973. Ao Casimiro Carvalho chamo-lhe o "herói de Gadamael", foi um dos bravos que ajudou a aguentar àquela posição, juntamente com os páras do BCP 12... O exército ficou-lhe a dever uma cruz de guerra...




Foto nº 2  > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho empunhando, para a fotografia, um RPG 7,  usado pelo Grupo do Marcelino da Mata, antes ou depois da operação de resgate do ten pilav Miguel Pessoa.



Foto nº 3> Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho com a nossa metralhadora ligeira HK-21 que, com ele, "nunca encravava".



Foto nº 4 > Lamego > CIOE > c. 1971 > O soldado-instruendo J. Casimiro Carvalho,  na instrução com a  G3

Fotos (e legendas) : © J. Casimiro Carvalho (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendcagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O José Casimiro Carvalho foi fur mil op esp da CCAV 8350 ("Piratas de Guileje")  e da CCAÇ 11 ("Lacraus de Paunca"), tendo passado por Guileje, Gadamael, Nhacra e Paunca, entre outros sítios, entre 1972 e 1974. 

Nas quatro fotos acima, vemo-lo "aprendendo a amar" a G3 (em Lamego), usando a HK-21 (de fita ) (em Guileje) e depois, em março de 1973, ainda em Guileje, "dando uma voltinha com as gajas do IN", a AK-47 e o RPG 7K47 (*)..

Muito franca e honestamenet ele descobriu, no CTIG, que tinha (ou podia ter tido) 3 amores... O texto que se reproduz, abaixo,  é resultante de um seu  comentário, datado de 26 de novembro de 2010 às 14:58:00 WET, ao poste P7334 (*).

O J. Casimiro Carvalho é um histórico do nosso blogue para o qual entrou em finais de 2005. Tem uma centena de referências. É atualmente o régulo da TabanKa da Maia, cidade onde vive.

Eu tinha três... amores

por J. Casimiro Carvalho


Ele há coisas que não têm explicação.
Uma delas  são as armas.
Eu, em Lamego, adorava a G3.
Na Guiné adorava a HK 21 
falava com ela
ela compreendia-me,
pois eu a conhecia.
Comigo a gaja não encravava.

Posteriormente, já em Gadamael, 
apaixonei-me por aquela outra gaja, a AK 47.
E foi amor duradouro, caramba,
mas a gaja era mesmo boa,
que me perdoe a minha querida G3, 
pois não sou gajo de  traições.

Portanto, temos três gajas,
todas elas boas,
com as suas particularidades,
convenhamos.
Como as mulheres, né ?!

Um abraço deste vosso camarigo,
J. Carvalho

(Revisão / fixação de  texto: LG)


_________________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 25 de novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7334: Kalashnikovomania (4): O fetichismo da G3... Há amores que não se esquecem (Torcato Mendonça)