Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Coruba, ao fundo a margem norte (direita), com a estrada seguindo depois para Canjadude e Gabu
Foto nº 2A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Corubal: em primeiro, o médico Ramiro Figueira, acompanhado por um dos médicos, o Dr. João Luís Baptista. (Partimos de Lisboa num dia que não recordo, em Setembro de 1987 com uma equipa de 4 médicos, um enfermeiro e um encarregado da logística.)
Foto nº 3A e 3 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Corubal em jangada
Foto nº 4A e 4 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > Rio Corubal > O ministro que nos acompanhou, decidiu tomar um banho...
Foto nº 5 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >Os "djubis", sempre curiosos
Foto nº 6 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Canjadude> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Partimos de Gabu (antiga Nova Lamego), passando por Canjadude, a caminho do Cheche (ponto de "cambamça" do rio Corubal"), Béli e Lugajole (destino final)
Foto nº 7A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Tabanca perto do Cheche (antes ou depois da cambança?)
Foto nº 8A e 8 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > A paisagem árida, semidesértica, perto de Béli, a caminho de Lugajole. Estas formações são "bagabagas", num paisagem algo lunar.
Foto nº 9A e 9 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Pequena tabanca, a caminho de Lugajole. A Missão não passou por Madina do Boé (em 1987 ainda minada!)
Foto nº 10A e 10 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > Lugajole > Orre Fello > A morança que teria pertencido ao Amílcar Cabral. Fello, em fula, quer dizer montanha, colina ( que na região andam pela cota 50, 100, 150, máximo 200/300 metros; Orre Fello tem 200 metros).
Foto nº 11A e 11 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Lugajole > Orre Fello > Palanque onde teria sido proclamada a independència da Guiné -Bissau em 24 de setembro de 1973, segundo o guia local.
Fotos (e legendas): © Ramiro Figueira (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Guiné > Antigo mapa geral (1961) (Esacala 1/500 mil) > Percurso a amarelo seguido pela missão dos MSF, em setembro de 1987 (Gabu - Canjadude - Cheche - Béli - Lugajole). O rio Corubal corre no sentido nordeste-sudoeste. A estrela a vermelho assinala o ponto Orre Fello (cota 200 metros). Vd. carta de Béli (1959).
Infografia: Ramiro Figueira / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)
Infografia. Jorge Araújo / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).
Ramiro Figueira, médico aposentado, foi alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74); membro da Tabanca Grande desde 23 de junho de 2022, tendo 10 referências no blogue; em 1987, cumpriu uma missão de 3 meses em Lugajole, Boé, Guiné-Bissau, como membro dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).
1. Mensagem de Ramiro Figueira:
Data - Data: 23 de fevereiro de 2026, 16h35
Assunto - Boé
Boa tarde
Como de costume, espreito diariamente o blogue da Tabanca Grande, virou um hábito curioso mas certamente saudável.
Tenho seguido essas últimas crónicas que lentamente vão juntando a história (triste) da aposentadoria do Boé em 1969.
Foi cerca de três anos antes da minha chegada à Guiné, em junho de 1972. E fui para um lugar ainda distante do Boé, Nova Sintra, no região de Quínara. Mas todos fomos ouvindo as histórias daquele desastre, que constavam da memória de toda a gente na Guiné.
Quis o destino que, 13 anos depois de ter voltado para casa (em setembro de 1974), fosse enviado para a Guiné (agora Guiné-Bissau), mais propriamente para o Boé (*), e mais especificamente para a tabanca de Lugajole (ou Lugadjole), perto de fronteira com a Guiné-Conacri.
Foram três meses de missão num país que ficou para sempre gravado em minha memória.
Quanto a ti, Ramiro, és sempre bem aparecido.
(...) Chegámos a Lugadjole já ao anoitecer e ainda tivemos de descarregar a camioneta para termos camas onde dormir, dado que a casa onde fomos alojados nada mais tinha do que paredes, eram casas construídas pelos soviéticos quando tentaram explorar bauxite naquele local, o que acabou por não se revelar rentável e o local foi abandonado.
Os dias foram-se passando entre as consultas e trabalhos para nos instalarmos e um belo dia conseguimos convencer o responsável local, um homem de poucas falas, chamado Kassifo N’ Kabo, a levar-nos ao local onde fora declarada a independência.
No jipe dele e ainda no jipe que nos tinha sido cedido pelo governo guineense, saímos a caminho da fronteira com a Guiné Conacri e, pouco antes da tabanca de Vendu Leidi, subimos a um ponto um pouco mais alto, que na crónica da Tina Kramer fiquei a saber que se chamava Orre Fello, onde uma estrutura meio abandonada nos foi indicada como tendo sido o local da declaração da independência.
Na verdade, não sei se realmente terá sido ali que se deu o acontecimento, mas dada a proximidade da fronteira (Vendu Leidi situa-se praticamente nela) e o local meio perdido nos confins do Boé, admito que terá sido esse o tal local.
Por agora é só, as descrições do trabalho em Lugadjole são longas e provavelmente fastidiosas. Resta dizer que montámos o hospital de campanha que tinha bloco operatório e que esteve a funcionar creio que cinco ou seis anos. (...)
Quis o destino que, 13 anos depois de ter voltado para casa (em setembro de 1974), fosse enviado para a Guiné (agora Guiné-Bissau), mais propriamente para o Boé (*), e mais especificamente para a tabanca de Lugajole (ou Lugadjole), perto de fronteira com a Guiné-Conacri.
Essa circunstância se deveu ao facto de pertencer aos Médicos Sem Fronteiras que ali iam abrir uma missão junto às populações fronteiriças.
Assim seguimos para Bissau e depois para Gabu (Nova Lamego) onde ficámos um dia instalados na casa de um tal Paulo, governador da região que, pelo que percebi, era um antigo combatente do PAIGC, o que se notava bem já que era notória a deficiência que apresentava coxeando da perna direita (durante a estadia em Gabu viemos a saber que era por ter uma prótese, dado ter sido amputado por uma mina).
De lá seguimos no dia seguinte, passando por Canjadude, até a margem do Corubal para a passagem do jipe e caminhão de material em que transportávamos todo o material necessário.
Pelo caminho de Canjadude a Chche, ainda havia vários destroços de veículos, provavelmente militares, abandonados. Era a tristemente cambança do Cheche, de que eu tanto ouvira falar durante a guerra.
Assim atravessámos na jangada o Corubal até à margem seguinte, confesso que me recordo bem, passados estes anos de ter sentido um arrepio ao pensar que, naquele mesmo local, vinte anos antes ali tinham ficado quarenta e tal camaradas.
Assim atravessámos na jangada o Corubal até à margem seguinte, confesso que me recordo bem, passados estes anos de ter sentido um arrepio ao pensar que, naquele mesmo local, vinte anos antes ali tinham ficado quarenta e tal camaradas.
No que não fiquei sozinho, comigo na equipa ia outro médico que, na mesma época que eu, tinha sido fuzileiro e conversámos na altura várias vezes sobre o assunto.
Na chegada a Lugadjole, depois de uma viagem atribuladíssima e demorada, nos deparámos com uma tabanca razoavelmente organizada com bastante gente e muitos prédios em bom estado, mas abandonados.
Na chegada a Lugadjole, depois de uma viagem atribuladíssima e demorada, nos deparámos com uma tabanca razoavelmente organizada com bastante gente e muitos prédios em bom estado, mas abandonados.
Ficámos sabendo que se tratava de prédios construídos pela União Soviética que estivera ali explorando bauxite mas que se mostrou não ser viável depois de alguns anos de exploração Eles deixaram o local deixando algum material, inclusive um grande gerador.
Foi num desses prédios que instalámos a nossa base logística para dormir, um modesto refeitório e o depósito de medicamentos.
Iniciámos nosso trabalho, começando por instalar um hospital de campanha que nos fora fornecido pelas Forças Armadas, após o que abrimos as consultas e os tratamentos.
Durante a minha estada em Lugadjole, também tivemos a oportunidade de viajar, acompanhados pelo administrador local, Kassifo N'Kabo, ao mítico local da declaração de independência em 1973 [Orre Fello]. (**)
Iniciámos nosso trabalho, começando por instalar um hospital de campanha que nos fora fornecido pelas Forças Armadas, após o que abrimos as consultas e os tratamentos.
Durante a minha estada em Lugadjole, também tivemos a oportunidade de viajar, acompanhados pelo administrador local, Kassifo N'Kabo, ao mítico local da declaração de independência em 1973 [Orre Fello]. (**)
Foi uma viagem também bastante conturbada por trilhos terríveis e subidas íngremes, mas você acaba chegando lá.
Era uma colina de onde se disfrutava uma vista extensa, onde havia uma espécie de palanque coberto e relativamente bem arranjado e, ao lado uma bonita palhota em cimento que o Kassifo garantia como tendo sido a morança de Amílcar Cabral.
Pessoalmente não acredito que fosse assim e também não acredito que aquele era o local da declaração de independência, mas isso são outras discussões.
Ainda tentei que me levassem ao [antigo] quartel de Madina do Boé, mas a recusa foi peremptória: “Terreno com muita mina”.
Não sei se era assim ou não, mas lá tinha que ser.
Foram três meses de missão num país que ficou para sempre gravado em minha memória.
(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos; LG)
2. Comentário do editor LG:
Obrigado, Ramiro. Se tiveres mais fotos do tempo desta tua missão ao serviço dos MSF, iniciada em setembro de 1987 (e que se prolongou até dezembro, não?!), e achares de interesse divulgar, manda, podemos depois fazer um dossiê.
Poucos de nós, antigos combatentes, conhecemos o Boé (Béli foi retirado em meados de 1968, Madina do Boé e Cheche em 6/2/1969). A sul do rio Corubal, no Boé, deixa de flutuar a bandeira verde-rubra.
E, de facto, continuamos sem saber onde foi extamente o "berço da Nação" (guineense)... Duvido que algum dia as coordenadas corretas apareçam. Não havia GPS. Nem o PAIGC tinha cartas. Nem se guiava por elas. Nem sei ainda há testemunhas diretas ou atores desse evento, os "históricos" já terão morrido todos (com exceção de algum cabo-verdiano ou outro, Manecas dos Santos, Pedro Pires; a Amélia Araújo, a "Maria Turra", essa, acaba de morrer).
E a IA hoje só lança ainda mais confusão, quando a gente lhe pergunta onde foi o "berço da Nação". Como sabes, a IA não faz pesquisa em primeira mão, muito o menos em arquivos.
Só trabalha com a "papinha feita" pelos humanos. Documentos em acesso livre. Nós sabemos muito mais que ela, que tem a mania que sabe tudo... Mas não, não sabe tudo, "canibaliza" o que os humanos produzem, e só atrapalha as vezes. E recorre muito ao nosso blogue, quando se fala da guerra na Guiné. Enfim, pode ser (ou é) útil, desde que usada com... inteligência humana.
O assunto ainda é polémico. Ou talvez não, afinal estamos a discutir o "sexo dos anjos". O nosso blogue levantou a questão pelo menos em 2009: o Patrício Ribeiro esteve lá, em Lugajole, em 2005, com a equipa da televisão (SIC). E levantou a dúvida: os historiógrafos (a começar pelos "tugas") replicam a propaganda do PAIGC. O que é feio, ou pelo menos não é bonito para um historiógrafo (que não é exatamente a mesma coisa que um historiador).
Passados mais de 50 anos, ainda há muita boa gente a aceitar, acriticamente, que a independência da Guiné-Bissau foi proclamada em "Madina do Boé". Para muitos guineenses (e cabo-verdianos) que nunca foram em visita ao "berço da Nação", Boé e Madina do Boé é tudo igual. É como o "Pulo do Lobo" no "Alentejo profundo": nunca ninguém lá tinha ido, exceto o prof Cavaco Silva, em 1994 (se não erro). (Por acaso já lá fui, tive curiosidade, e não queria morrer estupido: fica no limite do concelho de Mértola com o de Serpa no Parque Natural do Vale do Guadiana.)
Já temos muita documentação sobre o Boé, mas é preciso colocá-la, em dossiês temáticos, em pdf, formato mais facilmente pesquisável na Net.
Temos, nós, ex-combatentes (e sobretudo nós, portugueses desta geração) a obrigação de deixar pistas para esclarecer esses e outros pontos, mais ou menos obscuros, da história recente da Guiné-Bissau, que também é parte da nossa história. Tudo com calma, mas credível, com o rigor possível de quem não é investigador encartado.
Temos, nós, ex-combatentes (e sobretudo nós, portugueses desta geração) a obrigação de deixar pistas para esclarecer esses e outros pontos, mais ou menos obscuros, da história recente da Guiné-Bissau, que também é parte da nossa história. Tudo com calma, mas credível, com o rigor possível de quem não é investigador encartado.
A ignorância é muita, a incultura geral ainda mais. E nem tudo o que vem à rede é peixe. Duvido até que os jovens guineenses saibam onde fica(va) a mítica Madina do Boé... Hoje, sim, uma pequena tabanca, reconstituída na picada que segue do Cheche até à fronteira (sul).
Há umas semanas, conversando com jovens guineenses (homens e mulheres) que fazem parte da segurança privada de um hospital público, e que estão aqui em Portugal há 10 anos ou mais, constatei que eu conhecia muito muito melhor a geografia e a história do seu país do que eles. Já nasceram em Bissau e de lá só saíram para emigrar para Portugal. O toca-toca não vai até Cheche, Béli, Lugajole, Vendu Leidi, Madina do Boé. E se for, leva uma pequena fortuna.
É gente, estes netos de Amilcar Cabral, com alguma escolaridade, a suficiente para poderem trabalhar doze horas por dia como "seguranças", à noite e por turnos, no departamento de psiquiatria e saúde mental de um hospital na Europa.
Quanto a ti, Ramiro, és sempre bem aparecido.
Um alfabravo.
Luis
Como já se publicou tanta coisa sobre este local vamos, ver se aparece alguém com indicações precisas sobre o assunto. (...)
quinta-feira, 14 de julho de 2022 às 17:40:29 WEST
Notas do editor LG:
(*) Último poste da série : 29 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)
PS - Ramiro, recordo (para os nossos leitores) o que escreveste em comentário em 14/7/2022 (**):
(...) Conforme o mapa, o local [Orre Fello] situa-se muito perto da fronteira mas antes de Vendu Leide, portanto dentro da Guiné Bissau.
(...) Sobre o desfile militar na cerimónia da independência, nada sei. O local tem um espaço relativamente grande e plano em frente à construção pelo que é possível ter feito ali um "ronco" com desfile de tropas. A construção (suspeito, sem certezas nenhumas) será de depois mas, dado que a fotografia foi feita em 1987 (14 anos depois da declaração), eventualmente já existiria.
Como já se publicou tanta coisa sobre este local vamos, ver se aparece alguém com indicações precisas sobre o assunto. (...)
quinta-feira, 14 de julho de 2022 às 17:40:29 WEST
(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:
(*) Último poste da série : 29 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)
Os dias foram-se passando entre as consultas e trabalhos para nos instalarmos e um belo dia conseguimos convencer o responsável local, um homem de poucas falas, chamado Kassifo N’ Kabo, a levar-nos ao local onde fora declarada a independência.
No jipe dele e ainda no jipe que nos tinha sido cedido pelo governo guineense, saímos a caminho da fronteira com a Guiné Conacri e, pouco antes da tabanca de Vendu Leidi, subimos a um ponto um pouco mais alto, que na crónica da Tina Kramer fiquei a saber que se chamava Orre Fello, onde uma estrutura meio abandonada nos foi indicada como tendo sido o local da declaração da independência.
Na verdade, não sei se realmente terá sido ali que se deu o acontecimento, mas dada a proximidade da fronteira (Vendu Leidi situa-se praticamente nela) e o local meio perdido nos confins do Boé, admito que terá sido esse o tal local.
Por agora é só, as descrições do trabalho em Lugadjole são longas e provavelmente fastidiosas. Resta dizer que montámos o hospital de campanha que tinha bloco operatório e que esteve a funcionar creio que cinco ou seis anos. (...)




















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