Gondomar > Biblioteca Municipal > 9 de novembro de 2024 > Sessão de apresentação do livro "Crónicas de Paz e Guerra" (Rio Tinto, Lugar da Palavra Editora, 2024, 221 pp.)
Três tigres do Cumbijã, três amigos, três camaradas, três camarigos: ao centro, o Joaquim Costa, o autor do livro, ex-fur mil da CCAV 8351 (Cumbijã, 1973/74); à esquerda, o João Melo, ex-1º cabo cripto; à direita, o Mendes (que veio de propósito da zona onde vive, na Serra da Estrela); um quarto "tigre", o Gouveia, não ficou nesta foto...
Viana do Castelo > 2009 > "Foi com uma alegria imensa que organizei um dos encontros dos Tigres do Cumbijã, na linda cidade de Viana do Castelo, com visita e missa em Santa Luzia e o repasto abrilhantado pelo Rancho Folclórico de Perre".
Fotos (e legendas) © Joaquim Costa (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Guiné 61/74 - P27354: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXIX:
Amigos, camaradas e "camarigos"
Diz o povo, com a sua sabedoria: que amigos são a família que escolhemos. Dizia a minha saudosa Isabel que “os amigos são flores que florescem no jardim da vida”
Não podia estar mais de acordo. Ao longo de toda esta minha caminhada, de norte a sul do país (a minha nacional n.º 2) muitas amizades criei e mantenho, porque cuidadas como as flores do jardim.
Mas o que me traz aqui hoje não são os meus amigos mas sim os meus “camarigos”. Todos os dias nos entra em casa, através dos órgãos de comunicação social, relatos que me entristecem, pela forma como os ex-combatentes são "esquecidos" (para ser simpático) pelo poder político e pela dita sociedade civil, ou são "apresentados" pela comunicação social;
(i) porque entopem os Centros de Saúde e Hospitais (alguns com alta mas ali ficam já que ninguém aparece para os levar);
(ii) como "sem-abrigo", escorraçados pelos comerciantes pela manhá, já que dormem durante a noite junto da suas montras;
(iii) e até como suspeitos ou acusados de serem os principais responsáveis pelos incêndios de verão.
A Guerra acabou, mas para muitos dos ex-combatentes, apanhados nas malhas do stress pós- traumático, dela nunca saíram transformando a sua vida e a das sua famílias num inferno, com as consequências já referidas.
Para muitos destes ex-combatentes o seu único porto de abrigo são os seus camaradas dos tempos de guerra que, dentro das suas possibilidades, lhes fazem visitas regulares e os ajudam como podem.
Não sei explicar (deixo essa tarefa para os especialistas) mas de todas as amizades, as que se criaram durante os dois de anos guerra ultrapassam os limites do compreensível.
Já várias vezes me aconteceu num passeio de fim de tarde passar por um amigo que se encontra num grupo familiar, que por respeito cumprimento fugazmente ou com um simples gesto.
Se por um acaso esse amigo for um meu antigo companheiro guerra, sai do grupo, abraça-me quase ao sufoco e diz aos familiares: “Vão indo, que eu já vou lá ter”... Com um mensageiro, chegando uma hora depois, a dizer que está na hora de partir!
Não tem explicação.
Há dias (ou será regularmente!?) passei pelo programa mais visto da RTP1 ("Preço Certo") e vejo um velho a desejar beijos aos familiares e amigos e um efusivo abraço aos seus companheiros da guerra no ultramar com as lágrimas a correr-lhe pelas faces tisnadas e mostrando orgulhosamente a sua boina de militar com o crachá da sua companhia.
Aos nossos amigos perdoamos qualquer arrufo, mas não esquecemos. Aos amigos da guerra não perdoamos, porque simplesmente esquecemos, limpamos da memória.
Uma vez esquecidos por quem tinha o dever de cuidar, vamos cuidando uns dos outros, criando blogues (do qual destaco o “Luís Graça & Camaradas da Guiné” no qual participo regularmente), criando “Tabancas” (grupos de ex-combatentes da mesma região com encontros, almoços ou jantares quase todos os meses).
Mas o que nunca pode faltar é o encontro anual que todas as companhias promovem. Podem crer que, para todos os ex-combatentes, a seguir ao casamento de um filho, é a festa mais esperada, capaz de fazer alterar a data do casamento já que é impensável faltar ao encontro dos camaradas de guerra.
Eu só faltei a um encontro por causa de um casamento, embora tentasse mudar a data, sem sucesso.
A minha companhia é constituída, literalmente, por elementos de todo o país, do Alto Minho ao Algarve, pelo que os encontros percorrem também todas as regiões em função de quem organiza.
Todos os organizadores primam por nos dar um cheirinho da sua região, particularmente no prato escolhido para o repasto.
Foi com uma alegria imensa que organizei um destes encontros na linda cidade de Viana do Castelo, no ano de 2009, com visita e missa em Santa Luzia e o repasto abrilhantado pelo Rancho Folclórico de Perre.
Estes encontros não são só um almoço de amigos, são um dia de festa, que começa pelas 8 da manhã e termina já noite. Depois das apresentações, segue-se a obrigatória missa onde lembramos os camaradas mortos em combate bem como todos os que a vida já levou. É sempre um momento muito emotivo.
Depois segue-se a festa, contando as mesmas histórias de sempre pele enésima vez mas com o entusiasmo como que fosse a primeira
Contudo, estes encontros já não são só o encontro anual dos ex-combatentes, mas também das suas famílias já que dela fazem parte as esposas, os filhos, os netos e já alguns bisnetos. Os familiares chegam a ultrapassam os 70% dos presentes.
Não há explicação!
Um forte abraço para todos os "camarigos" (camarada + amigo).
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+Ultimo poste da série > 26 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27354: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-Furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXVIII: nem todas as histórias têm um final feliz: a fábula da cabra Joana de Nhacobá e do cão rafeiro Tigre do Cumbijã

































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