Pesquisar neste blogue

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28242: Notas de leitura (1948): "Parábola do livro esquecido", retirada, com a devida vénia, do livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho; Partenon, 2026

"Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho. Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, Maio de 2026, 160 pp. (ISBN: 978-989-9198-51-7) (Está à venda em: www.sitiodolivro.pt) (Preço de capa; 12,00 euros)

Sinopse:

"Este livro é um esboço de memórias e, simultaneamente, um inventário-amostra dos livros publicados pelo autor. É, além disso, uma biografia breve de um “baby-boomer” nascido em Portugal, que atravessa grande parte do Salazarismo e do Marcelismo, envolvido, também, na guerra colonial de 1961-1974."


******************************

1. Com a devida vénia ao nosso amigo e camarada Alberto Branquinho, transcrevemos a "Parábola do Livro Esquecido", que se pode ler nas págs. 87 e 88 do seu livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)".

Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Op Especiais da CART 1689 / BART 1913


Parábola do Livro Esquecido

Quando o livro sentiu estar a ser arrumado na estante (foi há tanto tempo!) havia, ainda, bastante espaço entre ele e os que estavam instalados já instalados à sua esquerda e à sua direita. De maneira discreta podia criar espaço entre as suas folhas. Exercitar-se. Mas, com o decorrer do tempo, esse espaço foi encurtando, de tal modo que quase não conseguia respirar. Quase chegou a odiar os vizinhos à sua esquerda e à sua direita. Além disso, não falavam a mesma língua. Não havia comunicação entre eles. A comunicação própria dos livros. Não se entendiam. Os vizinhos deviam sentir o mesmo que ele sentia. Com a sensibilidade própria dos livros.

E assim esteve durante muitos, muitos anos. Nos primeiros tempos desesperou. Depois conformou-se à sua sorte.

Mas... muito recentemente mão amiga retirou-o (com dificuldade) da estante, consultou o índice e colocou-o em cima de uma mesa. Na horizontal. Agora, repetidas vezes, é folheado e elevado à altura de uns óculos que reflectem sobre ele a luz do candeeiro. Sente-se útil. Aquele que o lê deixa, por vezes, um marcador de cartolina entre duas folhas.

O livro está agora feliz com a sua existência. É útil, lido, consultado, talvez citado. Saiu, ao que parece, do anonimato. Ou, se não saiu já, sente que, em breve, será citado, transcritas partes do seu texto.

Assim vale a pena nascer e continuar a ser livro.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28237: Notas de leitura (1946): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (2) (Mário Beja Santos)

1 comentário:

Eduardo Estrela disse...

Está o livro feliz por ter finalmente sido recuperado para a função da leitura e pesquisa e eu porque acabo de ter o privilégio de ler esta magnífica parábola.
Obrigado pela partilha.
Abraço
Eduardo Estrela