Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Howard French. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Howard French. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A obra de Howard W. French é algo mais de que uma mera revisitação da Era das Descobertas e do papel central da Europa no desencravamento do mundo. A singularidade passa por colocar o continente africano e os seus povos no centro das atenções: a despeito da infâmia da escravatura e dos milhões de seres humanos encaminhado para as Américas e para povos do Mediterrâneo, sobretudo, os africanos foram essenciais na construção da modernidade, impulsionaram culturas, foram determinantes nas riquezas criadas nas Américas. Este trabalho Origem:África leva-nos para uma nova visão das nossas origens; a guerra civil norte-americana, provocada pela questão da escravatura gerou direitos dos cidadãos e fundou um novo conceito de liberdades cívicas. Uma revisão do olhar que este investigador alarga à história do mundo Atlântico, procurando pôr África no seu lugar.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 1

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro "Origem: África", o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

Alguns desses produtos do trabalho escravo, como é o caso do algodão, ajudaram a lançar a industrialização. Para o autor, esta sua investigação procura abrir vários caminhos e avivar historiografia antiga: as disputas europeias pelo controlo da riqueza africana, a sucessão de batalhas navais na África ocidental no acesso ao ouro; uma quase guerra mundial no século XVII, para o controlo do comércio das mais ricas fontes de escravos em África, hoje Congo e Angola, alternando entre eles; e temos o açúcar brasileiro, as lutas de Inglaterra e Espanha pelo controlo das Caraíbas, enfim, o esclavagismo foi a catapulta da criação de riqueza no Atlântico norte, mas a sua presença modificou a estrutura das Caraíbas e do Brasil.

Este volumoso estudo abre com a “descoberta” de África, desde a Antiguidade, e a partir do Mediterrâneo Oriental, basta recordar os negócios fenícios no norte de África, igualmente no norte de África a presença do Império romano e depois, com a presença muçulmana a aceleração do comércio transariano no ouro; os manuais que há muito que dão conta de impérios africanos como o Gana, conhecido em toda a África do Norte como o país do ouro; o Império Mali, o mais famoso dos impérios sudaneses, que sucedeu ao Gana no século XIII, que deixou registo de uma figura lendária, o imperador Mansa Musa que na sua viagem para Meca, passando pelo Cairo, deu brado pela ostentação da sua riqueza; no seu auge, o império controlava o enclave de três dos mais importantes vales fluviais da África Ocidental: o Senegal, a Gambia e, acima de tudo, o Níger.

Atenda-se a esta observação do autor:
“Enquanto o Gana dependia principalmente dos campos de ouro num lugar chamado Bambuk, que estava ligado através de rotas de caravanas ocidentais conducentes a Marrocos, o Mali diversificou as suas fontes de ouro e conseguiram aumentar consideravelmente a produção, estendendo as suas redes de comércio ainda mais para sudoeste, explorando a produção de áreas controladas pelos grupos étnicos acãs (grupos étnicos e linguísticos situados no Gana e na Costa de Marfim) do atual Gana, nome adotado pela antiga colónia britânica que se chamava Costa do Ouro aquando da independência. Além do ouro, cada um dos três grandes impérios sudaneses que se sucederam no controlo dos mais importantes vales fluviais e da savana ao sul do Sara – Gana, Mali e Songai, perseguiram agressivamente o comércio de escravos.”

E, mais à frente:
“Entre 1500 e 1800, aproximadamente três milhões de escravos negros foram traficados através do deserto do Sara, ou por rotas distintas da África Oriental, para as regiões do mar vermelho e do Oceano Indico. Mais de um milhão foram enviados para as Américas a partir das áreas da Senegâmbia e das costas da Alta Guiné, ambas constituindo zonas nucleares de influência dos grandes estados do Sahel medieval.”

Adstrito a este contexto, a Europa conheceu tempos de tumulto, de refazimento de Estados, sofreu a Peste Negra, teve péssimos anos agrícolas e sentiu a falta do ouro; num quadro de relações científicas onde também pontificaram os conhecimentos muçulmanos e judaicos, deu-se o afã, a curiosidade, a apetência de riquezas, a cobiça do ouro, o ideal de cruzada, teimava-se em fazer recuar os muçulmanos do norte de África para o ponto de origem.

O conhecimento científico exigia atualizações na cosmografia. Os mapas e os livros que circulavam em meados do século XIV procuravam dar informações sobre África, acompanhavam-se as viagens que os muçulmanos faziam no Sudão, os mapas introduziam o rio Senegal que era imaginado como o ramo ocidental do Nilo. Apareceu em 1375 o Atlas Catalão, um mapa-múndi. Vale a pena falar dele.

Este mapa maiorquino continha elementos de astrologia, mito e superstição, é o mais antigo mapa sobrevivente da Idade Média europeia, nele se tentava estabelecer uma geografia científica do mundo real. O mais extraordinário elemento deste mapa é África: lá, não só se encontra um grande número de zonas costeiras identificadas, como é próprio de um portulano, mas também uma quantidade impressionante de detalhes sobre o interior do continente. Pela primeira vez na cartografia surge uma referência aos negros da Guiné.

French foca seguidamente o desempenho da nova dinastia de Avis e recorda o papel científico determinante dos judeus, a importância da conquista de Ceuta, as expedições em torno da Costa Ocidental africana, o diferendo de Portugal e Castela sobre as Canárias, as primeiras trocas comerciais com as chefaturas africanas, a importância do contrato celebrado por D. Afonso V com Fernão Gomes, a construção da fortaleza da Mina, finalmente o acesso ao ouro, a substituição de contactos hostis com as populações nativas pela diplomacia do diálogo e negociação. Vamos ver seguidamente a importância que deve ser conferida aos negócios da Mina e a edificação do tráfico negreiro/escravatura.


Professor Howard W. French

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 10 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)