1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Fevereiro de 2026:Queridos amigos,
Pelas minhas contas, julgava que o cardápio literário da guerra colonial tinha esgotado todas as formas de olhar: romance, conto, novela, poesia erudita e poesia popular, abordagem memorial, historiografia, ensaio e ou narrativas sobre figurantes como as mulheres que acompanharam os oficiais, o pessoal de saúde, incluindo as enfermeiras paraquedistas, e pouco mais. É nisto que irrompem em cena os filhos a recordar a correspondência dos pais e os filhos que vão visitar os locais onde os pais combateram. É nesta última dimensão que podemos apreciar a obra de Paulo Faria, detentor de uma belíssima escrita, leva-nos à guerra acompanhada de lembranças por vezes muitos dolorosas da infância, não se escusa a confissões íntimas, vamos assistir ao descalabro de Moçambique numa prosa talentosamente organizada com toda a engrenagem dos afetos da vida do narrador. Uma agradável surpresa, isto para quem julgava que este subgénero literário ia-se confinar à literatura memorial dos antigos combatentes, os filhos e os netos deles entrariam em cena muito mais tarde.
Um abraço do
Mário
Em Moçambique, à procura de lembranças do pai, alferes miliciano médico:
Viagem de expiação familiar, escrita de sublimação para encontros e desencontros - 1
Mário Beja Santos
Esta "Gente Acenando para Alguém que Foge", de Paulo Faria, Minotauro, 2020, é para efeitos práticos continuação de outro título do mesmo autor, "Estranha Guerra de Uso Comum", publicado pela Ítaca, 2016. De novo assalta à memória uma vida familiar lacerada, o autor diz-nos agora no prólogo que “A infância extingue-se no dia em que percebemos que os nossos pais nos sonegaram a parcela mais preciosa do seu afeto. Sem o sabermos, acumulamos visões que nos irão perseguir para sempre.” Retoma-se a duríssima memória daqueles pais divorciados que se reencontravam lá em casa da mãe pela sexta-feira à tarde, antes dos dois filhos seguirem para casa dele e da madrasta, tudo dissimulado, como se aquelas crianças não acabassem por perceber o que se passava no quarto, uma aprendizagem da hipocrisia e do cinismo. Só que a partir daqui a prosa entra numa cavalgada, o palco enche-se de inúmera gente, ficamos a saber que Carlos Silveira já está em Nampula, encaminha-se para Cuama, Niassa, vai à procura de Artur, uma criança muito mimada pelo pai, alferes miliciano médico e pelo furriel Gamito, história já contada no livro anterior.
A viagem àquele ponto de África, é uma dor de alma, um retrato detalhado do descalabro e miséria em que se encontra o país, não faltam as lembranças da dementada guerra civil que ali se viveu. É uma narrativa de avalanche, aqui e acolá despontam sketches de tragicomédia, feridas abertas, o casamento de Carlos com Fernanda e o divórcio, perguntas sobre o garoto Artur, filho de uma prostituta, que os dois militares tinham adotado no Chicôco, que coisa foi essa de se ter metido ao caminho para percorrer os quartéis onde viveu o pai militar só porque houve um profundo afeto por uma criança de que nem o médico nem o furriel eram pais – interpelam quem com Carlos Silveira vai convivendo.
A memória deste Carlos, que é sempre o narrador, está num completo turbilhão, anda à rédea solta, ele lança odes amorosas a quem ainda não nos foi apresentada, Amélia de nome; a viagem começa em Maputo, cidade arruinada e cheia de lixo, há uma pungente visita ao Museu da História Natural de Maputo e não se quer esconder o sofrimento que avassala o visitante, tudo a coberto de uma sensibilidade ocidental, porventura:
“O museu é bonitinho por fora, em estilo bolo de noiva pseudo-manuelino. Por dentro arrasta-se, malferido e bolorento, porque sim, porque não há dinheiro nem energia para virar a página, porque a força do que existe pesa sobre as coisas e faz estiolar o que o poderia existir, porque a violência não dá tréguas e não deixa revisitar o passado com gestos serenos. Os animais estão cheios de pó, corroídos de gangrena, há um leopardo cinzento, já sem manchas, com a cauda partida, a palha a ver-se. O búfalo e os leões que o meu pai fotografou estão ainda no seu lugar, na sala principal, debaixo de uma enorme claraboia, na mesma posição de há cinquenta anos, mas, vistos de perto, à luz crua do sol que dardeja dos vidros sujos, não tem encanto nenhum, parecem pessoas vestidas com peles de animais que lhes servem mal, nuns casos demasiados justas, noutros a dançarem-lhe no corpo, os olhos de vidros esbugalhados, as pálpebras secas e peladas.”
E o autor dá-nos a justificação para este propósito de ter vindo a Moçambique, tudo problema que vem da infância, aquele pai deixou documentação deveras intrigante da sua passagem pela guerra colonial, assim se deliberou, sabe-se lá por expiação ou por reconciliação por tantíssimos desencontros da vida familiar, viajar por esses locais onde o pai revelou afetos, vacinou gente de todas as idades, cuidou dos estropiados e guardou silêncio pela vida fora.
Entra agora em cena Camila, filha do primeiro casamento, de comportamento extravagante, fica-se igualmente a saber que Carlos vai buscar a filha ao Algarve aos fins de semana, de acordo com os ditames da tutela parental, e aproveita para fazer sexo com a primeira mulher. Camila, entretanto, cresceu, experimentou saídas profissionais, fez fotografia, regressa-se ao casamento com Fernanda e ficamos a saber que no dia seguinte ao casamento o sogro suicidou-se, voltamos a saber dos itinerários de Camila. Carlos Silveira já chegou a Nampula, é daqui que partirá à procura de Artur.
Carlos pergunta ao motorista se havia táxis para Cuamba, sim, era possível fazer o frete por 12 mil meticais. Mais adiante, Carlos acorda noutro frete, e é exatamente neste ponto que Paulo Faria engrena num espantoso puzzle de conversas avulsas onde jogam vários passados, várias histórias familiares, entrecruzamentos com a visita a Nampula, onde não faltam estátuas mutiladas dos colonizadores portugueses, irrompe agora uma nova situação, a insolvência de uma das suas mulheres, que irá definir um período de rigorosa austeridade, Carlos a comandar a operação. Ficamos a saber como o autor escrevera o seu romance "Estranha Guerra de Uso Comum", hospedado num convento e num retiro de silêncio.
E ficamos a saber em detalhe que isto de faltar dinheiro lá em casa começara com o divórcio dos pais, agora ganhara sofisticação, a dívida era um garrote. As recordações são agora canalizadas para a infância e para a vida de Camila com o Antero, e depois temos uma litania dirigida a uma Amélia que parece estar disposta a partir:
“Estás à mercê do pânico, do salve-se quem puder, da debandada geral. Há em ti a firmeza inabalável de quem não teme perder as coisas, porque sabe que em todas elas há uma verdade que só a sua perda nos revela.”
Estamos agora em Cuamba, antiga Nova Freixo, perto do lugar onde o alferes miliciano médico, o pai de Carlos, fez a guerra. Temos novos personagens, caso do Luís Gouveia, que é de Coimbra e vive em Cuamba há dez anos a chefiar a fábrica de algodão. “É o branco certo para trabalhar em Moçambique. Não carrega o peso do passado, finge que o passado não existe. Nunca diz ‘os pretos’, diz ‘esta gente’, diz ‘estes gajos’. As pessoas desta terra produzem algodão, ele dirige uma fábrica de onde tem saído todos os anos fardos de algodão aos milhares. Não me parece que tenha alma de carrasco, mas, se tiver de escolher entre ser vítima e carrasco, será sempre carrasco. E em Moçambique é preciso escolher todos os dias, a todas as horas do dia.”
Carlos anda por Cuamba a tirar fotografias, procura que o leitor entenda o seu comportamento, a sua mentalidade:
“Transferi para os outros, para os seres e para as coisas com quem me cruzava, a responsabilidade de me atraírem para junto de si, disponível para me deixar cativar. Ensaiei ousadias, pus de parte alguns pruridos. Semeei sorrisos a lanço, plantei olhares simpáticos sem cuidar de saber se iriam medrar naquele solo. Tratei esta terra com um tu-cá-tu-lá excessivo de velhos conhecidos, como se a reencontrasse depois de muitos anos sem nos vermos (…) Percorri a quadricula colonial destas ruas largas, sentei-me num alpendre que parecia ter sido posto ali para meu deleite. Era uma casa branca com muitas portas, uma fiada de lojas, e as portas davam todas para esse alpendre corrido que se apoiava em colunas de alvenaria e que dobravam a esquina numa curva suave. E o piso do alpendre era de cimento pintado de ocre, um socalco elevado em relação à poeira da rua, e eu sentei-me ali, encostado a uma coluna, e senti através do tecido das calças a frescura do cimento muito macio nas nádegas e nas coxas, e a altura daquele degrau pareceu-me feita à medida das minhas pernas. E um velho saiu de uma loja e meteu conversa comigo e disse-me que se chamava Faustino, e disse-me que eu estava diante da casa de alvenaria mais antiga da povoação, construída por um branco chamado Francisco Maria Soeiro em 1958, quando aquela terra ainda se chamava Nova Freixo, para servir de loja de comércio geral, e que nesse tempo se vendia ali tudo.”
Posto isto, Carlos confessa para si próprio que não dissera ao seu interlocutor que Cuamba era uma terra bonita. Mas ainda estamos bastante longe de fazer a peregrinação à procura de Artur, a pretensa figura central nesta viagem, mas também onde há um móbil da expiação e em que todas as memórias da infância se canalizam para a autodescoberta que dá a provar a felicidade que há nos outros.
Paulo Faria
(continua)
_____________
Nota do editor
Último post da série de 7 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28247: Notas de leitura (1948): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026 (4) (Mário Beja Santos)



Sem comentários:
Enviar um comentário