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sábado, 15 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!







Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. É proibido o ódio no nosso blogue... O discurso do ódio...

Os editores reservam-se, naturalmente, o direito de não publicar textos e fotos (ou de  eliminar, "a posteriori", comentários) que violem as normas legais do nosso servidor (Blogger/Google), bem como as nossas regras de bom senso e bom gosto que devem vigorar numa comunidade de amigos e camaradas da Guiné... E mais concretamente mensagens com:

(i) conteúdo racista, xenófobo, sexista, supremacista,  homofóbico, etc.;

(ii) sexo explícito, material pornográfico (que é diferente de erótico), nu integral, etc.

(ii) carácter difamatório;

(iii) tom intimidatório, provocatório, insultuoso; 

(iv) acusações de natureza criminal ou violação segredos judiciais;

(v) violência, física e/ou verbal (apelo/incitação, uso);

(vi) assédio sexual e moral ("ciberbullying");

(vi) linguagem desbragada,  inapropriada, etc. (mas o bom humor é bem-vindo);

(vii) publicidade comercial ou propaganda claramente político-ideológica (ou "partidária");

(viii) informações/dados  do foro privado, sem autorização de uma das partes (nome completo, filiação, naturalidade, morada, nº de cidadão, nº de telemóvel, etc.);

(x) spam sob a forma de repetição em série de um mesmo comentário em diversos postes...


2. Mas, afinal, o que é o ódio, camaradas ?

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné,  é proibido o ódio. O discurso do ódio. Tudo bem.

Mas também não temos que nos amar uns aos outros (combatentes e desertores, "tugas" e "turras",  colonialistas e anticolonialistas, benfiquistas, sportinguistas e portistas, ateus, crentes e agnósticos, brancos, azuis, verdes, vermelhos, amarelos...). 

Talvez por isso tenhamos chegado aos 22 anos de existência na Net. E aos 22 milhões de visualizações de páginas. 

Devemos desconfiar destes números. Sim, como manda a dúvida metódica de Descartes. Visualizações não são "visitas" ou "visitantes" Quem visita, pode visualizar mais do que uma página num dado momento (por exemplo  a esta hora em que eu estou a editar este poste).

Mas é do ódio que importa falar... Sim,  há muito ódio nas redes sociais. No blogue, acho que não tanto, estamos "vacinados"... Temos controlado os "outliers", os extremismos...  

Mas ódio,  ódio, sempre o houve, desde que o homem é homem, um animal mamífero, de sangue quente, territorial, social, omnívoro, predador...(nome científico: "Homo sapiens"; espécie classificada pelos zoólogos na Ordem dos Primatas, tal como o chimpanzé, o gorila, o  orangotanho...mas também o macaco-cão).

Mesmo não havendo  "redes sociais, digitais",  no passado,  sempre houve razões para nos odiarmos uns aos outros e, "in limine" nos matarmos uns aos outros, invocando até (ou quase sempre)  o "sagrado": Deus, Pátria, Família, as nossas crenças, os nossos valores, o nosso solo sagrado...

 Desde o princípio de todas as coisas. Sempre houve "violência" (física e verbal). 

3. A minha dúvida existencial, que levei para a Guiné: posso lutar numa guerra sem ódio ? Sem sentir ódio pelo inimigo, que nem sequer conheço nem sequer vejo muitas vejas ? Tenho mais chances de sobreviver se "odiar"  ou se "não odiar" ? 

O contrário de "amar", não é "odiar",  mas "não-amar", dizem os puristas da língua...

Em suma:  na guerra, tenho que sentir raiva  e ódio ? Ou posso também sentir piedade, compaixão ? Tenho que odiar quem me quer matar ? Quem me aponta uma RPG-7 à cabeça, emboscado, escondido atrás do "bagabaga" ou do grosso tronco do bissilão ? Ou antes, tenho que odiar quem me mandou para a guerra ? 

A "padeira de Aljubarrota" que há 641 anos atrás,  em 14 de de agosto de 1385,  matou (diz a lenda) sete castelhanos (ainda não eram espanhóis...) que se esconderam no seu forno..., só podia matar... por ódio. Os 6 mil e tal portugueses e ingleses que enfrentaram mais de 30 mil castelhanos nesse dia, mês e ano, não poderiam ter vencido essa batalha sem ter experimentado, nessa tarde,  um ódio intenso ao "invasor"... Ou seria "loucura" ? Talvez venha daí a expressão que os "nuestros hermanos" (sic) ainda hoje usam: "Portugueses, pocos pero locos" ("Portugueses, poucos mas loucos")...É verdade, sempre fomos poucos mas...loucos.

Tenho estado a refletir sobre o binómio amor-ódio (interpessoal, intragrupal, intergrupal, a nível nacional e internacional) (*)...  E até intrapessoal: há sempre uma parte de nós que odiamos..., do tamanho do penis ao nariz adunco....

Se não fora assim, os consultórios dos psiquiatras estariam às moscas... Os psiquiatras e demais "psis", os psicólogos, os psicoterapeutas, os médicos, os padres, os feiticeiros,  as bruxas, os astrólogos...

Também desconfio do "Amor com amor se paga"... Altruísmo 'versus' egoísmo ? A sociobiologia também é muito redutora e primária... 

Dei aulas de etologia e sociobiologia, em 1994, a alunos de licenciatura em sociologia,qu se estavam borrifando para o Hawkins, o Wilson, o Lorenzo, etc. Li muito e escrevi muito nesse ano sobre esses temas, incluindo a "pulsão da violènca" que nos leva a matar... 

Mas o que sei eu hoje sobre este campo tão controverso ? Sei que a minha pergunta toca em temas centrais da condição humana: o ódio, o amor, a guerra, a sobrevivência, a moral e até a biologia. 

(i) Afinal, o que é o ódio?

Diz o dicionário:

ódio
(ó-di-o)

substantivo masculino

(a) Sentimento de intensa animosidade relativamente a algo ou a alguém, geralmente motivado por antipatia, ofebsa, ressentimentro ou raiuva= Aversão, repulsa, ≠ Amizade, amor

(b) Objeto desse sentimento.

Etimologia: do latim otium, -ii (ódio, aversão, ressentimento, má vontade, animosidade, irritação, desagrado, insolência).

"ódio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-br/%C3%B3dio.

O ódio é uma emoção intensa de aversão, hostilidade ou repulsa em relação a uma pessoa, grupo, etnia, classe social, nação, ideia, crença, objeto ou coisa (ex.: odeio o fulano de tal, os ciganos, os balantas, a Guiné, o populismo, os milionários, os comunas, os fascistas, os nazis, as claques de futebol, os "emigras"... mas também a bola, a lampreia, a IA, os tuk-tuk).

Não é apenas uma emoção individual: é também um fenómeno social, muitas vezes alimentado pelo medo, pelo desconhecimento, pela desumanização do outro, pela competição por recursos escassos,  ou pela necessidade de pertencer a um grupo (identidade vs. alteridade).

No contexto das redes sociais (e na guerra), o ódio amplifica-se, devido a a uma série de fatores, como, por exemplo:

  • o anonimato, a impunidade,  o grupo que reduz a responsabilidade individual; na guerra (e nas redes sociais), o "menino de coro" pode transformar-se num "monstro";

  • os algoritmos, que premeiam o conteúdo emocional (incluindo o ódio), pois gera mais interação, mais acessos,  mais visualizações; 
  • as câmaras de eco que  reforçam crenças extremas e demonizam o "outro" (o chamado fenómeno da polarização).

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné, o facto de moderarmos os comentários (incluindo o "discurso de ódio") não é um acaso: é uma escolha ativa de preservar um espaço de diálogo, de tolerância, de convivilidade, de responsabilidade, de partilha ... Não é um espaço de censura, mas de abertura.

Os 22 anos e 22 milhões de visualizações são um sinal de que a ausência de ódio atrai mais do que repele. 

Afinal, não é caso para desconfiar desses números: são a prova de que a qualidade do debate,  dos conteúdos, a partilha de memórias (e emoções), a credibilidade, a transparência (toda a gente dá a cara, ninguém se esconde por detrás do "bagabaga" ou do "poilão")  pode ser um "valor de mercado", dá dividendos...

 
(ii) Posso lutar numa guerra sem ódio?

Em teoria, e por vivência pessoal, direi  que sim, é possível. A história está cheia de exemplos de soldados que lutaram por dever, por lealdade, por ideais (liberdade, justiça, proteção de civis, amor à pátria, etc. ) sem ter que odiar o inimigo. 

O ódio não é um pré-requisito para a guerra, mas é um catalisador que facilita a desumanização do outro, e o comportamento sobre-humano a que chamamos heroísmo. E isso, sim, aumenta a crueldade e a eficácia na destruição.

Estatisticamente, sabemos que o ódio pode aumentar a coesão do grupo e a disposição para matar, mas também faz aumentar o risco de trauma: soldados que odiavam o inimigo tinham mais dificuldade em reintegrar-se na família, na comnunidade, na sociedade depois da "peluda"... Além disso, reduz a resiliência (o ódio consome muita energia emocional).

O ódio é uma patologia. A longo prazo, o ódio acaba por esgotar e limitar a estratégia do indivíduo ou do grupo: o ódio oblitera o julgamento; a guerra é também um jogo de xadrez; o ódio faz-me jogar sem eu ver o tabuleiro todo. 

Conclusão: sobrevivo melhor sem ódio. A frieza, o profissionalismo, a inteligência emocional ou até a compaixão (sim, até na guerra, pode haver compaixão, que não é a mesma coisa que empatia, e muito menos amor) podem ser vantagens. 

O ódio é um luxo que muitos não podem pagar. Fiz prisioneiros (eu e a minha companhia, a CCAÇ 12); nunca odiei nenhum prisioneiro nem o torturei (mas outros fizeram-no por mim, em meu nome, em nome do grupo)...


(iii) Amor vs. ódio: altruísmo vs. egoísmo

A sociobiologia explica o altruísmo como uma estratégia evolutiva: cooperamos com quem partilha os nossos genes ou os nossos interesses. Mas isso é redutor. O ser humano é muito mais do que instintos, genoma, ADN, sexo, testosterona.. É mais do que o nosso gene egoísta que se quer reproduzir â viva força.

Sim, o amor pode ser um ato de resistência. Em contextos de guerra ou opressão, o amor (pela família, pela pátria, por um ideal, pela liberdade, pela justiça) é muitas vezes o que mantém as pessoas de pé.

"Amor com amor se paga": não é uma lei universal, mas é um contrato social. Se todos agirem com egoísmo puro, a sociedade colapsa. O altruísmo não é ingénuo: é racional a longo prazo. Também é,pois,  "interesseiro".
 
O ódio também é uma  ferramenta de manipulação e mobilização: o ódio pode ser útil para mobilizar massas (viu-se isso durante as guerras civis liberais, em 1828/34, na guerra colonial de 1961/74, no "verão quente de 1975", na ocupação indonésia de Timor Leste e na resistência dos timorenses aos ocupantes, etc.) mas é insustentável a longo prazo. 

Amílcar Cabral pregou o ódio ao colonialismo mas distinguiu os colonialistas e o povo português. Claro que o colonialismo não é uma coisa abstracta...

 As sociedades que duram são aquelas que conseguem gerir o ódio, não as que o celebram (como a Alemanha nazi). 

Dicas práticas para o meu dilema existencial, quando eu tiver/nós tivermos  que me/nos  envolver numa nova guerra (cruzes canhoto!... mas nunca se sabe nem onde nem quando podemos ser apanhados de novo por um conflito armado, nós, os nossos filhos, os nossos netos):
  • o ódio é uma escolha, não uma fatalidade: podes reconhecer a raiva, a injustiça, a dor, sem te deixares consumir por elas;
  • a guerra (metafórica ou real) ganha-se com inteligência, não com ódio;
  • o ódio cega; a estratégia, a empatia (até com o inimigo) e a resiliência são armas mais poderosas do que o ódio;
  • e se tivessemos conseguido  juntar,  numa mesma "seleção nacional",  Sarmento Rodrigues, Adriano Moreira,  Spínola, a "Cilinha" mas também... Amílcar Cabral e a "Maria Turra"?;
  • o altruísmo não é fraqueza;
  • a história mostra que as sociedades mais cooperativas são as mais resilientes; 
  • o egoísmo puro é um beco sem saída;
  • desconfiar dos extremismos (e de quem os defende) é um bom princípio; 
  • tanto o ódio cego como o amor ingénuo são perigosos ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo", diz o provérbio);
  • o equilíbrio (dinâmico) está na difícil lucidez;
  • o ódio é fácil;
  • o amor é difícil;
  • ...mas  é o único que constrói algo que dura nas nossas relações (intragrupais, intergrupais, comunitárias, nacionais, internacionais).
(Continua) (**)
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Notas do editor LG:

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