1. Há pequenas histórias do nosso quotidiano que não precisam de grandes feitos de guerra para merecer ser recordadas. Basta-lhes uma situação algo insólita, uma boa dose de humor q.b. e, sobretudo, alguém que a tenha vivido e não a tenha esquecido, ao fim de mais de meio século.
É o caso desta memória do António Tavares (ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912, Galomaro, 1970/72), que começa com um jagudi empoleirado numa árvore, à espera dos restos da matança de um vitelo, e acaba... com uma gaivota da Foz do Douro, Porto.

Duas aves, dois cenários muito diferentes (a savana arbustiva da Guiné e a paisagem marítima da Foz do Douro, no Porto, a 4 mil quilómetros de distância), mas com alguns comportamentos surpreendentemente semelhantes. Uma e outra sabem muito bem onde encontrar comida e, quando calha, também "gostam de pregar partidas" aos humanos...
O texto foi publicado na página do Facebook da Tabanca Grande (5 de agosto de 2026, 12:23 pelo António Tavares (que tem também página pessoal no Facebook).
É justamente para isso que serve esta série “Facebook...ando”: trazer para o blogue pequenos apontamentos, memórias, histórias e reflexões dos nossos camaradas, para que não se percam no imenso arquivo, do Facebook, que é como o mercado de Bandim ou a feira da Ladra de Lisboa: podem lá encontras-se no meio das velharias e de "muito lixo", coisas úteis e até preciosidades.
Aqui fica, portanto, o jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro. Duas aves , de espécies diferentes, uma terrestre e necrófaga (Necrosyrtes monachus), outra marinha, omnívara (Larus michahellis) que de algum modo fazem o seu papel de "almeidas", e que se acomodam bem ao "lixo" dos humanos...
São, sobretudo, duas boas desculpas para a gente recordar e sorrir... Já que, como diz o autor, recordar é viver!
O jagudi (título do texto original) não é apenas uma ave. Era um elemento muito concreto da paisagem guineense do nosso tempo e da experiência dos vagomestres e dos cozinheiros dos nossos quartéis, ligada à matança do gado e à gestão dos resíduos (numa época em que ainda não consciência ecológica nem separação, recolha e tratamento dos lixos; quando muito, faziam-se fogueiras em bidões). Isso torna a memória mais interessante, para os nossos leitores, amigos e camaradas da Guiné, do que uma simples anedota sobre um pássaro que "cagou" em cima da farda do vagomestre. É um pequeno apontamento etnográfico do nosso quotidiano, involuntariamente muito saboroso.
O jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro
Eu tenho uma recordação negativa dos jagudis.
Certo dia de 1970 (ou de 1972 ?) fui "presenteado" pelos intestinos de um. A ave estava no galho de uma árvore situada numa ladeira perto da residência do chefe de posto de Galomaro.
Aguardava os restos da matança do vitelo que estava a decorrer e defecou em cima do meu ombro e fardamento.
Os dois ajudantes do fula João Baker matavam os bovinos. O Baker comerciava a carne com o vagomestre.
Na Foz do Douro, náo temos jagudis mas temos... gaivotas a grasnar... nfestam as praias, ruas, telhados, jardins e contentores do lixo.
No Inverno por vezes em bando atacam as pessoas que passeiam nas praias. Os turistas adoram-nas, mas nas esplanadas roubam a comida dos mais incautos.


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