lustração: "Jornal do Exército" (c. 1970) (Adapt. com a devida vénia)
Manuel Raposo Marques, natural de Mértola, ex-sold. CART 2519 (Bula, Aldeia Formosa e Mampatá, 1969/71), "Prémio Governador da Guiné. Cortesia do portal Ultramar TerraWeb - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar
1. A propósito do "soldados básicos", tão maltratados na caserna (e nas nossas memórias...): o Mário Gualter Rodrigues Pinto (1945-2019), ex-fur mil art, CART 2519, "Os Morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), já controu aqui a história do Manuel Raposo Marques, sold básico nº 18757368, promovido depois a soldado atirador de artilharia, e que foi, por feitos em combate, Prémio Governador da Guiné em 1970. Como tantas outras histórias já aqui partilhadas, passou na altura "desapercebida" do leitor...
Escreveu o nosso saudoso Mário Pinto (foto à esquerda): "Um homem, o Manuel Raposo Marques, que apesar de ter sido classificado como 'básico', foi uma das nossas maiores e melhores referências em combate, tornando-se num exemplo de abnegação e de heroísmo, dignificando sobremodo o soldado Português".
Um básico que foi... Prémio Governador da Guiné (1970)
por Mário Pinto (1945-2019)
Para quem não sabe ou não se lembra já, básicos eram todos os soldados que não conseguiam qualificação ou aptidão, para serem enquadrados em qualquer outra das muitas especialidades existentes no Exército.
Eram assim a modos que uma espécie de proscritos, de mão-de-obra não especializada, que a tropa não dispensava e empregava no cumprimento de todo o tipo de tarefas indiferenciadas (tarefeiros, faxinas, auxiliares de pequenos serviços, etc.), normalmente apenas dentro das áreas delimitadas dos aquartelamentos.
Eles, tal como todos os outros especializados, iam, igualmente, “malhar” com os “ossinhos”em África. Nessa altura o que estava em causa era a quantidade de homens a enviar para a guerra e não a desejada e necessária qualidade, porque, no fundo, éramos massa destinada a “carne para canhão”.
Básico era então o carimbo com que eram marcados os incapazes e inábeis. E esta designação fez escola, tendo-se o termo generalizado a todos os sectores da sociedade portuguesa. O “nabo” foi substituído pelo “básico”!
O Manuel Raposo Marques, conhecido na CART 2519 pelo "Básico", tal como qualquer outro homem, tinha uma deficiência psíquica (vulgo “pancada”), daí ele ter reprovado, intencionalmente, na especialidade de cozinheiro.
Dizia ele que não tinha nascido para andar de avental, de tamancos e de gorro na cabeça, e o que ele queria ser mesmo era atirador.
– Que grande maluco! – pensei eu.
Acabou por ser reclassificado em básico, após ter sido considerado pronto na instrução e apto para desempenhar qualquer função de segundo plano, compatibilizando-se as suas capacidades humanas com as necessidades da Companhia.
Assim, o Manuel Raposo Marques, chegado à CART 2519, pediu ao alf mil Claudino, comandante do 4º Grupo de Combate, para o integrar na sua equipa. O alferes falou ao capitão e este consentiu, numa fase experimental, que assim fosse. Mais tarde, em função do seu excelente comportamento activo e combativo no grupo, decidiu elevar este básico, por mérito próprio, à categoria de soldado atirador.
Nos primeiros tempos, os seus camaradas olhavam-no com desconfiança, porque receavam que o 4º Grupo de Combate viesse a ser apelidado, na generalidade, de "básico", mas tal não aconteceu e o Marques veio a revelar-se como um dos melhores soldados da Companhia, com predicados de combatente acima da média e tiques de herói, tendo inclusive sido agraciado com o prémio "Governador da Guiné".
Pois é, o nosso básico, ao ser confrontado com a “roleta da morte”, foi suficientemente corajoso e audaz para ter abatido dois combatentes IN, e conseguir salvar a vida do seu comandante de secção, que se encontrava em situação difícil e ferido numa perna, numa acção em que o seu grupo de combate interceptou um grupo do PAIGC.
O "Básico" passou a ser uma referência da CART 2519 e respeitado por todos os seus camaradas e superiores hierárquicos. (**)
Eram assim a modos que uma espécie de proscritos, de mão-de-obra não especializada, que a tropa não dispensava e empregava no cumprimento de todo o tipo de tarefas indiferenciadas (tarefeiros, faxinas, auxiliares de pequenos serviços, etc.), normalmente apenas dentro das áreas delimitadas dos aquartelamentos.
Eles, tal como todos os outros especializados, iam, igualmente, “malhar” com os “ossinhos”em África. Nessa altura o que estava em causa era a quantidade de homens a enviar para a guerra e não a desejada e necessária qualidade, porque, no fundo, éramos massa destinada a “carne para canhão”.
Básico era então o carimbo com que eram marcados os incapazes e inábeis. E esta designação fez escola, tendo-se o termo generalizado a todos os sectores da sociedade portuguesa. O “nabo” foi substituído pelo “básico”!
O Manuel Raposo Marques, conhecido na CART 2519 pelo "Básico", tal como qualquer outro homem, tinha uma deficiência psíquica (vulgo “pancada”), daí ele ter reprovado, intencionalmente, na especialidade de cozinheiro.
Dizia ele que não tinha nascido para andar de avental, de tamancos e de gorro na cabeça, e o que ele queria ser mesmo era atirador.
– Que grande maluco! – pensei eu.
Acabou por ser reclassificado em básico, após ter sido considerado pronto na instrução e apto para desempenhar qualquer função de segundo plano, compatibilizando-se as suas capacidades humanas com as necessidades da Companhia.
Assim, o Manuel Raposo Marques, chegado à CART 2519, pediu ao alf mil Claudino, comandante do 4º Grupo de Combate, para o integrar na sua equipa. O alferes falou ao capitão e este consentiu, numa fase experimental, que assim fosse. Mais tarde, em função do seu excelente comportamento activo e combativo no grupo, decidiu elevar este básico, por mérito próprio, à categoria de soldado atirador.
Nos primeiros tempos, os seus camaradas olhavam-no com desconfiança, porque receavam que o 4º Grupo de Combate viesse a ser apelidado, na generalidade, de "básico", mas tal não aconteceu e o Marques veio a revelar-se como um dos melhores soldados da Companhia, com predicados de combatente acima da média e tiques de herói, tendo inclusive sido agraciado com o prémio "Governador da Guiné".
Pois é, o nosso básico, ao ser confrontado com a “roleta da morte”, foi suficientemente corajoso e audaz para ter abatido dois combatentes IN, e conseguir salvar a vida do seu comandante de secção, que se encontrava em situação difícil e ferido numa perna, numa acção em que o seu grupo de combate interceptou um grupo do PAIGC.
O "Básico" passou a ser uma referência da CART 2519 e respeitado por todos os seus camaradas e superiores hierárquicos. (**)
Nota - Estes dados foram retirados da História da Unidade e do livro “Há Sangue na Picada”, de Jacinto Manuel Barrelas, cor art ref, ex-cap art, cmdt da CART 2519. (1969/71)
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, links, edição de imagem: LG)
__________________
Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 3 de junho de 2010 > Guiné 63/74 – P6528: Estórias do Mário Pinto (Mário Gualter Rodrigues Pinto) (37): Um básico super operacional (Mário G R Pinto)
(**) Último poste da série > 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28216: (De) Caras (250): Luís Mário da Silva e Sá (c. 1948-1970), alf mil 'cmd', 26ª CCmds (Brá, 1970/72), cruz de guerra de 2ª classe a título põstumo: peço ao escritor Angelino Santos Silva que nos fale dele e das circunstâncias da sua morte (José Macedo, EUA)
(*) Vd. poste de 3 de junho de 2010 > Guiné 63/74 – P6528: Estórias do Mário Pinto (Mário Gualter Rodrigues Pinto) (37): Um básico super operacional (Mário G R Pinto)
(**) Último poste da série > 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28216: (De) Caras (250): Luís Mário da Silva e Sá (c. 1948-1970), alf mil 'cmd', 26ª CCmds (Brá, 1970/72), cruz de guerra de 2ª classe a título põstumo: peço ao escritor Angelino Santos Silva que nos fale dele e das circunstâncias da sua morte (José Macedo, EUA)



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