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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28417: Tabanca Grande (586): Fernando Manuel Villalôbos Filipe, ex-Cap Mil Inf, CMDT da CART 6552/72 (Cameconde, Cacine, Cabedú e Cufar), que se senta à sombra do nosso poilão, no lugar n.º 919

1. Mensagem de Fernando Manuel Villalôbos Filipe, enviada ao nosso blogue em 26 de Maio de 2026:

Caro Camarigo,
Aproprio-me da palavra "criada" pelo Mexia Alves, simbiose de duas outras, das mais lindas do léxico português: "Camarada" e "Amigo", pelo significado e pelo conteúdo que encerram, para me dirigir a ti, hoje, quando se perfazem, exatamente, 53 anos da chegada à Guiné da CART 6552.

Ontem, solicitei a minha inscrição na Tabanca Grande, mas não enviei as duas fotografias indispensáveis ao processo de admissão: uma em Cameconde, outra, no meu escritório, em Lisboa.
Por isso, as remeto hoje, em anexo a este e-mail para completar a minha solicitação.

Um abraço reconhecido pela tua iniciativa.
Fernando Manuel Villalôbos Filipe


Cameconde > Cap Mil Inf Fernando Manuel Villalôbos Filipe, CMDT da CART 6552/72
Foto actual de Fernando Manuel Villalôbos Filipe no seu escritório

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2. Mensagem do ex-Cap Mil Inf Fernando Manuel Villalôbos Filipe, CMDT da CART 6552/72 (Cameconde, Cacine, Cabedú e Cufar), enviada ao nosso blogue em 6 de Outubro de 2026 através do Formulário de Contactos do Blogger:

Em 25 de Maio passado solicitei a minha inscrição no "blogue". Por e-mail de 26 de Maio, remeti para o Luís Graça as duas fotos que complementariam o meu pedido. Não tive qualqer retorno, mas, hoje, perante os relatos das operações desenvolvidas pelos Páras em Gadamael e Cacine/Cameconde, recordei os momentos amargos de Junho e Julho de 1973 ali passados.

A CART 6552, que comandei, chegou a Cacine na mesma LDG em que seguiu a Companhia 121 do BCP 12. Presto aqui a minha homenagem aos paraquedistas que, integrando o BCP n.º 12, venceram a batalha de Gadamael.

Eu estava lá e posso afirmar que se houve militares que mereciam ser louvados pela ação desenvolvida, foram aqueles. A eles agradeço ainda, sobretudo ao malogrado Capitão Cordeiro, o decisivo contributo para que uma companhia treinada para agir no território de S. Tomé e Principe se transformar em unidade operacional no Sul da Guiné, em pleno Quitafine.


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3. Comentário do editor CV:

Caro camarigo Fernando Filipe, em primeiro lugar as nossas desculpas pela demora na tua apresentação ao Blogue. A(s) caixa(s) de correio do nosso editor Luís Graça é problemática pela quantidade de mensagens que lá caem diariamente. As mais antigas começam a ficar para baixo e fogem ao controle.

Está reposta a legalidade, estás devidamente apresentado à tertúlia, ocupando o lugar (estatístico) 918 da nossa tertúlia.

Falando de trabalho, nós, os mais antigos, temos uma certa curiosidade em saber pela boca dos que nos precederam e viveram o fim da ocupação em África, no nosso caso na Guiné, como se viveram aqueles tempos. Já temos alguns relatos, mas nunca é demais termos o registo dos diversos sectores onde havia tropa em quadrícula, quer ainda no tempo da guerra efectiva, como foi o caso da 6552/72, quer já na fase de "acalmia" e entrega dos aquartelamentos no pós 25 de Abril.

Aqui fica o desafio para partilhares connosco as tuas vivências, caso tenhas tempo e paciência para rebuscar papéis, gavetas da memória e "fotos falantes", como dizia o nosso saudoso Torcato Mendonça.

Em nome da tertúlia, dos editores e colaboradores permanentes deste blogue, aqui fica um abraço de boas-vindas e a nossa disponibilidade para o que entenderes podermos ser úteis.

Carlos Vinhal

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Nota do editor

Último post da série de 3 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28317: Tabanca Grande (585): Rui Osório Oliveira, natural do Porto, a viver em Aveiro, senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 918... Foi fur mil trms, CART 2742 / BART 2920 (Fajonquito, 1970/72)

Guiné 61/74 - P28416: Prémio Governador da Guiné e outros prémios (2): Em treze anos, de 1962 a 1974, viajaram à borla na TAP cerca de 1500 soldados e civis, "felizes contemplados" (na prática, e em média, "um herói... por batalhão")





Cópia do ofício do presidente do CA da TAP, o engº Amílcar José de Gouveia Marques (1917-1982, que foi ministro dos Transportes e Comunicações, no III Governo  Constitucional) com data de 30dez1974,  e dirigido ao Ministro da Defesa Nacional,  a anunciar  o fim  dos Prémios instituídos pela empresa para "recompensar os militares e civis que se tivessem distinguido na luta em África" (sic): 

  • Prémio Governador-Geral de Angola (1962), 
  • Prémio Governador da  Guiné (1965),
  • Prémio Governador de Moçambique (1966), 
  • Prémio Governador de S. Tomé e Príncipe (1966),
  • e ainda Prémio 'Heróis de Portugal' (1972) (este para os condecorados, no 10 de Junho, com a Torre e Espada).
"Em face da atual situação política em relação às nossas colónias foi decidido, em Conselho de Administração, acabar com estes Prémios" (sic), lê-se no ofício supracitado.

Documento disponibilizado leo nosso camarada paraquedista Pedro Castanheira no Portal Portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, e qui reproduzido parcialmenet, com a devida vénia.














Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné > s/ d > Regulamento para  Concessão do Prémio Governador da Guiné > Cópia do ADN - Arquivo de Defesa Nacional > Disponibilzada pelo Pedro Castanheira no Portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultrama Tem capa e 2 folhas, numeradas de 1 a 2, com 11 pontos. Não sabemos se está completo. Não tem data nem outras especificações, 

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



1. Diz o "Senhor TAP" da Tabanca Grande, o Alberto Branquinho (trabalhou muitos anos no departamento jurídico da nossa transportadora aérea), em comentário ao poste P28412 (*):


Gen Arnaldo Schulz
(1910-1993) 

(...) "Quanto ao Prémio Governador Geral não sei se foi criado pela TAP ou se foi ideia de algum Ministério, que a TAP acompanhou" (*).

Alberto, não temos cópia do documento que criou o Prémio Governador-Geral de Angola, em 1962. Temos apenas o regulamento da concessão do Prémio Governador da Guiné, criado posteriormente, em 1965, ao tempo do governador e comandante-chefe gen Arnaldo Schulz  (foto à esquerda).

Pelo documento que acima reproduzimos, o prémiuo era sobretudo uma "borla" na TAP (uma viagem de ida e volta de  Bissau à Metrópole ou Ilhas Adjacentes da Madeira e dos Açores, como então se dizia). 

A tropa encarregava-se do transporte , alojamemto e alimentação durante o trânsito em Bissau do "feliz contemplado"... Uma vez na metrópole, tinha direito a viajar da borla na CP, de Lisboa até à "terra da sua natalidade" (sic) (lapso: naturalidade). 

Era um prémio,  sobretudo para praças que habitualmente não podiam ir  à "terra" para gozo da licença de férias. dado o preço, exorbitante, dos bilhetes cobrados pela TAP, mais de 6 contos (6430$00, ida e volta,em 1971, equivalente hoje a mais de 2 mil euros).

 Em todo o caso, um prémio modesto para quem arriscava o pêlo pela "Pátria"... Não havia subsidio de férias na época. Todas as despesas extras eram suportadas pelo premiado... Com o pré  de uma praça, na época, não se podia ir longe da aldeia ou viloria  da "natalidade"... A mobilidade era reduzida,a rede de transportes públicos rudimentar... Em suma, foi sobretudo um bom negócio para TAP...

O regulamento não foi elaborado, naturalmente, pela TAP ( ou o seu departamente jurídico),  mas por alguém do QG/CTIG.

Os critérios para a concessão do Prémio Goovernador da Guiné eram apertados. Por ordem decrescente de importância, eram os seguintes:  (i) ter cruz de guerra ou medalha de valor militar com palma; (ii)  ter outras medalhas por "serviços distintos ou relevantes no Ultramar por feitos em campanha"; (iii) ter sido "ferido gravemente em combate com ação relevante", etc,

Por outro lado, não nos parece que, além da viagem, o premiado recebesse "patacão" (a não ser talvez algum "dinheiro de bolso", no caso dos "naturais da Província", contrariamente  à interpretação abusiva da IA (*).

Como já aqui comentámos (*), uma coisa era o espírito e a letra o regulamento da concessão do Prémio Governador da Guiné, e outra a sua aplicação prática, ..Diz logo no ponto 1 que tem por finalidade galardosar: (i) " cabos e marinheiros, soldados e grumetes, seus equiparados das forças militares e militarizadas": e ainda (ii) "civis". num caso e noutro,  "que se tenham distinguido por actos de heroísmo ou abnegação na luta contra o terrorismo"...

Ou seja: o prémio era visto sobretudo como uma oportunidade para as "praças" (e não propriamemte os sargentos e oficiais subalternos, milicianos ou do QP) de gozarem um mês de licença na metrópole (continente e ilhas adjacentes). De resto, dera condição necessária, para beneficiar da concessão do prémio, "não ter gozado licença disciplinar no ano em causa" (sic)...

E, no caso dos "naturais da Província", como o João Bacar Jaló (*), era uma oportunidade de conhecer a "mãe-pátria"... (Não sabemos quantos guineenses  beneficiaram do Prémio, de 1965 a 1974; mas deviam vir, de preferência, por razões climáticas, entre abril e outubro.)

Pelos vistos, o entendimento da "tropa" (leia-se: do QG/CTIG em Bissau) terá sido outro, e diferente do regulamento; e os sargentos e oficiais também passaram a ser "elegíveis", conforme   vídeos que selecionámos,  da RTP Arquivos (*).

Não temos a estatística dos "felizes contemplados" por ano, teatro de operações e posto, pelo que temos de ser prudentes em relação a conclusões e generalizações.

Ficamos a saber, isso sim,  que desta iniciativa da TAP beneficiaram cerca de 1500 soldados e civis, o que  em 13 anos, desde 1962 até 1974, dá uma média de 115 beneficiários, "grosso modo", por ano, 2,2 por semana.

 Estamos a falar de 0,1875 % do total de tropas  mobilizados para os 3 teatros de operações (c. 800 mil, entre metropolitanos e africanos) (e não contando com os civis, que foram contemplados, já que se desconhece o seu número). Em termos mais simples, são menos de 2 em cada mil. Em termos práticos, e bem humorados, tivemos um herói... por batalhão (!).

Importa salientar que o prémio era também, uma forma de,  mostrando à Nação os nossos "bravos": 

(i) apresentar a "guerra do ultramar" aos militares e à populaçáo civil, metropolitana e guineeense; 

(ii) ,banalizá-la" (mesmo à distância de casa,  de 4 mil, 8 mil, 12 mil quilómetros, fazia desde 1961 parte da rotina e do "fado" dos portugueses);  

e  (iii) " legitimá-la" institucionalmente.   

Na sua visita à metrópole. os premiados tinham direito ao "minuto de fama" no telejornal da RTP, a par  das obrigações protocolares (serem recebidos l, em Lisboa, nos gabinetes dos Ministros do Ultramar, da Marinha, do Exército...). A  partida e no regresso tinham que ir também ao " beija-mão" no palácio do Governador...
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Guiné 61/74 - P28415: In memoriam (592): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VII: Recordações amargas de Gadamael (4)



Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > Fim da Op Dinossauro Preto (2jun73 - 17jul73 > "No rio à espera dos Zebros/sintex para embarcar na LDG Bombarda, rumo a Bissau. Andei a ver as ostras no tarrafo mas eram muito pequenas".
 


Foto nº 2 > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > "Foi neste Patrulha, a LFG "Orion" e noutro  igual, a LFG “Hidra” que me mataram a fome em Cacine, em  junho/julho de 1973" (António Dâmaso).

Foto: A "Oríon" a navegar no rio Cacheu, em janeiro de 1967.  Cortesia de Manuel Lema Santps (1942-2025)
 
 




Foto nº 3B, 3A. 3

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > "Aspeto do aquartelamento à chegada da CCP 122, a 2jun73. Os bombardeamentis seguintes  iriam destruir muito do que aqui ainda se vè de pé (José Moura Calheiros - "A Última Missão". Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pág. 526)
A foto original, a preto e branco, foi restaurada e colorizada com recurso a uma ferramenta de IA (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT Open AI).



Foto nº 4A, 4

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > Junho de 1973 > "Transporte de urnas para o cais, para serem enviadas para Cacine. Nos primeiros dias do assédio a Gadamael, os paraquedistas  usaram capacetes" (José Moura Calheiros - "A Última Missão". Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pág. 528)

A foto original, a preto e branco, foi restaurada e colorizada com recurso a uma ferramenta de IA (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT Open AI).


1. Em 12 de junho de 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do seu 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus homens no Cufeu, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). 

Juntava-se assim às CCP 122 e CCP 123, chegadas a 2 e 5 de junho, respetivamente.  As CCP 121 e 122 regressarão a Bissau a 7 de julho, e a CCP 123 a 17, dez dias depois. Terminava a Op Dinossauro Preto com uma brilhante vitória do BCP 12 sobre o PAIGC ( que deixou de poder ter postos de observação avançados para regulação da artilharia, e teve abandonar as suas  bases de fogos junto á  fronteira).

Quebrado o assédio e a ofensiva IN, os páras podiam regressar a casa...Ficou ainda o cap pqdt João Costa  Cordeiro  (1952-1974) que se voluntariou, com a sua CCP 123, para continuar a dar instrução aos recém-chegados da 3ª C/BCAÇ 4612,   CCAV 8452 e CART 6252  (informação dada pelo nosso camarada João Seabra).

Citando José Moura Calheiros (op. cit. 2010, pág. 541) a "batalha de Gadamael" saltou-se em:

  • 16 mortos e 41 feridos nas tropas da guarnição; 
  • o BCP sofreu 2 mortos (intérpretes) e 35 feridos,  sendo vários graves; 
  • "ao todo,  18 mortos e 76 feridos" (dos quais "cerca um terço graves, alguns dos quais terão mesmo vindo posteriormente a falecer ou ficado estropiados").

O nosso Dàmaso escreveu , na primeira pessoa, como viveu e sobreviveu à batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo debilitado.

 Este texto, que se segue (o último dedicado a Gadamae), foi inicialmente publicado no  Blogue dos  Especialistas da Base Aérea 12. Guiné 65/74 > segunda-feira, 16 de maio de 2011 > Voo 2333: Gadamael Porto (4).

 
O adeus a Gadamael... e ao BCP 12

por António Dâmaso (1940-2026)


Durante o tempo que estive em Cacine, valeram-me os meus amigos dos Patrulhas Orion e Hidra porque a comidinha a bordo era muito melhor, contribuindo para a minha recuperação. 

Passei tanto tempo nos patrulhas que o meu camarada Jota passou gozar comigo chamando-me "Tóino da maruja".

Sentia-me melhor mas não completamente restabelecido. Quando cheguei a Gadamael,  ainda fui fazer a última saída com a Companhia, tratou-se de um patrulhamento com pernoita no mato. 

Pela manhã quando regressámos, a um quilómetro do quartel, fomos corridos à morteirada até chegar ao aquartelamento. 

É  evidente que fiquei logo em último lugar, o meu camarada Jota sempre a chamar à atenção dos homens para não me deixarem ficar para trás mas eu dizia-lhes para continuarem,  para não perderem o contacto. 

Quando se ouvia vir uma granada a zunir pelo ar, eles atiravam-se ao chão e eu continuava a correr como podia,  tentando não me deixar atrasar. Era uma espécie de ”corrida entre a lebre e o sapo-concho".

Cheguei atrasado mas com ligação à vista. Nas entradas e saídas do aquartelamento eramos quase sempre bombardeados, isto quando não estavam à nossa espera com emboscadas montadas.

No dia que saí de Gadamael tinha no meu chapéu camuflado as insígnias de Mecânico e Cavalaria, do Exército em miniatura, a minha Unidade de Origem era Lanceiros 1. À falta das lanças, as espadas serviam e era como que uma antecipação, pois tinha pensado que,  depois de ter desafiado o Comandante do  BCP 12  com um requerimento a pedir uma junta médica, talvez me brindassem com uma guia de marcha para o Exército. Não estava de todo enganado porque quando cheguei a Bissalanca tive a resposta.

Saímos de Gadamael pelo local por onde tínhamos entrado, havia duas diferenças: (i) a maré mais baixa; e (ii) uma acalmia verificada pela ausência de bombardeamentos, o que nos dava muita satisfação.

Relatório médico a que tive acesso uns anos mais tarde, que transcrevo parcialmente.

“Relatório Médico da Situação das Tropas Estacionadas em Gadamael Porto 

(...) Situação Sanitári  das Tropas Paraquedistas Estacionadas em Gadamael, Elaborada a Pedido do Comando Daquele Aquartelamento

(... / ...) 

Os restantes elementos operacionais referem entre sintomatologia objectiva e subjectiva:

a) Sensações de vertigem, lipotimias, cansaço fácil e sobrecarga psicofísica em número anormalmente elevado na ordem dos mais ou menos 70%.

b) Estilhaços ligeiros que receberam tratamento: 4.

c) Alterações do comportamento: 3; sendo uma tentativa de suicídio e dois delírios agudos que foram evacuados para o Hospital Militar de Bissau.

Face dos dados observados, solicita-se análise da condição física e psicológica do pessoal aquartelado.

Guiné, 10 de Junho de 1973”


Tem a assinatura do médico e por baixo o nome escrito à máquina.

Tenho a certeza que,  se este relatório tivesse sido feito depois do dia 20 de junho, depois do médico ter analisado o pessoal da CCP 121, tendo em conta o que tinham penado em Guidage, e ter assistido os feridos da CCP 122, os números do relatório seriam mais elevados.

Aquela fase da guerra foi terrível. Recentemente, falando com um ex-paraquedista que naquela data estava em Angola, este disse-me que a sua Companhia esteve pronta e equipada de armas e bagagens para rumar à Guiné em reforço, mas depois não o chegou a fazer.

Saudações Aeronáuticas

A. Dâmaso

(Seleção, revisão /vfixação de texto,  negritos, título: LG)
 
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6  de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28407: In memoriam (591): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VI: Recordações amargas de Gadamael (3)

Vd. postes anteriores:

5 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28403: In memoriam (590): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte V: Recordações amargas de Gadamael (2)

1 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28393: In memoriam (589): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte IV: Recordações amargas de Gadamael (1)

Guiné 61/74 - P28414: Parabéns a você (2532): Luís Mourato Oliveira, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 4740 (Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de 4 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28400: Parabéns a você (2531): Artur António da Conceição, ex-Soldado TRMS Inf / Condutor Auto da CART 730 / BART 733 (Bissorã, Jumbembem e Farim, 1964/66)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28413: Historiografia da presença portuguesa em África (547): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (15): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Era esperável, nesta fase da narrativa, que o capitão Brosselard nos desse mais detalhes sobre o que apreendeu da economia do Geba e nos desse um quadro mais aprofundado de Bissau. O que aconteceu é que nos veio contar as peripécias da viagem do seu colaborador pelo rio Corubal, onde foram apanhados pelo macaréu, acha que este rio, ao entrar no estuário do Geba, devia continuar a chamar-se rio Corubal, e, abruptamente, a narrativa já está em Ziguinchor, fala de Carabane com bastante pormenor e vai depois visitar a ponta Zozor. Iremos ver adiante quais foram as razões políticas e económicas que levaram a França a teimar em ficar com o controlo de Ziguinchor,mesmo sabendo da presença portuguesa ali há séculos.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 15
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, o Capitão Brosselard descreve Bissau e as potencialidades económicas do rio Geba e dá-nos a saber que o senhor Galibert deixou o Kandiafara, viaja com uma lancha desmontável, enviou por via terrestre o seu intérprete e dois volumes de carga, impossíveis de transportar numa embarcação tão frágil, a lancha comporta um piloto, cinco homens e uma bagagem de 200Kg.

Damos novamente a palavra ao oficial francês. Na primeira parte da sua exploração, o senhor Galibert caiu num rápido do rio e correu grande perigo, vencido este foi surpreendido pelo macaréu que varria a foz do Corubal. Graças a um bloco de pedra no qual se puderam refugiar, os exploradores do Corubal escaparam a uma morte certa. Mas as águas não paravam de subir: foi um salve-se quem puder geral; os homens agarraram-se atrás do barco, que flutuava e ameaçava ser arrastado descontroladamente, abandonando no meio das ondas os cinco náufragos. Privados de víveres e de água doce há mais de um dia, os viajantes chegaram a Gã-Matjetja onde vive um rendeiro da Casa Blanchard que tem neste lugar uma casa telhada.

Mal chegados, acorreram de todas as direções ao mesmo tempo crianças, mulheres e velhos. Queriam ver a embarcação, olharam para ela como se fosse um ídolo, sem ousar aproximar-se. Quando se desmontou o barco e cada um dos viajantes guardou as partes desmontadas na roupa, as pessoas do lugar recusaram acreditar no que os outros diziam ter visto. Foi preciso prometer que se iria remontar o Breton para os deixarem sossegados. O batuque ressoava pelos arredores. Acorria gente das povoações Biafadas onde a notícia se espalhara.

No dia seguinte o senhor Galibert entrou no estuário do Geba onde se espraia o Corubal com uma largura de 1500 a 2000 metros. É, portanto, este rio que continua pelo estuário falsamente denominado de Geba (?). Em Bissau, o nosso companheiro organizou a coluna de abastecimento, de acordo com as instruções que recebera, e dispôs-se a cumprir a segunda parte da sua missão.

A 13 de março, ele embarcou acompanhado de todos os franceses bem como das autoridades portuguesas no veleiro Jean-Baptiste. Este afilado veleiro, célebre pelas viagens do senhor Olivier, Visconde de Sonderval, tinha nos seus porões os abastecimentos das comissões que o senhor Galibert devia fazer chegar à povoação de Geba.

Ele pensava ter de percorrer um rio imensamente largo, como vem indicado nas cartas geográficas. Não encontrou no princípio mais do que um leito de 300 metros, bordejado de lamas cobertas por arvoredo próprio do tarrafe, depois curvas e mais curvas, de modo que o Jean-Baptiste, veleiro de 30 toneladas, não podia navegar a não ser rebocado por uma canoa.

Em Fá, o senhor Galibert, ao tomar conhecimento que o barco tinha mais duas marés até chegar a Geba, partiu a pé com um guia da região.

Comentário meu: a narrativa dá surpreendentemente um salto, o Capitão Brosselard vai de imediato falar de Ziguinchor.

Uma curta navegação conduziu a comissão francesa à foz do Casamansa. Percorrendo um território de aluviões, este rio tem larguras bastante diferentes: até à altura de Selho, elas variam de uma a três milhas. As margens, até a uma curta distância da foz, são constituídas por uma série de ilhas sulcadas por bolanhas; elas diminuem à medida que sobe o rio, estão rodeadas de enormes mangueiras e de banhos de lama muito extensos; são muitas vezes cultivadas com arrozais. Ao longe, despontam florestas impenetráveis.

Todos os navios que entram no Casamansa param em Carabane, onde está instalada a alfândega. Estando o barco ancorado, o aspeto é bastante pitoresco: à esquerda, um belo estabelecimento pertencente à Casa Marcel e Prom, e um cais que permite a acostagem de pequenas embarcações; alguns belos poilões bordejam esta parte do rio; temos depois a escola do padre missionário e, contígua, a capela em madeira.

Na proximidade destes edifícios, há habitações contruídas à europeia representando os estabelecimentos das Casas Blanchard, Irmãos Maurel e Cª; as casas dos indígenas perfilam-se atrás; alguns conjuntos de palmeiras dominam todo este ambiente e, mais adiante, perto da direita, o posto de Carabane destaca-se pela brancura luminosa das suas paredes.

Uma alameda plantada de poilões e palmeiras bordeja o caminho que vai do posto à margem do rio. A natureza dos fundos obriga a que os navios fiquem ao largo para fazer as operações de carga e descarga em Carabane; e o estado do mar, raramente calmo, torna muitas vezes difícil o transbordo das embarcações para terra.

Na ponta Zozor, cuja beleza é admirável, os pescadores instalaram o seu aldeamento à sombra de uma maravilhosa floresta de palmeiras. Do rio vê-se um tipo de casa quadrangular contruída em madeira sobre estacas, estas têm cerca de dois metros de altura. Tendo sabido que esta habitação pertence à patroa e proprietária do lugar, chamada pomposamente pela gente da terra a rainha do Zozor, desci a terra para a cumprimentar. Acompanhado do Tenente Clerc, fui bater à porta da casa senhorial. Foi necessário subir por uma escada sobre a plataforma que dá acesso à habitação. Uma negra fez-nos entrar na casa. A princesa de Zozor é uma mulata possante, casada, ao que parece, com um funcionário de quem vive separada. As linhas do seu rosto mantêm-se bonitas, apesar de bem fornecidas de carnes.

Mandou-nos sentar nuns miseráveis escabelos e sentou-se num sofá que estava em cima de um pequeno estrado. É evidentemente ali que esta representante do regime feudal faz justiça.

Após cumprimentos, despedimo-nos desta Alteza e fomos explorar a região vizinha do domínio de Zozor.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Porto de Ziguinchor
Imagens e bilhetes postais antigos de Ziguinchor, retirados do Google França
O Casamansa no contexto da República do Senegal

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 30 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28391: Historiografia da presença portuguesa em África (546): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (14): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28412: Prémio Governador da Guiné e outros prémios (1): uma criação "patriótica" da TAP que tinha o monopólio das "linhas de África"



Lisboa > 1970 > O cap graduado 'comando', cmdt da 1ª CCmds Africanos João Bacar Jaló com o nosso veteraníssimo João Sacôto (ex-alf mil, CCAÇ 617/BCAÇ 619, Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66), hoje comandante da TAP reformado, membro da nossa Tabanca Grande desde 20/12/2011.

O João Bacar Jaló veio a Lisboa, nessa altura, no 10 de Junho, receber a Torre e Espada. Em 1965 tinha ganho o Prémio Governador da Guiné, Era então alferes de 2ª linha, comandante de millícias. Nasceu em Cacine, em 1929, e morreu em 1971, em combate, no sector de Tite (*)

Foto (e legenda): © João Sacôto (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] + IA (ChatGPT / Opena Ai) 





Cópia do ofício do presidente do CA da TAP,     Amílcar José de Gouveia Marques  con data de 30dez1974, a anunciar  o fim  dos Prémips instituídos pela empresa para "recompensar os miliatres e civis que se tivessem distingudio na luta em África" (sic): Prémio Govrenador-Geral de Angola (1962), Prémio Governador da  Guiné (1965) e Prémio Governador de Moçambique (1966), Prémio Governador de S. Tomé e Príncipe (1966) e ainda Prémio 'Heróis de Portugal' (1972) (este para os condecorados, no 10 de Junho, com a Torre e Espada).

Documentro disponibilizado leo nosso camarada paraquedista Pedro Castanheira no Portal Portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, e qui reproduzido parcialmenet, com a devida vénia.



1. O Prémio Governador da Guiné (e os seu congéneres, o Prémio Governador-Geral de Angola e  Prémio Governador-Geral de Moçambique) foi criado no contexto da Guerra Colonial/ Guerra do Ultramar (1961–1974),  por iniciativa da TAP  (Transportes Aéreos Portugueses).

Tratou-se de uma iniciativa de promoção de "imagem corporativa e institucionalo" (como diriamos hoje) mas também de "apoio  patriótico" ao esforço de guerra em África A nossa companhia aérea nacional (na qual continuamos a gostar de viajar) quis, explicitamente,  apoiar moralmente e premiar materialmente as Forças Armadas e os agentes civis envolvidos nas operações militares e de segurança no Ultramar.

A TAP, portanto, aparecia como empresa comercial, mas estava profundamente ligada às estruturas e aos interesses do Estado português no Ultramar.  Claro que náo podemos julgar ninguém (e muito menos os nossos camaradas que foram distinguidos com este prémio). De acordo com  o espíerito e letra do nosso "livro de estilo",  não podemos nem devemos  julgar os nossos antigos combatentes com os valores,  e a informação e o conhecimento  que temos hoje.  Mas também não podemos aceitar acriticamente a linguagem oficial com que eles foram apresentados ao longo do tempo (de 1961 a 1974). 

A nossa postura é sempre:  (i) compreender sem absolver; (ii) criticar sem diabolizar;  (iii) contextualizar sem apagar a experiência humana de cada um de nós.

 Dito isto, não podemos  esquecer a posição da TAP no xadrez dos interesses então em jogo.


A TAP como "stakeholder" do império ultramarino 

Claro que também aqui não há "almoços grátis". O patriotismo (ou o sentido de responsabilidade social e nacional)  da TAP era uma moeda com cara e coroa, verso e reverso... 

Fundada em 1945 como um serviço do Estado, foi transformada em sociedade anónima (SARL) em 1953 (através do Decreto-Lei n.º 39 188), num modelo em que o Estado lhe concedia a exploração, mas permitia a participação de capitais e acionistas privados.

Embora fosse a companhia aérea de bandeira e cumprisse objetivos estratégicos do Estado (Novo) (com destaque para a forte ligação e "monopólio" das chamadas "linhas de África" e territórios ultramarinos), tinha o estatuto de empresa comercial privada (SARL).

 Este regime manteve-se até ao período pós-25 de Abril, quando a empresa passou por um processo de intervenção e foi formalmente nacionalizada em 1975  (através do Decreto-Lei n.º 469-A/75), deixando de ser uma SARL para passar a integrar o setor público empresarial.


Origem e criação do Prémio:

Foi instituído em 1965 (o Prémio Governador da Guiné) pelo Conselho de Administração da TAP (e extinto em 30dez1974). Em 1962 tinha já sido criado o Prémio Governador-Geral de Angola (eem 1966, o de Moçambique).

O propósito era valorizar publicamente ações de combate e atos de bravura militar ou civil contra os "movimentos de libertação" (designados pelo regime do Estado Novo como "terroristas"). 

A TAP associou-se assim à doutrina do esforço de guerra nacional, atribuindo aos prémios o nome das mais altas autoridades das províncias ultramarinas (o Governador da Guiné, os Governadores Gerais de Angola e Moçambique).  

A periodicidade era anual. Era atribuído anualmente a elementos destacados nos 3 Teatros de Operações (Guiné, Angola e, mais tarde, Moçambique).

 Critérios de seleção dos candidatos

Os critérios para a atribuição do prémio  assentavam essencialmente em três eixos:

(i) Atos de bravura e feitos de armas: concessão a militares das Forças Armadas (Exército, Força Aérea e Armada) ou elementos das forças de segurança que tivessem tido um desempenho excecional em combate no teatro de operações da Guiné;

(ii) Mérito e heroísmo extraordinário: frequentemente associado a militares já propostos ou condecorados com ordens de bravura como a Cruz de Guerra ou a Ordem da Torre e Espada;

(iii) Serviços relevantes: incluía civis ou forças militarizadas (como a PIDE/DGS, PSP, Milícias ou Companhias de Caçadores Especiais) que tivessem prestado serviços considerados assinaláveis na defesa do território.

As propostas dos candidatos eram enviadas ao Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné, que as submetia ao Governador e à administração da TAP para homologação.

Beneficiários e recompensas


(i) Além do reconhecimento público e do diploma, o prémio incluía a oferta de uma viagem aérea de ida e volta  à Metrópole (ou Ilhas Adjacentes,  da Madeira e dos Açores);

(ii) Perfil dos galardoados: oficiais, sargentos e praças de diversas especialidades, armas e ramos  (desde fuzileiros e paraquedistas a comandos e tropas de linha), bem como civis em funções de segurança e apoio às populações sob ataque do PAIGC;

(iii) Não era uma condecoração, mas uma distinção  honorífica:  João Bacar Jaló, por exemplo, recebeu-o em 1965, como alferes de 2ª linha; voltou a Lisboa para receber a Torre e Espada, no 10 de junho de 1970, já como capitão graduado 'comando'.

Não conseguimos apurar quantos foram os beneficiários do Prémio por ano e por teatro de operações. Mas o seu número deve ter sido restrito, a avaliar pela pequena amostra que recolhemos dos vídeos da RTP Arquivos. 

Em 67 registos da nossa pesquisa pelo descritor "Prémio Governador", obtivemos 7 válidos, ou seja, vídeos referentes a galardoados com o Prémio Governador da Guiné ou Prémio Governador-Geral, de Angola ou Moçambique:

  • 11 em 1965; 
  • 6 em 1966;
  • 14 em 1968; 
  • e  2 em 1969;
  • Média dos 4 anos=8,25. 
Trata-se de uma mera amostra de conveniência. Há outros registos que ficam de fora (1963, 1967...). E nem todos os premiado seriam recebidos por representantes do Governo (Ministro do Ultramar, do Exército, da Marinha, etc.) com direito a "honras de telejornal".


Extinção em 1974

Com a revolução de 25 de Abril de 1974 e o subsequente processo de descolonização, a TAP extinguiu o  Prémio em finais de 1974: a orientação política e institucional mudou radicalmente com a cessação das hostilidades e o reconhecimento, por Portugal, da declaração de independência da Guiné-Bissau.

De acordo com a cópia do ofício, de 30/12/1974, que acima reproduzimos, o Conselho de Administração da TAP extinguiu formalmente os Prémios Governador da Guiné e Governador-Geral de Angola/Moçambique (mais o Prémio Governador de Sáo Tomé e o Prémio 'Heróis de Portugal')  apagando do seu regulamento orgânico os prémios associados ao esforço de guerra no Ultramar.

Pesquisa: LG + Blogue  + Portal UTW + IA (Gemini / Google AI)

Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)


Fontes: 


Tem um dossiê completo, com elementos coligidos pelo  paraquedista Pedro Castanheira, sobre os os regulamentos destes e doutros prémios como o Prémio Governador de São Tomé e Príncipe, Prémio Heróis de Portugal, Prémio Almirante Américo Thomaz,  Prémio Movimento Nacional Feminino,  Prémio Jornal Província de Angola.

Vídeos > RTP Arquivos >


Lisboa, Ministério do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha, Ministro do Ultramar, entrega uma espada ao Alferes João Bacar Jaló, distinguido com o Prémio Governador da Guiné. (Vídeo, 0' 55'', a preto e branco, sem som.)

Luz Cunha recebe militares condecorados > 1965-06-29 00:01:22

Ministro do Exército Joaquim Luz Cunha recebe militares distinguidos com os Prémios Governador-Geral de Angola e Guiné-Bissau, por atos praticados nas campanhas em curso naquelas províncias ultramarinas.  (Num total de 6 premiados, 3 são alferes, e 1 cabo. LG)
(Vídeo, 1': 22'', a preto e branco, sem som)

Silva Cunha recebe galardoados do Ultramar > 1965-07-30 00:00:52

Lisboa, Ministério do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha, ministro do Ultramar, recebe galardoados com prémios por atos de bravura contra o terrorismo nas províncias ultramarinas, que visitam a metrópole a convite da TAP. Silva Cunha conversa e cumprimenta José Olímpio, cabo de sanzala, galardoado com o prémio "Governador Geral de Angola", José Avelino de Sousa, administrador do Posto de Encheia, e Leonel Baldé, monitor escolar em Aldeia Formoso, galardoados com o prémio "Governador da Guiné". (Vídeo, 1' 23'', a preto e branco, sem som.) (Num total de seis, 1 é 2º srgt, 1 é 1º cabo..., há um angolano. LG)

Soldados galardoados com o “Prémio Governador Geral de Angola” > 1966-06-15 00:01:23

Lisboa, Joaquim da Luz Cunha, Ministro do Exército, e João António Pinheiro, subsecretário de Estado do Exército, recebem grupo de soldados portugueses galardoados com o "Prémio Governador Geral de Angola", por se terem distinguido no combate contra grupo de terroristas no Ultramar. (Vídeo, 1' 23'', a preto e branco, sem som.) (Num total de seis, 1 é 2º srgt, 1 é 1º cabo..., há um angolano. LG)


Lisboa, Fernando Quintanilha Mendonça Dias, Ministro da Marinha, recebe (3) fuzileiros galardoados com o prémio "Governador Geral de Moçambique" por bravura em combate.Quintanilha Mendonça Dias conversa e entrega prémios aos fuzileiros Raul Brandão, Segundo-Tenente, António Pais, Cabo Fuzileiro Especial, e Mário Guerreiro, Marinheiro. (Vídeo, 0' 52'', a preto e branco, sem som.)

Joaquim da Luz Cunha recebe militares 1968-05-30 00:00:49

Coronel Joaquim da Luz Cunha, ministro do Exército, recebe militares galardoados com o prémio "Governador Geral" por bravura em combate. João António Pinheiro, subsecretário de Estado do Exército, recebe os militares à entrada do gabinete e Joaquim da Luz Cunha conversa com os galardoados. (Vídeo, 0' 49'', a preto e bramco, sem som.) (Não se sabe se são oriundos do TO de Angola ou de Moçambique; são 11 os galardoados, 4 pelo menos são furrieis, não há nenhum africano; parecem ser todos do Exército. LG)

Manuel Pereira Crespo recebe fuzileiros 1969-08-06 00:01:13

Ministério da Marinha, Almirante Manuel Pereira Crespo, ministro da Marinha, recebe Mateus Delgado e Manuel Rosa Navalha, fuzileiros especiais distinguidos com o Prémio Governador da Guiné devido aos serviços que prestaram no território ultramarino português.Almirante Manuel Pereira Crespo cumprimenta, conversa com Mateus Delgado e Manuel Rosa Navalha e oferece-lhes prenda.  (Vídeo, 1' 13'', a preto e bramco, sem som.)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:


(*) Vd. poset de 20 de março de 2019 > Guiné 61/74 - P19604: Álbum fotográfico de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como, Cachil, 1964/66) e cmdt da TAP, reformado - Parte VI: Em Príame, a tabanca do João Bacar Jaló (1929 - 1971)

Guiné 63/74 - P28411: In Memoriam (592): Joaquim Ganhão, natural de Moura (1942-2026), ex-1º cabo at cav, CCAV 489 / BCAV 490, cruz de guerra de 3ª classe (1965)



Joaquim José Moita Ganhão, natural de Moura  (1942-2026), ex-1º cabo at cav, CCAV 489 / BCAV 490, cruz de guerra de 3ª classe (1965). Faleceu na sua terra natal, em 23/1/2026, aos 83 anos. 


Crachá do CAV 489 / BCAV 490 (restaurado digitalmente com recurso á  IA | Gemini Google AI)



1. Ao procurar o seu nome na Net, tive a triste supresa de ficar  a saber que já havia falecido, ainda recentemente, em 23 de  janeiro passado, aos 83 anos, em Moura, sua terra natal (*). (Fonte: Página do Facebook QuemMorreuMoura, 23/1/2026, 16:53)

Não o conhecia pessoalmente, nem ele pertencia à Tabanca Grande. No entanto, foi um dos primeiros camaradas da Guiné ser aqui evocado, ainda  na I Série do nosso blogue (**), em poste de 17 de novembro de 2005.  

No ano anterior tinha sido entrevistado pelo "Diário do Alentejo". Infelizmente a publicação, de 23 de abril de 2004, já não está disponível "on line", desde ha muito. Nem eu consegui recuperá-la através do Arquivo.pt (nem do Internet  Archive). O link já foi descontinuado:

Voltamos a publicar a sua pequena / grande história de vida. É também a nossa forma de afirmar que o Joaquim Gamhão não  vai ficar inumado na "vala comum do esquecimento". Pelo menos, deixa aqui, aos seus camaradas, o essencial das suas memórias de guerra. 

 Para a família, vai também  a nossa solidariedade na dor por esta perda.
 


por Alberto Franco

"Diário do Alentejo", de 23 de Abril de 2004 
( Com a devida vénia...)



O alentejano Joaquim Ganhão foi um dos milhares de portugueses que lutaram em África, nos anos da Guerra Colonial. Nas dificuldades e sustos que viveu em terras da Guiné – participou na célebre Operação Tridente, em 1964 – certamente muitos outros ex-militares se reconhecem. Quando passam 30 anos sobre o 25 de Abril, é oportuno recordar a longa guerra, unanimemente considerada uma das principais causas da revolução.

Quando o Niassa zarpou de Lisboa, em 17 de Julho de 1963, não se pode dizer que os rapazes do Batalhão de Cavalaria 490 estivessem inquietos. Afinal, iam para Moçambique, onde a guerra que lavrava noutras colónias portuguesas não tinha ainda chegado. Mas a meio da viagem o programa sofreu alterações. O agravamento da situação militar na Guiné obriga ao reforço do contingente naquele território. O Niassa recebe ordem de rumar a Bissau, e aí desembarcar as tropas que transportava.

 – Foi um balde de água fria para todos nós – recorda Joaquim Moita Ganhão, 61 anos, nado e criado em Moura, um dos muitos alentejanos que integravam o Batalhão Quatro Noventa.

A guerra na Guiné começara há escassos meses, mas o território gozava já de má reputação entre os militares portugueses. À ameaça que a guerrilha do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) representava, combinava-se com uma geografia inóspita e um clima duríssimo, quente e húmido, favorável ao paludismo e a outras doenças tropicais. 

Quem esperava passar dois anos em Moçambique, no sossego de Vila Pery, e se vê inesperadamente atirado para a Guiné, não podia ter outra reacção que não fosse o alarme. Mesmo que se tivesse 20 anos, muito sangue na guelra e se pertencesse a um batalhão cujo lema era Sempre em Frente.

Em casa de Joaquim Ganhão eram nove irmãos, que o curto salário do pai, caiador de profissão, não chegava para sustentar:

– Eu ficava em casa a cuidar dos meus irmãos mais novos, enquanto a minha mãe trabalhava a dias. Essa a razão porque só entrei para a escola com nove anos.

Aos 12, Joaquim perde o pai. Com o amparo reduzido, vê-se forçado a trabalhar antes do tempo. Aprende o ofício de pedreiro, que exerce até aos 20 anos, idade em que é mobilizado para a tropa.

O soldado 328 estaciona três meses em Beja e dali segue para Estremoz, onde o BCAV 490 está a ser formado. No Quatro Noventa, os alentejanos estavam em maioria:

 – Havia gente de Elvas, Estremoz, Messejana, Aljustrel, Salvada. Só os cozinheiros eram do Norte… – assinala Joaquim Ganhão.  – A instrução em Estremoz foi dura. Preparam-nos para combater, segundo os modelos da época.

Vendo os conflitos que deflagravam nos territórios coloniais de outros países europeus, o exército português tinha-se preparado para enfrentar o fenómeno a que uns chamavam guerra subversiva e outros guerra de libertação. Oficiais portugueses estagiaram junto do exército francês na Argélia e especialistas estrangeiros ministraram em Portugal acções de formação. Mas uma coisa era a guerra teórica, outra a guerrilha nos pântanos da Guiné, as bolanhas, nas matas de Angola e Moçambique. Pela sua parte, Joaquim Ganhão fez pela vida e frequentou em Estremoz o curso de cabos:

– Fui o segundo melhor classificado. Quando embarquei para África, em Julho de 1963, já era 1º cabo da minha Companhia, a CCAV 489.


Baptismo de fogo no Oio-Morés

Até àquela data, o pedreiro de Moura não tinha posto os pés num navio, e em matéria de cursos de água só conhecia os mansos rios Ardila e Guadiana. Mesmo assim não se deu mal na jornada a bordo do Niassa:

– Tive a sorte de não enjoar, ao contrário de muitos companheiros.

 Os seis dias de viagem passou-os a dormitar nas baleeiras do Niassa, a espantar as saudades com cartas para a família e em camaradagem com o seu amigo de infância Henrique Pinto, outro militar mourense em trânsito para a Guiné.

Chegados a Bissau em plena estação das chuvas, são alojados no quartel da Amura, um antigo entreposto de escravos. O clima doentio surpreende-os desde logo:

–  Era diferente de tudo o que conhecíamos. Com a humidade, a roupa colava-se-nos ao corpo. Só estávamos bem debaixo do chuveiro. De vez em quando, caíam trovoadas que metiam medo.

Outro motivo de espanto é a pobreza do território. Com poucos ou nenhuns recursos naturais, sem núcleos urbanos desenvolvidos, a Guiné era a peça menos valiosa do império português e, como tal, a mais desprezada por Lisboa. Ganhão sublinha “a miséria das populações, as filas de mulheres e crianças com latas, à espera que lhes dessem alguma comida”.

A guerra aberta na Guiné principiou em 23 de Janeiro de 1963, com o ataque ao quartel de Tite, embora desde 1961 se registassem actos de sabotagem levados a cabo pelo PAIGC de Amílcar Cabral. Bem armada, apoiada por países fronteiriços como a Guiné-Conacri e o Senegal, a guerrilha alastra pelo território guineense como um regueiro de pólvora. A companhia do 1º cabo Joaquim Ganhão recebe o baptismo de fogo no Norte da colónia:

–  Fomos render uma companhia que se encontrava em Mansabá. Aí sofremos uma emboscada nocturna, na zona do Oio-Morés, que por ser muito pantanosa e de acesso difícil era um bom refúgio para os guerrilheiros.

Joaquim Ganhão lembra-se que a noite estava escura e a mata era cerrada:

– Ia à frente da minha companhia, quando senti o encosto de uma arma. O guia deu o alarme, eu comecei a disparar no escuro e a correr pelo capim, como um doido. Quando as coisas acalmaram e a companhia se reorganizou, deparo com um guerrilheiro a apontar-me uma pistola-metralhadora. Tentou atirar, mas, felizmente para mim, a arma estava encravada.

O soldado 328 captura o homem, apreende-lhe a metralhadora e três carregadores de munições:

–  O guerrilheiro chamava-se Albino Sampa. Mais tarde cheguei a ir visitá-lo à cadeia, em Bissau.

O melhor desta aventura acabou por ser o prémio de um mês de licença na Metrópole  [Prémio Governador da Guiné].

– Quando me deram a notícia, ia ficando maluco de alegria. O pior foi que a minha família, quando soube que eu estava em Lisboa, pensou que estava todo partido... Só descansaram quando a minha irmã me foi buscar a Estremoz e viram que estava bem de saúde.



Tridente da morte


Mas a emboscada no Oio-Morés foi uma brincadeira, comparada com o que veio a seguir. O Batalhão de Cavalaria 490, e com ele Joaquim Ganhão, foi um dos participantes na operação Tridente, uma das mais aparatosas ofensivas portuguesas na Guerra Colonial. 

Denominada Tridente porque envolvia a marinha, o exército e a força aérea, a operação visava ocupar as ilhas do Como, Caiar e Catunco, no Sul da Guiné, onde os combatentes do PAIGC dispunham de importantes bases. Ali se movimentava o astuto comandante 'Nino' Vieira, formado nas técnicas da guerrilha pela Academia Militar de Pequim, que teria no Como cerca de 300 homens, incluindo militares da Guiné-Conacri.

Um dos objectivos da missão consistia em conquistar o apoio da população das ilhas, que os guerrilheiros controlavam:

– Em todas as tabancas (aldeias tradicionais) do Como, se viam retratos de Amílcar Cabral  – observa Joaquim Ganhão.

A operação Tridente iniciou-se em 15 de Janeiro de 1964. O 1º cabo Ganhão só soube o que o esperava quando se viu a bordo de uma lancha LDM, dos fuzileiros. Através das bolanhas, ladeadas por uma vegetação densa e asfixiante, o tarrafo, a CCAV 489, comandada pelo capitão Pato Anselmo, avançou até à ilha de Catunco. Ganhão permaneceu ali mais de dois meses, “entrincheirado num buraco, juntamente com dois companheiros, agarrados às G3, com as balas do inimigo a passarem-nos rente”. Quem disparava?

– Nenhum de nós sabia. Os tiros vinham da mata, onde os guerrilheiros estavam bem escondidos . 

Por isso, sair do buraco só em último caso:

– Tínhamos o exemplo de um companheiro que se levantou para beber uma pinga de água e foi atingido por um tiro no queixo.

Quando se iniciou a segunda fase da operação, foi necessário deixar os abrigos e patrulhar as ilhas:

– Saíamos aos ziguezagues, em grupos de três. Depois deitávamo-nos ao chão e saíam outros três. E isto sempre aos tiros. 

Foi numa destas acções que Joaquim Ganhão perdeu o seu amigo Henrique Pinto, o primeiro militar de Moura a tombar na guerra [em 24 de Janeiro de 1964].


– O Henrique, que pertencia à CCAV 487, seguia numa patrulha, formada em leque. Ele, que estava numa das pontas, avançou demais e foi capturado, às três da tarde do dia 24 de Janeiro. [de 1964].

Ganhão e outros tinham ido buscar mantimentos à base logística da operação, instalada numa praia. Aí viu chegar um helicóptero com o cadáver de Henrique, resgatado pelos fuzileiros. O choque foi terrível. Quarenta anos passados, ainda hoje a voz de Ganhão se embarga quando fala do caso:

– Podia ter sido eu. Tive sorte, não calhou.

Os aviões F-86 e T-6 flagelavam as matas do Como com napalm, as granadas explodiam a toda a hora, mas os resultados práticos da operação tardavam em ver-se. A única evidência era o sofrimento dos militares portugueses:

–Bebia-se qualquer água e a alimentação resumia-se a rações de combate – conta o 1º cabo Ganhão –.  Comemos carne fresca uma única vez, quando os fuzileiros abateram algumas vacas. 

Não admira que durante a operação Tridente 193 militares tenham sido retirados do teatro de guerra, por motivo de doença.

Setenta e um dias depois, a missão é considerada finda. As estatísticas apontavam 76 guerrilheiros mortos, 15 feridos e 9  detidos. Do lado português contaram-se 9 mortes e ferimentos em 47 soldados. Foram disparadas 124 mil balas, 1200 granadas de artilharia e 550 granadas de morteiro. 

Os militares aliviaram a tensão consumindo 15 500 garrafas de cerveja e fumando 10 100 maços de tabaco. Números que não maquilham o insucesso da operação. A última palavra pertenceu à guerrilha, que continuou a servir-se do Como, só abandonando a região quando os seus interesses se transferiram para outros locais.




Moura > Placa toponímica > Rua Henrique José Pinto > 10 de Abril de 2010 > Natural da freguesia de Santo Agostinho, o 1º Cabo At Henrique José Pinto, da CCav 487 / BCav 490, morreu em combate, na ilha do Como, em  24 de Janeiro de 1964, no decurso da Op Tridente. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Bissau.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google AI)]


Cruz de Guerra no 10 de Junho [de 1966]


Depois de intervir na Tridente, a CCAV 489 é destacada para o Norte:

 – Fomos para junto da fronteira com o Senegal, com o objectivo de dificultar as entradas e saídas dos guerrilheiros e das forças que os apoiavam.

Joaquim Ganhão andou por Cuntima, Farim, Bula, Bafatá, Mansoa. Porém, antes de pensar em fiscalizar o que quer que fosse, era preciso construir as bases necessárias ao estacionamento de tropas. Na Guiné, como na generalidade das vastas colónias portuguesas, faltavam aquartelamentos, vias de comunicação e demais infra-estruturas.

Por outro lado, no caso específico do Norte da Guiné, tornava-se necessário atrair e organizar a população que tinha cruzado a fronteira do Senegal, fugindo à guerra. Os soldados da 489 ajudavam à reconstrução de tabancas, construíam abrigos, “à mão, sem a ajuda de quaisquer máquinas”, de valas em redor dos quartéis e outras infra-estruturas defensivas, muitas vezes debaixo de fogo. Quando empunhavam a G3, vigiavam a fronteira e montavam as suas emboscadas. A tropa “saía por volta da meia-noite. Então víamo-los passar, a pé, outras vezes de bicicleta”. Nessas alturas, “a fuzilaria era tanta que nem os raios das bicicletas se aproveitavam.”

As normas da altura determinavam que o tempo de serviço militar era de 24 meses. Todavia, muitos militares excediam, contra vontade, este período. Às vezes morriam em África, quando, segundo a lei, já deviam estar em Portugal. Joaquim Ganhão lembra um episódio ocorrido em Bula, com uma companhia de caçadores que já tinha atingido os 27 meses de comissão:

–  Por sermos mais novos, a nossa companhia seguia atrás deles, numa deslocação pelo mato. De repente, caem numa emboscada. Recordo-me que os guerrilheiros tinham cortiços de abelhas em cima de árvores; cortavam as cordas e os cortiços caíam em cima dos soldados. Com este truque e com o tiroteio, morreram dois ou três caçadores. Que já não deviam estar na Guiné, porque já tinham cumprido o seu tempo.

Ganhão teve mais sorte. Regressou a Moura em Setembro de 1965, são e salvo. Um ano depois, já casado, recebeu em Évora, nas cerimónias do 10 de Junho de 1966, a Cruz de Guerra de terceira classe, pelo seu desempenho na Guiné. Quarenta anos depois, Joaquim Ganhão, mestre de construção civil, pai de duas filhas, olha para trás com serenidade:

- É bom que se diga que fui para a Guiné obrigado. Tínhamos que livrar o corpo, para não morrer. Foi o que eu fiz. Estimo muito a Cruz de Guerra, mas lamento que além da medalha ninguém me tenha compensado pelos dois anos de vida que perdi.


Manhas de soldado

Nem sempre o soldado 328 estava disposto a dar o corpo ao manifesto. Um enfermeiro amigo livrou­-o de uma ou outra incursão, atestando que Joaquim Ganhão não se encontrava a cem por cento. “Eram manhas típicas da guerra”, recorda. O truque nem sempre resultava:

– Aconteceu quando tive que substituir um furriel, que tinha cegado com o rebentamento de uma granada. Uma noite em que me chamaram para uma operação, pedi ao Fernando, o enfermeiro, que me desse uma ou duas injecções. Ele assim fez. Passei a estar doente, incapacitado para qualquer missão. Mas o alferes que devia chefiar a missão não engoliu o truque. Chega ao pé de mim e diz-me: ‘Tu está tão doente como eu! Levanta-te da cama, que o pessoal está todo à tua espera’. E lá fui, mesmo com duas injecções.


A Guerra Colonial e o 25 de Abril

O desgaste que a guerra provocou nas forças armadas portuguesas e a ausência de soluções pacíficas para a questão colonial, contam-se entre as principais motivações do 25 de Abril. Treze anos de confrontos exigiram o destacamento de 70 mil homens para Angola, 42 mil para a Guiné e 57 mil para Moçambique.

Segundo a Resenha Histórico-Militar das Campanhas de de África (1961-1974), registou-se um total de 8 290 mortos, nas três frentes de batalha. A este número há a juntar 112 000 feridos, dos quais 30 mil terão sofrido deficiências para toda a vida, e perto de 100 mil vítimas do stresse de guerra.

Este factor conjugou-se com uma série de transformações na instituição militar, ditadas pelo esforço de guerra. A falta de capitães para o comando de companhias levou o Governo a recorrer a oficiais milicianos, para postos normalmente ocupados por militares de carreira. Facilitou-lhes o ingresso na Academia Militar, reduziu a duração dos cursos e criou um “quadro especial de oficiais”. Por um lado, esta situação refrescou as fileiras das forças armadas, mas gerou tensões e conflitos entre milicianos e oficiais oriundos de cadetes da Academia Militar.

A gota de água acabou por ser o famoso Decreto 353/73, de 13 de Julho, que introduziu diversas alterações ao nível da antiguidade na carreira das armas. Os protestos levam o Governo a recuar, publicando um outro diploma que protege os interesses dos oficiais superiores e põe em causa os dos capitães. O avolumar da contestação, a que se junta, naturalmente, a oposição ideológica entre militares e governantes, e as aspirações de liberdade dos primeiros, está na génese do Movimento dos Capitães, que desencadeou o 25 de Abril.

(Seçeção, revisão / fixação de texto, links, negritos: LG)

(Os subtítulos são da responsabilidade do jornalista)

2. Cruz de Guerra de 3º Classe

1.° Cabo de Cavalaria, nº 328/63
JOAQUIM JOSÉ MOITA GANHÃO
CCav 489/BCav 490 - RC 3

GUINÉ

3ª  CLASSE

Transcriçâo da Portaria publicada na O.E. Nº 16 - 3ª série,de 1964.
Por Portaria de 05 de Maio de 1964:

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Cruz de Guerra de 3ª classe, o militar a seguir designado, ao abrigo dos artigos 9´º  e 10º  do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por serviços prestados em acções de combate na Província
da Guiné Portuguesa:

O Primeiro-Cabo, Joaquim José Moita Ganhão, nº 328/63, da Companhia de Cavalaria nº 489 / Batalhão de Cavalaria nº 490 - Regimento de Cavalaria nº 3.

Transcrição do louvor que originou a condecoração.
(Publicado na OS n.o 3, de 07 de Janeiro de 1964, do CTIO):

Louvado, o 1º Cabo nº 328/63, Joaquim Moita Ganhão, da CCav 489, porque,  além das boas qualidades militares do antecedente reveladas no serviço e que fazem com que se distinga como graduado dentro do seu Pelotão, na operação levada a cabo pela Companhia na região de Morés, teve ocasião de demonstrar grande espírito de disciplina e serenidade perante o perigo que, junto da povoação de Cai, culminou na prontidão e sangue frio como encarou de noite, indo à frente, um grupo de onze terroristas fortemente armados, dos quais pôs um fora de combate com a apreensão de uma
pistola-metralhadora e três carregadores cheios de munições que a este pertenciam.

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo VI: Cruz de Guerra (1962-1965). Lisboa, 1991, pág. 332.
 
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