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domingo, 8 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28500: A Nossa Marinha (10): Porto fluvial de Bambadinca (Fotos magníficas do Jaime Machado, ex-alf mil cav, cmdt, Pel Rec Daimler, 1968/70)






Foto nº 1, 1A, 1B, 1C, 1D






Foto nº  2, 2A, 2B,. 2C, 2D, 2E





Foto nº 3, 3A, 3B, 3C


Foto nº 4, 4A

Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) / Pel Rec Daimler 2046 (1968/70). As fotos são do álbum do Jaime Machado, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, maio de 1968 / fevereiro de 1970, ao tempo dos BART 1904 e BCAÇ 2852). Vive na Senhora da Hora, Matosinhos.

Legendas: 

Foto 1 >  Cais acostável: foto anterior a novembro de 1970, quando a velha autogrua Fuchs, de fabrico alemão,  foi substituída por uma autogrua Galion, norte-americana, quatro vezes mais  potente.  

Foto nº 2 >   Bambadinca: porto fluvial... Cais acostável, na margem esquerda (sul) do rio Geba Estreito. Na foto não se vê, mas do lado esquerdo era o Depósito da Intència, aqui instalado desde 1966, e guarnecido por um PINT (Pelotão de Intendència).

Foto nº 3 _ Bambadinca: porto fluvial... Até aqui chegavam os "barcos turras", ou sejam,  com chamávamos com um misto de ternura e de humor ás embarcações  de cabotagem das casas comerciais (Casa Gouveia, Ultramarina, Manuel Barbosa  outras) que traziam e levavam pessoas, produtos agrícolas, animais, etc., mas também material de e para a tropa...(a partir de 1972, muitos deles ao serviço da Companhia Terminal). Na   vêem-se duas embarcações para montante (sentido Bafatá)

Foto nº 4 >  Bambadinca: porto fluvial... Entardecer. O Jaime Machado, de perfil, junto a um batelão. Margem direita.

Fotos (e legendas): © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI)]


Foto nº 5 > 

Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > novembro de 1973 > A autogrua hidráulica Galion 125... Podia levantar cerca de 12,5 toneladas. E deslocava cerca de 14,5 toneladas. Era construida pela  empresa norte-americana Galion Iron Works and Manufacturing Company, fundada em 1907, no Ohio, EUA. (Há um erro da IA:  este modelo da Galion não é da serie B25, mas sim 125,como mostra a foto original, a cores: tentámos melhorar a sua resolução e qualidade...com recurso à IA.)

Levá-la do porto fluvial do Xime para o porto fluvial de Bambadinca (c. 12/15 km), com a malta do BENG 447 que a operava,  foi uma "epopeia": ficámos atolados na bolanha de Samba Silate, perto de Nhabijões, local de cambança da rapaziada do PAIGC,  na noite de 23 para 24 de novembro. não de 1970 (!), mas de 1969 (!). 

Fazia 22 anos (!|)  o Tony Levezinho, cantámos-lhe os parabéns à meia-noite, infringindo todas as regras de segurança... E não faltou a "champanha", refrescada com água e lodo da bolanha! 

Esta história mereccia um filme!, mas para já vai ter direito a uma BD, para ala série "A nossa histórias aos quadradinhos"... É a nossa prenda, antecipada, para o Tony, régulo da Tabanca de Martinhal - Ponta de Sagres, que no próximo dia 24 vai celebrar o seu 79º aniversário!
 
Foto (e legenda): © Jorge Araújo (2014). Todos os direitos reservados.  [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI)]



Foto nº 6 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > Pel Rec Daimler 2046, "Os 14 Furões" (Bambadinca, 1968/70) > O  Pel Rec Daimler 2046 (1968/70) também deixou um memorial em Bambadinca... 

Esta subunidade desembarcou no cais fluvial do Xime no dia 7 de maio de 1968, tendo seguido em coluna auto até Bambadinca onde ficou ao serviço do comando do BART 1904 (Bambadinca, maio /setembro 68) e depois do BCAÇ 2852 (Bambadinca, outubro 68/fevereiro 70).

Convivi ainda durante seis meses com os "furões" e fiz com eles segurança a diversas colunas logísticas (a Mansambo, Xitole, Saltinho, Xime...). Coleção: Carlos Coutinho (2009) (com a devida vénia..:


1.  Não há marinha sem navios. (*). E não há navios sem portos. E quem diz portos, diz, mastros, guindastes,  gruas, carga amontoada ou espalhada pelos quatro cantos, caixotes, contentores, estivadores,  mirones...  Quem diz portos,   diz pontes-cais... Diz  partida...Diz saudade, fado, amor, ódio, guerra... Enfim, tudo o que é  humano.

Pelo que temos de falar de (ou relembrar) alguns desses portos, que não passavam afinal de pontes-cais. Em madeira. Assentes sobre estacas enterradas no lodo.

 Conheceste os portos de Bissau, do Xime, de Bambadinca, de Bafatá ... Cruzaste o rio Geba várias vezes. De canoa, a caminho do Mato Cão para fazer segurança aos "barcos-turras". Ou, como passageiro, desajeitado e indefeso, tu próprio, no  "barco-turra", passando pelo Mato Cão, a caminho de Bissau (e vice-versa).  "Desenfiado", com meia dúzia de dias de liberdade condicionada e algum patacão no bolso  para carregares baterias, longe  campo de concentração de Bambadinca, e poderes voltar depois a  rotina do mato, as operações, as emboscadas noturnas, as colunas, as minas, as tabancas em autodefesas, os mosquitos, o absurdo da morte aos vinte, aos vinte e poucos anos... 

Admiraste o esplendor do rio Corubal ( em 1969/70 e depois em 2008, Saltinho, Cussilinta...). Atravessaste o Cacine, de canoa nhominca... A partir do porto piscatório de Cananima. Esplêndido aquele rio e o silêncio verde que o asfixiava... 

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Bambadinca> Porto fluvial > c.1969 
Arquivo do Blogue Luís Graça &
Camaradas da Guinél. O furriel "Eriko",
como diziam os soldados guineenses
da CCAÇ 2590/CCAÇ 12.

Mas é de Bambandica que te lembras mais. Bambandinca, em certos dias, a certos horas, 
sobretudo ao entardecer. Nos dias em que chegava
 ou partia um "barco-turra". 

Outros camaradas hão de te trazer,  para aqui,  fotos 
e testemunhos de outros portos, e nomeadamente fluviais: do Cacheu,de Binta, de Farim, de Enxudé, 
de Buba, do Xime, de Bafatá, de Bolama, de 
Bubaque, de Cacine, de Cufar...

Não era tanto o que representava para a maioria dos teus camaradas: uma espécie de cordão umbilical 
que os ligava ao mundo, o outro mundo dos que estavam vivos, que continuavam a estudar, a ir ao cinema, a trabalhar, a amar,  a divertir-se, a 4 mil quilómetros dalí...  

Na Guiné, o porto fluvial também não era apenas 
uma infraestrutura logística; era uma  artéria viva que 
ligava o mato isolado ao resto do mundo. 

Não era dificil "fugir" de Bambadinca: ninguém te perguntava, no "barco-turra",  por passaporte,  BI militar, licença de embarque, bilhete... Muito antes de se falar em transportes públicos gratuitos, já os havia aqui na Spinolândia. Ia-se de borla a Bissau. Ia tudo a monte, a tropa, o balanta de Nhabijões, Mero ou Snta Helena, o seu primo turra, o filho do poderoso régulo Mamadu Bonco Sanhá, a mulher grande, o marabu mandinga, o filho do comerciante que estudava em Bissau...Mais as cabras, os cães... Não havia Polícia Militar, nem cipaios, nem gajos da PIDE, nem agentes das alfândegas...

Era por ali que chegava a comida fresca e enlatada, a cerveja, o uísque,  o correio (os aerogramas das namoradas, dos pais, das madrinhas de guerra, dos amigos e amigas...), mas também as munições, e toda a tralha de guerra... E sobretudo os "periquito" que um dia  te viria render... 

Era também a azáfama, por umas horas, das cargas e descargas, das chegadas e das partidas,  as buzinas, os gritos, o alvoroço e as traquinices dos "djubis"... Eram as marés, o macaréu que se ouvia ao longe, era o lodo, a água barrenta, o tarrafo... Eram as chuvas, as primeiras depois de seis meses de seca... A alegria dos "djubis", das bajudas, das mulheres grandes, com  a água que Deus, Alá e os bons irãs te mandava... 

Não faltava ali nada, na zona ribeirinha de Bambadinca, até um bocadinho do Cais do Sodré de Lisboa, desde o Depóito da Intendência (a inde nunca te lembras de ter ido, pasme-se!, e onde se fazia contrabando de uísque...)  à  tasca do Zé Maria, e mais acima a sucursal do Bataclã de Bafatá com meninas, música de gira-discos e camas sempre quentes.

Era, por fim,  a noite que caía rápida, o regresso ao quartel, a subida da mítica rampa de Bambadinca... Eram tantas as sensações e emoções,  por vezes contraditórias, que o porto fluvial de Bambadinca te despertava ... 

Não tiveste coragem, confessa,  de voltar ao antigo porto fluvial de Bambadinca, em 2008, quando por lá passaste, vindo da visita aos fantasmas de Cacine, de Guileje, de Jemberém, de Gandembel, de ponte Balana, do Quebo, do Saltinho... Como não tiveste coragem de espreitar as tuas antigas instalações em Bambadinca (a messe, o bar, os quartos...). 
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 6 de novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28497: A Nossa Marinha (8): Os motores "Corubal" e "Formosa" (Manuel Amante da Rosa, ex-fur mil, QG/CTIG, Bissau, 1973/74; atual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidade e Defesa da República de Cabo Verde)

sábado, 7 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28499: Os nossos seres, saberes e lazeres (758): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (278): Exposição “Terás visto o mar? Memórias do Tarrafal”, de João Pina, antes damos uma saltada até à Guiné, também recomendamos esta visita - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Novembro de 2026:

Queridos amigos,
A exposição de João Pina, que tem por fundo o seu livro publicado pela Tinta-da-China em 2024, baseou-se num arquivo familiar dos seus bisavós (Luís Alves de Carvalho e Herculana da Costa Dias Carvalho) e do seu avô Guilherme da Costa Carvalho (1921-1973), um militante do Partido Comunista; este arquivo é constituído por fotografias e correspondência (cerca de 800 cartas), incide na sua prisão política no campo de concentração do Tarrafal entre 1959 e 1961. Neste "campo da morte lenta" estiveram aprisionados centenas de pessoas de diversos quadrantes ideológicos. Os pais de Guilherme receberam a permissão especial para o visitar, foi-lhes permitido fotografar todos os presos. Desta exposição, com pouco mais de pormenor, falaremos mais tarde, hoje irei contemplar belíssimas obras de Sorolla e Cândido Portinari e daqui parto para uma exposição de um artista plástico angolano que nos irá falar da Guiné.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (123):
Exposição “Terás visto o mar? Memórias do Tarrafal”, de João Pina, antes damos uma saltada até à Guiné, também recomendamos esta visita - 1


Mário Beja Santos

Extraído da folha de sala:
“Com curadoria de Emília Tavares, Terás visto o mar? Memórias do Tarrafal assinala os 100 anos da instauração dos regimes ditatoriais em Portugal e os 90 anos da criação do Campo do Tarrafal. Resultado de vários anos de investigação desenvolvidos por João Pina em torno da história e memória daquele campo de concentração em Cabo Verde, a exposição revisita um dos mais emblemáticos lugares de repressão política do Estado Novo. O título inspira-se numa das cartas enviadas ao seu avô, Guilherme da Costa Carvalho, enquanto ali esteve preso.

Com origem no arquivo familiar do artista, constituído por cerca de 800 cartas, fotografias e documentos pertencentes aos seus bisavós, Luís Alves de Carvalho e Herculana da Costa Dias Carvalho, e ao seu avô, Guilherme da Costa Carvalho, preso político no Tarrafal entre 1949 e 1951, a exposição reúne aproximadamente 250 imagens e documentação histórica.

Através deste conjunto documental singular, João Pina revisita a memória da resistência antifascista portuguesa, questionando simultaneamente as heranças do colonialismo e a forma como a fotografia pode contribuir para a construção de uma cultura de liberdade e consciência histórica.

Reunindo fotografias contemporâneas, imagens de arquivo, objetos, documentos históricos e testemunhos, a exposição aborda o Campo do Tarrafal enquanto símbolo da repressão política do Estado Novo. Criado em 1936 para encarcerar opositores ao regime, o campo acolheu posteriormente militantes dos movimentos de libertação das então colónias portuguesas, apenas encerrando as portas em 1974 após a revolução portuguesa.

Através do cruzamento entre investigação documental e prática fotográfica, João Pina constrói uma narrativa visual que recupera experiências frequentemente ausentes da história oficial, abordando temas como a resistência, a violência política, a memória pós-colonial e a transmissão intergeracional das experiências traumáticas. A exposição permanece no MNAC até 24 de janeiro de 2027.”


Lera no site do MNAC – Museu do Chiado que estavam patentes obras que me interessavam rever, particularmente a pintura de Sorolla, Pescadoras valencianas, e Chôrinho, de Cândido Portinari (1903-1962), um importante pintor de índole neorrealista, há anos que não via esta obra que faz parte do património do MNAC. Seguiria depois para a exposição de Délio Jasse, estava intrigado quanto aos apetrechos da sua técnica fotográfica e audiovisual. Comecei por Sorolla e Portinari. Pescadoras valencianas é uma imponente tela em que o pintor luminista celebra o quotidiano das mulheres que aguardam na margem a chegada dos barcos carregados de peixe para depois o venderem. Tinha muitas saudades de facto de ver Chôrinho. Nesta roda de Chôrinho, música genuinamente brasileira, reúnem-se músicos, uns sentados, tocando cavaquinho e cuíca, instrumento musical afro-brasileiro, semelhante a um tambor, com uma haste de bambu, outros, de pé tocam trompete e clarinete. Esta obra integrava um conjunto de oito painéis de temática musical que decorava a Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, em 1942. Após um grande incêndio nesta emissora, o seu proprietário, Assis Chateaubriand, doou duas pinturas sobreviventes ao Estado português. Chôrinho, passou a integrar a coleção do MNAC, a outra obra é património do Museu Nacional Soares dos Reis. O que mais aprecio nesta obra que me parece sobretudo modernista é a construção geométrica dos fundos e a planificação de volumes.

Pescadoras valencianas, 1915, por Joaquín Sorolla (1863-1923)
Nunca tinha ouvido falar neste artista, hoje de gabarito internacional. Entrei na sala onde se vê o mapa da Guiné com a data de 1941 e fiquei perplexo com os sublinhados sobre os Bijagós e aquela fotografia marcadamente colonial. A legenda esclarece em parte o processo manipulatório do mapa e da fotografia e a mensagem que o artista pretende fazer passar é olhando detalhadamente aquele mapa da Guiné que eu fui à procura da localidade onde vivi 17 meses, Missirá, no regulado do Cuor. Pois não existe Missirá nem regulado do Cuor, o que é de estranhar, pois o Cuor já existia quando o Régulo Infali Soncó, em 1907, entrou em rebelião, cortando a navegabilidade no Geba. Ora o nome Cuhor não aparece no mapa, aparece o nome Gufié, para mim incompreensível. Mas mais intrigante para mim, e a questão tem décadas, é aonde se situava Sambel Nhantá, a sede do regulado. Aventaram-se várias hipóteses, acresce que há mapas que põe a sede do regulado quase junto ao Geba, outros os mapas numa posição superior. Olhando detalhadamente este pormenor que fotografei da região, creio que Sambel Nhantá ficava não longe de um meandro do Geba estreito, seria provavelmente Sansão, onde estavam sepultados vários régulos, no tempo que ali vivi, era local abandonado, manifestamente aprazível, árvores frondosas. Para mim, ponho Sambel Nhantá em Sansão. Abaixo o leitor encontrará alguns elementos sobre o trabalho de Délio Jasse, ganhei-lhe simpatia quando soube que ele andava pela Feira da Ladra à procura de documentos do período colonial.
Délio Jasse (1980, Luanda) vive e trabalha em Milão.

No seu trabalho fotográfico, entrelaça frequentemente imagens encontradas com pistas de vidas passadas (fotografias encontradas, álbuns de família etc.) aproximando-se do conceito de “imagem latente” vs. a memória. Utiliza processos analógicos para subverter a reprodutibilidade do meio fotográfico, criando variantes e intervenções subtis com recurso à pintura, luz líquida, folheamento a ouro e colagem.
Vamos agora entrar na exposição alusiva ao trabalho de João Pina focado no campo de concentração do Tarrafal, vamos ser confrontados com imagens dos presos políticos naquele lugar de Chão Bom, imagens de uma viagem onde uma mulher se curvou em homenagem junto de campas, e iremos também na companhia de João Pina à sua viagem a este ponto de martírio na ilha de Santiago.

Para a curadora Emília Tavares, a exposição de João Pina reafirma a importância da imagem como instrumento da resistência política e aborda uma reflexão geracional de alguém que nasceu em democracia, mas cuja família sofreu a opressão das ideias, da liberdade e dos direitos cívicos durante a ditadura do Estado Novo.

Nas suas viagens ao Tarrafal, Luís Alves de Carvalho e Herculana da Costa Dias de Carvalho, produziram um testemunho dos assassinatos políticos ocorridos no campo, sobretudo na sua mais violenta fase, entre 1936 e 1948. O gesto de Herculana ao de pôr flores em cada uma das campas dos 32 presos ali sepultados, dos quais 26 são patentes, foi registado por Luís Alves de Carvalho através da imagem fotográfica.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 31 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28479: Os nossos seres, saberes e lazeres (757): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (277): Um jardim zen à moda de um jardim de Quioto, no Planalto das Sezaredas (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28498: As nossas histórias aos quadradinhos (2): Empanado em pleno rio Geba, num "barco-turra", na noite em que o Neil Armstrong (21/7/1969, 01h56m15) se tornou o primeiro homem a pisar o solo lunar (Valdemar Queiroz, 1945-2025)



















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: Valdemar Qiueiroz (2019)

Fotos: Vaçdemar Queiroz e Arquivo do Blogue Luísw Graça & Canmaradsa da Guin+e

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI. (*)


Guiné > Bissau > 21 de julho de 1969, a chegar aos cais do Pidjiguiti, já com luz do dia, depois de um noite "histórica" mas atribulada num "barco-turra". Foto a preto e branco, restituída e colorizada com recurso a IA.


Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís GRaça & Camaradas da Guiné ´IA (Gemini / Google)]


Valdemar Queiroz (1945-2025). Minhoto, de Afife, Viana do Castelo.. Veio cedo para Lisboa, aos 12 anos... Começou a trabalhar como paquete... Foi para a tropa aos 22 anos... Esteve na Guiné, como fur mil at inf. CART 2479 / CART 11. Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari,   terras do chão fula lá no Cu de Judas da Guiné. 1969/70.  Gente que ele amava.

Reformado, era um estoico  portador de uma DPOC - Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica... Não se deixava abater facilmente pela terrível doença que o haveria de matar antes de fazer os 80 anos. Mesmo trancado em casa e com uma máscara de oxigénio e o telefone dos bombeiros. Era o último "tuga" da Rua de Colaride,Agualva-Cacém, Sintra. Da sua janela via o mundo, que é como diz:  toda a sua rua  mais o nosso blogue(**). Levou consigo, para o Olimpo dos Combatentes, esta aventura extraordinária num "barco-turra", a descer o rio Geba,  enquanto o Neil Armstrong (1930-2012) era o primeiro homem a pisar o solo lunar. Dia 21 de julho de 1969, às 01h56m15s da madrugada. UTC.

Nunca foi de escrever grandes textos. Apenas pequenas histórias. Esta é um delas (***). E os seus comentários eram de antologia. Era o mais extraordinário "bom observador" que eu jamais conheci. Estivemos juntos no CIM de Contuboel em junho/julho de 1969. Ele deu a recruta a alguns dos nossos "djubis" (da CCAÇ 2590, futura CCAÇ 12)... Voltei a "estar com ele", no dia em que se despediu da Terra da Alegria, sendo cremado em Barcarena, em 9 de março de 2025. (LG) 
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série : 14 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28435: As nossas histórias aos quadradinhos (1) : o ataque à LFG Hidra (P376), no rio Cacheu, na noite de 20 para 21 de maio de 1973 (António Dâmaso, 1940-2026)

(**) Vd. poste de 3 de março de 2025 > Guiné 67/74 - P26549: In Memoriam (537): Morreu o Valdemar, o último tuga da rua de Colaride

(***) Vd. poste de 21 de julho de 2019 > Guiné 61/74 - P19999: Efemérides (309): Há 50 anos o homem chegava à lua... e eu ia caminho de Bissau, num "barco turra" que parou, no Geba Estreito, com uma avaria...Valeu-nos o proverbial "desenrascanço tuga"... Viagem inesquecível até ao fim da minha vida! (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)


sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28497: A Nossa Marinha (8): Os motores "Corubal" e "Formosa" (Manuel Amante da Rosa, ex-fur mil, QG/CTIG, Bissau, 1973/74; atual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidade e Defesa da República de Cabo Verde)

 












Foto nº  1F, 1E, 1D, 1C, 1B, 1A, 1


Guiné-Bissau >  Arquipélago dos Bijagós > Bolama > 1978 > Chegada a Bolama do "Corubal"  

Foto: Cortesia do sítio Guiné-Bissau Recordações em Imagens  

(Melhoradas com recurso à IA/Google | Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026)



Foto nº 2 > Guiné > s/d > s/ l > O Motor "Bubaque", ostentando a bandeira portuguesa, a chegar a Bolama, vindo de Bissau... Antiga LP 4 (Lancha de Patrulha 4, da nossa Marinha, no ativo entre 1963 e 1964), terá sido anteriormente uma traineira de pesca, algarvia... Depois de abatida ao efetivo, foi comprada pelo pai do nosso camarada Manuel Amante da Rosa.

Foto: © Manuel Amante da Rosa (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine + IA (Gemini / Google AI]


Foto nº 3 


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >  Rio Geba > A caminho de Bissau > 1968 >  O nosso muito querido ex-fur mil Mil Carlos Marques dos Santos (1943-2019), natural de Coimbra, o primeiro "viriato", a integrar a Tabanca Grande: foi ele que nos trouxe o Torcato Mendonça (1944-2021) que também  e ele jã se despediu da Terra da Alegria, ex-alf mil at inf,  ambos da CART 2339, Mansambo (1968/69).

Ei-lo aqui um dos típicos barcos civis de transporte de pessoal e de mercadoria, que fazia a ligação Bissau-Bambadinca, e Bambadinca-Bissau, passando pela temível Ponta Varela, na confluência do Rios Geba e Corubal e, a seguir, o assustador Mato Cão, no Geba Estreito, entre o Xime e Bambadinca. 

Estes barcos (alguns ligados a empresas comerciais, como a Casa Gouveia, a  Ultramarina, a Manuel Barbosa) tinham, como principal cliente a Intendência militar. Pelo Xime e por Bambadinca passava a alimentação e tudo o mais que era preciso para saciar o "ventre da guerra" da Zona Leste. A malta chamava-lhes, na reinação, "barcos-turras", o que era uma forma engraçada de exorcizar o nosso nosso receio de andar neles, quando se se queria "desenfiar" até Bissau...  Às vezes  formavam um pequeno comboio com dois ou três batelões puxados por um rebocador.

Foto: © Carlos Marques dos Santos (2006). Todos os direitos reservdaos [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine + IA (ChatGPT ( Opena AI.]


Foto nº 4  > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Rio Geba >  1969 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > 21 de julho de 1969 > "Efeméride: no dia que o homem chegou à Lua, eu descia o rio Geba (Bambadinca-Bissau, com passagem no célebre Mato Cão e depois na não menos temível Ponta Varela, a seguir ao Xime)...

"Era um barco fretado para levar material usado da tropa. Estivemos parados várias horas: primeiro por causa da maré, depois devido a avaria no motor do barco só resolvida (por desenrascanço...) com uma peça sacada dum carro que seguia no barco para sucata.... Viagem inesquecível, até ao fim da minha vida!", escreveu o nosso saudoso e querido Valdemar Queiroz (ex-fur mil, CART 2479/CART 11, 1969/70) (1945-2025).

Foto original, a sépia. Reconstituída e colorizada com recurso à IA

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine + IA (ChatGPT / Open AI




Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 > 1969 >O Fur Mil Ap Armas Pesadas de Infantaria Henriques, no cais de Bambadinca. Ao fundo, um dos barcos civis que faziam periodicamente a viagem Bissau-Bambadinca, passando pelo temível Mato Cão, no percurso Xime-Bambadinca, o primeiro troço do Geba Estreito. O Rio Geba era navegável até Bambadinca. As embarcações da Marinha Portuguesa (nomeadamente as Lanchas de Desembarque Grandes) já só iam até ao Xime, no meu tempo. Mas, uns meses antes de eu chegar,. ainda abicavam na "cova do lagarto, isto do crocodilo" (como os mandingas chamavam a Bambadinca).  Junto aos cais, frente à bolanha de Finete, havia um destacamento de intendência. Tanto o Xime como Bambadinca eram dois pontos de entrada da Zona Leste. Grande parte do abastecimento desta vasta zona (que ia da ponta doo Inglês a Madina do Boé) eram feitos por terra e por rio. (LG)

Foto: © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine + IA (Gemini / Google AI]



1. Nunca fui marinheiro (nem pescador), nem nunca tive estaleca para o ser.  Não é para todos. Mas nasci à beira-mar. E preciso de ver e sentir o mar, com regularidade. Acho que tenho, dos meus avoengos Maçaricos, pelo menos o ADN do mar, o secreto apelo do mar... e das navegações. (Como também já aqui disse, foi o mar que nos salvou e foi o mar que nos perdeu.)

Estive aquartelado, com a minha CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, em Bambadinca, de julho de 1969 a março de 1971. Em Bambadinca não se via o mar. Mas tinha rio, o Geba Estreito, que fazia ligação ao rio Corubal e ao Estuário do Geba e por fim ao Oceano Atlântico. E chegavam até Bambadinca as marés. E o macaréu... 

Eu gostava de frequentar o porto fluvial de Bambadinca, onde também havia um destacamento da Intendência. Bambadinca (com o Xime) era a grande entrada do Leste. Aqui chegavam navios da marinha de guerra (LDG e LDL) e sobretudo navios a motor dos Serviços da Marinha da Província ("Bor", "BM1", BM2"), das casas comerciais  (Gouveia, Ultramarina, Manuel Brabosa...) e de armadores privados como o pai do Manuel Amante da Rosa, dono do "Bubaque", por exemplo. Parece que os motores "Corubal" e "Formosa" chegavam a Bambadinca antes da guerra. Na maré-cheia, claro. 

Toda a malta do sector L1 (Bambadinca) mas também de outros sectores das regiões de Bafatá (L2, L5) e Nova Lamego (L3, L4) deve ter feito pelo menos uma vez ou duas viagens em LDG e mais uma ou duas nos "barcos-turras" que,  para nós,  eram todos os outros que faziam transportes civis e/ou militares, e não tinham armamento à vista, nem eram escoltados pelos fuzileiros.

Podiam partir de Bambadinca ou do Xime (aqui evitava-se a sempre temível passagem por São Belchior e Mato Cão; depois do Xime, ainda havia a Ponta Varela, onde o IN também fazia pontaria às embarcações e até às lanchas da marinha de guerra).

Temos falado pouco da nossa marinha... na Guiné (*).

Manuel Amante da Rosa.
Fonte: Página do Facebook de
Pioneiros de Cabo Verde 
(com a devida vénia...)

Por isso é oportuno republicar estes excertos de postes do Manuel Amante da Rosa, nosso grão-tabanqueiro (desde 27 de maio de 2007): (i) foi fur mil,  Chefia dos Serviços de Intendência /QG/CTIG (1973/74); (ii) filho de Cabo Verde, nasceu e cresceu na Guiné, em 1952; (iii) tem mais de 4 dezenas de referências no blogue; (iv) diplomata de carreira, reformado, é o atual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidade e Defesa, da República de Cabo Verde.

(O governo de Francisco Carvallho, líder do PAICV, tomou recentemente posse, tendo regressado ao poder ao fim de uma década; é considerado de centro-esquerda; o histórico PAICV passa, assim, a acumular a maioria parlamentar, o governo e a Presidência da República, ocupada desde 2021 por José Maria Neves.) 

O Manuel Amante da Rosa (ou Amante da Rosa) foi sempre um apaixonado pelos viagens fluviais e pelos barcos do pai (n. 1929, já falecido), que em 1956 era comerciante em Belim, Fulacunda, antes de se tornar armador (dono, por exemplo, do motor "Bubaque"). Ainda pensou em ir para a Marinha, antes de de ir para o Brasil formar-se em diplomacia. (E parece que foi uma boa escolha, para ele e para o seu país.)


Os motores "Corubal" e "Formosa"

por Manuel Amante da Rosa
(ex-fur mil, QG/CTIG, Bissau, 1973/74; actual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Comunidade e Defesa da República de Cabo Verde)


(...)  Quanto ao navio [que aparece na foto nº 3, da autoria de Carlos Marques dos Santos] quer me parecer, pelo mastro da proa, que a casa de leme estaria bem à popa e ser construído em ferro,  e que seria um dos batelões ou lancha da casa Gouveia ou da Ultramarina.

Talvez, mas ainda sem certeza, possa ser um dos batelões da Marinha (BM1, BM2), para emprego civil.

Como se pode observar do amontoado de passageiros, sem qualquer protecção contra o sol ou outras intempéries,  o número de feridos e mortos em caso de ataque à passagem por Mato Cão sempre era,  infelizmente, significativo.

O "Corubal" (30 t de carga)  (foto nº 1) e o "Formosa" (25 ton de carga) eram navios de bom porte, estilizados, lindos, velozes, com boas condições de segurança e navegabilidade, que faziam a carreira de Bolama, Bubaque nos Bijagós, Cacine, Cacheu e alguns outros portos.

Foram construídos nos Estaleiros de Viana do Castelo em 1952, pela placa que tinham no confortável camarote da primeira classe.

Dizia-se que o motor a diesel que tinham, penso que de oito ou dez cilindros, tinham sido construídos pela Alemanha nazi para os seus submarinos. Nunca comprovei este detalhe. Calavam mais de um metro e meio pelo que só vi uma vez o Formosa no porto de Xime na maré cheia. Mas que teriam chegado a Bambadinca antes da guerra.

Da última vez que viajei nele foi no fim da especialidade, em Bolama, com destino a Bissau acompanhado de mais de 300 militares que saíam do CIM [Centro de Instrução Militar]. Lembro-me de que viajou connosco o Capitão Moás, que era de Cavalaria. (...) (**)

(...) Na minha infância e adolescência fiz muitas viagens pelo interior da Guiné-Bissau durante a luta de libertação. Mas o que mais me encantava (70/73), pelas paisagens e desafios, era subir o Rio Geba, nas férias ou mesmo nos fins de semana, num dos barcos de passageiros do meu Pai (o "Bubaque", antiga traineira algarvia, adquirida pela Marinha portuguesa e transformada, nos inícios da guerra, em Lancha Patrulha nº4, até ser comprada pelo meu Pai e transformada em navio de transporte, mais popularmente conhecido por Djanta Kú Cia).

A jornada começava com a enchente da maré, passando por Portogole, Ponta Varela, Xime e daqui para a frente quase sempre a rasar as margens, ora de um lado ora de outro, ver passar o Mato Cão e Nhabijões até chegar ao pequeno mas movimentado porto de Bambadinca, onde sempre havia lanchas e batelões.

Não raras vezes, no regresso, saíamos de noite de Bambadinca rezando, tripulantes e passageiros, para que nada acontecesse até passarmos o Mato Cão. Salvo raras ocasiões as preces foram escutadas. O encanto era absorvente em noites de luar a descer o Geba a favor da maré, com o maquinista a ficar satisfeito, em termos de rotações do motor, só quando via faíscas e fumo espesso a sair da chaminé. Parecia que andávamos numa estrada cheia de curvas tal a velocidade com que descíamos o rio. As apreensões só desapareciam, na última curva, quando víamos as luzes do quartel do Xime. De noite Ponta Varela não constituía perigo. Passávamos a uma razoável distância. (...) (***)


2. Estas duas embarcações, o "Corubal" e o "Formosa",  faziam parte dos Serviços da Marinha da Província. (**). São dois dos mais de 220 navios construídos  pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC), fundados em 1944 no àmbito do esforço de modernização da frota de bacalhau.  

Foram uma  encomenda do Ministério do Ultramar. Foram desenhadas especificamente para a navegação fluvial e de cabotagem na Guiné Portuguesa. 

Foram dois  elementos crucial no complexo sistema de cabotagem e logística fluvial da Guiné Portuguesa antes e durante a  guerra colonial. Operavam ambas sob a égide dos Serviços da Marinha da Província. Ms tuteladas, com a guerra, pelo Comando da Defesa Marítima.

Em 1952 a ENVC era uma empresa jovem e forte, fundada por engenheiros e operários especializados que tinham vindo dos Estaleiros da CUF de Lisboa (Rocha Conde de Óbidos).

Os estaleiros minhotos tinham apenas 8 anos de atividade. Contudo, já tinham provado a sua alta capacidade técnica ao lançar navios emblemáticos de grande calado para a Pesca do Bacalhau (como o "Senhor dos Mareantes" e o "São Gonçalinho"). 

O início dos anos 50 foi a "época de ouro do aço": os estaleiros estavam em plena transição tecnológica, dominando a construção de cascos inteiramente em aço rebitado e soldado. A construção de barcos mais pequenos, mas altamente robustos (como as lanchas de cabotagem fluvial de 30 e 25 toneladas enviadas para as colónias), servia para consolidar a mestria dos soldadores e carpinteiros navais de Viana.

Para se ter uma noção da escala técnica da época, foi precisamente nesta mesma janela temporal que os estaleiros desenharam e iniciaram a construção do navio mais famoso da sua história: o Navio-Hospital "Gil Eannes" (entregue em 1955). As equipas que desenharam os interiores de madeira fina e as estruturas mecânicas do "Formosa" e do "Corubal" eram as mesmas que trabalhavam nos colossos da Frota Branca.

A ENVC não fazia apenas navios funcionais; havia uma forte tradição de acabamento artesanal. Mesmo em barcos destinados ao trabalho árduo ou ao ultramar,  utilizavam-se madeiras nobres nos camarotes, lemes de bronze bem equilibrados e placas de estaleiro em latão fundido que orgulhosamente exibiam a insígnia de Viana do Castelo em qualquer parte do mundo. Foi9 uma época de glória para a ENVC e para a cnstrução naval em Portugal.

Sendo navios de transporte e não de combate, faziam as rotas regulares de passageiros e mercadorias a partir de Bissau. Ligavam a capital a Bolama, a Bubaque (no arquipélago dos Bijagós), a Cacine, Cacheu e a portos comerciais ao longo do rio Geba, como o Xime e Bambadinca (antes de as restrições e o assoreamento dificultarem o acesso). 

Com o eclodir da Guerra Colonial em 1963, estas embarcações civis tornaram-se vitais.  Asseguravam o transporte de civis, o escoamento de produtos agrícolas (como a mancarra e o arroz) e, simultaneamente, o abastecimento logístico e militar de aquartelamentos das Forças Armadas isolados, mais isolados e com acesso por rio. jun

Do "Formosa" não temos nenhum foto. Nem dos outros motores, que também eram usados em transportes miliutares, como o "BM1", o "BM2" ou a draga "Geba" (que fazia o transbordo dos navios T/T para terra...).  Pode ser que algum leitor tenha fotos e mais documentação sobre estas e outras embarcações que também fazem parte das nossas memórias.
 
 
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Notas do edito LG: