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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P27381: In memoriam (587): De Elvas a Tancos: como é que eu fui parar aos paraquedistas e fiquei apurado, no dia em que Portugal perdeu a Índia





Fotos nº  1A, 1B e 1

Elvas > Regilemto de Lanceiros nº 1 > 1961 > Recruta > O António Dâmaso é o 2º da 1ª fila, acontar da esquerda para a direita  (Vd. em detalhe, a foto nº 1A


Foto (e legenda): © António Dâmaso (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].



Excerto da 1ª página o "Diário de Lisbos", 2o de dezembro de 1961


(1961), “Diário de Lisboa”, n.º 14016, ano 41, quarta, 20 de dezembro de 1961, Fundação Mário Soares e Maria Barroso / Ruella Ramos (Diário de Lisboa e Sempre Fixe), Disponível em: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_16535 (consultado em 2026-09-27)


1.  António Dâmaso, srgt mor pqdt  reformado (Odemira, 12/6/1940 - Lisboa, 22/9/2026), com três comissões na Guiné ao serviço do BCP 12  (1966/67, 1969/70 e 1972/74), é  
membro da Tabanca Grande desde 26/7/2009, tendo  à data da sua morte mais de 4 dezenas referências no nosso blogue. Publicou diversos postes aqui e no blogue dos Especialistas da Base Aérea 12 (Guiné, 1965/74).


Não é muito habitual os paraquedistas, antigos combatentes, "abrirem o livro" da sua vida, civil e militar... Entre eles, há o que se pode chamar um "pacto de silêncio" (o mesmo sucede com outras tropas especiais, como os comandos e os fuzileiros). 

O Dâmaso é (ou foi) uma das exceções que confirmam a regra. Daí nos sentirmos na obrigação, em sua homenagem (e em homenagem também  aos camaradas que com ele combateram no CTiG), de recuperar e divulgar, para um público mais vasto, alguns postes que ele entendeu mandar só para o blogue dos nossos camaradas da BA 12, fundado pelo nosso querido Victor Barata, que infelizmente também já realizou o seu último voo.

Nascido no Baixo Alentejo, em Odemira, oriundo de 1º cabo, tirou o brevet em abril de 1962 (16º Curso). Em 1966 era furriel e esteve ligado ao serviço de manutenção auto, a "ferraugem", do BCP 12. Mas também foi operacio
nal, como 2º sargento, na Guiné e em Moçambique.

Neste texto, a seguir, ele conta-nos como é que, chamado a fazer a recruta no Regimento de Lanceiros 1, em Elvas, em agosto de 1961,  acabou por ir, como voluntário, em dezembro desse ano, para o Regimento de Caçadores Paraquedistas (RCP), em Tancos. (Originalmente publicado no Blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 1965/74 >  domingo, 16 de outubro de 2011 > Voo 2530: Venturas e Desventuras da Vida Militar.)




Fur pqdt António Dâmaso, BA 12, BIssalanca,
Natal de 1966

De Elvas a Tancos: como fui parar aos paraquedistas, e fiquei apurado, no dia em que Portugal perdeu a Índia

por António Dâmaso


(i) Corria o mês de agosto de 1961, já tinha feito 21 anos de idade (em 12 de junho) e tinha atingido a maioridade. Como estava a trabalhar em Lisboa recebi uma carta da terra (Odemira)  a dizer que tinha de lá ir levantar umas guias  para ir para a tropa, cumprir o Serviço Militar Obrigatório.

Uma vez chegado à terra, dirige-me ao regedor que me deu uma guia de marcha e uma requisição de transporte para Elvas. 

Passei a noite de 20 de agosto a andar de camioneta e comboio, tendo chegado à estação de Elvas pela manhã, por sorte havia transporte à espera

Assentei praça no Regimento de Lanceiros 1, situado no Forte de Santa Luzia,  em Elvas. No dia 21 de agosto de 1961, fiz exame psicotécnico para condução auto, tendo ficado aprovado. 

No mesmo dia foi-me perguntado se queria ir para a Polícia Militar, ao que respondi que não,  por ter presenciado as abordagens que a PM fazia aos magalas em Lisboa.

Depois entrei de licença registada até 15 de outubro, data da incorporação, fui integrado no CICA 3 / RL 1, Elvas,   para frequentar a instrução de condutor auto simultaneamente com a recruta.

Em Elvas existiam duas Unidades, Regimento de Caçadores 8 (RC 8) e Regimento de Lanceiros 1 (RL 1). 

No pico de um cerro havia um presídio militar a que chamavam o Forte da Graça. O trabalho dos prisioneiros era descerem com barris para carregarem água às costas, alguns diziam que chegavam lá acima despejavam a água para virem buscar mais.

A instrução estava a decorrer com normalidade até que sofri o primeiro revés na vida militar: as nossas malas com os pertences civis foram guardadas numa arrecadação, a minha mala tinha os meus pertences, o meu melhor fato, camisa, camisola, sapatos de biqueira quadrada e o dinheiro que tinha levado.

Como a alimentação além de escassa era de inferior qualidade, (e eu precisava de suplemento alimentar),  vi-me na necessidade de ir à mala levantar mais dinheiro para poder ir à cantina aviar-me de sandes para me alimentar... Azar dos azares, da mala nem rasto.

Dois ou três dias depois a dita mala apareceu num palheiro que ficava ao lado do refeitório e em frente à minha caserna, mas arrombada e sem nada dentro, claro que dali para a frente, até receber algum dinheiro de casa passei fome.

(ii) Quando fui informado de que os paraquedistas pediam voluntários, apesar de na altura dizerem que o pessoal que optava por servir nas Tropas Páraquedistas era todo maluco, não liguei e vi ali uma maneira de me escapar daquele local. 

Ofereci-me imediatamente e comecei a praticar saltos em altura e exercícios com cordas no picadeiro.

Já tinha feito exame de condução, jurado bandeira em 8 de dezembro, feito a escola de cabos e passado ao CIACA (Centro de Instrução de Adaptação de Condução Auto) para adaptação a todas as viaturas de rodas existentes no Exército.  

Depois de ter feito nove tiros, estava apto para embarcar para Angola,  integrando qualquer Companhia ou Batalhão, como aconteceu aos meus camaradas que ficaram em Elvas, até que recebi guia de marcha para embarcar no comboio das 21,25 no dia 18 de dezembro para ser submetido a exames médicos e provas psicofísicas, e lá fomos cerca de trinta elementos com destino a Tancos.

Embarcámos numa carruagem de 3.ª Classe, a que nós chamávamos o comboio do Texas porque aquele tipo de carruagens faziam parte dos cenários dos filmes de cowboys por ter portas dos dois lados e ao meio dois bancos corridos de madeira em ripas virados um para o outro não existindo corredor para comunicação.

Chegámos à estação de Almourol por volta das duas da manhã do dis 19, tínhamos elementos do RCP para nos indicarem o caminho e lá fomos a pé e entrámos na porta de armas do antigo mas ainda recente BCP, já à data RCP.

Levaram-nos para uma companhia de alunos onde nos colocaram no sótão com uns colchões estendidos e duas mantas para passar o resto da noite.

No dia seguinte  (20 de dezembro) fomos ao pequeno-almoço e verificámos que estávamos num mundo diferente, dois pães com manteiga e marmelada, café com leite à descrição, com um pequeno-almoço daquela natureza pensámos estar preparados para o que viesse.

Lá me fui desenvencilhando das provas físicas, salto do muro, salto em altura, salto para a lona, salto em comprimento, corrida de velocidade, subir uma corda a pulso de 8 metros de altura, exercícios físicos, até que me apareceu a prova de boxe... 

Calçaram-me umas luvas pesadas, que só elas pelo peso cansavam, colocaram-me um adversário na frente, cometemos a estupidez de combinar não bater com muita força, fomos apartados e puseram-nos com outros adversários. 

Aqui ainda existiu a combinação, claro que mais uma vez novo adversário e o aviso de que a prova de boxe era eliminatória... Disse para o meu adversário para me desculpar porque dali para a frente era pancadaria a torto e a direito, até nos entusiasmámos e demos e levámos pancadaria até sentirmos o cansaço do peso das luvas.

Com o almoço ainda ficamos mais maravilhados com a qualidade e quantidade, tratava-se nada mais, nada menos, de que uns bons bifes, coisa que não tínhamos tomado nem o cheiro em Lanceiros 1. Já ao jantar embora primoroso, não o pude saborear convenientemente devido ao murro que tinha levado nos queixos que me dificultava a mastigação.

No dia seguinte (dia 21 de dezembro) foi à inspecção médica para os que tinham passado nas provas físicas: fomos metidos numas viaturas Bedford 4 x 4, com umas rodas enormes e levados para o Posto de Socorros da BA 3. Foram considerados aptos para o paraquedismo cerca de 50%. 

Os que chumbaram voltaram para a unidade e os aprovados ficámos adidos ao RCP e entrámos de licença registada, isto no dia em que se soube que Portugal disse adeus à Colónia Indiana.

Durante os dois meses que estive em Elvas, depois de ter sido roubado,  tinha um pó aquele local. Já a primeira experiência de vivência em grupo foi positiva, tinha no meu Pelotão uns indivíduos bem apanhados, havia um que sonhava alto, depois de ter feito exame de condução, escreveu uma carta à mãe e à noite a dormir desbobinou o conteúdo da mesma.

-Querida mãe, fiz exame e fiquei bem..., chega-te 
para lá Moreira… (Passados que são 50 anos ainda me lembro do nome de alguns.)

O Regimento de Lanceiros 1 foi extinto a 25 de Abril de 1975.

Saudações Aeronáuticas

A Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)
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domingo, 27 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P27380: Verso & reversos (6): A "fêmea", o "anjo mau", a "Eva", a graça Macute, do conto de Artur Augusto Silva (1912-1983), "O Cativeiro do Bichos" (escrito na Prisão de Caxias, 1966)...



Excerto da BD "O Cativeiro dos Bichos" (*)


1. Comentários so poste P22953 (**):

(i) Tabanca Grande Luís Graça

É interessante verificar que neste conto ou fábula da literatura oral fula, o "anjo mau" que introduziu o pecado, o mal, o conflito, a guerra no mundo seja também uma "Eva", uma "fêmea", a garça Macute (**)..

"Misoginia" das sociedades patriarcais, gerontráticas,  teocráticas, bíblicas ? Afinal da nossa comum cultura judaico-cristã ? ... Misoginia: o grego miseó ("ódio") e gyné ("mulher").

Por outro lado, o rei da selva não é o leão mas o elefante... 

Talvez o Cherno Baldé possa acrescentar algo mais ou contestar a minha "leitura". 

De resto este conto ou fábula, como toda a literatura oral tradicional,  não tem uma leitura "única"...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022 às 10:11:00 WET 

Cherno Baldé,
Kiev, 1989

(ii) Cherno Baldé 

Caro Luis Graça, a tradição africana e fula em particular não menospreza a mulher nem a segrega como alguns estudiosos ocidentais apresentam em seus estudos. 

Os africanos, sobretudo, nas comunidades de cultura ou roupagem isláâmica, onde eu cresci e fui educado, protegem a mulher, poupando-a de muitos trabalhos físicos e da exposição exagerada ao público, ao mesmo tempo que fazem tudo para se proteger da inteligência superior e argúcia das mulheres. 

Mais tarde, ao ler a Bíblia (antigo testamento, livros poéticos e sapienciais) nos capítulos dos Salmos, provérbios, Eclesiástico, Cântico dos Cânticos, e sabedoria do Salomão, percebi a ligação com o fundo da cultura judio-cristã e asiática em geral.

No fanado (ritual de iniciação a vida adulta entre os africanos da região ocidental) a ferramenta mais importante consiste em dotar aos jovens rapazes a técnica de descobrir os malefícios e artimanhas inerentes ao sexo feminino e de capacidades de reconhecer as sementes da discórdia que as mulheres são capazes de semeiar entre irmãos da mesma familia. 

Diziam-nos (em letras musicais): 

"Se as fronteiras que nos dividem aparentam ser normais, são as mulheres que nos dividem, posto que, se todas as portas (da morança) são idênticas, cada uma limpa a porta da sua casa e cria a sua fronteira". 

Desta forma, a sociedade patriarcal tentava proteger-se da divisão, cada vez mais, em unidades menores das famílias extensas, que era um dos desafios maiores que as sociedade rurais africanas enfrentavam no limiar dos séculos XIX/XX, com recursos muito escassos do ponto do vista económico e com várias ameaças à coesão social a partir do exterior das comunidades.

A garça Macute do conto, com a ambição de se coroar em rainha da espécie,  representa a mulher pretensiosa que é uma ameaça à ordem estabelecida e à coesão familiar e  que alimenta a semente da discórdia e da divisão.

Em muitas comunidades e famílias africanas existem práticas e crenças, fundadas ou não, que atestam a "diabolização" da mulher, ligando-a a forças ocultas e/ou ao azar, má sorte para o homem em viagem ou que parte para a guerra.

Lembro-me que na nossa familia as mulheres se escondiam quando os homens partiam para uma viagem difícil ou para a guerra e ai de quem se atrevesse a cruzar-se de frente com o "bravo" à saida da morança e mesmo da aldeia, porque era um mau augúrio.

Infelizmente, por força destas vivências, mesmo não o impondo a ninguém, sou perseguido por estas crenças e não raras vezes sou confrontado com a opção difícil de acreditar ou não acreditar, de recuar ou avançar.  

A verdade é que, tenho constatado, o encontro com a mulher, em muitas ocasiões, sempre me deu azar, infelizmente. 

A minha "kontrada", pelos vistos, como dizem os guineenses,  é homem. Faz parte das pancadas ou taras que carreguei desde a infância. (***)

Quanto ao rei dos animais, de facto, é o elefante e não o leão.
É incrível como os contos encerram realidades vividas no passado. O elefante era sempre dotado de paciência, sabedoria e de capacidades extraordinárias de sobrevivência entre os animais em situações extremas de penúria e seca. 

Mais tarde, através de filmes, documentáros ocidentais, constatei a veracidade daquelas palavras dos antepassados, vendo como os elefantes conseguiam detectar a presença d'água e de a fazer aparecer à superfície salvando a manada e restantes animais de uma morte mais que certa.

Com um abraço amigo,

PS - Queria responder desde ontem, mas fui interrompido pelos acontecimentos lamentáveis que todos já sabem. (Alegada tentativa de golpe de Estado contra o Presidente Umaro Seco Embaló.)  



Vd. poste de 31 de janeiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22951: Antologia (83): O Cativeiro dos Bichos, conto de Artur Augusto Silva (Cabo Verde, 1912 - Guiné-Bissau, 1983), escrito na Prisão de Caxias, em 1966, e que era uma fabulosa fábula que tinha também uma contundente crítica, implícita, à hipócrita política colonial do Governo Português da época

Guiné 61/74 - P28379: Humor de caserna (294): "Periquito hoje, velhinho um dia"...




O capelão também ajudava à festa...na receção ao "periquito"... Também ele um dia  fora "praxado", também  ele um dia fora "periquito"...







Terão sido as bajudas fulas quando chegaram ao cais para oferecer ao novo contingente os seus préstimos de lavandeiras e se depararam com uma formatura de soldados todos vestidos de verde,  que os batizaram: "Iiih!, jubi ! Agora cá tem maçarico, só manga de periquito".

(Conta o Zé Botelho Colaço, um VCC, da batalha do Como, jan-mar de 1964) 



Duas coisas em que o burro do "artista gráfico" da IA nunca acerta: a p*ta da G3 e a m*rda do quico!


Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA (ChatGPT/OpenA).
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Nota do editor LG:

Último poste da série : 26 de setembro de 2026 >
Guiné 61/74 - P28377: Humor de caserna (293): "Salta, periquito, salta!"...


sábado, 26 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28378: Os nossos seres, saberes e lazeres (752): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (272): Heidelberg, do castelo para o centro histórico da cidade, amanhã vou passear em Idstein e depois assistirei a um concerto memorável no Festival de Música do Reno - 7 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Não escondo que percorri alguns sítios de Heidelberg um tanto na mó de baixo, tinha o destino marcado para na semana seguinte ir fazer uma intervenção cirúrgica à hérnia inguinal, que bem se manifestava, a despeito dos comprimidos para afastar a dor. o Castelo é de visita obrigatória, tanto que já está conservado e restaurado como pelo que, pelo adiante, terá obras, tornando ainda muito mais belo esse património. Não foi possível visitar o interior dos edifícios restaurados, pelo que vi das imagens, os príncipes eleitores viviam em grande magnificência, rodeados de arte soberba, fica para a próxima visita, não me importaria de voltar amanhã a Heidelberg. Como me deslumbrei no Centro Histórico e todo o seu embelezamento, a igreja do Espírito Santo tem igualmente um gótico deslumbrante. No regresso desta visita fui fazer um passeio de despedida à terra dos meus anfitriões, Idstein, estou convicto que os leitores gostarão de ver toda esta magnífica estrutura com vigas em madeira e sobretudo da igreja protestante da cidade que possui um teto que é uma autêntica bíblia ilustrada, mostro na próxima semana.

Um abraço do
Mário


Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (272):
Heidelberg, do castelo para o centro histórico da cidade, amanhã vou passear em Idstein e depois assistirei a um concerto memorável no Festival de Música do Reno - 7


Mário Beja Santos

Confesso que é a custo que me despeço do Castelo de Heidelberg, elogios e exultações sobre este património que vêm na literatura que consultei, desde expoente do romantismo ao mais pitoresco dos castelos em arenito rosa. Passeei-me por edifícios devidamente restaurados, como foram mostrados na semana anterior, mas por vezes andei por ali especado a cogitar em que dão as guerras, no caso vertente deste castelo tudo se deveu à Reforma e a razões políticas da sobrançaria francesa. Em 1622, o Marechal Tilly, da Liga Católica, devastou a cidade. Anos depois, em 1633 e 1635, dois novos assaltos. Seguem-se os jogos da ambição política. O eleitor Carlos Luís (1632 e 1680) Príncipe calvinista tolerante e pacífico, restaurou o Palatinado devastado pela guerra, procurou a aproximação com a França, fez o acordo de casamento da sua filha Elizabete Carlota com Filipe de Orleãs, irmão de Luís XIV. Esta aliança, contraída com a finalidade de proteger o Palatinado, trouxe, ao contrário, trágicas consequências. Em 1685, o único irmão da princesa morreu sem herdeiros e Luís XIV reclamou o Palatinado – começou assim a guerra (1688-1697) desastrosa para o Palatinado e particularmente funesta para Heidelberg. Em 1689 as tropas francesas pilharam a cidade e destruíram o castelo. A história não fica por aqui, seguiram-se as guerras napoleónicas, com a derrota do imperador esta região tornou-se possessão da Baviera com o nome de Palatinado. Reconstruiu-se Heidelberg, as obras de reedificação e restauro do castelo continuarão por muito tempo, a primeira fotografia que se mostra é uma pálida amostra.
Estamos perto da entrada ou saída do castelo, protegi-me por baixo daquelas belas arcadas e a olhar para as destruições que dão o fanatismo religioso e a cegueira do poder.
É a igreja do Espírito Santo, templo protestante que se apresenta como aberto ao povo de todas as religiões, culturas e nações. Situada na região nobre da praça do mercado, aqui tiveram como última morada 54 príncipes eleitores e a biblioteca da universidade. A igreja foi profundamente afetada pelas destruições de 1683. Em 1558, o então príncipe eleitor estabeleceu a fé protestante, e hoje pautou-se pelo catecismo da igreja calvinista reformada. O seu órgão é moderno, foi construído em 1983 e renovado em 1987. Mozart, Mendelssohn e Albert Schweitzer tocaram órgão nesta igreja. Existiu aqui a mais importante biblioteca do Ocidente dos tempos do Renascimento, a Biblioteca Palatina, também sofreu com a guerra religiosa, durante a Guerra dos Trinta Anos a biblioteca foi transferida para o Vaticano, aqui voltou em exposição em 1986. Deslumbrou-me pelo seu gótico final adicionado ao barroco e intervenções que se estendem a alguns vitrais.
Uma bela fachada, ali bem perto da igreja do Espírito Santo.
Era inevitável, havia que visitar o rio Neckar e contemplar a outra margem do rio, atravessa-se esta bela ponte com duas formosas torres de guarda, a ponte velha, que data de 1786 está decorada com estátuas.
A torre sineira da igreja do Espírito Santo, vista assim nem dá para imaginar que lá dentro há uma igreja salão que deslumbra quem quer que seja, crente ou descrente.
Não havendo condições de visitar a universidade nem o museu do Palatinado, deu-me para bisbilhotar o centro histórico, agradou-me esta rua e a vista ao fundo da frondosa colina.
Mudamos agora de rumo, regresso a terras de Hessen, mais propriamente a Idstein, aqui pontificaram os condes de Nassau-Idstein, condes e soberanos, a cidade foi o centro da região entre finais do século XIII e do século XVIII. Tem um belo castelo de residência, mas comecei o percurso em frente da casa de Killing com esta magnífica fachada escultórica com estrutura de vigas de madeira expostas, li na brochura que me deram no turismo que é a casa mais luxuriante de Idstein.
O centro histórico está enxameado de preciosidades arquitetónicas, como é o caso desta casa inclinada, também dotada de estruturas de vigas de madeira, tem uma altura de quatro andares, teve farmácia, foi imóvel comercial e casa de habitação. A sua inclinação decorre de erros arquitetónicos. Teve restauros no final do século XX, é hoje património da edilidade.
E despeço-me por agora com esta escultura inesperada de homenagem aos varredores, uma coisa é certa não há latas, nem garrafas, nem papéis nestes pavimentos, seguramente por disciplina cívica do povo e trabalho de higiene urbana afincado. Prossegue-se o passeio em Idstein, volta-se ao Vale do Reno e depois é hora da despedida, um dia de visita em Trier, comboio para o Luxemburgo, avião para Lisboa.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 19 de Setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28360: Os nossos seres, saberes e lazeres (750): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (271): Heidelberg, cidade poupada na Segunda Guerra Mundial, pilhada pelos exércitos de Luís XIV em 1689, as ruínas mais famosas do romantismo - 6 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 20 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28362: Os nossos seres, saberes e lazeres (751): Alcobaça Terra de Paixão (Juvenal Amado da CCS / BCAÇ 3872)

Guiné 61/74 - P28377: Humor de caserna (293): "Salta, periquito, salta!"...




Guiné > Região Oeste > Sector O4 > Mansoa > CCS / BCAÇ 2885 (1969/71) > c. 1970 > O alferes graduado capelão José Torres Neves brincando com um periquito... Foto da legenda: "Salta, periquito, salta!"... Que é como quem diz: "Periquito, assim começa a tua comissão de serviço, leia-se a tua guerra”

Foto (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI) ]




Vídeo (1' 02'' ). Alojado em You Tube > ADBissau

(Cortesia do nosso saudoso Pepito, 1949-2014.
cinco meses antes de o Pepito morrer)


1. O termo "periquito" (ou "Pira") é um dos termos mais divertidos e amplamente reconhecidos da gíria  militar portuguesa,  que nos ficaram do tempo da guerra colonial na Guiné (1961-1974). (Em Angola, era "maçarico", em Moçambique, "checa"!.) Só o nosso blogue tem já cerca de 40 referências com o descritor "periquitos".

A transição e a passagem de testemunho entre quem chegava, vindo da metrópole, e quem partia,  geraram um tipo de  humor de caserna (*), riquíssimo, picaro, brejeiro, amplamente documentado nas memórias dos antigos combatentes, como no caso do nosso blogue.

O recém-chegado a Guiné  recebia o nome de "periquito" (leia-se: "piriquito",   sic, ou "pira"), contrastando em tudo com os "velhinhos", a começar pela farda e o comportamento verbal e não-verbal:
  • farda novinha em folha 'versus' farda desbotada, puída, roída pelo suor, pelo sol, pela chuva, pela água e pelas pedras do rio,   pelas operações no mato, etc.,  dos "velhinhos" (se tivessem mais de 24 meses, eram "VCC", "velhinhos como o car*lho");
  • o "periquito" ,imberbe, andava de cabeça erguida, a girar como um radar, assustado, atento a todos os ruídos e sinais;
  • a pele branca de quem vinha da metrópole;
  • enquanto o "velhinho"  já tinha o olhar "vazio", o andar arrastado, o cigarro ao canto da boca, a pele tisnada do sol tropical, "completamente apanhado do clima"...

A chegada dos "periquitos" desencadeava um ritual ruidoso, um clima festivo, um ambiente eufórico nos aquartelamentos que contagiava tudo e todos (incluindo a população ao lado, e em especial, as mulheres, bajudas e crianças). 

 As cantorias serviam para saudar mas também  "humilhar" ritualmente o novato e, simultaneamente, aliviar a tensão de quem ia finalmente regressar a casa. 

"Periquito vai no mato..." era a cantilena  mais famosa entoada pelos "velhinhos" , e que  dizia algo como: "Periquito vai no mato, / Ó lé, lé, lé!, / Velhice vai no Bissau ,/ Ó lé-lé – lé-l!" (**)... 

Uma cantilena que ficou na memória da própria população que conviveu com a tropa portuguesa  (vd. video acima gravado em Gadamael)....

 No fundo, era também um aviso implacável de que a guerra real começava ali e que a inocência ia desaparecer no primeiro embate com os "turras", o "batismo de fogo"... Misturava bravata, bazófia, rivalidade piscológica, humor, praxe...

Outro ritual era a contagem dos dias: enquanto o "periquito" contava os meses em falta  para o regresso a casa e a "peluda" (22/24 longos meses), os "velhinhos" cantavam vitória, arremessavam os quicos ao ar, gritando os dias que lhes restavam para partir para Bissau e embarcar nos navios Niassa ou Uíge ou nos aviões da TAM (Transportes Aéreos Militares, a partir de finais de 1972).

As praxes, à chegada, eram uma forma, se quisermos,  de "batismo de fogo artificial", simbólico,  para integrar o pobre do  "periquito" na dura realidade da Guiné  Algumas das partidas mais comuns podiam incluir:
  • o batismo do balde ou agarrafa de água fria: despejar água sobre o novato enquanto este dormia;
  • falsos alarmes: (i) os  "velhinhos" simulavam ataques com rebentamentos de petardos ou tiros para o ar a meio da noite para ver os "periquitos" a saltar, aterrorizados, para as valas ou abrigos, ainda de pijama ou descalços; (ii) fazê-los acordar com a ponta da pistola Walther ou da G3 na nuca;
  • as missões inventadas: (i) mandar o periquito procurar a "chave do teto do jipe"; (ii) buscar a garrafa de  "óleo de pirilampo"; (iii) retirar as estrias do morteiro 81 ( que é  de alma lisa...); ou (iv)  ser chamado a um oficial fictício.

Apesar da aparente crueza e estupidez de algumas praxes, a rendição da comissão tinha um papel prático fundamental. Nos dias em que a subunidade que ia ser rendida ("velhinhos") e a subunidade que vinha render ("periquitos") coexistiam no mesmo aquartelamento (a chamada "sobreposição", dormindo muitos ao relento), os velhinhos passavam o conhecimento de sobrevivência aos periquitos:

  • ensinavam os trilhos mais perigosos e onde o PAIGC costumava montar emboscadas;
  • mostravam como detetar minas e armadilhas no mato;
  • ajudavam na habituação ao clima hostil, à humidade extrema e às doenças tropicais (como a malária);
  • davam instruções úteis para lidar com as lavadeiras, a população, as milícias, etc.

2. Em relação à legenda da foto acima, do capelão militar de Mansoa (“Salta, salta, periquito!”), há uma distinção particularmente interessante: “periquito” não era apenas uma alcunha depreciativa para o recém-chegado, era também uma categoria transitória dentro da vida militar. 

Na Guiné, começámos a "comissão de serviço", com a alcunha de "periquito", do soldado básico ao general... (O general Spínola, que veio "render" o "velhinho" Schulz,  foi tão "periquito" como todos nós...)

Cada homem chegava como "periquito"; depois, com a experiência, tornava-se “velhinho”; e, finalmente, regressava a Portugal, deixando atrás de si outros "periquitos". 

A comissão tinha, assim, uma espécie de ciclo geracional próprio.

De facto, quando os "velhinhos" finalmente embarcavam de regresso a Portugal, os "periquitos"  deixavam instantaneamente de ser os "alvos das piadas" para passaarem a ser os "donos do chão" (o subsector)  que lhes fora destinado e para assumirem a responsabilidade total pelas suas vidas e pelas vidas das populações à sua guarda.. 

Passados 6 meses já começavam a comportar-se como ' velhinhos" (e a cometer os mesmos erros), preparando-se para dali a ano e meio  saudar  (e receber com praxes) cantar para a próxima geração de "periquitos".

E há um pormenor que é importante voltar a sublinhar, e que está subentendido na foto do nosso padre José Torres Neves:  o “periquito” podia ser simultaneamente alvo da brincadeira e objeto de proteção/ensino.

 A praxe marcava a diferença entre os dois grupos, mas a passagem de informação (como se comportar no mato, conhecer o terreno, os perigos, os hábitos da população local) fazia parte da transmissão da experiência.



António Murta


A cena não é a de uma simples “praxe”, ou de um refrão de uma cantilena para "humilhar". O capelão está a brincar com um recém-chegado, aparentemente num momento descontraído. A frase “Salta, salta, periquito!” tem precisamente aquela ambiguidade muito própria da guerra: brincadeira, iniciação, gozo com o novato e, ao mesmo tempo, uma forma de camaradagem.

2. Já aqui publicámos um excerto do diário (***) do nosso camarada António Murta, ex-alf mil inf MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba (**), 1973/74): merece ser recordado, agora na série "Humor de caserna" (*):

(...) À chegada da coluna a Nhala, e ainda antes de termos descido das viaturas, num ápice, formou-se uma pequena multidão vinda da tabanca, sobretudo mulheres e crianças, que nos receberam com palmas, cânticos, enfim..., se não em apoteose, pelo menos com grande euforia.

Fiquei entre contente e surpreso, a achar tudo um bocado exagerado. Seria sempre assim? Não foi preciso passarem muitos dias para ter uma explicação, plausível, para aquele acolhimento tão efusivo.

E cantavam acompanhando com palmas:

Periquito vai pró mato,
Ó lé, lé, lé!, 
Velhice vai no Bissau ,
Ó lé-lé – lé-lé!. 

Esta cantilena, soube depois, era conhecida em quase todo o território da Guiné (**). E eram-lhe acrescentados outros versos, que só aprendi mais tarde, muito brejeiros e, pareceu-me, ao sabor da inspiração do momento:

"Mulher grande cá tem cabaço,
  Ó lé, lé, lé!,
Bajuda tem manga dele,
Ó lé-lé – lé-lé"
"Mulher grande cá tem catota, 
Ó lé, lé, lé!,
Bajuda tem manga dela,
Ó lé-lé – lé-lé"

E voltavam ao princípio com o Periquito vai pró mato, etc. etc. (...)

A população de Nhala é Fula. Os adultos parecem muito indiferentes em relação a nós, ou mesmo frios. Dependem muito da tropa, mas estão fartos de tropa. As mulheres e as bajudas atravessam o aquartelamento para se deslocarem à fonte que fica a pequena distância, num baixio. Está sempre alguém a passar para um lado e para o outro com bacias à cabeça e com a roupa que nos lavam. (...)

As bajudas, algumas bonitas, e toda a criançada são uma simpatia. É contagiante a alegria delas e um bálsamo para a nossa saúde mental. Ainda assim, como já disse, os “velhinhos” de Nhala parece que já não beneficiam desse bálsamo. Aproveitando as recomendações deles, vamos escolhendo as nossas lavadeiras. A oferta é grande, de modo que se fazem “contratações” despreocupadamente.

E em matéria de sexo, como é? Já em Bolama aprendemos que há lavadeiras “que lavam tudo” por pouco mais que a mensalidade da roupa lavada. «Desiludam-se!». As fulas são muito reservadas e pouco permissivas.

Contam-nos um caso ou outro de envolvimento com militares, mas excepcionais e por questões de afecto. A tropa em geral vai brincando, mais ou menos inocentemente, com as bajudas mais velhitas, mas sem consequências nem gravidade. De vez em quando, por ocasião da entrega da roupa lavada aos soldados, lá vem uma delas fazer queixa:

- Alfero, o soldado Manel do teu pelotão apalpou minha mama!

E eu perguntava:

- Ai, sim? E não lhe deste uma estalada?

E estava o caso resolvido. (...) 

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)

__________________

Notas do editor LG:

(*)Último poste da série > 20 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28361: Humor de caserna (292): Em Bissau, bebia-se "Cuba Livre", e em Lisboa, no Cais do Sodré, ..."uísque de Sacavém"Vd. postes de:

(***) Vd. postes de:

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Terá sido uma exposição esplêndida, uma oportunidade em conhecer o espólio deste fotógrafo que tinha estabelecimento em Bissau e que se revelou particularmente ativo na governação de Spínola. Este espólio tem a sua história que aqui se conta, uma técnica conceituada, Catarina Mateus, reflete sobre questões de acesso, legado e poder colonial, para nos lembrar a exiguidade de recursos, daí poder dizer-se que deste espólio monumental só se conhece um vislumbre. Foi convocado o historiador Pedro Aires Oliveira para contextualizar a governação de Spínola, nela mergulhou este fotógrafo, registando um sem número de eventos. Deixamos para o texto seguinte as considerações das curadoras da exposição do que foi organizar a partir do Arquivo esta exposição de que resulta este livro/catálogo que conheceu uma edição muito magra, trezentos exemplares.

Um abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro de Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

A então colaboradora técnica deste arquivo, Catarina Mateus, depõe no livro/catálogo: que tomara conhecimento deste espólio em 2025, pois na altura integrava uma equipa que se ocupava da identificação e diagnóstico do vastíssimo acervo fotográfico do Instituto de Investigação Científica Tropical; no ano seguinte, em 2006, iniciaram-se os tratamentos às coleções.
“Foi neste contexto que o espólio de Álvaro de Barros Geraldo (ABG) foi integrado no Arquivo Histórico, analisado e diagnosticado. Estima-se um acervo de 82.300 fotografias, maioritariamente negativos em película de 120mm e de 35mm, e um conjunto de slides e provas de contacto, para além de uma pasta com documentação impressa e recortes de imprensa. Excetuando estes últimos, todos os negativos se encontram embalados em envelopes de papel, devidamente identificados, que por sua vez, se encontram em caixas de cartão distribuídas por ano. Documentam uma década de trabalho deste fotógrafo que, estabelecido com uma casa comercial de fotografia na Guiné-Bissau a partir da década de 1950, acompanhou de perto as movimentações políticas sociais e culturais, que registou entre os anos de 1966 e 1974.”

Porventura e atendendo a estas datas, convidou-se o historiador Pedro Aires Oliveira a depor sobre a governação de Spínola na Guiné, de algum modo ABG colaborou para a sua imagem, as suas fotografias aparecem na publicação Voz da Guiné e tratadas em meio local. O historiador procura dar sentido histórico à ação desenvolvida por este governador, apresentada em inúmeras fotografias. Instalado em Bissau, a partir de finais de maio de 1968, foi delineando o seu plano de contrassubversão, plano esse sistematizado através de um conjunto de Diretivas do Comando-Chefe.

Em Lisboa, recebe-se um diagnóstico por ele escrito que era devastador, relevava a desmoralização das forças portuguesas, a deficiência no campo das informações e à forma como o dispositivo militar se encontrava organizado – dispersão excessiva em aquartelamentos sujeitos à flagelação persistente do inimigo; para inverter este estado de coisas, o Comandante-Chefe recria uma mais completa unidade de comando (uma maior concentração de todas as competências operacionais) e pedia meios compatíveis para reequilibrar o estado da guerra, atendendo à notória falta de armamento e equipamento dissuasor. Vieram helicópteros Alouette III, equipamentos de transmissões, reforços para a Marinha, uma expansão da estrutura local da PIDE/DGS, ao mesmo tempo que se criava um novo serviço de informações.

Pedia inovações e obteve-as: a preparação dos efetivos a realizar no final da especialidade passariam a ser feitos na Guiné; e acentuou a africanização do recrutamento, deu-se ênfase a tropas de elite guineenses, envolvendo comandos, fuzileiros e tropas especiais. Na linha dos ensinamentos da guerra contra subversiva, foi criado o programa Por uma Guiné Melhor, criaram-se aldeamentos, diques, escolas, melhoraram-se as estruturas habitacionais, algumas destas com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian; a ação psicossocial e da propaganda ganhou novo fôlego, com o uso do panfleto, do cartaz, dos materiais audiovisuais, da fotografia, sobretudo, da rádio, esta passou a ter emissões em línguas nativas.

É evidente que tudo isto é matéria consabida, por muito carisma pretoriano que acompanhasse toda esta ação, como observa o historiador, acabou num beco sem saída, Marcello Caetano recusou-lhe a negociação com a força nacionalista, deu mesmo a entender que não era forçoso que os exércitos vencessem em todas as circunstâncias, o que veio agitar o fantasma da União Indiana, em que o regime encontrou os seus bodes expiatórios.

E assim passamos do Arquivo à exposição e a olhar o espólio de ABG como uma indeclinável fonte documental relevante. O texto de Inês Vieira Gomes e Catarina Laranjeiro, intitulado do Arquivo à Exposição: Guerra Colonial, Revolução e o Espólio de ABG retoma as considerações de Catarina Mateus, a então conservadora de fotografia do Arquivo Histórico Ultramarino.

“Mostrar este espólio no contexto das comemorações dos 50 Anos do 25 de abril pareceu-nos extremamente pertinente. Esta retrospetiva revela não só a importância histórica na guerra da Guiné-Bissau para as independências das ex-colónias portuguesas, mas também o seu papel central na própria Revolução de Abril. A Guerra Colonial continua frequentemente ausente daas comemorações do 25 de abril, como se se tratasse de um capítulo incómodo que o regime democrático preferisse manter à margem da memória pública.”

As autoras põem enfâse no número dos efetivos militares, lembram as obras plásticas produzidas, algumas delas entraram em sinergia com o período da exposição que decorreu no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Fala-se então do espólio:
“A parte da Guiné-Bissau no inventário do Arquivo Histórico pode ser subdividida em dois conjuntos temáticos. O primeiro é constituído por reportagens que documentam atividades sociais, políticas e desportivas. Incluem-se aqui receções protocolares, inaugurações de edifícios, visitas oficiais, procissões, atividades escolares, bem como atividades e operações militares. Nestes registos, destaca-se as exibições de armamento apreendido ao PAIGC, e a libertação de prisioneiros, entre outros eventos. Imagens de propaganda. O segundo conjunto insere-se no amplo desígnio de usos e costumes: retratos, danças ou outras expressões culturais, detalhes (penteados, tatuagens, roupas, acessórios). É evidente o modo como a fotografia foi apropriada no contexto colonial: homens e mulheres são fixados pela câmara como objetos etnográficos, captados num olhar que os classifica e os distancia, reiterando uma visão hierárquica e exotizante sobre as populações colonizadas. É notável a forma como ABG organizou o seu espólio.”

Veremos depois a biografia controversa e fragmentada de ABG, mostrando mais um acervo fotográfico das suas imagens.

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
João Egreja e Álvaro de Barros Geraldo na fronteira do Senegal, Pirada, 14 de junho de 1972
Ramadão, 27 de fevereiro de 1969
Congresso de Etnia Balanta, 22 de abril de 1972
Chegada do Duo Ouro Negro, 4 de novembro de 1969

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro

Guiné 61/74 - P28375: In Memoriam (587): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte II : O meu Natal de 1966, no Clube de Sargentos, na BA 12, Bissalanca







Foto nº  1A, 1B, 1C, 1D  e 1> Guiné > Bissalanca > BA 12 >  Comemoração do Natal de 1966 >  Clube de Sargentos > Sargentos da Base Aérea 12 e do BCP 12: em primeiro plano, do centro para a esquerda, o  1º srgt MMT Azevedo e o furriel  sou eu. Em segundo, plano, à direita, o "barista; à esquerda, camaradaa que já não consigo identificar.



 






Foto nº 2A, 2B, 2C 2 > Guiné > Bissalanca > BA 12 >  Comemoração do Natal de 1966 >  Clube de Sargentos > 

Em primeiro plano, da esquerda para a direita: (i)  o 1º srgt Telo, do BCP 12,  brincalhão de primeira; (ii) e pé o srgt Bergano, da Messe; (iii)  fur  Dâmaso (BCP 12), de bigode; (iii)  srgt pqdt  Coimbra; (iv) 1º srgt /MMT Azevedo; (v) barista. Os restantes elementos do grupo estão por identificar.

 





Foto nº 3A e 3 > Guiné > Bissalanca > BA 12 >  Comemoração do Natal de 1966 >  Clube de Sargentos > 

Primeiro plano, da esquerda para a direita, (i) (?); (ii)  srgt pqdt  Coimbra; (iii) srgt ajud Fróis (?);  (iv) O de pêra e canhangulo ao ombro (?); 

Em segundo plano, da esquerda para a a direiat: (i)  srgt pqdt Castanheira; (ii) 1 srgt SG Telo; (iii) srgt pqdt Coutada; (iv) 1º srgt MMT Azevedo; e (v) fur  pqdt  Dâmaso
 

Fotos (e legendas): © António Dâmaso (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].



1. O António Dâmaso (1940-2026), natural de Odemira,  membro da Tabanca Grande desde 26/7/2009, tinha à data da sua morte cerca de 4 dezenas de  referências no nosso blogue. Publicou diversos postes aqui e no blogue dos Especialistas da Base Aérea 12 (Guiné, 1965/74).

Estamos recuperar um ou outro poste que tem a ver com as relações, mais próximas, que ele mantinha com os nossos camaradas da BA 12, nas suas passagens pelo CTIG (1966/68, 1969/70 e 1972/74), e naturalmente com as tropas paraquedistas, a cujo batalhão pertencia, o BCP 12, como furriel e depois 2º srgt. (*)

Neste poste (Voo 904, de 9 de abril de 2009) ele recorda alguns dos camaradas que passaram com ele o Natal de 1966, no Clube de Sargentos da BA 12. Um dos muitos natais passados fora da família.

Recordações da Guiné: Natal de 1966, na BA 12, Clube de Sargentos

por António Dâmaso (1940-2026)


O BCP 12, além das três Companhias operacionais, tinha ainda uma 4.ª Companhia que
começou por se chamar CP (Companhia de Pessoal) e posteriormente CMI (Companhia de Material e Infraestruturas).

Cada Companhia era constituída pelos seus efectivos, no caso da CMI a sua constituição era a seguinte (n=58)



Como se pode ver existem cerca de 50 elementos de outras especialidades, que viviam o dia-a-dia dos páras e, como diziam alguns,  só lhe faltava saltarem para estarem totalmente integrados.

Tal como eles, eu que estive por diversas vezes integrado na CP/CMI / BPC 12, convivemos muito de perto com os Especialista da FAP e eles comigo, de modo que,  além da camaradagem existente nestes casos, havia algo mais que nas circunstâncias nos unia mais como família FAP.

Já falei aqui do 1º srgt MMT Azevedo que me acompanhou no sentido de conseguir peças para as viaturas do BCP 12, que tinham ido para lá já usadas do RCP, mais concretamente os Unimog 404. Íamos ao Serviço de Material do Exército, na Amura.

 Por cortesia os nossos camaradas mecânicos lá nos iam desenrascando umas peças usadas mas ainda com capacidade de fazer alguns quilómetros, a lei do desenrascanço, que a tropa mandava desenrascar.

Nos contactos na Amura, dava sempre direito a irmos ao bar, como toda a gente sabe, aquele calor provocava cá uma sede que só com “ bazucas” frescas a conseguíamos debelar, uns tinham mais poder de absorção que outros e alguns andavam sempre bem aviados, enfim, dizia-se que estavam apanhados pelo clima.

Para os camaradas Especialistas da BA 12, seguem algumas fotos da época, no Natal de 1966, com alguns,  vestidos a rigor, outros nem mais para menos. Talvez me possam ajudar a identificar os de que eu já não lembro o nome.
 
Saudações aeronáuticas
António Dâmaso
Odemira

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG: