quarta-feira, 23 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18669: Guiné 61/74 - P18626: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 50 e 52: (i) tivemos o primerio ferido em combate, numa sexta-feira, 13 de abril de 1973, sendo evacuado por helicóptero; e (ii) o correio está a chegar atrasado depois de aparecerem os Strela...


Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3ª CART / BART 6520/72 (1972/74) > 1973 > O José Claudino da Silva junto  a um bagabaga.

Foto: © José Claudino da Silva (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da pré-publicação do próximo livro (na versão manuscrita, "Em Nome da Pátria") do nosso camarada José Claudino Silva [foto atual à esquerda] (*) 

(i) nasceu em Penafiel, em 1950, "de pai incógnito" (como se dizia na época e infelizmente se continua a dizer, nos dias de hoje), tendo sido criado pela avó materna;

(ii) trabalhou e viveu em Amarante, residindo hoje na Lixa, Felgueiras, onde é vizinho do nosso grã-tabanqueiro, o padre Mário da Lixa, ex-capelão em Mansoa (1967/68), com quem, de resto, tem colaborado em iniciativas culturais, no Barracão da Cultura;

(iii) tem orgulho na sua profissão: bate-chapas, agora reformado; completou o 12.º ano de escolaridade; foi um "homem que se fez a si próprio", sendo já autor de dois livros, publicados (um de poesia e outro de ficção);

(iv) tem página no Facebook; é avô e está a animar o projeto "Bosque dos Avós", na Serra do Marão, em Amarante;

(ix) é membro n.º 756 da nossa Tabanca Grande.

2. Sinopse dos postes anteriores:

(i) foi à inspeção em 27 de junho de 1970, e começou a fazer a recruta, no dia 3 de janeiro de 1972, no CICA 1 [Centro de Instrução de Condutores Auto-rodas], no Porto, junto ao palácio de Cristal;

(ii) escreveu a sua primeira carta em 4 de janeiro de 1972, na recruta, no Porto; foi guia ocasional, para os camaradas que vinham de fora e queriam conhecer a cidade, da dos percursos de "turismo sexual"... da Via Norte à Rua Escura;

(iii) passou pelo Regimento de Cavalaria 6, depois da recruta; promovido a 1.º cabo condutor autorrodas, será colocado em Penafiel, e daqui é mobilizado para a Guiné, fazendo parte da 3.ª CART / BART 6250 (Fulacunda, 1972/74);

(iv) chegada à Bissalanca, em 26/6/1972, a bordo de um Boeing dos TAM - Transportes Aéreos Militares; faz a IAO no quartel do Cumeré;

(v) no dia 2 de julho de 1972, domingo, tem licença para ir visitar Bissau, e fica lá mais uns tempos para um tirar um curso de especialista em Berliet;

(vi) um mês depois, parte para Bolama onde se junta aos seus camaradas companhia; partida em duas LDM para Fulacunda; são "praxados" pelos 'velhinhos' (ou vê-cê-cês), os 'Capicuas", da CART 2772;

(vii) faz a primeira coluna auto até à foz do Rio Fulacunda, onde de 15 em 15 dias a companhia era abastecida por LDM ou LDP; escreve e lê as cartas e os aerogramas de muitos dos seus camaradas analfabetos;

(viii) é "promovido" pelo 1.º sargento a cabo dos reabastecimentos, o que lhe dá alguns pequenos privilégio como o de aprender a datilografar... e a "ter jipe";

(ix) a 'herança' dos 'velhinhos' da CART 2772, "Os Capicuas", que deixam Fulacunda; o Dino partilha um quarto de 3 x 2 m, com mais 3 camaradas, "Os Mórmones de Fulacunda";

(x) Dino, o "cabo de reabastecimentos", o "dono da loja", tem que aprender a lidar com as "diferenças de estatuto", resultantes da hierarquia militar: todos eram clientes da "loja", e todos eram iguais, mas uns mais iguais do que outros, por causa das "divisas"... e dos "galões"...

(xi) faz contas à vida e ao "patacão", de modo a poder casar-se logo que passe à peluda; e ao fim de três meses, está a escrever 30/40 cartas e aerogram as por mês; inicialmente eram 80/100; e descobre o sentido (e a importância) da camaradagem em tempo de guerra.

(xii) como "responsável" pelo reabastecimento não quer que falte a cerveja ao pessoal: em outubro de 1972, o consumo (quinzenal) era já de 6 mil garrafas; ouve dizer, pela primeira vez, na rádio clandestina, que éramos todos colonialistas e que o governo português era fascista; sente-se chocado;

(xiii) fica revoltado por o seu camarada responsável pela cantina, e como ele 1º cabo condutor auto, ter apanhado 10 dias de detenção por uma questão de "lana caprina": é o primeiro castigo no mato...; por outro lado, apanha o paludismo, perde 7 quilos, tem 41 graus de febre, conhece a solidariedade dos camaradas e está grato à competência e desvelo do pessoal de saúde da companhia.

(xiv) em 8/11/1972 festejava-se o Ramadão em Fulacunda e no resto do mundo muçulmano; entretanto, a companhia apanha a primeira arma ao IN, uma PPSH, a famosa "costureirinha" (, o seu matraquear fazia lembrar uma máquina de costura);

(xv) começa a colaborar no jornal da unidade (dirigido pelo alf mil Jorge Pinto, nosso grã-tabanqueiro), e é incentivado a prosseguir os seus estudos; surgem as primeiras dúvidas sobre o amor da sua Mely [Maria Amélia], com quem faz, no entanto, as pazes antes do Natal; confidencia-nos, através das cartas à Mely as pequenas besteiras que ele e os seus amigos (como o Zé Leal de Vila das Aves) vão fazendo;

(xvi) chega ao fim o ano de 1972; mas antes disso houve a festa do Natal (vd. capº 34º, já publicado noutro poste); como responsável pelos reabastecimentos, a sua preocupação é ter bebidas frescas, em quantidade, para a malta que regressa do mato, mas o "patacão", ontem como hoje, era sempre pouco;

(xvii) dá a notícia à namorada da morte de Amílcar Cabral (que foi em 20 de janeiro de 1973 na Guiné-Conacri e não no Senegal); passa a haver cinema em Fulacunda: manda uma encomenda postal de 6,5 kg à namorada;

(xviii) em 24 de fevereiro de 1973, dois dias antes do Festival da Canção da RTP, a companhia faz uma operação de 16 horas, capturando três homens e duas Kalashnikov, na tabanca de Farnan.

(xix) é-lhe diagnosticada uma úlcera no estômago que, só muito mais tarde, será devidamente tratada; e escreve sobre a população local, tendo dificuldade em distinguir os balantas dos biafadas;

(xx) em 20/3/1973, escreve à namorada sobre o Fanado feminino, mas mistura este ritual de passagem com a religião muçulmana, o que é incorreto; de resto, a festa do fanado era um mistério, para a grande maioria dos "tugas" e na época as autoridades portuguesas não se metiam neste domínio da esfera privada; só hoje a Mutilação Genital Feminina passou a a ser uma "prática cultural" criminalizada.

(xxi) depois das primeiras aeronaves abatidas pelos Strela, o autor começa a constatar que as avionetas com o correio começam a ser mais espaçadas;

(ssii) o primeiro ferido em combate, um furriel que levou um tiro nas costas, e que foi helievacuado, em 13 de abril de 1973, o que prova que a nossa aviação continuou a voar depois de 25 de março de 1973, em que foi abatido o primeiro Fiat G-91 por um Strela

3. Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capºs 50 e 52


[O autor faz questão de não corrigir os excertos que transcreve, das cartas e aerogramas que começou a escrever na tropa e depois no CTIG à sua futura esposa. E muito menos fazer autocensura 'a posterior', de acordo com o 'politicamente correto'... Esses excertos vêm a negrito. O livro, que tinha originalmente como título "Em Nome da Pátria", passa a chamar-se "Ai, Dino, o que te fizeram!", frase dita pela avó materna do autor, quando o viu fardado pela primeira vez. Foi ela, de resto, quem o criou. ]



50º Capítulo  > O PRIMEIRO FERIDO EM COMBATE

Escrever hoje as mesmas palavras que escrevi entre os 21 e 24 anos, num contexto completamente diferente, colide um pouco com a minha actual maneira de ser. Chamar ““turras”” aos guerrilheiros do PAIGC, fora do contexto em que o fiz na época,  faz-me sentir um pouco insensível e aproveito este momento para dizer que não me identifico, passados estes anos, com o que já escrevi e que,  devido ao modo como decidi desenvolver este livro, provavelmente vou continuar a escrever.

O dia 13 de Abril de 1973 foi a uma sexta-feira. Mesmo que não acreditem em superstições, deviam ler o relato que fiz. Eis o texto na íntegra:

Hoje tive a felicidade de receber uma foto tua, contudo meu bem não posso dizer que estou alegre, pois houve algo que ofuscou um pouco este dia que noutra altura seria maravilhoso. É que meu amor, os meus camaradas os meus camaradas saíram hoje às duas da manhã e caíram numa emboscada. 

"Um furriel levou um tiro nas costas tendo que ir um helicóptero busca-lo ao mato mas só depois de vários aviões terem largado bombas sobre os 'turras', pois os meus camaradas estavam completamente cercados e durante cerca de duas horas não se puderam mexer. Logo que os aviões entraram em acção então os meus colegas puderam abrir fogo em abundância e abrir um espaço onde o hélio aterrou para levar o ferido. 

"Nós éramos 80 e eles cerca de 160. Felizmente só houve um ferido que decerto se safará, nós pelo nosso lado. Aliás os meus camaradas pois como sabes não saio daqui, pois como ia dizendo a minha malta matou um e feriram alguns. Apanharam uma metralhadora e algumas granadas o que significa que aqui não lutamos em vão. É claro querida que estas coisas nos arrasam os nervos e é lógico que me sinta um pouco triste pois não é nada agradável saber que um de nós está ferido e que muitos outros poderiam ter perecido na luta”.
Enviei nesta carta uma foto de um Bagabaga (Ninho de formigas).

Disse que, no sábado seguinte, me iria embebedar com whisky, mas não o fiz. Ainda estava doente. No dia seguinte (Domingo de Ramos), tomei o meu primeiro comprimido para dormir.

“Se eu pudesse tomar uma droga que me fizesse esquecer o período que agora atravesso acredita que tomava, embora eu seja contra o uso da droga pois gosto de enfrentar as realidades e a droga torna a vida irreal”.

No dia 16 soube que o nosso furriel estava livre de perigo. Também recebemos as peças para reparar os geradores. Provavelmente, domingo de Páscoa  já teríamos luz eléctrica. [Vd. capº 50, já publicado no poste P18475 (**).


52º Capítulo > CARTA DE AMOR

Tal como era de prever, o correio começou a demorar mais tempo a chegar. Os pilotos civis estavam com receio de voar e nós estávamos a começar a ficar esquecidos neste recôndito lugar.

Já todos nós lemos que as cartas de amor são ridículas. Que dizer, então, das cartas que em média têm entre 500 a 600 palavras e que escrevi diariamente, como já o disse mais de uma vez? Fazendo um pequeno cálculo, em Maio de 1973, só para a minha namorada eu terei escrito cerca de 170.000. Eu próprio estou tremendamente admirado com o teor da maioria das missivas escritas. Devia amar muito esta mulher. Não se riam de mim.

“Toda a minha vida será dedicada a viver para a nossa felicidade e em todos os dias da vida sorriremos juntos para assim afastarmos os dissabores que nos surjam, poderás pensar que por vezes sou um existencialista e que só procuro complicar as coisas mas nota isto que a seguir te digo e vê se não será uma boa maneira de ajudar no futuro a nossa felicidade.

"Fazemos ambos uma lista imaginária dos erros que perdoamos um ao outro e quando algum de nós errar o outro vê se o erro está na lista dos que devem ser perdoados, ora como a lista é imaginária todos os erros estão lá e por isso sempre que um de nós cometa um erro, o outro perdoa-o, se fizermos isso assim, ou seja se perdoarmos sempre os erros que um ou outro tenha de certeza que só isso evitará muitos aborrecimentos na nossa vida conjugal e ajudará muito a sermos felizes. Saber perdoar não é difícil, mas é preciso saber-se perdoar sempre, o perdão ajuda a sentirmo-nos sempre cientes de que temos uma moral cheia de bondade e capaz de compreender os erros dos outros.

"Eu não pretendo com estas palavras ensinar-te; a minha intenção é para que saibas que tenho um coração capaz de amar até à loucura, capaz de odiar intensamente mas que também é capaz de perdoar e se a oportunidade surgir tu verás que saber perdoar ajuda muito a construir a felicidade.

"Antes de terminar por hoje desejo enviar-te muito amor através das palavras que escrevo e desejo sobretudo reconfirmar que cada vez me encontro mais contigo própria, ou seja que cada momento da minha vida tu estás mais dentro de mim e eu sinto-te como se fizesses parte do meu próprio corpo.

"Eu te amo com fervor.

"Envio-te um beijo cheio de ternura, sou teu eternamente Dino.


"Fulacunda 2/5/1973”.

Um dia, talvez a minha neta divulgue na totalidade tudo o que escrevi à avó dela ou pura e simplesmente alguém deite tudo numa empresa de reciclagem. Afinal, não passam de palavras escritas em folhas que estavam em branco e que eu paulatinamente fui preenchendo e o papel pode ser reutilizado.

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 13 de maio de 2018 >  Guiné 61/74 - P18626: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 47/48/49: "Quero dizer-te que só em quinze dias os turras derrubaram cinco aviões"
(**) Vd. poste de 1 de abril de 2018>  Guiné 61/74 - P18475: Efemérides (271): A minha Páscoa no mato, há 45 anos (José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74)

Guiné 61/74 - P18668: Bibliografia de uma guerra (90): Um Barco Fardado, por Eduardo Brito Aranha; Roma Editora, 2005 (1) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Junho de 2016:

Queridos amigos,
Ao princípio desconfia-se e estranha-se, depois entranha-se, porque o devaneio caricatural deste autor é de alta perícia. É um livro raro. Dir-se-á mais adiante que este médico começou a redigir com alma desabrida, talvez cheio de tempo para a minúcia e a argúcia. Depois cansou-se, acelerou a marcha, tentou até o erotismo sem graça nenhuma, despede-se com acusações grotescas a quem com ele diretamente conviveu.
Este livro, se acaso o autor tivesse um rebate de alma e se convencesse que começou por escrever um documento de valor incalculável, todo refeito poderia dar uma obra de estalo. Não é a primeira vez que leio livros que inicialmente fora redigidos pela porta do sublime e terminam nos esconsos perdidos. Voltas que a roda da fortuna dá...

Um abraço do
Mário


Um Barco Fardado, por Eduardo Brito Aranha (1)

Beja Santos

A razão especial por que aqui vou escrever sobre "Um Barco Fardado", por Eduardo Brito Aranha, Roma Editora, 2005, passado em Angola, é por considerar tratar-se de uma obra singularíssima, de uma arquitetura literária exemplar (há defeitos graúdos, mais adiante se explicará), empolgante, tão empolgante que a realidade se submerge perfeitamente na ficção.

Chegou-me o livro pela mão bondosa do nosso confrade Mário Vitorino Gaspar, a quem pedi que vasculhasse na Biblioteca da APOIAR os títulos que pudesse sobre literatura de guerra. Não gosto do título, sente-se que o autor andou às voltas à procura de inspiração, e serviu-se de uma imagem que está muito longe de ser feliz, classificativa para o conteúdo que nos oferece. Em barcos fardados andámos todos nós, quase um milhão, entre 1961 e 1975. Mas lançado na leitura, cedo me deixei surfar nesta esplêndida linguagem de alguém que sem imitar António Lobo Antunes ou José Martins Garcia esgrima com mestria a jocosidade, a manipulação da galhofa e as garrulices de um anti-herói.

Sabe-se que Eduardo Brito Aranha foi cumprir o serviço militar quando andava no segundo ano de Medicina e foi para a Angola onde permaneceu 26 meses. Temos a viagem sacramental depois de algumas recordações da infância e o desembarque do costume. Feitos os registos que cabem nas viagens de toda a gente, entramos na singularidade. Estamos a 6 de Novembro de 1971, alinham-se as viaturas na estrada de Catete, “Seiscentos quilómetros a engolir o asfalto preto da estrada, no chamado planalto, livre de atividades inimigas, apenas paisagem longa com rochedos de Adamastor onde todos os dias se via à mesma hora, pequenas povoações muito afastadas umas das outras, vendedeiras com cestos de bananas e abacaxis, macacos pretos a fugir dos rodados”. A viagem prossegue, desta feita de comboio: “Era uma gigantesca larva encimada de uma fantasmagórica cabeça de rebenta minas, testa de ferro com toneladas de sacos de areia, que penetraria ao longo do paralelo 12, de Nova Lisboa até ao Luso (hoje Huambo), 29 horas de vigilância dos esbugalhados olhinhos dos pequenos lusitas”. Assim se chega ao Luso, deste modo apresentado: “Essa cidade quadriculada, esse Campo de Ourique desterrado e já sem personalidade. Uma meia dúzia de cafés de militares, no intervalo entre dois tiros, a esticar as botas para as sucessivas engraxadelas dos meninos negros que reptilizavam entre as mesas, se quer graxa ou menina, e com o pano do brilho a fazer batuque as biqueiras para mais uma gorjeta”. A 11 de Novembro chegam a N’Riquinha, na planície do rio Cuando. Como se estivesse a escrever no seu diário, pode ler-se: “Não sei como hei-de pertencer a esta terra”. É aqui que começa uma das raridades deste livro, minúcias de um observador que sente a compulsividade de que as partes fazem um todo, do género: “Segue-se a pratada de batatas com ovo cozido esfarelado por cima, peles de bacalhau, espinhas, aqui e além a órbita luzidia de uma azeitona cansada. Cerveja de acompanhamento e para empurrar. Ao fim, tal como os aperitivos, de paga rotativa, o ritual do café solúvel, batido, batido, batido, até a mão doer e a colher ganir no pirex da chávena, o brandy Borges, o fumo às rodelas pelo ar, os arrotos, as anedotas repetidas, as histórias do tempo em que ainda éramos nós. Bom proveito, meus filhos, que daqui a uma hora está tudo com a mesa fome e não há segundo jantar”.

A companhia espalha-se pela quadrícula: um pelotão partiu para Rivungo, outro para Mavinga. Chegou a hora da primeira escolta, de se embrenharem pela mata, com a areia solta das picadas cheias de raízes, lá vão com os ossos a saltar. Desvela contrassensos da burocracia, enviesamentos de decisões que se sobrepõem à realidade: “O capitão fez notar ao comandante de batalhão, sediado no Cuito Cuanavale que, uma vez que o pelotão do Araújo no Rivungo e o do João em Mavinga, N’Riquinha ficaria reduzida ao meu pelotão e ao do Bernardo. Se um partisse para uma operação fora do aquartelamento, que normalmente demorava 3 a 5 dias, quem ficaria a guarnecer o aquartelamento quando se saísse para a água e para a lenha?”.

O capitão é algarvio e apresenta ao seus alferes as tarefas que te por diante: “Estamos entalados num território de área igual à do Algarve. Só que é ao alto. À direita, a Leste, fica a Zâmbia, por onde os gajos entram. A Norte fica a zona de acção de Ninda, a Oeste a de Mavinga e a Sul da nossa zona, depois do destacamento do Rivungo, começa a zona de Luiana. A partir daí já é o Sudoeste Africano que pertence à África do Sul. A nossa missão aqui é simples. Temos de policiar as entradas dos grupos de guerrilheiros, atacar-lhes alguns pontos onde estão sediados”.

São raras as obras em que se enredam perfeitamente o sarcasmo e as atividades militares, diga-se em abono da verdade que muitas vezes se caminha no fio da lâmina para não ser chocarreiro, venial ou estupidamente agressivo. E nesta trama, o autor desembaraça-se para proveito do leitor. Temos aqui o dia-a-dia de um destacamento, a apresentação dos diferentes protagonistas, o colorido do ambiente cola-se-nos, aquela África existe mesmo: “A natureza durante o dia parece esmorecida de calor para, durante a noite, acordar numa pujança de pássaros que piam como que aflitos, voos invisíveis de adejos de um lado a outro do negro do céu, roncos e uivos de animais noctívagos, restolhadas nos arbustos à nossa volta, zumbidos de mosquitos em agressivas investidas e, sempre, sempre trovoadas longínquas no horizonte para os lados da Zâmbia no seu incessante relampejo estroboscópico”.

Aqui e acolá chegam colunas, apresentam-se tropas. Há pormenores burlescos, a obsessão do comandante em que ajardina o destacamento, e daí a risota farta na descrição: “A criação de um jardim naquele deserto fez o capitão nomear um furriel das bandas de Felgueiras e com bom passado hortícola que por sua vez escolheu uns tantos miúdos negros daqueles já com experiência de ir à água de ser pagos a sopa. A essa mesma equipa também se associou um cargo, encarregando-se todos de manter uma horta em constante produção, a qual já existia e era regada por um poço com picota que, nos intervalos das chuvas, fornecia uma caldibana leitosa de argila impossível de beber mas suficientemente boa para nutrir as raízes de tudo quanto fosse legume”. É um arranque de livro em que como muito raramente somos envolvidos pela lufa-lufa centenas de homens fotografados por um autor cheio de verve de observador. A tal ponto que quando o comandante de batalhão vai visitar o destacamento dá de frente com o médico que recebe uma áspera repreensão para se ir imediatamente vestir, aparecera de cabeça descoberta, meias brancas e de calções sem cinto. A obsessão do comandante por um jardim em N’Riquinha volta a manifestar-se, quer gerânios, catos, pneus pintados e admoesta o capitão: “Nunca ouviu dizer que os olhos comem mais que a boca? Uns pretitos a quem se pague com uma sopa e um pão, que para eles já vale muito, servem para estrumar com os dejectos das fossas e estes canteiros aqui. Depois, umas sementes de umas flores mandadas comprar a um dos sargentos que vá ao Luso, enfim… Olhe, no Cuito, o nosso major Tamerlão até goiabeiras lá pôs”.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 11 de abril de 2018 > Guiné 61/74 - P18513: Bibliografia de uma guerra (89): Entender o pan-africanismo para melhor conhecer a guerra em África (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P18667: Álbum fotográfico de António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71) - Parte I: o parto de Helga Reis, em Ponta Consolação, em 6 de janeiro de 1971


Guiné > Região Cacheu > Bula > Ponta Consolação >  CCAV 2639 (1969/71) > 6 de janeiro de 1971 > O fur mil cav Antónioo Ramalho, com o 1º cabo aux enf do seu pelotão, ajudam a vir ao mundo    Helga Reis.



António Ramalho, hoje---


... e ontem

Fotos (e legendas): © António Ramalho (2018) . Todos os direitos reservados (Edição e legendagem omplementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Mensagem, com data de 30 de abril último, de António Ramalho, ex-fur mil at cav, 
CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), membro da Tabanca Grande, nº 757, natural de Vila Fernando, Elvas (*):

Caro Luís Graça, boa noite:

Continuo a visitar o nosso blogue que considero fantástico em todos os seus aspectos desde o gráfico até aos seus conteúdos.

Não tive oportunidade de ter ido a Algés conhecer-vos, só conheço o Mário Fitas, e a Monte Real também é impossível já que nos fins de semana de 5 e 12 de Maio terei que estar no Alentejo.

Encarei os meus vinte e dois meses na Guiné com a determinação para aquilo que tínhamos sido preparados sem contudo nos armarmos em heróis, fomos 150 viemos 150, felizmente.

Além do enorme lote de operações que nos foram distribuídas, umas em conjunto outras solitárias, as coisas não correram mal!

Além disso reordenámos três zonas de Tabancas entre Bula e Binar.

As fotos que envio são da parte light da nossa missão, uma delas é a do momento mais alto da minha comissão, o nascimento da Helga [Reis], a outra não vale a pena recordar! (**)

Publicá-las será uma questão que deixo ao vosso livre critério, é a contribuição que posso oferecer.
Um forte abraço e até a um almocinho aqui para a zona de Lisboa ou arredores.

Subscrevo-me com estima​,

António Fernando Rouqueiro Ramalho

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 20 de outubro de 2017 >  Guiné 61/74 - P17888: Tabanca Grande (450): António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), natural da Vila de Fernando, Elvas, e novo membro da Tabanca Grande, com o nº 757... Faz parte da Associação de Alunos da Universidade Sénior de Vila Franca de Xira.

(**) Vd poste de 15 de outubro de 2017 Guiné 61/74 - P17864: O nosso livro de visitas (194): António Fernando Rouqueiro Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71)....Será possível saber do paradeiro da menina Helga dos Reis que eu e o cabo enfermeiro do meu pelotão ajudámos a vir ao mundo, em 6 de janeiro de 1971, na tabanca de Ponta Consolação (Nhinte) ? A estar viva, terá hoje 46 anos 


(...) Fiz parte da CCAV 2639 (independente de qualquer Batalhão, sob o comando do Com-Chefe) desde outubro de 1969 até setembro de 1971, na zona de Bula, Binar, Bissorã (Bissum), substituída pela CCAV 3420, comandada pelo cap cav Salgueiro Maia [Bula, 1971/73].

Já fui convidado para lá voltar, o que recusei pois não quero presenciar a destruição de tudo aquilo que fizemos em prol das populações, nossos compatriotas na altura.

Além da parte operacional, fizemos o reordenamento das tabancas de Capunga, Pete e Ponta Consolação (Nhinte). Nesta última assisti ao parto, acompanhado pelo cabo enfermeiro do meu Pelotão, no dia 6 de  janeiro de 1971, de uma menina que logo a batizámos como Helga dos Reis.
A tabanca era chefiada por um cidadão chamado Eusébio. Esta menina terá hoje 46 anos, será possível saber do seu paradeiro, estará em Portugal? (...)

terça-feira, 22 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18666: Em bom português nos entendemos (16): senhores dicionaristas, grafem lá o vocábulo "grã-tabanqueiro" ou simplesmente "tabanqueiro"... O nosso pequeno contributo para a celebração do dia 5 de Maio, Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP...



5 de Maio Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP (com a devida vénia...)


1. O dia 5 de maio é, anualmente, o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)... Recorde-se que há 9 países com língua oficial portuguesa, incluindo a nossa querida Guiné-Bissau... E estima-se em mais de 260 milhões os falantes da língua portyguesa.

Este ano houve 180 iniciativas em 57 países, segundo notícias da Lusa, reproduzida pelo Público, de 30 de abril de 2018. Nessas iniciativas, que se prolongam até ao fim do mês de maio, incluem-se mostras de cinema, concertos, recitais de poesia, feiras do livro, espectáculos teatrais, concursos de literatura, encontros com escritores, promoção das artes plásticas, divulgação do português como língua de ciência ou celebração do ensino do português.

Por seu turno, o ministro dos Negócios Estrangeiros recordou que o português é hoje uma das cinco línguas mais faladas no mundo e a primeira no hemisfério sul. "O português já é hoje uma língua de trabalho no sistema das Nações Unidas, já é língua oficial de algumas das organizações especializadas das Nações Unidas, mas esperamos que venha a ser num futuro mais ou menos próximo uma das línguas oficiais da Organização das Nações Unidas", afirmou o chefe da diplomacia portuguesa.


2. O nosso pequeno contributo, a nível do blogue da Tabanca Grande, é também o de resgatar a memória dos que, de um lado e do outro, fizeram a guerra e a paz, na Guiné, entre 1961 e 1974... Guerra colonial, guerra do ultramar, guerra de África, guerra de libertação...

Temos ajudado a reconstruir o "puzzle" (esburacado) da memória desses tempos... E esse trabalho, de construção e reconstrução da memória, passa também pelo "resgaste" de vocáculos e expressões que usávamos, uns e outros, nesse tempo e lugar... A sua origem é duversa: há vocábulos e expressões do crioulo da Guiné, mas também da língua fula, da gíria e do calão da tropa... e da guerrilha.

No nosso blogue temos em uso cerca de 400 abreviaturas, siglas, acrónimos, expressões idiomáticas, termos da gíria, calão, crioulo, etc. Alguns destes vocábulos poderão um dia vir a ser grafados pelos nossos dicionaristas ou lexicógrafos. Acabámos, por exemplo, de propôr a inclusão do vocábulo "grã-tabanqueiro" no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa" (que, com alguma frequência, cita o nosso blogue).

Eis o texto que lhes mandámos:

No blogue, lusófono, coletivo, que eu criei em 2004 e que dirijo, com um equipa de editores e colaboradores, “Luís Graça & Camaradas da Guiné”, é usado o vocábulo “grã-tabanqueiro/a” para designar os membros da rede social a que chamamos “Tabanca Grande”… Originalmente era uma tertúlia (virtual) e os seus membros tratavam-se por “tertulianos”. 

A própria Tabanca Grande (que reúne antigos combatentes da guerra colonial, em especial da Guiné) deu origem a outras “tabancas” (de Matosinhos, do Centro, da Linha, dos Melros, da Maia, de Faro, de Porto Dinheiro, etc.)… Os seus membros tratam-se por “tabanqueiros”… “Grã-tabanqueiro” ( e não “grão-tabanqueiro”) é o que  pertence “formalmente“ à Tabanca Grande… E são já 773, entre vivos e mortos…

Uma pesquisa no Google, com a expressão “grã-tabanqueiro”, dá-nos cerca de 18900 resultados. Este blogue também é fértil em “novos vocábulos”, ligados à guerra colonial e à Guiné, como por exemplo “alfabravo” (obrigado) ou “camarigo” (camarada e amigo). Temos cerca de 400 “abreviaturas,siglas, acrónimos, expressões idiomáticas, gíria, calão, crioulo”, em uso no blogue…

 O blogue, com 14 anos, tem em média um milhão de visualizações de páginas por ano, e vai a caminhos dos 19 mil “postes” publicados…

Em bom português nos entendemos. O Mundo é Pequeno e a Nossa Tabanca… é Grande. Mantenhas,

Luís Graça

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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P18665: Convívios (858): XXIII Encontro do pessoal do BCAÇ 2885, realizado no passado dia 19 de Maio de 2018, em Arganil (Jorge Picado, ex-Cap Mil, CMDT da CCAÇ 2589/BCAÇ 2885)

Os presentes, junto do Monumento, uma vez que os retardatários foram directos a Mont'Alto


1. Mensagem do nosso camarada Jorge Picado (ex-Cap Mil na CCAÇ 2589/BCAÇ 2885, Mansoa, na CART 2732, Mansabá e no CAOP 1, Teixeira Pinto, 1970/72) com data de 20 de maio de 2018, fazendo referência ao XXIII Convívio do BCAÇ 2885:


23.º CONVÍVIO DO BCAÇ 2885, 

QUE DECORREU EM 19 de MAIO em ARGANIL

Realizou-se ontem em Arganil o 23.º Convívio do “resistentes” que fizeram parte do Batalhão de Caçadores n.º 2885, que esteve sediado em Mansoa de 14MAI69 a 14FEV71, comemorativo dos 47 anos de retorno à Metrópole.

A concentração dos participantes efectuou-se na Associação dos Combatentes deste Concelho, cerca das 10 horas, que foram brindados por “um pequeno-almoço”, tendo havido uma pequena alocução referente a mais um evento nesta Associação que ficou marcada pela oferta de uma pequena lembrança, um azulejo com o Guião do Batalhão pintado, para enriquecimento do espólio desta Associação.

Seguiu-se depois a colocação de um ramo de flores junto do belo Monumento dos Combatentes do Concelho de Arganil, que a Autarquia edificou numa ampla rotunda, homenageando-se assim, com este simples gesto, todos aqueles que morreram na Guerra do Ultramar.

O almoço convívio decorreu no Mont’Alto, local panorâmico onde existe um Santuário de grande significado para os arganilenses, de devoção Mariana, de onde se desfruta de uma magnífica paisagem. É aqui que se celebra a 15 de Agosto a festa e romaria de Nossa Senhora do Mont’Alto.

Apesar de as baixas definitivas serem já elevadas e o impedimento daqueles que por diversos motivos não podem comparecer, ainda assim para os “resistentes”, de entre os quais estiveram dois representantes da Tabanca Grande (eu e o camarada César Dias), revivem-se sempre alguns dos bons e também maus momentos passados naquele Chão Balanta do Oio, mas sobretudo manifesta-se uma sã e grande alegria por se reencontrar camaradas que a vida vai afastando e só nestas ocasiões se voltam a ver.

Anexo algumas fotografias alusivas ao evento.

Como o oficial "mais graduado" presente incumbiram-me desta "missão", da entrega da lembrança ao presidente da Associação

Cerimónia de deposição das flores no Monumento dos Combatentes de Arganil

Carlos Costa, meu condutor, eu, Armando e outro soldado atirador que não recordo o nome, visionando fotos do album do Carlos

Alferes Martinez, Soldado Ferreira, Eu e Soldado de Transmissões Pisco, sobrevivente da emboscada de 12OUT970

 1.º Cabo Trms Victor Vieira, 1.º Cabo Quarteleiro(?) Monteiro (é de Campanhã), eu e (?).

Abraços
JPicado
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Nota do editor

Último poste da série de 21 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18658: Convívios (857): 37º almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha, 5ª feira, dia 24 de maio, no restaurante "Caravela de Ouro", Algés. Inscrições até às 24 horas de hoje, 2ª feira (Manuel Resende)

Guiné 61/74 - P18664: Álbum fotográfico de António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil, CMDT da 1.ª CCAV/BCAV 8320/72 e da CCAÇ 17 (6): Ainda a visita à Guiné-Bissau em Março e Abril de 2017

ÁLBUM FOTOGRÁFICO DE ANTÓNIO ACÍLIO AZEVEDO, EX-CAP MIL, CMDT DA 1.ª CCAV/BCAV 8320/72 E DA CCAÇ 17, BULA E BINAR, 1973/74

AINDA A VISITA À GUINÉ-BISSAU ENTRE OS DIAS 30 DE MARÇO E 7 DE ABRIL DE 2017


Foto 164: Gabú (ex- Nova Lamego) - Placa à entrada da cidade.

Foto 161: Bafatá - Entrada principal do Restaurante "Ponto de Encontro", onde num dos dias almoçámos.

Foto 163: Bafatá - Antiga Casa Gouveia, actualmente o Tribunal Regional.

Foto 165: Bafatá - Praça de táxis, na zona central, com um autocarro atrás.

Foto 166: Bafatá: Duas lojas comerciais no centro da cidade.

Foto 175: Bafatá: Uma das principais ruas da localidade.
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Notas do editor

Poste anterior de 1 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18370: Álbum fotográfico de António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil, CMDT da 1.ª CCAV/BCAV 8320/72 e da CCAÇ 17 (4): Ainda a visita à Guiné-Bissau em Março e Abril de 2017

Último poste da série de 13 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18409: Álbum fotográfico de António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil, CMDT da 1.ª CCAV/BCAV 8320/72 e da CCAÇ 17 (5): Bula e Binar em 1973/74

Guiné 61/74 - P18663: Memória dos lugares (376): Cheche , rio Corubal e Madina do Boé, uma trilogia trágica (Xico Allen / Zélia Neno / Albano Costa)


Foto nº 1


Foto nº 2 


Foto nº 3


Foto nº 4


Foto nº 5

Guiné-Bissau > Região do Boé > > Boé > 1998 > Embora esta zona ainda hoje seja pouco habitada, o Xico Allen encontrou e fotografou população civil quando lá esteve em 1998, com o António Camilo, o algarvio, e outros camaradas, mais a sua ex-esposa, Zélia Allen (, hoje Zélia Neno, ,membro da nossa Tabanca Grande). Na época o grupo de portugueses que se deslocou ao Boé, partiu de Quebo (Aldeia Formosa), tomando uma picada existente sempre junto à fronteira com a Guiné-Conacri até á povoção do Boé, nas proximidades da antiga Madina de Boé, nosso aquartelamento e tabanca (, cuja retirada, recorde-se, foi no dia trágico de 6 de fevereiro de 1969).

No regresso, o Xico Allen e amigos vieram pelo Cheche [foto nº 4], onde atravessaram o Rio Corubal, seguindo depois para o Gabu (ex-Nova Lamego). Em Cheche, ponto de cambança, fizeram questão de lembrar (e rezar por) os 46 camaradas desaparecidos (mais 1 civil) no trágico acidente de 6/2/1969, no decorrer da Op Mabecos Bravios.

Trinta anos depois da retirada de Madina do Boé (em 6 de fevereiro de 1969) ainda continuavam vísiveis os sinais das emboscadas e das minas... Restos de viaturas das NT abandonadas  eram verdadeiros fantasmas dos tempos de guerra... Julgamos que entretanto, nestes últimos 20 anos, foram retirados ou destruídos todos estes vestígios "arqueológicos" da guerra colonial. [Fotos nºs 1, 2 e 3]

Na realidade, eram fntasmas da guerra colonial que, de tempos a tempos, perturba(va)m a paisagem e o viajante...

A foto nº  4 foi tirada intencionalmente no meio do rio Corubal, de trágicas memórias para as NT, vemdo-se ao fundo a praia fluvia do Cheche, com rampa de acesso, na viagem de regresso a Quebo (Aldeia Formosa) - Boé - Cheche- Gabu (Nova Lamego).

A foto nº 5 mostra a famosa fonte da Colina do Boé, com ornamentação de azulejo português, pintado à mão, de 1945.  Os vestígios de impacto de balas de armas automáticas são mais do que óbvios.
O Xivo Allen

Esta famosa fonte da Colina do Boé é um sítio onde se concentra(va) alguma população civil da escassa que há (havia) nesta região semidesértica, e a única da Guiné que é, de resto, acidentada (com cotas que sejam quase aos 300 metros).


Fotos (e legendas): © Francisco Allen / Albano M. Costa (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. O Xico Allen (ex-1.º cabo at inf, CCAÇ 3566, "Os Metralhas", Empada, 1972/74, foto à direita), é  um dos primeiros membros da Tabanca Grande, registados em 2006,  tal como o Albano Costa,   foi um dos primeiros camaradas a voltar á Guiné, depois da independência. E nos últimos anos chegou lá mesmo a lá viver.

De acordo com as memórias da Zélia Allen, também nossa tabanqueira, o casal Allen visitou a Guiné do pós-guerra, em abril de 1992, mais um outro casal, o Artur Ribeiro e a esposa. Voltaram em 1994, desta vez foram 3 casais e conseguiram ir a Empada, onde o Xico tinha feito a sua comissão. Uma terceira viagem ocorreu em 1996 e uma quarta em 1998.

 E prossegue a ex-esposa do Xico, a Zélia Neno:

"Lá chegados, passamos uns 2 dias em Bissau e, num jipe alugado, viajámos para o interior, tendo como destino Empada, onde estivemos 2 dias. Aí sim, a experiência foi única até hoje, pois dormimos, comemos e tomamos alguns banhos na tabanca, onde luz só a da lua, das estrelas e da nossa lanterna pois desde a saída da tropa portuguesa não mais houve energia assim como outros bens essenciais, desde material escolar, medicamentos e alimentação. Os banhos, se assim se podem chamar, eram feitos despejando cabaceiras cheias de água retirada de um poço que gentilmente algumas mulheres nos iam entregando, fazendo-os passar por cima de um cercado e que funcionava como banheiro e não só...

(...)"No sábado regressámos a Bissau(...). No domingo à noite, com a chegada do avião,iria juntar-se a nós um grupo de 10 pessoas, 7 deles ex-combatentes, na sua 1ª romagem de saudade que,  como todos os outros era a concretização de um sonho, sendo um deles o Sr. Casimiro, aqui do Porto, que se fez acompanhar pelo seu jovem genro, o Carlos, e outros seus amigos e companheiros de guerra, tendo então eu a oportunidade de conhecer o Sr.Armindo, de Moreira de Cónegos, o Sr. Camilo, do Algarve, o Sr. Pauleri, de Vizela, o Sr.Amílcar, aqui de Gaia, único que levou a esposa sendo assim eu beneficiada pois tive companheira para o resto da estadia e dos restantes lamentavelmente não me recordo dos nomes.

"O que não esquecerei nunca, foi poder ver a alegria misturada com a emoção, quando chegámos a Jumbembem, local bem conhecido deles, pois mais não me pareciam do que crianças irrequietas em pleno Portugal dos Pequeninos, tentando ver todo o canto e recanto onde viveram outrora." (...).




Guiné > Região do Boé > Rio Corubal > Cheche > 6 de fevereiro de 1969 > A famigerada jangada que servia para transporte de tropas e material, numa das últimas travessias, aquando da retirada de Madina do Boé. Foi neste pedaço de rio que pereceram 46 militares e um civil.

A foto, histórica, é do comandante da Op Mabecos Bravios, o então cor inf Hélio [Augusto Esteves ] Felgas (1920-2008). Reproduzida com a devida vénia de Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, n.º 5, abril-junho 1969, pág. 15 (publicação editada pelo Instituto Camões; o n.º 5, temático, foi dedicado ao "25 de Abril, revolução dos cravos).


2. Julgo que,  para a Zélia,  aquela, a de 1998, foi a sua última viagem à Guiné, mas não para o Xico, que continuou a lá ir rgulamente. As fotos que hoje republicamos, em formato "extra large", são dessa viagem de 1998, em que o Xico, a Zélia, o Camilo e outros camaradas e amigos, que foram até à região do Boé, a partir de Quebo, no sul, seguindo a estrada junto à fronteira. Estiveram em Boé, não sei se chegaram a ir a Beli, e seguiram depois pela antiga picada que, indo por Cheche e Canjadude, ia dar a Gabu (Nova Lamego)... 

Fizeram, por isso, o mesmo percurso das NT, no âmbito da Op Mabecos Bravios (1-7 de fevereiro de 1969), ou seja a picada Madina do Boé-Cheche-Canjadude-Gabu. 

Xico Allen (Vila Nova de Gaia)
Estas fotos do Xico Allen têm um enorme interesse documental (tal como as fotos do álbum do Manuel Coelho, ex-fur mil trms da CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68), embora já tivessem sido publicadas, em formato reduzido,  em 6/2/2006, no poste 500 (*).


Na altura, o Xico ainda não era nosso tertuliano (ou tabanqueiro), alegadamente por não ter endereço de email... Mas creio que já estava reformado da atividade bancária. Aliás, em conhecia-o, pessoalmente, a ele, ao Albano Costa , ao Hugo Costa e ao Zé Teixeira, em 31/12/2005, na Madalena, Vila Nova de Gaia, quando me fizeram
uma visita de surpresa, na casa dos meus cunhados onde passei o Natal e o Ano Novo.

Albano Costa (Matosinhos)
Foi o Albano Costa quem , nesta transação, serviu de intermediário, sendo ele mais antigo no blogue (, é membro da nossa Tabanca Grande desde 21/11/2005).  Eis um excerto da mensagem do Albano (que voltaria à Guiné em 2000):

"Caro amigo Luís Graça: Envio sete fotos sobre Madina de Boé, a picada onde foram destruídas várias viaturas durante a guerra colonial, a fonte da Colina de Medina e a população civil de Madina. Luís, vou procurar nos meus arquivos para ofereceres essa imagem ao Mário Dias de uma placa que existe no Boé sobre o Domingos Ramos [, seu amigo e camarada do 1º CSM - Curso de Sargentos Milicianos, em 1959],

"Estas fotos são do arquivo do Francisco Allen: ainda hoje estive com ele, fica contente em saber que são úteis, as fotos. Um abraço, Albano Costa".



Guiné > Carta da província > 1961 > Escala 1/500 mil > Pormenor da região do Boé > .Pormenor do Gabu (Região de Gabu), passando pela antiga Madina do Boé, Cheche e Canjadude.

Fonte: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2018).


 3. Comentário do editor LG:

A independência unilateral da Guiné-Bissau foi declarada em 24/9/1973, não em Madina do Boé (como fez  crer a propaganda do PAIGC durante muitos anos...), mas na região fronteiriça, a leste, alegadamente em Orre Fello, perto de Lugajole, mas já em território da Guiné-Conacri.  Por razões óbvias de segurança... Foi uma das maiores operações de propaganda (e de ofensiva diplomática), a nível interno e externo, dirigidas pelo  PAIGC, já órfão do seu líder histórico, Amílcar Cabral.

Sobre o desastre do Cheche [, o toponómimo correto é Ché-Ché, mas todos dizemos e escrevemos...Cheche], vd aqui.

E a propósito, apraz-me dizer, aqui, aos meus amigos e camaradas da Guiné, que há umas semanas atrás, apareceu-me agora, ao telefone, o Diniz, o ex-alf mil José Luís Dumas Diniz (, da CART 2338), responsável pela segurança da coluna da retirada de Madina do Boé, a fatídica coluna que teve o trágico acidente, na travessia de jangada,  no Rio Corubal, em Cheche, em 6 de fevereiro de 1969 (. Eu já estava mobilizado para a Guiné mas lembro-me da comoção que me provocou a notícia, que foi título de caixa alta  nos jornais de Lisboa)...

O Diniz foi julgado, creio, em tribunal militar, e foi absolvido... O próprio Spínola terá sido uma das testemunhas de defesa... Era preciso um "bode expiatório", o elo mais fraco da cadeia hierárquica...  Ele quer dar-me/nos a versão dele... Vou combinar um almoço com ele... Ele chegou até nós através do Fernando Calado, nosso grã-tabanqueiro, outro camarada e amigo desse tempo (Bambadinca, CCS/BCAÇ 2852, 1968/70)... 

Portanto, felizmente,  o Diniz está vivo e está disposto a falar.,, Já correram rios de tinta sobre o desastre de Cheche, mas falta-nos, em primeira mão, o depoimento de um ator-chave, o nosso camarada responsável pela segurança da jangada... Ele vive entre Cascais e Coruche, se bem percebi... Um dia destes, eu, ele e o Fernando Calado, vamos até à Casa do Alentejo pôr a conversa em dia... LG

Guiné 61/74 - P18662: Parabéns a você (1439): Luciano Jesus, ex-Fur Mil Art da CART 3494 (Guiné, 1971/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 20 de Maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18654: Parabéns a você (1438): Mário Pinto, ex-Fur Mil Art da CART 2519 (Guiné, 1969/71)

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18661: (Ex)citações (338): P18648 - Fiat G-91 abatido sob os céus de Gandembel em 28 de Julho de 1968 (Idálio Reis, ex-Alf Mil da CCAÇ 2317)

Guiné > Bissalanca > BA 12 > 1968 > O Fiat G-91 R4, 5411, uns dias antes de ser abatido (em 28 de julho de 1968). No cockpit, o cap piloto aviador José Nico


1. Mensagem do nosso camarada Idálio Reis (ex-Alf Mil At Inf da CCAÇ 2317/BCAÇ 2835, Gandembel e Ponte Balana, Nova Lamego, 1968/69), autor do livro "A CCAÇ 2317 na Guerra da Guiné - Gandembel / Ponte Balana, com data de 18 de Maio de 2018:

Quanto a este acontecimento[1], eis então o que escrevi no meu livro:

Mas já há muito tempo, e quase todos os dias, pelo entardecer, vinham 2 Fiats G-91 a descarregarem bombas sobre a já citada zona de Salancaur/Unal, de que se dizia terem abrigos inexpugnáveis, e destas tentativas intimidantes da aviação militar, surge a 28 de Julho, mais um dos casos inesperados, e que seria o primeiro a acontecer na Província nestas circunstâncias.

Neste dia, parte da Companhia tinha ido montar protecção a uma coluna de reabastecimentos, de modo que em Gandembel restavam apenas 2 grupos, um dos quais um Pelotão de Caçadores Nativos.

Ouve-se, vindo de longe e dos lados da fronteira, uns estampidos de metralhadora pesada. E passados alguns momentos, um dos soldados que estava atento às trajectórias das aeronaves, claramente distingue que se notava uma chama de fogo na cauda de um dos Fiats. 
Prontamente, via rádio, deu-se conhecimento aos pilotos. E vê-se nos céus, o avião a fazer uma curva acentuada, direccionando-se para o lado da fronteira. E quando a aeronave, já com as chamas bem visíveis na parte posterior da carlinga, passava sobre as imediações de Gandembel, distingue-se um pára-quedas que se ejecta do mesmo, e que vem a cair a cerca de 3 a 4 centenas de metros a sul do aquartelamento, com a aeronave a despedaçar-se em parte incerta, mas muito próximo da fronteira. 

Um documento oficial, refere que o piloto era um tenente-coronel, de nome Francisco Costa Gomes, comandante do Grupo Operacional 1201.

Aparentemente, o local da queda, não oferecia perigos para o seu resgate, desde que se conhecessem os locais das armadilhas em volta do cercado do arame farpado. Procurou-se de imediato arranjar um grupo com metade dos efectivos disponíveis, e então fomos ao encontro do piloto. 

Escondido num arbusto, estava o homem sem distinção da sua patente, e despojado da sua pistola de cintura [mais tarde foi encontrada, e julgamos que era uma Walther].

Já vínhamos a caminho do aquartelamento, e algumas unidades aéreas, como helicópteros e T-6 o sobrevoava, pelo que, franqueada a entrada, logo um dos helicópteros aterrava para o levar rumo a Bissau.

O abate desta aeronave, com fogo antiaéreo de metralhadora 12,7, teve uma óbvia repercussão a nível da Província, e muito certamente reforçou os ânimos dos combatentes locais do PAIGC. Contudo, não deixaremos de anotar, que nos parece que a probabilidade de uma bala anti-aérea, em acertar numa destas aeronaves, era extremamente diminuta, ainda que o IN parece que dispunha de um conjunto de metralhadoras quádruplas, em que os disparos eram bem audíveis em Gandembel. Mas o que é inegável, é que o avião se perdeu, e a perícia do piloto também foi notável para a integridade da sua própria pessoa, pois se tivesse caído em local fora do nosso horizonte de referência (não mais de 2 km), não se dispunha no momento, de condições para ir à sua procura. E muito provavelmente, o piloto poderia vir a ser capturado pelo inimigo.

Em jeito de remoque, parece que o piloto afirmou que teve de fugir de guerrilheiros do PAIGC, quando, na verdade, os elementos que primeiro o viram, pertenciam ao Pelotão de Caçadores Nativos.

Sempre esta dualidade da sorte e do azar, que nos espreitava na leveza de cada duro momento.
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Nota do editor

[1] - Vd. poste de 18 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18648: FAP (105): 28 de julho de 1968, o dia em que o Fiat G-91, nº 5411, pilotado pelo ten cor Francisco Dias Costa Gomes, foi abatido sob os céus de Gandembel, por fogo de AA (Antiaérea)

Último poste da série de 16 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18640: (Ex)citações (337): A propósito das deserções nas fileiras do PAIGC, há um provérbio africano que diz "Todos os cães podem ser bravos, mas são mais bravos dentro das suas moranças", o mesmo quer dizer, dentro dos seus "chãos" (Cherno Baldé, Bissau)

Guiné 61/74 - P18660: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XXXIII: as colunas logísticas até Madina do Boé



Foto nº 101


Foto nº 102


Foto nº 103


Foto nº 104


Foto nº 105




Foto nº 107 > A formação da coluna de várias viaturas à saída do aquartelamento, a caminho de Madina do Boé [Fotos, de 101 a 107]



Foto nº 121 > Pel Rec Daimler 1129 [Nova Lamego, 1966/68]... O Virgílio Teixeira aparece, à civil, de camisa branca, de óculos escuros... O cmdt do Pel Rec Daimler 1129, deve ser o da esquerda, também à civil, com a esposa ao lado. O pessoal parece estar a num churrasco... "Não tive grandes afinidades com o Alferes do Pel Rec Daimler 1129, porque ele tinha lá a mulher, e por isso vivia quase em separação...O pessoal das Daimlers era um grupo que eu apreciava muito, pelo apoio que davam nas colunas para Madina do Boé... Sei que fizemos mais confraternizações, com o esta, mas eles eram um pelotão independente e tinham as suas próprias instalações."




Guiné > Região de Gabu  > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69); natural do Porto, vive em Vila do Conde, sendo economista, reformado; tem jámais de meia centena de referências no nosso blogue.

Recorde-se que o Virgílio Teixeira, de acordo com o seu CV militar (agora corrigido e atualizado):

(i) assenta praça, em Mafra, na Escola Prática de Infantaria (EPI), em 3 de janeiro de 1967, ainda antes de completar os 24 anos de idade; jura bandeira em finais de março desse ano; 

(ii) como habilitações literárias, tinha já os dois primeiros anos da Faculdade de Economia do Porto (, licenciatura que viria a completar  depois da tropa); tinha um irmão, velho, que era  militar de carreira;

(iii) é enviado para a EPAM [Escola Prática de Administração Militar], em Lisboa, no Lumiar; acaba em junho a especialidade de Serviço de Administração Militar (SAM); promovido a aspirante, tem uns dias de estágio, que acaba por não fazer por ter ido para o HMP, na Estrela, fazer fisioterapia por causa de um acidente sofrido  em fevereiro desse ano;

(iv) é mandado para o BC 10 em Chaves, onde deveria também fazer um estágio no CA, em julho, (que não faz, "pois não havia lá ninguém para me orientar; desenfio-me então porque não estava lá a fazer nada");

(v) é mobilizado para a Guiné em 10Ago67 - curiosamente dois anos depois em 10Ago69 chega a Lisboa a bordo do T/T Uíge -, "mas ninguém sabe de mim; encontraram-me, fui a Chaves levei uma piçada do comandante, e só me disse que não me castigava porque já tinha um 'castigo maior', que era a Guiné...

(vi) vai com Guia de marcha paro Campo Militar de Santa Margarida fazer o IAO,  e parte de Figo Maduro, em Lisboa, em 20 de setembro de 1967, num avião militar, com o comando avançado do BCAÇ 1933, para render o outro batalhão, o BCAV 1915, que segue para Bula ("embarco em 20 de setembro em Figo Maduro, chego a Bissau em 21, avanço para Nova Lamego em 24 e regresso a Bissau em 27 de setembro, com objectivo de ir aprender mais alguma coisa na Chefia de Contabilidade, mas vou mais vezes para o Pilão e para a Piscina do Club em vez de ir para CC; depois tenho de aprender sozinho, e cumpri as minhas funções sem nenhuma mácula."

(vii) faz o serviço no CTIG como alferes miliciano, sendo a sua especialidade o serviço de administração militar (SAM); nessa qualidade, foi chefe do conselho administrativo (CA) do BCAÇ 1933, ou seja, o oficial mais perto do comandante de batalhão, que era um tenente-coronel;

(viii) não tendo sido um "operacional" propriamente dito, não pode, por isso, "contar muita coisa sobre operações em concreto, embora tivesse feito muitas colunas militares de reabastecimentos, quer por rio ou por estrada", além de muitas patrulhas à volta dos aquartelamentos, e vivido muitas vezes os bombardeamentos contínuos às posições [das NT]"

(ix) faz questão também de declarar que dá "um valor enorme ao sacrifício das nossas tropas": "conheço, por aquilo que leio agora, o que se passou e nós não sabíamos quase nada. Passaram mais de 40 anos até se perceber o que foi aquela guerra";

(x) comentário final do autor: "Mas sobre o CV falta lá o antes e o depois. Nada foi fácil, como se pode pensar, eu tenho no meu activo cerca de 60 anos de trabalho, e não parece, mas aos 12 anos já era contribuinte da segurança social - naquela época caixa de previdência - passei à situação de pensionista após 45 anos ininterruptos de trabalho e contribuições, por isso com 45 anos de descontos, dou de borla ao Estado 5 anos, pois só precisava de 40. Nem os aumentos de 100% da Guiné precisei deles. Mas nunca parei, e continuei na mesma vida, agora sem mais descontos e a receber a minha pensão. Neste momento apenas escrevo o Livro e comento nos Blogues, ajudo os filhos em burocracias quando eles precisam, pois tenho uma enorme experiência de muitas coisas"....


Guiné 1967/69 - Álbum de Temas: T101 –  As Famosas Colunas Militares para Madina do Boé"

I - Anotações e Introdução ao tema:

NOTAS:

Este novo tema vem na sequência dos últimos Postes sobre Madina do Boé e Béli (*) que estão a dar que falar entre os nossos generalíssimos camaradas.

Tive a oportunidade de ter ‘disparado’ algumas fotos, numa manhã de nevoeiro, com uma coluna a partir de Nova Lamego com destino ao Cheche e Madina. Eram longas filas de camiões, que partiam com reabastecimentos para o Cheche, Madina do Boé e Béli.

Sentia estas deslocações como algo de grande perigo, dadas as minas, os mortos e feridos que caíram por aquela estrada, e com este sentimento, resolvo um dia acordar mais cedo e fazer as fotos, para mim, são uma ‘nostalgia’ incrível, que nunca esqueço.

Não estão grande qualidade, porque a manhã estava a nascer, a quantidade de luz natural era pouca, mas fica o essencial, relembrar aqueles heróicos soldados que faziam aquele trajecto, de pica na mão sempre à procura do ‘clique’,  e que muitas vezes não era detectado e assim os mortos e feridos abundavam.

Estas colunas eram realizadas com grande aparato militar, as viaturas normais seriam as GMC, os UNIMOG, as MERCEDES, e talvez outras, não me lembro de ver BERLIET.

Eram acompanhadas e escoltadas por Unidades de intervenção, abaixo dou uma relação das possíveis, mais os Pelotões Daimler, Fox, e sempre sobrevoadas por aviões T6,  de apoio aéreo.

Normalmente iam elementos da Companhia de Caçadores 5 na missão da frente de picar a estrada. A Companhia de Intervenção de Nova Lamego era a CART 1742.

Unidades possíveis de terem participado nas diversas colunas mensais para Madina:

CCS do BAÇ1933;

CCAÇ 5 ["Gatos Pretos", de Canjadude]; 

CCAÇ 1586,  CCAÇ 1588, CCAÇ 1589 e CCAÇ 1623;

CCAV 1651 e CCAV 1662;

CART1742.

Pelotões Independentes:

- Pelotão de  Morteiros 1191;

- P AM Daimler 1143 e 1129 [Vd. tratar-se do Pel Rec Daimler 1129, Nova Lamego, agosto de 1966/maio de 1968];


- Secção de AM/FOX e Reconhecimento 1578 [Vd. EREC 1578];

- Companhias de Milícias 15, 16, 19, 23.

Fico na esperança que alguém apareça a dizer que estava ali também.  Foram tiradas numa manhã do mês de Novembro de 1967.

Em, 14-05-2018 - Virgílio Teixeira

II - Legendas das fotos:

F101 a F 106 – A formação da coluna de várias viaturas à saída do aquartelamento

F121 – Os elementos do Pelotão Auto Metralhadoras Daimler Nº 1143 ou 1129 [, trata-se do Pel Rec Daimler 1129].

Em, 14-05-2018

Virgílio Teixeira

«Propriedade, Autoria, Reserva e Direitos, de Virgílio Teixeira, Ex-alferes Miliciano do SAM – Chefe do Conselho Administrativo do BCAÇ 1933 / RI15 / Tomar, Guiné 67/69, Nova Lamego, Bissau e São Domingos, de 21SET67 a 04AGO69».
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Notas do editor: