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terça-feira, 2 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28066: Guiné-Bissau, hoje: factos e números (7): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte I

Castanha de caju:  a nova "semente do diabo" ?

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O cunhado do nosso camarada Beja Santos, o professor Dragomir Knapic (1925-2006), especialista em geografia económica,  terá sido um dos primeiros a antever,  em 1964, a  importância da fileira do caju no desenvolvimento agroindustrial da então Guiné Portuguesa (Guiné-Bissau, a partir de 1974, quando Portuga reconheceu a independência).

É um pequeno trecho, premonitório, de uma "sebenta" sobre a geografia económica da Guiné. Merece ser lido e comentado (*):



Fonte: Excerto, pág. 28, de Dragomir Knapic (1925 - 2006) - "Geografia económica de Portugal : Guiné". (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada). (Sublinhados a vermelho, nossos).


2. Em 1964 haveria penas umas escassas centenas hectares de cajueiros plantados na antiga colónia portuguesa da Guiné, segundo o citado autor. A castanha de caju não era exportada nem tinha interesse industrial na época.  (E muito menos os subprodutos do cajueiro.) Era ainda uma cultura marginal.

O grande ciclo económico colonial assentava sobretudo no amendoim ("mancarra" ou a "semente dio diabo", como lhe chamavamos fulas) (**), no coconote (copra), no óleo de palma, em alguma madeira e em produtos alimentares para consumo interno  (arroz, milho, fundo, jeijão, mandioca, batata doce, inhame,  banana e outros frutos tropicais).

Entre 1960 e 1965, exportou-se em média (segundo os números recolhidos por Dragomir Knapic):
  • Amendoim > 31,4 mil toneladas | 107,8 mil contos  | 3,4 contos por tonelada
  • Coconote > 11,9 mil toneladas | 31,2 mil contos |  2,6 contos por tonelada
  • Óleo de palma > 87,7 toneladas  (1960/63) | 381  contos | 4,3 contos por tonelada
Em contrapartida, a Guiné, que era autossuficiente em arroz, antes da guerra,  exportou em média, de 1956 a 1969, 1,4 mil toneladas, ao preço de 3 contos por tonelada. Com a guerra, passou a importar arroz: 8,9 mil t em 1962: 11,8 mil em 1963; 29,9 em 1964. (Não sabemos a que preço.).

Observ. - Em 1965, um conto (=1000 escudos) seria equivalente a menos de 500 euros a  pre 

3.  O caju existia, mas quase como árvore dispersa, de quintal ("ponta") ou de sombra (na "tabanca"). Tal como a papaia, a banana, o abacaxi, o coco, a manga, a cola, a laranja...  

Qual seria então a produção de caju ? Quantos hectares, quantas toneladas ? E hoje ? Quem teve responsabilidade política na decisão de fazer caju para exportação ? É uma perigosa monocultura... não acautela a segurança alimentar da população guineense.

Não se encontrou um recenseamento agrícola colonial suficientemente rigoroso para dizer quantos hectares havia exatamente em 1964. Mas há alguns indicadores.

Segundo séries estatísticas da FAO, a produção de castanha de caju na Guiné-Bissau rondava apenas as 2  mil toneladas em 1961.

Um estudo histórico refere que as primeiras exportações documentadas ocorreram em 1966, e que nesse período o caju ocupava apenas o quarto lugar entre os produtos exportados, muito atrás do amendoim e do coconote. Em 1970 as exportações eram ainda da ordem das 1,2 mil  toneladas.

Portanto, para 1964, a ordem de grandeza plausível será:

  • poucos milhares de hectares (talvez 2 mil  a 5 mil  ha, mas esta estimativa deve ser tomada com muita prudência);
  • produção anual na casa das 2 a 3 mil  toneladas de castanha;
  • praticamente nenhuma indústria local;
  • peso económico insignificante quando comparado com o amendoim.

Hoje estamos noutra galáxia. A produção recente oscila entre 120 mil  e 200 mil  toneladas anuais, conforme os anos e as campanhas. Em 2024, por exemplo, foram reportadas cerca de 178 mil  toneladas, das quais 163 mil  toneladas exportadas.


A área plantada é frequentemente estimada entre 200 mil  e 250 mil  hectares, embora os números variem conforme as fontes e os critérios utilizados. O país tornou-se um dos maiores produtores africanos e o caju representa cerca de 90% das exportações



"Mancarra"

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Comparen-se estes números com os da "mancarra" (em 1964):

  • era o principal produto de exportação da Guiné;
  • representava 76% do total (em 1965, um pouco menos: 61%);
  • área cultivada: 100 mil hectares (=25% do total);
  • produção: c. 65 mil toneladas;
  • rendimento médio: 0,65 toneladas por hectare;
  • regiões de maior produção:  Farim, Bafatá e Gabu.

3. Quem tomou a decisão política?

A questão é interessante porque não houve propriamente uma decisão única nem há um "pai do caju".

A expansão começou ainda no final do período colonial, quando a quebra da produção moçambicana abriu espaço no mercado internacional.

Mas a verdadeira transformação ocorreu após a independência.

Os governos do PAIGC, desde a década de 1970, favoreceram a plantação do cajueiro porque:

  • era uma cultura resistente;
  • exigia pouco investimento;
  • dava rendimento monetário rápido às famílias rurais;
  • permitia obter divisas num país com escassas exportações.

Durante os anos 1980 e sobretudo 1990, com os programas de ajustamento estrutural apoiados pelo FMI e Banco Mundial, o modelo consolidou-se: a Guiné-Bissau passou a exportar castanha em bruto, principalmente para a Índia e mais tarde para o Vietname.

Ou seja, a responsabilidade política é repartida entre:

  • os últimos anos da administração colonial, que reintroduziram o produto nos circuitos comerciais;
  • os governos do PAIGC pós-independência;
  • as instituições financeiras internacionais (Banco Mundial,  FMI) que incentivaram culturas de exportação.

4. Pergunta o leitor: foi um erro?

Não há um resposta  simples. O caju trouxe benefícios reais:

  • rendimento monetário para centenas de milhares de famílias;
  • entrada de divisas;
  • integração de regiões rurais na economia de mercado.

Mas os custos também são evidentes (ambientais, sociais, económicos, alimentares, etc.). Diversos estudos alertam para o avanço dos cajueiros sobre antigas áreas agrícolas e florestais e para a dependência excessiva de uma única cultura de exportação.

O problema maior não  seria tanto o cajueiro em si, mas  o facto de ele ter passado a dominar o sistema agrícola.

Quando o agricultor troca arroz, milho, sorgo, mandioca ou hortas por cajueiros, fica dependente de vender castanha para depois comprar alimentos. 

Se o preço internacional cai ou se a campanha corre mal, a segurança alimentar deteriora-se rapidamente.

A Guiné-Bissau vive hoje uma espécie de paradoxo:

  • exporta quase duas centenas de milhares de toneladas de castanha;
  • mas continua a importar arroz em grandes quantidades.

Há algo de estruturalmente frágil nisto: o país passou de uma dependência colonial do amendoim ("mancarra")  para uma dependência pós-colonial do caju. Mudou o produto, mas não desapareceu a lógica de especialização excessiva.

O desafio seria transformar o caju numa componente importante da economia, sem deixar que ele substitua as culturas alimentares tradicionais nem destrua os sistemas agroflorestais que durante séculos garantiram a subsistência das tabancas. 

Essa é hoje uma das grandes questões económicas e ecológicas da Guiné-Bissau.

(Pesquisa: LG + Knapic (1964) + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

(Continua)

__________________________

Notas do editor LG:

(**) Vd. poste de 7 de abril de 2019 > Guine 61/74 - P19654: (Ex)citações (352): O amendoim ('mancarra'), a semente do Diabo ('Iblissa', em fula) (Luís Graça / Cherno Baldé)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28065: Fauna e flora (29): as cegonhas-brancas do Cabo Sardão, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (Luís Graça)



Foto nº 1


Foto nº 2 



Foto nº 3 e 3A


Foto nº 4


Foto nº 5


Foto nº 6

Portugal > Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina >  Odemira > Cabo Sardão > 30 de maio de 2026

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. No passado sábado, dia 29 de maio de 2026, de regresso do Algarve e percorrendo a Costa Vicentina e Sudoeste Alentejanio, até Sines, avistei e fotografei três ninhos de cegonhas brancas (Ciconia ciconia), em sítios incríveis, em rochas que se erguem a pique, sobre o mar... 

A última observação minha fora feita em 2015 (se não erro) ... Pergunto-me: o que  leva estas aves  a fazer os seus pesados ninhos, no Cabo Sardão,  que fica no concelho de Odemira, entre as praias de Zambujeira do Mar e Almograve no cima das arribas marítimas, a bastantes metros acima do mar, em locais perigosas e inóspitos, para elas próprias e para suas crias? De que é que se alimentam ? E quantos ninhos haverá mais, ao longo desta costa emblemática entyre o Cabo de São Vicente e o Cabo Sardão ?

Eis o resultado das pesquisas, rápidas, que fiz na Net, com recurso a diversas fontes, incluindo a uma ferramenta de IA (ChatGPT / Open AI):


2. As fotografias mostram um fenómeno muito especial do sudoeste de Portugal: as cegonhas-brancas a nidificar nas arribas marítimas da Costa Vicentina. Trata-se de um caso raro à escala mundial.

(i) Porque escolhem locais tão perigosos?

À primeira vista parece uma má escolha, mas para as cegonhas é exatamente o contrário (Foto nº 4). Os principais motivos são:

  • proteção contra predadores terrestres: raposas, cães assilvestrados, javalis e outros predadores (não conseguem chegar facilmente a estas plataformas rochosas isoladas);
  • escassa perturbação humana: as arribas são locais relativamente tranquilos durante a época de reprodução;
  • disponibilidade histórica de locais de nidificação: ao longo de gerações, as cegonhas regressam frequentemente às mesmas zonas onde nasceram;
  • vantagem de vigilância: de um ponto elevado conseguem observar uma grande área para procurar alimento e detetar perigos.
Apesar disso, não se pode subestimas os riscos reais:

  • quedas de crias devido ao vento; 
  • tempestades e mar agitado;
  • colapso parcial dos ninhos;
  • dificuldade de acesso em anos de condições meteorológicas adversas.

Curiosamente, os ninhos podem atingir mais de uma tonelada após muitos anos de reutilização e reforço.

(ii) De que se alimentam?

Embora estejam junto ao mar, as cegonhas-brancas do Cabo Sardão não vivem apenas de recursos marinhos. A sua dieta é muito variada, sendo aves carnívoras e oportunistas:

  • insetos grandes (gafanhotos, escaravelhos);
  • lagartos e outros répteis (pequenas serpentes)
  • ratos e outros pequenos mamíferos;
  • anfíbios;
  • minhocas;
  • pequenos peixes;
  • crustáceos (caranguejos...)  e outros invertebrados costeiros;
  • ocasionalmente restos de peixe encontrados perto da costa.

As zonas agrícolas e pastagens no concelho de  Odemira fornecem grande parte do alimento para os adultos e para as crias.

A informação sobre a dieta resulta do conhecimento ornitológico estabelecido para a espécie Ciconia ciconia, amplamente documentado em guias de aves europeias e estudos científicos. 

(iii) Quantos ninhos existem?

O número varia de ano para ano. Na costa sudoeste portuguesa, entre o litoral de Odemira e Vila do Bispo, costuma existir uma população reprodutora de algumas dezenas de casais, frequentemente entre 50 e 80 ninhos ativos, dependendo das condições anuais e dos censos realizados. (È 
uma estimativa baseada em números históricos da população nidificante da costa sudoeste; náo se encontrou  uma fonte recente e oficial que confirme esse intervalo para 2025/2026.)

VII Censo Nacional da Cegonha-branca (2024) foi realizado pelo ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e Florestas), integrado no Censo Mundial da espécie.  mas os resultados detalhados por região parecem ainda não estar amplamente publicados.

O Cabo Sardão é um dos locais mais emblemáticos e visíveis desta população, mas os ninhos distribuem-se por vários quilómetros de arribas da Costa Vicentina.

O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina identifica expressamente a nidificação da cegonha-branca em falésias e arribas marítimas como uma das características marcantes da região, destacando, entre os locais emblemáticos, o Cabo Sardão (onde se situa o respetivo farol,  cuja construção data de 1915; vd. foto nº 6). 

 As fotografias que tirei são muito interessantes porque mostram precisamente dois exemplos típicos dos chamados "palheirões" (fotos nºs, 1, 2 e 3) rochedos isolados junto às arribas onde estas cegonhas estabeleceram uma estratégia de nidificação praticamente sem paralelo no resto do mundo. 

Além disso, os ninhos parecem estar em bom estado e ocupados por adultos em plena época de reprodução . O primeiro ninho, em particular, mostra bem a enorme estrutura de ramos acumulada ao longo de vários anos, típica das cegonhas que reutilizam o mesmo local sucessivamente.

Aqui há um valor frequentemente citado na literatura e em fontes de divulgação científica: erca de 40 ninhos/casais nidificando em rochedos marítimos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

É importante notar que este número aparece em várias fontes derivadas de censos anteriores e pode não refletir exatamente a situação de 2024 ou 2025

O que existe são referências de campo e observações continuadas indicando "vários ninhos" distribuídos pelas arribas e pelos "palheirões" (rochedos isolados) ao longo de alguns quilómetros de costa.

(iv) Evolução ao longo dos censos

A tendência geral da cegonha-branca em Portugal foi de crescimento muito forte nas últimas décadas. Por exemplo:

  • em 2014 foram registados 11 690 ninhos ocupados em Portugal Continental durante o censo nacional;
  • em 2024 decorreu o VII Censo Nacional, mas os resultados finais nacionais ainda não aparecem facilmente acessíveis nas fontes públicas que consultei.

Para a população específica das arribas da Costa Vicentina, as referências históricas apontam para:

  • instalação inicial de poucos casais;
  • expansão gradual ao longo do século XX;
  • estabilização posterior em algumas dezenas de casais reprodutores.

(v) O que torna este local único?

A populaçãode cegonhas-brancas  da Costa Vicentina é considerada a única, c
onhecida no mundo (ou pelo menos da Europa),  que nidifica regularmente em arribas marítimas sobre o oceano (que podem chegar aos 40 metros).

(...) A cegonha-branca nidifica praticamente de norte a sul do país, sendo notoriamente mais comum a sul da bacia hidrográfica do rio Tejo, excluindo a serra de Monchique.

A norte ocupa a faixa litoral de forma quase contínua até Viana do Castelo e o interior ao longo da raia de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Beira Alta, estando apenas ausente do distrito de Viseu.

É uma espécie generalista que utiliza um grande leque de habitats, como mosaicos de cereais de sequeiro, arrozais, pastagens e pousios, lameiros, montados abertos, mas também zonas húmidas como charcas, açudes, pauis, rios, ribeiras, lagoas costeiras e estuários.

Os ninhos são instalados em árvores (choupos, eucaliptos, pinheiros, freixos, azinheiras, sobreiros ou oliveiras), em edifícios (chaminés, telhados, ruínas, igrejas, silos), em postes de eletricidade, apoios dedicados e postes telefónicos ou escarpas fluviais.

Na costa sudoeste nidifica em falésias costeiras e palheirões, situação única na Europa. Pode nidificar tanto isoladamente como em colónias, quer monoespecíficas, quer partilhadas com garças e colhereiros.

É mais abundante no Alentejo e Ribatejo, regiões que concentram mais de 75% da população nacional. Os distritos de Beja, Évora e Setúbal são aqueles que apresentam as densidades mais elevadas a nível nacional.

É ainda muito abundante nos distritos de Castelo Branco e Faro e a norte, no baixo Vouga, na ria de Aveiro e no baixo Mondego.(...)


(Fonte: Excertos de Atlas das Aves Nidificantes de Portugal > Inês Catry > Ciconia ciconia, cegonha-branca) (com a devida vénia...)

O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina identifica expressamente a nidificação da cegonha-branca em falésias e arribas marítimas como uma das características marcantes da região, destacando o Cabo Sardão entre os locais emblemáticos. ICNF explica ainda que essa adaptação terá resultado da escassez histórica de árvores altas e construções, sendo os rochedos isolados os locais mais seguros contra predadores.

O portal oficial Natural.pt (gerido pelo ICNF) refere expressamente "cegonha-branca a nidificar nos rochedos e arribas marítimas (caso único no mundo)".

É pena que os painéis interpretativos do sítio estejam completamente ilegíveis, inutilizados pela longa exposição ao sol, maresia, chuva e  demais intempéries. 

(Pesquisa > LG + Wikipedia + Natural.pt + Atlas das Aves Nidificantes de Portugal + IA (ChatGPT / Opern AI)

Guiné 61/74 - P28064 In Memoriam (580): Major-general paraquedista Heitor Hamilton Almendra (1932--2026): cerimónias fúnebres hoje, às 13h00, na Igreja da Força Aérea, em São Domingos de Benfica, seguindo depois o funeral para o crematório dos Olivais


1. Faleceu,  no passado dia 28 de maio, o major-general paraquedista Heitor Hamilton Almendra (1932-2026), oficial de Cavalaria e uma das figuras mais marcantes da história das Tropas Paraquedistas portuguesas. Tinha 93 anos.

Nascido em Zoio, concelho de Bragança, em 18 de dezembro de 1932, integrou a geração de militares que construiu e consolidou a arma paraquedista portuguesa, distinguindo-se tanto em campanha como em funções de comando. 

Tem uma brilhante carreira militar (fez cinco comissões de serviço no ultramar, incluindo Timor, Angola, Guiné e Moçambique).

Na 2ª comissão  em Angola, foi 2.º comandante e depois comandante do BCP 21 (Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 21), tendo participado em numerosas operações no norte e leste do território. 

 Os louvores e condecorações que recebeu testemunham as qualidades de coragem, liderança e capacidade operacional que lhe eram reconhecidas pelos seus superiores e subordinados (como foi o caso do nosso amigo e camarada, e membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil pqdt Jaime Bomifácio Marques da Silva,  que serviu sobre as suas ordens em Angola, em 1970/72). A antiga enfermeira paraquedista Rosa Serra também conheceu e conviveu, em Luanda, com o ilustre militar. Foi, de resto, ela que nos fez chegar a triste notícia do seu falecimento. 

Após o 25 de Abril, desempenhou funções de elevada responsabilidade militar, comandando a Escola e o Corpo de Tropas Paraquedistas, e teve papel relevante nos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975. 

A sua carreira culminaria com o posto de major-general, deixando uma forte memória entre várias gerações de paraquedistas.

Segundo nota do sítio oficial da Presidência da República, "o Major-General Almendra foi o primeiro Oficial-General Paraquedista e goza de enorme prestígio no seio nas Forças Armadas, em especial junto das tropas paraquedistas. Ao longo da sua ilustre carreira militar recebeu inúmeras condecorações, destacando-se o grau de oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito e duas medalhas de valor militar com palma, uma grau ouro e outra grau prata".

As cerimónias fúnebres completam-se hoje, com missa de corpo presente às 13h00, na Igreja da Força Aérea (antigo convento de São Domingos de Benfica, Pupilos do Exército, Lisboa), seguindo o funeral às 14h00 para o Crematório dos Olivais.

Os votos de pesar da Tabanca Grande para a família enlutada e os antigos camaradas de armas.

Guiné 61/74 - P28063: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VII: semana de 18 a 24 de março: aqui não há andorinhas a anunciar a Primavera



Timor-Leste > s/l > c. março / abril de 2019 >  O Rui Chamusco 


Foto: © Rui Chamusco (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Rui Chamusco,  professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é ntauraç ds Malcata, Sabiugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande.



1. Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo natal, se a saúde o permitir. Natural da Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã, onde é professor de música, reformado. Teve há dias alta do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, estando a recuperar de uma delicada intervenção cirúrgica.  Daqui vai um abraço meu, de amizade fraterna,  com votos de rápida e efetiva recuperaçáo da saúde. Ruizinho, espero poder-te  abraçar de novo, dentro de dias, na Lourinhã.

O Rui Chamusco, o "abô" Rui, é juntamente com a família luso-timorense Sobral (Gaspar e Glória, e também o "Eustáquio", irmão do Gaspar)  um dos grandes pilares deste projeto de solidariedade com o povo timorense. 

É um exemplo inspirador, de amor à lusofonia e de solidariedade para com o povo de Timor-Leste, que merece ser conhecido pelos mossos leitores. Além disso, há aspetos da história, da geografia e da cultura timorenses que nos são totalmente desconhecidos. 

Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018,  vai continhuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha.  Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas.


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)

 Parte VII: semana de 18 a 24  de março: aqui não há andorinhas a anunciar a Primavera 



19.03.2019, segunda feira  - 1º aniversário da inauguração da Escola São Francisco de Assis


Projeto de Solidariedade em Timor Leste - ASTIL

Faz hoje, dia 19 de março, um ano que a Escola São Francisco de Assis (ESFA) em Boebau foi inaugurada. Apenas com um ano de existência, muito se tem feito para que a ESFA vá caminhando, com passos certos, rumo à sua sustentabilidade e
funcionamento. 

Embora sendo uma escola de ensino privado e particular, como definem os seus estatutos, a ESFA está registada no Ministério da Educação de Timor Leste, com o número 36 da rede de escolas da direção regional de educação do distrito
de Liquiçá.

Ainda sem capacidade de resposta para as 75 crianças inscritas inicialmente, a escola funciona com um grupo de 40 crianças que frequentam o ensino pre escolar, assistidas por duas auxiliares de educação com formação e estágios no “Mundo Mágico” de Dili, instituição credível que a educadora Diana Rebelo dirige, e que graciosamente nos apoia com toda a dedicação.

Ano após ano, iremos acrescentado as turmas de 1º, 2º, 3º e 4º anos de escolaridade, até atingirmos os nossos objetivos: uma escola de ensino pre escolar e primário, com eferências de ensino do programa do ministério, da língua portuguesa e da música.

A par da luta por estes objetivos, preocupa-nos a contratação e a fixação de
educador(a) de infância e de professores do 1º ciclo, a fim de garantirmos o
funcionamento pleno deste estabelecimento. Por isso vamos começar a campanha de angariação de fundos para a construção no local de uma casa para professores residentes, com as condições de habitabilidade necessárias, que nos permita motivar docentes a aqui exercerem as suas funções. 

Talvez que, no começo do próximo ano letivo (Janeiro/fevereiro) já possamos contar com esta infraestrutura.

Quero uma vez mais agradecer a colaboração de todos os amigos e pessoas de boa vontade que ao longo destes três anos nos têm apoiado. Queremos continuar a merecer a vossa confiança. Este projeto de solidariedade é obra de todos nós. Com a participação de todos, e sobretudo com a ajuda de Deus, havemos de conseguir um mundo um pouco melhor, particularmente para estas crianças esquecidas das montanhas de Luiºçã / Manatti / Boebau e das famílias pobres deste país irmão.

CONTAMOS CONVOSCO!...

Rui chamusco


20.03.2019, terça feira  - É primavera com certeza...

Esta é a estação do ano mais desejada. Porque a vida se renova na natureza, porque os rebentos, as flores e as folhas das árvores reaparecem, porque os dias vão crescendo, etc, etc... Assim, nós ocidentais, estamos acostumados a recomeçar de três em três meses cada uma das quatro estações do ano, e a sermos levados musicalmente por Vivaldi a ouvir “as quatro estações”, com destaque para “a sagração da Primavera”.

Pois é. Aqui por este extremo oriente, só contam duas estações: o verão e o inverno.
Da primavera e do outono nem sequer se fala. O que por cá marca a mudança é o
período das chuvas. De resto mal se nota se é inverno ou verão. No inverno como
chove quase todos os dias, são as enxurradas e os caminhos enlameados; no verão é a poeira e um pouco mais de calor. 

Aqui é raro encontrar árvores de folha caduca. Cada espécie, ao seu ritmo, vai florindo e dando frutos sem definir o tempo ou a estação que lhe pertence. Também não se vêm andorinhas que anunciem a primavera. 

Por isso sem sinais evidentes de mudança, esta gente não se apercebe de que já começou a pimavera. Resta-nos a primavera interior, onde a renovação das nossas vidas ganha mais significado e novas dimensões.

Em todo o caso, prefiro soletrar a canção que todos os anos e cantava para os meus
alunos:

 "É primavera com certeza / Vejo andorinhas a voar / Oh, como é linda a
primavera / Com o sol sempre a brilhar./

 Sinto alegria / Ao ver na terra / Como as flores / Ficam tão belas.”

21.03.2019, quarta feira  - “ Entendeu?”... “Não, não entende!”

Pode ser caricato, mas é assim mesmo.

A mãe da Mércia (afilhada do amigo José Escada) veio a meu pedido falar comigo
para esclarecimento de uma situação do programa de apadrinhamento. Depois do
cumprimento habitual, perguntei à senhora: 

− Fala português? 

Ao que ela respondeu:

 
− Sim. Um pouco.

E vai daí, toca a explicar o que realmente aconteceu, para que tudo ficasse bem claro, sem lugar a qualquer dúvida.

Pelo sim e pelo não voltei a perguntar-lhe: 

− Entendeu o que eu disse?

E respondeu-me prontamente: 

− Não! 

Fiquei embasbacado, e tive de recorrer ao amigo Eustáquio para que lhe traduzisse em tetum o que eu lhe tinha dito. Claro que tudo se resolveu, sem que de vez em quando a gente recorde este episódio com bastante riso à mistura.

É assim. Em terra estrangeira, sem o domínio da língua dos falantes, quando tu pensas que disseste alguma coisa, não disseste nada. Apenas falaste...

22.03.2019, quinta feira  - Tão longe e tão perto...

As novas tecnologias (computadores, telemóveis, facebooks, whatsapp,etc...) dão-nos possibilidades, mesmo aos mais velhos, de entrar em sintonia com os nossos amigos, independentemente da distância a que nos encontremos.

Vem isto a propósito do encontro do mês de Março que os professores aposentados do concelho de Sabugal organizam, percorrendo as terras deste território, e que inclui o almoço como alimento para o corpo e a visita cultural como alimento para o espírito.

Quis a organização que este mês fosse realizado em Malcata, terra que me viu nascer, crescer e viver intensamente ao longo deste setenta e dois anos que já conto.

Sendo eu um malcatanho ferrenho e um frequentador assíduo deste enconttros,
imaginem como vivi este acontecimento à distância. Tão longe e tão perto destes
meus amigos e de tudo o que neste dia por lá aconteceu. 

Sei que leram a mensagem que eu lhes mandei, sei que se lembraram de mim, sei que até cantaram a carquejinha”,  canção emblemática de Malcata, sei que o almoço foi espetacular, sei que gostaram muito das visitas que fizeram ao Largo da Torrinha, à sede da AMCF, à igreja paroquial, aos polos do Lar, et, etc... Mas o que mais me comoveu (malandrice) foi a fotografia que o grupo tirou frente à casa onde eu nasci. 

Obrigado,  colegas e amigos pelo carinho que demonstraram por mim; obrigado Zé Manel pela reportagem fotográfica que me enviaste; obrigado Quim pelas cantigas e guitarradas; obrigado lice por seres a porta-voz da minha mensagem; obrigado Carlos Almeida, pela feliz ideia de criar, concretizar e promover este tipo de encontros. Fiquem cientes que não irei esquecer facilmente este dia. E prometo-vos que, quando regressar, participarei no encontro organizado seja onde for... Até lá um grande e forte abraço, porque a distância não é prisão. A distância faz mais forte a nossa união...

22.03.2019 - Mensagem
Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral




Caros companheiros e amigos

Sei que hoje, terça feira, o almoço de convívio dos prof aposentados vai ser em
Malcata, na Tasca do Manel. Claro que, como grande apreciador destes almoços e
orgulhoso malcatanho, não poderia deixar de estar presente, ainda que ausente por grande distância. “Longe da vista, mas perto do coração.

Sei que, à semelhança da outra vez, a MariZé, a Isabel, o Manel e o Zé vão tudo fazer para que seja um almoço memorável. Eles são sempre assim: incansávéis em servir os seus clientes, e muito mais os amigos de sempre. Beijos e abraços para eles e, já agora, o vosso aplauso...

Eu por aqui vou lutando, neste momento com alguns problemas de saúde mas que estão a ser tratados. Como beirão genuíno, resisterei até que a carne os ossos
aguentem. Já lá vão 14 kg.

Neste momento temos lutado em várias frentes. Desculpai os termos “lutando”,
“lutado”, mais próprios de linguagem guerrilheira. Mas é assim que me sinto por aqui.

Somos os novos guerrilheiros, com outras armas, lutando por outras causas. A nossa grande arma é a solidariedade, que embora seja uma palavra desgastada, é a que melhor nos define. É para nós uma honra, e particularmente para mim, podermos contar com a vossa colaboração e sobretudo com a vossa amizade

No dia 19 próximo faz um ano que foi inaugurada a Escola São Francisco de Assis, em Boebau / Manati, nas montanhas de Liquiçá. Tem-nos sido difícil manter o seu funcionamento por diversas razões: 

1º - acesso muito difícil: mais ou menos 2 horas para fazer 10 km; 

2º- condições de habitabilidade inexistentes (para um ocidental); não há água corrente nem luz; 

3º- dificuldade em motivar docentes (educadores, professores do 1º ciclo) para lecionar na nossa escola.

Por isso já tomamos a decisão de, quanto antes, começarmos a construção de uma casa para professores residentes e voluntários, que orçamentamos + ou - em 20 mil  dólares. Talvez com esta infraestrutura a funcionar possamos resolver bastantes dos problemas que neste momento nos preocupam.

Está também em fase de construção, creio que em Maio estará concluída, a
reconstrução da casa de “família do Sr. Vitor” 
 [um antigo guerrilheiro da FRETILIN] . O Colega Carlos Almeida poderá, se assim o entender, dar-vos mais esclarecimentos sobre esta causa solidária.

Também o programa de apadrinhamento de crianças/Jovens necessitadas (à volta de 50), me têm ocupado bastante tempo. Tento a todo o custo que as motivações que levaram ao apadrinhamento não esmoreçam, criando laços e pontes para que as relações entre padrinhos e afilhados se solidifiquem. Obrigado a todos o padrinhos e madrinhas aí presentes.

Desculpai estar a ocupar-vos tanto tempo com “as minhas coisas”. Mas, como estais na minha terra, senti-me no direito de vos chatear.

Se aí estivesse, de certeza que vos tocaria e cantaria a canção “carquejinha”. Assim não sendo, despeço-me com um GRANDE ABRAÇO para cada um de vós, e até que um dia Deus queira.

Hoje, em Malcata,

Rui da Ti Laurentina


Obs - Confesso-vos que, enquanto vos escrevia estas linhas, por diversas vezes limpei as lágrimas... Saudades, amizades? Mas “as coisas vulgares que há navida não deixam audades”...


 (Revisão / fixação de texto, negritos, itálico, parènteses retos, título: LG)
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domingo, 31 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28062: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (5): Lagos, entre o Infante Dom Henrique e el-rei dom Sebstião, entre o "ice-cream" e a "bica escaldada"









Algarve > Barlavento > Lagos > 27 de maio de 2026

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Sem título. Ilustração: Luís Graça (1999)


1. Estou em Lagos, Barlavento, Algarve. Já não vinha aqui desde 1981. E mesmo quando estive em Tavira (em 1968), nunca aqui vim. Tenho, de um lado, a estátua de El Rei Dom Sebastião, datada de 1973, da autoria do João Cutileiro (1937-2021), e acho-a uma obra-prima da arte portuguesa do séc. XX; e por outro, a escassas centenas de metros, a estátua do Infante Dom Henrique, de estética "estado-novista", inaugurada em 1960 (é do escultor Leopoldo de Almeida, 1898-1975).

Lagos, apesar de tudo (do cilindro compressor do turismo e do camartelo camarário) ainda conserva um secreto encanto. E é um repositório da nossa memória.

Foi uma das nossas portas para o mundo, mas também uma das rotas da escravatura...Tal como o Cacheu, na Guiné. Visitei o museu. Como antigo combatente da guerra colonial, tive acesso de borla... Mas fico sempre "deprimido", ao puxar do cartão e ao lembrar-me que também faço parte desta história, desse "filme de longa metragem"..., a história, o filme do fim de um ciclo de 600 anos.

Estou num lugar que é, ao mesmo tempo, um bilhete-postal ilustrado do meu país e um palco de memórias incómodas.

 Lagos, com a sua luz branca que cega, o seu mar azul, a sua praça coberta de jacarandás em flor, as torres brancas das suas igrejas, o casario e os restos das suas muralhas. Mas Lagos é também um espelho das sombras, pesadelos, perplexidades, misérias e grandezas da História do meu país.

Por um lado, o Infante que abriu a primeira "autoestrada da globalização" e com ela o conhecimento, a unificação dos mares, continentes e povos, o comércio, mas também as portas ao tráfico de seres humanos (e que ficou com o seu "quinhão", do primeiro carregamento de 235 escravos, aqui aportados, em agosto de 1443, a pretexto de lhes querer "salvar as almas"!). E, por outro, o rei, imberbe, "rambo", que se perdeu em Alcácer Quibir (e que nos perdeu).

E em plano de fundo, a guerra colonial que me marcou a mim e a tantos outros rapazes da minha geração, como um sacrifício estúpido, gratuito e inútil. 

 Pergunto-me todos os dias: para que é que morreram dez mil dos nossos na Guiné, Angola e Moçambique ? E as dezenas de milhares, do MPLA, da UPA, da FNLA, da UNITA, do PAIGC, da FRELIMO, que matámos ? E as centenas de milhares de angolanos, guineenses, moçambicanos e timorenses que se mataram uns aos outros, em guerras fratricidas no pós-independência ?

Conheço o peso da história do meu país na pele (e não só nos livros, é no corpo, é na alma). Não é só a estátua do D. Sebastião ou a do Infante que me incomodam, é o que elas representam. 

Afinal, a história não é só "feia" no património edificado (temos, de resto tantos "mamarrachos" por esse país fora, em granito, em mármore, em bronze)... É "feia" naquilo que ela faz connosco, naquilo que nos obriga a carregar, nas nossas memórias.

A história não é o "passado", é um fio que se estende até hoje e se prolonga no futuro: nas desigualdades, nas cicatrizes da guerra, nas narrativas desencontradas, no turismo que devora a alma dos homens e a identidade dos lugares, na "gentrificação" da nossa terra.

Apesar de tudo, encontro beleza na arte de um Cutileiro (que, ironicamente, imortalizou um rei que eu sempre detestei). E manifestei o meu apreço ao município de Lagos por ter sabido preservar o antigo mercado de escravos. Pelo menos o "casco velho" de Lagos, não foi totalmente devorado pelo desastre  urbanístico,  a ganância imobiliária e o capitalismo selvagem.

A estátua do Infante D. Henrique é pesada, afirmativa, hierática. O corpo compacto, o gesto imóvel, a monumentalidade austera: tudo nela fala a linguagem estética do Estado Novo. Não é apenas uma representação histórica; é um "programa ideológico em bronze". 

Inaugurada na efeméride dos 500 anos da morte do Infante Dom Henrique (1460-1960), ela diz muito (até pelo que omite) sobre o navegador visionário, a "escola de Sagres", o império, a "missão civilizadora", o “destino atlântico”, a honra e a glória dos grandes feitos marítimos, bla- lá.... 

Mas, talvez até mais,  ela fala de um regime que se "apoderou despudoradamente" dos nossos heróis, dos nossos maiores... 

De qualquer modo, precisamos de mitos fundadores. Todos os povos precisam de (e cultivam) os mitos-fundadores.

E o facto de eu (e o meu amigo Jaime Silva, antigo paraquedista que fez a guerra de Angola) ter entrado de borla no museu, como antigo combatente, também tem algo de simbólico: estou aqui, de algum modo, a reclamar o meu discreto  lugar na narrativa sobre o making of" do império, e a exigir que a memória não seja apagada.

Faço parte desta história, não como herói, nem como vítima passiva, mas como simples peão,   como alguém que ainda cá está, aos 79 anos, um "marginal-secante" que também reivindica o direito de não deixar que a estátua de um rei ou de um infante apaguem as vozes dos que "ficaram para trás" (navegadores, soldados, marinheiros, fidalgos, mercadores, missionários, mas também pessoas escravizadas, e nomeadamente negros de África). 

Recuso-me a glorificar o passado sem o olhar de frente, não quero fazer tábua rasa nem das nossas misérias nem das nossas grandezas. Que as temos, como qualquer outro povo.

O que fazer com a minha raiva e minha melancolia, perdido em Lagos, numa multidão de turistas que come "ice-cream" e que está aqui, uns dias, no Algarve português para carregar as "baterias da felicidade" ?

Depois da difícil tarefa que é sempre estacionar o carro nestes lugares (coitado do Jaime!), caminho de  canadianas, até à Praça Gil Eanes e encontro o "meu velho conhecido" D. Sebastião, do João Cutileiro.

Fotografo a estátua: aqui já não há pose imperial. Nem bronze triunfante. Nem honra nem oria, Nem rumo nem destino. Há apenas a  beleza e a fragilidade do mármore. Há alienação. Há um fantasma. O nosso fantasma nacional (depois do Velho do Restelo). 

O rei, despojado da parafernália guerreira, o helmo inútil  a seus pés, perdido no deserto, num campo de batalha, a batalha dos três reis, mas que ainda há de voltar numa manhã de nevoeiro. A Lagos, donde partiu. 

O contraste não podia ser mais brutal: o Infante, empoderado, altivo,  é a narrativa da ascensão; D. Sebastião, a nossa má consciência da queda, do desastre, da culpa, da impotência.

O Infante foi uma figura da nossa História que sempre me acompanhou desde os bancos da escola até à Guiné: repetida "ad nauseam". O Infante tornou-se uma liturgia cívica do Estado-Novo. Dom Sebastião era enxotado para o sótão dos nossos pesadelos, o que deixou a porta escancarada á dinastia dos Filipes de Espanha.

O Infante Dom Fernando e el-rei Dom Sebastião: o alfa e o ómega, o primeiro e o último atos da nossa tragicomédia. (Toda a História dos homens tem tragédia e comédia; a nossa também tem.)

Preciso de um café. Entro numa gelataria. Leio na parede, em letras garrafais: “You can't buy happiness, but you can buy ice cream, and that's kind of the same thing.” (em português: “Não podes comprar a felicidade, mas podes comprar um gelado, o que é quase a mesma coisa")...

Reconheço a frase popularucha, 'kitch', desde "Berlim Leste", é uma variante do provérbio que os ricos gostam de repetir, caritativamente, aos pobres: "Meus filhos, o dinheiro não compra a felicidade"... Uma outra variante decorava o meu quarto de hotel de 3 estrelas, quando lá voltei em março de 2015, a Berlim, na parte leste onde viviam os alemães de 2a.

Não gosto de gelados. Mas a bica veio fria (e eu pedira-a escaldada), ao fim de meia-hora. Há três bichas: a da esplanada, a dos gelados e a das "bicas" (para os clientes da terra, lacrobrigenses, cada vez mais raros, e os turistas nacionais como eu). 

O empregado de mesa, "indostânico" (?), não sabe o que é uma "bica escaldada", e sua, isso, sim, em bica, com tanta azáfama e calor matinal. Não tem quatro braços, como as poderosas deusas da sua terra.

O Largo do Infante fica junto do antigo mercado de escravos, um dos primeiros espaços de comércio esclavagista da Europa moderna.  O Museu de Lagos  é de visita obrigatória. Não existia em 1981.

 A História raramente é limpa quando regressamos aos lugares décadas depois. Os sítios acumulam não só pó, mas também memória pessoal, enviesamento, propaganda, ruído, silêncio, culpa, nostalgia, perda. 

E às vezes o que sangra não é exatamente a História nacional, é a (re)descoberta da distância entre aquilo em que nos ensinaram na escolinha, quando éramos "meninos e moços" e  aquilo que hoje vemos (ou que nos deixam ver).

Voltar 45 anos depois a Lagos  é  como encontrar uma versão antiga de mim  próprio, a caminhar penosamente pelas ruas empedradas. As estátuas já lá estavam, em 1981,  a do Infante nem sequer dei conta. As estátuas permanecem, mas quem as olha já não é o mesmo. Eu já não sou o mesmo. 

Desta vez, nem sequer consegui comer um xarém de conquilhas. Nem carapaus alimados. Nem um arroz de lingueirão. E as ameijoas boas da Ria Formosa estavam pela hora da morte: não tive coragem de as comprar, no mercado municipal de Portimão, a 38 euros o quilo. 

Há um Algarve de 1968 (quando fiz tropa em Tavira) que já não existe. Tal como a Lagos de 1981. Tal como o meu país e o mundo, que  já não são os mesmos de quando nasci, em 1947. 

Acho que devia ter pedido um "ice-cream" em vez da "bica escaldada".




Lagos, 1981 > Junto à estátua do rei Dom Sebastião, de José Cutileiro (1973): da esquerda para a direita, Gusto (meu cunhado), Filipe (meu sobrinho), Cristina (sobrinha da Nita e da Alice), Nita (1947-2023), Joana (minha filha), Chita (Alice, minha mulher),  Béu (minha mana mais nova)… (Ainda estavam para nascer o João, meu filho, e o Tiago, meu sobrinho, hoje ambos médicos). Dizem que a estátua nunca foi oficialmente inaugurada. De visita a Lagos, em 1973, o último presidente da República do Estado Novo, fez questão de a ignorar completamente.

Foto (e legenda): © Luís Graça  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28061: Parabéns a você (2491): Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Missirá e Bambadinca, 1968/70)

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Nota do editor

Último post da série de 30 de Maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28059: Parabéns a você (2490): Fernando Andrade de Sousa, ex-1.º Cabo Aux. Enfermeiro da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e Joaquim Pinto Carvalho, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 e da CCAÇ 6 (Buba e Bedanda, 1971/73)

sábado, 30 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28060: Efemérides (394): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte IV: Menos de dois meses depois, a guerra acaba para o Sori Jau, o Braima Bá e o Udi Baldé, os primeiros feridos graves da CCAÇ 2590/CCAÇ12, em Madina Xaquili


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > Junho de 1969 > CCAÇ 2590 (futura  CCAÇ 12) > O 2º Grupo de Combate, ainda em período de instrução da especialidade no CIM de Contuboel , 
que pertencia ao sector L2 (Bafatá). O Braima Bá e o Udi Baldé estão aqui na foto, mas não consigo identificá-los.

O 2º Gr Comb era comandado pelo alf mil at inf António Manuel Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018),  que aparece na aqui fotografia, na primeira fila, ajoelhado, olhando no sentido oposto ao do fotógrafo. Atrás dele o soldado Arménio, o nosso "Campanhã", taxista no Porto (era cabo, antes de embarcar mas foi despromovido, por ter apanhado uma porrada, por participação do 1º srgt cav Fragata).

De pé, na terceira fila, os fur mil at inf Tony Levezinho (com quem passei ontem "um dia para mais tarde recordar", na Tabanca da Ponta de Sagres - Martinal)  e o OE / Ranger Humberto Reis. Na segunda fila, meio agachados, os 1ºs cabos Branco e Alves (de alcunha o "Alfredo",  já falecido).

Um grupo de combate da CCAÇ 2590 (mais tarde, CCAÇ 12) era constituído por 30 homens. Havia 4 Gr Comb. Cada grupo de combate, comandado por um alferes, tinha três secções (1 furriel e 1 cabo e oito soldados, estes africanos).

Cada secção era especializada. Havia a secção dos LGFog, com o respectivo apontador e municiador (1 LGFog 8.9, 1 LGFog 3.7). Havia a secção do Morteiro 60 (apontador e municiador ). E havia ainda a secção da Metralhadora Ligeira HK 21 (apontador e municiador). Cada combatente estava equipado com a espingarda automática G-3 e granadas defensivas. Em geral havia ainda dois apontadores de dilagrama (neste caso, 1ª e 3ª secção). 

Fotos (e legendas): © António Levezinho (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
 

1. A presença de Spínola, ainda brigadeiro, na cerimónia de juramento da bandeira dos soldados da PU (província ultramarina) da Guiné, não deixa de ser significativa do seu empenho pessoal no projecto de africanização ou, melhor, guineização da guerra. 

As futuras CART 11 e CAÇ 12, bem como CCAÇ 13 e CCAÇ 14, são uma das primeiras unidades da "nova força africana", por quem o  novo governador e comandante-chefe tinha muito carinho e orgulho, e de quem esperava muito.

No caso da CCAÇ 259o / CAÇ 12, Spínola visitar-nos-ia várias vezes, incluindo na nossa semana de campo, em Contuboel. Tal gesto tinha um especial significado para as nossas praças africanas e para alguns de nós, quadros metropolitanos.

Confesso que nunca simpatizei com a personagem (embora fosse o com-chefe). Digo-o, sem com isso querer escamotear ou ignorar o seu papel nas mudanças operadas em Portugal com o 25 de Abril de 1974, nem muito menos ofender os seus admiradores. Para todos os efeitos, foi (e é)  uma figura de referência nacional, e como tal a sua memória deve ser respeitada. Competirá aos historiadores definir o seu papel da nossa história.

2. Na época em que demos a instrução de especialidade às nossas tropas africanas (de 2 de junho a 17 de julho de 1969), Contuboel era, ainda era, um oásis de paz. Lá ainda se podia "brincar às guerras" num raio de alguns quilómetros, no meio de uma vegetação luxuriante. Lembro-me de haver lá uma serração de um tuga, o que indiciava abundância de madeiras exóticas. Tomávamos banhos no rio (Geba), andávamos de canoa, íamos às "pontas" comprar frutas e legumes, passeávamos pelas belíssimas tabancas, plenas de gente jovem, alegre e ruidosa. Não voltei a encontrar gente tão feliz!

Ao longo dessas curtas e rápidas semanas aprendemos a conviver com os nossos soldados fulas (e alguns futa-fulas, dois mandingas e um mancanha, num total de menos de uma centena de homens). 

A maior parte não falava o português, não estavam habituados a andar calçados, não faziam a mínima ideia onde ficava Portugal,  eram "desarranchados"... Isto pode dar uma ideia do grau ou do esforço penetração da nossa cultura, no leste da Guiné, depois de "cinco séculos de missão civilizadora", escrevia eu com ironia no meu diário.

Nestas condições, a instrução de especialidade (bem como a IAO), como se deve imaginar, não foi nada famosa. Estávamos a 4 mil km do nosso ponto de partida, o Campo Militar de Santa Margarida, onde, ainda bem me lembro, também brincámos às guerras, e fizemos os nosso "roncos" no essencial, assalto aos "acampamentos do IN a fingir", e pilhagem de tudo o que era bebível e comestível.

Em plena época das chuvas, ainda em fase de adaptação ao terrível clima da Guiné, hostil a qualquer "tuga", em farda nº 3 , espingarda automática G3 ao ombro e cartuchos de salva nos carregadores (à cautela, não fosse o diabo tecê-las, os graduados, tugas, levavam alguns carregadores com bala real)... Estão a imaginar esta "guerra-de-faz-de-conta" ?!

Era ainda a "dolce vita" da Guiné (como eu escrevia no meu diário), aqui e ali perturbada pelas histórias (reais) que a velhice nos contava, a nós periquitos, de Madina do Boé,  de Gandembel, e Guileje,  "lá longe no sul"...ou mais perto, no sector L1 (Bambadinca) onde decorrera a Op Lança Afiada, três meses antes (março de 1969).

A companhia dos "Lacraus" aquartelada em Contuboel, do Abílio Duarte, Valdemar Queiroz, Renato Monteiro, etc. (CART 2479, futura CART 11) já havia dado a recruta às nossas praças, em março e abril de 1975. 


3. A 18 de Julho de 1969 , a futura CCAÇ 12 (que, por enquanto, ainda era a CCAÇ 2590) é dada como operacional. Atendendo à origem étnico-geográfica das suas praças do recrutamento local, por sugestão do Com-Chefe, ficamos radicados em chão fula, às ordens do BCAÇ 2852 (1968/70), com sede em Bambadinca.

A 21 de julho, menos de dois meses depois da nossa chegada à Guiné, quando ainda nem sequer tinham sido distribuídos os camuflados à nossa tropa africana, temos a nossa primeira "saída para o mato" , seguida do nosso "baptismo de fogo", no sector L1...

De facto, em Madina Xaquili, temos o nosso primeiro ferido grave, evacuado para Bissau, a 24; e a 28, mais dois feridos graves, numa ataque nocturno àquela aldeia fula que será definitivamente abandonada pela sua população e, mais tarde (em outubro), pelas NT.

Para três dos nossos soldados africanos, a guerra havia acabado, mal começara: ficarão definitivamente inoperacionais e/ou incapacitados, não sem que um deles tenha de passar, primeiro, por outro inferno, o do Hospital Militar da Estrela, em Lisboa...

Pergunto-me, com amargura, o que será feito de vocês três, camaradas guineenses, 57 anos depois  ?  O mais provável é que já tenha morrido todos:

  • o Sori Jau (3º Gr Combate, evacuado para o HM 241); 
  • o Braima Bá (inoperacional, do 2º Gr Com);
  • o Udi Baldé (evacuado para Lisboa e retornado a casa com 35% de incapacidade física), também do 2º Gr Comb ?

Madina Xaquili é uma história para voltar a recordar.  Ficava enter o rio Corubal e Dulombi, no sub-sector de Galomaro que foi depois transformado em Sector L5 da Zona Leste.  

(Continua)

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Nota do editor LG:

Postes anteriores da série >




Guiné 61/74 - P28059: Parabéns a você (2490): Fernando Andrade de Sousa, ex-1.º Cabo Aux. Enfermeiro da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e Joaquim Pinto Carvalho, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 e da CCAÇ 6 (Buba e Bedanda, 1971/73)


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Nota do editor

Último post da série de 28 de Maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28056: Parabéns a você (2489): António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil, CMDT da 1.ª CCAV/BCAV 8320/72 e da CCAÇ 17 (Bula e Binar, 1973/74)