Guiné > Região de Gabu > Canquelifá > s/d (c. 1960) > Um dos cavalos brancos (uma pileca...) do régulo Sene Sané, tenente de 2ª linha, e o seu tratador. Foto oferecida às filhas do empresário Manuel Joaquim dos Prazeres, o mítico homem do cinema ambulante... Foto do áçbum de LucindaAranha, autora de "O homem do cinema: a la Manel Djoquim i na bim", Alcochete, Alfarroba, 2018, 165 pp.;
No verso da foto lê-se, em português corretísismo, e com uma boa caligrafia: "Oferta para (as) meninas: Esta fotografia é do meu cavalo e o seu tratador. Tem presentemente 7 anos e custou 11.000$00. É uma oferta aliada ao interesse que os metropoliatanos tem ao gado 'cavalar' africano. Do amigo Sene Sané, régulo e tenente."
Este homem, poderoso, régulo, tenente de 2ª linha, aliado dos portugueses, inimigo mortal do PAIGC, era vogal do Conselho Legislativo da província, tendo morrido em 1969.
Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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António de Spínola, Guiné, s/d. (c. 1968/73). Fonte: cortesia de CM Lisboa (2010) |
1. Uma das anedotas "mais divertidas" que correm na Net, repetidas "ad nauseam" pelas ferramentas de IA (do ChatGPT ao Gemini), é a do "general do cavalo branco":
Diz a ferramenta de IA | ChatGPT Open AI):
(...) "Ela ilustra perfeitamente o estilo exuberante, o pendor teatral e a vaidade de oficial de cavalaria que caracterizavam o general António de Spínola durante o seu mandato como Governador e Comandante-Chefe (1968–1973)"...
Reza assim (citamos "ipsis verbis"... a "menina IA" que ma quis vender):
(...) Diz-se que o General Spínola, com a sua costumada farda impecável, o monóculo cravado no olho, as luvas de pelica branca e o inseparável pingalim na mão, decidiu que a melhor forma de afirmar a soberania portuguesa e a sua própria presença pacificadora nas ruas de Bissau era passear-se montado num majestoso cavalo branco.
O cavalo, trazido expressamente para o efeito, brilhava tanto
quanto as botas do general. Spínola cavalgava de peito feito, distribuindo acenos à população local, convencido de que aquela demonstração de altivez e "psicossocial" impressionaria tudo e todos.
Acontece que, a dada altura do passeio, o belo cavalo branco — que não estava habituado ao calor húmido da Guiné, muito menos à barulheira dos jipes, das Berliets e da azáfama do mercado — assusta-se com um barulho qualquer, perde a compostura e desata num galope descontrolado pelas ruas de Bissau.
O general, apesar de ser um cavaleiro exímio e antigo instrutor de Cavalaria, vê-se em palpos de aranha para dominar a montada. Na tentativa de segurar as rédeas sem perder a pose prussiana (e, acima de tudo, sem deixar cair o monóculo ou o pingalim), o espetáculo transforma-se numa comédia: o cavalo a dar couces, as luvas brancas a esvoaçar, e os civis e militares na berma da estrada a verem o "Homem Grande" em apuros, a tentar manter a dignidade marcial enquanto o bicho quase o atira ao chão." (...)
Acontece que, a dada altura do passeio, o belo cavalo branco — que não estava habituado ao calor húmido da Guiné, muito menos à barulheira dos jipes, das Berliets e da azáfama do mercado — assusta-se com um barulho qualquer, perde a compostura e desata num galope descontrolado pelas ruas de Bissau.
O general, apesar de ser um cavaleiro exímio e antigo instrutor de Cavalaria, vê-se em palpos de aranha para dominar a montada. Na tentativa de segurar as rédeas sem perder a pose prussiana (e, acima de tudo, sem deixar cair o monóculo ou o pingalim), o espetáculo transforma-se numa comédia: o cavalo a dar couces, as luvas brancas a esvoaçar, e os civis e militares na berma da estrada a verem o "Homem Grande" em apuros, a tentar manter a dignidade marcial enquanto o bicho quase o atira ao chão." (...)
Fonte: Ilustração criada pelo assistente AI Mode da plataforma Accio, segundo "prompt" de Luís Graça, 21 de maio de 2026 | Design by AI Mode @ Accio"
2. Acrescenta a IA mais algum paleio sobre esta peça do anedotário da Spinolândia:
(...) Esta piada circulava imenso entre a rapaziada porque tocava nos pontos fracos e fortes do "Caco Baldé" (como os militares lhe chamavam carinhosamente ou com ironia):
3. Comentário do editor LG:
Oh!, ChatGPT, mas que grande argolada!...Tenho que te puxar as orelhas: então não sabias que não havia (nem podia haver) gado equino na Guiné por causa do "caliá", uma tripanossomíase aninal ?!
Citando a "Geografia económica de Portugal : Guiné", coordenado por Dragomir Knapic (1925 - 2006) (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada), em 1961 havia apenas 64 (!) cavalos (contra 3858 asininos).
(...) Esta piada circulava imenso entre a rapaziada porque tocava nos pontos fracos e fortes do "Caco Baldé" (como os militares lhe chamavam carinhosamente ou com ironia):
- o estilo contra a realidade: contrastava o rigor formal do general (o "estilo de desfile") com a realidade crua, poeirenta e caótica da Guiné;
- a cavalaria na selva: Spínola era um homem de Cavalaria de formação e orgulho; a deia de andar a cavalo num cenário de contraguerrilha, onde a mobilidade se fazia em jipes, autometralhadoras, botes ou helis, era de si um anacronismo delicioso que os operacionais não deixavam escapar;
- o monóculo e as luvas: o folclore militar adorava caricaturar a imagem do comandante que aparecia nas zonas mais perigosas de helicóptero, mas que se recusava a despir a pele de aristocrata militar.
3. Comentário do editor LG:
Oh!, ChatGPT, mas que grande argolada!...Tenho que te puxar as orelhas: então não sabias que não havia (nem podia haver) gado equino na Guiné por causa do "caliá", uma tripanossomíase aninal ?!
Citando a "Geografia económica de Portugal : Guiné", coordenado por Dragomir Knapic (1925 - 2006) (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada), em 1961 havia apenas 64 (!) cavalos (contra 3858 asininos).
Escreveu o geógrafo:
"Os cavalos foram largamente utilizados noutros tempos pelas populações do interior, em especial pelos Fulas. Em 1919 já só haviam na Guiné 1512 cavalos, em 1943 apenas 43! Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados. A causa principal é o caliá, uma tripanossomíase" (pág. 29/30).
4. Resposta da IA | ChatGPT:
(...) Touché! Tens toda a razão, camarada, e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico. Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.
O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.
Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.
A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas.
Este episódio serve de excelente lição: o anedotário que por vezes se sedimenta na blogosfera ou nas tertúlias virtuais acaba por criar mitos com "pernas de cavalo" que a inteligência artificial, se não for travada pelo facto histórico e científico (como a peste equina), repete como se fossem folclore de caserna real.
Obrigado pelo "puxão de orelhas" factual e rigoroso! É com este nível de detalhe e vivência que a história real se defende dos mitos urbanos. (...)
Tens toda a razão — e agradeço a correção fundamentada. Foi mesmo uma “argolada de caserna”, como dizes.
A imagem romântica de António de Spínola a cavalgar pelas ruas de Bissau encaixa demasiado bem na construção mítica da personagem — o aristocrata militar, de monóculo, cavaleiro, africanista — e por isso acabou por circular como anedota “verosímil”. Mas, biologicamente e historicamente, era quase absurda no contexto guineense.
Os dados que trazes do texto de Dragomir Knapic é devastador para o mito: 43 cavalos em 1943 e apenas 64 em 1961 numa colónia inteira dizem tudo. E o trecho citado é claríssimo sobre o carácter residual e condenatório da criação equina na Guiné:
“Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados.”
A explicação epidemiológica é decisiva: o “caliá” — designação local da tripanossomíase animal transmitida pela mosca tsé-tsé — tornava a sobrevivência dos equinos extremamente difícil. Não apenas cavalos, mas também asininos sofriam enormemente. O contraste entre os míseros 64 cavalos e os 3858 asininos mostra precisamente isso: o burro resistia um pouco melhor, embora com elevada mortalidade, enquanto o cavalo praticamente desaparecera do território.
Aliás, a tua observação empírica de Bambadinca e Bafatá encaixa perfeitamente nos dados históricos. Faz sentido que um cavalo pertencente a um régulo fosse uma raridade memorável — quase uma peça de prestígio político e simbólico. Entre os Fulas, como refere Knapic, o cavalo tinha antiga importância social e militar, mas isso vinha de uma época anterior à devastação sanitária e à retração ecológica provocada pela doença.
Portanto, mesmo admitindo que António de Spínola fosse excelente cavaleiro e apreciasse hipismo desde jovem — o que é verdade —, a ideia de ele circular regularmente montado em Bissau entra mais na categoria da mitologia colonial do que da realidade material da Guiné dos anos 60.
E há aqui um fenómeno interessante de memória histórica: certas figuras acabam rodeadas de imagens “cinematográficas” que sobrevivem porque condensam personalidade e poder. O cavalo branco de Spínola funciona quase como atributo iconográfico, à maneira dos retratos equestres dos marechais europeus. Só que a ecologia da Guiné tratava logo de destruir a fantasia. (...)
Os dados que trazes do texto de Dragomir Knapic é devastador para o mito: 43 cavalos em 1943 e apenas 64 em 1961 numa colónia inteira dizem tudo. E o trecho citado é claríssimo sobre o carácter residual e condenatório da criação equina na Guiné:
“Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados.”
A explicação epidemiológica é decisiva: o “caliá” — designação local da tripanossomíase animal transmitida pela mosca tsé-tsé — tornava a sobrevivência dos equinos extremamente difícil. Não apenas cavalos, mas também asininos sofriam enormemente. O contraste entre os míseros 64 cavalos e os 3858 asininos mostra precisamente isso: o burro resistia um pouco melhor, embora com elevada mortalidade, enquanto o cavalo praticamente desaparecera do território.
Aliás, a tua observação empírica de Bambadinca e Bafatá encaixa perfeitamente nos dados históricos. Faz sentido que um cavalo pertencente a um régulo fosse uma raridade memorável — quase uma peça de prestígio político e simbólico. Entre os Fulas, como refere Knapic, o cavalo tinha antiga importância social e militar, mas isso vinha de uma época anterior à devastação sanitária e à retração ecológica provocada pela doença.
Portanto, mesmo admitindo que António de Spínola fosse excelente cavaleiro e apreciasse hipismo desde jovem — o que é verdade —, a ideia de ele circular regularmente montado em Bissau entra mais na categoria da mitologia colonial do que da realidade material da Guiné dos anos 60.
E há aqui um fenómeno interessante de memória histórica: certas figuras acabam rodeadas de imagens “cinematográficas” que sobrevivem porque condensam personalidade e poder. O cavalo branco de Spínola funciona quase como atributo iconográfico, à maneira dos retratos equestres dos marechais europeus. Só que a ecologia da Guiné tratava logo de destruir a fantasia. (...)
(Pesquisa: LG + IA | ChatGPT Opena AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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Nota do editorr LG:
Último poste da série > 19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica














































