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terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28223: Parabéns a você (2508): Luís Paulino, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2726 (Cacine, 1970/72)

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Nota do editor

Último post da série de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28199: Parabéns a você (2507): Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1979/70)

Guiné 61/74 - P28222: Humor de caserna (284): 1 de junho de 1965, Alcanena: o dia da minha ida às "sortes" (inspeção militar) (Carlos Pinheiro, ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens, STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70)

















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e Imagens: Carlos Pinheiro (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


A Inspecção Militar 
por Carlos Pinheiro

A Inspecção Militar era um acontecimento local, regional e nacional pois era aí que eram lidas “as sortes” dos rapazes que nesse ano faziam vinte anos, os “mancebos”, já em linguagem militar. A mesma era feita nos primeiros dias de junho no ano em que os “mancebos” completavam 20 anos. 

Não era preciso fazer-se inscrição. Eles não se esqueciam de convocar a malta através de edital e ninguém faltava porque era perigoso.

De qualquer forma, sempre havia um ou outro que antecipadamente, à socapa, dava à sola e ia até França. Era a época da emigração clandestina, "a salto”,  como se dizia, porque, não nos esqueçamos, o país estava em guerra em três frentes – Angola, Guiné e Moçambique.

Mas o acto da Inspecção em si merece ser recordado. Em Alcanena, a malta comparecia no Salão Nobre do Edifício dos Paços do Concelho. Depois de identificados, passado pouco tempo era distribuído um papel para ser apresentado aos médicos militares que estavam no gabinete ao lado, o gabinete do Presidente da Câmara, mandavam despir o pessoal e ali estavam, os mancebos, todos nus com um papel na mão, até à chamada ao gabinete.

Os mancebos eram medidos, pesados, auscultados e lá vinham todos contentes, “apurados” para todo o serviço militar. Logo ali, havia sempre um soldado ou um cabo que vendia uma fita verde e vermelha a significar o apuramento e que a malta, para ser bem referenciada, colocava logo na lapela do casaco do fato que era estreado nesse dia.

Os raros, raríssimos, que ficavam “livres”,  também tinham direito a uma fita, mas neste caso branca, que também era paga e nesse ano, em Alcanena, falando da freguesia, houve dois que ficaram “livres”,  sabe-se lá porquê.

Havia ainda os “esperados”, que passavam para o ano seguinte, porque não tinham peso, porque tinham peso a mais, ou por outro motivo qualquer. 

Depois o dia era de festa por um lado, mas por outro também de alguma preocupação acerca do futuro que já estava marcado,  com a mobilização para Angola, Guiné ou Moçambique.

 Nesse dia havia almoço em casa com a família, mas o jantar era de convívio entre todos e o baile até às tantas estava garantido e era sempre muito concorrido.


Carlos Pinheiro
Alcanena 01.06.1965-

Anexos:


À direita, acima :  Reprodução do Cartaz do Baile da Inspecção de 1965, devidamente selado e assinado por um companheiro que já nos deixou, o Arlindo Abrantes.

À esquerda, acima: mancebos de 1945 - Fotografia do jantar da véspera da Inspecção no Restaurante do “Primo” Necas que nessa noite esteve por nossa conta.

À direita, ao lado: Fotografia do palco do baile da Inspecção de 1965, com dois Conjuntos, no Pátio do lagar de azeite da Viúva de José Bento, junto à Igreja

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)


2. Nota sobre o autor, Carlos Pinheiro (ex-1.º cabo trms op msg, Centro de Mensagens do STM/QG/CTIG, Bissau, 1968/70: 

(i) de seu nome completo, Carlos Manuel Rodrigues Pinheiro

(ii) natural de Alcanena, reside em Torres Novas; 

(iii) assentou praça na EPC em Santarém em 10 de outubro de 1967: 

(iv) chumbou  no CSM, como tantos outros; 

 (v) tirou a especialidade no RTM no Porto;

 (vi) veio para o  BT em Lisboa; 

(viii)  foi colocado no QG da 2.ª RM em Tomar;  

(ix) foi mobilizado para o CTIG pelo RI 15 de Tomar;

Carlos Pinheiro, natural de Alcanena,
a viver em Torres Novas

 (x) embarcou  em 23 de outubro de 1968 em rendição individual destinado ao BCAÇ 1911 (não no T/T Niassa, como  vem acima na BD,  mas no T/T Uíge)

(xi) passou a sua comissão no Centro de Mensagens do STM no Quartel General de Bissau; 

(xii) também trabalhou, nas horas vagas, num das casas comnercais mais conhecidas de Bissau, que pertencia a um parenhte seu, o Costa Pinheiro;

(xiii) é bancário reformado:

(xiv) integra a nossa Tabanca Grande desde 25/10/2010; 

(xv) tem 92 referências no nosso blogue.


3. Comentário do editor LG:

Este testemunho do Carlos Pinheiro é de grande valor etnográfico e histórico. É um dos melhores textos que já aqui publicámos sobre a inspeção militar ou o dia da ida à sortes (*). Temos um vintena de referências no blogue com este descritor. 

O Carlos Pinheiro  não descreve apenas um procedimento administrativo a que todos nós,  mancebos de 20 anos, estávamos sujeitos, ao tempo do serviço militar obrigatório; retrata um verdadeiro rito de passagem da juventude portuguesa durante o Estado Novo.

O cartaz que ele anexou é, por si só, um documento valioso. A sua linguagem gráfica diz muito sobre a época: feito à mão, com letras de diferentes tamanhos e cores, anunciando "O Tradicional Baile da Inspecção", em Alcanena, a 1 de junho de 1965, com os conjuntos "Os Tártaros" e "Os Isolé". Vê-se ainda o selo fiscal e a assinatura exigidos para a licença do espetáculo, lembrando como até um simples baile estava sujeito ao controlo administrativo.

Há, neste texto do Carlos Pinheiro, vários aspetos que merecem ser sublinhados.

Em primeiro lugar, a universalidade da convocação. Não era preciso o "mancebo" inscrever-se. O Estado, através das conservatórias do registo civil, sabia quem eram os jovens que completavam vinte anos e convocava-os por edital, afixado à porta da Càmara Municipal. A ausência podia ser entendida como fuga ao serviço militar, com consequências graves. (Mesmo assim terá havidos mais de duzentos mil faltosos, entre 1961 e 1974).

Depois, o ambiente da inspeção. A descrição dos rapazes nus, à espera da chamada para o gabinete do presidente da Câmara transformado em consultório médico, é muito expressiva. Misturavam-se o embaraço, o pudor, a curiosidade, a ansiedade e até algum humor. Era um momento que quase todos os homens daquela geração recordam, passadas décadas.(Claro que nem todos, como o Alberto Branquinho, na Covilhã, nesse ano,  tiveram direito a uma presença feminina, nessa altura ainda insólita, como era o caso da enfermeira que  coadjuvava  os médicos, em geral dois, sendo um militar).

Muito interessante é também a referência às fitas, vendidas no fim por um Cabo RD: fita verde e vermelha para os "apurados"; fita branca para os "livres". Eram afixafas na lapela, do lado esquerdo (do coração). É um apontamento etnográfico deveras curioso, do qual muitos de nós já estávamos esquecidos.

Outro aspeto muito importante é o contraste entre a festa do dia das "sortes" e a compreensível apreensão em relação ao futuro.

De manhã fazia-se a inspeção. Ao almoço reunia-se a família. À noite havia jantar entre amigos e, em muitas terras, como Alcanena,  baile.

Mas todos sabiam que, dentro de um ano, dois ou três, no máximo anos, muitos daqueles jovens estariam já em África. Em 1965, a guerra em Angola decorria desde 1961, na Guiné desde 1963 e em Moçambique desde 1964. O baile era, em certo sentido, a última grande festa da juventude antes da incorporação militar. Parece um baile inocente (e até num sítio insólito: o lagar de azeite da viúva do Zé Bento, a par do jantar no restaurante do "primo Necas")... Só no fim se percebe que aquele jantar e aquele baile eram, para muitos, a despedida de uma juventude que nunca mais voltaria a ser a mesma.
 
Este testemunho merece voltar a ser reproduzido no blogue, agora ilustrado com uma pequena BD.  Completa muito bem outros relatos que temos recolhido sobre a inspeção militar, mostrando que ela não era apenas um exame médico: era um ritual cívico, social e masculino, vivido pela comunidade inteira, marcado por símbolos (as fitas), cerimónias (o jantar e o baile), expectativas e receios. 

Era, afinal, a passagem oficial da adolescência para uma idade adulta que, para muitos, começava com uma farda e terminava, um, dois ou três anos depois, numa comissão em África.

Antes da guerra, "ir às sortes" era uma festa para os rapazes em Portugal...Depois de 1961, com o início da guerra em Angola, deixava de ser "brincadeira", toda a gente era apurada, desde que não fosse... "cego, surdo e mudo", e tivesse "o dedo de dar ao gatilho" (havia quem o cortasse)...Toda a gente, salvo seja... Os filhos das elites tinham todas as condições para se safarem,  se não de ir à tropa, pelo menos de ir parar ao mato...

A imagem dos "cegos, surdos e mudos" é uma metáfora, uma hipérbole mas não longe quanto isso,  da realidade social sentida pela nossa  geração. A mobilização aumentou muito com a guerra, e a margem para dispensas diminuiu drasticamente (mesmo os de "pés-chatos" era apurados para os serviços auxiliares). 

Coexistia, entretanto,  uma outra realidade: a desigualdade social. Nem todos partiam nas mesmas condições. O dinheiro, as cunhas, o estatuto social, a escolariodade, etc., podiam fazer a diferença.

Havia jovens das famílias mais influentes que conseguiam adiar incorporações, obter relatórios médicos favoráveis, prolongar estudos, ingressar em cursos de oficiais milicianos com percursos diferentes ou, em alguns casos, emigrar legal ou clandestinamente, emfim,  permanecer no estrangeiro largos anos, etc. 

Isso não significa que as elites escapassem sempre à guerra (muitos oficiais, médicos, engenheiros e estudantes combateram em África e alguns morreram lá), mas as possibilidades de evitar o teatro de operações eram, em média, muito maiores para quem dispunha de recursos, influência ou redes de contactos.

Seria precisa outra BD para apanhar e dar conta dessa realidade complexa,  sem cair na caricatura nem na demagogia.

Há, de facto, uma mudança dramática de significado entre o antes e o depois de 1961. Até aí, "ir às sortes" era quase um ritual iniciático. Os rapazes estreavam o melhor fato, iam ao fotógrafo, almoçavam com a família, jantavam com os amigos e acabavam a noite no baile. Era uma celebração da entrada na idade adulta.

Depois da guerra, o mesmo ritual passou a ficar  carregado  com a sombra ou o fantasma da guerra. Todos sabíamos que ela ia sobrar para todos nós, os nascidos entre o início dos nos anos 40 e os princípios de 50.  O baile continuava, mas já não era inocente. No meio da música havia um pensamento que ninguém verbalizava em voz alta: "Daqui a um, dois ou três anos posso estar em Angola... ou na Guiné... ou em Moçambique."
 
Esta BD é também uma bonita homenagem ao nosso Carlos Pinheiro, que soube preservar fotografias, cartazes e, sobretudo, a memória de um ritual que desapareceu com o fim do serviço militar obrigatório tal como a nossa geração o conheceu.

Escolhi, com a cumplicidade da menina IA do ChatGPT, a linha clara franco-belga, inspirada em grandes mestres da Banda Desenhada como  Hergé, Jacques Ferrandez e Juillard, com cenários rigorosos, expressões contidas e um +aleta de cores ligeiramente sépia, evocando fotografias da época, ou seja, a memória dos anos 60 que não voltam mais. 

É uma BD onde não está apenas o  Carlos Pinheiro e os seus camaradas que foram às sortes em 1 de junho de 1965, em Alcanena; está lá uma geração inteira que foi "às sortes" a pensar que ia a um passeio, uma jantar de conterrâneos e um baile improvisado e acabou por ir parar à  guerra.

De qualquer modo, queremos surpreender o Carlos Pinheiro, agora "herói de banda desenhada". Achamos  que ele vai sorrir ao reconhecer-se naquele rapaz de vinte anos, de fato domingueiro, com uma fita verde e vermelha na lapela... sem imaginar que, vinte e nove meses depois, em 23 de outubro de 1968,  pisaria o chão verde-rubro da Guiné.

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Nota do editpor LG:

Último poste da série : 23 de julho de 2026 Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

Guiné 61/74 - P28221: Reencontro e memórias em Cacheu-Teixeira Pinto (José Macedo, 2.º Ten RN)


1. Mensagem do nosso camarada José Macedo, 2.º Ten da RN, DFE 21 (Cacheu e Bolama, 1973/74), enviada ao nosso blogue através do Formulário de Contacto do Blogger em 16 de Julho de 2026:


Reencontro e memórias em Cacheu-Teixeira Pinto


Em 1973 quando estive aquartelado em Vila Cacheu com o DFE 21, o comando operacional da Zona (na área de Canchungo/Biangue, (no contexto do PAIGC) estava a cargo do Batalhão de Caçadores n.º 3863.

Pouco tempo depois da minha chegada ao DFE 21, acompanhei o meu comandante, Tenente José Maria da Silva Horta, numa deslocação para uma reunião com o comandante do Batalhão 3863. Para minha surpresa — e talvez também para eles — reconheci o Tenente-Coronel António Joaquim Correia, comandante do Batalhão de Caçadores 3863, e também o Major João José Pires, que era o seu segundo comandante e oficial de operações.

A surpresa foi ainda maior porque eu já conhecia o Tenente-Coronel Correia havia cerca de dois anos, em São Vicente, Cabo Verde. Naquele tempo, ele era o Comandante Militar de Cabo Verde e, além disso, era pai de um colega meu do Liceu Gil Eanes.

Quanto ao Major João José Pires, eu também o tinha conhecido antes: ele tinha sido meu professor de Educação Física no mesmo Liceu Gil Eanes.

As voltas que o mundo dá

Foi então que percebi, com toda a força, que o mundo dá mesmo “as voltas”: relações que começam na escola voltam a encontrar-se em contextos completamente diferentes, e memórias pessoais acabam por cruzar-se com realidades históricas e institucionais.

Mantenhas do Zeca Macedo

Tenente FZE-DFE21
Guiné-Bissau, Cacheu-Bolama 73-74

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Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)


    Hoje há "Arroz especial... com mafé", anunciou o vagomestre


1. Não há ninguém como o Beja Santos para, de uma penada só , abrir um livro na página "x" e apresentá-lo ao leitor numa bandeja apetecível, como se tratasse do melhor manjar do mundo.  

Leitor voraz, compulsivo, desde criança, já deve ter lido centenas e centenas de milhares de páginas na sua vida. Não conheço ninguém como ele: bibliófilo e bibliófago... Metaforicamente falando, ele adora e devora livros... Confesso, nunca o vi beber (nem comer),  o que era raro entre a milicianagem de Bambadinca...

Tome-se como exemplo este excerto da sua nota de leitura  do livro de contos do Alberto Branquinho, ("Cambança Final", 2013), poste P12248 (*). 

Num livro de 222 páginas (na prática 160, com as folhas em branco) com cerca de  6 dezenas de contos ou microcontos (2 páginas e meia, em média, cada um), ele é um autêntico "garimpeiro", capaz de descobrir, com o seu olho clínico de lince, uma preciosidade, uma pérola, uma gema, uma obra-prima:

(...) "O confrade Alberto Branquinho reservou-me uma das mais agradáveis surpresas da primeira metade de 2013: 'Cambança Final', Edição Vírgula, deste ano, é mais do que um livro da maturidade da escrita, revela uma grande mestria na linha do conto e no saber dedilhar as teclas dos sentimentos humanos no contexto de uma guerra.

E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)

Nada de pieguices quando há explosões onde os corpos se desfazem, até porque a natureza se encarrega de limpar a destruição, como escreve magistralmente no conto 'Despojos':

'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)

Mata virgem e lama, água e o céu estrelado, chuvas diluvianas, frases em crioulo e a propósito, a linguagem de caserna na justa conta, o caminhar noturno, a solidão mesmo quando temos muita gente à volta. E uma enorme capacidade de trazer a pilhéria e o tom zombeteiro que obriga a uma boa gargalhada. (...).

Não é para todos esta capacidade de relevar o pícaro quando se marcha a arrastar o corpo, no auge do sofrimento. É um dom saber descrever um acontecimento corrente para um soldado branco que assusta o africano, tomando-o por feitiçaria, anda por ali o abismo cultural. 

Porque Alberto Branquinho, como na montanha russa, traça uma atmosfera de pânico, põe ali todos os traços da brutalidade e finaliza com um toque de facécia. 

O plausível diverte e comove. O furriel Melo vai tomar banho, avista uma cobra, foge espavorido a tapar as pudendas, não para de gritar e alguém comenta: 'Acho que a gaja deu uma dentada na picha do furriel cripto'.

O conto 'Arroz Especial'  é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .

 O vagomestre e o cozinheiro têm uma enorme densidade que atravessa estes contos, são mal vistos, são detestados e, no entanto, são convocados para o prodígio de alimentar na mais extrema das monotonias, mesmo quando a cozinha é periodicamente escavacada e o brio profissional sobrepõe-se à virtude militar (...)".

Este conto, por ser de  antologia, merece ser partilhado e chegar a um público mais vasto, até por que a edição é já de 2013, e depois disso o autor já publicou mais outros oito livros, sendo o último uma espécie de autoantologia, "Inventarium Vitae" (**),  onde recupera alguns dos melhores contos do "Cambança Final", mas não este, o "Arroz Especial"...  

Alterámos ligeiramente o título, para efeitos de publicação nesta série ("Humor de Caserna") (***) e neste poste:

Arroz especial... com mafé

por Alberto Branquinho


Fonte: Excertos de Alberto Branquinho, "Cambança Final (Lisboa: Vírgula, 2013, pp.  85-89) (Com a devida vénia)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 4 de novembro de 20130 > Guiné 63/74 - P12248: Notas de leitura (531): "Cambança Final", contos de Alberto Branquinho (Mário Beja Santos)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

(***) Último poste da série > 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28219: In Memoriam (584): António Augusto Santos Faneco (1951 - † Ponta Delgada, 25 de Junho de 2026), ex-1.º Cabo da 1.ª CART/BART 6521/72 (Pelundo, Cadique, Ilha de Jete e Jemberem 1972/74)

IN MEMORIAM

António Augusto Santos Faneco (1951 - †Ponta Delgada, 25 de Junho de 2026)
Ex-1.º Cabo da 1.ª CART/BART 6521/72 (Pelundo, Cadique, Jemberem e Ilha de Jete, 1972/74)

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2. Comentário do editor:

Foi também através do facebook, neste caso na própria página do malogrado camarada António Faneco (https://www.facebook.com/antonio.faneco.3) que soubemos do seu passamento no passado dia 25 de Junho, no Hospital de Ponta Delgada.
Embora natural do Continente (Montijo?), o Faneco vivia na Ribeira Grande, Ilha de S. Miguel, Açores.

O camarada António Faneco aderiu à tertúlia do nosso Blogue em 2010 (vd. Post Guiné 63/74 - P6531: Tabanca Grande (224): António Faneco, ex-1.º Cabo da 1.ª CART/BART 6521/72, Pelundo, Cadique, Jemberém, Ilha de Jete, 1972/74 de 4 de Junho de 2010.

Embora com uma colaboração escassa no Blogue, o António Faneco, acompanhado pela sua esposa Tina, esteve nos Convívios Nacionais da Tertúlia, em Moste Real, em 2014; 2015 e 2016.

A tertúlia, os editores e colaboradores permanentes deste Blogue, apresentam à família do nosso amigo e camarada António Faneco, que agora faz parte do Batalhão Celestial, as mais sentidas condolências e a certeza da nossa solidariedade.

Carlos Vinhal
Coeditor

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Nota do editor

Último post da série de 27 de Julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28217: In Memoriam (583): José Maria Monteiro (Miranda do Douro, 1951 - Cascais, 2026), ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73)

Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Foi num desses sábados frutuosos que adquiri na Feira da Ladra, "Depois da Guerra", de Luís Rosa, edição de autor de 1990, ainda por cima com dedicatória. Luís Rosa ganhou notoriedade em obras de índole profissional e em romances como "O Claustro do Silênci", "O Amor Infinito de Pedro e Inês", "O Terramoto de Lisboa". Estas memórias do que viveu em Sangonhá foi a sua primeira e única incursão do que viveu na Guiné, temos obras aparentadas, como a do José Brás e as suas "Vindimas no Capim","As Ausências de Deu", de António Loja, "As Noites de Mej", do Luís Cadete, mas há algo de profundamente enriquecedor nesta memória da ocupação de Sangonhá, ficamos com a geografia dos aquartelamentos decididos quer por Louro de Sousa quer por Arnaldo Schulz e que António Spínola mandou abandonar. Estranho muito nunca se falar como Guileje ficou altamente vulnerável depois dos abandonos de Sangonhá, Cameconde e Cacoca e Mejo, por tais decisões. Fala-se muito do que representou o abandono de Madina do Boé e esquece-se de como Guileje ficou entregue a si próprio. Coisas estranhas da historiografia da guerra colonial.

Abraço do
Mário



Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 1

Mário Beja Santos

Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais , de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.

A 1.ª edição foi de autor, em 1990, tinha o título "Depois da Guerra"; a 2.ª edição data de 2009, foi quando fiz a recensão, tecendo elogios e o reconhecimento do testemunho, mas deplorando um final de narrativa artificioso, vácuo, descabido. Voltei a adquirir na Feira da Ladra e com uma dedicatória do autor a 1.ª edição, lia de um só fôlego, reconhecendo que a qualidade memorial justificava que aqui a revisitasse.

Tudo começa no cais do Pidjiquiti, a unidade do nosso alferes parte num velho batelão em direção ao sul, conversa-se sobre os acontecimentos do Pidjiquiti de 3 de agosto de 1959, a calamidade que concorreu para o levantamento nacionalista; o batelão viaja perto da ilha do Como, nas semanas anteriores a esta viagem tinham ali decorrido, entre fevereiro e março de 1964, combates ferozes; avista-se ao longe a península do Cantanhez e o canal que a separava da ilha de Melo, assim se chega a Cacine onde o autor nos conta a história do comerciante Costa que tinha um poder soberano sobre a população local, o seu poder despótico acabou mal.

Viaja-se para Sangonhá, quando aqui chegam ouviram três tiros em Canefaque, gente do PAIGC enviara a mensagem na nossa chegada ao Quitafine, a toda a área de Cacine a Cabedu, de Cameconde à ilha de Melo. “A tropa instalava-se precariamente, desesperadamente. Sangonhá era uma bela povoação colonial, situada no meio de um luxuriante pomar de mangueiros, bananeiras e árvore de cola, com uma bela vivenda servindo de enfermaria e casas de colmo e terra batida, alinhadas ao longo de mais de um quilómetro de estrada, que, mais adiante, atravessava a fronteira.” Do outro lado, tropas e população apoiante do PAIGC deslocava-se por Sansalé e Kandiafará, havia por aqui posto médico e armazenamento de armamentos e víveres.

Constroem-se as despesas de Sangonhá, uma extensa vala que mais tarde seria substituída pelas espessas paredes de chapa de bidon, com terra a meio, casamatas subterrâneas cobertas de grossos troncos de palmeira. Inevitável, chegou a hora do batismo de fogo. E o palco da guerra vai sendo enxameado de acontecimentos até então impensáveis: o interrogatório a alguém que aparecera, foi espancado até que se descobriu que era um diminuído mental; a sexualidade dos soldados, o descobrimento de que existia o Irã, uma religiosidade, uma crença que toma conta do africano, mesmo quando é islamizado; o novo interrogatório a um velho que fora apanhado a passar informações para os guerrilheiros feito por um alferes que decidiu a sentença de morte, e temos depois o olhar de Luís Rosa sobre aquela geografia da guerra:
“A princípio sente-se mais o isolamento. As estradas estavam cortadas por inúmeros obstáculos, minas e árvores enormes, que nenhuma força parecia capaz de demover. Os vinte quilómetros que ligavam ao braço do rio Cacine, em Gadamael, eram a única ligação a tudo o que ficava para além daquele mundo estranho da guerra. Gadamael servia de ancoradouro e descarga apressada das lanchas e batelões.

A opressão do desamparo tornava-se mais pesada pela certeza que tínhamos da impossibilidade de sermos socorridos e pela sensação de que, se ali acabássemos, apenas algum tempo depois dariam pelo nosso fim. Com o chegar das chuvas, a estrada transformava-se num atoleiro de regos profundos de lama inconsistente, como pântano impedindo que os pesados camiões transitassem, sob o risco de ficarem com o bojo assente no chão. Apenas o avião, à quarta-feira, sobrevoava o quartel fazendo um círculo em volta e deixando cair o saco do correio, afastando-se depois, com o abanar das asas, como ave do paraíso. Se o abastecimento não podia ser trazido pelo rio ou pela estrada, porque não havia meios para o fazer chegar, ou porque o recrudescer da guerra e a inoperacionalidade das estradas tornava a operação uma aventura imprevisível, começávamos a contar os dias para que ainda tínhamos alimentos e o avião era ainda o último alento do socorro esperado. Varria as copas das árvores em voo rasante, lançando sacos, caixas e atados. Tudo caía na clareira do arame farpado. Íamos recolhendo, depois, o que ficara disperso numa grande extensão, ora em mil bocados de caixotes desfeitos, ora suspensas as embalagens no alto dos ramos ficando penduradas como em árvores de Natal retendo as prendas.”


Tomaram-se severas medidas de segurança, abriu-se uma enorme clareira para criar uma pista de aviação, e Luís Rosa conta as façanhas da chegada das primeiras avionetas, cumpriam-se as ordens de Bissau para que a pista tivesse pelo menos 400 metros de comprimento, trabalhou-se a valer para desbastar o arvoredo. Com aquela pista de aviação os militares de Sangonhá sentiram-se mais seguros e menos sós. Saberemos também que Luís Rosa comandava homens de intensa religiosidade, não faltava a hora do terço, era o cabo Aires quem orientava a reza. Disserta-se sobre a religiosidade, o poder das crenças, a fé e como tudo se conjuga com um ambiente de guerra.

E segue-se um episódio de luto, dor e saudade, a história do Braga, homem dos sete ofícios, um artista a trabalhar madeira. “Pedi-lhe um dia que me fizesse uma cadeira de encosto, que se desmontasse toda em ripas, de modo a formar um pequeno molho dentro do saco dos livros e pertences, que levava sempre a um canto do camião. A cadeira ficou bela, em pau rosa, idealizada pelo engenho do Braga, sem um prego ou parafuso, apenas suportado o conjunto pelas espigas, harmoniosamente concebidas.” O Braga foi numa operação a Marela uma pequena povoação além-fronteira, ficava num ponto a meia jornada para os guerrilheiros que no sul se dirigiam para a fronteira, passando por Sansalé. Encontrou-se um local de refúgio da guerrilha, houve matança, seguiu-se intenso tiroteio, procedeu-se ao controlo de mortos e feridos, descobriu-se que tinha morrido o Braga. O alferes não esconde a comoção, ficara-lhe a cadeira, lembrou-se que o Braga lhe tinha dito que havia um acabamento a fazer, e dirige o seu pensamento para este último trabalho do Braga: “A obra está sempre completa no ponto em que a deixamos.”


Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): Alferes Miliciano da CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
Para melhor entender os acontecimentos vividos em Sangonhá e narrados por Luís Rosa no seu romance "Depois da Guerra", edição de autor de 1990, reeditado em 2009 na Editorial Presença com o título Memória dos Dias sem Fim. Logo no início da sua comissão, o Brigadeiro António de Spínola decretou o abandono de destacamentos nesta região Sul: primeiro Gandembel, mais adiante Sangonhá, Balana, Cacoca e Mejo, ou seja, preparou-se a prazo a tragédia de Guileje. Infografia do nosso blogue.
Vista aérea do destacamento em Sangonhá, vendo-se nitidamente a pista de aviação, imagem do nosso blogue

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28217: In Memoriam (583): José Maria Monteiro (Miranda do Douro, 1951 - Cascais, 2026), ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73)

IN MEMORIAM

José Maria Monteiro (1951-2026), ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73). Nasceu em 17 de março de 1951, em Miranda do Douro. Vivia em São Domingos de Rana, Cascais. Tinha página no Facebook.


Notícia publicada na página do Facebook da Magnífica Tabanca da Linha, com data de ontem, 26/7/2026:

Caros Magníficos,

É sempre com imensa tristeza que se comunica o falecimento de um Camarada, e de um Magnífico.

José Maria Monteiro, mais conhecido entre nós por Monteiro, José Maria faleceu ontem, dia 25 de Julho.

Advogado de profissão, grande defensor dos ex-combatentes na luta por melhores regalias e fiel depositário das bandeiras nacionais no Concelho de Cascais, para serem usadas na cobertura das urnas dos ex-combatentes que o solicitassem.

O funeral foi hoje, dia 26 em Tires, seguindo para o crematório de Alcabideche.

Sentidas condolências a toda a família e amigos.

Monteiro, até um dia e que a tua alma descanse em paz.

Foto e texto: © Manuel Resende (com a devida vénia)


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2. Comentário do editor:

O nosso camarada José Maria Monteiro foi convidado há três anos e meio para fazer parte da tertúlia, (Vd. Post Guiné 61/74 - P23966: Tabanca Grande (541): José Maria Monteiro, ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73), que se senta no lugar n.º 868 da nossa Terúlia), porque, sendo ele muito activo no que concerne à reivindicação de direitos e regalias sociais, que a nossa geração de antigos combatentes se sente credora por parte dos actuais e antigos governantes, o nosso Blogue poderia, e fê-lo sempre que por ele foi solicitado, dar notícias das diversas acções, contactos com o poder político, manifestações públicas, etc., da sua iniciativa ou de organizações onde estivesse integrado.

Fomos surpreendidos com a notícia do seu falecimento, mas, por outro lado, já vamos ficando habituados ao desaparecimento de muitos de nós, dia após dia.

À sua esposa, Rosa Fidalgo,  e filhos,  Marco e Marta Monteiro, particularmente, a tertúlia, editores e colaboradores permanentes deste blogue, deixam o seu mais profundo pesar pelo falecimento do marido e pai.

A todos os que com o José Maria Monteiro privaram, deixamos o nosso abraço solidário.

Carlos Vinhal
Coeditor

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Nota do editor

Último post da série de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28159: In Memoriam (582): António Nunes Lopes (1942-2026), ex-fur mil at inf, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Porto Gole, Enxalé e Missirá, 1965/67), e cruz de guerra de 3ª classe: senta-se simbolicamente, a título póstumo, no lugar nº 916, à sombra do nosso poilão

Guiné 61/74 - P28216: (De) Caras (250): Luís Mário da Silva e Sá (c. 1948-1970), alf mil 'cmd', 26ª CCmds (Brá, 1970/72), cruz de guerra de 2ª classe a título põstumo: peço ao escritor Angelino Santos Silva que nos fale dele e das circunstâncias da sua morte (José Macedo, EUA)


Flâmula da 26ª CCmds. O único representante desta subunidade na Tabanca Grande é, até agora, o Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', escritor,  autor de "Geração Afro" (sob o pseudónimo Reboredo) (2026)



1. Mensagem de José Macedo ( ten fuzileiro especial,  DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74); natural da Praia, Cabo Verde, vive nos EUA desde 1977; é jurista):




O Zeca Macedo, em 1971, quando frequentava o 1º ano da  Escola Naval 
(que não completou), tendo ingressado nos fuzileiros.



1.1. Data - quarta, 17/06/2026, 21:22
Assunto - Informações sobre um camarada morto em combate



Luis, mantenhas. Estive com um amigo e camarada da Escola Naval, engenheiro construtor naval, que me contou que o irmão mais velho, Luís Mário da Silva e Sá, alferes 'comando', foi morto em combate em 1970, na zona de Cacheu (*). 

Ele disse-me que o irmão pertencia à 26ª Companhia de Comandos.  (...)

Peço a tua ajuda para me dares os dados que haja sobre sobre a morte do Luís e o contacto de algum camarada que o conheceu na Guiné.

Um muito obrigado.


PS - Em breve te enviarei um pequeno post sobre a Eugénia Espirito Santos que conheci na Guiné
.


1.2. Nova mensagem do José Macedo (ou Zeca, conhecemo-nos desde 1971):

Data - 29/06/2026, 19:19

No nosso blogue "encontrei" o nome de um membro da 26ª Companhia de Comandos, à qual pertencia o alferes Luis Mário, irmão do meu camarada. Trata-se do escritor Angelino dos Santos Silva. Agradeço-te que, se possível, me des dês as informações para que o possa contactar.

2. Resposta do editor LG:

Zeca: como tu, de resto, já tinhas entretanto  dado conta,  há uma justa homenagem ao ex-alf mil inf 'cmd'  Luís Mário da Silva e Sá no portal UTW - Ultramar TerraWeb. Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, na série "Honra e Glória". Entretanto, já te pus em contacto  com o Angelino.

Eis alguns dados biográficos Luís Mário Silva e Sá (que deve ter nascido em 1948, tal como o Angelino): 

(i) natural de Panóias de Cima, Guarda; infelizmente não temos nenhuma foto dele (**):

(ii) foi alf mil 'cmd', tendo pertencido, de facto, à 26a. CCmds (1970/72), comandada pelo cap mil inf 'cmd' Alberto Freire de Matos:

(iii) com apenas 6 meses após a sua chegada ao CTIG, faleceu no dia 24 de setembro de 1970, no Hospital Militar 241, em Bissau, em consequência de ferimentos graves adquiridos em combate na mata de  Balenguerez, na região do Cacheu:

(iv) louvado e agraciado, a título póstumo, em 1971, coma  medalha de cruz de guerra de 2ª classe por feitos em combate; excerto do teor do louvor:

(...) "Porque, no dia 24 de setembro de 1970, na Província da Guiné, quando a força que comandava caiu debaixo de intenso fogo inimigo, conseguiu, a peito descoberto, manobrar e instigar o seu Grupo de Combate, estando sempre presente onde a sua acção era mais necessária, a ponto de, ao ver a urgência do uso de fogo de morteiro, não hesitou em colocá-lo em campo aberto, protegendo destemidamente com o corpo e sacrifício da própria vida a arma e o apontador, contribuindo, grandemente, para fazer gorar os intentos do adversário e que não resultassem mais perdas para as nossas tropas.

"Combatente de eleição e chefe estimado pelos superiores, camaradas e subordinados, evidenciou sempre o alferes Sá, em todos os contactos com o inimigo, dotes de excepcional coragem, sangue-frio, serena energia debaixo de fogo e gosto pelo risco, muito honrando os Comandos a que pertenceu e o Exército que tão devotadamente serviu."

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo VI: Cruz de Guerra (1970-1971). Lisboa, 1994, pp. 540/541.

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Notas do editor:


(**) Último poste da série : 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27999: (De) Caras (249): Duas referências na história da capelania militar no CTIG: Bártolo Pereira (QG/CTIG, Bissau, 1965/67) e Arsénio Puim (CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/71)

Guiné 61/74 - P28215: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (13): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte III: "Amor com amor se paga"





O Jaime, pagador de promessas... de outrém 

Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Jaime Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].


1. "Amor com amor se paga" (*)... Se paga ou... se apaga ? Porque amor é fogo... E o ódio, camaradas ? Como é que  puderam, como é que pudemos fazer uma guerra sem odiar ?  Será o ódio o oposto do amor ? Ou trata-se de um continuum ? 

Que leitura fazer, enfim,  deste provérbio português, dito popular ? Afinal, qual a sua origem ? Também se diz noutras línguas latinas (italiano, francês, espanhol...).

De facto, é daqueles provérbios que carrega séculos de sabedoria dita popular. Mas também ambiguidade. "Amor com amor se paga" é uma máxima que reflete uma lógica de reciprocidade positiva: o bem gera bem, a generosidade inspira generosidade...

Mas a pergunta que fazemos ("E o ódio, camaradas ?"), também é reveladora. A resposta popular, muitas vezes implícita, é que o ódio também se paga/apaga com ódio. Ódio gera o ódio, 

É a velha Lei de Talião disfarçada de senso comum: olho por olho, dente por dente. Uma espiral que a história e a psicologia humana conhecem bem.

Abramos um parênteses para dizer que  a Lei de Talião é um princípio jurídico e moral antigo que estabelece que a pena aplicada ao causador de um crime deve ser rigorosamente proporcional e equivalente ao dano por ele provocado. É popularmente sintetizada pela máxima: "Olho por olho, dente por dente."

A expressão deriva o latim lex talionis, vinda de talis, que significa "tal e qual", "igual" ou "semelhante".


2. Vejamos, numa abordagem mais crítica, este provérbio ("Amor com amor se paga"), aparentemente tão pacífico, neutro e  inocente:

(i) A reciprocidade como espelho social

O provérbio assume que as ações humanas são espelhadas: o que damos, recebemos. É a teoria do dom. 

Mas o ódio, ao contrário do amor, não se "(a)paga": multiplica-se, exponencialmente. Vejam-se as guerras, as guerras civis, o discurso de ódio nas redes sociais...A violência gera violência, o ressentimento alimenta mais ressentimento, a intolerância é um rio sem margens... 

É a lógica dos ciclos de vingança em sociedades sem Estado (ou pré-estatais), onde a justiça era privada, os mais fortes faziam-na pelas suas próprias mãos.. E, enfim, a honra lavava-se com sangue.

Exemplo: nas vendettas corsas ou nas rivalidades entre famílias em Trás-Os-Montes ou nas Beiras, o ódio não se "(a)paga", herda-se. Passa de pais para filhos.

(ii) Função social do provérbio

Estes ditos não são inocentes. Nunca o foram. Serviam (e servem) para controlar comportamentos: se o amor é recompensado, o ódio é castigado, não pela lei, mas pela própria dinâmica social. 

Era uma forma de reforçar a coesão em comunidades onde o braço do Estado (a polícia, os tribunais, o exército...) não chegava. Exemplos:  dos fulas aos balantas da Guiné, sem esquecer os habitantes das comunidades agropastoris de montanha, como Rio de Onor ou Vilarinho das Furnas que são mais antigas que o Estado Portuguès ou Espanhol...

Ironia: o mesmo provérbio que prega o amor como moeda de troca normaliza o ódio como resposta legítima.

(iii) O ódio como exceção

O provérbio omite o ódio porque, na cultura popular, ele é visto como força disruptiva, não como parte do ciclo "natural". O amor constrói; o ódio destrói. 

Mas a sua ausência na frase ("Amor com amor se paga"...) não significa que não exista: significa que é tabu. Fala-se do amor para incentivar, cala-se o ódio para o não legitimar.

(iv) Lusofonia e universalidade

Não é exclusivo da língua portuguesa. Aparece noutras línguas latinas (e nos crioulos de Cabo Verde e da Guiné-Bissau:
  • "Amor con amor se paga" (espanhol):
  • "L’amore si paga con l’amore" (italiano);
  • "L’amour se paie d’amour" (francês) (mas também existe: "La haine engendre la haine", "Ódio gera ódio");
  • "Amor amb amor es paga (Catalão);
  • "Amor con amor se paga" (Galaico-Português antigo);
  •  "Amor ku amor ta pagadu" ou "Amor ku amor ta pagá" (Crioulo de Cabo Verde) (kriolu);
  • "Amor ku amor ku ta pagadu" ou "Amor ku amor ta pagado" (Crioulo da Guiné-Bissau) (kriol)-
Nas línguas germânicas, a expressão costuma recorrer ao verbo "retribuir" (requite, vergelten) ou à metáfora do espelho/reflexo, mais do que à imagem do "pagamento":

  • Inglês: "Love is the reward of love" (O amor é a recompensa do amor) ou "Love begets love" (O amor gera o amor). No inglês arcaico/literário, encontra-se também "Love requites love".
  • Alemão: "Liebe wird mit Liebe vergolten" (O amor retribui-se com amor).
  • Neerlandês: "Liefde moet met liefde beantwoord worden" (O amor deve ser respondido com amor).

Nas línguas africana e asiáticas, a reciprocidade amorosa é muitas vezes expressa através de provérbios sobre a interdependência humana ou a colheita:

  • Umbundo (Angola): "Ohole iñgila k’ohole" (O amor entra pelo amor / O amor atrai o amor).
  • Suaíli (África Oriental): "Upendo hulipwa kwa upendo" (O amor é pago com amor) (decalque direto usado na tradição moral Swahili; há também o ditado "Upendo ni nusu ya uzima" (O amor é metade da vida).
  • Iorubá (Nigéria): "Aféfe rere l’o nfe’ni, á fẹ́ni l’á ń fẹ́" (Ama-se quem nos ama / O afeto retribui-se a quem o oferece).
  • Mandarim: 投桃報李 (Tóu táo bào lǐ), o que quer dizer à letrea: "Oferecer um pêssego e receber em troca uma ameixa" (usado para a reciprocidade na amizade e no afeto).
Conclusão: a reciprocidade do amor é universal, mas o ódio é tratado como exceção cultural. Em línguas germânicas,  a ideia é semelhante, mas menos poética.  Noutras línguas, com o mandarim, é mais metafórica-

(v) Origem do provérbio 

Tem raízes bíblicas e clássicas. A ideia de reciprocidade aparece na Bíblia (ex: "Tudo o que o homem semear, isso também ceifará", Gálatas 6:7) e em filósofos gregos como Aristóteles (ética da amizade em "Ética a Nicómaco").

Mas a formulação exata "Amor com amor se paga" é  portuguesa, medieval,  ligada à tradição oral. Surgiu num contexto rural, onde a solidariedade, a entreajuda. era essencial para a sobrevivência (serviçadas, vezada, ajuda entre vizinhos).

Primeiras ocorrências escritas enncontram-se no século XVI, em obras como "Proverbios que dizem os Antigos" (1555), de D. Francisco Manuel de Melo, ou em recolhas de Pêro de Magalhães Gândavo ("Diálogos de Vária História", 1575).

Curiosidade: em castelhano, aparece em "El Corbacho" (1398),  de Alfonso Martínez de Toledo, mas com foco na crítica aos vícios.

Alguns estudiosos (como Leite de Vasconcelos) sugerem que provérbios portugueses com estrutura paralela ("X com X se paga") podem ter origem em ditos árabes andalusinos, dado o contacto durante a chamada Reconquista. Exemplo: "Al-ḥubbu bi-l-ḥubbi yujzā"  (الحب بالحب يُجزى) ("O amor com amor é recompensado") em árabe clássico.

3. Porque é que, afinal,  o ódio não se "paga" (nem  se "apaga")?

Porque o ódio não é transação, é doença, é patologia.  O provérbio ("Amor com amor se paga")  pressupõe uma lógica de equilíbrio (dar/receber), mas o ódio é assimétrico.

O amor exige dois para existir. O ódio basta-se a si mesmo (odeio sozinho, um contyra todos, sem precisar de correspondência).

É por isso que, em muitas culturas, o ódio é associado a castigo divino ("Minha é a vingança,  diz o Senhor", Romanos 12:19)... A sociedade não consegue (ou não quer) gerir a sua reciprocidade.

Segundo a  sociobiologia, o ódio tem uma função evolutiva: proteger o grupo (odeio o inimigo que ameaça o meu grupo, a minha tribo, o meu povo, o meu país)

Mas também sabemos que, hoje, esse mesmo ódio destrói o grupo por dentro (guerras civis, polarização política).

O provérbio é bonito, mas incompleto. A versão completa seria: "Amor com amor se paga... e a cadeia de ódio, se não for interrompida, paga-se com a morte da humanidade em nós."

Numa altura em que Portugal (e o mundo) está tão dividido, será que este provérbio ainda serve para algo... ou é tão só o eco de um tempo em que a vida era realmente mais simples?

(Pesquisa: LG + IA (Vibe Mistral | Gemini Google)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Vd. também 19 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28195: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (11): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte II: "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem"