segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17796: Notas de leitura (998): “A França contra África”, por Mongo Beti; Editorial Caminho, 2000 (1) (Mário Beja Santos



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Março de 2016:

Queridos amigos,
Não se trata de um testemunho qualquer, o seu autor é um conceituado escritor camaronês que nasceu e viveu a sua infância e juventude numa colónia. Regressa décadas depois e dá de caras com uma independência fictícia, uma ditadura que os sucessivos governos franceses deram cobertura.
Os Camarões não andam muito longe do que se passa hoje no Ocidente: os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres. Há momentos em que parece que estamos em viagem no inferno, partilhamos a mágoa do escritor. E, incidentalmente, confrontamos os arremedo de regime democrático que irromperam nesta região africana depois da queda do muro de Berlim, e pensamos na Guiné-Bissau.
Garanto-vos que as analogias são fortes.

Um abraço do
Mário


Há alguma analogia possível entre os Camarões e a Guiné-Bissau? (1)

Beja Santos

O escritor camaronês Mongo Beti (falecido em 2001), é reconhecidamente uma das figuras de topo da intelectualidade do seu país, deixou-nos obras emblemáticas da moderna literatura africana. Atraiu-me o seu livro “A França contra África”, Editorial Caminho, 2000, ao folhear o livro apercebi-me do vigor da escrita, da dor contida a descrever um país em descalabro, trouxe o livro para casa e devorei-o como um depoimento incomparável de um cidadão bem documentado e muito torturado pelas infelicidades que reinam na sua pátria. Mongo Beti concluiu o liceu e foi estudar para França em 1951, aqui se diplomou e foi professor. No início da década de 1990 voltou ao país e o resultado é este documento pungente, rigoroso e que me obrigou a refletir quanto à superficialidade das mudanças operadas depois da queda do muro de Berlim, no continente africano. E sem esforço fui resvalando para um conjunto de analogias entre países da África Ocidental que têm tido percursos transviados.

O país que aqui Mongo Beti descreve na sua escrita lancinante, mas muito bela, remete-nos para o fracasso da visão ocidental sobre a sua conceção das democracias africanas, a cooperação, a ajuda humanitária e o formato padronizado pelos valores culturais aqui existentes. As antigas potências coloniais deixaram vingar falsos modelos de desenvolvimento que acabaram na criação de grandes cidades, hoje incontroláveis (como é o caso de Lagos) e na delapidação de recursos e a formação de castas económicas e financeiras na órbita do poder ditatorial.

Mongo Beti mostra-se embevecido com a vida aldeã da sua terra-natal e a sua disposição espacial, reconhece que este modelo da organização do espaço denota uma vincada cultura, possui este habitat um equilíbrio extremamente delicado e miraculosamente preservado: “A antropologia Ocidental, tão loquaz sobre estas civilizações, não se apercebeu deste facto. Sob a sua influência, nem uma administração colonial nem os governos africanos que lhe sucederam pensaram em pôr de alguma maneira tais predicados ao serviço do desenvolvimento”. O autor identifica uma paz social que não tem equivalente no Ocidente, visto dispor cada indivíduo de terrenos para cultivar, num contexto de igualitarismo. Não se trata de uma observação idílica, não se ilude a miséria a que este povo está subjugado, fala-se da mulher como pilar da sociedade, dos dramas do êxodo rural, dos tremendos desequilíbrios demográficos, das cidades sem emprego.

Destaca-se a ausência de líderes e o vazio hierárquico, a ditadura gerou uma sociedade totalmente invertebrada. O autor encara a aldeia como o único elemento credível de dinamismo e de iniciativa e acusa a ditadura: “Tudo a extorquir a aldeia, sem nada lhe dar em contrapartida, tais parecem ser a divisa e a fatalidade do Estado”.

Os Camarões e a Guiné-Bissau são países distintos. O país francófono viveu sob a monocultura do cacau, tem uma grande superfície, mas há paralelismos que nos fazem pensar. Ele estudou uma pequena cidade chamada Mbalmayo, a uns 50 quilómetros a Sul de Yaoundé, a capital e fala-nos na decrepitude da cidade, nas ruas esburacadas onde os automóveis não podem andar a mais de 5 km/h, obrigados a desviar-se dos buracos que os espreitam. Por toda a parte montes de lixo, não há bombeiros, não há polícia, o viajante tem uma sensação persistente de anarquia: peões e viaturas disputam os raros espaços. O comércio atrofiou-se, não há investimentos. E sentimos o mesmo amargor quando nos descreve Yaoundé: “Aqui encontram-se todos os vícios da demência da África francófona. Os edifícios que abrigam os ministérios são edificados num estilo desconhecido, uma espécie de barroco mourisco que roça o puro delírio surrealista. Um arranha-céus nunca acabado por falta de dinheiro ergue o seu gigantesco coto para as nuvens. Bairros de aspeto muito urbano estão afogados no meio de aldeias africanas, bairros de lata em que as ruas são de terra batida e que a cada passagem de um automóvel são assoladas por um turbilhão de pó vermelho que sufoca os peões e se agarra ao vestuário (…) Cidade de políticos corrompidos, demasiado depressa enriquecidos em detrimento do Estado, de funcionários conformistas, muitas vezes desonestos, e de empregados de escritório indolentes, Yaoundé não tem indústrias. Os desempregados, diplomados disfarçados de vendedores ilegais, pululam, assim como as prostitutas, disfarçadas de costureiras ou cabeleireiras, os muitos jovens vagabundos vivendo de pilhagens, os desocupados cínicos, toda uma arraia-miúda quase sempre numa situação desesperada de tal modo precária é a sua situação”. E disserta sobre as grandes metrópoles africanas: “As megalópoles africanas estão condenadas a tornarem-se oceanos de bairros-de-lata votados à anarquia, à miséria, ao crime. Como, por exemplo, integrar as hordas de jovens que submergem estas metrópoles, quando os Estados não têm absolutamente nada para lhes oferecer no domínio da educação e muito menos ainda na do emprego?”.

Estas são as cogitações que nos deixa sobre a vida de aldeia e da cidade. A seguir fala da vida quotidiana, de um sistema universitário paralisado, de uma liberdade de expressão fictícia, o partido único recorre a todos os expedientes para sufocar a crítica, as comunicações são dispendiosas e morosas, o sistema sanitário, as deslocações, a segurança afundam-se. E temos o sistema policial completamente arruinado, aquele país africano é o inferno das barreiras policiais: “Se algumas barreiras são fixas, outras nascem e desaparecem ao sabor das circunstâncias. As barreiras fixas estão equipadas com um dispositivo, em que aquilo em que se repara sobretudo é uma comprida vara de madeira que se ergue ou se baixa de acordo com a vontade dos polícias. Mas as barreiras ligeiras, que são assinaladas por dois bidões vazios colocados de qualquer maneira na estrada, e ladeados por uns trangalhadanças de uniforme, são as mais numerosas”. Polícias que vivem de extorsão, explorando os pequenos transportadores, é uma tremenda vigarice, um círculo vicioso em que o Estado é o único a não ganhar nada. E conclui: “Os polícias, mal pagos, são tentados a transformarem-se em bandidos, muitos não resistindo à tentação de um atividade simultaneamente lucrativa e mito pouco arriscada”.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de Setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17786: Notas de leitura (997): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17795: Memória dos lugares (364): quem se lembra (ou ouviu falar) da tabanca de Portugal, a seguir aos rápidos de Cusselinta e à ponte Carmona (em ruínas) (carta do Xitole, 1955) ? Seria distinta de "Gã Portugal" que terá existido, também na margem esquerda do Rio Corubal, mas na península de Gampará... (Luís Graça / Cherno Baldé / Alcídio Marinho / Luís Branquinho Crespo / Luís Marcelino / Mário Pinto / António Murta)

í

Guiné > Mapa geral da província (1961) > Escala 1/ 500 mil > Localização da tabanca de Portugal, que ficava antes do Xitole, na estrada secundária (com troço de picada, a tracejado) Buba - Nhala - Xitole...

Foi por aqui que passou, de automóvel, o jornalista do "Diário de Lisboa", Norberto Lopes, em janeiro/fevereiro de 1947, vindo de Bolama, pela estrada principal  São João - Fulacunda - Buba, a caminho de Bafatá (via Xitole - Bambadinca). Com a queda ponte Carmona, logo em 1937, quem vinha do sul tinha que passar pela tabanca de Portugal para ir cambar o rio Corubal para o "porto do Xitole" (sic) e seguir viagem, de carro,  para o norte ou para o leste (*)...


Guiné Portuguesa > Região de Quínara > Mapa do Xitole (1955) > Escala 1/25 mil > Posição relativa da tabanca de Portugal, na margem esquerda do Rio Corubal, a sudoeste do Xitole. Era uma tabanca seguramente abandonada no tempo da guerra, mas referida na reportagem de Norberto Lopes, no "Diário de Lisboa", em 25/2/1947.

Não confundir com a tabanca de Lisboa, a escassos 3 km de Buba, visitada e citada pelo nosso camarada José Ferreira, e cujo chefe era um antigo soldado paraquedista, o Sadjo Camará. A tabanca de Portugal, no regulado de Incassol, já existia em 1947... E consta da carta do Xitole, que é de 1955..

Recorde-se que esta e outras cartas da Guiné resultam do levantamento efectuado em 1955 pela missão geo-hidrográfica da Guiné – Comandante e oficiais do N.H. Mandovi. A fotografia aérea é da aviação naval (Março de 1953). Restituição dos Serviços Cartográficos do Exército. Fotolitografia e impressão: Arnaldo F. Silva. A edição é do da Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, do antigo Ministério do Ultramar, s/d. Digitalização efectuada pela Rank Xerox (2005). Oferta do nosso camarada Humberto Reis.

Infogravuras: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017).


1. Perguntei a três dezenas de camaradas se chegaram a conhecer (ou ovir falar de) uma tabanca chamada Portugal... Ficava a escassos quilómetros do Xitole, do outro lado do rio Corubal... Quem vinha de Buba para o leste.  tinha que passar por lá, contornando a ponte Carmona, em ruínas (desde 1937, ano em que foi inaugurada) (*)... 

Em 1947 por lá passou, nessa tal tabanca de Portugal, o jornalista do "Diário de Lisboa", Norberto Lopes... Ninguém sabe como aparece este nome... Será que tem alguma relação com a construção da ponte Carmona em meados dos anos 30 ?

E quem seria este obscuro régulo Bacar Dikel que lá moarava e "reinava" (mal) ? Dikel será apelido fula ou  biafada ?

Alguns dirão que andamos há anos a discutir o sexo dos anjos neste blogue... Que importância tem, de facto, para a história, e sobretudo para o futuro,  dos nossos dois povos, o raio desta tabanca, que deve ter sido destruída ou abandonada no tempo da guerra colonial ?... A verdade é que há 70 existia e houve um "tuga" que a referiu, num jornal de Lisboa... Eu estava a nascer, em janeiro de 1947,  quando o Norberto Lopes por lá passou... E os cartógrafos também a assinalam: no mapa geral da província, de 1961, era ainda uma terra relativamente importante...



Guiné > Mapa de Fulacunda  (1955) > Escala 1/25 mil > O Rio Corubal, margem esquerda (região de Quínara) e direita (região de Bafatá), antes de desaguar no Rio Geba... Localização de  Gã João (ou Ponta João da Silva) e Gã Garnes (ou Ponta do Inglês)... Não conseguimos localizar, neste mapa, a povoção de Gã Portugal, referida por Alcídio Marimnho.

Toda o triângulo Bambadinca - Xime - Xitole, e em especial a margem direita do Rio Corubal, foi batida, no início do "consulado" de Spínola, no âmbito da grande Op Lança Afiada (de 8 a 19 de março de 1969  (**)

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017).

2. Eis algumas respostas que recebemos, dos nossos colaboradores (*): 

(i) Cherno Baldé (Bissau):

Não conheço o local [, antiga tabanca de Portugal] nem nunca ouvi falar, mas tal como tenho dito num dos postes das minhas memórias sobre o nome dado à nossa aldeia (Luanda) do início da guerra colonial, era normal e muito comum que régulos, antigos cipaios ou militares que fundavam novas aldeias,  quisessem honrar ou mostrar suas simpatias para com Portugal e aos Portugueses. (***)

O meu tio paterno, patriarca da nossa família,  foi colaborador e policia da administração colonial em Bolama durante muitos anos. Há bem pouco tempo descobri que existia em Bolama um bairro com esse nome [, Luanda,] e pensei que, talvez, houvesse alguma ligação. É assim.

Por outro lado, a  zona de Xitole assim como toda a região de Forreá eram dominio fula,  conquistado aos biafadas no séc. XIX. Assim, todos os régulos ou são fulas ou de ascendência fula e o Bacar Dikel não sera excepção.

O nome que aparece como Sadiu Camará, chefe em 2005 da tabanca de Lisboa [, a escassos quilómetros a leste de Buba], dever se Sadjo Camará. (*)

(ii) Luís Branquinho  Crespo [que esteve na Op Lança Afiada]

Bem gostaria de ajudar, mas estive na margem direita do Corubal (1968/1970) e fui apenas duas vezes,  que me lembre,  junto da ponte Carmona e desconheço onde fica ou sequer tenha ouvido falar da tabanca Portugal a não ser agora.

(iii) Luis Marcelino

Não conheci a referida tabanca.

Embora tenha estado no sul, mais concretamente em Mampatá, cerca de dois anos, não tive oportunidade de conhecer muito, para além do espaço à responsabilidade da companhia.

(iv) Mário Gualter Rodrigues Pinto

Gostaria muito de poder contribuir para o solicitado, mas apesar de ter estado na parte sul do Corubal, mais propriamente em Mampatá e uma vasta área do zona junto ao Corubal ser ZA [, zona de ação,]  da minha companhia, nunca ouvi nem dei pela existência dessa tabanca.

Creio mesmo que os mapas ou croquis que nos davam para a Zona fizessem alguma referência à Tabanca [de Portugal] 

(v) António Murta:

Sobre essa enigmática tabanca, devo dizer que nunca fui tão longe, mas, se fosse, confesso que tropeçaria nela de surpresa porque ignorava a sua existência. O mais longe que fui,  fica-se pela "Ponte interrompida" sobre o Corubal, e apenas estive sobre o tabuleiro uma vez, conforme descrevo num dos postes enviados ao Blogue há tempos. Era um lugar paradisíaco, fora do tempo, mas que causava uma impressão muito intensa. E de Nhala lá, eram muitas horas por mata fechada quase sempre. Ora, essa tabanca, pelos vistos, ainda era mais afastada.

(vi) Alcídio Marinho

A tabanca "Portugal" chamava-se " Gã Portugal" ficava na margem esquerda do rio Corubal,
mesmo em frente à tabanca da Ponte do Inglês.

Da Ponte do Inglês fazia-se a cambança para a Gã Portugal. Ficava no caminho do rio Corubal para Fulacunda

Em Maio de 1963, pelos dias, 20 e poucos, fiz uma emboscada nesse local, onde apreendemos dois turras que transportavam numa piroga um rodado de metralhadora pesada.

Era na zona de Gã Portugal que os aviôes faziam a descarga das bombas sobrantes das operações, pois dizia-se que não podiam regressar a Bissau com os aviões com as bombas.































Guiné-Bissau > Saltinho > Ponte General Craveiro Lopes > Novembro de 2000 > Lápide, em bronze, evocativa da "visita, durante a construção" do então Chefe do Estado Português, general Francisco Higino Craveiro Lopes, acompanhado do Ministro do Ultramar, Capitão de Mar e Guerra Sarmento Rodrigues, em 8 de Maio de 1955. 

Era então Governador Geral da Província Poprtuguesa da Guiné (tinha deixado de ser colónia em 1951, tal como os outros territórios ultramarinos...) o Capitão de Fragata Diogo de Melo e Alvim... Craveiro Lopes nasceu em 1894 e morreu 1964. Foi presidente da República entre 1951 e 1958 (substituído então pelo Almirante Américo Tomás). 

Praticamemet só 20 anos depois, em 1956,l  é que há uma ponte, moderna e segura, a a ligar o sul e o norte da Guiné, no Saltinho, substituindo a famigerada ponte marechal Carmona, mais acima, que colapsou logo no ano da sua inauguração (1937).

Foto do "turista" Albano Costa, nosso camarada, que lá passou em novembro de 2000.


Foto: © Albano M. Costa (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

3. Comentário de LG:


Obrigado, a todos pelo vosso esforço de memória e sentido de colaboração... e também pelas pistas que deixam.

Ao António Murta quero dizer que, afinal, esteve relativamente perto da tabanca de Portugal, em 1973/74...em linha reta, mas longe, se ele caminhasse ao longo da margem direita do Rio Corubal... Dez quilómetros pelo mato, em floresta galeria, equipada, a nossa tropa  podia levar 5, 6  ou mais horas, tendo a sorte de não encontrar nem bichos nem homens pelo caminho... Mesmo assim, o Murta  veio  bem de longe, de Nhala,  a seguir a Buba, até á ponte Carmona...

Esta ponte nunca a  conheci nem me recordo de ter ouvido falar dela, no meu tempo (1969/71) e eu fiz operações no subsetor do Xitole... e colunas logísticas de Bambadinca ao Saltinho... Em ocntrapartida, estive por mais de uma vez na ponte Craveiro Lopes, no Saltinho (que veio substituir a ponte Carmona, em 1956), mas nunca passei para o lado de lá. Só o fiz em 2008, quando fui de Bissau a Iemberém, no sul, passando por Bambadinca, Xitole, Mampatá, Quebo, Gandembel, Guileje e indo mesmo até Cacine...

No tempo da CCAÇ 12 (Bambadinca, julho de 1969 / março de 1971), só fiz operações na margem direita do Rio Corubal, nunca na margem esquerda (nessa época, praticamente interdita, nem lá iam os fuzileiros; e , a propósito, temos falado muito pouco aqui dos nossos camaradas fuzileiros).

Quanto ao Alcídio, o mais "veterano" de todos nós, foi com ele que a guerra começou... Receio que não estejamos a falar da mesma tabanca...

Esta tabanca de Portugal vem assinalada no mapa do Xitole, e fica em frente ao Xitole, do outro lado (esquerdo) do rio Corubal, conforme se pode confirmar  aqui no mapa ou a carta  do Xitole (de 1955)... Mas também no mapa geral (1961) (vd. acima).

Devemos estar a falar de tabancas diferentes, em regiões diferentes, se bem que próximas... Diz o Alcídio:

(...) "A tabanca 'Portugal' chamava-se 'Gã Portugal'  ficava na margem esquerda do rio Corubal, mesmo em frente à tabanca da Ponte do Inglês. Da Ponte do Inglês fazia-se a cambança para a Gã Portugal. Ficava no caminho do rio Corubal para Fulacunda". (...)

Essa "Gá Portugal" devia constar do mapa ou carta de Fulacunda, também de 1955, mas eu não a encontro... significa em crioulo família, no sentido alargado do termo, clã: por exemplo, os Gã Martins, de Empada, a que pertencia o avô materno, Victor Vaz Martins,  do nosso amigo e historiador guineense Leopoldo Amado... Veio do mandinga para  o crioulo e também quer dizer "casa grande", quinta, exploração agrícola, "ponta" (vocábulo crioulo)...

Nas margens (esquerda e direita) do Rio Corubal havia várias povoações que começam por Gã, provavelmente relacionadas com colonos ou famiílias lá estabelecidas:

Gã Garnes (ou Ponta do Inglês)

Gã João (ou ponta João da Silva)


Gã Júlio  (na zona de Mina), etc.

devia ser um casa (rural) isolada, com exploração agrícola, mais próxima do português "monte" (no Alentejo) ou "casal"  do que de "aldeia" (aglomerado populacional reunindo diversas famílias)... É possível que houvesse no princípio da guerra uma tabanca chamada "Portugal" (mapa do Xitole) e uma povoção mais pequena ("ponta") chamada "Gã Portugal" (mapa de Fulacunda).

Quero, mais uma vez, agradecer a todos  e dizer o seguinte: descobrimos,ao fim de alguns meses de insistência e persistência, o mistério do acrónimo "ASCO" que existia (e existe) na parede de um dos edifícios de Gadamael que as NT ocupavam... Pois haveremos de descobrir, com tempo e pachorra,  e a colaboração de todos, o mistério da tabanca de Portugal... e já, agora, da Gã Portugal. (LG)

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Notas do editor:

(*) Vd. último poste da série > 22 de setembro de  2017 > Guiné 61/74 - P17787: Memória dos lugares (363): tabanca de Portugal, onde vivia em 1947 o régulo Bacar Dikel, e que ficava a sudoeste do Xitole, na margem esquerda do Rio Corubal. É referida pelo repórter do "Diário de Lisboa", na sua crónica de 25/2/1947.

(**) Vd. poste de  16 de maio de 2013 >  Guiné 63/74 - P11575: Op Lança Afiada (Setor L1, Bambadinca, 8 a 19 de Março de 1969): I Parte: Cerca de 1300 efetivos: 36 oficiais, 71 sargentos, 699 praças, 106 milícias e 379 carregadores


(...) Foi devido a esta situação, no mínimo embaraçosa, e a chacota que dela resultaram, segundo explicou a minha mãe, é que justificou a fundação, entre 1959 a 1960 de uma nova aldeia no lado norte da bolanha, a menos de 2 km de Sare Coba, na confluência de Berekolóm (antigo feudo mandinga do Séc. XIX), que recebeu o nome do chefe da família, Sinchã Samagaia, que literalmente quer dizer a aldeia de Samba Gaia. Para agradar aos seus amigos da administração de Bolama, Sambagaia deu-lhe o nome de Luanda (porquê Luanda e não Lisboa?...). (...) 


domingo, 24 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17794: Bibliografia de uma guerra (81): “A Guerra Civil em Angola - 1975-2002”, por Justin Pearce; Tinta da China, 2017 (Mário Beja Santos)



1. Em mensagem do dia 18 de Setembro de 2017, o nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), fala-nos do livro "A Guerra Civil em Angola", um período conturbado que aquele país viveu entre 1975 e 2002.


A guerra civil em Angola, por Justin Pearce

Beja Santos

Como soe hoje dizer-se, é muito provavelmente o livro mais rigoroso, mais documentado e que melhor retrata algo que até agora a historiografia da guerra civil não considerava como matéria essencial: como viveu a população angolana a guerra civil, como definiu a sua identidade política com os dois poderosos contendores, o MPLA e a UNITA?

Até agora as investigações partiam do entendimento de que o conflito angolano não passava de um produto da Guerra Fria, os acordos de Bicesse não tinham surgido por iniciativa da sociedade angolana, era uma solução desenhada por atores políticos exteriores a Angola. Logo em 1993 a guerra civil eclodiu com um fragor mais destrutivo do que nunca, os estudos minimizam as continuidades ideológicas e de identidade em que passou a contextualizar-se um MPLA entendido como um partido urbano e a UNITA olhada como o partido das matas. Eram duas forças frontalmente antagónicas, o MPLA liderado por intelectuais, a UNITA comandada por um chefe absoluto e indiscutível. O investigador britânico preambula o seu trabalho falando sobre Angola e a natureza da pretensa política e aborda a questão da identidade. Será um trabalho permanentemente atravessado por depoimentos de pessoas que viveram os transes da guerra civil.

A intervenção externa foi o gatilho que levou à declaração do conflito, os contendores escolheram apoios declarados: a UNITA recebeu algum armamento de África do Sul, vieram depois instrutores; o MPLA recebeu apoio cubano e soviético. “A supremacia da UNITA na região do Planalto Central, em Agosto de 1975, e o controlo de Luanda por parte do MPLA, na mesma data, ficaram sobretudo a dever-se à mobilização local apoiada pela aprovação ativa ou tácita do Estado português. Em Agosto de 1975, estava definido o caráter territorial do conflito angolano”. A FNLA, terceiro movimento, foi sol de pouca dura, rapidamente esmagado pelas tropas do MPLA. Onde o MPLA controlava era violento e procurava a imagem de ser o único grupo de libertação capaz de coordenar um governo; a UNITA, nos territórios onde era preponderante, sem se subtrair a que vivia em guerrilha contínua e sempre dominada por uma ideologia flutuante, onde não estava excluída uma certa simpatia maoísta, privilegiava a educação e a saúde, eram estes os eixos das respetivas propagandas. Liquefeito o diálogo, Agostinho Neto a independência em Luanda e Savimbi anunciava a criação da República Democrática de Angola no Huambo.

Com detalhe, o investigador debruça-se sobre a UNITA, como esta se vai retirando das cidades e lança-se no novo tipo de guerrilha, assentava o seu poder em comunidade camponeses, muitas vezes sujeitas a uma vida ditatorial. O MPLA assentou raízes na construção de um estado urbano e dentro de uma certa lógica: “Consolidou o seu poder nas zonas de Angola por si controladas durante a guerra civil através da instauração de uma visão de desenvolvimento orientada pelo Estado, e da definição do discurso público sobre o papel do Estado e do partido na concretização dessa visão”. A questão da identidade e do sentido de pertença a um movimento é escalpelizada no importante capítulo sobre a migração e identidade, ilumina-se ao pormenor as complexidades da identidade política e a sua relação com o controlo político, no contexto de uma estratégia governamental assente na deslocação de populações como forma de cortar o fornecimento de apoio material à UNITA. Analisa-se, em sequência o desempenho da UNITA no Planalto Central, entre 1976 e 1991. É tempo de responder ao modo como o povo interpretou e reagiu à disputa pelo poder, nos anos que se seguiram às eleições de 1992, são fatores interligados: as anteriores filiações no plano individual; a proximidade ou envolvimento das populações no processo de construção do Estado liderado pelo MPLA; o grau de dependência dessas populações em relação à economia urbana; a dicotomia entre cidade e campo, que se exprimia na ideia do partido urbano ou do partido das matas. “Os entrevistados quando se referiram a questões de legitimidade política e filiação depois de 1992, as considerações ideológicas estavam praticamente ausentes do seu discurso, já que todos avaliaram o MPLA e a UNITA com base no tipo de condições de vida proporcionadas por cada um”.

E no rescaldo da morte de Savimbi, primou o discurso dos vendedores. Como lembra o autor, o MPLA mantém uma ideologia que dificilmente se coaduna com as ideias de reconciliação. No 20.º aniversário da batalha de Cuíto Cuanavale, José Eduardo dos Santos apelou à propaganda, dizendo que a batalha dera origem a mudança profundas na África Austral, abrindo perspetivas para a queda do regime Apartheid, é um discurso que não menciona a existência de angolanos nos dois campos do conflito e a importância decisiva do apoio militar cubano ao MPLA. Este partido, sempre que necessário, convoca as memórias da luta anticolonial e repudia as diferentes oposições dizendo-se do lado da paz e da tranquilidade e que os críticos mais não oferecem que desacato, destruição e desordem. Quando se chegou à paz, depois da morte de Savimbi, desarticularam-se os núcleos populacionais da UNITA, o Estado/MPLA arvorou-se na legitimidade política sem limites. Sobre a trajetória e a organização do seu trabalho, Justin Pearce também dá explicações: “O que estava em causa era saber qual das duas elites era a herdeira legítima da autoridade conferida pelo conceito de Estado, uma questão que foi elidida por outra: qual das duas elites estava mais habilitada a transformar o Estado enquanto conceito teórico numa realidade. A melhor forma de compreender as mudanças verificadas na adesão política ao longo da guerra é vê-las como uma reação a circunstâncias e realidades em constante mudança. Embora durante a guerra, o controlo do território pendesse ora para o MPLA ora para a UNITA, no que diz respeito à identidade política o movimento foi, em larga medida, unidirecional”. E a concluir: “O MPLA venceu a guerra graças ao seu poderia militar. O fim da guerra, porém, foi o culminar de um processo no qual o potencial de fogo, o derramamento de sangue e a fome foram utilizados para transformar as possibilidades do que era imaginável”.

De leitura obrigatória.
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Nota do editor

Último poste da série de 23 de Setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17789: Bibliografia de uma guerra (80): “Changing the history of Africa”, por Gabriel García Marquéz, Jorge Risquet e Fidel Castro; Ocean Press, Austrália, 1989 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17793: Blogpoesia (530): "Soleira da porta"; "Amigo como nenhum..." e "Paraíso perdido...", poemas de J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) três belíssimos poemas, da sua autoria, enviados entre outros, durante a semana, ao nosso blogue, que publicamos com prazer:


Soleira da porta

Seca ou molhada,
De pedra ou cimento,
Debaixo da porta,
Não fala.
Não cobra.
Só deixa passar.
Sentinela sem guarda.
Vizinha da terra.
Limpa os sapatos,
De corda ou de sola,
De dentro e de fora.
Sua sorte, marcada.
Não chora nem geme.
Faz parte dum todo.
Desprezo não sente.
Pressente a vassoura
Que limpa seu rosto da lama dos pés.
Reclama da areia que sobra
E o vento não leva.
Dorme calada no sossego da noite.
Se apronta ligeira, se alguém a chama,
Soleira que é.

Berlim, 23 de Setembro de 2017
13h4m
Jlmg

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Amigo como nenhum...

Tenho dentro de mim, um amigo entranhado,
zela e vela como ninguém,
Do meu jardim.
...

Escolhe as sementes.
Prepara a terra.
Aduba-a bem.
Faz canteiros.
Cada um, sua flor.
Cuida deles.
Um bom feitor.
Adora vê-los,
Pontinhos verdes,
A germinar do chão,
Trepar em hastes,
Abrir em botão.
Luzir ao sol.
Perfumar o ar.
Espalhar alegria,
Como se fosse o mar.
Cada flor é um verso.
Cada poema um molho.
Cada dia um,
Sempre o mais lindo,
Para te oferecer...

Berlim, 18 de Setembro de 2017
6h25m
Jlmg

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Paraíso perdido…

Algures no mundo há um paraíso perdido.
Um oásis de paz.
Todo o mundo procura.
Deixou de o ser aquele que temos.
O éden supremo onde o Criador nos deixou.
Em liberdade total.
Não a merecemos.
Foi esse o mal…
A guerra assolou-o.
Cobriu-o de sangue.
Poucos ficaram com tudo.
Muitos ficaram sem nada.
Os Palácios reais
E os bairros de lata.
Nem as leis são iguais!...
Quase um inferno com poderosos chacais.
Em condomínios fechados.
Não há ninguém que lhes bata!...

Berlim, 21 de Setembro de 2017
15h47m
Jlmg
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17774: Blogpoesia (529): "Apesar de tudo..."; "Ouvindo o silêncio..." e "Espelho partido...", poemas de J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P17792: Fotos à procura de... uma legenda (90): uma vida precária de equilibrista na cambança de pequenos cursos de água ... (Luís Mourato Oliveira, ex-alf mil inf, CCAÇ 4740, Cufar, 1.º semestre de 1973)


Foto nº 1 


Foto nº 1A


Foto nº 1B - Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 4740 > 1973 > 3.º pelotão... Atravessia de... uma "ponte improvisada".

Foto (e legenda): © Luís Mourato Oliveira (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Mais uma foto  álbum do Luís Mourato Oliveira, nosso grã-tabanqueiro, que foi alf mil inf, de rendição individual,  na açoriana CCAÇ 4740 (Cufar,  1.º semestre 1973) e  comandante do Pel Caç Nat 52 (Mato Cão e Missirá, 1973/74). 

A foto merece uma melhor legenda por parte dos nossos leitores. Quem andou no mato, facilmente se reconhece nesta foto... Havia muitas pontes destas que atravessavam pequenos cursos de água. E eram utilizadas tanto por nós como pelo IN... E, em geral, não se pagava "portagem"... (*)

Eram pequenas obras de arte de engenharia... hidráulica. Feitas de estacaria, bambu (?) e lianas... A guerra também nos obrigava ao difícil exercício de equilibrista... De vez em quando, lá ia um de nós ao charco... com armas e bagagens.

2. Recordo-me que, apesar de tudo, houve camaradas... com sorte. E deviam entrar no livro do Guinness dos recordes... O meu camarada, ex-1º cabo Carlos Galvão, da Covilhã,  que já não vejo desde 1994, é um deles...  Foi ferido duas vezes na mesma operação, coisa que deve ter sido rara naquela maldita guerra (**)... 

Era segunda feira de Carnaval, em 9 de bril de 1970, e na cambança do Rio Buruntoni (através de uma ponte de estacaria improvisada, como aquela que a foto nº 1 mostra), por volta das 5 e tal da manhã,  o 1º cabo Carlos Alves Galvão, cmtd da 1ª secção do 3º Gr Comb da CCAÇ 12, sofre um traumatismo num pé, tendo que ser transportado em padiola improvisada pelos seus soldados africanos... (O que seríamos nós sem os nossos bravos e leais soldados fulas que abandonámos em agosto de 1974?!)...

Às 13h, em Gundagé Beafada, já no regresso ao Xime, sofremos um violenta emboscada  de que resultariam uma série de baixas entre as NT (CART 2520, Pel Caç Nat 63 e CCAÇ 12), incluindo o 1º Cabo Galvão que ia nesse momento na "horizontal", de papo para o ar, à altura do capim,  o que o tornava um "fácil tiro ao alvo"...

Teve sorte, apesar de tudo, o Carlos Galvão... Sobreviveu a esta "brincadeira de morte", em dia de carnaval... e ainda lá anda pela Covilhã, deficiente das FA e reformado da AT (Autoridade Tributária)...

Eu fui dos que o ajudou a chegar a bom (heli)porto, em Madina Colhido... Mas nunca consegui, enquanto fundador, administrador e editor deste blogue,  que ele se dignasse descer ao povoado da Tabanca Grande... Lá terá as suas razões pessoais... Como eu costumo dizer, não temos o Panteão Nacional, mas temos melhor, a Tabanca Grande... que não é para todos, é só para quem quer e puder... LG

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sábado, 23 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17791: Álbum fotográfico de Luís Mourato Oliveira, ex-alf mil, CCAÇ 4740 (Cufar, dez 72 / jul 73) e Pel Caç Nat 52 (Mato Cão e Missirá, jul 73 /ago 74) (20): Amigos e camaradas de Cufar - Parte III: Mais alferes milicianos



Foto nº 1 A > Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 4740 > 1973 > O Luís Mourato Oliveira,  à civil, à direita, com o  alferes  mil cav, Faria, comandante do Pel Rec Fox (1)

 

Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 4740 > 1973 > OO Luís Mourato Oliveira,  à civil, à direita, com o  alferes  mil cav, Faria, comandante do Pel Rec Fox (2)


Foto nº 2 > Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 4740 > 1973 > Na messe de oficiais, à esquerda parece ser o o alf mil mil António Eiriz  [, of icial  trms do CAOP1]. seguido do Luís Mourato Oliveira, o António Graça de Abreu e outro camarada do CAOP1.


Foto nº 3 A >  Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 4740 > 1973 >  "Eu e António [Octávio da Silva] Neto [, alf mil inf] junto ao Solar do Gringo, que era a "morança" deste último.


Foto nº  4 >  Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 4740 > 1973 >  "Eu, na bolanha".


Foto nº 5 > Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 4740 >  O "solar do Gringo",  a casinha do alf mil António Neto.

Fotos (e legenda): © Luís Mourato Oliveira (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].



1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do Luís Mourato Oliveira, nosso grã-
tabanqueiro, que foi alf mil inf da CCAÇ 4740 (Cufar, 1973) e do Pel Caç Nat 52 (Mato Cão e Missirá, 1973/74).  Lisboeta, tem razíes na Lourinhã, pelo lado materno,

De rendição individual, foi o último comandante do Pel Caç Nat 52. Irá terminar a sua comissão no setor L1 (Bambadinca), em Missirá, depois de Mato Cão, e extinguir o pelotão em agosto de 1974.

Até meados de 1973 esteve em Cufar, a comandar o 3º pelotão da CCAÇ 4740, no 1º semestre de 1973. Tem bastantes fotos de Cufar, que começámos a publicar no poste P17388.

Hoje mostram-se mostram-se mais algumas oficiais milicianos que estavam em Cufar, da CCAÇ 4740 ou outras subunidades. Recorde-se que, além da CCAÇ 4740, unidade de quadrícula, de origem açoriana, Cufar era uma verdadeira base militar, com pista de aviação e porto fluvial, contando com forças da marinha, da força aérea, do CAOP1, e ainda as seguintes: Pel Caç Nat 51; Pel Caç Nat 67; Pel Canhões s/r 3079; Pel Art 18; Pel Rec Fox 8870; PINT 9288; Milícias.

Relativamente à CCAÇ 4740, vd. aqui a história da unidade e a sua composição orgânica.

Guiné 61/74 - P17790: Agenda cultural (586): Conferência "Guiné-Bissau - Roteiro da Memória", dia 4 de Outubro de 2017, pelas 17 horas, na Associação 25 de Abril, em Lisboa



C O N V I T E

Conferência "Guiné-Bissau - Roteiro da Memória", dia 4 de Outubro de 2017, pelas 17 horas, na Associação 25 de Abril, em Lisboa.

Sobre o grande fotógrafo português Alfredo Cunha, ver aqui referências no nosso blogue.

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Nota do editor

Último poste da série de 13 de Setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17761: Agenda cultural (585): Lançamento do livro "A Última Viúva de África", de Carlos Vale Ferraz, dia 27 de Setembro, pelas 18,30 horas, na FNAC do Chiado

Guiné 61/74 - P17789: Bibliografia de uma guerra (80): “Changing the history of Africa”, por Gabriel García Marquéz, Jorge Risquet e Fidel Castro; Ocean Press, Austrália, 1989 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,

Este livro é de 1989, não passa de um panegírico, estamos a caminho do fim da Guerra Fria, sob o impulso da Nações Unidas encontrou-se uma saída nas negociações entre Angola, Cuba e os Estados Unidos: as tropas cubanas retiram de Angola, bem como as sul-africanas e consagra-se a independência da Namíbia, tudo isto se passa no início de 1989, havia que fazer um relato hagiográfico, destacando que a luta em Angola preludiava a derrota do Apartheid.

Só muito recentemente estão a aparecer investigações que escapam ao estafado discurso dos vencedores. Foi por essa razão que se juntaram duas peças que merecem ser lidas em conjugação.

Um abraço do
Mário


Cubanos em Angola, com uma referência ao PAIGC

Beja Santos

“Changing the history of Africa”, por Gabriel García Marquéz, Jorge Risquet e Fidel Castro; Ocean Press, Australia, 1989, é manifestamente um livro apologético, aqui se justifica e glorifica a presença cubana em África, tudo começa com uma entrevista a Jorge Risquet, na altura secretário das relações internacionais do Partido Comunista Cubano, segue-se um artigo intitulado Operação Carlota por Gabriel Garcia Márquez, um rol de discursos de Fidel Castro, até se ter chegado a um acordo que levou à retirada dos conflitos dos cubanos em Angola e na Namíbia.

Todas as revoluções assentam em dados mitológicos, rasuras, interpretações glorificadoras, estabelecimento de verdades feitas e definição irrevogável de inimigos. Logo no prefácio, o organizador da obra panfletária atribui um papel descomunal à resistência angolana, cubana e da SWAPO em Cuito Cuanavale à ofensiva sul-africana, hoje está demonstrado que esse papel determinante não passa de retórica. Na longa entrevista com Risquet também se diz que o MPLA foi crido em 1956, que tem tanta verdade como o PAIGC ter sido criado nesse ano (nunca Amílcar Cabral faz uma referência ao PAIGC antes de 1959, ano em que efetivamente o partido foi criado depois da sua passagem discretíssima por Bissau, ali se assentaram as bases no trabalho clandestino, no interior e no estrangeiro), que Portugal não pertencia à NATO, que o MPLA impulsionou o 4 de Fevereiro de 1961, e muito mais.


Dentro da apologia, omite-se o que Che Guevara escreveu sobre as suas passagens em África, em 1965 e 1966. Conacri recebeu os dirigentes do PAIGC e do MPLA, foi aqui que os dirigentes cubanos encetaram a sua solidariedade. Che visitou uma série de países em 1965, esteve com Agostinho Neto, Lúcio Lara e outros dirigentes do MPLA em Brazzaville. Escreverá mais tarde que achou dirigentes ideologicamente mal preparados e com uma estratégia militar tresloucada. Neste período, havia duas colunas cubanas, pretendia-se atuar no Congo, tudo se esbarrondou em 1966. Os comentários de Jorge Risquet tudo transformam em edulcorante para o MPLA, este é sempre o legítimo, o genuíno representante de todo o povo angolano, a FNLA era um partido tribal e Holden Roberto um agente da CIA, Savimbi um aventureiro cúmplice da PIDE. No diário de Che a referência mais elogiosa a um político africano foi a Amílcar Cabral, para que conste. Este livro australiano aparece profusamente ilustrado e aqui se mostra uma fotografia em que Amílcar Cabral aparece com Agostinho Neto, Marcelino dos Santos e Jorge Risquet no Congo, em 1966, antes de tudo acabar mal.


Esta obra chegou-me às mãos depois de ter lido uma trabalho de grande rigor e baseada em múltiplas entrevistas, “A Guerra Civil de Angola”, por Justin Pearce. Aproveitando este ensejo da história do envolvimento cubano em África, talvez valha a pena ler o que investigou o conhecido académico inglês.
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de Outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15273: Bibliografia de uma guerra (79): Acaba de ser lançado o livro "Nos Celeiros da Guiné - Memórias de Guerra", da autoria de Albano Dias Costa e José Jorge Sá-Chaves, com prefácio do Gen Ramalho Eanes, que conta história da CCAÇ 413

Guiné 61/74 - P17788: Parabéns a você (1317): Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto do CMD AGR 16 (Guiné, 1964/66)

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Nota do editor

Último poste da série de 21 de Setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17783: Parabéns a você (1316): Coronel Art Ref Alexandre Coutinho e Lima (Guiné, 1963/65; 1968/70 e 1972/73); Maria Teresa Almeida, Amiga Grã-Tabanqueira de Lisboa e Raul Albino, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2402 (Guiné, 1968/70)

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17787: Memória dos lugares (363): tabanca de Portugal, onde vivia em 1947 o régulo Bacar Dikel, e que ficava a sudoeste do Xitole, na margem esquerda do Rio Corubal. É referida pelo repórter do "Diário de Lisboa", na sua crónica de 25/2/1947.


Guiné Portuguesa > Região de Quínara > Mapa do Xitole (1955) > Escala 1/25 mil >Posição relativa da tabanca de Portugal, na margem esquerda do Rio Rorubal, a sudoeste do Xitole. Era uma tabanca abandonada no tempo da guerra, mas referida na reportagem de Norberto Lopes, no "Diário de Lisboa", em 25/2/1947. Não confundir com a tabanca de Lisboa, a escassos 3 km de Buba, visitada e citada pelo nosso camarada José Ferreira.

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2017).




Guiné-Bissau > Região de Quínara > Buba > Tabanca de Lisboa > 2005 > O Zé Teixeira com o chefe da tabanca e a sua lindíssima filha. A tabanca de Lisboa, a 5 Km de Buba, era um antigo centro de treino do IN, de nome Sare Tuto... Aqui ainda vivem vários antigos combatentes do PAIGC... Sadiu Camará, antigo paraquedista, casou aqui com uma guerrilheira... Foi ele que mudou o nome da aldeia e ajudou a população como caçador... Uma história com final (quase) feliz. A seguir à independência esteve preso e, algumas vezes,  esteve prestes a ser executado sumariamente... (LG)

Foto (e legenda): © José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1.  Nas suas andanças pela Guiné, em janeiro/fevereiro de 1947, o jornalista do “Diário de Lisboa”, Norberto Lopes, transmontano, admirador da obra e da política de outro transmontano, o governador geral Sarmento Rodrigues, veio de Bolama até Bafatá, passando por São João, Fulacunda, Buba, Xitole, Bambadinca… Na margem esquerda do Rio Corubal, ficava a tabanca de Portugal. 


Na viagem até ao Xitole,  o repórter, vindo de Buba,  vai acompanhado pelo chefe de posto e pelo régulo dos fulas do Forreá, Baró Baldé “cujo regulado tem a sede em Missirá [entre Buba e Mampátá, abandonada no tempo da guerra] e que foi “um dos mais valiosos auxiliares indígenas na última guerra de Canhabaque [, nos Bijagós, em 1936]".

 Descreve esta região de Quínara, o setor de Buba que ia té à margem esquerda do Corubal, como “desertificada”, abandonada pelos fulas devido, ao que parece, à “doença do sono” que dizimava o seu gado, mas também à queda brutal dos preços da borracha que eles extraíam da “hévea”, planta expontânea na Guiné.

Sede do pequeno reino do régulo Bacar Dikel, era a tabanca de Portugal que ficava a caminho do Corubal. O repórter faz a cambança do rio em canoa,  já que a ponte de 1937, a ponte general (mais tarde,  marechal) Carmona, estava em ruínas. Do outro lado esperava-o uma carrrinha que o levará até Bafatá, via Bambadinca.

"No caminho para o Chitole (sic), fica a tabanca de Portugal, escondida na espessura do mato onde o régulo Bacar Dikel, mau grado as dissidências que perturbam a 'reinança' , acaba tranquilamente os seus dias".

Algum camarada ou amigo ouvira já falar desta tabanca e deste régulo, Bacar Dikel ?  Seria biafada ou fula ? E a que "dissidências" se queria referir o repórter do "Diário de Lisboa" ?

Não confundir esta tabanca com a de Lisboa (, antiga Sare Tuto) que fica a leste de Buba. Depois da independência, o chefe da tabanca passou a ser, por imposição da população, um antigo paraquedista guineense do BCP 12, o Sadiu Camará. (**)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 21 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17785: Historiografia da presença portuguesa em África (92): quando a Guiné do tempo de Sarmento Rodrigues tinha uma "boa imprensa": Norberto Lopes, o grande repórter da "terra ardente"

(**) Último poste da série > 1 de julhio de 2017 > Guiné 61/74 - P17531: Memória dos lugares (362): A vibração dos espectros: Uma semana depois da calamidade, o regresso a Pedrógão Grande (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17786: Notas de leitura (997): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (1) (Mário Beja Santos)

Foto: Banco Nacional Ultramarino, com a devida vénia

Vamos começar a publicar às sextas-feiras, integradas na série Notas de leitura, recensões da autoria do nosso camarada Mário Beja Santos, de parte dos relatórios que o Banco Nacional Ultramarino (BNU), da então Guiné Portuguesa, enviava periodicamente para Lisboa, e que o Mário descobriu por acaso na Caixa Geral de Depósitos, onde, além dos relatórios de contas e quejandos, se fazia menção a ocorrências de ordem social e política naquele território ultramarino.

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1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
Usando da elementar prudência, direi sem hesitar que a historiografia guineense não pode doravante descurar esta documentação que tem o seu quê de extravagante, atendendo ao quadro de funcionamento numa instituição bancária.
Estes gerentes, inadvertidamente, ficam na história da Guiné como cronistas de acontecimentos de subversões, tentativas de golpes de Estado, darão informações preciosas sobre a vida da colónia em tempo de guerra - e muito mais haverá a dizer. Por vezes, darão notícias que hoje chamaremos fofocas: o governador que levou a amante para fazer um aborto no hospital ou a cuidadosa informação da passagem de D. Duarte Nuno de Bragança que faz escala em Bolama, a caminho do Brasil, onde vai casar com uma Orleãs, dá-se pormenor sobre mobiliário, faqueiro e baixela e até dos passeios de D. Duarte Nuno pela ilha de Bolama.
A análise económica é incontornável.
Como iremos ver em próximos textos.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (1)

Beja Santos

Tudo começou da seguinte maneira. Num leilão online, andei a licitar um livro intitulado “Guiné, Alvorada do Império”. Alguém apostou forte, ganhou o livro. Por pura curiosidade, fui consultar a obra. Tratava-se de um panegírico de Raimundo Serrão, o Governador da Guiné que sucedeu ao Comandante Sarmento Rodrigues. Se o texto era inclassificável pela autoglorificação, o mesmo não se podia dizer do acervo fotográfico. Começou a pesquisa, e na biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa recomendaram-me que batesse à porta do arquivo histórico do BNU, de que nunca ouvira falar, em nenhum livro referente à Guiné Portuguesa constava documentação provinda de tal arquivo.

Após uma deambulação pela Caixa Geral de Depósitos (proprietária do acervo do BNU) descobri a morada, uma rua em Sapadores, mesmo em frente a um buraco enorme onde foi a fábrica de chocolates A Favorita. Bem acolhido, foi-me facultada a obra para consulta e tive acesso à relação de obras da Guiné, encontrei algumas preciosidades ignoradas, caso do importante livro de Francisco Tavares Valdez. Estava bem repimpado a folhear as fotografias do panegírico de Raimundo Serrão quando um funcionário se aproximou e perguntou-me se eu estava interessado em consultar os relatórios da filial de Bolama a partir de 1916, e depois da filial de Bissau, de 1941 a 1975. Olhando-o com relativa descrença, que interesse iria eu encontrar em letras protestadas, cambiais, colocação de funcionários em Bolama ou Bissau e coisas assim, para o meu trabalho? O técnico informou-me que estes relatórios de exercício incluíam, em forma de anexo, análises de situação com pormenores que nada tinham a ver com os negócios bancários, os créditos e os débitos. Não resiste a pedir alguns desses documentos para consulta, cedo confirmei que havia para ali ouro e pedras preciosas, aqueles relatórios tinham uma redação excêntrica, a primeira parte era absolutamente formal e o anexo o seu contrário. O gerente da filial, logo num dos primeiros relatórios dava conta a Lisboa que chegara um governador manifestamente inapto… Agarrei a investigação, procurei apurar alguns factos, e já está quase tudo lido entre 1916 e 1941. É esse período que vou procurar analisar e dar-vos conta, estou seguro que ainda me aguarda mais uma tonelada de papel para folhear. Para além destes relatórios de exercício há documentação avulsa, copiadores, plantas de edifícios, sobrescritos com fotografias, não deixo nada de fora.

A delegação em Bolama do BNU aparece referenciada no relatório do banco em 1902, entrou em funções em 1903, é o interlocutor para Lisboa até 1941, com a mudança da capital para Bissau a filial estará doravante na nova capital. Penso que terá utilidade apresentar esta documentação inédita enquadrando-a historicamente. Aqui e acolá irei à procura de contexto em autores como Armando Tavares da Silva que fez um levantamento da presença portuguesa na Guiné até 1926.

BNU de Bolama

O primeiro documento que me chamou à atenção tem a data de 1 de Janeiro de 1916, é feito no Consulado da Bélgica em Bissau, papel selado da época em que as casas comerciais internacionais mais importantes declaram não fazer negócios ou intermediação com as potências inimigas e prontificam-se a comunicar às autoridades competentes eventuais infrações de que venham a tomar conhecimento. Importa explicar ao leitor qual é a grande singularidade que me parece que este levantamento documental suscita: encontram-se com frequência mensagens de Bolama ou de Bissau para Lisboa a comunicar à sede do banco chegadas e partidas de notabilidades ou factos merecedores de atenção – o governador acaba de chegar ou partir, foi nomeado novo Chefe de Estado Maior do Exército, grassa uma epidemia, faltam medicamentos, este ano a cultura da mancarra será má…; os gerentes deviam receber ordens para pôr o banco em Lisboa ao corrente de insurreições ou levantamentos, greves, tinham luz verde para expender opiniões sobre a evolução da colónia, com uma franqueza e desassombro que não deixa de surpreender, dada a grande abertura e por vezes a dureza de juízos emitidos.


Os primeiros documentos que encontrei com presumível utilidade para os historiadores aparece em Junho de 1915, é classificado como reservado e fala da guerra em Bissau. Que informa? Em 3 de Junho os Papéis e os Grumetes de Bissau tinham atacado a vila com intenção de massacrar os habitantes, saquear os estabelecimentos e depois oferecer a ilha ao governo inglês ou francês. “Felizmente que quando atacaram a vila já lá estava o Capitão João Teixeira Pinto com uma pequena força e tropa regular e cerca de 1500 auxiliares, foi principalmente devido à valentia deste oficial que hoje não há a lamentar um enormíssimo desastre. O inimigo, munido com armas boas e muito modernas, sustentou um combate violento durante cerca de duas horas junto do mercado de Bissau, acabando por retirar perseguido pelos nossos. As nossas forças avançaram para o interior da ilha onde têm tido rijas pelejas, mas hoje não há dúvida que desaparecerá de vez a lenda de que os Papéis são invencíveis. O Chefe de Estado Maior foi ferido, mas sem gravidade porque em seis dias já queria voltar novamente para a guerra, e deve ter seguido hoje, sendo convicção de toda a gente que muito em breve ele completará a sua grande obra de submeter os Papéis; depois do que, se pode, enfim, considerar a Guiné pacificada, o que é de uma grande importância para o futuro desta rica colónia”.


Haverá uma resposta de Lisboa em 13 de Julho: “Excelentes são as notícias que Vossa Senhoria nos dá sobre a sujeição dos Papéis, da qual resultará a pacificação da Guiné, factos que, certamente, vão ter decisiva influência no progresso desta colónia”.

Questionará o leitor o que se passou na delegação de Bolama entre 1903 e 1916. Obviamente que pus a questão aos técnicos do arquivo. Não há nenhum papel anterior, ter-se-ão extraviado todos os documentos anteriores a 1916. Encontrei fotografias dos primeiros anos, mas tenho que me cingir às pastas que me põem à frente, não se pode ficcionar com a história.

Vejamos a seguir alguns elementos da parte anexa do relatório de 1917, ano em que houve guerra nos Bijagós, mas há um interessante documento reservado, datado de 9 de Junho de 1916 sobre o Governador de Província José Andrade Sequeira. É o que iremos ver a seguir.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17778: Notas de leitura (996): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (3) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17785: Historiografia da presença portuguesa em África (92): quando a Guiné do tempo de Sarmento Rodrigues tinha uma "boa imprensa": Norberto Lopes, o grande repórter da "terra ardente"



Um dos muitos anúncios de casas comerciais que existiam na Guiné em 1956. A empresa  Aly Souleiman & Companhia, com sede em Bissau, tinha filiais em diversos  pontos do território da Guiné, de norte a sul, incluindo Bafatá e Gadamael.

"Aly Souleiman  (apelido grafado à francesa...),  e não "Ali Suleimane" (à portuguesa) era um  próspero comerciante sírio-libanês, já citado pelo repórter Norberto Lopes em 1947 aquando da sua visita a Bafatá...

O acrónimo da empresa era ASCO, tal como o seu endereço telegráfico (*)... Algumas das mais importantes empresas estrangeiras, e nomeadamente as de origem francesas, com negócios no Senegal e na Guiné portuguesa, usavam acrónimos ou siglas: NOSOCO, SCOA, CFAO...

Está, definitivamente, explicado o  mistério do acrónimo ASCO que aparece num edifício de Gadamael, e sobre o qual gastámos alguns bons KB...


Foto: © Màrio Vasconcelos (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Gadamael > CART 2410 (1968/69) > Messe e quarto de sargentos... Foi também, até ao início da guerra o edifício da filial local da empresa ASCO - Aly Souleiman & Conpanhia... O durante muito tempo o enigmático acrónimo (ou sigla)  A.S.C.O. ainda já estava nessa época. (e ainda hoje lá está) , ao cima da parede lateral direita (*).

Foto (legenda): © Luís Guerreiro (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Norberto Lopes (Vimioso, 1900-Linda A Velha, Oeiras, 1989) foi um notável jornalista e escritor, tendo estado entre outros ao serviço do "Diário de Lisboa", onde foi chefe de redação, desde 1921, cronista e grande repórter, além de diretor (entre 1956 e 1967). Saiu do "Diário de Lisboa" para cofundar em 1967 o vespertino "A Capital" (que dirigiu até 1970, ano em que se jubilou).

Mestre do jornalismo na época da censura, transmontano de
alma e coração,. sempre se bateu pela liberdade de expressão, que considerou a maior conquista do 25 de Abril. Entre a suas obras publicadadas, destaque-se:"Visado pela Censura: A Imprensa, Figuras, Evocações da Ditadura à Democracia "(1975). Aprendeu a lidar com a censura e os censores e a escrever nas entrelinhas.

Em sua honra e memória, foi criado pela Casa de Imprena o Prémio Norberto Lopes de Reportagem de Imprensa. Claro, conciso, preciso. objetivo e imparcial... são alguns dos atributos da sua escrita e do seu estilo como repórter da imprensa escrita, um dos maiores do nosso séc. XX português. Foi. além disso, um grande amigo da Guiné e dos guineenses. Tal como nós, também ele bebeu a água do Geba...

Já aqui publicámos uma nota de leitura sobre o seu livro "Terra Ardente -Narrativas da Guiné". (Lisboa, Editora Marítimo-Colonial, 1947, 148 pp. + fotos) (**).

Sobre o livro, o nosso crítico literário Beja Santos escreveu o seguinte:

"(...) Visitou a Guiné, como jornalista por ocasião das celebrações do 5.º centenário do seu descobrimento. Do que viu e sentiu publicou uma série de artigos e depois enfeixou-os sob o título de Terra Ardente. É uma prosa afogueada, sem fazer tagatés aos poderes do dia mas sem esconder a profunda admiração pelo trabalho do seu amigo Comandante Sarmento Rodrigues. 

(...) Convém recordar que Norberto Lopes tinha da Guiné um termo de comparação, visitara-a cerca de 20 anos antes. Agora, mostra o seu entusiasmo (...)' É incontestável que a Guiné está no limiar de uma era nova. Quem tenha percorrido, como eu, o interior da colónia e admirado alguns dos aspectos mais salientes do progresso realizado nos últimos tempos, não pode deixar de reconhecer que está a escrever na Guiné uma página nova e brilhante em matéria de administração colonial'. (...)


Enfim, diz Beja Santos, "há momentos em que o jornalista sem contenção mostra-se lavrante da prosa, aprimora o que em princípio é o espartilho do espaço da reportagem" (...)

Pois está  na altura de dar a conhecer,  um pouco mais, o trabalho de Norberto Lopes, sobre a Guiné ao tempo do governador geral Sarmento Rodrigues (***). O livro, "Terra Ardente", não é de fácil acesso,  para a generalidade dos nossos leitores, mas em contrapartida as suas reportagens publicadas do "Diário de Lisboa" podem ser lidas no portal Casa Comum, da Fundação Mário Soares.


2. Recuperámos e publicamos com a devida vénia, a narrativa nº 8, relativa à viagem Bolama-Bafatá... A reportagem foi originalmente publicada no "Diário de Lisboa",  em 25/2/1947.

Síntese:

(i) Norberto Lopes deixa Bolama, agora decadente, que ele conhecera, há anos atrás, ainda com o estatatuto de capital da Guiné, sob o governo de Velez Caroço, personagem que admira;

(ii) segue, cambando o Rio Grande, para São João e Fulacunda;

(iii) a decadência dos biafadas leva-o a refletir sobre o risco de crescente "islamização" dos povos da Guiné e a necessidade de apostar forte numa política de integração dos povos ribeirinhos, animistas (balantas, felupes, papéis, bijagós...);

(iv) dali segue para Buba, Xitole e Bambadinca, atravessando o rio Corubal de canoa, dado o colapso de um setor da ponte  General Carmona, logo depois da sua inauguração (1937);

(v) fala dos problemas de comunicação no território, de difícil resolução, o que é ilustrado com uma incrível foto de uma "ponte de estacaria" na estrada Gabu-Pirada (e não Tirada, evidente gralha tipográfica);

(vi) do outro lado do rio Corubal está uma carrinha "Austin" que o levará a Bambadinca e Bafatá, passando pelo Xitole, sendo esta  região descrita como uma das mais férteis e prósperas da Guiné;

(vii) Bambadinca é referida como uma "florescente povoação" e "importante centro comercial" mas é Bafatá que lhe enche os olhos;

(viii) aqui produzia-se na altura cerca de 14 mil toneladas de mancarra por ano, metade do total da produção da colónia;

(ix) vila desde 1918, Bafatá destronara a  histórica vila de Geba, tornando-se o segundo maior centro populacional e o maior entreposto comercial do território;

(x) são citadas duas grandes casas comerciais, que florescem na capital da mancarra;  a Aly Souleimane & Companhia, de origem sírio-libanesa (***), e a Barbosa & Comandita, de origem cabo-verdiana.

A descrição da vila de Bafatá e dos seus progressos termina com a seguinte nota de belo recorte literário:

“À noite acende-se a luz eléctrica. Já corre a água nos marcos fontenários. Trilam ralos. Coaxam sapos. Chiam morcegos. Silvos agudos anunciam a proximidade do mato, porque, em qualquer povoação da Guiné em que se estejam, a selva nunca está distante e faz sempre valer os seus direitos milenários”.

Como diríamos hoje,  a Guiné do tempo de Sarmento Rodrigues  (****) também teve a sorte de ter uma "boa imprensa"... Muito melhor, de resto,  da que tem hoje, infelizmente,  a Guiné-Bissau. (LG)
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Recorte do "Diário de Lisboa" (diretor: Joaquim Manso), nº 8708, ano 26, terça feira, 25 de fevereiro de 1947, pp. 1 e 3 .


Cortesia de portal Casa Comum > Fundação Mário Soares > Arquivos > Diário de Lisboa / Ruella Ramos > Pasta: 05780.044.11059

Citação:

Citação:(1947), "Diário de Lisboa", nº 8708, Ano 26, Terça, 25 de Fevereiro de 1947, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22398 (2017-9-20)


[Seleção, montagem dos recortes, edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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(***) Vd. poste de 19 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17155: Historiografia da presença portuguesa em África (72): Subsecretário de Estado das Colónias em visita triunfal à Guiné, de 27/1 a 24/2/1947 - Parte I: A consagração do governador geral, o comandante Sarmento Rodrigues, como homem reformador e empreendedor (Reportagem de Norberto Lopes, "Diário de Lisboa", 27/1/1947)

(****) Último poste da série > 20 de setembro de  2017 > Guiné 61/74 - P17782: Historiografia da presença portuguesa em África (91): 1ª Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934: parte do seu sucesso foi devido à Rosinha Balanta, 'exposta ao vivo', e ao seu fotógrafo, o portuense Domingos Alvão (1872-1946)