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terça-feira, 28 de abril de 2026

Guinhé 61/74 - P27962: Casos: a verdade sobre... (73): Kalasnikovomania - Parte VIII: Fui uma vez (e única) para o mato com uma AK 47 (que sabia manejar). Tinha um bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar... O capitão, "periquito", que foi comigo, também levava uma, mas nem sequer conhecia a arma (Paulo Santigao, cmdt, Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Subsetor do Saltinho > Março de 1972 >  Nas proximidades da foz do rio Cantoro > O Paulo Santiago, e junto dele duas espingradas automáticas AK 47, e numa delas o respetivo bornal (que levava 4 carregadores)

1. Texto publicado na página do Facebook da Tabanca Grande,  (sábado, 25 de abril de 2026, 00;46) pelo Paulo Santiago, ex-alf mil at inf, cmdt Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72), autor da série "Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos"(*). Tem mais de 210 referências no nosso blogue, para o qual entrou em junho de 2006.


Mais uma história em que entra a AK 47... 

por Paulo Santiago

Naquele dia, fins de março de 1072, facilitei, podia ter sido pior.


1- O capitão, comandante da CCAÇ 3490, que conhecera dias atrás, convenceu-me a ir numa operação com o objectivo de ir armadilhar um local chamado de CeloCelo.

2- Tinha o meu grupo, o meu pelotão disperso, parte em Galomaro,o restante no Saltinho. Por este facto,mostrei reticências em acompanhar os dois pelotões daquela Companhia, e também pelo mau conhecimento dos homens.

3- Em resposta ao choradinho do capitão, "que eu já conhecia a zona",  e também por ele ser miliciano, levou-me a aceitar o "convite".

4- Iria com cinco soldados do meu pelotão, Pel Caç Nat 53.

5- Quando da saída, aparece-me o capitão com duas AK 47, uma para ele e a outra para mim. (Existiam oito AK 47 e dois RPG 2 para serem utilizadas por soldados do Pel Caç Nat 53 quando saíssem com o Grupo  do Marcelino da Mata, e por mais ninguém).

Acabei por levar a arma, sabia trabalhar com ela.

6- Fizemos um alto para comer, por volta das 12.00 horas, junto da foz do rio Cantoro.

Houve militares que se puseram em tronco nu. Um dos meus soldados veio avisar-me da presença de um ninho de abelhas nas proximidades e seria melhor o  afastamento para outro local. O capitão não atendeu ao alerta.

7- Houve o ataque dos insetos, uma enorme confusão, nós os seis retirámos com calma, mas alguns dos que estavam em tronco nu ficaram cravados. Seis evacuados por helis.

8- Acabou a operação. Regressei ao quartel, com os meus cinco soldados,  por um trilho que vinha por Cansamange, não fomos esperar as viaturas ao Quirafo.

9- Nunca mais andei de AK 47. Havia uma bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar.

10- Soube posteriormente que o capitão nunca disparara uma kalash. (**)

(Revisão / fixação de texto, título, links: LG)

________________

Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 23 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27961: O PIFAS, de saudosa memória (21): O Programa das Forças Armadas ganha maior visibilidade com Otelo e Ramalho Eanes, na Rep ACAP: recordações dos radialistas Garcês Costa e Silvério Dias (1934-2026)


Foto 1 > Guiné > Bissau > Amura > QG / CCFAG > Rep ACAP (Assuntos Civis e Acção Psicológica) > 1971 > Uma foto histórica: o  major Ramalho Eanes, de óculos de sol  (Diretor da Secção de Radiodifusão e Imprensa), à ponta esquerda; o ten cor Lemos Pires (chefe da repartição), na ponta direita;  o alf mil Ernestino Caniço está ao centro, na terceira fila.

Foto (e legenda): © Ernestino Caniço (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 


Foto nº 2 > Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 >  Da esquerda para a direita: Silvério Dias, José Camacho Costa  e Garcez Costa


Foto nº 3 > Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 > "No dia da minha estreia aos microfones, fardado a rigor, como quase sempre era obrigatório".


Foto nº 4 > Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 >  "Garcez Costa a  ler 'a bíblia'e o João Paulo Diniz à espera qu'eu lhe passe 'a bola' "


Foto nº 5 > Lisboa > Páteo Alfacinha > 31 de maio de 1985 > Jantar de convívio do pessoal do emissor regional da Guiné e Programa das Forças Armadas. Foto do álbum do Garcès Costa

Legenda: "Passados anos ainda reconheço algumas personalidades, uns fizeram parte da minha convivência, e outros não identifico, porque não houve o cuidado, na altura, de proceder à legenda da foto.

Em cima: (i) Jerónimo (o nosso incansável dactilógrafo – não tinha horário de entrada e nunca se sabia a que horas saía de serviço);

(ii) Ramalho Eanes (incentivou-me a ter gosto pela música clássica);

(iii) Maria Eugénia (a nossa mãezinha e a célebre senhora tenente);

(ii) Silvério Dias (está encoberto o paizinho de todos nós, que era então, no meu tempo, 1º sargento);

(iv) Dias Pinto (estava no mato, quando vinha a Bissau, colaborava nos noticários);

(v) Raul Durão (o 1º locutor do PFA);

(vi) José Manuel Barroso;

(vii) João Paulo Diniz (um companheiro fraterno que me ajudou a soltar a voz sem medos)...

Em baixo: (viii) Mário Feio; (ix) Júlio Montenegro (ensinou que a palavra é o corpo da rádio); (x) Faride Magide (técnico do Emissor Regional e bom amigo a par do locutor Lopes Pereira que nunca mais ninguém ouviu falar dele); (xi) José Avelino; (xii) José Camacho Costa (a nossa amizade estendeu-se desde a adolescência no Colégio Nun'Álvares em Tomar até aos seus últimos dias de vida); (xiii) eu (Garcez Costa),   o último da direita."
 
Fotos (e legendas): © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.   Em 4 de abril de 1968, fez agora 58 anos, o nosso recém-falecido camarada Silvério Pires Dias  começava a trabalhar,   como "radialista", aos microfones do PFA - Programa das Forças Armadas, da Rep ACAP / QG / CCFAG, conhecido mais popularmente por PIFAS. Na altura ainda estava ao serviço da CART 1802 (Nova Sintra, 1967/69). 

Nessa data (se o "nosso primeiro" não se enganpou, eu acho que deve 4/4/1949), ainda era governador e comandante-chefe o general Arnaldo Schulz. Isto quer dizer que o PFA já existia (desde 1967), não foi uma criação do António Spínola. É, no entanto, com o novo governador e com-chefe, que a Rep ACAP ganha mais visibilidade, recursos (humanos, técnicos, logísticos) e importância. 

Eis o que já escreveu um dos seus radialistas, o Garcês Costa (de seu nome completo António Manuel Garcez da Costa , que cumpriu o serviço militar entre fevereiro de 1970 e 72, tendo sido substituído no final da comissão pelo Armando Carvalhêda no PIFAS:

(...) O PFA  - Programa das Forças Armadas tinha instalações na Avenida Arnaldo Schultz, onde funcionava o Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné, sob a tutela do Estado Maior do Exército, com uma tafefa específica a que se chamava Acção Psicológica. 

Daí a intenção da criação por volta de 1967, e cujo primeiro locutor foi Raul Durão, do célebre mais tarde conhecido Pifas, com o fim de transmitir emissões de animação cultural e-musical junto da própria população civil e dos militares aquartelados em toda a região da Guiné Portuguesa. 

Já agora o último a fechar as portas, em 1974, foi José Manuel Barroso, sobrinho do casal Mário Soares/Maria Barroso.

As 3 emissões diárias (12:00-13:00; 18:00-19:00; 23:00-24:00) eram radiodifundidas através do Emissor Regional da Guiné. 

Nos quadros desta estação, enquanto militares, passaram, por exemplo, os compositores Rui Malhoa e Nuno Nazareth Fernandes, e o açoriano António Lourenço de Melo,  da atual RDP-Antena 1 (...)

 Ainda sobre a história do programa radiofónico das Forças Armadas na Guiné, diz o Garcês Costa: 

(...) Após a intervenção logística dos Chefes da Repartição Otelo e depois [Ramalho] Eanes, esses seus empenhos não só contribuíram para a remodelação de todo o equipamento técnico dos estúdios de gravação e directos, como foi o período em que se projectou como mais recursos humanos a área de Rádio e Imprensa.

(...) Daí que foi uma mais valia, tipo 2 em 1, a conjugação de projectos dos jornalistas José Camacho Costa e Júlio Montenegro com o radialistas Silvério Dias, Garcez Costa, João Paulo Diniz, que foi admitido para render Carlos Macareno;

(...) De realçar, entretanto, o nosso Chefe de Núcleo, Arlindo de Carvalho, hoje figura pública político-partidária;  

(...) Outro Carvalho foi o António (Tony),  carinhosamente tratado por engenheiro de som e do discotecário Carlos Castro;

(v) E,  claro,  a nossa "tenente",  esposa do nosso primeiro,  que emprestava graciosamente a sua colaboração administrativa e radiofónica;

(vi) Haverá outros nomes aqui em esquecimento mas que seja perdoado por isso.
 
Prometo, entretanto, reformular as gravações em fita magnética, a partir do meu velho gravador de bobines, passando-as aqui para o computador para efeitos de mistura, bem como procurar uma foto do Jantar de Convívio no Pátio Alfacinha em meados dos anos 80.

Junto em anexo algumas fotos pifanianas (...)



2. Do blogue do Silvério Dias, "Poeta Todos os Dias" (que vai de janeiro de 2011 a novembro de 2023) selecionámos alguns postes com referências à sua experiência e memõrias da rádio:
 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014 > QUADRA DO DIA

O "Mundial da Rádio"
Se celebra neste dia.
Vivi momentos de gáudio,
Quando a Rádio servia.


"Pifas", o boneco que ajudou a popularizar
 o PFA - Programa das Forças Armadas

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018 
DEFERÊNCIAS

Amigos bem intencionados,
Um de Proença outro de Sacavém,
Atribuem-me uns predicados
Que,  por verdade, aceito bem:

Para um, sou "Homem-Palavra",
Já o outro diz ser "A Voz",
A distinguir esta pessoa falada,
Sem nenhum contra e alguns prós!

Referência às cordas vocais
De que disponho e bem.
Na Rádio, fui um dos tais ...
Já na oratória, como convém!

Fica dada a explicação.
Aos amigos, Marçal e Garcez,
um bem-haja, a "vocemecês"!


26 de fevereiro de 2018 > GRACEJO

Amigos que tive na Guiné
diziam, "depois do Caco Baldé,
és o mais famoso em Bissau".
Porque minha voz na Rádio local,
lhes soava menos mal ...
O comentário, nem era mau!

quarta-feira, 4 de abril de 2018 > OLÁ, SOU O "PIFAS"

Equipado, bem a rigor,
Apresento-me, sou o "Pifas"!
"Armado" de micro e gravador,
Alguém me disse, "bem ficas".

Tive uma nobre missão,
"Dar música" à rapaziada
Que, vivendo sob pressão,
Sentia, uma saudade, danada!

"Sempre ao vosso lado",
Um dos lemas que criei
E nunca estive acomodado.
Tantos sectores visitei ...

Por estradas de lama e pó, ...
No "Unimog saltitão",
Pelos rios, em LDMs, não só,
No ares, "Aluette, "Dornier", o avião ...

Fui a todas, a muitos lados
Sempre de peito feito
E aos camaradas Soldados,
Dei apoio, bem ao meu jeito!

Guardo imensas recordações.
Tantas, nem ouso contar...
Como prova, os vossos guiões
Que me quiseram ofertar.

Voluntário, prolonguei Comissão
Até ao fim, em permanência
E quando terminei a missão,
A Guiné, ganhou independência.

Hoje, passados cinquenta anos,
Revivo momentos e esqueço danos.
Com alguns de vós a meu lado,
Me sinto muito honrado!

Silvério Pires Dias
Ao tempo, 1.º Sargento de Art

sábado, 13 de fevereiro de 2021 > DIA MUNDIAL DA RÁDIO

A Rádio celebra o seu dia.
Quantos dias a servi
Naquela Rádio que se fazia?
Que bons momentos vivi ...

"Pifas", o símbolo criado
Para lhe dar evidência.
A alma, bem a seu lado
Era já de excelência!

Aos "Pifanianos da Guiné"
Vos desejamos, muita Fé!
Recordando, "aqueles dias"
Tão cheios de agonias ...

Estive sempre convosco
No Bem e no Desgosto!


13 de fevereiro de 2023 > DIA MUNDIAL DA RÁDIO

Ao tempo, fui radialista
Função de que muito gostei.
Minha voz ainda regista,
O tom, de quando comecei.

Órgão que prevalece
Mesmo a quem envelhece.



sexta-feira, 25 de agosto de 2023 > RECORDAR O P.FA.


Meio século já passou
Mas a recordação ficou
A marcar uma saudade.
P.F.A., foi um programa
Que na Rádio criou fama
Com indiscutível verdade.

Pelo "Pifas", simbolizado,
Esteve sempre "ao vosso lado"
Na tal guerra da Guiné.
Seus viventes seguidores
Hoje, já velhos senhores
Querem provar que assim é.

E reunem, no "Pátio Alfacinha".
Satisfação deles e minha!
A 9 de Setembro, a partir das 12H30.



sexta-feira, 8 de setembro de 2023 > AMANHÃ ACONTECERÁ

Um almoço/convívio do "Pifas".
Cerca de meio século passado
Partilharemos as "tricas"
Que o tornaram afamado.

Será no "Pátio Alfacinha"
Que tem uma boa cozinha.

domingo, 10 de setembro de 2023 > ACONTECEU

Como tínhamos previsto
Nos reunimos com gosto
E que bom tê-los visto,
Camaradas em antigo posto!

O "Pifas" foi recordado
Em momento contagiante
Mas também, chorado
Pelos que foram... adiante.

De vós que dizer, "meu" General?
Que gratificante. Sempre igual!


domingo, 17 de setembro de 2023 > REVIVER O "PIFAS"

Decerto nos orgulhamos
Considerar-nos "pifanianos",
Termo que por nós criado,
Justificando causa nobre.
Vaidade não nos sobre,
Ainda hoje é recordado.

Relacionado com Programa
Que na Rádio ganhou fama
Como sendo das Forças Armadas.
Nasceu e viveu na Guiné
Quando em "tratos de polé",
Lutavam, as nossas rapaziadas.

Tive ideia e dela me gabo
Criar um boneco/soldado
Como símbolo original.
Dado nome, o "Pifas" nasceu
E, de tal forma, "cresceu"...
Criando, agrado geral.

Muitos anos passaram
E os tempos, esses mudaram.
Independência da Guiné,
O "Pifas" passou à reforma
Mas sempre em boa forma
Nos manteve na boa fé.

Um reencontro programado
Por interesse demonstrado
Levou-nos a celebrar almoço.
Até o General Eanes, connosco,
Por sinal, bem disposto...
A foto exposta, é bom esboço!

Referências,
Ao ex-Alferes, Jorge Varanda "senhor" do evento ;
A todos os que marcaram presença;
Grande a saudade dos ausentes, tantos, nfelizmente!

___________

Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)


O primeiro parto que fiz na Guiné. A mãe registou o bébé com o nome de Adão Doutor

1. Mensagem do nosso camarada e amigo Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68, com data de 27 de Abril de 2026:

Estive ontem em Vale de Cambra, na apresentação do livro “Guerra do ultramar, combatentes de Vale de Cambra", cujo autor é o amigo Professor Martinho Almeida. Tenho uma pequena colaboração no livro, da qual já não me lembro. Infelizmente, por razões pessoais, fui obrigado a abandonar a sessão, tendo ouvido, ainda, o apresentador do livro, cuja palestra achei correcta e historicamente fidedigna. Perdi, com pena, a intervenção do autor, que presumo ter sido importante.

Sendo um dos ditos “combatentes”, e tendo uma visão provavelmente bem distante das centenas de pessoas que encheram a sala, gostaria de deixar aqui a minha posição. Fui um dos primeiros a serem mobilizados no concelho de Vala de Cambra, para a guerra colonial da Guiné-Bissau, como médico. Princípios de 1966 até ao fim de 1967. Queria dizer que fui empurrado à força para uma guerra que nada me dizia, uma guerra cruel, injusta e criminosa como são todas as guerras coloniais. Não me considero combatente de nada nem de ninguém. Apenas combatente da doença e da injustiça.

Não levei agarradas a mim qualquer honra ou qualquer pátria. A minha missão e o meu dever resumiam-se curar doentes, militares e nativos, a salvar o maior número de vidas possível e a procurar encontrar os melhores resultados de uma verdadeira acção pedagógica e psico-social. Estive sempre no mato, na linha da frente, quer no leste da Guiné quer no norte. Sofri muito. Sofri muito com as perdas dos nossos soldados, sofri com as perdas das milícias e dos seus familiares, sofri com a pobreza e a desgraça dos nativos e também dos próprios guerrilheiros, a quem nunca chamei nem seria capaz de chamar “turras”.

No fim de contas, e de forma resumida, cheguei à conclusão de que a vida é uma sucessão de acasos, o que leva a que seja muito difícil dizer o que se perde ou que se ganha. Neste caso, com a obrigação de cumprir o serviço militar, não sei bem o que perdi, mas sei o muito que ganhei em experiência de vida com esta guerra tão dura e cruel. A Guerra Colonial, onde quer que se tenha dado, onde quer que se dê ou venha a dar é sempre um crime contra a humanidade e a soberania dos povos, decorrente de outro histórico crime, o colonialismo, por sua vez pai do neocolonialismo e do imperialismo.

Não posso dizer que sinto saudades da minha vida na guerra, longe disso, mas é impossível não ter recordações. A guerra ainda hoje arranca dentro de mim uma espécie de nostalgia estranha, um rebuscar no fundo do tempo o sentido do sangue que corria nas veias, uma sensação de perda profunda, semente de uma vida que até hoje aceitámos como vitória. Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou.

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Nota do editor

Último post da série de 18 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27833: (In)citações (285): Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos! Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos camarigos! (Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro)

Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Bem distintos foram os itinerários de João Corte-Real de Araújo Pereira e o de Rogério Pereira. O primeiro embarcou para Timor em 1959, era capitão, na viagem no navio Índia, descobre empatia com Luísa, haverá namoro e depois casamento, o casal ficou quatro anos em Timor. Seguem-se novas comissões, vão aparecendo mais filhos. As comissões são em Moçambique, Angola e Guiné. Os mais velhos irão frequentar o colégio militar. A mãe sofre de surdez, mas nada abalou o bom relacionamento entre a mãe e os filhos. Dá por vezes pormenores do que faz nas suas comissões, sobretudo na Guiné. Rogério Pereira foi furriel miliciano em Angola entre 1969 e 1971. Publicou a sua correspondência num livro que intitulou de Almas que não foram fardadas. No seu casamento com Teresa surgiram três filhas, duas das quais já existem quando ele está em Angola. Sente-se do seu depoimento que a guerra lhe trouxe mudanças profundas, deu-lhe um grande sentimento de solidariedade com gente tão carenciada. Sofreu muito com a morte da mulher e está bastante arrependido de ter destruído a correspondência que lhe enviou dos sítios onde viveu em Angola.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 5

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João Corte-Real de Araújo Pereira era capitão quando embarcou para Timor, no final do mês de setembro de 1959. Acontece que naquele navio, no Índia seguia também Luísa e a família. O pai da Luísa tinha sido nomeado para Comandante Militar em Timor. Aqui chegados, houve namoro e casamento, em Baucau, 1962. Observa João que Timor era uma colónia desgraçada, abandonada, não tinha luz, não tinha água, nada. Houvera uma sublevação em Viqueque contra as autoridades portuguesas em junho de 1959, rapidamente sufocada. Sabe-se que na sua origem estavam catorze indonésios que se encontravam exilados em Timor. O sogro de João fez um relatório da sublevação, aí escreveu: “O problema da subalimentação e definhamento das populações nativas, já referido pelo antigo Governador Álvaro de Fontoura no seu livro "O trabalho dos indígenas de Timor" é hoje verdadeiramente angustiante.”

João ficou quatro anos em Timor, Luísa regressa e dá à luz gémeos. Seis meses passados deste nascimento, João parte para a segunda comissão, em Moçambique, a família fica em Lourenço Marques. Um ano e pouco depois João é promovido a major. Mandaram-no então para Angola, Luísa regressa a Lisboa com os gémeos, nasce agora o terceiro filho. Quando João regressa de Angola voltará a ser mobilizado de novo para esta colónia como oficial de operações do Batalhão de Artilharia 2864. Entretanto nasce o quarto filho, Luís, João tinha metido férias e assistiu ao nascimento do filho. Aerogramas não faltaram. Em dezembro de 1972, João parte para a Guiné, é tenente-coronel e comanda o Batalhão de Artilharia 6522. Tinham sido desembarcados em Bolama e foram recebidos com foguetões 122. João comanda o Batalhão em Ingoré, trata-se do Sector 06, a zona de atuação tinha uma superfície aproximada de 1500 km2, a dimensão da fronteira norte com a República do Senegal era de cerca de 100 km.

Todo este relato será feito por João, assistiu ao aparecimento dos misseis terra-ar. O Batalhão ficou neste setor cerca de vinte meses. Luísa destruiu a correspondência que escreveu e recebeu do marido. Guardou cuidadosa e separadamente a que João trocou com cada um dos quatro filhos. João iniciava a sua correspondência com os filhos dizendo “Meus queridos filhos”, “Meus queridos rapazes” ou “Meus queridos homenzinhos”. Luísa sofria com a surdez, desenvolveu com a família uma linguagem própria. Quando se dá o encontro com as autoras do livro, é o filho mais novo que serve de intérprete. Guardam na memória a morte do tio Joãozinho, um estúpido acidente na Guiné. A memória dos anos da ausência do pai está muito relacionada com a passagem no Colégio Militar. A adaptação às regras da instituição não foi fácil.

João escreve aos filhos a sua rotina, por vezes fala aos filhos dos rapazes que vai encontrando à sua volta e também dos adultos:
“As mulheres andam nuas da cintura para cima. Andam à vontade, sem vergonha. É nelas natural. Olha, agora os miúdos vieram pedir esferográficas porque não têm. Todos estes rapazes têm um grande desejo em aprender para poderem ter uma vida melhor. Quase só comem arroz. É uma alimentação muito incompleta e por isso têm uma barriga enorme. Os rapazes fazem brinquedos com caixas de papelão, tampas das garrafas, etc. Com pouca coisa conseguem fazer trabalhos bem feitos.”

Chegou a hora da independência, entregou o território ao PAIGC. E deu-se uma viragem que para ele foi muito chocante: “Em Bissau, entregámos as armas, atirando-as para o monte, no cais, o monte de G3, nós passávamos e atirávamos a G3.

No fim da conversa os filhos de João disseram às autoras: “Nosso pai nunca falou da guerra nem nós perguntámos. Diz-se que uma guerra só acaba quando o último participante morrer. Enquanto houver um que viva, esta guerra ainda não acabou.”

Vejamos agora a história de Rogério Pereira, nascido em 1945, casou com Teresa em 1966, mobilizado como furriel miliciano enfermeiro para Angola entre 1969 e 1971. Quando Rogério parte, Teresa fica em Lisboa com duas filhas. Teresa trabalhava na área dos seguros. Rogério escreve às filhas no verso de fotografias que envia à mulher, às vezes escrevia poemas e quadras, Rogério dirá na entrevista às autoras que cada fotografia era um referencial daquele momento. A correspondência serviu-lhe para escrever um livro a que chamou Almas que não foram fardadas. Destruiu a correspondência depois da morte de Teresa e considera que foi uma coisa estúpida. Mas teve uma surpresa quando a filha mais velha, de nome Maria João, lhe trouxe uma embalagem castanha, a caixa de uma ração de combate, o conteúdo eram cartas, aerogramas e fotografias que escrevera em Angola.

Partiu para Angola em 12 de julho de 1969, com a Companhia de Cavalaria 2562, começou na região de Maquela do Zombo, na Fazenda Costa. Escreve à filha mais velha, fala-lhe das casas, da pobreza, das ruas, os meninos que não têm brinquedos, os meninos não têm areia, só terra. A maioria não fala português, havia os que falavam Quimbundo e o Quioco. Envia desenhos nas cartas. A meio da comissão, a companhia foi transferida para a zona centro para locais na Província do Bié, refere à mulher o meio em que vive, não lhe parece que haja comportamentos racistas, há cantineiros que casam com negras ou mulatas, mas é notório que os fazendeiros exploram as populações nas roças de café e do algodão, assistiu ao trabalho forçado.

No final da conversa com as autoras, João diz-lhes:
“A guerra humanizou-me muito. Relacionei-me com outras formas de ser, de estar, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã eu tinha filas à porta do posto de socorros, e isso, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência, e aquela forma de estar, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Iremos seguidamente ouvir falar de João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente e de João Menino Vargas, aqui, uma das autoras, Ana Vargas, tem laços familiares apertados. É a penúltima viagem por este tão intimista e esplendente Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra, 1961-1975.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27946: Notas de leitura (1916): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27958: Humor de caserna (260): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXII: o cheirinho a roupa lavada (Joaquim Costa, ex-fur mil Arm Pes Inf, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > Rio Geba > 1969 > Uma belíssima foto de uma lavadeira, em contraluz. O Valdemar Queroz atribuiu os créditos fotográficos ao seu "irmão siamês" Cândido Cunha.

Foto (e legenda): © Cândido Cunha / Valdemar Queiroz (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > Visita do General Spínola >  "Eu (o primeiro do grupo à esquerda a seguir ao sentinela) e o meu pelotão prestando honras militares ao General (ao centro) com o seu pingalim e à direita o comandante do quartel, na altura, mais conhecido pelo “Baga Baga”  [cmdt do BCAÇ 3852 (Aldeia Formosa, 1971/73), ten cor inf  José Fernando Oliveira  Barros Basto, que sucedeu ao o ten cor  inf António Afonso Fernandes Barata].

Foto (e legenda): © Jaoquim Costa (2021). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Joaquim Costa, ex-fur mil Armas Pesadas Inf, CCAV 8351/72,
"Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74


A roupa do Furriel pequenina: o cheirinho a lavdo e engomado

por Joaquim Costa

 Com a nossa chegada a Aldeia Formosa as mulheres locais acorreram em grupos à procura dos “periquitos” oferecendo os seus préstimos para a lavagem da roupa.

O dia da lavadeira era o mais esperado da semana no quartel. Vinham em rancho com os seus trajes coloridos, com a trouxa de roupa à cabeça e uma alegria contagiante nos rostos. Aguardavam impacientes junto ao sentinela a autorização para entrarem no quartel, o que geralmente acontecia ao meio da tarde, e era vê-las entrar em grande algazarra, de sorrisos rasgados, dispersando-se pelo quartel como rebanho comunitário acabado de chegar, do monte, ao povoado. (...)

Cada lavadeira lavava a roupa de vários militares mas nunca trocava uma única peça que fosse. Achava extraordinário como fixavam o nome de todos os militares e suas patentes. Mais extraordinário porque de 2 em 2 anos estes eram substituídos por outros, e assim sucessivamente ao longo dos anos. (...)

Certo dia, a minha lavadeira chegou com uma grande trouxa de roupa à cabeça lavada e já separada pelos diferentes donos. Colocou-a junta à porta da caserna dos furriéis e ficou à espera que aparecesse alguém para a entregar. Como não apareceu ninguém foi à procura. Entretanto, chega um colega que pega na trouxa e começa à procura, na tentativa de encontrar as suas peças. Deixou tudo numa grande desordem e não encontrou nada seu, nem podia já que esta não era a sua lavadeira.

Quando esta chega, quase ao mesmo tempo que nós (eu e mais dois camaradas, sem certezas julgo que o Carlos Machado e o António Gouveia), a rapariga fica muito preocupada e, ao mesmo tempo, indignada com o que fizeram à sua trouxa de roupa, desfazendo-se em desculpas com receio de ser despedida por desleixo.

Começámos a separar as nossas peças, tentando acalmar a simpática e eficiente lavadeira. Ela, um pouco mais calma e já com um sorriso nos olhos, tira as nossas mãos de cima da roupa e começa ela a distribuir: esta é do Carlos, esta é do António, esta é do furriel 'Pequenina'... esta é do Carlos, esta é do António, esta é do furriel 'Pequenina'….

Nem de propósito, este foi o dia em recebemos, pela primeira vez, a visita do “grande chefe” (General Spínola) a quem prestei honras militares com o meu pelotão com a farda bem lavada e engomada e o que fez Spínola retardar o gesto da continência,  dado o cheiro agradável a roupa lavada!... (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)

Guiné 61/74 - P27957: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte II: semana de 10 a 16 de fevereiro: a promiscuidade do... jardim do Éden


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de 
São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o ace4sso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar)
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Lourinhã > Praia da Areia Branca > 2 de dezembro de 2017 >  Rui Chamusco e Gaspar Sobral, cofundadores e líderes da ASTIL 

O Rui Chamusco começou por ser membro da Tabanca de Porto Dinheiro: natural de Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã há 3 décadas, sendo  professor reformado de Educação Musical no ensino oficial,   e de Português, Filosofia e Latim no ensino Particular. 

Desde há mais de uma década, que ele passou a ser um grande amigo do povo Timor-Leste, liderando um projeto  (luso-timorense),  já concretizado, em 2017, de construção de uma escola, privada, nas montanhas de Timor Lorosa'e, a par do  apadrinhamento de crianças em idade escolar.

A partir de  10 de maio de 2024, tornou-se novo membro da Tabanca Grande ( nº 886). Foi-me apresentado pelo nosso saudoso Eduardo Jorge Ferreira. Eu, por minha vez, apresentei o João Crisóstomo ao Eduardo, que era o régulo da Tabanca de Porto Dinheiro. E o Eduardo apresentou o Rui ao João, que passou a ser logo  um apoiante entusiasta do projeto da ASTIL.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso amigo Rui Chamusco já foi a Timor-Leste seis vezes,  desde 2016, em missão de cooperação  e solidariedade. Sempre pagando  do seu bolso, este "malae" (estrangeiro) tem autorização para ficar lá  três meses

Dessas viagens e estadias há crónicas que ele escreve a pensar nos sócios da ASTIL e demais amigos da Escola de São Francisco e de Timor-Leste.

 Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem  (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Começamos há dias  a publicar as da III viagem (2019). (Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023/IV viagem), 2024 /V viagem) e 2025 /VI viagem.)

Costuma viajar com o seu amigo, luso-timorense, Gaspar Sobral, mentor do projeto. A sua família (mãe e irmãos mais novos, incluindo o Eustáquio, ainda adolescente)  resistiram, espantosamente (!),  durante 3 anos (!) nas montanhas de Liquiçá, a seguir à invasão e ocupação dos indonésios (em 1975). Uma verdadeira odisseia. Inimaginável para os nossos filhos, que por enquanto ainda não sabem o que é a guerra á porta de casa.

Este projeto (a construção da Escola São Francisco de Assis, ESFA,  em Boebau, Manati, Liquiçá, Timor Leste),   nasceu de um conversa entre dois amigos, em 2015: Gaspar Sobral (timorense residente em Portugal, topógrafo, retornado de Angola, em 1975) e o Rui Chamusco. 

O Gaspar "manifestou-me o seu grande desejo de construir uma escola na terra dos seus ascendentes, em Boebau, pois na visita que lhes fizera em 2000 verificara que havia muitas crianças sem escolaridade. De imediato, eu como professor aposentado e livre de obrigações, anui ao seu desejo, respondendo prontamente: 'conta comigo'  "(...)

Em fevereiro de 2016, o Rui e o Gaspar foram  a Timor Leste visitar a localidade de Boebau (município de Liquiçá) e avaliar as necessidades no terreno: 

"O Chefe de Suco informou-nos, através dos cadernos de registo, do número de crianças que aí viviam. Mais ou menos 400, das quais só 111 iam às escolas mais próximas. Por consulta presencial, o povo pediu que fosse construída uma escola. E assim fizemos."

A construção Escola São Francisco de Assis – Paz e Bem foi inteiramente financiada por fundos recolhidos pela ASTIL. A organização e o funcionamento da ESFA continuam a ser assegurados pela ASTIL.  
Foi inaugurada em 19 de março de 2018. Mas a sua oficialização ainda está por conseguir.


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019) - Parte II: semana de 10 a 16 de fevereiro

por Rui Chamusco

10.02.2019, domingo - Bendita promiscuidade!...

Será que o jardim do Eden era assim?...Passo a descrever o que me rodeia enquanto escrevo: pardais, galinhas, pintaínhos e galos, cães, porcos (javalis), peixes, teques e toquês, papaeiras, bananeiras, coqueiros, palapeiras, goiabeiras, árvores que dão mangas, inhames (talas), casas em blocos, telhados de zinco, pessoas, crianças,etc...

Tudo isto tendo como banda sonora o cantar dos galos ao desafio, o piar dos pintaínhos, e uma luz solar que dá cor e brilho a tanta criatura. 

Não fora alguns maus odores provenientes de infraestruturas debéis ou quase inexistentes e de lixos acumulados,  diríamos que estávamos no paraíso. A natureza no seu melhor e o progresso no seu pior com este maldito império dos plásticos e outras porcarias que infestam o ambiente. É assim a ação humana: ao querer arranjar muitas vezes estraga.

São as consequências nefastas da civilização e do progresso.

10.02.2019 - Carga d’água

Mais uma demonstração de força da natureza.. Talvez a maior chuvada que eu já vi em Timor. Pelas dezassete horas, um ruído crescente vindo de longe, se foi aproximando. Era a chuva que, batendo nas folhas das árvores e nos telhados de zinco, anunciava a sua chegada. E choveu tanto, tanto, tanto que não ficou um palmo de terreno seco. Uma benção, dizem uns: uma desgraça dizem outros. Imagino como terá ficado o caminho de acesso a Boebau...

Aqui, em Ailok Laran, Dili, cada vez que chove, mesmo que seja muito, é uma festa. Todos saem à rua gritando e brincando com a água. Com roupa ou quase sem ela, todos encharcados até ao tutano ósseo, divertem-se com brincadeiras de criança que a todos nos fazem inveja. Então o Gaspar, prevendo já o que vai acontecer sempre que estas cargas de água nos visitam, vai apressado buscar a máquina de filmar para registar estes felizes acontecimentos.

“E a chuva ouviu e calou seu segredo à cidade. E eis que ela bate no vidro, trazendo a saudade”.

11.02.2019, segunda feira  - Deus nos dê paciência!...

Isto é que vai uma crise!..É já a quinta vez que o Eustáquio e eu vamos à paróquia de Motael para que um registo de Batismo seja assinado pelo pároco. E ainda não foi desta. Enchem-se de razões para justificarem o padre: “o amo (padre) está doente”, “o amo está em reunião”, o “amo está a dormir a sesta”, patati-patatá, patati-patata. 

que é certo é que a certidão de Batismo ainda não está assinada. E depois de assinada ainda tem que se ir à chancelaria diocesana para carimbar. Será que o processo é o mesmo? Por quanto tempo temos de esperar?

Custa-me ver como estes serviços ligados à igreja (a certidão de batismo consta como registo oficial da certidão de nascimento) não têm uma resolução mais célere e mais eficaz.

Sei que os timorenses são um poço de paciência, mas quanto tempo não se ganharia com um serviço mais pronto e eficaz. Deus nos dê paciência!

11.02.2019 - Um encontro franciscano-capuchinho

Já não é a primeira vez que por aqui nos encontramos. O frei Fernando, superior provincial dos franciscanos-capuchinhos em Portugal, veio de visita canónica às fraternidades de Tibar e Laleia.

 O frei Miguel, que conheci pela primeira vez, é o superior e pároco da comunidade de Laleia. À hora marcada e connosco já esperando no Páteo, apareceram trajados com o hábito dos capuchinhos, dando assim testemunho da sua condição de frades menores. Gostei da imagem simples com que apareceram.

A mesa completou-se assim: o frei Fernando e o frei Miguel, o Eustáquio e o Gaspar Sobral, e eu próprio. Enquanto saboreávamos um café à portuguesa, pusemos a conversa em dia, particularmente eu e o Fernando, pois muitas coisas nos unem desde os tempos da sua adolescência (fui diretor dele no seminário).

Serviu também este encontro para combinarmos uma visita à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Com certeza que todo aquele povo e especialmente as crianças vão gostar de ver o São Francisco de Assis, hoje em carne e osso, e irão cantar com toda a alma “ São Francisco lá na glória / Lá nesse formoso céu / Protege a nossa escola / Protege este povo teu “ (letra do hino da escola). 

Como sempre o Fernando desfaz-se em atenções para comigo, o que muito lhe agradeço. Mas ele sabe bem que estamos em sintonia, no mesmo barco, em projetos de solidariedade de “Paz e Bem”.

11.02.2019 - Farwest made in Ailok Laran

Quem diria do que esta gente se lembra?!... Durante a tarde, sob uma grande chuvada, ouvimos um enorme alarido de bandos de pessoas que corriam numa determinada direção. O que é?... O que não é?... E todos aguçavam a sua curiosidade. 

Soubemos que um jovem agrediu outro, e que as claques se juntavam e incitavam o seu protegido. E até já sabíamos o nomes dos protogonistas desta batalha. Diziam até que já lá estava a polícia.

Foi então que o Chefe da aldeia Bartolomeu Pinto passou por aqui e nos explicou o que verdadeiramente se passava. Trata-se de cenas montadas previamente de lutas para serem gravadas e publicitadas no youtube. Por cada visualização esses jovens irão receber a sua recompensa em dinheiro, fazendo desta atividade uma forma de ganharem a vida.

Não sei não, mas se a moda pega vai haver uma grande batatada!...

13.02.2019, quarta feira - filosofia oriental

Estamos sempre a aprender com esta gente. Então não é que o Eustáquio, constatando que eu e o Gaspar andamos meio adoentados com forte tosse e expetoração profunda, nos dá uma lição de vida!

 Segundo ele e os entendidos deste canto do mundo, somosnós que criamos as nossas próprias enfermidades. Tal e qual! E explica: “se tem qualquer coisa na cabeça, sobretudo maus pensamentos, tem que deitar fora, falar. (...)  Não pensar nem guardar só para si. É o que guardamos dentro que nos faz mal, e provoca a dores no nosso corpo. Não precisa de médico...” 

Isto dito assim até nem parece errado. Aliás é o fundamento de todas as técnicas de psicoterapia. Mas será que chega? Não será melhor atacar logo com um produto farmacêutico recorrer a terapias disponíveis e a processos mais rápidos e eficazes?

Pelo sim e pelo não esta tarde vou consultar um médico. E pode ser que, com culturas e conhecimentos orientais, possam curar este corpo ocidental.

E de repente vem me à ideia o título do livro de Roger Garaudy “Parole d’homme -Ocident ou Acident?”,  onde se pode concluir que a salvação vem do oriente.

Estejamos portanto muito atentos...

13.02.2019 - Cobardia!...

Falo de mosquitos, de melgas... Então não é que mordem a gente à traição, pois estamos a dormir, enchem a barriga do nosso sangue e depois abandonam o local do crime.

Depois de verificar o estrago que me fizeram, busquei furioso a raquete assassina para me vingar destes dráculas. Querem lá saber... Nem um sequer apanhei! E por aqui andamos nós ao sabor desta bicharada que teima em dar cabo de nós â ferroada.

Cobardes, cobardes, cobardes!... Eles que se deixem apanhar para verem os que lhes acontece. Nem os ossos se lhes vão aproveitar!...

14.02.2019, quinta feira  - Rumo a Liquiçá

Com várias tarefas em mente, mas sobretudo o encontro com o diretor distrital de educação dr. Zito (?), a fim de nos esclarecer em pormenor o apoio que estão a dar à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Muito bem recebidos pelo senhor diretor e por um seu colega, depressa mos deram conta da situação. 

Ficamos então a saber que a escola de São Francisco de Assis está registada no ministério de educação timorense com o número 36 do distrito de Liquiçá, e que irá usufruir dos apoioslogísticos ao dispor. Este ano letivo conta com duas salas de ensino pré-escolar, e é frequentada por 40 crianças. O professor Luís, no cargo de inspetor do ensino pré-escolar, garantiu-nos que todas as ações de formação destinadas a este ensino, promovidas por esta direção escolar seriam comunicadas a tempo de modo a poderem ser frequentadas pelas trabalhadoras da nossa escola. O resto: apoios económicos, destacamentos e outras coisas mais explicaram que dependiam do que o ministério da educação lhes afetasse.

Por fim, e em jeito de remate, ouvimos da parte do senhor diretor o mais importante desta nossa visita de cordialidade: “Com a vossa colaboração e o nosso apoio a Escola de São Francisco vai fazer o seu caminho, a pouco e pouco; vai funcionar para bem de todas as crianças que a frequentam”.

14.02.2019 - Enxurrada inesperada

Estamos de volta. Na estrada Liquiçá-Dili, constantemente em obras, e que mais parece solo lunar devido ao pó e às crateras, um pouco antes do cruzamento para Tibar acontece o inesperado. Uma grande enxurrada corre precipitadamente edesemboca mais ou menos a dez metros do mar. Cada um safa-se como pode.

Motores e karretas procuram o melhor sítio para passar.

Também o Eustáquio deu o seu melhor para que o carro em que viajávamos chegasse são e salvo ao outro lado. Azar!... O motor parou e , de tentativa em tentativa, negava-sde sempre a pegar. Uma confusão danada. Apita daqui, apita dali. Uma microlete ainda parou para tentar ajudar, mas ninguém tinha corda para atrelar. O Gaspar bem tentou telefonar ao Quino para que fosse ao nosso encontro munido da cordanecessária, mas nada conseguiu.

E no meio desta ansiedade onde até já se rezava, um sinal de esperança surgiu, A mais uma tentativa de ver se pega, o motor arrancou e com muita dificuldade lá foi andando devagarinho, ganhando ânimo e acelerando, apreensivos até ao fim. Só em casa ficamos descansados. Está claro que o êxito desta expedição deve-se inteiramente ao Eustáquio, homem persistente e desenrascado. E à proteção divina.

14.022019 - O amor anda no ar

Anunciado e festejado em todo o mundo (o amor é universal), o dia de São Valentim tem o condão de avivar sentimentos, de despertar paixões, de combinar arranjos, de suscitar gestos, mensagens, telefonemas, cartas... e tudo o mais que seja preciso para que o mundo pule e avance “ como bola colorida nas mãos de uma criança”. 

Há quem tente esquivar-se deste dia, tentando dar a entender que tudo isto é uma fantochada. Mas Cupido, com a sua flecha amorosa, a todos atinge, queiramos ou não. Porque, “o amor anda no ar”. Basta abrir os olhos para o ver, abrir as narinas para sentir o seu odor, abrir os ouvidos para escutar os seus segredos. E, como diz a letra de uma canção espanhola, “Cinco sentidos tenemos / De todos necessitamos / Pero los cinco perdemos / Quando nos enamoramos”.

Hoje mesmo, aqui em Ailok Laran, pude compreender que este dia pode ser importante para alguém. O namorado da Eza, cumprindo o ritual de São Valentim, veio namorar à noitinha. E mais uma vez associei a letra da canção do rio Douro “conta a lenda / Que a namorar à noitinha / Foram encontradas as ninfas / com o rio Douro ao luar!”

Sim, a força do amor (que não só o amor físico) move montanhas. “Sapete perché il mondo va? Perché in torno al mondo gira l’amore...” E, embora com um dia especial,  14 de Fevereiro - que São Valentim seja todos os dias.

16.02.2019, sábado - ADHAN: o chamado para a oração

Aqui, em Timor, a religião mulçumana tem uma grande adesão, ainda que não comparável com a religião cristã, com destaque para a religião católica. 

Cada religião desenvolveu uma maneira de chamar os seus fiéis para o momento do culto: os judeus utilizavam uma corneta, os budistas uma trombeta, os cristãos os sinos das suas igrejas...

Já não é a primeira vez que, entre as cinco e cinco e meia da manhã, oiço o uma voz que percorre este ambiente. No princípio algo estranho, mas depois facilmente compreensível. Trata-se da chamada para a oração mulçumana - o Adhan - que é pronunciado em tom melodioso pelo Muazzin, do alto dos minaretes das mesquitas de todo o mundo.

Não percebendo nada do que se dizia cantando, fiz uma pesquisa na net sobre o conteúdo deste anúncio. E então deparei com o original e a sua tradução, que transcrevo:

Allahu Akbar | Deus é Maior !

Ach hadu an la ilaha ill- Allah | Testemunho de que não há outra divindade além de Deus.

(Revisão / transcrição de texto, título, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série >  20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27934: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte I: semana de 31/1 a 9/2: santa paciência e ajudas...divinas

Guiné 61/74 - P27956: Parabéns a você (2478): Belmiro Tavares, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 675 (Binta, 1964/66); Cor Inf DFA Ref Hugo Guerra, ex-Alf Mil Inf CMDT dos Pel Caç Nat 55 e 50 (Gandembel, Ponte Balana, Chamarra e S. Domingos, 1968/70) e Joaquim Costa, ex-Fur Mil Arm Pes Inf da CCAV 8351/72 (Cumbijã, 1972/74)



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Nota do editor

Último post da série de 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27944: Parabéns a você (2477): David Guimarães, ex-Fur Mil Art MA da CART 2716 / BART 2917 (Xitole, 1970/72)

domingo, 26 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 8o anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

 








Fonte: Excerto da 1ª página do "Diário de Lisboa" | Número: 8409 | Ano: 26 | Data: Quinta, 25 de Abril de 1946 | Directores: Director: Joaquim Manso

(1946), "Diário de Lisboa", nº 8409, Ano 26, Quinta, 25 de Abril de 1946, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22887 (2026-4-26)



1. Portugal, "graças a Salazar e a Nossa Senhora de Fátima", dizia-se na minha terra, quando era menina e moço, na catequese e na escola primária, escpara aos horrores da II Guerra Mundial... Só muito mais tarde é que vim a saber da imensa tragédia que se abateu sobre Timor-Leste nesse período hediondo da história da humanidade. Também sou do tempo em que Portugal ia do Minho a Timor. (Timor-Leste tem 155 referências no nosso blogue.)

O impacto da ocupação japonesa em Timor durante a II Guerra Mundial foi devastador, e infelizmente é ainda  pouco conhecido dos portugueses,  fora da historiografia especializada.

Recorde-se que durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Timor (então dividida em duas partes, o Timor Português e o Timor Holandês) foi invadido pelo Império do Japão em 1942. Curiosamente, antes disso, forças australianas e holandesas tinham desembarcado em Timor português, em finais de finais de 1941, sem autorização formal de Portugal, temendo uma invasão japonesa, o que acabou por precipitar o ataque nipónico, dois meses depois,

Após a invasão, comandos australianos (as chamadas “Sparrow Force”) conduziram uma guerra de guerrilha com forte apoio dos timorenses. Essa colaboração teve consequências terríveis:
  • os japoneses retaliaram brutalmente contra a população civil;
  • armaram e protegeram as "famigeradas colunas negras";
  • aldeias inteiras foram destruídas;
  • houve execuções, trabalhos forçados e deslocações massivas.
As estimativas variam, mas são geralmente aceites números muito elevados: entre 40.000 e 70.000 timorenses morreram, numa população relativamente pequena. Isso representava  algo como 10% a 15% da população da época.

As causas principais estão, direta ou indiretamente, relacionadas com a invasão oe ocupação japonedsas: v
iolência direta (massacres e execuções); fome (colapso da agricultura e pecuária e requisições forçadas); doenças (e falta de cuidados médicos, agravada pela guerra).

A população timorense teve um papel ativo na luta contra o ocupante: muitos serviram como guias, carregadores e combatentes auxiliares; e esse apoio foi crucial para a resistência australiana, mas custou-lhes caro.

Após a rendição do Japão em 1945, no seguimento dos bombardeamentos atómicos (Hiroshima e Nagasaqui) e da derrota total do Japão,  Timor voltou ao controlo português.  
No entanto, as infraestruturas estavam devastadas; a cidade de Díli destruída; a  economia rural em colapso; a população profundamente traumatizada.

2. Memória histórica:  este episódio é hoje reconhecido como um dos maiores sacrifícios da população timorense; na Austrália, há um reconhecimento crescente da “dívida de sangue” para com Timor; em Timor-Leste, a memória da ocupação japonesa é parte integrante da identidade histórica nacional; em Portugal, houve quem acusasse o regime de Salazar de abandono dos portugueses e timorenses que lá ficaram, indefesos e incomunicáveis. E até de um "silenciamento cínico".

Haveria, porém,  uma exceção: o  caso de Dom Aleixo Corte-Real, um dos episódios mais marcantes e também mais complexos dessa época. Foi glorificado pelo Estado Novo.



Timor Leste > s/d (c. 1936/40) > O "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), régulo de Ainaro e Suro, um dos heróis luso-timorenses da resistência contra os ocupantes japoneses na II Guerra Mundial.

Fotos do Arquivo de História Social > Álbum Fontoura. Imagens do domínio público, de acordo coma Wikimefdia Commons.


2.1. Quem foi Dom Aleixo?

Dom Aleixo, de quem já aqui temos falado,  era liurai (régulo, chefe tradicional) de Ainaro, em Timor-Leste. O "Diário de Lisboa" chama-lhe "príncipe".

 Quando os japoneses invadiram o território durante a Segunda Guerra Mundial, ele tornou-se um dos principais líderes locais da resistência: apoiou as forças australianas na guerrilha contra o Império do Japão; mobilizou combatentes timorenses; recusou colaborar com os ocupantes.
 
Em 1943, após campanhas de repressão japonesa, Dom Aleixo foi capturado e foi executado,  de forma brutal. Grande parte da sua família também foi morta.

Este tipo de represália não era incomum: os japoneses visavam destruir redes locais de apoio à resistência. Sem dó nem piedade.

O regime português transformou Dom Aleixo numa figura heróica...  O Estado Novo apropriou-se da sua história para exaltar a lealdade dos “indígenas” ao império português, reforçar a ideia de unidade imperial, criar uma narrativa de fidelidade a Portugal.

Ou seja, ele foi apresentado como um chefe tradicional que morreu fiel à bandeira portuguesa.

2.2. O outro lado da história

A historiografia mais recente tende a ver Dom Aleixo de forma mais autónoma: lutava contra uma ocupação estrangeira violenta, e não apenas “por Portugal"; a  sua liderança baseava-se em estruturas locais timorenses; a  resistência tinha motivações próprias (defesa da terra, da comunidade, da autonomia). O mesmo se passou noutros territórios, já na guerra colonial:  caso dos fulas, dos manjacos, dos felupes e outros, na Guiné.

Além disso, sabe-se que muitos timorenses resistiram sem qualquer ligação direta ao poder colonial. Outros foram forçados a colaborar com os japoneses... Portan
to,  a realidade era muito mais complexa do que a narrativa oficial. 

Hoje, Dom Aleixo é lembrado como herói nacional em Timor-Leste, mas com um significado diferente: símbolo de resistência timorense; mártir da luta contra a ocupação estrangeira;  figura da identidade nacional, não apenas colonial. 
 
Não é errado dizer que houve uma  “transformação em herói” por parte do Estado Novo... mas isso foi uma reinterpretação política de uma figura cuja importância histórica é real e anterior a essa propaganda.

3. A ideia de um “silenciamento cínico” não é totalmente descabida, mas convém enquadrá-la com algum cuidado histórico.

Durante o regime do Estado Novo, a informação era fortemente controlada e a narrativa oficial sobre o império tendia a ser seletiva. No caso de Timor, houve de facto pouca visibilidade pública do que aconteceu entre 1942 e 1945.

Há várias razões, mais pragmáticas do que necessariamente conspirativas:

(i) neutralidade portuguesa na guerra:  Portugal manteve-se, como é sabido,  oficialmente neutro na Segunda Guerra Mundial, pelo que dar demasiado destaque à invasão japonesa de território português, e à presença prévia de tropas australianas sem autorização poderia expor fragilidades dessa neutralidade, e fazer perigar outras posições territoriais na Ásia (como Macau);

(ii) embaraço político e militar: a  ocupação mostrou que Portugal não tinha, de facto, capacidade real de defender Timor (que ficava a 20 mil km de distância de Lisboa)  e que perdeu totalmente o controlo do território durante esses anos (1942-1945), incluindo as telecomunicações; ora, isso colidia com a imagem de um “império forte e indivisível” que a propaganda do  regime promovia;

(iii) narrativa colonial: o Estado Novo evitava dar protagonismo excessivo às populações coloniais e aos seus líderes tradicionais como agentes históricos; ora, em Timor os timorenses foram decisivos na resistência, mas pagaram caro o seu amor à liberdade e à sua identidade; reconhecer isso plenamente implicaria admitir dependência e vulnerabilidade e... "pôr em risco a neutralidade";

(iv) ce
nsura e prioridades internas; a  imprensa portuguesa era fortemente censurada, e o foco estava sobretudo na Europa; Timor era um território, remoto e periférico para a opinião pública metropolitana, era apenas um local de desterro...

Não se pode falar em "silêncio total": houve relatórios oficiais, correspondência e algum reconhecimento interno. Após a guerra, Portugal retomou a administração e fez esforços (limitados, embora) de reconstrução.

Mas não houve uma grande narrativa pública ou memorialização proporcional à dimensão da tragédia.
 
Hoje, muitos historiadores consideram que houve subvalorização e apagamento relativo da tragédia de Timor, mais por conveniência política e idelógica do regime do que por um plano deliberado de negar os factos.

Durante décadas, o sacrifício timorense ficou pouco conhecido em Portugal até ao 25 de Abril de 1974.

4. Qual o destino dos  dois menores, órfãos, Benjamim Corte-Real e José Corte-Real, netos do Dom Aleixo Corte-Real, que  vieram para Portugal, no navio Quanza, desembarcaram em Lisboa em 25/4/1946, e foram entregues à Casa Pia ?  

O destino posterior dos dois netos de Dom Aleixo Corte-Real é muito menos claro e mal documentado. Não há um registo público amplamente divulgado ou consensual sobre o percurso completo das suas vidas adultas. Algumas investigações e relatos indicam que terão sido educados em Portugal continental,  podendo ter sido integrados na sociedade portuguesa ou regressado à sua terra natal, quando atingiram a maioridade.

Mas os detalhes (profissões, regresso ou não a Timor, descendência, etc.) não estão bem estabelecidos na historiografia acessível.

Por que é tão difícil saber mais? Há várias razões:

(i) arquivos dispersos ou pouco estudados: registos da Casa Pia de Lisboa e da administração colonial nem sempre estão totalmente investigados ou cruzados;

(ii) invisibilidade social: ao contrário da figura de Dom Aleixo, os netos não foram figuras públicas, não entraram na narrativa oficial com o mesmo destaque, embora tivessem nomes portugueses;

(iii) descontinuidade histórica: o próprio passado colonial de Portugal só começou a ser mais profundamente estudado após o 25 de Abril, e muitos casos individuais ficaram por reconstruir.

PS - Há um linguista, professor doutor Benjamim de Araújo e Corte-Real (mais conhecido como Benjamim Corte-Real),  nascido em 1961, que pode ser desta família. Mas não temos mais informação, a não ser a que vem na sua entrada na Wikipedia. Foi o primeiro reitor, eleito em 2001, da UNTL - Universidade Nacional de Timor Lorosa'e.

Embora tenha feito os estudos superiores na Austrália (mestradoo e doutoramento), tem-se empenhado na "prossecução de uma política linguística que salvaguarde a cultura e identidade nacional timorense, através da promoção das duas línguas oficiais, português e tétum, contra correntes alienantes incentivadas por interesses estrangeiros".

(Investigação: LG + ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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