Timor-Leste > Liquiçá > Mantti > Boebau > Escola de Sáo Francisco de Assis (ESFA) > Crianças com t-shirts com o símbolo de Portugal. Foto da página do Facebook do Gaspar Sobral.
O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos (exceto na pandemia), desde 2016. É o lider (e um os fundadores, com Gaspar Sobral e Glória Sobral) de uma associação de solidarieddae com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e faz o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar.
São 3 dias de viagem até Dili!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação delicada cirúrgica, de que está a recuperar bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue. Tem uma história de vida inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência (em 2002). É também um exemplo vivo de amor à lusofonia que merece ser conhecido pelos nossos leitores.
Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), aprende-se muito sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia dos nossos amigos timorenses.
Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se Deus Nosso Senhor e a Senhora da Saúde o permitirem.
Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas.
Em Díli costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral, o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral). De 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe. Tinha então 14 anos.
Suprami com folhas e flor de papaia foi a proposta que a Aurora me fez para a merenda de hoje. Suprami é talvez a comida mais fácil de preparar, constituída á base de massa fina com tempêros, que os indonésios introduziram e exportam para Timor Leste. Sobretudo nos meio urbanos, é das comidas mais consumidas.
Claro que já saboreei este produto por diversas vezes, e até nem é mau para o paladar.
Mas quando me falaram em suprami com folha e flor de papaia anui logo. Porque, segundo a cultura timorense, a flor e a folha de papaia são o melhor remédio para
prevenir e combater a malária. De sabor muito amargo, mas atenuado pelos temperos
da suprami, um remédio natural ao nosso alcance, capaz de nos curar das nossas
maleitas. Mais uma receita cuja essência é a folha e a flor da papaia.
Perguntarão: “Então e o fruto, a papaia, que é tão apreciado em todo o mundo? Claro que o fruto tem também as suas propriedades nutritivas e curativas. Diz-se que as suas sementes são benéficas para a função intestinal.
Mas, para completar esta informação, informo que há árvores de papaia (papaeiras?) que só dão flor, enquanto outras dão flor e fruto. A receita que aqui descrevo diz respeito às primeiras.
Como a natureza é rica em recursos e ensinamentos!...
01.04.2019 - Lição de partilha
Quando estamos atentos ao que se passa ao nosso redor, há sempre algo de novo, que nos faz refletir, que nos interpela.
Estando hoje à tarde no átrio da casa “Moniz”, que é a nossa morada, em horas de merenda ou de jantar para os galináceos já habituados a esta praxe de alguém atirar punhados de arroz para se banquetearem, vejo umas sete ou oito galinhas correndo apressadamente para o local. Perguntei à Aurora: “São todas vossas? - “Não!” - respondeu ela. “ Então como sabeis quais são as vossas?” - perguntei de novo. “Pelas cores.” - retorquiu ela.
Pois é! Aqui em Timor, desde que esteja a mesa posta, todo o que chega tem lugar. O repasto é repartido por todos. Uma partilha que, a nós ocidentais, em muitos casos para nós é estranha, habituados que estamos ao provérbio “ Quem parte e reparte, e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte.”
Ainda há dias aqui chegou um vizinho, o Carlitos, para avisar o Eustáquio de que uma sua galinha fez ninho e estava a chocar os ovos no terreno da casa do Ti Beto. Sem qualquer problema de que a galinha do outro invada o seu terreno para fazer a criação.
Um grande respeito pela natureza que tanto nos dá; uma atitude de tolerância louvável; um sentimento de partilha incrível. Valores perdidos na maioria das sociedades e culturas ocidentais. Por aqui, casas amuralhadas ainda há poucas por enquanto. As pequenas separações são facilmente ultrapassáveis. As casas ou propriedades com sistema de alarme e câmaras de vigilância não abundam. Só algumas pessoas importantes ou serviços de estado se protegem com esses aretefatos.
Defender o quê, se a maioria das pessoas pouco ou nada têm? Mesmo assim, são estasn pessoas que tudo partilham, até “o pão (arroz) para a boca que todos os dias as sustenta. Como disse esta semana o Papa Francisco, depois da visita a Marrocos:“ aqueles que constroem os muros acabarão presos pelos muros que construíram. Mas aqueles que constroem pontes vão muito avante. A ponte é feita por Deus com as asas dos anjos para que os homens se comuniquem... para que os homens possam se
comunicar.”
01.04.2019 - Vale o que vale ... e mais nada!
Hoje de manhã eu e o Amali fomos ao Serviço de Fronteiras e Estrangeiros no intuito de confirmar a minha situação de estadia em Timor Leste. Que confusão de ideias nas cabeças daquela gente!
No regresso a casa ninguém queria acreditar. Até o Gaspar que sabe lidar com estes assuntos, ficou furioso, e até se dispôs a prescindir de algumas aulas para, na próxim quarta feira, ir tratar do assunto.
Felizmente que, à noite, recebi um telefonema do amigo Ascenso, que domina estes assuntos como ninguém, a tranquilizar-me dizendo:
Neste episódio, lamento que Timor Leste sendo um país que adoptou a língua portuguesa como segunga língua oficial, não tenha funcionários capazes de compreender e de falar o português em serviços tão importantes como este em causa.
Se não fora o Amali a tentar traduzir a confusão, seria ainda maior.
Vale o que vale... Mais nada!
03.04.2019, quarta feira - Galinha dos ovos de ouro
Já falei desta ave que, sem nenhum problema de consciência, invadiu o quintal (sem muros) do vizinho para lá fazer os seu ninho e ir pondo os seus ovos.
Atónito perguntei ao Eustáquio:
Entendi. Os ovos que aqui comemos não são destas galinhas. Preferem, talvez por
uma quetão cultural, comprar os ovos de aviário que consumir os ovos caseiros.
Diremos que estes são ovos de oiro, enquanto os outros são ovos banais.
03.04.2019, quarta feira -” Nobreza... a quanto obrigas!”
Estou a falar de burocracia, de papéis, de documentos a legalizar. Desde há uns tempos que os processos de pedido de nacionalidade portuguesa para o Amali (Zinigio Sávio Maliata Sobral) e para o Eustáquio (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) nos vêm ocupando algum tempo.
notário.
Compreende-se a dificuldade que muitos cartórios têm em passar estes documentos,
sem lacunas. Alguns livros de assentos tiveram de ser refeitos, e nem sempre bem (troca de nomes, de datas, etc...) Os cartórios paroquiais que eu conheço estão sempre repletos de gente a solicitar os seus serviços.
A outra parte da questão prende-se com a Embaixada de Portugal em Timor Leste (Díli). Todos os documentos têm de ser legalizados na secção consular desta embaixada, como é óbvio, que depois são enviados em mala diplomática para os Registos Centrais de Lisboa.
Perante isto, o Amali decidiu ir para Portugal, para casa dos tios Gaspar e Glória Sobral, a fim de melhor poder acompanhar e desenvolvimento do seu processo e do pai. Com os documentos devidamente legalizados pela embaixada de Portugal,
entregou nos Registos Centrais de Lisboa o seu processo e o processo do pai, aos
quais foram atribuidos os números respetivos.
outro lado do edifício, levantar dinheiro que chegasse, o que me foi facilitado. De volta à embaixada, sentado à espera de ser chamado no espaço dos serviços consulares, veio ter comigo a DrªJoana que me entregou os documentos em causa sem estarem legalizados, dizendo-me que tinham de ser os próprios a pedir a marcação para a legalização, ou então um solicitador devidamente credenciado.
Senti uma grande frustração, e é escusado dizer que nada motivado para continuar nestas andanças de papeladas. “Nobreza...a quanto obrigas!”
Muitas mais coisas me apetecia dizer, mas vou ficar por aqui, para bem da minha
cabecinha pensadora.
06.04.2019, sexta feira - “Quem vê caras não vê corações.”
Esta nem ao diabo lembra.
Em 2018, aquando da nossa estadia, fomos comprar uma tábua de engomar numa das muitas lojas que existem em Dili. A pensar que tínhamos adquirido uma grande coisa, afinal não passa de uma grande *...
E uma vez mais se aplica o ditado “ Quem vê caras não vê coraçôes”. Cuidado com as falsificações! Cuidado com os lobos disfarçados em pele de cordeiro! Cuidado com
os sepulcros bem caiados!
A tábua de engomar está já restaurada pelo artista da casa, Amali, com uma qualidade
bem superior à que nos foi impingida.
Bolas! È uma questão de qualidade comercial...
06.04.2019 - Sinais de mudança
Falo do tempo metereológico, e não de mudanças políticas ou outras.
Como já referi nestas crónicas, aqui só há duas estações no ano: O verão e o inverno.. A passagem de uma para a outra é marcada por dois ou três dias de temporal, com fortes ventos que se fazem sentir na terra, no mar e no ar. Já o ano passado podemos testemunhar esta transição do inverno para o verão, enquanto estivemos em Boebau.
Este ano estamos em Ailok Laran, onde decorre o mesmo fenómeno. Não há calendário que defina os dias certos deste mudança. Mas, pela experiência dos mais velhos, todos sabem que o verão está a chegar. Com ele chegarão também o pó dos caminhos, o tempo de seca,, mais calor, uma variedade de frutos apetecidos.
Que venha o verão! Que venha por bem!...
(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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(*) NÚltimo psote da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28084: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VIII: semana de 24 a 31 de março: do ensino da língua portuguesa ao barlaque































