1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026:
Queridos amigos,
Estamos já nas últimas páginas do documento elaborado pelo Capitão Henri Brosselard. Confesso que encontrei inúmeras dificuldades na tradução. logo a torto e a direito ele fala em ville e village, vi-me na obrigação, em muitos casos de falar em aldeamentos ou povoações, a palavra village por exemplo não me parece ter cabimento em português para falar de seis ou oito moranças. O mesmo direi da descrição que ele faz das florestas, todas as árvores gigantes lhe parecem ser da família Bombax, ora nós sabemos que há diferentes designações; e nos primeiros textos que aqui publiquei ia referindo que os indígenas empunhavam sabres quando na verdade empunhavam catanas; para acabar este meu lamento, há também as expressões à volta de terrenos pantanosos e braços de rio, só muito raramente o Capitão Brosselard fala em mangrove, o equivalente a tarrafe.
Posto isto, este penúltimo texto assinala o fim dos trabalhos da comissão, os portugueses deixaram a Casamansa e o oficial francês antes de partir para Gorée vai espiolhar rios menores que desaguam no Casamansa. Como iremos ver no último texto, as referências à Guiné portuguesa não serão muito abonatórias, vê-se claramente que o oficial francês deve abocanhar aquele pedaço de território enquistado na África ocidental francesa, a Gâmbia será também um outro corpo estranho, mas o poder da Grã-Bretanha não permite veleidades, é melhor nem falar do assunto.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 19
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
A narrativa do Capitão Brosselard caminha para o fim, a comissão portuguesa já deixou o Casamansa, o oficial francês vai percorrer outras zonas antes de chegar a Gorée. A comissão portuguesa deixou o Casamansa no Guadiana e a comissão francesa no Mésange. Voltamos ao relato na primeira pessoa do singular.
Antes de tomar a rota para Gorée, o nosso barco navegou no rio Sâloum. Quando se deixa Dacar indo para o sul, este rio é o primeiro dos rios franceses que tem uma saída para o interior, da mesma maneira que o rio Mellacorée é o último.
O rio Sâloum é navegável por noventa milhas. Os navios de comércio de 30 a 250 toneladas sobem facilmente até ao posto de Kawlakh, que foi construído em 1861. A barra apresenta algumas dificuldades, porque é formada por bancos movediços. Nós entrámos seguindo uma linha de balizas que marcam o canal. As margens do Sâloum e do Sîn, um dos seus afluentes, são baixas e cobertas de espessos e altos tarrafes cheios de aves aquáticas, graças brancas e azuis e pelicanos. Imensas lalas estendem-se a perder de vista, podemos ver os troncos cónicos e acobreados das árvores gigantes; o leopardo e a pantera caçam aqui, a gazela e os antílopes. Alguns, raros, elefantes vivem solitários e temidos junto dos rios e também nos espaços desérticos do alto Sâloum; para lá de Kawlakh habita a girafa.
O círculo de Sîn-Sâloum compõe-se de dois reinos indígenas; o Sîn, com capital em Fatick, e o Sâloum, com capital em Kawn. São dois reinos Sérères habitados o primeiro pelos Sîn-Sîn, o segundo pelos Sîn-Sâloum. Os Sérères são os indígenas mais selvagens e os mais cruéis do Senegal; são especializados na ciência temível dos venenos com efeitos lentos e estranhos; e certas tribos, no entanto vizinhas de nós, habitam ainda nas árvores como os macacos.
A singular doença do sono, muito espalhada na Senegâmbia, faz numerosas vítimas no território Sérère. A povoação de Portudal foi completamente destruída pela aparição desta doença que lembra bastante um longo envenenamento e causa aos negros o maior pavor. As casas comerciais do Senegal estabeleceram delegações em Foundiougne, Kawlakh e Fatick. Foundiougne acha-se na ilha do mesmo nome, na margem esquerda do Sâloum; as relações entre Gorée e esta escala são antigas e ativas. Quatro estabelecimentos de cor branca alinham-se na margem com os seus longos cais de madeira avançando no rio. Entrevê-se atrás delas as casas bem alinhadas do aldeamento indígena postas como enormes colmeias sobre os verdes-pálidos de uma grande floresta. Durante o ano de 1888 a quantidade de amendoim tratado em Foundiougne foi superior a 5 milhões de quilos.
O nosso aviso estava fundeado em Foundiougne, subi o rio Sîn com a chalupa a vapor e assim cheguei a Fatick, subindo as intermináveis sinuosidades do rio. Em Fatick, o Sîn torna-se bastante estreito, a partir daqui já não é navegável. Quatro armazéns dirigidos pelos de Foundiougne são construções novas, datam do ano passado. À volta são dois grandes aldeamentos indígenas, um na margem do rio, o outro no interior. Subindo a margem vê-se a pouca distância um grupo de cinco ou seis casas cercadas por uma paliçada e à sombra de um soberbo tamarindo: é o posto ocupado por um sargento europeu e alguns atiradores indígenas. Tamarindos, poilões, árvores da borracha envolvem a povoação de uma magnífica cintura de sombra e verdura. Pássaros de todas as cores, melros metálicos, colibris, pombos verdes, chilreiam nas árvores, e os grandes bois dos Fulas circulam livremente pelos prados. Regresso desta excursão na mesma embarcação até à povoação de Kawlakh, erigida sobre o Sâloum, quase numa das extremidades de um dos seus braços. Era neste lugar que existia outrora a mais importante escala da região.
Hoje, depois da doação feita à França da ilha de Foundiougne pelo régulo Sâloum, deu-se uma emigração de indígenas e Kawlakh perdeu a importância do passado. Há em Fatick quatro feitorias dirigidas pelos de Foundiougne. O posto está abandonado e arruinado.
As escalas de Foundiougne, Fatick e Kawlakh são território francês: o resto não é mais do que um país protegido, sob o nosso controlo, mas regido pelas leis e costumes indígenas. Apesar da propaganda muçulmana, o fetichismo é a forma religiosa do país. A serpente é o emblema da divindade. O feiticeiro é um personagem oficial, sacerdote e médico ao mesmo tempo.
Triste sorte terá o indígena que não pertencendo à confraria se ponha a fazer de feiticeiro: será morto desde que, com razão ou sem ela, se faça passar por feiticeiro. É difícil penetrar no segredo dos ritos religiosos dos Sérères. Sabe-se, contudo, que existe entre eles uma vasta sociedade secreta que tem muita analogia com a dos Simons, que encontramos entre os Nalus e os Bagas; como nestes últimos, esta sociedade é todo-poderosa e, sob a máscara religiosa, parece igualmente não ter uma só finalidade, uma espécie de função social que consiste em defender o indígena contra o poder. Graças a um sistema admiravelmente organizado, pode transmitir instantaneamente a sua palavra de ordem até aos lugares mais longínquos do território Sérère.
E o Capitão Henri Brosselard vai despedir-se na sua narrativa falando da Guiné Portuguesa. Será assim que concluiremos o texto que publicou em Le Tour du Monde, em 1889.
Imagens antigas retiradas do site Senegal Online
(continua)
_____________
Nota do editor
Último post da série de > Guiné 61/74 - P28469: Historiografia da presença portuguesa em África (550): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (18): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)











































