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sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28174: Fichas de unidades (41): CART 2384, "Leões do Norte" (Contuboel, Saliquinhedim / K3, Jumbembém, Farim, 1968/1970)


Guião da CART 2384. Coleção Carlos Coutinho (2009).

1. Temos apenas três referências à CART 2384, subuniddae que não tem nenhum representante na Tabanca Grande, apesar do convite já feito, em 28/2/2026, ao Manuel João Revelos, que vive em Cacia, Aveiro (ex-sold at art, nasceu em 15/12/1946 em Lavos, Figueira da Foz; do seu álbum publicámos, com a devida vénia, algumas fotos, incluindo cinco de  Farim)(*).

Para colmatar esta lacuna, publicamos para já a sua ficha de unidade (**). Esperamos que haja mais alguém que nos dê notícias dos "Leões do Norte", que estuveram em reforço de vários batalhões e outras unidades  (BCAV 1905, BART 1904, BART 1914,BCAÇ 1932, COP3).

2. Fichas de unidade:

Companhia de Artilharia n.º 2384

Identificação: CArt 2384

Unidade Mob: GACA 2 - Torres Novas

Cmdt: Cap Mil Art José Reis Fernandes Leitão | Cap Mil Inf António Luís da Silveira Santos Rodrigues

Divisa: "Leões do Norte" - "O Céu, a Terra e as Ondas Atroando"

Partida: Embarque em 01Mai68; desembarque em 07Mai68 | Regresso: Embarque em 03Abr70

Síntese da Actividade Operacional

Em 11Mai68, seguiu para Contuboel, a fim de efectuar o treino operacional sob orientação do BCav 1905.

A partir de 05Jun68, ainda com a sua sede em Contuboel, assumiu as funções de companhia de intervenção e reserva do Comando-Chefe, tendo tomado parte em acções desenvolvidas na área de Fajonquito e Poidom (Xime), em reforço do BCav 1905 e BArt 1904, respectivamente. 

Em 16Jun68, foi colocada em Bissau, mantendo-se como companhia de intervenção e sendo atribuída em reforço do BArt 1914, de 17 a 20Jun68, com vista à realização de operação "Corsário Negro", na região de Jabadá-Budoco.

Em 25Jun68, assumiu a responsabilidade do subsector de Saliquinhedim / K3, em substituição de dois pelotões da CArt 1691 ali temporariamente colocados, tendo ficado integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1932 e colaborando ainda nas acções de contra-infiltração no corredor de Lamel.

Em 07Dez68, após desactivação do subsector de Saliquinhedim (onde ainda permaneceu um pelotão até meados de Jan69) e em virtude da criação do subsector de Jumbembém, foi ali colocada, em substituição dos efectivos da CArt 2340 e mantendo-se integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1932 e depois do COP 3.

Em 01Jun69, foi rendida no subsector de Jumbembém pela CArt 2478, do antecedente ali colocada em reforço da guarnição local e foi transferida para o subsector de Farim, com um pelotão destacado em Saliquinhedim, a fim de substituir a CCav 1748.

Em 04Ag069, substituída no subsector de Farim pela CCaç 2547, regressou ao subsector de Jumbembém a fim de render a CArt 2478; em 05Jan70, por troca com a CCaç 2548, foi colocada de novo em Farim, com vista à realização do esforço de contrapenetração no corredor de Lamel.

Em 28Fev70, foi substituída em Farim pela CCaç 2681 e recolheu, por fracções, a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso, mantendo entretanto dois pelotões em Farim até à 3.a semana de Mai70, em reforço da actividade daquela subunidade.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n." 120 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 461/462

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Notas do editor LG:

(*) Vde. poste de 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)

Guiné 61/74 - P28173: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Iniciei a visita à cidade museu de Gjirokastër, Património da Humanidade, possui uma das fortalezas mais imponentes de toda a península balcânica, casas de arquitetura otomana que cortam a respiração, tudo em pedra, um singelo museu etnográfico onde até se guarda o berço do ditador Enver Hoxha, nasceu neste local, Gjirokastër é também a terra natal do maior escritor albanês do século XX, Ismail Kadaré, preferi andar um tanto à solta a contemplar a cidade em pedra, possui uma mesquita bem curiosa que quando o regime de Enver Hoxha decidiu que a Albânia era um país ateu, em 1967, foi transformada em escola de artes circenses. Ainda houve a tentação de ir visitar o parque arqueológico de Adrianópolis, fundada pelo imperador Adriano, mas o deslumbramento de toda aquela pedra pesou mais alto, ainda tenho imagens para vos mostrar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6


Mário Beja Santos

Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade.

Chega-se à cidade e lembra o que me aconteceu quando se chega a Bérgamo, a parte de baixo é igual a todas as outras, toma-se um táxi e em dado momento ganha-se a perceção que entrámos num mundo antigo, ruas de Bazar engalanadas com tapetes Kilim, a grande mesquita, poupada aos acontecimentos de 1967, quando o regime de Enver Hoxha decretou que a Albânia era um país ateu, destruíram-se templos ou converteram-se em ginásios, escolas de circo e muito mais coisas. É em povoações como Gjirokastër que sentimos uma Albânia que tem um dos povos mais antigos da Europa. Aqui subsistem vestígios de uma fortaleza imponente do século XIII, não deixa de nos assombrar que em torno desta cidadela se expande uma cidade singularíssima em pedra, que se iniciou nos primeiros anos do século XIV. Com a ocupação otomana, tornou-se um centro administrativo, aqui residia o Paxá. A cidade começou a crescer no século XVII e teve o seu desenvolvimento final no século XIX, tal como a conhecemos hoje.

A vista não se cansa de olhar para esta urbanização, possui bairros próprios, mas a unidade urbana salta à vista. Casas em pedra, ruas em pedra. Obviamente que o edifício de maior grandeza é a cidadela, teve benfeitorias até à década de 1810, ao tempo de um senhor feudal que deixou marca, Ali Paxá de Tepelena. O mercado coberto foi no passado um dos conjuntos arquitetónicos mais importantes da cidade, veio depois aa ser reconstruído em finais do século XIX no local onde hoje o encontramos, o grande bazar. É evidente que o visitante vem condicionado pelo que vem escrito nos guias, dão destaque ao património otomano, casas de vários andares, construídas em terreno rochoso, com características na distribuição interna, o ponto máximo do refinamento é o quarto de acolhimento dos hóspedes, o interior das outras divisões é de grande sobriedade. Preferi andar um tanto à deriva, tive a sorte de ficar num lugar perto do grande bazar e comecei a incursão pela fortaleza que possui dois museus, preferi cirandar e viver a atmosfera nesta cidade museu. O andar à deriva fez-me perder a visita a um dos bunkers que o regime mandou fazer na década de 1970, quando se supunha, que dentro daquela paranoia das invasões e de guerra termonuclear, que era determinante salvar a vida aos quadros comunistas. Sobre este assunto, limito-me a reproduzir fotografias do interior dessa construção da Guerra Fria.

Castelo de Gjirokastër, imagem retirada do site Tripadvisor, com a devida vénia. O castelo serviu de prisão durante o regime comunista, hoje a então área prisional foi transformada no museu dos armamentos.
Tanque italiano Fiat L6/40, de 1940, a generalidade destes tanques foi destruída em batalha, este exemplar foi encontrado na costa sul da Albânia, é uma peça de museu. Imagem retirada na visita ao museu dos armamentos.
Imagem da parte histórica de Gijirokastër, e, lá em baixo, coberto pela nuvem, a parte nova da cidade. A imagem é tirada do castelo, um dos mais velhos da Península Balcânica, parece um navio, como se procura mostrar noutra imagem, tem poderosas muralhas, uma área museológica, no seu interior realiza-se de cinco em cinco anos um altamente prestigiado Festival Mundial do Folclore, dado que a cidade é um centro de canto tradicional polifónico.
Vista aérea do Castelo de Gjirokastër
A torre do relógio do Castelo, a omnipresente envolvência das montanhas
Realiza-se neste local um dos mais importantes festivais de folclore de todo o mundo, de 5 em 5 anos
A Casa Zekate é uma das preciosidades do património otomano, construída entre 1811 e 1812, a casa pertencia a um dos servidores do Paxá. Na sua imensidade, dispunha de divisões para guardar os alimentos, entre a cave e o rés-de-chão, estábulos, o andar para os servidores e um amplo espaço para os proprietários. Impressiona com o seu aspeto de casa fortaleza.
Quarto dos proprietários
Quarto dos hóspedes
Na impossibilidade de aqui se mostrar o interior de todas as divisões, nomeadamente dos terceiro e quarto andares, divisões com muitíssimo interesse pela lógica de ocupação do espaço, pois há casas de banho com banhos turcos, salas de estar, espaços de convívio, etc. veja-se uma cama no terceiro andar, por baixo da escada.
Vista do quarto andar que permite ver a lógica de uma urbanização um tanto uniforme, transita-se sempre por chão empedrado.
Museu etnográfico de Gjirokastër, um pormenor
Duas imagens do bunker da Guerra Fria em Gjirokastër

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28172: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (44): O país que via passar os comboios





Coimbra B, Estação da CP, 25 de março de 2004.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto:  Luís Graça  (2004)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

 

Contos com mural ao fundo: O país que via passar os comboios

por Luís Graça


25 de março de 2004. 14:13h.Coimbra B. Estação da CP. Deprimente. Como todas as estações B do mundo. Como todas as estações da CP. B, de 2ª classe. B, segunda letra do alfabeto. 

Todas as estações de caminho de ferro do mundo são deprimentes. Abres talvez uma exceção para os apeadeiros. São bonitos, os apeadeiros. Ou eram bonitos os apeadeiros da CP. Quando havia o cavador, o burro, o boi e a vaca do presépio, a junta de bois, a charrua. O camponês, o Zé Povinho, camponês e burro. Besta de carga. A horta, a saída direta para os campos. As hortas. Os azulejos azuis  e amarelos da Viúva Lamego. E as quatro estações do ano.

O termo apeadeiro eternece-te, faz-te lembrar os tempos em que se ia às hortas. Tu já não és desse tempo. Mas os alfacinhas iam às hortas dos saloios. Benfica, Porcalhota, Pontinha, Sintra, Caneças, Colares ... Faziam piqueniques, cantavam o fado. Davam vivas à República. E morras ao Rei e ao Papa. E ao Capital. E bebiam vinho pelo palhinhas.

Gostas do termo apeadeiro. E da ideia de ir passear às hortas ao domingo. Quando ainda não havia semana inglesa. E trabalhava-se de sol a sol. Ia-se às hortas ao domingo. Em família, de comboio. Ronceiro, o comboio. Ronceira, a vida da gente.

Leste isso algures numa história qualquer sobre os comboios que unificaram o país de norte a sul. Há uma dívida de gratidão para com os comboios. E para com os homens dos comboios. E os engenheiros das estradas e pontes. E os operários que as construíram.  

Há uma dívida de gratidão, a final, ao Zé Povinho da cidade e dos campos. Pela sua pachorra e paciência. Há uma dívida de gratidão ao engenho e à obra. Ao Fontes. Ao Pereira. Ao Melo. Ao fontismo.  O nome português do capitalismo, leste algures, nas sebentas de história.

Naquele tempo parava-se em todas estações e apeadeiros. E havia tempo, não havia pressa. Não havia stresse naquele tempo, julgavas tu. Colhiam-se papoilas vermelhas no meio do trigo. Não havia tempo para se ter stresse. Morria-se cedo. Até os reis e os regicidas. A esperança média de vida é um artefacto estatístico. Ou nascia-se tarde, fora de horas, sem tempo de ver crescer filhos e netos.

Mas não havia ainda bombas nos comboios. Ao alcance de um qualquer toque de telemóvel.    Que as novas tecnologias quando nascem, (não)  são agora para todos.  

Mentes: há oitenta e tal anos atrás, na França ocupada, os ferroviários também punham bombas. Nas linhas de caminhos de ferro. Sob os carris. Matavam os seus postos de trabalho em nome da liberdade.  

Punham bombas para fazer descarrilar os comboios. Sabotagem. Resistência ao ocupante nazi. Vive la France. Hoje seriam caçados como terroristas internacionais. E julgados no Tribunal Internacional de Haia. Les partisans.

Não és ferroviário nem resistente nem terrorista.  Estás na estação de Coimbra B. Coimbra merecia, pelo menos, uma estação A. Este país, bom aluno da Europa, devia merecer uma letra A. Nem que fosse uma estação de comboios. Coimbra A. Ninguém gosta de ficar em segundo lugar, mesmo no pódio. 

Ouves uma voz gritante, no altifalante: Alfarelos. Com paragem não se sabe  onde. Nunca soubeste, ao certo, onde ficava Alfarelos. Se é que existe no mapa. Mas deve existir. Nunca lá foste. Aprendeste de cor e salteado a dizer todas as linhas do caminho de ferro. E todos as estações e apeadeiras. Na tua 4ª classe. Mesmo que nunca tivesses andado de comboio. Nasceste à beira-mar. Alfarelos é algures no teu país profundo. Assim como Freixo de Espada à Cinta. Que ninguém conhece. Nem onde fica."Isso é para lá de Freixo de Espada à Cinta",diz-se no Algarve.

Vieste de boleia. Muito obrigado. De Viseu. Aguardas o Alfa Pendular para Lisboa. Aliás, Lisboa SA. Deve chegar às 15:16h.
── Lisboa, Santa Apolónia ?
── Não, Lisboa, Sociedade Anónima!
 
Corriges o caixa d'óculos e boné de pala por detrás do guiché. Não, não queres Santa Apolónia. Queres a Estação de Lisboa Oriente. E depois... o que diria o Zé (Cardoso Pires)!
── Lisboa, SA!

Pergunta o míope, caixa de óculos, por detrás do bunker,  e que  fala em nome da CP.
── Conforto ou turística ?

Olha para ti, como se te quisesse tirar as medidas. Ou adivinhar a tua secreta conta bancária.
──  2ª classe, se faz favor!
──  Turística...

... 2ª classe, por defeito. Para quem não ostenta sinais exteriores de riqueza. Classe B.

E tu a pensar ingenuamente que já não havia 2ª classe. Comboios de 2ª classe.  
Gente de 2ª classe. País de 2ª classe no desconcerto das nações. (Ah!, velho José Rodrigues Miguéis, e a tua gente ainda  de 3ª classe. Nos porões nauseabundos dos cargueiros, que rumavam ao Novo Mundo. Às Américas. Aos Brasis.)

Deves ter percebido mal. Os comboios e a CP também se democratizaram. Agora só há conforto e turística. No alfa pendular de todas as emoções e condições. O Portugal SA já não é mais classista.
── Vê-se mesmo que o senhor é um utente acidental da CP. Já não há 2ª classe, meu caro senhor.

Tens tempo. Ou penses que tens tempo. Nada como esperar um comboio  numa estação de tipo B. Para saber o que é isso de ter tempo. É bom ter tempo. Uma hora de avanço. Nada de stresse. Não penses na morte. Nem no barqueiro de Caronte. Que o stresse pode matar como uma bala de Kalash.

Pedes uma sandes manhosa no bar da esquina. Bebes uma topázio que é uma cerveja local. Compras o Zé Cardoso Pires no quiosque. A república dos corvos. Um livro de contos. Colecção Mil Folhas, do jornal 
Público. Cinco euros.   

Deambulas no cais de embarque  Como o prisioneiro no pátio da prisão. E lês a única coisa interessante que está afixada na parede da estação de Coimbra B. Alguém mandou afixar. Crês tu que em bronze (és mau em metais): 

"Neste cais da estação de Coimbra, embarcou,
No dia 15 de Maio de 1982, 
Sua Santidade, o Papa João Paulo II".

O artista não quis desqualificar a estação nem a cidade. Coimbra B ?!...  
O que diria a corte papal! Os grandes deste mundo! E os turistas que visitam a cidade dos doutores! E os vindouros! E até os arqueólogos daqui a mil anos.

Mas lá está a tabuleta. Para a história. Para o viajante distraído, apressado. Ou se calhar para ninguém. Só para a História. Mesmo que já não haja  História com H grande daqui a mil anos.

Afinal, quem lê neste país ? Para mais, placas de bronze. Afixadas em estações B da CP. Aliás, quem lê neste país ? Um dia um arqueólogo, um historiador ou um antiquário desaparafusa a placa e leva-a para casa, para o museu ou para a loja de antiguidades. Ou para a feira da Ladra.

Não, nada acontece em Coimbra B. Mas por aqui passou um peregrino. João Paulo II. Um dia,  em 1982. Por aqui passou Jesus Cristo, na pessoa do seu representante na terra. Diziam que era polaco. Nunca lhe viste o passaporte diplomático ou a certidão de nascimento. És mau em metais e em teologia. Mas esta é a tua leitura. Pede desculpa à CP. E aos edis.  E aos lentes de Coimbra. E, claro,  a Sua Santidade.

Chega o Alfa. Just in time. Como na linha de montagem automóvel pós-taylorista da AutoEuropa. Entras no Alfa e sentes-te quase europeu. Na ponta mais ocidental da Europa acidental. Com o Mondego aqui ao lado. Comparado com os grandes rios da Europa, só pode ser de 2º ou 3ª classe. o rio. Admiras a eficiência das sociedades pós-tayloristas e cosmopolitas. A tua nunca chegou a conhecer o Sr. Taylor, n
em os seus principles of scientific managementProvinciana e ronceira, a tua terra, lá diria o Eça.

Acelera o Alfa. Tens uma secreta vertigem suicidária pela alta velocidade. Dás por bem empregues os teus 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%. Isto faz bem à tua autoestima. Uma voltinha no carrossel da tua infància, na feira de setembro, custava uma moedinha.

Faz bem ao teu ego que não pode ser grande num país que vê passar os combóios.  Sobretudo depois da sandocha manhosa e da topázio morna que engoliste, de pé, ao balcão, do bar manhoso da estação.
── Quanto vai dar ?
──  Chega aos 200 ou mais! ── d
iz-te um puto de brinco na orelha...

Não apostaste. Nem gostas de apostas. Deixaste de ser solidário. Não compras a lotaria nem jogas ao totobola. Que te desculpe a Santa Casa da Misericórdia. E os pobrezinhos que ela sustenta há séculos.
── Umas cartas para passar o tempo ?

Respondes que não, obrigado. Que não tens vícios, não jogas, não apostas, não fumas.  Tens livros para ler. Trabalhos de alunos para rever.

Abranda o Alfa lá para os lados da Albergaria dos Doze.  Regressas à idade média da tua memória pátria. O caminho de Santiago. As albergarias. Já em  terra que foi dos mouros. La folie meutrière de la réligion. Alá é grande e tem muitos profetas. Eram bons hortelãos, os mouros e os moçárabes. 
── Chega à tabela. 
Dezassete e seis na Estação do Oriente, em ponto 
──diz-te o pica, orgulhoso.
── Até que enfim que os comboios partem e chegam à tabela, na nossa terra.

Ficas sempre com um pontinha de  inveja quando vais a Amesterdão e a Leiden. Quando ias à Holanda, que agora já não vais. Queres dizer, ao estrangeiro de fora.
── Vai desejar tomar alguma coisa ? 
── pergunta,  no futuro próximo, o homem do chá-café-laranjada...
── Um Prozac, por favor.
── Lamento, mas já não temos. Esgotou-se.
── Sim ?
── Esgotou-se na última viagem que fizemos ao inferno. 11 de março último. Do ano da graça de 2004. Estação de Atocha. 
── Atocha ?
── Sim, Atocha, Madrid...Não lê os jornais ?!

Respondes que não, não lês jornais nem vês tekevisão. Esclareces que acabas de chegar do Kavaquistão.
── En Madrid existen dos estaciones principales de tren: Chamartín y Atocha. Ambas son estaciones de trenes de largo recorrido y de cercanías...
── Muchas gracias
── respondes tu, que não sabias do caso.

Não sabias. Não vais a Madrid há anos.  Estás de costas para a Europa.
── Atocha está situada en la zona sur de la ciudad, muy cercana al centro. Desde ella salen todos los trenes de largo recorrido que van a levante y al sur de España.

O homem teve pena da tua ignorância.
──También algunos trenes de los que pasan por la estación se dirigen luego a Chamartín. Y luego a destinos en la mitad norte de la península. Dentro de la estación hay otra estación llamada Puerta de Atocha desde donde sale el tren de alta velocidad (AVE) que va a Andalucía...
── Muchas gracias!
── repetiste.

Vê-se que o homem do chá-café-laranjada é viajado.
── Só faço a península ibérica.
── Ah!, a jangada de pedra...
── Perdão ?!... Sabe, nasci no Entroncamento, filho e neto de ferroviários. Os comboios estão-me na massa do sangue... Mas a Espanha para mim es pura emoción. Uma tragédia horrível, aquela...
── E não tem medo do futuro dos comboios ?
── Não... Com os aviões passou-se o mesmo. Piratas do ar. Bombas... Enfim, um homem tem que ganhar a vida. De qualquer jeito.
── Deixe, a vida continua... O terrorismo, as guerras, tudo isso  passa.
 
Acabas por pedir-lhe um compal de maçã. Para te distraíres da conversa sobre Atocha. Não  penses mais  em bombas nas casas de banho das carruagens dos comboios. Não tem graça nenhuma um gajo morrer. E muito menos pulverizado na minúscula casa de banho de um comboio. Sob uma bomba-relógio. 

Não costumas pedir compal de maçã. Não sabes por que razão pediste o raio do compal.   Que é coisa rara, tomar o comboio. E muito menos pensar em bombas. Houve um tempo em que pensavas em minas. Anticarro. Antipessoais. Minas. Bailarinas. O ballet da morte. Debaixo das Berliet, GMC, Unimog. E dos teus pés.

Nasceste numa terra onde não passavam comboios. É um estranho sentimento, esse, que te acompanha desde pequeno. Mas o compal de maçã até não é mau. E dizem que vale mais do que uma chávena de café  para te tirar o sono. Antes de partires às 3 da manhã, para a Ponta do Inglês.
── Ponta do Inglês ?!...

Ali na Foz do Corubal. A 4 mil quilómetros de distância. Na aldeia gflobal. Aonde não chegava o obus do Xime. Que era de 10.5 cm de diâmetro. Era curto, e tenso, o tiro do obus.

Saíste cedo da casa de teus pais,  ainda menino e moço! É a voz do sangue,  o teu lado de marinheiro que nunca foste. Em boa verdade, detestas os entroncamentos. Rodo ou ferroviários. As picadas. Os trilhos. Os cruzamentos. Detestas o Entroncamento. Da primeira vez que lá passaste. Meia de dúzia de casas mal caiadas. Uma feixe de linhas e cheiro a óleo e a sucata. 

Mas tens a nostalgia dos cais de embarque. A nostalgia do mar e da maresia. Uma palavra que mexe comigo. Cais. Cais de embarque. Cais de partida. Niassa. Rocha Conde de Óbidos. Num comboio que veio da noite, silencioso e triste. Do Campo Militar de Santa Margarida. Destino: Lisboa. Com carga para outro destino: Bissau. Mercadoria=carne para canhão, alguém escreveu, a spray. Na calada da noite. Um grafito na última carruagem. Na primavera de 1969. Numa outra primavera que não chegou a haver.
── ... Política, meu estúpido!

A primavera política do Marcelo Caetano. Eras jovem. E não vias a luz ao fundo do túnel do Rossio. Nem muito menos as luzes da cidade-luz. Paris. Perdeste o último comboio para Paris. Com o teu amigo que queria ser pintor. Fernando Nobis. Com paragem, talvez em Atocha. Sabias lá o nome da estação. Nuncas saído do teu país vigiado. Para visitar o Greco, o Velasquez, o Goya, os grandes de Espanha que estão no Prado...
── És doido, ou quê ?! 
Com a Pide à perna, mais os carabineiros da Guardia Civil!

Fazia sol e frio em Viseu. O país profundo. O país que mexe, dizem-te. Gostas sempre de ler os jornais da terra quando estás no hotel. Duas estrelas, o hotel.  
Novo, a cheirar a tinta. Mobiliário reles. Decoração de mau gosto. 
Bom serviço. Comida caseira.  Faces rosadas da moça do bar. Mas faz frio à noite.
── Voyeurismo!  ── pensa ela, a rapariguinha do bar.

Oito páginas, entre notícias locais e os pequenos anúncios classificados. Duas páginas de anúncios pessoais. Cor de rosa.
"A brasileira do bumbum"... "A universitária que faz oral"..."A mulatchinha dengosa"...

Linguagem de código. A semiótica da solidão. Do sexo triste e solitário.
── Ah!, mas Viseu, como cresceu, meu Deus!

E Deus que andava distraído. Não sabes se cresceu bem... Não és de cá. O Politécnico.  O túnel de Viriato. Os colóquios. Os debates.  As ideias.
 Os intelectuais e artistas que vêm de fora. O comércio. O fórum, que há-de vir. A Grande Área Metropolitana de Viseu. Quase 400 mil. O orgulho de se ser do Kavaquistão. E onde mandam os que aqui lá estão.

 O que é feito do RI 14 ? Não sabes ? O glorioso  Regimento de Infantaria ?! A guerra acabou, baby. Foi bom para a cidade. A tropa. O  regimento. Sempre animava o comércio.
── Ruas, estás de granito!  ── diz o grafito. (Ruas é o chefe da tribo, presumes).

Nada como um bom grafito na terra do Grão Vasco:
── Apreciem o lado empreendedor dos beirões. 
── Só falta a Universidade, que mais de 10 mil estudantes do politécnico  já cá temos.
── Tiraram-nos a Faculdade de Medicina, os sacanas da Covilhã.

Outro lóbi beirão, o da Covilhã. Registas o orgulho dos  miúdos e miúdas da Associação de Estudantes  da Escola Superior de Enfermagem de Viseu que realizam anualmente as suas jornadas. E que já andam de capa e batina. Para quando chegar a universidade.

O país mexe. Viseu mexe. O país profundo mexe. O Kavaquistão mexe. Os jovens deste país mexem. Mesmo com capa e batina, vestidos de preto como o corvo do Zé (Cardoso Pires).

16:30h. Passaste o corpo pelas brasas. Perdeste um pedaço de mundo. 
Revisitaste outros infernos. Xime. 
Ponta do Inglês. 
── O Alfa vai a 140, ó puto.

Temperatura: 19º interior. 20º exterior. Lês no tabelau de bord.

── Mas agora abranda. 129, 101, 74, 52... Parou.


Uma placa com um S, outra com um M. Não percebes nada da sinalética dos comboios. Obras. Modernização da linha. Tens um pensamento piedoso e nobre para com os trabalhadores anónimos que constroem as novas linhas dos caminhos de ferro do futuro. Ucranianos. Africanos. Guineenses. Imigras. Clandestinos. Não se lhes vê nem a cara nem o passaporte. Podiam estar a trabalhar na estufas de Almeria. O inferno na terra. Mas aí são magrebinos. O novo proletariado do século XXI.

Desces na Oriente. O empresário a teu lado puxa do telemóvel.
── Mandem alguém da empresa vir buscar-me.
── Eh, cara, dá o Benfica na esporte tê vê.

E de novo o Alfa em marcha... A paisagem muda. A paisagem industrial da bacia do Tejo. A ocupação selvagem da lezíria. Mataram os campinos e o gado bravo. E os flamingos. E as ostras. Les petites portugaises.  O branqueamento de dinheiro que vai por essa nova Lisboa do Próximo Oriente. Depois da Exzpo-98. A luxuriante estação do Oriente. A ostentação dos ricos. Calatrava.

Just in time. 17:06h. Chegaste. Balanço do cliente que, enganado, pensava que já fosse o TGV.
── O TGV é que era!

Não, não  é o TGV, meu caro senhor. Um dia há de chegar. Assegura o caixa d'óculos da CP. E boné de pala. E mangas de alpaca. Sempre ficas mais tranquilo. Não é o TGV. Mas há de chegar um dia. Mesmo que passe ao largo da Coimbra B. A 300 à hora. Mas por ti, não desgostaste. De viajar no Alfa Pendular. Turística, claro. De Coimbra B a Lisboa SA.  

Tiveste tempo para (des)arrumar algumas ideias.

── O país que via passar os comboios...

E o puto tinha razão:
──
Na ponta final, o Alfa Pendular dá mesmo os 210.

Um dia ainda vais ter orgulho na CP. E na terra onde nasceste à beira-mar. E onde nunca viste sequer passar os comboios. Os comboios não passavam na tua terra. Nem ainda chegam a Viseu. 

Um abraço aos Viriatos. Até para o ano. Voltarás, se te convidarem. Virás de autocarro. Expresso. Por esses ipês acima. Com regresso de comboio. Se não sabotarem o comboio que pára em Coimbra B. 

E prometes ao barman que não te esquecerás de Atocha. Sobretudo não esquecerás Atocha. Nem a Ponta do Inglês. Quando voltares a Coimbra B. Outra vez. Não esquecerás as bombas de Atocha. Nem as minas e armadilhas da Ponta do Inglês. Muito menos os RPG. E as Kalash. E o jagudi da morte que te espreitava do alto do poilão.

25/3/2004. Revisto em julho de 2026
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 25 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27150: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (43): Oficial e cavalheiro

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28170: Notas de leitura (1935): "Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial (Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Em 30 de maio fui à ADFA apresentar o livro do Coronel Manuel Martins Lopes, foi Ajudante de Campo do Marechal Costa Gomes e devo-lhe uma profunda estima. Lá fiz a minha intervenção com um papelinho de notas, tempos depois o Coronel telefonou-me a dizer que a gravação estava péssima e que eu me desse ao cuidado de alinhavar a escrita, será feito um suplemento do jornal ELO, o órgão da ADFA, nesse dia fez-se uma homenagem ao fundador da associação. Confesso que gostei do que escrevi e estou pronto a partilhar com malta do blogue, se achares útil.

Nada mais por ora a não ser um abraço fraterno,
Mário.



"Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial

(Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026)

Mário Beja Santos

Quando e como se deu um corte radical entre a literatura ultramarina e a da Guerra Colonial

A literatura da Guerra Colonial é um subgénero literário, goza da identidade, a despeito da variedade de cenário que contempla, é do senso comum as discrepâncias geográficas dos três teatros africanos. Quando comecei a refletir sobre as memórias elaboradas pelo Manuel Martins Lopes, que combateu em Angola e que depois teve uma comissão com alta responsabilidade administrativa num ponto chave de Moçambique, julguei ter utilidade em comprovar a este auditório que há um corte radical entre a literatura do antes, durante e o após a Guerra Colonial. Na literatura ultramarina há temas-chave recorrentes, seja qual for o pano de fundo da colónia africana: o deslumbramento daa floresta, amores bem ou malsucedidos, envolvendo feitiços, usos e costumes étnicos, a dura vida de trabalho, em alguns casos a denúncia esquiva do trabalho forçado, a aproximação do colono aos ambientes locais, as páginas de descrição da vida na roça, a chegada do barco a vapor… quero só lembrar "Mariazinha em África", de Fernanda de Castro, "Chuva Braba", de Manuel Lopes, "Kurika", de Henrique Galvão, e "A Estufa", de Luís Cajão. Como é óbvio, nada de minas antipessoal e anticarro, as operações para prender ou aniquilar guerrilheiros, a dor da morte dos entes queridos, a tensão permanente na vida dos destacamentos defendidos por arame farpado.

Só mais uma nota sobre a literatura ultramarina. Permitam-me que exemplifique com o caso da Guiné. Em "Estudos Ultramarinos", publicação do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, no seu número 3, de 1959, João Tendeiro publicou um artigo intitulado “Aspetos Marginais da Literatura na Guiné Portuguesa”. Diz o autor com a maior das clarezas:
“A Guiné não nos deu até agora um escritor nativo. No campo da ficção, as poucas obras de fundo têm sido escritas por europeus ou cabo-verdianos. É o caso dos romances e contos de Fausto Duarte e de vários contos esporádicos de Alexandre Barbosa e outros, publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Mário Pinto de Andrade, se quis inserir, na sua Antologia da Poesia Negra, uma produção poética representativa da Guiné, teve de recorrer a um poema de um jovem cabo-verdiano, Terêncio Anahory Silva.”

Nesta Guiné de que fala João Tendeiro o português era falado por 1157 indígenas analfabetos e escrito por 1153. A literatura que apareceu foi obra de militares ou funcionários coloniais, caso dos "Contos do Caramô", de Viriato Tadeu, os contos publicados por António Carreira, Amadeu Nogueira e outros, em o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Não ficaram testemunhos do uso do crioulo. O mesmo Tendeiro observa:
“O crioulo enferma de todas as características as linguagens faladas e sem grafia independente. Quer dizer: quando transposto para a escrita fica subordinado ao idioma escrito da região. Não existe uma correspondência entre o crioulo e a ortografia portuguesa. Enquanto em Cabo Verde o crioulo assumiu o carácter de uma linguagem substituta dos idiomas nativos primitivos, enfeudada à língua portuguesa oficial, na Guiné reveste apenas o aspeto secundário língua aprendida, desempenhando entre as populações locais um papel semelhante ao dos idiomas utilizados nas relações internacionais entre os povos civilizados.”


Adiciono mais um comentário sobre a essência da trama literária ultramarina: histórias de aculturação, tratamento de fábulas e contos, em circunstância alguma põe em causa conflitos entre colonos e indígenas, operações de pacificação ou a chamada missão civilizadora portuguesa.


As diferentes fases da literatura da Guerra Colonial

Quando surgiram as primeiras obras, no início da década de 1960, ninguém supunha qual o peso da identidade e da autonomia do subgénero literário. Creio não haver contestação que entre 1961 e 1974 se impuseram incursões literárias de pendor apologético, exaltando as qualidades do soldado português, o valor da missão patriótica em defender o Ultramar, episodicamente foram surgindo romances ou contos onde veladamente, a guerra era tratada como tema incandescente. O exemplo que me parece mais flagrante foram as obras que Álvaro Guerra publicou depois de ter vindo da Guiné, onde fragmentariamente se impunham os desastres da guerra. A este escritor se deve o parágrafo que ainda hoje me comove pelo vigor da sua explosão emocional:
“Por lá chafurdei na lama das lalas, debati-me no turbilhão dos tornados, derreti-me na fornalha de um sol invisível, dissolvi-me na chuva vertical, e amei como um danado aquela terra que me injetou a febre, me secou, me expulsou a tiro. Mas nunca o preço do amor é excessivo, nem a presença da morte o pode aniquilar.”
Houve livros apreendidos pela PIDE, caso de "A Praça da Canção", de Manuel Alegre, teve a sua primeira edição em 1965, penso que o mais belo poema que se escreveu nesta literatura é "Nambuangongo, meu amor", veio publicado logo nesta edição.


Há, como não podia deixar de haver, características diferenciadas de quem escreveu sobre a Guiné, Angola ou Moçambique: são paisagens bem distintas, como distinto era o poderia militar e a capacidade de guerrilha dos diferentes nacionalistas, o que confere aos registos da escrita um quase poder intransitável. No entanto, pode argumentar-se que havia a solidão, a angústia, o fragor do fornilho, o matraquear súbito das armas pesadas e ligeiras de quem fazia a flagelação, é evidente que a perceção destes elementos ganhava um cunho universal. Mas o peso da geografia era indeclinável: 10Km na Guiné ainda hoje não são os mesmos 10Km em Angola ou Moçambique. E mais: os palcos de guerra tinham designações muito próprias, as árvores gozam de nomes próprios, havia intempéries, chuvas diluvianas, mas algo que identifica a narrativa: o crioulo, o tornado, o macaréu, a lepra, os ataques com mísseis. Ora os mísseis fazem parte da evolução da guerra, quem, por hipótese, escreveu um romance com as suas memórias baseado numa comissão militar entre 1965 e 1967, tem de se confinar ao armamento português e dos guerrilheiros da época.

Com o 25 de abril, com a liberdade de expressão, foram surgindo obras, até reedições, caso de "Tarrafo", de Armor Pires Mota, que tinha publicado as suas memórias durante a guerra no Jornal da Bairrada, nem a PIDE nem a Censura deram por nada, publicado no livro, deram conta que se falava de bombardeamentos com napalm, isto quando Portugal negava categoricamente nas Nações Unidas o seu uso em África. A grande safra literária eclode nas décadas de 1980 e 1990, impõem-se nomes, alguns vindos do passado, como Carlos de Matos Gomes, Álamo Oliveira, José Brás, António Lobo Antunes, João de Melo e surgiram mesmo grandes surpresas no virar do século, estou a pensar em "Estranha Noiva de Guerr", de Armor Pires Mota, um romance excecional que a crítica praticamente ignora.

Quando chegámos ao século XXI eram múltiplas as manifestações literárias: estudos militares, excursos históricos, reportagens, olhares da memória, visitas depois da guerra, ensaios, poesia, contos. Não é necessário fazer a contagem de tudo quanto se escreveu, o romance e as memórias superam todas as outras manifestações. Como tenho de fazer aqui uma síntese não pretendo adormecer o auditório, quero também recordar que algumas destas obras são hoje motivo de estudos universitários: é o caso de "Lugar de Massacre", de José Martins Garcia, que perto do 25 de abril pôs as letras em polvorosa, caricaturando os grandes ícones em que se constroem as mitologias militares.

Falando dos militares, independentemente do genial "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz, há relatos feitos por militares que se vieram revelar documentos indispensáveis, caso dos escritos de Salgueiro Maia, que esteve na operação em que se rompeu o cerco a Guidaje, torna-se percetível como o teatro de operações da Guiné estava completamente condicionado à plena iniciativa do PAIGC.

Posto isto, quero recordar a importância das investigações monográficas, dos levantamentos da literatura da Guerra Colonial feitos por João de Melo, Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Dou ainda conta que apareceram obras diarísticas, umas raramente escritas em cima da hora, outras recompiladas.

Escrevi em tempos que a despeito de uma maioritária falta de qualidade desta literatura, há parágrafos estranhados, há memórias que nenhum investigador pode enjeitar pelo poder que assumem na atmosfera da descrição da guerra, escrita por gente que combateu em terra, mar e ar.

Chegou hora de fechar o pano a esta literatura? Impossível, a obra que hoje analisamos é uma incontestável prova de vida. Finalizo esta minha cogitação antes de passar para a obra de Manuel Martins Lopes retirando um parágrafo de um livro que escrevi sobre a literatura da Guerra Colonial na Guiné intitulado "Adeus, até ao meu regresso" (a literatura dos e sobre os combatentes da guerra da Guiné), publicado pela Âncora Editora em 2012:
“Até ao lavar dos cestos, até estar vivo o último militar, há que contar com as surpresas da vindima, não há um mês em que não surja um título, um depoimento, um olhar sobre aquela guerra que se travou enquanto se caminhava na farroba de lala, entre cipós e tabás, militares acoitados atrás dos morros das formigas, a resistir à fúria das emboscadas, ou dentro dos aquartelamentos, imprecando em noites de flagelação destruidora. Este subgénero literário está muito longe de ter fechado para obras e muito menos para mudança de ramo.”

A singularidade de um itinerário: a família e o lugar, um desvio na vocação, a aprendizagem da guerra, a comandar no terreno conflitual angolano (a identidade dos lenços negros), comandante da polícia na Zambézia numa cativante operação de paz, era o tempo dos lenços brancos, e resultou.

Não vou aqui repetir o que se disse atrás sobre a natureza caleidoscópica das memórias. Há vigorosos testemunhos memoriais há décadas, mas temos de reconhecer que a memória ganha sempre o amadurecimento, graças também à distância do que foi a experiência de guerra. Voltando à Guiné, foi depois do século XX que surgiram depoimentos de grande calibre, caso do comando guineense Amadú Djaló, do fuzileiro José Talhadas ou do paraquedista Moura Calheiros, não contamos já com os documentos deixados pelo major Lobato (o mais longo cativeiro da Guerra Colonial), algumas histórias de companhias, a torna-viagem de quem combateu e volta ao lugar marcante, isto para já não falar num fenómeno relativamente novo que são as memórias dos filhos de quem combateu e que também vão querer conhecer esses pontos em que viveu o pai ou os pais.

As memórias do Coronel Martins Lopes têm a razão de ser de um itinerário único: o orgulho pela terra que o viu nascer e os valores inculcados pela família; os estudos num liceu longe de casa; a inviabilidade de satisfazer a sua vocação, o dinheiro não chegava para tudo; a ida para a Academia Militar e a confissão de que havia um indisfarçável desajustamento; em minúcia, descreve o seu desempenho angolano, a formação da lenda dos lenços negros, que gerou uma convivência que não abranda ano após ano; a mudança de Angola para Moçambique, coube-lhe na roda do destino ter os sentidos apurados para saber comunicar com os dirigentes da FRELIMO as melhores diligência para chegar à paz, que emergiu com o 25 de abril e as decisões de Lusaka. É ocioso dizer que ele não esconde o seu orgulho no vigor da reconciliação que acompanha toda a sua trama narrativa e que o leitor irá conhecer através da história de uma Bíblia apanhada durante o conflito e que agora regressou ao seu lugar. É o simbolismo de uma manifestação que acompanha toda a narrativa e que ilustra categoricamente esta caminhada dos lenços negros para os lenços brancos, a metáfora do mundo lusófono em que nos cremos todos numa irmandade de boa convivência, a da língua e a da História comum.

Parabéns ao autor e a minha profunda admiração por aqueles que o acompanharam com lenços negros e com lenços brancos.
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Nota do editor

Último post da série de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28169: Efemérides (398): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 10 de Julho de 2026:

Caríssimos camaradas, Administradores e Editores
Completam-se hoje, dia 10 de julho, 60 anos que ocorreu este trágico acontecimento.
Para o efeito que acharem por mais conveniente escrevi o texto em anexo que deixo à elevada consideração.

Um grande Abraço e votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Como era Jumbembem no ano de 1966

Partindo da Cidade de Farim a caminho da Fronteira com o Senegal sensivelmente a meio do caminho ficava o acampamento de Jumbembem na bifurcação com a estrada para Canjambari. Logo à chegada do lado direito ficava o campo de futebol onde os mais habilidosos da Companhia jogavam à bola. Importa recordar o mestre Gamito que a todos dava baile.

No topo do campo de futebol havia o desvio para Canjambari do lado direito e a entrada no acampamento de Jumbembem do lado esquerdo. Logo após a passagem da “Porta de Armas”, não havia porta nem cancela, do lado esquerdo estavam as instalações da “Ferrugem” e afins, e onde antes teria sido a serração de madeiras, a avaliar pela existência de muitos pedaços de serras no local. Ainda do lado esquerdo seguia-se a caserna, a cantina, o refeitório, a cozinha, as arrecadações de material e o paiol. Para o lado direito após a entrada ficava o espaço designado por parada, onde alguns condutores gostavam de fazer as suas gracinhas mesmo arriscando uma enxertia, espaço esse que tinha logo do seu lado direito os abrigos que ficavam junto à estrada. No lado a seguir ficavam as moranças de alguma população, muito reduzida, não mais de 30 moranças. Em frente ficava uma casa de habitação com telhado de quatro águas sensivelmente quadrado com varanda larga cimentada e coberta, a toda a volta da casa.

Na parte da frente da moradia voltada para a parada havia uma pequena escada para acesso à varanda da frente a partir da qual havia do lado direito a entrada para a secretaria e do lado esquerdo a entrada para o Posto Clínico. Na parte traseira da vivenda o acesso à varada era feito por um pequeno degrau, ficando do lado direito o Comando da Companhia e do lado esquerdo as Transmissões, posto de rádio e centro cripto.

A varanda lateral esquerda havia sido fechada e servia de dormitório do pessoal das Transmissões. Imediatamente a seguir à varanda traseira e do lado direito ficava uma arrecadação “irmanamente” dividida para guarda do material de Enfermagem e de Transmissões.

Em frente da varanda lateral direita ficava um terraço em cimento logo seguido da Messe e Dormitório dos Sargentos da Companhia. Foi neste pequeno terraço que vi pela primeira vez a chamada cobra minuto. Não estivera ao lado de Alferes Valdez que deu o alerta e não lhe teria dado a mínima importância. Era uma lagartixa de cor preta com cerca meio metro de comprimento e um centímetro de diâmetro. Naquele tempo ainda prevalecia a lenda, que por aquilo que hoje se conhece é muito diferente da realidade. Afinal o animal é inofensivo.

Pelo fundo das moranças havia uma bomba de balanço para tirar a água de um poço ali existente, essa bomba era a única fonte de abastecimento de água até à abertura de um furo. A partir da abertura do furo passou a haver água com fartura para todos. A bomba ficou praticamente em exclusivo para regar as hortas. As hortas ficavam junto ao ribeiro e eram pertença do Artur e dos Alentejanos entre eles me recordo apenas dos parentes Vaqueirinhos.

Do lado direito da parada havia ainda uma invocação à primeira Companhia a ocupar este espaço. Antes da Companhia 730 esteve neste mesmo local a Companhia de Cavalaria 488 pertencente ao mesmo Batalhão a que pertenceu o nosso Alferes Virgínio Briote. Batalhão de Cavalaria 490.
De pé e da esquerda para a direita, o Artur, o Norberto e o Florival. Sentados estão o Mathias e o Campos.

Entrando na estrada para Cuntima onde esteve sediada a CART 732 e logo após a passagem de um pequeno ribeiro tínhamos do lado direito a pequena bolanha de Jumbembem onde era plantado o arroz, tarefa exclusiva das mulheres grandes. Ao cimo da bolanha ficava um grande barracão que em tempos terá servido de arrecadação dos produtos agrícolas.
Arroz na bolanha de Jumbembem. Na parte mais alta cresce milho de grandes dimensões.

A seguir ao barracão do lado esquerdo e do lado direito ficava uma área agrícola de alguns hectares onde eram semeados o milho e a mancarra. Esta tarefa tinha também exclusividade dos homens grandes.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas.

Continuando esta amostra de levantamento, resta apenas uma visita ao Rio de Jumbembem que por ali passa a muito curta distância do aquartelamento de Jumbembem.

Entrando na estrada com destino a Canjambari ficava a cerca 100 metros uma ponte sobre o Rio de Jumbembem ao lado da qual existia um enorme pego onde a pesca era feita à granada de mão. A montante da ponte, por falta de canas de pesca, também a pesca era feita com bala de pistola ou de G3. A perícia da pesca à bala consistia em não acertar no peixe. O deslocamento da água provocado pela bala rebentava a membrana natatória deixando o peixe a boiar. Peixe a boiar é fácil de apanhar.

O Rio de Jumbembem continuava o seu percurso em direcção a Farim onde a poucos quilómetros antes se juntava com o Rio de Canjambari. A partir desta junção o rio passa a ter a designação de Rio Cacheu.

É no cenário acima descrito que no dia dez de julho do ano de mil novecentos e sessenta e seis, pelo meio dia, aconteceu uma das muitas tragédias ocorridas ao longo dos treze anos de guerra em África.
Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565

Sobre a referida tragédia está tudo escrito nos posters 2335, 13729 e 13736. [1]

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Para terminar quero deixar duas pequenas correções ao perfil do Soldado de Transmissões Condutor Auto 2712/63, Artur António da Conceição.

Foi mobilizado pelo Regimento de Artilharia Ligeira 1 em dezembro de 1964. Embarcou com destino à Guiné a 11 de fevereiro de 1965, a bordo do Navio Timor. Chegou a Bissau a 17 de fevereiro e foi levado para o quartel de Brá onde se encontrava a CCS do Batalhão 733. Depois de ter visto passar por cima da sua cabeça o helicóptero transportando o corpo do soldado Jozé da Graça Bexiga Troncão morto em combate no Olossato durante uma operação efetuada pela CART 730 foi enviado em coluna militar para Bissorã. Mais tarde foi enviado para Jumbembem de onde regressou a Bissau em finais do mês de julho de 1966.

No início de agosto do ano de 1966, a CART 730 regressa a Lisboa deixando na Guiné, qual mãe desnaturada, seis dos seus elementos, entre eles o médico da Companhia 730, Dr. Jaime Afonso. Terá sido o Dr. Afonso, que ao dar um tiro no pé, acabou por levantar a lebre que deu origem a tal situação. O Artur foi forçado a ficar mais seis meses na Guiné, regressando a Lisboa em 14 de fevereiro do ano de 1967, tendo embarcado em Bissau a nove do mesmo mês de fevereiro. Assim sendo, o Artur esteve na Guine de 1965 a 1967 e não de 1964 a 1966 como aparece em algumas publicações.

No segundo caso, quero recordar que passados quatro meses após o regresso da Guiné o Artur ingressou nos quadros da DGTT (Direcção Geral de Transportes Terrestres) em três de julho do ano de 1967.

Durante os 36 anos que desempenhou funções públicas passou por várias categorias: foi Dactilógrafo, Operador, Programador de Aplicações, Técnico Superior de Informática, Assessor de Informática e Assessor de Informática Principal. Quando se aposentou tinha a categoria de Especialista de Informática Grau 3, nível 2, como consta da sua ficha de utente existente na Caixa Geral de Aposentações.

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Notas do editor:

[1] - Além dos posts citados pelo camarada Artur Conceição sobre a trágica morte do Capitão Rui Romero, vd. os posts de:

14 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13734: Tabanca Grande (448): Ana Romero, filha do cap mil inf Rui Romero (Portalegre, 1934 - Jumbembem, 1966)

18 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13757: Consultório militar, de José Martins (5): Processo do cap mil inf Rui Romero, no Arquivo Histórico Militar.... Algumas "dicas" para a Ana Romero
e
31 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14100: In Memoriam (216): Rui Romero (1934-1966), cap mil inf, 1º cmdt da CCAÇ 1565 (1966/68)... Finalmente... a Verdade (Ana Romero)

Último post da série de 11 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28091: Efemérides (397): Desfile Militar do Dia 10 de Junho de 1964, Dia de Camões, no Terreiro do Paço, em Lisboa (António Bastos, ex-1.º Cabo do Pel Caç Ind 953)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28168: Agenda cultural (896): Apresentação do romance, da autoria do António Carvalho, "3x44: Abel e Caim em Contrapé", Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, Medas, Gondomar, sábado, dia 11, às 15h30. Entrada livre




1. É já no sábado, dia 11 do corrente, às 15h30, que o nosso camarada António Carvalho (ou "Carvalho de Mampatá", como é mais conhecido), ex-fur mil enf, CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) apresenta o seu segundo livro, o romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (2026) (Editora: Vida Económica).


Local: Fundação Hermínia Vilar Ribeiro | Quinta do Carreiro, Lugar da Estivada, Rua da Bicha, nº 2, Medas, 4515-386 Gondomar |

Para mais informações consultar:

www.fundacao-hvr.pt | Email: geral@fundacao-hvr.pt | tlm: 9657 567 240. A entrada é livre.

A apresentação estará a cargo de:
  • Luís Graça, sociólogo, doutor em Saúde Pública pela Universidade NOVA de Lisboa e editor do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (representado por Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade Nova de Lisboa, dramaturgo, tradutor, copywritter, e que integra o Conselho de Administração da Fundação HVR, com funções de director-coordenador no Órgão Executivo);
  • Angélica Lima (doutora em Ciências da Educação pela Universidade Federal de São Paulo, escritora, educadora e consultora cultural, natural de São Paulo, Brasil, a viver em Portugal há 10 anos).


António Carvalho
Sinopse:

3x44 – Abel e Caim em contrapé, de António Carvalho, é uma narrativa de memória, identidade e destino, profundamente ligada à terra de Medas/ Emendadas, em Gondomar, às margens do Douro. A obra recupera o passado recente de uma comunidade marcada pelo trabalho duro, pela emigração, pelas relações familiares, pela religiosidade popular, pelas desigualdades sociais e pelos dramas silenciosos de gente comum. O prefácio sublinha precisamente esse valor de preservação da memória local, ao apresentar o livro como um contributo para dar voz a uma terra “tão esquecida” e às suas gentes, costumes e dificuldades.

No centro da narrativa está Abel, personagem principal, cuja vida se cruza com a emigração para o Brasil, o regresso a Portugal, os negócios no Douro, a viuvez, a relação com a comunidade e o conflito latente com Caim. O próprio autor assume que a morte trágica de Abel foi a “mola impulsionadora” da escrita deste livro, construído entre personagens reais e verosímeis, memória e imaginação.

TEMAS CENTRAIS
A obra aborda, entre outros temas, a memória coletiva e familiar; a vida rural no Portugal profundo; a emigração portuguesa para o Brasil; o regresso, a saudade e o desenraizamento; o trabalho no rio Douro, nas minas, na carqueja, na lenha e no carvão; a condição social das comunidades pobres; a religiosidade e os códigos morais da época; os conflitos humanos, a inveja, o ressentimento, a culpa e a violência.

A viagem de Abel entre Emendadas e o Porto, feita pelo rio, permite retratar um mundo económico e social muito concreto: o transporte de carqueja, carvão, lenha, vinho e outros bens, bem como a ligação comercial entre a aldeia e a cidade. A narrativa integra ainda o contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, mostrando como a guerra, o racionamento, a censura e a intervenção do regime afetavam a vida quotidiana e os pequenos negócios.

PORQUE DEVE LER ESTE LIVRO
Deve ler este livro porque ele é, simultaneamente, uma história de vida e um retrato de época. Através do percurso de Abel, o leitor entra num universo onde o destino individual se cruza com a história coletiva: a emigração, a pobreza, o trabalho, a família, a honra, a perda e a esperança. A obra permite compreender melhor a vida de uma comunidade ribeirinha do Douro, os seus modos de falar, trabalhar, acreditar e resistir.

É também um livro sobre a natureza humana. Como se refere na apresentação, por detrás da aparente simplicidade da narrativa surgem “alegrias e tristezas”, “partidas e regressos”, dilemas morais, paixões e conflitos humanos.

O que distingue esta obra é a forma como cruza memória local, ficção narrativa e reconstrução histórica. António Carvalho não se limita a contar uma história individual: procura preservar uma comunidade, os seus usos, os seus medos, as suas palavras, as suas tragédias e a sua dignidade.

A obra destaca-se também pela atenção ao detalhe etnográfico e social: a casa rural, o rio, os barcos, as vendas, os negócios, a igreja, o cemitério, os pobres, os emigrantes, os trabalhadores e as mulheres que sustentavam discretamente a vida familiar. Ao mesmo tempo, a oposição simbólica entre Abel e Caim dá à narrativa uma dimensão moral e universal, aproximando-a de uma reflexão sobre o bem, o mal, a inveja, a fatalidade e a fragilidade das relações humanas.

PÚBLICO-ALVO
Este livro destina-se a leitores interessados em romance histórico e memorialístico, literatura de matriz regional, história local de Gondomar e do Douro, emigração portuguesa para o Brasil, vida rural portuguesa no século XX e narrativas centradas nas comunidades do chamado “país profundo”.

É também uma obra indicada para leitores que apreciam histórias familiares, dramas humanos, retratos sociais de época e livros que preservam a memória de lugares, pessoas e modos de vida em risco de desaparecimento. (Fonte: Vida Económica) (com a devida vénia...)
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oduto "gourmet"