Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27994: Em bom português nos entendemos (32): Ainda a papaia e o mamão: são da mesma espécie botànica, frutos da Carica papaya, ...mas de variedades diferentes

 

Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do "nosso embaixador" Patrício Ribeiro > Abril de 2026 >  Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya).  uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor): impensável ser exposta, para venda, na banca de qualquer grande superfície cá do "Puto"... É como a batata-raiz-de cana, feia, rugosa, difícil de cascar, "anormal",  por isso, "perdeu valor comercial" e deixou-se de cultivar... Mas hoje é produto "gourmet". O mercado é cruel...para os "pobres, feios, porcos e maus"...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]







Papaia é a mais pequena, mamão a maior... são variedades da espécie Carica papaya... 

Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Papaia ? Mamão ? Ou papaia e mamão  ? Vejamos a prova dos nove: o mercado é que faz os preços... e a língua as palavras.  Mas a ciência tem também uma palavra a dizer Neste caso,  a botânica...

De qualquer modo, nada como ir ao sítio  onde se compra e venda estes frutos tropicais... que vêm do outro lado do Atlântico, o Brasil, o 2º maior produtor mundial (com destaque para os estados do Espírito Santo e Bahia).

O dicionário (por exemplo, Houaiss da Língua Portugesa) diz que é tudo a mesma coisa, são frutos da Carica papaya, espécie nativa do sul do México e América Central. E está correto, do ponto de vista botânico. 

A principal diferença está no tamanho e em pormenores como a forma e o sabor. No Brasil chamam mamão formosa ao fruto maior, e mamão papaia ao mais pequeno.

Em Portugal, o termo mamão designa as variedades maiores de Carica papaya (como o grupo Formosa). Ao fruto mais pequeno, em forma de pera, chama-se papaia propriamente dita (ou do tipo Solo). Em Angola e Moçambique, o termo "papaia" é mais comum, enquanto no Brasil domina "mamão". Em Cabo Verde e Guiné-Bissau, usa-se "papaia". Nos PALOP se começou a usar o termo por influência brasileira.

Duas curiosidades: 

(i) Histórica: a papaia foi levada para a África e Ásia pelos portugueses e espanhóis durante a era dos Descobrimentos (a primeira "autoestrada" da globalização); e,   hoje,  países como a Índia e a Tailândia são grandes produtore

(ii) Botânica: a  Carica papaya é dioica (há plantas macho, fêmea e hermafroditas); os cultivares comerciais são hermafroditas (para produzirem frutos sem polinização cruzada).


2. Fui ao Auchan do Alegro, Alfragide, passe a publicidade, e constatei que, na banca da fruta tropical, havia, ontem, a seguinte oferta:

(i) mamão ("Papaya formosa", na etiqueta) (via aérea, Brasil) a 4,59 € / kg, pesando cada unidade cerca  de 1,4/1,7 kg;

(ii) papaia  (pequena, de tipo Solo) (via aérea, Brasil) a  4,79€ / kg, pesando cada unidade c. de 350/450 gr.

Há uma diferença de 20 cêntimos, que não sei explicar. 

Só compro às vezes, para saladas... E em dias de festa... É um luxo, para mais num país como o nosso que tem tanta variedade e riqueza de fruta ao longo de todo o ano, da pera rocha aos figos, dos morangos às clementinas, do melão à melancia, das romãs às laranjas, das uvas às maçãs, das ameixas às castanhas, das nêsperas aos alperces, em esquecer as frutas subtropicais e até tropicais da Madeira e Açores, bem como do Algarve... (O abacate. por exemplo, está a tornar-se o "ouro verde" do Algarve, com exportações crescentes para a Europa; e a Alfarroba, camaradas ? O antigo "chocolate do pobre" hojé produto "gourmet": antigamente, a alfarroba era usada como substituto do cacau, hoje é usada em chocolates finos, gelados e até cerveja.)

Voltando à papaia e ao mamão... Comparei, pesei... e fotografei. Não comprei, nem provei...

Os dicionaristas podiam aproveitar estas subtilezas da vida real (introduzidas pela globalização) e não dizer  apenas que a papaia e o mamão são sinónimos... Enfim, a língua é felizmente  sempre maior, mais complexa, mais dinâmica, mais viva,  mais rica que todos os  dicionários juntos.  A vida passa a perna aos lexicógrafos, aos dicionaristas, aos botânicos, aos produtores, aos consumidores...

3. Por outras palavras,  o mamão (Carica papaya 'Formosa') não é uma espécie diferente, é apenas uma variedade (ou um grupo de cultivares) da espécie Carica papaya.

Botanicamente, tanto o mamão (grupo Formosa) como a papaia (mais pequena, muitas vezes chamada de mamão tipo Solo) pertencem todos  à mesma família, e  à mesma espécie: Carica papaya.
  • grupo Formosa: esta variedade distingue-se por ser maior e mais pesada (pode chegar aos 2kg ou 3kg), ter uma polpa mais firme e uma casca mais resistente, o que o torna ideal para transporte (casca mais dura, e por isso é mais exportada);
  • além do tamanho, mais alongado, tem polpa alaranjada e sabor suave;
  • o nome "Formosa" está ligado à ilha de Taiwan (antigamente chamada Formosa), onde foram desenvolvidos muitos dos híbridos que consumimos hoje, como o famoso Tainung nº 1.
A papaia (tipo Hawai) é menor, mais doce, e de polpa alaranjada.

4. A diferença é a mesma em relação, por exemplo,  à maçã bravo-de-esmolfe e a maçã reineta, são variedades distintas, embora ambas pertençam à mesma espécie botânica (nome científico:  Malus domestica Borkh).

Onde estão as deiferençsa ?  São cultivares (variedades) diferentes: a maçã bravo.de-esmolfe é uma variedade tradicional portuguesa, autóctone da região de Penalva do Castelo, conhecida pela sua polpa branca, macia, doce e muito aromática; a reineta é geralmente mais ácida, firme e muito utilizada na culinária.

Outro exemplo: o ananás e o abacaxi (que comiamos bastante na Guiné). A espécie é a mesma (Ananas comosus, nome científico). 

O ananás (dos Açores e da Madeira, por exemplo) é mais arredondado, cultivado em estufas, colhido ao fim de 18 meses: o da Madeira mais doce e aromático (cultivado em estufas de vidro) (DOP); o dos Açores, mais ácido e perfumado (cultivado em estufas de pedra vulcânica). (Parece haver uma rivalidade amigável entre as duas ilhas, sobre qual o melhor ananás do mundo...)

O abacaxi, cultivado ao ar livre em climas tropicais (como na Guiné-Bissau), é tipicamente mais doce e alongado, com polpa amarela.

Uma pergunta final ao leitor: se o mamão e a papaia (ou o ananás e o abacaxi) são a mesma espécie, porque é que o mercado os trata de forma diferente? Será que, no fundo, a língua e a economia são também 'cultivares' da mesma realidade?
(Pesquisa: LG + Net + IA / Le Chat Mistral AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
_________________

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27993: Historiografia da presença portuguesa em África (528): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1970 (86) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Quando os investigadores da história da Guiné apontarem o foco para estes últimos anos que precedem a independência, concretamente a governação Spínola, quando mergulharem neste mar de créditos, orçamentos extraordinários, fundos de investimento, diversos alívios de pagamentos obrigatórios, certamente que darão nota de que existiu uma economia fantasmática em que o produto interno era dado sobretudo pelos consumos das unidades militares e pelas débeis exportações. 1970 foi um ano que se apostou no ensino, até a Fundação Calouste Gulbenkian ajudou; o arroz manteve-se a grande preocupação do Governo, havia que ter mão firme. No Boletim Oficial são quase inexistentes os sinais da luta armada, mas é publicado o louvor a Mamadu Seidi, chefe da tabanca de Sinchã Madiu, e fruto do seu destemor e liderança face aos ataques do inimigo. o Governo de Lisboa passou a permitir aos Comandantes-Chefes que promovessem militares e milícias com provas dadas, era mais um sintoma de que estávamos na africanização da guerra.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1970 (86)


Mário Beja Santos

O que parece ganhar mais relevo neste ano de 1970 são os sucessivos orçamentos extraordinários e suplementares, fundos de investimento, créditos; há também muita enfâse na educação. Tendo em conta o que se publica no Boletim Oficial n.º 13, de 4 de março, os espelhos das contas de gerência e do exercício de 1969, avolumam-se os débitos. As escolas primárias passam a ter designações. No Boletim Oficial n.º 21, de 26 de maio, é criada uma escola primária na vila de Farim com a designação de Marechal Carmona; o Boletim Oficial n.º 22, de 4 de junho, dá-nos a saber que a Fundação Gulbenkian incluía no seu plano de realizações a construção de cinco escolas primárias: a de Bafatá teria o nome de Calouste Gulbenkian, a de Bissau Almeida Garrett, a de Nova Lamego Alexandre Herculano, a de Teixeira Pinto Luís de Camões e a de Cacheu Honório Pereira Barreto. No Boletim Oficial n.º 45 de 14 de novembro, a escola primária de Fulacunda passa a designar-se escola de Mouzinho de Albuquerque. É uma constante, a criação de postos escolares. São redobradas as preocupações com o ensino, veja-se a Portaria n.º 2280, de 9 de dezembro:
“Considerando que na Escola Comercial e Industrial de Bissau, funcionam, com pleno rendimento, os cursos de formação de serralheiro e de montador eletricista, é autorizado o funcionamento nessa Escola das secções preparatórias para o ingresso nos institutos industriais.”

O Boletim Oficial n.º 52, de 29 de dezembro, refere as escolas primárias de Rebelo da Silva, em Bissau e a escola primária James Pinto Bull em Buba.

Neste ano surgiu mais uma Associação Desportiva, no Boletim Oficial n.º 52, Suplemento de 30 de dezembro, vê publicados os estatutos do Ajuda Sport Sport Clube de Bissau.

Mas há outros acontecimentos dignos de registo. Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 6 de janeiro, diferentes Portarias de reformulações administrativas: é desdobrada a área do Posto Administrativo da sede do concelho de Bissorã, sendo criado o Posto Administrativo de Bissum; são desanexados da área do Posto Administrativo Contuboel, concelho de Bafatá, várias regedorias que passaram a constituir o Posto Administrativo de Sama. No mesmo Boletim Oficial, pela Portaria 2192 cria-se o posto escolar de Ambancaná, na ilha das Galinhas, concelho de Bolama.

O Boletim Oficial n.º 7, de 17 de fevereiro, chama-nos a atenção para um problema crónico, o arroz. Pela Portaria 2205, durante o ano de 1970 é autorizada a isenção de direitos e outras imposições a cobrar nos despachos de importação de arroz, de qualquer origem, bem como das respetivas taras, até ao total de 15 mil toneladas, isentando-se também das taxas de direitos de cais.

A vila de Bafatá é elevada à categoria de cidade, é o que consta no quarto suplemento do Boletim Oficial n.º 10, de 13 de março, tem o seguinte preâmbulo: “A privilegiada situação geográfica do concelho de Bafatá e as suas especiais condições agrícolas, florestais e pecuárias concorrem para que o seu agregado populacional mais importante adquira foro de cidade. Instituído o municipalismo no concelho pela Portaria n.º 1104, de 15 de maio de 1952, dia-a-dia se tem intensificado a sua atividade mercantil e industrial, sendo hoje a vila de Bafatá o centro urbano de mais destacado desenvolvimento no interior da Província.”

As promoções das tropas de milícias foram alvo de nova legislação, é o que consta no Boletim Oficial n.º 18, Suplemento, de 6 de maio: determina que sejam graduados os Comandantes-Chefes, nos postos para que tenham revelado especial aptidão, os militares ou elementos das milícias designados para fazerem parte de unidades que venham a ser constituídas nas províncias ultramarinas onde existem operações militares ou de polícia. Era mais um degrau na africanização da guerra. Dá-se como razão a necessidade de valorizar os naturais há vários anos integrados em unidades militares ou de milícias; a escolha para o preenchimento dos diversos graus hierárquicos deverá recair nos combatentes mais provados e que tenham revelado melhores qualidades de chefia em operações.

E temos mais postos escolares. No Boletim Oficial n.º 19, de 12 de maio, pela Portaria 2226, criou-se um posto escolar em cada uma das seguintes localidades do concelho de Cacheu: Bajope, Batucar, Belequisse, Caió, Capunga, Carungue, Chulane e ilhéu de Caió. O Boletim Oficial n.º 26, de 30 de junho, traz um louvor a Mamadu Seidi, chefe de tabanca Sinchã Madiu, por ter revelado excecionais qualidades de inteligência, desembaraço, elevado espírito de iniciativa e entusiasmo, contribuindo de forma notável para a realização de trabalhos de autodefesa das populações.

“Durante todos os ataques à sua tabanca, o chefe Mamadu Seidi evidenciou sempre possuir coragem inabalável, decisão, sangue-frio e grande controlo de vontade, dotes estes que lhe permitiram obter assinaláveis êxitos contra o inimigo e lhe granjearam não só natural ascendente e prestígio entre os elementos da sua tabanca, como a amizade e consideração de todas as forças militares da área.”
O louvor é dado pelo Governador e Comandante-Chefe.

Os ministérios das Finanças e do Ultramar juntaram-se para trazer um alívio financeiro à Guiné, conforme consta no Boletim Oficial n.º 32, de 12 de agosto, é o Decreto-Lei n.º 327/70. Nele é referido que a atual situação económico-financeira da Província da Guiné não permite o cumprimento das obrigações decorrentes num empréstimo contraído, pelo que é autorizada a Província a suspender pelo período de cinco anos, a partir de 1969, inclusive, o pagamento das semestralidades do empréstimo, e é eventualmente autorizada a redução da taxa de juro.

E findamos a leitura do Boletim Oficial de 1970 com uma nova referência ao arroz, consta do Boletim Oficial nº 43, de 29 de outubro, é um despacho do Governador onde se faz referência à melhoria das condições de vida, e dentro deste âmbito uma das preocupações do Governo é a redução dos preços dos géneros de primeira necessidade, sobretudo daqueles que constituem a base da alimentação do guinéu. Como é evidente, o foco é o arroz, o principal género de alimentação, e o Governo determina que a partir de 1 de novembro próximo passem a vigorar na comercialização interna do arroz descascado mecanicamente, originário da Província, de segunda qualidade e do importado, preços que vão dos 4$60 a 5$00.

O leitor que se prepare para o ano que vem, logo no Boletim Oficial nº 1, temos a Portaria nº 630, do Ministério do Ultramar, abrindo um crédito destinado a reforçar verbas da tabela de despesa extraordinária do orçamento da Província da Guiné para o corrente ano económico.

Faleceu Salazar
Visita do Ministro do Ultramar
Famílias Saracolés
Spínola fala à multidão na inauguração de três escolas
Dança de mancebos Balantas
Tatuagens em mulher Manjaca
Feiticeiro Papel
Balobeiro, dirigente de cerimónias rituais

Estas imagens foram retidas do Boletim cultural da Guiné Portuguesa 1970

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 29 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27968: Historiografia da presença portuguesa em África (527): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1969 (85) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27992: Humor de caserna (263): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIII: Os cocos do Sr. Gouveia (leia-se, da CUF)... Uma cena tão divertida quanto edificante, passada na IAO, em Bolama (Joaquim Pinto Carvalho, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3398, Buba, 1971/73)


Guiné > Zona leste > Bafatá > Vista aérea  (parcial) > c. 1969/1970 > Rua principal da vila (mais tarde, cidade) > Do lado direito, em primeiro plano, o principal estabelecimento da cidade, uma sucursal da Casa Gouveia (que tinha a sua sede em Bissau).

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]



Pinto Carvalho.
Foto  LG (2010

1. O nosso colaborador permanente
Joaquim Pinto Carvalho é, reconhecidamente, um homem dotado de elevado sentido de humor. Perito nos trocadilhos, no uso do segundo sentido, no subtil manejo das palavras. Foi alf mil da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 (Buba) e CCAÇ 6 (Bedanda) (1971/73).  (O BCAÇ 3852, em 5 de agosto de 1973, recebeu um louvor do com-chefe, gen António Spínola; regressou à metrópole, de avião, no início de setembro de 1973.)

Além disso, é um poeta de talento. E tem o culto da memória (e da amizade). Adora, por outro lado, conviver. Faz parte da Magnífica Tabanca da Linha e da Tabanca do Centro.  

Natural do Cadaval, é advogado, e régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar (... e Não Tenhas Medo), Porto das Barcas, Atalaia, Lourinhã.

É autor de uma brochura com a história da unidade, a CCAÇ 3398, distribuída no respetivo XXV Convívio, realizado no Cadaval, em 18/9/2021. 

Tem  80 referências no nosso blogue, e é membro nº 633 da Tabanca Grande (desde 7/12/2013).

Este ano, a 9 de maio, em Águeda, a CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852 ("Os Incendiários", Buba, 1971/73) vai realizar o seu XXX Convívio Anual. Achámos por bem, em homenagem a estes "piromaníacos", publicar aqui esta história, "divertida" mas também "edificante" (*),  do tempo em que passaram pelo CIM de Bolama: nas andanças da IAO  (de 5 de a 31 de julho de 1971), o Joaquim com o seu pelotão entrou, sem dar por isso, numa plantação de coqueiros que tinha dono.

O sr. Gouveiia, abaixo referido, não seria por certo o fundador da Casa Gouveia... Recorde-se o que aqui já dissemos sobre ele o António da Silva Gouveia:
  •  foi deputado republicano, entre 1911 e 1915;
  • era um típico "africanista" do Séc. XIX que se instalara em Bolama justamente em 1879;
  •  devia ter nascido por volta de 1850;
  • em Bolama, capital da província, criara a maior empresa daquela colónia africana, a Casa Gouveia;
  • mais tarde, em 1921, a Casa Gouveia é adquirida pela CUF - Companhia União Fabril, que passou a ser o sócio mairitário; 
  • em 1961, passaria a sociedade anónima, por ações.

De 1911 a 1915, António Silva Gouveia teve assento na Câmara dos Deputados, como representante da Província. Em 1912 aderiu ao Partido Republicano Evolucionista, dirigido por António José de Almeida (considerado de centro-direita, dentro do republicanismo).

(...) Este homem, de que se desconhecem muitos aspectos da sua vida, e que antes de ser empresário e político, foi "moço e marinheiro, piloto e capitão de navios" (sic), orgulhando-se de conhecer toda a África, ocidental e oriental, mereceria muito provavelmente uma boa história, uma boa biografia, um bom filme... 

Não sabemos onde nasceu nem onde morreu. Fazia gala de dizer que era "um homem que não tinha o exame de instrução primária" e que acreditava na "iniciativa privada", vociferando contra o estado (lastimável) em que se encontrava a província no início do Séc. XX. (...) (**)

A Casa Gouveia, com sede em Bissau, servia a totalidade do território devido às suas sucursais que, em 1948,  eram 14: Bafatá, Bambadinca, Binta, Bissorã, Bolama, Brames, Cacheu, Teixeira Pinto, Farim, Nova Lamego, Geba, Mansoa, Sonaco e Pelundo. Sucursais em que se vendiam bens adaptados à vida em contexto rural e atmosfera étnica (têxteis, bicicletas, aparelhos de rádio, máquinas de costura, utilidades domésticas e querosene).

Era a principal empresa da Guiné, e nomeadamente ao nível das exportações:

(...) "reunia e transportava para a metrópole os cultivos locais (mancarra, purgueira, rícino, algodão, mandioca) e as produções espontâneas de palmares, mangais, arrozais, bananais e outras frutas tropicais. Na segunda metade dos anos 1920 a procura internacional de produtos como a borracha e as oleaginosas desceu e bem assim os seus preços, no contexto das dificuldades da Grande Depressão de 1929-1933.”  (Fonte: Poste P24235, de 19 de abril de 2023).

Vd. poste de  27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27958: Humor de caserna (260): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXII: o cheirinho a roupa lavada (Joaquim Costa, ex-fur mil Arm Pes Inf, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)

Guiné 61/74 - P27991: Humor de caserna (262): O poeta Bocage (que foi oficial da marinha de guerra) e o Café Nicola, no Rossio, em Lisboa

Estátua em bronze do Bocage.
Café Nicola, Rossio, Lisboa.
Autor: Marcelino de Almeida
(1929)
1. Não sou bom a contar anedotas, ao vivo, à volta da mesa, numa roda de amigos... É uma arte, que não é para todos, inventá-las e sobretudo contá-las. Mas gosto de as reescrever e recriar... 

Esta, é mais uma do Bocage, que me foi contada,  se não erro,  na tropa ou já na Guiné. Nunca a  esqueci, passados  mais de 50 anos, o que é caso raro em matéria de repertório de anedotas. O meu é muito pequeno.

De facto, também não sou bom a lembrar-me das anedotas. Faltam-me sempre aqueles detalhes que dão o picante à(s) história(s)... É como os coentros nas ameijoas à Bulhão Pato ou nas favas soadas... ou o piri num franguinho grelhado.

Na altura já conhecia os célebres versos do "Calafate" ou "Cantador de Setúbal", sobre "A Quinta da Panasqueira",  publicados no poste P27990 (*), por via da célebre "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (seleção, prefácio e  notas de Natália Correia, 1965), que li clandestinamente. (Não consegui apanhar a 1ª edição, vivia na província, o livro foi rapidamente confiscado, mas houve um amigo que teve a sorte de ficar com um exemplar.)

Neste caso, que vou reconstituir de cor, ainda hoje desato a rir pelo absurdo e caricato da situação. É uma anedota, caro leitor, que mete, com a sua licença,... m*rda. Logo, é humor... escatológico. Mas que tem perfeito cabimento na nossa série "Humor de Caserna". 

Só tem graça porque, além da dita m*rda, mete o Bocage, um botequim e uma ventoinha de teto (ou ventilador elétrico). 

Ora, este  equipamento (precioso num território como a Guiné, no nosso tempo, a par do frigorífico a petróleo) só será inventada em 1882, mais de 3/4 de século depois da morte do Bocage (1805). 

Portanto, há aqui um anacronismo: naquele tempo, nos finais do séc. XVIII, ainda não havia eletricidade, não podendo haver por isso ventoinhas (muito menos de teto)... Mas devia haver "buracos" para ventilação e respiradores, nos edifícios pombalinos...E isto passa-se na baixa pombalina, no Rossio...

De resto, as ruas da capital eram iluminadas por candeeiros a azeite, num sistema criado a partir de 1780  pelo intendente da polícia Pina Manique. (Depois do azeite, veio o petróleo, o gaz e finalmente a eletricidade; o funcionário camarário que acendia  e apagava os "lampiões", antes da iluminação elétrica,  eram os "vaga-lumes", popularmente mais conhecidos como "caga-lumes").

À parte o anacronismo, a anedota tem piada porque ilustra o talento de improvisador, de repentista, que a tradição oral atribui ao poeta sadino,  frequentador do Botequim do Nicola, no Rossio, em Lisboa.

O Botequim do Nicola (cuja fundação remonta a 1787, em pleno reinado de Dona Maria I (que vai de 1777 a 1815) era o centro das tertúlias intelectuais e conspiratórias de Lisboa. E das rusgas da polícia (Intendência-Geral da Polícia da Corte e do Reino, criada pelo Marquês de Pombal, em 1760). 

O Botequim (do italiano botteghino, diminutivo de bottega, loja), foi fundado por um italiano chamado Nicolau Breteiro, vulgo "Nicola". Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do estabelecimento.

O cliente mais mais conhecido na época foi o nosso poeta, de seu nome completo Manoel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), de ascendência francesa, cuja vida, aventurosa e boémia, mas também militar e literária,  ainda hoje está mal documentada: sabe-se, por exemplo,  que foi oficial da marinha de guerra, andou pela Índia e pelo Brasil, até começar a ter problemas com a Inquisição e a polícia do Intendente Pina Manique...  Viveu pobre, morreu miserável. E hoje ajuda a vender lotes de café em grão... "italiano"! 

Diz a tradição que José Silva, o proprietário do Botequim do Nicola, terá sido uma espécie de mecenas do poeta, apoiando-o na fase terminal da sua vida, com o poeta maldito já doente e pobre.


Retrato gravado a buril e água-forte
por Joaquim Pedro de Sousa (1818-1878). 
Fonte: Wikipedia

O Botequim, mais tarde Café Nicola, continuou a ser um ponto de encontro de escritores, jornalistas e políticos, atravessando vários regimes e épocas. Sofreu remodelações ao longo do tempo. Na II Guerra Mundial, foi um dos cafés de Lisboa onde se misturavam refugiados, escritores,  espiões e polícia política.

Em 1929, a fachada foi redesenhada pelo arquiteto Manuel Norte Júnior. Foi também inaugurada uma estátua do poeta, em bronze,  da autoria de Marcelino de Almeida. 

Em 1935, o interior foi modernizado em estilo Art Déco, pelo arquiteto Raul Tojal (1899-1969), com pinturas a óleo de Fernando Santos (1892-1965) que retratam cenas da vida de Bocage. 

Estas intervenções deram ao Nicola o aspeto que ainda hoje se pode admirar, sendo atração turística, "loja histórica" e património da cidade de Lisboa.

O Café Nicola, enquanto marca, também se expandiu: no fim do século XIX e início do XX, abriram filiais em várias cidades portuguesas (como Coimbra e Figueira da Foz), e hoje existem 13 cafés e quiosques com o nome Nicola em Portugal (incluindo a minha terra, Lourinhã). 
2. Mas vamos à anedota (*): num dia de calor, estava o Bocage no Nicola com o seu grupo de tertúlia, mesmo no centro da sala.

Entrou um sujeito, a correr, "muito à rasca" (sic), a perguntar ao empregado onde era a "caganeira"... "Ao cimo das escadas", respondeu maquinalmente o "garçon". O sujeito subiu as escadas já com as calças na mão. Mas, com a atrapalhação,  não deu com a retrete. Aliviou-se no primeiro buraco que encontrou...

Desceu as escadas, mais descontraído, e a assobiar, enquanto ajeitava calmamente as calças e a jaqueta... Mas, para seu espanto, havia um reboliço enorme de mesas e cadeiras, com os clientes a fugirem para a rua, aos berros.

O cheiro tornou-se insuportável e, ao sentir o odor, e sobretudo ao levar com os salpicos de m*rda na cara, no cabelo e na camisa (branca) de janota, o Bocage levantou-se de um salto e declamou, alto e bom som, em cima de uma mesa, estes versos em redondilha maior que ficaram para a história:

Pelo  cheiro não é fruta,
Nem p'la cor é farinha,
Quem foi o filho da puta
Que cagou na ventoinha?!
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)

terça-feira, 5 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >   O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta", neste caso, a papaia, que ainda estava verde... 

Em segundo plano , parece-nos ser o  padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente  em 1953). 

 O Ernestino Caniço diz que não lhe parece que seja nem um nem outro, o seu amigo  José Torres Neves (hoje missionário da Consolata, reformado, à beira dos 90 anos) nem  o Júlio do Patrocínio.  Deviam ser então dois graduados, à civil, da CCS/BCAÇ 2885, presumimos nós.

Guiné > Região do Oio >  Mansoa > CCS/BCAÇ 2855 (1969/71)  > O alf mil Pires (à esquerda), com o oficial de dia (em segundo plano) e o alf graduado capelão José Torres Neves,  examinando a "cobiçada" AK-47 dos "turras")


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A expressão “apalpar a fruta”, com a sua inequívoca conotação brejeira, veio-me à ideia ao revisitar esta fotografia: dois militares à civil, em Mansoa, junto de uma papaieira generosa, um deles em gesto que não deixa de convidar ao duplo sentido. (Podiam ser o "nosso capelão" José Torres Neves, de costas e óculos escuros, mais o pároco de Mansoa, mas o Ernestino Canioço diz que não...)

De qualquer modo, a foto foi tirada pelo então jovem capelão castrense José Torres Neves, da CCS/BCAÇ 2855, de quem temos vindo a divulgar um notável espólio da Guiné (cerca de 400 fotografias). Hoje, missionário aposentado, à beira dos 90 anos, foi testemunha atenta, e sensível, de um tempo duro.  Na outra fotografia, vemo-lo a examinar uma AK-47 apreendida aos guerrilheiros do PAIGC: um padre entre a cruz e a espingarda, entre o cuidado das almas e a materialidade da guerra.

Mas voltemos à “fruta”, à "papaia"...(que em português são duas das dezenas de expressões do calão para a genitália feminina, a par de "catota", em crioulo da Guiné-Bissau).

A expressão levou-me a recordar um poeta popular do século XIX, analfabeto, calafate de profissão, natural de Setúbal, de resto conhecido como o "Calafate" ou o "Cantador de Setúbal": António Maria Eusébio (1820-1911). Dele nos ficaram alguns dos mais saborosos exemplos da nossa poesia erótico-satírica mas também jocosa, na melhor tradição popular que já vem das medievais  "cantigas de escárnio e maldizer".

Não por acaso, um dos seus poemas mais conhecidos foi selecionado pela Natália Correia para a sua célebre Antologia da Poesia Erótico-Satírica Portuguesa (1966), obra que o regime de António de Oliveira Salazar tratou de rapidamente proibir. 

Num país onde até o riso e a malícia eram policiados, aquela antologia foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco. A 1º edição esgotou-.se antes que a PIDE lhe pudesse pôr a mão em cima.

Recordo bem o escândalo da época: livros apreendidos, moral oficial ofendida, zelo censor muitas vezes exercido por servidores do regime, incluindo militares que serviram connosco no CTIG. 

Tudo isto num contexto em que a sociedade portuguesa vivia sob uma capa de puritanismo hipócrita, enquanto a vida real seguia, como sempre, outros caminhos (recorde-se o escândalo dos "Ballet Rose" , em finais de 1967, cuja denúncia  levou o advogado e politico da posição Mário Soares á prisão em Caxias e depois ao desterro, em São Tomé).

É também por isso que esta série  “Humor de Caserna” faz sentido: porque, mesmo em contexto de guerra, os homens (e algumas mulheres, as enfermeiras  paraquedistas) do CTIG souberam preservar algo de essencial, que era a capacidade de rir, de insinuar, de jogar com as palavras, de não perder a humanidade.

Já aqui em tempos tinhamos scrito, em comentário ao poste P4065 (*): 

(...) O humor (temperado q.b.) era, na Guiné, na BA 12 ou em Bambadinca, o nosso talismã, a nossa mezinha, o nosso amuleto mágico, o nosso cinto de segurança, o nosso cordão detonante, a nossa "droga"... contra as balas de amigos e inimigos, contra a costureirinha, contra a Kalash, contra o RPG, contra o Strela (ainda não o havia no meu tempo, sou mais velhinho do que tu, Miguel...), contra o tédio, contra o desânimo, contra o medo, contra a desesperança dos dias, contra as abelhas, contra os mosquitos, contra o cozinheiro, contra o vagomestre, contra o sargento, contra o RDM, contra o capitão, contra o comandante, contra o Com-Chefe, contra os que, de um lado e do outro, glorificavam a guerra e a a morte, enfim,  contra Deus e contra o Diabo.(Passe a blasfémia, que nalguns países de fundamentalismo religiso daria pena de morte!) (...)

E retomando a expressão “apalpar a fruta”… com licença do dono ou da dona, que o respeitinho continua a ser muito bonito (e o riso ainda é mais!)... 

Para quem não conhece o "Calafate" (já aqui de resto  citado, na caixa de comentários ao poste P4065 (*), publicamos hoje, na montra principal do blogue, os divertidos versos sobre “A Quinta da Panasqueira”, pequena obra-prima de malícia e engenho.

Que tristeza era então, a de um país, ou melhor, de uma elite dirigente, beata, balofa, hipócrita, inquisitorial, falsamente puritana, que tinha acabado, em 1963, de mandar fechar as "casas de passe" e de pôr fim à proibição do casamento das... enfermeiras (que vigorava desde os anos 40).

A famosa Antologia, da Natália Correia, foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco numa sociedade que precisava cada vez mais  de respirar o ar fresco da liberdade...que só virá oito anos depois.
.

A Quinta da Panasqueira

por António Maria Eusébio, o "Calafate"

Mote

Fui apalpar as gamboas
Que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
meu saber ninguém disputa,
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura…
Gosto do que tem doçura;
Quero e gosto das mais pessoas
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira,
com licença da quinteira,
fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei,
dei cambalhotas e saltos,
depois de apalpar pelos altos,
pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta;
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda,
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.

Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua,
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros,
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima,
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
Num regato ao pé de um poço,
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
a menina dê-me um cacho,
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.

A resposta da quinteira

Mote

Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão
.


Glosa

Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me a tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.

(Versos brejeiros e satíricos,
cantigas para guitarra).


Fonte: Antologia de Poesia Erótica e Satírica Portuguesa - Selecção, prefácio e notas de Natália Correia, 3ª ed. Lisboa: Antígona / Frenesi, 1999. [1ª ed., 1966],pp. 278-281. (com a devida vénia...)

(Revisão / fixação de texto: LG)

________________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P4065: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-Quedistas (7): Os tomates do Capelão da BA 12, Bissalanca... e outras frutas (Miguel Pessoa)

(...) No meu tempo na Guiné, os tomates do capelão da BA12 eram muito cobiçados, muito por culpa das nossas enfermeiras pára-quedistas que, sempre que podiam, faziam uma colheita na horta que o padre A... mantinha junto à igreja da Base.

Era generalizada a opinião, entre quem deles se servia, de que os tomates do nosso capelão, embora pequenos, eram sumarentos e saborosos e enriqueciam qualquer salada. E sabe-se o gosto que o pessoal tinha por tudo o que lhe lembrasse a metrópole. E era vê-los a "deitar abaixo" uma saladinha feita com tomates fresquinhos, acabadinhos de apanhar. (...)

Guiné 61/74 - P27989: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Parte II: Bissau velha renascida, "by air": do Hotel Coimbra ao cais do Pijiguiti


Vídeo (2' 02'') > Guiné - Bissau > Abril de 2026 >  Estas imagens aéreas focam a Av Amílcar Cabral desde o Hotel Coimbra até ao porto de mar.. Música: José Carlos Schwarz

Vídeo (e legenda): © João de Melo  (2026).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Maio de 2025 >  João de Melo e Maria do Carmo, ao centro, acarinhados pela equipa de futebol local,  "Os Tigres do Cumbijã".


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Maio de 2025 > O João de Melo com os miúdos da escola (do ensino pré-primnário ao 6º ano)  que ele  e a esposa estão a ajudar com donativos recolhidos na região centro

Fotos (e legendas): © João de Melo  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


João Melo, nosso grão-tabanqueiro
desde 1/3/2009



1. O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), esteve de novo na Guiné-Bissau, em por volta de março/abril de 2026. 

Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha, e tem viajado regularmente, desde 2017,  com a esposa, Maria do Carmo, para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade". 

A viagem inclui a tabanca de Cumbijã onde distribui ajuda humanitária pelas escolas locais, e  apoia o clube de futebol local) (*). 

Este ano a população local fez-lhe uma singela mas justa homenagem, atribuindo o seu nome a uma rua da localidade.

Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra  
(**).

Este ano fez um vídeo com o seu drone, mostrando esta parte da cidade, renascida com a
Fénix.  Os nossos camaradas, que passaram por Bissau, há mais de meio século, ainda  reconhecerão alguns dos edifícios e sítios, ruas, praças e cais,  desse tempo, a começar pela catedral e o porto do Pijiguiti, e incluindo  antiga Casa Gouveia (que ficava em frente ao Café Bento, a famosa 5ª Rep).



Guiné-Bissau > Bissau > s/d > O edifício do Coimbra Hotel & SPA, fundado em 2001, sito no edifício do antigo estabelecimento comercial  Nunes & Irmão Lda, na Av Amílcar Cabral (antiga Av República). 

É o mais imponente edifício comercial do centro histórico de Bissau, da época colonial.  É vizinho da catedral católica de Bissau.

Foto: arquivo do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, cedida por Virgílio Teixeira (2020)


Guiné > Bissau > s/d (c. anos 60) > Sem legenda >  Av da República (hoje, Av Amílcar Cabral) >  Ao fundo no início da avenida, o Palácio do Governador, e a Praça do Império; do lado direito, a Catedral de Bissau (em segundo plano)...  

No final da avenida, tínhamos a Casa Gouveia, à esquerda, em primeiro plano, com a esplanada do Café Bento à direita (e contigua à  sede da Administração Civil: deste edifíci, só se vê praticamente o telhado, acima do arvoredo)

(Edição Comer, Trav do Alecrim, 1 -Telef. 329775, Lisboa). Colecção: Agostinho Gaspar  (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4612/72, Mansoa, 1972/74). 

Edição (e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010).



Guiné > Bissau > s/d > Vista aérea da Ponte Cais, Bissau. Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 119" . (Edição Foto Serra, COP 239 Bissau. Impresso em Portugal, Imprimarte - Publicações e Artes Gráficas, SARL).

Legenda: Porto de Bissau, ou ponte-cais, o edifício das Alfândegas, à direita, a praça com o monumento a Diogo Cão (derrubada a seguir à independência), a entrada para a Fortaleza da Amura, ao centro, e à esquerda, se não erro, a Casa Gouveia (ou um estabelecimento da Casa Gouveia... Este é que é (era) o coração de Bissau Velho... A marginal chama-se hoje Av. 3 de Agosto.

Bilhete postal da coleção do nosso camarada Agostinho Gaspar / Digitalização, legenda e edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010
________________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 3 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27984: No 25 de Abril eu estava em... (42): De férias, em Alquerubim, já com 17 meses de comissão...E tinha tudo para odiar a terra que me serviu de lar em ambiente de guerra, durante quase dois anos... Mas, não, passei a lá ir todos os anos... (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351, 1972/74)

Guiné 61/74 - P27988: Parabéns a você (2482): Joaquim Gomes Soares, ex-1.º Cabo At Inf da CCAÇ 2317 / BCAÇ 2835 (Gandembel e Nova Lamego, 1968/69)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 3 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27982: Parabéns a você (2481): Delfim Rodrigues, ex-1.º Cabo Aux. Enfermeiro da CCAV 3366 / BCAV 3846 (Susana e Varela, 1971/73)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Para sermos francos, já outros se aventuraram a pesquisar e corrigir as narrativas familiares envolvendo militares na guerra de África e os filhos que aqui ficaram ou que eventualmente tenham podido acompanhar as comissões dos pais. É mais uma janela que se abre para o estudo caleidoscópico da guerra, temos relatos de enfermeiras-paraquedistas, mulheres de militares que os puderam acompanhar, histórias de madrinhas de guerra, isto para não falar já de impressionantes relatos deixados por combatentes, estou a lembrar-me do pungente e dramático relato do Capitão Salgueiro Maia intitulado "Crónica dos Feitos da Guiné", a descrição que ele faz da coluna que vai até Guidaje completamente cercada por uma operação de grande envergadura do PAIGC, em maio de 1973. Sem margem para dúvidas, somos agora confrontados quanto ao modo como os militares procuravam desempenhar o seu papel de pais, enviando inclusivamente bobines com histórias apropriadas para menores; é uma troca de correspondência, como dizem as autoras, uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança, a par dos valores e dos contextos sociais que marcaram uma época fundadora na história do país.

Um abraço do
Mário


Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 6

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente parte para a sua segunda comissão em março de 1970. Os filhos, Ana, a fazer catorze anos, Zá com doze, Cristina com onze e João com três estarão no Cais da Rocha do Conde de Óbidos. A mãe está grávida de uma menina que havia de nascer uns meses depois, Margarida. Os filhos mais velhos estão nos colégios internos, no Colégio Militar e no Instituto de Odivelas. A primeira comissão de João Serôdio foi na Índia. A filha Cristina recorda: “Ele estava lá sozinho. Escrevia para a mãe quase todos os dias. Temos a correspondência toda que o pai enviou para cá. A que a mãe enviou desapareceu.”
O pai enviava para a família uma mensalidade de quatro contos.

Ficará em casa oito anos, durante os quais frequentará vários cursos. A família não o vai acompanhar quando ele parte para Luanda, alguns dos filhos irão lá visitá-lo. O Colégio Militar deixou alguns traumas ao filho Zé. O pai dá conselhos: “Tens de saber ser forte na adversidade. Tens de reagir e não podes fraquejar. Crê, meu filho, que todos os homens encontram na sua vida mais obstáculos que facilidades. Mas, aqueles que desistem, que cruzam os braços, são arrastados para situações medíocres e são durante toda a vida infelizes porque sentem que não lutaram quando deviam.”
Há troca de correspondência com as filhas.

Quando nasceu Margarida, a mãe vai para o Porto para casa dos pais e leva o filho de três anos e a bebé recém-nascida. Segundo os filhos, a mãe sofre muito com a ausência do pai. Zé foi três vezes visitar o pai a Luanda, em 1972 foi a família toda sem a filha mais nova. João Serôdio pediu para continuar a comissão por oferecimento, foi um choque para toda a família. João Serôdio trabalhava diretamente com o General Costa Gomes, exerceu as funções de Chefe de Gabinete quando Costa Gomes foi Presidente da República. É numa destas cartas que encontrei a frase que vai encimando este conjunto de textos:
“Querido Pai,
Olhe que o pai faz mesmo muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu, onde está sozinho; só às vezes acompanhado por espírito.”

O pai regressa em junho de 1974, João tem então sete anos e lembra-se que o pai lhe observava que devia dobrar os calções ao deitar, não pôr os cotovelos na mesa.

João Menino Vargas tem muito a ver com Ana Vargas, a prosa que se segue é muito enternecedora:
“Há uma caixa de madeira em cima da mesa à volta da qual estamos à conversa. Aqui se guardam, há muito tempo, cartas, diários antigos, aerogramas e fotografias. São memórias relacionadas com a vida militar de João Vargas, pai de Luís, Ana e Cristina. Entre eles e connosco vai surgir uma reflexão sobre o passado familiar e comum, em grande medida marcado pela passagem do pai pela guerra colonial.”

João entra na Academia Militar com dezasseis anos. É filho de um capitão. João sai da Academia como oficial de artilharia, namora com Beatriz, estudante no Instituto de Odivelas, Beatriz tem nove irmãos, veio para Lisboa tirar um curso de costura após o qual ficou a trabalhar em casa, dando também aulas deste ofício. O pai de Beatriz é destacado para Timor como comandante-militar, leva consigo cinco dos dez filhos entre os quais Beatriz. Como ela já namorava com João, este ofereceu-se como voluntário para acompanhar, não podiam ainda casar, quer pela idade quer pelos rendimentos.

João Vargas escreveu que ficou chocado com a penúria e o atraso com que viviam os timorenses:
“Eram obrigados a trabalhar um mês de borla para a Administração, período muitas vezes ampliado para dois meses, ou o que fosse decidido pelas autoridades administrativas locais; a que se somava o imposto de capitação, que todos os homens eram obrigados a pagar, vulgo imposto de palhota e, para completar o quadro, estavam sujeitos a serem arrebanhados para as plantações de café, sempre que os fazendeiros precisavam de trabalhadores, aos quais depois pagavam salários miseráveis. Os castigos corporais eram moeda corrente.”

Beatriz e João casam em 1960. Um ano depois nasce Luís. Em 1964 a família deixa Timor. Quatro meses depois, João é mobilizado para Tete em Moçambique. Vai a família toda, Beatriz, Luís e Ana. Em 1966 nasce Cristina. Regressam todos de Moçambique. João escreveu sobre esse tempo: “Na pacatez de Tete, parte da população branca não escondia as suas simpatias pela política de apartheid e a discriminação racial era evidente. Era do conhecimento público a colaboração das autoridades na angariação de donativos para trabalho de escravo e o seu envio forçado para a colheita da cana-de-açúcar da Sena Sugar sem que alguém manifestasse discordância.”

No regresso ficam a viver na Escola Prática de Artilharia. É por essa altura que um familiar, o tio Joãozinho, um dos irmãos da mãe parte para a Guiné e na própria noite em que chegaram ele morre num acidente, estava de oficial de dia, ia passar a ronda, o desgraçado que o abateu ouviu um barulho, ele morreu com dezassete tiros. João Vargas é mobilizado pouco tempo depois para a terceira comissão, vai para a Guiné, a família não o pode acompanhar. João é colocado em Nova Lamego. Pouco depois da partida do pai, Luís entra para o Colégio Militar, Ana vai para o Instituto de Odivelas, Cristina ainda com cinco anos, fica com a mãe em casa. Beatriz irá trabalhar como bibliotecária. Troca-se muita correspondência, o tema dos estudos é recorrente. A família envia a João gravações de músicas. No regresso virá muito mais tenso. João tece o seguinte comentário: “Vinha necessitado de mostrar que era quem mandava. Nós estávamos habituados a maior autonomia e independência.”

Estamos chegados ao 25 de abril. Após a morte recente dos pais, os filhos têm encontrado mais correspondência, postais e outros textos. Num deles, já no ocaso do regime e sobre a sua passagem pela Guiné, o pai deixou escrito:
“A guerra tem consequência interessantes. Curiosamente, as pessoas sentem-se libertas para dizerem o que lhes vai na alma. A PIDE era ali omnipresente, mas para o combatente é-lhe indiferente. Ouvem-se afirmações, alto e bom som, de verdadeira revolta: eu estou aqui porque o meu pai não me deu dinheiro para emigrar; estou aqui, porque não posso abandonar a minha família, senão tinha emigrado; se eu fosse africano também lutaria pela independência.”

Ao terminar a conversa os filhos de Beatriz e João, Luís dirá: “Pela maneira como se encara as guerras, parece que a gente está a ver na televisão, parece quase um filme. Nem se percebe às vezes, que de ambos os lados há vítimas e mesmo o maior facínora tem família.”

Estamos praticamente no fim desta belíssima recolha de narrativas, concluiremos na próxima semana.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
_____________

Notas do editor

Vd. post de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27976: Notas de leitura (1918): Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851 (Mário Beja Santos)