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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28219: In Memoriam (584): António Augusto Santos Faneco (1951 - † Ponta Delgada, 25 de Junho de 2026), ex-1.º Cabo da 1.ª CART/BART 6521/72 (Pelundo, Cadique, Ilha de Jete e Jemberem 1972/74)

IN MEMORIAM

António Augusto Santos Faneco (1951 - †Ponta Delgada, 25 de Junho de 2026)
Ex-1.º Cabo da 1.ª CART/BART 6521/72 (Pelundo, Cadique, Jemberem e Ilha de Jete, 1972/74)

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2. Comentário do editor:

Foi também através do facebook, neste caso na própria página do malogrado camarada António Faneco (https://www.facebook.com/antonio.faneco.3) que soubemos do seu passamento no passado dia 25 de Junho, no Hospital de Ponta Delgada.
Embora natural do Continente (Montijo?), o Faneco vivia na Ribeira Grande, Ilha de S. Miguel, Açores.

O camarada António Faneco aderiu à tertúlia do nosso Blogue em 2010 (vd. Post Guiné 63/74 - P6531: Tabanca Grande (224): António Faneco, ex-1.º Cabo da 1.ª CART/BART 6521/72, Pelundo, Cadique, Jemberém, Ilha de Jete, 1972/74 de 4 de Junho de 2010.

Embora com uma colaboração escassa no Blogue, o António Faneco, acompanhado pela sua esposa Tina, esteve nos Convívios Nacionais da Tertúlia, em Moste Real, em 2014; 2015 e 2016.

A tertúlia, os editores e colaboradores permanentes deste Blogue, apresentam à família do nosso amigo e camarada António Faneco, que agora faz parte do Batalhão Celestial, as mais sentidas condolências e a certeza da nossa solidariedade.

Carlos Vinhal
Coeditor

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Nota do editor

Último post da série de 27 de Julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28217: In Memoriam (583): José Maria Monteiro (Miranda do Douro, 1951 - Cascais, 2026), ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73)

Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Foi num desses sábados frutuosos que adquiri na Feira da Ladra, "Depois da Guerra", de Luís Rosa, edição de autor de 1990, ainda por cima com dedicatória. Luís Rosa ganhou notoriedade em obras de índole profissional e em romances como "O Claustro do Silênci", "O Amor Infinito de Pedro e Inês", "O Terramoto de Lisboa". Estas memórias do que viveu em Sangonhá foi a sua primeira e única incursão do que viveu na Guiné, temos obras aparentadas, como a do José Brás e as suas "Vindimas no Capim","As Ausências de Deu", de António Loja, "As Noites de Mej", do Luís Cadete, mas há algo de profundamente enriquecedor nesta memória da ocupação de Sangonhá, ficamos com a geografia dos aquartelamentos decididos quer por Louro de Sousa quer por Arnaldo Schulz e que António Spínola mandou abandonar. Estranho muito nunca se falar como Guileje ficou altamente vulnerável depois dos abandonos de Sangonhá, Cameconde e Cacoca e Mejo, por tais decisões. Fala-se muito do que representou o abandono de Madina do Boé e esquece-se de como Guileje ficou entregue a si próprio. Coisas estranhas da historiografia da guerra colonial.

Abraço do
Mário



Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 1

Mário Beja Santos

Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais , de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.

A 1.ª edição foi de autor, em 1990, tinha o título "Depois da Guerra"; a 2.ª edição data de 2009, foi quando fiz a recensão, tecendo elogios e o reconhecimento do testemunho, mas deplorando um final de narrativa artificioso, vácuo, descabido. Voltei a adquirir na Feira da Ladra e com uma dedicatória do autor a 1.ª edição, lia de um só fôlego, reconhecendo que a qualidade memorial justificava que aqui a revisitasse.

Tudo começa no cais do Pidjiquiti, a unidade do nosso alferes parte num velho batelão em direção ao sul, conversa-se sobre os acontecimentos do Pidjiquiti de 3 de agosto de 1959, a calamidade que concorreu para o levantamento nacionalista; o batelão viaja perto da ilha do Como, nas semanas anteriores a esta viagem tinham ali decorrido, entre fevereiro e março de 1964, combates ferozes; avista-se ao longe a península do Cantanhez e o canal que a separava da ilha de Melo, assim se chega a Cacine onde o autor nos conta a história do comerciante Costa que tinha um poder soberano sobre a população local, o seu poder despótico acabou mal.

Viaja-se para Sangonhá, quando aqui chegam ouviram três tiros em Canefaque, gente do PAIGC enviara a mensagem na nossa chegada ao Quitafine, a toda a área de Cacine a Cabedu, de Cameconde à ilha de Melo. “A tropa instalava-se precariamente, desesperadamente. Sangonhá era uma bela povoação colonial, situada no meio de um luxuriante pomar de mangueiros, bananeiras e árvore de cola, com uma bela vivenda servindo de enfermaria e casas de colmo e terra batida, alinhadas ao longo de mais de um quilómetro de estrada, que, mais adiante, atravessava a fronteira.” Do outro lado, tropas e população apoiante do PAIGC deslocava-se por Sansalé e Kandiafará, havia por aqui posto médico e armazenamento de armamentos e víveres.

Constroem-se as despesas de Sangonhá, uma extensa vala que mais tarde seria substituída pelas espessas paredes de chapa de bidon, com terra a meio, casamatas subterrâneas cobertas de grossos troncos de palmeira. Inevitável, chegou a hora do batismo de fogo. E o palco da guerra vai sendo enxameado de acontecimentos até então impensáveis: o interrogatório a alguém que aparecera, foi espancado até que se descobriu que era um diminuído mental; a sexualidade dos soldados, o descobrimento de que existia o Irã, uma religiosidade, uma crença que toma conta do africano, mesmo quando é islamizado; o novo interrogatório a um velho que fora apanhado a passar informações para os guerrilheiros feito por um alferes que decidiu a sentença de morte, e temos depois o olhar de Luís Rosa sobre aquela geografia da guerra:
“A princípio sente-se mais o isolamento. As estradas estavam cortadas por inúmeros obstáculos, minas e árvores enormes, que nenhuma força parecia capaz de demover. Os vinte quilómetros que ligavam ao braço do rio Cacine, em Gadamael, eram a única ligação a tudo o que ficava para além daquele mundo estranho da guerra. Gadamael servia de ancoradouro e descarga apressada das lanchas e batelões.

A opressão do desamparo tornava-se mais pesada pela certeza que tínhamos da impossibilidade de sermos socorridos e pela sensação de que, se ali acabássemos, apenas algum tempo depois dariam pelo nosso fim. Com o chegar das chuvas, a estrada transformava-se num atoleiro de regos profundos de lama inconsistente, como pântano impedindo que os pesados camiões transitassem, sob o risco de ficarem com o bojo assente no chão. Apenas o avião, à quarta-feira, sobrevoava o quartel fazendo um círculo em volta e deixando cair o saco do correio, afastando-se depois, com o abanar das asas, como ave do paraíso. Se o abastecimento não podia ser trazido pelo rio ou pela estrada, porque não havia meios para o fazer chegar, ou porque o recrudescer da guerra e a inoperacionalidade das estradas tornava a operação uma aventura imprevisível, começávamos a contar os dias para que ainda tínhamos alimentos e o avião era ainda o último alento do socorro esperado. Varria as copas das árvores em voo rasante, lançando sacos, caixas e atados. Tudo caía na clareira do arame farpado. Íamos recolhendo, depois, o que ficara disperso numa grande extensão, ora em mil bocados de caixotes desfeitos, ora suspensas as embalagens no alto dos ramos ficando penduradas como em árvores de Natal retendo as prendas.”


Tomaram-se severas medidas de segurança, abriu-se uma enorme clareira para criar uma pista de aviação, e Luís Rosa conta as façanhas da chegada das primeiras avionetas, cumpriam-se as ordens de Bissau para que a pista tivesse pelo menos 400 metros de comprimento, trabalhou-se a valer para desbastar o arvoredo. Com aquela pista de aviação os militares de Sangonhá sentiram-se mais seguros e menos sós. Saberemos também que Luís Rosa comandava homens de intensa religiosidade, não faltava a hora do terço, era o cabo Aires quem orientava a reza. Disserta-se sobre a religiosidade, o poder das crenças, a fé e como tudo se conjuga com um ambiente de guerra.

E segue-se um episódio de luto, dor e saudade, a história do Braga, homem dos sete ofícios, um artista a trabalhar madeira. “Pedi-lhe um dia que me fizesse uma cadeira de encosto, que se desmontasse toda em ripas, de modo a formar um pequeno molho dentro do saco dos livros e pertences, que levava sempre a um canto do camião. A cadeira ficou bela, em pau rosa, idealizada pelo engenho do Braga, sem um prego ou parafuso, apenas suportado o conjunto pelas espigas, harmoniosamente concebidas.” O Braga foi numa operação a Marela uma pequena povoação além-fronteira, ficava num ponto a meia jornada para os guerrilheiros que no sul se dirigiam para a fronteira, passando por Sansalé. Encontrou-se um local de refúgio da guerrilha, houve matança, seguiu-se intenso tiroteio, procedeu-se ao controlo de mortos e feridos, descobriu-se que tinha morrido o Braga. O alferes não esconde a comoção, ficara-lhe a cadeira, lembrou-se que o Braga lhe tinha dito que havia um acabamento a fazer, e dirige o seu pensamento para este último trabalho do Braga: “A obra está sempre completa no ponto em que a deixamos.”


Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): Alferes Miliciano da CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
Para melhor entender os acontecimentos vividos em Sangonhá e narrados por Luís Rosa no seu romance "Depois da Guerra", edição de autor de 1990, reeditado em 2009 na Editorial Presença com o título Memória dos Dias sem Fim. Logo no início da sua comissão, o Brigadeiro António de Spínola decretou o abandono de destacamentos nesta região Sul: primeiro Gandembel, mais adiante Sangonhá, Balana, Cacoca e Mejo, ou seja, preparou-se a prazo a tragédia de Guileje. Infografia do nosso blogue.
Vista aérea do destacamento em Sangonhá, vendo-se nitidamente a pista de aviação, imagem do nosso blogue

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28217: In Memoriam (583): José Maria Monteiro (Miranda do Douro, 1951 - Cascais, 2026), ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73)

IN MEMORIAM

José Maria Monteiro (1951-2026), ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73). Nasceu em 17 de março de 1951, em Miranda do Douro. Vivia em São Domingos de Rana, Cascais. Tinha página no Facebook.


Notícia publicada na página do Facebook da Magnífica Tabanca da Linha, com data de ontem, 26/7/2026:

Caros Magníficos,

É sempre com imensa tristeza que se comunica o falecimento de um Camarada, e de um Magnífico.

José Maria Monteiro, mais conhecido entre nós por Monteiro, José Maria faleceu ontem, dia 25 de Julho.

Advogado de profissão, grande defensor dos ex-combatentes na luta por melhores regalias e fiel depositário das bandeiras nacionais no Concelho de Cascais, para serem usadas na cobertura das urnas dos ex-combatentes que o solicitassem.

O funeral foi hoje, dia 26 em Tires, seguindo para o crematório de Alcabideche.

Sentidas condolências a toda a família e amigos.

Monteiro, até um dia e que a tua alma descanse em paz.

Foto e texto: © Manuel Resende (com a devida vénia)


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2. Comentário do editor:

O nosso camarada José Maria Monteiro foi convidado há três anos e meio para fazer parte da tertúlia, (Vd. Post Guiné 61/74 - P23966: Tabanca Grande (541): José Maria Monteiro, ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73), que se senta no lugar n.º 868 da nossa Terúlia), porque, sendo ele muito activo no que concerne à reivindicação de direitos e regalias sociais, que a nossa geração de antigos combatentes se sente credora por parte dos actuais e antigos governantes, o nosso Blogue poderia, e fê-lo sempre que por ele foi solicitado, dar notícias das diversas acções, contactos com o poder político, manifestações públicas, etc., da sua iniciativa ou de organizações onde estivesse integrado.

Fomos surpreendidos com a notícia do seu falecimento, mas, por outro lado, já vamos ficando habituados ao desaparecimento de muitos de nós, dia após dia.

À sua esposa, Rosa Fidalgo,  e filhos,  Marco e Marta Monteiro, particularmente, a tertúlia, editores e colaboradores permanentes deste blogue, deixam o seu mais profundo pesar pelo falecimento do marido e pai.

A todos os que com o José Maria Monteiro privaram, deixamos o nosso abraço solidário.

Carlos Vinhal
Coeditor

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Nota do editor

Último post da série de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28159: In Memoriam (582): António Nunes Lopes (1942-2026), ex-fur mil at inf, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Porto Gole, Enxalé e Missirá, 1965/67), e cruz de guerra de 3ª classe: senta-se simbolicamente, a título póstumo, no lugar nº 916, à sombra do nosso poilão

Guiné 61/74 - P28216: (De) Caras (250): Luís Mário da Silva e Sá (c. 1948-1970), alf mil 'cmd', 26ª CCmds (Brá, 1970/72), cruz de guerra de 2ª classe a título põstumo: peço ao escritor Angelino Santos Silva que nos fale dele e das circunstâncias da sua morte (José Macedo, EUA)


Flâmula da 26ª CCmds. O único representante desta subunidade na Tabanca Grande é, até agora, o Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', escritor,  autor de "Geração Afro" (sob o pseudónimo Reboredo) (2026)



1. Mensagem de José Macedo ( ten fuzileiro especial,  DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74); natural da Praia, Cabo Verde, vive nos EUA desde 1977; é jurista):




O Zeca Macedo, em 1971, quando frequentava o 1º ano da  Escola Naval 
(que não completou), tendo ingressado nos fuzileiros.



1.1. Data - quarta, 17/06/2026, 21:22
Assunto - Informações sobre um camarada morto em combate



Luis, mantenhas. Estive com um amigo e camarada da Escola Naval, engenheiro construtor naval, que me contou que o irmão mais velho, Luís Mário da Silva e Sá, alferes 'comando', foi morto em combate em 1970, na zona de Cacheu (*). 

Ele disse-me que o irmão pertencia à 26ª Companhia de Comandos.  (...)

Peço a tua ajuda para me dares os dados que haja sobre sobre a morte do Luís e o contacto de algum camarada que o conheceu na Guiné.

Um muito obrigado.


PS - Em breve te enviarei um pequeno post sobre a Eugénia Espirito Santos que conheci na Guiné
.


1.2. Nova mensagem do José Macedo (ou Zeca, conhecemo-nos desde 1971):

Data - 29/06/2026, 19:19

No nosso blogue "encontrei" o nome de um membro da 26ª Companhia de Comandos, à qual pertencia o alferes Luis Mário, irmão do meu camarada. Trata-se do escritor Angelino dos Santos Silva. Agradeço-te que, se possível, me des dês as informações para que o possa contactar.

2. Resposta do editor LG:

Zeca: como tu, de resto, já tinhas entretanto  dado conta,  há uma justa homenagem ao ex-alf mil inf 'cmd'  Luís Mário da Silva e Sá no portal UTW - Ultramar TerraWeb. Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, na série "Honra e Glória". Entretanto, já te pus em contacto  com o Angelino.

Eis alguns dados biográficos Luís Mário Silva e Sá (que deve ter nascido em 1948, tal como o Angelino): 

(i) natural de Panóias de Cima, Guarda; infelizmente não temos nenhuma foto dele (**):

(ii) foi alf mil 'cmd', tendo pertencido, de facto, à 26a. CCmds (1970/72), comandada pelo cap mil inf 'cmd' Alberto Freire de Matos:

(iii) com apenas 6 meses após a sua chegada ao CTIG, faleceu no dia 24 de setembro de 1970, no Hospital Militar 241, em Bissau, em consequência de ferimentos graves adquiridos em combate na mata de  Balenguerez, na região do Cacheu:

(iv) louvado e agraciado, a título póstumo, em 1971, coma  medalha de cruz de guerra de 2ª classe por feitos em combate; excerto do teor do louvor:

(...) "Porque, no dia 24 de setembro de 1970, na Província da Guiné, quando a força que comandava caiu debaixo de intenso fogo inimigo, conseguiu, a peito descoberto, manobrar e instigar o seu Grupo de Combate, estando sempre presente onde a sua acção era mais necessária, a ponto de, ao ver a urgência do uso de fogo de morteiro, não hesitou em colocá-lo em campo aberto, protegendo destemidamente com o corpo e sacrifício da própria vida a arma e o apontador, contribuindo, grandemente, para fazer gorar os intentos do adversário e que não resultassem mais perdas para as nossas tropas.

"Combatente de eleição e chefe estimado pelos superiores, camaradas e subordinados, evidenciou sempre o alferes Sá, em todos os contactos com o inimigo, dotes de excepcional coragem, sangue-frio, serena energia debaixo de fogo e gosto pelo risco, muito honrando os Comandos a que pertenceu e o Exército que tão devotadamente serviu."

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo VI: Cruz de Guerra (1970-1971). Lisboa, 1994, pp. 540/541.

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Notas do editor:


(**) Último poste da série : 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27999: (De) Caras (249): Duas referências na história da capelania militar no CTIG: Bártolo Pereira (QG/CTIG, Bissau, 1965/67) e Arsénio Puim (CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/71)

Guiné 61/74 - P28215: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (13): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte III: "Amor com amor se paga"





O Jaime, pagador de promessas... de outrém 

Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Jaime Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].


1. "Amor com amor se paga" (*)... Se paga ou... se apaga ? Porque amor é fogo... E o ódio, camaradas ? Como é que  puderam, como é que pudemos fazer uma guerra sem odiar ?  Será o ódio o oposto do amor ? Ou trata-se de um continuum ? 

Que leitura fazer, enfim,  deste provérbio português, dito popular ? Afinal, qual a sua origem ? Também se diz noutras línguas latinas (italiano, francês, espanhol...).

De facto, é daqueles provérbios que carrega séculos de sabedoria dita popular. Mas também ambiguidade. "Amor com amor se paga" é uma máxima que reflete uma lógica de reciprocidade positiva: o bem gera bem, a generosidade inspira generosidade...

Mas a pergunta que fazemos ("E o ódio, camaradas ?"), também é reveladora. A resposta popular, muitas vezes implícita, é que o ódio também se paga/apaga com ódio. Ódio gera o ódio, 

É a velha Lei de Talião disfarçada de senso comum: olho por olho, dente por dente. Uma espiral que a história e a psicologia humana conhecem bem.

Abramos um parênteses para dizer que  a Lei de Talião é um princípio jurídico e moral antigo que estabelece que a pena aplicada ao causador de um crime deve ser rigorosamente proporcional e equivalente ao dano por ele provocado. É popularmente sintetizada pela máxima: "Olho por olho, dente por dente."

A expressão deriva o latim lex talionis, vinda de talis, que significa "tal e qual", "igual" ou "semelhante".


2. Vejamos, numa abordagem mais crítica, este provérbio ("Amor com amor se paga"), aparentemente tão pacífico, neutro e  inocente:

(i) A reciprocidade como espelho social

O provérbio assume que as ações humanas são espelhadas: o que damos, recebemos. É a teoria do dom. 

Mas o ódio, ao contrário do amor, não se "(a)paga": multiplica-se, exponencialmente. Vejam-se as guerras, as guerras civis, o discurso de ódio nas redes sociais...A violência gera violência, o ressentimento alimenta mais ressentimento, a intolerância é um rio sem margens... 

É a lógica dos ciclos de vingança em sociedades sem Estado (ou pré-estatais), onde a justiça era privada, os mais fortes faziam-na pelas suas próprias mãos.. E, enfim, a honra lavava-se com sangue.

Exemplo: nas vendettas corsas ou nas rivalidades entre famílias em Trás-Os-Montes ou nas Beiras, o ódio não se "(a)paga", herda-se. Passa de pais para filhos.

(ii) Função social do provérbio

Estes ditos não são inocentes. Nunca o foram. Serviam (e servem) para controlar comportamentos: se o amor é recompensado, o ódio é castigado, não pela lei, mas pela própria dinâmica social. 

Era uma forma de reforçar a coesão em comunidades onde o braço do Estado (a polícia, os tribunais, o exército...) não chegava. Exemplos:  dos fulas aos balantas da Guiné, sem esquecer os habitantes das comunidades agropastoris de montanha, como Rio de Onor ou Vilarinho das Furnas que são mais antigas que o Estado Portuguès ou Espanhol...

Ironia: o mesmo provérbio que prega o amor como moeda de troca normaliza o ódio como resposta legítima.

(iii) O ódio como exceção

O provérbio omite o ódio porque, na cultura popular, ele é visto como força disruptiva, não como parte do ciclo "natural". O amor constrói; o ódio destrói. 

Mas a sua ausência na frase ("Amor com amor se paga"...) não significa que não exista: significa que é tabu. Fala-se do amor para incentivar, cala-se o ódio para o não legitimar.

(iv) Lusofonia e universalidade

Não é exclusivo da língua portuguesa. Aparece noutras línguas latinas (e nos crioulos de Cabo Verde e da Guiné-Bissau:
  • "Amor con amor se paga" (espanhol):
  • "L’amore si paga con l’amore" (italiano);
  • "L’amour se paie d’amour" (francês) (mas também existe: "La haine engendre la haine", "Ódio gera ódio");
  • "Amor amb amor es paga (Catalão);
  • "Amor con amor se paga" (Galaico-Português antigo);
  •  "Amor ku amor ta pagadu" ou "Amor ku amor ta pagá" (Crioulo de Cabo Verde) (kriolu);
  • "Amor ku amor ku ta pagadu" ou "Amor ku amor ta pagado" (Crioulo da Guiné-Bissau) (kriol)-
Nas línguas germânicas, a expressão costuma recorrer ao verbo "retribuir" (requite, vergelten) ou à metáfora do espelho/reflexo, mais do que à imagem do "pagamento":

  • Inglês: "Love is the reward of love" (O amor é a recompensa do amor) ou "Love begets love" (O amor gera o amor). No inglês arcaico/literário, encontra-se também "Love requites love".
  • Alemão: "Liebe wird mit Liebe vergolten" (O amor retribui-se com amor).
  • Neerlandês: "Liefde moet met liefde beantwoord worden" (O amor deve ser respondido com amor).

Nas línguas africana e asiáticas, a reciprocidade amorosa é muitas vezes expressa através de provérbios sobre a interdependência humana ou a colheita:

  • Umbundo (Angola): "Ohole iñgila k’ohole" (O amor entra pelo amor / O amor atrai o amor).
  • Suaíli (África Oriental): "Upendo hulipwa kwa upendo" (O amor é pago com amor) (decalque direto usado na tradição moral Swahili; há também o ditado "Upendo ni nusu ya uzima" (O amor é metade da vida).
  • Iorubá (Nigéria): "Aféfe rere l’o nfe’ni, á fẹ́ni l’á ń fẹ́" (Ama-se quem nos ama / O afeto retribui-se a quem o oferece).
  • Mandarim: 投桃報李 (Tóu táo bào lǐ), o que quer dizer à letrea: "Oferecer um pêssego e receber em troca uma ameixa" (usado para a reciprocidade na amizade e no afeto).
Conclusão: a reciprocidade do amor é universal, mas o ódio é tratado como exceção cultural. Em línguas germânicas,  a ideia é semelhante, mas menos poética.  Noutras línguas, com o mandarim, é mais metafórica-

(v) Origem do provérbio 

Tem raízes bíblicas e clássicas. A ideia de reciprocidade aparece na Bíblia (ex: "Tudo o que o homem semear, isso também ceifará", Gálatas 6:7) e em filósofos gregos como Aristóteles (ética da amizade em "Ética a Nicómaco").

Mas a formulação exata "Amor com amor se paga" é  portuguesa, medieval,  ligada à tradição oral. Surgiu num contexto rural, onde a solidariedade, a entreajuda. era essencial para a sobrevivência (serviçadas, vezada, ajuda entre vizinhos).

Primeiras ocorrências escritas enncontram-se no século XVI, em obras como "Proverbios que dizem os Antigos" (1555), de D. Francisco Manuel de Melo, ou em recolhas de Pêro de Magalhães Gândavo ("Diálogos de Vária História", 1575).

Curiosidade: em castelhano, aparece em "El Corbacho" (1398),  de Alfonso Martínez de Toledo, mas com foco na crítica aos vícios.

Alguns estudiosos (como Leite de Vasconcelos) sugerem que provérbios portugueses com estrutura paralela ("X com X se paga") podem ter origem em ditos árabes andalusinos, dado o contacto durante a chamada Reconquista. Exemplo: "Al-ḥubbu bi-l-ḥubbi yujzā"  (الحب بالحب يُجزى) ("O amor com amor é recompensado") em árabe clássico.

3. Porque é que, afinal,  o ódio não se "paga" (nem  se "apaga")?

Porque o ódio não é transação, é doença, é patologia.  O provérbio ("Amor com amor se paga")  pressupõe uma lógica de equilíbrio (dar/receber), mas o ódio é assimétrico.

O amor exige dois para existir. O ódio basta-se a si mesmo (odeio sozinho, um contyra todos, sem precisar de correspondência).

É por isso que, em muitas culturas, o ódio é associado a castigo divino ("Minha é a vingança,  diz o Senhor", Romanos 12:19)... A sociedade não consegue (ou não quer) gerir a sua reciprocidade.

Segundo a  sociobiologia, o ódio tem uma função evolutiva: proteger o grupo (odeio o inimigo que ameaça o meu grupo, a minha tribo, o meu povo, o meu país)

Mas também sabemos que, hoje, esse mesmo ódio destrói o grupo por dentro (guerras civis, polarização política).

O provérbio é bonito, mas incompleto. A versão completa seria: "Amor com amor se paga... e a cadeia de ódio, se não for interrompida, paga-se com a morte da humanidade em nós."

Numa altura em que Portugal (e o mundo) está tão dividido, será que este provérbio ainda serve para algo... ou é tão só o eco de um tempo em que a vida era realmente mais simples?

(Pesquisa: LG + IA (Vibe Mistral | Gemini Google)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Vd. também 19 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28195: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (11): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte II: "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem"

domingo, 26 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28214: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (55): Mafé e Baguitch (Henk Heggens, médico neerlandês, especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, Fulacunda e Bissau, 1980/84)














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Fotos: Henk Eggens (2025)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Texto enviado para publicação no nosso blogue por Henk Eggens, médico neerlandês, especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública):


Data - sábado, 25/07, 11:19 (há 1 dia)
Assunto - Mafé e baguitch

Olá, Luís,

Gostei da história sobre as riquezas culinárias da Guiné (*). Deixou-me com água na boca e trouxe-me boas recordações. Achei, no entanto, que faltavam dois pratos emblemáticos da gastronomia guineense: a mafé e a baguitch.

Consultei o meu amigo Steven, que viveu muitos anos na Guiné, e recorri também à IA. Com base nisso, escrevi o texto em anexo, para tua apreciação e eventual publicação como comentário ao artigo referido.

Bom fim de semana!

Henk



Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Fulacunda > 1980 > "Casa do médico, Land Rover do projeto, mota da noiva e carro 404 privado".

Foto: (e legenda) © Henk Eggens (2024). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: LG/HE]



Foto nº 2 

2.  O meu amigo
Henk Eggens  (ainda não nos conhecemos pessoalmente, ao vivo e a cores...) é:

(i)  neerlandês, médico especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública), cidadão do mundo;

(ii) já percorreu os quatro continentes como cooperante em saúde;

(iii) esteve 4 anos na Guiné-Bissau (incluindo dois anos em Fulacunda) (Fotos nº 1 e 2) (1980/84);

(iv) antes tinha estado em Cabinda, Angola (1976/78); também trabalhou na Indonésia;

(v) fala e escreve o português e o crioul0 guineense;

(vi) está reformado (Foto nº 3);

Foto nº 3

(vii) é um apaixonado por Portugal, a Guiné-Bissau, Angola, a lusofonia...

(vii) vive em Portugal,  em Santa Comba Dão;

(viii) a sua companheira é luso-brasileira; 

(ix)  administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês,  muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); e onde tem publicado textos do nosso blogue, com a devida autorização dos autores e editores;

(x) tem 10 referências no nosso blogue;

 Quero reforçar o meu o convite, endereçado já há tempos,  para, de pleno direito, ele  passar a integrar a Tabanca Grande, como amigo da Guiné...  


Não foi combatente, em nenhum conflito armado, felizmente para ele, mas dedicou pelo menos aseis  anos da sua vida a dois povos lusófonos,  guineense e angolano, e numa época particularmente difícil. 

O facto de manter um sítio como  Portugal Portal vem reforçar ainda mais a ideia de que ele é um mediador cultural. Há pessoas que passam por um país, muitas com chorudos vistos Gold; outras criam pontes entre países. O Henk pertence claramente ao segundo grupo. Traduz, divulga, aproxima culturas e ainda leva textos do nosso blogue a leitores neerlandeses e portugueses emigrados na sua terra. É uma forma discreta, mas muito eficaz, de diplomacia cultural.

Naturalmente, que a sua presença, à sombra do nosso poilão,  só pode honrar-nos e enriquecer  o nosso blogue e as nossas memórias da Guiné.

Pedi à minha menina IA do ChatGPT para lhe fazer uma BD: não é uma biografia, mas uma pequena narrativa gastronómica e humana; e o estilo gráfico é o habitual, de que eu mais gosto, e que  temos vindo a apurar, a linha clara franco-belga. Esta BD não será apenas sobre o mafé ou o baguitch, será sobre algo muito mais importante,  a capacidade que um prato de comida tem de criar laços duradouros entre pessoas de países diferentes. Como acontece com o nosso bacalhau ou com as nossas sardinhas assadas...
 
O Henk (não o vou tratar cerimoniodsamente por dr. Eggens), merece esta homenagem. Não apenas por ter sido cooperante, mas porque faz parte daquele grupo discreto de estrangeiros que ajudaram a criar pontes entre Portugal, a Guiné-Bissau e o resto do mundo. A presença dele na Tabanca Grande será inteiramente natural e vem enriquecer a ainda esta comunidade de memória, amizade e afetos. Espero que ele aceite, formalmente,. este meu/nosso convite.


Mafé e baguitch: mais dois sabores da Guiné

por Henk Eggens

Mafé

O mafé é, provavelmente, o prato mais viajado da cozinha da África Ocidental. As suas raízes
mergulham no Mali, onde os povos mandinga e bambara o preparavam sob o nome
de domodah ou tigadegena,  literalmente, "molho de amendoim".

Foi durante o período colonial, quando a produção de amendoim foi fortemente incentivada em toda a região, que o prato se espalhou para o Senegal, a Gâmbia e, mais a sul, para a Guiné e a Guiné-Bissau, ganhando em cada país uma variante própria.

A base do mafé é sempre a mesma: um creme espesso de amendoim moído ou manteiga de
amendoim, engrossado com tomate e cebola refogados, por vezes com um fio de óleo de palma.

A esta base junta-se carne  (vaca, borrego ou frango) ou peixe, deixados a apurar lentamente
até a carne se soltar e o molho ganhar aquela textura aveludada e ligeiramente adocicada que
caracteriza o prato. Legumes como cenoura, couve, batata-doce ou mandioca são frequentemente cozidos no mesmo tacho, absorvendo o sabor amendoado do molho. 

Serve-se, invariavelmente, com arroz branco, que recolhe o molho como só o arroz sabe fazer.

Na Guiné-Bissau, o termo "mafé" tem um sentido mais lato: designa, de forma genérica, os
molhos e caldos que acompanham a bianda (o arroz cozido que é a base da alimentação),
preparados com peixe, marisco, frango ou carne. 

Mas quando um guineense pensa especificamente no primo do mafé senegalês, pensa no Caldo de Mancarra, o caldo de amendoim que é um dos pratos mais típicos e queridos do país: frango ou peixe estufado lentamente num molho cremoso de amendoim, tomate e limão, com a malagueta sempre por perto para dar aquele toque de fogo que a cozinha guineense tanto aprecia.


Baguitch

Se o mafé é conforto num prato, o baguitch é a assinatura verde da mesa guineense. Prepara-se a partir das folhas da hibisco-azedo, Hibiscus sabdariffa, uma planta arbustiva que cresce por quase toda a África Ocidental e que na Guiné-Bissau é conhecida por baguiche ou baguitchi (noutras paragens lusófonas chama-se-lhe vinagreira, e em inglês, roselle; no Senegal vizinho, é a planta do famoso bissap, a bebida de hibisco que ali se bebe gelada.

A preparação do baguitch é simples e ao mesmo tempo trabalhosa. As folhas frescas são primeiro cozidas em água, depois escorridas,. guardando-se muitas vezes essa água, rica em sabor, para usar como base de outros pratos, e batidas à mão com um garfo até se transformarem numa pasta homogénea, quase cremosa. 

É comum juntar-se-lhe um ou dois quiabos já cozidos, que ajudam a engrossar ainda mais a mistura e lhe dão aquela textura ligeiramente viscosa tão característica dos molhos da região. O resultado é um acompanhamento de sabor ácido e terroso, muito distinto do doce do mafé, que se serve tradicionalmente ao lado do arroz branco, do frango grelhado nas brasas e de um pouco de malagueta bem pilada.

(Revisão / frixação de texto: LG)

__________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 25 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28210: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (54): o caldo de chabéu é acompanhado com arroz, que é o rei à mesa; o funge é um prato angolano, lembra-nos o Cherno Baldé

Guiné 61/74 - P28213: Em bom português nos entendemos (33)_ a palavra "mafé", usada na culinária da Guiné-Bissau (crioulo, que vem do mandinga "mafen"): o velho pescador sai na sua canoa "à procura de mafé" (=acompanhamento da bianda, que pode ser peixe,marisco ou carne)

 


Excerto do "O Nosso Livro:  1ª Classe",  ediado pelo PAIGC (1970), "A Pesca",  pág. 34


1. O que dizer aqui, neste contexto, o termo "mafé" ? 

O velho Ali, de manhã cedinho, vai na sua canoa pescar nos "pequenos rios" que levam as suas águas ao rio Cacine (afluentes). 

"Ele sai à procura de mafé para os seus valentes filhos — os guerrilheiros." (Negritos nossos).

À primeira vista, para um leitor português, "mafé" faz pensar imediatamente no conhecido prato da África Ocidental (o mafé do Senegal ou do Mali, um guisado com molho de manteiga de  amendoim, "o caldo de mancarra", hoje também um dos pratos típicos da gastronomia da Guiné-Bissau). 

Mas não é esse o significado aqui. Neste contexto, "mafé" parece ser usado no sentido de "mantimentos para comer", "alimento", "comida", "conduto"... E mais concretamente peixe,  destinado neste caso a alimentar os guerrilheiros do PAIGC. 

O rio Cacine e os seus afluentes eram ricos em peixe, como eu próprio pude comprovar em março de 2008, quando voltei à Guiné, e mais concretamente ao Cantanhez.

Vejamos: o  título da lição é "A pesca"; toda ela descreve Ali a ir à pesca; o objetivo da pesca é abastecer os guerrilheiros. A frase "à procura de mafé" só pode, pois,  ser tomada como sinónimo de "à procura de alimento". 

Na segunda parte, descreve-se a sua bravura: ele não medo dos "jacarés" (leia-se: crocodilos, não há jacarés em África...) nem dos "colonialistas", com os seus canhões e aviões. Tem uma missão a cumprir, o que faz com orgulho.

O vocábulo "mafé" vem do crioulo, que por sua vez deriva de "mafen", uma palavra da língua mandinga.  Era usado na época com o significado genérico de "comida" ou "conduto", e não apenas de "caldo de mancarra".  

Os manuais escolares do PAIGC recorriam frequentemente a vocabulário crioulo ou africanizado, mesmo quando o resto do texto era em português.

Há, porém, uma hipótese ainda mais interessante. Na Guiné-Bissau, hoje, "mafé"  designa genericamente  "conduto" que acompanha o arroz, isto é, o caldo de peixe,  galinha, de carne de caça, de marisco, de legumes,etc.,  que acompanha o arroz  ("caldo de mancarra". "caldo de chabéu" e outros pratos)

Nesse caso, a frase ganha uma precisão etnográfica muito bonita:

"Ele sai à procura de mafé" = "ele sai à procura do peixe que servirá de acompanhamento ao arroz/bianda  dos guerrilheiros."

Isto faz todo o sentido, porque o arroz era (e continua a ser) a base da alimentação guineense, sendo o peixe (mas também o marisco, a carne de frango, ou de caça, etc.) o respetivo mafé, isto é, o acompanhamento sob a forma de caldo.

Aliás, era nesse sentido que eu entendia o termo "mafé", usado pelos meus soldados fulas da CCAÇ 12, em 1969/71, em Bambadinca: hoje "ca tem mafé na bianda" (hoje é arroz com arroz, sem conduto).

Portanto, podemos grafar o termo com este significado: " Ele sai à procura de mafé (peixe para alimentação, o acompanhamento do arroz) para os seus valentes filhos, os guerrilheiros."

Logo, há que acrescentar aos dicionários de português: Mafé, substantivo de dois géneros ou só masculino (?): 1. [Guiné-Bissau] [Culinária] Molho ou caldo, geralmente feito de carne, peixe ou marisco (ex.: o mafé serve de acompanhamento à bianda); 2. Acompanhamento do arroz ("bianda"), geralmente peixe ou carne; por extensão, alimento, conduto.


2. Significado de mafé como vem grafado nos dicionários de português:

2.1. Priberam - Dicionário da Língua Portuguesa:

Mafé (lê-se: (maˈfɛ)
substantivo de dois géneros
[Guiné-Bissau] [Culinária] Molho ou caldo, geralmente feito de carne, peixe ou marisco (ex.: o mafé serve de acompanhamento à bianda).

2.2. Infopédia - Dicionários Porto Editora

Mafé (lê-se: maˈfɛ)
nome masculino
Guiné.Bissau | Culinária | Prato tradicional à base de carne ou de peixe cozido num molho de manteiga (de amendoim, na época colonial).

Etimologia: do crioulo guineense mafé, do mandinga mafen.


Vd. tambéem >Wikipedia > Mafê



Capa de "O Nosso Livro: 1ª Classe... Exemplar capturado pelo nosso camarada Manuel Maia no Cantanhez, possivelmente em finais de 1972 ou princípios de 1973 (Op Grande Empresa).

 Vê-se que esse exemplar teve muito uso. A capa teve de ser reforçada com uns improvisados adesivos (aparentemente autocolantes, que acompanhavam embalagens de apoio humanitário, vindas do exterior). Sabe-se que foram feitos, na Suécia, 20 mil exemplares deste livro, em edição de 1970.

"Neste mesmo dia apanhei ainda duas cartas, uma escrita em árabe e outra em crioulo", diz.nos o nosso camarada Manuel Maia, ex-fur mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine (1972/74).

Sabemos que primeira edição de O Nosso Livro: 1.ª Classe foi publicada em 1970, em Uppsala, Suécia (e não em 1964,  como já temos lido). Há alguma confusão bibliográfica porque o projeto pedagógico do PAIGC começou em 1964, mas o manual com esta capa e este título pertence à edição de 1970.

A confusão resulta de haver dois livros diferentes:

(i) 1964 > O Nosso Primeiro Livro de Leitura: é o primeiro manual de alfabetização elaborado pelo PAIGC; preparado na Escola Piloto de Conacri, sob coordenação pedagógica de Lilica Boal; o manuscrito foi terminado em 1964 e inicialmente impresso com apoio internacional (há fontes que referem a RDA; outras indicam que a impressão passou depois para a Suécia).

(ii) 1970 > O Nosso Livro: 1.ª Classe: edição revista e ampliada; impressa em Uppsala (Suécia); é esta a edição cuja capa apresentamos em cima ("Nosso Livro: 1.ª Classe", menino junto ao quadro, "Amo a minha Terra", "3+2=5", assinatura "P.A.I.G.C.").

Quanto ao exemplar do Manuel Maia, tudo indica que é precisamente um desses exemplares da edição de 1970. O facto de ter sido capturado no Cantanhez em finais de 1972 ou princípios de 1973, na sequência da ocupação do Cantanhez,  encaixa perfeitamente: nessa altura o manual estava já amplamente distribuído nas escolas das  chamadas "zonas libertadas".

O número de 20 mil exemplares para a primeira edição sueca é referido em diversos estudos sobre o sistema educativo do PAIGC e é perfeitamente plausível, tendo em conta o financiamento sueco e a expansão da rede escolar nas zonas libertadas. A Suécia foi, de longe, o principal parceiro do PAIGC na produção de material escolar.

Há muita informação contraditória sobre estes manuais do PAIGC.

Um pequeno pormenor interessante da capa: a frase "Amo a minha Terra" sintetiza bem a filosofia do manual. O ensino da leitura estava intimamente ligado à formação cívica, política e ideológica da população e dos guerrilheiros. As primeiras frases não eram neutras, como nos antigos livros portugueses ("A mãe amassa a massa"), mas procuravam associar desde cedo a alfabetização ao sentimento nacional e à "luta de libertação", prosseguida pelo PAIGC.

Este exemplar é particularmente valioso porque mostra sinais de utilização real: a lombada reforçada com fitas adesivas; os remendos feitos com material de embalagem proveniente da ajuda internacional; o desgaste da capa.

Do ponto de vista da história da educação, estes sinais contam quase tanto como o próprio texto. Revelam que não era um exemplar de arquivo, novinho em folha, ainda a cheirar a tinta, mas um livro efetivamente usado por crianças numa escola do mato (ou pelo próprios guerrilheiros, que andavam a aprender português).

Foto (e legenda): © Manuel Maia (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27994: Em bom português nos entendemos (32): Ainda a papaia e o mamão: são da mesma espécie botànica, frutos da Carica papaya, ...mas de variedades diferentes

sábado, 25 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28212: Os nossos seres, saberes e lazeres (742): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se põe termo a uma inesquecível estadia na Albânia, visitei relíquias da ditadura, prodígios da nova arquitetura, lagos deslumbrantes, a permanência das florestas declivadas dos ermos das montanhas, impressionantes mesquitas e igrejas, num país que prima pela tolerância religiosa; falando da arquitetura, guardo a imagem das residências otomanas de Gjirokastër, as esculturas do realismo socialista. E pude igualmente aperceber-me que este país até há tão pouco tempo quase inacessível, está agora na mira dos potentados da promoção turística hoteleira, a Albânia corre o risco de se encher de Torremolinos e Las Palmas, sacrificando lagunas, praias selvagens, ambientes aprazíveis, florestas impressionantes. Quero voltar, os Alpes dos albaneses são uma tentação. Resta saber se ainda tenho pernas para tanta caminhada.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava-me uma maravilhosa igreja ortodoxa, como aqui se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade. Foi uma visita de dois dias, bem arrependido fiquei por aqui ter estacionado tão pouco tempo. Mais uma razão de fundo para aqui voltar e ver o que já foi visto com os mesmos olhos deslumbrados.

Segue-se a penúltima viagem, Sarandë, mas com os olhos postos no Parque Nacional de Butrint, no seu interior há ruínas fortificadas de tal importância que levaram a UNESCO a consagrá-la como Património da Humanidade. De facto, este local, de acordo com os vestígios e documentos conhecidos, foi ocupado desde 50.000 a.C., por aqui passaram gregos, romanos, bizantinos, venezianos e otomanos, encontramos indícios da sua presença nestas ruínas, caso do bem conservado anfiteatro grego, os banhos romanos, as igrejas bizantinas e as torres venezianas, isto para já não falar das poderosas muralhas helenísticas ou no teatro românico de Esculápio, santuário de peregrinação. Butrint teve um aqueduto feito pelos gregos, abandonado no princípio da Idade Média e reconstruído pelos bizantinos aí por 800 d.C. há também vestígios da adição otomana, uma fortaleza junto do antigo canal, obra do início do século XIX. Ou seja, escolheu-se Sarandë pelos magníficos panoramas que oferece na sua citação no mar Jónico, ali perto há uma praia famosa, Ksamil, situada entre Sarandë e Butrint, mas eram as ruínas de Butrint que me tinham trazido ao extremo sul da Albânia.

Entrada da área de devoções a Esculápio, o famosíssimo médico da Antiguidade
Júlio César mandou construir uma colónia em Butrint no século I a.C., introduziu-se mudanças radicais nas infraestruturas. Construiu-se um fórum onde no passado os gregos tinham a sua praça de comércio, a norte do fórum foram construídos três santuários. As ruínas do Fórum foram descobertas em 2005, o destaque vaia para o pavimento admirável que mede 20x52 metros e é datado de 2000 a.C.
O Batistério de Butrint é um dos mais importantes monumentos bizantinos do Mediterrâneo central. A sua complexa estrutura coloca-o ao lado dos grandes batistérios independentes da Itália da Antiguidade Tardia e da Idade Média, e o seu extraordinário pavimento em mosaico é o mais bem preservado e, de longe, o mais elaborado de todos eles. O desenho do pavimento é constituído por sete faixas que circundam a pia batismal central, num total de oito, o número cristão que representa a salvação e a eternidade. A salvação é um dos principais temas do mosaico, expressa como a água do batismo e a água da vida. Os mosaicos bizantinos estão cobertos por medida de segurança, não podem ser sujeitos a agressões ambientais.
Ruínas da Igreja cristã
Duas imagens da zona fortificada, as muralhas são impressionantes, aquele touro esculpido na parte superior da entrada não escapou à câmara de todos os turistas
Pormenor da Fonte de Junia Rufina, uma fonte romana do século I/II d.C. dedicada às ninfas, virá mais tarde a ser capela
Um aspeto de Sarandë e a sua marginal. É desmesurado o efeito da carga urbanística na orla marítima, são muralhas de edifícios uns atrás dos outros, ao arrepio das medidas de sustentabilidade. Aliás, os noticiários falam de grandes manifestações de protesto a construções que irão deformar a paisagem, a fauna e as áreas protegidas. Quando os grandes investidores descobriram esta nova pérola do Mediterrâneo, logo se fascinaram pela possibilidade de açabarcarem áreas protegidas, extremamente belas e selvagens, finalmente as populações estão a reagir. Só que a explosão turística é um dos motores do desenvolvimento albanês, uma nação que pretende a todo o custo entrar na União Europeia. Não será por acaso que todos os edifícios ministeriais ostentam a bandeira do país e a da União Europeia.
Não acreditei no que estava a ver, um hotel, restaurante e bar implantado sobre o rochedo, e este cheio de vida, erguendo vegetação para os céus, isto em Sarandë.
Numa das ruas da cidade encontrei o museu arqueológico, pequeno, mas com a singularidade de nos mostrar partes significativas de um mosaico bizantino.
Turista é turista, a marginal de Sarandë está cheia de convites como este, convidando a passeios a grutas, praias secretas, baías recônditas, deslumbramentos da água turquesa. Lá fui ao passeio, de facto tudo é fascinante, mas para meu gosto nada supera a vegetação que cresce e que cresce e cobre aquelas montanhas de pedra batidas pela água do mar.
Encantado por aquele rochedo quase escultórico, despeço-me de Sarandë e viajo para Tirana. Agora só penso em voltar, haja saúde e viajarei para o norte, para ver os altos albaneses, uma decoração selvagem preservada por torrentes tumultuosas de florestas espessas. Espero que venha a acontecer. Até à próxima, Albânia.
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Nota do editor

Último post da série de 18 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28193: Os nossos seres, saberes e lazeres (741): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7 (Mário Beja Santos)