quinta-feira, 26 de maio de 2022

Guiné 61/74 - P23295: "A Minha Passagem pela Guiné-Bissau em Tempo de Guerra" (António Sebastião Figuinha, ex-Fur Mil Enfermeiro) Parte VII

1. Continuação da publicação do texto de memórias "A Minha Passagem pela Guiné-Bissau em Tempo de Guerra", de António Figuinha, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCS/BCAÇ 2884 (BissauBuba e Pelundo, 1969/71)


A MINHA PASSAGEM PELA GUINÉ-BISSAU EM TEMPO DE GUERRA

António Sebastião Figuinha
Ex-Furriel Miliciano Enfermeiro
CCS/BCAÇ 2884
1969/1970/1971
Parte VII

O primeiro caso prende-se com mal-entendido entre mim e um dos meus Maqueiros, que encontrando-se adoentado, dei-lhe dispensa de trabalho durante uns dias. Porém, não cumpriria as regras determinadas para ter direito à despensa de trabalho, que era ficar em repouso e não andar fora no espaço do Quartel apanhar sol. Como o encontrei ao Sol e a dar instruções a outros Soldados que naquela altura cavavam uma vala e torno do Quartel e na parte interna deste, como de um capataz se tratasse disse-lhe que lhe iria retirar a dispensa já que, se estava bom para se armar em capataz, também já se encontrava com saúde para trabalhar no posto Médico. Amuou e, baixando a cabeça, retirou-se, acompanhando-me até ao nosso local de trabalho.

Chegou a noite e como me era habitual sempre que não me escapava para o bailarico, ia para o Posto Médico escrever para os meus familiares e namorada que tinha na altura. Devo já acrescentar que este Maqueiro dormia permanentemente neste local, devidamente autorizado. A certa altura da noite e estando eu tranquilamente sentado à secretária escrevendo, reparo que ele se dirige para a porta de entrada e saída e a fecha. Achei estranho e, de repente, apanha a G3 que tinha distribuída, dirigindo-se para mim e, colocando-se em frente da secretária onde me encontrava sentado a escrever, qual não é o meu espanto, aponta-me aquela arma à minha cabeça, ao mesmo tempo dizendo-me que eu não gostava dele, que lhe queria estragar a vida e mais outras baboseiras. Como tremia demasiado com a arma apontada para mim apontada, eu encontrando-me com as minhas pernas impedidas de me poder levantar rapidamente, só via como hipótese de defesa usando a psicologia das palavras e, em último caso, usando a rapidez de um dos meus braços desviando e ao mesmo tempo segurando, o cano da arma. Como poucos anos atrás tive aulas de judo, todas estas emoções passaram pela minha cabeça rapidamente. Felizmente que as minhas palavras surtiram efeito naquela cabeça tonta que, baixando a arma retirou-se para a sua cama chorando e, ao mesmo tempo dizendo, que tinha desgraçado a sua vida. Levantei-me da secretária com o meu corpo todo elétrico, não lhe dirigindo qualquer palavra. Abri a porta e saí para o exterior, respirando fundo e começando a pensar na atitude a tomar no dia seguinte com aquele esmiolado soldado.

Pouco ou quase nada dormi naquela noite. O caso não era para menos dada a sua gravidade. Ou participava o acontecimento aos órgãos superiores e ele iria a tribunal de guerra ou lhe teria que dar uma lição verbal reunindo todos aqueles que trabalhavam sobre as minhas ordens, contando o sucedido para ele se sentir envergonhado. Assim, ainda muito cansado física e moralmente, logo pela manhã e antes de começarmos o atendimento, tanto a consultas como a outros tratamentos de saúde, reuni todo o grupo e fechei a porta da entrada do Posto Médico.

O Anacleto, assim se chamava e penso que ainda se chama porque creio ainda se encontra vivo, mantinha-se enroscado na sua cama chorando. O meu pessoal olhava para todos os lados não percebendo do motivo da reunião e da porta fechada ao exterior. Coloquei-me em frente da secretária e, bem alto, perguntei a todos se algum deles tinhas razões de queixa sobre a minha forma de me relacionar com eles no trabalho e fora deste. Em coro repetiram que não e, o porquê da minha pergunta? Então, serenamente, lhes contei todo o sucedido da noite anterior naquele espaço. Revoltados, atiraram-se ao Anacleto chamando-lhe tudo e mais alguma coisa. Este, continuando num pranto, pedia perdão sobre o seu ato. Todos foram dizendo que ele não era merecedor do meu perdão. Desmobilizei-os dizendo-lhes que ira pensar na minha atitude a tomar para com o Anacleto. Resolvi não o enviar para a prisão perdoando-lhe. Até há três anos, data do último encontro de todo o nosso Batalhão, a última vez que o vi, me procura dar os maiores elogios e palavras carinhosas. Não estou arrependido de lhe ter perdoado. Fiquei triste sim, nos últimos dias de permanência no Pelundo quando li em ordem de serviço um louvor dado pelo Comandante ao Anacleto. Apenas e só isto me deixou por momentos triste.

Outro caso um pouco semelhante aconteceu com o Furriel Miliciano e Vagomestre Martins.

O Martins, vinte anos após o nosso regresso da Guiné, aquando o nosso primeiro encontro vinte anos depois, ficou sendo um dos meus melhores amigos, enaltecendo para todos os outros as minhas qualidades como homem e como Enfermeiro que tinha sido para todos no Batalhão e não só.

Como no começo desta descrição narrativa da minha passagem pela Guiné em tempos de guerra, fora o pessoal de saúde que me acompanhava e que comecei a conhecê-los no navio Niassa, o Martins foi dos Furriéis Milicianos que primeiramente comecei a conhecer porque ficamos ambos a dormir no Quartel Seiscentos em Bissau juntamente com mais outros dois (um Segundo Sargento e um Furriel Miliciano que se identificou como meu colega de profissão) no mesmo quarto.

Cedo verifiquei quão jogador e ambicioso era este Vagomestre. Com frequência se gabava dos negócios que fazia e que lhe deixavam margens de lucros para ele, principalmente, na aquisição de frutas para as nossas refeições. Já no Pelundo, passados vários meses da nossa estadia nesta povoação, os Soldados traziam-me queixas sobre a qualidade e quantidade da alimentação que o Martins lhes fornecia. O meu Maqueiro Anacleto diariamente me fazia queixas sobre a alimentação no Quartel. Também já tinham passados uns meses depois do caso que tive com ele, atrás descrito, tendo-se tornado um colaborador nato disposto a fazer tudo o que lhe pedisse.

Por esta altura, o Vagomestre Martins adoeceu com paludismo. Muito febril e queixoso, entrou tremendo como varas verdes porta dentro do Posto Médico dizendo: - Figuinha tenho medo de vir a morrer. Ó minha mãezinha que já não te volto a ver! Pedi para lhe verificarem a temperatura ao mesmo tempo que lhe ia dizendo que de tão patife que ele era para a barriga dos Soldados, não seria desta que morreria. Perguntei aos outros Maqueiros e a um outro Soldado que lá se encontrava se era verdade o que à boca cheia se dizia no Quartel que o Vagomestre estava a roubar à barriga dos Soldados. Em coro foram dizendo que sim, embora o Martins fosse dizendo que era mentira, gemendo e tremendo devido ao seu estado febril.

Mandei sair o estranho ao Serviço de Saúde e mandei preparar uma injeção para lhe ser aplicada. Ao mesmo tempo disse ao Anacleto que fizesse o tratamento ao Furriel de acordo com a maneira como ele os alimentava. O Martins rogava para ser eu a dar-lhe a injeção ao que eu me recusei. Dei então ordem para lhe espetarem a agulha numa das nádegas e que aguentassem a introdução do líquido para o curar que se encontrava já na seringa para injetar na sua nádega, até quando eu o ordenasse. Entretanto fui dizendo ao Martins que estava merecendo aquela forma de ser tratado para que nunca mais voltasse a alimentar mal os nossos Soldados. O Martins sofrendo esta humilhação, começou logo a ameaçar-me de morte, caso ele não viesse a morrer primeiro do paludismo que naquele momento sofria. Não lhe dei resposta e, passados mais de dez minutos de ter a agulha espetada na nádega, ordenei que acabassem com o tratamento e passei-lhe dispensa de trabalho durante seis dias. Praguejando lá foi lentamente para a cama que se situava no mesmo abrigo onde eu também dormia.

Sempre que eu entrava no abrigo para descansar ele me fazia ameaças mas sem dizer das razões perante os outros Furriéis que lá dormiam. Gozavam era com ele por estar sempre com queixinhas.
Logo que lhe passou o estado febril, ia eu depois do almoço tentar descansar um pouco no nosso abrigo quando me aproximei da entrada deste que, tal como os outros abrigos não possuía porta de entrada, o Martins barrou-me a entrada, ao mesmo tempo apontando o cano da G3 ao meu peito. Enfrentei-o olhos nos olhos, ao mesmo tempo lhe ia dizendo que de tão cobarde que ele era, não teria coragem para me dar um tiro. Desviou-se e eu entrei para descansar um pouco na minha cama.

O Martins tal com a maioria dos Furriéis Milicianos do Batalhão, raramente saíam do arame farpado a não ser em serviço. À noite, então nem pensar. Preferiam ficar a jogar às cartas e a beber cerveja. Tudo faziam para não se misturar com a população. Dado eu ter um comportamento diferente, à surdina chamavam-me – Preto Branco! Estes nunca viram com bons olhos a minha maneira de proceder, mas que, talvez sem o pensarem, os ajudei a sobreviver durante aquele tempo. Muitos anos passados alguém bem alto disse a alguns deles que, de certo modo, saíram vivos do Pelundo devido à minha atuação junto da população.

Em 209 ou 2010, num dos nossos convívios, neste caso na Cidade da Guarda, o Martins convidou-me para lhe fazer companhia mais à esposa, ao jantar num dos restaurantes da Cidade que ele bem conhecia. Enquanto esperávamos pela refeição, resolveu contar à esposa, em modo de queixa, o que eu lhe havia feito na Guiné. Ela, incrédula, olhou para mim, perguntando-me se tinha sido verdade. Respondi-lhe que sim, mas que o marido lhe contasse das razões porque assim procedi. Voltou a negar aquelas razões, mas a esposa logo se calou acabando assim o tema. Nunca mais se falou do assunto, transmitindo-me sim uma grande amizade. Dei-lhe uma grande lição. Acrescento que por natureza, e porque um irmão meu em 1960 como Soldado veio para esta terra, me havia contado das privações alimentares e não só, que por cá tiveram. Não consegui durante toda a minha comissão aceitar e calar qualquer mau trato injustificado que este ou aquele Soldado sofresse.

Acontecia também que Soldados, com maus hábitos de jogo da batota, escreviam para a família dando notícias falsas com o objetivo de, com a lamúria, receberem pelo correio compensações para colmatarem o perdido no jogo. Tivemos pelo menos um caso destes na CCS. Tratou-se de um Soldado Condutor da região do Porto, já casado e muito sabido. Este era também vocalista do conjunto musical existente no Batalhão.

Pelo que me foi dado saber, por várias vezes perdia no jogo grande parte do vencimento, mal o acabava de receber. Escrevia então para a mãe e para a esposa pedindo-lhes dinheiro. Num dos casos, esqueceu-se de fechar o aerograma ficando este aberto em cima da sua cama. Um colega seu deitou-lhe os olhos e ficou perplexo com o conteúdo do texto. Nele relatava que se alimentava muito mal porque, além da comida ser escassa, era de má qualidade e, como tal, tinha que gastar o dinheiro do vencimento no bar para se alimentar melhor. Que quase todos os dias o Quartel era atacado, e que, mesmo naquele momento, teve que se ir refugiar numa vala com as balas a passarem-lhe por cima da cabeça! Esta descoberta deu azo a um gozo enorme que os colegas lhe fizeram, mas que pouco se importou. Era um Soldado com muita lábia!

Tive também um caso com ele relacionado com a saúde que por ser muito ridículo não o relatarei.

Enquanto estive fisicamente no Pelundo, só por uma vez e numa noite que estive de serviço ao Quartel, ouve uma troca de tiros durante cerca de pouco mais de trinta minutos. Seriam cerca das dez horas da noite quando eu, encontrando-me no Posto Médico, comecei a ouvir troca de tiros. Como estava de Sargento de dia ao Quartel, procurei logo saber o que se estava a passar.

Apenas tinham passado poucos minutos, quando vejo chegar pela rua e estrada principal os militares que nessa noite tinham ido para o baile. De entre eles, o Médico que dado ser de corpo gorducho, chegou deitando os bofes pela boca, juntamente com dois dos Maqueiros da minha equipa. Eu só não me encontrei nesta situação porque como já descrevi, encontrava-me de serviço e adoentado.

No Quartel apagaram-se as luzes interiores restando os holofotes dirigidos para fora do arame farpado. Passados poucos minutos tudo acalmou. Saiu logo um pelotão da Companhia Operacional para se inteirar dos acontecimentos mas, passadas cerca de duas horas, chegaram sem contactos com o inimigo. Soube no dia seguinte, que perto dali tinha passado gente graúda do PAIGC, então enviaram uns poucos para junto da Aldeia dar uns tiros para ocupar a tropa no Quartel, já que era hábito, a Companhia Operacional ir diariamente patrulhar a zona perto da povoação. Nada encontraram de anormal.

Na estrada que ligava Teixeira Pinto (hoje Canchungo) passando pelo Pelundo e Có, até ao cais de João Landim, no Rio Mansoa, muitas emboscadas foram feitas pelo inimigo. Recordo que os primeiros feridos de guerra que vi e tratei, foram paraquedistas emboscados na chamada “curva do dimple”, como era por mim conhecida nesta estrada. Outras companhias aí sofreram emboscadas. Devo referir aqui que do meu Batalhão e durante toda a comissão, e desde que eu estive por aquelas bandas, nenhuma escolta nossa foi emboscada. Eu, por diversas vezes, fiz aquele percurso sem que tivesse contactos com o inimigo. Por norma não levava qualquer arma comigo.

Todo este percurso até ao Rio Mansoa era de terra batida na altura que eu fui para o Pelundo. O nosso pelotão de Sapadores, diariamente inspecionava aquela via. Porém, pouco tempo depois, toda ela foi alcatroada e as suas margens com mato cortado até uma distância que dificultasse ao inimigo emboscadas próximas do alcatrão.

Em Bissau e na Direção de Saúde, interrogavam-se admirados por as nossas escoltas não sofrerem emboscadas. Eu meio a sério ou brincando um pouco, dizia-lhes que por certo se devia ao modo como viam os seus familiares serem bem tratados por mim. Certo é que o meu colega de profissão civil e chefe da Granja Agrícola de Teixeira Pinto, familiar ainda de Amílcar Cabral, procurava sempre ir tratar de assuntos a Bissau quando eu também lhe fazia chegar informação do dia que eu pensava ir. Muitas vezes lhe perguntei da razão da sua escolha sendo ele natural da Guiné, trabalhador e chefe duma Granja local e, ainda por demais, familiar do Chefe da Guerrilha. Sempre teve resposta pronta. As balas não escolhem quando são disparadas e sei que a escolta onde tu vais não será atacada. Felizmente assim aconteceu durante todas as viagens que tive que fazer durante a comissão.

(Continua)

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Nota do editor

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Guiné 61/74 - P23294: Parabéns a você (2068): Jorge Narciso, ex-1.º Cabo Especialista MMA da Força Aérea Portuguesa (BA 12, 1969/70)

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Nota do editor

Último poste da série de 18 DE MAIO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23272: Parabéns a você (2067): Joaquim Fernandes Alves, ex-Fur Mil Art da CART 1659 (Gadamael e Ganturé, 1967/68)

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Guiné 61/74 - P23293: Convívios (928): Almoço/Convívio do BCAÇ 3883, dia 4 de Junho de 2022, em Viseu


ALMOÇO/CONVÍVIO DO PESSOAL DO BCAÇ 3883

DIA 4 DE JUNHO DE 2022 EM VISEU

Boa noite.
Divulgação do Almoço/Convívio a realizar dia 04 de Junho de 2022 em Viseu.

Batalhão Caçadores 3883 - Guiné, 72/74

Subscrevo-me com toda a consideração.
Manuela Rodrigues
(filha do camarada Rodrigues)

Cumprimentos,
Rodrigues

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Nota do editor

Último poste da série de 19 DE MAIO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23276: Convívios (927): A Magnífica Tabanca da Linha reabre hoje, em Algés, no Restaurante Caravela de Ouro, ao fim de mais de dois anos de pandemia... Uma luzidia representação do Porto, de "O Bando" (incluindo 3 escritores), vem animar este 48º convívio, já histórico...

Guiné 61/74 - P23292: Blogpoesia (766): Adeus Guiné, vou-te deixar, minha missão está cumprida, por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845

1. Mensagem do nosso camarada Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845 (Teixeira Pinto, 1968/70), com data de 23 de Maio de 2022, com mais um dos seus trabalhos em verso, desta vez dedicado ao sempre sonhado regresso, após sentirmos que a nossa Missão estava Cumprida:

Bom dia Carlos Vinhal, e também, bom fim de semana.
Missão Cumprida é o trabalho que envio e, para saberem que o Albino Silva anda aqui pela Tabanca pensando em todos os Tertulianos e, não esquecendo a Guiné, de vez em quando lá vai escrevendo coisas que a memória guarda.

Para todos um grande abraço, em especial aos chefes de tabanca
Albino Silva
Ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845



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Notas do editor

Último poste da série de 15 DE FEVEREIRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23000: Blogpoesia (765): "Para ti, Ó Mulher Grande", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845

Guiné 61/74 - P23291: Efemérides (368): 25 de maio de 1972, há 50 anos: o duelo fatal na Ponta Varela, Xime, em que o apontador da HK 21, da CCAÇ 12, Braima Sané, matou em combate o Mário Mendes, comandante de bigrupo do PAIGC, pelo que foi louvado pelo CAOP2, ele, a sua equipa e o seu comandante de secção, o fur mil José Domingues, natural de Águeda (António Duarte / Luis Graça)


Excerto da História da Unidade: BART 3873 (Bambadinca, 1971/74)- Louvores: Cap III, pág. 4, jullho de 1972


1.  Mensagem, por email, de Antonio Duarte,

[António Duarte, foto à direita:

 (i) ex-fur mil da CART 3493, a companhia do BART 3873, que esteve em Mansambo, Fá Mandinga, Cobumba e Bissau, 1972-1974; 

(ii) foi transferido para a CCAC 12 (em novembro de 1972, e onde esteve em rendição individual até março de 1974; 

(iii) depois da peluda, formou-se em conomista, e trabalhou na Banca, de que está  reformado:

(iv) formador na área bancária, com larga experiência  em Angola; 

(v) tem 57 referências no nosso blogue;

(vi) é um dos históricos da Tabanca Grande, para a qual entrou em 18/2/2006, por mão do Sousa de Castro, da CART 3494] 


Data - quarta, 19/01/2022, 20:04
Assunto - O 'matador' de Mário Mendes

Boa noite, camaradas.

Propositadamente não falei em nomes, porque o blogue é público, lido na Guiné e poderia haver constrangimentos, embora eu acredite que provavelmente os envolvidos já faleceram.

O apontador da HK 21 era o Braima Sané, louvado pelo CAOP2.

Foram também louvados pelo CAOP2, para além do referido Braima, o Ansumane Baldé e o Indrissa Baldé, todos da equipa da HK21.

O furriel era o José Domingues, também ele louvado.

Estou com estes detalhes, porque consultei o livro do BART 3873, onde na página 4, cap III, figuram os louvores de julho de 72. (O Luís possui a publicação digitalizada que há longo tempo disponibilizei e que com a paciência que ele tem, publicou no nosso blogue).

O fur Domingues foi um dos que rendeu os graduados fundadores da CCAÇ 12. Tive há muitos anos a informação, sem confirmação, de que teria falecido bastante novo.

E é tudo. Deixo ao critério do Luís se o detalhe dos nomes ligados a este acontecimento deverão ser publicados no blogue.

Um abraço a todos
António Duarte

2. Comentário do editor LG:

António, meu "neto" da CCAÇ 12, querido amigo e camarada: o prometido é devido.  Faz hoje 50 anos que ocorreu esse duelo fatal, para o Mário Mendes (1943-1972), na Ponta Varela, subsector do Xime.  Ao fim de 50 anos, não há mais segredos a guardar, nomeadamente nos "arquivos públicos". Daí ter republicado, agora na íntegra, o teu email de há 4 meses atrás (*).

Volto a agradecer-te, António, o teu interesse pela história da "nossa" CCAÇ 12 (1969/74), e sobretudo s tuas preocupações com o direito à privacidade (e ao sigilo) dos nossos camaradas guineenses, incluindo o seu sentido de "honra militar" e de lealdade.

Obrigado, António, pelas informações adicionais que me deste ao telefone... Confirmo as informações, que me deste na altura sob reserva, e nomeadamente a identficação completa dos nossos camaradas que foram louvados pelo CAOP2 (Bafatá), na sequência desta operação sobre  a qual só tenhos informação oral (**). (A morte do Mário Mendes só é referida indiretamente na história do BART 3873, cap. II, 2.º fascículo, maio de 1972, pág. 16 ("de harmonia com a correspondência retirada a Mário Mendes (aniquilado pela CCAÇ 12), o IN planeava nova ação na estrada Xime-Bambadinca...").

Infelizmente, só há uma história da CCAÇ 12, e fui eu que a fiz: vai desde a formação e mobilização da CCAÇ 2590, futura CCAÇ 12, no 1.º trimestre de 1960, até fevereiro de 1971... Como sabes sabes, a CCAÇ 12 foi extinta em agosto de 1974, e nós costumamos distinguir  3 "gerações" de graduados metropolitanos, de rendição indiviual na composição orgânica desta unidade: por exemplo,  eu, da 1.ª geração (1969/71), o Victor Alves, da 2.ª  (1971/72) e tua da 3.ª (1973/74)...

Volto a repetir o que atrás ficou dito;

(...) "Guerra era guerra", diziam-nos os antigos combatentes do PAIGC quando nos encontrámos em Imberém, Gandembel, Guileje e Bissau, por ocasião do Simpósio Internacional de Guileje (1-7 de março de 2008).

É verdade, "guerra é guerra", morremos e matámos, matámo-nos uns aos outros, naquela guerra. O Mário Mendes "matou" o nosso sold cond auto Manuel da Costa Soares (em 13/1/1971, em Nhabijões), que deixou um filho por conhecer, o Rogério Soares... O Mário Mendes foi morto, um ano e quatro meses depois pelo Braima Sané, e também era casado e tinha filhos...

Os filhos têm o direito de saber como é que os pais morreram na guerra. Não para se vingarem, o que hoje já não faz sentido, mas completarem o "luto", fazerem o seu "choro"...


A paz e a reconciliação entre os povos também passa pelo doloroso processo de falarmos dos nossos mortos, e dos mortos dos nossos inimigos de ontem (, de há 50/60 anos). (...)


Insisto;

Já não há, ao fim de meio século (***), razões para não divulgarmos o nome do "matador" do Mário Mendes. O Braima Sané, infelizmente já não deve estar vivo, se é que não foi  fuzilado pelo PAIGC a seguir à independência, como outros soldados e sobretudo graduados da CCAÇ 12 que transitaram para a CCAÇ 21 (, comandada pelo tenente 'comando' graduado Abdulai Jamanca)... 

Se o Braima fosse vivo, teria hoje 80 anos... (Eu já não o conheci, era da "2.ª geração")... O mesmo se passa com restantes elementos da equipa da HK 21 que, segundo ouvi dizer, pertenciam ao 4.º Gr Comb., o Ansumane Baldé e o Indrissa Baldé.  Nessa altura, os alferes eram O Jaime (hoje e gestor, casado com a dra-Odete Cardoso),  o Sobral (hoje médico oftalmologista em Coimbra), bem como o Ferreira e o Florindo, todos de rendiçao individual. 

Quanto ao fur mil José Domingues, natural de Macinhata do Vouga, Águeda, também já terá morrido, infelizmente, segundo informação do seu conterrâneo, Paulo Santiado, que o conheceu em Bambadinca e nunca mais voltou a encontrá-lo (Vd. comentário ao poste P22924).

Façamos um minuto de silêncio à memória de todos estes homens que já nos deixaram, uns de morte natural, outros de morte violenta, e que um dia se cruzaram nas nossas vidas... Também no dia 19 de janeiro de 2022, quando fazia anos o meu filho João, me custou a adormecer com todos estes "filmes" a "rebobinarem" na minha cabeça: também eu poderia ter ficado em Nhabijões, em 13/1/1973, numa das duas minas A/C, mortíferas, que o Mário Mendes nos deixou, à porta do reordenamento... Se assim fosse, o meu filho também não teria nascido... LG
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Notas do editor:

(*) Vd.poste de 20 de janeiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22924: (Ex)citações (400): Não, não foi o Cherno Baldé... Divulgação do nome do "matador" do Mário Mendes no dia 25 de maio de 2022, quando passarem os 50 anos do duelo fatal, na Ponta Varela... (António Duarte / Luís Graça)

)**) Vd. poste de 19 de janeiro de 2022 Guiné 61/74 - P22920: (Ex)citações (399): Ética na guerra? O caso do "matador" do comandante de bigrupo Mário Mendes (1943-1972): "Não se mata um homem de costas", disse ao António Duarte, o apontador da HK 21, do 4º Gr Comb da CCAÇ 12... (Seria o Cherno Baldé?)

(***) Último poste da série > 6 de maio de  2022 > Guiné 61/74 - P23237: Efemérides (367): Faz hoje precisamente 55 anos que um estrangeiro, o ten-cor H. Meyer, adjunto do Adido Militar Americano em Lisboa, participava, com as NT (CART 1525, Bissorã, 1966/67) na Op Beluário... Não sabemos em que circunstâncias nem a que título (Virgínio Briote)

Guiné 61/74 - P23290: Historiografia da presença portuguesa em África (318): “Por Terras da Guiné, Notas de um Antigo Missionário, Padre João Esteves Ribeiro” publicado em "Portugal Missionário, reunião havida no Colégio das Missões de Cernache do Bonjardim em 1928"; edição da Tipografia das Missões em Couto de Cucujães em 1929 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Junho de 2021:

Queridos amigos,
A remexer papéis que têm a ver com o Conselho Ultramarino, falou-se em missionação na Guiné, assim cheguei a um inventário intitulado Portugal Missionário, uma reunião para a qual convergiram missionários de todo o Império e deu origem a depoimentos do maior interesse, e foi aí que recolhi o testemunho do Padre José Eduardo Ribeiro que nos dá um quadro da vida da Guiné na época nas suas diferentes dimensões. Ainda se vivem grandes sublevações, mas já na ordem decrescente, chegou a pacificação e institui-se a administração. O padre Ribeiro fez amizade com o tenente Graça Falcão que escapou milagrosamente a ter sido massacrado nas sublevações do Oio de 1897, ele aqui descreve ao pormenor a recuperação de Graça Falcão em condições quase milagrosas, levado meio morto para Farim onde recuperou, Graça Falcão faz parte das figuras muito controversas da Guiné, militares de bravura indiscutível que se meteram em negócios que deram para o torto.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por um missionário em 1928

Mário Beja Santos

Bisbilhotava numa publicação os diferentes colégios missionários que existiram em Cernache do Bonjardim, Bombarral e Tomar (hoje em Couto de Cucujães), dei pela existência de um volume intitulado Portugal Missionário, reunião havida no Colégio das Missões de Cernache do Bonjardim em 1928 e que deu edição da Tipografia das Missões em Couto de Cucujães em 1929. Foi aí que encontrei este testemunho intitulado “Por Terras da Guiné, Notas de um Antigo Missionário, Padre João Esteves Ribeiro”. Há fundadas razões para tomar nota, mesmo que abreviadamente, do que ele escreve. Sobre o solo guineense observa: “A pequena, mais riquíssima, colónia da Guiné Portuguesa, parece formada por terrenos de aluvião. Terreno silicoargiloso, havendo húmus em alguns pontos. É desprovido de calcários. Não se conhecem minérios na Guiné" (falso).

Quanto à fauna, diz que é variadíssima, refere animais ferozes como a onça, a pantera (?), o leopardo (?), a hiena, o búfalo e o elefante (diz que em vista de desaparecimento). Refere a gazela, a fritambá (antílope de porte pequeno), as cobras, os diferentes tipos de macacos. Há cavalos e burros mais pequenos dos que na Europa, o boi, a cabra, a ovelha (?) e o porco. Nos rios abundam os hipopótamos e os jacarés. É enorme a versatilidade de aves. Sobre os insetos, diz que os maiores inimigos do homem são os mosquitos e as formigas. Passando para a flora, alude a árvores de grande porte e reconhecida utilidade (cibe ou palmeira de leque, pau-ferro, pau-sangue, bissilão – uma espécie de mogno –, o incenso, a cabaceira, o poilão e o pau-carvão. Enumera árvores de fruta: laranjeira, mangueira, goiabeira, limoeiro, tangerineira, coleira…), diz haver pequenas quantidades de café e cacau, quanto às grandes culturas só o amendoim e o arroz, e observa: “A falta de capitais tem impedido o desenvolvimento da agricultura”.

Vê-se que dedicou observação à árvore étnica, fala em Baiotes, Banhuns, Felupes, Fulas, Sossos, Mandingas e Cassangas, Beafadas, Nalus, Bijagós, Balantas, Cobianas, Brames e Mancanhas, Manjacos e Papéis. Alarga-se nas referências aos Grumetes, dizendo que era nome dado aos descendentes do cruzamento dos soldados cabo-verdianos com os Papéis de Bissau e Cacheu e que na atualidade em que escreve este nome era dado a todos os indígenas que falam crioulo e andam vestidos com calças, camisa e casaca, habitando nas povoações europeias ou arredores.

No tocante à região, nada adianta que não se saiba, mas traz informações a ponderar. Os Grumetes de Cacheu são católicos. Os Grumetes de Bissau batizam os filhos e exigem enterro religioso. Os Grumetes são geralmente uns bêbados inveterados, gastam tudo quanto ganham na bebida e tabaco. E daqui passa para uma leitura das igrejas da Guiné: há três com um só padre residindo em Bissau. “O benemérito missionário Padre José Pinheiro, pároco de Bissau, está na Guiné há perto de 20 anos, deve retirar-se brevemente ficando a Guiné sem um único padre. Este estado vergonhoso constitui também um problema político porque os muçulmanos pregarão livremente a sua Guerra Santa, incutindo no espírito de todos os indígenas sentimentos de ódio e rebelião para com as autoridades portuguesas”. E depois dá-nos uma nota sobre a administração civil dizendo que a Guiné que ainda há poucos anos apenas era nossa em Bolama, e dentro das vilas de Bissau e Cacheu, e povoações de Farim, Geba e Buba, está hoje completamente ocupada e pacificada. Refere os dois concelhos e oito circunscrições em que se dividia a administração civil, observa que há em Bolama bons edifícios particulares, sendo o mais aparatoso o do Banco Nacional Ultramarino e diz que Bissau é a principal cidade da Guiné. Dá-nos ainda notas sobre o correio, o comércio, a indústria e a força militar.

O autor agradece a ajuda de informações que lhe deu o seu amigo Jaime Augusto da Graça Falcão, que fora militar brioso, que se envolveu em diferentes e polémicos processos que lhe custaram a carreira militar e contendas com a autoridade. E entende, por gratidão com o amigo Graça Falcão fazer uma memória de uma situação extrema que este militar vivera. Tudo acontecera em 1897, houvera revolta dos povos do Oio, houve necessidade de organizar uma exposição contra os sublevados e foi nomeado comandante dessa força Graça Falcão. Vale a pena extrair alguns parágrafos do testemunho deste padre missionário:
“Além da força de tropas regulares, foram incorporadas na expedição bastantes auxiliares indígenas, de raça diferente, e que ofereciam alguma esperança de fidelidade. Foi uma ilusão que nos custou bem cara. Estes auxiliares, ao primeiro embate com o inimigo, não somente recuaram cobardemente, como fugiram e até se bandearam com os revoltosos”. Seguiu-se o pânico, os que ficaram defenderam-se como leões, resistiram até serem trucidados. A notícia do desastre chegou a Farim, logo seguiu rio acima uma canhoneira, não havia notícias do comandante, passaram-se os dias, perdiam-se as esperanças de que ele tivesse sobrevivido ao combate. Quatro dias depois, porém, chega à feitoria da casa alemã Otto Schacht um mensageiro que em grande segredo mostra ao gerente da casa um papel: “Estou vivo, mandem bote Jafaná. Falcão”. O padre Ribeiro foi chamado, o gerente da feitoria e o missionário partem à procura do amigo. Entram numa região rebelada, meteram-se num pequeno bote tripulado por quatro remadores levando algumas provisões. O rio Farim que tinham de subir até Jafaná era a linha divisória do campo revoltado. Doze horas demorou a viagem até chegar a terra firme e embrenharam-se no mato. Caminharam e assim nasceu o sol. Pelas nove da manhã deram com Graça Falcão, de aspeto cadavérico, foi reanimado com marmelada e um cálice de vinho do Porto. Assim arrastaram o doente para o porto de embarque, tinham-se passado cinco dias após o desastre do Oio. Foi-se sabendo a história: Graça Falcão defendeu-se como um bravo, animando a todos até ao último momento, ferido gravemente, encobriu-se com os arbustos, os inimigos afastaram-se do campo de batalha, Graça Falcão cuidou ele próprio das feridas, arrastou-se pelo mato, fugiu dos povoados e ocultou-se com o capim sempre que pressentia alguém pelos caminhos; três dias errou à fome e a perder sangue; providencialmente as feridas não se infetaram. Uma vez no pequeno bote largaram rio abaixo e com o coração aos saltos chegaram a Farim. Este depoimento do padre missionário irá coincidir com relatos coevos de outros testemunhos.

Quem teve a paciência de ler o meu livro Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba: O BNU da Guiné, recordará certamente os comentários pouco abonatórios feitos a Graça Falcão, alguém que foi um militar valoroso e de comportamento heroico que caiu nas malhas de negócios menos claros.

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Nota do editor

Último poste da série de 18 DE MAIO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23273: Historiografia da presença portuguesa em África (317): Anais do Conselho Ultramarino: Curiosidades da Guiné (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P23289: In Memoriam (437): Belmiro da Silva Pereira (1946-2022), natural de Peniche, morreu aos 75 anos, em 12/2/2022; foi alf mil, CCAÇ 6 (Bedanda, 1969/71); era médico reformado do SNS


Belmiro da Silva Pereira ou só Belmiro Silva Pereira (1946-2022), natural de Peniche,  morreu aos 75 anos, em 12 de fevereiro de 2022. Foi alf mil, CCAÇ 6 (Bedanda, 1969/71). Depois de passar à disponibilidade, completou a licenciatura em medicina, e integrou a carreira de medicina geral e familiar do SNS, tendo chegado a diretor do centro de saúde de Peniche. Foto: Cortesia da Agência Funerária de Peniche, 12/2/2022 (seguramente, do álbum de família).


Peniche > O 1º encontro dos bedandenses, em terras do sul... > 28/9/2013 > A tasca secreta do Belmiro > Um artista português, do tempo dos Beatles... Ao fundo, ao canto esquerdo, um dos bedandendes de 1972/73, o Joaquim Pinto Carvalho, ex-alf mil, hoje advogado, natural do Cadaval, e régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar, Porto das Barcas, Lourinhã


Peniche > O 1º encontro dos bedandenses, em terras do sul... > 28/9/2013 > A tasca secreta do Belmiro > O "patrão" da casa, Belmiro da Silva Pereira, dando as boas vindas.


Peniche > O 1º encontro dos bedandenses, em terras do sul... > 28/9/2013 > A tasca secreta do Belmiro > Algures no promontório do Carvoeiro, onde atacámos a sardinhada... Da esquerda para a direita, o Hugo Moura Ferreira, e o Belmiro da Silva Pereira (ex-alf mil, CCAÇ 6, Bedanda, 1969/71), médico, e a alma daquele encontro na sua adorada terra, Peniche). Com o Belmiro, está o seu filho. Foi o 4º encontro dos bedandenses.


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2013). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Lu
ís Graça & Camaradas da Guiné.]

1. Mensagem do José Carvalho, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2753 (BráBironque, Madina Fula, Saliquinhedim e Mansabá, 1970/72), nosso vizinho, amigo e camarada, médico veterinário, e agricultor, residente no Bombarral:


Data - 23/5/2022, 16h30
Assunto - Belmiro Silva Pereira

Caro Amigo Luís,

Desejo que te encontres bem.

Tomei hoje conhecimento, por informação de um familiar que reside perto de Peniche, que o Belmiro faleceu recentemente. (*)

Fui seu colega no Liceu de Leiria e, depois ao longo das nossa vidas encontrámo-nos várias vezes em Peniche, a sua terra natal, onde era adorado pela sua simpatia, popularidade e também pela competência na actividade de Médico.

Recordo o Belmiro, como um amigo irradiando alegria e boa disposição.

Embora me pareça que não fazia parte da nossa tertúlia, lembrava-me de um encontro de bedandenses, que ele organizou em sua casa (P12102) (**) e assim aqui vai mais uma triste notícia.

Um grande abraço do José Carvalho

 

2. Resposta do editor LG:

Obrigado, José, pela partilha desta dolorosa notícia de mais um camarada da Guiné que se despede da Terra da Aegria.

Conheci o Belmiro Pereira da Silva nessa altura, no convívio dos bedandenses, de 28/9/2013 ... Estou desolado.

Temos dois postes referentes a esse convívio (P12102 e P12109) (**), com fotos minhas e do Hugo Moura Ferreira. São, de resto, as únicas referências que temos no blogue ao seu nome, Não temos nenhuma foto dele em Bedanda. Gostava que ele entrasse a título póstumo para a Tabanca Grande, se a família (esposa e filho) não se opuser. Seria uma justa homenagem.

Foi um belo convívio, esse, do final do verão de 2013, de que ainda hoje guardo gratas memórias...

Bom, esse 4.º encontro do pessoal que passou por Bedanda, realizou-se Peniche, o 1.º em terras do sul,  sob organização hopsitaleira e calorosa do Belimiro da Silva Pereira, que só então vim a saber que tinha sido alf mil da CCAÇ 6, em 1969/71. 

Esse convívio, num sítio secreto, junto ao Cabo Carvoeiro, juntou três dezenas e meia de bedandenses, familiares e amigos.

Vim a saber, em conversa com ele, que já estava no 2.º ano de medicina, creio que em Coimbra, quando foi chamado para a tropa. Na altura não deu as habilitações académicas corretas, pelo que foi parar ao contingente geral. Mas alguém (se não erro, o capitão) descobriu a marosca e o nosso Belmiro lá foi, contrariado, para a EPI, para o COM, em Mafra. 

Quis o azar que, depois, fosse parar com os quatro costados ao então tão temido TO da Guiné. De rendição individual, como os demais graduados e especialistas metropolitanos das companhias africanas, lá foi fazer a guerra em Bedanda, na CCAÇ 6.

Quem foi do seu tempo, ou que ainda o apanhou em Bedanda foi o nosso grã-tabanqueiro João Martins, ex-alf mil art, comandante de um Pel Art. Dos bedandenses do blogue, ou meus conhecidos, estiveram presentes, o Hugo Moura Ferreira, o Rui Santos e João Martins, eu, a Alice, o Joaquim Pinto Carvalho  mais a esposa, Maria do Céu, e ainda o Belarmino Sardinha e a esposa.

O grande ausente, por razões de saúde, foi o nosso querido (e já saudoso) Tony Teixeira, de Espinho.  

Eu já conhecia o Belmiro de Peniche, meu vizinho portanto. Tínhamos amigos comuns na Lourinhã (a quem dei explicações quando putos ...),  e sei que estudara em Leiria com amigos meus do tempo da escola primária. Estava longe de o imaginar na Guiné na mesma altura que eu, em 1969/71, e também numa companhia africana: ele na CCAÇ 6, eu na CCAÇ 12, ele bedandense, eu bambadinquense... Mas uma vez concluí, nesse já longínquo dia 28 de setembro de 2013,  que o Mundo era Pequeno e que a Nossa Tabanca era... Grande.

O Belmiro, como diz o José Carvalho,  o nosso "barão do K3", era de facto uma figura muito popular em Peniche, como homem e depois como médico, mas confesso que não era pessoa das minhas relações pessoais. Creio que estivemos juntos em encontros (profissionais) dos médicos de clínica geral e familiar, nos anos 80/90. Ele foi diretor do centro de saúde de Peniche. Mas não voltámos mais a encontrarmo-nos depois de 2013.

É mais que justo este IN Memoriam no nosso blogue (*). Descobri entretanto, uma notícia da agência funerária local, no Facebook, das poucas referências que encontrei: afinal, o nosso camarada Belmiro da Silva Pereira já fora a enterrar há 3 meses, em 14 de fevereiro de 2022. 

Segundo a sua página no Facebook, nasceu em 22 de setembro de 1946.

Já dei conhecimento à malta de Bedanda e a outros que o conheceram, da Lourinhã e de Peniche. E pedi ao Joaquim Pinto Carvalho, ao Rui Santos e ao Hugo Moura Ferreira para darem a triste notícia aos demais bedandenses, de quem não temos o endereço de email. As nossas condolências, embora tardias, à esposa, ao filho e demais amigos e camaradas que lhe eram mais próximos. LG


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº 125/199 > Casa do chefe de posto


Foto (e legenda): © João José Alves Martins (2012)  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

terça-feira, 24 de maio de 2022

Guiné 61/74 - P23288: "A Minha Passagem pela Guiné-Bissau em Tempo de Guerra" (António Sebastião Figuinha, ex-Fur Mil Enf) Parte VI

1. Continuação da publicação do texto de memórias "A Minha Passagem pela Guiné-Bissau em Tempo de Guerra", de António Figuinha, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCS/BCAÇ 2884 (BissauBuba e Pelundo, 1969/71)


A MINHA PASSAGEM PELA GUINÉ-BISSAU EM TEMPO DE GUERRA

António Sebastião Figuinha
Ex-Furriel Miliciano Enfermeiro
CCS/BCAÇ 2884
1969/1970/1971
Parte VI

Vinte anos depois do meu regresso, aquando do primeiro encontro do Batalhão para um almoço de convívio na cidade de Évora, ao chegarmos ao restaurante (eu e minha mulher e o meu amigo Tunes), mal nos tínhamos sentado, quando para espanto meu, apareceu o Major e o Tenente Coronel, os quais se foram sentar mesmo ao meu lado direito. 

Senti que o ambiente iria a ficar pesado já que, sentado na mesma mesa e, à minha frente, encontrava-se o Alferes Tunes que o Major tinha enviado para prisão durante dez dias. Derivado a este castigo, o Tunes ficou na Guiné mais tempo.

Se por um lado se ouviu um coro de parte dos companheiros militares que com alguma ironia diziam, “como eles eram amigos!”, eu e o Alferes perdemos parte do apetite para o almoço. Mais, a certo momento, o Major virou-se para a minha mulher,  dizendo-lhe que eu tinha as mulheres que queria no Pelundo. Continuou dizendo que, no caso dele, se deslocava a Bissau quando necessitasse. Como eu previamente tive o cuidado de prevenir a minha mulher para possíveis provocações do Major, ela respondeu-lhe:
- Ainda bem que fico a saber que o meu marido era assim tão querido pelas mulheres da aldeia onde tinha estado! 

Calou-se, não fazendo mais provocações. Pelo meu lado, não lhe alimentei conversas. Este Oficial tentou desde o primeiro dia que nos conhecemos fazer-me a vida negra.

Quanto ao Comandante do Batalhão 2884, Romão Loureiro, posso começar por o descrever como uma personagem austera com os mais fracos, mas demasiado medroso para com os seus superiores e, neste caso, com o Comandante-Chefe General António Spínola.

Com a maior das facilidades levantava a mão para os soldados e não só! Era conhecido entre nós pelo nome de “Cavalo Branco”. Tudo fez durante a comissão para cair nas boas graças do General.

Como fui mobilizado apenas dez dias antes do embarque para a Guiné e como fiquei em Bissau de Maio até fins de Setembro de 1969, interrompido este tempo com as minhas férias no Continente em Outubro do mesmo ano e intercalando também o tempo que estive em Buba, só já no Pelundo tive a oportunidade de o começar a conhecer.

Como a minha missão estava destinada à ação psicológica com a população, cedo comecei a conviver com a mesma.

Esta minha atitude nunca foi do agrado dele e piorou com as minhas saídas noturnas, primeiro para conviver com pequenos grupos na palhota e mais tarde nos bailaricos quase diários numa espécie de discoteca. 

Nos convívios de grupo, quase maioritário de jovens raparigas, encontrava-se sempre aquela que desde o primeiro dia tomou conta da minha roupa. Pretendi deste modo começar a captar o modo de vida deles, captar pequenas frases linguísticas e, principalmente, ganhar a sua confiança. Não me foi fácil estar só muitas vezes até à meia-noite, hora a que regressava ao Quartel para admiração do soldado que se encontrava à porta de armas. 

Quanto aos bailaricos, foram um meio de convívio dos militares mais os jovens da aldeia durante toda a comissão sem que alguma vez desse origem a confusões. Combati deste modo algum stresse que o ambiente de guerra nos colocava na mente.

Cedo começaram as ameaças do Comandante sobre a minha forma de lidar com os militares e com a população. Num desses dias, estando eu numa cavaqueira com um filho do Régulo Vicente, que por sinal fazia parte do grupo de Milícias que colaboravam com as nossas tropas, durante a nossa conversa coloquei a certa altura uma das minhas mãos no ombro deste. 

Como o local onde isto se passou ficava em frente da Messe de Oficiais e, nesse mesmo momento, o Comandante lá se encontrava a ler o jornal, reparou no meu gesto de colocar a minha mão no ombro daquele nativo. Logo que este Milícia se ausentou, o Comandante chamou-me dizendo-me ao mesmo tempo que na próxima me castigaria com trinta dias de prisão acaso me visse repetir aquele meu gesto. Prontamente lhe respondi que eu também participaria do Comandante junto do General Spínola, já que, estando eu incumbido de executar a ação psicológica junto das populações, o meu Comandante estava a contrariar as ordens do General. Calou-se de imediato.

Poucos dias depois deste acontecimento, durante uma manhã, um irmãozito da jovem Judite foi ter comigo ao Quartel levando-me uma bela manga. Para azar meu, dirigi-me à entrada da Messe de Oficiais onde o Cabo responsável por esta encontrava-se em conversa com o Comandante. Depois de acabar o diálogo entre ambos, solicitei ao Cabo que por favor colocasse no frigorífico a manga para eu comer ao almoço. 

Espantado fiquei ao ver a rapidez com que o Comandante se levantou pedindo ao Cabo Cozinheiro que lhe desse a manga e trouxesse para a mesa dois pratos e respetivos talheres para que ele e eu a saboreássemos naquele momento. Mantive-me sereno em frente dele, mas à porta da Messe ordenei ao cabo Cozinheiro que não queria talheres nem prato para mim porque não me iria sentar para comer a manga. 

Mal o Cozinheiro virou costas, perguntei ao Comandante se não gostando de negros, ia comer fruta dada por eles! Continuei dizendo-lhe que lhe fizesse bom proveito porque de onde tinha vindo aquela manga voltariam a trazer-me mais. Reação do Comandante: 
- Assim já não me vai saber tão bem! 

Virei costas sem lhe alimentar mais diálogo.

Durante a ano de 1970 (não me recordo já em que mês), foram colocadas tarjas por cima e na parte frontal da parede das messes de Sargentos e Oficiais com referências aos anos que se tinham passado desde que os Portugueses haviam chegado à Guiné, e ao desenvolvimento desde então daquela Província Ultramarina.

Ao passar junto das mesmas não aguentei o meu desacordo e, bem alto, disse sobre os anos de atraso mental daquela gente da Província. O Comandante, que naquele momento se encontrava sentado na messe de Oficiais e bem perto da porta de entrada desta, ao ouvir o que eu acabava de dizer, chamou-me aos gritos dizendo que me iria dar trinta dias de prisão. Prontamente preguntei-lhe que desenvolvimento tinha sido feito, já que era eu a ter que aprender o idioma deles para os compreender sempre que, e principalmente os mais velhos, se dirigiam ao Posto Médico? Calou-se engolindo em seco e a custo. Porém, foi-me dizendo que não perderia pela próxima já que não me perdoaria.

Certa manhã chamou-me ao seu gabinete juntamente com outro Furriel Miliciano natural dos Açores, recentemente chegado ao Pelundo em rendição individual. Deu-nos um grande raspanete, principalmente a mim, dizendo-me que estava a desencaminhar o Periquito (nome dado aos militares recém chegados à Guiné) pois, mal ele tinha acabado de chegar, já eu o estava a desencaminhar levando-o aos bailes na Aldeia durante a noite e após o jantar e, ao mesmo tempo, levantou a sua mão, desferiu uma chapada na cara do açoriano. Encaminhou-se de seguida para mim a fim de me fazer o mesmo. Levantei a minha voz dizendo-lhe que pensasse bem no que ia a fazer. Recolheu a mão e, mais uma vez, lançou-me ameaças. 

Por esta altura eu já tinha o Comandante por cima dos meus cabelos até porque numa das tarde passadas anteriormente havia simulado abrir uma das cartas enviadas pela minha namorada.

Sempre que havia falta de algum medicamento específico para tratar uma doença, tanto o Médico como eu enviávamos para os Serviços de Saúde de Bissau uma requisição individual daquele medicamento num pequeno pedaço de papel, o qual teria que ser assinado pelo Médico ou por mim, levando por último a assinatura do Comandante.

Aconteceu que no dia seguinte em que o Comandante Romão Loureiro tinha tentado dar-me uma chapada na cara, tive necessidade de voltar ao seu gabinete levando uma requisição de medicamentos para assinar. Ainda revoltado comigo sobre os acontecimentos do dia anterior, disse-me de pronto que não assinava nada já que eu não incluía na requisição um medicamento que ele habitualmente tomava. 

Respondi-lhe dizendo que não me tinha feito qualquer pedido e, como tal, eu não o tinha incluído na lista. Disse-lhe ainda que, como Comandante do Batalhão, recebia um bom ordenado para poder comprar aquele medicamente numa Farmácia em Teixeira Pinto e disse-lhe ainda que, recusando-se a assinar a requisição que tinha à sua frente, a mesma seguiria para Bissau apenas com a minha assinatura, acompanhada de uma justificação minha acerca dos motivos da falta da assinatura do Comandante. Se estava irritado comigo ainda mais ficou e, bruscamente, pediu-me a merda do papel (palavras textuais dele) para assinar.

Por momentos perdi a cabeça e, com o meu sistema nervoso excessivamente alterado perguntei-lhe se sabia qual a arma que eu possuía para minha segurança. Respondeu-me que deveria ter uma G3 ou uma pistola qualquer. Disse-lhe então que apenas tinha uma granada defensiva que por vezes levava comigo escondida quando ia para o bailarico à noite e, de seguida, fui-lhe dizendo que não quisesse que a mesma fosse utilizada naquele gabinete, pendurando-lhe os tomates ao teto. Rapidamente saí daquele espaço não esperando por qualquer reação dele.

Passei de seguida o resto do dia praticamente fora do Quartel. Chegou a noite e, ao passar em frente da Messe de Oficiais, dirigindo-me à minha para jantar, senti a voz do Comandante chamar-me. Temi o que dali poderia vir. Encontrava-se a mesa já repleta de Oficiais esperando pelo jantar. O Comandante pediu-me para me aproximar dele e ao centro da mesa. Então, começou por me fazer várias perguntas: ”Se eu me alimentava bem, se dormia bem, já que eu não poderia ficar doente pois que iria fazer muita falta aos militares ali estacionados e à população”. 
– Já prensaste bem se tu ficares doente o que nos pode acontecer? – Alertou-me ele, e ao mesmo tempo fez-me baixar o tronco e, passando-me a sua mão no meu rosto, foi dizendo que eu estava muito magro e que tinha de alimentar-me melhor. Agradeci-lhe os cuidados que tinha para comigo e saí dirigindo-me à Messe de Sargentos para jantar.

Mal acabei de jantar fui para o Posto Médico. Estava eu meditando no que tinha acontecido naquele dia quando apareceu o Alferes Francisco da Companhia 86, natural do Algarve, que, eufórico, quis saber o que se teria passado entre mim e o Comandante para ele ter tido toda aquela conversa pública comigo e ter-me passado a mão pelo meu rosto. De seguida, com um ar de malandro que tinha, foi-me perguntando se o Coronel tinha dado em “Paneleiro”.

Respondi-lhe que não era o momento certo para lhe contar qualquer acontecimento, mas que talvez um dia mais tarde eu lhe poderia contar. Até hoje não o voltei a encontrar, mas este caso, já o desabafei numa página sobre os antigos Combatentes da Guiné. Emagreci uns bons quilos naquele dia. Fiquei com o meu sistema nervoso tremendamente alterado. Não sei se foi por vingança, mas passados uns tempos enviou-me para uma nossa Companhia operacional que se encontrava na povoação de Có.

O meu dia-a-dia continuou com as preocupações na saúde não só dos militares como da população e, sobre esta, aumentando o meu convívio diário ao ponto de uma das muitas mães da Aldeia que me foram conhecendo e gostavam da maneira como eu as tratava e aos seus familiares, pediu-me encarecidamente que quando eu regressasse ao Continente entregar-me-ia uma das suas pequenitas para que eu lhe pudesse dar uma educação que ela mãe não tinha capacidade para lhe dar. 

Era uma família Fula de sentimentos muito afetivos para todos nós. Respondi-lhe que com muita mágoa minha não poderia satisfazer o seu desejo porque, sendo oriundo de uma família muito pobre, não possuía recursos financeiros para satisfazer os seus desejos, além de ser para mim uma grande responsabilidade. Tenho comigo ainda hoje uma fotografia onde aquela pequenita se encontra pendurada ao meu pescoço. Mal me via, corria logo para os meus braços.

Alguns casos mais marcantes da minha estadia irei relatar, resumidamente, de seguida.

(Continua)

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Nota do editor

Poste anterior de 21 DE MAIO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23282: "A Minha Passagem pela Guiné-Bissau em Tempo de Guerra" (António Sebastião Figuinha, ex-Fur Mil Enf) Parte V

Guiné 61/74- P23287: Documentos (40): A conferência do cor inf Hélio Felgas, proferida na Academia Militar, sem papas na língua, em 10/4/1970 (e depois publicada como artigo na Revista Militar, nº 4, abril de 1970, pp. 219-236), que o Amílcar Cabral leu e achou lisonjeiro para si e o seu Partido, citando-o no Conselho de Guerra de 11/5/1970


Revista Militar, nº 4, abril de 1970, pp. 219-237 (com a devida vénia...)


A LUTA NA GUINÉ (1)

Coronel HÉLIO FELGAS


(') Conferência incluída no Ciclo «A Luta  no  Ultramar», pronunciada pelo Autor na Academia Militar em 10 de Abril de 1970 [,  dez dias antes do "massacre do chão manjaco", e de cujo teor o Amílcar Cabral já tinha conhecimento, em 11/5/1970, quando presidiu ao Conselho de Guerra onde a "liquidação" dos 3 majores e seus acompanhantes foi abordada com algum detalhe  (*)]

Por motivos vários a nossa Guiné continua a ser mal conhecida na Metrópole. O objectivo do presente trabalho é por isso focar determinados aspectos da situação naquela Província.

1-0 Terreno

Assim como não se faz a guerrilha com qualquer população, também não se faz a guerrilha em qualquer terreno. A população necessita ser previamente trabalhada, endoutrinada, convencida, aliciada. O terreno precisa apresentar características especiais. Pode mesmo dizer-se que uma população bem trabalhada pode não ser capaz de levar a cabo uma guerrilha duradoura e frutífera se o terreno não a ajudar. 

Em nossa opinião esta afirmação é válida mesmo no momento actual em que parece nítida a tendência para duplicar ou substituir a guerrilha rural pela guerrilha urbana.

Afinal, esta tendência não é mais do que a confirmação de que a guerrilha tem absoluta necessidade de terreno apropriado. E este terreno tanto pode ser a selva e o mato, como as cidades superpovoadas. O que a guerrilha precisa, quanto a terreno, é de bons esconderijos, boas possibilidades de deslocamento, bons terrenos de culturas alimentares, boas condições para defesa própria e para reacção aos ataques das forças da ordem.

É evidente que estas características não se encontram nem nos desertos, nem nas selvas impenetráveis, nem nas áreas desabitadas ou improdutivas. Mas tanto se podem encontrar em regiões rurais como nas grandes cidades.

Na Guiné as condições ideais para a guerra de guerrilha encontram-se no mato da quase totalidade da Província. 

Terra plana e baixa, que na maré cheia o mar invade em um oitavo da sua superfície, a Guiné portuguesa é um território «sui generis» mas com certas semelhanças com o Vietname. As áreas alagadiças e pantanosas onde os nativos cultivam o arroz − as traiçoeiras «bolanhas» já hoje tão conhecidas dos nossos soldados − alternam com as matas fechadas onde o inimigo tem os seus refúgios e cujos escassos trilhos ele armadilha ou disfarça ardilosamente.

É nas «bolanhas» que os mil rios da Guiné se espraiam em fantasiosos meandros, tornando fatigante e extremamente longo o mais pequeno percurso. Para se avançar um escasso quilómetro é preciso por vezes andar dez ou mais. Ou então há que prosseguir com água e lodo não raro até ao pescoço.

O rendilhado destas margens lodosas e cobertas de tarrafo é substituído na zona interior por um mato espesso que se despenha sobre as estradas e quase sufoca os trilhos, facilitando a emboscada.

Junte-se a este esboço panorâmico um calor tórrido e uma humidade quase limite, e ter-se-á uma ideia das condições da luta na Guiné 
− favoráveis para um inimigo habituado ao clima e conhecedor do terreno, e desfavoráveis para o soldado acabado de chegar da Metrópole.

2-0 Inimigo

A partir de 1955, as autoridades inglesas e francesas dos territórios africanos,  sob sua administração, começaram a permitir a formação de partidos políticos pelos nativos daqueles
territórios. Assim sucedeu na Guiné Francesa de então e no Senegal, territórios que confinam com a nossa Guiné, respectivamente a sul e leste e a norte.

Compreende-se fàcilmente que os nossos nativos residentes naqueles territórios se sentissem também inclinados a formar partidos políticos. Mas enquanto na República da Guiné só um vingou (o PAIGC), no Senegal constituíram-se vários que rivalizaram uns com os outros durante anos até que se fundiram num só (a FLING).

O PAIGC ou «Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde» é constituído por guineenses e cabo-verdianos, embora estes sejam em minoria numérica. No entanto, o seu chefe é o engenheiro agrónomo cabo-verdiano Amílcar Cabral que se fez rodear de diversos conterrâneos.

Há conhecimento de rivalidades no seio do partido entre cabo-verdianos e  guineenses 
  o que não admira pois tais rivalidades são seculares, Em regra os guineenses queixam-se de ser colocados em posições subalternas.

No entanto, o indiscutível tacto político de Amílcar Cabral tem evitado dissidências importantes 
−  o que, como se sabe, não tem acontecido nos partidos angolanos e moçambicanos cujos dirigentes andam sempre envolvidos em disputas mútuas. Inclusivamente o PAIGC ainda hoje não formou oficialmente qualquer governo provisório, porque Amílcar Cabral deseja evitar invejas e descontentamentos que poderiam enfraquecer o partido.

Quanto à FLING, é constituída apenas por guineenses. Uma das pedras da sua propaganda para desacreditar o PAIGC, é mesmo fazer acreditar que os guineenses do PAIGC são dominados pelos cabo-verdianos.

Ambos os partidos declaram desejar a independência da Guiné Portuguesa e a transferência do poder para os nativos, sem que isso signifique a abolição da língua portuguesa ou a expulsão dos brancos. Mas enquanto a FLING pretende alcançar este objectivo por negociações, o PAIGC pôs de lado os meios pacíficos e escolheu a luta armada.

Uma outra diferença é que a FLING apenas deseja a independência da nossa Guiné. Mas o PAIGC pretende também a de Cabo Verde, constituindo a independência da Guiné apenas uma primeira fase da sua luta que deve conduzir à constituição de um Estado (talvez federal) englobando as duas Províncias.

O PAIGC é um movimento revolucionário de tendências sociocomunistas. A sua estrutura, imitada da do regime guineense de Seku Turé, baseia-se no sistema soviético da preponderância do partido sobre o governo.

Pelo contrário, a FLING é de tendência moderada ocidental e por isso teve o apoio, ainda que muito limitado, do governo senegalês de Leopoldo Senghor.

Desde o princípio que o governo de Conakry deu total apoio ao PAIGC
 o que não deve admirar pois trata-se de ideologias políticas idênticas.  Aliás foi a mesma identidade que levou o governo de Dakar a admitir a FLING. 

Simplesmente a FLING não conseguiu projecção alguma, dentro ou fora da nossa Guiné. E o PAIGC, há que admiti-lo, conseguiu. Não só a partir de 1964 passou a ser o único movimento armado actuando naquela Província, como o seu prestígio se foi cimentando no âmbito internacional e a tal ponto que o seu chefe já tem em conferências internacionais representado não só o seu partido como todo o movimento emancipalista africano.

Claro que a projecção alcançada pelo PAIGC não podia deixar indiferente o presidente senegalês Senghor, por um lado, pensou que, se acaso um dia o PAIGC viesse a tomar conta da vizinha Guiné Portuguesa, as relações com o Senegal seriam péssimas caso este país não tivesse ajudado o PAIGC na sua luta pela independência. 

Por outro lado, o presidente senegalês, apesar de todo o seu evidente ocidentalismo, sentiu que a sua própria posição pessoal estaria ameaçada, caso não mostrasse interesse pela luta de emancipação levada a cabo pelo PAIGC e apoiada por quase toda a Africa negra e árabe.

Estes condicionalismos políticos levaram Senghor, talvez até contra sua vontade, a prestar auxílio ao PAIGC, partido em quem o presidente senegalês não tinha muita confiança, primeiro por ser apoiado pelo governo de Conakry (cujas relações com Dakar nunca foram boas), e depois porque Senghor receava possíveis ligações entre o PAIGC e os elementos da oposição política senegalesa.

Foi então estabelecido o acordo de 1966 que «legalizou» a permanência e o deslocamento dos grupos armados do PAIGC em todo o Sul do Senegal,  fronteiriço com a nossa Guiné. Embora sem dar inteira liberdade ao PAIGC, este acordo facilitou enormemente o reabastecimento dos grupos actuando em toda a fronteira Norte da nossa Guiné e permitiu- lhes um refúgio seguro sempre que se sentiam mais apertados pelas nossas tropas.

Compreende-se que o aumento do apoio senegalês ao PAIGC correspondeu a uma ainda maior diminuição do interesse pela FLING cuja actividade cessou quase por completo.

Desta forma o PAIGC encontrou-se em condições ideais para prosseguir na sua actividade pois passou a contar com o apoio de ambos os Estados vizinhos da nossa Guiné. Além disso foi reconhecido pela Organização da Unidade Africana como o único movimento representativo daquela Província, sendo-lhe atribuída boa parte dos fundos do respectivo Comité de Libertação. 

Continuou a receber auxílio financeiro  em armamento e munições, não só da Rússia e seus satélites, como da China Popular. Aceitou médicos e quadros militares de Cuba e enviou centenas de guineenses para estágios e cursos em diversos países comunistas e socialistas. 

Recebeu auxílio financeiro de certos Estados nórdicos com destaque para a Suécia. Finalmente, estabeleceu intercâmbio com a própria Frente de Libertação do Vietname, sabendo-se que vários vietcongs já têm estado na nossa Guiné exercitando os grupos armados do PAIGC.

Em face de todos estes auxílios e apoios, a única coisa que nos parece que deve admirar é a relativa ineficácia da actividade militar do PAIGC. De facto na Guiné encontram-se trocadas determinadas características da guerra de guerrilhas. Quer em número quer em armamento, o inimigo apresenta-se muito mais forte e desenvolvido do que é vulgar atribuir-se a simples guerrilheiros.

Em especial o armamento, dos mais recentes modelos russos, checos e chineses, chega mesmo a levar vantagem sobre alguns tipos nossos, com destaque para os canhões sem recuo, morteiros e bazucas. Qualquer pequeno grupo inimigo dispõe destas armas em abundância e não faz a menor economia em munições.

Felizmente, porém, a eficiência pessoal dos combatentes é que é muito pequena. Falta-lhes treino, decisão, quadros. Armas esplêndidas como eles têm, são mal apontadas tornando o seu rendimento nulo ou quase. Não é raro o inimigo atacar um aquartelamento com canhões e morteiros disparando centenas de projécteis dos quais só dois ou três acertam no alvo. E já se têm apreendido aparelhos de pontaria isolados, simplesmente porque o inimigo desconhece a sua utilização e prefere apontar os canhões e os morteiros à vista.

Convém, no entanto, esclarecer dois pontos. O primeiro  que não podemos confiar em uma eterna inaptidão do inimigo para o combate. E o segundo é que, apesar do que dissemos, o PAIGC sabe perfeitamente o que está fazendo. Embora dentro das linhas gerais características da guerra revolucionária, o PAIGC actua de acordo com as condições peculiares da África e dos africanos.

Aliás, consideramos erro grave julgar que todas as guerras revolucionárias são idênticas quer na sua essência quer na sua concretização prática. Os dirigentes do PAIGC, embora ligados ao castrismo, ao sovietismo e ao maoismo, têm demonstrado uma originalidade própria que nos parece do maior interesse conhecer, para melhor lhe podermos fazer frente.

Dentro desta originalidade, o inimigo não deixa de dedicar a maior atenção à acção psicológica que é levada a cabo com notável sobreposição de meios. 

Esta acção exerce-se entre a população nativa por meio de agentes especializados. Exerce-se por meio de uma estação emissora que, em algumas áreas da Guiné, se ouve melhor do que a nossa Emissora de Bissau. Exerce-se por via diplomática nos diversos países africanos e não-africanos, chegando fàcilmente à ONU onde, como se sabe, tem a maís favorável audição.


3 - A População

A variedade étnica da população guineense é bem conhecida. Num espaço restrito encontram-se doze ou quinze tribos tão diferentes umas das outras como os espanhois o podem ser dos franceses, dos italianos ou mesmo dos ingleses.

Estas tribos são idênticas apenas na sua aparência física e no seu atraso socioeconómico. Mas são diferentes nos seus usos e costumes, na sua língua, na sua religião, nos seus trajes e, até, na forma como reagiram à subversão e ao terrorismo.

De facto, enquanto Balantas, Sossos, Nalús e Biafadas se deixaram aliciar com certa facilidade, Felupes, Baíotes, Banhuns, Papéis e Fulas repeliram energicamente toda e qualquer ideia subversiva. E enquanto os Bijagós se mantêm alheios à luta, os Mandingas, os Mancanhas e os Manjacos dividiram-se, colaborando uns com o inimigo e outros connosco.

Aliás esta diferenciação não é taxativa. Há, por exemplo, inúmeros Balantas que nos continuam fiéis e com eles formámos até excelentes grupos de contra-guerrilha.

Cada uma das tribos citadas atrás ("raças» como lhes chamamos na Guiné) tem o seu «chão», isto é, a região onde habitam em maioria. O «chão» felupe, por exemplo, é a noroeste, na área fronteiriça com o Senegal, ao lado dos Baiotes e dos Banhuns. Os Papéis têm o seu «chão» na ilha de Bissau. Os Balantas 
− a raça mais numerosa da Guiné − estendem-se numa faixa central, desde a fronteira com o Senegal, ao norte, à fronteira com a República da Guiné, ao sul. 

A grande mancha continental do leste é essencialmente povoada por Fulas, embora aqui e além surjam núcleos de Mandingas que, no entanto, vivem em maior número na faixa ao norte do Rio Geba separando Balantas de Fulas.

A localização das «raças» corresponde aproximadamente à área de actividade do inimigo. Por isso a região ao sul do Rio Geba, «chão» de Balantas, Biafadas, Nalus e Sossos, está afectada pela guerrilha. O mesmo se pode dizer da faixa central, povoada por Balantas e Mandingas.

Mas as ilhas atlânticas, a orla marítima ao norte do Geba e todo o leste estão por completo sob o nosso controle, o mesmo podendo afirmar-se da totalidade das povoações e seus arredores.

A fidelidade dos Fulas, já tradicional, é bem conhecida. Injustos seríamos, porém, com outras «raças» se, neste, aspecto, não as colocássemos ao mesmo nível dos Fulas. Há dezenas de aldeias (tabancas) que se defendem sozinhas ontra os ataques dos grupos inimigos. E há milhares de nativos encorporados voluntariamente nas forças armadas e batendo-se com o mesmo ardor e a mesma valentia dos soldados metropolitanos.

É esta participação voluntária da maioria dos nativos guineenses na luta contra o PAIGC, que confirma a inexistência de qualquer sentimento nacionalista verdadeiramente partidário da independência do território.

Não é difícil compreender que, se não tivéssemos do nosso lado a maior parte da população guineense, a nossa situação na Guiné seria hoje insustentável. 

A única dificuldade com que deparamos na Guiné, no que se refere a recrutamento de militares e militarizados, é exactamente não podermos aceitar todos os que se oferecem. Os voluntários excedem de longe os contingentes necessários. Se são precisos 500 homens,  aparecem 4 ou 5 vezes mais e os excluídos deploram vivamente a sua exclusão.

Homens já idosos metem empenhos para ir para a tropa ou para a ela voltarem. Se o inimigo ataca uma tabanca desarmada, a população foge e apresenta-s sistematicamente na unidade militar mais próxima pedindo armas para se defender.

Poder-se-a perguntar: mas então como conseguiu o inimigo aliciar e levar ou ter consigo alguns milhares de nativos?

O PAIGC conseguiu isso inicialmente, empregando o terror, a promessa sedutora ou o rapto. Além disso, nós não tínhamos o dispositivo militar que hoje temos e os nativos, sentindo-se desprotegidos, não tinham outra solução que não fosse seguirem os grupos armados inimigos.

Mas hoje a situação está praticamente estabilizada. Os nativos preferem até acolher-se à nossa protecção. E aqueles que foram com o inimigo para as matas ou para os países vizinhos, não voltam porque o PAIGC não os deixa, chegando a matar os que tentam regressar.

4 - As Nossas Tropas

Contam-se por muitos milhares os nativos guineenses que participam na luta contra o terrorismo, constituindo Companhias e Pelotões de Caçadores, Pelotões de Milícias e grupos de combate especiais, além de guarnecerem as tabancas em autodefesa e de servirem de guias.

As Companhias e os Pelotões nativos de Caçadores têm enquadramento metropolitano e são utilizados como quaisquer outras subunidades do mesmo tipo.

Os Pelotões de Milícias são constituídos por nativos a quem se dá uma instrução reduzida e que depois vão guarnecer determinadas posições e tabancas.

Os grupos de combate especiais actuam ou como os elementos dos Comandos ou como o próprio inimigo.

Os homens válidos das tabancas,  mais ameaçadas pelas infiltrações ou ataques inimigos, são por nós armados mas não têm uniforme nem recebem vencimento algum. São volutários que defendem o que é seu e que não são em geral empregues fora das suas tabancas.

Com esta variedade de elementos obtém-se uma apertada malha ofensiva-defensiva cuja eficiência parece aumentar cada vez mais. Talvez para isso contribua o facto de os melhores elementos irem sempre percorrendo uma escala hierárquica que cada vez lhes concede maiores privilégios e  garantias. Um nativo de uma tabanca que se distinga pode passar a milícia, daqui a soldado e por fim ingressar nos Comandos onde até mesmo os oficiais são guineenses sem necessidade de habilitações literárias especiais.

Compreende-se fàcilmente que desta forma os elementos africanos dos Comandos sejam nativos realmente bons no combate.

Claro que a envergadura do PAIGC não permite, pelo menos por agora, entregar a defesa da nossa Guiné apenas aos nativos guineenses. Daí que a Guiné disponha hoje de um certo número de unidades metropolitanas em reforço à sua guarnição normal.

A eficiência de combate destas unidades tem confirmado as tradicionais virtudes do nosso soldado, em especial no que respeita a coragem, poder de adaptação e espírito de sacrifício.

É evidente que nem todas as unidades apresentam a mesma rentabilidade. Posso porém afirmar que esta rentabilidade é melhor naquelas onde o espírito ofensivo está mais desenvolvido.

Uma norma que adoptei e com a qual não me dei mal,  foi exactamente ir ao encontro do inimigo em vez de o esperar enterrado nos abrigos. Ficamos com certeza fisicamente mais cansados mas mais vale viver cansado que morrer repousado.

E é curioso que o espírito atávico do nosso soldado leva-o em tempo de guerra a preferir a actividade ofensiva a um repouso enganador e perigoso. Vi muitas vezes a satisfação no rosto dos soldados que conduzi ao encontro do inimigo, que obriguei a montar fatigantes emboscadas nocturnas quase consecutivas, que levei a regiões consideradas na posse do inimigo desde o princípio da guerra.

A verdade é que, neste ou em qualquer outro tipo de guerra, só a ofensiva recompensa. E mal de quem pense o contrário. Inclusive as baixas são sempre menos numerosas nas unidades que procuram o inimigo do que naquelas que se limitam a aguardá-lo.

Evidentemente que este espírito ofensivo não pode ser conduzido com imprudência. Há que calcular o risco que se corre. Há que ter imaginação no desenvolvimento das operações. Não se trata de ir pura e simplesmente para a frente pois não só o inimigo é numeroso e está bem armado, como o próprio meio é hostil.

De facto, em muitas operações, são mais as baixas causadas pela insolação, pela sede, pelas abelhas e pelos rios, que as causadas pelo fogo inimigo. Há que preparar bem as acções, dando aos nossos soldados o maior número possível de condições e sem esquecer que eles são por vezes desleixados e imprevidentes.

Inúmeros pormenores têm que ser pensados antes de se lançar uma acção, seja pequena ou grande. A fase da Lua, a altura das marés, a verificação do armamento e do equipamento, o cálculo das rações de combate, tudo isto é apenas uma parte do que um comandante, seja qual for a hierarquia, tem de tomar directamente a seu cargo.

Não poucas vezes deparei com soldados que, por inconsciência ou por comodismo, não levavam o cantil cheio, se esqueciam das redes contra as abelhas, ou tentavam aligeirar-se transportando poucas munições ou pouca comida.

Em outras ocasiões notei a tendência para abrandar a atenção e a vigilância só porque já se estava próximo do quartel, no regresso de uma acção; ou para seguir pelas picadas e trilhos (que em regra estão armadilhados) em vez de progredir a corta-mato (que é mais cansativo mas mais seguro); ou para não sintonizar os postos-rádio antes da partida; enfim, para uma série de pequenos cuidados de que dependem muitas vezes o êxito ou o insucesso.

De uma forma geral, porém, o nosso soldado torna-se motivo da nossa maior admiração e da nossa maior estima. Quem tem a honra de o comandar em combate, é insensívelmente levado a reconhecer que Napoleão tinha razão ao classificar o soldado português como o melhor do mundo.

Convém salientar que as unidades metropolitanas de reforço não se limitam a combater. Elas contribuiram para a melhoria que, em todos os campos, se nota hoje na Guiné.

Após quatro anos de permanência na Guiné, sempre no mato que é onde se conhecem melhor os nativos, sou levado a chegar à conclusão que a Guiné progrediu mais nestes últimos 8 ou 9 anos que nos anteriores 5 séculos.

E empenho nesta afirmação um pouco do meu orgulho de militar pois é exactamente à presença dos militares que a nossa Guiné deve o seu actual impulso.

No campo sanitário, por exemplo, a cobertura hoje existente deve ser das mais completas de toda a África. Diariamente, os médicos e enfermeiros militares observam e tratam milhares de nativos civis. Os casos mais graves são transportados de avião ou helicóptero para Bissau, sistema que talvez em nenhum dos novos Estados africanos seja ainda usado.

A eficiência da assistência sanitária na nossa Guiné tornou-se rapidamente conhecida nos países limítrofes, sendo normal a afluência aos nossos Postos Sanitários fronteiriços de muitos nativos senegaleses e até da República da Guiné.

Sob o aspecto educacional, também a tropa tem desenvolvido muito favorável actividade não só devido às muitas escolas que tem montado e mantido no interior da Província, como também porque oficiais e até seus familiares preenchem hoje lugares de professor no Liceu e nas Escolas Técnicas de Bissau.

As unidades de Engenharia estão dando também o seu contributo à Província, construindo pontes, estradas e edifícios.

E os serviços próprios do Comando-Chefe, secundando o esforço do Comando Militar e em colaboração com o Governo da Guiné, estão reordenando as populações, criando-lhes novas e mais adequadas condições de vida.

5 - O desenrolar da luta

O terrorismo na Guiné começou em meados de 1961, no noroeste, junto à fronteira do Senegal. Foi porém uma actuação esporádica, a cargo do Movimento de Libertação da Guiné (MLG). Renovada em 1963, esta actuação acabou no princípio do ano seguinte devido não só à eficiente actuação das forças armadas, corno também à falta de receptividade da população nativa composta por F'elupes, Batotes e Banhuns.

Em Janeiro de 1963, o PAIGC iniciou a sua actuação armada no sul da Província, conseguindo infiltrar os seus grupos até ao Rio Geba. Em Julho desse ano passou o rio e levou a insurreição à região florestal do Oio. No princípio de 1964 chegou a Farim e atingiu a fronteira norte.

No final de 1964 grupos inimigos lançaram o pânico entre as populações do nordeste e começaram a actuar no Boé. No princípio de 1965 tentaram passar do Oio para o ector dos Manjacos, a oeste, mas foram mal sucedidos.

É curioso que as características da actuação militar inimiga na Guiné foram distintas das observadas em Angola. Nesta última província o inimigo levou a cabo actos terroristas de extrema crueldade mas os seus grupos quase não dispunham de armas aperfeiçoadas. Só anos depois do início é que apareceram as metralhadoras e os morteiros; ainda hoje as bazucas e em especial os canhões sem recuo são raros.

Na Guiné não houve a crueldade de Angola. Ninguém cortou pessoas aos pedaços. Quando muito, algumas orelhas decepadas a um ou outro nativo que se recusou a deixar-se aliciar. 

Em compensação os grupos inimigos nunca utilizaram catanas ou canhangulos ("longas» como se chamam na Guiné) mas, logo desde o início, pistolas-metralhadoras, granadas e espingardas de guerra. Sucessivamente e em ritmo acelerado foram aparecendo metralhadoras, morteiros, bazucas, espingardas automáticas, canhões sem recuo, etc., tudo em número excepcionalmente elevado.

E tão elevado que em algumas apreensões de armamento feitas na Guiné como consequência de operações militares, chega-se a apanhar mais material do que em Angola se apanha num ano.

Convém esclarecer que o alastramento da actividade inimiga atrás citado não correspondeu ao movimento ofensivo característico da guerra clássica. Traduziu-se sim por simples infiltrações de grupos armados que depois de realizadas umas tantas acções, recuavam novamente para as bases de partida em território estrangeiro para se reabastecerem e descansarem. 

Deixavam porém o vírus da subversão encontrando facilitada a sua actuação dada a falta de efectivos com que lutávamos. As populações nativas eram levadas a acreditar no PAlGC e, quando resistiam, eram compelidas a acompanhá-lo já que nós ainda não lhes podíamos prestar a devida protecção.

A partir de 1966, porém, a nossa malha militar apertou-se e a situação tendeu a estabilizar-se apesar do constante reforço do inimigo em homens e em armamento, e apesar do PAIGC ter passado a utilizar também o Senegal como base para os seus ataques.

Esta utilização facilitou, aliás, o alastramento da actividade inimiga para oeste, isto é, na direcção do importante sector dos Manjacos, e em toda a faixa fronteiriça do norte, desde Suzana até Cuntima. 

É, no entanto, curioso que a faixa fronteiriça da metade leste da Guiné tem vivido em completa calma - o que se deve ao facto das populações senegalesas fronteiriças serem também da raça Fula, não consentindo na presença dos grupos armados do PAIGC. Já as da faixa central são compostas por Balantas e Mandingas, favoráveis ou pelo menos permeáveis à propaganda inimiga.

em 1968 os grupos do PAIGC vindos do Sul e Sudeste procuraram infiltrar-se até à estrada Bambadinca-Bafatá-Nova Lamego-Piche mas foram repelidos. Mantiveram, porém, a pressão sobre a cintura de tabancas organizadas em auto-defesa, flagelando-as periodicamente mas nunca se atrevendo a ultrapassá-las com receio de lhes ser cortada a retirada.

6 - A situação actual

Por motivos vários entre os quais avulta a deficiência de informação pública, a situação na Guiné é em geral mal avaliada na Metrópole, havendo a tendência para se considerar muito pior do que na realidade está.

De facto, na maior parte da Guiné as populações fazem a sua vida normal não havendo sinais visíveis da guerra. É o que acontece em todas as ilhas atlânticas (incluindo a de Bissau), em grande parte do «chão» dos Manjacos e na quase totalidade da massa continental do Leste.

No resto do território o inimigo faz as suas incursões de surpresa mas regressa logo ou às bases que tem no Senegal e na República da Guiné, ou aos refúgios das matas mais espessas. 

Dentro da política que resolvemos seguir, as bases exteriores do PAIGC são verdadeiros santuários pois nós não as atacamos visto estarem em país estrangeiro. Mas os refúgios inimigos no interior da Província andam sempre a mudar pois as nossas tropas procuram-nos constantemente , quando os detectam, atacam-nos e destroiem-nos sistemàticamente.

Desta forma, é totalmente falso que o PAIGC ocupe realmente e em permanência qualquer parcela da Guiné. Nós vamos a qualquer ponto da província e só em pequenas áreas precisamos, para lá ir, de mais de uma Companhia.

Sem dúvida que o inimigo dispõe de numerosos grupos todos excelentemente armados. Sem dúvida também que a sua actividade é grande, especialmente em flagelações nocturnas a aquartelamentos e povoações, em colocação de minas anti-pessoal e anti-carro e em emboscadas contra as nossas forças, utilizando nestas acções um considerável potencial de fogo.

A verdade, porém, é que, como dissemos, a eficiência militar do inimigo é felizmente muito pequena - isto apesar de já ir possuindo um treino de sete ou oito anos. Regra geral o inimigo debanda após as suas acções, não conseguindo explorar qualquer sucesso inicial obtido pela surpresa. Casos há em que as nossas guarnições, depois de suportarem flagelações de duas e mais horas, ficam sem munições à espera de um assalto inimigo que, afinal, quase nunca se dá.

Por outro lado, os nossos soldados, pretos e brancos, adaptam-se fàcilmente à situação.

Não vamos aqui afirmar que a vida na Guiné de hoje, nas áreas contaminadas, seja boa. Tenho 4 anos dessa vida. Mas se uma unidade adoptar sistemàticamente um espírito ofensivo, as suas possibilidades de viver relativamente sossegada são grandes pois o inimigo passa a receá-la.

Se quisessem os resumir a actual situação militar na Guiné diríamos que o Inimigo:

a) Executa incursões de surpresa em quase todo o Sul, na faixa fronteiriça entre Suzana e Cuntima, e em parte da região entre os rios Cacheu e Geba;

b) Esforça-se por se infiltrar no enorme sector dos Fulas, exercendo pressão em especial a partir do Sul  Sudeste, mas sem que até agora tenha obtido qualquer êxito pois as populações, armadas em auto-defesa e reforçadas pelas nossas tropas, opõem-se abertamente aos seus desígnios;

c) Fazendo base em território estrangeiro, flagela as nossas povoações e aquartelamentos fronteiriços,embora quase sem nos causar baixas, dada a falta de eficácia dos seus fogos.

Quanto às nossas tropas:

a) Ocupam todas as povoações da Guiné e seus arredores;

b) Repelem com relativa facilidade todas as acções inimigas;

c) Impedem o alastramento da subversão e da actividade militar inimiga para fora das zonas inicialmente contaminadas;

d) Executam acções e operações ofensivas em toda a província.

7 - Perspectivas

Em face do que dissemos atrás, quais são então as perspectivas que antevemos para a luta na nossa Guiné?

Em nossa opinião, o PAIGC já deve ter compreendido que, a não ser que empregue meios, forças e tácticas diferentes, jamais poderá ganhar militarmente a guerra.

Por outro lado, nós também temos de compreender que, enquanto o Senegal e a República da Guiné constituirem santuários para o inimigo, nunca mais poderemos acabar com a guerrilha. Ainda que empurrássemos o PAIGC até às fronteiras, não poderíamos depois impedir que ele se infiltrassem novamente dada a característica especial dos grupos de guerrilheiros.

Portanto, no que nos respeita, o problema não é só militar, é também político: desde que consigamos levar os governos de Dakar e de Conakry a alterar a sua política de protecção ao PAIGC, este não terá quaisquer possibilidades militares de se manter.

 O difícil está porém em conseguir alterar a política do Senegal e da República da Guiné, países que estão solidamente integrados na engrenagem internacional de apoio aos movimentos subversivos.

Quanto ao PAIGC, ele sabe que conta com largo apoio internacional quer no campo político quer no auxílio financeiro, social e militar.

Sucede porém que, apesar de todo este auxílio, o PAIGC não pode, sem grave risco próprio, prolongar muito mais tempo a luta. As condições em que actuam os seus grupos armados são duríssimas, mesmo para nativos africanos habituados a poucas ou nenhumas comodidades. Falta-lhes comida, roupa, alojamento e remédios. Só o armamento e as munições são abundantes, embora sempre mal conservados.

Além disso quer os guerrilheiros quer a população que está sob seu controle, começam a dar sinais de saturação e de desilusão. Começam a não acreditar em Amílcar Cabral que todos os anos lhes promete ganhar a guerra, sem nunca o conseguir.

Com o cansaço físico e moral, surge mais nítida a secular rivalidade entre os guineenses e os cabo-verdianos que militam no PAIGC. Mais difícil se torna portanto a direcção do partido que tende a perder coesão.

Ora Amílcar Cabral sabe tudo isto. E sabe que ou acelera a luta ou a perde.

Admitimos por isso que o PAIGC esteja realizando ou vá realizar novos e mais profundos esforços no sentido de tornar insustentável a nossa posição na Província.

Estes novos esforços serão desenvolvidos em todos os campos desde o diplomátíco ao militar. O colapso repentino do Biafra não pode deixar de favorecer o PAIGC, em especial quanto a armamento. Outro tanto sucederá se a guerra do Vietname acabar pois os contactos entre o PAIGC e o Vietcong já se encontram estabelecidos, como dissemos,

No entanto, se por um lado temos obrigação de admitir o reforço da actividade geral do inimigo - tanto mais que sabemos ele estar sendo apoiado pela OUA e por grande
parte dos países membros da ONU -, por outro lado não podemos deixar de reconhecer as tremendas dificuldades com que o PAIGC vai continuar a deparar se insistir em cumprir o programa que se propôs.

De facto, em primeiro lugar, há que contar com a nossa determinação em defendermos o solo cinco vezes centenário da Guiné Portuguesa. Em segundo lugar, é natural que a um esforço maior do inimigo respondamos com outro esforço também maior. E em terceiro lugar, não vemos como, nos anos mais próximos, o PAIGC terá possibilidade de levar a Cabo Verde a guerra que nos move na Guiné, dadas as características para nós favoráveis que o arquipélago apresenta.

[Digitalização / revisão, fixação de texto e atualização ortográfica, e negritos, para efeitos de publicação neste blogue:  LG. ]



Major General Hélio Esteves Felgas (1920-2008): duas comissões na Guiné, um dos militares portugueses da sua geração mais condecorados, autor de dezenas de livros e artigos sobre a "luta contra o terrorismo", a guerra ultramarina... 

Foi comandante do Comando de Agrupamento n.º 1980 (Bafatá, 1967/68), como o posto de ten cor inf e do Comando de Agrupamento n.º 2957 (Bafatá, 1968/70), já com o posto de cor inf. A qui é de destacar o planeamento e  a execuação da Op Mabecos Bravios (evacução do aquartelamento de Madina do Boé, de trágicas consequências, sector do Gabu, 2-7 fev 1969) e a Op Lança Afiada (Sector l1, 8-19 de março de 1969). 

Mas antes tinha passado pelo comando do BCAÇ 239 (Bula, São Domingos e Farim, 1961/63), e ainda pelo BCAÇ 507 (Bula, 1963/65),  o que lhe permitiu conhecer bem o início da luta armada desenvolvida pelo PAIGC, sobretudo a partir de 23/1/1963. Passou ainda pelo comando do BART 1914 (Tite, 1967/69). Ao todo, esteve quatro anos no CTIG.

Comparou a Guiné ao Vietname. Também considerava que a solução para a Guiné não era militar mas política... Foi, todavia, um crítico de Spínola que lhe terá roubado, entretanto, a ideia dos reordenamentos (aldeias estratégicas). Um oficial intelectualmente brilhante, professor a Academia Militar,  mas controverso, dizem alguns dos seus pares, mais novos.

Condecorado com a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, em 1970, foi passado compulsivamente à reserva, a seguir ao 25 de Abril de 1974. (Estava m Angola nessa altura; e sempre se considerou vítima de um saneamento político-militar.)

Tem meia centena de referências no nosso blogue.

Foto gentilmente cedida pela filha, dra. Helena Felgas, advogada, colega e amiga do nosso camarada saudoso Jorge Cabral, e com quem estive no funeral do pai (LG).
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Nota do editor:

(*) Vd. Último poste da série > 22 de maio de 2022 > Guiné 61/74 - P23284: Documentos (39): Amílcar Cabral, a "honra militar" e o assassinato dos 3 majores e seus acompanhantes, no chão manjaco, em 20/4/1970: acta (informal) do Conselho de Guerra do PAIGC, Conacri, 11 de maio de 1970, um "documento para a história"