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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27991: Humor de caserna (262): O poeta Bocage (que foi oficial da marinha de guerra) e o Café Nicola, no Rossio, em Lisboa



Estátua em bronze do Bocage.
Café Nicola, Rossio, Lisboa.
Autor: Marcelino de Almeida
(1929)
1. Não sou bom a contar anedotas, ao vivo, à volta da mesa, numa roda de amigos... É uma arte, que não é para todos, inventá-las e sobretudo contá-las. Mas gosto de as reescrever e recriar... 

Esta, é mais uma do Bocage, que me foi contada,  se não erro,  na tropa ou já na Guiné. Nunca a  esqueci, passados  mais de 50 anos, o que é caso raro em matéria de repertório de anedotas. O meu é muito pequeno.

 De facto, também não sou bom a lembrar-me das anedotas. Faltam-me sempre aqueles detalhes que dão o picante à(s) história(s)... É como os coentros nas ameijoas à Bulhão Pato ou nas favas soadas...ou o piri num franguinho grelhado.

Na altura já conhecia os célebres versos do "Calafate" ou "Cantador de Setúbal", sobre "A Quinta da Panasqueira",  publicados no poste P27990 (*), por via da célebre "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (seleção, prefácio e  notas de Natália Correia, 1965), que li clandestinamente. (Não consegui apanhar a 1ª edição, vivia na província, o livro foi rapidamente confiscado, mas houve um amigo que teve a sorte de ficar com um exemplar.)

Neste caso, que vou reconstituir de cor, ainda hoje desato a rir pelo absurdo e caricato da situação. É uma anedota, caro leitor, que mete, com a sua licença,... m*rda. Logo, é humor... escatológico. Mas que tem perfeito cabimento na nossa série "Humor de Caserna". 

Só tem graça porque, além da dita m*rda, mete o Bocage, um botequim e uma ventoinha de teto (ou ventilador elétrico). 

Ora, este  equipamento (precioso num território como a Guiné, no nosso tempo, a par do frigorífico a petróleo) só será inventada em 1882, mais de 3/4 de século depois da morte do Bocage (1805). 

Portanto, há aqui um anacronismo: naquele tempo, nos finais do séc. XVIII, ainda não havia eletricidade, não podendo haver por isso ventoinhas (muito menos de teto)... Mas devia haver "buracos" para ventilação e respiradores, nos edifícios pombalinos...E isto passa-se na baixa pombalina, no Rossio...

De resto, as ruas da capital eram iluminadas por candeeiros a azeite, num sistema criado a partir de 1780  pelo intendente da polícia Pina Manique. (Depois do azeite, veio o petróleo, o gaz e finalmente a eletricidade; o funcionário camarário que acendia  e apagava os "lampiões", antes da iluminação elétrica,  eram os "vaga-lumes", popularmente mais conhecidos como "caga-lumes").

À parte o anacronismo, a anedota tem piada porque ilustra o talento de improvisador, de repentista, que a tradição oral atribui ao poeta sadino,  frequentador do Botequim do Nicola, no Rossio, em Lisboa.

O Botequim do Nicola (cuja fundação remonta a 1787, em pleno reinado de Dona Maria I (que vai de 1777 a 1815) era o centro das tertúlias intelectuais e conspiratórias de Lisboa. E das rusgas da polícia (Intendência-Geral da Polícia da Corte e do Reino, criada pelo Marquês de Pombal, em 1760). 

O Botequim ( do italiano botteghino, diminutivo de bottega, loja), foi fundado por um italiano chamado Nicolau Breteiro, vulgo "Nicola". Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do estabelecimento.

O cliente mais mais conhecido na época foi o nosso poeta, de seu nome completo Manoel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), de ascendência francesa, cuja vida, aventurosa e boémia, mas também militar e literária,  ainda hoje está mal documentada: sabe-se, por exemplo,  que foi oficial da marinha de guerra, andou pela Índia e pelo Brasil, até começar a ter problemas com a Inquisição e a polícia do Intendente Pina Manique...  Viveu pobre, morreu miserável. E hoje ajuda a vender lotes de café em grão... "italiano"! 

Diz a tradição que José Silva, o proprietário do Botequim do   Nicola, terá sido uma espécie de mecenas do poeta, apoiando-o na fase terminal da sua vida, com o poeta maldito já doente e pobre.


Retrato gravado a buril e água-forte
por Joaquim Pedro de Sousa (1818-1878). 
Fonte: Wikipedia

O Botequim, mais tarde Café Nicola, continuou a ser um ponto de encontro de escritores, jornalistas e políticos, atravessando vários regimes e épocas. Sofreu remodelações ao longo do tempo. Na II Guerra Mundial, foi um dos cafés de Lisboa onde se misturavam refugiados, escritores,  espiões e polícia política.

Em 1929, a fachada foi redesenhada pelo arquiteto Manuel Norte Júnior. Foi também inaugurada uma estátua do poeta, em bronze,  da autoria de Marcelino de Almeida. 

Em 1935, o interior foi modernizado em estilo Art Déco, pelo arquiteto Raul Tojal (1899-1969), com pinturas a óleo de Fernando Santos (1892-1965) que retratam cenas da vida de Bocage. 

Estas intervenções deram ao Nicola o aspeto que ainda hoje se pode admirar, sendo atração turística, "loja histórica" e património da cidade de Lisboa.

O Café Nicola, enquanto marca, também se expandiu: no fim do século XIX e início do XX, abriram filiais em várias cidades portuguesas (como Coimbra e Figueira da Foz), e hoje existem 13 cafés e quiosques com o nome Nicola em Portugal (incluindo a minha terra, Lourinhã). 
2. Mas vamos à anedota (*): num dia de calor, estava o Bocage no Nicola com o seu grupo de tertúlia, mesmo no centro da sala.

 Entrou um sujeito, a correr, "muito à rasca" (sic), a perguntar ao empregado onde era a "caganeira"... "Ao cimo das escadas", respondeu maquinalmente o "garçon". O sujeito subiu as escadas já com as calças na mão. Mas, com a atrapalhação,  não deu com a retrete. Aliviou-se no primeiro buraco que encontrou...

Desceu as escadas, mais descontraído, e a assobiar, enquanto ajeitava calmamente as calças e a jaqueta... Mas, para seu espanto, havia um reboliço enorme de mesas e cadeiras, com os clientes a fugirem para a rua, aos berros.

O cheiro tornou-se insuportável e, ao sentir o odor, e sobretudo ao levar com os salpicos de m*rda na cara, no cabelo e na camisa (branca) de janota, o Bocage levantou-se de um salto e declamou, alto e bom som, em cima de uma mesa, estes versos em redondilha maior que ficaram para a história:

Pelo  cheiro não é fruta,
Nem p'la cor é farinha,
Quem foi o filho da puta
Que cagou na ventoinha?!

_________________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)

terça-feira, 5 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >   O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta", neste caso, a papaia, que ainda estava verde... 

Em segundo plano , parece-nos ser o  padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente  em 1953). 

 O Ernestino Caniço diz que não lhe parece que seja nem um nem outro, o seu amigo  José Torres Neves (hoje missionário da Consolata, reformado, à beira dos 90 anos) nem  o Júlio do Patrocínio.  Deviam ser então dois graduados, à civil, da CCS/BCAÇ 2885, presumimos nós.

Guiné > Região do Oio >  Mansoa > CCS/BCAÇ 2855 (1969/71)  > O alf mil Pires (à esquerda), com o oficial de dia (em segundo plano) e o alf graduado capelão José Torres Neves,  examinando a "cobiçada" AK-47 dos "turras")


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A expressão “apalpar a fruta”, com a sua inequívoca conotação brejeira, veio-me à ideia ao revisitar esta fotografia: dois militares à civil, em Mansoa, junto de uma papaieira generosa, um deles em gesto que não deixa de convidar ao duplo sentido. (Podiam ser o "nosso capelão" José Torres Neves, de costas e óculos escuros, mais o pároco de Mansoa, mas o Ernestino Canioço diz que não...)

De qualquer modo, a foto foi tirada pelo então jovem capelão castrense José Torres Neves, da CCS/BCAÇ 2855, de quem temos vindo a divulgar um notável espólio da Guiné (cerca de 400 fotografias). Hoje, missionário aposentado, à beira dos 90 anos, foi testemunha atenta, e sensível, de um tempo duro.  Na outra fotografia, vemo-lo a examinar uma AK-47 apreendida aos guerrilheiros do PAIGC: um padre entre a cruz e a espingarda, entre o cuidado das almas e a materialidade da guerra.

Mas voltemos à “fruta”, à "papaia"...(que em português são duas das dezenas de expressões do calão para a genitália feminina, a par de "catota", em crioulo da Guiné-Bissau).

A expressão levou-me a recordar um poeta popular do século XIX, analfabeto, calafate de profissão, natural de Setúbal, de resto conhecido como o "Calafate" ou o "Cantador de Setúbal": António Maria Eusébio (1820-1911). Dele nos ficaram alguns dos mais saborosos exemplos da nossa poesia erótico-satírica mas também jocosa, na melhor tradição popular que já vem das medievais  "cantigas de escárnio e maldizer".

Não por acaso, um dos seus poemas mais conhecidos foi selecionado pela Natália Correia para a sua célebre Antologia da Poesia Erótico-Satírica Portuguesa (1966), obra que o regime de António de Oliveira Salazar tratou de rapidamente proibir. 

Num país onde até o riso e a malícia eram policiados, aquela antologia foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco. A 1º edição esgotou-.se antes que a PIDE lhe pudesse pôr a mão em cima.

Recordo bem o escândalo da época: livros apreendidos, moral oficial ofendida, zelo censor muitas vezes exercido por servidores do regime, incluindo militares que serviram connosco no CTIG. 

Tudo isto num contexto em que a sociedade portuguesa vivia sob uma capa de puritanismo hipócrita, enquanto a vida real seguia, como sempre, outros caminhos (recorde-se o escândalo dos "Ballet Rose" , em finais de 1967, cuja denúncia  levou o advogado e politico da posição Mário Soares á prisão em Caxias e depois ao desterro, em São Tomé).

É também por isso que esta série  “Humor de Caserna” faz sentido: porque, mesmo em contexto de guerra, os homens (e algumas mulheres, as enfermeiras  paraquedistas) do CTIG souberam preservar algo de essencial, que era a capacidade de rir, de insinuar, de jogar com as palavras, de não perder a humanidade.

Já aqui em tempos tinhamos scrito, em comentário ao poste P4065 (*): 

(...) O humor (temperado q.b.) era, na Guiné, na BA 12 ou em Bambadinca, o nosso talismã, a nossa mezinha, o nosso amuleto mágico, o nosso cinto de segurança, o nosso cordão detonante, a nossa "droga"... contra as balas de amigos e inimigos, contra a costureirinha, contra a Kalash, contra o RPG, contra o Strela (ainda não o havia no meu tempo, sou mais velhinho do que tu, Miguel...), contra o tédio, contra o desânimo, contra o medo, contra a desesperança dos dias, contra as abelhas, contra os mosquitos, contra o cozinheiro, contra o vagomestre, contra o sargento, contra o RDM, contra o capitão, contra o comandante, contra o Com-Chefe, contra os que, de um lado e do outro, glorificavam a guerra e a a morte, enfim,  contra Deus e contra o Diabo.(Passe a blasfémia, que nalguns países de fundamentalismo religiso daria pena de morte!) (...)

E retomando a expressão “apalpar a fruta”… com licença do dono ou da dona, que o respeitinho continua a ser muito bonito (e o riso ainda é mais!)... 

Para quem não conhece o "Calafate" (já aqui de resto  citado, na caixa de comentários ao poste P4065 (*), publicamos hoje, na montra principal do blogue, os divertidos versos sobre “A Quinta da Panasqueira”, pequena obra-prima de malícia e engenho.

Que tristeza era então, a de um país, ou melhor, de uma elite dirigente, beata, balofa, hipócrita, inquisitorial, falsamente puritana, que tinha acabado, em 1963, de mandar fechar as "casas de passe" e de pôr fim à proibição do casamento das... enfermeiras (que vigorava desde os anos 40).

A famosa Antologia, da Natália Correia, foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco numa sociedade que precisava cada vez mais  de respirar o ar fresco da liberdade...que só virá oito anos depois.
.

A Quinta da Panasqueira

por António Maria Eusébio, o "Calafate"

Mote

Fui apalpar as gamboas
Que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
meu saber ninguém disputa,
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura…
Gosto do que tem doçura;
Quero e gosto das mais pessoas
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira,
com licença da quinteira,
fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei,
dei cambalhotas e saltos,
depois de apalpar pelos altos,
pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta;
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda,
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.

Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua,
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros,
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima,
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
Num regato ao pé de um poço,
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
a menina dê-me um cacho,
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.

A resposta da quinteira

Mote

Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão
.


Glosa

Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me a tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.

(Versos brejeiros e satíricos,
cantigas para guitarra).


Fonte: Antologia de Poesia Erótica e Satírica Portuguesa - Selecção, prefácio e notas de Natália Correia, 3ª ed. Lisboa: Antígona / Frenesi, 1999. [1ª ed., 1966],pp. 278-281. (com a devida vénia...)

(Revisão / fixação de texto: LG)

________________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P4065: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-Quedistas (7): Os tomates do Capelão da BA 12, Bissalanca... e outras frutas (Miguel Pessoa)

(...) No meu tempo na Guiné, os tomates do capelão da BA12 eram muito cobiçados, muito por culpa das nossas enfermeiras pára-quedistas que, sempre que podiam, faziam uma colheita na horta que o padre A... mantinha junto à igreja da Base.

Era generalizada a opinião, entre quem deles se servia, de que os tomates do nosso capelão, embora pequenos, eram sumarentos e saborosos e enriqueciam qualquer salada. E sabe-se o gosto que o pessoal tinha por tudo o que lhe lembrasse a metrópole. E era vê-los a "deitar abaixo" uma saladinha feita com tomates fresquinhos, acabadinhos de apanhar. (...)

Guiné 61/74 - P27989: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Parte II: Bissau velha renascida, "by air": do Hotel Coimbra ao cais do Pijiguiti


Vídeo (2' 02'') > Guiné - Bissau > Abril de 2026 >  Estas imagens aéreas focam a Av Amílcar Cabral desde o Hotel Coimbra até ao porto de mar.. Música: José Carlos Schwarz

Vídeo (e legenda): © João de Melo  (2026).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Maio de 2025 >  João de Melo e Maria do Carmo, ao centro, acarinhados pela equipa de futebol local,  "Os Tigres do Cumbijã".


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Maio de 2025 > O João de Melo com os miúdos da escola (do ensino pré-primnário ao 6º ano)  que ele  e a esposa estão a ajudar com donativos recolhidos na região centro

Fotos (e legendas): © João de Melo  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


João Melo, nosso grão-tabanqueiro
desde 1/3/2009



1. O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), esteve de novo na Guiné-Bissau, em por volta de março/abril de 2026. 

Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha, e tem viajado regularmente, desde 2017,  com a esposa, Maria do Carmo, para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade". 

A viagem inclui a tabanca de Cumbijã onde distribui ajuda humanitária pelas escolas locais, e  apoia o clube de futebol local) (*). 

Este ano a população local fez-lhe uma singela mas justa homenagem, atribuindo o seu nome a uma rua da localidade.

Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra  
(**).

Este ano fez um vídeo com o seu drone, mostrando esta parte da cidade, renascida com a
Fénix.  Os nossos camaradas, que passaram por Bissau, há mais de meio século, ainda  reconhecerão alguns dos edifícios e sítios, ruas, praças e cais,  desse tempo, a começar pela catedral e o porto do Pijiguiti, e incluindo  antiga Casa Gouveia (que ficava em frente ao Café Bento, a famosa 5ª Rep).



Guiné-Bissau > Bissau > s/d > O edifício do Coimbra Hotel & SPA, fundado em 2001, sito no edifício do antigo estabelecimento comercial  Nunes & Irmão Lda, na Av Amílcar Cabral (antiga Av República). 

É o mais imponente edifício comercial do centro histórico de Bissau, da época colonial.  É vizinho da catedral católica de Bissau.

Foto: arquivo do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, cedida por Virgílio Teixeira (2020)


Guiné > Bissau > s/d (c. anos 60) > Sem legenda >  Av da República (hoje, Av Amílcar Cabral) >  Ao fundo no início da avenida, o Palácio do Governador, e a Praça do Império; do lado direito, a Catedral de Bissau (em segundo plano)...  

No final da avenida, tínhamos a Casa Gouveia, à esquerda, em primeiro plano, com a esplanada do Café Bento à direita (e contigua à  sede da Administração Civil: deste edifíci, só se vê praticamente o telhado, acima do arvoredo)

(Edição Comer, Trav do Alecrim, 1 -Telef. 329775, Lisboa). Colecção: Agostinho Gaspar  (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4612/72, Mansoa, 1972/74). 

Edição (e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010).



Guiné > Bissau > s/d > Vista aérea da Ponte Cais, Bissau. Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 119" . (Edição Foto Serra, COP 239 Bissau. Impresso em Portugal, Imprimarte - Publicações e Artes Gráficas, SARL).

Legenda: Porto de Bissau, ou ponte-cais, o edifício das Alfândegas, à direita, a praça com o monumento a Diogo Cão (derrubada a seguir à independência), a entrada para a Fortaleza da Amura, ao centro, e à esquerda, se não erro, a Casa Gouveia (ou um estabelecimento da Casa Gouveia... Este é que é (era) o coração de Bissau Velho... A marginal chama-se hoje Av. 3 de Agosto.

Bilhete postal da coleção do nosso camarada Agostinho Gaspar / Digitalização, legenda e edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010
________________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 3 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27984: No 25 de Abril eu estava em... (42): De férias, em Alquerubim, já com 17 meses de comissão...E tinha tudo para odiar a terra que me serviu de lar em ambiente de guerra, durante quase dois anos... Mas, não, passei a lá ir todos os anos... (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351, 1972/74)

Guiné 61/74 - P27988: Parabéns a você (2482): Joaquim Gomes Soares, ex-1.º Cabo At Inf da CCAÇ 2317 / BCAÇ 2835 (Gandembel e Nova Lamego, 1968/69)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 3 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27982: Parabéns a você (2481): Delfim Rodrigues, ex-1.º Cabo Aux. Enfermeiro da CCAV 3366 / BCAV 3846 (Susana e Varela, 1971/73)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Para sermos francos, já outros se aventuraram a pesquisar e corrigir as narrativas familiares envolvendo militares na guerra de África e os filhos que aqui ficaram ou que eventualmente tenham podido acompanhar as comissões dos pais. É mais uma janela que se abre para o estudo caleidoscópico da guerra, temos relatos de enfermeiras-paraquedistas, mulheres de militares que os puderam acompanhar, histórias de madrinhas de guerra, isto para não falar já de impressionantes relatos deixados por combatentes, estou a lembrar-me do pungente e dramático relato do Capitão Salgueiro Maia intitulado "Crónica dos Feitos da Guiné", a descrição que ele faz da coluna que vai até Guidaje completamente cercada por uma operação de grande envergadura do PAIGC, em maio de 1973. Sem margem para dúvidas, somos agora confrontados quanto ao modo como os militares procuravam desempenhar o seu papel de pais, enviando inclusivamente bobines com histórias apropriadas para menores; é uma troca de correspondência, como dizem as autoras, uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança, a par dos valores e dos contextos sociais que marcaram uma época fundadora na história do país.

Um abraço do
Mário


Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 6

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente parte para a sua segunda comissão em março de 1970. Os filhos, Ana, a fazer catorze anos, Zá com doze, Cristina com onze e João com três estarão no Cais da Rocha do Conde de Óbidos. A mãe está grávida de uma menina que havia de nascer uns meses depois, Margarida. Os filhos mais velhos estão nos colégios internos, no Colégio Militar e no Instituto de Odivelas. A primeira comissão de João Serôdio foi na Índia. A filha Cristina recorda: “Ele estava lá sozinho. Escrevia para a mãe quase todos os dias. Temos a correspondência toda que o pai enviou para cá. A que a mãe enviou desapareceu.”
O pai enviava para a família uma mensalidade de quatro contos.

Ficará em casa oito anos, durante os quais frequentará vários cursos. A família não o vai acompanhar quando ele parte para Luanda, alguns dos filhos irão lá visitá-lo. O Colégio Militar deixou alguns traumas ao filho Zé. O pai dá conselhos: “Tens de saber ser forte na adversidade. Tens de reagir e não podes fraquejar. Crê, meu filho, que todos os homens encontram na sua vida mais obstáculos que facilidades. Mas, aqueles que desistem, que cruzam os braços, são arrastados para situações medíocres e são durante toda a vida infelizes porque sentem que não lutaram quando deviam.”
Há troca de correspondência com as filhas.

Quando nasceu Margarida, a mãe vai para o Porto para casa dos pais e leva o filho de três anos e a bebé recém-nascida. Segundo os filhos, a mãe sofre muito com a ausência do pai. Zé foi três vezes visitar o pai a Luanda, em 1972 foi a família toda sem a filha mais nova. João Serôdio pediu para continuar a comissão por oferecimento, foi um choque para toda a família. João Serôdio trabalhava diretamente com o General Costa Gomes, exerceu as funções de Chefe de Gabinete quando Costa Gomes foi Presidente da República. É numa destas cartas que encontrei a frase que vai encimando este conjunto de textos:
“Querido Pai,
Olhe que o pai faz mesmo muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu, onde está sozinho; só às vezes acompanhado por espírito.”

O pai regressa em junho de 1974, João tem então sete anos e lembra-se que o pai lhe observava que devia dobrar os calções ao deitar, não pôr os cotovelos na mesa.

João Menino Vargas tem muito a ver com Ana Vargas, a prosa que se segue é muito enternecedora:
“Há uma caixa de madeira em cima da mesa à volta da qual estamos à conversa. Aqui se guardam, há muito tempo, cartas, diários antigos, aerogramas e fotografias. São memórias relacionadas com a vida militar de João Vargas, pai de Luís, Ana e Cristina. Entre eles e connosco vai surgir uma reflexão sobre o passado familiar e comum, em grande medida marcado pela passagem do pai pela guerra colonial.”

João entra na Academia Militar com dezasseis anos. É filho de um capitão. João sai da Academia como oficial de artilharia, namora com Beatriz, estudante no Instituto de Odivelas, Beatriz tem nove irmãos, veio para Lisboa tirar um curso de costura após o qual ficou a trabalhar em casa, dando também aulas deste ofício. O pai de Beatriz é destacado para Timor como comandante-militar, leva consigo cinco dos dez filhos entre os quais Beatriz. Como ela já namorava com João, este ofereceu-se como voluntário para acompanhar, não podiam ainda casar, quer pela idade quer pelos rendimentos.

João Vargas escreveu que ficou chocado com a penúria e o atraso com que viviam os timorenses:
“Eram obrigados a trabalhar um mês de borla para a Administração, período muitas vezes ampliado para dois meses, ou o que fosse decidido pelas autoridades administrativas locais; a que se somava o imposto de capitação, que todos os homens eram obrigados a pagar, vulgo imposto de palhota e, para completar o quadro, estavam sujeitos a serem arrebanhados para as plantações de café, sempre que os fazendeiros precisavam de trabalhadores, aos quais depois pagavam salários miseráveis. Os castigos corporais eram moeda corrente.”

Beatriz e João casam em 1960. Um ano depois nasce Luís. Em 1964 a família deixa Timor. Quatro meses depois, João é mobilizado para Tete em Moçambique. Vai a família toda, Beatriz, Luís e Ana. Em 1966 nasce Cristina. Regressam todos de Moçambique. João escreveu sobre esse tempo: “Na pacatez de Tete, parte da população branca não escondia as suas simpatias pela política de apartheid e a discriminação racial era evidente. Era do conhecimento público a colaboração das autoridades na angariação de donativos para trabalho de escravo e o seu envio forçado para a colheita da cana-de-açúcar da Sena Sugar sem que alguém manifestasse discordância.”

No regresso ficam a viver na Escola Prática de Artilharia. É por essa altura que um familiar, o tio Joãozinho, um dos irmãos da mãe parte para a Guiné e na própria noite em que chegaram ele morre num acidente, estava de oficial de dia, ia passar a ronda, o desgraçado que o abateu ouviu um barulho, ele morreu com dezassete tiros. João Vargas é mobilizado pouco tempo depois para a terceira comissão, vai para a Guiné, a família não o pode acompanhar. João é colocado em Nova Lamego. Pouco depois da partida do pai, Luís entra para o Colégio Militar, Ana vai para o Instituto de Odivelas, Cristina ainda com cinco anos, fica com a mãe em casa. Beatriz irá trabalhar como bibliotecária. Troca-se muita correspondência, o tema dos estudos é recorrente. A família envia a João gravações de músicas. No regresso virá muito mais tenso. João tece o seguinte comentário: “Vinha necessitado de mostrar que era quem mandava. Nós estávamos habituados a maior autonomia e independência.”

Estamos chegados ao 25 de abril. Após a morte recente dos pais, os filhos têm encontrado mais correspondência, postais e outros textos. Num deles, já no ocaso do regime e sobre a sua passagem pela Guiné, o pai deixou escrito:
“A guerra tem consequência interessantes. Curiosamente, as pessoas sentem-se libertas para dizerem o que lhes vai na alma. A PIDE era ali omnipresente, mas para o combatente é-lhe indiferente. Ouvem-se afirmações, alto e bom som, de verdadeira revolta: eu estou aqui porque o meu pai não me deu dinheiro para emigrar; estou aqui, porque não posso abandonar a minha família, senão tinha emigrado; se eu fosse africano também lutaria pela independência.”

Ao terminar a conversa os filhos de Beatriz e João, Luís dirá: “Pela maneira como se encara as guerras, parece que a gente está a ver na televisão, parece quase um filme. Nem se percebe às vezes, que de ambos os lados há vítimas e mesmo o maior facínora tem família.”

Estamos praticamente no fim desta belíssima recolha de narrativas, concluiremos na próxima semana.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27976: Notas de leitura (1918): Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27986: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não...Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte I: O Natal do Cumbijã é em Abril


Vídeo (2' 50'') >  Guiné- Bissau > Região de Tomabali > Cumbijã > Abril de 2026 > Compilação de fotos da distribuição de material didático, roupas e calçado nas Escolas de Cumbijã / Guiné-Bissau, do ensimno pré-escolar ao 6º ano. 
Doadores: Hospital São Miguel / ULS Entre Douro e Vouga (Oliveira de Azeméisd); Resende Seixas, Publicidade (Albergaria-a-Velha); BEPPI, calçado (Feira). Música de fundo, dos Supoer Mama Djombo

Vídeo (e legenda): © João de Melo  (2026).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné João Reis Melo 


1. João Melo (ou João Reis de Melo): (i) ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74); (ii) tem página do Facebook; (iii) é natural de Alquerubim, Albergaria-A-Velha, distrito de Aveiro; (iv) profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim; (v)  integra a Tabanca Grande desde 1/3/2009.

É um dos "Tigres do Cumbijã" da nossa Tabanca Grande, a par do:

  • Vasco da Gama, o "tigre-mor" (autor das séries "Banalidades da Foz do Mondego" e "A história dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama";
  •  Joaquim Costa (autor do livro "Memórias de Guerra de um Tigre Azul: O Furriel Pequenina, Guiné: 1972/74", Rio Tinto, Gondomar, Lugar da Palavra Editora, 2021, 180 pp.);
  • e ainda do António Joaquim Alves , que nunca chegou a beber a água do Cumbijã, tendo ficado colocado no Combis, em Bissau.

Há dias o João Melo escreveu aqui o seguinte a propósito do 25 de Abril de 1974 (*):


(...) Casualmente, estava de férias em Portugal, já com 17 meses de comissão. E foi aqui, longe do teatro de guerra, mas perto do coração do país, que assisti ao início do fim de um tempo que parecia não ter fim.

(...) Eu tinha tudo para ter de odiar a terra em que me serviu de lar em ambiente de guerra, durante quase dois anos. Particular e inexplicavelmente, acontece exatamente o contrário: faço hoje, juntamente com a minha esposa Maria do Carmo, visitas quase anuais, de voluntariado junto de umas centenas de alunos das escolas da aldeia de Cumbijã, na Guiné-Bissau, onde estive estacionado a cumprir o serviço militar obrigatório. (...)

2. E este ano, em abril de 2026, o João Melo e a Maria do Carmo lá voltaram, àquela terra verde-rubra que deve ter alguns secretos encantos, como a sereia que seduz os velhos marinheiros e combatentes...

Descobrimos que o Natal no Cumbijã é em Abril... Mas o João Melo e a Maria do Carmo são mais do que o Pai Natal e a Mãe Natal para aquelas crianças (e adultos) que tão ansiosamente esperam a sua visita anual...

Mais do que as "prendidas" (roupa, calçado, guloseimas, material escolar...), eles trazem sonho, esperança, ternura, solidariedade, humanidade..., "coisas" que são "valores sem preço" num mundo em que tudo foi transformado em "mercadoria", rapidamente descartável...

João e Maria, que os bons irãs vos protejam, e continuem a dar-vos saúde e motivação para a prossecuação da vossa nobre missão. Tiro o quico ao vosso empenho e determinação, mas também bom senso e bom gosto... 

Afinal, podiam estar a gozar a vossa rica reforma a fazer um daqueles cruzeiros caros e estúpidos naqueles "arranha-céus flutuantes" que os italianos inventaram... e que são o símbolo perfeito do excesso em que o turismo de massa se tornou: um negócio que vende a ilusão de luxo, glamour, exotismo e  aventura, mas que, na realidade, é uma fábrica de desperdício, poluição, desigualdade e, muitas vezes, humilhação disfarçada de hospitalidade (que o digam os habitantes de Veneza, de Bari, de Dubrovnik, de Sarande, de Atenas,  de Santorini...).

(Revisão / fixação de texto, título, itálicos, negritos: LG)
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27985: Em bom português nos entendemos (31): Carica papaya: Papaieira, mamoeiro, papaia, mamão, ababaia...



Guiné-Bissau >Bissau > Impar Lda > 2019 >  Belíssimo postal de boas festas que nos chegou, com data de 16/12/2019,   de Bissau, no correio do Patrício Ribeiro, "patrão" da empresa Impar Lda. (Na imagem acima, uma papaieira, árvore caricácea que produz a papaia: vê-se que ainda estavam verdes...).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >   O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta" (sem qualquer conotação sexual...), neste caso, a papaia, que ainda estava verde... Em segundo plano , parece-nos o  padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente  em 1953).  O Ernestino Caniço não restante nem um nem outro, o José Torres Neves e o Júlio do Patrocínio. Devem sere então dois graduados, à civil, da CCS/BCAÇ 2885.

Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do Patrício Ribeiro > Abril de 2026 >  Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya).  uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Isto de frutas tropicais e subtropicais tem muito que se lhe diga... Papaia ou mamão ? É tudo a mesma coisa, só diferem no tamanho ?... O mamão maior e mais arredondado, e a papaia mais pequena e alongada ?...

Mamão, papaia ou ababaia é o fruto do mamoeiro ou papaeira, árvores da espécie  Carica papaya (nome científico).

A espécie é nativa do sul do México, América Central e norte da América do Sul, estando naturalizada nas Caraíbas, Flórida e diversas regiões de África e Ásia. 

A espécie é cultivada como fruteira no  Brasil, Índia, Austrália, Malásia, Indonésia, Filipinas, Angola, Havai e muitas outras regiões dos trópicos e subtrópicos... A Índia é o 1º produtor mundial, seguida do Brasil... E também cresce, e bem, no quintal do Patrício Ribeiro, o "pai dos tugas", em Bissau (*)...

Diz o Alberto Branquinho: 

"Da minha experiência nas andanças pela Guiné, fiquei com as seguintes ideias:

  • o mamão tem a configuração de um melão pequeno;
  • a papaia (cortada de cima - pedúnculo de fixação à planta - até à parte inferior) tem a configuração de uma viola
Ambos os frutos, quando bem maduros, têm cor idêntica (laranja forte).

Tanto em Cabo Verde como no Brasil encontrei pessoas que chamam mamão a ambas. A palavra 'ababaia' não conheço!"

sábado, 2 de maio de 2026 às 22:58:00 WEST 

2. O que apurámos  na Net, permite distinguir o seguinte:

Eventuais diferenças:

(i) Papaia (Hawai): fruto mais pequeno, peso à volta de 300g / 500g, polpa laranja intenso, muito doce e ideal para comer à colher;

(ii) Mamão (Formosa): fruto maior, pode pesar mais de 1 kg, polpa laranja claro/amarelo, sabor mais suave, ótimo para sucos e saladas.

No Brasil e em Angola, diz-se mamão.
 Mas também papaia: "em Angola utilizam-se os termos mamão / mamoeiro para identificar o fruto mais arredondado, identificando papaia / papaeira com o fruto mais alongado. São frutas ovaladas, com casca macia e amarela ou esverdeada. Sua polpa é de uma cor laranja forte, doce e macia. Há uma cavidade central preenchida com sementes negras". Distingue-ser duas variedades: mamão Formosa e mamão Hawai, que se dão muito em Angola, comforme a zona e o clima. 

Em Portugal,  na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, usa-se mais o termo papaia (e papaia gigante nos mercados em Bissau: vd aqui foto de Cabral Fernandes Yasmine, à direita).

No hiper onde  faço compras (o Auchan Alfragide, passe a publicidade), chamam papaia ao fruto mais pequeno e mamão ao maior... Vem do Brasil o mamão...

Na messe, em Contuboel e Bambadinca, comíamos manga,  papaia, banana e abacaxi. Na época destes frutos... Havia ainda algumas  "pontas" (quintas) em atividade, nos arredores, aonde nos abastecíamos de frutos tropicais... A ponta Brandão, por exemplo, entre Bambadinca e Fá Mandinga... 

Tal como nas tabancas em autodefesa: não me lembro de ter comprado, davam-nas...Mas quentes não tinham o sabor que têm hoje...E, estupidamente, nem sumos fazíamos. Também não tínhamos gelo nem máquinas de sumos... E aos vagomestres faltava-lhes imaginação (e formação)... Havia tantas coisas boas na Guiné. Mas dava trabalho arranjá-las... E estávamos em guerra, tínhamos vinte anos e éramos etnocêntricos (o que quer dizer, sem ofensa para ninguém, estúpidos!)

 Mas, se bem me lembro, comia-se mais o abacaxi e a banana. A manga existia em abundância, era "mato". A papaia era mais rara. Não havia grandes extensões de papaieiras. Era cultura de quintal.  Cada árvore (uma herbácea...) dava meia dúzia de papaias. 

A agricultura da Guiné era de autossubsistência. A guerra deu cabo das "pontas". E pensar  (ironia da História!)  que foi um engenheiro agrónomo (!) do ISA  e um professor de finanças, de Coimbra,  de botas de elástico,   que deram cabo de tudo aquilo... Hoje a Guiné poderia ser um paraíso. 


3.  Valha-nos, ao menos,  a nossa bela e rica língua comum... Vejamos então o que dizem os lexicógrafos (**):  s
egundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa , "papaia" é fruto da "papaieira", e a palavra seria de origem caribe, por via do espanhol. 

(Tenho a edição completa, 6 volumes, do Círculo de Leitores, Lisboa, 2003; uma grande obra, o melhor que conheço, só é pena que o tipo de letra  seja de tamanho pequeno, dificultando a leitura e tornando a consulta penosa para a vista, e portanto menos amigável;  o editor português quis pôr o Rossio na Betesga...)

Sinónimos de papaia: bepaia, mamão, mamoa.

A etimologia vem do espanhol "papaya" (1535), palavra indigena americana , caribe ou aruaque (impossível determinar com rigor a origem, alguns autores inclinam-se mais para o caribe: "papai").

Papaieira é a árvore (Carica papaya, nome científico ). Sinónimos: ababaia, bepaia, mamão, mamoeiro, pinoguaçu...´

Na Guiné-Bissau, e em Cabo Verde, tal como em Portugal, diz-se "papaia" e "papaieira". No Brasil, e em Angola, é "mamão". Veja-se o provérnio crioulo da Guiné-Bissau:

Ami i rasa papaia: N ka ta durmi na bariga di algin (=eu sou como a papaia: não fico parado na barriga de ninguém).

4.  O vocábulo  "ababaye" (ou "ababaya") existe em francês antigo e em alguns dialetos, referindo-se à papaia (Carica papaya). Os franceses, que colonizaram partes das Caraíbas (como a Martinica e a Guadelupe), podem ter adaptado o termo para "ababaye", que depois foi reimportado para o português como "ababaia".A forma "ababaia" em português pode ser um empréstimo ou adaptação desse termo. 

Em Portugal, o termo já não se usa, mas aparece em textos antigos ou em regiões com influência colonial, onde a papaia era cultivada e consumida (regiões tropicais e subtropicais)

Curiosidade linguística: a papaia (Carica papaya) é originária da América Central, mas espalhou-se pelo mundo através dos colonizadores. Os franceses, que também tiveram presença em África e nas Antilhas, podem ter introduzido o o termo "ababaye" em algumas regiões lusófonas, onde depois foi adaptado para "ababaia".

Os caribes são um povo indígena das Caraíbas, conhecidos pela sua resistência à colonização europeias.  É interessante as "voltas" que as palavras dão...

Em Cabo Verde, diz-se "papaia",
é um dos fabulosos frutos tropicais
que as ilhas produzem

5. No mundo lusófono, não há registos conhecidos de "ababaia" como termo corrente para papaia. No entanto, o Dicionário Houaiss regista-o. 

No Brasil, "ababaia" também aparece como gíria ou calão para genitália feminina em português. Mas terá  uma origem mais provável no tupi do que no francês.   (Com esta aceção, o Houaiss não regista o termo, encontrámo-lo noutras fontes).

Segundo a  ferramenta de IA que consultámos  (Le Chat / Mistral AI), "ababaia" aparece em dicionários de tupi antigo (ou tupinambá) como termo relacionado com a vulva ou órgão sexual feminino.

Em tupi, "aba" pode significar "homem" ou "pai", mas também aparece em compostos com sentido erótico ou anatómico. "Baia" (ou "aia") pode estar ligado a "abertura" ou "local", mas, em contexto brejeiro o termo foi adaptado para o calão.

O vocabulo é documentado em obras como o "Vocabulário na Língua Brasílica" (século XVII), de Luís Figueira, onde constam palavras de origem tupi para partes do corpo, incluindo termos tabu.

No português brasileiro, "ababaia" é gíria antiga (e hoje menos comum, omisso na "Bíblia da Língua Portuguesa" que é o Dicionário Houaiss) para designar a genitália feminina, especialmente em contextos de calão ou linguagem pícara, brejeira ou até pornográfica.

Aparece em literatura erótica ou popular, como em modinhas, cordéis ou até em obras de Gregório de Matos (século XVII), que usava termos indígenas em seus poemas satíricos.

"Ababaye" em francês não tem registo como termo para genitália feminina. A hipótese francesa é mais plausível para papaia (fruta), mas não para este sentido anatómico. 

6. A influência tupi no português brasileiro é massiva em gírias, especialmente em termos relacionados com o corpo, sexo ou natureza. Exemplos:

  • "Pindorama" (terra das palmeiras, nome indígena para o Brasil);
  • "Cunhã" (mulher, em tupi);
  • "Perereca" (sapo, mas também gíria para genitália feminina).


Em Portugal, o termo "ababaia", não sendo hoje corrente, pode ter chegado, por influência brasileira, através de marinheiros, comerciantes ou imigrantes que trouxeram a gíria. Ou da literatura e do teatro, em obras que retratavam o Brasil colonial ou a vida nos trópicos.

O uso de termos indígenas para partes íntimas (ou "vergonhosas") reflete: 

(i) tabu e eufemismo: os povos indígenas tinham palavras específicas para o corpo, que foram adotadas  (e ao mesmo tempo "interditas") pelos colonizadores; 

(ii) resistência cultural: mesmo em contextos de opressão, a língua tupi sobreviveu no calão e na gíria, como forma de resistência.

Em português,  a vulva é conhecida por termos da gíra e calão como pipi, pipica (informal, entre crianças e adolescentes); pito, pepeca, ostra, crica, berbigão,  entrefolhos,  nêspera, greta, papaia (informal, entre os adultos). (E "catota", nio crioulo da Guiné.)

(Pesquisa: LG +  IA (Le Chat / Mistral AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG).
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27978: Bom dia. desde Bissau (Patrício Tibeiro) (64): Hoje, Dia do Trabalhador, foi tudo para a praia.. Só cá ficaram os que saíram na 3ª caravela do Vasco da Gama, na passagem para a Índia, como eu...

domingo, 3 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27984: No 25 de Abril eu estava em... (42): De férias, em Alquerubim, já com 17 meses de comissão... E tinha tudo para odiar a terra que me serviu de lar em ambiente de guerra, durante quase dois anos... Mas, não, passei a lá ir todos os anos... (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351, 1972/74)


Guiné-Bissau > Bissau > Hotel Coimbra > 31 de março de 2026 > De novo, na Guiné-Bissau, em 2026, o nosso João Melo, aqui à direita, em primeiro plano, com a Inês Allen (ao fundo, de pé) e os "metralhas de Empada"

Escreveu o João Reis Melo, na sua página do Facebook, no passado dia 3 de abril de 2026, 12:41:


"A jovem Inês Allen, filha do nosso camarada e antigo combatente Xico Allen, tem com muito empenho mantido a cooperação iniciada pelo seu pai na Guiné-Bissau, mesmo após a sua ausência com principal incidência em Empada. Quis o acaso, que desta vez nos cruzássemos em solo guineense!
Estão assim todos os "Metralhas de Empada" e os "Tigres de Cumbijã" em uma sintonia perfeita.

Quando gente de bem, de coração aberto e bom se reúne, a vontade de continuar e aumentar estas cooperações evoluem na tentativa de minorar tantas lacunas!

Foi bom conhecê-la – a ela e a toda a equipa que com ela está empenhada.

Fica aqui um registo desse encontro, feito na passada terça-feira, 31 de março no Hotel Coimbra em Bissau. Um bem-haja a todos!"



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Abril de 2026 > Singela (mas sincera) homenagem das gentes de Cumbijã ao seu "benfeitor", João de Melo.

Fotos (e legendas): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1.  Postagem do nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo) (ex-1º cabo cripto, CCAV  8351/72,  "Os Tigres do Cumbijã", Cumbijã, 1972/74). na sua página do Facebook, em 26 de abril de 2026, 13:38; natural de Alquerubim, Albergaria-A-Velha, distrito de Aveiro,  profissional de seguros, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha; integra a Tabanca Grande desde 1/3/2009.


O "Meu" 25  de Abril

por  João Reis Melo

Hoje celebramos o dia em que Portugal voltou a respirar. O dia em que um povo inteiro acordou com a notícia que mudaria para sempre o seu destino. O dia em que a coragem falou mais alto do que o medo, e em que a esperança venceu o silêncio: o 25 de Abril de 1974.

A essa data, eu era militar, servia a Pátria na antiga Província da Guiné (atual Guiné-Bissau), no meio de uma guerra longa, dura e cheia de incertezas, e das quais a mais preocupante,  na altura, era a possibilidade de poder não voltar.

Casualmente, estava de férias em Portugal,  já com 17 meses de comissão. E foi aqui, longe do teatro de guerra, mas perto do coração do país, que assisti ao início do fim de um tempo que parecia não ter fim.

Há datas que não pertencem apenas ao calendário,  pertencem à memória, à identidade e ao futuro de um país. O 25 de Abril é uma dessas datas. 

O 25 de Abril trouxe-nos algo que muitos julgavam impossível: entre elas, o fim da guerra do Ultramar e o regresso da esperança.

Mas Abril não foi apenas um acontecimento militar. Foi, acima de tudo, um ato de cidadania coletiva. Foi o povo nas ruas, os cravos nos canos das espingardas, os abraços entre desconhecidos, a alegria que transbordava das janelas e das praças. Foi a certeza de que ninguém pode calar para sempre um país inteiro.

Hoje, passados tantos anos, Abril continua a chamar por nós:

  • Chama-nos a defender a liberdade, porque nenhuma conquista é eterna;
  • Chama-nos a proteger a democracia, porque ela vive do nosso compromisso diário;
  • Chama-nos a combater a desigualdade, porque a liberdade só é plena quando chega a todos;
  • Chama-nos a participar, a questionar, a sonhar, a agir.

Abril, trouxe-nos a liberdade, não só de expressão, mas de futuro. De repente, abriu-se um caminho novo, onde antes só havia desgaste, medo e resignação.

Para quem viveu a guerra, como eu, o significado foi ainda mais profundo. Foi o fim, de uma realidade pesada e o início de uma reconciliação com a vida, com as famílias e com o próprio país. Para quem esteve lá, para quem viveu o conflito por dentro, aquele dia teve um significado impossível de esquecer.

Hoje, mais do que recordar, importa tudo fazer o que esteja ao nosso alcance para que os vindouros não tenham de passar por tudo o que os seus ascendentes foram obrigados a passar.

Celebrar Abril não é repetir slogans,  é assumir responsabilidades. É garantir que nunca mais haverá portugueses impedidos de pensar, de falar, de votar, de ser. É lembrar que a liberdade não é um dado adquirido: é um trabalho permanente.

É também reconhecer aqueles que, antes de nós, arriscaram tudo. Os que foram presos, perseguidos, censurados. Os que lutaram nas sombras para que hoje pudéssemos viver à luz. Os que acreditaram que Portugal podia ser maior do que o medo.

Portugal nunca poderá esquecer os cerca de 10 mil  jovens portugueses que,  quando se despediram das famílias, nunca imaginariam que seria a última vez. Dos mais de 20 mil feridos graves e inválidos.Dos c. 150 mil  jovens que vieram e mantiveram distúrbios e sequelas psicológicas.

Também não devemos esquecer os mais de 45 mil civis e guerrilheiros dos movimentos de libertação, que perderam a vida durante os 13 anos que duraram os conflitos.

A melhor homenagem que lhes podemos prestar é continuar a construir o país que imaginaram: um país mais justo, mais solidário, mais culto, mais livre.

Eu tinha tudo para ter de odiar a terra em que me serviu de lar em ambiente de guerra, durante quase dois anos. Particular e inexplicavelmente, acontece exatamente o contrário: faço hoje, juntamente com a minha esposa Maria do Carmo, visitas quase anuais, de voluntariado junto de umas centenas de alunos das escolas da aldeia de Cumbijã, na Guiné-Bissau, onde estive estacionado a cumprir o serviço militar obrigatório.

Hoje, ainda posso sentir o cheiro daquela terra africana, quente e húmida, com aqueles odores que se entranham na alma, resultado de uma miscelânea de odores, desde as flores da goiaba, do mango e do caju, misturados com o da lenha queimada que serve diariamente de fonte de calor nas suas cozinhas. Cozinhas essas, feitas sobre três pedras poisadas no chão…. 

Hoje, ainda posso recordar aqueles olhares de felicidade e esperança no futuro que guardo desde poucas semanas atrás, dia em que vim de junto deles; é para mim um lenitivo para continuar e, dentro das minhas possibilidades,  manter enquanto a vida me o permitir.

E porque Abril não é passado, é futuro. E o futuro constrói-se todos os dias, com cada gesto, cada escolha, cada voz.

Por tudo isto, neste 25 de Abril, deixo uns apelos simples:

  • Que nunca deixemos de lutar pelos valores que nos trouxeram até aqui;
  • Que nunca deixemos que o medo substitua a esperança;
  • Que nunca deixemos que o silêncio substitua a palavra;
  • Que nunca deixemos que a indiferença substitua a participação.

Porque naquele dia, ganhámos muito mais que o fim de uma guerra. Ganhámos um novo começo. E enquanto houver memória, verdade e coragem no coração de Portugal… o 25 de Abril nunca acabará.

Viva a Liberdade. Viva a Democracia. Viva o 25 de Abril!

Alquerubim, 25 de Abril de 2026

João Reis Melo

(Revisão/ fixação de texto, negritos,  

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Nota do editor LG: