1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 31 de Agosto de 2026:Queridos amigos,
O Tenente-Coronel Bello de Almeida não se limitou a repescar dados publicados em Tributo de Sangue, monografia das campanhas da Guiné, de António da Silva Loureiro, consultou Boletins Oficiais, relatórios, pesquisou nos arquivos. Se fizermos agora o cruzamento de várias obras congéneres, verificamos que há dados pertinentes em falta, logo o chamado massacre de Bolor, que causou profunda consternação no governo de Lisboa e desencadeou a desafetação da Guiné de Cabo Verde.
Os pontos salientes deste trabalho são os locais onde houve sublevações, operações militares, defesa das praças, facilmente concluímos quais eram os pontos nevrálgicos da Guiné das praças e presídios logo Cacheu, Geba, Buba, Bissau, há um silêncio completo sobre Farim, Fá e Bijagós. O grande incêndio era o Forreá, Bolama está a nascer, a presença nos Bijagós é ínfima, a correnteza comercial do rio Geba ia da praça de Bissau ao presídio de Geba. As sublevações prolongar-se-ão até ao início do século XX; curiosa é a acalmia em pontos que ganharão efervescência no século XX em toda a região de Mansoa. É bom relembrar que só se poderá falar da colónia da Guiné e da sua superfície a partir de 1886, depois da Convenção Luso-Francesa de 12 de maio.
Abraço do
Mário
Meio século de lutas no Ultramar (Guiné), pelo Tenente-Coronel Bello de Almeida, edição da Sociedade de Geografia de Lisboa em comemoração da Semana das Colónias, 1937 - 1
Mário Beja Santos
Como todo e qualquer pesquisador, não é incomum sentir-me inquieto quanto à utilidade das investigações em curso, e pensava concretamente no levantamento crítico que fizera ao Boletim Oficial da Costa da Guiné, Colónia e Província da Guiné, se podia ser usado como termo de aferição para outros estudos em matérias congéneres. Quem me dá muito apoio na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, a Dra. Helena Grego, surpreendeu-me com esta publicação que, no fundo, é uma das possíveis respostas ao manejo da diversidade documental que subjaz ao rigor histórico. O trabalho de Tenente-Coronel Bello de Almeida é um levantamento de todas as lutas no Império, obviamente que aqui só se vai anotar os acontecimentos havidos na Guiné, começando pela sublevação de Cacheu, em 1871, era então Comandante das Forças Coloniais J. A. Marques. O que acontecera?
O Governador da Guiné, Mário Teles Caldeira, reagiu à sublevação com uma coluna expedicionária de Caçadores n.º 1, com a cooperação de navios da Armada e auxiliares, a povoação foi arrasada e os sublevados severamente castigados.
Em 1880, houve que defender a Praça de Buba, pois em 1 de fevereiro os Fulas atacaram a Praça e foram repulsos com grossas perdas. Os civis, entre eles franceses, participaram na defesa. Dois anos depois, no mesmo local, houve operações militares. Em julho, a região foi teatro de devastações e atos de rebeldia praticados por gente de Mamadu-Paté. Foi nomeada uma coluna para o Forreá, sob o comando do Tenente-Coronel Francisco Rosa e foi batido o régulo Bacar-Quidali, este apresentou-se na fortaleza a pedir a paz, pagou indemnização dos roubos feitos nas feitorias do Rio Grande.
Em 1884, houve operações em Cacanda (região de Cacheu), comandou a operação o Tenente-Coronel Eusébio Catela do Vale que desalojou os revoltosos e perseguiu-os nas florestas circunvizinhas. Em 1886, houve operações militares em Geba. Em 19 de junho, uns quinhentos Fulas comandados pelo filho de Umbuco, assaltaram duas tabancas na região de Sancorlã, que estavam sob a proteção de Mussá-Molô. Este régulo, em represália do ataque, avançou com a sua gente sobre algumas populações das imediações do Presídio de Geba, que nenhumas culpas tinham na ação dos Fulas. O chefe do Presídio, Tenente Francisco Marques Geraldes, organizou prontamente uma coluna de duzentos homens e atacou tabancas daquele régulo, arrasando-as e pondo em fuga os seus defensores. Não dispondo de forças suficientes para prosseguir no castigo e vendo que a paz ainda não ficara consolidada, preparou nova expedição, composta de oitenta Praças de 1.ª linha e de cerca de 4.500 indígenas auxiliares (Biafadas, Mandingas, Fulas fiéis). A coluna, em plena estação das chuvas, atacou Mussá-Molô nas tabancas fortificadas de Fancá, bateu o régulo – e assim acabou a lenda de invencibilidade que lhe era atribuída.
Temos novas operações militares em Geba, em 1889. O régulo de Ganadu revelava abertamente desobediência às autoridades, e o Governador mandou efetuar a sua prisão e de quatro dos seus conselheiros. O ato não surtiu efeito, a gente do regulado revelou-se hostil, houve que nomear uma coluna para rebater os revoltosos, comandada pelo Capitão António José Machado, depois de sangrenta luta conseguiu dominar os rebeldes.
No ano seguinte procedeu-se a uma diligência policial em Buba. Na tarde de 19 de junho, o comandante militar desta Praça ordenou ao Alferes José Moreira do Carmo para intimar o régulo Mamadu-Paté, do Forreá, a comparecer naquela Praça para prestarem informações sobre uma ocorrência. O régulo não acatou a intimação como tentou assassinar aquele oficial. Gerou-se confusão e Mamadu-Paté foi abatido a tiro. Saiu uma nova força de Buba que dominou os indígenas do Forreá que, amotinados, tentavam vingar a morte do seu régulo.
Nesse mesmo ano e até março de 1891 houve operações militares na circunscrição de Geba. A gente do território Fula nas imediações de Geba, vendo que os Papéis de Bissau ali entretinham as nossas forças com contínuos ataques à fortaleza, revolta-se contra a nossa autoridade. O régulo Mali-Boiá, um dos principais chefes Fulas, auxiliado por outros régulos, assalta à mão armada os povos nossos amigos, tentando expulsar de Ganadu o respetivo régulo, aliado dos portugueses. O governo da Província organizou uma coluna com as unidades da guarnição e numerosos auxiliares indígenas fiéis, colaboraram também três canhoneiras, castigaram-se severamente os revoltosos, infligiram-se numerosas baixas, Mali-Boiá, principal régulo rebelde, conseguiu fugir. Esta coluna ainda encontrou energias para auxiliar as nossas forças na defesa da Praça de Bissau. Era comandante das operações o Capitão Zacarias de Sousa Lage.
O que leva agora a tratar a defesa da Praça de Bissau e falar da sortida sobre Antim e Bandim em março e abril de 1891. Em fevereiro de 1891, a ilha de Bissau começou a dar indícios de uma emergente revolta. Por prudência, o governo mandou para a Praça a unidade de Caçadores n.º 1 e a bateria de artilharia. O gentio começou a atacar a fortaleza, organizando um alerta permanente, com o apoio de duas lanchas canhoneiras. Em 19 de abril, saiu da Praça uma coluna que se dirigiu a Antim, acompanhada de alguns auxiliares indígenas. Em Antim, a coluna foi repentinamente atacada, houve que retirar, veio em seu auxílio uma outra força de Bissau que livrou a coluna de uma chacina total.
O Tenente-Coronel Bello de Almeida cita como bibliografia a obra Tributo de Sangue, monografia das campanhas da Guiné, de António da Silva Loureiro, bem como Boletins Oficiais da Província da Guiné, relatórios de oficiais arquivados no Arquivo Histórico Colonial (hoje Ultramarino).
Tendo inicialmente referido que é indispensável cruzar os documentos e obras de referência, sugiro aos interessados por este estudo obras como A Presença Portuguesa na Guiné, história política e militar, 1878-1926, por Armando Tavares da Silva, Caminhos Romanos 2016, e A Tradição da Resistência na Guiné-Bissau 1879-1959, INEP, 1994, e Guiné Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia, 2024.
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 26 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)












































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