Lagos, apesar de tudo (do cilindro compressor do turismo e do camartelo camarário) ainda conserva um secreto encanto. E é um repositório da nossa memória.
Foi uma das nossas portas para o mundo, mas também uma das rotas da escravatura...Tal como o Cacheu, na Guiné. Visitei o museu. Como antigo combatente da guerra colonial, tive acesso de borla... Mas fico sempre "deprimido", ao puxar do cartão e ao lembrar-me que também faço parte desta história, desse "filme de longa metragem"..., a história, o filme do fim de um ciclo de 600 anos.
Estou num lugar que é, ao mesmo tempo, um bilhete-postal ilustrado do meu país e um palco de memórias incómodas.
Por um lado, o Infante que abriu a primeira "autoestrada da globalização" e com ela o conhecimento, a unificação dos mares, continentes e povos, o comércio, mas também as portas ao tráfico de seres humanos (e que ficou com o seu "quinhão", do primeiro carregamento de 235 escravos, aqui aportados, em agosto de 1443, a pretexto de lhes querer "salvar as almas"!). E, por outro, o rei, imberbe, "rambo", que se perdeu em Alcácer Quibir (e que nos perdeu).
E em plano de fundo, a guerra colonial que me marcou a mim e a tantos outros rapazes da minha geração, como um sacrifício estúpido, gratuito e inútil.
Conheço o peso da história do meu país na pele (e não só nos livros, é no corpo, é na alma). Não é só a estátua do D. Sebastião ou a do Infante que me incomodam, é o que elas representam.
A história não é o "passado", é um fio que se estende até hoje e se prolonga no futuro: nas desigualdades, nas cicatrizes da guerra, nas narrativas desencontradas, no turismo que devora a alma dos homens e a identidade dos lugares, na "gentrificação" da nossa terra.
Apesar de tudo, encontro beleza na arte de um Cutileiro (que, ironicamente, imortalizou um rei que eu sempre detestei). E manifestei o meu apreço ao município de Lagos por ter sabido preservar o antigo mercado de escravos. Pelo menos o "casco velho" de Lagos, não foi totalmente devorado pelo desastre urbanístico, a ganância imobiliária e o capitalismo selvagem.
A estátua do Infante D. Henrique é pesada, afirmativa, hierática. O corpo compacto, o gesto imóvel, a monumentalidade austera: tudo nela fala a linguagem estética do Estado Novo. Não é apenas uma representação histórica; é um "programa ideológico em bronze".
E o facto de eu (e o meu amigo Jaime Silva, antigo paraquedista que fez a guerra de Angola) ter entrado de borla no museu, como antigo combatente, também tem algo de simbólico: estou aqui, de algum modo, a reclamar o meu discreto lugar na narrativa sobre o making of" do império, e a exigir que a memória não seja apagada.
Faço parte desta história, não como herói, nem como vítima passiva, mas como simples peão, como alguém que ainda cá está, aos 79 anos, um "marginal-secante" que também reivindica o direito de não deixar que a estátua de um rei ou de um infante apaguem as vozes dos que "ficaram para trás" (navegadores, soldados, marinheiros, fidalgos, mercadores, missionários, mas também pessoas escravizadas, e nomeadamente negros de África).
O que fazer com a minha raiva e minha melancolia, perdido em Lagos, numa multidão de turistas que come "ice-cream" e que está aqui, uns dias, no Algarve português para carregar as "baterias da felicidade" ?
Depois da difícil tarefa que é sempre estacionar o carro nestes lugares (coitado do Jaime!), caminho de canadianas, até à Praça Gil Eanes e encontro o "meu velho conhecido" D. Sebastião, do João Cutileiro.
Fotografo a estátua: aqui já não há pose imperial. Nem bronze triunfante. Nem honra nem oria, Nem rumo nem destino. Há apenas a beleza e a fragilidade do mármore. Há alienação. Há um fantasma. O nosso fantasma nacional (depois do Velho do Restelo).
O Infante foi uma figura da nossa História que sempre me acompanhou desde os bancos da escola até à Guiné: repetida "ad nauseam". O Infante tornou-se uma liturgia cívica do Estado-Novo. Dom Sebastião era enxotado para o sótão dos nossos pesadelos, o que deixou a porta escancarada á dinastia dos Filipes de Espanha.
O Infante Dom Fernando e el-rei Dom Sebastião: o alfa e o ómega, o primeiro e o último atos da nossa tragicomédia.
O Largodo Infante fica junto do antigo mercado de escravos, um dos primeiros espaços de comércio esclavagista da Europa moderna. O Museu de Lagos é de visita obrigatória. Não existia em 1981.
Voltar 45 anos depois a Lagos é como encontrar uma versão antiga de mim próprio, a caminhar penosamente pelas ruas empedradas. As estátuas já lá estavam, em 1981, a do Infante nem sequer dei conta. As estátuas permanecem, mas quem as olha já não é o mesmo. Eu já não sou o mesmo.
Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
Nota do editor LG:














