1. Comentário do Virgínio Briote, nosso coeditor jubilado, ao poste P28263 (*):
A propósito deste excelente texto saltou-me rapidamente à memória um caso que vi e vivi de perto, talvez demais.
Anos 60. Um pai funcionário público, dois filhos com diferença de meia dúzia de anos. Pai extremoso, severo, homem honrado, justo, fiel adepto de Salazar e do Cardeal [Cerejeira, patriarca de Lisboa].
Segundo o seu desejo, expresso aos amigos e colegas, "um dos meus filhos vai para militar e o outro para padre" .
Os filhos foram ouvindo esta ordem do pai enquanto estudavam, um num Liceu numa cidade do Norte e o outro na Escola Primária.
Quando o mais velho concluíu o 5º ano, foi para Ciências, contrariado.
− Como vais para Ciências se foste sempre um aluno de 10 / 11 e bom aluno, apesar de seres pouco aplicado, na área de Letras?
− Eu gostava de ir para Letras mas o meu pai matriculou-me em Ciências.
O mais velho lá foi tropeçando na Física, na Matemática, na Biologia, na Mineralogia... até que acabou o Liceu em 1962.
Papelada, concurso para a Academia Militar, Lisboa, e em meados do verão guia de marcha para a Gomes Freire.
− Para onde, Pai?
− Para a Academia Militar, para seres oficial do Exército.
Sem mais história, concorreu e em outubro de 62 deu entrada na Academia Militar, Amadora.
Na 1ª semana, na 1ª aula de equitação, ministrada pelo capitão Marques Pereira, escolheu o cavalo mais alto, preto, irrequieto com o chicote no ar. E tentou montar. Tentou, porque, quando tomou balanço, o cavalo levantou a garupa e atirou-o ao chão. Quando se ia a levantar, apoiado pelos gritos do instrutor, levou um coice na zona do estômago.
Saltando estes momentos, quase desmaiado, viu-se em cima do cavalo, mãos bem amarradas às argolas. Chicote no ar, cavalos em disparada, uns por um lado, outros em sentido contrário... E minutos depois estava na camarata, nos urinóis a fazer chi-chi com sangue. Enfermaria, ambulância, Hospital da Estrela, três dias depois outra vez na Amadora.
O interesse foi-se esvanecento, não era o que desejava, os meses e as aulas iam correndo, divertia-se na Educação Física, atletismo, corridas de obstáculos, manobras nos arredores da Amadora, na Carregueira, Sta Margarida...
A Deontologia Militar, as Físicas,as Matemáticas e outras teóricas passava-as a dormir. Em junho de 64, foi enviado para Mafra e um mês depois era aspirante miliciano.
Alguns dias de férias, o pai, de má cara, não lhe falava e em setembro foi para os Açores.
Quando saíu do BII , não sei se o 17 [Angra do Heroísmo], se o 18 [Angra do Heroísmo], foi passar o Natal a casa com os pais, o irmão deve ter consoado no Seminário, certamente.
Meados de janeiro estava a pôr os pés em Bissau e dias depois estava no mato, seguramente. Já no meio da comissão, o pai escreveu-lhe dizendo que o irmão tinha fugido do Seminário!
Para finalizar esta história que fui seguindo de perto, ao regressar a Lisboa, depois de uma comissão consecutiva de 24 meses, os pais e o irmão esperaram-no no cais. E, para acabar a viagem, seguiram para o Norte, talvez com uma paragem nos Pedro dos Leitões [na Mealhada], não sei.
A vida continuou. O mais velho empregou-se, o mais novo foi para Coimbra para Direito até ser chamado para Mafra, com o curso talvez a meio, não sei.
O jovem foi mobilizado para Moçambique, veio de férias, lembro-me, ainda foi padrinho de uma sobrinha recém-nascida e regressou ao Chai, Macomia, julgo eu.
Alguns dias depois, o pai recebeu ao jantar um telegrama de uma entidade do Exército a informar que o seu filho havia sido gravemente ferido. (**)
(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, título: LG)
2. Comentário do editor LG:
Agradeço ao Vb a oportuna partilha destas suas memórias já com sessenta e muitos anos... É um verdadeiro "conto mural ao fundo".., passado no fim do salazarismo, em que o paradigma de autoridade dominante ainda era o da "santíssima trindade"...Deus, Pátria e Família,
Mas neste caso a realidade e a ficção fundem-se. Impossível saber onde acaba uma e começa outra...
Não tenho dúvidas que este caso, que "ele viu e viveu de perto, talvez até demais" (sic), é verídico.
E, na época, não terá sido único. Pessoalmente conheço mais casos, e até alguns mais recentes, em que os pais, invocando a sua autoridade e experiência de vida, traça(va)m o caminho dos filhos (e das filhas)... O caminho que julga(va)m ser "melhor" para eles e elas (e para a família)...
Estamos numa época em que os pais, "amando profundamente os seus filhos" (está fora de questão pôr isso em dúvida!), os infantilizavam e tomavam decisões (neste caso, "quase de vida ou de morte"!) por eles...
Mas não era só a nível das opções escolares e das carreiras profissionais ("vais para o colégio de freiras, vais para o Magistério Primário, vais para o seminário, vais para a Academia Militar"...), era também até noutras matérias ainda mais sensíveis e delicadas, com o namoro, as amizades, o casamento...
Estamos a falar de pais de certos estratos sociais, correspondentes as classes alta, média-alta média, excluindo portanto as classes populares (média-baixa, baixa).
O Vb aparece aqui como um mero narrador... E inclusive não chegou, por lapso, a assinar o comentário. Depois corrigiu. Vi, logo desde o princípio, que o texto era dele, pelo seu inconfundível estilo narrativo que já conheço de há 20 anos..
Ao relê-lo, e agora ao fazer o guião para esta BD, fiquei com a "suspeita" de que poderia ser um texto autobiográfico (ou com traços autobiográficos)... Há pormenores coincidentes... O capitão Marques Pereira, por exemplo, era na época o instrutor de equitação da Academia Militar. A cidade do do Norte será Braga (onde o Vb fezo examde admissão ao liceu).
Em suma, o "irmão mais velho" que vai, contrariado, para a Academia Militar, terá semelhanças com a história militar do nosso querido Vb, que em 1962 também entrou para a Academia Militar... Mas o texto não me autoriza a que tire esta conclusão. E eu, portanto, não tenho mais o direito de estar aqui a especular... O Vb, se assim o entender, poderá dar mais informação circunstanciada sobre este caso que o tocou tanto ao ponto de acompanhar, tão intimamente, o percurso destas duas vidas... trocadas.
Se não é, em todo o caso, bem poderia ser a história dele e do seu irmão mais novo...
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Notas do editor LG:
(*) Vde. poste de 16 de agosto de 2026 >
Guiné 61/74 - P28263: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (46): Muita honra e pouca glória...
(**) Último poste da série > 21 de agosto de 2026 >
Guiné 61/74 - P28274: Verso & reverso (2): Muita honra e pouca glória: a história de Portugal Colonial resumida em três palavras-chave (Cherno Baldé, nosso colaboraor permanente, Bissau)