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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28121: S(C)em Comentários: O casamento, hoje, já não é o que era (Cherno Baldé, Bissau)











Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto:  Cherno Baldé (2026)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.




1. Comentário do nosso colaborador permanente Cherno Baldé (que "firma" em Bissau), ao poste P28089 (*), que passa a ser inserido na série "S(C)em Comentários" (**)


(...) Eu não posso concordar com o humilhante termo “compra” quando se trata de termos de acordo matrimonial entre duas pessoas, um contrato social selado entre as duas famílias, como acontece na tradição fula, que conheço melhor. 

Os termos do contrato, mesmo não sendo escritos, preveem um acordo aceite e garantido entre as duas partes interessadas e mais ou menos equilibrado, na presença de mediadores e testemunhas, no sentido de garantir socialmente os direitos do casal dentro da família do noivo e acautelar as situações em caso de separação/divórcio futura.

Durante a minha infância, talvez por influência externa (convivência com a tropa no quartel e frequência da escola portuguesa), tinha repudiado por completo a prática tradicional e tinha jurado a mim mesmo que não seguiria esta via quando chegasse a altura de o fazer e cumpri o juramento, mas hoje colocado diante da problemática dos meus filhos, acho que nem tudo é a preto e branco.

Os meus filhos nasceram e sempre viveram na cidade, alguns já terminaram (dois) e outros ainda estudam e todos estão no exterior,  entre Portugal, Brasil e Marrocos. O mais velho tem 30 anos e o mais novo 19 anos. Não querem saber de casamento nem de ter filhos, não os posso obrigar e nem eles se decidem a tal, de modo que a probabilidade de não virem a se casar é muito elevada. 

Também tenho sobrinhas que cresceram em minha casa, algumas (duas) já estão acima dos 30 anos e ainda não estão casadas, não porque não querem, mas porque sozinhas não conseguem arrumar um marido e, quanto aos rapazes, cada vez é mais improvável o interesse em contrair matrimónios diante do desemprego e das crises cíclicas que o país e o mundo atravessam.

Nas zonas rurais, embora a vida e as regras costumeiras continuem a ser as mesmas diante da lei, a realidade está a mudar a olhos vistos e cada vez mais as relações sociais e matrimoniais estão a ser condicionadas pelo que se passa no país e no mundo.

Um fenómeno, mais ou menos, novo que apareceu entretanto, é a preferência por noivos emigrantes “europeus”, que estejam dispostos a levar a sua noiva para o país de emigração ou para as cidades em residências separadas. 

Nesses casos há descontos importantes, as noivas são quase sempre favoráveis e os pais podem dar muitas facilidades, na expetativa de que as filhas tenham a chance de viajar para o “paraíso” europeu. (...)

Cherno AB

2.  Comentário do editor LG:

O comentário acima surge como resposta a um pedido nosso, ao Cherno Badlé, para nos falar um pouco de comno vai hoje a instituição "casamento", na sua terra, entre o seu povo,,,

(...) O casamennto (e todos os rituais à volta dele, incluindo o "dote") é um fenómeno que transcende culturas, embora se manifeste de formas muito diferentes, às vezes radicalmente, conforme o contexto social, económico e até histórico.

Os meus camaradas (e eu próprio) pecavam por "eurocentrismo" ou "etnocentrismo", ao ver estas práticas como "exóticas" ou até "atrasadas", quando na realidade eram/são sistemas de trocas sociais profundamente enraizados, com lógicas próprias que nada têm a ver com a nossa visão ocidental de casamento, da mulher e do homem, da família, da sexualidade, da reprodução...

O "barlaque" na Guiné (*) e e especialmente entre os Fulas (que eu conheci melhor) não era/é apenas uma "transação económica", mesmo sob a forma de um pagamento simbólico (em vacas, noz de cola, panos, etc.), era/é sobretudo um "contrato social", uma forma de "aliança entre famílias", e até uma garantia de estabilidade para a mulher (em sociedades camponeses onde não havia/há  as modernas formas de proteção social, na doença, no acidente, na velhice, na morte)

Para os soldados portugueses (e muitos deles vindos de meios rurais onde o "dote" também existia, mas de forma muito menos formalizada) ver os seus camaradas fulas a "comprar mulher", foi de facto um choque cultural enorme.

O que os militares portugues não percebiam (nem foram preparados culturalmente para isso, não havia "psicólogos" quanto mais "antropólogos", em Mafra, nas Caldas da Rainha, em, Tavira,em Santarém, em Vendas Novas, em Lamego) era que, na Guiné, o "barlaque" (ou o "pidi noiva") não era uma transação comercial, mas sim um rito de passagem e um mecanismo de proteção.

Para um fula, o pagamento do "barlaque" validava o casamento perante a comunidade, garantia o estatuto social da mulher (e da sua família),  criava laços de solidariedade entre grupos, clãs, "chãos" e (poucos o sabiam) podia ser reembolsável em caso de divórcio, o que dava, teoricamente, à mulher uma certa segurança económica.

O eurocentrismo e o entrocentrismo faz-nos sempre ou quase sempre julgar (mal) o que não compreendemos ou não conhecemos.

Não sei como é que as coisas estão hoje, na tua terra, meu mano Cherno...(...) (**)



Guiné 61/74 - P28120: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (64): O antigo edifício dos CTT de Gabu



Foto nº 1
~

Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4


Foto nº 5


Foto nº 6


Foto nº 7

Guiné-Bissau > Zona Leste > Gabu > O edifício da antiga Estaçáo dos CTT


Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




Patrício Ribeiro: (i)  ex-fuzileiro em Angola (1969/72);  (ii) nosso colaborador permanente para as questões de ambiente, geografia e economia da Guiné-Bissau; (iii)  tem mais de 200 referências no nosso blogue; (iv) vive na Guiné-Bissau desde 1984; (v) é o "embaixador" da Tabanca Grande neste país lusófono; (vi) é o português que melhor conhece a Guiné e os guineenses, e que ainda hoje é conhecido como o "pai dos tugas" (pelos mais novos, que visitam a Guiné-Bissau, ou passam por lá como cooperantes, e que ele apoia, sem nunca lhes perguntar em que partido é que votam, em que clube é que jogam, a que deus é que rezam e onde é que os pais nasceram); (vii) é autor desta série "Bom dia, desde Bissau"; (viii) foi o fundador e o diretor técnico da empresa de energia Impar Lda, com sede em Bissau desde há 35 anos.



1. Sete mensagens foram enviadas ontem, domingo, pelo Patrício Ribeiro, entre as 13:53 e as 14:14 (em sucessivos envios, cada um com uma foto, documentando o edifício dos antigos CTT, o depósito de água e a central elétrica solar). 

 Devido à lentidão da internet, o Patrício costuma mandar uma foto de cada vez. Hoje publicamos as fotos com a antiga estação dos CTT de Nova Lamego (hoje Gabu). Não é clara qual é a utilização atual do edifício. Ao lado, funciona (ou funcionava ?) o "centro retransmissor" do Gabu (foto nº. 6). 

Pelo que se depreende das fotos, o antigo edifício dos CTT parece agora funcionar como balcão local das apostas desportivas da Guiné (Bissau Games) (Foto no. 7).


Fui aos correios em Gabu, para ver se tinha recebido alguma carta, mas afinal já não trabalha há muitos anos. (Pensei que podia ser mais rápido que a Internet existente.)

Não sei quantos amigos e camaradas passaram por estes balcões....

Abraço, Patrício


Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > Uma das artérias  da então vila (e sede de circunscrição / concelho do Gabu), com a estação dos CTT à esquerda, e o Cine-Teatro à direita, do outro lado. 

Foto do álbum de Manuel Caldeira Coelho (ex- fur mil trms, CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894,
"Os Tufas") (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68)


Foto (e legenda): © Manuel Caldeira Coelho (2011). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27808: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (63): O antigo hospital militar, HM 241 (e depois "complexo hospitalar 3 de agosto"): "E tudo o vento levou"...

Guiné 61/74 - P28119: Parabéns a você (2498): Cor Art Ref António José Pereira da Costa, ex-Alf Art da CART 1692/BART 1914 (Sangonhá e Cameconde, 1968/69) e ex-Cap Art, CMDT da CART 3494/BART 3873 e da CART 3567 (Xime, Mansambo e Mansabá, 1972/74) e João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé e Fá Mandinga, 1965/67)


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Nota do editor

Último post da série de 20 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28116: Parabéns a você (2497): Cherno Baldé, Gestor de Projectos, amigo Grã-Tabanqueiro da Guiné-Bissau

domingo, 21 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças









Recortes de imprensa, "Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975, 2ª ed., pp. 1 e 20.

Fonte: Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso |  Pasta: 06822.172.27196 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18752 | Ano: 55 | Data: Quarta, 30 de Abril de 1975 | Directores: Director: António Ruella Ramos; Director Adjunto: José Cardoso Pires | Edição: 2ª edição | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa  




Vietname > Saigão> 29 de abril de 1975 > Um membro da CIA ajuda um grupo de evacuados civis,  a subir uma escada para um helicóptero da Força Aérea Norte-Amerivcana, no telhado do número 22 da rua Gia Long, pouco antes da queda iminente de  Saigão às  mãos das tropas norte-vietnamitas.  Foto histórica do fotojornalista neerlandês Hubert van Es (1941-2009). Imagem do domínio público. Cortesia de Wikimedia Commons.


1. Há 51  anos a agência Reuters e o Diário de Lisboa, de 30/4/1975, noticiavam o fim da guerra do Vietname (*).  Uma guerra que se arrastou por  3 décadas, e que foi um pesadelo para todos, como todas as guerras o sao: os vietnamitas e os outros povos da Indochina (Laos e Camboja), os franceses, os americanos e outros aliados... (e demais povos e todo o mundo, já que não foi  uma mera guerra colonial nem regional, desenrolou-se em pleno clima de "guerra fria").

A guerra do Vietname envolveu diretamente mais de 10 países. O conflito militar abrangeu três palcos principais (Vietname, Laos e Camboja) e foi também um confronto entre dois blocos ("capitalista" e "comunista", oeste e leste). Os EUA começaram a mandar tropas para o Vietname a partir de 1965, atingindo um pico de 543 mil  em abril de 1969.
 
Foi também uma guerra que esteve no nosso "imaginário"... Mais do que isso: também sobrou para nós... Os mísseis russos terra-ar Strela, por exemplo, já tinham sido testados no Vietname... bem como a passagem da guerrilha à guerra convencional (no caso, por exemplo,  da Guerra dos 3 G: Guidaje, Guileje, Gadamael)...

E havia até quem, mal ou bem, na nossa geração, comparasse a guerra da Guiné com a do Vietname... É evidente que foram duas realidades incomparáveis: pelos meios bélicos empregues, em homens e armas, pela extensão do território, pela violência, pelo nº de baixas, pelas implicações geopolíticas a nível mundial,  etc.. As nossas guerras (em 3 TO, Angola , Guiné e Moçambique) foram de "baixa intensidade". 

Estima-se que em 1967 as forças do Vietname, Vietcongues e  seus aliados fossem da ordem dos 860 mil, enquanto que do lado do Vietname do Sul, EUA e demais aliados rondassem os 1,4 milhões (em 1968). 

O número de mortos (civis e militares), apenas vietnamitas, são difíceis de calcular, estimando-se entre menos de 1 milhão, e 3 milhões. Do lado das forças dos EUA,  as baixas seriam as seguintes: c. 58,2 mil mortos; mais de 150 mil feridos graves (evacuados); 1626 desaparecidos (ainda em 1975) (Fonte: Wikipedia). 



Luís Gonçalves Vaz 
2.  
A retirada portuguesa da Guiné-Bissau em 15 de outubro de 1974 e a evacuação americana de Saigão em 29/30 de abril de abril de 1975 podem ser apresentadas como dois exemplos, diferentes, se não mesmo opostos, do fim de uma guerra prolongada e de uma presença militar "além-mar". 

Ao analisamos, porém os detalhes, constatamos que s diferenças são tão importantes quanto as semelhanças.

O texto do Luís Gonçalves Vaz (**) descreve a retirada portuguesa como uma operação cuidadosamente planeada, e melhor executada, baseada na Ordem de Operações n.º 1/74, na sequência do acordo político entre Portugal e o PAIGC. 

Cerca de 2.500 militares metropolitanos (os últimos de um exército que totalizava dez vezes mais, sem contar com cerca de 15 mil homens em armas, do recrutamento local, incluindo milicias), foram retirados por via marítima, sob coordenação da Marinha (Comodoro Al,meida D'Eça), mantendo-se dispositivos de segurança até ao último momento.

 E tudo aconteceu com dignidade, segurança, ordem, disciplina, com respeito, até essa data, no que foi assinado nos acordos de paz entre as NT e o PAIGG. ( O que se passou depois é outra história, a "caça" aos "cães dos colonialistas"...)

O que têm em comum as duas retiradas, separadas no tempo apenas por seis meses? E, no espaço: os portugueses estavam a 4 mil km de casa, os norte-americanos a 13 mil (***).

(i)  O fim de uma guerra sem vitória militar clara

Em ambos os casos, os exércitos retiravam-se sem terem sido derrotados numa batalha decisiva nos dias finais. Portugal abandonava a Guiné após o 25 de Abril e o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, em 10 de setembro de 1974, aceitando retirar as últimas tropas até 15 de outubro de 1974. Por seu turno, os EUA abandonavam o Vietname do Sul após anos de guerra (1965/73)  e depois dos Acordos de Paris de 1973.

Em ambos os casos, a decisão foi sobretudo política.

(ii) Forte componente logística

Tanto em Bissau como em Saigão, o desafio principal foi retirar pessoal, equipamento e documentação.

No caso português, o texto do Luís Gonçalves Vaz destaca o papel dos navios T/T  Uíge e Niassa e da fragata NRP Comandante Roberto Ivens como núcleo da operação, além das LFG  Lira e Orion.

Em Saigão, os americanos recorreram a uma gigantesca ponte aérea por helicópteros a partir da embaixada e de navios da 7.ª Frota. Foram evacuados 6500 militares e civis, incluindo diplomatas.

(iii) O simbolismo das imagens

As imagens do arriar da bandeira portuguesa em Bissau e das multidões junto à embaixada americana em Saigão tornaram-se símbolos do fim de uma época. 

As diferenças fundamentais;

  • A retirada portuguesa foi negociada; a de Saigão foi uma evacuação de emergência

Esta é provavelmente a maior diferença. Na Guiné, existia o Acordo de Argel (26 de agosto de 1974). O PAIGC cooperou na transição. E a retirada foi planeada com datas, meios e responsabilidades relativamente bem definidas. 

Em Saigão, o exército norte-vietnamita e o Vietcongue avançavam rapidamente. A capital estava prestes a cair. A  evacuação dos últimos soldados e funcionários diplomáticos bem como de milhares civis (sobretudo sul-vietnamitas)  foi feita sob enorme pressão temporal, para não dizer pânico.

  • Não houve colapso militar português

O texto da autoria do Luís Gonçalves Vaz (que tinha 14 anos em 1974, quando deixou Bissau, antes do pai, que foi dos últimos militares a sair, por avião),  insiste numa ideia importante: o sucesso consistiu precisamente em não haver violência armada porque as forças portuguesas mantiveram capacidade de combate até ao último momento. Ou seja, as NT não depuseram as armas. Embarcaram de armas na mão.

Em Saigão aconteceu o contrário: o exército sul-vietnamita desintegrou-se em muitas zonas.  Houve pânico entre civis e militares, e a  evacuação tornou-se caótica. Enfim, foi uma retirada humilhante e traumatizante para quem a viveu.

  • O ambiente psicológico foi diferente

Em Bissau, foi mantida a disciplina militar (de um lado e do outro). A  cadeia de comando manteve-se intacta.  A  transferência formal de soberania foi feiota como o prevista. E, por outro lado, não houve praticamente civis a evacuar.

Em Saigão, pelo contrário, houve pânico generalizado, milhares de pessoas (mais próximas no núcleo duro do regime do Vietname do Sul e dos seus aliados) tentavam desesperadamente embarcar nos helicópteros, ao mesmo tempo que se verificava o colapso administrativo do Estado sul-vietnamita.

As famosas imagens dos helicópteros sobre os telhados  (vd,. foto acima) refletem isso.

Onde é que a comparação é válida?   Historicamente, pode dizer-se que ambos os acontecimentos representam o  fim de projetos coloniais ou de influência geopolítica. Reconhecia-se (e aceitava-se) que a solução militar para o conflito deixara de ser sustentável.  Houve, num caso e noutro,  impactos de natureza societal e psicológica.

Para muitos militares portugueses que serviram na Guiné, Angola ou Moçambique, o 15 outubro de 1974, em Bissau,  terá  tido um peso emocional semelhante ao que  o 29/30 de abril de 1975 teve para muitos veteranos  americanos do Vietname. (Salvaguardadas as devidas distâncias...).  Em todo o caso, não se pode falar da Guiné como o "Vietname Português"...

Onde é que as duas retiradas não são comparáveis ? Se estivermos a falar da execução militar da retirada, a comparação torna-se mais fraca.

Segundo os elementos do documento que partilhámos no blogue (**), a retirada da Guiné aproxima-se mais de uma extração militar organizada e negociada enfim, uma retirada planeada sob paz armada; enquanto que,  no caso de Saigão  (29/30 de abril de 1975),  foi uma evacuação de emergência perante o colapso de um regime aliado dos EUA  (o Vietname do Sul).

~
Manuel Beleza Ferraz 
É precisamente essa diferença que torna a operação portuguesa relativamente pouco conhecida a nível tanto interno como externo: não teve visibilidade mediática, nem no nosso "Diário de Lisboa", que eu lia todos os dias, era o meu jornal... 

E até terá passado despercebida da maior parte dos antigos combatentes portugueses..... De facto, não houve imagens de pânico, não houve combates finais (nem sequer escaramuças), nem multidões a tentar fugir. 

De resto, os portugueses em Portugal (mas também em Angola e Moçambique, as duas verdadeiras "joias da Coroa"),   seis meses depois do 25 de Abril, tinham mais do que se preocupar  do que com o fim da "guerra da Guiné"... 

De qualquer modo, do ponto de vista militar, o que fica para a história é que o planeamento logístico cumpriu o seu objetivo, como diz o nosso Luís Gonçalves Vaz (**). Os 2500 militares, os últimos soldados do império no território da Guiné (a partir de então Guiné -Bissau), 
puderam finalmente chegar a casa. Incluindo o primo  marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz,   da guarnição da LFG Lira, felizmente ainda vivo, e autor de algumas das fotos que o Luís Gonçalves Vaz aqui publicou. 
___________________

Notas         do editor LG:

(*) Vd. poste de 5 de maio de 2025 Guiné 61/74: P26766: Efemérides (454): O fim da guerra do Vietname foi há 50 anos ("Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975)

sábado, 20 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28117: Os nossos seres, saberes e lazeres (737): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (258): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Não se pode ficar insensível e até estupefacto perante a diversidade que este país, de menor dimensão que a Bélgica ou a Guiné-Bissau, revela: praias deslumbrantes, rincões históricos que a UNESCO consagrou Património da Humanidade, a majestade dos Alpes albaneses, bordejando sobretudo a Macedónia do Norte, lagos paradisíacos, uma gastronomia que é a sua encruzilhada histórica, onde prepondera o legado dos turcos otomanos, a vibração de Tirana, com os seus arranha céus de novíssima geração, a Grande Mesquita e a esplendorosa igreja ortodoxa; as suas ruínas, caso de Butrint, estão ali vestígios do mundo greco-romano, helenistico, bizantino, veneziano e otomano; belas igrejas, e até o imprevisto de vermos um busto de alguém que foi cônsul grego numa cidade albanesa e que recebeu o Prémio Nobel da Literatura. É o que pretendo partilhar nestes dez dias em que viajei em transportes coletivos a admirar montanhas e a visitar um inesquecível património edificável, sem esquecer que os albaneses, que têm em todos os seus edifícios oficiais ao lado da sua bandeira nacional o pavilhão da União Europeia, mostram o que foi uma história de horrores, cerca de 150 anos de polícia política.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (258):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 3


Mário Beja Santos

Era um projeto antigo, visitar a Albânia, desconheço praticamente a península balcânica, por razões da minha profissão estivera três dias em Sófia, guardo a recordação da ida ao Museu Nacional, deslumbrei-me com o ouro da Trácia; é verdade que nas redondezas andei pela Grécia, na mira dos seus vestígios esplendorosos como berço das civilizações europeias; também andei pelo Montenegro e Croácia, passeio começou por Belgrado, muito me impressionou os primeiros 14Km de Belgrado em direção ao sul, parecia que tinha havido uma explosão nuclear, eram composições ferroviárias umas atrás das outras, deveria ser o rescaldo da desagregação da Jugoslávia, ficaram sem préstimo todos aqueles comboios.

A curiosidade da Albânia era aquele exótico regime montado em 1944, ali se consolidara um partido marxista-leninista-estalinista, com um permanente quadro obsessivo da invasão jugoslava, da extrema amizade à União Soviética chegara-se ao corte de relações, a Albânia mantinha-se estalinista, a seguir chegaram os chineses, bem-vindos ao princípio também mandados embora quando chegou a Revolução Cultural. E esta Albânia instituiu a psicose da invasão e o terror da guerra nuclear, assim se construíram 175 mil bunkers, bem disseminados por todo o país.


E chegou-me esta revista às mãos, uma reportagem com toda a sua carga de sedução: uma Albânia que fazia parte da Ilíria, que viu chegar gregos, romanos, conviveu com o período helenístico, por ali andaram venezianos, mais de quatro séculos da presença de turcos otomanos, quando este império se desagregou a Albânia constituiu-se como república, teve depois uma efémera monarquia (o rei Zog I), sofreu a invasão italiana, quando a Itália capitulou entraram os alemães, nessa altura já havia um forte movimento de resistência que tinha como parceiro principal os comunistas capitaneados por Enver Hoxha, começou aí a ditadura depois da libertação em finais de 1944 que durou até 1991, quando se esbarrondou o projeto totalitário.

O que este número da revista Geo tinha de atrativo era a referência a estes deslumbrantes vestígios antigos, os seus povoados incrustados nas montanhas (quase 70% da Albânia é montanha e floresta, tem mesmo uma região alpina), as suas águas transparentes do mar Jónico, o êxtase dos seus cânticos polifónicos que perpetuam a tradição musical do sul, uma capital efervescente em permanente mutação, o seu Património Mundial em lugares como Gjirokastër e Butrint, a presença de residências em estilo otomano, igrejas ortodoxas, católicas e muçulmanas, as três religiões convivem em tolerância na Albânia. E há o mistério da Ilíria, os ancestrais da Albânia. Um grande enigma: não há nenhum documento escrito da presença deste povo, seriam indo-europeus repartidos a partir do século III a. C. do Danúbio ao Epiro, passando pela atual Croácia. Os albaneses atribuem a sua língua aos ilírios, é uma língua singularíssima, não encaixa nos grandes grupos etnolinguísticos europeus. Com tal História e tais enigmas, como resistir a fazer-lhes uma visita?

Este manual ajudou-me imenso, deu-me dicas para organizar uma incursão de dez dias, conhecer os seus rudimentos históricos, a forma económica de viajar, o que ver e até o que comer.
Por uso e costume, regresso com brochuras, bilhetes de entrada em monumentos, enfim a tralha do turista. Todos os anos abro uns sacos de plástico, revejo o conteúdo referente àquela viagem, encho-me de coragem e deito para o balde, no cubículo dos papéis e cartões. Agora vou guardar o que trouxe da Albânia por mais uns tempos, nem que seja só para recordar aqui no blog os dias felizes e intensos que vivi.
Convém que o leitor olhe para este pequeno território mais pequeno que a Bélgica e a Guiné-Bissau, para acompanhar a minha incursão que começa em Tirana, apanhei depois uma candonga para visitar de raspão Pogradec, isto para admirar o lago Ohrid, um feitiço da natureza, tendo montanhas da Macedónia do Norte como pano de fundo; ao fim da tarde nova viagem de candonga até Korçë, pasmou-me a vida cosmopolita; daqui segui para Përmet, esperavam-me boas surpresas, aqui falhou o programa de ir visitar as águas borbulhantes como temos na região das Furnas, na ilha de São Miguel; a etapa seguinte foi Gjirokastër, que me assombrou; nova candonga até Sarandë, ali à beira do mar Jónico, a escassos quilómetros da ilha de Corfu, belas praias e um inesquecível Património da Humanidade em Butrint; chegara a hora de regressar, longa viagem de candonga até Tirana, mais visitas dentro e fora, e depois o regresso. Tudo contado e multiplicado, andei exclusivamente entre a capital e a região sul, o resto fica para a próxima viagem.
Cheguei a Tirana já passava da meia-noite, viagem de autocarro até ao centro, arrastei o trólei a olhar o Google Maps, já passava das duas e meia da manhã quando ferrei no sono. Refeito e alimentado, cambiei para o centro desta cidade que tem mais de meio milhão de habitantes. Foi uma pequena povoação até ao século XVII, depois ganhou um novo estatuto e após as guerras balcânicas em 1912-1913, proclamada a República, o novo regime decretou Tirana como capital permanente. Com o triunfo do regime comunista, assistiu-se à demolição de muitos edifícios históricos, bazares e igrejas. Depois das primeiras eleições que tiveram lugar em 1992, Tirana tem vindo a assistir a um boom na construção e turismo. Comecei o passeio pela sua praça histórica, fui mirar a estátua de Skanderbeg, o herói fundacional albanês que lutou contra os turcos otomanos e conseguiu congregar os clãs albaneses. Na outra imagem temos um pormenor da praça mostrando arquitetura arrojada e vemos hasteada a bandeira nacional, tecido vermelho com a águia bicéfala.
Esta é a entrada de um dos monumentos de visita obrigatória na capital, o BUNK’ART II, um bunker imenso, fazia parte do Ministério do Interior, servia hipoteticamente para proteger o Ministro e o seu círculo do caso de haver uma invasão ou explosão nuclear. Com advento da democracia, aproveitaram-se estes corredores subterrâneos para mostrar um pouco da história dos serviços de segurança albaneses desde a independência, e mostrar os horrores praticados por esta polícia secreta, a SIGURIMI. Temos aqui uma exposição permanente em que ao longo destes túneis vemos conhecendo a repressão e os horrores praticados pela polícia política, antes e com o regime comunista. O que vemos nesta imagem é uma listagem de políticos e líderes religiosos mandados executar o regime. Importa não esquecer que Enver Hoxha decretou em 1967 a Albânia como um país ateu, podemos pensar nas perseguições e campos de concentração para punir as dissidências.
Imagens alusivas à repressão em tempos de monarquia, na segunda imagem podemos ver o rei Zog I, que começou por ser republicano.
Um dos muitos corredores do BUNK’ART II, agora é um museu de diferentes tiranias
Mapa que mostra a localização do sistema prisional albanês em Enver Hoxha
Instalação alusiva ao delírio totalitário e persecutório do regime Enver Hoxha
Este era o quarto destinado ao Ministro do Interior, tinha as instalações ultrablindadas
Não deixa de nos emocionar esta história da solidariedade albanesa com gente perseguida, nomeadamente com os judeus gregos que fugiram às detenções dos nazis. Temos aqui a fotografia de reconhecimento de alguém como Justo entre as Nações, por ter albergado judeus dos alemães, arriscando a vida.
Imagem do que seria uma camarata prisional dos tempos do comunismo

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 13 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28096: Os nossos seres, saberes e lazeres (736): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (257): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 2 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28116: Parabéns a você (2497): Cherno Baldé, Gestor de Projectos, amigo Grã-Tabanqueiro da Guiné-Bissau

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Nota do editor

Último post da série de 19 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28113: Parabéns a você (2496): Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68) e Tibério Borges, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2726 (Cacine, Cameconde, Gadamael e Bedanda, 1970/72)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

VII - A Viagem do Tangomau

Este é o título do livro que escrevi, autobiográfico, onde conto a minha preparação militar, as unidades que percorri antes de partir para a Guiné, relato a minha vida na comissão militar com as populações de Missirá e Finete e depois na intervenção junto do batalhão de Bambadinca; no regresso dei instrução em Mafra, fiz os meus estudos académicos, tornei-me funcionário público, um técnico da política dos consumidores; por esse facto foi me pedido para fazer cooperação na Guiné, experiência por um lado aliciante por outro profundamente dececionante por se ter revelado que a administração guineense e os seus governantes eram incapazes de assumir a responsabilidade que lhes cabia no protocolo entre dois países. Isto passou-se em 1991, e como vos disse atrás, em 2006 passei a devotar-me à escrita sobre temas guineenses.

Ainda hoje sinto uma profunda comoção quando releio o que escrevi em "A Viagem do Tangomau". Desembarco em Bissau de madrugada, logo me encheu as narinas aquele cheiro específico que eu dizia no passado que era um misto de morangos apodrecidos e de terra capinada, não senhor, como me recordou o Sr. Sabino, o motorista da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, neste cheiro penetrante há gafanhotos mortos e a goma das acácias floridas. Na manhã seguinte, saí da pensão e dirigi-me às ruínas do Palácio Presidencial, era um verdadeiro escombro, subi a escadaria até ao salão de festas, tudo enegrecido pelo incêndio, portas roubadas, vidros partidos; tomei uma bica no Café Império, uma boa pastelaria, com ressonância às guloseimas portuguesas; desci a Avenida Amílcar Cabral, subi à Pensão Central, fui dar um beijinho à avó Berta, que se deslocava com o seu andarilho, ficou combinado no dia seguinte que lá ia almoçar o prato guineense que mais aprecio, o pitche-patche de ostras. Apresentei-me na Embaixada, depois de ter trocado dinheiro no Bissau-Velho. Já tinha à minha espera uma série de pessoas para lhes entregar as encomendas recebidas em Lisboa, havia ainda uma ronda de telefonemas para convocar vários destinatários a quem devia entregar camisas, perfumes, volumoso correio. Conversa com o Embaixador, afabilíssimo, iremos almoçar à Pensão Central. E à tarde tenho pela frente viagens por bairros ínvios, esconsos e labirínticos: Bairro Militar, Bairro Bissaque, Bairro Missirá, Bairro Quelelé. A visita mais demorada será no Bairro Missirá à Maria Fausta, a mulher do meu querido amigo Abdu.

Jantei no Bissau-Velho com Patrício Ribeiro, o empresário que trabalhada desde há muito na Guiné, passou gente conhecida. No dia seguinte fui entregar todas as cartas da então Guiné Portuguesa, obra dos serviços geográficos do exército, conversei com alguns investigadores, deliciei-me com o pitche-patche, a avó Berta muito zangada por eu não ter ficado lá a dormir, tive que lhe dar a minha palavra de honra que no regresso da viagem aos sítios onde combatera e depois de me despedir dos meus antigos soldados, regressaria a Bissau e lá dormiria.

Não posso cansar-vos com esta narrativa da viagem, o Sr. Sabino levou-me a Bambadinca, pelo caminho não escondeu que se sentia muito intrigado, deste a independência que era motorista da Embaixada, nunca lhe tinha aparecido pela frente a missão de levar um ex-combatente a ir ver os seus antigos soldados. Como disse, fiquei em Santa Helena, num sítio chamado Bairro Joli, um ponto alto com uma vista deslumbrante sobre a outra margem do rio Geba, ali sentado o meu olhar percorria Finete a Mato de Cão. Visitei demoradamente Missirá, escuso de dizer que houve choradeira, fui até Gambiel, aí se passou uma das maiores surpresas, tinha combinado com um motociclista, de nome Alasana Sori, originário da Guiné-Conacri o serviço diário, ele condutor eu passageiro, revelou-se um condutor exímio, chegados a Gambiel, vejo alguém a avançar para mim e a dizer-me tu és o nosso alferes, eu sou o Ieró Baldé, do pelotão de milícias de Missirá, nunca te esqueci. Vamos os dois de mão dada até ao palmar de Gambiel, era no tempo da guerra um verdadeiro Éden, cometeu-se o crime de cortar o rio, abateram-se as palmeiras, desfez-se o encanto daquela natureza prodigiosa. Para não vos cansar mais, digo-vos que vi praticamente tudo o que tinha sonhado rever: Bambadinca, Xitole, Finete, Enxalé, Madina e Belel, Canturé, do Xime fui até à Ponta do Inglês, foi aqui que descobri que me faltava visitar vários acampamentos do PAIGC que se estendiam do rio Corubal até ao Xitole, nas matas de Fiofioli, Mina e Corubal. E há o inesquecível almoço com os meus bravos, pedi para que se fizesse folaré, carne com costela de vaca, muitos legumes, muita batata inglesa, muito molho, um fartote de laranjadas, pedi uma sobremesa de talhadas de papaia e bolos de amendoim, tomei a palavra para lhes agradecer a lealdade que tinham tido para comigo, toda aquela dedicação que eu guardava como um sentimento, eles ficariam na minha vida como um dos acontecimentos mais extraordinários da minha existência.

Assim decorreu a viagem do Tangomau, no final de 2010, foi como que uma catarse, a viagem da despedida tinha também outros significados, uma verdadeira reconciliação. E de 2010 até ao presente essa reconciliação traduziu-se numa torrente de escrita.



VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais

De vez em quando, ainda em plena atividade ou já com o estatuto de reformado, nas obras de ficção também imiscuí a Guiné. Quando escrevi "Um Escafandrista nas Nuvens", a história do romancista de romances de amor para seniores entre os 60 e os 90 anos, aparecia um almoço com os bravos do pelotão, o protagonista, o escritor Gil Santiago, preparara uma bacalhauzada para todos os seus soldados residentes em Lisboa e nos arredores, festa rija, com muitas recordações e promessas de reencontro, no fundo era a minha realidade a superar a ficção, dos oito presentes já partiram sete, só me resta o Abudu, que conheci em Missirá em criança, está hoje na casa dos 60 anos; no romance a "Rua do Eclipse", a trama passa pela relação de dois cinquentões que se encontraram em Bruxelas, ele como técnico português ela como intérprete belga, toda a comissão militar dele na Guiné é descrita num livro feito de correspondência a dois.

Em cooperação, escrevi "Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: um roteiro", tomei gosto em frequentar bibliotecas e arquivos, quase que acampei na biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, e também na biblioteca do CIDAC, esta depositária de documentação fundamental para estudar a luta da independência e a governação de Luís de Cabral, escrevi então "História(s) da Guiné Portuguesa e da Guiné-Bissau", fiquei-me por 2014, tinha tomado posse o Presidente da República que cumpriu completamente o seu mandato, José Mário Vaz; passei um ano no então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino, os relatórios dos chefes de delegação que recebiam instruções para, em termos sigilosos, e depois de elencarem os problemas económicos e financeiros da região fazerem uma apreciação da situação política, escrevi "Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba". Num alfarrabista encontrei um livro de um poeta popular, antigo combatente da Guiné, ali fizera comissão entre 1963 e 1965, a sua lírica galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dado à estampa "Nunca Digas Adeus às Armas".

Para pôr termo a esta viagem sobre as minhas investigações, lancei-me num projeto ambicioso, de que estou a meio: elaborar, por seriação diacrónica, do século XV ao século XX, um género de antologia com textos uns que se podem classificar como determinantes ou incontornáveis, outros possuidores de raro vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos portugueses denominavam a região por nomes vagos, inconclusivos e até bizarros, como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros, Grande Senegâmbia, Pequena Senegâmbia, Alta Senegâmbia – este termo Senegâmbia foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir um vasto território da costa ocidental africana entre o Cabo Verde continental e a Serra Leoa.

Não escondo que se trata de um trabalho laborioso, neste momento já está publicado o Tomo I intitulado"A Presença Portuguesa na Senegâmbia", trabalho agora no Tomo II "Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa". Quero relevar que muitos dos meus apontamentos sobre esta matéria ou vou publicando no blog Luís Graça e Camaradas da Guiné, sem margem para dúvida, o blog mais influente para ex-combatentes na então Guiné Portuguesa, o seu acervo fotográfico é único no país e que encerra uma miríade de testemunhos de incalculável valor.

Espero continuar a estudar e investigar, da análise que faço à multiplicidade de investigações que se fazem sobre a Guiné, detetei a existência de duas lacunas: puro desconhecimento do Boletim Oficial dos últimos cem anos da colónia; e continuar a não se saber quem e quando, ao nível de olhares estrangeiros, se pronunciou sobre a Guiné desde a época que antecedeu a convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886 até ao período anterior às lutas pela independência.

Não me sinto capaz de me abalançar com um Tomo III de "Guiné, Bilhete de Identidade", continuam por preencher graves lacunas respeitantes às governações de Vasco Rodrigues e Arnaldo Schulz, (só deste último era mais que devida uma tese de doutoramento) e falta o enquadramento de política externa, parece saber-se tudo das relações do Estado Novo com os seus aliados e as suas tomadas de posição nas Nações Unidas, mas ninguém se interroga como e porquê usávamos armamento e munições do Estado de Israel (que teve inicialmente uma posição benevolente com o colonialismo português) e porque razões o Estado Novo manteve relações diplomáticas ao nível de Embaixada com Cuba, quando estes cediam apoio técnico e preparação militar ao PAIGC e, mais tarde tropas e armamento ao MPLA, antes e durante a guerra civil de Angola. São estudos indispensáveis para dimensionar a história militar da Guiné do lado português e a natureza de relações internacionais que eram camufladas ou puramente omitidas à opinião pública.

Muito obrigado pela vossa atenção e estou pronto para responder às vossas interpelações e comentários.

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Notas do editor:

Vd. posts anteriores de:

8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)
e
12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

Último post da série de 15 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28102: Notas de leitura (1928): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (2) (Mário Beja Santos)