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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: António Tavares (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 1.   É uma daquelas histórias de caserna que, à primeira vista, parecem quase anedóticas. Mas talvez não o sejam. 

O caso já aqui foi contado, pelo nosso estimado camarada António Tavares, ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72), que vive na Foz do Douro, Porto.

É a história de um soldado básico que terá chegado (?) a integrar o BCAÇ 2912, em formação do Campo Militar  Santa Margarida (CMSM), entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970, e que era médico (ou licenciado em medicina) (*)

O caso merece ser de novo trazido à baila (**). 

António Tavares  contou-a no blogue em 2010, quarenta anos depois dos acontecimentos. Um licenciado, médico, alegadamente por razões políticas, foi incorporado como simples soldado básico. Um “Senhor Doutor” sem galões de aspirante a oficial miliciano médico, que os camaradas (e nomeadamente as praças e os 1ºs cabos milicianos do BCAÇ 2912) procuravam quando precisavam dos seus conhecimentos.

Vale a pena recuperar esta memória,  não apenas pela personagem, cuja identidade foi preservada mas também porque ela nos obriga a olhar para uma realidade pouco conhecida da tropa no tempo do Estado Novo: a distância que podia existir entre a formação, a competência profissional e o lugar que o aparelho militar atribuía a cada homem.

Quanto aos pormenores, alguns poderão exigir confirmação documental. Mas a história, no essencial, é perfeitamente plausível. 

E tem uma ironia que salta à vista: um médico transformado em “soldado básico” pelos homens que mandavam; e reconhecido como médico pelos homens que com ele conviviam, os seus camaradas. E que, contrariamente aos outros soldados básicos, era tratado com deferência, respeito e cumplicidade  como "senhor doutor", comendo  na messe de sargentos e dormindo com os 1º cabos milicianos...


O soldado básico que era médico no Campo Militar de Santa Margarida

 por António Tavares


Na lista dos nossos Marcadores/Descritores (badana do lado esquerdo do blogue), no tag ”Os Nossos Médicos”, li o nome de um médico, nosso camarada durante a formação do Batalhão, de que por razões óbvias omito o nome, mas recordo com saudade.

Na formação do BCAÇ 2912, iniciada a 23 de fevereiro de 1970, no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), tivemos um soldado básico que era licenciado em... medicina!

Era soldado básico por motivos políticos,  com o único mal de ter ideias diferentes daqueles que nos mandavam ir matar e morrer… a bem da riqueza de alguns!

Tinha estado no Presídio Militar de Penamacor onde passou dificuldades de vária ordem e até económicas.

Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos com a sua mala triangular, estetoscópio, antipiréticos, anti-inflamatórios, ligaduras, etc. … Um autêntico João Semana!

Sentia-se útil em ajudar e os milicianos agradeciam a sua cooperação que era muito solicitada naquela frigidíssima terra do CMSM.

O frio era tanto que os camaradas roubavam mantas uns aos outros para não dormirem gelados na caserna!

Eu fui uma das vítimas, mas confesso que também roubei uma! Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… Logo, fui perdoado. Se o não fui, a penitência foi cumprida logo a seguir no teatro de guerra: Guiné!

No fim da IAO, em Santa Margarida, não faltou nenhuma manta!

Sem o conhecimento da hierraquia militar,  o soldado básico, médico  (ou, pelo menos, licenciado em medicina), dormia na caserna dos cabos milicianos e comia na messe dos sargentos!

O BCAÇ 2912 partiu, em 24 de abril de 1970, da gare marítima de Alcântara, no T/T Carvalho de Araújo, rumo ao CTI da Guiné, com os alf mil médicos Vítor Veloso,  José Alberto Martins Faria e Eduardo Teixeira Sousa.

O Dr. Vítor Veloso, em 1971,  foi para Bafatá como Delegado de Saúde, sendo substituído pelo alf mil médico José Guedes, ex-Otorrino no Hospital Geral de Santo António do Porto.

O médico, já com C
édula Profissional, soldado básico na tropa, esse, continuou no CMSM. Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia já como alf mil médico.

Os seus bons serviços e competência técnica foram precisos naquela macabra guerra de guerrilha, onde se matava para não morrer!

Quarenta anos passados é o que recordo do "Senhor Doutor" ... Assim era conhecido e tratado pelos milicianos!

Os ex-combatentes conhecem bem histórias de repressão política, com intervenções da PIDE, nos anos de 1961 a 1974,  contra  vários cidadãos de pensamento contrário ao regime vigente de então.

A juventude do após 25 de Abril de 1974,  por muito que leia, veja e ouça,
 não tem felizmente a noção e a vivência de uma guerra de  guerrilha que visava a conquista das populações nativas segundo a propaganda da época.


Com um abraço do 

António Tavares
Ex-Fur Mil SAM, CCS/BCAÇ 2912 
(Galomaro, 1970/72)

Foz do Douro, 23-02-2010

(Revisão / fixação de texto: LG)


2. Comentátrio do editor LG:

É pena é que o nosso camarada António Tavares tenha omitido o nome do "senhor doutor" do Campo Militar de Santa Margarida (ou, pelo menos, não o tenha partilhado com os editores do blogue).

É uma história perfeitamente verosímil no essencial, mas há nela alguns pontos que importa separar: (i) o que é historicamente plausível; (ii) o que precisa de confirmação documental; e (iii) aquilo que provavelmente resulta de memórias com 4 dezenas de anos.

O que há de verdade nesta história ?

Bem, a figura do soldado básico licenciado em Medicina não deveria ser vulgar, antes pelo contrário. Em princípio, as NT não podiam dar-se ao luxo de perder um médico, com tanta falta deles (quer na metrópole, quer no ultramar). 

Mesmo que o médico não estivesse alinhado política e ideologicamente com o regime que sustentava a guerra. Guerra que, afinal, foi feita por tantos "desalinhados", nomeadamente milicianos, médicos e não médicos.

Havia uma enorme penúria de médicos, no início da década de 1960, quando "rebentou a guerra de Angola"...

Hoje (dados de 2025), temos mais de 65 mil médicos, dez vezes mais do que em 1960, sendo quase 60% mulheres. Em 1960, o número de médicos era da ordem dos 6,7 mil (com uma taxa de feminização muito baixa, c. 3% a 5%). Dez anos, no início de 1970, o total de médicos, não ultrapassava os 8,2 mil (taxa de feminização: 15%). 

Era de todo impossível ter 3 ou 4 médicos por batalhão, 1 por companhia!... ( O BCAÇ 2912 terasi mais a exceção do que a regra.)

 Durante a guerra colonial (1961/74),  só o Exército mobilizou cerca de 1.100 médicos milicianos. 

Portanto, era dramaticamente escasso o número de médicos em Portugal. Com o início da guerra colonial, as Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea) tiveram que competir com a sociedade civil e o sistema de saúde (público e privado) por este recurso escasso. (Ainda não havia o Serviço Nacional de Saúde, criado apenas em 1979.)

 Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, o deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação (nomeadamente no Arquivo Histórico-Militar) que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  alegadamente "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

O pomo da discórdia pode ser este: 

 (i) ser licenciado em medicina não chegava para se ser médico, era preciso estar inscrito em (reconhecido por) a Ordem dos Médicos; 

e, por outro lado, (ii) nada obrigava o Exército a que o indivíduo, médico,  fosse incorporado como aspirante ou alferes miliciano médico.

Um médico convocado para o serviço militar podia, por razões administrativas, disciplinares ou políticas, não ser aproveitado como médico militar, por ter, por exemplo, chumbado no COM (Curso de Oficiais Milicianos).

A explicação dada pelo António Tavares (“soldado básico por motivos políticos”) é elucidativa.

Não havia a categoria de furriéis milicianos médicos nem soldados médicos, muito menos soldados básicos médicos. (Em contrapartida, havia furriéis milicianos enfermeiros, 1ºs cabos auxiliares de enfermeiro e soldados maqueiros.)

O que provavelmente aconteceu, pelo menos neste caso relatado acima, é que  um cidadão português,  apesar de ter uma licenciatura em medicina e ter cédula profissional emitida pela Ordem dos Médicos, foi  incorporado como "soldado básico"...

A passagem pelo Presídio Militar de Penamacor é o elemento que gostaríamos de poder confirmar documentalmente. 

Se esse nosso camarada esteve efectivamente preso por razões políticas (em Peniche, Caxias ou até Tarrafal, para os ultramarinos) ou disciplinares (em Penamacor ou em Elvas) e depois foi colocado como soldado básico no CMSM,  a narrativa ganha uma coerência muito forte.

E há um pormenor delicioso: “Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos…”

Isto é exactamente o tipo de coisa que acontece numa organização militar: (i) a instituição podia não o reconhecer formalmente como médico; (ii) os camaradas, pelo menos no CSMS, reconheciam-no imediatamente como tal.

Ele tinha conhecimentos médicos, sabia diagnosticar, tinha provavelmente a sua maleta de médico, e as praças e os milicianos recorriam naturalmente a ele. Daí a expressão, cerimoniosa e respeitadora, “Senhor Doutor".

Todavia, a referência à “maleta triangular” merece alguma cautela:  a descrição de uma maleta / estojo médico (com estetoscópio, ligaduras, antipiréticos, anti-inflamatórios etc.) é perfeitamente plausível; mas não se deve tomar esse objeto como prova de que ele tinha oficialmente equipamento médico militar; pode ter sido material pessoal ou obtido informalmente.

 A parte mais saborosa da história (mas que deve ser tratada com cautela ou prudência) é o facto de o "senhor doutor" dormir com os cabos milicianos e comer na Messe de Sargentos. 

E mais: à revelia da hierarquia militar:  “Sem o conhecimento dos Comandos Militares"...

É perfeitamente possível como arranjo informal tolerado localmente.  Até porque o Campo Militar de Santa Margarida não era/é um simples quartel, era/é uma base gigantesca (hoje uma das maiores instalações militares da Europa, a maior instalação militar portuguesa em termos de guarnição e a segunda maior em termos de área ocupada, com 6,7 mil hectares de área ocupada, sendo 350 ha de área da zona de aquartelamentos!).

De qualquer modo, a  expressão “sem o conhecimento dos Comandos Militares” deve ser uma ficção ou uma memória truncada  do narrador. 

É difícil imaginar que ninguém na cadeia de comando, no CMSM,  soubesse que um homem estava a dormir e a comer fora do lugar que formalmente lhe correspondia. (Pelo menos, o comando do batalhão em formação, o BCAÇ 2912.)

O ponto que merece mesmo confirmação: quando ele reaparece como alferes médico no CTIG. Diz o Tavares: “Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia como Alf Mil Médico".

Isto escritio em 2010, tem de ser lido com reservas. O Tavares podia ter sido atraiçoado pela memória. Bastaria haver aqui uma confusão de identidade, de posto ou de função.

A ser verdade, teríamos uma transformação extraordinariamente interessante: licenciado em Medicina / médico com cédula profisisonal da OM  → soldado básico  (no CMSM)→ médico informal dos camaradas na caserna → finalmente alferes miliciano médico (no CTIG).

E isso levanta uma pergunta histórica muito interessante: o que é que aconteceu entretanto? Foi reintegrado? Voltou  a fazer o COM ? Mudou a sua situação militar? Foi reconhecida a sua  licenciatura? Foi simplesmente mobilizado posteriormente como médico?
 
A história deve ser recuperada não apenas como uma "anedota de caserna" ou uma simples "fait-divers" da história de vida de  um médico,  durante a guerra colonial,  que, hoje, a estar vivo (como esperamos), será octogenário e estará seguramente  reformado.

Ela diz muito sobre a extraordinária capacidade da tropa para criar soluções informais. De facto, o protagonista era "formalmente" um soldado básico, mas na realidade as praças do contngente geral e os milicianos tratavam-no como médico ( “Senhor Doutor").

A instituição militar podia desqualificá-lo ou subalternizá-lo; os homens à sua volta faziam exactamente o contrário: reconheciam-lhe a competência e recorriam a ela.

 E há ainda uma segunda história dentro desta história: descobrir quem era o médico. Não para necessariamente revelar o seu nome mas para tentar reconstruir documentalmente, a partir dos arquivos.  como é que um licenciado em medicina acabou como soldado básico em no Campo Militar de Santa Margarida e, eventualmente, como alferes miliciano médico na Guiné. (**).

Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, a deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

Mas sejamos cautelosos: esta não devia (nem podia) ser  uma prática corrente. Temos evidência de um caso. Não temos ainda evidência de uma prática generalizada.

 Recordo-me de, também há muitos anos, ter lido uma história parecida: haveria um soldado, que julgo que seria básico, que esteve em Bambadinca, nos primeiros anos de guerra, e que era médico, ou estudante de medicina... Será que alguém se recorda  também desde caso ?

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5897: Os nossos médicos (16): Um Soldado Básico licenciado em Medicina (António Tavares)

(**) Último poste da série > 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28082: Casos: a verdades sobre... (75): O meu tio paterno Agnelo António Monteiro de Macedo (ilha do Fogo, Cabo Verde, 1925 - Lisboa, 1972), chefe de posto de Catió, preso pela PIDE em 1962/63, detido na Ilha das Galinhas e depois transferido compulsivamente para Moçambique (José Macedo, EUA)


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28271: Historiografia da presença portuguesa em África (540): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (8): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Devo uma explicação ao leitor, estou a fazer uma tradução livre da narrativa do capitão Brosselard, um belo francês do século XIX, tenho três dicionários de francês à frente e nem sempre tenho sucesso com a escolha das palavras mais adequadas e fico sempre com a noção de que a fluidez destas descrições não é das melhores, isto somente para pedir a benevolência do leitor, sou um tradutor improvisado. Temos aqui a viagem do tenente Clerc que anda a explorar o Cacine e descobriu que não é um rio é um braço de rio. De facto a Guiné só tem dois rios se entendermos que um rio tem de ter nascente e foz, são o Geba e o Corubal. O fascinante desta digressão é a descrição dos meandros e confluência de riachos à volta do Cacine, os cenários estão diferentes na maré-alta e maré-baixa. Outro membro da comissão francesa, o Sr. Galibert, tentou explorar o ponto alto do rio Cogon, encontrou obstáculos intransponíveis, mas vai premiar com uma cena espantosa de caçada ao hipopótamo.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 8
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que o Capitão Henri Brosselard determinou ao Tenente Clerc que fosse explorar as proximidades do rio Cacine, deu-se a particularidade de quando este e a sua comitiva chegaram a Ahmadu-Boubou, onde pernoitaram, passaram por povoações que nunca tinham visto um branco. No dia seguinte à pernoite no entreposto de Ahmadu-Boubou a pequena coluna transpôs com a baixa-mar os braços do rio de Kakondum e com muitas dificuldades por causa do lodo que se estende pelo outro lado do leito, numa extensão de duzentos metros; este lodo é tão mole que nele nos afundamos até aos joelhos.

Após esta peripécia, era preciso seguir na direção de Cacine através de um caminho atravessado por pântanos e era muitas vezes necessário caminhar neste leito lodoso por causa da vegetação muito cerrada que bordeja as margens. De resto este caminho só é praticável na maré-baixa porque na maré-alta a água sobe um metro nos pântanos.

Este rio tem um aspeto imponente porque as suas águas são límpidas e correm sobre uma areia dura; o rio banha uma das regiões mais selvagens, onde o homem parece pouco conhecido e pouco temido pelos animais, porque todos, aves aquáticas, macacos, serpentes, caimões e crocodilos, ficam ao alcance de tiros de espingarda e parecem olhar os viajantes com espanto. O guia assegurou que, apesar da maré estar a subir, era possível passar a vau. Os atiradores e os homens da escolta, inteiramente nus, colocaram à cabeça tudo quanto levavam e apesar dos buracos em que se podia cair a qualquer instante, atravessaram o rio com água até ao queixo.

O guia voltou à outra margem para buscar os pertences do tenente, mas a enchente e a profundidade do rio tinham aumentado, ele perdeu o pé no regresso e deixou cair a sua carga. Apesar da ajuda dos seus companheiros que se lançaram à água e mergulharam, dando o seu melhor, tudo se perdeu.

Tomou-se o caminho que conduzia à aldeia de Ahmadu-Boubou. O chefe da localidade, ou melhor dito, o proprietário, estava ausente; mas a sua mulher, uma negra muito bela, ofereceu ao tenente, em nome do seu senhor, uma generosa hospitalidade. Ahmadu-Boubou, disse ela, gosta muito dos franceses; ele foi educado na Gorée e ele fala fluentemente a vossa língua: ele ficará muito satisfeito por um branco de França ter dormido sob o seu teto!

A casa de Ahmadu-Boubou era em terra batida, estava coberta de colmo e lembrava precisamente as casas rurais que se encontram na Baixa-Normandia. O interior era composto de quatro grandes divisões; uma delas, a mais confortável, servia de quarto do proprietário; nela ficou instalado o Tenente Clerc. O mobiliário, relativamente luxuoso, compunha-se de uma cama de ferro revestida com um mosquiteiro, lençóis muito brancos e com uma coberta acolchoada; diante da cama, uma espécie de baú em carvalho, e sobre o pano que o cobre havia cadernos e livros, entre os quais uma história em França do padre Gaultier e uma gramática francesa de Noël et Chapsal.

O Tenente Clerc chegou à tardinha a Cantaguiès, residência de Toly-Bey e no regresso prometeu uma recompensa aos negros que encontrassem a sua bagagem que ficara no rio. A notícia espalhou-se na povoação de Ahmadu e até em Cantaguiès, e à noite, pelo luar, mais de vinte negros mergulharam para obter a recompensa anunciada. Após muitas horas de esforços penosos, as suas pesquisas foram coroadas de sucesso.

No dia seguinte o tenente regressou ao Cacine numa piroga. A oito quilómetros do vale que se tinha atravessado na véspera, a maré deixara de se sentir e o rio recuara bruscamente. Não era mais do que um riacho pantanoso e arborizado.

O Cacine, por conseguinte, pode ser considerado como um braço de mar, mais do que um rio. O tenente tornou a descer o Cacine até à confluência com o braço de rio de Kakondum, neste sítio o rio atinge uma largura de 400 metros; as margens são arborizadas, o aspeto é do mais selvagem possível. Ele subiu então ao braço do rio de Kakondum, o qual tem uma largura de 100 metros, mas que recua rapidamente e então não tem mais de 10 metros na parte superior do seu curso.

O explorador das fontes do Cacine regressou a Ahmadu-Boubou com a sua pequena coluna, tomou depois a direção de Compony para fazer o reconhecimento da região de Tchiermo até Kandenbel e regressou a Kandiafara a 21. Enquanto o Tenente Clerc explorava o Cacine, o Sr. Galibert dirigiu-se para o braço do rio de Nalouel, com três estivadores, num barco à vela. Atingiu duas escalas usadas pelos comerciantes, situadas nas margens opostas deste braço do rio, a sete metros da confluência do Cogon. Estas duas escalar têm o nome de Nalouel e de Gadamael e dão o seu nome ao rio. A maré faz-se sentir até à altura destas duas povoações. A montante, a vegetação cobre o rio e torna-se impossível toda e qualquer tentativa de navegação.

Convidado a tentar explorar o alto Cogon, o Sr. Galibert não pôde, devido à sua fraca embarcação mais do que saber a alguma distância acima da barreira de Kandiafara, a cerca de 7 mil metros acima deste ponto. Chegado a esta distância, o rio separa-se em dois braços, um corre debaixo das árvores entrelaçadas e o outro estreita imediatamente. Rio cheio de pedras, mas a água é muito clara e profunda. Acostou num baixio, marcado por vestígios de hipopótamo, debaixo de um caramanchão de verdura. Perto havia uma planície de ervas secas muito altas; deitou-se fogo, enquanto alguns homens foram caçar e em menos de 20 minutos trouxeram um antílope e uma corça. Há muitos hipopótamos no Cogon; em Kandiafara vê-se a toda a hora as suas grossas narinas à superfície da água e ouvem-se permanentemente as suas poderosas fungadelas. Estes grandes paquidermes são perigosos para a povoação.

Segue-se uma espantosa descrição da caça ao hipopótamo, será tema de substância no próximo texto.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta da Guiné em 1897, proveniente do Arquivo Histórico Ultramarino, houve depois alteração de fronteiras
Esta carta das populações da Senegâmbia e do Alto Níger é muito mais do que uma curiosidade, permite-nos observar o posicionamento no que vai ser a Guiné Portuguesa, veja-se a importância dos Soninqués, dos Nalus, Mandingas e Fulas
Postal antigo da Guiné Francesa, fala-se aqui de povoações por onde andou o capitão Henri Brosselard
Postal antigo da Guiné Francesa, cerimónia religiosa dirigida por um Almami

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 12 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28257: Historiografia da presença portuguesa em África (539): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (7): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28270: (De) Caras (251): Luís Tinoco de Faria (1927-1966), ex-cap pqdt, morto aos 39 anos, em combate, no corredor de Guileje: livro de homenagem que está a ser organizado por Elsa Coxinho


Guiné > Região de Tombali > Carta de Guileje (1956) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Guileje, Mejo e  o rio Tenhege, a nordeste de Mejo, em pleno "corredor da morte" ou "corredor de Guileje", onde perdeu a vida o cap pqd Tinoco de Faria no decurso da Op Grifo, em 28 de abril de 1966,

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Luís Tinoco de Faria, cap pqdt,
morto em combate, aos 39  anos,
no corredor de Guileje,
em 28 de abril de 1966.
Fonte: Wikipedia

1. Pelo formulário de contacto do Blogger, recebemos, da nossa leitora Elsa Coxinho, o seguinte pedido de ajuda, dirigido ao nosso coeditor jubilado, Virgínio Briote:


Data -  9/08/2026, 17:04 

Assunto -  Luís Tinoco de Faria: pedido de contacto 

Boa tarde, 
O meu nome é Elsa e estou a preparar, com muito carinho e rigor, um livro-homenagem sobre a vida do major pqdt Luís António Sampaio Tinoco de Faria, destinado ao seu filho, Pedro Tinoco de Faria

Durante a minha pesquisa encontrei os  testemunhos do senhor Briote sobre o Luís e fiquei particularmente sensibilizada ao saber que conheceu uma das irmãs dele e que teve contacto pessoal com o próprio Luís na Guiné. 

Gostaria, se o senhor Virgínio Briote estiver disponível e se assim o entender, de poder conversar pessoalmente com ele.

 O objetivo é simplesmente ouvir as suas memórias e recolher informações que possam ajudar-nos a conhecer melhor o homem que existia por detrás da farda: o Luís, o camarada, o amigo e, sobretudo, o homem e pai que deixou uma história tão importante. 

Não pretendo publicar nada sem autorização. Gostaria apenas de lhe fazer algumas perguntas, ouvir as suas recordações e, eventualmente, saber se possui fotografias, documentos ou outras memórias relacionadas com o Luís Tinoco de Faria. 

Se for possível, agradecia muito que lhe fizessem chegar esta mensagem e, caso ele concorde, que lhe facultassem o meu contacto para podermos combinar uma conversa. Com enorme respeito e gratidão pelo seu testemunho,

Elsa Coxinho
 

2. Comentário do editor LG:

Omite-se o endereço de email da Elsa, elemento que está  legalmente sob a proteção de dados pessoais; será fornecido a título confidencial e pessoal, no caso de haver mais camaradas nossos que tenham conhecido o então cap pqdt Luís António Sampaio Tinoco de Faria (1927-1966), e que queiram contribuir, com o seu testemunho ou com fotos e outros documentos, para este louvável trabalho de pesquisa sobre um dos nossos camaradas da Guiné, morto em combate.

O nosso coeditor Carlos Vinhal já respondeu a esta mensagem, na passada segunda feira, 10/08/2026, 19:18, fornecendo à Elsa os contactos do nosso camarada Virgínio Briote (nº de telemóvel e endereço de email), por este devidamente autorizado.

Repoduz-se a seguir o que o Virgínio Briote comentou em tempos, no poste P19634 (*), sobre o infortunado cap pqdt Luís Tinoco de Faria, que era natural de Braga, e foi, a título póstumo,  promovido ao posto de major, além de agraciado com a cruz de guerra de 1ª classe. 

Em 1955, frequentou em Espanha, na Escuela Militar de Paracaidismo de Alcantarilla, um dos primeiros cursos de paraquedismo frequentados por militares portugueses. Recebeu o brevet n.º 13, o que faz dele um dos pioneiros absolutos do paraquedismo militar português.


Esteve na Guiné entre julho de 1964 e abril de 1966. Foi, portanto, contemporâneo do Briote.
 
Recorde-se que  o Virgínio Briote,   nosso coeditor, jubilado, vive em Lisboa; foi alf mil, CCAV 489, Cuntima e alf mil 'comando', cmdt Grupo Diabólicos, Brá ; 1965/67 [foto à esquerda];


Conheci uma das irmãs do cap pqdt Tinoco de Faria, foi ela que preparou a minha admissão ao liceu Sá de Miranda,  em Braga. 

Na Guiné mantive contacto com o capitão em Bissau e, uns dias antes da sua morte,  tomámos café na base aérea [em Bissalanca].

Soube da sua morte no dia a seguir ao acontecimento por um médico que nos tratava da saúde em Brá e contou alguns pormenores que agora, tantos anos decorridos, não tenho vontade de falar.

Mas posso transcrever um resumo de um documento então em poder da 3ª Rep:


(...) "Guileje, capitão paraquedista Tinoco de Faria. 28 de abril  [de 1966], operação "Grifo", “corredor” de Guileje. 

Às 00h30 saíu do aquartelamento do Mejo o pelotão de paraquedistas comandado pelo alferes Ferreira da Silva, seguindo nele o capitão Tinoco de Faria. 

A corta-mato progrediram até um local onde montaram uma emboscada. Às 05h00 o dispositivo ficou armado num terreno ligeiramente inclinado e que oferecia boas possibilidades de defesa. 

Às 10h00 ouviram-se disparos de armas automáticas, a uma distância considerável. Como os disparos se repetiram e pareciam mais próximos, os páras calcularam que o IN estava a fazer fogo de reconhecimento e que vinham no trilho onde o pelotão estava emboscado. 

Uma dezena de guerrilheiros armados e fardados de calção e camisa amarela começou a entrar na “zona de morte”, enquanto mais atrás foi avistado um grupo mais numeroso. 

Aconteceu tudo em poucos segundos. Um cão ladrou, os guerrilheiros da frente recuaram, os páras abriram fogo de imediato sobre o IN e destes, os que puderam não perderam tempo a reagir. O capitão foi atingido gravemente. Todos os guerrilheiros que abriam a coluna acabaram por ser mortos. 

Estabelecido contacto rádio com um avião DO-27, o pelotão de páras ficou a aguardar indicações com vista à recuperação e transporte para Bissau do comandante de companhia. 

Entretanto, o grupo IN aproximou-se da mata ocupada pelos páras e abriu fogo sobre estes com metralhadoras pesadas, armas ligeiras e morteiros. 

Durante cerca de 30 a 40 minutos o pelotão respondeu, obrigando o IN a mudar de posições, aproveitando os páras para levar o ferido para um local mais adequado à evacuação. 

O inimigo perseguiu-os,  flagelando-os à distância enquanto os páras iam ripostando enquanto progrediam na direcção do rio Tenhege. A ideia dos páras era passar o rio, depois o risco seria menor e mais facilmente evacuariam o seu capitão, cuja situação se agravava a todo o momento.

Às 12h00, atingida a orla da mata do rio Tenhege, novo ataque do IN. Cerca de 20 elementos emboscados numa mata próxima abriram fogo e, de novo, os páras responderam com fogo da MG-42 e do lança-roquetes. 

Apesar de todos os esforços, por volta das 12h00, a hemorragia interna acabou por matar o capitão Tinoco de Faria. 

Às 12h10 os páras retomaram a marcha. O contacto rádio com o aquartelamento de Mejo nunca se conseguiu estabelecer, talvez devido à distância e à densa arborização. 

O corpo do capitão Tinoco de Faria foi evacuado para Mejo de helicóptero, apenas por volta das 18h00, junto a uma das margens do rio Lijol. O pelotão dos páras, completamente esgotado, entrou em Mejo às 19h30".

Honra ao Capitão Tinoco de Faria e à CCP. (...)


(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 30 de março de 2019  > Guiné 61/74 - P19634: In Memoriam: Os 47 oficiais oriundos da Escola do Exército e da Academia Militar mortos na guerra do ultramar (1961-75) (cor art ref António Carlos Morais da Silva) - Parte XIX: cap pqt Luís António Sampaio Tinoco Faria (Braga, 1927 - Mejo, Guiné, 1966)

(**) Último poste da série > 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28216: (De) Caras (250): Luís Mário da Silva e Sá (c. 1948-1970), alf mil 'cmd', 26ª CCmds (Brá, 1970/72), cruz de guerra de 2ª classe a título põstumo: peço ao escritor Angelino Santos Silva que nos fale dele e das circunstâncias da sua morte (José Macedo, EUA)

Guiné 61/74 - P28269: Parabéns a você (2516): Mário Fitas, ex-Fur Mil Op Especiais da CCAÇ 763 (Cufar, 1965/66)

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Nota do editor

Último post da série de 18 de Agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28267: Parabéns a você (2515): Maria Alice Carneiro, Amiga Grã-Tabanqueira, esposa do nosso Editor Luís Graça

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975



Lourinhã > 7 de agosto de 2026 > Luís e Alice, o professor e a aluna, cinquenta anos depois, ainda "just married"...



Capa do livro de José Luandino Vieira, "Luuanda: estórias, 4ª ed. (Lisboa: Edições 70, 1974, 172 pp.). 

O livro foi originalmente publicado em 1963, pelas Edições 70, em Lisboa. E passou despercebido. Os senhores coronéis da censura só deram conta da monumental "gaffe" quando em 1965 foi atribuído, a um "terrorista",  o 1º Prémio do Grande Prémio da Novelística, pela  Sociedade Portuguesa de Escritores, em Lisboa.  

O prémio causou furor e represálias em plena colonial, com o autor, luso- angolano (nascido em Vila Nova de Ourém, em 1935), a cumprir, na altura, no Tarrafal,  uma pena de 14 anos de prisão, por motivos políticos. O livro, de contos, é hoje considerado uma obra maior da literatura em língua portuguesa.


Dedicatória datilografada, em francês, em homenagem à Alice, nascida em 18 de agosto de 1945. Em 17 de maio de 1975, na Lourinhã, era minha aluna...de francês. 

Em 7 de agosto de 1976, quem diria ?!, casei com ela, na Quinta de Candoz, concelho do Marco de Canavez. O primeiro casamento, civil, nesse ano... 

O livrinho (e a folha da dedicatória, que lhe estava apensa, colada na folha de guarda), andou em bolandas, durante anos. Há tempos redescobri-o, no sótão, no meio de outras velharias...Tem, para mim,  valor sentimental e documental.  

Eu escrevia à máquina desde, pelo menos ,  os meus 15 anos. Comprei uma máquina de escrever, portátil, de teclado português (HCESAR), em segunda mão, já não me lembro a marca (Olivetti ?). Não sei o que lhe aconteceu. Com mudanças de casa, desgraçadamente deve ter ido parar ao caixote do lixo! Ou foi à oficina para reparar o teclado e nunca mais a levantei... Enfim, um crime de lesa-património e de lesa-memória!...

Aqui vai uma cópia da dedicatória, para oferecer, juntamenmte com o livro agora recuperado, à minha antiga aluna de francês, e hoje minha companheira de uma vida, mãe de uma filha (Joana) e de um filho (João), e  avó de duas netas (Clara e Rosa)... 

Ao km 81 da sua picada da vida, espero que ela aceite a (re)lembrança. E faço também votos para que o nosso amor, e as minhas palavras, tenham sabido resistir à usura do tempo e às circunstâncias 


17 mai 1975

Pour Alice,
ce cadeau-prétexte.

J’aimerais bien t’écrire une lettre,
une lettre-pomme, une lettre-poème,
tu la mangerais au dessert,
tous les hivers de la famine.

Mais je ne peux que t’offrir
un exercice de français,
sous le prétexte d’un livre africain,
parce que c’était encore la langue étrangère
que nous parlions en exil.

Et c’était drôle de penser
que le soleil se levait et disait bonjour
dans la langue de Rimbaud, Éluard, Aragon,
trois poètes dont tu n’avais jamais entendu parler,
et qui sont descendus à l’enfer de la folie et de la guerre.

Je m’en fous cependant
que le soleil soit un drapeau
rouge, blanc, bleu,
que la lune soit rouge et verte:
il sera toujours pénible pour nous
de franchir à pied le silence,
à cause des montagnes
qui se dressent là-haut, dans notre cœur,
le silence étant la Grande Muraille de Chine des sentiments.

Mais que dirons-nous 
de l’ambiguïté politique de la lune,
cette petite planète
où la liberté est un minéral,
verte le jour, rouge la nuit ?

Je crois quand même
au pouvoir libérateur et créateur de la parole,
ne pouvant pas subir l’angoisse du silence,
des mots écrasés par le discours quotidien.

Je te dirai encore, Alice,
que nous ne sommes pas au Pays des Merveilles,
et que le rêve deviendra bientôt un cauchemar.
Il faudra alors connaître
les murs et les couloirs de l’enfer.

Mais la vie serait une merde
si nous n’avions pas le sens 
de l’engagement révolutionnaire
et le courage de vivre et de combattre,
comme José Luandino Vieira,
prisonnier du Tarrafal, militant du MPLA.

Très amicalement,
Luís

(Revisão / fixação final de texto, 18/8/2026: LG)
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 Tradução livre (para português)


17 de maio de 1975


Para a Alice,
este presente-pretexto.

Gostaria de te escrever uma carta,
uma carta-maçã, uma carta-poema,
tu comê-la-ias à sobremesa,
em todos os invernos da fome.

Mas só te posso oferecer um exercício de francês,
com o pretexto de um livro africano,
porque era ainda a língua estrangeira
que falávamos no exílio.

E era engraçado pensar
que o sol nascia e dizia bom dia
na língua de Rimbaud, Éluard, Aragon,
três poetas de quem nunca tinhas ouvido falar,
e que desceram ao inferno da loucura e da guerra.

Mas estou-me nas tintas
que o sol seja uma bandeira 
vermelha, branca, azul,
que a lua seja vermelha e verde:
ser-nos-á sempre penoso
atravessar a pé o silêncio,
por causa das montanhas 
que se erguem lá no alto, no nosso coração,
sendo o silêncio a Grande Muralha da China dos sentimentos.

E o que diremos nós
da ambiguidade política da lua,
esse pequena planeta onde a liberdade é um mineral,
verde de dia, vermelha de noite?

Acredito, no entanto, 
no poder libertador e criador da palavra,
não podendo suportar a angústia do silêncio,
das palavras esmagadas pelo discurso quotidiano.

Dir-te-ei ainda, Alice,
que não estamos no País das Maravilhas,
e que o sonho em breve se tornará um pesadelo.
Teremos então de conhecer 
os muros e os corredores do inferno.

Mas a vida seria uma merda
se não tivéssemos o sentido 
do compromisso revolucionário
e a coragem de viver e de lutar,
como José Luandino Vieira,
prisioneiro do Tarrafal, militante do MPLA.

Com toda a amizade,
Luís

(Tradução, revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de agosto de 2026  > Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia

Guiné 61/74 - P28267: Parabéns a você (2515): Maria Alice Carneiro, Amiga Grã-Tabanqueira, esposa do nosso Editor Luís Graça

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Nota do editor

Último post da série de 17 de Agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28264: Parabéns a você (2514): José Manuel Cancela, ex-Soldado Apontador de Metralhadora da CCAÇ 2382 (Aldeia Formosa, Contabane, Mampatá e Buba, 1968/70)

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Nunca pensei que esta dimensão romanesca dos descendentes dos antigos combatentes irem visitar os locais onde os seus pais combateram tivesse tão largo lastro, existem obras comprovativas de tais viagens, como veremos mais adiante. Esta narrativa de Paulo Faria anda quase sempre no fio da lâmina, se o móbil principal da viagem de Carlos a Moçambique é a busca de uma criança nativa que o pai a mimou, acompanhado por outro, o furriel Gamito, acontecerão coisas naquele país ainda cheio de escombros, mas há um ritmo alucinante em que no presente da viagem a memória se povoa de casamentos disfuncionais, de apelos patéticos em que a mulher amada não se vai embora, enquanto se procura Artur em todos os desencontros e encontros, e na torrente dos destroços o protagonista tece uma belíssima epifania ao neto que vai nascer. Romance original, uma singularidade que emocionará quem combateu e procura o melhor destino para esta literatura de regressos, que ainda nos dá agradáveis surpresas como esta.

Um abraço do
Mário



Em Moçambique, à procura de lembranças do pai, alferes miliciano médico:
Viagem de expiação familiar, escrita de sublimação para encontros e desencontros - 2

Mário Beja Santos

Esta "Gente Acenando para Alguém que Foge", de Paulo Faria, Minotauro, 2020, é para efeitos práticos continuação de outro título do mesmo autor, "Estranha Guerra de Uso Comum", publicado pela Ítaca, 2016. De novo assalta à memória uma vida familiar lacerada, o autor diz-nos agora no prólogo que “A infância extingue-se no dia em que percebemos que os nossos pais nos sonegaram a parcela mais preciosa do seu afeto. Sem o sabermos, acumulamos visões que nos irão perseguir para sempre.” Retoma-se a duríssima memória daqueles pais divorciados que se reencontravam lá em casa da mãe pela sexta-feira à tarde, antes dos dois filhos seguirem para casa dele e da madrasta, tudo dissimulado, como se aquelas crianças não acabassem por perceber o que se passava no quarto, uma aprendizagem da hipocrisia e do cinismo. Só que a partir daqui a prosa entra numa cavalgada, o palco enche-se de inúmera gente, ficamos a saber que Carlos Silveira já está em Nampula, encaminha-se para Cuama, Niassa, vai à procura de Artur, uma criança muito mimada pelo pai, alferes miliciano médico e pelo furriel Gamito, história já contada no livro anterior.

Estamos em Cuamba, Carlos Silveira é apresentado a muita gente, e subitamente vê-se envolvido como colaborador num projeto-piloto para países muito pobres e muito grandes, onde não há dinheiro para montar uma rede elétrica decente. “O projeto tinha todo o ar de coisa para inglês ver, de gota de água no deserto, os técnicos da EDP eram arraia-miúda, putos de vinte e tal ou trinta anos, mandados até este fim do mundo para se esfalfarem a trabalhar, para passarem por vendedores de ilusões e por fracassar, para apanharem uma doença com um nome impronunciável, para fazerem currículo. O Chinelinhas era meio careca, tinha uma barbicha que cofiava com ademanes de filósofo, vestia uns calções com muitos bolsos de vários tamanhos e uma t-shirt branca, calçava umas chinelinhas pretas de enfiar no dedo e pisava o chão como se o apagasse carinhosamente.” E, mais adiante: “O Caixa-de-Óculos, o outro engenheiro, era um rapaz castiço, sempre a usar onomatopeias e interjeições para dar vida às histórias que contava.” Há mais gente, como o Mário, economista, Anita, uma engenheira do ambiente, e outros mais.

Como se anotou no texto anterior, um dos aspetos mais talentosos deste romance é a forma como se embrecham memórias no tempo presente, em que está a decorrer a viagem à procura de Artur, o que obriga o leitor a ir fazendo a sinalização subliminar dos tempos e lugares, a filha mais velha, de nome Camila, o seu namorado, de nome Armando, são memória bastante viva que se insere nas peripécias do inquérito, bem tormentoso e acidentado, por sinal, estamos a ler numa linha oscilante entre o cinema São Jorge e aquele aparatoso inquérito que, tanto quanto parece, está destinado a não servir para coisa nenhuma.

A viagem de Carlos parece ganhar luminosidade com tudo o que se passa naquele inquérito, o afã de preencher questionários, as promessas de trazer eletricidade, a surpresa de encontrar numa povoação o escombro de um tanque de guerra, as conversas soltas entre os membros da equipa de projeto, os equívocos na comunicação, as confianças em grau efémero, e a memória daquele viajante que foi a um ponto de Moçambique à procura de um homem que foi a criança que o pai acarinhara, que tem momentos inesperados como este, no meio da girândola dos inquéritos e questionários frente a gente embasbacada:
“Escrevi o meu romance sobre a guerra para desapossar o meu pai do exclusivo da narrativa bélica, para o destronar, para escrever o livro que ele próprio não foi capaz de escrever. Para reescrever as histórias da guerra dele, para as extirpar da mentira posterior. Para o enobrecer. Fi-lo à custa dos outros veteranos, que viram as suas narrativas reformuladas, subordinadas à infelicidade do meu pai, por mim usurpada. Escrevi o meu romance para, com o engodo da Guerra Colonial, contar aos veteranos uma outra guerra, a minha.”

E a narrativa agora muda de registo, é a memória da mulher encalacrada com dívidas, aquela Amália a quem o narrador pede repetidamente que não se vá embora, de novo saltamos para outro lugar e outro tempo, os almoços anuais do batalhão do pai, outras conversas se intercalam, há um telefonema ao furriel Gamito, o outro militar que também desvelava pela criança Artur, para lhe comunicar que nesse almoço anual, realizado em Aveiro, ele encontrara o quarto alferes da companhia, de nome Cristóvão Rosado, novas advertências são transmitidas ao autor, são discordâncias entre o que está posto no romance e o que efetivamente se passou na guerra havida naquele ponto de Moçambique.

Entra em cena o ex-alferes Cristóvão Rosado, tem direito a farto soliloquio, acaba estafado e garantindo prova de vida: “Chegou altura de comunicar, se é que não é tarde demais, se é que ainda vou a tempo. Vou tentar escrever o meu relato. Nunca me envergonhei de ter sido combatente. Foi justa ou injusta, a guerra do Ultramar? Pouco importa. O que conta é se foi justa ou injusta a forma como a fizemos, isso é que conta.”

Caminhamos para o local onde Carlos Silveira espera encontrar aquele que foi o Artur menino, estamos em Chicôco, que é Velho ou Novo, no caso estamos em Chicôco Novo, quando Carlos sai do jipe, foi rodeado por garotos descalços, “uns vinte ou trinta, andrajosos, de olhos enormes, cheios de uma estupefação genuína, só possível nos filhos da miséria, garotos que segredavam uns aos outros frases em macua e se riam.” O guia, Pedro indica onde fora a vivenda do administrador e o respetivo posto, fala-se na palmatória para castigar as mãos do régulo, castigo até o sangue rebentar. Carlos conversa com os velhos da aldeia, reconhecem a fotografia do médico António Silveira, encaminham-se para o que fora o quartel, é nessa altura que Carlos mostra a fotografia de Artur com o furriel Gamito, há muitas evasivas, pergunta-se pela mãe, há novos fogachos da memória, consulta-se outro velho, Baltazar Mihaca, é o final da viagem, foi há muito tempo, a fotografia não fala para o presente, parece que Artur fica condenado num túnel às escuras.

Mas o final do romance é vibrante, Camila está grávida, anuncia o pai que se nascer rapaz será Artur, tudo irá culminar em epifania e hossana:
“És a grande ilusão, és o primeiro passo para me apaziguar. És tão pequeno, não tenho o direito de te sobrecarregar com esta responsabilidade, de te atirar para cima dos ombros um peso assim. És o meu neto. És meu. Respira, ocupa espaço, não deixes nenhuma pedra por virar. Trava os teus combates, os teus, não os dos outros, faz sempre diferente do que vires fazer.”

No posfácio, Djaimilia Pereira de Almeida empunha uma observação que trás luminescência a toda esta trama: “Nascemos para um mundo previamente dinamitado, contrafeito, em luto por mortes a que somos alheios, ressentido, amargurado com mentiras que não nos lembramos de ter contado a ninguém ou de nos terem sido segredadas, tal como os nossos filhos nascem para as nossas guerras e esquinas, sem nem eles nem nós nos apercebermos. Nascemos para as grandes mentiras das gerações passadas e aguentamos a maré com pequenas mentiras, o que não significa que amemos menos aqueles que vivem connosco.”

Vale a pena insistir: um belíssimo romance.


Paulo Faria
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Notas do editor:

Vd. post de 10 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)

Último posta da série de 14 de agosto de 2026 >
Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28265: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (16): "o nosso querido mês de agosto" de há 50, 40, 30, 20 anos... no Portugal sacroprofano



O nosso querido mês de Agosto

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. O "nosso querido mês de agosto" , em Portugal,  era o tempo das "vacanças" (sobretudo dos luso-franceses). Mas também, "voilá"!,  o mês por excelência das festas e romarias... 

Era (e ainda é?!)...

Há ainda santuários (na sua grande maioria marianos), por toda a parte, no Portugal profundo, "sacroprofano", de Norte a Sul do país, onde se pagavam promessas (sobretudo no tempo da guerra colonial, 1961/74). 

Mas ainda hoje, dizem... (Fátima, à parte, que é sobretudo um fenómeno turísticorreligioso.)

O Portugal do "nosso querido mês de agosto"  era muito interessante,  sociologicamente falando. Pelo menos, mais colorido, mais saboroso, mais "pimba", mais autêntico, quer  dizer, mais nosso, do que é  hoje, vendido a retalho aos multimilionários,  gentrificado, globalizado, igual ao resto da m*rda mundial... 

Para já,  era muito mais do  que a imagem convencional do “mês das férias”, das férias grandes escolares, das praias superlotadas,  do Algarve dos políticos e dos  famosos, das invasões turísticas, e depois também dos desvastadores incêndios à medida que o  interior do  país se despovoava e o eucalipto impunha a sua ditadura económica e ecológica... em nome da indústria do papel-de-limpar-o-cu!

O mês de agosto era, por excelência, a afirmação e a consagração do "Portugal sacroprofano". 

As  romaria portuguesas não eram apenas religião, pura e dura.  Era uma espécie de contrato anual entre a comunidade, o santo ou a santa que a protegia, os vivos do lado de cá e os mortos do lado de lá, Deus e os seus embaixadores na terra, os santos, as santinhas.

Havia fatiotas novas, missa, procissão, andores, anjinhos,  velas, ex-votos e promessas. Muitas notas, sobretudo de escudos e francos (antes do euro, ainda no tempo do escudo) e depois euros,  pregadas com molas ou alfinetes ao manto da santa.

Havia também vinho (muito, e o verdasco  bebia-se em canecas de litro, de porcelana). 

Havia bifanas, farturas,  pão com chouriço, sardinhas assadas, coiratos, frango no espeto,  algodão doce, tremoços e pevides (no Oeste),  concertinas, bailaricos, foguetes, namoros, juras eternas de amor,  reencontros familiares, emigrantes regressados, negócios, noivados, casamentos, beijos roubados.   comércio ambulante, carroséis e carrinhos de choque... E também porrada, de varapau, de criar bicho (como antigamente...). 

Havia, claro, a indispensável fotografia de família (antigamente, quando ninguém ainda tinha máquina fotográfica, muito menos telemóvel). No tempo do fotógrafo ambulante, em que as festas e romarias eram o seu "São Miguel" (isto é, a época em que faturava).

A meteorologia e a agricultura davam uma ajudinha, à festa, à romaria, à santa, ao santo...  As vindimas eram só em setembro, os cereais já estavam colhidos... O corpinho podia folgar. O "emigras" regressavam, a família dispersa reencontrava-se, a aldeia voltava a ter gente (sobretudo nova), antes de desaparecer no futuro próximo que já é presente.

A festa religiosa funcionava, portanto, também como uma espécie de assembleia geral, anual, da aldeia. O Portugal rural disperso recompunha-se por alguns dias, no nosso querido mês de agosto.

E pagavam-se promessas, camaradas!... Algumas antigas, camaradas!... Agora que a família tem carro, em segunda mão, comprado às prestações...

Se há coisa nossa, bem portuguesa, era  a promessa!... A "cunha" metida aos santos e às santas. Que a gente tinha pejo ou vergonha em ir diretamente a Deus, sem intermediários, desbarretados... (Mas, atenção, "quando Deus não quer, os santos não rogam", ou seja, não adianta meter cunhas ao céu...)

Durante a guerra colonial, a promessa ganhou uma dimensão extraordinária. Um mancebo ia às sortes, ficava apurado, "graças a Deus" (sinal de que não era nenhum aleijadinho),  para todo o serviço militar (mesmo que tivesse os pés chatos e fosse lingruinhas, meia-f*da, meia-leca!...), era chamado pela Pátria, para defender o Ultramar, embarcava para Angola, Guiné ou Moçambique... 

E  logo o mulherio (a mãe, a mulher, a namorada, a noiva, as irmãs, até as madrinhas de guerra!.) que ficavam a rezar por ele,  faziam uma promessa: 

"Se o mê Zé vier inteirinho, são e salvo, hei de ir à Senhora...do Castelinho, dos Remédios, da Agonia, do Sameiro, da Nazaré, da Graça, do Cabo Espichel, da Lapa, do Almortão..."

E depois havia que pagar a dívida. Podia ser ir descalço, de joelhos, carregar uma vela, oferecer dinheiro, levar um ex-voto (um braço ou uma perna em cera), mandar celebrar missas, etc.. 

A promessa estabelecia uma relação quase pessoal e de cumplicidade com a santa:  “Eu peço-te isto, senhora; se me concederes a graça, eu faço-te aquilo.” Era senhora e não "priga" (rapariga), que entre o céu e a terra vai alguma distância e o respeitinho é(era, antigamente) muito bonito.

Era uma religião pouco ou nada sofisticada  profundamente popular, corporal e contratual, interesseira,  descarada, franca, comercial,  baseada na contabilidade simples, de merceeiro, do "deve-e-haver" e da lista dos fiados.

E isso ajuda-nos a compreender melhor a mentalidade dos "tugas" de 1961-74 que alombaram com a guerra de África.  A guerra não se travava longe de casa, a 4 mil, 8 mil, 12 mil quilómetros de distância.  

Qual quê?!... A guerra entrava na capela da aldeia, no adro da igreja, na escola, na casa de família, na casa dos vizinhos, na taberna, na vinha, no campo, nos montes,   no terço, na promessa, na lareira, no altar de Nossa Senhora de Fátima, erguido lá em casa, alumiado dia e noite por uma lata de azeite!

O soldado estava em África; a guerra estava também em Portugal ( que era a metrópole). E a Nossa Senhora,  mais do que Deus,  estava em toda a parte, de Gadamael a Buruntuma, de Madina do Boé a Varela, do Minho a Timor...

2. O culto mariano tem raízes muito profundas em Portugal, e são inúmeros os santuários e festas dedicados a Nossa Senhora.  Por isso há que distinguir Fátima e  os demais santuários do Portugal "sacroprofano".

Fátima é uma coisa... do "outro mundo", uma coisa de outra escala: fenómeno nacional e internacional, peregrinação organizada, turismo religioso, "máquina caça-níqueis", infraestrutura, hotelaria, comércio, negócio, comunicação social, calendário e liturgia próprias...

Fátima é  uma “indústria da fé”,  sem ofensa para os crentes, e sem que isso implique negar a fé genuína de quem lá vai.

A santa  da aldeia é outra coisa, a outra escala, liliputiana. É a santinha da terrinha. 

Aquela imagem concreta que está no alto do monte , ou no cima da falésia, á  entrada do porto de abrigo, ou na capelinha; que pertence à memória da freguesia; que guia os pescadores como um farol; que viu partir os rapazes para a guerra; que recebeu as promessas das mães; que todos os anos desce ou sai em procissão (por terra ou por mar); que conhece, por assim dizer, a biografia sentimental da comunidade... Essa é que é a santa de verdade.

É aqui que o sacro e o profano se juntam, misturam, fundem...  

A primeira vez que fui à Senhora do Castelinho, em 1975, no Marco de Canaveses, é que tive esse vivência (e evidência)  das festas e romarias nortenhas (coisa que não havia verdadeiramente nas terras estremenhas, ou pelo menos, na minha vilória da Lourinhã).   

O mesmo homem que eu cumprimentei e que o meu futuro sogro me apresentou, "ramadeiro", e que fazia parte da sua equipa de construção de "ramadas",  podia: 

  • companhar a procissão de vela na mão;
  •  ajoelhar-se diante do andor; 
  • cumprir uma promessa; 
  • emborcar três canecas de verdasco  depois da missa; 
  • dançar até às três da manhã; 
  • discutir futebol (ou até política, já se discutia política acaloradamente em 1975, no verão quente de 1975, e que "a Senhora do Castelinho" nos livrasse dos homens com barba e gadelha comprida); 
  • catrapiscar uma solteira ou mandar um piropo a uma casada; 
  • comprar uma fartura; 
  • e no dia seguinte, depois de dar uma "trancada na velhota",   
  • estar fresco para pegar no trabalho, no suplício de Sísifo de todos os dias...

Não havia necessariamente contradição. Era assim que funcionava a cultura popular. O sagrado não estava num compartimento estanque. Ruy  Belo, que não era antropologo  mas poeta compreendeu isso melhor do que nongyem ...

A cultura popular misturava-se com o quotidiano. O ano era regido pelos solstícios do inverno e do verão. A vida era simples, a preto e branco. 

De resto, havia romarias em que elementos aparentemente profanos eram  tão antigos e estruturantes como os religiosos. 
 
3. E eu aí é que percebi que o Portugal tradicional era muito mais do que um simples país estatisticamente  de “católicos apostólicos romanos", praticantes. 

Qual quê!.. Era anticlerical, se fosse preciso andava á porrada com o padre da freguesia, para logo a seguir fazer o compasso no Páscoa e angariar umas coroas valentes spara o sustenho do passal, da casa e da horta do padre... 

Era tudo muito mais complexo (e fascinante) do que eu imaginacva ou tinha apreendido ingenuamente nos livros. 

Havia fé, superstição, ritual, tradição familiar, medo, Deus e o Diabo, esperança, sociabilidade, festa,  foguetes, bombos, cabeçudos  .., tudo misturado como num "cocktail". 

E os "emigrantes" (externos e internos)  trouxeram outros ingredientes (da França, da Alemanha, do Luxemburgo, da Suiça..., mas também,  do Porto e de Lisboa, sem esquecer a tropa que regressava do ultramar...). 

Mas, antes destes todos, tinha havido os brasileiros de torna-viagem.
 
Agosto era, nos anos 70, 80, 90, o  mês do regresso à terra. 

O emigrante chegava de Renault, Peugeot ou Mercedes; trazia presentes, bebidas, charutos, cigarrilhas, chocolates, dinheiro e novas maneiras de vestir, de viver, de falar, de consumir, de comprar e ate  de pensar.. E encontrava a aldeia engalanada para a festa do padroeiro ou padroeira 

Havia ali uma pequena ironia histórica,  deliciosa: o emigrante que partira pobre, pobretana ou até  miserável (cabaneiro, rendeiro, camponês sem terras, jornaleiro, ganhão, pescador, operário, marçano, sapateiro, moleiro, alfaiate, ferrador, trolha da construção civil, criada de servir, doméstica, etc.)  voltava à aldeia precisamente para participar na festa que os seus pais e avós celebravam quando ele ainda era pobre, pobretana ou até miserável.

E muitas vezes era  ele quem agora pagava a banda, o foguetório, o andor, a ornamentação ou a comissão de festas, o padre de fora que vinha fazer o sermao... Ou seja: a emigração, que despovoara o interior, também financiava uns anos depois (e mantinha viva) uma parte importante da sua cultura festiva.

O  “querido mês de agosto” português  era então, há 50, 40, 30, 20 ano atrás, dificil de definir: 

mês das férias + mês dos emigrantes + mês das festas e romarias + mês dos reencontros e casamentos + mês das promessas + mês da memória... 

Uma frase talvez pudesse resumir tudo isso:  em agosto, no nosso querido  mês de agosto, Portugal regressava temporariamente às suas aldeias, e as aldeias regressavam temporariamente a si próprias. Isso era mais evidente no Norte e Centro do país. 

Eu ainda apanhei esse Portugal "sacroprofano" (ou sacro-profano, como escrevia o Ruy Belo)... Em terras de Entre-Douro-e-Minho. Casei-me lá em agosto de 1976.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!