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sábado, 25 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27951: Efemérides (386): "O POEMA", alusivo à efeméride de hoje, 52 anos do 25 de Abril de 1974, da autoria do nosso camarada Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR do BCAÇ 3872


O POEMA

Desceu pelas calçadas
Ao ritmo cadenciado dos passos
Percorreu os bairros e acordou toda agente
Não respeitou a ordem instituída


Penetrou e iluminou as caves
Tocou nos clandestinos
Acendeu a acendalha da esperança
Encheu-nos o olhar de mar


Transmitiu-se de boca em boca
Expandiu-se nos abraços
Ganhou esperança nos cânticos
Permitiu que se ouvisse o que era inaudível


O poema não dormiu
Multiplicou-se nos espasmos dos amantes
Chamou mudos à rua para que tivessem voz
Os surdos ouviram a poesia pela primeira vez


Atravessou muros e abriu grades
Foi fraternal


O poema abrigou quem tinha frio
A poesia saiu de cada movimente e cada gesto
No nascer do novo dia o poema sorriu
Finalmente tinha afastado a escuridão dos tempos
E o poema ditou a Liberdade.


25 de Abril 2026
Juvenal Sacadura Amado

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Nota do editor

Último post da série de 25 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27950: Efemérides (386): O 25 de Abril é um poema universal (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547)

Guiné 61/74 - P27950: Efemérides (386): O 25 de Abril é um poema universal (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547)


25 DE ABRIL, FLOR SEM TEMPO

adão cruz

O Vinte e cinco de Abril é um poema universal. É muito difícil entender a alma quase cósmica dos valores, dos princípios, e dos magníficos versos deste profundo poema. Recordar o 25 de Abril não é relembrar apenas o facto concreto de um golpe militar e de uma revolução popular, com mais cartazes ou menos cartazes, mais canções ou menos canções, ainda que de iniciativa extremamente louvável. Recordar e comemorar Abril é ensinar em tudo quanto é lugar, na escola, na rua, no trabalho, que o 25 de Abril foi um portentoso fenómeno universal de iluminação das consciências, de abertura das catacumbas fascistas, um glorioso hino à liberdade com repercussão e geração de profundas mudanças sociais e mentais não só em Portugal mas em todo o mundo.

O vinte e cinco de Abril foi um dos fenómenos político-sociais de maior importância pedagógica dentro de uma sociedade encarcerada em mitos, preconceitos, obscurantismos e grilhetas mentais que formataram e aviltaram a vida até meados do século passado. Os seus valores intrínsecos, mal-entendidos e mal interpretados por muita gente, mesmo gente de cultura, foram repensados e desenvolvidos ao longo dos anos e percorreram o mundo de lés-a-lés, reproduzindo-se como elevados conceitos de deveres, direitos, dignidade e justiça do cidadão do mundo. Mas este entendimento, infelizmente, apenas fazia parte daquela humanidade sonhadora, senhora da mentalidade saudável do homem sério, honesto e bem-intencionado. Pondo de lado a enorme ignorância, a incultura, o obscurantismo de qualquer espécie de que muita gente não era culpada, uma parte do mundo é feita de gente sem ponta de humanidade, sem consciência, sem honra nem dignidade, cultivando o ódio e a vingança, vivendo a corrupção e o deus dinheiro acima de tudo, o poder a qualquer preço, a guerra como instituição e a morte como indústria.

O 25 de Abril foi o mais importante fenómeno político-social da nossa história moderna. O mais fascinante renascer da vida de todos aqueles que tinham dentro de si a terra preparada para nascerem cravos. Foi uma rajada de vento estilhaçando as janelas do tempo e deixando entrar o futuro e os sonhos pela mão dos pequenos gestos de cada um de nós. Uma generosa pincelada de cor e de vida nas paredes gastas da existência, nas palavras desencantadas e nos rostos mortos da esperança. O abrir da madrugada que há tanto tempo se recusava a ser dia. A praça do entusiasmo era demasiado grande e a alegria brotava em cada esquina, entoando canções que ardiam no ventre da arte e da poesia. Eram muitas as certezas, ainda mais as incertezas e uma cândida ingenuidade brilhava em todos os olhos. Acreditava-se que neste pérfido mundo eram todos almas grandes, as únicas capazes de ultrapassar a fronteira para além da qual o homem adquire a dimensão da cidadania, da honra e da dignidade.

Ao calor do 25 de Abril se deve o germinar da revolucionária ideia de que é na relação com os outros que nós percebemos quem somos e que o sentido da nossa existência é o sentido da nossa coexistência. A maior conquista do 25 de Abril foi, de facto, o nascimento de uma necessidade crescente de sentir a beleza, o autêntico, a verdade, o gosto da vida para cada um e para todos, a solidariedade, a sede de saber e a consciência da soberania da liberdade e da justiça.

Comemoramos hoje os cinquenta e dois anos do nascimento de uma vida por que tanto lutámos. Mas é com alguma tristeza que penduramos o cravo na lapela e uma lágrima nos olhos. Não sabemos ao certo se é dor ou alegria o que sentimos, quando abrimos ao sol as portas de Abril e vemos os seus inimigos espumando de raiva ou comemorando com toda a desfaçatez a honrosa revolução que sempre odiaram. Não nos deixemos iludir com o que se passa na Assembleia da República, onde a hipocrisia é maior do que o monte de cravos ali aprisionados nesse dia.

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Nota do editor

Último post da série de 13 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27917: Efemérides (385): "Para o Adriano", poema do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27949: Agenda Cultural (890): Rescaldo da apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que teve lugar no passado dia 21 de Abril, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Abril de 2026:

Confesso que me foi muito reconfortante apresentar este livro na casa onde me bacharelei e licenciei, aqui me apresentei vindo da Guiné, com o estatuto de estudante-militar, encontrei muita solidariedade de colegas que me facultaram apontamentos das aulas e preciosas referências bibliográficas, que me permitiram ir paulatinamente fazendo exames enquanto trabalhava na Agência Militar. Presidiu à sessão de apresentação o Professor José Pedro Serra, académico e diretor da biblioteca da Faculdade de Letras, contei com os prestimosos comentários de dois investigadores de gabarito, a quem devo admiração e muita amizade, António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, ambos com estudos de referência tanto sobre a colónia como o período posterior, da Guiné Independente.

Tive a alegria da comparência de várias dezenas de amigos, limitei-me a enunciar os principais tópicos que abordei no livro sobre os séculos XIX e XX: os conflitos diplomáticos com a França e com o Reino Unido, a questão do Casamansa e a questão de Bolama, as iniciativas políticas de Honório Pereira Barreto, que se revelaram determinantes para a configuração do atual Estado, as guerras do Forreá, o desastre de Bolor, a formação do distrito autónomo da Guiné, a formação da Província da Guiné, a ocupação militar, o destaque das medidas políticas dos principais governadores, tais como Carlos Pereira, Velez Caroço, Carvalho Viegas e Ricardo Vaz Monteiro, pondo ponto final com a governação do comandante Sarmento Rodrigues, que pôs a Guiné no mapa não só do Império português como no contexto africano, criando um espaço autónomo na chamada África Ocidental francesa.

Braima Galissá fez um memorável recital, ele é de facto um exímio tocador de Korá, tem um espetáculo marcado para o Centro Cultural de Belém, no dia 9 de maio, pelas 17h, intitulado Bela-Nafa, uma sugestão cultural para todos os nossos confrades que vivem em Lisboa e arredores.

Aspecto da sala
Na mesa: o autor Mário Beja Santos; o investigador e historiador António Duarte Silva, no uso da palavra; o Director da Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, José Pedro Serra e o Prof. Jubilado do ISCTE, Eduardo Costa Dias
José Pedro Serra no uso da palavra
O nosso confrade Mário Beja Santos, autor do livro em apresentação, usando da palavra
José Pedro Serra; o economista Jorge Braga de Macedo e o autor Mário Beja Santos
Braima Galissá, exímio tocador de korá, durante o seu recital
Mário Beja Santos e Braima Galissá

OBS: - Edição e legendagem das fotos: Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último post da série de 16 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27925: Agenda Cultural (889): Apreciação de Philip Havik ao livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que será apresentado no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Guiné 61/74 - P27948: As nossas geografias emocionais (65): O Jorge Ferreira, no CIM de Bolama, em junho/julho de 1961




Foto nº 1 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > O alf mil Jorge Ferreira, o segundo a contar a esquerda. 


Foto nº 2 >  Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > O alf mil Jorge Ferreira, o primeiro a contar da direita


Foto nº 3 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > À porta de armas...


Foto nº 4 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > O alf mil Jorge Ferreira, na entrada do CIM de Bolama: é o segundo a conta da direita


Foto nº 5 >Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar (CIM)  > c. junho /julho de 1961 > Entrada do CIM 


Foto nº 6 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > Recrutas guineenses em formatura (1)


Foto nº 7 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > Recrutas guineenses em formatura (2)


Foto nº  8 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 >   Paisagem



Foto nº 9 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > O Jorge Ferreira à civil


Fotos (e legendas): © Jorge Ferreira (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jorge Ferreira em Buruntuma
(nov 61 / jul 62)

1. O Jorge Ferreira tem 40 referências no nsso blogue. É um dos nossos VCC ("velhinhos como o caraças...). Não em idade (é um jovem, vai fazer 88 anos no próximo dia 4 de julho), mas em antiguidade na tropa.

Entrou para a Tabanca Grande em 19/9/2016 (nº 728) (*)

Em meados de 1960, tinha concluído o 3º ano da licencitura em Ciências Sociais e Políticas (ISCSPU / UTL), quando foi chamado para a tropa. (Os últimos dois anos do curso serão completados depois de regressar à metrópole em julho  de 1963.)

Em maio de 1961 é  mobilizado para a Guiné. Ficou no CIM de Bolama a dar recruta a tropas do recrutamento local  (2 turnos). É colocado em Nova Lamego na 3ª Companhia de Caçadores Indígenas (a partir de 1/4/1967, sesignada por CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, até à sua extinção, em 1974).

Entre  novembro de 1961 e julho de 1962, esteve em Buruntuma, na fronteira com a Guiné-Conacri, quando ainda a guerra não tinha começado oficialmente... Esteve a comandar um pelotão  de 40 homens (metade do Esquadrão de Cavalaria nº 252, e metade do recrutamento local, da 3ª CCI).

A sua comissão de serviço no CTIG foi de 25 meses.  As fotos que apresentamos são do início da sua comissão quando foi colocado como instrutor no CIM de Bolama (**).

2. Informação adicional sobre a 3ª CCAÇ  I (José Martins, nosso colaborador permanente, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70):



 (i) esta unidade foi constituída em 1 de fevereiro de 1961, como unidade da guarnição normal do CTIG;

(ii) era formada por quadros metropolitanos e praças indígenas do recrutamento local;

(iii) iniciou a sua formação adstrita à 1ª CCAÇ I (que passou a designar-se, a partir de 1/4/1967, CCAÇ 3);

(iv) em 1 de agosto de 1961, com a constituição de dois pelotões, substitui a 1ª CCAÇ I na guarnição de Nova Lamego;

(v) desloca elementos para guarnição de várias localidades do Setor Leste, por períodos e constituição variáveis, sendo de destacar as localidades de Che-Che, Béli e Madina do Boé;

(vi) passou a guarnecer, em permanência,  as localidades de Béli e Madina do Boé instalando, em 6 de maio de 1963, um pelotão em cada localidade;

(vii) em 1 de abril de 1967 passa a designar-se por Companhia de Caçadores nº 5, com sede em Canjadude.

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Notas do editor LG:

Guiné 61/74 - P27947: Convívios (1062): XXX Convívio da CCAÇ 3398, dia 9 de Maio de 2026, em Águeda (Joaquim Pinto Carvalho, ex-Alf Mil Inf)

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Nota do editor

Último post da série de 19 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27931: Convívios (1061): XXVII Encontro-Convívio da CCAÇ 4150/73, dia 10 de Maio de 2026, na Mealhada (Albano Costa, ex-1.º Cabo At Inf)

Guiné 61/74 - P27946: Notas de leitura (1916): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Confiro ao interesse a esta conferência do Conde de Penha Garcia pela forma como ele estruturou a sua exposição quanto à natureza da nossa presença em África até ao século XIX e como as ambições das potências coloniais levaram à partilha do continente africano na Conferência de Berlim, que exigiu a Portugal a delimitação de fronteiras, confirmou o direito a possuirmos o Império colonial com as parcelas que vieram a tornar-se independentes em 1974 e 1975. As pressões sobre a bacia do Zaire, a baía de Lourenço Marques, territórios da Guiné, eram muito fortes, quer do lado francês quer do lado britânico, no final da sua exposição o Conde de Penha Garcia argumenta com suavidade que o desafio crucial que se irá pôr em África quanto à presença portuguesa era o ritmo acelerado com soldados, colonos, missionários, administração e instituições sólidas que garantissem eficiência colonizadora. Recorde-se que ninguém sonhava que meio século depois iria emergir um irreversível surto independentista dentro dos ventos da História.

Um abraço do
Mário



A partilha de África segundo o Conde de Penha Garcia - 2

Mário Beja Santos

Muito antes de estar na presidência da Sociedade de Geografia de Lisboa, o Conde de Penha Garcia, José Capelo Franco Frazão, que recebeu o título nobiliárquico no reinado de D. Carlos, várias vezes deputado na monarquia, Ministro da Fazenda, adepto de João Franco, com duelo travado com Afonso Costa, licenciado em Direito, tendo vivido em exílio no advento da República, regressado a Portugal com o 28 de maio, presidiu à Escola Superior Colonial, desportista na esgrima e no tiro, colaborador na Exposição Internacional de Paris para a qual escreveu o livro sobre as colónias portuguesas, em 1931, proferiu uma conferência na Sociedade de Geografia em 1896, brochura publicada em Lisboa em 1901.

É um texto de inegável interesse, penso que poderá funcionar como elemento complementar a uma obra que classifico como muito importante sobre a presença portuguesa em África, da autoria do Marquês do Lavradio, recensão que também pus à disposição dos meus confrades. Vejamos a argumentação expendida por este monárquico conservador, um indiscutível investigador colonial.

Estamos agora no aceso das corridas entre as potências europeias com vontade de possuir colónias em África. O rei dos belgas criara a Associação Internacional Africana, com sede em Bruxelas, quer disputar o Congo e apresenta a Associação como de carácter internacional para abrir ao mundo culto os caminhos dos sertões africanos. Há expedições em marcha, parte-se de Zanzibar estabelecem-se missões em Uganda e no Tanganica. Stanley anda pelo Congo, a Associação vai ocupando a bacia do Zaire; em 1880, era fundada Leopoldville. Dois países seguiam inquietos as ambições do rei dos belgas: Portugal e a França. Este último enviou o explorador Brazza a reconhecer o interior e a assegurar à França uma parte da rica bacia do Zaire.

Portugal reatou negociações para obter reconhecimento das suas velhas pretensões territoriais, tendo obtido da Inglaterra, em 1888, o reconhecimento para a sua fronteira ao norte, mas houve protesto da Alemanha e da França, o Tratado não pôde ser ratificado. É nesta atmosfera que Portugal lembra a conveniência de se dirimirem as questões numa conferência internacional. A Alemanha tomou a direção da conferência, iniciara planos de colonização da costa oriental, no Tanganica, havia missionários alemães envolvidos, muitos comerciantes industriais alemães já tinham implantado negócios em África; em 1883, a bandeira alemã flutuava no Togo e nos Camarões e em 1885 estabeleceu-se o protetorado alemão na costa de Zanzibar.

Em 1882, deu-se um grave acontecimento no norte de África. A Inglaterra, sob o pretexto de reprimir a revolta de Arabi-Bey ocupara o Egipto, seria o ponto de partida para a penetração em regiões do Sudão e estabelecia-se um plano de um grande Império africano do Cabo a Alexandria. Os ingleses diziam que a ocupação do Egipto era transitória, afinal não foi. Também os italianos recorreram a expedições, sonham em criar um Império que incluísse a Eritreia, a Somália, a Abissínia, a Líbia. A concorrência era desenfreada, recentes descobertas no centro de África tiveram como efeito exacerbar que todos os países quisessem reservar para si uma parte desse extenso mercado. O que mais preocupava Portugal era a questão do Zaire, queria guardar para si exclusivamente a chave da grande bacia do Zaire.

E assim chegámos à Conferência da Berlim, cujos fins eram, no dizer do Príncipe de Bismarck associar os indígenas à civilização, abrir o interior ao comércio livre, suprimir a escravatura, propagar por todos os meios a educação e a instrução dos indígenas. A ideia fundamental da conferência era garantir o acesso do interior a todas as nações comerciantes e fixar alguns pontos do Direito Público africano. Conferência com vários pontos agendados: estabelecimento da liberdade comercial na bacia do Zaire e do Níger; declaração de neutralidade da bacia convencional do Zaire; obrigação de impedir e comprimir a escravatura; liberdade de propaganda religiosa; regulamentação do direito de ocupação das costas; estabelecimento de uma comissão internacional para elaborar regulamentos e vigiar a observação da convenção; e fazer o reconhecimento do Estado Livre do Congo.

A Conferência de Berlim lançou as bases do moderno Direito Público em matérias africanas; consagrou o princípio da política de ocupação. Logo em seguida, as potências coloniais entabularam relações diplomáticas para a delimitação das suas feiras de influência e foram celebrados Tratados repartindo um continente quase três vezes maior do que a Europa. Acabou destruído o projeto português da ligação das duas costas, a Inglaterra cobiçava a região entre o Niassa e o Tanganica, separou brutalmente as nossas possessões africanas, metendo-lhes de premeio dois protetorados britânicos. Portugal concebera o plano de ligar as suas duas possessões por via fluvial, baseava-se no domínio em certas regiões costeiras e em muitos pontos do interior. Quebrava a tradicional ideia de ligar as duas costas, havia que delimitar as fronteiras das nossas possessões africanas.

E chegámos às conclusões da conferência do Conde de Penha Garcia na Sociedade de Geografia de Lisboa em 1896. Para ele, à nossa velha política comercial em terras de África era preciso substituir a política de ocupação, para ali transferir em força o soldado, o comerciante, o missionário e o colono, só assim se poderia assegurar a posse do vasto Império colonial, e profere:
“Tudo indica que o século XX se notabilizará por um largo progresso na colonização africana. Aos espaços intertropicais o homem branco tem apenas levado a sua atividade comercial, mas tempo virá em que o ideal de organizar sociedades negras estáveis o seduza. Portugal tem em África uma importante missão a realizar, que nem a tradição histórica, nem a história política do continente africano desaprovam.
A velha raça portuguesa encontra nos nossos domínios africanos mais de um ponto em que se perpetue. A nossa política colonial, a quem compete a direção e organização deste movimento de expansão, não deve, porém, esquecer que a Conferência de Berlim criou uma época nova na vida política africana. Portugal necessita de tornar efetivo o seu domínio no importante quinhão que lhe veio a caber na partilha do continente negro.
Não é isso tarefa fácil para quem possui 2.126.110 km2 de terras avassaladas, mas, acusem embora de otimismo a conclusão desta conferência, não é justo descoroçoar da energia e do esforço dos que quase um século dominaram o mundo asiático, e apesar da decadência e dos reveses, souberam colonizar o Brasil.”


Para o investigador tem interesse consultar os apêndices que o orador juntou, como é o caso do mapa da divisão política do continente africano, onde se indica a área e a população dos Estados Indígenas Independentes e das colónias e esferas da independência europeia. O orador cita os números apresentados pelo Capitão-Tenente da Armada Ernesto Vasconcelos no que ele escreveu sobre as colónias africanas, onde erradamente atribui à Guiné uma superfície de 11.384 km2.

Retrato pertencente à Coleção da Sociedade de Geografia de Lisboa
Obra do Conde de Penha Garcia, 1931
Imagem da Conferência de Berlim, o chanceler alemão cumprimenta um dos delegados, a delegação turca está à direita
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Notas do editor:

Vd. post de 17 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27945: In Memoriam (578): Silvério Pires Dias (1934 - 2026), o "senhor Pifas", por antonomásia, radialista do Programa das Forças Armadas em Bissau (1969/74), faleceu no passado domingo, aos 91 anos; era casado desde 1960 com a Maria Eugénia, a "senhora tenente"


Oeiras > Galeria-Livraria Municipal Verney > 4 de março de 2017 > 15h00 - 16h30> A antiga equipa que deu voz e alma ao PIFAS (Programa de Informação das Forças Armadas): o primeiro sargento Silvério Pires  Dias (nosso grã-tabanqueiro nº 651) e a famosa "senhora tenente", a sua esposa.Matria Eugénia. 
.
Foto tirada na sessão de lançamento do livro de fotografia, da autoria de Jorge Ferreira, "Buruntuma: algum dia dia serás grande!... Guiné, Gabu, 1961-63" (edição de autor:  Oeiras, 2016; impressão: Jotagrafe - Artes Gráficas Lda)...    A apresentação esteve a cargo do nosso editor Luís Graça.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Silvério Pires  Dias  (Vila Velha de Ródão, 1934- Oeiras, 2026). Viveu nove anos na Guiné, desde 1967 a 1976, os últimos dois como "delegado de propaganda médica", e cinco locutor e apresentador na rádio das Forças Armadas, gerida pela Rep ACAP / QG / CTIG.



Silvério Dias, ex-2º sargt art, CART 1802, Nova Sintra, 1967/69; 1º srg art, locutor do PFA - Programa das Forças Armadas, Bissau QG/CTIG, 1969/74m

Fotos : Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



A mascote do Programa [de Informação] das Forças Armadas (PIFAS), da responsabilidade da Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica Rep ACAP / QG / CTIG). Autor da imagem:  (até à data) desconhecido. Imagem cedida pelo nosso camarada Miguel Pessoa, cor pilav ref (ten pilav, Bissalanca, BA 12, 1972/74).

Silvério Dias, que os jovens radialistas (militares) (como o Garcês Costa, o João Paulo Dinis,  o José Camacho Costa, o Armando Carvalheda, etc.)  tratavam por "paizinho", era o "senhor Pifas", por antonomásia. A sua potente voz era conhecida por toda a gente, pela tropa (em Bissau e no mato) bem como pela população civil.  O programa era o nosso "Good Morning, Vietnam!".


1. Através do formulário de contacto do Blogger, soubemos, pelo João Paulo Dinis, do falecimento (*) do nosso camarada Silvério Dias.  A notícia foi-lhe dada pelo "pifaniano" Jorge Varanda,  e conformada pela própria viúva, Maria Eugénia, a nossa conhecida "senhora tenente".

Segundo a sua página no Facebook, o Silvério Dias tinha orgulho nas suas raízes beirãs:  (i) nasceu em 19 de agosto de 1934, em Sarnadinha, Vila Velha de Ródão;  (ii) frequentou a Escola Industrial Machado de Castro, Lisboa; (iii) fez careira militar (passou pela Índia, Moçambique e Guiné);  (iv) vivia em Oeiras; (v) era casado e tinha pelo menos um filho, Manuel Valente vive na Dinamarca.
 
No CTIG, o Silvério Dias  esteve como 2º srgt art, CART 1802 (Nova Sintra, 1967/69) e depois, por convite, como 1º srg Art, locutor do PFA, Bissau QG/CTIG, 1969/74 (onde trabalhoou na Rep ACAP com, entre outros oficiais,  Ramalho Eanes e Otelo Saraiva de Carvalho). Como  civil, eoi delegado de propaganda médica, em Bissau (1974/76). 

Disse ele: 

(...) Para descrever as minhas (memórias), diria que só num livro de muitas páginas. Basta referir que "por lá andei" (na Guiné ) durante 9 (nove) anos, de 1967 a 1976. Granjeei amigos de todas as etnias e credos, admiradores ouvintes do PFA. e agradecimentos pelo bem-fazer, na minha condição de Delegado de Propaganda Médica, após abandono voluntário do Exército. (...) (**).

Era nosso grão-tabanqueiro nº 651 (desde 24/3/2014),  e um  caso extraordinário de "resistência e resiliência" contra os "males da idade"...Tem c. 3 dezenas de referências no nosso blogue.

Tinha deixado, infelizmente, de nos dar notícias, depois do último convívio da malta do Pifas no "Páteo Alfacinha", em Lisba, em 9/9/2023, com a presença do general Ramalho Eanes (***).

Tinha então 89 anos completados em 18 de agosto. Ainda me desafiou para aparecer, o que não me foi possível por estar fora de Lisboa. Um das últimas vezes que o vi, terá sido em Oeiras, na Galeria-Livraria Municipal Verney, em 4 de março de 2017, na apresentação do livro do Jorge Ferreira.

Editava o blogue "Poeta Todos Dias" ( criado em janeiro de  2011). E todos os dias, publicava um, dois, três, quatro , cinco ou seis apontamentos poéticos (em geral, quadras populares, sobre temas do quotidiano). Foram mais de 15 mil postes, até quase ao final de 2023. O blogue (ainda "on line") tem c. de 700 mil visualizações. 

Publicou em vida o livro de poesia "Neste lugar onde nasci" (2017).

 À viúva, filho, demais família e amigos "pifanianos", o nosso abraço de solidariedade na dor pela perda deste camarada, que foi um referência para muitos de nós que passámos pela "Spinolândia".



Lisboa > Páteo Alfacinha > 31 de maio de 1985 > Convívio do pessoal do emissor regional da Guiné e do PFA - Programa das Forças Armadas.

Foto: © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



 Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas, c. junho de 1971 > Noite 7 (Emissão especial aos Sábados).

Na foto, o 1º cabo José Camacho Costa e o 1º srgt Silvério Dias. Reconhecem-se excertos musicais de Carlos do Carmo, José Mário Branco, Beatles e outros... Faz-se referência á chegada do homem à lua, à guerra no Laos e no Camboja, e dá-se a notícia da flagelação, à cidade de Bissau, com foguetões 122 mm de origem russa (em 9 de junho de 1971)...

[Ouvir aqui o compacto aúdio, de Garcez Costa, antigo locutor.  Vídeo (6' 31''): Alojado em You Tube > Nhabijoes ]

Foto (e ficheiro áudio): © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné 61/74 - P27944: Parabéns a você (2477): David Guimarães, ex-Fur Mil Art MA da CART 2716 / BART 2917 (Xitole, 1970/72)

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Nota do editor

Último post da série de 15 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27920: Parabéns a você (2476): António Pimentel, ex-Alf Mil Rec Inf da CCS / BCAÇ 2851 (Mansabá e Galomaro, 1968/70)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27943: Armamento (31): Armalite AR 10, que foi a espingarda automática usada pelo BCP 21 em Angola (1961/75)

 

Angola > Leste > O alf mil paraquedista Jaime Silva, do BCP 21 (1970/72), em 1970, a norte do Rio Cassai, empunhando uma espingarda automática Armalite AR-10.

Foto do álbum de Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3ª Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; reside na Lourinhã, é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura"; residiu lá durante cerca de 4 décadas; tem página pessoal no Facebook).

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



ArmaLite AR-10, modelo português. Fonte: Wikipedia (com a devida vénia...)



1. A G3 foi a arma-padrão do Exército Português durante a guerra do ultramar / guerra colonial. Mas, em Angola, o BCP 21 usou, desde o início (1961) e até ao fim, a Armalite AR 10, uma espingarda automática, de assalto, de origem norte-americana, que teve uma vida efémera e uma história atribulada.

 Principais características técnicas:

Criador  > Eugene Stoner
Data de criação >  1955/56
Fabricante(s) >  ArmaLite  | Artillerie Inrichtingen (AI) | Colt's Manufacturing Company
Período de produção > 1956-presente
Quantidade produzida >  9.900

Especificações:

Peso >  3,29–4,05 kg c/carregador
Comprimento >  1050 mm
Cartucho  > 7,62×51mm NATO
Ação > Operado a gás, parafuso giratório
Cadência de tiro >  700 tpm
Velocidade de saída 820 m/s
Alcance efetivo >  630 m
Sistema de suprimento 20 tiros carregador de caixa destacável
Mira > Mira traseiro com abertura ajustável, mira frontal fixa. 

 O design final da empresa Artillerie Inrichtingen (um fabricante dos Países Baixos) ficou conhecido como o modelo português AR-10. 

 Esta versão final incorporou uma série de inovações e melhorias técnicas. Foram produzidas cerca de 4 a 5 mil exemplares do "modelo português" e quase todos foram vendidos ao Ministério da Defesa Nacional de Portugal pelo negociador de armas com sede em Bruxelas, SIDEM International, em 1960. 

 A AR-10 foi oficialmente adotada pelos batalhões de caçadores paraquedistas portugueses, e entrou na guerra de contrassubversão em Angola, logo em 1961, ao serviço do BCP 21.

 Tornou-se uma "arma de culto" devido às suas características inovadoras para a época: era mais leve que as concorrentes, graças ao uso de ligas de alumínio, e destacava-se pela precisão e confiabilidade em combate, mesmo em condições adversas de selva e savana. A variante portuguesa incluía melhorias como um regulador de gás simplificado e um extrator mais robusto. 

Os paraquedistas portugueses consideravam o AR-10 uma arma precisa e fiável, mas o seu uso acabou por ser limitado a algumas unidades aerotransportadas, mantendo-se em serviço até 1975, inclusive durante a descolonização de Timor Português. 

 A AR-10 foi preterida pela Heckler & Koch G3 por razões principalmente políticas e logísticas, e não tanto técnicas. 

A AR-10 era uma arma concebida nos EUA e produzida na Holanda, países críticos da política colonial portuguesa, o que dificultou a sua adoção generalizada. 

Além disso, a Holanda acabou por embargar novas remessas para Portugal, impedindo a expansão do seu uso. 

 Por outro lado, a G3, de origem alemã, beneficiou de um contexto de maior facilidade de aquisição e de produção sob licença em Portugal, além de se enquadrar na tendência de padronização de calibres dentro da NATO (7,62x51mm). 

 A G3 também se revelou mais robusta em condições de combate prolongado e permitia uma maior interoperabilidade com outros países da aliança. 

Estes factores, combinaddos, foram decisivos para a sua adoção pelas Forças Armadas Portuguesas como arma-padrão.

Guiné 61/74 - P27942: O nosso blogue em números (114): 22 anos depois, chegamos aos 914 membros registados na Tabanca Grande, aos c. 28 mil postes, 111 mil comentários e mais de 20 milhões de páginas vizualizadas.


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG. 23 de abril de 2026.
 

1. Faz hoje 22 anos que "arrancou" o nosso blogue... Ou melhor:  o nosso editor LG tinha um blogue, pessoal, que havia criado  seis meses antes,  em 8 de outubro de 2003. Chamava-se  "Blogue-Fora-Nada", ainda hoje disponível "on line" (www.blogueforanada.blogspot.com), embora inativo.

Seria, mais tarde, em 1 de junho de 2006, rebatizado como blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (www.blogueforanadaevaotres.blogspot.com).

Em 23 de abril de 2004, ele publicou, no "Blogue-Fora-Nada", um primeiro texto alusivo à guerra colonial / guerra do ultramar, na Guiné, e maia concretamente dedicado às "madrinhas de guerra". Foi o poste nº 1

 Depois desse já se publicaram perto de 28 mil...

 Em 2004 só se publicaram quatro postes... 

O quinto só apareceu em 20 de abril de 2005... 

A partir  daqui publicaram-se mais 384 até ao fim desse ano... Com periodicidade diária ou quase diária.

Com a avalanche de mensagens o blogue passou a ser de facto o Luís Graça & Camaradas da Guiné. Hoje publicamos  o poste P27942.

Chegamos a esta data com:
  • 914 membros (registados) da Tabanca Grande (a nossa comunidade virtual, que começou por ser uma "tertúlia") (infelizmente, quase 20% já morreu):
  • c. 111 mil comentários;
  • 879 seguidores;
  • 20,2 milhões de páginas visualizadas...

Temos, além disso, uma página no Facebook ("Tabanca Grande Luís Graça"), com cerca de 3,4 mil amigos.

São números que valem o que valem, mais de meio século anos depois do fim da guerra (colonial) na Guiné.

2. Comentários de duas ferramentas da IA:

2.1. ChatGPT

Vale a pena comentar...  e até sublinhar algumas coisas que, vistas de fora, talvez não sejam tão óbvias para quem está dentro da “Tabanca Grande”.

Primeiro: 22 anos de continuidade não são um detalhe técnico, são um facto histórico. 

Um blogue que nasce em 2003,  ainda no tempo pioneiro da blogosfera.  e que atravessa duas décadas, mudanças tecnológicas, redes sociais e modas digitais, não sobrevive por acaso.  Sobrevive porque responde a uma necessidade real: memória, partilha e reconhecimento entre camaradas.

Depois, há o salto qualitativo que descreves entre 2004 e 2005. Aqueles quatro primeiros “postes” quase tímidos e depois a avalanche. Isso diz muito: não era apenas um projeto individual, era uma memória coletiva à espera de canal. Quando começou a fluir, já não parou.

 E o rebatismo em 2006 não é só mudança de nome , é a institucionalização da comunidade...

Os números, como dizes, “valem o que valem”… mas também contam uma história:

  • 914 membros não são apenas inscritos, são testemunhas;
  • 111 mil comentários indicam diálogo, não arquivo morto;
  • 20,2 milhões de visualizações mostram que o tema não interessa só a quem lá esteve.

E isso liga-se ao ponto mais importante: 

mais de meio século depois do fim da guerra, ainda há necessidade de falar dela. Não como narrativa oficial, mas como experiência vivida... fragmentada, humana, muitas vezes contraditória. 

O teu blogue (ou melhor, a vossa “Tabanca Grande”, já que é um projeto coletivo) acabou por fazer algo que raramente é feito de forma consistente: 

Construir uma memória não institucional da guerra da Guiné. Guerra que não é diabolizada enm glorificada. Nem é academia (pura), nem nostalgia (vazia), simples saudosismo.. É talvez uma coisa intermédia, com vozes múltiplas, uma polifonia de memórias... 

Não é por acaso que gostas de dizer:

  • O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!
  • Tabanca Grande onde todos cabemos com tudo o que nos une... e até com o que nos pode dividir

Se quiseres um apontamento mais crítico (no bom sentido), eu diria que esse tipo de projeto ganha ainda mais valor quando consegue dialogar com gerações que não viveram a guerra. E quanmdo constrói pontes com outros antigos combatentes (nomeadamente,. os da Guiné-Bissau e de Cabo Verde).

A longevidade já está garantida,  o próximo desafio é a transmissibilidade.

No fundo, olhando para esse “poste P27942”, há aqui quase um paradoxo interessante: 

Começou como um blogue pessoal e tornou-se um arquivo coletivo que, sem dar por isso, já é parte da própria história que documenta.

E isso, camarada, já não são só números, não é "Torre do Tombo"...  É legado. É memória. É cultura.

2.2. Le Chat Mistral

Que belíssima trajetória! Vinte e dois anos de um blogue que começou como um espaço pessoal e se tornou um arquivo vivo, uma comunidade e um ponto de encontro para memórias, histórias e reflexões sobre a guerra colonial na Guiné (e, acima de tudo, sobre as pessoas que a viveram) é algo verdadeiramente notável.

Alguns pontos que saltam à vista:

  • Longevidade e consistência: de quatro posts em 2004 a quase 28 mil hoje, a evolução mostra não só persistência, mas também a capacidade de criar um espaço que cresceu organicamente e ganhou relevância;
  • Comunidade: 914 membros registados, 111 mil comentários, 879 seguidores e 20,2 milhões de visualizações são números que refletem o impacto e o envolvimento que o blogue gerou: a "Tabanca Grande" não é só uma tertúlia virtual, é um lugar de pertença para muitos;
  • Memória coletiva: o blogue tornou-se um repositório único de histórias, testemunhos e documentos sobre um período histórico que, de outra forma, poderia cair no esquecimento.

Pergunto-me: Como é que este projeto te transformou a ti, Luís Graça (er aos teu camaradas), ao longo destes anos? E o que achas que o blogue representou para os "camaradas da Guiné" e para as novas gerações que o descobrem?

Parabéns por este legado... E que os próximos anos ainda possam continuar a ser fecundos e partilhados por todos os que ainda hoje o fazem.

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

 


Espingarda automática, checoslovaca, SA vz58 P (com coronha, punho de pistola, e guarda-mão; e bandoleira). Fonte: cortesia de Wikipedia




Ak-47, de origem soviética. Aos olhos de um leigo, estás duas armas podem confundir-se.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)




Foto nº 5B, 5A, 5> Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "O tenente guarda-costas (que ostenta o crachá dos cmds na boina, e está equipado com uma Kalash), aproveita para ler uma carta chegada da Metrópole, quero crer. Porquê? Porque o envelope é debruado pelo tracejado característico do correio aéreo."



Foto nº 2 e 2A > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "Depois das honras militares o general cumprimenta o cmdt de Nhala, cap Braga da Cruz, da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513. Atrás de si, o Oficial de Dia, alf mil Campos Pereira. [No lado esquerdo da foto, vè-se o ajudante de campo de Kalash em punho.]"


Foto nº 3 > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "A comitiva dirige-se para o aquartelamento. À esquerda da imagem o coronel Hugo da Silva, Chefe do Estado-Maior, cumprimenta o Oficial de Dia. Em primeiro plano, de Kalashnikov, o tenente Ajudante de Campo. E guarda-costas, pareceu-me."


Foto nº 11  > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "As visitas preparam-se para partir. Ao volante do jipe, o Cmdt do Batalhão Ten-Cor Carlos Ramalheira e, ainda a subir, à esquerda, o Cmdt de Operações do BCAÇ 4513, Capitão Cerveira. De cigarro, à direita, o Coronel Hugo da Silva. No jipe de trás o resto da comitiva, apenas se reconhecendo ao volante o Major Dias Marques  [e o ajudante de campo que se preparava para tomar o seu lugar, atrás, no lado direito, no jipe da frente]. A comitiva dirigiu-se a Aldeia Formosa, onde o general almoçou regressando logo a seguir a Bissau."


Fotos do álbum do António Murta, ex-alf mil MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74). Manteve-se a mesma numeração.(*)

Fotos (e legendas): © António Murta (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. É mais um caso de... kalashnikovomania ?! Podia chocar alguns de nós ao ver o ajudante de campo do governador e comandante-chefe que sucedeu ao gen Spinola optar, em vez da G3, por uma arma  com que os  homens do PAIGC nos matavam..

Mas há aqui uma dúvida: trata-se de um AK-47  (como diz o fotógrafo, António Murta)  ou de uma  SA Vz58 (como garante o nosso especialista em armamento, Luís Dias) ?

 Este último diz que é uma SA Vz58:

(...) "Na foto nº 5 é identificado um Tenente dos Comandos, referindo que o mesmo porta uma espingarda de assalto Kalashnikov. 

No entanto, a arma que ele transporta é uma SA Vz58, de origem Checoslovaca, com aparência semelhante à AK-47, mas opera num sistema diferente. 

Estas armas foram adquiridas aquando da Operação "Mar Verde", em 1970, efectuada na República da Guiné-Conacri. Continuaram a ser usadas por forças dos Comandos na Guiné (graduados) e era a arma preferida do então alferes Marcelino da Mata, quando comandava o Grupo de Operações Especiais, mais conhecido pelo Grupo do Marcelino da Mata. (...)

quinta-feira, 21 de março de 2024 às 11:41:00 WET 

2. Comentário do editor LG:

Luís Dias, obrigado pelo teu comentário. Tens "olho clínico", és  bom observador e sobretudo és especialista em armamento.... És capaz de ter razão, a arma do ajudante de campo ( e guarda-costas, o dois em um) não será uma AK-47 mas a tal SA Vz58 (a avaliar por pequenos pormenores como o feitio da coronha, o tapa-chamas, a alça. a mira, o guarda-máo,  o punho, etc., além do porta-carregadores em couro).

Do que tenho dúvidas é em relação às armas que foram adquiridas para equipar as forças que estiveram empenhadas na Op Mar Verde (22 de novembro de 1970). 

De acordo com o António Luís Marinho ("Operação Mar Verde: um documento para a história", s/l, Círculo de Leitores, 2005), foram compradas 250 espingardas automáticas AK-47, além de 20 morteiros  e 12 RPG-7, encomenda feita diretamente à então URSS (!) pela empresa portuguesa "Norte Importadora", de João Zoio, e paga pelo cheque nº 30983. no valor de 3450 contos, endossado ao inspetor da DGS, Barbieri Cardoso (pág.  79). (Essa importância seria equivalente, a preços de hoje, a mais de 1,2 milhões de euros, era muita massa.)

A título de curiosidade:

  • Cada AK-47 (equipamento completo, incluindo 4 carregadores) custava 5750 escudos em 1970 (c. de 2000 euros); loop
  •  Cada mil munições 7.62 para a Kalash custava mil euros (a preços de hoje);
  •  Já o RPG-7 (LGFog) custava 50750 escudos (c. 17,8 mil euros);
  • Cada granada-foguete perfurante (para a bazuca) andava à volta de 1750 euros;
  • O morteiro 82 era ligeiramenet mais caro que o LGFog: 53879 escudos (c. 18,9 mil euros);
  • A granada de morteiro, HE (Altamente explosiva), era mais baratinha: c. 300 euros...

(Seleção e edição de fotos, revisão/ fixação de texto, parênteses retos, título: LG)

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Notas do editor LG: