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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28492: Historiografia da presença portuguesa em África (551): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (19): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Estamos já nas últimas páginas do documento elaborado pelo Capitão Henri Brosselard. Confesso que encontrei inúmeras dificuldades na tradução. logo a torto e a direito ele fala em ville e village, vi-me na obrigação, em muitos casos de falar em aldeamentos ou povoações, a palavra village por exemplo não me parece ter cabimento em português para falar de seis ou oito moranças. O mesmo direi da descrição que ele faz das florestas, todas as árvores gigantes lhe parecem ser da família Bombax, ora nós sabemos que há diferentes designações; e nos primeiros textos que aqui publiquei ia referindo que os indígenas empunhavam sabres quando na verdade empunhavam catanas; para acabar este meu lamento, há também as expressões à volta de terrenos pantanosos e braços de rio, só muito raramente o Capitão Brosselard fala em mangrove, o equivalente a tarrafe.
Posto isto, este penúltimo texto assinala o fim dos trabalhos da comissão, os portugueses deixaram a Casamansa e o oficial francês antes de partir para Gorée vai espiolhar rios menores que desaguam no Casamansa. Como iremos ver no último texto, as referências à Guiné portuguesa não serão muito abonatórias, vê-se claramente que o oficial francês deve abocanhar aquele pedaço de território enquistado na África ocidental francesa, a Gâmbia será também um outro corpo estranho, mas o poder da Grã-Bretanha não permite veleidades, é melhor nem falar do assunto.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 19
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

A narrativa do Capitão Brosselard caminha para o fim, a comissão portuguesa já deixou o Casamansa, o oficial francês vai percorrer outras zonas antes de chegar a Gorée. A comissão portuguesa deixou o Casamansa no Guadiana e a comissão francesa no Mésange. Voltamos ao relato na primeira pessoa do singular.

Antes de tomar a rota para Gorée, o nosso barco navegou no rio Sâloum. Quando se deixa Dacar indo para o sul, este rio é o primeiro dos rios franceses que tem uma saída para o interior, da mesma maneira que o rio Mellacorée é o último.

O rio Sâloum é navegável por noventa milhas. Os navios de comércio de 30 a 250 toneladas sobem facilmente até ao posto de Kawlakh, que foi construído em 1861. A barra apresenta algumas dificuldades, porque é formada por bancos movediços. Nós entrámos seguindo uma linha de balizas que marcam o canal. As margens do Sâloum e do Sîn, um dos seus afluentes, são baixas e cobertas de espessos e altos tarrafes cheios de aves aquáticas, graças brancas e azuis e pelicanos. Imensas lalas estendem-se a perder de vista, podemos ver os troncos cónicos e acobreados das árvores gigantes; o leopardo e a pantera caçam aqui, a gazela e os antílopes. Alguns, raros, elefantes vivem solitários e temidos junto dos rios e também nos espaços desérticos do alto Sâloum; para lá de Kawlakh habita a girafa.

O círculo de Sîn-Sâloum compõe-se de dois reinos indígenas; o Sîn, com capital em Fatick, e o Sâloum, com capital em Kawn. São dois reinos Sérères habitados o primeiro pelos Sîn-Sîn, o segundo pelos Sîn-Sâloum. Os Sérères são os indígenas mais selvagens e os mais cruéis do Senegal; são especializados na ciência temível dos venenos com efeitos lentos e estranhos; e certas tribos, no entanto vizinhas de nós, habitam ainda nas árvores como os macacos.

A singular doença do sono, muito espalhada na Senegâmbia, faz numerosas vítimas no território Sérère. A povoação de Portudal foi completamente destruída pela aparição desta doença que lembra bastante um longo envenenamento e causa aos negros o maior pavor. As casas comerciais do Senegal estabeleceram delegações em Foundiougne, Kawlakh e Fatick. Foundiougne acha-se na ilha do mesmo nome, na margem esquerda do Sâloum; as relações entre Gorée e esta escala são antigas e ativas. Quatro estabelecimentos de cor branca alinham-se na margem com os seus longos cais de madeira avançando no rio. Entrevê-se atrás delas as casas bem alinhadas do aldeamento indígena postas como enormes colmeias sobre os verdes-pálidos de uma grande floresta. Durante o ano de 1888 a quantidade de amendoim tratado em Foundiougne foi superior a 5 milhões de quilos.

O nosso aviso estava fundeado em Foundiougne, subi o rio Sîn com a chalupa a vapor e assim cheguei a Fatick, subindo as intermináveis sinuosidades do rio. Em Fatick, o Sîn torna-se bastante estreito, a partir daqui já não é navegável. Quatro armazéns dirigidos pelos de Foundiougne são construções novas, datam do ano passado. À volta são dois grandes aldeamentos indígenas, um na margem do rio, o outro no interior. Subindo a margem vê-se a pouca distância um grupo de cinco ou seis casas cercadas por uma paliçada e à sombra de um soberbo tamarindo: é o posto ocupado por um sargento europeu e alguns atiradores indígenas. Tamarindos, poilões, árvores da borracha envolvem a povoação de uma magnífica cintura de sombra e verdura. Pássaros de todas as cores, melros metálicos, colibris, pombos verdes, chilreiam nas árvores, e os grandes bois dos Fulas circulam livremente pelos prados. Regresso desta excursão na mesma embarcação até à povoação de Kawlakh, erigida sobre o Sâloum, quase numa das extremidades de um dos seus braços. Era neste lugar que existia outrora a mais importante escala da região.

Hoje, depois da doação feita à França da ilha de Foundiougne pelo régulo Sâloum, deu-se uma emigração de indígenas e Kawlakh perdeu a importância do passado. Há em Fatick quatro feitorias dirigidas pelos de Foundiougne. O posto está abandonado e arruinado.

As escalas de Foundiougne, Fatick e Kawlakh são território francês: o resto não é mais do que um país protegido, sob o nosso controlo, mas regido pelas leis e costumes indígenas. Apesar da propaganda muçulmana, o fetichismo é a forma religiosa do país. A serpente é o emblema da divindade. O feiticeiro é um personagem oficial, sacerdote e médico ao mesmo tempo.

Triste sorte terá o indígena que não pertencendo à confraria se ponha a fazer de feiticeiro: será morto desde que, com razão ou sem ela, se faça passar por feiticeiro. É difícil penetrar no segredo dos ritos religiosos dos Sérères. Sabe-se, contudo, que existe entre eles uma vasta sociedade secreta que tem muita analogia com a dos Simons, que encontramos entre os Nalus e os Bagas; como nestes últimos, esta sociedade é todo-poderosa e, sob a máscara religiosa, parece igualmente não ter uma só finalidade, uma espécie de função social que consiste em defender o indígena contra o poder. Graças a um sistema admiravelmente organizado, pode transmitir instantaneamente a sua palavra de ordem até aos lugares mais longínquos do território Sérère.

E o Capitão Henri Brosselard vai despedir-se na sua narrativa falando da Guiné Portuguesa. Será assim que concluiremos o texto que publicou em Le Tour du Monde, em 1889.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Fotografia antiga de Casamansa
Imagem do Capitão Brosselard no país dos Banhuns
Mulheres na fonte em Ziguinchor

Imagens antigas retiradas do site Senegal Online

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de > Guiné 61/74 - P28469: Historiografia da presença portuguesa em África (550): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (18): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28491: A nossa guerra em números (53): "As tonelagens a movimentar são superiores às possibilidades de escoamento das embarcações, das viaturas e dos meios aéreos disponíveis" (brig Reymão Nogueira, cmdt militar do CTIG, 31Out1966)

 

Guiné > Zona Leste  > Sector L3 (Nova Lamego)  > Viatura do BCAÇ 1856 atolada. Em 1Mai66, o BCAÇ 1856 tinha assumido a responsabilidade do Sector L3, com sede em Nova Lamego, no qual estavam incluídos os subsectores de Bajocunda, Canquelifá, Piche, Buruntuma, Madina do Boé e Nova Lamego. O Sector L3 (Nova Lamego) era, a par do S2 (Buba) e S3 (Catió), um  dos mais afetados com a carência de meios de transporte (terrestres e aéreos). As colunas logísticas eram sempre um pesadelo, agravado no tempo das chuvas., quando as "picadas" se tornavam intransitáveis.

(Foto, a preto e preto, do AHM -Arquivo Histórico Militar | CECA, 2014, pág., 402 |  Imagem reconstituída e colorizada: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné+ IA (Google / Gemini).


1. (CECA (2014): excertos do Anexo n° 4 - Relatório de Posse do Comando do CTIG de 31 de Outubro de 1966

O Comandante Militar, Brigadeiro António M. Malheiro Reymão Nogueira, apresentado na Guiné em 07Set66, elaborou um Relatório de posse do Comando em 31 Out66, em que referia a situação sumária, a essa data, dos principais problemas em diversas áreas e terminava com uma conclusão geral. 

Referia "duma forma geral, todas as deficiências citadas ao longo deste Relatório já foram expostas à Metrópole, algumas delas insistentemente, principalmente quando afectam grave e directamente aactividade operacional".

Porque há facetas interessantes que elucidam o trabalho realizado em missões não operacionais, extraem-se do Relatório aspectos relacionados com os;

  • Serviços de Informações Militares
  • Contra-Informação,
  • Logística,
  • Transportes, 
  • Engenharia, 
  • Transmissões, 
  • Serviço de Material, 
  • Intendência,
  • Saúde, 
  • Contabilidade e Administração, 
  • Postal Militar, 
  • Destacamento de
  • Ligação e Reconhecimento das Transmissões n° 8 
  • Conclusão geral

(Continuação) (ª)

(ii) Transportes Terrestres

Meios, necessidades e disponibilidades

A partir de Bissau, transporta-se, em média mensal, para o interior a seguinte tonelagem (dados de 1966):

  • Sector de Bula: 180 ton
  • Sector de Mansoa: 210 ton
  • Sector de Farim (quando possível): 210 ton
  • Total Geral 600 ton

Tendo em atenção que só existe uma Unidade de Transportes Rodo, a Companhia de Transportes 1576 (20 viaturas "Mercedes" das quais 12 operacionais, em média) que na realidade transporta aproximadamente 270 ton / mês, verifica-se um desequilíbrio grande no binário Necessidades-Disponibilidades,que não é possível anular mesmo lançando mão das viaturas do BINT (Batalhão de Intrendência) que transportam em média 1500 ton/mês e que estão praticamente sempre empenhadas nos carregamentos de embarcações para o interior.

Com a saída dos Destacamentos de Intendência para o interior, a Secção de Transportes  vê diminuídas as suas possibilidades de transporte dentro de Bissau e daqui para os Sectores de Bula e Mansoa, porque deixa de poder ser reforçada a Companhia de Transportes com uma média de 8 viaturas daqueles Destacamentos.

[...].

(ii) Transportes Aéreos

Existem presentemente carreiras aéreas de avião "DO-27" que fazem as ligações entre várias Subunidades dos Batalhões, de uma a três vezes por semana.

Não satisfazem as necessidades dos Batalhões, em especial dos Sectores L3 (Nova Lamego) , S2 (Buba) e S3 (Catió). 

Alternadamente são realizadas com aviões "Dakota", carreiras para Nova Lamego-Farim e Bafatá- Tite.

Sempre que necessário é feito à FA o pedido especial para transporte de carga e bem assim para evacuações de doentes e feridos. 

Estes pedidos porém são sempre condicionados às disponibilidades existentes as quais ficam aquém das necessidades. 

Assim, por exemplo, o fornecimento de frescos às Unidades do interior, não pode fazer-se com regularidade, devido à falta de capacidade dos transportes aéreos, sem recorrer ao fretamento de aviões civis [...].

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 477, 484/485, 498,

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

2. Comentário do editor LG:

Não se faz referência ao Pelotão de Transportes Especiais que já existia, em 1966, e que fazia parte do BENG 447 (*). Mas falaremos em próximo(s) poste(s) do ponto da situção no que diz respeito à Engenharia, bem como à Intendência e, eventualmente, a outros comandos de  armas e chefias serviços. 

É interessante a conclusão geral do relatório do então comandante militar do CTIG,  brigadeiro António Maria Malheiro Reymão Nogueira (1909-1987),   um militar oriundo da arma de cavalaria, contemporâneo de António Spínola na Escola do Exército, e que irá ser demitido por Marcello Caetano em 27 de maio de 1971, do lugar de cmdt da Região Militar de Coimbra, por alegadamente ter criticado em público  a proposta de revisão constitucional do Governo (um dos 3 pontos mais polémicos era justamente a do estatuto dos territórios ultramarinos).

 Para o então cmmdt militar do CTIG, havia deficiências gritantes, no apoio logístico, apresentadas em 31/10/1966, à Metrópole. Por exemplo, estas duas, relevantes para o problema dos Transportes (*):

(i)  "Possibilidades limitadas dos meios navais de transporte que são insuficientes para atenderem as necessidades operacionais e logísticas"

(ii) "As tonelagens a movimentar são superiores às possibilidades de escoamento das embarcações, das viaturas e dos meios aéreos disponíveis".

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Nota do editor LG:
´

Guiné 61/74 - P28490: A nossa guerra em números (52): Ao fim de um ano, eu e tu, camarada, gastávamos, cada de um nós, uma GMC carregada de abastecimentos, 2,8 toneladas...

 

















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: CECA (2014)
Imagens : Arquivo do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)


1. Camaradas, os números podem ser "fastidiosos". Todos temos falhas de numeracia. O português não gosta de pensar e falar com números. Mas  estes são  muito interessantes para uma abordagem, mesmo superficial,  da logística militar no CTIG (1961-1974). 

Aliás, há aqui uma questão que merece ser valorizada: a nossa guerra da Guiné não se fazia apenas com homens e armas; fazia-se também com toneladas e toneladas de abastecimentos, transportadas por terra, ar e, sobretudo, por água.

No mato, sentíamos a falta dos abastecimentos (víveres, artigos de cantina, comida, bebida, correio, munições, etc.). Mas nunca nos preocupámos muito em saber da  logística que estava por detrás de tudo isso (do planeamento aos transportes)... 

Ora, era uma condição indispensável da operacionalidade das NT. E, num território como a Guiné, com uma extensa rede hidrográfica, más estradas e mais de 200  guarnições dispersas e muitas isoladas, em ambiente de guerra (às vezes danada!), o transporte fluvial tinha uma importância estratégica enorme.

Cada companhia destacada num aquartelamento ou destacamento representava uma obrigação logística permanente. Não bastava lá colocar 150 ou 160 homens, em Farim, em Canjadude, no Xitole, em Fulacunda, em São  João, em Buba, em Aldeia Formosa, em Guileje, em Catió...  

Era preciso alimentá-los, equipá-los, municiá-los, assegurar o combustível das viaturas e geradores, fornecer medicamentos, manter as ligações postais, carrear materiais para a "psícola", sem esquecer o arroz com que alimentávamos grande parte da população que estava sob a bandeira portuguesa...

 Spínola também sabia que não havia almoços grátis (neste caso a bianda nossa de todos os dias)...

Dá para pensar o que cada um das nossas companhias no mato consomia por mês:

Tipo de abastecimento | Peso mensal
  • Víveres | 14 500 kg
  • Artigos de cantina | 3 000 kg
  • Combustíveis | 8 000 kg
  • Munições | 700 kg
  • Medicamentos | 500 kg
  • Lubrificantes | 500 kg
  • Fardamento e calçado | 300 kg
  • Correio | 250 kg
  • Total | 37 750 kg
Ao fim de um  ano (12 meses), eu e tu, camarada  gastávamos, cada de um nós,  uma GMC  carregada de abastecimentos, 2,8 toneladas... (E ainda faltam aqui materiais de construção, etc.; aliás, cada companhia de quadrícula não eram 160 homens, era também muitas vezes uma tabanca inteira!)

Esta BD didática convida-nos a não esquecer estes números. E mais: que guerra também se fazia a bordo do BOR, das LDM, das LDG, dos "barcos-turras"... 

E essa é uma dimensão da história da Guiné que merece ser contada, também com a memória dos marinheiros e das guarnições que asseguravam aquelas ligações, entre Bissau e o mato.

Marinheiros, mas também pessoal de terra e de ar...Não esqueçamos ninguém. 
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P284888: A nossa guerra em números (51): a epopeia dos transportes: só por via fluvial, e por mês, Bissau enviava em 1966 c. 3 mil toneladas para o interior (o "mato")


terça-feira, 3 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28489: Efemérides (398): No Dia dos Fiéis Defuntos, romagem aos cemitérios de Leça da Palmeira e Matosinhos para homenagear a memória dos matosinhenses caídos na I Guerra Mundial e Guerra do Ultramar (Carlos Vinhal)

Realizou-se no passado dia 2 de Novembro, Dia dos Fiéis Defuntos, a tradicional romagem ao Cemitério n.º 1 de Leça da Palmeira e Cemitério n.º 2 de Matosinhos (Sendim), locais onde existem Talhões da Liga dos Combatentes, para homenagear os matosinhenses caídos em Campanha na I Guerra Mundial e Guerra do Ultramar.

A cerimónia teve início no Talhão do Cemitério de Leça da Palmeira, pelas 10h30, com a deposição de duas coroas de flores, seguindo-se o toque de homenagem aos mortos e uma evocação religiosa pelo Pároco de Leça da Palmeira, Padre Francisco Andrade.

Em Matosinhos, pelas 11h15, no Cemitério de Sendim, depôs-se uma coroa de flores no Talhão, a que se seguiu o toque de homenagem aos mortos e foi lida a prece do Exército.

Posteriormente, no mesmo cemitério, os participantes dirigiram-se para junto do Memorial aos 70 Combatentes Mortos na Guerra do Ultramar, onde se procedeu à deposição de duas coroas de flores, seguindo-se o toque de homenagem aos mortos e a leitura da prece do Exército.

Os toques nas cerimónias foram executados, como habitualmente, pelo senhor Francisco, Clarim dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça.

Estiveram presentes nas cerimónias:
o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Dr. Carlos Mouta;
o Presidente da Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, Dr. Plácido Santos;
em representação da Junta de Freguesia de Matosinhos, Prof. Paulo Ferreira.

O Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes fez-se representar pelo Presidente da Direcção, TCor Armando Costa e Presidente da Mesa da Assembleia Geral, Combatente Ribeiro Agostinho;
Assitiram e participaram nas cerimónias, Antigos Combatentes, familiares e público em geral.

Foto 1 > Leça da Palmeira > Início da cerimónia
Foto 2 > Leça da Palmeira > Senhor Pe. Francisco Andrade, Dr. Carlos Mouta, Dr. Plácido Santos e Tenente Coronel Armando Costa
Foto 3 > Leça da Palmeira > Momento da deposição de coroa de flores pelos TCor Armando Costa e Dr. Carlos Mouta.
Foto 4 > Leça da Palmeira > Momento de reflexão
Foto 5 > Leça da Palmeira > Dr. Plácido Santos depois da deposição da coroa de flores da Junta de Freguesia
Foto 6 > Leça da Palmeira > Momento religioso pelo Pe. Francisco Andrade, auxiliado pelo Antigo Combatente Raul Ramos
Foto 7 > Leça da Palmeira > Talhão da Liga dos Combatentes
Foto 8 > Matosinhos > Sargento Mor David Caetano, do Núcleo de Matosinhos da LC que coordenou as cerimónias; Clarim dos B.V. de Leça da Palmeira, senhor Francisco, e Porta-estandarte do Núcleo, Antigo Combatente Neves
Foto 9 > Matosinhos > Autoridades e Antigos Combatentes presentes na cerimónia
Foto 10 > Matosinhos > Momento da deposição da coroa de flores no Talhão da LC do Cemitério de Sendim
Foto 11 > Matosinhos > Cemitério de Sendim > Talhão da Liga dos Combatentes
Foto 12 > Matosinhos > Memorial aos Combatentes Matosinhenses caídos em campanha na Guerra do Ultramar > Deposição de coroa de flores
Foto 13 > Matosinhos > Momento de reflexão junto ao Memorial
Foto 14 > Matosinhos > Parte do Memorial onde constam os 69 nomes dos Combatentes caídos em campanha
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Fotos: © José Trindade. Editadas e legendadas pelo coeditor CV

Guiné 61/74 - P28488: A nossa guerra em números (51): a epopeia dos transportes: só por via fluvial, e por mês, Bissau enviava em 1966 c. 3 mil toneladas para o interior (o "mato")



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >  Sector L1 (Bambadinca) > Rio Geba > Xime > A LDG 101 "Alfange" a abicar ao porto fluvial do Xime... O pessoal desembarcado, mais as bagagens e o armamento, seguiam depois em coluna auto para os seus destinos, mais a leste (Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego, Canjadude, Madina do Boé, Piche, Pirada, Buruntuma, Canquelifá etc.)...

Em 7 de maio de 1968, desembarcaram aqui, nesta ou noutra LDG, os elementos que constituíam o Pel Rec Daimler 2046, comandado pelo alf mil cav Jaime Machado, e colocado no setor L1 (Bambadinca). Vinte e dois meses depois, em fevereiro de 1970, terminada a comissão, os nossos camaradas de cavalaria voltavam apanhar a LDG, de regresso a Bissau onde, em abril de 1970, regressavam a casa, no mesmo T/T Niassa, que os tinha trazido 


Foto (e legenda): © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Sabe-se que uma companhia (160 homens, em média, de atiradores, de infantaria, de artilharia ou de cavalaria) precisava de cerca de 40 toneladas de abastecimentos por mês...o que é equivalente à capacidade de carga de:

  • 1 motor"Bor", "BM1" ou "Bm2";
  • 3 a 4  LDM (Lancha de Desembarque Médio);
  • 1/5 de uma LDG (Lancha de Desembarque Grande) (como a foto acima),

Imaginemos que o transporte fosse apenas feito por via fluvial e por LDG: ao fim da um comisssão de serviço de 22 meses, a carga transportada (880 toneladas por companhia) implicaria:

  • 22 viagens de um motor como o "Bor";
  • 4  viagens de LDG;
  • c. 80  viagens  de LDM.

2. Discriminam-se a seguir, por tipologia de abastecimento, os respetivos valores por mês (em percentagem do total e em quilogramas) (*)

(i) 38,7 %; víveres (alimentação): 14,5 mil  kg, sendo 12 mil kg de víveres secos, e 2,5 mil kg de víveres frescos:

(ii) 34,7%: artigos de cantina (cerveja, tabaco, higiene, papelaria, etc.): 13 mil kg:

(iii) 21,4%: combustíveis (gasóleo, gasolina, petróleo): 8 mil kg;

(iv) 1,6%: munições:  700 kg;

(v) 1,3%: medicamentos; 500 kg:

(vi) 1,1%:  lubrificantes (óleo para viaturas e armamento, etc.): 500 kg;

(vii) 0,7%: fardamento e calçado: 300 kg;

(viii) 0,5%: correio: 250 kg.

Total= 100% | 37750 kg (a dividir por 160 homens=235,9 kg).

3. Os transportes foi sempre um "problema bicudo" no TO da Guiné, do princípio ao fim.  Por muitas razões, a começar por:

  •  falta de meios (homens, viaturas, embarcações, aeronaves, etc.);
  • escassez de  infraestruturas (terminais portuários, estradas, aeródromos, etc.); 
  • crescente aumento de efetivos e de guarnições;
  • incremento da resposta às necessidades de desenvolvimento socioeconómico (reordenamentos, estradas, equipamentos sociais, etc.).

No 4° trimestre de 1964, no 2º ano ano oficial da guerra, o CTIG dispunha de um total estimado de 15150 militares. Nove anos depois, em 1973, as NT (Exército, FAP e Marinha) ultrapassavam os 35 mil efetivos.

O número de companhias (caçadores/atiradores de infantaria, mais atiradores de artilharia e infantaria, vai crescendo com a intensificação da guerra: 

  • 30 (1963), 
  • 50 (1965), 
  • 60 (1967),  
  • 84 (1969), 
  • 87 (1971), 
  • 98 (1974)... 

(Excluem-se outras subunidades: companhias de comandos, esquadrões e pelotões de reconhecimento, pelotões de artilharia,  pelotões de caçadores nativos,  pelotões de armas pesadas de infantaria, companhias de milícas, etc.)

Vale a pena citar a CECA (2014), que faz uma boa síntese sobre a situação dos transportes (fluviais, terrestres e aéreos) em 1966, e nos dá alguns números que merecem reflexão  (**):


Transportes

Generalidades

Embora já tenha sido criada a Chefia do Serviço de Transportes do CTIG, cujos QO foram aprovados superiormente, continua a existir na 4ª Rep por não ter sido ainda nomeado o respectivo Chefe, o Major do Serviço de Transportes.

Compete à 4ª Rep o planeamento do emprego dos meios da Companhia de Transportes, cujo QO, já aprovado, prevê a constituição de 8 Secções de Transportes e a dotação de 40 viaturas TG. 

Presentemente esta Companhia dispõe apenas de 4 Secções e 20 viaturas, das quais 50% operacionais, em média, o que é manifestamente insuficiente para as necessidades. 

Num futuro próximo, serão atribuídas ao CTIG 30 viaturas "Mercedes" tipo civil, para serviço não operacional o que em muito virá beneficiar os transportes rodoviários e permitir a recuperação de algumas viaturas operacionais para a Companhia de Transportes.

Pelas dificuldades verificadas na estiva do porto de Bissau e pela necessidade de se proceder a carregamentos noutros locais e às mais variadas horas, houve que manter a constituição dum grupo de estivadores assalariados privativo do CTIG, o qual se tem mostrado extremamente útil e rendoso. 

Também para alguns terminais do interior está autorizada a utilização de pequenos grupos de estiva, até 15 homens, com a finalidade e aliviar as guarnições respectivas, libertando-as para o seu emprego operacional, como é lógico. 

Em muitos casos e para carregamentos da ordem das 100 ton, ou superiores, têm-se utilizado grupos de estivadores acompanhando a carga até aos respectivos pontos de descarga.


1. Transportes Fluviais

Em média, é a seguinte a tonelagem que mensalmente se torna necessário enviar de Bissau para o interior, por via fluvial: Total Geral = 2.920 ton

Meios Disponíveis:

- Serviços de Marinha

Os Serviços de Marinha da Província dispõem das seguintes embarcações:

  • Rebocador "Diana";
  • Rebocador "Atro";
  • Motor "Bor" ( 40 ton);
  • Motor "Corubal" (30 ton):
  • Motor "BM 1" (40 ton);
  • Motor "BM 2" (40 ton);
  • Motor "Formosa" (25 ton);
  • Draga "Geba"

Embora empenhados, na sua maior parte, em carreiras normais dentro da Província, às FT (Forças Terrestres)  são sempre cedidos 2/3 da carga.

Por outro lado, sempre que necessário, estas embarcações são dispensadas ao CTIG no regime de frete redondo para fazerem face ao transporte quer de pessoal quer de carga.

Tem sido a seguinte a aplicação dos meios dos Serviços de Marinha da Província:
  • Rebocadores "Diana" e "Atro": reboque de batelões ou lanchas fretados às casas comerciais de Bissau (Casa Gouveia, Sociedade Ultramarina, Manuel Barbosa, etc.);
  • Motores "Bor", "Corubal", "BM I", "BM 2" e "Formosa": transporte de carga e pessoal quer em carreiras normais quer em frete redondo;
  • Motor "Rui Manuel": transporte de pessoal e de pequenas cargas, utilizando as carreiras normais;
  • Draga "Geba": transporte de pessoal e carga dos T/T (navios de transporte de tropa)  para o cais e vice-versa, em regime de fretamento.

A média mensal transportada nestas embarcações pode computar-se como se segue:

  • Regime de fretamento: 100 ton;
  • 2/3 carga carreiras normais: 200 ton;
  • Total=300 ton
Nota do editor LG: Não sei se o motor "Rui Manuel" não era também conhecido por "Pecixe" (operava mais no rio Cacheu, segundo informação do António Bastos). 

Na lista de embarcações do Serviço da Marinha da Província, não se incluem as embarcações civis, privadas, pertencentes às casas comerciais (como a "Manuel Barbosa"), ou a armadores que operavam os chamados "barcos turras": a "Bubaque" (do pai do Manuel Amante da Rosa), a "Mampatá", a "Olhão"... Quatro embarcações  (cito de cor) que foram atacadas no Geba Estreito; Ponta Varela, Mato Cão, São Belchior... (Mas a LDG Bombarfa também atacada em plena do dia, em 3 de agosto de 1970, na Pona Varela.)

Voltando à CECA (2014, pp. 481/484)...


Comando da Defesa Marítima (CDM)

O CDM continua a estabelecer quinzenalmente um crédito para transportes logísticos, de acordo com as suas disponibilidades; sendo porém as necessidades do CTIG muito superiores, neste crédito são incluídos um determinado número de LDM (entre 2 e 4) e uma ou duas LDG em serviço na Província ("Alfange" e "Montante").

  • Uma LDM transporta 10/12 ton;
  • As LDG apresentam uma capacidade de carga de cerca de 200 ton, o que nem sempre aconselha o seu emprego;
  • No entanto, as LDG vêm sendo permanentemente empenhadas em carregamentos de grande vulto, como seja, para Bambadinca, Teixeira Pinto, Farim, Rio Grande de Buba e Rio Cacine [...].

Casas Comerciais

Estas embarcações continuam a ser, em geral, orientadas para os portos
que interessam às casas comerciais e só podem ser fretados quando disponíveis,
o que raramente acontece, sucedendo também que muitas vezes  o batelão está disponível, mas não há rebocador. 

Além disso estes meios por pertencerem a firmas civis, pelas suas más condições de serviço e por insuficientes, não permitem um emprego regular nem um planeamento prévio; no entanto, note-se que a grande corrente de reabastecimento é através destas embarcações (os chamados "barcos turras", LG).

Cargas e descarga de barcos fretados

Durante o mês de novembro  de 1966 chegaram a Bissau, vindos da metrópole, dois T/T (navios de transporte de tropa) que exigiram um empenhamento da quase totalidade dos meios (CDM, Serviços de Marinha e Casas Comerciais). 

No mês de dezembro chegam a Bissau um T/T e outro barco em carreira comercial transportando uma Companhia de Comandos. O volume de trabalho é um factor negativo que contribui para o desequilíbrio do sistema Disponibilidades-Necessidades pelos meios que se tornam necessários desviar dos serviços normais de reabastecimento. 

Assim, o sistema de transportes encontra-se em permanente crise pois quando se procura atenuar, de novo se agrava com a chegada de novos T/T [...].

(Continua)

Fonte: Excertos de: Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 481/485.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de 11 de novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22707: A nossa guerra em números (4): Cada militar necessitava em média, por mês, de 240 kg de abastecimentos (no essencial, víveres e artigos de cantina, mais de 70%)... O consumo "per capita" mensal de outros artigos era o seguinte: 50 kg de combustíveis; 4,4 kg de munições; 3,1 kg de medicamentos; 1,6 kg de correio... E, miséria das misérias, tínhamos direito a... 520 gramas de víveres frescos por dia!

(**) Último pposte da série > 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28153: A nossa guerra em números (50): o custo de uma chamada telefónica, de 3 minutos, em 1969, para a Metrópole, podia ir de 100 a 130 escudos (37 a 48 euros, a preços de hoje)

Guiné 61/74 - P28487: A Nossa Marinha (7): Uma viagem inesquecível no "Bor", de Bolama a Bissau, em fevereiro de 1965, com uma avaria na Ilha das Cobras, e a minha filha a querer nascer... (Rui Santos, ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, e CIM Bolama, 1963/65)


Guiné > Viagem no "Bor" > Fevereiro de 1965 > Entre Bolama e Bissau. Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné  + IA (ChatGPT / Open AI) .

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Rui Santos (2014)
Imagens : António Bastos (2014) + Arquivo do blogue
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)



Guiné > Bolama > 1964 > O ferryboat "Bor", em viagem entre Bissau e Bolama. Foto, a sépia, de António Paulo [Bastos], ex 1º cabo at inf, Pelotão Caçadores 953, Cacheu , Farim, Canjambari, Jumbembem, 1964/66. Resconstituida e colorizada com recurso à IA. 

Acrescenta o Rui Santos: "Amigo Luís, de certeza que era o Bor, foi em fevereiro de 1965, dias antes do nascimento de nossa filha, o Bor nessa altura ja navegava de 'bengalas' e 'boias nos braços', enferrujado, velho combatente,  mas navegando à superficie dos canais e rios limítrofes de Bolama e Bissau".

1. Afinal muita boa gente (ou gente boa) andou na Bor (ou no  Bor, já que, além de embarcação dos Serviços da Marinha da Província, era "motor" e  "ferryboat"): do general Spínola ao José Colaço, do Ismael Augusto ao Torcato Mendonça, do Luís Dias ao Libério Lopes, do Manuel Amante da Rosa ao Fernando Chapouto...

Ninguém sabe donde veio, nem quando (diz um "anónimo", que veio de Alverca, em 1963!)... Só se sabe que morreu na praia... Em Bolama, já depois da independência. Ingloriamente, como todas as embarcações, depois de terem feito muitas milhas náuticas, num vida que em geral era muito mais curta do que a dos seus marinheirtos... Morreu na Guiné na terra dos mil e um rios e braços de mar...

Um dos muitos passageiros, nosso camarada,  foi o veteraníssimo Rui Santos (ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, e CIM, Bolama, 1963/65) de quem não tenho notícias desde meados de 2024 (!), e a quem mando um alfabravo fraterno. 

O motor "Bor" pertencia ao Serviço da Marinha da Província. Mas tanto era usado pelos civis como pelos militares.  Foi pau (ou melhor, ferro) para toda a obra!... Entrou em batalhas como a Op Tridente (1964) ou a Op Lança Afiada (1969). Fazia a carreira normal Bissau - Bolama - Bissau. Mas também levou muita tropa e bagagens até ao Xime e até Bambadinca (!), a porta de entrada da zona leste, o chão fula por excelencia...

Alguém escreveu, um "anónimo", em comentário ao poste P13967, de 2 de dezembro de 2014: 

"A Bor era um ferry-boat fluvial construido em 1963 pela Argibay, Alverca. Muita semelhança com dezenas de pequenos ferries usados na Suécia (os barcos da classe Farja) e rio Reno (Alemanha e Holanda). terça-feira, 9 de dezembro de 2014 às 21:51:00 WET .



Um viagem inesquecível no Bor, de Bolama para Bissau, em fevereiro de 1965

por Rui Santos


Já aqui contei a minha história a bordo do Bor, minha e de minha mulher que estava "pançuda" e o médico disse que não devíamos ir de avião... 


Rui Santos
Então vai disto ... Bor,  "bamo bora" e lá vai um jovem casal,  sentado em rolos de cabos grossos, quando começa uma tempestade daquelas que todos conhecem, os que estiveram pisando o solo da Guiné, quase à saida do Canal de Bolama...

À passagem defronte da Ilha das Cobras começa o motor a... puff, puiuff e puift mêmo,  já perto do Geba, chuva na chube noss alfer ...

Pois... e eu à rasca por causa da minha mulher que nem lhe via a cor branca da face, mas aguentou estoicamente... Fui falar ao "comandante" mas pouco, e ninguém conseguía pôr a nau Catrineta a funcionar...

 E eu a ver os canais do Geba e a imaginar duas coisas:  ou ficamos aqui nos baixios ou vamos a caminho do Atlântico, sem rádio, sem comunicação com terra ... Zero!

Não sei o que se passou...  De repente ouço os motores trabalhando e os "mecânicos" rindo, cantando e dançando. 

Fui para o pé da minha mulher e, passado uma hora, para mais  não para menos, eis-nos chegando ao Pidjiguiti (se não for assim, é parecido) onde estava o capitão João Nogueira e a esposa,  esperando, ambos  muito apreensivos.

A minha/nossa aventura do Bor...

PS - A propósito, a minha mulher foi comigo para a Guiné, quando fui tranferido para Bolama, após as férias que me concederam em maio de 1964, quando aproveitei para me casar.

Naquela terra, da qual tenho saudades e por vezes sobrevoo no Google Earth, verificando o abandono dos edificios do quartel do CIM em Bolama, fabricámos uma filha que ainda hoje mostra, orgulhosa, o B.I. onde se lê: natural de Guiné-Bissau! (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)

2. Comentãrio do editor LG:

Rui, foi uma viagem atribulada, essa  no Bor, em fevereiro de 1965, acompanhando a tua mulher,  grávida,  de Bolama para Bissau. A escassos dias de nascer a vossa filha... Atribulada, por isso inesquecível... O motor parou entre bancos de areia, mais próximo do cam das areias do que do canal do Furo, não ?! Mas voltou, felizmente,  a funcionar. Se tivesse ficado à deriva, sem rádio (!), seria uma tragédia!...

Quanto ao tempo de viagem, há uma referência posterior ao motor "Corubal", que fazia a ligação em cerca de duas horas. Mas isso não prova que a pachorrenta  Bor demorasse o mesmo,  ajuda apenas a enquadrar a estimativa.

Rui, aceita estacpequena composição comemorativa, juntando a fotografia restaurada e colorizada do Bor (o original é do António Bastos), mais o mapa com o percurso Bolama–Bissau... 

Achei que devia recuperar esta tua pequena história, de  uma viagem atribulado no Bor, de Bolama a Bissau, a caminho da maternidade. Uma avaria, um grande susto e uma história para contar, meio século depois. Mas faz parte das nossas memórias da Guiné, de que tu (e muitos de nós) continuas a guardar saudades.

Acho que  é uma bonita recordação para os dois,  e para a tua filha que estava prestes a nascer!

 Quanto ao  desenho" do percurso, dá o devido desconto à IA, que não é boa em geografia... Perdi aqui duas horas, desde as 6h30 da manhã, a dizer-lhe, meia dúzia de vezes,  que:

(i) estava a pôr sistematicamente a ilha das Cobras, no lugar da ilha das Galinhas (a noroeste da Bolama);

(ii) de acordo com carta de Bolama (1952, escala 1:50 000), e a descfrição do Rui, a "Bor" deve ter feito o seguinte trajeto: partiu de Bolama (em frente, São João, região de Quínara, no continente), seguiu pelo Canal do Porto, contornou a ponta a nordeste, onde fica a ilha das Cobras, aqui teve uma varia já no Canal do Furo (ou talvez mais a frente), atravessou os baixios, alcançou o canal de Pedro Álvares e finalmente o Canal do Geba até Bissau;

(iii) Bissau ficava na margem direita (Norte) do estuário do Geba...

O gerador gráfico, do ChatGPT / Open AI, o Nano Banana 2,  "chumbava" a geografia se fosse ao fazer o exame da 4ª Classe...Mas, em compensação, faz outras coisas com piada...



Guiné > Carta de Bolama (1952 ) / Escala 1/50 mil >  Reconstituição do provável percurso da "Bor", no trajeto Bolama -Bissau.  A sudoeste fica a ilha das Galinhas.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 2 de novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28485: A Nossa Marinha (6): O motor Bor (uma UAM, unidade auxiliar da marinha), que pertencia aos Serviços da Marinha da Província, tal como o "Corubal", o "Formosa", o "BM1" e o "BM2"

Guiné 61/74 - P28486: Parabéns a você (2538): Ten-General PilAv António Martins de Matos, ex-Tenente PilAv da BA 12 (Bissalanca, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de 2 de Novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28483: Parabéns a você (2537): Abílio Magro, ex-Fur Mil Amanuense do CSJD/QG/CTIG (Bissau, 1973/74)

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28485: A Nossa Marinha (6): O motor Bor (uma UAM, unidade auxiliar da marinha), que pertencia aos Serviços da Marinha da Província, tal como o "Corubal", o "Formosa", o "BM1" e o "BM2"





Foto nº 1, 1A, 1B


Foto onº 2

Guiné > Bissau >  Cais do Comando de Defesa Marítima  > 1970 > "UAM BOR", ao lado da LFG Orion P362 e LFG Cassiopeia P373. Bissau.  Foto da página do Facebook de Carlitos Montego. O pai foi marinheiro cabo-de-mar no motor "Bor", em 1969/72. Promovido a cabo em 1970. E ele próprio foi "filho da Escola".  Foto (a cores) do Carlitos Montego (Carlos Gomes), Reconstituída e melhorada, em termos de resolução e qualidade da imagem.


1.  É uma (nº 2)  da página do Facebook do Carlitos Montego, nosso amigo do Facebook da Tabanca Grande. Vive em Benfica, Lisboa, é filho de marinheiro, e também ele "filho da Escola". E ele próprio (e o irmão, Paulo Gomes) "bebeu a água do Geba" (estiveram os dois em Bissau, com os pais; vamos apresentá-los em próximo poste). 

Tem uma página popular na rede social Facebook (com cerca de 2,8 mil seguidores) dedicada à partilha de memórias, fotografias, vídeos e histórias ligadas à Marinha Portuguesa e à vida no mar. Ele próprio se define, de maneira poética e bem-humorada, como "Calceteiro Marítimo. Endireitar o mar, como se o mar fosse calçada."

Publica frequentemente imagens históricas e atuais de navios da Marinha Portuguesa (incluindo os que operaram no CTIG) e promove o convívio e a partilha de recordações entre antigos e atuais camaradas do meio naval.

O Carlitos Montego adicionou há tempos uma foto (nº 2)  da "UAM Bor"  ao álbum Bissau > 23 de janeiro de 2023 ·

 Bissau Ponte-cais

UAM BOR
LFG Orion P362
LFG Cassiopeia P373
1970


Legendagem:

"Meu pai foi Mar. CM [ leia-se: marinheiro cabo-de-mar]  na BOR de 69 a 72, promovido a Cabo em 70. A BOR pertencia ao Comando da Defesa Marítima de Bissau.

"Esta embarcação era como um ferryboat, com dois motores, um a bombordo à proa, e outro a estibordo na popa, com pás (não tinha hélices) navegava para qualquer direcção. É um tipo de propulsão com pás verticais (tipo “remadores”) que giram num disco horizontal. Ao contrário das hélices normais, pode mover o barco para frente, trás, lado, ou girar no próprio eixo.

Era usado para transporte de carga diversa, desde vacas, galinhas, viaturas, e passageiros, podendo transportar cerca de 400 passageiros e bagagem, que viajavam em pé e alguns sentados. E também fazia o transporte de guarnições militares, ou a rendição de companhias de unidades militares, nos postos do rio Geba principalmente. 

"Apanhou por duas vezes, atracado no Xime, o 'macaréu', penso que em 1971. Pode formar ondas de até dezenas de metros de largura, com até três a cinco metros de altura, e velocidades de até trinta a cinquenta quilómetros por hora...

"  E por uma vez, depois de ter rebentado com quase todos os cabos reforçados que prendiam o Bor ao cais, a sorte é que o 'macaréu'  acabou, a maré baixou,  a corrente perdeu força, e a embarcação ficou presa por um cabo de aço.

"A guarnição (dois militares e dois civis), que estava em terra,  ficou aliviada, se demorasse mais alguns minutos o cabo rebentaria e a embarcação sairia desgovernada rio Geba abaixo. 

"Aqui uma vez, numa viagem Bissau-Xime, numa curva 'famosa' do rio, de que não lembro o nome [provavelmente Mato Cão],  foi atacada, penso que em 1972.

"Nas missões de rendição de companhias era escoltado e acompanhado por LDG, LDM, Patrulhas, e apoiada pelos Fiat da Força Aérea."


2.  UAM - Unidade Auxiliar da Marinha

Este acrónimo e  designação são atribuídos a embarcações ao serviço da Marinha que, pelas suas características ou funções específicas, não são consideradas navios de guerra combatentes da linha da frente (ou seja, não recebem o prefixo militar NRP — Navio da República Portuguesa).

No contexto da Guerra do Ultramar na Guiné (como o caso da "Bor" na foto, um "motor", de 40 toneladas), as UAM desempenhavam um papel logístico crucial:

(i) eram frequentemente utilizadas para o transporte de tropas, reabastecimento de material, combustíveis ou água doce ao longo dos rios, e apoio logístico geral aos fuzileiros e companhias no interior do território;

(ii) no caso do motor "Bor" (é assim que a CECA, 2014, lhe chama, pág. 482) a sua estrutura de fundo chato e a rampa à proa assemelhavam-na visualmente e funcionalmente a uma lancha de desembarque (daí poder ser confundida com as LDG), ideal para encalhar em bancos de areia e margens lamacentas para carregar ou descarregar pessoal e viaturas;

(iii)  tinha um sistema de propulsão especial (Voith-Schneider):  contava com dois motores, dispostos de forma assimétrica, um à proa a bombordo (lado esquerdo) e outro à popa a estibordo (lado direito), como já se disse acima; este sistema utilizava hélices de pás verticais orientáveis (cicloides), que giravam num disco horizontal.

(iv) este arranjo conferia à embarcação uma manobrabilidade excecional: conseguia girar 360 graus praticamente sobre o seu próprio eixo e navegar lateralmente, algo crucial para escapar de emboscadas ou contornar os canais estreitos, sinuosos e de pouca profundidade (os "tarrafes" e esteiros) dos rios da Guiné;

(v)  embora fossem consideradas unidades auxiliares não-militares no papel, podiam ser tripuladas por militares da Armada, ou por marinheiros militarizados ou civis;

(vi) o "Bor" e outros "motores" pertenciam aos Serviços da Marinha da Província; caso do "Corubal (30 t), do "BM1" (40 t), do "BM2" (40 t) e ainda do "Formosa", fazendo tanto transportes militares como civis:
 
(vii)  devido ao seu perfil lento e vulnerável, sempre que navegava em missões fluviais mais arriscadas, as UAM eram, em geral. escoltada por Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG) ou Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), como as que aparecem ao lado da "Bor" na foto original (Orion e Cassiopeia) (fotos nº 1 e 2);

(viii) sendo uma UAM,  a "Bor" não dispunha originalmente de sistemas de armas pesados de fábrica; contudo, no ambiente de guerra da Guiné, uma UAM como esta embarcação podia ser reforçada à pressa com reparos locais para metralhadoras pesadas (como as Browning 12.7 ou canhões de 20mm) à proa e nos flancos para autodefesa contra fogo vindo das margens;

(ix) a "Bor" participou, por exemplo, na Op Tridente (jan-mar 1964).

Continuamos a chamar-lhe "ferryboat" (como de resto, a CECA também lhe chama). Tem 9 referências no nosso blogue. Procuram-se mais testemunhos e fotos da "Bor". Falaremos mais e melhor, em próximo poste, dos "transportes fluviais" na Guiné.
 
 [ Pesquisa: IA  + Facebook do Carlitos Montego + CECA + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini / Google AI)]

(Condensação, revisão / fixação de texto : LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série >  28 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27474: A Nossa Marinha (5): Os últimos marinheiros do Império