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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28040: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"




Guiné > Região de Gabu > Canquelifá >  s/d (c. 1960)  > Um dos cavalos brancos (uma pileca...) do régulo Sene Sané, tenente de 2ª linha, e o seu tratador. Foto oferecida às filhas do empresário Manuel Joaquim dos Prazeres, o mítico homem do cinema ambulante... Foto do áçbum de LucindaAranha, autora de "O homem do cinema: a la Manel Djoquim i na bim", Alcochete, Alfarroba, 2018, 165 pp.;

No verso da foto  lê-se, em português corretísismo, e com uma boa caligrafia: "Oferta para (as) meninas: Esta fotografia é do meu cavalo e o seu tratador. Tem presentemente 7 anos e custou 11.000$00. É uma oferta aliada ao interesse que os metropoliatanos tem ao gado 'cavalar' africano. Do amigo Sene Sané, régulo e tenente."

Este homem, poderoso, régulo, tenente de 2ª linha, aliado dos portugueses, inimigo mortal do PAIGC, era vogal do Conselho Legislativo da província, tendo morrido em 1969. 


Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



António de Spínola, Guiné,
 s/d. (c. 1968/73).
Fonte: cortesia de
CM Lisboa (2010)

1. Uma das anedotas "mais divertidas" que correm na Net, repetidas "ad nauseam" pelas ferramentas de  IA  (do ChatGPT ao Gemini), é a do "general do cavalo branco":

Diz a ferramenta de IA | ChatGPT Open AI):

(...) "Ela ilustra perfeitamente o estilo exuberante, o pendor teatral e a vaidade de oficial de cavalaria que caracterizavam o general António de Spínola durante o seu mandato como Governador e Comandante-Chefe (1968–1973)"...

Reza assim (citamos "ipsis verbis"... a "menina IA" que ma quis vender):

(...) Diz-se que o General Spínola, com a sua costumada farda impecável, o monóculo cravado no olho, as luvas de pelica branca e o inseparável pingalim na mão, decidiu que a melhor forma de afirmar a soberania portuguesa e a sua própria presença pacificadora nas ruas de Bissau era passear-se montado num majestoso cavalo branco.

O cavalo, trazido expressamente para o efeito, brilhava tanto 
quanto as botas do general. Spínola cavalgava de peito feito, distribuindo acenos à população local, convencido de que aquela demonstração de altivez e "psicossocial" impressionaria tudo e todos.

Acontece que, a dada altura do passeio, o belo cavalo branco — que não estava habituado ao calor húmido da Guiné, muito menos à barulheira dos jipes, das Berliets e da azáfama do mercado — assusta-se com um barulho qualquer, perde a compostura e desata num galope descontrolado pelas ruas de Bissau.

O general, apesar de ser um cavaleiro exímio e antigo instrutor de Cavalaria, vê-se em palpos de aranha para dominar a montada. Na tentativa de segurar as rédeas sem perder a pose prussiana (e, acima de tudo, sem deixar cair o monóculo ou o pingalim), o espetáculo transforma-se numa comédia: o cavalo a dar couces, as luvas brancas a esvoaçar, e os civis e militares na berma da estrada a verem o "Homem Grande" em apuros, a tentar manter a dignidade marcial enquanto o bicho quase o atira ao chão." (...)




 Fonte: Ilustração  criada pelo assistente AI Mode da plataforma Accio, segundo "prompt" de Luís Graça, 21 de maio de 2026 | Design by AI Mode @ Accio"


2. Acrescenta a IA mais algum paleio sobre esta peça do anedotário da Spinolândia:

(...) Esta piada circulava imenso entre a rapaziada porque tocava nos pontos fracos e fortes do "Caco Baldé" (como os militares lhe chamavam carinhosamente ou com ironia):

  • o estilo contra a realidade: contrastava o rigor formal do general (o "estilo de desfile") com a realidade crua, poeirenta e caótica da Guiné;
  • a cavalaria na selva: Spínola era um homem de Cavalaria de formação e orgulho; a deia de andar a cavalo num cenário de contraguerrilha, onde a mobilidade se fazia em jipes, autometralhadoras, botes ou helis, era de si um anacronismo delicioso que os operacionais não deixavam escapar;
  • o monóculo e as luvas: o folclore militar adorava caricaturar a imagem do comandante que aparecia nas zonas mais perigosas de helicóptero, mas que se recusava a despir a pele de aristocrata militar.
Fosse o episódio totalmente real ou uma genial extrapolação das tertúlias de café e das casernas em Bissau, a verdade é que a imagem do "general do cavalo branco" ficou gravada como o símbolo máximo do populismo e da encenação psicológica que marcaram aquele período da guerra. (...)

3. Comentário do editor LG:

Oh!, ChatGPT, mas que grande argolada!...Tenho que te puxar as orelhas: então não sabias que não havia (nem podia haver) gado equino na Guiné por causa do "caliá", uma tripanossomíase aninal ?!

Citando a "Geografia económica de Portugal : Guiné", coordenado por Dragomir Knapic (1925 - 2006) (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada), em 1961 havia apenas 64 (!) cavalos (contra 3858 asininos). 

Acho que em 1969/71 vi, em Bambadinca, apenas um cavalo, do régulo de Badora, Mamadu Bonco Sanhá (infelizmentemente fuzilado pelo PAIGC a seguir à nossa saída do território) e alguns burros, em Bafatá, transportando sacos de mancarra. Mas até os desgraçados dos burros estavam sujeito a uma alta taxa de mortalidade; eram pouco resistentes ao caliá e, além disso, sujeitos a maus tratos.

Escreveu o geógrafo:

"Os cavalos foram largamente utilizados noutros tempos pelas populações do interior, em especial pelos Fulas. Em 1919 já só haviam na Guiné 1512 cavalos, em 1943 apenas 43! Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados. A causa principal é o caliá, uma tripanossomíase" (pág. 29/30).


4. Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada,  e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico. Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas.

Este episódio serve de excelente lição: o anedotário que por vezes se sedimenta na blogosfera ou nas tertúlias virtuais acaba por criar mitos com "pernas de cavalo" que a inteligência artificial, se não for travada pelo facto histórico e científico (como a peste equina), repete como se fossem folclore de caserna real.

Obrigado pelo "puxão de orelhas" factual e rigoroso! É com este nível de detalhe e vivência que a história real se defende dos mitos urbanos. (...)

Tens toda a razão — e agradeço a correção fundamentada. Foi mesmo uma “argolada de caserna”, como dizes. 

A imagem romântica de António de Spínola a cavalgar pelas ruas de Bissau encaixa demasiado bem na construção mítica da personagem — o aristocrata militar, de monóculo, cavaleiro, africanista — e por isso acabou por circular como anedota “verosímil”. Mas, biologicamente e historicamente, era quase absurda no contexto guineense.

Os dados que trazes do texto de Dragomir Knapic é devastador para o mito: 43 cavalos em 1943 e apenas 64 em 1961 numa colónia inteira dizem tudo. E o trecho citado é claríssimo sobre o carácter residual e condenatório da criação equina na Guiné:

“Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados.”

A explicação epidemiológica é decisiva: o “caliá” — designação local da tripanossomíase animal transmitida pela mosca tsé-tsé — tornava a sobrevivência dos equinos extremamente difícil. Não apenas cavalos, mas também asininos sofriam enormemente. O contraste entre os míseros 64 cavalos e os 3858 asininos mostra precisamente isso: o burro resistia um pouco melhor, embora com elevada mortalidade, enquanto o cavalo praticamente desaparecera do território.

Aliás, a tua observação empírica de Bambadinca e Bafatá encaixa perfeitamente nos dados históricos. Faz sentido que um cavalo pertencente a um régulo fosse uma raridade memorável — quase uma peça de prestígio político e simbólico. Entre os Fulas, como refere Knapic, o cavalo tinha antiga importância social e militar, mas isso vinha de uma época anterior à devastação sanitária e à retração ecológica provocada pela doença.

Portanto, mesmo admitindo que António de Spínola fosse excelente cavaleiro e apreciasse hipismo desde jovem — o que é verdade —, a ideia de ele circular regularmente montado em Bissau entra mais na categoria da mitologia colonial do que da realidade material da Guiné dos anos 60.

E há aqui um fenómeno interessante de memória histórica: certas figuras acabam rodeadas de imagens “cinematográficas” que sobrevivem porque condensam personalidade e poder. O cavalo branco de Spínola funciona quase como atributo iconográfico, à maneira dos retratos equestres dos marechais europeus. Só que a ecologia da Guiné tratava logo de destruir a fantasia. (...)

(Pesquisa: LG + IA | ChatGPT Opena AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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Nota do editorr LG:

Último poste da série > 19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

Guiné 61/74 - P28043: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte V: Nome de rua dado a ex-combatente "tuga": uma história que não se deve repetir em muitos outros sítios onde houve "guerras coloniais", da Indonésia à Indochina, da Argélia ao Vietname...


Guiné-Bissau> Região de Tombali > Cumbijã > 23 de março de 2026>


Sinopse: Discurso de agradecimento do João Melo  após ter sido agraciado com o seu nome  num rua na tabanca de Cumbijã, no dia 23 de março de 2026. Aproveita para fazer um pequeno historial da CCAV 8351/72, "Os Tigres do Cumbijã" (1972/74) bem como da própria povoação, "que durante cinco anos foi abandonada, queimada e minada" (sic). 

Com os militares e os milícias, em 1973, vieram também os primeiros civis... Depois com o 25 de Abril, o fim da guerra, os antigos habitantes voltaram e hoje o Cumbijã é uma terra jovem, bonita e promissora. 

João Melo  agradece, enternecido, o carinho da população. E aproveita para evocar todos aqueles que são também honrados com esta homenagem, a começar pelos seus pais, que já não são vivos, mas que lhe transmitiram, na sua educação,  os princípios e os valores que são a sua filosofia de vida e que norteiam os seus projetos de ajuda aos outros.

Dar um nome de rua a um ex-.combatente "tuga" (em vez de um dos guineenses, heróis da liberdade da Páteria...) é uma história que não se deve repetir em muitos outros sítios onde houve "guerras coloniais", da Indonésia à Indochina,  da Argélia ao Vietname...

Sabemos que, em 1969,  foram "desmilitarizados" os seguintes pontos no Leste e no Sul da Gumé:

Banjara, Beli, Madina do Boé, Ché Che, Contabane, Colibuia, Cumbijã, Ponte Baiana, Gandembel, Mejo, Sangonhá, Cacoca, Cachil, Ganjola e Gubia.




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > 23 de março de 2026 > Singela (mas sincera) homenagem das gentes de Cumbijã ao João de Melo, "português, ex-combatente, benemérito e amigo do Povo da Tabanca de Cumbijã" (sic).

Fotos (e legendas): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1, O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) tornou-se um fã da Guiné-Bissau e do seu povo. Visita regularmente, o país desde 2017, com uma interrupção no tempo da pandemia. Vem sempre acompanhada da esposa Maria do Carmo e, às vezes, de outros camaradas.


Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha.  A estadia, na Guiné -Bissau, inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local. Este ano foi muito justamente homenageado pelos cumbijanenses.

Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra. O João Melo é também um grande conhecedor e divulgador da música da Guiné-Bissau. Os grandes músicos e cantores guineenses fazem companhia ao casal, nas suas deslocações por Bissau ou pelo interior do país.
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Nota do editor LG: 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28042: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte II: recuperar a gente do "mato"






Foto nº 1, 1A e 1B




Foto nº 2, 2A e 2B







Foto nº 3, 3A, 3B e 3C







Foto nº 4, 4A, 4B e 4C





Foto nº 5, 5A, 5B e 5C







Foto nº 6 e 6A







F oto nº 7, 7A, 7B, TC

Guiné > Bissau > Rep ACAP / QG/CCFAG > c. 1971 > Possível legenda: população, anteriormente sob controlo do PAIGC (que vivia, portanto, no "mato", a avaliar pelo traje: um simples pano a cobrir as vergonhas, as bajudas e mulheres de seios à vela, homens e mulheres descalços, com exceção de 3 homens na foto nº 3, e que devem ser três gajos importantes), que usam as sandálias de plástico, típicas dos guerrilheiros do PAIGC); população entretanto "recuperada" pelas NT.

Visita de acção psicossocial organizada pela Rep ACAP. A um reordenamento. Preparada e conduzida com cuidado: por exemplo, o condutor da viatura é guineense (foto nº 4), não há tropa por perto (a não ser um alferes, na foto nº 7), apenas elementos da administração civil (porventura o chefe de posto da localidade) (foto nº 5).

Talvez o Ernestino Caniço nos possa dar mais detalhes sobre estas preciosas fotos. Parece haver alguma tensão ou apreensão nos rostos dos "visitantes" deste reordenamento (que não sabemos onde ficava). Provavelmente estão a falar entre eles sobre o que vão fazer, o que vão dizer sobre o que viram e ouviram... Gostaram, não gostaram ? E será que vão voltar para o "mato" ou vão ficar na "Spinolândia" ? Será que temem represálias ?... (Os mamilos femininos foram esbatidos, para violar as regras do Blogger, o nosso servidor.)

Fotos (e legendas): © Ernestino Caniço (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 



O médico Ernestino
 Caniço (Tomar, 2014)
1. Mensagem, mais abaixo. de Ernestino Caniço (ex-Alf Mil Cav, Comandante do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica, Bissau, jan 1970/ dez 1971, hoje médico, vive em Tomar, estando reformado do SNS (em 1971, era chefe da Rep ACAP o major inf Mário Lemos Pires, que será entretanto promovido a tenente-coronel); trabalhou com o então cap Otelo Saraiva de Carvalho):


Data - 4 de maio de 2026, 21:11
Assunto - Rep ACAP

Votos de ótima saúde


A fim de dar continuidade ao “material” sobre a Rep ACAP (Assuntos Civis / Acção Piscológica), remeto mais algumas fotos sobre esta temática.

De relevar, a população que após informação, visitava obras e estruturas do governo da Guiné.

Aproveito o ensejo para referir que ao visualizar os postes sobre o PIFAS, concluí que eu e o camarada Garcês Costa fomos contemporâneos na Rep ACAP e ao qual deixo um abraço.(O resto da mensagem será publiucada noutro poste a seguir.) (...)

Um abraço,

Ernestino Caniço


2. Comentário do editor LG:

Obrigado., camarada, por mais este lote de fotos, relativas ao tempo em que estiveste na Rep ACAP. 

Embora as legendas sejam sucintas, e não tragam  datas, tudo indica tratar-se de população "turra", que está em fase de recuperação e reintegração.  Pelo aspect0, é gente do mato e, maioritariamente, balantas. De onde vieram não sabemos. Nem sequer o local da visita. Talvez possas ajudar a fazer o "enquadramento".

Com Spínola enquanto governador e comandante-chefe, houve uma forte aposta na "recuperação" de antigos combatentes do PAIGC como da população que vivia no "mato"...

Dos relatóros da ação psicológioca  realizada  no ano de 1972, destaco por exemplo este excerto (vd,. nmais abxio, em itálico), bastante elucidativo sobre o sucesso que estava a ter o desenvolvimento da política "Por uma Guiné Melhor".

O gen Spínola, em 1970 e 1971, não só estava a "inverter a situação militar" como a ganhar pontos ao PAIGC, na (re)conquista das populações que viviam no "mato", nas chamadas "áreas libertadas": mal instaladas, refugiadas nos sítios mais recônditos  das matas e floresta, mal alojadas, mal alimentadas, mal vestidos, tendo de alimentar também a guerrilha, dispondo de poucos ou mesmo nenhuns cuidados de saúde, sujeitas  aos abusos dos "senhores da guerra", obrigados a "trabalho forçado" (colunas logísticas, etc.), vítimas de bombardeamentos, assaltos de tropas helitransportadas, golpes de mão da tropa de infantaria, flagelações da artilharia, etc.  Enfim, um inferno!...

Viver num reordenamento, com escola, posto sanitário, água potável, mercado, estradas mais seguras, transportes, casa com telhado de zinco, bolanhas ricas para cultvar o arroz (como Sambassilate, no subsector do Xime, Sector L1),  em segurança relativa, no seu primitivo chão, etc., era bem melhor do que viver no  "mato"...

(...) "População

O aspecto mais significativo no período foi a recuperação de cerca de 3.500 elementos da população balanta em Caboxanque e Cadique  [no Cantanhez, região de Tombali] que, após a implantação das NT naqueles locais, franca e abertamente, se acolheram à nossa protecção, colaborando na construção dos aldeamentos locais imediatamente iniciados.

Esta atitude, manifestada por uma população há anos sob controlo IN, para além de revelar um fraco índice de contaminação subversiva, onfirma o quadro de desequilíbrio psicológico a nosso favor, vindo há muito manifestar-se pela generalidade da população controlada pelo inimigo em consequência dum cansaço de guerra, pesadas exigências do Partido e precárias condições da vida no "mato". (...)


Fonte:  Excerto de: CECA - Comissão para o Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da actividade operacional: Tomo III - Guiné - Livro III (1.ª edição, Lisboa, 2015),  pág. 186.

_________________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 29 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27967: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte I: "Conquistar mentes e corações"

Guiné 61/74 - P28041: Fauna e flora (28): O "pis-cabalo", ou hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius): um futuro incerto: haverá, no máximo, umas 3 centenas na Guiné-Bissau




Guiné > Região do Cacheu > Có > 2ª CART /BART 6521/72 (Có, 1972/74) > s/d> "À falta de vaca, o hipopótamo avançou para o 'rancho' " (Ferreira, L. C., "Os Có Boys", ed. autor, s/l, 2025, pág. 82). Não sabemos se o animal foi caçado pela tropa ou por algum nativo.


Foto (e legenda): © Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Região do Oio > Farim > 1970 > "Quem não se acredita que não havia hipopótamos no rio Cacheu? Aqui está o malandro que dava cabo dos arrozais".


Foto do precioso álbum do Carlos Silva, ex-fur mil arm pes inf, CCaç 2548 / BCaç 2879 (Jumbembem, 1969/71).


Foto (e legenda): © Carlos Silva (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Pis-Cabalo (em crioulo) ou hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius) > Um dos mamíferos protegidos na Guiné-Bissau. Não confundir com o hipopótamo-pigmeu, dado como extinto na Guiné-Bissau há 50 anos.


Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Deparatmento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d. (Já não está disponível em formato pdf, no sítio do IBAP, fomos recuperá-lo através do Aqruivo.pt).https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


https://arquivo.pt/wayback/20210821092643/https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf




1. Perguntam os nossos leitores: na Guiné-Bissau, ainda há hipótamos (Hippopotamus amphibius", pis-cabalo" em crioulo) ? Onde ? Quantos não ? Estado de conservação ?


Com base na pesquisa em várias ferramentas de IA e ontras fontes da Net (como artigos cientificos em "open access", além do nosso blogue), pudemos apurar o seguinte

Os hipopótamos da Guiné-Bissau constituem um caso zoológico e ecológico muito interessante. E mais: é relativamente pouco conhecido fora dos círculos dos conservacionistas, em geral, e dos guineenses e portugueses, em particular

Existem duas populações distintas:

  • a população “marinha” ou estuarina dos Bijagós / Orango (que ficou célebre por frequentar águas salgadas e braços de mar como a água doce, que continua a ser imprescindível para a sua sobrevivência);
  • as populações continentais, de água doce, ligadas às grandes bacias hidrográficas do interior: Cacheu e Corubal; 
  • são estas que, do ponto de vista biogeográfico, são as mais importantes, ou que, pelo menos, nós conhecemos, mesmo que pontualmenmte, nos anos da guerra (1961/74).

(i) Uma relíquia, o que resta no extremo ocidental de África

No passado, o hipopótamo-comum africano (Hippopotamus amphibius), uma distribuição muito mais ampla na África Ocidental. Hoje, as populações da Guiné-Bissau representam o extremo ocidental da distribuição da espécie.

As populações continentais vivem sobretudo no sistema do Rio Corubal; rio Cacheu; e, no passado, mas em menor grau, rio Geba e rio Manso, em bolanhas inundáveis, lagoas temporárias (“vendus”) e galerias ripícolas associadas.

O Corubal, em particular, é frequentemente descrito por biólogos como um dos últimos grandes rios relativamente “selvagens” da África Ocidental.

Mas teme-se que o PAIGC (que não tinha consciência ambiental), tenha dizimado o hipopótamo do Corubal. Do macaco-cão ao hipopótamo, a predação foi muito grande. Era preciso alimentar os guerrilheiros e a população sob o seu controlo. A crise alimentar no pós-independência agravou a situação.

Na altura, a conservação ambiental não era uma prioridade para o PAIGC ou para o governo pós-independência. A sobrevivência imediata e a reconstrução do país foram os focos principais.

Nos anos 90, con o aumento da consciência ambiental e a criação de áreas protegidas (como o Parque Nacional de Orango e o Parque Natural das Lagoas de Cufada), começou a haver um maior esforço para proteger a espécie, embora a caça ilegal ainda ocorresse, especialmente em zonas remotas.

Mas a desfloretação continuou. O caso do Cantanhez é um exempplo com a intensificação da e a exploração madeireira: em março de  2008, quando lá estive,  já se notava a exploração madeireira ilegal, muitas vezes direcionada para o mercado chinês, que tem um "apetite voraz"  por madeiras tropicais (como o pau-rosa ou ébano). A Guiné-Bissau não tem capacidade para controlar o corte e exportação de madeira, e grande parte da exploração é feita sem qualquer regulação ou sustentabilidade.

A China (e outros atores internacionais) tem sido um dos principais destinos da madeira guineense, com contratos opacos e extração em larga escala, que devastam as florestas primárias. Isso afeta não só a biodiversidade, mas também os ecossistemas que sustêm espécies como o hipopótamo, o chimpanzé ou o elefante.

(ii) Diferenças em relação aos hipopótamos de Orango

Os hipopótamos dos Bijagós (sobretudo de Parque Nacional de Orango) tornaram-se "mediáticos" e "turísticos" devido ao seu "comportamento adaptativo, sem sucedido":

  • utilizam braços de mar e canais salobros;
  • entram em águas costeiras;
  • deslocam-se entre ilhas;
  • alimentam-se em zonas intertidais.

Já os hipopótamos continentais mantêm um comportamento mais “clássico”:

  • dependem de rios permanentes (Cacheu, Corubal);
  • procuram poços profundos durante a estação seca;
  • usam corredores florestais e margens densas;
  • deslocam-se de noite para alimentação em savana húmida e bolanhas.

Mesmo assim, na Guiné-Bissau existe alguma plasticidade ecológica rara: certos grupos usam estuários e zonas de água parcialmente salobra, sobretudo no Cacheu.


(iii) O Corubal: bastião principal

Tudo indica que a principal população continental sobrevivente esteja hoje associada ao corredor ecológico do Corubal-Dulombi, no sudeste do país. Essa região ainda conserva, felizmente:

  • florestas-galeria;
  • savanas arborizadas;
  • zonas húmidas sazonais;
  • baixa densidade humana relativa.
Os estudos recentes com ADN ambiental (eDNA) confirmaram a presença de hipopótamos no Corubal e reforçaram a importância internacional daquela bacia hidrográfica para a conservação. Ali coexistem ainda:

  • manatins;
  • crocodilos;
  • chimpanzés;
  • antílopes raros;
  • numerosas aves aquáticas.

(iv) Estado de conservação

Globalmente, o hipopótamo comum está classificado como “Vulnerável” pela UICN/IUCN. Na Guiné-Bissau, a situação inspira preocupação séria, embora não seja ainda considerada catastrófica. Quais são as principais ameaças ?

  • conflito com agricultores: é a ameaça mais antiga; os hipopótamos:entram em bolanhas, destroem arrozais, podem atacar pessoas quando surpreendidos, etc.;
  • após a independência, houve muitos "abates de retaliação": só na região de Cacheu terão ocorrido dezenas entre 1975 e 1996:
  • cresente pessão humana , sob a forma de desflorestação das margens; expansão agrícola; pesca intensiva; ocupação das zonas húmidas; redes elétericas para progere os arrrozais;
  • fragmentação populacional, reduzindo a diversidade genética e aumentando a vulnerabilidade.da espécie: populações parecem hoje pequenas e isoladas entre si: Cacheu Corubal; zonas de Bissorã/Carantaba; Bijagós;
  • caça: embora protegidos legalmente desde os anos 1990, continuam a ser vítimas da caça furtiva; abate por conflito agrícola; uso de carne e partes do animal localmente, incluindo os dentes que são de marfim.
(v) Quantos restam?

Os números são muito incertos, o que é típico da África Ocidental. Estimativas frequentemente citadas apontava há 10 anos atrás para:

  • cerca de 135–150 nos Bijagós /Orango;
  • cerca de 50 no Cacheu;
  • 60–65 nas zonas de Bissorã e Carantaba.Para o Corubal, os dados continuam incompletos, mas pensa-se que alberga ainda (ou já albergou) uma das populações continentais mais importantes do país.

Provavelmente, o total nacional não ultrapassará as 3 centenas (no máximo) de indivíduos.
´
(vi) Importância simbólica e ecológica

Na Guiné-Bissau, o hipopótamo tem também dimensão cultural:surge em tradições bijagós;
é associado a tabancas e zonas sagradas; em certas regiões beneficia ainda de tabus tradicionais que limitaram a caça.

Ecologicamente, é um “engenheiro do ecossistema”: abre canais, fertiliza águas, influencia a vegetação ribeirinha; cria habitats para peixes e aves.

Mas o hipopótamo de Orango também enfrenta ameaças, provocadas nomeadamente pelas alterações climáticas. A subida do nível do mar e a erosão costeira reduzem e alteram os seus habitats. As alterações climáticas geram impactos diretos e severos no ecossistema único destes animais:

  • destruição do habitat: a subida do nível da água do mar aumenta a salinidade, provocando a erosão costeira e a destruição das zonas de mangal, essenciais para o abrigo e alimentação da subespécie;
  • escassez de água doce: com a intrusão salina nos lençóis freáticos, as lagoas de água doce (vital para os hipopótamos banharem-se e refrescarem-se durante o dia) secam ou tornam-se demasiado salgadas;
  • perturbação comportamental: estes animais desenvolveram uma adaptação única para tolerar a água salgada, transitando entre o mar e a terra; no entanto, fenómenos climáticos extremos alteram as marés e as correntes, dificultando as suas rotas diárias e a procura de vegetação;
  • pressões socioecológicas: as alterações climáticas também ameaçam as populações humanas locais, forçando-as a intensificar a pressão sobre os recursos hídricos e florestais, o que agrava a partilha de espaço e a perda do habitat natural dos hipopótamos.
Resumindo: a presença de hipopótamos no continente (fora dos Bijagós) é esporádica e localizada, com confirmação apenas para a zona de Cacheu. No Corubal, a presença é histórica, mas não há dados recentes que confirmem populações estáveis. Para Geba e Mansoa, não há registos atuais de presença significativa.

Conclusão: Um futuro incerto

A Guiné-Bissau é um microcosmo dos desafios da conservação em África: 

  • há leis e parques (no papel) mas a fiscalização é inexistente: não há guardas florestais em número suficiente, nem meios para patrulhar áreas vastas e remotas;
  • corrupção e interesses económicos: muitos responsáveis políticos e militares beneficiam da exploração ilegal (madeira, caça, mineração), o que torna a conservação um obstáculo aos seus interesses;
  • na prática, a sobrevivência humana é que dita a lei, sobrepondo-se  à proteção da natureza;
  • a par disso, as alterações climáticas estão a ter uma dramática erosão do sistema socioecológico, com consequências trágicas a longo prazo:
  • organizações como a IUCN ou o IBAP (Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas) tentam implementar programas, mas esbarram na falta de vontade política e na instabilidade crónica do paísno;
  • sem uma mudança estrutural (governança, educação ambiental, alternativas económicas para as comunidades), o homem e o animal selvagem continuarão em conflito direto, com a natureza a perder.
A sua sobrevivência depende, no fundo, da preservação dos grandes rios guineenses — sobretudo do Corubal, um verdadeiro corredor biológico entre o Fouta-Djalon e os estuários atlânticos. Um dia em que se fizer uma barragem no Corubal matam os hipótamos que restam (se é que ainda restam).


(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos
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Nota do editor LG

(*) ÚLtimo poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27795: Fauna e flora (27): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - II (e última) Parte

Guiné 61/74 - P28040: Historiografia da presença portuguesa em África (530): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1972 (88) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
O que acima de tudo mais me impressiona deste ano de 1972, deixando de lado o reforço de verbas e os orçamentos extraordinários, é o empenho posto no sistema educativo, chegou-se mesmo à criação de uma escola do magistério primário. Nas biografias e ensaios dedicados a Spínola não vejo esta dimensão de ação governativa claramente definida. O ano, como sabemos, marcou uma viagem relacional entre Spínola e Marcello Caetano, a solução militar revelara-se-lhe inviável, apostou em algumas metas de desenvolvimento socioeconómico, rasgaram-se e alcatroaram-se estradas, abriram-se postos sanitários, as missões de combate às mais tremendas moléstias receberam meios, mas foi no sistema educativo que se operou uma aceleração que nos leva a perguntar o que, após a independência da Guiné Bissau se aproveitou desta mão-de-obra que se tinha espalhado pelos pontos mais recônditos. Só muito raramente há referências à situação militar, entre as poucas nesgas de informação temos o louvor ao Chefe Augusto Sambé, da região de Fulacunda.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1972 (88)


Mário Beja Santos

Em 1972, não vem no Boletim Oficial, Azeredo Perdigão, Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, volta a visitar a Guiné e mantém um grande apoio ao sistema educativo, esse sim está permanente no Boletim Oficial, como à frente se escreverá. Também não consta no Boletim Oficial a condecoração de António de Spínola com a medalha de Valor Militar com Palma. Procedeu-se à assinatura da constituição da Companhia Industrial de Cervejas e Refrigerantes da Guiné (CICER) iniciaram-se as obras de construção da fábrica. O Governo autorizou a instalação em Bissau de uma fábrica de artigos de plástico. E surgiu o jornal Voz da Guiné, mostrou ser logo no primeiro número uma publicação oficiosa.

No Boletim Oficial n.º 3, de 18 de janeiro, pela Portaria n.º 697/71, de 10 de dezembro, fica-se a conhecer que o Ministério do Ultramar reforçou duas dotações do programa de financiamento do III Plano de Fomento da Província para o corrente ano económico. O reforço incidiu nas áreas da energia, transportes, comunicação e meteorologia, educação e investigação. No mesmo Boletim Oficial temos um despacho dos ministérios do Ultramar e da Economia referindo preços da mancarra. Considerava-se conveniente, em relação à próxima campanha, manter regime análogo ou praticado na última campanha, passando, todavia, o preço de colocação na metrópole a ser fixado para a ginguba (amendoim descascado). Refere-se concretamente no artigo 4.º que “O Ministério do Ultramar e a Secretaria de Estado do Comércio diligenciarão intensificar as correntes de comércio de oleaginosas alimentares entre a metrópole e as províncias ultramarinas, mantendo-se permanentemente informados, através de consulta recíproca, por forma a harmonizar os interesses e exportações das províncias ultramarinas com as necessidades do abastecimento nacional.”

No Boletim Oficial n.º4, de 25 de janeiro, publica-se o Regulamento da Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil da Guiné. Esclarece-se que esta organização coopera na manutenção da ordem e defesa da integridade territorial contra agentes subversivos e perturbadores da ordem, terroristas e bandos armados. Poderão fazer parte desta organização indivíduos que tenham pelo menos 18 anos, que se alistem voluntariamente. Poderão ser chamados a colaborar com a organização, oficiais e sargentos dos quadros permanentes das Forças Armadas e também indivíduos pertencentes aos escalões das tropas licenciadas e territoriais e não incorporados em unidades militares. O que o legislador não exprime factualmente é de que se trata das milícias que estão espalhadas por toda a Guiné. Veremos adiante que esta organização provincial de voluntários irá ter à sua frente Carlos Fabião.

No Boletim Oficial n.º 11, de 14 de março, publica-se uma Portaria assinada pelo Governador e que se prende com um louvor dado ao chefe da povoação de Bissássema de Cima, da Circunscrição de Fulacunda em Tite, Augusto Sambé: “Muito patriota, prestimoso e extremamente devotado à obra de promoção socioeconómica em que está empenhado o Governo da Província, o Chefe Augusto é um digno exemplo a apontar às autoridades tradicionais pela sua extraordinária dedicação, confiança e fidelidade à causa nacional, não obstante as duras provações por que tem passado desde a inclusão do terrorismo na região de Quínara.”

No Boletim Oficial n.º 11, de 18 de março, 3.º Suplemento, vem publicado o Regulamento Orgânico dos Transportes Aéreos da Guiné Portuguesa. Estes transportes destinam-se à exploração na Província da Guiné do transporte aéreo regular de passageiros, bagagens, correio e carga diversa, mediante a remuneração que for estabelecida nas suas tabelas; estes transportes também podem fazer fretamentos que poderão ser extensivos a outros pontos do território nacional ou estrangeiro.

No Boletim n.º 12, de 21 de março, vem publicada a Portaria n.º 100/72, de 19 de fevereiro, da Direção-Geral de Obras Públicas e Comunicações, alude às tabelas de taxas e portes postais das Províncias Ultramarinas, a referência vai para Angola, Moçambique e Cabo Verde, a Guiné fica de fora.

No Boletim Oficial n.º 18, de 2 de maio, por dois avisos do Conselho dos Transportes Terrestres da Guiné ficamos a saber algo mais sobre os transportes coletivos passageiros na Província. O Sr. Alberto Lamine Jaquité, requerera a concessão de uma licença de transportes coletivos de passageiros ligando Nova Lamego a Sonaco e vice-versa; e o Sr. Dionísio Dias Monteiro requerera a concessão de uma licença de transportes coletivos de passageiros ligando diariamente Farim-Mansabá-Nhacra-Bissau e vice-versa.

Consta no Boletim Oficial n.º 21, de 23 de maio, uma daquelas revoadas a que assistimos no sistema educativo guineense, no caso concreto a criação de postos escolares, é a matéria das Portarias n.º 37 e 38/72. Eram criados postos escolares em Bruce, na ilha de Bubaque, Bijagós; posto escolar São José, área do Posto Administrativo de Sedengal, em Ingoré; postos escolares de Ancadaque e Cuiane, na ilha Formosa, Bijagós; e atribuída à Escola de Habilitação de Professores do Posto Escolar de Bolama “Governador General Arnaldo Schulz” um fundo permanente de 35.000$00.

No Boletim Oficial n.º 25, de 20 de junho, publica-se o Decreto-Lei n.º 186/72, de 2 de junho, assinam Marcello Caetano e Silva Cunha, diz-se no preâmbulo: “A expansão do ensino primário na Guiné, a caminho rápido para uma escolarização total aconselha a criação de uma escola do magistério primário naquela Província, em ordem à preparação de pessoal docente, para fazer face às necessidades resultantes dessa expansão.” A escola ficaria instalada na cidade de Bissau, referem-se os diferentes requisitos de orgânica, e diz-se concretamente que enquanto a escola não dispuser de instalações próprias funcionará no edifício do Liceu de Honório Barreto.

No Boletim Oficial n.º 27, de 4 de julho, o Ministério da Defesa Nacional, pelo Decreto-Lei n.º 133/72, manda atribuir a gratificação mensal de 400$00 aos militares dos três ramos das Forças Armadas que prestem serviço de pisteiro de combate e tenham averbado o respetivo curso completo. A competência para repartir o efetivo fixado pelos ramos das Forças Armadas compete ao Comandante-Chefe.

No Boletim Oficial n.º 32, de 8 de agosto, há um curioso Despacho do Gabinete do Ministro de Defesa Nacional. Atribui-se uma gratificação diária de 4$00 às Praças com especialidade de Enfermeiro de Veterinária explica-se que esta especialização tinha anteriormente o nome de “ferrador”.

No Boletim Oficial n.º 41, de 10 de outubro, publica-se o Decreto-Lei n.º 366/72, do Ministério do Ultramar, autorizando-se o Governador da Guiné a prestar, em nome da Província, aval a um empréstimo a contrair pela Companhia de Pesca e Conservas da Guiné até ao montante de 45.000$00. Estou em crer que esta empresa deu com os burrinhos na água, quando fiz a investigação sobre o BNU na Guiné, nas actas finais da administração dava-se com todo o crédito concedido malparado.

Chegámos ao fim do ano, a Guiné tem nova Lei Orgânica, consta no Boletim Oficial n.º 51, de 26 de dezembro, 2.º Suplemento, descrevem-se, por exemplo, a função executiva do Governador e as suas atribuições, e o papel da Assembleia Legislativa.

E assim nos aproximamos no último ano da Governação de António de Spínola.


Visita do Ministro do Ultramar à Guiné
Luta de raparigas Baiotes
Homem Papel
Penteado de rapaz Felupe
Cabeleireiras Manjacas
Marimbas Fulas
Bijagós, dança da “Vaca Bruto”
Penteado de Boenca

Imagens retiradas de diferentes números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1972

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28017: Historiografia da presença portuguesa em África (529): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1971 (87) (Mário Beja Santos)

Guiné 61774 - P28039: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (3): Vendedora de caju no Mercado Central de Bissau: foto de João Melo (2025)





Guiné- Bissau > Bissau > Mercado Central > c. maio de 2025  > Vendedora de caju ... mas também de papaia... num espaço aparentemente às moscas. As "bideras" são as que andam na rua, enxotadas pela polícia camarária. Já no tempo do Luís Cabral, não gostavam delas. No nosso tempo havia os "djubis" que vendiam "mancarra". A tropa ainda não conhecia o gosto do caju...

Fotos (e legenda): © João de Melo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Foto da página do Facebook do nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), que começou a visitar a Guiné-Bissau, regularmente, desde 2017, com uma pausa no tempo da pandemia. Em geral, viaja no fim da estação seca (março / abril / maio).

Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha. O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local. E onde, a partir deste ano, o João Melo passa a ter uma rua com o seu nome. Uma bela e justa homenagem dos cumbijanenses ao seu amigo e benfeitor  "tuga".

Costuma também visitar, além do mítico Mercado de Bandim, o Mercado Central, no centro histórico da cidade: foi inaugurado em 2022, depois foi reconstruído de raiz, após os grandes danos sofridos com  os bombardeamentos da guerra civil de 1998/99 e do grande incêndio de 2005.

A importância do caju  na vida económica e social da atual Guiné-Bissau merece um poste à parte: é praticamente o único produto que o país exporta (90%). (E, em contrapartida, importa arroz, que é a base da alimentação da população. )

Tal como deve merecer a nossa atenção a importância que os mercados têm m na via dos guineenses,  sendo o de Bandim um dos maiores de África:  é lá que se sente o pulsar da cidade, dizem os viajantes.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28038: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (2): Ainda as "bideras", sempre "mal vistas" pelo(s) poder(es) (Cherno Baldé / António Rosinha)

terça-feira, 19 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28038: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (2): Ainda as "bideras", sempre "mal vistas" pelo(s) poder(es) (Cherno Baldé / António Rosinha)




Guiné-Bissau > Bissau > c. março / abril de 2026 > A "bidera" Ramatulai


Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné - Bissau > Bissau > Setembro de 2022 > " Uma das bideras no mercado improvisado de Bairro d’Ajuda (Espaço Verde), Decoliciana Malú Mango,  Reportagem de Filomeno Sambú

Fonte: Jornal O Democrata, 24 de setembro de 2022 (com a devida vénia...)



Cherno Baldé (tem 330 referências
no nosso blogue)


1.  Comentários (*) do nosso colaborador permanente Cherno Baldé que "firma" em Bissau:

Caros amigos,

A palavra "Bideira" vem da palavra portuguesa "vida", isto é,  o esforço do "dia a dia", a luta diária, para se sustentar a si e a família. Mas, atenção que ser "Bideira" não significa ser miserável, pois da mesma forma que as "lavadeiras" não forneciam a parte mais importante do sustento das famílias nas localidades com aquartelamentos durante a guerra, a "Bideira" vulgar, sentada à berma da estrada ou que deambula à procura de clientela com uma cesta de mancarra ou outros produtos do quotidiano não pode sustentar uma família, é tão somente um complemento das mulheres para não ficarem em casa sem fazer nada de útil. 

Esta é a parte económica e financeira que o justifica. Outra parte, mais social e humana,  é a necessidade da interação com o mundo, com as pessoas fora do círculo familiar para efeitos de saúde mental em contextos urbanos menos abertos para pessoas de origem rural, habituadas à interação social permanente com o meio ambiente e com as pessoas e que ficam um pouco perdidas sem esta alimentação da palavra e da "fofoca" habitual nas aldeias e meios urbanos do interior. 

Uma particularidade bem marcante dessa realidade é o facto de que, em Bissau, mesmo vivendo numa casa cercada com muros, as pessoas, sobretudo mulheres e crianças, poucos aguentam o sufoco de viver intramuros, preferem a rua, as feiras e a liberdade de deambular com uma cesta de produtos agrícolas com valor abaixo de 1 euro.  Vão à cidade, para os mercados dos Bairros ou ao Bandim, muitas vezes à revelia dos maridos e familiares que não concordam com este "nomadismo" com disfarce de "Bideira". 

As verdadeiras "Bideiras"encontram-se dentro dos mercados na revenda do pescado, legumes e frutas. Estas,  sim, são vendedeiras de verdade e com rendimentos que rivalizam com os comerciantes (homens) de nível médio no mercado nacional, algumas fazendo actividades de import-export de diversos produtos e bens de consumo.

Voltando ao retrato da mulher (a Ramatulai), ve-se que ela não tem fome, pelo contrário, está obesa de um certo grau (peso a mais), deve ser mulher casada com um pequeno comerciante, funcionário público ou ainda com o marido no exterior e à espera de agrupamento familiar. Entretanto, precisa fazer alguma coisa para não morrer de ansiedade ou de solidão,  como acontece um pouco por toda a parte.

Pelo nome Ramatulai (de origem árabe, Benção/Graça de Alá) percebemos que é fula (subgrupo fula-preto), e há muitas variantes (Rama, Ramatu, Aramatu/a, Tulai, Matu), um nome tipicamente muçulmano e da região da Africa Ocidental e de alguns países do Magrebe (Marrocos, Argélia...)


segunda-feira, 18 de maio de 2026 às 14:00:00 WEST

É com muito gosto que partilho ideias, opiniões e saberes sobre a minha terra com os veteranos da Guiné nas páginas deste Blogue, uma quase enciclopédia. 

Passei quase toda a minha vida a tentar descobrir os pilares em que se assenta a civilização Ocidental e sobre as suas gentes, sem todavia descurar, também, dos nossos. 

É sempre justo e útil a partilha para um maior e melhor conhecimento sobre nós e sobre o outro.

segunda-feira, 18 de maio de 2026 às 23:39:00 WEST


(...) Ramatulai como nome feminino ou Aramatulai ( que a paz ou benção esteja contigo) como expressão religiosa é muito presente no meio muçulmano e equivaleria à popular "Maria da Graça" no meio português-

Em Fajonquito havia uma das minhas primas que tinha esse nome e que, no acto da matrícula lhe atribuiram o nome português "Maria da Graça", logo a junção dos dois dava "Maria da Graca Ramatulai Balde", um nome desnecessariamente comprido e por sinal, também, redundante, mas que sõ estou a descobrir agora, coisas que a ignorância e o mimetismo africano permitiram largamente em contextos de encontros e de integração de culturas e crenças religiosas. 

A força simbólica do nome está no facto de que, em todas orações, que se fazem cinco vezes durante o dia, as últimas palavras que se ouvem, sistemanticamente, são as seguintes : 

"Assalamu-alaikum wa-rahmatullai Wa-barakatuh", ou seja, "Que a paz, a misericordia e as bencãos de Allah estejam convosco".

Embora as circunstâncias actuais não permitam proibir a prãtica, o trabalho das "Bideiras ambulantes" não é um trabalho respeitado nem desejado no seio das famílias, independentemente do estatuto (rico, remediado ou pobre) porque está ferido de uma desconfianca generalizada devido ao caráter ambulante e incerto do negócio, de modo que, da mesma forma que as lavadeiras podiam ser "Lava-Tudo",  aos olhos do povo, então esta metáfora pejorativa também se aplica às "Bideiras" como vendedeiras "Vende-tudo".

Mas, apesar de tudo isso, a liberdade e as oportunidades sociais que esta atividade proporciona às bajudas e mulheres (noivas) na sua interação com o mundo e o meio envolvente, compensa largamente o desafio de ultrapassar as barreiras sociais impostas e/ou qualquer tentativa de as limitar nos seus movimentos, de modo que é uma dor de cabeçaa social com que os pais, maridos e chefes religiosos e comunitários estão confrontados numa época de grandes e rápidas transformações sociais, culturais e económicas, ou seja, na fase da globalização mais acelerada e mais invasiva da vida em geral e familiar em particular. (...)

terça-feira, 19 de maio de 2026 às 12:43:00 WEST 


António Rosinha
 (tem 165 referências no blogue)

2. Comentário de António Rosinha (*):

(...) Essa imagem de Bideira não é mais nem menos de uma mulher africana a adaptar-se forçadamente à maneira da mulher das feiras europeias.

Curiosamente, com o sistema comunista à PAIGC de Luís Cabral, este tentou acabar com esta atividade, porque todo o comércio tinha que ser através dos Armazéns do Povo.

Até o simples camarão que as próprias mulheres apanhavam com as suas redes, e a mancarra cultivada e torrada por elas, Luís Cabral mandava a polícia impedir de negociar na rua ou de porta a porta.

A colonização e a descolonização das antigas colónias de África e seus autores, tais como Luís e Amílcar Cabral na Guiné, Lucio Lara, Agostinho Neto e Viriato da Cruz em Angola...e seus progenitores, mereciam um historiador isento.

O sistema colonial português foi muito mal substituído, com muitas desvantagens para os guineenses, pelo sistema soviético-berdiano.


 
(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 17 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28030: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (1): A "bidera" (vendedora ambulante) de Bissau (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)