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sábado, 8 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28250: (In)citações (289): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol... (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)



1. Mensagem do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66), com data de 10 de Novembro de 2022, falando-nos da sua Unidade:

Olá Carlos,
Olha, hoje levantei-me a gritar coisas más contra os governos de Portugal que nos abandonaram e escrevi estas linhas para que todos eles saibam a revolta que continuo a sentir.
Se achares que deves publicar, publica, se não achares que é importante justamente ignora.

Um abraço meu eterno amigo companheiro combatente da Guiné.
Tony Borie



Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol

…Companheiros ex-combatentes, nós, tal como vós, todos sabemos o trauma ou a angústia que sofremos mas…, as novas gerações e os políticos que nos governaram ou presentemente nos governam, (felizmente para eles), NÃO SABEM que…, lá no “posto avançado” onde estivemos pelo período de dois longos e dolorosos anos, não havia paz.
No silêncio da noite ou em qualquer outro infeliz momento, “DE REPENTE O INFERNO EXPLODIA” e…, não sabíamos se iríamos ser o próximo a ser embrulhado no nosso próprio camuflado sujo com o nosso próprio sangue.

…Assim, não sabemos as vezes que tanto nós, tal como vós companheiros ex-combatentes, estivemos perto de morrer, e nesses momentos, éramos forçados a aprender a valorizar um pouco as nossas vidas e…, éramos uns jovens de 20 e poucos anos. Às vezes pensando nisto, sentimos a pele a arrepiar-se.

…Por favor cuidem-se.
Toni Borie

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Nota do editor

Último post da série de 28 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28141: (In)citações (288): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol, porque muitos sonham com o amanhã, mas nunca o veem (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)

Guiné 61/74 - P28249: Os nossos seres, saberes e lazeres (744): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (265): Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral, uma réplica do teatro Alla Scala, de Milão (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Já por aqui se andarilhou pelo museu, pela estação de caminhos de ferro, era imperativo visitar o teatro Eduardo Brazão que prima pela raridade e beleza arquitetónica. Há mesmo programas de visitas a importantes teatros da região oeste, recordo Nazaré e Leiria, o do Bombarral tem a singularidade de uma traça que não esconde o classicismo italiano, mas com laivos românticos e da emergente Arte Nova. Impressiona também pela qualidade do restauro e a sua primorosa manutenção, houve o extremo cuidado de não beliscar a profunda harmonia da sala e dos espaços frequentados pelo público. Enfim, se possível, não percam a visita.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (265):
Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral, uma réplica do teatro Alla Scala, de Milão


Mário Beja Santos

O que há para ver dentro do Bombarral? É um concelho com pouco mais de 100 anos, mas que goza de um património digno de visita. Já aqui falei do museu que ocupa o Palácio Gorjão, um solar datado do século XVII, o museu está aqui desde a década de 1990, foi alvo de obras, não dececiona ninguém, alberga património cerâmico esplêndido, aqui trabalhou Júlio Pomar e deixou legado. Impossível não ver os azulejos da estação de caminhos-de-ferro, também já aqui foram mostrados, mostram cenas de vitivinicultura e do ambiente rural da região. No centro da vila, perto do museu, temos o edifício dos Paços do Concelho, foi propriedade do Alcaide de Óbidos, depois doado por D. João I a um Cavaleiro de nome Luís Henriques, depois da Batalha de Aljubarrota, houve reconstrução e a Câmara Municipal adquiriu-o na década de 1920. Da mata municipal falaremos mais adiante, hoje vamos visitar com guia autorizado o teatro Eduardo Brazão, não esconde no seu interior a lembrança dos teatros italianos, data de 1921. A primeira nota vai para um conjunto de notáveis teatros na região oeste, incluindo a Nazaré e Leiria. A questão que se põe quanto a este teatro terá sido o orgulho cívico, o Bombarral estava adstrito a Óbidos e queria provar a identidade própria, queria exibir a sua própria riqueza, que superava a do tutor, havia que exibir um dado cultural relevante, e assim aconteceu.

Perguntei ao amável guia porquê crismar o Teatro Eduardo Brazão se o grande ator nada tinha a ver com o Bombarral. O coordenador de todo o projeto do teatro fora Evaristo Judicibus que pediu autorização a Eduardo Brazão para o crisma, autorização dada, Brazão sentiu-se muito honrado. A construção não indicia um mero classicismo italiano, aflora elementos, ainda que modestos, do romantismo e do despontar da Arte Nova. A fachada é sóbria, a sala de receção é acolhedora e harmoniosa. Subimos depois aos andares e fica-se de boca à banda, dada a natureza retangular da construção, ou seja, a receção do rés-de-chão e o grande salão por cima, segue-se a sala de espetáculos e temos depois os bastidores. Obviamente que a construção se focou na sala, possui um equilíbrio notável, goza de intimidade e uma visibilidade perfeita em todos os ângulos do proscénio, as obras de conservação e restauro em nada alteraram a traça primitiva e daí o orgulho com que se pode falar desta pequena réplica do Alla Scala.

É uma bela sala de eventos, como o ensaio a que assistimos, tem os seus espetáculos de cinema, aqui se realiza anualmente um festival de música, esqueci-me de perguntar se existe no Bombarral teatro amador, mas desde já incito o leitor, quando tiver oportunidade, de pedir uma visita guiada a tão deslumbrante teatro, como as imagens pretendem ilustrar.


Como era o teatro em 1925
O teatro na atualidade, foi sujeito há anos a obras de conservação, a porta principal tem mais de um século, é um tormento e custa um despesão manter esta relíquia do passado
Homenagem a Evaristo Judicibus no 60.º aniversário do Teatro Eduardo Brazão, 27/02/1981
Pormenor da elegância das colunas do átrio
Retrato do ator Eduardo Brazão (1851-1925)
Um detalhe dos três níveis do teatro
A elegância da compartimentação dos lugares
No palco as meninas fazem o último ensaio antes de se apresentar a público, uma ternura
Pormenor do teto e do lustre
Outro pormenor da sala de espetáculos
Faz de conta de que estamos a assistir ao espetáculo e a deslumbrar-nos com a arquitetura da sala
Lembrança da passagem de dois monstros sagrados do teatro
Pormenores decorativos da Grande Sala do primeiro andar
Entrada da mata municipal do Bombarral
Homenagem dos alunos da escola à escultora Maria Barreira, à entrada da mata municipal
Em frente à mata municipal temos este pequeno jardim, não resisti à exuberância de tantos agapantos
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Nota do editor

Último post da série de 1 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28233: Os nossos seres, saberes e lazeres (743): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (264): Os jardins cada vez mais admiráveis da Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, Oeiras (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28248: As nossas geografias emocionais (68): Bambadinca, meu amor ! (Torcato Mendonça, 1944 - 2021)


1. O Torcato Mondonça  (1944- 2021) vivia debaixo de terra, num "bunker", em Mansambo, um quartel construido de raiz, a pá e pica, pelos valentes "Viriatos", da CART 2339 (Mansambo, 1968/69).

Ir "desopilar" a Bambadinca, a 30 km de distância, a norte, sede do batalhão, BCAÇ 2852 (1968/70), era uma dos poucos luxos que se podiam permitir os graduados da CART 2339. Só se viajava em coluna. E podia haver maus encontros pelo caminho.

Em Mansambo não havia população, a não ser meia dúzia de civis, guias das NT, e suas famílias. Não havia bajudas, para distrair a vista. Nem casas comerciais p'ra gastar o patacão da guerra . Não havia rio, para a gente se lembrar do rio da nossa aldeia. Não havia a tasca do Zé Maria. Não havia a delegação do Bataclã de Bafatá. Toda a gente vivia como as toupeiras: debaixo de terra.

 Mansambo era um "campo fortificado" dos tugas, dizia a Maria Turra. Havia uma fonte manhosa e perigosa, fora  do perímetro do arame farpado. Para se ir á água e á lenha era conveniente levar a G3... Havia 3 obuzes 10,5, marca Krupp, do tempo da II Guerra Mundial. 

Em Mansambo um gajo ficava mais "cacimbado" do que em Bambadinca ou Bafatá. Aqui sempre havia um "cheirinho de civilização". E até se podia fingir que hoje era domingo, e brincar aos dias santos em que "fechava" a guerrra e a malta vestia um par de jeans  e um camisola Lacoste de contrafacção, e até calçava o sapatinho de pala para se ir comer um bife com batatas fritas e ovo a cavalo por 20 pesos, na Transmontana (!), em Bafatá. 

É interessante reler este excerto, da autoria do saudoso Torcato Mendonça, e ver como Bambadinca. é descrito, ou recordado: a crer no cronista de Mansambo, havia lá tudo, como se fossse uma cidadezinha do "faroeste" das Américas. Havia correio todos os dias, bebidas frescas, e até a "casa da Mariquinhas"... onde um tuga podia sonhar que dormia com a sua amada em lençóis de linho. Mm pósz 

O Humberto Reis chamava ao nosso quarto em Bambadinca o quarto das putas e com muita propriedade: não por que a gente as levasse para lá, mas sim por que levámos vida de putas: trabalhávamos de noite e dormíamos de dia... 

O melhor de Bambadinca, a 30 metros acima do mar ? Eram as vistas... 

Via-se quilómetros em redor, o que na Guiné, chata, plana, encharcada, opressiva,  era um luxo...Via-se e ouvia-se: quando Mansambo era atacado, à noite, sem a gente lhe poder valer...

Cidade, dizes tu, saudoso camarada ?! Ilusão de ótica, a tua... Algumas centenas de militares (tugas e guineenses), em Bambadinca, com 20 ou pouco mais anos, patacão no bolso, muita testosterona e ganas de viver ( e nenhuma de morrer), tinham necessariamente que animar a economia local e regional...

Ainda hoje te dizem, com alguma nostalgia e sinceridade, sem acinte, sem rancor, quando por lá passas, armado em turista, máquina de filmar ou fotografar a tiracolo: "Tuga, pai di nós"...

Coitado do Amílcar, daria voltas no panteão nacional da Amura se ouvisse tal heresia. 

Retenho algumas frases tuas, Torcato, foi bom rever a tua prosa,  castiça, tu que eras meio alentejano e meio algarvia, e que foste viver para o Fundão, por amor.

(...) " a cidade mais desejada"
(...) "Só a agora soube da existência da mestre-escola,  professora D. Violete"
(...) "Nessa morança pernotei algumas noites"
(...) "Dormia-se bem, mais fresco, mais... melhor"
(...) "a minha pouca roupa civil estava guardada (...) numa arrecadação que a companhia tinha no batalhão (...)
(...) "bem guardada por um soldado básico e esperto como um rato" ;
(...) "porquê Bambadinca, meu amor? Pois, porque, além de se fazer o dito, era local de boa cama e boa mesa, bar de bebida fresca".





Guiné > Região de Baftá > Setor L1 > Bambadinca > 1970 > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) Vista aérea do aquartelamento e posto administrativo de Bambadinca (que pertencia ao município de Bafatá) > Vista aérea, obtida de helicóptero: em primeiro plano o edifício do comando e as instalações de oficiais e sargentos. 

Bambadinca (em mandinga, "cova do lagarto") ficava numa pequena elevação ou morro, sobranceiro à extensa bolanha (a leste, à direita da imagem) e ao rio Geba (a norte), e de que vê uma nesga, ao fundo do lado esquerdo. 

Nesta altura, por volta do 1º trimestre de 1970, Bambadinca albergava mais de 400 militares (incluindo a CCS/BCAÇ 2852, prestes a terminar a sua comissão, mais um companhia de intervenção, a CCAÇ 12, 1 pelotão de morteiros, 1 pel rec daimler, 1 pel caç nat, mais 1 pelotão de intendência (embora este tivesse instalações próprias, junto ao porto fluvial de Bambadinca, na margem esquerda do Rio Geba Estreito).  

Bambadinca tinha 2 tabancas (Bambadinca e Bambadincazinho), com um total de 2 mil habitantes, sem contar com as tabancas, ribeirinhas, em redor. Um militar para cada 5 civis.

Nos arredores, estava em curso o grande reordenamemto de Nhabijões (c. 300 casas/moranças e equipamentos sociais: escola, posto sanitário,  mercado, baloba, mesquista, lavouro, fontenário...

Bambadinca tinha 7 casas comerciais e um porto fluvial (onde chegavam os " barcos turras"), destacamento da intendência, escola, posto administrativo, igreja, missa,  estação dos CTT, posto sanitário...  A nordeste, a 30 km, por estradas alcatroada, ficava Bafatá (sede de concelho), que será pouco depois elevada a cidade.

O Humberto Reis tem as melhores fotos aéres  da zona leste, região de Bafatá (incluindo Bambadinca, e os seus subsectores: Xime, Mamsambo, Xitole)  





 
Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > Mansambo>  1970 > Foto aérea de Mansambo a que o PAIGC "campo fortificado de Mansambo"... O aquartelamento foi construído de raiz pelos bravos da CART 2339 (1968/69), "Os Viriatos", ao tempo do BCAÇ 2852 (1968/70)... Deixaram apenas de pé, uma árvore, um poilão, para servir de mira aos artilheiros do PAIGC.

Sobre Mansambo temos de 370 centenas de referências... e 2 centenas das quais sobre a CART 2339. Sobtre Bambadinca, temoso dobro (c. 740)

Fotos do arquivo do nosso "cartógrafo-mor", o Humberto Reis (ex-fur mil  op esp,  CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Fotos: ©  Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem: Blogue Luís Graça & camaradas da Guine]


Bambadinca, Meu Amor

por Torcato Mendonça (1944-2021)


(...)   Sem dúvida era para mim a cidade mais desejada. Curiosamente, hoje olho para uma foto aérea e, se não tem legenda, de pouco me lembro. O pequeno aeródromo ali, as messes, bares e quartos de oficiais e sargentos acolá, mais um ou outro edifício e pronto.

A igreja... fui lá uma vez assistir à colocação do Bessa no caixão. Escola, o posto administrativo, a tasca de A ou B, não sei. Memórias perdidas. Só agora soube da existência do mestre-escola, Professora D. Violete.

Recordo a tabanca e uma morança, à direita de quem desce a rampa da estrada na direcção do porto, Missirá, Fá ou Bafatá – essa,  a grande cidade.

Nessa morança pernoitei algumas noites. Certamente por lotação esgotada nas instalações dos oficiais. Dormia-se bem, mais fresco, mais... melhor.

Mas é bonito ver hoje fotos de militares à civil. Calças, camisas brancas e, pasme-se, sapatos reluzentes. 

Deus meu e por todas as virgens, não me recordava! 

Creio que a minha pouca roupa civil devia estar na arrecadação que a Companhia [a CART 2339,] tinha no Batalhão, em Bambadinca.  Estava bem guardada por um soldado básico e esperto como um rato. Bela especialidade: básico !

Para que queria eu roupa civil em Mansambo e por outros lados onde me aquartelava? 

Claro que tinha botas, vários tipos e formatos, umas quantas t-hirts brancas (brancas?), chinelos de plástico e panos de fulas e outras peças de vestuário para alguma falta. O resto era verde ou camuflado. Bem bom.

Mas porquê Bambadinca, eu, amor? Pois, porque, além de se fazer o dito, era local de boa cama e boa mesa, bar de bebida fresca. 

Por vezes o líquido era tão fresco, deslizava tão docemente goela abaixo, que, no regresso a Mansambo, os olhos viravam detectores de minas e ala que é sempre em frente. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 10 de dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3592: Do Fundão, com insónias: Bambadinca, meu amor... (Torcato Mendonça)

(**) Último poste da série > 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28247: Notas de leitura (1948): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Recomendo sem qualquer hesitação a leitura deste importante estudo organizado por Patrick Chabal e que contou com uma equipa de especialistas de topo que apresentaram estudos sobre as cinco antigas colónias portuguesas africanas. Não é um estudo que aprofunde o pré-colonial, a presença e a colonização em si, a vida dos movimentos de libertação.
A questão fulcral proposta por Chabal e outros é avaliar o primeiro quarto de século da vida destes países independentes, a partir das descolonização, e encontrar pontos de relação entre essas mesmas cinco colónias portuguesas.
O estudo de Joshua Forrest dá-nos conta das governações de Luís Cabral e Nino Vieira, relata o que de fundamental aconteceu no conflito político-militar de 1998-99, no seguimento de outros trabalhos seus não esquece pôr ênfase sobre o afastamento do poder central das comunidades locais e como estas se revigoraram neste quadro de afastamento; o autor procede a uma narrativa que revela como durante esse quarto de século, o povo, mesmo descurado pelo Estado central assumiu energias de subsistência e, espantosamente, sempre que há eleições, vota em soluções genuinamente democráticas.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 4


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.

Recapitulando o que se escreveu nos três textos anteriores, temos um longo ensaio de Patrick Chabal, expondo o propósito de uma história abrangente destes cinco países africanos, seguindo-se estudos complementares desses mesmos cinco países de que aqui se dá destaque à Guiné-Bissau. Já se comentou como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico. Nino Vieira viu-se obrigado a abrir o país a eleições multipartidárias, isto numa atmosfera de reconhecimento de que as experiências socializantes tinham caído na água, houvera mau aproveitamento da ajuda internacional quer na saúde, nos transportes e na habitação, ficara-se cada vez numa maior dependência do FMI e do Banco Mundial. O PAIGC iniciou programas de ajustamento estrutural que incluíam o incentivo à iniciativa privada, à desvalorização da moeda, à redução da despesa pública, cortes em subsídios etc, etc. O Governo da Guiné-Bissau recebeu um total superior a 31 milhões de dólares do FMI no período 1987-90 como incentivo para prosseguir as reformas.

Diferentes autores já se pronunciaram sobre o resultado destas reformas. Apareceram empresas privadas ligadas à cultura do caju e da amêndoa de palmiste, e o caju tornou-se a principal cultura de exploração do país. Mas houve consequências bastante problemáticas. A expansão do comércio de import-export saudou-se numa proliferação de “pontas”. Algumas dessas pontas foram originalmente criadas durante o século XIX como explorações agrícolas do amendoim. A expansão dessas pontas no final da década de 1980 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros, quem mais beneficiou do empréstimo a médio e a longo prazo associado ao programa de ajustamento estrutural – a maioria destes ponteiros eram altos funcionários do Governo que não tinham competências para transformar as novas pontas em empresas produtivas. Resultado: dinheiro dos empréstimos perdido, a agricultura não melhorou; com as sucessivas desvalorizações disparou os preços dos bens alimentares sociais; não houve crédito para os pequenos agricultores, não se conseguiu estimular o aumento da produção de amendoim. Cresceu a economia informal, as trocas diretas que asseguraram a subsistência da maioria das pessoas. Os bens importados (caso do vestuário, rádios, pilhas e bicicletas) eram trazidos do Senegal ou da Guiné-Conacri.

Deu-se, portanto, uma combinação do comércio informal local com o comércio não regulamentado de longa distância. As reformas do ajustamento estrutural não beneficiaram os pequenos agricultores, mas os ponteiros; houve uma divisão entre os comerciantes privados, predominantemente orientados para a exportação e ligados ao Estado e a grande maioria dos produtores rurais. Cresceu a dependência do regime de Nino Vieira em relação a fontes de financiamento externas, e num contexto de grande debilidade financeira ponderou-se a hipótese de trocar o peso guineense pelo franco CFA, o que veio a acontecer em janeiro de 1997.

O partido do poder ia-se progressivamente afastando da população em geral. Joshua Forrest detalha como foi desaparecendo a presença do Estado na administração regional e comunitária. “Ressurgiu com um particular vigor um conjunto de estruturas sociais e políticas camponesas localizadas, com raízes no período pré-colonial e que nunca tinham sido totalmente capturadas pelo Estado colonial. As lealdades políticas, as redes sociais e os recursos locais passaram a organizar-se mais claramente em torno de bases de poder controladas pelas aldeias e não pelo Estado. Não pretendo afirmar que os camponeses guineenses eram agora contra o PAIGC, mas sim que estavam mais interessados em reivindicar a sua autonomia política relativa.”

Temos, portanto, um Estado que deixou de exercer o controlo direto sobre as comunidades rurais e que nos seus escalões mais elevados de poder central revelava incoerência e discórdia, dominado por uma burocracia interna. Quem estava no topo do poder só podia subsistir reforçando as suas cliques e integrando nelas apoiantes da burocracia e das Forças Armadas. De Luís Cabral a Nino Vieira vão suceder-se golpes de Estado, repressão dos opositores e rutura da unidade interétnica. Agravou-se o conflito até então surdo entre as alas cabo-verdiana e guineense do PAIGC. Num contexto de dificuldades causadas pela escassez de arroz, Nino Vieira organizou grupos de apoio com as Forças Armadas e concluiu um golpe de Estado praticamente sem derramamento de sangue.

O regime de Vieira assumiu um carácter cada vez mais autoritário. Em setembro e outubro de 1999, descobriram-se duas valas comuns, uma perto de Bissau, com 14 corpos de pessoas que se crê terem sido mortas em meados dos anos 90, e outra perto de Mansoa, contendo 22 corpos, aparentemente de indivíduos acusados de conspiração golpista e executados em 1986. A descoberta destas valas fez aumentar o nível de hostilidade popular contra a ditadura de Vieira. O autor dá-nos um quadro da evolução das eleições, demissões sucessivas de primeiros-ministros, o descontentamento das Forças Armadas era por demais evidente, Vieira forçou a destituição de Ansumane Mané, Chefe de Estado-Maior, foi a gosta de água para a rebelião que se iniciou em 7 de junho de 1998; nem a chegada de tropas estrangeiras fez estancar aa rebelião, pois o apoio popular maciço aos rebeldes fez com que o regime de Vieira ficasse praticamente confinado à Guiné-Bissau.

Houve tentativas de negociação internacionais, procurou-se levar por diante um Governo de transição que não revelou operacionalidade, e em 8 de maio de 1999, cedendo à provocação que foi a chegada de um navio de guerra da Guiné-Conacri que transportava armas pesadas destinadas aos partidários de Vieira, os rebeldes atacaram os aliados do Presidente e as suas tropas de apoio senegalesas. Era a decisiva batalha final, as tropas pró-Mané empurraram para o centro de Bissau todos os apoiantes da fação presidencial e os senegaleses, derrotaram-nos em combates de rua. Vieira refugia-se na Embaixada de Portugal e parte depois para o exílio, primeiro para a Gâmbia e depois das Portugal.

O sonho da estabilidade durou pouco tempo. Formara-se uma Junta Militar, houve eleições em novembro desse ano, ganhou o Partido de Renovação Social, seguido do Partido Resistência Guiné-Bissau, o PAIGC ficou em terceiro lugar.

Em 2000 foi eleito o Presidente Kumba Ialá, tudo acabou mal. Aqui termina o ensaio de Joshua Forrest e damos por concluída a recensão ao livro "História da África Lusófona Pós-Colonial", organizado por Patrick Chabal e outros colaboradores, Tinta-da-China, 2026.


Patrick Chabal (1951-2014)
Joshua Forrest
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Notas do editor:

Vd. post de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 5 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28242: Notas de leitura (1947): "Parábola do livro esquecido", retirada, com a devida vénia, do livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho; Partenon, 2026

Guiné 61/74 - P28246: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (73): A árvore sagrada, secular, da tabanca de Bijante, junto à baloba, na ilha de Bubaque, Bijagós, é muito provável que seja uma Ficus polita




Foto nº 1, 1A e 1B




Foto nº 2, 2Ae 2B


Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijante >   1 de agosto  de 2026 > A árvore sagrada, junto à baloba (ou casa dos irãs) (*)

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Fotos enviadas pelo Patrício Ribeiro, nosso "embaixador em Bissau", empresário (Impar Lda), que chegou a Bubaque, no dia 10 de julho, por volta das 13:55. Em trabalho.
 

 Devido à lentidão da Net, costuma mandar-nos sempre uma foto de cada vez. Estas foram tiradas em 1 de agosto, por volta das 14h15, na tabanca de Bijante.  Têm legendas lacónicas, como sempre



Data - sábado, 1/08/2026, 20:35

Foto nº 1 > Ilha de Bubaque > Tabanca de Bijante > Árvore, do género "Figueira",  de grande tamanho, junto da baloba.

Foto nº 2 > Ilha de Bubaque > Tabanca de Bijante > Tronco da "Figueira", com mais de 5 mt de diâmetro
 

2. Comentário do editor LG:

Patrício  obrigado pelas fotos. Não sou especialista em botânica, e muito menos da tua terra adotiva (, sou apenas um curioso da fauna e flora), mas três ferramentas de IA que consultei ( Gemini Google | ChatGPT Open AI | Vibe Mistral AI ), além da plataforma African Plants: A photo guide, estão de acordo com a tua observação:  analisando as tuas fotos, concluíram que tens razão, trata-se de um exemplar do género Ficus (uma figueira-brava/estranguladora); é um belo exemplar das figueiras sagradas que se encontram na Guiné-Bissau, e em especial no arquipélago dos Bijagós.

2.1. Na Foto no. 2,, é possível observar claramente a estrutura botânica que explica o aspeto e as dimensões do tronco:

Hábito estrangulador (Figueira-Mata-Pau), em português do Brasil): a árvore hospedeira original (provavelmente um poilão/Ceiba pentandra ou outra espécie de grande porte) foi envolvida ao longo de décadas pelas raízes aéreas e ramos de uma figueira epífita,

Fusão de troncos: o tronco massivo visível na base resulta da fusão e espessamento (anastomose) dessas raízes aéreas adventícias ao redor do tronco central, criando uma estrutura colossal composta;

Massa e dimensão: esse processo de crescimento colateral e fusão de raízes explica a enorme largura da base (que pode atingir facilmente perímetros invulgares e uma copa extremamente densa e ramificada, como se nota na foto nº 1).

Na Guiné-Bissau e no Arquipélago dos Bijagós, estas grandes figueiras e poilões centenários junto a balobas são habitualmente integrados nos locais sagrados, servindo de morada aos espíritos (irãs) e de ponto de reunião ritual da comunidade. (Fonte: Gemini | Google).

2. 2. O ChatGPT também está de acordo, dezendo que, sem quaisquer dúvidas, se trata uma figueira-brava, do género Ficus.

As fotografias mostram vários indícios característicos de uma Ficus adulta: o tronco gigantesco, muito engrossado na base; tronco muito espesso e irregular, com numerosas protuberâncias; raízes tabulares ("sapopemas") e raízes adventícias aderentes ao tronco; ramos muito pesados e pendente; numerosas raízes aéreas que descem dos ramos e acabam por fundir-se com o tronco; copa extremamente densa e arredondada, em forma de guarda-chuva; hábito de formar um verdadeiro "bosque" sobre um único indivíduo.

A foto nº 2 é particularmente elucidativa: essas raízes adventícias, que abraçam o tronco e descem dos ramos, são praticamente uma assinatura das grandes figueiras tropicais.

Espécie:

É mais difícil de identifcicar.

Na Guiné-Bissau existem várias espécies de Ficus. Mas a mais provável é a Ficus polita, muito comum na África Ocidental, frequentemente preservada junto das tabancas e dos locais sagrados.

O ChatGPT exclui, como menos prováveis a Ficus sycomorus (copa mais aberta; folhas bastante maiores; tronco menos "nodoso"; sicónios abundantes diretamente no tronco); e Ficus elastica (a figueira-da-borracha), introduzida, cujas folhas são muito maiores e brilhantes.

Idade:

Se o diâmetro referido pelo Patrício Ribeiro ronda os 5 metros ( perímetro visível do conjunto do tronco ou a uma medição aproximada "de vista"), e observando a enorme base, as raízes incorporadas, e o grau de deformação do tronco, o ChatGPT dar-lhe-ia 200 a 250 anos de existência.

Nas tabancas bijagós, onde uma árvore ligada à baloba nunca é abatida, exemplares desta idade não são nada improváveis.

Se o fotógrafo mediu cerca de 5 m de diâmetro, isso corresponderia a quase 16 metros de perímetro, o que faria dela uma árvore verdadeiramente excecional, provavelmente com vários séculos de idade.

Há, contudo, uma particularidade nas figueiras: muitas vezes o que parece um único tronco resulta da fusão de diversos troncos e raízes aéreas ao longo do tempo. Por isso, o "diâmetro" é um conceito algo enganador nestas árvores.

Altura:

A fotografia permite fazer uma estimativa razoável,  usando as casas (moranças). Uma casa tradicional bijagó tem normalmente: cerca de 2,6–3 m até ao beiral; e  cerca de 4–4,5 m até ao cume do telhado.

Comparando essas referências com a copa,  a árvore mede aproximadamente 8 a 9 vezes a altura do telhado. Ou seja, qualquer coisa entre 31 e 37 m

Relação com a baloba

As figueiras sagradas são centrais nas balobas das tabancas bijagós
, servindo como eixo espiritual para rituais, assembleias e culto aos irãs (espíritos ancestrais).

A idade centenária e a preservação junto a locais sagrados alinham-se com a prática de conservar estas árvores como símbolos de memória coletiva e ligação aos antepassados (Mistral AI).

Aliás, esta figueira poderá ser mais antiga do que a própria tabanca atual. É perfeitamente possível que Bijante tenha crescido em torno dela e que sucessivas gerações a tenham preservado precisamente por ser considerada sagrada. (ChatOpen AI).

Seria interessante perguntar aos anciãos da tabanca se existe uma tradição oral sobre a idade da árvore ou sobre quem ali fundou a baloba.

 Essas narrativas, mesmo quando não são historicamente verificáveis, costumam conservar uma memória muito antiga do lugar. Muitas vezes, estas narrativas guardam memórias ancestrais valiosas

Em praticamente toda a África Ocidental, as grandes figueiras constituem lugares privilegiados para: assembleias da comunidade; julgamentos tradicionais; cerimónias de iniciação; culto dos antepassados; sacrifícios e oferendas.

A árvore não é apenas uma árvore: é um marco da memória coletiva, um eixo simbólico que liga os vivos, os antepassados e os espíritos protetores da tabanca (irãs).

Em conclusão, a legenda mais apropriada para as fotos do Patrício Robeiro:

Grande figueira (Ficus sp.), provavelmente Ficus polita (ou espécie muito próxima), junto à baloba da tabanca de Bijante, ilha de Bubaque. Exemplar monumental com cerca de 34 metros de altura e idade provavelmente superior a dois séculos. A preservação secular desta árvore está muito ligada ao seu carácter sagrado para a comunidade bijagó.

Se o Patrício Ribeiro conseguir uma fotografia aproximada de um ramo com folhas e, sobretudo, dos figos (sicónios), mesmo verdes, com uma moeda ou uma mão ao lado para escala, é possível chegar à identificar a espécie com uma confiança de 95% ou mais, com a ajuda  da IA.


Pesquisa: LG +  African Plants: A photo guide, ´ IA (Gemini /Google | ChatGPT / Open AI | Vive Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos; LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 30 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28228: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (72): A jaca, espécie invasora tropical, que já chegou a Bijante, Bubaque, Bijagós

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28245: O nosso livro de visitas (230): Emília da Silva Balula procura informações sobre o seu tio, sold at cav Francisco da Silva Oliveira, CCAV 2540 / BCAV 2876 (Ingoré, 1969/71), falecido em 24/2/1971, na sequência de acidente de viação



Guião do BCAV 2876 (Ingoré, 1969/71) (Fonte: Coleção Carlos Coutinho)


1. Mensagem de  Emília da Silva Balula, sobrinha do nosso camarada Francisco da Silva Oliveira, morto no CTIG , em Ingoré, em 24/21971, por acidente de viação:


Data - 02/08/2026, 09:04

Procuro uma fotografia do meu tio:

(i) Francisco da Silva Oliveira,
(ii) natural de Liceiras, Ermesinde,
(iii) soldado atirador n.º 04316469,
(iv) Companhia de Cavalaria 2540 / Batalhão de Cavalaria 2876,
(v) falecido na Guiné em 24 de fevereiro de 1971.

Se algum antigo camarada ou familiar possuir fotografias da companhia ou o reconhecer, ficaria imensamente grata pela partilha. Muito obrigada

Emília da Silva Balula 

2. Comentário do editor LG:

Cara amiga Emília pp: pelo seu endereço de email, vejo que vive  em França

Em relação ao seu contacto, que muito nos honra, e respondendo ao seu pedido, tenho a dizer-lhe que infelizmente não temos nenhuma referência ao seu tio (e nosso camarada) Francisco. 

São escassas, de resto, as nossas referências ao seu batalhão, BCAV 2876 (cerca de uma dúzia) e à sua companhia, a CCAV 2540 (Ingoré, 1969/71) (apenas meia dúzia).

Experimente, todavia, contactar o fur mil vagomestre João Manuel Félix Dias, que vive no Montijo, e que é capaz de ter conhecido o seu tio.Vou-lhe mandar, por mensagem, o seu endereço de email. 

Quanto à foto, é mais seguro pedir ao Arquivo Histórico Militar; invoque a sua condição de sobrinha, para consultar o seu processo individual (donde constam, pelo menos, duas fotos  do tempo da incorporação militar). (Email: ahm@exercito.pt | telef : + 351 218 842 415 ).

Junto mais alguma informação adicional sobre o seu tio (que morreu no hospital, HM 241, Bissau) e o seu batalhão.

Obrigado pelo seu contacto. Luís Graça
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Nome: Francisco da Silva Oliveira
Posto: Soldado - Atirador Número: 04316469
Unidade: Companhia de Cavalaria N º 2540 / Batalhão de Cavalaria nº 2876
Unidade Mob: Regimento de Cavalaria n.º 3 · Estremoz 
Estado civil: casado, com Berta Cardoso Oliveira
Pai: António Moutinho Alves
Mãe: Emília da Silva Oliveira
Lugar: Liceiras
Freguesia: Ermesinde 
Concelho: Valongo
Data do falecimento: 24 de Fevereiro de 1971, no HM 241 - Bissau
Causas da morte: acidente de viação
Local de operações: lngoré, região do Cacheu fronteira com o Senegal
Local da sepultura: cemitério paroquial de Ermesinde.

Fonte:Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 8.º volume: mortos em campanha. Tomo II: Guiné: livro 2. Lisboa: 2001, Livro 2, pãg. 35.
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Ficha de unidade:

Batalhão de Cavalaria n.º 2876
Identificação BCav 2876
Unidade Mob: RC 3 - Estremoz

Cmdt: TCor Cav José Carlos Sirgado Maia |
2º Cmd: Maj Cav Luís Maria Coelho Casquilho | Maj Cav Luís Francisco Pinto de Sousa Moreira
OInfOp/Adj: Maj Cav Luis Francisco Pinto de Sousa Moreira | Maj Cav José Luis Jordão de Ornelas Monteiro

Cmdts Comp:

CCS: Cap Mil Cav Jorge Maria Lemos Pereira Máximo | Cap Cav Rogério da Silva Guilherme | Cap Mil Cav José Mendes Fernandes Martins

CCav 2538: Cap Cav Luís Filipe Rei Vilar | Cap Cav Rogério da Silva Guilherme

CCav 2539: Cap Cav Raul Fernando Durão Correia

CCav 2540: Cap Cav Jaime Gomes Vieira

Divisa: "Viver pra Vencer"
Partida: Embarque em 19Ju169; desembarque em 24Jul69 | Regresso: Embarque em 04Jun71
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Síntese da Actividade Operacional

Em 01Ag069, rendendo o BCaç 1933, assumiu a responsabilidade do Sector 06, cuja sede foi transferida durante a sobreposição para Ingoré e abrangendo os subsectores de Susana, S. Domingos, Ingoré e Barro, este retirado então à área do BCaç 1932 e transferido de novo para a zona de acção
do COP 3, em 07Fev70.

 As suas subunidades mantiveram-se sempre integradas no dispositivo e manobra do Batalhão.

Desenvolveu intensa actividade operacional de patrulhamento, reconhecimento e emboscadas, com vista a impedir a infiltração de grupos e reabastecimentos inimigos, restabelecendo ainda a ligação rodoviária Ingoré-S. Domingos e efectuando a segurança e controlo dos itinerários. 

Da sua actividade ressaltaa captura de 1espingarda e a detecção e levantamento de 86 minas.

Em 31Mai71, foi rendido no sector pelo BCav 3846, recolhendo a Bissau para embarque.

A CCav 2538 seguiu em 29Jul69 para Susana, a fim de render a CCaç 1791, assumindo a responsabilidade do respectivo subsector em O lAgo69, tendo destacado um pelotão para Varela. Por períodos variáveis, destacou ainda pelotões para reforço temporário de Ingoré.

Em 31Mai71, foi substituída pela CCav 3366 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.
***
A CCav 2539 seguiu em 29Ju169 para S. Domingos, a fim de render a CCaç 1790, assumindo a responsabilidade do respectivo subsector em 01Ago69.

A partir de meados de Out69, cedeu um pelotão para reforço do subsector de Ingoré, o qual se instalou em Antotinha.

Em 31Mar71, foi substituída pela CCav 3365 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***
A CCav 2540 seguiu em 28Jul69 para Ingoré, a fim de render a CCaç 1801, assumindo, em O lAgo69, a responsabilidade do respectivo subsector, com pelotões destacados em Sedengal e Antotinha a partir de meados de Out70.

Em 31Mai71, foi substituída pela CCav 3364 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n.º 126 - 2ª Div/ 4ª  Sec, do AHM - Arquivo Histórico-Militar)

Fonte -Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 282/ 283

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27497: O nosso livro de visitas (229): M’bana N’tchigna, balanta, da Guiné-Bissau, professor do ensino médio em Vitória, no Brasil, autor do Blogue "Intelectuais Balantas na Diáspora", autor de uma texto sobre Pansau Na Isna (1938-1970)

Guiné 61/74 - P28244: (Ex)citações (448): Guiné: Na linha do tempo (José Saúde)


1.   O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem. 

Camaradas, 

Na linha do tempo 

 
Beja, antiga Pax Júlia, é uma cidade por onde passaram muitos dos camaradas militares que tiveram como destino o território da Guiné

Na linha do tempo 

Na linha do tempo, sempre finita para um ser vivo, recorro a ímpetos históricos e revejo-me absorvido pelas origens de uma cidade, onde habito, que foi fundada 400 anos a.C. pelo povo celta. Descreve a história que os Cónios, denominados, como os Cornistorgis, foram uma população que, nesses recuados tempos, coabitaram no burgo. No século III, também a.C., foram os cartagineses que terão restabelecido o maior tempo de permanência no lugar, sendo, contudo, a civilização romana aquela que romanizou as populações por ali existentes.

O nome de Pax Júlia surge intrinsecamente ligado ao período do Império Romano. Pax Júlia teve honras de metrópole e de uma enorme grandiosidade na Península Ibérica, albergando então uma das três jurisdições romanas da Lusitana. O Imperador Augusto terá sido o homem que deu origem ao nome de Pax Júlia. No ano de 1162 os cristãos reconquistaram o burgo e em 1524, a cidade recebeu o foral, mas antes, 1517, já tinha sido elevada a cidade.

Poder-se-á afirmar, com elevada segurança, que Beja foi berço de notáveis famílias. J de pedagogos e de humanistas na era do Renascimento. Diogo Gouveia, Francisco Xavier, conselheiro dos reis, D. Manuel I e de D. João III de Portugal, André Gouveia e António Gouveia, sintetizam algumas das figuras que brilharam no palco do humanismo em Portugal.

Conta a história que a primeira restauração dos muros de Beja, teve lugar no reinado de D. João III com recursos oriundos, por 10 anos, de dois terços dos dízimos das igrejas existentes, à época, na velhinha urbe. Diz ainda a lenda Beja, que esta foi uma pequena localidade rodeada por matagais onde uma cobra assassina se apresentava como um dos maiores problemas, e dúvidas. para a população em geral, sendo que solução do dilema passou por assassinar a serpente. O efeito gerado terá originado a morte de um touro que envenenado pela serpente, sucumbi-o. Neste contexto, eis-nos perante o brasão da cidade que exibe a presença de uma cabeça de touro. 

1ª página do jornal “República”, 2 de fevereiro de 1962, Recorte recolhido, com a devida vénia, por via da Internet

A história do Regimento de Infantaria (RI3), em Beja, é longa e a sua origem remonta ao ano 1648. É óbvio que não entramos pelo fastidioso texto em atravessar o campo da pormenorização. Mas, há um feito aventureiro que marcou o Estado Novo: o assalto ao quartel na noite de 31 de dezembro de 1961 para o de 1 de janeiro de 1962.

Tinha então11 anos e lembro-me desse acontecimento. Morava com a minha tia Maria, o marido, tio António, e filhas, Isabel e Ana, na Rua Ramalho Ortigão nº1, uma rua que nos conduz a outros pontos do Sul do país.

A missão teve como um dos principais protagonistas o capitão Varela Gomes (1924-2018). O assalto tinha incumbência uma ação contra o Regime. Na aventureira intentona participaram Manuel Serra, que antes tinha chefiado os civis no Golpe da Sé, o major Francisco Vasconcelos Pestana, o capitão Pedroso Marques, o tenente Brissos de Carvalho e Fernando Piteira Santos. No golpe estiveram envolvidos alguns civis, só que o objetivo não correu de acordo com os planos previamente delineados. Houve “negas” de última hora, resultando da negação dos militares, que viraram o bico ao prego, dois mortos ao que se soube. O major Galapez, segundo comandante do quartel, fez resistência, o golpe falhou e Varela Gomes foi gravemente ferido.

Com o rebentamento da guerrilha Ultramarina, primeiro em Angola, seguindo-se Moçambique e depois Guiné, constata-se que o RI3, de Beja, terá sido um antro onde foram depositados ao longo dos anos milhares de jovens camaradas com destino às três frentes de guerra. Ao largo da década de 1960 e princípios dos anos de 1970, tive a oportunidade de ver magotes de jovens rapazes que chegavam à velha Pax Júlia para se iniciarem no serviço militar obrigatório.

Envergando uma farda verde, uma boina que por vezes pouco ou nada se enquadrava com o perímetro da cabeça, de cabelo rapado e calçando umas botas militares de delgada memória, o jovem, feito militar à força, passeava-se pelas ruas da cidade e regozija-se pelo estatuto de homem valente. Enchia o peito e sentia-se já um defensor da Pátria. Por outro lado, a plebe, mais humilde que o fosse, via-os com alguma tristeza perante o futuro próximo do rapazito recém-chegado às fileiras do exército, sabendo o povo que o seu porvir passava consequentemente pela fatídica guerra além-fronteiras.

Ficava, porém, a certeza de que parte deles arranjava namoricos, alguns com criadas de servir em lares abastados, ou seja, de senhores endinheirados, outros ficavam-se pelo pedido de madrinhas de guerra, sabendo eles que ida para a guerrilha estava tão próxima, outros passeavam-se vaidosos pela cidade, outros dispersavam-se pelos cafés e cervejarias. Seguia-se a especialidade e o adeus deste cantinho à beira-mar plantado. E terão sido muitos dos camaradas que no RI3 iniciaram o facto de se tornarem militares. 

Quartel de Gabu envolvido numa selva que nunca “dorme" 

Tocadores improvisados acertavam as mãos nos instrumentos e os camaradas… gostavam!

Guiné esperou-nos

Dando continuidade à linha do tempo, nós antigos combatentes no território da Guiné, concretamente, somos pessoas que nos deparámos com uma selva que nunca “dorme”, que vimos as estrelas a brilhar num breu de uma noite repleta de mistérios, ou uma trovoada noturna onde proliferava o recurso aos nossos “ponchos”. que ouvimos os barulhos estridentes das armas de guerra, que contemplámos situações que jamais esqueceremos, ou de momentos, quiçá únicos, onde os divertimentos vinham à baila, principalmente em tardes de calor intenso onde dar uns toques numa bola se assumia como um prazer enorme, ou das noites passadas na messe de sargentos, onde o toque dos tocadores “deliciaram” a malta, momentos de laser que nos preenchia uma alma que se esvazia num tempo que, entretanto, se esgotava em tácitos objetivos que todos ambicionávamos.

Hoje, resta-nos perspetivar um amanhã melhor, já que as curvas das nossas vidas se limitam à esperança de continuámos a viver.    


José Saúde,
Abraços camaradas,
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 

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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28092: (Ex)citações (447): O pessoal das transmissões: músicos, de talento (tirando eu que só tocava ferrinhos): o que é é feito de vocês, camaradas, Luís Dutra (já falecido), Eduardo Pinto, Victor Barros, Carlos Lã, Fernando Cruz, Fernando Marques, António Camilo, Miguel Pacheco, José Fanha, Nélson Batalha (já falecido), e outros, do meu curso de transmissões... (Hélder Sousa)