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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Catarina Gomes escreveu um livro de referência. Já nos chamara a atenção com outra obra Pai, Tiveste Medo? - sobre a forma como a experiência da Guerra Colonial chegou à geração de portugueses filhos de ex-combatentes. A primeira edição desta obra está associada a uma série documental Filhos de Tuga (RTP 1). Tudo começou em 2013 quando, em termos jornalísticos, ela partiu para a Guiné-Bissau para contar esta história no jornal Público, os filhos deixados para trás. Foi procurada por muitíssima gente. O testemunho de Fernando Hedgar da Silva, a associação que ele criou destes filhos de tuga estimularam a continuar a sua investigação, percorreu os três países onde houvera guerra, e aqui temos a história do movimento da Guiné, obra deste Fernando, a espantosa história de Óscar de Albuquerque e a sua tia Filomena, a mana Emília, a incansável Rosa Monteiro que tinha imensas saudades do pai sem nunca o ter conhecido. Sim, obra de referência, vale a pena confiar em futuras investigações sobre estas crianças que ficaram em África, filhas de pais desconhecidos.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 4

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Não sei se o leitor se recorda que suspendemos esta viagem contando a história de Celestina e o seu irmão gémeo Celestino, filhos de um major reformado que andou por Bambadinca, que até contou à mulher que aqui teve um “deslize”, os gémeos entraram em contacto com a mana branca, de nome Emília, esta vai dando conta das suas diligências em auxiliar os manos guineenses à mãe, Sara Martins Prado. Este nosso major fez várias comissões acompanhado pela mulher e as filhas, mas na comissão na Guiné-Bissau esteve sozinho, e a autora aproveita a circunstância para falar destes militares que tinham encontros com as lavadeiras ou combinavam com outras mulheres idas à tabanca.

Dentro do quartel era tudo difícil para as praças, dormiam em casernas lotadas de homens, os furriéis acomodavam-se em quartos de quatro homens, só de capitão para cima é que tinham quarto privativo. O pai de Emília fora um desses privilegiados. O nosso major reformado, confrontado por Emília, encolheu os ombros. “O pai aceitou falar com o dito Celestino ao telefone, mas percebeu pouco ou nada do que lhe dizia o homem guineense que afirmava ser seu filho. O pai está muito surdo, mesmo com aparelho, passou o telefone à Emília. Mas o filho distante agarrou-se àquele número de telemóvel que agora o aproximava do pai, e passou a ligar com uma insistência que, em vez de os aproximar, os afastou.”

Será Emília quem se encarregará de ir ajudando os irmãos, enviando dinheiro ou roupas. A conclusão é de que aquele pai via a relação da filha com os gémeos de lá, mas não queria falar de afetos ou reconciliação, no fundo uma história com um final como muitas outras.

Catarina Gomes dedica um capítulo aos chamados pais procuráveis, isto é, tomando como verdadeiras as histórias dos filhos, ela procurava os pais putativos para dizer que aqueles filhos existiam, e tentaria apurar se estes pais desejavam saber deles. A primeira dificuldade a superar era localizar os pais com as informações dos filhos, as pesquisas nem sempre são frutíferas, para a investigadora os resultados são mais amargos que agridoces. É neste contexto que ela pega num caso que obteve um grande tantã mediático, a viagem de António Bento que viveu uma relação amorosa com Esperança em Luvuei, leste de Angola, quarenta anos depois viajou para se encontrar com o filho, é um relato emocionante até chegar ao encontro com o seu filho Jorge Paulo Bento, conhecido entre familiares e amigos como o Pula ou o Branco; em Luena, o filho é membro da polícia de intervenção rápida, António Bento fala com os superiores dos filhos, conhece a nora e os netos e depois chega o filho, ele fora mandado de avioneta militar de Luanda para vir conhecer aquele pai, ressuma uma ternura neste encontro, nos abraços e nas lágrimas.

“António veio dizer-lhe a sua data de nascimento, 15 de janeiro de 1975, veio dizer-lhe que nasceu na enfermaria do quartel português e não em casa. Jorge gostou muito de ouvir do pai que o pai gostou da mãe, no livro que António escreveu propositadamente para o filho vem escrito que a mãe esperança é a mulher que eu amei. António diz-lhe que queria muito dar um abraço a Esperança, ‘agradecer-lhe por te ter criado sozinha’. O pai veio dizer-lhe o nome dos seus avós, Maria José Carita Reisinho e Júlio da Graça Bento, que estão na certidão de nascimento que vai usar para registar o nome do seu pai. Veio mostrar-lhe fotos de uma mãe jovem que ele não conhecia, numa delas apontou-lhe para a barriga, dizendo: ‘tu estavas aqui’.”

Se o leitor estiver interessado em conhecer mais pormenores da história, consulte o site https://acervo.publico.pt/sociedade/noticia/quem-e-o-filho-que-antonio-deixou-na-guerra-1699039.

Catarina Gomes fala-nos de Rosa que tinha saudades do pai que não conhecera, o que dele sabia resumia-se ao seu apelido, Monteiro, que ela usa; o pai fora militar em Metangula, no norte de Moçambique, de 1967 a 1968 (Rosa nasceu a 22 de maio de 1968). Metangula era porto militar colonial, dali partiam as lanchas da marinha portuguesa. Há fotografias da mãe tiradas pelo pai, Fátima Ndala com t-shirt de algodão justa ao corpo, mini saia de pregas em tecido de padrão escocês, sapatos claros estilo sabrinas. Rosa vai mostrando tudo a Catarina, queria mesmo apresentar-lhe dezenas de filhos de marinheiros portugueses da base naval de Metangula, é uma das histórias mais emocionantes pela persistência em conhecer o pai, socorrendo-se das redes sociais, até se chegar ao momento culminante de vir a saber que o pai falecera com 67 anos, ela não desfalece, insiste em contactar o irmão branco, este não quer comunicação, a irmã, a mesma coisa, Rosa guarda um álbum completíssimo com a sua família portuguesa, espero que o leitor não perca este capítulo intitulado Saudades do Pai Monteiro.

A investigadora vai colecionando histórias, ouvindo resignações, tomando nota de palavras associadas àquele tipo de relacionamento espúrio e que ganham valor complexo, tais como namoro, conversa, casamento, marido, esposa, e algo mais, matéria que merece a maior reflexão:
“Mal termino de escrever sobre estas mães, vêm-me à mente estes pais acidentais, homens que se deslocavam em bando à procura de mulher, uma qualquer, saídos de um Portugal das décadas de 1960 e 1970, em que as mulheres se queriam virgens até ao casamento, em que as famílias protegiam a castidade das filhas, em que para muitas famílias as filhas terem relações sexuais antes da noite de núpcias significava ‘desgraçarem-se’. Elas deviam vestir-se decentemente, prescreviam-se saias a ¾, das pernas apenas podiam revelar-se os tornozelos.
Longe deste Portugal, tais jovens, a maioria vindos de aldeias, encontravam-se, pela primeira vez, fora do país, num estrangeiro em que havia mulheres que não usavam sutiãs, nem saiotes e combinações, apresentando-se ao mundo estranhamente despidas. Eles podiam até assistir ao mais íntimo dos rituais: o banho.
Aportaram num mundo com uma moral às avessas.”


De uma dignidade sem mágoa do início ao fim, esta investigação aborda um dos maiores tabus entre os militares portugueses, as crianças que ficaram para trás quando terminou o conflito e que andam há anos à procura de uma identidade perdida, e onde não deixa de ser chocante a indiferença do Estado português para reconhecer a dimensão desta realidade.
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)

Guiné 61/74 - P28179: Humor de caserna (279): Uff, primeiro que minha voz chegasse, dos CTT de Bambadinca, na Spinolândia, à Lourinhã, a 4 mil km de distância!...(Luís Graça)

















Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 13 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



1. A maior parte de nós (talvez 4 em cada 5) nunca telefonou para casa, quando esteve ao serviço da Pátria na Guiné... Telefonar era um luxo. A maior parte da malta, sobretudo os da "província",  ainda não tinha telefónico fixo em casa... E depois era um exercício "penoso e moroso", além de caro, tentar ligar do mato para Portugal... Para um SOS, mais valia um telegrama ou até uma aerograma: era muito mais barato!" (*).

Em nunca sequer tentei ligar em 22 meses de "desterro". Mas estou a tentar reconstituir o meu "circuito de voz", se por acaso tivesse querido telefonar dos CTT de Bambadinca para os meus pais na Lourinhã... 

Com a ajuda da IA, e depois de muitas "calinadas" de parte a parte, lá chegámos a esta BD  que resulta de várias versões, colagens e emendas... A IA nunca contou com a sabotagem dos postos telegráficos por parte do partido do senhor engenheiro Amílcar Cabral, que era agrónomo mas devia perceber alguma coisa de telegrafia e telefonia com fios (de cobre), proque os mandou cortar... Eu, pela minha parte, que não sou engenheiro nem muito menos percebo de transmissões, estava piamente convencido de que em 1969 havia cabos submarinos  a ligar a Guiné à nossa terra (à beira-mar plantada). Fiz confusão, o meu pai é que foi para o Mindelo, Cabo Verde, em 1941, para guardar os cabos submarinos...(**)

Em 1969, não havia nenhum cabo submarino ligado à Guiné, nem telegráfico, nem muito menos coaxial.

O cabo submarino que existia em Bolama,  lançado em 1893 pela companhia britânica West African Telegraph Company,já tinha sido abandonado e desativado décadas antes (o tráfego comercial de cabos telegráficos para aquela zona da costa africana foi sendo progressivamente desligado à medida que as estações de rádio entraram em cena na primeira metade do século XX). E cabos coaxiais submarinos na Guiné?|... Nunca existiram até ao fim da guerra.

O circuito histórico exato de 1969 era o seguinte: as comunicações de Bambadinca para a Lourinhã dependiam a 100% da via aérea (rádio) na sua primeira e mais longa etapa.

O verdadeiro percurso daquela chamada era este:

~
A antena de rádio mais alta de Bambadinca, c. 1969/70.
Vista aérea
Foto: Humbert Reis / Arquivo do Blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné
i)  O salto local (Bambadinca ➔ Bissau)


Como os postes telegráficos da rede civil terrestre tinham sido cortados e sabotados pelo PAIGC logo no início do conflito, o posto dos CTT de Bambadinca dependia de um posto emissor de rádio HF (instalado no quartel, dentro do perímetro de arame farpado, pior razóes de segurança)

A minha voz saía de Bambadinca pelo éter e era captada em Bissau pela estação central dos CTT.



(ii) O grande salto transatlântico (Bissau ➔ Lisboa via Rádio Marconi)

Aqui entra  a  tecnologia da época. A central de Bissau não injetava nada num cabo submarino. O sinal era retransmitido por potentes emissores de onda curta (HF) da Companhia Portuguesa Rádio Marconi (CPRM) instalados na Guiné.

A minha voz viajava por propagação ionosférica;  as ondas de rádio subiam, batiam na ionosfera (a camada alta da atmosfera), faziam ricochete e voltavam a descer, cruzando os 4 mil quilómetros de distância em frações de segundo até serem captadas pelas gigantescas antenas de receção da Marconi em Portugal (como a mítica Estação de Receção de Alfragide ou de Vendas Novas).

(iii) A rede terrestre (Lisboa ➔ Lourinhã)

Só quando o sinal de rádio vindo de Bissau aterrava nas antenas da Marconi em Portugal Continental é que ele era transformado em sinal elétrico de linha telefónica:

A Marconi passava a chamada para a rede dos CTT em Lisboa.

A partir de Lisboa, a chamada seguia pelos cabos aéreos de cobre ou feixes hertzianos terrestres nacionais, subindo pela Estremadura até chegar à central manual dos CTT da Lourinhã, onde a telefonista finalmente completava a ligação para o destinatário.

2. Porque é que era tão difícil e instável a ligação Guiné-Portugal ?   Uma verdadeira "lotaria"!

Não havia a estabilidade de um cabo submarino debaixo de água. Dependia-se inteiramente do estado do tempo e da atividade solar. Se a ionosfera estivesse instável, a chamada "caía", o ruído estático tapava a voz e os operadores tinham de ficar horas à espera que a frequência "abrisse".

Havia pouquíssimos canais de rádio disponíveis na Marconi para o tráfego civil/militar simultâneo, o que gerava as célebres listas de espera de dias nos postos dos CTT do mato.

Afinal, o único fio que nos unia, a nós militares,  à metrópole era, ironicamente, invisível e passava pelas ondas de rádio (e não por nenhum cabo submarino, como alguns de nós pensávamos).

(Pesquisa: LG + Fundação Portuguesa das Comunicações + IA (Gemini / Google)
Condensaçáo, revisã / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG.:

(*) Último poste da série > 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28155: Humor de caserna (278): Na Spinolândia, namorar não era proibido... o preço da chamada telefónica para a metrópole é que era proibitivo!... Que o diga o Humberto Reis, o nosso "cartógrafo" e "ranger" (que está agora no "estaleiro", e a quem desejamos rápida recuperação)

(**) Em 1941,  diz a IA/Google, os cabos submarinos amarrados na zona do Mindelo (ilha de São Vicente, Cabo Verde) pertenciam a duas empresas principais: a Western Telegraph Company (de capital britânico) e a Italcable (de capital italiano). 

A ilha assumiu grande importância geoestratégica durante a Segunda Guerra Mundial devido à sua infraestrutura de comunicações: (i) Cabos Britânicos: eram os mais antigos e numerosos, sendo perados pela Western Telegraph Company: aziam as conexões cruciais do Império Britânico ligando Portugal continental (Carcavelos), Madeira, Brasil, e a costa ocidental de África;  (ii) Cabos Italianos: operados pela Italcable, cabos ligavam a Itália à América do Sul, passando por Cabo Verde (com amarração na praia da Matiota).

Guiné 61/74 - P28178: Parabéns a você (2504): António Tavares, ex-Fur Mil SAM da CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72)

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Nota do editor

Último post da série de 12 de Julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28175: Parabéns a você (2503): Sarg-Mor Paraquedista Reformado António Dâmaso das CCP 121 e 123/BCP12 (Guiné, 1969/70 e 1972/74)

domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)


Angélica Lima,  Fonte: Linkedin

1. Texto da doutora Angélica Lima, lido por ela na sessão de apresentação do livro do nosso camarada António Carvalho, ontem em Medas, Gondomar (*) (cortesia da escritora,  brasileira, cuja foto, do Linkedin, reproduzimos aqui à direita):


Boa tarde a todas e a todos.


Quero começar agradecendo ao autor, António, pelo generoso convite para estar aqui com vocês neste momento tão especial, que é o nascimento público de um livro.

Agradeço também a confiança ao me permitir ler esta obra antes de sua publicação e ao me convidar para compartilhar algumas impressões de leitura.

Agradeço igualmente a presença de todos os que escolheram participar desta celebração literária, num tempo em que tantas vozes artificializadas disputam diariamente a nossa atenção.

Vivemos cercados por telas, notificações e estímulos constantes. Já existem estudos mostrando que esse excesso tem reduzido a nossa capacidade de concentração, de reflexão e até da criatividade.

Um livro impresso continua a nos oferecer algo cada vez mais raro: silêncio, tempo, autoescuta e reflexão. Mas, sobretudo, continua a nos lembrar da importância de exercitar aquilo que faz de nós essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar, de imaginar, de viajar. E, diferente das máquinas, fazemos isso enquanto lemos.

Esse convite específico me fez perceber que ler um romance e falar sobre ele num lançamento são experiências muito diferentes.

Ler é um encontro íntimo e silencioso entre o livro e o leitor.

Hoje, esse silêncio ganha voz.

Antes de entrar propriamente no romance, gostaria de compartilhar com vocês o lugar de onde falo hoje.

Ao receber o convite para ler este romance antes da publicação e depois, apresentar minhas impressões no dia do lançamento, minha primeira reação foi de surpresa.

Nunca havia participado de uma apresentação de livro como oradora convidada. Isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e consciente da responsabilidade que estava assumindo. Por isso, diante do público, para eu não ter aquele momento de mudez ou daquela tosse, que na verdade é um misto de vergonha e ansiedade, preferi trazer minhas anotações.

Gosto de acreditar que cada romance encontra novos sentidos quando é lido por pessoas diferentes. Um livro deixa de pertencer apenas ao autor quando chega às mãos dos leitores, e cada leitura lhe acrescenta uma nova camada de significado, muitas vezes até diferente daquela que o próprio autor pensou. E o texto vai ganhando outras dimensões.

 O olhar que compartilho hoje é apenas um dos muitos possíveis.

Falo como leitora, mas também a partir de uma circunstância muito particular.

Sou brasileira, paulistana, isto é, nascida em São Paulo – capital, não no interior, como, por exemplo, Santa Rita do Passa Quatro, onde, se nascesse, seria paulista. Se esse livro fosse lançado no Brasil, essa informação seria um motivo de bairrismo. Mas, é apenas uma informação para situar o espaço. Vivo atualmente em Portugal.

De certa forma, essa condição acabou me aproximando do protagonista, Abel, que também realiza uma travessia, embora em sentido inverso ao meu.

Ao acompanhar a sua viagem para o Brasil, procurei não buscar semelhanças nem diferenças entre os dois países. Preferi deixar-me conduzir pelas idiossincrasias que o romance vai revelando: esses pequenos gestos, modos de falar, de sentir, de relembrar e de viver que constroem a identidade de um povo e, ao mesmo tempo, tornam cada personagem única.

Ao longo da leitura, também fui observando como uma mesma língua pode aproximar dois países e, ao mesmo tempo, nos surpreender pelos diferentes sentidos que uma palavra pode assumir de um lado e do outro do Atlântico.

Foi essa travessia, feita por meio da linguagem, da memória e das personagens, que procurei acompanhar o protagonista e suas peripécias ao longo da leitura. Fui tentando perceber como Abel transporta com ele a sua memória, a sua língua, os seus afetos e a sua identidade quando atravessa um oceano e vai viver em outro continente. E fiz essa leitura refletir sobre a minha própria experiência enquanto imigrante.

Então, é desse lugar, ao mesmo tempo próximo e distante, que convido vocês a percorrer comigo algumas páginas deste romance.

Não como crítica literária, porque não sou, nem como especialista, mas simplesmente como uma leitora que teve o privilégio de caminhar por estas páginas antes que elas encontrassem vocês, seus futuros leitores.

Imaginei encontrar um romance que me conduziria pela história. Descobri, porém, que antes da história havia uma língua inteira à minha espera a ser atravessada. Foi logo de cara que percebi: preciso de um companheiro para fazer comigo essa viagem – o dicionário.

Há romances que não se deixam atravessar à pressa; devemos percorrê-los num barco a vapor ou num rabão à vela.

Este romance não se deixou ler rapidamente. Comparo essa leitura, com a chegada numa cidade do Brasil por onde nunca houvesse passado antes. Porque no Brasil é assim: até mesmo para nós que lá nascemos, muitas vezes desconhecemos o modo de falar de uma cidade que fica ao lado ou a cinco mil quilômetros. 

Chegando lá, compreendemos o geral, mas não os pormenores. E essa leitura trouxe a sensação de estar diante de uma grande diversidade de paisagens, cores e linguagens, onde o pormenor ficaria encoberto, se eu não decifrasse os regionalismos, os termos tão interessantes escolhidos por António.

Um dos aspectos que mais me surpreendeu no texto é o fato de o António usar períodos longos, sem cansar, às vezes, numa cadência quase oral e, em alguns momentos, pensei que ele usava os regionalismos semelhantes ao modo que Guimarães Rosa faz em "Grande Sertão Veredas".

A minha travessia foi assim: enquanto Abel conhecia os sabores do Brasil, eu viajava pela cozinha portuguesa.

Enquanto Abel se espantava com a paisagem exótica do Brasil, eu me encantava com a simplicidade e dureza da vida rural em Portugal.

Enquanto Abel aprendia o sotaque de se abrasileirar, como disse o autor, eu mergulhava no dicionário e viajava pela língua portuguesa.

Não porque a leitura fosse inacessível, mas porque o autor recupera um património linguístico extraordinário, fazendo-nos descobrir palavras que, muitas vezes, já desapareceram do nosso uso quotidiano. E palavras que eu realmente nunca tinha ouvido, mesmo morando aqui há quase 10 anos, mesmo sendo filha desse nosso idiomaterno.

Ao longo da leitura, fui percebendo que, com esse vocabulário, em vez de contornar as palavras desconhecidas, eu precisava entrar nelas.

Isto surpreendeu-me: a quantidade de verbetes escolhidos pelo autor que, sozinhos, dão origem a outro livro. No meu manuscrito, marquei mais de 250 termos, palavras, passagens em que eu precisei parar, desembarcar, e só depois, continuar a viagem.

Destaco apenas algumas palavras ou frases:

  • Sair pelas portas fronhas   – essa frase eu fiquei encafifada, fronha para mim é outra coisa;
  • Caminhos de pé posto – que achei muito interessante;
  • Dealbar – fiquei encantada com essa palavra.
Esses são exemplos de palavras lindas e, para mim, completamente desconhecidas.

Sobre as personagens? Vou me ater ao Abel e à Eva.

Abel acaba por abraçar o sonho de ficar rico ou melhorar de vida, por meio do seu trabalho, mas abraça, especificamente, o sonho do seu pai e é levado por ele, ainda muito menino, ao Brasil para assumir funções de homem.

Abel e Eva escondem a sua verdadeira paixão, a ambição. Mas essencialmente, a luta contra a miséria.

Sobre a personalidade de cada um, conforme vocês vão lendo a história, poderão refletir se Abel representa o homem do século passado, mas que tem nele, uma espécie de mofo que ainda está impregnado nas sociedades até hoje. 

Conforme a narrativa cresce, as personagens mostram a sua verdadeira cara. Eu gostei muito do Abel, mas, no fundo, eu tenho grande compaixão pela Eva e pelo que ela representa, por isso escolhi essas duas passagens sobre as mulheres desse romance, me perdoem os ouvintes, mas vou ser breve:

(...) "A repenicada moça do Porto não era propriamente uma daquelas carquejeiras de mãos encortiçadas, que durante anos e anos subiam 
ajoujadas sob feixes de carqueja e queiró de três a quatro arrobas, a Calçada da Corticeira, para alimento dos fornos das padarias da parte alta da cidade. Eva tinha um estatuto social mais elevado do que o dessas mulheres calçadas de socos e pele tisnada a subir a ziguezaguear o calvário de duzentos metros que pareciam nunca mais acabar. Mais do que um calvário (que me perdoem os cristãos mais sensíveis) os itinerários que estas mulheres (algumas com pouco mais de dez anos) faziam até à lonjura de Paranhos e Carvalhido, eram autênticas vias sacra."! (...)


Ou essa:

(...) "Enquanto passava ligeira e empertigada, com estes sinais distintivos, envaidecida pela concupiscência dos olhares masculinos, as outras, atarracadas sob o peso dos desmedidos feixes, mostravam-se alquebradas, na postura como na mente, como se aquela tarefa ciclópica durante seis dias da semana, encosta acima, debaixo de carregos maiores que o corpo, em passada lenta, retornando encosta abaixo, de vazio, a pé ligeiro, as tivesse marcado, na pele e na alma, de modo irreversível." (...)

O romance transporta-nos para o espaço descrito, a paisagem é magnífica, tanto de Portugal como do Brasil. Com muitos detalhes que tornam o texto belíssimo. O autor vai contando causos, resgatando fatos históricos e momentos culturais fantásticos. A paisagem, com isso, participa da história.

O tempo que o autor usa, do meu ponto de vista, apesar de parecer linear, é não linear, é simbólico. É uma história contada em camadas, símbolos e memórias. E os detalhes dessas memórias são de uma delicadeza poucas vezes encontrada.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser um romance histórico, para além da própria história contida, que se estende por mais de 30 anos. Nela, o tempo cronológico se mistura ao tempo social, psicológico e simbólico, como nessa passagem:

(...) "Por uma alta torre dotada de sinos que se ouvissem no vale mais profundo da freguesia e relógio de grandes algarismos e ponteiros que se divisassem ao longe. Todos os presentes convergiam quanto à prioridade da torre da igreja, que marcaria as horas dos trabalhos nos campos, dos momentos fulcrais dos actos litúrgicos, dos baptismos, comunhões e casamentos, e as desoras dos que morriam." (...)

Entre os símbolos, quero destacar a água que é um símbolo de travessia. A água faz parte da vida de Abel, no Rio Douro, nas travessias pelo mar, e em outras situações que o envolvem, a água aparece como um sinal de vida, de esperança e de tragédia.

Há muitos símbolos e metáforas religiosas, mas só nessa parte, eu gastaria mais de uma hora a falar e o objetivo é o silêncio da leitura.

Entre os temas que aparecem — e são muitos —, vou destacar apenas dois que estão muito na moda. A imigração e as classes sociais, muito bem retratadas no texto, ao pormenor, e um que é o mais importante do meu ponto de vista, a linguagem, como nestas passagens:

(...) "Eram os melhores ideólogos por esses dias o padre, o presidente da junta, o regedor, o professor e os que calçavam sapatos à semana. " (...) 

(...) "Os sapatos que o seu pai encomendara, para esta viagem, a um sapateiro de Emendadas, sobravam-lhe igualmente nos pés, mas assim deveria ser para lhe dar para mais anos." (...)

Essas são passagens sobre sapatos; me remetem à infância e aos causos contados em casa pela minha mãe. “Nas fazendas, havia uma criança que ia à escola com um pé do calçado até gastar; depois, usava o outro”.

Há uma passagem que o autor relata sobre a língua portuguesa abrasileirada e isso é um dos destaques que eu também quis trazer:

(...) "Assim, sempre que confrontado com gente graúda, evidenciava, no modo como temperava as palavras e insistia no uso do gerúndio, o contributo que recebera de catorze anos passados numa fazenda de café, a abraseileirar-se." (...)

O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e,  pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América. Como não sou linguista de formação, como boa brasileira, achei curioso recordar que o gerúndio, tantas vezes apontado como uma marca do português do Brasil, não nasceu no Brasil.

 Trata-se de uma construção antiga da própria língua portuguesa, preservada entre nós brasileiros, enquanto Portugal foi seguindo outro caminho. Foi uma mudança gradual na fala portuguesa, mas foi o Brasil que manteve a originalidade da língua levada para lá.

E, entrando nos finalmentes, o que ficou em mim talvez seja o mais importante.

Para mim, este romance não fala apenas das travessias entre Portugal e o Brasil, entre o Atlântico e o Douro. Fala também das travessias humanas: entre a pobreza e a esperança, entre o preconceito e a dignidade, entre as escolhas que transformam uma vida e aquelas que acabam por cristalizar destinos.

Quando fechei o livro, algumas personagens permaneceram comigo. Eva, sem dúvida. Mas a personagem que mais me acompanha é Chiquinha. Talvez porque ela traga uma leveza inesperada para uma realidade tão dura. Sua presença parece lembrar que, mesmo nos períodos mais difíceis da nossa história, a humanidade nunca deixou de encontrar espaços de afeto, generosidade e esperança.

Ao acompanhar essa personagem, fui pensando que olhar para a história não significa apenas procurar culpados ou inocentes. Significa, antes de tudo, reconhecer que ela foi feita por seres humanos, com as suas grandezas e as suas misérias. 

Só quando temos coragem de reconhecer também as partes menos nobres da nossa história é que podemos construir uma sociedade mais justa, mais consciente e mais humana. É isso que o livro traz.

Há uma imagem que continua a regressar à minha memória: a chegada de Abel pela Serra do Mar. Enquanto lia essa passagem, revi-me adolescente, fazendo aquele mesmo percurso de trem em direção a Santos, num fim de semana. O trem pendurado pelos cabos, passando sobre o abismo, onde só se ouvia o barulho do trem. Foi um daqueles momentos em que a literatura nos devolve aos tempos da nossa própria vida.

E talvez tenha sido essa a maior transformação que esta leitura provocou em mim. Descobri que, neste romance, cada palavra carregava algo para além do seu significado imediato. Cada escolha do autor guardava uma memória, um símbolo, uma intenção. Muitas vezes eu me perguntava: Por que esta palavra e não outra? E, quando ia procurar o seu significado, descobria que havia muito mais por trás dela do que imaginava e ficava encantada.

O meu diálogo com este romance nunca foi uma análise nem uma crítica. Foi uma conversa, uma experiência.

Este livro levou-me de volta ao Brasil, à minha infância, ao colchão de palha, às quaresmeiras, ao Manacá-da-serra, à Serra do Mar, às viagens de trem para Santos, não ao Porto, à Praia Grande. A galinha com farofa. O sanduíche de pão Pullman com queijo e presunto. O ‘Guaraná’ sem gelo. Os farofeiros. Nome dado aos pobres que frequentavam as praias, mas não tinham dinheiro para almoçar ou lanchar nos restaurantes. 

É para isso que servem as histórias: para nos fazer encontrar, nas vidas dos outros, pedaços da nossa própria vida.

Por isso, termino dizendo que há romances que não se deixam atravessar com pressa. É preciso caminhar ronceiramente dentro deles. E foi exatamente essa a experiência que este romance me proporcionou.


António Carvalho: integra a Tabanca Grande
 desde 13/9/2008, e tem cerca de uma centena
 de referências no nosso blogue




Não posso revelar mais do que o próprio livro vai oferecer ao longo das suas páginas. Posso apenas dizer que esta leitura foi, para mim, uma verdadeira travessia pela memória e pela condição humana e principalmente, pela riqueza da nossa língua portuguesa, nosso tão amado idiomaterno.

Tenho certeza de que cada leitor encontrará também o seu próprio caminho dentro desta narrativa. Descobrirá as suas personagens preferidas, as palavras que mais o tocarão e fará, à sua maneira, 
 a sua própria travessia.

Parabéns ao António por esta obra e muito obrigada a todos pela atenção.

Obrigada, Angélica Lima.

Apoio estratégico para projetos acadêmicos e literários
Escritora|Ghostwriter|Ilustrações
Especialista em artigos, teses, dissertações e livros.
Ilustrações |  Palavras  | Sonhos (...)
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(Revisão / fixação de texto: LG)

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Guiné 61/74 - P28176: Notas de leitura (1936): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): dois continentes, dois destinos (Luís Graça)


Foto nº 1


Foto nº 2

 

Foto nº 3


Foto nº 4


Foto nº 5

Gondomar > Medas > Fundação Hermínia Rei Vilar > 11 de julho de 2026 > 15h00 > Sessão de apresentação do livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", editado pela eVida, chancela do jornal Vida Económica. O romance tem 287 pp.


1. Com a devida vénia, reproduzimos estas fotos (sem legenda, numeradas por nós, na nº 1 o autor e a esposa Maria de Fátima) e este apontamento da sessão de lançamento do livro do António Carvalho. Fonte: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00):


Uma tarde de encontros, partilha e celebração da literatura.

A apresentação de “3x44 – Abel e Caim em Contrapé”, a mais recente obra de António Carvalho, reuniu familiares, amigos, leitores e convidados num momento marcado pela emoção, pelas memórias e pelo prazer de partilhar histórias.

O nosso agradecimento a todos os que estiveram presentes e contribuíram para o sucesso desta sessão, bem como ao Grupo Vida Económica, através da sua chancela eVida, pelo apoio e pela aposta na divulgação da literatura portuguesa.

Que este livro siga agora o seu percurso, encontrando novos leitores e inspirando novas reflexões.

Obrigado por fazerem parte deste momento especial.



2. Texto que mandei ao António para ser lido na sessão de apresentação do seu romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: eVida, 2026), que se realizou ontem, à tarde, na quinta da Fundação Hermínia Vilar Rodrigues, em Medas, Gondomar.

António, começo por saudar-te, a ti, que és o artista principal desta sessão literária, o motivo afinal por que estamos aqui.

E saudar todos os demais presentes, a começar pelos donos da casa, a Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, a par da coapresentadora, a doutora Angélica Lima, e do Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade, a NOVA de Lisboa, que se voluntariou
para me emprestar a sua voz (e a quem fico, desde já, muito
reconhecido, não podendo eu estar, aqui, fisicamente presente por razões imperiosas).

António (e amável audiência): eu, por mim, dava uma.. "aula de hora e meia" para falar deste teu segundo livro... Que li de fio a pavio, em formato digital, na esplanada da praia, tentando fugir da canícula que nos castiga por estes dias.

Li o teu livro, deliciado, e suspenso do final, empolgante e genial. E, todavia, não é um "thriller".

Não, não quero nem posso abusar da paciência dos teus convidados e teus futuros leitores. Tenho sempre presente a tripla obrigação do apresentador de um livro:

(i) dar a conhecer o autor/produtor e o livro/produto;

(ii) suscitar curiosidade, interesse, empatia no leitor, através de uma sinopse do livro;

(iii) levá-lo, por fim a comprar o livro, a lê-lo, a discuti-lo, a promovê-lo, a partilhá-lo com outros...

Como mandam as boas regras do marketing (nas áreas do social e do cultural), tenho de ser claro, conciso, preciso e... entusiástico.

Vou-te apresentar o livro, não como "académico", mas como amigo, ex-camarada de armas e até confidente (tive o privilégio de acompanhar um pouco, à distância, o "making of" do teu livro...). E, não preciso de to lembrar, fiz-te a apresentação do teu primeiro livro, "Um caminho de quatro passos", em 2021, em Fânzeres, na Tabanca dos Melros...

Deixem-me então desenvolver três ou quatro ideias sobre o autor e o seu livro, que cruza dois continentes e dois destinos. Há um primeiro leitor, português, que sou eu, e uma segunda leitora, brasileira, que é a Angélica Lima. Julgo que fomos os primeiros a ter o privilégio de ler o manuscrito do livro em primeira mão.

Trata-se, pois, de um exercício a quatro mãos, que todavia não foi ensaiado, nem sequer à distância.

O romance "3 x 44 – Abel e Caim em Contrapé" conta a história de um homem comum, transformado pelas grandes migrações e pelas circunstâncias do seu tempo.

Abel, natural de Emendadas, é enviado ainda criança, em 1909, para uma fazenda de café no interior do Estado de São Paulo, onde cresce, trabalha, apaixona-se pela primeira vez por uma mulher, ao mesmo tempo que se deixa tocar e marcar profundamente pelo Brasil.

É aí que surge Chiquinha, uma jovem afro-descendente, determinada, inteligente e independente. O amor entre ambos nasce naturalmente, mas a vida (e as opções de vida de cada um) acaba por separá-los.

Quinze anos depois, Abel regressa a Portugal, em 1924, convencido de que um dia voltará ao Brasil. Nunca mais voltará.

Tema exaustivamente glosado na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX, é um "brasileiro de torna-viagem" que não já não é inteiramente português nem inteiramente brasileiro, é um homem em contrapé, com duas identidades em conflito.

A Chiquinha, essa, permanecerá na sua terra, fiel ao seu próprio projeto de vida. Contudo, apesar da distância e dos muitos anos de separação, continua a habitar a memória mais íntima de Abel, sobretudo nos momentos decisivos e dramáticos da sua existência.

De regresso à aldeia, Abel torna-se um próspero negociante de madeira, lenha e carvão, recursos então escassos e muito procurados. Estamos em plena II Guerra Mundial e no auge do Estado Novo.

O protagonista desta história casa, enviúva, cria os dois filhos pequenos e procura reconstruir a sua vida conjugal e familiar.

Mas o sucesso desperta invejas. É então que ganha relevo a figura de Caim, vizinho consumido pelo ressentimento, cuja hostilidade cresce sem causa proporcional aos gestos de generosidade que Abel lhe dispensara.

O contraste entre os dois homens vai-se adensando até desembocar numa tragédia anunciada logo desde as primeiras páginas.

O verdadeiro protagonista é, contudo, Abel. O autor afirma- o expressamente na Introdução. Chiquinha não é apenas a figura feminina da história. É o grande amor da juventude, a memória permanente que acompanha Abel até ao fim da vida, embora os dois nunca mais se reencontrem.

Chiquinha simboliza também a resistência, a educação como arma e a libertação dos oprimidos. Depois de aprender a ler, na fazenda, com Abel, torna-se professora e ajuda os outros a libertarem-se das trevas da ignorância e das grilhetas da opressão.

Caim é importante, mas sobretudo como contraponto moral e dramático. Representa a inveja, o ressentimento e a violência que acabarão por conduzir à morte de ambos.

Não conto o desfecho: comprem e leiam o livro.

Mais do que um romance de ação, esta é uma grande narrativa sobre a emigração portuguesa para o Brasil, a vida rural durante o Estado Novo, os efeitos da Segunda Guerra Mundial na economia portuguesa, a figura do brasileiro torna-viagem, os afetos, a memória e a condição humana.

O título remete para o episódio bíblico de Abel e Caim, mas António Carvalho evita a armadilha das simplificações morais: as suas personagens não são arquétipos, são profundamente humanas, moldadas tanto pelas suas escolhas como pelas circunstâncias da História.

O resultado é uma saga familiar e social em que o amor, a ambição, a inveja, a liberdade e o destino caminham constantemente... em contrapé.

Lógica e cronologicamente, podíamos dividir esta saga em três atos:
 
Ato I - A partida de Abel para o Brasil e a sua formação
(1909–1924);

Ato II - O regresso (contrariado) a Emendadas e a vida em Portugal (1924–1944);

Ato III - Chiquinha, a heroína do Brasil (1924– 1980 +) e o "ajuste de contas no além";.

O(s) diálogo(s) dos mortos no cemitério (Ato III) é(são) momento(s) de realismo mágico que eleva o romance a um patamar filosófico e universal.

"3x44! pode parecer um título cabalístico. Caberá ao autor (ou ao leitor) descodificá-lo. Não vou roubar esse prazer a ninguém. Direi apenas que é o jogo dos números e dos destinos que se cruzam e descruzam.

Abel e Caim são como dois lados da mesma moeda:

  • Abel, o sonhador que falha (regressa a Portugal sem fortuna, morre traído);
  • Caim o invejoso que se destrói (suicida-se, condenado pela sociedade);
  • E há ainda a terceira personagem, forte, poderosa, feminina, a Chiquinha: a sobrevivente que vence (liberta-se das grilhetas, dos preconceitos, das ameaças, ensina, educa, transforma o mundo à sua volta).
Chiquinha, a filha de uma ex-escravizada, Abel ensina-a a ler, é a sua primeira aluna e o seu primeiro grande (e único) amor. A relação entre eles é pura, platónica e transformadora: ele abre-lhe as portas do conhecimento; ela abre-lhe os olhos para a injustiça social (quilombos, escravidão, segregação social e racial).

Recorde-se que a abolição da escravatura no Brasil "de jure" mas não "de facto" é tardia: 1888 (Lei Áurea).

O António não inventa um mundo. Parte de uma velha história que ouviu contar em criança, na sua terra. Quiçá assustado, ou até aterrorizado.

Como acontece tantas vezes na literatura, um "fait-divers" quase esquecido transforma-se em romance. É isso que faz a boa literatura: salva do esquecimento aquilo que parecia perdido no sótão da memória coletiva.

Não é um  "thriller"muito menos um romance policial. É verdade que existe um crime. Mas o assassínio de Abel é apenas o motor da narrativa. Caim teria que ser logo o suspeito, como na história bíblica, e onde, de resto, não falta uma Eva, nada e criada nas "ilhas" do Porto.

O verdadeiro protagonista é outro. É coletivo. É uma comunidade. É Medas. É o Douro e sua faina fluvial. É a emigração para o Brasil. É o Estado Novo. É a vida rural. É a dureza do trabalho. São as carquejeiras. É o mundo dos "brasileiros de torna-viagem" É uma civilização inteira que desapareceu.

António Carvalho escreve contra a "vala comum do esquecimento". E esse é um traço comum entre mim e o António. Tenho defendido e reafirmado, há mais de 20 anos a esta parte, no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" o nosso direito e dever de memória como antigos
combatentes. Procuramos preservar vidas, pessoas, lugares, geografias emocionais, episódios de tropa e de guerra etc., que a História com H grande quase sempre deixa para trás.

Só que agora a memória, que é matéria-prima do António, já não é apenas autobiográfica. É coletiva. É quase etnográfica. É uma homenagem aos homens e mulheres anónimos que fizeram aquele mundo.

O António é, antes de tudo, um contador de histórias. Não pertence à escola da escrita minimalista. Escreve com gosto. Demora-se. Delonga-se. Descreve. Deixa um parágrafo inteiro ocupar o espaço de uma página. Deixa a ação espraiar como as águas do seu Douro. Ouve-se a oralidade da conversa a fluir junto ao lume, com as panelas de ferro de três pés.

Essa oralidade é uma marca muito própria. Que já vem do primeiro livro, Não deve ser confundida com excesso. Não é defeito, é uma opção estética. É uma forma de preservar a maneira de falar e de contar do mundo rural onde tem ele tem raízes telúricas, genéticas, socioecológicas, culturais.

Há escritores que inventam lugares imaginários. António Carvalho fez o contrário. Pegou numa pequena freguesia do concelho de Gondomar, a sua terra natal, e mostrou que nela cabem todos os grandes temas da literatura de todos os tempos: a infância, a emigração, o amor, a inveja, a ambição, a morte, a memória, o destino. Mas também a
liberdade e a dignidade do ser humano.

Quem ler "3x44 Abel e Caim em Contrapé" não encontrará apenas um crime por deslindar. Encontrará um país que já não existe, mas que continua vivo enquanto houver quem o saiba contar ou recriar.

Nesse aspeto, lembrou-me, guardadas todas as distâncias, alguns dos nomes grandes da literatura portuguesa dos últimos dois séculos, do romantismo de meados do séc. XIX ao neorrealismo de meados do séc. XX: Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Eça de Queiroz, Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro, Alves Redol, etc.

Em todos eles, está presente a figura do emigrante, e nomeadamente o "brasileiro de torna-viagem", o drama da emigração, o retorno, a crise de identidade...

Creio que a grande força deste romance não reside apenas na história que conta, mas sobretudo na forma como a conta.

Antes de mais, trata-se de uma verdadeira saga. A vida de Abel atravessa dois continentes, o Velho e o Novo Mundo, Portugal e o Brasil, e quase meio século de História.

A narrativa acompanha o percurso de um homem vulgar, sem nunca o transformar num herói que, segundo a mitologia grega, é sempre mais do que um homem, e menos que um deus. É precisamente essa condição de homem comum que o torna tão próximo de nós, leitores.

Um segundo aspeto que merece destaque, é a extraordinária reconstituição histórica e social.

O autor não fala como sociólogo, antropólogo, psicólogo ou historiador,  revela, isso sim, uma grande sensibilidade sociocultural e um conhecimento profundo, empírico, do mundo rural português da primeira metade do século XX: os trabalhos agrícolas, a navegação no Douro, o comércio das lenhas e do carvão, a emigração para o Brasil, as formas de falar, de trabalhar, de namorar, de casar, de negociar, de
rezar e até de morrer.

Nada disto aparece como simples "décor" ou cenário: faz parte da própria respiração da narrativa. E é aí que ele se sente nas suas sete quintas e mostra o seu talento literário.

Ao mesmo tempo, o romance mostra como a História interfere silenciosamente na vida de todos nós. A Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, o racionamento, as restrições económicas, as viagens transatlânticas, os ciclos económicos, os mecanismos de controlo do regime ( da censura à polícia política), etc., surgem sempre através das consequências concretas que produzem no quotidiano das personagens. Mais: com o autor evitar ou recusar cair no
fácil registo panfletário.

Outro elemento particularmente conseguido é a construção psicológica das personagens.

Abel é um homem empreendedor, trabalhador e generoso, mas também vulnerável, emocionalmente frágil, preso às recordações, às perdas e aos arrependimentos.

Chiquinha representa, por seu turno, muito mais do que um amor de adolescência e juventude: é uma presença permanente na memória de Abel, quase um ideal de vida que o persegue até à morte. E até depois da morte. O diálogo "post mortem" com a Chiquinha é outra página de
antologia.

Já Caim não é apenas o "mau da fita". É uma personagem dominada pela inveja, pela pobreza, pelo ressentimento e pelas frustrações acumuladas, mostrando como sentimentos aparentemente pequenos podem crescer até adquirirem a força devastadora de um vulcão assassino.

Gostei também da utilização discreta, mas muito eficaz, do simbolismo bíblico. Os nomes Abel e Caim remetem inevitavelmente para o primeiro fratricídio da nossa tradição judaico-cristã.

Contudo, António Carvalho não tem a veleidade de reescrever esse episódio da Bíblia (quase fundacional da moral judaico-cristã). Serve-se desses nomes (a que há a acrescentar a Eva) para propor uma reflexão sobre a natureza humana, mostrando que o bem e o mal não
aparecem em estado puro, nem são o verso e o reverso da mesma medalha, mas estão misturados nas circunstâncias, nas escolhas e nos acasos da vida, enquanto jogo de luz e sombra.

Merece igualmente destaque a linguagem e o estilo literário. O autor escreve num português rico, elegante e profundamente expressivo, com uso da metáfora e outros recursos estilísticos, recuperando um património lexical rural que hoje quase desapareceu, ou ainda não foi grafado pelos nossos lexicógrafos.

Muitas páginas têm um evidente sabor etnográfico, sem perderem fluidez narrativa. Sente-se que há um enorme trabalho de investigação, mas nunca se tem a impressão de estar a ler um pachorrento tratado histórico. O conhecimento está completamente integrado na ficção.

E que dizer do ritmo narrativo ? O romance alterna momentos de descrição demorada, quase contemplativa, com episódios de grande intensidade dramática. Essa alternância permite ao leitor respirar, conhecer melhor as personagens e compreender o mundo em que vivem antes de ser confrontado com os acontecimentos decisivos.

Sem querer nem poder ser exaustivo, direi que este livro tem também o mérito de nos deixar uma ideia simples, mas profundamente humana: cada vida resulta de uma mistura de vontade própria, circunstâncias, encontros, desencontros e acaso(s). Ninguém constrói sozinho o seu destino. Todos somos, ao mesmo tempo, atores e personagens da nossa própria história. Nós e a nossa circunstância.

É um romance que eu li, antes de mais, pelo prazer da narrativa. E que vou reler, agora em papel e de lápis na mão. E esse é seguramente um dos melhores elogios que se pode fazer a um jovem autor de 76 anos: o seu segundo livro, afinal o seu primeiro romance, permanece connosco depois da última página, porque nos leva a pensar na memória, no tempo, na emigração, no amor, na inveja e na fragilidade da condição humana e na sempre inacabada luta pela liberdade e felicidade.

Quero terminar com uma breve nota. Este romance começa no Brasil, passa pelo Brasil e regressa ao Brasil através da memória. E do Brasil falará, muito melhor do que eu,  a Angélica Lima a quem vou passar a palavra. Mas as suas raízes mergulham profundamente nesta margem do Atlântico, e do rio Douro. O autor não idealiza, nem um, Portugal onde nasceu, nem outro, o Brasil onde o Abel poderia ter sido livre e feliz.

Há um Portugal inteiro dentro destas páginas:
  • o Douro dos barcos, das marés e das inundações;
  •  a aldeia de Emendadas, com os seus lavradores (cuja riqueza se mede pelo número de juntas de bois, carros de milho, sacas de batata e pipas de vinho), com os seus jornaleiros, cabaneiros, mineiros, carquejeiras, barqueiros;
  • a cidade do Porto, a cidade grande, e o porto de Leixões, cais de partidas e regressos, ou seja, fábrica de histórias;
  • o Estado Novo, sentido não através dos discursos oficiais, mas através da vida concreta das pessoas.
É esse Portugal popular que António Carvalho recria com uma impressionante riqueza de pormenores e grande talento literário. O leitor não encontra apenas personagens: encontra modos de viver, de trabalhar, de falar, de amar e de sofrer que pertencem à memória coletiva de várias gerações.

É sobretudo esse registo que me toca mais, tanto mais que não conheço o Brasil. Ao longo da leitura (penosa, porque quase sempre feita através do pequeno ecrã do telemóvel à beira-mar), tive todavia a sensação de não estar apenas perante um romance, mas perante um vasto fresco humano, onde a ficção e a memória histórica caminham lado a lado.

Gostaria, por isso, de terminar lendo um pequeno excerto situado precisamente neste universo português, onde se percebe bem a qualidade da escrita do autor e a extraordinária capacidade de recriar uma época e um mundo que já desapareceram, mas que continuam vivos graças à literatura. E nada melhor para o ler do que através a voz de um homem do teatro:

(...) Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial.

Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego,
passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

- Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro. (...)

Lourinhã e Alfragide, 9 de julho de 2026, Luís Graça

Guiné 61/74 - P28175: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (69): Ainda o Gabu, e a controvérsia do depósito de água de antigamente de que "ninguém" se lembra...


Foto nº 1 > Uma casa tipicamente colonial, das diversas que existem ainda na cidade de Gabu. Comércio em baixo...residência em cima


Foto nº 2 > Furo de Dubala Gabu na estrada para Sonaco


Foto nº 3 > Deposito metálico de 1986, 30m cúbicos


Foto nº 4 > Depósito de água, em betão (com reservatório met+alico), construído ainda no tempo colomial, segundo os elementos do concurso (*)

Guiné-Bissau > Zona Leste > Região de Gabu > Gabu > Julho de 2026 >  Passado, presente e futuro


Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


1. Mais fotos do Gabu (**), enviadas pelo Patricio Ribeiro, quando lá esteve uns dias entre junho e julho, acompanhando trabalhos em curso da empresa Impar Lda, de que foi fundador e diretor.


Data - domingo, 05/07/2026, 10_42
Assunto - Gabu

(i) A cidade de Gabu cresceu muito. Muitas ruas, muitas casas muitas crianças. Quase todas as famílias tem familiares a trabalhar nas obras em Portugal (Vd. foto nº1: Uma casa tipicamente colonial, das diversas que existem ainda na cidade de Gabu. Comércio em baixo...residência em cima).

(ii) De acordo com os elementos do concurso, o deposito de betão, (fotos enviadas anteriormente) foi contruído no tempo colonial (foto nº 4)

Afinal, a menina do IA não sabe tudo ... ou, nós os velhos, andámos a esconder coisas à menina.

Mantenhas

Patrício Ribeiro

Impar Lda

2. Comentário do editor LG:

Paatrício, estamos quase peritos em sistemas... fotovoltaicos. E tu já és o "irã grande que faz o milagre da luz, da energia, da água, da vida"... Boa saúde, bom trabalho para ti, os teus, o pessoal da empresa...

Quanto à foto nº 4: dizes tu que a menina IA está enganada...Que o depósito (pintado a vermelho escuro) já vem do "antigamente", do tempo dos "tugas"...

A malta que passou por Nova Lamego tinha a obrigação de se lembrar... Uma vila com a importância de Nova  Lamego, sede de concelho e de batalhão, com casas de comércio e restauração, cinema, escola, CTT,  gasolineira, novas zonas residenciais, etc, tinha que ter um bom depósito de água, como parte integrante do sistema de armazenamento e distribuição... Ciomo tinha Bissau (Bandim), Bambadinca, Bafatá, Teixeira Pinto, etc.

Mas o Virgílio Teixeira,  da CCS / BCAÇ 1933 (que andou por lá em 1968/69),  não se lembra de nada... E é ele que tem algumas das melhores fotos da antiga Nova Lamego...

Eu achava que esta estrutura podia ser do tempo do governador Sarmento Rodrigues (abril 1945-janeiro 1949)... Mas não, pelo menos parece qie não consta da lista das obras públicas realizadas no seu tempo, na área do abastecdimento e distribuição de água...

As duas ferramentas de IA que consultei defendem que  esta tipologia (o depósito como ose apresenta hoje, vd. foto nº 4) não era  típica das obras públicas portuguesas dos anos 50 e 60.

(...) "Pelo contrário, lembra muito os depósitos construídos em inúmeros países africanos a partir dos anos 80, no âmbito de programas de abastecimento de água financiados pelo Banco Mundial, UNICEF, Cooperação Francesa, União Europeia, etc. O reservatório metálico sobre torre de betão foi uma solução extremamente difundida porque era mais económica e facilmente substituível.

"Há, contudo, uma nuance importante: a fotografia não prova que toda a estrutura seja pós-colonial. " (...) (Fonte: ChatGPT/ Open AI).

Teremos que investigar melhor... E ver em detalhe as fotos (incluindo aéreas)  que temos de Nova Lamego de antes da independência. Até lá, um alfabravo.

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28125: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (65): Cidade do Gabu, o "milagre da água"

(**) Último poste da série _: 7 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28162: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (68): Gabu, "luz & sombra"...Entre a modernidade e o deserto...