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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A laboriosa pesquisa feita por este investigador norte-americano introduz um olhar diferente sobre o papel do continente africano na história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial. O que Howard French procura consolidar como historicamente demonstrado, mas praticamente ausente ou até mesmo minimizado, é o papel fulcral desempenhado pela mão de obra escravizada nas plantações de açúcar de São Tomé, do Brasil, de toda a agricultura de plantação das Caraíbas e dos estados sulistas do que virá a ser os EUA, pois foi esta mão de obra escravizada que serviu de alavanca para a ascensão económica da Europa, para o seu desenvolvimento político, naturalmente uma trajetória que se inicia com os países ibéricos e que chegará à Revolução Haitiana e pelo adiante à evolução do conceito de Direitos Humanos e às modificações drásticas que tinham sido impostas pelos preconceitos raciais. É um convite para que os historiadores globais revejam as abastadas civilizações da África medieval e como o comércio negreiro configurou o papel do negro na História. Por isso vale a pena continuar a ler este livro com elementar cuidado.

Um abraço
do Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 3

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

Chegou o momento de o autor abordar frontalmente a essência da escravatura. Primeiro, sempre houve escravatura, há testemunhos delas em todas as civilizações. A escravatura que vai partir de África, nomeadamente do século XVI em diante é nela que assentam as raízes do racismo moderno. Mas que escravatura havia em África, antes da chegada dos portugueses e de outros povos? O autor responde:
“A escravatura nesta parte de África (como noutras regiões subsarianas do continente) eram a prática antiga, embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar, de mãos dadas com o florescimento do imperialismo ocidental. Para os acãs (importante grupo étnico do Gana e da Costa do Marfim), os escravos eram tradicionalmente adquiridos no decurso de disputas múltiplas, bem como durante as campanhas expansionistas contra grupos externos. Os cativos nestes conflitos eram por vezes expostos a trabalhar na agricultura, na construção de estradas, e até mesmo como soldados, mas, tal como os otomanos, em geral era dada prioridade à sua assimilação na sociedade o mais rapidamente possível.
Os acãs, que controlavam as mais ricas fontes de ouro, tinham recentemente estabelecido laços comerciais lucrativos com os impérios do Sahel ocidental, como o Mali e Songhai, utilizando-os para escoamento dos seus metais preciosos. Vendiam-nos em troca de mercadorias provenientes do Norte de África e até da Europa. O valor na proposta de contacto e a despesa ou incómodo para casa lado, portugueses e acãs, assentava tanto num volume maior como mais regular. Mas até que os cobiçados panos da Índia se tornassem disponíveis, os bens portugueses não eram considerados suficientemente desejáveis para os acãs de modo a justificar o desvio em grande escala da sua própria mão de obra indígena para a produção de ouro.”


Havia manifestamente relutância em vender os seus semelhantes étnicos ou mesmo os prisioneiros de guerra, uma das principais medidas de riqueza e poder nos reinos africanos era o número de súbitos. Ora esta relutância deixou de se verificar com a proliferação do comércio europeu, eles traziam armas e outros bens que eram preciosos para os africanos, tudo conjugado contribuiu para o surgimento de um novo mercado de escravos. Ainda em termos mitigados, os navios portugueses que exploravam o extremo oriental do delta do rio Níger encontraram em 1486 cinco canais serpenteantes que passaram a ser conhecidos por Rios Escravos. Os portugueses chegaram ao Benim e imediatamente reconheceram o grande potencial comercial de um pimento que se tornou largamente apreciado nos mercados da Flandres. Mas nada se igualava aos escravos, e os portugueses ficaram satisfeitos por descobrir uma oferta de escravos com raízes nas guerras do Benim com os povos vizinhos. A cultura do Benim impressionou os portugueses. Os beninenses queriam negociar manilhas de cobre e bronze, a arte beninense ganhou imediatamente fama.

Howard French muda agora para São Tomé, formalmente decretada como uma colónia em 1485, irá ser muito importante na produção de açúcar, também daqui partiram escravos para o Benim, e havia escravos enviados do Congo via São Tomé para o Novo Mundo. Estamos, pois, a assistir à organização de circuitos do tráfico negreiro. O autor dissecará em profundidade a importância da plantação esclavagista de São Tomé e como o complexo de plantação deu um salto de São Tomé para as Américas. Teremos depois um histórico sobre Barbados. Outra condicionante histórica relevante que o autor destaca é o nascimento do crioulo, a formação de comunidades crioulas em lugares tão diferentes como Cartagena, Havana, Cidade do México e São Salvador, nestas comunidades era frequente encontrar os escravos a falar pidgins e línguas crioulas fortemente ligadas ao português.

Mudando de assunto, o autor vai observar a competição europeia por África, os grandes conflitos que vão envolver a cobiça e os interesses das grandes potências europeias.

Dirá, a título introdutório:
“A história moderna de África como uma massa terrestre geopoliticamente disputada, cheia de parcelas de território que foram cortadas por forasteiros ávidos, começou formalmente na Alemanha em 1884, num famoso evento conhecido como Conferência de Berlim. Na altura, os europeus mal controlavam 10 por cento do continente, na sua maioria nas extremidades norte e sul. Por volta de 1914, em consequência das decisões tomadas em Berlim, monarcas e outros governantes do Velho Continente dominavam mais de 90 por cento de África. As fronteiras que estes líderes europeus estabeleceram entre si continuam a ser as fronteiras em vigor atualmente na maior parte do continente.
À medida que assumiam o controlo do continente, os europeus quase não tinham em conta a história africana, o legado dos impérios indígenas ou os Estados africanos preexistentes. Ignoraram considerações envolvendo o mosaico de línguas que prevaleciam à medida que eles definiam e depois subdividiam regiões. Prestavam pouca atenção aos padrões de identidade local de longa data, ao comércio local ou mesmo às rivalidades e animosidades étnicas. Nem os próprios africanos foram consultados.”


Vamos seguidamente ver mais pormenores sobre esta corrida a África.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28302: Agenda cultural (902): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império", de Recaredo (Angelino Santos Silva): apresentação do livro,. amanhã, sábado, 29 de agosto, em Paredes (Biblioteca Municipal), e 1 de outubro, quinta feira, no Porto (Unicepe)


Capa


Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império - Vol I, de Recaredo (pseudónimo lietrário de Angelino Santos Silva, ed. autor, Recarei, Paredes, 2026, 455 pp.)


1. O livro vai ser apresentado amanhã, sábado, na Biblioteca Municipal de Paredes, pelas 17h00. E dia 1 de outubro,  quinta feira, na UNICEPE - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, pelas 18h00.



(ii) foi mobilizada pelo CIOE, Lamego, tendo como cmdt o Cap Inf Cmd Alberto Freire de Matos;

(iii)  embarcou em 25mar70, chegou a Bissau em 31mar70 e regressou a 27dez71;

(iv)  é até agora o primeiro e único representante da 26ª CCmds na Tabanca Grande;

(v) é natural de Recarei, Paredes, distrito do Porto




Resumo das Experiências dos Combatentes Portugueses e Africanos 


1. O Início: Patriotismo, Desencanto e Realidade. 

  • Expectativa vs. Choque: 
Os jovens portugueses embarcavam para África "imbuídos de um mesmo amor à Pátria, considerando as suas comissões uma causa justa". No entanto, logo no início da viagem, o desconforto, as más condições nos navios e o choque com a realidade africana geravam desencanto e frustração.
  •  A Chegada:
 Ao chegarem, deparavam-se com combatentes africanos armados ao serviço de Portugal, o que causava estranheza e, ao mesmo tempo, aliviava o desconforto inicial. 

2. A Vida no Terreno: Dificuldades, Medos e Camaradagem 

  • Condições Extremas: 

O quotidiano era marcado por calor, humidade, doenças como o paludismo, chuvas torrenciais, emboscadas, minas e noites mal dormidas na selva. 

  •  União: 

A camaradagem entre soldados era fundamental para suportar o medo, a saudade e o desgaste físico e psicológico. O humor, as pequenas festas e as conversas ajudavam a aliviar a tensão constante. 

  • Perspetiva Africana: 

Os combatentes africanos, como os do Grupo Especial de Combate (GEC), partilhavam o risco e o sacrifício, mas tinham motivações e preocupações distintas, muitas vezes relacionadas com o futuro das suas famílias e a incerteza do pós-guerra. 

3. Contradições e Dilemas 

  • Laços Partidos: 

Muitos africanos lutavam ao lado dos portugueses, enquanto familiares seus combatiam no PAIGC (movimento de libertação). Isso criava situações de "irmãos contra irmãos", ilustrando a complexidade das lealdades e dos laços familiares.

  • Sentido da Guerra: 

Os portugueses, por sua vez, questionavam o sentido do sacrifício, especialmente ao perceberem que a guerra era "uma causa perdida" e que o império colonial estava no fim. 

4. O Impacto Psicológico e Social


  •  O Regresso: 

O regresso à Metrópole era frequentemente marcado por traumas psicológicos, ausência de apoio psiquiátrico e falta de reconhecimento social. Muitos ex-combatentes sentiam-se ignorados e desamparados.

  •  Angústia do Futuro: 

Entre os africanos, o medo de represálias após a independência e a incerteza quanto ao futuro das suas famílias eram fontes de grande angústia.

 5. O Quotidiano e a Sobrevivência

  •  Operações de Risco: 

As operações militares eram descritas como extenuantes e perigosas, com relatos de emboscadas, minas, flagelações e ataques noturnos. 

  • Adaptação: 

A sobrevivência dependia tanto da preparação militar quanto da adaptação ao ambiente hostil e do apoio dos guias e combatentes africanos, conhecedores do terreno. 

6. Humanidade, Humor e Resistência

  •  Momentos de Trégua:

 Apesar da dureza da guerra, havia espaço para a amizade, o humor e até para momentos de festa e confraternização, com refeições de churrasco, uma ementa desconhecida na Metrópole.

  •  Troca Cultural: 

O contacto com a cultura local, a aprendizagem de palavras em crioulo e a partilha de refeições aproximavam portugueses e africanos, criando laços que iam além da guerra. 

7. O Fim da Guerra e o Legado

  • Sentimentos Mistos: 

O fim do conflito trouxe alívio, mas também frustração e uma sensação de missão inacabada.
  •  Marcas Eternas: 

Muitos combatentes, portugueses e africanos, carregaram para sempre as marcas físicas e psicológicas da guerra, sentindo-se "diferentes" e, por vezes, incompreendidos pela sociedade.

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 Exemplo de Testemunho Resumido:

"Já lá fomos e voltamos. Percorremos o lado negro da vida, tropeçamos na face má da sorte e andamos por trilhos e picadas da morte. [...] Já lá sorrimos e penamos. E abrimos a caixa de Pandora e antes de virmos embora enfrentamos medos e emboscadas, carregamos sonhos e granadas, corremos perigo e aflição, bebemos água da bolanha, comemos colados ao chão, adormecemos de arma na mão, socorremos camaradas feridos, beijamos rostos estendidos, cerramos os punhos cantando, festejamos a vida chorando, deixamos os sonhos esquecidos."
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Conclusão:

 As experiências dos combatentes portugueses e africanos na Guerra Colonial foram marcadas por sofrimento, coragem, dilemas morais e laços de solidariedade. 

O livro retrata com realismo e sensibilidade a complexidade humana da guerra, dando voz a todos os que nela participaram, independentemente do lado em que lutaram. 

"Do embarque ao regresso a casa, o leitor com poucos conhecimentos sobre a Guerra Colonial Portuguesa em África terá o privilégio de acompanhar, em tempo real, o dia a dia dos combatentes: desde as deficientes condições de viagem até à estranha surpresa ao desembarcar, quando vê, no cais, soldados africanos a combater ao lado da bandeira portuguesa. Já no 'mato', vai acompanhar os passos de quem faz 'mexer' a guerra, testemunhando os dias de sorriso e tristeza, os dias de aflição e lazer, e os 'acasos' do azar e da sorte que separam a vida da morte. Por fim, vai sentir no corpo e na 'mente' as mazelas que trouxemos de África e a injustiça do tratamento inadequado votado aos combatentes da parte dos governos, desde o regime do Estado Novo ao regime nascido com o 25 de Abril — algo que permanece até hoje. Para memória futura, este romance ficará gravado nas páginas graníticas da História da Guerra Colonial." 

Principais locais onde se desenrola o romance: 

• Bissau, Brá, Bula, Binar, Bissorá, Olossato, Mansoa, Mansabá, K3. 
• São Vicente, Pelundo, Teixeira Pinto, Bachile, Cacheu.
 • Catió, Cabedu, Guileje, Gadamael Porto, Kandiafara (Guiné-Conacri), Cumuré e Hospital Militar de Bissau. 

(Sinopse: Autor + IA)
(Revisão / ficação de texto: LG)

 Contactos:

 Angelino dos Santos Silva (RECAREDO) Combatente na Guiné-Bissau – 1970-71 

• E-mail: recaredo241148@gmail.com 
• Telemóvel: 926 365 774

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28300: Agenda cultural (901): O Angelino dos Santos Silva ("Recaredo") vai estar, sábado, dia 29, às 17h00, na Biblioteca Municipal de Paredes, para falar do seu livro "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império"

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)















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Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Virgínio  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



Virgínio Briote: (i) nascido em Cascais: (ii) frequentou a Academia Militar, em 1962, que abandonou em seguida; (iii) foi Alf Mil em Cuntima, CCAV 489 / BCAV 490 (Jan-mai1965); (iv) 8ez o 2º curso de Comandos do CTIG; (v) comandou o Grupo Diabólicos (Set 1965 / set 1966); (vi) regressou em Jan 1967; (viii) casado com a Maria Irene, orfessora de liceu reformada;  (ix) foi quadro superior de uma empresa da indústria farmacêutica.



1. Comentário do Virgínio Briote, nosso coeditor jubilado, ao poste P28263 (*):


A propósito deste excelente texto saltou-me rapidamente à memória um caso que vi e vivi de perto, talvez demais. 

Anos 60. Um pai funcionário público, dois filhos com diferença de meia dúzia de anos. Pai extremoso, severo, homem honrado, justo, fiel adepto de Salazar e do Cardeal [Cerejeira, patriarca de Lisboa].

Segundo o seu desejo, expresso aos amigos e colegas, "um dos meus filhos vai para militar e o outro para padre" . 

Os filhos foram ouvindo esta ordem do pai enquanto estudavam, um num Liceu numa cidade do Norte e o outro na Escola Primária. 

Quando o mais velho concluíu o 5º ano,  foi para Ciências,  contrariado. 

− Como vais para Ciências se foste sempre um aluno de 10 / 11 e bom aluno, apesar de seres pouco aplicado, na área de Letras? 

− Eu gostava de ir  para Letras mas o meu pai matriculou-me em Ciências.

O mais velho lá foi tropeçando na Física, na Matemática, na Biologia, na Mineralogia... até que acabou o Liceu em 1962.

Papelada, concurso para a Academia Militar, Lisboa, e em meados do verão guia de marcha para a Gomes Freire. 

−  Para onde, Pai? 

−  Para a Academia Militar, para seres oficial do Exército. 

Sem mais história, concorreu e em outubro de 62 deu entrada na Academia Militar, Amadora. 

Na 1ª semana, na 1ª aula de equitação,  ministrada pelo capitão Marques Pereira, escolheu o cavalo mais alto, preto, irrequieto com o chicote no ar. E tentou montar. Tentou, porque,  quando tomou balanço, o cavalo levantou a garupa e atirou-o ao chão. Quando se ia a levantar,  apoiado pelos gritos do instrutor, levou um coice na zona do estômago. 

Saltando estes momentos, quase desmaiado,  viu-se em cima do cavalo, mãos bem amarradas às argolas. Chicote no ar, cavalos em disparada, uns por um lado,  outros em sentido contrário... E minutos depois estava na camarata, nos urinóis  a fazer chi-chi com sangue. Enfermaria, ambulância, Hospital da Estrela, três dias depois outra vez na Amadora. 

O interesse foi-se esvanecento, não era o que desejava, os meses e as aulas iam correndo, divertia-se na Educação Física, atletismo, corridas de obstáculos, manobras nos arredores da Amadora, na Carregueira, Sta Margarida...

A Deontologia Militar, as Físicas,as Matemáticas e outras teóricas passava-as a dormir. Em junho de 64, foi enviado para Mafra e um mês depois era aspirante miliciano. 

Alguns dias de férias, o pai,  de má cara,  não lhe falava e em setembro foi para os Açores. 

Quando saíu do BII , não sei se o 17 [Angra do Heroísmo],  se o 18 [Angra do Heroísmo], foi passar o Natal a casa com os pais, o irmão deve ter consoado no Seminário, certamente. 

Meados de janeiro estava a pôr os pés em Bissau e dias depois estava no mato, seguramente. Já no meio da comissão,  o pai escreveu-lhe dizendo que o irmão tinha fugido do Seminário!

Para finalizar esta história que fui seguindo de perto, ao regressar a Lisboa,  depois de uma comissão consecutiva de 24 meses,  os pais e o irmão esperaram-no no cais. E, para acabar a viagem, seguiram para o Norte, talvez com uma paragem nos Pedro dos Leitões  [na Mealhada], não sei.

A vida continuou. O mais velho empregou-se, o mais novo foi para Coimbra para Direito até ser chamado para Mafra, com o curso talvez a meio, não sei. 

O jovem foi mobilizado para Moçambique, veio de férias, lembro-me, ainda foi padrinho de uma sobrinha recém-nascida e regressou ao Chai, Macomia, julgo eu.

Alguns dias depois, o pai recebeu ao jantar um telegrama de uma entidade do Exército a informar que o seu filho havia sido gravemente ferido. (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Agradeço ao Vb a oportuna partilha destas suas memórias já com sessenta e muitos anos... É um verdadeiro "conto mural ao fundo".., passado no fim do salazarismo, em que o paradigma de autoridade  dominante ainda era o da "santíssima trindade"...Deus, Pátria e Família,

Mas neste caso a realidade e a ficção fundem-se. Impossível saber onde acaba uma e começa outra...

Não tenho dúvidas que este caso, que "ele viu e viveu de perto, talvez até demais" (sic), é verídico. 

E, na época, não terá sido único.  Pessoalmente conheço mais casos, e até alguns mais recentes,  em que os pais, invocando a sua autoridade e experiência de vida, traça(va)m o caminho dos filhos (e das filhas)... O caminho que julga(va)m ser  "melhor" para eles  e elas (e para a família)... 

Estamos numa época em que os pais, "amando profundamente os seus filhos" (está fora de questão pôr isso em dúvida!), os infantilizavam e tomavam decisões (neste caso, "quase de vida ou de morte"!) por eles... 

Mas não era só a nível das opções escolares e das carreiras profissionais ("vais para o colégio de freiras, vais para o Magistério Primário, vais para o seminário, vais para a Academia Militar"...), era também até noutras matérias ainda mais sensíveis e delicadas, com o namoro, as amizades,  o casamento... 

Estamos a falar de pais de certos estratos sociais, correspondentes às classes alta, média-alta média, excluindo portanto as classes populares (média-baixa, baixa). Nestas, a que pertencia maior parte de nós, começava-se mais cedo (na família, na escola, na rua, no trabalho, na "moina", nas "tainadas", nos "bailaricos", na  noite, na tropa...) a experimentar e a conhecer os desafios, os riscos e os limites da aventura da liberdade. 

O Vb aparece aqui como um mero  narrador... E inclusive não chegou, por lapso, a assinar o comentário. Depois corrigiu, sob chamada de atenção minha.  Vi, logo desde o princípio, que o texto era dele, pelo seu inconfundível estilo narrativo que já conheço  de há 20 anos, no blogue..

 Ao relê-lo, e agora ao fazer o guião para esta BD, fiquei com a "suspeita" de que poderia ser um texto autobiográfico (ou com traços autobiográficos)... Há pormenores coincidentes... O capitão Marques Pereira, por exemplo, era na época o instrutor de equitação da Academia Militar. A cidade do do Norte será Braga (onde o Vb fez o examde admissão ao liceu). 

Em suma, o "irmão mais velho" que vai, contrariado, para a Academia Militar, terá semelhanças com a história militar  do nosso querido Vb, que em 1962 também entrou para a Academia Militar... 

Mas o texto não me autoriza a que tire esta conclusão.   E eu, portanto,  não tenho  mais  o direito de estar aqui a especular... O Vb, se assim o entender, poderá dar mais informação circunstanciada sobre este caso que o tocou tanto ao ponto de acompanhar, tão intimamente,  o percurso destas duas vidas... trocadas.

Se não é, em todo o caso, bem poderia ser a história dele e do seu irmão mais novo... (que julgo que ele tem). Ou, como diz o provérbio italiano, "se non è vero, è ben trovato" (se não é verdade, é bem achado).

Guiné 61/74 - P28300: Agenda cultural (901): O Angelino dos Santos Silva ("Recaredo") vai estar, sábado, dia 29, às 17h00, na Biblioteca Municipal de Paredes, para falar do seu livro "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império"





O autor em Bissau, s/d 

1. Mensagem do Angelino Santos Silva, reproduzida da sua página do Facebook, terça feira, dia 25, 18h43:

No próximo sábado, dia 29, pelas 17h00, na Biblioteca Municipal da Câmara de Paredes, estarei na apresentação do livro "Geração Afro: Os Últimos guerrilheiros do Império".

Se te desperta interesse conhecer melhor um período importante da História de Portugal, e o que foi a vida de mais de um milhão de generosos Combatentes ignorados pelas entidades oficiais da chamada democracia, comparece e terás a oportunidade de ouvir e, quiçá, participar numa longa conversa "com bolinha vermelha". 

Definitivamente, tu, que pouco saberás sobre a guerra, ficarás com outro olhar sobre o teu avô, pai, irmão ou tio, que durante dois anos andaram combatendo por terras de África em prol do teu país.

Entretanto, deixo-te com um Resumo sobre o romance que agora pode ficar nas tuas mãos (Vd. próximo poste).

GERAÇÃO AFRO – OS ÚLTIMOS GUERRILHEIROS DO IMPÉRIO (Livro I)

Esta obra é uma homenagem aos Combatentes Portugueses e Africanos da Guerra Colonial em África, abordando as suas experiências, conflitos e o impacto histórico da guerra.

Para criar um resumo focado nas experiências dos combatentes, utilizei exclusivamente os relatos, testemunhos e análises presentes no documento "Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império".

O objetivo é apresentar uma visão clara, humana e multifacetada das vivências dos combatentes, destacando tanto os aspetos comuns quanto as diferenças entre portugueses e africanos que combateram sob a bandeira portuguesa ou nos movimentos de libertação.

Resumo: a inserir no próximo poste.


2.  A próxima apresentação do livro já tem local e data:

Será na  UNICEPE - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, uma das instituições mais prestigiadas da cidade do Porto, no que respeita à Cultura. Apresentação marcada para 1 de outubro, quinta feira, pelas 18h00.

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Nota do editor LG:

Último poste da série >  25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28290: Agenda cultural (900): É já no sábado, dia 29, na Feira do Livro do Porto 2026, que o nosso António Carvalho apresenta, ÀS 16h00, o seu notável romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", 228 pp. de ação e emoção que se leem de um fôlego

Guiné 61/74 - P28299: (De) Caras (252): João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70): história de vida um emigrande no Canadá, em BD
















  Toronto Welcome!















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: João Bonifácio (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. João Bonifácio foi furriel miliciano SAM (Serviço de Administração Militar), exercendo a difícil,  ingrata mas impreescindível função de vagomestre, na CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, Guiné, 1968/70).

37 meses ao serviço do exército português (dos quais 21 no CTIG). Como muitos de nós.

É beirão, nascido em Castelo Branco. Quando passou à "peluda", foi viver com a esposa e o filho para Lisboa. Descontente com o rumo das coisas em Portugal (e mesmo sabendo ou suspeitando que iria em breve acontecer um golpe de estado, afinal o 25 de Abril de 1974), decidiu ir viver e trabalhar para o Canadá, onde tinha amigos. Quatro anos depois de ter passado à disponibilidade.

Já aqui contou, em breves mas sentidas palavras, o que foi a sua história de  vida de emigrante,  de 1974 até hoje (*)... 

Achámos que isto merecia uma bonita e simpática BD em homenagem a este camarada da Tabanca da Diáspora Lusófona, membro da Tabanca Grande desde 1/12/2006, mas com escassas referências no blogue (cerca de 2 dezenas)...

A única foto que temos dele do tempo da Guiné (a fazer o "papel de repórter" na festa de Natal de 1968, em Có) é de muito má qualidade (cópia de uma fotocópia). 

Tem, todavia, uma grande força documental.  Está ali o Bonifácio, o vagomestre dos "Linces de Có", a CCAÇ 2402, na"festa de Natal de 1968",  a fazer de “repórter”, microfone em punho, e gravador ao ombro, talvez já com essa tendência para comunicar e participar que atravessou toda a sua vida (irá, de resto, trabalhar na rádio, em Toronto, e fundar, com mais alguns compatriotas, o Clube Português de Oshawa, Ontário, Canadá).  

É, pois,  uma fotografia com memória. E, para nós, aqui, vale muito. (Embira tenhamos pena de náo ter uam foto atual do nosso camarada.)

O texto do João Bonifácio, já aqui publicado (*) tem uma coisa que merece destaque: ele se não  se arma em herói (nem em vítima), não se põe em bicos de pés perante a sua própria história. Conta-a com simplicidade, e sem rodeios.

É, de resto, uma excelente história de vida,  não  muito diferente, por certo, da de muitos de nós, antigos combatentes, que decidiram não ficar em Portugal e tentar a sua sorte, noutras paragens, além Atlântico (EUA, Canadá, Brasil, Venezuela...) como sobretudo na Europa (França, Alemanha, Luxemburgo, Suiça...) mas também em África (Angola, Moçambique, África do Sul...). Infelizmente, não temos dados estatísticos sobre os antigos combatentes que, depois da "peluda", emigraram, quer os do Continente quer os da Madeira e Açores.

As circunstâncias em que o João G. Bonifácio sai de Portugal, em 15 de fevereiro de 1974 (4 anos depois de trer passado à disponibilidade, e a pouco mais de 2 meses do 25 de Abril) não deixam de ser "intrigantes": ele sabe ou suspeita (por via das suas ligações aos meios da "oposição democrática"; antes da tropa tinha trabalhado no escritório do advogado dr. Arlindo Vicente) que o país vai mudar, que o regime político vigente vai cair, e que a guerra em África vai ter que encontrar uma solução...

É uma dessas ironias da História que parecem escritas por um romancista: esteve quase a esperar pelo acontecimento, mas tomou a decisão de partir  antes de ele chegar. O João não fica, pela simples razão de que  já não acredita no futuro que o país lhe oferece, a ele e aos seus filhos.

Em contrapartida, no novo país que o acolhe, ele não vai ter  uma história de vida linear, nem de sucesso imediato.  Chegou ainda antes de perfazer os trinta anos  de idade, no dia 16 de fevereiro de 1974, data do seu  29º.  aniversário... Teve como prenda  um grande nevão em Toronto. 

Por outro lado, o Canadá estava a passar também pela grave crise económica de finais de 1973/ princípios de 1974 (Guerra do Yom Kippur, de 6 a 26 de outubro de 1973, embargo petrolífero da OPEP, primeiro grande choque petrolífero, subida de 400% do preço do barril de petróleo,  de 3 para 12 dólares,  em poucos meses, crise das economias capitalistas, etc.).


São três décadas de trabalho duro e de lenta mas bem conseguida adaptação a um novo país, completamente diferente da sua terra natal: fábrica de sofás, hospital de Oshawa, aprendizagem do inglês, Chrysler, biscates em pequenas empresas, agência de viagens, rádio portuguesa em Toronto, General Motors Canada, trinta anos de serviço, reforma, regresso a Portugal em 2011, tremenda desilusão e nova partida para o Canadá. (Não sabemos qual foi a rádio e TV portuguesa a que o João se refere: há varias, CHIN Radio TV,  a Camões Rafio TV, etc.)

Ou seja: é  toda uma vida construída aos poucos, a pulso, com trabalho, adaptação, inteligência, capacidade de aprender, resiliência... Mas  também com vontade de ser ajudar os outros.

E deixa um recado a eventuais candidatos à emigração para o Canadá; "Com o tempo tudo fica bem. O Canadá não é Portugal". pou seja, o Canadá é um país fiável, e bom para se vivver (tirando o maldito frio...).

É uma frase muito mais sábia do que parece. Não diz “o Canadá é melhor”. Diz simplesmente: "o Canadá é diferente, eu já não me adaptaria a Portugal". Mas uma pátria nova não substitui a antiga; aprende-se a viver entre dois mundos. E, para mais, com o nosso blogue a fazer a ponte, nestes últimos vinte anos.

E depois há o Clube Português de Oshawa/Oshawa Portuguese Club, fundado em 1978. Isso acrescenta uma dimensão bonita à história: João não se limitou a emigrar. Levou consigo uma comunidade e ajudou a construí-la. 

Hoje, quando fala português, inglês e francês e ajuda outros emigrantes a tratar de assuntos legais (impostos, desemprego, emigração, saúde,  segurança social,  etc.), vê-se que gosta de ajudar. Percebe-se, enfim, que aquela integração não significou apagar as raízes. 

Voltando à fotografia do Natal de Có de 1968: é a fotografia de um camarada nosso  antes de saber (ou sequer de imaginar)  que, cinco anos depois, estaria a embarcar para o Canadá.

E isso dá-lhe uma força narrativa enorme. Daí o título que escolhemos para esta BD: “De Có para Oshawa: a longa viagem de João Bonifácio”, Mas também poderia ser outra,  talvez até mais alinhada com o espírito do nosso blogue: “Quando a Pátria não foi Mátria, foi Madrasta: a história canadiana de João Bonifácio”.

Aliás, há uma continuidade com o meu comentário de 2006, de boas vindas. Na altura escrevi: “Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta.” (***).

Claro que houve mágoa, e raiva. Hoje, vinte anos depois, é o próprio João que nos conta o que fez com essa mágoa e essa raiva. Não ficou parado, no meio da picada da vida a lamber as feridas. Construiu uma vida e uma família. Ficamos orgulhosos dele.

Essa é provavelmente a melhor homenagem que podemos fazer-lhe, aos 81 anos:  não,  não  foi  mais  um antigo combatante da guerra do ultramar / guerra colonial que "virou costas" à sua Pátria ou que "cuspiu na sopa"...  Pelo contrário, foi um homem que, depois de 37 meses no exército (e 21 meses e 4 dias na Guiné), teve a coragem de procurar noutro lugar do planeta a vida que entendia merecer, para ele  e a família, sem nunca deixar de ser português e de falar português. 

João, rápidas melhoras e volta sempre!... Serás bem vindo, à tua Pátria portuguesa (agora tens duas, a nossa e a canadiana, aproveita o melhor de cada uma delas). 

E toma boa nota:  a Pátria Portuguesa não é o 1º sargento  ou o  tenente SGE da secretaria  do RI 1 da Amadora, a tua unidade mobilizadora,  que te exigiu 1500 escudos em estampilhas fiscais, o custo exorbitante da taxa   da licença militar que pediste para obter  o "passaporte da liberdade" (1500 escudos em 1974 seriam equivalentes a 300 euros, a preços atuais).

Um alfabravo caloroso  do Luís Graça.

26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), USA, to John (Bonifacio), Canada

(**) Último poste da série > 19 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28270: (De) Caras (251): Luís Tinoco de Faria (1927-1966), ex-cap pqdt, morto aos 39 anos, em combate, no corredor de Guileje: livro de homenagem que está a ser organizado por Elsa Coxinho

(***) Vd poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)