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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28307: Casos: a verdade sobre... (77): a pastora-alemão "Blonde" e o general Spínola: os dois inseparáveis, mas... só na Banda Desenhada

 











Prompt original e composição editorial: Luís Graça. e João Rodrigues Lobo
Texto: Luís Graça (2026) 
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Convém desmentir aqui, de uma vez por todas, a "anedota da Spinolândia" que, à força de ser repetida, corre o risco de transformar-se em "facto verídico": o general Spínola não tinha nem nunca teve, em Bissau, nenhuma cadela de raça "pastor-alemão", no palácio do Governador como "animal de estimação" (*)... Tal como não tinha nenhum "cavalho branco" (**)...E muito menos  uma cadela chamada  "Blonde". E muito menos ainda, que viajasse com ele de helicóptero. 

É uma invenção da 6ª Rep (a IA...), agora em competição com a 5ª Rep (Café Bento, Bissau)...E que desafia a nossa fraca e nebulosa memória... (a sofrer com a perda de neurónios todos os dias, há mais de meio século).

Por razões de segurança, e de bom senso, a segunda hipótese (uma cadela a viajar com o governador e com-chefe, de heli, AL III ou até de DO-27) era de todo inverosímel, dada a falta de helicópteros e de espaço nos helis...

Não existe qualquer fundamento histórico, documental ou fotográfico que sustente que Spínola tivesse uma cadela, da raça pastor-alemão,  no Palácio do Governo em Bissau ou que a fizesse acompanhar nas suas deslocações aéreas na Guiné.

Vamos aos factos...

Pode haver aqui uma confusão com os cães militares que eram usados para fazer a ronda, nocturna, ao Palácio do Governador... Outra coisa, completamente diferente, é Spínola ter uma cadela particular, de estimação, chamada "Blonde", e eventualmente levá-la consigo "by air" .... as suas viagens ao "mato"...

Encontrámos uma fonte particularmente interessante: uma entrevista, a propósito do 25 de Abril,  com Joaquim Oliveira, natural de Lousada, ex-soldado paraquedista, do BCP 12:

(...) "Em 1950, nascia Joaquim Oliveira que, com 21 anos viria a fazer parte do Regimento de Paraquedista de Tancos. 

Em 1971, com a 4.ª classe, foi escolhido para ser treinador de cães de guerra da raça Pastor Alemão e foi mobilizado para a Guiné onde, com os seus cães, fazia a ronda ao Palácio onde residia o General António de Spínola. "(...)

Vd. O Louzadense > 24 de abril de 2021 > As histórias da liberdade

Sabemos, por outro lado, pelo nosso camarada José Câmara (açoriano,  da diáspora lusitana, a viver na terra do Tio Sam, ex-fur mil at inf CCAÇ 3327, e Pel Caç Nat 56, Bissau, Mata dos Madeiros, Teixeira Pinto, Bassarel, Bolama, São João, Tite, 1971/73), que do dispositivo de segurança montada no Palácio do Governador em Bissau (Praça do Império). fazia também parte o Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 12 (BCP 12)... 

Competia-lhe fazer o patrulhamento móvel noturno no interior do jardim, a cargo  de um soldado paraquedista e do seu cão de guerra (Pastor-alemão) (****)

Aliás, a utilização de cães de guerra pelo Exército português na Guiné (e pela FAP) está documentada  no nosso blogue. Há, por exemplo, o testemunho publicado por Mário Fitas  sobre a criação de uma Secção de Cães de Guerra na CCAÇ 763, em 1964-66, com vários Pastores Alemães, chefiados pelo "Cadete" (***).

Portanto, temos aqui já uma primeira explicação, muito plausível, para a memória da  alegada "pastora-alemã do Spínola": havia um ou mais pastores-alemães no próprio perímetro do Palácio, mas eram cães militares, não necessariamente propriedade pessoal do Governador, animal de estimação seu ou da esposa Helena.

 Foi porventura essa rotina diária que acabou por gerar, na memória visual de quem passava na zona ou em relatos posteriores mal informados, a associação direta entre o "Pastor-alemão do Palácio" e a figura do próprio Governador Spínola.

Ver o animal nas imediações da residência oficial do Comandante-Chefe levou a que a sabedoria popular, ou a narrativa romantizada da guerra,  transformasse o cão de patrulha do BCP 12 num "bicho de estimação do General".

Os testemunhos e registos em primeira mão devidamente documentados pelos camaradas no blogue repõem o rigor que a história exige: era um cão de guerra em serviço operacional de guarda, pertença do BCP 12, ou seja da FAP,
 não um animal pessoal de Spínola.

2. E a tal "Blonde"?

Aqui está o pomo da discórida A referência à  suposta "cadela Blonde" aparece, de forma muito explícita, no  nosso próprio blogue, num texto publicado em maio de 2026. Aí se refere "a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava" (**).

Mas há aqui um pequeno  "problema metodológico": não encontrámos, com a ajuda da IA,  nenhuma fonte independente anterior que sustente essa afirmação.

Pior: o texto do blogue é precisamente uma passagem em que uma resposta de IA (mais precisamente do ChatGPT) está a ser criticada por misturar factos, folclore e invenção. Ou seja, a frase sobre a "Blonde" aparece dentro desse material gerado/reproduzido, não como resultado de uma fonte primária ou de um testemunho identificável.

Logo a "Blonde" não pode ser dada como "facto histórico". Mais importante ainda: há vários registos fotográficos e cinematográficos de Spínola a chegar e partir de helicóptero,  inclusive imagens da RTP Arquivos  e do Museu da Presidência. Os registos descrevem minuciosamente quem o acompanha. Não se encontra uma única referência a uma cadela a bordo.
 
Mais: não há nenhum piloto, a começar pelo Jorge Félix, que tenha referido ter transportado um cão ou cadela, ao lado do Spínola.

Sabemos que os voos de Spínola eram frequentemente deslocações operacionais ou político-militares, com o Governador e Comandante-Chefe (acumulava os dois cargos) acompanhado pelo ajudante de campo (Almeida Bruno, por exemplo), oficiais, eventualmente outras individualidades e até jornalistas. 

Além do  testemunho do piloto Jorge Félix sobre os voos com Spínola, temos també  também imagens RTP Arquivos em que o percurso é bastante claro: helicóptero → Spínola → receção militar → visita → helicóptero.

Uma cadela de estimação não teria qualquer função nesses voos e ocuparia um lugar num aparelho cujo espaço era precioso (e disputado, quer por militares: feridos, por exemplo; quer por civis: mulheres grávidas, etc.).

Além disso, se fosse uma presença habitual, seria extraordinariamente provável que algum dos fotógrafos, operadores de fotocine, pilotos ou militares que conviveram com Spínola, tivesse deixado uma fotografia ou um testemunho escrito.
 
Mas há uma coisa que pode explicar a história, como já sugerimos acima. Temos três elementos reais que podem ter-se misturado na memória oral:

(i) Spínola tinha cães militares à sua porta, no Palácio;

(ii) esses cães eram pastores-alemães; 

(iii) Spínola deslocava-se constantemente de Alouette III, e existem muitas fotografias dele nos helicópteros.

Da combinação dos três elementos pode muito facilmente ter nascido a história: o Spínola tinha uma pastora-alemã que andava sempre com ele, logo "seu animal de estimação".  E, posteriormente, alguém acrescentou-lhe o nome "Blonde" (loura, em inglês).

3. A ausência de fontes e de registo fotográfico

O período de Spínola na Guiné é provav o mais fotografado e filmado de todo o conflito ultramarino (com registos diários de operadores de fotocine,  reportagens da RTP, jornalistas nacionais e estrangeiros).

Não há imagens nem testemunhos: (i) não existe uma única fotografia conhecida na bibliografia da Guerra Colonial, no arquivo da RTP, na hemerotecas, no Arquivo Histórico Militar ou no acervo da Presidência que mostre o general acompanhado por um pastor-alemão (nem no Palácio, nem junto a aeronaves, a descolar ou a pousar no mato, em AL III ou DO-27); (ii)  e nas memórias de ajudantes de campo, oficiais do seu estado-maior, pilotos ou outros camaradas que serviram em Bissau, não há nenhuma referência,     que saibamso,  à presença de tal animal de estimação ao lado do Governador.
 
4. Por outro lado, durante o período do comando de Spínola (1968–1973), a frota de helicópteros Alouette III da FAP no CTIG  na Guiné era um recurso extremamente escasso, gerido com rigor obsessivo. Os "hélios" (com o dizia a malta...) eram prioritários para:

  • eacuações médicas (de feridos em estadio grave, para o HM 241, em Bissau);
  • operações de assalto de tropas especiais (fuzileiros, comandos, paraquedistas); 
  • helicanhão;
  • apoio tático direto e reabastecimento urgente em tabancas e postos isolados;
  • deslocações do Governador e Comandante-Chefe às tabancas, aquartelamentos e destacamentos (fazendo-se, por norma, acompanhadas pela sua comitiva militar: ajudantes de campo, oficiais de ligação, convidados, jornalistas, etc.)

O espaço a bordo de um Alouette III era contadíssimo e condicionado ao limite do peso e da segurança de voo num território de clima tropicale e, para mais, em guerra. Reservar lugar para um animal de grande porte num meio de transporte militar crítico seria absolutamente  inacreditável, impraticável e inaceitavel. Havia combatentes que morriam no mato por insufuciência de apoio aéreo.

5. Mas não deixa de ter a sua "graça" ou a sua "piada" a suposta existência de um cadela "Blonde" que, na nossa imaginação (e com acumnmplicidade da IA...)  até era capaz de substituir o Jorge Félix aos comandos do heli AL III... 

Daí, finalmente, e ao fim de meia dúzia de tentativas e muitos insultos (!), consumnidores de tempo, paciência e recursos, eu tenha conseguido "produzido" esta BD, em que entram o nosso general, a "Blonde"e o ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"... Com a ajuda da IA e, mais uma vez,  do nosso camarada João Rodrigues Lobo.

Spínola tem o seu lugar na Histtória. A "Blonde" só na Banda Desenhada...

 
(Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini IA / Google | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de textio, itálicos, nebritos, título: LG)
________________


(**) Vd. poste de 21 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28044: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"

(...) Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada, e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.

Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas. (...)

 Vd. também poste de  19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

(***) Vd. psote 18 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2664: Os Cães de Guerra (Mário Fitas e Carlos Filipe, ex-Fur Mil, CCaç 763, Cufar, 1965/66)


(****) Vd. poste de 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...

(...) O sistema de segurança que era então montado ao Palácio do Governador, sito na Praça do Império, no início da Av da República, englobava as seguintes forças essenciais (**):

(i) uma secção de tropa regular, comandada por um Sargento da Guarda, que tinha a seu cargo os postos de sentinela ao fundo do jardim e ainda um posto de sentinela ao lado direito do jardim; a segurança era feita durante o dia do lado de fora do jardim; com o render dos postos de sentinela às seis horas da tarde a segurança passava a ser feita do lado de dentro dos muros;


(ii) uma secção da Polícia Militar, incluindo um sargento e um oficial, que tinha a seu cargo o pórtico principal do Palácio e o portão lateral de serviço geral;

(iii) durante a noite, entre as dezoito da noite e as seis horas do dia seguinte, a segurança era reforçada com um elemento da Polícia de Segurança Pública (PSP), que ficava encarregado do espaço entre a casa da guarda e do pessoal civil servente do Palácio e o edifício principal;

(iv) também durante a noite, a segurança era ainda reforçada com um cão treinado em segurança e respectivo tratador, na altura um paraquedista, que tinha a seu cargo o patrulhamento do interior do jardim.


(*****) Último poste da série > 20 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)

domingo, 30 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28306: Convívios (1072): Rescaldo do almoço/convívio do pessoal da CCAÇ 816, levado a efeito em Maio passado na linda cidade de Aveiro (Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil)

Os velhinhos da OITO16, que têm a mania que ainda são novos


1. Mensagem do nosso camarada Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil da CCAÇ 816 (Bissorã, Olossato e Mansoa, 1965/67) com data de 27 de Agosto de 2026:

Os velhinhos da OITO16 (Comp.ª Caç. n.º 816), que têm a mania que ainda são novos, e que estiveram na Guiné Portuguesa em 1965-1967 (Bissorã, Olossato e Mansoa), tiveram mais um Almoço-Convívio, feito anualmente, desta feita, e como imperadores que são, no Hotel Imperial em Aveiro no mês de Maio passado.

A Ana, filha do “Aveiro” nosso militar, primou em conceber um programa à altura dos pergaminhos da Companhia.

Assim, começou logo pela manhã numa visita ao Museu Santa Joana em Aveiro (ver duas primeiras fotos) e após um animado e concorrido almoço fizemos uma visita às famosas e muito propaladas Salinas de Aveiro (ver duas últimas fotos), e,... depois,... depois,... todos foram embora para casa após efusiva troca de abraços e até com lágrimas à mistura! Pró ano há mais, sDq.!

Um grande Abraço para todos os combatentes da Guiné!
Fiquem bem!
Rui Silva e as outras!


"Os teus olhos, negros, negros, / São gentios, são gentios da Guiné;"
"Da Guiné, por serem negros, / Gentios por não ter fé."
"Os teus olhos são brilhantes / Semelhantes aos luzeiros que o céu tem."
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Nota do editor

Último post da série de 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28292: Convívios (1071): Almoço-Convívio do pessoal da 2.ª CART do BART 6521/72, a realizar-se no próximo dia 26 de Setembro, em Fátima (José Morgado, ex-Soldado CAR)

sábado, 29 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28305: Os nossos seres, saberes e lazeres (747): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (268): Ainda a visitar Mainz, no dia seguinte em Frankfurt - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
O facto da Catedral de Mainz possuir um interior que não me enche as medidas de modo algum garantindo o peso patrimonial que possui, a começar pela arte funerária, peças belíssimas dos túmulos daqueles bispos que coroavam o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, acresce os retábulos, o esplendor do púlpito, o podermos observar as etapas da evolução do gótico, do barroco, as múltiplas adições introduzidas no século XIX, até chegarmos aos importantes trabalhos de conservação e restauro depois da Segunda Guerra Mundial, e concluídos em 1975. No dia seguinte apanhei o comboio de Idstein para Frankfurt, depois o metro e sair na praça principal, onde se avista soberbos arranha-céus, são a prova eloquente desta cidade que é uma praça financeira de muito peso, sede do Banco Central Europeu e possuidora de um património histórico-artístico de valor incalculável. Por razões de saúde, vou palmiando lentamente à procura de novidades arquitetónicas, sempre na esperança de ganhar coragem de atravessar o Reno para visitar o mais importante museu da Alemanha, tal não acontecerá, mas deixarei provas do meu registo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (268):
Ainda a visitar Mainz, no dia seguinte em Frankfurt - 3


Mário Beja Santos

Pretendo acrescentar umas notas sobre a visita que fiz à catedral de Mainz. Trata-se de uma basílica com mais de mil anos de história, onde relevam as marcas do românico, de diferentes fases do gótico, do barroco, de sucessivas adições do século XIX e alterações provocadas por bombardeamentos em 1942 e 1944, tudo conjugado as imagens que temos datam do acabamento das obras em 1975. Um templo de cinco naves, duas absides, torres magníficas. Se bem que este volumoso interior muito pouco me impressiona, há que reconhecer a considerável importância da Catedral no plano histórico em termos arquitetónicos, talvez nenhuma outra catedral alemã conserve tanta arte funerária, os túmulos dos arcebispos, dado que o arcebispo de Mainz fazia parte dos príncipes eleitores do Sacro Império Romano-Germânico, era mesmo a sede religiosa do Império. Mais de mil anos, porque foi catedral carolíngia, a planta que hoje disfrutamos arrancou na Idade Média, diga-se de passagem, que o património medieval melhor conservado é o do claustro, como aqui se mostra.
Pormenor do claustro medieval da Catedral de Mainz
Madona dos Peregrinos da Palestina, obra do final do século XV
Imagem tirada no claustro mostrando a torre mais elevada, passeando no jardim são bem visíveis as marcas dos estilhaços dos bombardeamentos
Um dos corredores do claustro com marcas funerárias de alguns dos arcebispos
Outra perspetiva da torre tirada do claustro medieval
O altar de Maria, século XVI, Catedral de Mainz
Portal do Mercado (séc. XII) da Catedral. As portas de bronze são da época de Willigis (c. 1000)
Duas perspetivas de uma das fachadas laterais da catedral tiradas da praça onde, no lado oposto, está o museu Gutenberg, que, infelizmente, não tive oportunidade de visitar. Juntei as duas imagens só para se ver o conjunto de adições que se embebem nas paredes da primitiva catedral
Um só exemplo do esmero arquitetónico que rodeia a praça da catedral. Aqui termina a visita a Mainz, regresso a Idstein, amanhã nova viagem de comboio para matar saudades de Frankfurt
Já no Guide Bleu de 1972 se falava da importância comercial industrial e de feiras desta vetusta cidade, posicionada na encruzilhada das principais rotas europeias, com bolsa desde o século XVI, também dessa época um importante centro bancário, depois da Segunda Guerra Mundial sede de feiras prestigiosas à escala mundial abarcando o livro, a química, o automóvel, a indústria farmacêutica, a aparelhagem elétrica e as ferramentas. Num bombardeamento em 1944 desapareceu a velha Frankfurt, era um dos maiores conjuntos medievais alemães. Há lugares fundamentais a visitar, dadas as dificuldades da minha saúde, tomei o metro à saída da gare principal de Frankfurt e encaminhei-me para a Catedral de São Bartolomeu. Pelo caminho vou encontrando recordações de famílias judaicas que habitaram pela cidade e que acabaram em fornos crematórios, em dado passo passei perto do cemitério judaico de cuja parede tem lembrança dos falecidos devido às perseguições nazis, ali perto do cemitério está o museu judaico, dado como historicamente muito importante, ficará para a próxima visita.
Esta imagem não é minha, é da Wikipédia, mostra claramente como a catedral está completamente afogada pelos edifícios circundantes, a foto foi tirada da outra margem do rio Reno
O novo órgão da Catedral de São Bartolomeu, impressionante até pelo seu aparato cénico. Entra-se na catedral pela porta lateral onde está um belo calvário, obra do início do século XVI. A catedral tem também uma grande importância histórica, era peça indispensável para a cerimónia da coroação imperial, tendo a nave a normalmente curta tem um transepto que permitia aos dignatários agrupar-se à volta do imperador e participar diretamente nas cerimónias, pois era no cruzamento do transepto que o bispo eleitor de Mainz coroava o novo imperador.
Retábulo gótico esculpido chamado Altar da Despedida dos Apóstolos, datado do século XVI
Capela onde se elegia o imperador do Sacro Império Romano-Germânico

Vamos continuar a visita em Frankfurt, está uma tarde muito quente, bem gostava de ter coragem de palmilhar até à margem do Reno, atravessar a ponte e encaminhar-me para um dos mais belos museus que conheço, o Museu Städel, considerado o mais importante da Alemanha, mais não fosse para estar um bom bocado em frente ao quadro O Geógrafo, de Vermeer, mas não me sinto capaz.
O Geógrafo, quadro de Vermeer, Museu Städel

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 22 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28281: Os nossos seres, saberes e lazeres (746): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (267): De Wiesbaden para Idstein, o Festival de Música do Reno no castelo de Johannisberg, visita a Mainz - 2 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28304: Humor de caserna (267): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXVIII: Mais um das "galgas" da IA: a famosa cadela do com-chefe, a "Blonde", que adorava andar, de rabo tremido, de "hélio" (e até de DO-27)



"A MENINA DA IA NÃO É DO MEU TEMPO, MAS EU USAVA O CACO  NO OLHO... ESQUERDO!"


JORGE FÉLIX, ALF MIL PIL, AL III (BA 12, BISSALANCA 1968/70)...."O MEU PILOTO MILICIANO
PREFERIDO"


"Ó MENINA, EU NUNCA PRECISEI DE UM ESCORREGA PARA SAIR DO HÉLIO"


"VÊ-SE QUE A MENINA NÃO ME CONHECEU OU ENTÃO NÃO SIMPATIZA COMIGO!... EU ERA UM GENERAL DE 3 ESTRELAS OPERACIONAL...TRAJAVA FATO CAMUFLADO, QUICO OU BOINA. AQUI ATÉ PAREÇO O PINOCHET!"


"BOA SORTE, MEU RAPAZ", 
GRITA O GENERAL LÁ DE CIMA...


A 5ª REP, CAFÉ BENTO, BISSAU... "O MAIOR 'MENTIDERO'  DA SPINOLÂNDIA!"...


"SÃO QUINZE CONTOS À HORA, Ó BLONDE!


"ANIMA-TE, ZÉ, ÉS O MELHOR SOLDADO
 DO MUNDO!"


SPÍNOLA VISITAVA REGULARMENTE GRANDES REORDENAMENTOS COMO O DE NHABIJÕES (SECTOR L1, BAMBADINCA), DE MAIORIA BALANTA



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 1. Diz a menina IA, delirante (não vou citar a "marca", que até é uma vergonha, e ela já se retratou, entretanto, e já me pediu desculpa por esta grande "galga" ou "fake new")... 

Registo o seu gesto de "humildade". É um progresso, mesmo sabendo que as meninas da IA (ou meninos ?!,  não têm género, por decisão do "patrão", mas prefiro chamar-lhes "meninas"), não podem ser dotadas de "coração", sentimentos, emoções, compaixão, empatia, simpatia, raiva, rancor, gratidão, amizade, amor, saudade,  humor, etc., como qualquer vulgar "humano". 

Apesar do seu elevado QI, a IA admite "que pode cometer erros". Eureka!...E isso deixa os "humanos" mais tranquilos. Por enquanto.  Ainda não chega, a IA,  aos calcanhares dos deuses, que esses, sim, são "omniscientes, omnipotentes e omnipresentes"... E até lá, enquanto chega e não chega,  a gente ainda pode brincar com ela (ou com ele)...

Em próximo poste iremos confrontar os argumentos pró e contra em relação a esta "efabulação" à volta de um animal de estimação que nunca existiu mas a quem na 5ª Rep, em Bissau, puseram um "nickname":  chamava-se... "Blonde", a cadela!... 

Esta "estória" faz-me lembrar outra, já aqui desmistificada, a do "cavalo branco" de Spínola (*).

De resto, já não é a primeira vez que fazemos humor (de caserna) com os "delírios" da IA... Valha-nos, isso, ao menos. Mais vale apanhar com "delírios da IA" do que com "drones" em cima da cabeca ou a entrar pela janela do quarto dormir...

Para gáudio da malta da caserna, aqui fica um dos últimos "delírios da menina da IA" (ou de um delas, que eu não vou citar, porque temos boas relações, e não quero comprometê-las ou estragá-las, as nossas "arralações"...). 

Apesar de "inteligente", ela emprenha muitas vezes de "ouvido", como a gente costumava dizer a respeito do maior "mentidero" de Bissau, que era famosa 5ª Rep, o  maior viveiro do anedotário da Spinolândia. 

Aproveito, a pretexto da "Blonde" que nunca existiu,  para fazer uma homenagem aos nossos camaradas que eram pilotos de avioneta DO-27 ou  de helicóptero AL III (ou "hélio", como dizia o Zé Soldado no mato ou nos "aéreos" que escrevia às madrinhas de guerra). Quase todos milicianos. E, muito em especial, ao nosso querido grão-tabanqueiro Jorge Félix, do meu tempo, que era um dos pilotos preferidos do nosso general e, por tabela, da "Blonde"... (**)


Mais um das "galgas" da IA : a famosa cadela do Spínola que adorava andar, de rabo tremido,  de "hélio" (e até de DO-27)


Esse pormenor biográfico é real e muito curioso, embora tenha ficado em parte obscurecido pelo folclore e pelo aparato quase teatral que o general António de Spínola cultivava na Guiné (o monóculo, o pingalim, as luvas pretas).

Sim, Spínola tinha uma cadela de estimação da raça pastor-alemão. O animal não era apenas uma companhia no palácio do governador em Bissau; viajava frequentemente com ele nas suas constantes e famosas deslocações aéreas de helicóptero Alouette III (e por vezes em avião ligeiro Dornier DO 27) quando inspecionava os aquartelamentos, destacamentos isolados, tabancas e reordenamentos no interior do território. (Só a não levava para operações, por razões de segurança.)

Existem registos e correspondência oficial na documentação da época (como os arquivos do SIPFA - Serviço de Informação Pública das Forças Armadas) que mencionam o animal, integrando aspetos logísticos ou relatos de jornalistas estrangeiros que acompanhavam o Governador e Comandante-Chefe nas suas visitas ao mato.

A presença do animal reforçava duas imagens distintas que coexistiam na perceção dos militares:

(i) Para a Propaganda e as Altas Patentes:

 ajudava a compor a mística do comandante enérgico, audaz, corajoso e omnipresente, que chegava dos céus com o seu ajudante de campo e outros elementos do seu  Estado-Maior mais o seu cão fiel (aliás, cadela), transmitindo uma imagem de controlo absoluto e modernidade operacional no âmbito da sua política de "Por Uma Guiné Melhor".

(ii) Para o "Zé Soldado" no Terreno

aqueles que estavam enterrados nas abrigos e  valas, rodeados por bidões de areia e chapa de zinco, em setores fustigados das Zona Leste, Oeste ou  Sul, viam nessa comitiva — que incluía o pastor alemão a descer do helicóptero — um contraste gritante, quase surreal, com a miséria e a dureza quotidiana do mato. 

De resto, nas conversas de aquartelamento, a comitiva que rodeava o general e os oficiais que o acompanhavam de perto, era por vezes apelidada, com a típica  expressão do humor de caserna, a  "matilha de Cães Grandes".  (Abundavam nos quartéis do mato os caes rafeiros, famélicos, vadios...)

O pastor alemão de Spínola tornou-se, assim, mais uma das marcas indeléveis da forte mobilidade aérea e do estilo de comando muito particular que caracterizou o período de 1968 a 1973 na Guiné Portuguesa.

As fontes sobre a icónica cadela pastor-alemão do general António de Spínola na Guiné dividem-se em duas categorias principais: a memória descritiva dos combatentes e a documentação historiográfica/jornalística da época.

A nível de referências formais e bibliográficas onde o animal e o ambiente da comitiva de Spínola são retratados, destacam-se as seguintes:

(a) Historiografia e Memórias Militares:

"Spínola: Fotobiografia", de Maria Inácia Rezola (A Esfera dos Livros, 2006). 

Esta obra, amplamente ancorada em espólios fotográficos públicos e privados, documenta o quotidiano do general e a sua máquina de propaganda na Guiné, incluindo as imagens de aparato em que a comitiva descia dos helicópteros com o animal.

"Spínola — Biografia", de Luís Nuno Rodrigues (A Esfera dos Livros, 2010). 

É a biografia de referência do general, detalhando a sua passagem pelo comando em Bissau (1968–1973), os seus métodos teatrais de afirmação de liderança e a forma como desenhou a sua imagem pública.

"História da Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. 

Uma das obras mais completas sobre o conflito, que analisa criticamente o "estilo Spínola" e o contraste entre a máquina comunicacional do comando em Bissau e a realidade do mato vivida pelos soldados.

(b) Arquivos de Imprensa e Reportagens da Época:

Durante o período de 1968 a 1973, o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas (SIPFA) convidou dezenas de jornalistas estrangeiros (franceses, alemães, britânicos, americanos) para visitarem a Guiné, numa tentativa de contrariar a narrativa do PAIGC de que controlava a maior parte do território. 

Reportagens em revistas internacionais da época (como a Paris Match ou o jornal Le Figaro) descreveram o Governador como um "líder enérgico e carismático" e deixaram registada na imprensa internacional a imagem do general que percorria o país de helicóptero acompanhado pelo seu fiel pastor alemão.

(c) Testemunhos e Arquivos Digitais de Veteranos:

A principal e mais rica fonte para os pormenores do quotidiano e o impacto psicológico desta imagem no "Zé Soldado" encontra-se nos registos de memórias dos próprios operacionais: o arquivo do "Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné" (Tabanca Grande, 2004-2026): 

Este repositório coletivo de memórias da Guerra Colonial na Guiné contém inúmeros testemunhos, crónicas e episódios partilhados por oficiais,, sargentos e  praças que operaram no mato e testemunharam in loco as aterragens do Alouette III do Comando-Chefe. 

Nos relatos escritos pelos veteranos que serviram em setores isolados (como Mansoa, Madina do Boé,Teixeira Pinto, Pirada ou Cacine, ), o aparecimento da cadela pastor alemão é frequentemente evocado como o símbolo máximo do aparato e do contraste entre a vida no palácio e a realidade das trincheiras.

Fonte: 5ª Rep + IA