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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27922: Casos: a verdade sobre... (69): Kalashnikovmania - Parte IV: Rachei o cano da minha G 3, sem tapa-chamas, na carreira de tiro... O cap 'cmd' Saraiva obrigou-me a pagar a asneira, o que bem me custou... Mais tarde, fiz as pazes com ela, foi a minha namorada até ao fim (Virgínio Briote)








Fotos do álbum  de Jacinto Cristina (Sold at inf, CCAÇ 3546, Piche, Ponte Caium e Cama1972/74), membro da nossa Tabanca Grande, vive em Figueira de Cavaleiros, Ferreira do Alentejo.  Foi "um sem-abrigo", viveu um ano e tal, "não debaixo da ponte",  mas em cima do tabuleiro da Ponte de Caium, com a G3 a seu lado... 

Foi o padeiro do pelotão. Talvez o padeiro mais famoso do CTIG. Tal como muitos  de nós, de resto, no TO da Guiné, chamava  à G3 a sua "namorada" (*). Além de padeiro, também era o municiador do morteiro médio 81.

As fotos que acima publicamos, de verdadeira declaração de amor à G3 e demais acessórios de qualquer atirador de infantaria (cinturão com 4 cartucheiras, com 20 munições cada, de calibre 7,62; baioneta;  cantil; faca de mato; granada ofensiva e defensiva...) devem constar em milhares de álbuns de camaradas nossos que passaram pelo TO da Guiné e que tratavam  religiosamente o seu  álbum fotográfico... 

Devem-se ter vendido milhares de fotos destas. Nunca tive álbum fotográfico, nem  mandei, para a metrópole, nenhuma foto destas... Nem sei se a malta mandava fotos destas, pelo correio, às namoradas, madrinhas de guerra, irmãs, mães, amigas... Aqui a G3 aparece como um verdadeiro fetiche, um talismã, um escudo protector, uma companheira inseparável, uma namorada, uma amante. qie vivia 24 horas ao nosso lado: andámos juntos, fomos unha com carne na Guiné,  amei-te muito, devo-te a vida, jamais te esquecerei... 

Em termos físicos, simbólicos, psicológicos e até culturais, a G3 é, antes de mais uma figura feminina,  uma arma de defesa;  é uma amante, mas também uma mãe: não sei se a interpretação... algo freudiana, é abusiva; para outros combatentes, poderia ser vista também sob uma perspectiva mais falocrática: usandoo um palavrão, nestas fotos e nestes discursos dos antigos combatentes, um fenómeno de antropomorfização de uma objeto inamado, uma arma de guerra, quue passa a adquirir formas ou características humanas, uma extensão do nosso corpo, a nossa "canhota", o nosso pénis mortífero... (LG)


1. Comentário do nosso coeditor (hoje jubilado) Virgínio Briote ao poste P2445 (**) 

Meu Caro Furriel Mário Dias,

Não é o Luís, sou eu, o Briote,  que assumo o encargo de publicar a tua (minha também) defesa da G3, essa namorada que, tanto quanto me lembre, me foi fiel durante a minha comissão na Guiné.


Não dei muitos tiros em combate. Ainda hoje me lembro que foram 22, em toda a comissão. Só que de uma vez, logo no início da comissão, quando me encontrava ainda em Cuntima, na CCAV 489, despejei o carregador até ao fim numa emboscada entre Faquina Fula e Faquina Mandinga.

Depois nos Comandos, a minha história com a G3 quase dava um romance. Na carreira de tiro que havia lá para os lados do aeroporto (lembras-te?), esvaziei um cunhete. Há quem diga que foram cinco, não acredito. Certo é que o cano, sem tapa-chamas, rachou. E o Saraiva obrigou-me a pagar a asneira.

Achei, na altura, que ela me tinha sido ingrata, pela vergonha que me fez passar. E que o cap Saraiva era um exagerado. Troquei-a por uma FN, também sem tapa-chamas (ainda estou para saber porque é que eu as preferia assim).

Meses depois, reconciliámos-nos, fizemos as pazes e foi a minha namorada até ao fim. Custou-me tanto a liquidação da dívida que, a partir daí, passei a ser eu a tratar dela. Como tu dizes, com as mãos na massa.

Mário, foste um dos instrutores que me ensinaste a pegar nela. A pôr os meus olhos no cano, a usá-la o estritamente necessário, a trazê-la no colo, com meiguice.

Não vou aqui falar de outras coisas que me ensinaste, que a hora é de honrar a G3. Mas é sempre tempo para publicamente reconhecer que foste um instrutor que nos deixou marcas muito positivas, nomeadamente pelo teu saber e conhecimento daquela terra e daquelas gentes que, eu sei, tanto apreciavas.

vb

(Revisão / fixação de texto, tíitulo, negritos: LG)
___________________

Notas do editor LG:

Guiné 61/74 - P27921: Casos: a verdade sobre... (68): Kalashnikovmania - Parte III: Continuo fã incondicional da G3 (Mário Dias)




 Guiné > Bolama > 1959 > 1º CSM >  O Mário Dias, à direita, assinalado com um círculo verde: no extremo oposto, à esquerda, a vermelho,  o Domingos Ramos (1935-1966, hoje herói nacional da Guiné-Bissau, morto em combate em 10/11/1966, em Madina do Boé; foram camaradas de armas e amigos, tendo frequentado o 1º Curso de Sargentos Milicianos, Bissau.

Foto do álbum do  Mário Dias ou Mário Roseira Dias, sargento comando na situação de reforma, histórico membro da Tabanca Grande (para onde entrou em 17/11/2005);  no TO da Guiné, foi comando e instrutor dos primeiros comandos da Guiné (1964/66), entre os quais alguns dos nossos camaradas da Tabanca Grande, como o Virgínio Briote, o João Parreira, o Luís Raínha, o Júlio Abreu, etc. Passou também por Angola e Macau.  Estava de sargento de dia, no Regimento de Comandos, no dia 25 de Novembro de 1975. 

É uma figura muito respeitada entre os comandos. Na vida civil, é também um conceituado arranjador e compositor musical, a par de maestro de coros. (Tinha um página no sapo.pt sobre partituras corais, que foi descontinuada cpom o fim dos alojamemntos naquele servidor, mas que pode ser consultada em arquivo morto, aqui: https://arquivo.pt/wayback/20071020033005/http://partiturascorais.com.sapo.pt:80/ )

 


Lisboa > Belém > Forte do Bom Sucesso > 24  de Setembro de 2005 > Um reencontro de velhos camaradas, 'comandos', militares portugueses que estiveram na Guiné, tendo participado na Op Tridente (Ilha do Como, de 14 de Janeiro a 24 de Março de 1964)... Quarenta anos depois, tiraram uma foto para a História estes seis bravos da mítica batalha do Como onde a G3 foi posta à prova mas não levou a melhor sobre a AK 47... simplesmente porque esta arma, de fabrico soviético, ainda não equipava a guerrilha.

Entre eles, está o nosso Mário Dias (o segundo, a contar da direita)... Já agora aqui fica a legenda completa (os postos, referentes a cada um, são os que tinham à época dos acontecimentos): 

Da esquerda para a direita: 

(a) sold cond auto João Firmino Martins Correia (CCAV 487 / BCAV 490, e Gr Cmds "Camaleões". 1963/65) (era comandado pelo alf mil 'cmd' Justino Godinho, já falecido, sendo o fur mil 'cmd Mário Dias um dos chefes de equipa):

(b) 1º cabo' cmd0  Marcelino da Mata (já falecido) (pertenceu, neste período,  ao Gr Cmds "Panteras", tal como o fur mil Vassalo Miranda);

(c) 1º cabo Fernando Celestino Raimundo (originalmenmte 1º cabo fotocine); 

(d) fur mil António M. Vassalo Miranda (Gr Cmds "Panteras"); 

(e) fur mil Mário Fernando Roseira Dias (hoje sargento na reforma); 

(f) sold Joaquim Trindade Cavaco (CCAV 487 / BCAV 490, e Gr Cmds "Camaleões", 1963/65).

Fotos (e legendas): © Mário Dias (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Sobre o nosso camarada Mário [Fernando Roseira] Dias, acrescente-se mais o seguinte:

(i) nasceu em 1937 em Lamego;

(ii) foi para a Guiné, com a família, em 1952, ainda adolescente (com 15 anos);

(iii) assistiu à modernização e crescimento de Bissau, capital da Província desde 1943;

(iv) conheceu, entre outros futuros dirigentes e combatentes do PAIGC, Domingos Ramos, de que se vai tornar amigo, na recruta e depois no 1º Curso de Sargentos Milicianos [CSM], que se realizou na Guiné, em Bolama, em 1959;

(v) com o posto de fur mil, partiu, em 29 de outubro de 1963, para Angola, integrando num grupo de Oficiais, Sargento e Praças, do CTIG, a fim de frequentarem um curso de Comandos, no CI 16 na Quibala - Norte, e on se incluía o major inf Correia Diniz; alf mil Maurício Saraiva; alf mil Justino Godinho, 2º srgt Gil Roseira Dias (irmão do Mário), fur mil cav Artur Pereira Pires, fur mil cav António Vassalo Miranda, 1.º cabo at inf Abdulai Queta Jamanca e Sold. At. Inf.ª Adulai Jaló.

(vi) este grupo esteve na origem da criação, em julho de 1965, da Companhia de Comandos do CTIG (CCmds/CTIG), tendo sido nomeado seu comandante o cap art Nuno Rubim, substituído em 20 de fevereiro de 1966 pelo cap art Garcia Leandro;

(vii) em 1966, seguiu para Angola, onde prestou serviço, seguindo a carreira militar;

(x) depois de reformado dedicou-se à música: dotado de grande sensibilidade e talentos artísticos, é mais conhecido por M. Roseira Dias, no meio musical, é autor de inúmeros arranjos musicais de canções populares como a açoriana Olhos Negros, e tantas outras que por aí circulam em Portugal e no Brasil.


2.  Texto de Mário Dias, enviado em 15 de Janeiro de 2008, publicado originalmente a seguir sob o título Em louvor da G3 (edição de Virgínio Briote, com um belíssimo comentário que merece também ser relido ). 

 Justifica-se a repescagem e republicação deste poste: é uma peça fundamental para o debate sobre a G3 "versus" AK47, no contexto da guerra colonial no CTIG, tratando-se para mais de um combatente  com grande experiência operacional. Mas no decurso da Op Tridente (jan/mar 1964), o PAIGC

Sobre a G3 temos 40 referências no blogue. Sobre a AK 47 (ou Kalash), 25. A primeira Kalash capturada pelas NT terá foi no  TO da Guiné em 29/11/1964.  Por outro lado,  e como é sabido, a G3 não  +e mais a arma-padrão do Exército Português.

Passados tantos anos sobre a guerra, continuo fã incondicional da G3

por Mário Dias


É muito vulgar e frequente tecerem-se comentários depreciativos à espingarda G3, quando comparada à AK 47. Em minha opinião, nada mais errado. Analisemos, à luz das características de cada uma e da sua utilização prática, os prós e contras verificados durante a guerra em que estivemos empenhados em África:

(i) Comprimento: G3 - 1020mm; AK47 - 870mm
(ii) Peso com o carregador municiado: G3 - 5,010Kg; AK 47 – 4,8Kg
(iii) Capacidade dos carregadores: G3 – 20 cartuchos; AK47 – 30 cartuchos
(iv) Alcance máximo: G3 – 4.000m; AK47 – 1.000m
(v) Alcance eficaz (distância em que pode pôr um homem fora de combate se for atingido): G3 – 1.700m; AK47 – 600m
(vi) Alcance prático: G3 – 400m; AK 47 – 400m

Passemos então a comparar.
(A) No comprimento e peso:
 A AK47 leva alguma vantagem. A capacidade dos carregadores, mais 10 cartuchos na AK47 que na G3, será realmente uma vantagem?

Se, por um lado, temos mais tiros para dar sem mudar o carregador, por outro lado esse mesmo facto leva-nos facilmente, por uma questão psicológica, a desperdiçar munições. E todos sabemos como o desperdício de munições era vulgar da nossa parte apesar de os carregadores da G3 serem de 20 cartuchos.

O usual era, infelizmente, “despejar à balda” sem saber para onde nem contra que alvo. 
Sem pretender criticar a maneira de actuar de cada um perante situações concretas, eu, durante todas as acções de combate em que participei ao longo de 4 comissões, o máximo que gastei foi um carregador e meio (cerca de 30 cartuchos). 
Por tal facto, em minha opinião, a dotação e capacidade dos carregadores da G3 é mais que suficiente, além de que os próprios carregadores são mais maneirinhos e fáceis de transportar que os compridos e curvos carregadores da AK47.
(B) Quanto ao poder balístico:
Também aqui a G3 leva vantagem pois, embora na guerra em matas e florestas seja difícil visar alvos para além dos 100/200 metros, tem maior potência de impacto e perfuração sendo a propagação da onda sonora da explosão do cartucho muito mais potente na G3, o que traz uma maior confiança a quem dispara e muito mais medo a quem é visado. 
A G3 a disparar impõe muito mais respeito.

Porém, os principais motivos que me levam a preferir a G3 à AK47 (creio que a fama desta última é mais uma questão de moda) são as que a seguir vou referir ilustradas, dentro das possibilidades, com as gravuras acima publicadas.
(C) A importância do silêncio e da rapidez de reacção

Deixem-me, então, começar a vender o meu peixe em louvor da G3. Todos sabemos a importância do silêncio e da rapidez de reacção numa guerra de guerrilha e de como o primeiro a disparar leva vantagem.

Normalmente o combatente numa situação de contacto possível em qualquer lado e a qualquer momento leva geralmente a arma com um cartucho introduzido na câmara e em posição de segurança. Eu e o meu grupo tínhamos bala na câmara e arma em posição de fogo desde a saída à porta de armas do aquartelamento até ao regresso e nunca houve um único disparo acidental. 

Mas, partindo do princípio que nem todos teriam o treino necessário para assim procederem, a arma iria então com bala na câmara e na posição de segurança.

Quando dois combatentes se confrontam, o mais rápido e silencioso tem mais possibilidades de êxito e, nesse aspecto, a G3 tem uma enorme vantagem sobre a AK47. Talvez poucos se tivessem dado conta dos pequenos pormenores que muitas vezes são a diferença entre a vida e a morte.


Um caso concreto:

Vou por um trilho no meio do mato e surge-me de repente um guerrilheiro. Levo a arma em segurança e tenho rapidamente de a colocar em posição de fogo. Do outro lado o guerrilheiro terá de fazer o mesmo. Em qual das armas esta operação é mais rápida e fácil?

 Sem dúvida alguma na G3.

Se olharmos para as gravuras observamos que na G3, levando a arma em posição de combate, à altura da anca com a mão direita segurando o punho dedo no guarda mato pronto a deslizar para o gatilho, utilizando o polegar sem tirar a mão do punho com toda a facilidade e de forma silenciosa passo a patilha de segurança para a posição de fogo e disparo.

E o portador de AK47?

 Sendo a alavanca de comutação de tiro do lado direito da arma e longe do alcance da mão terá que, das duas uma: ou larga a mão do punho para assim alcançar a alavanca de segurança ou então tem que ir com a mão esquerda efectuar essa manobra. Em qualquer das soluções, quando a tiver concluído já o operador da G3 terá disparado sobre ele.

Suponhamos agora que o homem da G3 vê um guerrilheiro e não é por este detectado. A passagem da posição de segurança à posição de fogo, além de rápida, é silenciosa pois a patilha de segurança é leve a não faz qualquer ruído ao ser manobrada. O guerrilheiro não se apercebe de qualquer ruído suspeito e mais facilmente será surpreendido. 

Ao contrário, um guerrilheiro que me veja sem que eu o veja a ele e tenha que colocar a sua AK47 em posição de fogo para me atingir, de imediato me alerta para a sua presença pois a alavanca de segurança dá muitos estalidos ao ser accionada. Assim, não é tão fácil a um portador de AK47 surpreender alguém a curta distância.

Outro caso concreto:

Todos certamente estaremos recordados de quantos vezes era necessário combinar o fogo com o movimento nas manobras de reacção a emboscadas ou na passagem de pontos sensíveis. Nessas ocasiões, em que fazíamos pequenos lanços em corrida para rapidamente atingirmos um abrigo para o qual nos teríamos de lançar de forma a ficarmos automaticamente em posição de podermos fazer fogo (a chamada queda na máscara), a G3, devido à sua configuração era de grande ajuda,  pois, não tendo partes muito salientes em relação ao punho por onde a segurávamos, (o carregador está ao mesmo nível) permitia que de imediato disparássemos com relativa eficácia.

E a AK47? 

Reparem bem naquele carregador tão comprido e saliente do corpo da arma. Como fazer manobra idêntica? Impossível. Mesmo colocando a arma com o carregador paralelo ao solo para facilitar a “aterragem”, isso faz com que tenhamos que perder tempo a corrigir a posição de forma a estarmos aptos a disparar. E em combate cada segundo é a diferença entre a vida e a morte.


(D) Defeitos

Um defeito geralmente apontado à G3 é que encravava facilmente com areias e em condições adversas.

Quero aqui referir que ao longo dos muitos anos da minha vida militar, tanto em combate como em instrução ou nas carreiras de tiro, tive diversas armas G3 distribuídas e nunca nenhuma se encravou. 

A G3 possui de facto um ponto sensível que poderá impedir o seu funcionamento se não for tomado em conta. Trata-se da câmara de explosão, onde fica introduzido o cartucho para o disparo, que tem uns sulcos longitudinais (6 salvo erro)* destinados a facilitar a extracção do invólucro.

 Acontece que se esses sulcos não estiverem limpos e livres de terra ou resíduos de pólvora não se dá a extracção porque o invólucro fica como que colado às paredes da câmara. Se houver o cuidado em manter esses sulcos sempre livres de corpos estranhos,  nunca a G3 encravará. 

Outra coisa que poderá levar a um mau funcionamento é as munições estarem sujas ou com incrustações de calcário ou verdete.

Nós tínhamos por hábito, como forma de prevenir este inconveniente, untarmos as mãos com óleo de limpeza de armamento, para esfregarmos as munições na altura de as introduzirmos nos carregadores. E resultou sempre bem.

São pequenos pormenores que deveriam ter sido ensinados na recruta mas, pelos vistos, nem sempre havia essa preocupação bem como muitas outras que foram, a meu ver, causa de algumas (muitas) mortes desnecessárias.



CONCLUSÃO

Depois de passados tantos anos sobre a guerra, continuo fã incondicional da G3. Se voltasse ao passado e as situações se repetissem, novamente preferia a G3 à AK47.


Mário Dias


[ Revisão / fixação de texto /  negritos / título: LG]

Guiné 61/74 - P27920: Parabéns a você (2476): António Pimentel, ex-Alf Mil Rec Inf da CCS / BCAÇ 2851 (Mansabá e Galomaro, 1968/70)

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Nota do editor

Último post da série de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27910: Parabéns a você (2475): Jorge Picado, ex-Cap Mil Inf, CMDT da CCAÇ 2589 / BCAÇ 2885 e da CART 2732 / COP 6 (Mansoa, Mansabá e Teixeira Pinto (CAOP 1), 1970/72)

terça-feira, 14 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27919: Casos: a verdade sobre... (67): Kalashnikovmania - Parte II: Eu tinha 3 amores... (J. Casimiro Carvalho)




Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho empunhando, para a fotografia, A AK-47,  usada pelo Grupo do Marcelino da Mata, antes ou depois da operação de resgate do ten pilav Miguel Pessoa, cujo Fiat G-91 foi o primeio a ser abatido por um Strela sob os séus de Guileje, em 25 de março de 1973. Ao Casimiro Carvalho chamo-lhe o "herói de Gadamael", foi um dos bravos que ajudou a aguentar àquela posição, juntamente com os páras do BCP 12... O exército ficou-lhe a dever uma cruz de guerra...




Foto nº 2  > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho empunhando, para a fotografia, um RPG 7,  usado pelo Grupo do Marcelino da Mata, antes ou depois da operação de resgate do ten pilav Miguel Pessoa.



Foto nº 3> Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho com a nossa metralhadora ligeira HK-21 que, com ele, "nunca encravava".



Foto nº 4 > Lamego > CIOE > c. 1971 > O soldado-instruendo J. Casimiro Carvalho,  na instrução com a  G3

Fotos (e legendas) : © J. Casimiro Carvalho (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendcagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O José Casimiro Carvalho foi fur mil op esp da CCAV 8350 ("Piratas de Guileje")  e da CCAÇ 11 ("Lacraus de Paunca"), tendo passado por Guileje, Gadamael, Nhacra e Paunca, entre outros sítios, entre 1972 e 1974. 

Nas quatro fotos acima, vemo-lo "aprendendo a amar" a G3 (em Lamego), usando a HK-21 (de fita ) (em Guileje) e depois, em março de 1973, ainda em Guileje, "dando uma voltinha com as gajas do IN", a AK-47 e o RPG 7K47 (*)..

Muito franca e honestamenet ele descobriu, no CTIG, que tinha (ou podia ter tido) 3 amores... O texto que se reproduz, abaixo,  é resultante de um seu  comentário, datado de 26 de novembro de 2010 às 14:58:00 WET, ao poste P7334 (*).

O J. Casimiro Carvalho é um histórico do nosso blogue para o qual entrou em finais de 2005. Tem uma centena de referências. É atualmente o régulo da TabanKa da Maia, cidade onde vive.

Eu tinha três... amores

por J. Casimiro Carvalho


Ele há coisas que não têm explicação.
Uma delas  são as armas.
Eu, em Lamego, adorava a G3.
Na Guiné adorava a HK 21 
falava com ela
ela compreendia-me,
pois eu a conhecia.
Comigo a gaja não encravava.

Posteriormente, já em Gadamael, 
apaixonei-me por aquela outra gaja, a AK 47.
E foi amor duradouro, caramba,
mas a gaja era mesmo boa,
que me perdoe a minha querida G3, 
pois não sou gajo de  traições.

Portanto, temos três gajas,
todas elas boas,
com as suas particularidades,
convenhamos.
Como as mulheres, né ?!

Um abraço deste vosso camarigo,
J. Carvalho

(Revisão / fixação de  texto: LG)


_________________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 25 de novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7334: Kalashnikovmania (4): O fetichismo da G3... Há amores que não se esquecem (Torcato Mendonça)

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
É elevado o número de oficiais do quadro permanente que neste livro aparecem a conversar com os filhos, e vemos que estas crianças, em situações frequentes, conheceram o internato no colégio militar e no instituto de Odivelas. Os pais tinham uma defesa na sua correspondência, acompanhavam os estudos dos filhos. São bem distintas as histórias que hoje aqui têm lugar.
Abílio Santiago Cardoso fez duas comissões em África que deixaram boa memória aos filhos. A terceira comissão é passada na Guiné, na região de Catió, entre 1967 e 1969. É parcimonioso nas descrições do seu dia a dia, os filhos socorreram-se da história da Unidade para saber mais da comissão do pai. Este veio muito abalado, comentam os filhos, demorou a recuperar. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar, os mais velhos revelaram-se contestatários e chegaram a ser presos na contestação ao regime e à guerra, em meio académico portuense. Amável Velez Serra, mal saído da Escola do Exército, ofereceu-se como voluntário, parte para Angola em 1955. Segue-se a Índia onde ficou prisioneiro, voltará a Angola entre 1963 e 1965. Também nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, revelou-se profundamente terno a falar individualmente a cada um dos filhos, busca todos os assuntos, como as prendas de Natal, as aulas de piano e de judo, a catequese. voltará a ser mobilizado em 1970 para Moçambique, e logo a seguir para Angola. Também nunca quis falar com os filhos sobre a natureza das guerras que viveu.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 3

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

É uma longa série de relatos, as autoras captaram perfeitamente a natureza dos laços afetivos, as contingências que perpassam toda esta correspondência onde é por demais evidente que o militar procure silenciar o mundo da guerra em que vive. É o caso de Abílio Santiago Cardoso que assim escreve: “Meus filhos queridos, não me façam mais perguntas sobre este assunto e peçam a Deus que me ajude a cumprir o meu dever.” Vamos agora falar deste oficial de artilharia que fez três comissões.


Só recentemente é que os descendentes, os filhos e as noras de Abílio e Maria Lúcia, ao desmanchar a casa dos pais, encontraram a correspondência trocada durante a comissão militar na Guiné, entre 1967 e 1969.

Abílio teve a sua primeira comissão em Moçambique, em 1955. Ele e Maria Lúcia casaram por procuração e em Lourenço Marques nasceram os três filhos mais velhos. No regresso, em 1956, a família vai para Penafiel, ficando a viver no quartel, foi aqui que nasceu o quarto filho, em 1961.
A segunda comissão foi em Cabo Verde, Abílio leva a família toda, a comissão deixou boas recordações. Regressam a Penafiel. Em 1967 Abílio é tenente-coronel de artilharia vai comandar o Batalhão de Artilharia nº 1913, vão para o setor S3, com sede em Catió, ali vivem na área controlada pelos militares cerca de 6000 pessoas.


Consta do livro da Unidade a descrição do inimigo: “apresenta-se num setor bem instruído, experiente, moralizado e bastante aguerrido". O filho mais novo acompanha a mãe e vão para a Régua, os outros três filhos ficam internos no Colégio Militar. O pai escreve-lhes incentivando-os no desempenho escolar, mostra-se orgulhosos com os prémios que os filhos gémeos recebem. Numa carta Abílio escreve aos filhos: “É necessário que todos nós, os 6, formemos um bloco unido e pronto a ampararmo-nos uns aos outros seja em que circunstância for e implique os sacrifícios que implicar.” Os filhos gémeos terão na altura 12 anos. Abílio está acerca de um mês em Catió quando escreve esta carta aos filhos mais velhos:
“É a última vez que vos falo da minha atividade aqui. Operações são coisas muito sérias em que morrem a guerrear uns homens que têm pais, mulheres ou filhos ou todos os parentes mencionados. Claro que se esses homens estão do outro lado, lamentamos o facto de nos obrigarem porque eles assim o quiseram. Quando se trata de homens nossos, o problema é muito doloroso.”


Os filhos que irão conhecer a realidade da comissão através do tal livro da Unidade. O Batalhão aposta na ação psicológica e no apoio social. Há população que estava sob o controle do inimigo que se apresenta nos aquartelamentos do Batalhão. Este regressou a 2 de março de 1969. Em combate teve 26 mortos e 137 feridos. Nos tempos subsequentes à chegada do pai a guerra não era tema de conversa. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar. Abílio foi sempre aos almoços de confraternização, era muito querido entre os seus antigos subordinados.

É a vez de falar de Amável Velez Serra, que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade. Tinha feito a Escola do Exército, a sua primeira comissão foi em Angola. Casa-se por procuração em 1957 com Maria Julieta Rogado. O primeiro filho nasce um ano mais tarde em Benguela, e no ano seguinte, nasce uma filha em Nova Lisboa, permaneceram em Angola quatro anos.

Em 1961, Amável, já como capitão, é mobilizado para a Índia, a família acompanha-o. Pouco antes da invasão pela União Indiana, a mãe regressa com dois filhos e grávida do terceiro. Amável é preso. Regressa e é novamente mobilizado para Angola, a partir desta terceira comissão a família não acompanha o pai. Amável ficará em Angola entre 1963 e 1965, receberá a visita da mulher e do filho mais novo.

Em 1966, começa em Évora a constituição do Batalhão de Caçadores n.º 1903, Amável vai novamente para Angola, vão para Zau-Evua, há uma grande dispersão da população por sanzalas, grande parte da população fala português. Seguem-se outras deslocações, o Batalhão regressa em junho de 1969. Durante estes dois anos de ausência, Amável nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, fala sempre do quotidiano dos filhos, é muito terno na escrita.

Amável voltará a ser mobilizado em 1970, para Moçambique, onde ficou mais dois anos. E logo a seguir para Angola onde se encontrava quando se deu o 25 de abril. Os filhos não encontraram correspondência que o pai tivesse enviado destas comissões, embora recordem que ele escrevia com regularidade, sobretudo os pais entre si, e também os filhos recordam que o pai nunca falou de situações pelas quais tivesse passado durante o período em que esteve mobilizado, nem sequer do tempo em que esteve preso na Índia, nem mesmo com o filho mais novo, que seguiu a carreira militar.

Itinerários diferentes são o que iremos reportar a seguir, envolvendo Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, Oficial da Marinha, que deixou uma correspondência singularíssima, e de Pedro João dos Santos Reis, Oficial da Arma de Infantaria. Recordamos ao leitor que estamos a passar em sequência a correspondência entre pais mobilizados e os seus filhos menores durante a Guerra Colonial. Em aerogramas escritos e desenhados, o militar vai desempenhando o seu papel de pai. Os filhos, por seu lado, consoante a idade, vão respondendo da maneira que conseguem, por vezes a com a ajuda das mães. Esta troca de correspondência oferece-nos uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27917: Efemérides (385): "Para o Adriano", poema do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

A propósito da passagem dos 84 anos do nascimento de Adriano Correia de Oliveira, ocorrida no passado dia 9 de Abril, publicamos um poema do nosso camarada Adão Cruz, que lhe é dedicado, no meio de cujos versos aparecem títulos de algumas das canções do Adriano.

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA
(PORTO, 9 DE ABRIL DE 1942 - †16 DE OUTUBRO DE 1982)



PARA O ADRIANO

adão cruz

Nota: Este poema foi construido com versos meus e alguns títulos de canções do Adriano (a negrito).


E de súbito um sino
um cravo vermelho
Raiz de vida no céu de chumbo
aberto em dia limpo e perfumado.
E a carne se fez verbo
Por aquele caminho da esperança
às portas da cidade
E o bosque se fez barco
por aquele mar de sonho
na Trova do vento que passa.

Todo o mel escorria por entre As mãos
e todos os frutos do Regresso
eram versos de Uma canção sem Lágrimas
na Canção da nossa tristeza.
Graças a ti cravo vermelho
que venceste a solidão
veio o tempo ao nosso encontro
e a manhã abriu o coração
na Fala do homem nascido.

O sol perguntou à lua
quando A noite dos poetas se fez de estrelas
que desceram aos cantos do jardim
se eram cravos vermelhos
ou a Canção tão simples
da tua voz sempre divina
numa Cantiga de amigo.

O mundo tinha o sabor a maçã
não havia cárceres nem torturas
apenas o calor de uma fogueira
na praça do entusiasmo.
Os olhos de todos nós
eram cravos vermelhos
dormindo um sono de criança
entre As mãos da revolução.

Como hei-de amar serenamente
esta voz de Roseira brava
e os cabelos trigueiros desta seara
dourada pelo sol e pela lua
a Cantar para um pastor
a canção de Abril que encheu a rua.

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Nota do editor

Último post da série de 24 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27852: Efemérides (384): Foi há 10 anos que morreu (de verdade) o nosso querido "morto-vivo", o António da Silva Batista (1950-2016), ex-sold at inf da CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972), natural da Maia

Guiné 61/74 - P27916: Convívios (1058): Magnífica Tabanca da Linha, Algés: 64º almoço-convívio, 5ª feira, 16 de abril de 2026: já somos 72, venham mais 8, para o melhor cozido à portuguesa... da Guiné; prazo para as últimas inscrições: até amanhã, 3ª feira, âs 11h00 (Manuel Resende, régulo)



1. Ontem, domingo, às 22h25, havia 72 inscritos. O régulo da Magnífica Tabanca Linha, Manuel Resende,  pede mais 8 para completar as mesas e encher o magnifico salão do último andar do restaurante "Caravela de Ouro", em Algés. Quinta feira vai ser servido o melhor cozido á portuguesa... da Guiné.  

Há 10 "periquitos". Faltas tu, camarada, que nos lês, e não importa onde vivas, norte, centro ou sul do país... Estás convidado, desde que te inscrevas até amanhã âs 11h00. Há camaradas que vêm, de propósito,  do sotavento algarvio, portanto os "magníficos"  não apenas os "meninos da Linha"...   

E olha que no céu não há disto e, cruzes canhoto!, nunca se sabe quando é o nosso último cozido à portuguesa na Magnífica Tabanca da Linha...

Este, por acaso, é o primeiro, de muitos que ainda poderemos "degustar", se Deus, Alá e os Bons Irãs nos protegerem e não nos privarem dos cinco sentidos. 

Entradas +  cozido +  sobremesas +  3 horas de bom convívio: tudo por 28 morteiradas. Aberto a todos os magníficos amigos & camaradas da Guiné. (Mas se forem de Cabo Verde, São Tomé, Angola, Moçambique, Goa Damão & Díu, Macau ou Timor, ou da Diáspora Lusófona,  também serão bem vindos... desde que sejam antigos combatentes; o régulo mandou 250 convites... e deixou 10 linhas em branco para os "periquitos"; vão responder quase um 1/3, o que é excecional nos tempos que correm, com uns a gritar "Ai o meu braço!", e outros a gemer "Ai o meu baço!"...)

Brincadeira àparte, aqui fiocam os contactos do régulo Manuel Resende: Tel. 919 458 210 | manuel.resende8@gmail.com | 
magnificatabancadalinha2@gmail.com | Facebook da Magnífica Tabanca da Linha


Caros Magníficos;

A meta dos 70 já foi atingida. Será que vamos chegar a 80 no 64º Convívio? 

Estamos com 72 convivas.

As inscrições estão quase a terminar. 

Às 11 horas de terça-feira tenho de dizer quantos somos.

Manuel Resende
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 9 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27905: Convívios (1057): Magnífica Tabanca da Linha, Algés: 64º almoço-convívio, 5ª feira, 16 de abril de 2026: já há 54 inscritos para o cozido à portuguesa... Faltam 26 para os 80 (Manuel Resende)

Guiné 61/74 - P27915: Casos: a verdade sobre.... (66): Kalashnikovmania - Parte I: Até Moçambique (embora caso único no mundo...) tem na bandeira, símbolo nacional por excelência, a imagem da famigerada AK 47


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CAOP1 > 35ª CCmds (Teixeira Pinto, 1971/73) > Março de 1972 > "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu."... Na foto, o alf mil 'cmd' Alfredo Campos, empunhando uma AK-47 .


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CAOP 1> 35ª CCmds (Teixeira Pinto, 1971/73) > Março de 1972 > Estrada Teixeira Pinto - Cacheu > Outro camarada da 35ª CCmds, que se rendeu aos encantos da AK-47, o alf mil 'cmd' António Rui de Mendonça Andrade, açoriano, que, mais tarde, após a evacuação do comandante da 35ª CCmds (cap mil inf 'cmd' António Joaquim Alves Ribeiro da Fonseca, ferido em combate)  foi graduado em capitão para assumir o comando daquela companhia a que pertenceu também o nosso grão-tabanqueiro Ramiro de Jesus, aveirense, tal como o Francisco Gamelas)

Fotos do álbum do Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Bandeira de Moçambique, adotada em 1983. Imagem do domínio público. Fonte: cortesia de Wikipedia.

Legenda: bandeira nacional da República de Moçambique:

(i) uma bandeira tricolor com fimbriações brancas e um triângulo vermelho;

(ii) o verde-azulado representa as riquezas da terra, as bordas brancas significam a paz, o preto representa o continente africano, o amarelo simboliza os minerais do país e o vermelho representa a luta pela independência:

(iii) Inclui a imagem de uma espingarda automática Kalashnikov (AK-47) com uma baioneta fixada ao cano e cruzada a uma enxada, sobrepostos a um livro aberto;

(iv) a AK.47 representa a defesa e a vigilância, o livro aberto simboliza a importância da educação, a enxada  está associada á  agricultura e aos camponeses
 e, por fim,  a estrela  exalta o internacionalismo do país;

(v) é uma das quatro bandeiras nacionais entre os Estados-membros da ONU que apresentam uma arma de fogo, junto com as da Guatemala, Haiti e Bolívia.


1. Pode-se falar em kalashnikovmania, definida como uma forte atracção pelo armamento do... IN ? 

No TO da Guiné, incluía sobretudo a AK-47 mas também outras armas (como a "costureirinha"  e o RPG) ... 

Se a resposta é sim, esta tendência não era exclusiva dos nossos "rambos" na Guiné... Chegou inclusive à simbologia nacional de um país lusófono como Moçambique. E ao cinema: veja-se o filme Lord of War / O Senhor da Guerra (2005)...

Kalashikovmania:

Trata-se de um neologismo, inventado pelos editores do blogue da Tabanca Grande, que "paga direitos de autor"; um dia irá figurar nos novos Dicionários da Língua Portuguesa, como muitos outros termos que usávamos na guerra (por exemplo, dila=dilagrama, LGFog=lança-granada foguete, ameixa=granada, lobo mau= helicanhão).

Curiosamente, a bandeira de Moçambique [imagem acima], na actual versão (que vem de 1983), ostenta a AK-47, de origem russa, arma-padrão dos guerrilheiros da FRELIMO, bem como do MPLA e do PAIGC , que passou a ser símbolo nacional (!) da luta armada e da defesa do país de Samora Machel 

Registe-se que  é a única bandeira no mundo a ostentar uma arma de fogo  moderna (ainda por cima, estrangeira)... 

Singularidades da lusofonia ?... Dessa tentação, ao menos, livraram-se os nossos amigos guineenses.

 

Cartaz do "Lord of War", filme norte-americano de 2005, com Nicolas Cage, e que  passou em Portugal com o título O Senhor da Guerra (tradução literal)- 

 Cage interpreta a personagem de Yuri Orlov, um traficante de armas perseguido pela Interpol, que no filme faz o elogio da AK 47 (confesso que não o vi). 

Esse monólogo é de antologia pela forma irónica e crítica como o traficante promove a famigerada AK-47 (o mesmo é dizer, a kalashnikovmania). Eis aqui um excerto, com tradução para português:

(...) De todas as armas do vasto arsenal soviético, nenhuma foi mais lucrativa do que o Avtomat Kalashnikova, modelo de 1947, ais conhecida como AK-47, ou Kalashnikov.

É a espingarda de assalto mais popular do mundo. Uma arma que todos os combatentes adoram.

Uma combinaçáo, simples mas elegante, o de cerca de quatro quilos de aço forjado e madeira prensada.

Não se parte, não encrava, não sobreaquece. Dispara sempre, mesmo coberta de lama ou cheia de areia.

É tão fácil de usar que até uma criança a consegue manejar — e usam-na, as criancinhas por esse nundo fora-

Os soviéticos cunharam uma moeda com a sua efígiue. Moçambique colocou-a na sua bandeira, símbolo nacional.

Desde o fim da Guerra Fria, a Kalashnikov tornou-se o  maior produto de exportação dos russos.  
Depois vêm a vodka, o caviar e os romancistas suicidas.

Uma coisa é certa: ninguém fazia bicha  para comprar os carros soviéticos. (...)

2. Contexto histórico

A AK-47 foi desenvolvida por Mikhail Kalashnikov no final da década de 1940, em plena consolidação da União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. 

A sua grande vantagem seria, alegadamente, a simplicidade, a robustez, o preço/qualidade  e o baixo custo de manutenção,  características ideais para a sua produção em massa e distribuição a exércitos e movimentos aliados (incluindo os que lutavam "contra o colonialismo e o imperialismo"). 

Durante a Guerra Fria, e num mundo bipolarizado, 
a União Soviética forneceu a AK-47 a inúmeros países e "movimentos de libertação" em África, Ásia e América Latina.

 Isso fez com que a arma, licenciada ou contrafeita,  se tornasse não apenas um instrumento militar, mas também um poderoso símbolo político. E mais: foi um eficaz instrumento da diplomacia soviética... Como,  de resto, são todos os produtos dos fabricantes de armas.

O caso de Moçambique é um exemplo dessa "idolatria" ou "fetichismo" pela AK-47. É o único país do mundo (e ainda por cima lusófono!)  cuja bandeira nacional inclui uma arma de fogo moderna... 

Quer se goste ou não, o raio da Kalashnikov transcendeu o seu papel técnico (de arma de guerra ou "brinquedo de morte") para se tornar um ícone histórico.

Mas façamos uma pequena análise do tom crítico e irónico do supracitado  discurso de Yuri Orlov (a personagem de Nicolas Cage, no filme O Senhor da Guerra):

É um monólogo brilhante porque funciona em dois níveis:

(i) há uma aparente admiração técnica:  à primeira vista,  ele descreve a AK-47 com entusiasmo quase reverencial (“elegantemente simples”, “não encrava, não sobreaquece”, “até uma criança a consegue usar”); é a linguagem típica dos fabricantes e dos comerciantes, focada na eficiência, durabilidade,  design, preço/qualidade do produto;

(ii) mas, nas "entrelinhas", há uma ironia sombria, um  subtexto moral, profundamente crítico: o facto de qualquer criança-soldado  a poder usar (como podemos ver em imagens que nos chegam de  África, e até nas "áreas libertadas do PAIGC"  no nosso tempo, como nesta foto à direita, de Roel Coutinho), é profundamemte perturbador. 

De facto, a  sinistra “popularidade” da AK-47  
resulta da sua difusão em massa.


Criança-soldado do PAIGC

Em guerras, muitas delas civis e fratricidas.  E a referência  a Moçambique está longe de ser lisongeira...

A frase sobre “romancistas suicidas” e carros que ninguém quer comprar  (mesmo a preços de saldo...) introduz um humor negro que ridiculariza os estereótipos sobre a Rússia, faz contrastar bens culturais (literatura) com bens destrutivos (armas), sugere que o verdadeiro “sucesso” económico  e social do antigo país dos sovietes é algo de ainda profundamente problemático.

Enfim, no monólogo  do cínico  traficante de armas há uma crítica sujacente ao negócio global de armas, ao mesmo tempo que promove a kalashnikovmania... 

No fundo, o monólogo desmonta a lógica do mercado: a AK-47 é apresentada como o produto perfeito porque aumenta a "literacia de guerra", facilita a instrução  militar e paramilitar, ogimiza a violência em massa, banaliza a "violência revolucionária", usa a lógica redutora do  mundo dividido em opressores e oprimidos... 

 Ou seja, o discurso imita uma apresentação 
e vendas ( quase um pitch comercial),acabando 
por  expor o absurdo moral de tratar  "armas de guerra" como um qualquer outro produto de consumo.

Quem viu (e se lembra de) o filme, faz uma leitura mais profunda: o que é mais inquietante é que Yuri não está a mentir. Tudo o que ele diz é factual, mas a seleção e o tom criam uma espécie de “verdade desconfortável”: a eficiência tecnológica + a lógica de mercado + a geopolítica = uma arma, a AK-47, a dos "oprimidos", que moldou e alimentou conflitos em todo o mundo.

É isso que dá força ao texto: não é um discurso ideológico explícito, mas uma descrição fria que acaba por ser também, implicitamente,  uma crítica devastadora da kalashnikovmania (o culto da AK-47 e de todas as outras tecnologias de guerra e morte).

E aqui, temos que o reconhecer, não há "armas em boas mãos"...

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA / ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 31 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27874: Casos: a verdade sobre... (65): o acidente com canhão s/r 82, B-10, russo, que vitimou o 2º srgt António Duarte Parente, do Pel Caç Nat 53, no Saltinho, em 13 de maio de 1970