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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28317: Tabanca Grande (585): Rui Osório Oliveira, natural do Porto, a viver e,m Aveiro, senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 918... Foi fur mil trms, CART 2742 / BART 2920 (Fajonquito, 1970/72)


Rui Osório Oliveira, ex-fur mil trms, CART 2742 (Fajonquito, 1970/72)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L2 (Bafatá) > Fajonquito > CART 2742  (1970/72) > O fur mil trms Rui Osório Oliveira

A CArt 2742, unidade de quadrícula do BART 2920 (Bafatá, 1970/72),    seguiu em 03Ag070 para Fajonquito, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2436, assumindo, em 13Ag070, a responsabilidade do respectivo subsector, com forças destacadas em Cambajú, Sumbundo, até 24Set70 e Ualicunda, de 24Set70 a Jul71 e Sare Uale, a partir de finais de Jun71.

Em 21Mai72, foi rendida no subsector de Fajonquito pela CCaç 3549 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Comandantes: Cap Art Carlos Borges de Figueiredo | Alf Mil Art Baltazar Gomes da Silva

Fotos (e legendas): © Rui Osório Oliveira (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


1. Mensagem do nosso camarada Rui Osório Oliveira, novo membro da Tabanca Grande, nº 918: natural do Porto, vive em Aveiro.


Data - 19 jun 2026, 08:01

Caro camarada

(i) Obrigado por teres publicado a narração dos factos reais (*);  no entanto,  e se não fosse abusar, pedia-te as seguintes correcções: 

Corrigir o poaste P28072 (*):

1. Rui Osório Oliveira, F.N. 07460068 | Endereço de email: (...)

2 (...) Analista de Sistemas, Funcional e Programador TIC. Vive na Torreira, Aveiro (...)

3. (...)  Também sempre senti na pele que, pelo facto de dormir fora, numa morança, com outro furriel, Alcino Silva (...) 

4. (...) Valeu o relatório efectuado por um membro da comitiva do general Spínola (...)

5. (...) corpo, levantamento dos seus pertences e cremação no cemitério de São João, voltamos para o Porto (...)
 

(ii) O que tenho que fazer para ser membro da Tabanca Grande?

Um abraço

Rui Oliveira
AC 101 517 505
ICT System Engeneering
ICT Functional Analysis
WEB.3 - Blockchain
New Business Development
UN Online Volunteer 2010 AWARD

II. Mensagem anterior, com data de 8 de junho de 2026:

Data - segunda, 8/06/2026, 11:40
 
Luís Graça,

Obrigado pela sua mensagem e muito especialmente pelas suas palavras, é do fundo do coração que lhe dou grande abraço (*)

Há anos que tinha vontade de narrar os factos realmente ocorridos, mas só o ter de relembrar tudo, era extremamente penoso.

Até que no ano passado comecei a escrever a Biografia, foi quando fui ganhando coragem, para ir escrevendo a pouco e pouco o dia de Páscoa de 72.

Quando terminei de escrever, tomei a decisão de vos enviar a narrativa, contribuindo com o relato de quem esteve presente no acidente.

Vou-lhe contar ainda algo que só alguns sabem e para o  que solicito completo sigilo. (...)

Agora, que já tornei público o que se passou (*), foi verdadeiramente catártico para mim; um peso saiu-me dos ombros a a paz e calma volta ao meu ser. Creio que só agora consigo encerrar o passado...

Rui 

II. Comentários do editor Luís Graça

(i) Data - segunda, 15/06/2026, 18:38

Meu caro Rui: sinto-me também "recompensado" por, de algum modo, o ter ajudado a "exorcizar" estes "fantasmas" da guerra... 

Estes são fantasmas reais, e perseguem-nos durante anos e anos. Fez bem em escrever, passar para o papel ou o computador as memórias dolorosas desse dia trágico. 

 Quem ainda não tem pesadelos direta ou indiretamente associados à guerra da Guiné ? Todos os temos, eu também os tive, este blogue que criei (e que tenho mantido com a participação ativa de muitos mais camaradas) também teve/tem essa função catártica... Chamámos-lhe... blogoterapia.

Vejo que escreveu uma biografia. Ou autobiografia. É só para si ? É para si e um círculo restrito de amigos e familiares ? Tem o nosso blogue para partilhar alguns excertos, à sua escolha, se assim o desejar ou bem entender...Temos camaradas da sua arma, de transmissões. Podemos criar uma série só para si... 

E fica de pé o convite para ingressar na Tabanca Grande. Interpreto as fotos pessoais  que me mandou como a aceitação tácita do meu convite. Posso "sentá-lo"  no lugar nº 918, à  sombra do nosso polião ? Já vi que segue o nosso blogue. 

Naturalmente que as confidências que me fez, sobre as reações de alguns camaradas a seguir á  tragédia,  ficam só entre nós. Há segredos que não se partilham, ou só em círculo muito restrito. Desejo-lhe uma boa continuação da caminhada pela "picada da vida". 

Boa saúde, bom trabalho. Um alfabravo fraterno, Luís Graça 

(ii) Data - sexta, 19/06, 08:34

Rui. não abusas nada. O blogue é teu, é nosso. Vou fazer as pequenas correções que me pediste.

Doravante tratamo-nos por tu, como mandam as nossas regras editoriais (bvd. aqui o nosso livro de estilo).  

Sou ligeiramente mais velho do que tu (sou de 1947). Estive na tua zona (no CIM de Contuboel a dar instrução aos nossos futuros soldados guineenses, da CCAÇ 2590/CCAÇ 12, em junho e julho de 1969, e depois vim parar ao sector L1, onde estivemos como unidade de intervenção; aquartelados em Bambadinca; nunca cheguei a ir a Fajonquito, fui apenas duas vezes a  Sonaco).

Tenho tudo para te apresentar aos amigos e camaradas da Guiné, incluindo as fotos de "ontem e de hoje"... 

Não divulgo o teu endereço de email, é só para uso interno. Passarás a ser o nº 918(***). 

 Espero que continues a enriquecer as nossas memórias comuns com mais textos, fotos, etc. Já vi que tinhas máquina fotografica na Guine.

Fico/ficamos muito honrado(s) com a tua presença, a partir de agora,. aqui sentado à sombra do nosso frondoso, fraterno, simbólico poilão da Tabanca Grande (onde cabemos todos com tudo o que nos une e até com o que nos pode separar).

Temos vários camaradas de Aveiro (ou residentes em Aveiro). Eu vivo entre a Lourinhã e Alfragide/Amadora, com idas também ao Norte (Costa Nova / Ílhavo, Porto, Candoz/Marco de Canaveses).

Um alfabravo, Luis 

PS - Rui,  outra coisa: podemos dar-te os parabéns no dia dos teus anos ? E a tua foto atual, é esta que queres usar no blogue ? E o nome, Rui Oliveira ou Rui Osório Oliveira ? Qualquer um deles está disponível na nossa lista não temos ninguém com o teu nome...Para já fica Rui Osório Oliveira.
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Nota do editor LG:


(**) Vd. pposte de 4 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27601: O Nosso Livro de Estilo (19): Política editorial do blogue

(***) Último poste da série > 20 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28196: Tabanca Grande (584): Eduardo Brito de Azevedo, ex-alf mil inf, GA 7 (dez 1973/out 1974): guardo, acima de tudo, boas recordações da Guiné, das noites africanas, das pessoas que conheci, do ambiente humano...

Vd. poste de 14 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28183: Tabanca Grande (583): Eduardo Manuel Vieira de Brito de Azevedo, ex-Alf Mil Inf do GA 7, 1973/74, grão-tabanqueiro n.º 917

Guiné 61/74 - P28316: Luís Gonçalves Vaz, Amigo Grã-Tabanqueiro, ex-Fur Mil PE (EPC, 1983/84)

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Nota do editor

Último post da série : 1 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28310: Parabéns a você (2521): Manuel Joaquim, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 1419 / BCAÇ 1857 (Bissorã e Mansabá, 1965/67)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28315: Convívios (1073): Regressámos - Aviso da Tabanca do Centro que anuncia também o próximo convívio para o dia 25 de Setembro

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Nota do editor

Último post da série de 30 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28306: Convívios (1072): Rescaldo do almoço/convívio do pessoal da CCAÇ 816, levado a efeito em Maio passado na linda cidade de Aveiro (Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil)

Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Graças à preciosa colaboração da Biblioteca da Sociedade de Geografia, encontrou-se o mapa contemporâneo desta viagem do Capitão Brosselard que de Bolama desceu ao rio Nuno, subiu o Compony e já está em Kandiafara e conjuntamente com o seu colega português irão em direção a Dandum. É uma narrativa muito impressiva, recheada de pormenores, há quem procure a ligação entre o rio de Buba e o Corubal, a coluna já foi fustigada por um ataque de abelhas, nos acampamentos andam as cobras em perseguição dos ratos, jovens Fulas carregadoras ameaçaram fazer greve, a vegetação é deslumbrante e agora chegámos ao território de um caçador lendário Mahmadou-Guini, estamos na fronteira entre o Forreá e o Futa-Djalon, este caçador Fula, que se socorre de uma legião de pisteiros anda à procura de elefantes na região do Corubal francês, iremos seguidamente assistir a uma caçada de elefantes, onde ocorrerá uma tragédia.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 10
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Ocorreu a chegada do comissário português a Kandiafara, em 25 de fevereiro. A 28, Brosselard declara ao colega português a sua intenção de prosseguir. Estavam asseguradas as provisões, armazenadas a 40Km a leste, na povoação de Koumataly; não havia mais nada a fazer nesta região onde estavam imobilizados, tudo estava completamente estudado e os dois comissários puseram-se de acordo sobre o estabelecimento da fronteira deste a ponte da Cajet até à região vizinha de Kandiafara. O Sr. Oliveira decidiu que partiria conjuntamente com a comissão francesa; organizou uma pequena coluna de carregadores e de soldados e convidou o Sr. Cabral a esperar a vinda do grosso da coluna das provisões que deviam chegar em breve, sob o comando do Capitão Bacelar. O Sr. Galibert recebeu a missão de ir reconhecer o curso do Corubal, estudar o problema geográfico da comunicação deste rio com o rio Grande de Bolola e de regressar a Bissau para tomar posse da coluna de abastecimentos que ele conduziria até Geba. O Sr. Galibert deixou Kandiafara em 29 de fevereiro.

A 1 de março, a comissão franco-portuguesa deixa Kandiafara e começam as operações de reconhecimento da região compreendida entre o rio Cogon (ou rio Compony) e o Koliba (nome francês para o rio Grande de Bolola). No dia seguinte fez-se paragem no riacho de Kével. Uma esplendida vegetação, escreve Brosselard, envolve o riacho numa semiclaridade; estamos à sombra de magníficos poilões. Esperávamos descansar antes do almoço quando ouvimos gente a gritar e apercebemo-nos de que o burro do Sr. Oliveira vinha aos saltos na nossa direção. O burro escoicinha, salta e rola; fora atacado por uma nuvem de abelhas que o perseguem; só o largam para se lançarem à esquerda e à direita sobre os negros e os oficiais. Os fumos das cozinhas perturbam-nas no seu sossego e elas vingam-se à sua maneira. A debandada é geral; os negros, desprovidos de roupa e surpreendidos nas suas abluções, sofrem cruelmente com os ataques das malditas. O campo de batalha pertence ao inimigo. Impunha-se organizar um cerco para inverter as posições. Os indígenas avançam então metodicamente, protegidos, não pelo tradicional cesto de vime cheio de terra, mas com enormes fachos incendiários; aos poucos conseguem fazer recuar o inimigo e asseguram a posse das posições laboriosamente conquistadas, lançando a chama e o fumo de todos aqueles autênticos archotes. Depois almoçámos tranquilamente, os olhos um pouco picado pelo fumo, estávamos envolvidos por uma nuvem protetora.

Na confluência do Kével, o Cogon espraia-se, magnífico, com uma largura de mais de duzentos metros e uma profundidade de metro e meio ao pé das margens. A corrente é pouco sensível, as águas são muito claras e permitem ver uma multidão de peixes em movimento. Os crocodilos e os hipopótamos são numerosos, eles parecem disfrutar de uma segurança absoluta, mostram as suas enormes cabeças e olham-nos com espanto.

À noite, chegámos a Koumataly. Este povoado está situado sob a margem esquerda do riacho do Talidiol, uma autêntica barreira de vegetação, intransponível fora da passagem construída por cima do lugar. Uma cinquentena de casas estavam muradas por uma dupla cerca de caniços entrançados. É um caminho que permite ir ao Cogon ou de subir na floresta e andar sobre os planaltos, podendo permitir, no presente caso, aos negros protegidos pelas cercas de caniços entrançados, de contra-atacar e também de assegurar o abastecimento. O riacho de Talidiol constitui uma admirável linha de defesa para fechar a estrada de Kadé. Aliás, os Fulas ficaram muito tempo em Koumataly, antes de empurrar os seus colonos para as ricas regiões de Contabane e de Guidali. Fortificados na povoação, eles puderam repelir com sucesso todas as tentativas de regresso dos Biafadas.

O cabo Sidi tinha construído uma instalação muito confortável à sombra de enormes toldos. Este palácio de bambu e de colmo compunha-se de quatro divisões, com portas e janelas. Infelizmente o arvoredo que nos protege com a sua sombra impenetrável está povoado de cobras que se deixam cair durante a noite sobre o teto da nossa habitação, a perseguir os ratos que vêm à procura das nossas provisões. As idas e vindas destes animais produzem na palha da habitação um barulho infernal que nos impede de dormir.

Em Koumataly nós contratámos mulheres e raparigas porque era impossível procurar carregadores. Para resolver a dificuldade dos transportes, decido que o intérprete Ibrahima se deve dirigir a Kadé para falar com Mody-Yaya, levará ricos presentes e pedirá sessenta carregadores e cavalos; juntar-se-á à missão em Dandum. Importa assegurar-se da boa vontade do rei de Kadé. A 7 de março continuámos as nossas operações para leste. A região onde estão povoações como Koumataly e Saala parecem-nos bem cultivadas. A presença das belas raparigas Fulas, sempre dispostas a brincar e a rir, espalha um pouco de alegria na coluna; mas estas jovens recusam continuar na coluna, com o pretexto de que faz demasiado calor e que vão morrer de sede; este seu comportamento obrigou a fazer uma paragem dos outros carregadores e obrigam-nos a tomar medidas repressivas. Em 8 de março acampámos no riacho de Nianta-Fara, constatou-se haver por toda a parte indícios de panteras, e apurou-se que o gigantesco arvoredo que cobria o bivaque estava cheio de cobras. Os negros fizeram grande fogueiras para afastar os visitantes indesejáveis.

As raparigas, que não têm vestuário para se abrigarem, juntaram-se à volta de uma fogueira que as protege da humidade noturna. Para pôr termo às suas intermináveis conversas, distribuíram-se alguns cobertores, o que lhe permitiu deitarem-se e dormir. O campo parece mergulhado no silêncio, mas fomos rapidamente alvoraçados pelos rugidos das feras que devem estar descontentes de nos ver instalados nos seus domínios; os macacos respondem em concerto, toda a gente desperta e as jovens Fulas retomam as suas conversas. A 9, atravessámos o belo riacho de Laballére, considerado como fronteira do Forreá e do Futa-Djalon. A região é selvagem, acidentada e muito arborizada e assim chegámos exaustos à povoação de Mahmadou-Guini, o grande matador de elefantes. O Nemrod Fula (referência a Nemrod, um grande caçador da Baixa Mesopotâmia) instalou-se nesta região desértica e selvagem para estar no centro do seu campo de ação. A região é, de facto, muito abundante em caça; os elefantes são numerosos, sobretudo na margem direita do Koliba, onde se estendem entre o rio e o Geba imensas florestas pantanosas, impenetráveis para o homem.

A trezentos metros da pequena povoação de Mahmadou-Guini, no fundo do riacho, está uma mata onde se erguem árvores seculares; a terra aqui é de uma grande riqueza e os escravos do chefe Fula esforçam-se por destruir a soberba floresta para fazer terras de cultivo. Por todos os lados se veem fogueiras fumegantes ao pé de poilões e outras árvores que têm muitas vezes mais de dois metros de diâmetro na base. De vez em quando ouve-se um estalo sinistro: é um desses gigantes que tombam. Já por terra, deitam fogo ao imenso cadáver e em poucos dias o gigante das florestas fica reduzido a poeira.

Mahmadou-Guini vem visitar Brosselard, é o que iremos contar no próximo texto.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Dá-se ao leitor um pormenor da carta da Guiné Francesa contemporânea da demarcação das fronteiras em 1888. Se o leitor aumentar as dimensões da imagem encontrará as povoações percorridas do rio Nuno para o Compony até Dandum. O encontro com o comissário português, o tenente da Armada Real Eduardo Costa Oliveira deu-se a 25 de fevereiro, em Kandiafara. Daqui partiram as duas delegações conjuntamente.
Fula a cavalo, imagem retirada do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28297: Historiografia da presença portuguesa em África (541): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (9): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28313: (De) Caras (252): Manuel Joaquim (ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67): escreveu-nos o último mail há 4 anos, por razões de saúde do foro oftalmológico deixou de poder ler o blogue... Temos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ele...

 

Manuel Joaquim > Maio de 2022> 
"Vivinho da costa!"


Foto (e legenda): © Manuel Joaquim (2022). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




1. Mensagem do Manuel Joaquim, que vamos publicar com... 4 anos de atraso.

Foi o último mail que recebemos dele, mas escrito por um dos seus netos. Por ser muito pessoal, não o publicámos na altura. Nele fazia confidências sobre o seu estado de saúde, justificando-se por não poder mais acompanhar regularmente o nosso blogue. Ontem voltámos a falar com o Manel. Nems equer falámos deste mail "esquecido na caixa do correio". Mas por ele continua connosco, e fez 85 anos,  achámos que era a altura certa para a publicar.

Recorde-se que o Manuel Joaquim:

(i) é professor primário reformado;

(ii)  foi fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419 / BCAÇ 1857 (Bissorã e Mansabá, 1965/67));

(iii)  é membro da Tabanca Grande desde 1/8/2009;

(iv) tem 114 referências no blogue;

(v) é  autor das séries "Memórias de Manuel Joaquim" e  "Cartas de Amor e Guerra";

(vi) é pai de duas amorosas filhas e avô babado de netos;

(vii) é padrinho do "menino Adilan" (hoje, o nosso amigo José Manuel  Sarrico Conté, uma infeliz história de guerra com um final feliz; também desembarcou no T/T Uíge, no Cais da Rocha Conde d'Óbidos, em 9/5/1967; e partiu com o padrinho no mesmo comboio; foi criado com a família do Manuel Joaquim) (*).

Ontem, ele fez anos (85), falei com ele ao telemóvel: estava a almoçar, feliz, com a família (esposa, filhos, netos). Está relativamente otimista: o seu problema de saúde do foro oftalmológico está  estável, ao fim de 4 anos, estando a ser medicamente acompanhado... Está  fazer tudo para "salvar" a sua vista direita.

Enfim, metaforicamente falando, el ainda consegue "ver luz ao fundo do túnel":  tem autonomia para andar na rua, mas infelizmente não consegue seguir o n0sso blogue. Não pode ler...nem sequer  letras garrafais... Depende dos filhos e dos netos, para ler e escrever. E não me pareceu psiquicamente me baixo: incentiva-nos a continuar a editar o nosso blogue...  

Fiquei feliz por saber dele, apesar dos seus problemas de saúde. Falámos de camaradas que vieram totalmente cegos da guerra como o Arruda (Moçambique) (já falecido) e o Patuleia (Angola),  ambos dirigentes  da ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas. Camaradas que ele conheceu. Eu referi o caso mais concreto do nosso grão-tabanqueiro nº 870,  o Manuel Seleiro, natural de Serpa (**).

O Seleiro, por explosão de uma mina, ficou completamente cego, sem uma mão, só tem dois dedos na outra... Aprendeu a recorrer a um leitor de ecrã, um programa de computador que os deficientes visuais usam para ter mais autonomia no computador, e de modo a facilitar o acesso às aplicações mais populares da Internet.  Com software de síntese de voz e a placa de som do PC, a informação do ecrã é lida,  permitindo o acesso a uma variedade de aplicações de trabalho, educacionais e de lazer, e o envio de informações para uma linha (em braille). Ele não sabe braille, mas tem competências informáticas que lhe permitiram criar e editar um blogue e uma página pessoal. É casado, tem um filho, só pode andar de transportes públicos, a esposa esposa também é deficiente visual (não tem visão lateral).
 
Transmiti-lhe, em meu nome pessoal e em nome da Tabanca Grande, o nosso grande apreço por ele, amizade, camaradagem, solidariedade. E deixo-lhe mais à frente um comentário, mais pessoal,  na sequência da nossa conversa ao telefone. LG
____________________

Data - 19 set 2022, 19:53
Assunto - Manuel Joaquim


Olá, Luís, boa tarde

Aqui estou eu, vivinho da costa!

Em vez de novas palavras, junto um texto e anexo mais duas  fotos da minha chegada da Guiné, as únicas que até hoje vi retratando uma partida de comboio de um cais de Lisboa (*).

 (...) Como vês estou vivo. Pediste-me um sinal de vida e aqui estou eu com a corda ao pescoço, qual Egas Moniz, perante ti e de mais editores pedindo desculpa pelo meu silêncio que mesmo me parecendo inadmissível aconteceu. Estou aqui hoje a dar notícias, já o fiz na página do Facebook da Tabanca da Linha.

Há uns dois anos comecei a ter problemas oftalmológicos cuja causa foi posteriormente diagnosticada como Degenerescência Macular (DM). Em resultado disso, hoje estou sem visão frontal no olho esquerdo e a lutar para que não me aconteça o mesmo no olho direito, onde já há sinais de DM. 

Para “ajudar” , no dia 1 de maio de 2021 sofri um enfarte agudo do miocárdio a que se seguiu um edema pulmonar. Parece-me que a minha recuperação do enfarte vai bem. Vi-me obrigado a emagrecer (15 quilos até agora), sinto-me muito bem assim mais leve e aqui estou dando notícias.

Na prática o meu grande problema é a leitura e a escrita; não consigo fazê-las sozinho. Perdi a assiduidade de leitura deste blogue. A situação está melhor agora com a aplicação de “leitura em voz alta” do computador; o problema é não conseguir ler documentos digitalizados. Para escrever é que é mais difícil, só me valendo da visita de algum dos netos como acontece agora.

Anexo uma foto de hoje para veres como estou rijo (na aparência)!

Termino com votos de saúde para todos vocês meus queridos amigos, que sejam muito felizes! (**)

Um grande abraço

Manuel Joaquim

(Revisão / fixação de texto: LG)

2. Comentário do editor LG: 

Manel, ontem, ao falar contigo pelo telefone, fiquei muito feliz por te ouvir e por saber que estavas aí, à mesa, rodeado pela tua família, a festejar os teus 85 anos.

E fiquei a pensar numa coisa: tu dizes que já não consegues acompanhar o nosso blogue porque não podes ler, devido à DM. Pois então teremos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ti.

Porque há uma coisa que quero que saibas: tu não deixaste a Tabanca Grande. Continuas a ser um dos nossos. O teu lugar à sombra do nosso poilão, é vitalício,  está lá, mesmo que os teus olhos já não consigam ler o que escrevemos.

Temos 114 referências tuas no blogue, temos as  “Memórias de Manuel Joaquim”, temos as tuas “Cartas de Amor e Guerra”, temos a fabulosa saga  do teu "minino Zé Manel": tudo isso faz parte da memória colectiva dos camaradas da Guiné. E tens, sobretudo, muitos amigos que não te esquecem nem te esquecerão, na Tabanca Grande, na Tabanca da Linha, na Ajuda Amiga... 

Tu foste professor. Tem hábitos de aprendizagem, disciplina, curiosidade e capacidade de comunicar. Aos 85 anos, não há nenhuma razão para considerar encerrada a sua aprendizagem tecnológica. Sabes melhor do que nós que nunca é tarde para aprender. E aos 85 anos, não há nenhuma razão para considerar encerrada a tua aprendizagem tecnológica.  

Hoje há leitores de ecrã e síntese de voz muito mais capazes do que em 2022. O neto que te ajuda poderá configurar-lhe o computador ou, talvez ainda melhor, o telemóvel/tablet para ouvires os novos postes do blogue e os comentários dos leitores, em vez de os oleres, como também ditares respostas por voz, em vez de as escreveres. Não precisamos  sequer de recorrer a tecnologia sofisticada. Um áudio de WhatsApp, enviado por uma das tuas  filhas ou por um neto, pode devolver-te uma pequena janela para o mundo da Tabanca Grande.

Repara: se eu te falei do Manuel Seleiro não foi para comparar, relativizar ou atenuar a tua desgraça e o teu sofrimento, mas para te mostrar que a perda da visão não significa necessariamente a perda da autonomia intelectual nem da possibilidade de comunicar.

E, de facxto,  se não conseguires escrever, há uma solução ainda mais simples: falas e nós escrevemos. Tu contas-me uma história da Guiné, ou uma lembrança, ou uma coisa que te venha à memória. Um neto grava. Eu trato do resto, dentro das limitações que também temos. E depois fazemos chegar-te o texto em voz, para que o possas ouvir.  

Não queremos que voltes ao blogue por obrigação. Queremos apenas que saibas que o blogue continua a ser também teu.

E quando me disseres outra vez “Aqui estou eu, vivinho da costa!”, eu fico feliz.

Um grande abraço do teu amigo e camarada,

Luís

(Revisão / fixação de texto, negritos, links: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de  2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28312: O cruzeiro das nossas vidas (32): A partida de comboio, do Cais da Rocha Conde d' Óbidos para Abrantes, do pessoal do BCAÇ 1857, que desembarcou do T/T Uíge em 9 de maio de 1967 (Manuel Joaquim, ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67)

Guiné 61/74 - P28312: O cruzeiro das nossas vidas (32): A partida de comboio, do Cais da Rocha Conde d' Óbidos para Abrantes, do pessoal do BCAÇ 1857, que desembarcou do T/T Uíge em 9 de maio de 1967 (Manuel Joaquim, ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67)


Foto nº 1


Foto nº 1A


Foto nº 1B


Foto nº 1C


Foto nº 1D




Foto nº 1E


Foto nº 2


Foto nº  2A


Foto nº 2B


Foto nº 2C

Lisboa > 9 de maio de 1967 > "Saída do Cais da Rocha Conde de Óbidos de um comboio,  transportando o BCaç 1857, acabado de chegar da Guiné, a caminho de Abrantes. Há a curiosidade de o trânsito estar a ser dirigido por um polícia sinaleiro, popularmente chamado “
' cabeça de giz' ”.

Fotos (e legenda): © Manuel Joaquim (2022). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Mensagem do Manuel Joaquim, que ontem celebrou o seu 85º aniversário,  e que nos chegou com atraso de... quatro anos (!). 

Foi o último mail que recebemos dele, mas não já não escrito por ele, por razões de saúde (que ele nos explicou, em texto anexo, a publicar em próximo poste), mas por um dos netos. A segunda parte será publicada em próximo poste: aí ele faz o ponto da situação do seu estado de saúde. Sendo um mail muito pessoal, não o publicámos na altura.  

Mas junto vinham estas duas fotos, de grande interesse documental, e até agora inéditas. São uma verdadeira viagem no tempo! Uma autêntica "cápsula do tempo" de Lisboa e das nossas vidas de antigos combatentes da Guiné. Têm já 6 décadas!

Merecem ser publicadas na série "O Cruzeiro das Nossas Vidas". Todos temos imagens imperecíveis da nossa partida para a Guiné (incluindo a viagem em..."comboio-fantasma", de noite, como eu, que vim justamente de Abrantes para o cais da Rocha Conde de Óbidos), mas poucos já têm, na memória, os detalhes da chegada, de barco,  muito menos da última viagem de comboio até à unidade mobilizadora (no meu caso, também o RI 2, Abrantes).

A partir daquele dia, com o regresso à "peluda", todos queríamos esquecer os 3 anos de vida que  a Pátria nos roubou...

O Manuel Joaquim foi fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419 / BCAÇ 1857 (Bissorã e Mansabá, 1965/67). Tem 114 referências no blogue. É membro da Tabanca Grande desde 1/8/2009. É autor das séries "Memórias de Manuel Joaquim" e  "Cartas de Amor e Guerra". E padrinho do "menino Adilan" (hoje, o nosso amigo José Manuel  Sarrico Conté, uma infeliz história de guerra com um final feliz; também veio no mesmo T/T Uíge, e partiu com o padrinho no mesmo comboio; foi criado com a família do Manuel Joaquim).

Data - 19 set 2022, 19:53
Assunto - Manuel Joaquim

Olá, Luís, boa tarde.

Aqui estou eu, vivinho da costa!

Em vez de novas palavras, junto um texto e anexo mais duas  fotos da minha chegada da Guiné, as únicas que até hoje vi retratando uma partida de comboio de um cais de Lisboa.

 Aqui trata-se da saída do Cais da Rocha Conde de Óbidos de um comboio transportando o BCaç. 1857 a caminho de Abrantes, no dia 9 de Maio de 1967. Há a curiosidade de o trânsito estar a ser dirigido por um polícia sinaleiro, popularmente chamado “cabeça de giz”.

Um grande e afetuoso abraço do Manuel Joaquim
Viva, meu caro Luís!

2. Comentário do editor LG:
Com a ajuda da IA (Gemini / Google) e pesquisas adicionais (no nosso blogue e na Net), bem como do conhecimento pessoal do local,  melhorámos a legendagem destas duas fotografias históricas, perdidas na nossa caixa de correio. Mas esperamos o concurso dos nossos leitores (e em especial dos lisboetas) para corrirgir ou complementar as legendas.

Lisboa, Alcântara, Cais da Rocha Conde d'Obidos, 9 de maio de 1967.

 Estas imagens (fotos nºs 1 e 2)  captam o momento histórico da saída do Cais da Rocha Conde de Óbidos de um comboio militar. A bordo segue o pessoal do Batalhão de Caçadores 1857 (BCaç 1857). 

Estas imagens imortalizam o momento da partida  do comboio a caminho de Abrantes (onde ficava o RI 2, a unidade mobilizadora do BCAÇ 1857). Também mostram a envolvente de Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Alcântara, Lisboa.

O BCAÇ 1857 acabava de desembarcar do T/T Uíge, da Companhia Colonial de Navegação (CCN) , no Cais da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos.  Era nesta gare marítima  que atracavam habitualmente os grandes paquetes e navios de transporte de carga e passageiros do Ultramar. Era o "cais colonial".
O comboio, repleto de soldados nas janelas, seguia rumo a Abrantes. Na foto nº 1A, em primeiro plano (na  foto nº 2A, já de costas), é possível ver o trânsito a ser dirigido por um polícia sinaleiro, figura icónica da época popularmente conhecida como “cabeça de giz” devido ao seu capacete branco. É uma popular figura do passado. Foi a primeira grande vítima da automatização, neste caso com a introdução dos  primeiros semáforo automáticos em 1971, em Lisboa.  
Nas fotos do Manuel Joaquim, o comboio já está em marcha, vindo da Rocha do Conde de Óbidos (a leste) e a avançar para oeste ao longo da linha de cintura do porto, cruzando a artéria rodoviária na zona do cruzamento de Alcântara/Avenida de Ceuta.

O comboio iniciou a sua marcha nas próprias linhas do cais, porto de Lisboa,  junto à Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos , onde as composições encostavam diretamente para receber os militares recém-desembarcados e as suas bagagens.

A composição circulava pelo Ramal de Alcântara (ramal ferroviário que ligava a zona ribeirinha e o Porto de Lisboa à rede ferroviária nacional), prosseguindo em direção à Estação de Alcântara-Terra   (através do Ramal de Alcântara), de onde engatava na Linha de Cintura para rumar ao interior do país, neste caso, com destino a Abrantes (onde ficava o RI 2, a unidade mobilizadora do batalhão) para o posterior licenciamento das tropas. 

Análise mais detalhada dos elementos e locais identificados nas duas fotografias.

Cruzamento Alcântara / Av 24 de Julho 
 
A composição está a atravessar o entroncamento/cruzamento rodoviário na zona de Alcântara que articulava o tráfego vindo da Avenida 24 de Julho, da zona ribeira e do acesso à tancada de subida para a Ponte 25 de Abril (à data, Ponte Salazar) e Avenida de Ceuta.

Sinalização Direcional (Visível na Foto nº 2): a placa rodoviária em primeiro plano indica explicitamente as direções estratégicas criadas na altura da inauguração da ponte (1966):

  • "Ponte" (com seta a apontar para a rampa de acesso à Ponte Salazar (hoje, 25 de Abril); 
  • "Av de Ceuta" (com seta a indicar a ligação no sentido norte/Avenida de Ceuta).

Na foto nº 1, destaca-se ao fundo o viaduto metálico de acesso à Ponte 25 de Abril (inaugurada escassos meses antes, em agosto de 1966) (diz a IA,mas eu, confesso,  não o consigo ver).

Estação ferroviária de Alcântara-Terra


Na Foto nº 1, temos a Avenida de Ceuta, em Lisboa, vista a partir do cruzamento em direção a Alcântara. 

A estação que vemos à direita é a Estação Ferroviária de Alcântara-Terra. Na imagem, os carris ainda circulavam à superfície à face da estrada, antes de o canal ferroviário ter sido rebaixado e protegido como se encontra hoje em dia. (Não confundir com a estação de Alcântara-Mar, que fica mais abaixo, mais próxima do rio Tejo e junto à Linha de Cascais.)

O vale de Alcântara passou por uma transformação radical a partir da década de 1940 com a cobertura da antiga ribeira para a construção da Avenida de Ceuta, uma obra fundamental desenhada pelo urbanista Groer para ligar o centro e as zonas norte à margem do rio.
 

Polícia sinaleiro (“Cabeça de giz”) / Posto de trânsito

Na Foto 1 (no canto inferior direito) e na foto 2 (ao centro da via, junto a um pequeno estrado circular ou "talude" ou "peanha"), vê-se o polícia sinaleiro da Polícia de Segurança Pública (PSP) (O "Corpo de Policias Sinaleiros" foi criado em 1927, e chegou a ter  270 efetivos. )

A presença desse polícia sinaleiro no meio do cruzamento é um dos pormenores mais fantásticos e autênticos destas duas fotografias de 1967.

Em meados da década de 1960, a figura do sinaleiro era absolutamente vital para gerir o trânsito de Lisboa. O cruzamento da Avenida de Ceuta com a zona ferroviária de Alcântara era um ponto extremamente crítico e perigoso, onde o tráfego rodoviário em crescimento constante se cruzava diretamente com as linhas de comboio à superfície.

O polícia sinaleiro tinha um papel exigente neste local: 

(i) fardamento rigoroso: vestia o clássico uniforme com o capacete branco (perfeitamente visível na imagem), luvas brancas para destacar os gestos e uma farda impecável;  

(ii) coreografia de trânsito: controlava os automóveis através de movimentos de braços muito precisos e elegantes, em cima de um pequeno palanqute; 

(iii) coordenação ferroviária: quando um comboio como este vinha do cais a caminho de Abrantes, o sinaleiro tinha de mandar parar imediatamente todos os carros na avenida para dar prioridade absoluta à composição ferroviária, já que não existiam os automatismos e as barreiras modernas de hoje em dia.

Estes profissionais eram autênticas figuras castiças da capital, muito respeitados pelos condutores e pelos peões, que até lhes costumavam oferecer presentes e "boas-festas" na época do Natal (uma iniciativa do Automóvel Club de Portugal).

Viaturas automóveis e envolvente urbana de Alcântara

Na Foto 1, no lado esquerdo da via, sobressaem dois automóveis ligeiros característicos da época estacionados ou a aguardar sinalização: 

  • À esquerda, um Ford Cortina (Mark I) escuro (com a placa de matrícula da época EI-40-49).
  • Ao centro/esquerda, um Austin Cambridge / Morris Oxford (série Farina) de cor clara (com a matrícula LP-68-41).

Ao fundo e na lateral esquerda, observam-se os edifícios de traça industrial do Porto de Lisboa e dos armazéns de Alcântara, para além das colinas de Alcântara/Prazeres  (ao fundo, o Cemitério dos Prazeres)

Cemitério dos Prazeres / "Cerca de ciprestes"

Na crista da colina que se ergue ao fundo da Foto nº 1  (alinhada com o eixo da Avenida de Ceuta   e a encosta de Alcântara), sobressai uma mancha densa e escura de árvores perfeitamente alinhadas.

Trata-se da emblemática e monumental muralha/cerca vegetal de ciprestes do Cemitério dos Prazeres. Fundado em 1833 no topo do outeiro, o cemitério alberga uma das maiores e mais antigas concentrações de ciprestes (Cupressus sempervirens) da Península Ibérica, funcionando como um verdadeiro marco na paisagem urbana visto a partir do vale de Alcântara e do rio Tejo.

 Comando Local da Polícia Marítima de Lisboa / Capitania do Porto de Lisboa

O edifício em primeiro plano (lado esquerdo) (Foto nº 1), de tom claro/rosado com dois pisos, telhado de telha tradicional e janelas em fiada, situado logo atrás dos automóveis estacionados (o Ford Cortina e o Austin Farina), corresponde a instalações históricas ligadas à autoridade marítima/portuária na zona de Alcântara-Mar / Cais da Rocha.

Era (é ?)  a sede do Capitania do Porto de Lisboa  (área de Alcântara-Norte), responsável pela jurisdição do Porto de Lisboa e pela fiscalização das operações de acostagem e desembarque no Cais da Rocha Conde de Óbidos e Doca de Alcântara.

Ponte sobre o Tejo / Travessia ferroviária

Recorde-se que o comboio, operado pela Fertagus, na Ponte 25 de Abril (ex-Salazar) só  começou a circular a partir de 29 de julho de 1999. 
 
A ponte em si foi inaugurada muito antes, a 6 de agosto de 1966, mas a plataforma inferior foi projetada de raiz com espaço para receber a ferrovia dupla, que só viria a ser instalada décadas mais tarde.

Pesquisa: LG + IA (Gemini / Google IA) + Blogue
(Condensação, revisão / fixação de texto, links, negritos: LG)
   
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 19 de novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22731: O cruzeiro das nossas vidas (31): a minha viagem (pacífica) no N/M Ambrizete, de 3 a 9 de novembro de 1970, com partida (atribulada) oito dias depois do programado (Hélder Sousa, ex-fur mil trms, TSF, Piche e Bissau, 1970/72)

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28311: Verso & reverso (4): Salazar & Caetano: conhecer ou não conhecer o "ultramar português": eis a questão ?! (António Rosinha/ Luís Graça)

 



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: António Rosinha e Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.





Guiné > Zona Leste > Bafatá > c. 1931 > "Jangada no Rio Geba. Passagem entre Bafatá e Contuboel"... Imagem reproduzida em "O Missionário Católico" , Boletim mensal dos Colégios das Missões Religiosas Ultramarinas dos Padres Seculares Portugueses, Ano VIII, n.º 81, Abril de 1931, p. 169 (Exemplar oferecido ao nosso blogue por Mário Beja Santos).

Digitalização, edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2018)



1. Comentário de António Rosinha ao poste P27379 (*)


Tenho dúvidas sobre o que dizes, que o Marcello Caetano "conhecia bem o ultramar"...

Luis Graça, de facto ninguém conhecia o Ultramar africano, no que diz respeito a governantes portugueses, desde ministros, caso de Marcelo que até foi ministro das colónias, aos governadores gerais, que faziam papel de mangas de alpaca em comissões de 4 anos.

Até ao Estado Novo não nos entendíamos aqui no retângulo, como depreciativamente chamavam à metrópole os estudantes do império, quanto mais sabermos navegar de jangada no Geba, no Quanza ou no Zambeze.

Mas tenho uma ideia que criei em Angola com colonialistas que gostavam dos inimigos do Salazar, e que admiravam as ideias de Henrique Galvão, Norton de Matos, e até o Marcello e outros turistas, por exemplo, e com estudantes do império, e seus pais, que conheci muitos e trabalhei com vários.

Essa ideia, em que fui acreditando, e mais tarde acreditei ser verdade, Salazar aguentou-se "até cair da cadeira", porque em 1961 deu o grito, "Para Angola, rapidamente e em força".

Mas esses colonialistas, e entre eles imensos militares, continuavam a acusar Salazar que ele não os deixava desenvolver, no caso, Angola, nossa terra, riquiiiiíssima!

Só que Salazar, não conhecendo África, e nem gostando de África, vista como uma maldita herança, ele sabia ou adivinhava, como ninguém, que quanto mais investisse maior seria o transtorno.

E viajar de jangada era bom, fabulosa aquela foto da jangada de Bafatá até Contubuel, lembrei-me do Governador refastelado em Bolama, conheci muitos jangadeiros em Angola, sempre sem pressa, como Salazar gostaria "se visse" ao vivo (ao longe, mas invisível, a partir de São Bento) os turistas a passearem-se de fato e gravata nas aguas cristalinas do Gega, e nas picadas de Angola.

Em 1961, em milhares de quilómetros, havia 60 km de asfalto, imagine-se em 1935!

Salazar não levava o império a sério, nem sequer as ilhas adjacentes, a Madeira e os Açores.

Pessoalmente tive uma prova do pouco que representava o ultramar para o Salazar. Eu como funcionário dos Serviços Geográficos, mandou-me, a mim e a vários colegas, mapear Angola, e no meu espólio, além do equipamento indispensável, ia uma injeção antiofídica vários anos caducada e uma bússula avariada, e tinha que devolver tudo integral como recebi, caso contrário tinha comprar novo.

Assim, como na tropa, de armas pesadas dei apenas 3 tiros de Mauser, e 3 tiros de pistola Parabelum, de treino na recruta. Até que rebentou o terrorismo e tive que comprar farda de furriel, e tudo mudou um pouco.

terça-feira, 4 de novembro de 2025 às 00:52:00 WET


2. Comentário de Luís Graça: conhecer ou não conhecer, eis a questão ?!

Rosinha, eu é que te disse: "Tenho dúvidas sobre o que dizes, que Marcelo Caetano 'conhecia bem o ultramar' "...

De qualquer modo, Rosinha, a pergunta é pertinente: "conhecer ou não conhecer bem o ultramar, eis a questão"...

E já não digo a Guiné ou Timor, mas Angola e Moçambique, as únicas colónias que tinham potencialidades para serem grandes "colónias de povoamento", que era aquilo que interessava às "potências colonizadoras"... Mas parecia não interressar a Salazar nem à meia-dúzia de grandes famílias que dominavam a econonia (a abundância de mão de obra, os baixos salários e a repressão não as obrigavam a modernizar as empresas e os latifúndios).

A questão que levantaste, tu e o Alberto Branquinho, é importante para se compreender as diferenças de visão, pensamento e ação entre Salazar e Marcelo Caetano, especialmente no que toca ao "fim do império" e ao modo como o Estado Novo enfrentou a descolonização e a guerra do ultramar/ guerra colonial... que foi aquela em que tu, eu e o Branquinho participámos. (Na Academia Militar, prefere-se falar em "Guerra de África", esquecendo-se a Índia Portuguesa, Timor...)

Disseste tu, Rosinha: "Caetano foi ministro das colónias, com visita prolongada às colónias, e tinha ideias bem claras, e opostas ao pensamento de Salazar"...

Eu sei que és um leitor apaixonado da história do nosso país, e atento ao que se escreve e se publica sobre o período do Estado Novo e em especial sobre a colonização e a descolonização da "menina dos teus olhos", que era Angola... (Descolonização que foi, estamos os dois inteiramente de acordo, uma tragédia imensa, para todos; a história poderia e deveria ter sido escrita de outra maneira.)

Claro que entre Salazar e o seu sucessor político (e que chegou a ser o seu "delfim") havia diferenças substanciais na maneira de ser, pensar, sentir, estar, falar e fazer... Substanciais mas não antagónicas...

Um era ruralista, provinciano, nacionalista, conservador, autoritário-paternalista, admirador e Mussolini; o outro era industralista, tecnocrata, luso-tropicalista, europeizante, paternalista-autoritário... 

Ambos eram professores, brilhantes, um de Coimbra, outro de Lisboa, um "fiscalista", outro "administrativista"... Ambos governaram em ditadura, obrigaram-nos a fazer uma guerra
inútil, desgastante e estúpida e perderam o comboio da História...

Afinal, "a solução na continuidade", com Marcello Caetano, acabou por nos levar a um beco sem saída, com o regime alienando o apoio (que era lhe vital) das Forças Armadas.

Eu também tenho dúvidas quando alguém me diz que Marcello Caetano "conhecia bem o ultramar"...

Seguramente que conhecia melhor que o Salazar, o qual que nunca sujou as botas de elástico com a terra vermelha de África, nunca lá foi, de resto, nunca saiu praticamente do país.

Caetano fez um périplo pelo Império (África Ocidental) em 1935 com estudantes, um cruzeiro turístico-cultural; foi comissário nacional da Mocidade Portuguesa (1940–1944); em 1945, realizou uma longa viagem a África, visitando territórios como Angola e Moçambique, além de se deslocar à então União Sul-Africana, na qualidade de minisro das Colónias (1944–1947); em 1969, fez uma visita oficial aos territórios em guerra (Guiné, Angola e Moçambique).

Marcello Caetano tinha a obrigação de conhecer melhor o Ultramar português, e nomeadamente África... Muito melhor do que Salazar, por muito bem "informado" que este pudesse estar através da leitura de dossiês, relatórios, reportagens, da audição de testemunhos, do visionamento de filmes (embora fosse pouco cinéfilo), etc.

De facto, a relação pessoal, afetiva, emocional e intelectual de cada um com o Ultramar é uma chave interpretativa fundamental.

Salazar não era um "africanista", como tu, Rosinha, o foste... E tantos outros a que mais tarde chamaremos, impropriamente, "retornados" (porque já nascidos em África ou lá crescidos e educados, desde pequeninos).

Tenho amigos/as nascidos/as em Angola... Angola continua a ser a sua "pele", a sua "idiossincrasia", a sua" cultura", a sua "musiquinha", as suas "comidinhas", etc.... independentemente da sua cor... Temo-los aqui no Blogue, a começar por ti, pelo Patrício Ribeiro, etc.

Marcello, intelectualmente, sim, era um "africanista" (o termo é extramente ambíguo), mesmo nunca lá tendo vivido... E mais: era um adepto do luso-tropicalismo, formulado pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freire...

Era um "académico", que veio do "downstairs" (pai sargento), apanhou o ascensor social... Por mérito próprio, sem dúvida. Tal como os seminaristas Salazar e Cerejeira. Nenhum deles nasceu em berço de ouro. E, no fundo, os três desprezavam as elites (económicas e sociais).

Vejamos algumas diferenças entre os dois homens a quem calhou a "batata quente" da gestão do fim do império (ou fim de "ciclo histórico") mas que fizeram como a avestruz, enterraram a cabeça na areia. Física e simbolicamente. Julgo que é assim que a História os irá julgar, daqui a 50, 100 anos... (No fundo, líderes cegos que conduziram um povo de cegos quase até ao abismo, tal como o Dom Sebastião ...)

(i) Salazar: o império “abstrato”, com a cabeça, 
tronco e até membros (!)... no Terreiro do Paço 
(e no Palácio de São Bento)

O facto de nunca ter saído de Portugal continental (com exceção de algumas deslocações curtas dentro da Península) diz muito... E de Portugal, o que é que ele conhecia ? Nem sequer a Madeira ou os Açores... E nunca foi ao Pulo do Lobo, como o prof Cavaco Silva.

É verdade que no seu tempo, no seu auge, ainda as viagens não eram rápidas nem cómodas...E as estradas mal começavam a ser alcatroadas.

E depois, bolas, o raio do império ficava longe, bem longe: do Minho a Timor eram 20 mil quilómetros de distância, um mês de barco... Tudo somado eram mais de dois milhões de quilómetros quadrados, coisa que fazia bem ao ego do Zé Povinho (mesmo que este não soubesse nada de geografia, onde ficava Buruntuma, o rio Quanza ou a ilha de Ataúro, etc).

O império era uma construção abstrata, ideológica e simbólica, não uma experiência vivida. Para Salazar, Angola e Moçambique não tinham cheiros, sabores, cores, lama, sangue, mijo, esperma, suor, lágrimas, drama, comédia, tragédia... Só as conhecia do mapa dos geógrafos (e dos mapas da contabilidade publica).

Salazar via o império como um "instrumento de legitimação nacional", um "desígnio da providência" (logo, do domínio do sagrado, inalienável), um eixo da “unidade pluricontinental e plurirracial" que dava grandeza ao Estado Novo e a Portugal no seio das Nações.

Era, todavia, uma "herança histórica", um "património", cuja manutenção era dispendiosa, para a sua contabilidade de perito em finanças... Era um "luxo", caro... Era uma "amante", cara...

Daí a política colonial de Salazar ser "fortemente doutrinária, ideológica e centralizadora", reforçando-se, com a propaganda, a falsa ideia da "missão civilizadora", fazendo -se tábua rasa do passado das civilizações africanas (e outras), recusando-se quaisquer concessões à autonomia dos povos, índigenas, colonos e assimilados...

A Exposição do Mundo Português, em 1940, foi a sua coroa de glória. E depois do que viu, não precisava mais de ter a maçada de ir a África e à Ásia, "perder tempo e dinheiro"...

 O branco de Angola, como o Rosinha, seria sempre um português de 2ª... Tal como os portugueses da metróple, tirando a elite dirigente e a classe dominante, eram cidadãos de 2ª classe (e as mulheres de 3ª classe).

Salazar nunca viu, ao vivo, "in situ", uma roça de cacau, uma fazenda de café, um plantação de algodão ou de chá, um campo de mancarra, uma bolanha, uma tabanca, uma bajuda de mama firme, um régulo, um soba ou um liurai, um doente de paludismo ou da doença do sono, uma mina da África do Sul (para onde se mandavam os desgraçados dos moçambicanos)...

Nem sequer um leão ou um elefante ao vivo (a menos que tenha ido ao Jardim Zoolófgco de Lisboa, o que eu até duvido...).

Salazar era um ruralista de Santa Comba Dão, um provinciano de Coimbra, e, aqui, enquanto pôde, travou os impulsos de modernização e industrialização dos "tecnocratas" do regime, de Lisboa, como Ferreira Dias, Marcello Caetano, etc.

(ii) Marcelo Caetano e a experiência 
direta ou indireta do Ultramar

Marcello, além da sua viagem turístico-cultural em 1935 às colónias do "Ocidente" (e repare-se que até 1951 a palavra "colónias" fazia parte do discurso dominante, da realidade económica, jurídica, administrativa e política, sem quaisquer complexos!), foi ele próprio Ministro das Colónias (1944–1947), num período ainda marcado pela Segunda Guerra Mundial e pelo início do fim dos "impérios coloniais", tal como eles foram brutalmente desenhados, a régua e esquadro, na Conferência de Berlim, 60 anos antes, pelos ingleses, franceses, alemães, esses, sim, os verdeiros colonialistas, as três grandes potências europeias da 1ª era do capitalismo industrial. Conhecia relativamente bem Angola e Moçambique.

Caetanto era um jurista e, como tal, interessou-se pelo direito colonial, fez trabalhos sobre a administração colonial, etc. Mas estava habituado a "mudar por decreto". Como os colonialistas europeus que desenhavam territórios a régua e esquadro.

Estava informado, e no início da década de 1960 era um dos intelectuais ("orgânicos") do regime que percebia a inevitabilidade das mudanças... e também conhecia as vulnerabilidades do império e do Portugal macrocéfalo, em vias de desenvolvimento acelerado.

Deve ter feito uma análise de tipo SWAT, dos pontos fortes e fracos de Portugal e do império de pés de barro, ameaças e oportunidades...As ameaças eram muitas, e não apenas exógenas, vindas de fora, mas também endógenas, vindas de dentro...

As eleições de 1958 (e o "terrorismo" em Angola, em março de 1961, e depois o "desastre" da Índia Portuguesa, em dezembro desse ano horrível para todos nós) fizeram soar as campainhas para os homens do Estado Novo (pelos menos para os mais lúcidos, como Marcello Caetano, Adriano Moreira, Correia de Oliveira, Teotónio Pereira; e do lados dos militares, Botelho Moniz, Costa Gomes...).

E nada seria depois como dantes, quando Portugal se abre, economicamente, ao exterior, com a adesão, ainda em 1960, à EFTA (a Associação Europeia do Comércio Livre). Aí Salazar, que tinha horror, não apenas ao "comunismo" soviético como ao "capitalismo" americano e à sua "democracia liberal", perdeu o controlo dos acontecimentos...(se é que não perdera já antes, em 1945, com a vitória dos Aliados ).

(iii) O pós-salazarismo e a "evolução 
na continuidade"

A partir de 1968, sentado na cadeira de São Bento, manietado pela extrema-direita do regime e com um guerra cada vez mais "feia" e impopular em Angola, Guiné e Moçambique, Caetano inventou a política de “evolução na continuidade”, as "conversas em família" e a "cosmética reformista", mantendo embora o fomentismo, o desenvolvimentismo, enfim, o esforço da modernização da economia e da sociedade portuguesas... O país crescia a um ritmo que dava para ir pagando a guerra...até 1973 (a par das remessas dos emigrantes em França e na Alemanha).

Em África, a palavra de ordem era: 

 (i) manter a defesa do império, a todo o custo;
 (ii) desenvolver demográfica e economicamente os territórios; 
 (iii) abrir-se ao capital estrangeiro; (iv) modernizar a administração ultramarina...

Demasiado tarde: o falhanço das tímidas reformas políticas do marcelismo (a fugaz "primavera política") e o contexto internacional (ONU, OUA, guerra fria, luta armada na Áfria Austral, apartheid, crise petrololífera de 1973, a primeira grande crise do capitalismo pós-guerra, etc....), vieram condenar-nos definitivamente "ao orgulhosamente sós", ao ostracismo internacional, e inviabilizar qualquer experiência de descolonização gradual dentro do quadro do regime (como se viu na Guiné, com Spínola)...

Acredito que ele, Marcello Caetano, tinha também uma relação emocional e intelectual forte ao "Ultramar português"... O que terá também contribuido para bloquear, a par do travão da extrema direita do regime, qualquer tentativa de ensaiar ou apoiar soluções políticas que levassem a médio e longo prazo a uma progressiva autonomia dos territórios ultramarinos (como pretendia Spínola em "Portugal e o Futuro") e depois a uma verdadeira descolonização em que todos ganhassem...

Prisioneiro dos mitos imperiais, paralisado pelos constrangimentos da realidade, preferindo o suicídio coletivo do exército na Guiné à perda das"joias da coroa" (Angola e Moçambique), Marcello Caetano revelou-se um líder fraco, deixou-se cair, não fisicamente da cadeira, mas politicamente na secretária da inércia trágica, esticando a corda da guerra até 1974 (o seu annus horribilis). Morreu no exílio, no Brasil, a fazer aquilo de que gostava, que era dar aulas de "direito administrativo".

Reconhecido como o "pai" do direito administrativo moderno portugues, importou e adaptou as metodologias da ciência jurídica europeia (sobretudo francesa, alemã e italiana) para erguer um edifício conceptual lógico, claro e articulado. Crou uma escola, deixou discípulos.

Mas o seu direito administrativo não deixou de refletir formalmente a matriz ideológica do regime corporativo e autoritário, que ele serviu, de alma e corção. Mais: foi útil para enquadrar legal e ideologicamente a administração colonial e o conceito de "Portugal pluricontinental e multirracial", sustentando juridicamente a presença portuguesa em África e a negação da autodeterminação dos territórios e povos ultramarinos. (**)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 2 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27379: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte I: um grande evento social e político

(**) Último poste da série > 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)