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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28019: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (4): E se o general António Spínola tivesse sido morto ou capturado em 20 de abril de 1970, no Pelundo ?

 


Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) 
 em abril de 1972.
Foto: Luís Dias (2011)
1. Cristina Allen, que vivia em Lisboa, onde era professora, viajou para Bissau em 15/4/1970 para se casar. A elebração, católica, foi no dia seguinte, na catedral de Bissau, numa cerimónia simples, mas os seus amigos e familiares em Lisboa estariam longe de imaginar que  sua "lua de mel" seria passada a visitar o noivo, Mário Beja Santos,  no hospital... aonde Spínola ia  também todos os dias de manhã inteirar-se do estado de saúde dos militares internados (*)...

Quatro dias depois, a 20/4/1970, dá-se no Pelundo, no coração do chão manjaco,  o chamado "massacre dos três majores". Spínola perde 3 dos seus melhores oficiais superiores (referência aos "três majores" do CAOP1, com sede em Teixeira Pinto) que estavam a negociar a rendição de forças do PAIGC na região, diretamente com o cmdt do PAIGC, André Gomes... Dizem que Spínola chorou, pela segunda vez, no CTIG: a primeira terá sido em 6/2/1969, em Cheche, na tragédia do Corubal.

Desarmada, toda a delegação portuguesa foi chacinada sem dó nem piedade, quando a direção do PAIGC em Conacri tomou conhecimento das negociações interpretadas como tentativa de deserção ou rendição... Um crime, de resto,  inqualificável, cobarde. vil, gratuito, cuja autoria moral continua a manchar a memória de Amílcar Cabral, passado mais de meio século.

"Amílcar Cbaral: (...) Este acto foi um acto de grande consciência política e um acto de independência. Foi um acto de grande acção e de capacidade dos nossos camaradas do Norte. É a primeira vez que numa luta de libertação 
nacional se mata assim três majores, três oficiais 
superiores que, nas condições da nossa luta, 
equivale à morte de generais. (...).

Citação: (1970-1970), "Acta informal das reuniões do Conselho de Guerra em Conakry", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_34125 (2026-5-14)

Spínola, cuja presença chegou a estar prevista (a par do 'cmdt' da guerrilha na região de Canchungo, o André Pedro Gomes), foi, à última hora, desaconselhado a comparecer, pelo ten-cor CEM Pedro Alexandre Gomes Cardoso, Secretário-Geral da Província, diz o seu biógrafo.

O que teria acontecido se ele fosse preso ou pura e simplesmente chacinado, como aconteceu a toda a equipa (os 3 majores, Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva
 , 
o alferes João Mosca,  e mais dois  2 guineenses, guias) ?

É uma trágica efeméride: já lá vão 56 anos...


Cristina Allen ( 

2. Escreveu Cristina Allen:


(...) Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”

Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.

Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.

E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.

Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...)


3. Recorde-se o que disse Luís Cabral, no seu triste exílio de Lisboa, a José Manuel Barroso (em enytreviosta publicada no "Diário de Notícias" de 11 de Setembro de 2000), sobre a leitura política destes trágicos acontecimentos feita pela cúpula do PAIGC:

"[ ... ] Essa ação dos majores visava a rendição das nossas tropas ... Nós controlámo-la desde o princípio, desde os primeiros contactos. O objetivo era prender Spínola. Se o prendermos, a guerra acaba na Guiné, dizíamos. Mas ele não apareceu no dia em que devia assistir à rendição
das nossas tropas. Foi uma operação montada com o conhecimento da direção máxima do partido e com o controlo dos responsáveis da área.

[... ] O problema era prender os majores naquela área de movimentação extremamente difícil e retirá-los de uma zona minada [... ]. Uma decisão política [... ] Eu lamentei-o sempre, porque no quadro da nossa conceção das coisas, e particularmente da do Amílcar, se tivessemos tido meios para prender os homens, tinha tido um efeito muito grande. Mas o sucesso seria de facto ter o General. Sem ele o risco era muito grande." (...)



4.  A pergunta "O que teria acontecido se..." entra no domínio da história contrafactual,  interessante, mas sempre especulativa. Ainda assim, dá para explorar cenários plausíveis com base no contexto de 1970.

Primeiro, o contexto: em abril de 1970, António de Spínola era simultaneamente governador e comandante-chefe na Guiné, uma figura central na tentativa de combinar ação militar com abertura política. que abrisse o caminho para o fim da guetrra. O episódio de Pelundo (o chamado “massacre dos três majores"), teve um impacto forte porque atingiu precisamente essa estratégia de contactos e negociações locais para aliciar combatentes do PAIGC a "desertar" e a  integrar-se nas Forças Armadas Portuguesas.

Se o gen Spínola tivesse ido a esse encontrpo fatídico e sido morto ou capturado pelo PAIGC, há três níveis de consequências a considerar:

(i) No plano imediato (Guiné, 1970)

A perda de Spínola teria sido um choque enorme para o dispositivo português, tanto entre as tropas metropolitanas como entre as do recrutamento local. Haveria uma tremenda perda de liderança militar. O moral das tropas, já de si fragilizado, seria ainda mais enfraquecido.

Spínola era o "homem forte" e carismático da Guiné, o rosto de uma linha de ação que tentava sair do impasse militar clássico, uma figura central na estratégia portuguesa. Era o "homem grande de Bissau". A sua morte ou captura teria sido um golpe moral e estratégico devastador para as forças portuguesas, precipitando outros acontecimentos,  tão ou mais dramáticos, como um possível golpe de Estado, da extrema direita do regime, derrubando o Marcelo Caetano,

(ii) Reação do regime

O Estado Novo, já sob pressão interna e sobretudo internacional,  teria de lidar com a perda do seu general mais mediático. A prisão ou a morte de Spínola poderia ter levado a uma escalada de violência ou, pelo contrário, a uma revisão mais rápida  (e talvez atabalhoada e precipitada) da política colonial.

A guerra não iria acabar, contrariamente ao desejo do PAIGC. O mais provável seria um endurecimento rápido do conflito: menos abertura a contactos, mais operações de retaliação, e um regresso a uma lógica puramente militar. Isso poderia ter agravado ainda mais a violência no terreno. 

Mas seria pouco provável que tivesse sido planeada e executada a Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, em 22 de novembro de 1970). E o Amilcar Cabral não teria sido assassinado...

(iii) No plano político em Portugal

Aqui é que o efeito poderia ter sido decisivo. Spínola viria a ganhar projeção nacional sobretudo após publicar o livro "Portugal e o Futuro" (em fevereiro de 1974), onde questiona a viabilidade da guerra. Mas ele já tinha visibilidade internacional (podendo até dizer-se que tinha alguma "boa imprensa").

Sem ele, esse “choque intelectual” dentro do regime teria sido mais fraco ou mais tardio. Outros militares pensavam de forma semelhante, mas poucos tinham o mesmo peso simbólico e  político-militar, com exceção talvez de Kaulza de Arriaga.

Spínola estava a implementar, com sucesso e apreensão de Amílcar Cabral, a política de "Por uma Guiné melhor", focada em operações especiais e na conquista de "corações e mentes". Um em cada três combatentes já era guineense. 

A sua morte teria provavelmente levado a um comando mais ortodoxo e ineficaz, facilitando o avanço do PAIGC, como aconteceu com Bettencourt Rodrigues (set 1973/ abr 1974),  que veio para a Guiné apenas com a missão de "aguentar a situação", coincidindo com a proclamação unilateral da indepência em 24 de setembro de 1973, a maior cartada de génio diplomático arquitetada ainda  em vida pelo Amílcar Cabral.

Com o desaparecimento de Spínola, o PAIGC (çleia-se: Amílcar Cabaral) deixaria de ter um um rival à altura, acelerando o reconhecimento internacional da independência da Guiné-Bissau talvez um ano ou uns meses mais cedo. E Amílcar Cabral teria assistido pessoalmente a esse momento histórico que o consagria como o "pai-fundador" da Pátria.  Quanto ao futuro da unidade Guiné e Cabo Verde, seria difícil avançar com cenários. O "ajuste de contas" far-se-ia mais tarde...

(iv) No caminho para o 25 de Abril

Spínola era uma figura controversa, mas também um símbolo de resistência e um actor-chave de um possível (e desejável) mudança dentro do regime. A sua morte poderia ter radicalizado posições, tanto entre os militares como na sociedade civil.

 Se Spínola tivesse morrido em 1970, o Movimento das Forças Armadas (MFA) teria que saber procurar e encontrar outro general com o oseu estatuto, tarefa que não era fácil dadpo seu protagionismo na Guiné, e o seu  prestígio, essencial para aceitar a rendição (incondicional) do regime de Marcello Caetano.

Com o Spínola preso ou morto, o próprio desfecho do Revolução dos Cravos poderia ter sido diferente: não necessariamente inexistente, mas com outra configuração. Ele acabou por ser uma figura de compromisso no momento inicial (rosto da Junta de Salvação Nacional, Presidente da República após o golpe).

 Não sendo sequer do MFA (Movimento das Forças Armadas),  tendo apenas emprestado ao movimento dos capitães o seu pretsígio, o seu rosto, a sua voz, os seus galões, ninguém pode negar que Spínola teve um papel importante no próprio dia 25 de Abril de 1974.

Sem ele, o processo de descolonização e a própria revolução poderiam ter tomado rumos muito diferentes, possivelmente mais violentos, mais moderados ou mais lentos. Sem essa figura, o processo poderia ter sido mais fechado e exclusivamente conduzido por jovens capitães, comandantes operacionais, ou, pelo contrário, mais turbulento, por falta de uma “ponte” com outros setores político-militares do regime.

Este é o ponto mais crítico. Spínola não era apenas um general com prestígio ganho no campo de batalha; tornou-se ele próprio um intérpretes  de uma das  "soluções políticas" para a guerra.

(v) Impacto na descolonização e efeito dominó

A presença ou ausência de Spínola poderia ter alterado o curso das negociações com o PAIGC. Se tivesse sido preso ou morto, o PAIGC poderia ter ganho mais força, sobretudo moral e até militar, acelerando a independência (unilateral) do território  e o seu reconhecimento nas instâncias internacionais (ONU, OUA, países não-alinhados, países comunistas e até nalguns países ocidentais, com os Norte da Europa).

Se Spínola tivesse morrido ou sido preso em 20 abril de 1970, a descolonização de Angola e Moçambique poderia ter sido ainda mais caótica e sangrenta. Spínola defendia uma transição lenta e faseada para a independência, o que o colocou em conflito com o MFA após o 25 de Abril. Sem ele, é possível que a descolonização tivesse sido entregue a forças políticas mais radicais ainda mais cedo, possivelmente resultando num processo diferente. 

De qualquer modo, a recusa em prosseguir a guerra estava cada vez arreigada entre os jovens.  A "guerra do ultramar" era impopular. O slogan "Nem mais um soldado para as colónias" teve um efeito preverso do próprio processo de descolonização e de transição pacífica dos vários territórios ultramarios para a independência.

Conclusão: A ironia da História (o "Efeito Borboleta")

De qualquer modo, não podemos empolar o papel do indivíduo na História: a guerra colonial (nomeadamente na Guiné) estava num impasse estrutural, com grande desgaste militar, económico, humano e moral. Mesmo sem Spínola, dificilmente o regime escaparia a uma crise profunda. A história não dependia só dele.

Se tivesse sido morto no Pelundo em 20/4/1970, provavelmente teríamos:
  • um PAIGC  ainda mais duro, triunfalista, arrogante, mais intransigente e menos permeável a negociações;
  • um regime em Lisboa sem uma voz interna, heterodoxa, tão visível a defender a necessidade de mudança; 
  • um 25 de Abril possivelmente diferente noo conteúdo e na forma, mas inevitável em qualquer dos casos.

O facto de Spínola não ter estado presente no Pelundo na sangrenta segunda feira,  é um daqueles "acidentes" históricos que mudam tudo. É a chamada "ironia da História". 

A sua sobrevivência permitiu que, anos mais tarde, tivesse um papel também de relevo (mesmo que controverso) na transição democrática portuguesa e na descolonização. Se tivesse morrido, a história de Portugal, da Guiné-Bissau e de toda a África lusófona poderia ter sido radicalmente diferente.

A história é feita de pequenos momentos e decisões que, em retrospectiva, parecem quase inevitáveis. Mas, na altura, são apenas escolhas, acasos, encontros e desencontros. Impossível saber se a história teria encontrado outro caminho. O "não ir" ao Pelundo, à última da hora (por pressão do secretário geral da Porvíncia)  foi, sem dúvida, um dos acasos mais decisivos do século XX português.

Sem ele, o 25 de abril de 1974 poderia ter ocorrido na mesma, nessa data ou noutra, mas a Junta de Salvação Nacional (ou o seu equivalente) teria tido um rosto e uma orientação político.ideológica possivelmente  diferentes.

A sobrevivência de Spínola permitiu que ele se tornasse o general (e chegasse depois a marechal), juntamente  com Costa Gomes, que esteve no 25 de Abril, mesmo discordando de partes do Programa do MFA. Ironicamente, o massacre do Pelundo, ao matar outros oficiais intelectualmente brilhantes, e poupá-lo, a ele, fê-lo perceber que a guerra era inviável, e isso deve tê-lo levado (a ele e aos seus "indefectíveis") a aprofundar a procura  de uma solução política que acabaria por culminar no 16 de março e depois no 25 de abril, ou seja,  no derrube do regime que ele servia.

E há um último ponto, mais próximo do texto da Cristina: a dimensão trágica que ela lhe atribui talvez ficasse ainda mais “fechada”: Spínola morreria como "mártir da Pátria", quiçá como "herói" (nunca como "vilão"), impoluto,  nunca como figura contraditória entre a guerra e a tentativa de saída política. Foi essa ambiguidade que o tornou tão  “inquietante” (quanto "fascinante") na memória de quem o observou de perto, como a Cristina e aqueles de nós que serviram sob o seu comando.

(Pesquisa: LG + CECA + Bibliografia + IA (ChatGPT / OPenAI | Le Chat Mistral AI)
(Condensação, revisão/fixação de texto, negritos, título: LG)

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Nota do editor LG:

/*) Vd. poste de 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28018: Convívios (1066): Estão abertas as inscrições para o 112.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 29 de maio de 2026, no Restaurante Atrium Buffet, Quinta do Paul, Ortigosa

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Nota do editor

Último post da série de 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28011: Convívios (1065): Rescaldo do 41.º Encontro Nacional dos ex-Oficiais, Sargentos e Praças do BENG 447 - Brá- Guiné, levado a efeito no dia 9 de Maio de 2026, nas Caldas da Rainha (João Rodrigues Lobo, ex-Alf Mil)

Guiné 61/74 - P28017: Historiografia da presença portuguesa em África (529): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1971 (87) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Este Boletim Oficial é tudo menos insignificante, e não é mera documentação adicional. Dizia o então Governador Sarmento Rodrigues que queria pôr termo aos orçamentos da Província fantasiosos, camufladores da realidade económica, escondendo tanto as receitas como a despesa. O que o investigador tem à sua disposição é a evolução dos encargos, do crescimento da despesa, dos sucessivos orçamentos extraordinários, múltiplos créditos, dá para verificar como na governação Spínola o Governo de Lisboa abriu os cordões à bolsa, e também será interessante comparar com os orçamentos anteriores, mormente com os quatro anos de Arnaldo Schulz. Ainda não se tem um quadro nítido do que fez na Guiné até à independência a Esso Exploration Guiné, fica-nos a notícia da pesquisa no leito do mar e nas coordenadas que aqui vêm referidas. Que o leitor não se admire com o louvor atribuído a um Chefe de Brigada da DGS do Posto de Catió publicado no Boletim Oficial da Guiné por um ato de verdadeiro destemor, durante uma flagelação. A DGS não estava subordinada à instituição castrense, daí a publicação regular de nomeações, autorizações para férias, transferências e, por conseguinte, louvores.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1971 (87)

Mário Beja Santos

Como fizemos alusão na síntese de 1970, cresce exponencialmente o número de créditos, fundos de investimento, orçamentos suplementares e extraordinários. Fez-se logo alusão ao Boletim n.º 1, de 5 de janeiro de 1971, a Portaria n.º 630/70, do Ministério do Ultramar, que abriu um crédito destinado a reforçar verbas da tabela de despesa extraordinária do orçamento da Província da Guiné para o corrente ano económico. O Boletim Oficial n.º 6, de 9 de fevereiro, pela Portaria n.º 2310, aprova os novos Estatutos da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné. Esta aprovação tem a cláusula expressa de que será retirada a autoridade agora concedida caso a Associação, por qualquer forma, proceda contrariamente ao interesse público e se desvie dos fins para que foi instituída. Os seus fins são de promover e dinamizar o desenvolvimento das atividades do comércio, indústria e agricultura, procedendo ao incremento do comércio externo, ao intercâmbio comercial entre a Guiné e a Metrópole e as outras províncias ultramarinas, ao sistema de transportes e comunicações, à organização bancária etc. etc.

O Suplemento do Boletim Oficial n.º 6, de 13 de fevereiro, pela Portaria 2310, põe em execução, para o ano económico de 1971, as tabelas adicionais que constituem os recursos para financiamento do Programa do III Plano de Fomento. O documento refere o vultoso empréstimo da administração central, as medidas do programa de execução em diferentes áreas como a agricultura, silvicultura e pecuária e pescas, indústrias extrativas e transformadoras, transportes, comunicações e meteorologia, turismo, habitação, saúde, etc. Para este programa de financiamento as verbas maiores vêm da administração central, do rendimento das concessões petrolíferas e até do Secretariado da Defesa Nacional. Mantém-se o mistério sobre o funcionamento da Esso Exploration Guiné Inc, a que título este rendimento das concessões petrolíferas, o que e aonde se explora em território guineense? Facto é que no Boletim Oficial n.º 9, de 6 de março, fala-se numa Assembleia Geral Extraordinária da Esso a ter lugar em 29 de março de 1971 na Rua Filipe Folque n.º 2, 3.º, em Lisboa, isto para aprovação e relatório de balanços e contas, eleição dos órgãos, etc.

No mesmo sentido o Boletim Oficial n.º 20, de 18 de maio, publica uma informação da Esso Exploration Guiné onde se diz:
“No decurso do ano de 1970 a Companhia continuou a proceder a trabalhos e pesquisas na área de concessão que lhe foi outorgada, trabalhos esses, que consistiram especialmente em trabalhos de prospecção sísmica e na interpretação dos dados geológicos e geofísicos obtidos até à data.
Os trabalhos sísmicos foram realizados apenas no mar, tendo os estudos geológicos e geofísicos sido coordenados pela Esso Exploration Inc, com a colaboração da Esso Production Research Company de Houston, Texas, EUA, e o East Atlantic Study Group de Walton-on-Thames, Inglaterra, todas empresas afiliadas da Standard Oil Company. É de assinalar que a Companhia, no exercício findo, contribuiu também para a perfuração de um poço em área contígua à concessão que lhe foi outorgada, contributo este considerado do maior interesse para a obtenção de dados e elementos que lhe permitem estabelecer melhor as estruturas da área de concessão.”

Segue-se o parecer do Conselho Fiscal e o detalhe das despesas de exploração ao longo de 1970.


Mas há ainda mais notícias da Esso. No Boletim Oficial n.º 29, de 20 de julho, a Repartição Provincial dos Serviços de Geologia e Minas publica o seguinte edital:
“Francisco de Almeida Flores, Engenheiro-Chefe dos Serviços de Geologia e Minas desta Província:
Faz saber que deu entrada nesta Repartição um requerimento dirigido a sua Excelência o Ministro do Ultramar em que afirma Esso Exploration Guiné Inc, sociedade por acções com sede nesta cidade de Bissau, pede que lhe seja outorgada concessão exclusiva para pesquisa e exploração de jazigos de hidrocarbonetos e substâncias afins numa área desta Província representada pelo leito do mar e compreendida dentro dos seguintes limites:
Ponto de partida, o ponto de intersecção das coordenadas 11º 56’ 30’’ da latitude norte e 17º 30’ 00’’ de longitude oeste; deste ponto, para sudoeste, ao longo de uma linha reta, até ao ponto de intersecção das coordenadas 11º 40’ 30’’ de latitude norte e 18º 00’ 00’’ de longitude oeste; daqui, em direcção ao sul, ao longo de uma linha reta, até ao ponto de intersecção das coordenadas 10º 35’ 00’’ de latitude norte e 18º 00’ 00’’ de longitude oeste; daqui, em direcção a este, em linha recta, até ao ponto de encontro com o limite da concessão de que a requerente é titular, no ponto de intersecção das coordenadas 10º 35’ 00’’ de latitude norte e 17º 11’ 30’’ de longitude oeste; deste ponto, para norte, até ao ponto de partida, ao longo, mas sem solução de continuidade, do limite da referida concessão de que a requerente é titular.”

São, sem dúvida, elementos abonatórios para a compreensão do que a Esso Exploration Guiné estava a fazer ao nível de 1970, continuamos sem encontrar outros elementos da história desta exploração.


Agora, uma mera curiosidade. Encontrou-se no Boletim Oficial n.º 33, de 17 de agosto, do Ministério do Ultramar a concessão ao Major de Infantaria Eugénio dos Santos Ferreira Fernandes, do Quartel-General da Região Militar de Moçambique a medalha de cobre de assiduidade de serviço no Ultramar, por ter prestado 12 anos de serviço, com comportamento exemplar, nas províncias de Moçambique, Angola, Guiné, Macau, Timor e S. Tomé e Príncipe, sendo mais de três consecutivas em Moçambique. É de perguntar que périplo ainda devia fazer o Major Fernandes para obter as medalhas de prata e ouro.

O leitor tem vindo a ser sucessivamente informado de que estes Boletins Oficiais ganharam enorme volume graças à publicação de tudo o que tem a ver com a política ultramarina, e aqui temos uma outra mera curiosidade. No Boletim Oficial n.º 44, de 2 de novembro, o Governo Central, através da Direção-Geral de Administração Civil publica a seguinte concessão:
“Considerando o extraordinário sangue-frio, coragem e perícia revelados pelo piloto aviador civil José Eduardo dos Santos Peralta, quando, em 11 de agosto findo, ao sobrevoar a região de Cabinda, fez gorar a tentativa de um grupo de indivíduos que se haviam apoderado de avultada quantia do Estado e, sob a ameaça de uma arma de fogo, pretenderam obrigá-lo a desviar a sua rota para território de um país vizinho.”
Pelo seu destemor foi-lhe concedida a medalha de prata de Serviços Distintos ou relevantes no Ultramar.


O Boletim Oficial n.º 50, de 14 de dezembro, publica uma Portaria assinada pelo Governador da Guiné:
“O Chefe de Brigada de DGS do Porto de Catió, José da Silva Duarte, durante uma flagelação que o inimigo efetuou sobre aquela vila, em 14 de abril de 1971, teve actuação que é justo destacar e distinguir.
Verificando que, no local onde se encontrava, o rebentamento de um projétil havia provocado vários feridos, colocou um deles sobre os ombros e correu em direcção à enfermaria militar, indiferente ao perigo a que se expunha.
Ainda no trajecto, novo rebentamento atingiu um militar que seguia à sua rectaguarda. O Chefe de Brigada Duarte voltou atrás para socorrer aquele militar, colocando-o ao abrigo de futuros rebentamentos, após o que prosseguiu até à enfermaria com um ferido que inicialmente transportava.”

Foi assim louvado o Chefe de Brigada Duarte pelos seus actos em que demonstrou com a sua atitude acendrada abnegação e excepcional coragem.


Para finalizar, temos no Boletim Oficial n.º 52, de 28 de dezembro, a criação de postos escolares, uns no Gabu (Cam Fará, Sinchã Cantambá, Nematabá, Paunca, Sori Lumbato, Sumacunda, Tomana de Cima e Coiada) e nos Bijagós, nas ilhas de Uro, Uracane, Orango Grande.
Notícia da visita do Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino
Notícia do regresso do Governador
Felupes em Batuque
Dançarinas Mandingas
Inauguração de um fontenário em Sare Bacar
Rapariga Fula
Velho Mandinga
Dança Nalú

Este conjunto de imagens foram publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, em diferentes números de 1971

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 6 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27993: Historiografia da presença portuguesa em África (528): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1970 (86) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28016: Agenda Cultural (893): Convite para a apresentação do meu 12.º livro, tendo este como tema o AVC, a levar a efeito no próximo dia 16 de Maio de 2026, sábado, pelas 15h00, na Casa do Alentejo, Rua das Portas de Santo Antão, 58, Lisboa (José Saúde)

1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.


Convite aos camaradas

Lisboa, Casa do Alentejo, Portas de Santo Antão, 16 de maio, sábado, 15h00, apresentação do meu 12.º livro, tendo este como tema o AVC

Camaradas, residentes em Lisboa ou em localidades próximas

Sendo o AVC – Acidente Vascular Cerebral – um tema que mexe mundialmente com a sociedade em geral, não importando a cor, a idade, credos, ou o estrato social, ou religiões que cada um de nós perfilha, esta doença é tão-só um grito de alerta que se estende por um infinito, onde o portador é, apenas, alguém que um dia, sem hora marcada, se confrontou com tal “flagelo”.

Porém, somos gentes capazes em responder e ultrapassar dificuldades, não obstante as sequelas sofridas. Neste contexto, apresentarei no próximo sábado, 16 de maio, 15h00, na Casa do Alentejo em Lisboa, Portas de Santo Antão, o meu último que tem como título: Acidente Vascular Cerebral – AVC Viagem ao Mundo de Sobreviventes, cujo teor fala da realidade de quem sofreu um AVC, como recuperou, o quanto possível, e testemunhos de muitos companheiros que em determinado momento foram apanhados com esta enfermidade.

Aqui não houve G3, canhões sem recuo, granadas ofensivas, ou defensivas, para abater um inimigo que tocou às nossas portas e por cá se instalou. No meu fará 20 anos no dia 27 de julho de 2026, que está malazenga por cá mora.

A tarde será acompanhada por cante Alentejano, Cantadores do Desassossego, de Beja, e o Grupo Musical "Os Alentejanos", de Serpa. 


Abraços camaradas e por lá vos espero.

José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

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Nota de M.R.:

Último poste da série de 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27997: Agenda Cultural (891): "Mais Alto", memórias de Enfermeiras Paraquedistas tornadas visíveis, exposição patente até 5 de Outubro de 2026 no MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), Av. Brasília, Lisboa

Guiné 61/74 - P28015: S(C)em Comentários (89): Sem proteína não se faz a guerra... A propósito do hipopótamo (e do macaco-cão) que o PAIGC dizimou...


Guiné > Região de Cacheu  > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > 11 de dezembro de 1968 >  Um hipopótomo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A nossa tropa não caçava hipopótamos. O PAIGC, sim. Dizimou-nos no rio Corubal (durante a guerra e depois). A carne e a gordura (além do couro...) eram recursos importantes no mato... 

Não se faz a guerra sem proteína. A fome era negra (sem conotação racista)... Havia milhares de bocas a alimentar na bacia hidrográfica do rio Corubal... 

O macaco-cão (e, em menor grau, o hipopótamo) deveria ser considerado também "Herói da Liberdade da Pátria", talvez até com mais mérito do que outras figuras controversas do PAIGC. 

"Do nosso lado", só esporadicamente lá se caçava um hipótomo ou outro,  que fazia "asneiras" (invadia os campos de arroz, era uma autêntica "bulldozer"...). Os caçadores eram locais. A tropa quando muito podia ajudar a  "rebocar" o bicho... 

Um hipopótamo adulto pesa, em média, entre 1,3 a 1,8 toneladas, com os machos podendo atingir pesos superiores, frequentemente passando as 3 toneladas. Os machos mais velhos podem chegar a mais de 3,6 mil kg (havendo registos excecionais de até 4,5 mil kg).

Comparando com uma vaca dos fulas, da raça N'Dama (pesando em média 250 kg e dando 50 % de carne limpa), um hipopótamo médio (1,5 mil kg) equivalia a uma meia-dúzia de vacas, com a vantagem de também dar também muita gordura. O problema devia ser a sua conservação. A carne devia ser seca ao sol ou então defumada.

Temos fotos de hipótomos que apareceram mortos. Talvez por doença ou pesca com granadas de mão. No Cacheu (Vd. foto acima).

No Rio Geba, nunca os vi no meu tempo (em 1969/71). No rio Corubal ouvi-os á distância. 

Quanto ao hipopótamo-pigmeu (Choeropsis liberiensis) (**) é considerado extinto na Guiné-Bissau há cerca de 50 anos, com os últimos registos a remontarem ao final da década de 1950. Embora nativo da África Ocidental, a sua presença atual restringe-se à Serra Leoa, Guiné-Conacri, Costa do Marfim e Libéria, preferindo florestas densas. Não deve ultrapassar em média os 200 kg.

Luís Graça (***)

quarta-feira, 13 de maio de 2026 às 07:40:30 WEST
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Notas do editor LG:

,(*) Vd. poste de 11 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19278: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LV: O hipopótamo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu, precisamente há 50 anos

(Comentário de Virgílio Teixeira)

(...) Luís, há uns anos atras um condutor do meu batalhão, confidenciou-me, por isso não cito nomes, porque também não vi, mas acredito piamente, que um oficial superior do batalhão ia à pesca de madrugada, no rio São Domingos, afluente do Cacheu, lançava granadas ali bem perto do cais, e não faltava peixe. 

Um dia, num barco Zebro, com outros 2 condutores, teve uma sorte, ou azar, porque o barco onde iam a lançar as granadas, foi levantado ao ar por um hipopótamo. Salvaram-se todos e nunca mais foram, e os pormenores não interessam aqui, mas dá para perceber. 

Talvez este hipopótamo, frequente nestes rios, onde eu tantas vezes andei, tenha sido morto pelas tais granadas. Eu nunca vi um animal destes vivo, só este morto. Ponto. (...)

terça-feira, 11 de dezembro de 2018 às 22:54:00 WET

Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho


Guiné > Região do Cacheu >Có > 2ª CART /BART 6521/72 (Có, 1972/74) > s/d> "À falta de vaca, o hipopótamo avançou para o 'rancho' " (Ferreira, L. C., "Os Có Boys", ed. autor, s/l, 2025, pág. 82). Não sabemos se o animal foi caçado pela tropa ou por algum nativo.

Foto (e legenda): ©  Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Oeiras > Algés > Magnífica Tabanca da Linha > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Luís da Cruz Ferreira (o "Beatle") (Cascais),  autor do livro de memórias "Os Có Boys" (ed. autor, Cascais, 2025, 184 pp.), nosso grão-tabanqueiro nº 913, apadrinhado pelo Pinto Carvalho.
 
1. Retomamos hoje a nossa leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhos da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)

Faz parte da nossa Tabanca Grande desde 26/2/2026. Vive em Cascais.


Sinopse dos postes anteriores (*):

(i) o Luís, de alcunha o "Beatle", empregado de hotelaria e restauração, nascido na Benedita, Alcobaça;

(ii) é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972);

(iii) não tendo sido "repescado" para o CSM, tira a especialidade de 1º cabo aux enf, em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972);

(iv) parte para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972;

(v) no CIM de Bolama, faz a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional.

(vi) após a realização da IAO, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308;

(vii) um mês depois, em 25Nov72, assumiria a responsabilidade do subsector de Có, ficando os "periquitos" entregues a si próprios.

(viii) a 2ª C/BART 6521/72 também teve que adotar um nome de guerra, neste caso "Os Có Boys"; a companhia dos "velhinhos", que eles foram render, a CCAÇ 3308, eram os "Jagunços de Có";

(ix) no último poste relatou a emboscada à coluna Teixeira Pinto - Pelundo - Có - João Landim - Bissau, ocorrida em 31/10/1972 (*).


2. Ainda na fase da sobreposição com os "velhinhos", a CCAÇ 3308, o "Beatle" tinha que sair para o mato, a mala de bolsa de enfermeiro e a G3, integrado num pelotão (geralmente iam dois), em patrulhamentos de reconhecimento do subsector de Có (contactos com a população, identificação dos trilhos e exploração dos pontos de maior risco, etc.)



(pág. 81)

Foi nessas saídas que o nosso "Beatle" viu hipopótamos, animais que não era fácil de avistar ao perto. Não crem0s que muitos dos nossos camaradas os tenham visto, dado o seu "habitat" e comportamento furtivo. 

As populações continentais, de água doce, estão ligadas às grandes bacias hidrográficas do interior ( Cacheu, Geba, Corubal, Mansoa, entre outras) e deslocam-se sobretudo de noite para alimentação em savana húmida e bolanhas. Já os de Orango, nos Bijagós, da mesma espécie, que vivem também em água salgada, têm um comportamento adapativo.

Nas zonas dos grandes rios ( Cacheu, Mansoa, Geba, Corubal ) os hipopótamos sempre tiveram uma relação ambígua com as populações locais: animal respeitado ("sagrado", nos Bijagós, na ilha de Orango), por vezes temido, também é fonte ocasional de carne, gordura e couro. 

Em tempos de escassez, um único hipopótamo podia alimentar uma tabanca inteira durante vários dias.

Quanto ao sabor, os testemunhos de caçadores, viajantes e populações africanas de várias regiões costumam descrevê-lo assim: (i) carne escura, vermelha, muito densa; (ii) textura firme, entre vaca brava e búfalo; (iii) sabor forte, “selvagem”, mas menos intenso do que o da caça grossa africana; (iv) para alguns, seria uma mistura de vaca e javali; (v) a gordura é apreciada em certos locais, mas pode ter um cheiro intenso; (vi) a carne dos animais mais velhos tende a ser dura, exigindo cozedura longa ou fumagem (em África, muitas vezes é seca ao sol ou fumada para conservação).

Na época colonial, alguns "tugas" consideravam a  carne de hipopótamo como “boa para estufados” e “muito nutritiva”, embora não fosse propriamente um produto "gourmet".  

Hoje, porém, o consumo está muito mais condicionado,  por diversas razões: (i) o hipopótamo está legalmente protegido; (ii) há uma dominuição drática das população (outrora muito abundante na África Ocidental, as populações de hipopótamios da Guiné-Bissau representam atualmente o extremo ocidental da distribuição da espécie); (iii) continua a haver a pressão da caça furtiva; (iv) há cada vez mais riscos sanitários ligados ao consumo de carne selvagem, sob controlo veterinário; (v) os parques naturais, como o dos Tarrafes do Rio Cacheu e o de Orango, tentam preservar a espécie.

Curiosamente, na tradição bijagó, sobretudo em Orango, os hipopótamos têm também uma dimensão simbólica e espiritual muito forte, o que limita ou proíbe a caça em certas comunidades. Já no continente, a relação foi historicamente mais pragmática.


Mas voltando às memórias do Luís da Cruz Ferreira, depreende-se da sua leitura que as relações da tropa com a população local (de etnia predominantemente mancanha), parece que eram boas, apesar de algumas famílias terem "parentes no mato". 

(pág. 83)


Embora a zona não fosse das de maior risco ("em termos da atividade da guerrilha", pág. 84),a caça era relativamente abundante. Os caçadores de Có, nomeadamente mancanhas e que pertenciam também à milícia, saíam, com a  devida autorização, para caçar com a velha Mauser. Eram eles que forneciam a caça para o quartel: "Gazelas, javalis e cabras eram estas as espécies que os caçadores com mais frequência faziam chegar até nós" (pág. 84).

(Continua)

Pesquisa: LG + Net + IA (ChatGPT/OpenAi)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG) 

Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, pp. 81-82 (**)
______________


(**) Último poste da série > 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28010: Notas de leitura (1921): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (7) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 12 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28013: Humor de caserna (265): A ronda do sono e as sentinelas... desarmadas (Fernando de Jesus Anciães / Joaquim Pinto de Carvalho, CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852, Buba, 1971/73)





Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição (e legendagem)  orientada pelo editor LG, sob história contada pelo FJA/JAPC .11 de maio de 2026 


1. Quem é que não se lembras destas expressões da gíria ou calão de caserna  que usávamos para designar "dormir" ?!... Quem é que, nas longas noites quentes e húmidas da Guiné, naquelas horas mortais da madrugada, no aquartelamento ou destacamento no mato, no seu posto de sentinela, não foi apanhado pela ronda a "chonar", a "ferrar o galho", a "passar pelas brasas", a "bater a sua sorna", com a sua "namorada" (a G3), pousada no peito...? 

A gíria ou calão de caserna é um universo à parte, cheio de criatividade e ironia, especialmente para escapar à monotonia e ao cansaço das noites intermináveis na Guiné: onde havia de tudo, mosquitos, e miríades de outros insetos, calor, humidade, chuva, trovoada (conforme a estação),  uivos das hienas, silvos de granadas, very ligths, balas tracejantes...  Mas também tédio, cansado, medo, lassidão, angústia, sono, sobretudo muito sono...

Eis algumas expressões para "dormir" (ou tentá-lo) no posto de sentinela, em emboscada,  no mato, ou na caserna, em véspera de uma "saída":
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  • "Chonar" ( ou "xonar") – Clássico, vindo do calão lisboeta, mas adoptado em todo o lado; era o verbo por excelência para "dormir" (ou "tirar uma sesta", mesmo que fosse só uns minutos entre turnos);
  • "Ferrar o galho" – Esta era mais usada para "dormir profundamente", muitas vezes em situações menos formais ou quando se aproveitava um momento de folga;
  • "Passar pelas brasas" – Esta tinha um tom mais irónico, como se fosse um ritual de resistência: aguentar o sono a todo o custo, mas acabava por ser o mesmo que "adormecer"; sinónimo: passar pelo sono;
  • "Bater a sorna" – Outra pérola! Sorna era o sono, e bater era tirá-lo, mesmo que fosse à pressa: às vezes ouvia-se também "bater uma soneca";
  • "Pegar no sono" – Mais literal, mas também muito usada.
  • "Dormir a sono solto" – Quando o cansaço era tanto que nem a ronda ou os mosquitos ou os "turras" conseguiam acordar.
  • "Ninar" – Usada mais em tom de brincadeira, como se alguém estivesse a embalar-se e a dormecer (ao som de uma cantiga);
  • "Dormir como um prego" – Esta era mais específica: dormir em pé, encostado a uma parede ou a um poste, como os soldados faziam nos postos de sentinela (com a G3 ao peito); ter um sonmo profundo; sinónimo: dormir como um anjo;
  • "Fazer a sesta do leão" – Para quem conseguia dormir em qualquer lado, como os animais do mato;
  • "Estar a sonhar com a terra" – Quando o sono era tão profundo que se sonhava com Portugal, com a família, ou com a comidinha da mamã.
 
Outras expressões relacionadas com o sono (ou a falta dele):
 
  • "Ficar a olhar para o teto" – Quando não se conseguia dormir, mas se fingia que sim (neste caso, olhar para o céu estrelado, ou para o negrume da floresta à volta);
  • "Ficar a contar carneiros" – Quando não se tem sono, ou quando se tem insónias;
  • "O sono é o melhor soldado" – Um ditado que se ouvia muito, especialmente nas noites antes de uma operação; sinónimo: passar a noite em branco;
  • "A ronda não perdoa" – Para quem era apanhado a "chonar" em serviço.
  • "Dormir de olho aberto" – Literalmente, tentava-se, mas não era fácil com o calor, a humidade,  os mosquitos, os ruídos da mata;
  • "O sono é o único luxo que não se paga" – Uma forma de justificar uns minutos de descanso roubados;
  • "O sono é o melhor médico" – Provérbio judaico;
  • "O teu mal é sono" – Quando  uum gajo andava a bater com a cabeça pelas paredes (ou nas árvores e arbustos, em operações, ou no gajo da frente); sinónimo: bêbedo de sono.


Pinto Carvalho.

Foto  LG (2010)

E a G3 como "namorada"? Essa sim, era uma imagem recorrente! A G3 era a nossa companheira constante, sempre ao peito ou ao lado (na cama, na caserna) como uma namorada (ciumenta) que não se podia largar. E quando se adormecia com ela ao colo, era sinal que o cansaço tinha ganho a batalha.


2. E a propósito do sono ( em tempo de guerra), temos hoje mais   um contributo do  nosso colaborador permanente
Joaquim António Pinto Carvalho (JAPC) que, como já o dissemos, é reconhecidamente, um homem dotado de apurado sentido de humor. 

Foi alf mil da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 (Buba) e CCAÇ 6 (Bedanda) (1971/73). É hoje advogado, ainda no ativo. 

Da brochura, de que é autor,  com a história da unidade, a CCAÇ 3398, distribuída no respetivo XXV Convívio, realizado no Cadaval, em 18/9/2021,  vamos "sacar" mais uma historieta engraçada,  que o JAPC recolheu junto do seu camarada, também ele alf mil at inf, Fernando de Jesus Anciães (FJA).



Fonte: "A 'chama' que nos chamou: um contributo para a história da CCAÇ 3398, "Os Incendiários", Buba, Guiné, 1971-1973, na comemoração do seu cinquentenário. Edição de autor, s/l, 2021, pp. 55/56. (Com devida vénia...)