Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28439: Recortes de imprensa (147): Na Série Especial "A minha Guerra", do Correio da Manhã do passado dia 11 de Outubro, foi publicado um pequeno texto sobre o nosso camarada Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Esp da CART 3492, Pel Caç Nat 52 e CCAÇ 5, que aqui reproduzimos com a devida vénia

(clicar nas imagens para leitura dos textos)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 23 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27048: Recortes de imprensa (146): Suécia, Guiné-Bissau e Cabo Verde: já não vale a pena corrigir os jornalistas portugueses: o PAIGC nunca declarou a independência em Madina do Boé nem nunca teve 400 mil habitantes nas "zonas libertadas" - Parte I

Guiné 61/74 - P28438: Estórias do Zé Teixeira (66): Recordações do Dia 10 de Junho de 1968 em Ingoré (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381)

1. Em mensagem do nosso camarada e amigo José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381 (Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70) com data de 13 de Outubro de 2026:

Carlos
Espero que tu e a Dina estejam bem.
Luís e Alice os mesmos votos de saúde e bem-estar.
Por cá, vai-se andando.

Junto uma narrativa curiosa que vivi no dia 10 de junho de 1968 em Ingoré.

Beijos e abraços
José Teixeira



Recordações

10 de junho de 1968. Estava eu em Ingoré na fronteira norte da Guiné. Era dia feriado em todo o mundo português, por ser o Dia de Camões, da Raça e de Portugal. Tinha passado um mês da minha chegada à Província. A enfermaria militar estava fechada, por ser dia feriado e como tinha saído para o mato no dia anterior, estava livre de qualquer tarefa, pelo que decidi, após o pequeno-almoço, dar uma volta pela Tabanca. Era tempo de partir à exploração da localidade e das gentes, sozinho. À minha maneira, observar, a terra, as casas, as pessoas e os seus costumes.

Ouvi, um som de batuque. Estranhei por ser de manhã, mas dispus-me a segui-lo atentamente. Ainda não tinha tido a oportunidade de ver a tão famosa batucada africana de que falavam os que tinham regressado à Metrópole. Localizei um recinto fechado em cana de bambu e entrei. Era uma espécie de discoteca, com muita juventude que dançava e suava por todos os poros da pele. Um cheiro a catinga como nunca tinha sentido. Dois jovens, logo se dirigiram a mim, com palavras e gestos com palavras que não entendi. (o meu crioulo ainda estava muito ferrugento), e delicadamente pegaram-me por um braço e puseram-no no exterior. Continuei, então, o meu caminho pela tabanca, quando vi aproximarem-se de mim dois “lusitos”. Dois pequenos e franzinos miúdos, bem aprimorados com a farda da Mocidade Portuguesa. Para quem não sabe, ou não se lembra, era o nome dado às crianças que andavam no Liceu. Eram obrigadas a inscreverem-se na Mocidade Portuguesa, e usar a devida farda nas atividades da Mocidade, que eram ao sábado à tarde. No dia 10 de Junho havia grandes desfiles de jovens com a farda da Mocidade, em Lisboa e no Porto, nos grandes ajuntamentos e desfiles militares, onde eram condecorados os heróis do Ultramar, muitos dos quais a título póstumo.
Ingoré, 10 de Junho de 1968 > José Teixeira com os lusitos da Mocidade Portuguesa

OBS: - Foto colorizada com recurso à IA - ChatGPT

Esfreguei os olhos para me certificar que não estava a ver fantasmas. Não! Era verdade. Aproximei-me e cumprimentei-os com um – Bom dia! Responderam-me com uma saudação típica da Mocidade e retribuíram com um bom dia, senhor!

Ali ficamos no meio da tabanca, com um sol do caneco a falar em português correto. Vinham da escola primária local, as comemorações do Dia de Camões de Portugal e da Raça, onde eram alunos da quarta classe.

Para testar os seus conhecimentos fui um pouco malandro, revi a minha 4.ª classe, e fiz perguntas, sobre Portugal continental na área de História e Geografia, e descobriu que sabiam, na ponta da língua, os nomes dos Rios; nascentes, afluentes e onde desaguavam; o nome das serras foi cantado na mesma ladaínha que nós usávamos para decorar; das estações da CP em Portugal; dos Reis que nos governaram, etc. no meio da conversa descobri que não faziam ideia do que era e como era um comboio. No seu livro escolar, parece que havia uma fotografia a preto e branco, com uma máquina a vapor envolvida em fumo e umas carruagens, mas como se movimentava aquele monstro? Explicar-lhe não foi fácil, mas o possível, creio eu, para entenderem.

Na primeira oportunidade, fui visitar a escola, conhecer o professor (creio que se chamava Domingos). Da primeira vez estava a dar aulas, com uma sala cheia de crianças em silêncio, muito atentas. Tinha algumas carteiras, se a memória não me falha, mas não dava para tanta criança. Voltei várias vezes, depois do horário escolar para conversarmos sobre o ensino, a aprendizagem das crianças e do futuro daquela gente esmagada pelo medo da guerra. Era um jovem professor de dezasseis anos. Estava ligado à Comunidade Salesiana de S. Domingos, onde tinha feito alguns estudos do Secundário. Fora colocado em Ingoré no princípio do ano escolar e queria seguir a carreira de professor. Esperava que chegasse o fim do mês de julho para ir nas viaturas militares até ao Sedengal e depois, seguir pela mata, até S. Domingos para continuar os seus estudos durante as férias. Caminho que conhecia bem, pois já o tinha feito algumas vezes.

Passado um mês, a minha Companhia foi deslocada para Sul. Foi tal a rapidez da mudança, que nem me deu tempo para me despedir do jovem professor Domingos, que tinha ganho a minha amizade e profunda admiração pela sua força de vontade e dedicação. Voltei a Ingoré em 2011 com o saudoso Pepito, acompanhado dos meus filhos, para visitar o Infantário Pipisa, que quer dizer Flor de Arroz, o qual estava a ser apoiado pela Associação Tabanca Pequena de Matosinhos. Passei uma bela manhã, a conviver com cerca de cinquenta crianças.

Perguntei pelo Professor Domingos. Era um ilustre desconhecido para aquelas jovens que geriam o infantário. A Escola tinha desaparecido. Havia outra, maior e mais atual. Creio que atualmente há um liceu. A Tabanca cresceu imenso. Incorporou Ingorezinho e outras pequenas tabancas existentes no meu tempo. Ingoré é um mundo, como pude constatar em 2013 e 2015, quando lá voltei.

O tempo (cerca de quarenta e três anos) tinha apagado muita coisa das nossa memórias, mas os dois simpáticos e sabichões “lusitos” e o Professor Domingos continuam bem presentes na minha.

Que será feito deles?
José Teixeira

Eu a interagir com as crianças em 2011
O meu filho Tiago a interagir com as crianças em 2011
O meu Tiago e o saudoso Pepito com as crianças, em 2011
_____________

Nota do editor

Último post da série de 30 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26094: Estórias do Zé Teixeira (65): Da Guiné a Lisboa a pé pelo Saará - O sonho que durou vinte anos a concretizar-se (2) (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381)

Guiné 61/74 - P28437: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XV: semana de 12 a 18 de maio


Lourinhã > 4 de outubro ode 2026 > Caas do Rui Chamusco : As minhas netas, Clara e Rosa, mais a avó  Chita., a ajudar o Rui a apanhar diospiros. Reconstituiçáo artística, com recurso a ferramenta de IA, a patir de uma imgem HDR (High Dynamic Range).

.Foto (e legenda: ©  Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT/Open AI]
 


1. Prosseguimos a publicação das crónicas de 2019 (III Viagem a Timor-Leste) do nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, natural da Malcata, Sabugal, a viver na Lourinhã.

Vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (só não foi  na pandemia, 2020, 21 e 22). Ele é um exemplo vivo do que é a solidariedade e o amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar, e de que é dirigente (a ASTIL).

Essa história, em tétum e em português,  de dedicação às crianças das montanhas da martirizada Liquiçá (onde está funcionar, em Manatti / Boebau, a Escola de São Francisco de Assis) merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné. Bem como outros aspetos da geografia, história e cultura de Timor-Leste, país membro da CPLP, que as crónicas do Rui também procuram  divulgar.

Em Timor-Leste, o Rui fica na casa do Eustáquio, irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro dos co-fundadores  e dirigentes da ASTILl juntamente com a Glória Sobral).




Prompting  e orientação editorial: Luís Graça
Imagens e texto: Rui Chamusco (2019)
Geração gráfica assistida por IA (Google Gemini AI)
(2026)


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 22 de março de 2025 > 7º aniversário da Escola de São Francisco de Assis (ESFA) > O 1º ministro da RDTL com o grupo de professores, mais o Rui  (à direita) e o  João Moniz Sobral ("Eustáquio") (ao lado de Xanana Gusmão)


O 1º ministro da República Democrática de Timor-Leste (RDTL), Kay Rala Xanana Gusmão, acompanhado do administrador do município de Liquiça, Rogério dos Santos, fez uma visita-surpresa à ESFA, em Boebau / Manatti, município de Liquiçá, por ocasião do 7º aniversário, sendo recebido pelo Rui Chamusco ("Tiu Rui" ou "Abô Rui"), "malae"m português, dirigente da ASTIL, e pelo coordenador da escola, o timorense João de Araújo Moniz Sobral ("Eustáquio").

Imagens da Média - GPM / RDTL (República Democrática de Timor-Leste, com a devida vénia)... Fonte:  Página do Facebook do 1º Ministro da RDTL, Kay Rala Xanana Gusmão
I

III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XV: semana de 12 a 18 de maio (*)



12.05.2019, domingo - A ociosidade...mãe de todos os vícios

Já referi em relatos anteriores que um dos grandes problemas a resolver nesta sociedade timorense é a ocupação dos jovens. Enquanto que bastantes prosseguem os seus estudos, obtêm diplomas e tentam arranjar emprego no país ou no estrangeiro, outros ficam-se pelo ensino básico, à espera que algo lhes aconteça.

É frequente encontrarmos grupos de jovens em qualquer parte e a qualquer hora do dia. E nós perguntamo-nos: “ O que é que eles estão fazendo?” 

Muitos deles frequentam lições de artes marciais, capacitando-se assim para a luta de corpo a corpo. De vez em quando há episódios que lhes são atribuídos. Por exemplo terem atacado e morto um senhor (normalmente atacam para roubar, sobretudo dinheiro que tanta falta lhes faz). Depois, esquartejaram o seu corpo e foram lançá-lo ao mar, para alimento dos crocodilos.

Esta noite, aqui bem perto, aconteceu outro ataque: um senhor que descansava tranquilamente na sua casa, foi assaltado por um destes grupos para o roubar. Estragaram-lhe a motorizada e, possivelmente, limparam-lhe os dólares que encontraram. Safou-se ao menos de ser atirado ao mar.

Este clima de insegurança já levou uma alta patente do exército − o coronel Ledere  − a fazer declarações em canal televisivo, dizendo: 

 −  Se o governo não tomar medidas, a tropa virá para a rua resolver a situação.

 Mas até agora, não se tem sentido o efeito de qualquer medida adotada.

“Quem poderá domar os cavalos do vento” ? Quem terá a coragem de intervir? Oxalá não apareça algum político demagogo a prometer mundos e fundos a estes jovens, pois facilmente os arrastará pra a sua causa e, quem sabe, para o combate violento.

Não sei,  não! Mas gostaria que, tal como a maioria dos habitantes deste país,a guerra e a violência nunca mais cá voltassem.

Hoje e amanhã, dia 12 e 13 de Maio, multiplicam-se rezas e procissões pelas ruas e igrejas deste país, porque é o aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima. 

Que bom seria que todos pedissem a paz para este povo tão martirizado recentemente. As cicatrizes e as memórias da guerra ainda estão muito presentes.

13.05.2019, segunda feira    − A festa dos mortos

Parece incrível mas é verdade. Logo de manhã, depois do matabicho (pequeno almoço), inadvertidamente comecei a trautear uma canção. Fui logo chamado atenção pela Adobe e pela Aurora: 

− Tiu Rui não pode cantar, porque morreu asenhora.

 Ontem soou a meio da tarde a sirene do carro mortuário que trazia o corpo da senhora falecida cuja casa de família é daqui bem perto. E por respeito aceitei a reprimenda, sem que no entanto deixasse de pensar e retorquir: 

− Então eu aqui em vossa casa não posso cantar, mas vocês à noite, na casa do velório, a rir, comer e beber,rezar, jogar cartas, etc...?!”

Parece um paradoxo, segundo o que queiram pensar. O facto é que, aqui em Timor, o culto dos mortos é motivo de tristeza e de festa. Guardam os corpos durante três ou quatro dias, e durante esse tempo, todas as noites se faz o mesmo ritual. Sei até que há o costume de nessas vigílias falarem bem e mal do morto, pondo a nu a sua vida.

Choro e riso, lágrimas de alegria e de tristeza, mal dizer e bem dizer, preces e orações, tudo pode acontecer. E estas cerimónias vão repetir-se ao longo do ano: seis meses depois para anunciarem o o pequeno luto (luto kíik), e um ano depois para comunicarem o desluto (koremetan).

A tradição, a cultura timorense, é muito exigente no cumprimento destas cerimónias e rituais. Traz muita carga de responsabilidade, sobretudo para os “manefons” (genros) que têm de suportar uma despesa enorme, conforme os “humanes” (irmãos do falecido) decidirem. É por isso que eu digo: esta gente que respeitar e cumprir estas exigências culturais nuca poderá enriquecer.

Talvez um dia possa descrever em pormenor toda a negociação que se gera em torno destes eventos associados à morte. Por enquanto não me resta outra solução do que respeitar esta cultura e tentar compreender esta dialética entre a vida e a morte.

14.05.2019, terça feira  - Nós, os mosquitos e o mosquiteiro

Viajar para países tropicais supõe sempre uma prevenção que passa pela consulta do viajante, por vacinas e cuidados a ter contra as doenças que proliferam no país de destino. Timor não sai desta regra e, quase sempre, vimos prevenidos com cremes, comprimidos, etc, etc...

Um dos agentes mais comuns na transmissão destas doenças são os mosquitos que, a bem dizer, nem sei porque Deus os põe neste mundo, mas como bom crente acredito que de alguma missão foram incumbidos. Que mais não seja para nos chatear e por à prova a nossa paciência.

Por precaução e para evitar as picadas de mosquitos, particularmente das melgas, utilizamos diversos artefactos: 

  • raquete mosquiteira (muito eficaz mas que deixa um rastro de carne queimada), 
  • os sprays (também infectam o ar tornando-o irrespirável);
  •  a rede mosquiteira.;
  • e, em último recurso, a palmada certeira que reduz a vítima asanduíche. 
De todos eles, a rede mosquiteira é talvez a mais utilizada, o que implica uma espécie de teto falso sobre as nossas camas. tornando-o quase transparente.

Muitas vezes não conseguimos distinguir se os atacantes estão dentro ou fora deste habitáculo, originando assim situações caricatas. Quantas das vezes não fazemos deDon Quixote de la Mancha, perseguindo mosquitos que mais não são do que pontos negros ressaltando do teto ou das paredes. E então quando o perseguidor já tem falta de vista ou é mirolho, pior ainda. São golpes e chapadas em vão que até nos fazem rir de nós próprios. É uma guerra injusta, mas que temos de suportar...

14.05.2019 - “Com bolos se enganam os tolos...”

Hoje vim a saber que, em Portugal como em Timor, há práticas ancestrais comuns para alcançar determinados fins.

Lembro-me em criança, nos anos cinquenta, que um dia os ciganos apresentaram uma égua a meu pai, para fazerem o negócio de troca por uma burra mais uma quantia em dinheiro. Para provarem que o animal era manso, foram à Eira buscar uma carga de ferrém. O meu pai ficou encantado, a égua era mansinha, e de pronto se fez o negócio. 

No dia seguinte, meu pai foi experimentar de novo a doçura do equídeo, e depressa se deu conta que tinha sido enganado. O animal parecia que tinha o diabo no corpo. Ninguém a segurava. Soubemos então que eles tinham embebedado a égua,  deitando-lhe aguardente para dentro das orelhas. Claro que o meu foi de imediato ter com os ciganos para desfazer o negócio. A troca da burra pela égua endiabrada foi possível. O que não conseguiu foi recuperar o dinheiro.

Vamos então ao caso de hoje em Timor, em Ailok Laran. O Eustáquio, como os outros vizinhos, tem por aqui vários galináceos, donde ressaltam belos exemplares de galos (manu-aman") que, devido à liberdade de que gozam, é muito difícil apanhá-los. 

Então qual foi a estratégia adoptada? Deitou-lhes uma mão cheia de grão de milho e, num recipiente improvisado (uma garrafa de água vazia cortada ao meio) misturou "sabu" (aguardente de palmeira) com cocola e deu de beber aos dois “pica-no-chão”.

 Regalados, foram bebendo até à saciedade, até cairem de borrachos como se costuma dizer. Não caíram, mas ficaram muito calmos, podendo assim, se o quiserem, apanhá-los e levá-los para onde for o seu destino: mudança de lugar, luta de galos, ou o cadafalso para servirem de manjar.

Pois é! Parece que a utilização do álcool como droga anestesiante funciona mesmo.

Quem teria ensinado este povo timorense? Não me admiraria nada que tenham sido os portugueses. Aliás temos a fama de sermos grandes consumidores de álcool, particularmente de vinho.

16.05.2019, quinta feira  - Há mar e mar...Há ir e voltar...

Esta é a sina de todos nós: viajar. No tempo, no espaço, de uns lados para os outros num constante devir. Ontem chegamos, amanhã partimos. Tal e qual, como peregrinos e forasteiros neste mundo.

Estes últimos anos os ventos sopraram para os lados do Oriente. Pela terceira vez que o destino é Timor, sempre com ordem de voltar ao país de origem. E chegou a hora de pensar no regresso, atempadamente, até porque nos fazem melhores preços. Pois assim será: na primeira semana de julho próximo, lá estaremos nós (eu) de abalada.

Mas como ainda falta um mês e meio, e há tanta coisa por fazer, vamos trabalhar no projeto de solidariedade com unhas e dentes, na esperança que alguns dos problemas e necessidades se resolvam. Penso até que, quando o tempo urge, somos mais eficazes nas nossas ações. Assim mesmo. Sem perdermos de vista o que realmente nos traz porcá, vamos caminhando nesta reta final, de peito ao vento e de cabeça erguida, esperando o dia do regresso.”Há mar e mar...Há ir e voltar...”

17.05.2019, sexta feira - Farmácia natural

Hoje tomei conhecimento de mais uns quantos produtos naturais que a cultura timorense aplica para determidas doenças. Enquanto esperávamos no jardim do Mundo Mágico, o Eustáquio deu-me uma aula sobre remédios naturais, a partir das plantas que ali se encontram, A saber:

  • Buganvília: as suas raízes, depois de bem lavadas, são fervidas. Não se deve tapar o recipiente. A sua água deve beber-se regradamente. É um remédio utilizado para curar a tuberculose. O Eustáquio afirma que já foi aplicado num familiar, e que a partir daí nunca mais teve esse problema de saúde.
  • Birama: as suas folhas esfregadas são bom coagulante do sangue. Uso externo.
  • Papaia: as suas sementes, engolidas sem mastigar, são um bom digestivo e regulador do intestino.

Sempre a aprender nesta escola da vida, com um professor de excelência.



Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2023 > Transporte coletivo, uma "anguna"

Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


18.05.2019, sábado  - A caminho de Boebau ...


Mais uma viagem para as montanhas de Liquiçá. Como sempre cada viagem é uma aventura, nunca sabendo o que iremos encontrar: chuva, sol, nevoeiro, lama, buracos e árvores atravessadas no caminho, animais ("kraus" / bois e "manus" / galinhas), pessoas sobretudo crianças, etc... Uma constante atenção a ter em conta, especialmente pelos condutores.

Desta vez tivemos de alugar um “carro” para transportar alguns materiais (mesas e cadeiras) que o Jardim Mágico (creche e jardim de infância, fundado em 2016, e que fica na Rua Santo António de Motael, em Díli, junto à Igreja de Motael) ofereceu, a fim de equiparmos a Escola de São Francisco. Carga pronta, e lá fomos até Liquiçá, onde dois amigos − o professor Mário e a educadora Mariana − nos esperavam para seguirmos a viagem até Boebau.

Por conselho do Eustáquio a Mariana deixou o seu “motor” em Hepu’u, em casa de familiares da família Sobral. E começou então propriamente a aventura desta viagem:os dois “motores” do Eustáquio e do Mário à frente, e o “carro” do Apeu atràs, onde viajávamos eu e a Mariana. 

Para além dos solavancos e apertões a que fomos sujeitos, pois os buracos do caminho são cada vez mais e maiores  não há manutenção nem seviços de estrada - por três vezes tivemos de descer da viatura para a ajudarmos a sair do lamaçal ou de subidas íngremes onde o cheiro dos pneus queimados nos ia entupindo as narinas. 

Valeu-nos em situação mais difícil a boa vontade dos viajantes da “anguna” (camioneta ou carrinha, tipo toca-toca)  que prontamente acudiram para empurrar.

Depois de duas horas de caminho com mais ou menos doze quilómetros de distância carregado de peripécias, chegámos finalmente a Boebau, onde nos esperavam as crianças, as assistentes e bastantes pais à entrada da Escola de São Francisco. 

Cantado o hino da escola e mais algumas canções anteriormente aprendidas procedeu-se à sessão de fotografias das crianças que frequentam esta escola: 

  • grupo A (3, 4 anos) )= 16; 
  • grupo B (5,6 anos) = 25. 

A professora Rita Gonçalves, a lecionar na escola de Kilo, e que colobora na escola de São Francisco, reuniu os pais das crianças e quis que eu dissesse algumas palavras sobre esta visi ta. Quiseram também saber qual o motivo da presença do professor Mário e da educadora Mariana. E tive que lhes dizer que é uma visita de amigos, porque alguns já pensavam que eram os professores para a Escola de São Francisco de Assis. Quem nos dera!...

Chegou a hora do almoço e, como sempre, fomos até à casa do Bozé, onde nos esperavam as iguarias desta refeição: arroz, folha de mandioca, flor de papaia, bocadinhos de frango caseiro (aqui não há frango de aviário) ("manus") e água. 

A Mariana comentava: 

 −Adoro estas comidas... 

Eu também.

A Mariana ainda teve tempo para dar as instruções necessárias sobre a utilização e aplicação do material pedagógico que nos trouxe.

Rui Chamusco  | Revisão / fixação de texto, título, negritos: LG.

_______________


Nota do editor LG:

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28436: Historiografia da presença portuguesa em África (548): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (16): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não foi por acaso que juntei a este texto a imagem de uma carta geográfica elaborada pelo Capitão Brosselard mostrando o Casamansa e a colónia portuguesa na Guiné. O oficial francês explica com meridiana clareza as razões pelas quais a diplomacia francesa se bateu estrenuamente para se desembaraçar da presença portuguesa dá margens do Casamansa. Durante as conversações realizadas em Paris e que levaram à elaboração da Convenção Luso-Francesa assinada em 12 de maio de 1886, os representantes portugueses bem argumentaram a nossa longa presença histórica em Ziguinchor, para os franceses era a pedra no sapato, contornaram a questão prometendo oralmente que iriam apoiar a diplomacia portuguesa na questão do Mapa Cor de Rosa. Na hora própria, assobiaram para o lado, e ganharam a pérola de Ziguinchor.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 16
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Estamos agora na apreciação que o Capitão Brosselard faz de Ziguinchor. No meu ponto de vista, constitui algo de muito relevante para se perceber das motivações geopolíticas que levaram o Governo de Paris a tudo fazer para nos afastar liminarmente do Casamansa. Damos a palavra na primeira pessoa do singular ao narrador.

No percurso do rio Casamansa só se encontra uma escala digna desse nome. É Ziguinchor. Tem um fundo de sete metros no cais. A montante desta ancoragem, os navios com um calado de três metros podem subir até à ponta Piedras; com um calado de dois metros podem atingir Selho, a 170 Km da foz; abaixo desta dimensão, as embarcações podem subir algumas milhas para lá de Dianah. Deste ponto às nascentes, a distância só poderá ser feita por pirogas ou canoas de fundo liso.

De Adéane a Dianah, as duas margens são bordejadas por uma vegetação luxuriante e árvores gigantescas, principalmente em Yatacounda onde as únicas clareiras que se encontram são ocupadas pelas povoações. A maré faz-se sentir até Selho, e facilita a navegação a veleiros de um só mastro e escunas da ilha de Gorée que, com exceção de alguns navios costeiros ingleses, carregado de nós de cola, frequentam sozinhos este rio. Um vapor demora doze horas desde a foz do rio Casamansa a Selho; os veleiros precisam de três dias. O principal afluente do Casamansa, o Songrogou, é praticável até Tabor para os pequenos veleiros de um só mastro ou bateiras com um calado de 80cm.

Com a concordância do comissário português, a missão francesa dirige-se a Ziguinchor, em 24 de abril, no aviso Goéland. E toma posse desta Praça portuguesa que fora evacuada dias antes. O pavilhão francês foi hasteado no dia seguinte de manhã na presença dos principais habitantes e saudada pelos regulamentares vinte e um tiros de canhão.

Em Ziguinchor as habitações confortáveis são raras; quando muito, encontram-se três ou quatro casas de comerciantes construídas à europeia; as outras habitações são casas bastante elevadas, de forma quadrangular ou retangular, de vinte e cinco metros (?) de lado, cujas paredes são em barro e o teto em palha; comportam geralmente quatro divisões e um corredor central. Em grande número de povoações do Casamansa as habitações têm mais conforto que as de Ziguinchor. Quando eu explorava os arredores desta antiga escala portuguesa, fui um dia à povoação de Brin. Ergue-se no meio de um bosque de alta floresta; as casas são construídas com terra e têm um primeiro andar que lembra uma sobreloja. Como nas casas de Ziguinchor, esta parte é destinada a guardar as provisões de milho e arroz. Um largo teto de palha cobre tudo; a este teto são adaptados algerozes feitos com palmeira, através deles as águas fluviais escoam-se longe das povoações. Estas casas, no interior, com a sua grande altura, os seus corredores compridos e escuros, os seus postigos e pequenos recantos, lembram muito os velhos castelos medievais.

A ocupação de Ziguinchor regula a questão da posse do Casamansa, que se torna de facto um rio francês. Nós possuímos, além disso, a única escala favorável ao carregamento de grandes navios, Ziguinchor.

Os vapores podem subir com toda a carga e acostar aos pontões acima de seis ou sete metros de água. Esta situação, altamente favorável, atrai há bastante tempo os comerciantes que criam agora em Ziguinchor entrepostos gerais.

Antes da posse da escala portuguesa, os vapores que vinham da Europa descarregavam a sua carga em Gorée, onde tomavam os produtos do Casamansa, trazidos por um vaivém incessante de veleiros de um só mastro ou escunas. Doravante estes vapores virão diretamente aos pontões de Ziguinchor.

A floresta, a quinhentos metros da povoação, presta-se admiravelmente à criação de construções e jardins. Basta arrancar o matagal entre as palmeiras que procuram a sombra, a frescura e fornecem vinho, gordura, tecidos, etc. É um acontecimento feliz para a nossa nova possessão, porque apertado no meio dos seus arrozais, Ziguinchor sufoca nos seus limites atuais e a administração terá que tomar a iniciativa da criação e uma nova povoação na qual poderão estabelecer-se os habitantes que fazem atualmente dinheiro alugando as suas casas a comerciantes.

Graças à brisa marítima que se faz sentir regularmente todos os dias, o clima é relativamente doce, reconhece-se uma reputação de salubridade, porque os únicos franceses que têm descendentes do Casamansa são os que se estabeleceram nesta povoação. O senhor Chambas, um francês, viveu aqui 27 anos. Os habitantes intitulam-se europeus. Ziguinchor é assim uma pequena colónia que parece vir a tornar-se a principal localidade do Casamansa; Selho conservará a sua importância militar e Carabane será o posto alfandegário do rio.

Os habitantes da antiga povoação portuguesa têm somente pirogas, são talhadas a machado no tronco de árvores enormes e atingem grandes dimensões.

Durante muito tempo o tráfico de escravos era o grande negócio de Ziguinchor. Mais tarde, os portugueses contentaram-se em comprar escravos para o cultivo das terras vizinhas. Em 1860, a irmã do governador tinha ainda, só para ela, uma centena de escravos. Hoje os Grumetes não têm mais que os cativos estritamente necessários para as suas necessidades.

Quando os franceses se estabeleceram no Casamansa, os portugueses só mantinham dois soldados negros para guardar a bandeira. O serviço alfandegário era dirigido por um diretor e o culto religioso assegurado por um padre. Em certas alturas, os portugueses tinham posto uma guarnição de vinte homens comandados por um alferes.

A população mostrou muitas vezes antipatia pelo seu governador e que se traduzia por atos de revolta. No entanto, os portugueses manifestavam uma grande tolerância; tinham mesmo deixado subsistir usos e costumes inadmissíveis à sombra de uma bandeira de uma nação civilizada; assim um dos meus primeiros atos foi suprimi-los.

O mais horrível dos costumes que subsistiam ainda era o do julgamento do veneno, que remontava aos maus dias da Inquisição. Em certas épocas do ano, fazia-se beber o veneno às pessoas suspeitas de ser indiferentes à religião. O chefe da povoação (juiz do povo), desempenhava o papel de inquisidor, e o paciente não podia escapar à morte a não ser que se subornasse os seus juízes.

Há na povoação dois partidos: os que habitam o bairro oeste (Vila Fria) e o outro que habita o bairro este (Tabourka). As discórdias entre estes dois partidos levam muitas vezes à morte de homens.

No século XVII, os portugueses estabeleceram-se em Cacheu, São Domingos, Farim, Ziguinchor e num dédalo de outros lugares, fixaram-se na maior parte dos casos sem espírito de regresso. 

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Posto de Saúde de Cuntima (também conhecida por Colina do Norte), Guiné-Bissau, em estado de ruína, é manifesto o abandono. Imagem retirada da tese de doutoramento de Ibrahima Dione disponível no site: https://theses.hal.science/tel-00945314/file/THESE_DIONE.pdf, prende-se com os cuidados de saúde na República do Senegal
Carta do Casamansa e do distrito de Cacheu, elaborada pelo Capitão Henri Brosselard
Imagem extraída do livro La Guinée Portugaise, Subsides pour son Études, pelo antigo Governador Carlos Pereira, 1914
Povoação Mancanha, bilhete postal antigo

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 7 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28413: Historiografia da presença portuguesa em África (547): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (15): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28435: As nossas histórias aos quadradinhos (1) : o ataque à LFG Hidra (P376), no rio Cacheu, na noite de 20 para 21 de maio de 1973 (António Dâmaso, 1940-2026)










Prompting e orientaçãoo editorial: Luís Graça
Texto: António Dâmaso (2012) + Manuel Lema Santos (2007)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

 

1. Muitos de nós "aprenderam a ler" ou "alimentaram o seu gosto pela leitura", numa época em que não havia bibliotecas públicas na província, com  "O Cavaleiro Andante", uma das primeiras grandes revistas de "histórias aos quadradinhos" dirigidas aos mais jovens:  começou a  ser publicada em 5 de janeiro de 1952 e terminou  em 25 de agosto de 1962; saíram  556 números (!).

Publicada sob a chancela da Empresa Nacional de Publicade (ENP), tinha como diretor  o conhgecido escritor de literatura infabto-juvenil Adolfo Simões Müller (1909-1989). Custava 1$80 e destacava-se por trazer páginas a cores e capa ilustrada, e várias secções . 

Fui um consumidor voraz de "O Cavaleiro Andante" (e de livrinhos de cobóis): geralmente ia lê-lo a casa dos meus colegas e amigos de escola (como o Álvaro de Carvalho ou o Rui Tovar), cujos pais, mais afortunados do que os meus, já tinham ordenado ao fim do mês...Em meados de 1950, a minha mãe governava a casa com uma nota semanal de 20$00. E tinha  arte de saber fazer a multiplicação dos pães, sob a forma de rissóis, pastéis de massa tenra, bolinhos de bacalhau, etc. Com 1 escudo e 80 centavos comprava-se muita coisa, leite, milho, pão, etc. O "Diário de Lisboa" custava 80 centavos.  O salário diário de um trabalhador português andava, por essa época,  enre os 15$00 e os 25$00.

Foi através desta "revista juvenil", emblemática, que conheci alguns dos heróis (e autores) da BD franco-belga, e me afeiçoei à sau linha gráfica e à sua estética. 

 Foi um pouco a pensar nesse passado lá longínquo, em que consumia essa literatura infanto-juvenil, compulsivamente (digamos até aos meus 10 anos, 1957, quando terminei a 4ª classe e fiz o exame de admissão aos liceus),... que me ocorrei a ideia de abrir aqui uma nova série, "A nossa guerra aos quadradinhos".

A série será para já alimentada, preferencialmente,  com  os retatos dos nossos camaradas da Guiné. Com "prompting" (instruções)  e orientação editorial da minha autoria, iremos recorrer a ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa para a criação de pequenas bandas desenhas (BD), com oito a 12 vinhetas... 

Como o nosso blogue não tem publicidade, nem recursos financeiros próprios nem "patrocinadores",  só podemos ter o concurso, mesmo assim, precioso, da IA dos "pobrezinhos"... O resto é... "lápis e borracha", "corte e costura", com muita dose de paciência, imaginação,  bom humor... e alguns ataques de raiva!..

A primeira "história aos quadradinhos" a sair, por mera conveniência (há outras na forja, ou melhor, na "prancha") é o ataque à LFG Hidra (P376) no rio Cacheu, em 20/21 de maio de 1973, a partir do relato do então 1º srgt pqdt, da CCP 121 / BCP 12, António Dâmaso (1943-2026), um dos bravos de Guidage e de Gadamael.

Peço aos nossos "marinheiros" que sejam indulgentes em relação a certos aspetos, mais grosseiros, do nosso "ilustrador gráfico" que nunca conheceu nenhum LFG nem nunca bebeu "água do Cacheu".


2.  Em mensagem do dia 29 de maio de 2012, o nosso camarada António Dâmaso (Srgt-mor pqdt, CCP 121 / BCP 12, na situação de reforma) enviou-nos o seu relato da emboscada perpetrada à LFG Hidra em 21 de maio de 1973, no rio Cacheu, no Norte da Guiné. Houve um primeiro poste, a dar conta dessa efeméride (*). E  que agora reproduzimos, com BD a ilustrar...


No regresso da Op Ametista Real, 
um ataque à LFG Hidra
à meia-noite do do dia 21 de maio de 1973, 
no rio Cacheu

por António Dâmaso (1940-2026)




No dia 20 de maio de 1973,  domingo, depois da CCP 121 ter participado na Operação ”Ametista Real”, cerca das 19h30 (não posso precisar a hora, sei que era de noite), embarcámos em Ganturé, juntamente com alguns Comandos Africanos no Navio Patrulha Hidra  (a LDF com número de amura P376) com destino a Binta. 

Julgava eu que íamos regressar a Bissau.

Entrei à conversa com um camarada da guarnição, o 1.º srgt artilheiro Joanás. Fomos até uma salinha. E, depois de uma cervejinha bem fresca e de uma conversa, estávamos sentados e eu deixei-me vencer pelo sono. 

 Repentinamente cerca das 24h00, sou acordado com uma série de rebentamentos. O convés do navio tinha sido atingido, havia granadas a arder (pólvora), tive a sensação que o paiol tinha sido atingido. Mais tarde li algures que o que foi atingido foi um reservatório das peças Bofors, de um dos canhões que equipavam o navio. (**)

O Joanás agarrou imediatamente num extintor, eu passei-lhe outro e, com um em cada mão, apagou o incêndio naquele local. Fiquei impressionado com a rapidez e destreza dele, não há dúvida que na Marinha, as guarnições dos navios estão muito bem preparadas para combater incêndios a bordo. Quando vi as granadas incendiadas, fiquei com receio que estas rebentassem, o que teria acontecido se não tivessem sido extintas atempadamente.

A reacção ao ataque por parte da CCP 121 foi rápida e eficaz, dando origem a que os guerrilheiros do PAIGC tivessem desistido de mandar mais granadas para o convés do navio, porque se tivessem continuado, teriam provocado mais vítimas e estragos de maior monta. 

Como era de noite não me apercebi bem dos efeitos do ataque. Quanto à localização julgo ter sido na curva de Jagali (**)

De cada vez que eu tentava subir as escadas para o convés, aparecia-me um ferido que eu encaminhava para a enfermaria, tarefa dificultada por ser feita no escuro. Isto repetiu-se várias vezes, um dos feridos era do meu pelotão, apontador do morteiro, atingido  num calcanhar.

Recordo que, no meio daquela confusão toda, alguém ter dito que faltava um zebro (barco de borracha). 

Chegámos a Binta na madrugada do dia 21, segunda feira. Pela manhã os feridos foram evacuados para o HM 241, em Bissau, e nós lá ficámos. 

Ao meu pelotão coube para alojamento um barracão de madeira junto do cais que ficava do lado esquerdo. Binta tinha sido em tempos um entreposto madeireiro.

Depois de ter desembarcado, dei por falta de um rádio ("banana"), que só podia ter desaparecido no Patrulha, uma vez que eu tinha feito conferência de material antes de embarcarmos e o militar que o tinha à guarda fora ferido no ataque. 

Como recebiam prémios por armamento ou equipamento, apreendido ou encontrado, mais tarde o rádio apareceu como tendo sido dado como achado por um Comando Africano na zona de Bigene...

À noite, estava a dormir, pelo quarto dia consecutivo, sou acordado com um ataque dirigido aos barracões, com lança granadas de foguete (RPG 2 e 7), vindo do outro lado do rio Cacheu. Não houve baixas mas,  além de termos ripostado ao ataque, tivemos de apagar um incêndio num dos barracões que ficava em frente ao nosso.

Nesse barracão estava uma viatura carregada com caixões com destino a Guidage. Os ataques já se tinham tornado uma rotina. Ainda ficámos em Binta mais um dia e uma noite, à espera de uma coluna de viaturas que viria de Farim com destino a Guidage.

Mais tarde quando me encontrei com o Joanás em Cacine, quando este andava a apoiar Gadamael Porto, disse-me que tinha sido louvado  e que a CCP 121 tinha tido uma citação elogiosa pela sua acção.

Um Ab
A. Dâmaso

(Revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)



Guiné > Região do Cacheu > Rio Cacheu >  1973 >  A LFG Hidra (P376). Reconstituição:

Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Google / Gemini AI) (2026)


3. NRP Hidra (P 376).  LFG (Classe Argos / 1963)

(i) Tipo: Lancha de Fiscalização Grande (LFG) | Classe: Classe Argos (1963) (Um das 10 unidades da classe Argos, construídas no Arsenal do Alfeite e nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, entre 1963 e 1965; tinham todas nomes de constelações (Cassiopeia, Orion, Sagitário, etc.); estiveram ao serviço da Marinha entre 1963 e 1975;  estão profundamente ligadas às "guerras da descolonização".

(ii) História: Aumentada ao efectivo em 11 de abril de 1964; abatida ao efetivo  em Luanda a 30 de setembro de 1975: serviu em teatros de operações ultramarinas (como na Guiné, em patrulhas nos rios e missões de apoio/transporte entre 1971 e 1973, do rio Cacheu ao rio Cacine).

(iii) Ficha técnica: deslocamento: 210 t | comprimento: 41,7 m | boca: 6,7 m | calado: 2,1 m | propulsão: 2 motores diesel de 1200 hp, 2 veios | Velocidade 17 nós (c. 3,5  km / hora;  19,6 milhas / hora; 8,74 m /s | armamento: 2 peças 40 mmm | Tripulação: 24. 

Fonte: Wikipedia

____________

Notas de  LG/CV:

(*) Vd. poste de 1 de junho de 2012 > Guiné 63/74 - P9975: Efemérides (101): Ataque ao navio Patrulha Hidra, dia 20 de Maio de 1973 (António Dâmaso)


(**) Ver poste de 16 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1665: Operação Larga Agora, Tancroal, Cacheu, local maldito para a Marinha (Parte I) (Lema Santos)

(...) Em 20 de maio de 1973 a LFG Hidra, frente à clareira de Jagali, a juzante da foz do rio Buborim, foi emboscada da margem Norte com RPG, armas ligeiras e morteiro 60 mm. 

O primeiro RPG deflagrou contra os cunhetes de munições da Boffors de vante, provocando rebentamentos e um grave incêndio, tornando a peça inoperativa. 

Reagiu de imediato e tudo acabou por se compor, não sem alguns estragos.

Foi elogiada a colaboração de elementos da CCP 121 e BCmds (Batalhão de Comandos) que, seguindo a bordo, conjuntamente com o navio, reagiram prontamente com o armamento de que dispunham. 

O resultado foram 3 feridos graves (Comandos) e 6 feridos ligeiros (Comandos, Paras e LFG).(...)