1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Fevereiro de 2026:
Queridos amigos,
O Capitão Henri Brosselard revela-se um excelente observador e pela sua digressão até Kandiafara ganha a perceção de que a região do Futa-Djalon tem uma saída natural em rios que ficaram em território da Guiné Portuguesa, caso do rio Grande de Bolola (Buba) e o Cumbijã, acrescentando-lhe rios que ficavam em domínio francês como o Nuno e o Pongo, apontando para outra região importante, como os Rios do Sul. Brosselard encontrou-se com o rei Mamadu Paté e o seu colaborador Bacar-Lombi, este revelar-se-á um ganancioso, como veremos mais adiante, toda esta missão decorre em território tumultuoso, os Fulas procuram afastar os Nalus do Forreá. A grande surpresa deste relato é de ficarmos a saber que se tinha descoberto o rio Cacine, quando o Tenente Clerc, colaborador de Brosselard, chegou à povoação de Kandenbel, houve uma enorme agitação, era a primeira vez que aparecia ali um branco.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 7
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Prosseguindo o relato sobre a situação do Forreá, damos de novo a palavra ao Capitão Henri Brosselard. Atualmente a Praça de Buba assegura a manutenção do statu quo entre os Biafadas e os Fulas, pondo um travão à expansão destes últimos no noroeste, mas é em detrimento do seu comércio tanto mais que os fulas abandonam de boa vontade a escala de Buba onde os mercadores portugueses são pesadamente taxados, sabendo que lhes era fácil traficar em condições mais vantajosas nas escalas de Combidiah, do Cacine e sobretudo em Kandiafara. Também o comércio do Compony tem uma grande extensão: e se instalarmos ali uma alfândega uma parte do comércio do rio Nuno será desviado completamente deste rio.
Em Kandiafara, o rio Compony tem ainda 10 metros de água; até ao mar o leito do rio é sempre profundo, infelizmente à entrada há uma passagem difícil por causa de uma barra arenosa e com alguns rochedos; porém, nada impede a navegação a pequenos vapores e às embarcações de toda a natureza que podem subir até Kandiafara, mais de 80km do interior. A escala de Kandiafara parece, pois, destinada a prosperar, tanto mais que os barcos podem atracar no cais com 4 ou 5 metros de água. Porém, os progressos efetivos não se poderão concretizar sem a nossa proteção, só assim se poderão instalar de um modo permanente e seguro; e os indígenas não os impedirão até que nós tivermos feito o ato de posse.
Kandiafara beneficiará então completamente do comércio que existia antigamente no rio Grande de Bolola e que se cifrava em milhões. Esta escala terá, além disso, a vantagem de continuar o comércio com o Futa-Djalon, durante a época das chuvas, quando o Geba, o Combidiah, o rio Nuno, o Pongo e o Mellacorée não forem acessíveis às caravanas do interior. Um facto completamente novo e digno de atenção, que constatámos recentemente para a escala da Dubreka, produzir-se-á igualmente em Kandiafara: os Fulas vieram a Dubreka durante a época das chuvas e vieram e chegaram igualmente a Kandiafara. Estas duas escalas são de facto as únicas que se podem realizar no Futa-Djalon, por itinerários no país acidentado.
Kandiafara fica a três dias de Kadé para os Fulas; e esta povoação, como iremos ver adiante, tem uma importância capital e parece contrabalançar a influência dos maiores centros do Futa-Djalon. Em suma, esta escala no futuro está situada no terreno da navegação marítima do Cogon e o reconhecimento que fizemos deste rio, que desce do centro do Futa-Djalon, permite-nos apreciar a sua importância: estamos em crer que poderá ser utilizado para a navegação de pequenas embarcações até à altura de Dandum, isto é, a meio caminho de Kandiafara e de Kadé, e talvez para lá indo do rio Nuno ao Futa-Djalon; o Capitão Lambert atravessou este rio durante a baixa-mar, a mais de 500km de Kandiafara. A descrição que o nosso compatriota faz deste rio mostra a importância que ele ainda tem a esta distância da sua foz.
O rei Mamadu Paté disse a Bacar-Lombi na minha presença que ele devia fornecer-me carregadores. A fisionomia deste último revelou-se interessante, também fui informado da situação que ele ocupa no país.
Bacar-Lombi era o homem que Mody-Yaya queria fazer rei do Forreá; foi só devido às instâncias portuguesas que a nomeação recaiu em Mamadu Paté. Apesar deste insucesso à candidatura real, Bacar-Lombi que é chefe militar dos Futa-Cundas, não viu diminuído o imenso prestígio que possui. É, aliás, o tipo acabado de homem de guerra: alto, com uma fisionomia viril e severa, muitas cicatrizes provenientes de golpes de sabre. É ele que teve a iniciativa de todos os golpes de mão com êxito tentados pelos Fulas, nas últimas guerras. Sempre na primeira linha, dotado de uma bravura lendária, cobre-se de glória em todas as circunstâncias e mostra uma fidelidade sem mácula. Também, não sendo de facto o rei, ele é tão poderoso quanto o rei.
Estas informações eram mais do que suficientes para apreciar a necessidade de manter nas melhores relações com o vice-rei; também, em 16 de fevereiro, enviei-lhe um mensageiro para lhe recordar as palavras de Mamadu Paté e fiz acompanhar a missiva de um certo número de espingardas, barris de pólvora e noz de cola, presentes que me parecem dever ser bem acolhidos por um homem de guerra como ele.
Escrevi a Sayon-Salifou, convidando-o a fornecer informações sobre os movimentos dos Portugueses e encarregando-o igualmente de os informar da minha presença em Kandiafara. Dei-lhe a ordem de pôr à sua disposição todos os meios necessários para assegurar o sucesso das operações de que o incumbi. Entretanto, o Tenente Clerc foi convidado a estudar a solução do problema geográfico referente às nascentes deste rio. O Sr. Galibert foi igualmente convidado a completar o estudo do rio Compony a partir dos afluentes que o alimentam na parte do seu curso já visitado. Sendo o Cogon um grande rio era de presumir que o Cacine não tinha nascente no Futa-Djalon; as suas nascentes não podiam estar muito longe da foz.
Este rio, que o Tenente Clerc teve a honra de aqui revelar as nascentes tinha sido descoberto, em circunstâncias trágicas, pelo Sr. Wallon, hoje almirante.
Aí por 1855, tomou-se conhecimento no Senegal que dois industriais se tinham estabelecido num rio desconhecido da Costa e ali fabricavam moedas falsas de cinco francos com a efigie do rei Luís Filipe. Um aviso comandado pelo Tenente Wallon foi à procura destes audaciosos falsários e o seu refúgio foi descoberto no Cacine, rio cujos acessos haviam escapado até então às investigações dos navegadores. Quando o aviso apareceu nas proximidades dos moedeiros falsos estes infelizes suicidaram-se.
O Tenente Clerc organizou seguidamente a pequena expedição que ele estava encarregue de dirigir e deixou Kandiafara a dezoito pela manhã. Durante o primeiro dia de exploração, na curva de um caminho, ele apercebeu-se da presença de Bacar-Lombi, que estava acompanhado de dois escravos, à sombra de um gigantesco poilão.
Este chefe indígena estava informado da viagem do Tenente Clerc e, na esperança de um presente, pôs-se à disposição deste oficial.
Kandenbel mostrou satisfação com a chegada do explorador. Era a primeira vez que um branco entrava na povoação e toda a população se acotovelou com espanto e admiração à sua passagem. Precedido por um griot que dedilhava a sua guitarra de duas cordas as melodias mais suaves dos Fula-Cundas, ele teve dificuldade em abrir caminho para a morança do chefe da povoação. Muito curiosas estavam as mulheres que invadiram esta morança. Esperando desembaraçar-se da sua presença, o nosso companheiro distribuiu por elas braceletes em celuloide; foi uma ideia muito infeliz, porque todas as mulheres queriam por sua vez penetrar na morança para obter este presente, e como ele não podia satisfazer esta infinidade de pedidos, deixou bruscamente a povoação. Dirigiu-se para Dodi-Maovudo, não parou aqui, continuou na direção do pântano de Kakondum e, pelas seis horas da tarde atingiu o entreposto de Ahmadu-Boubou, comerciante negro que explora a zona do alto Cacine.
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Nota do editor
Último post da série de 5 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28241: Historiografia da presença portuguesa em África (538): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (6): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)










































