É de um poeta (menor...) do séc. XIX, português, da escola romântica.
Fiz questão de oferecê-lo, à minha minha neta, Rosinha, que hoje faz 16 meses... e adora ouvir o avô a imitar as vozes dos animais... Quero que ela, aos 6/7 anos, já o saiba recitar de cor... (Eu nunca fui bom a recitar poesia, de cor... Tenho que ter a cábula, o papel...(
Acho este poema uma pequena relíquia da nossa velha escola primária, que atravessou regimes (Monarquia, República, Ditadura Militar, Estado Novo...).
A malta da nossa geração, nascida já no pós-guerra, aprendeu-o de cor, como uma verdadeira cantilena iniciática da nossa bela língua portuguesa. E os "burros" (coitados!), de pé descalço, os que ficavam, por discriminação, nas carteiras de trás, esses, tinham que o aprender de cor, à força de reguadas, puxões de orelha ou vergastadas com o ponteiro da senhora professora...
O poema "Vozes dos animais" é da autoria de (ou é atribuído a) Pedro Dinis (c. 1829–1896), de quem se diz que foi professor e pedagogo, além de diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa.
Os versos foram depois recolhidos por Antero de Quental, no "Tesouro Poético da Infância" (1883). E passou a integrar os manuais escolares da época, como o Livro de Leitura da 3ª Classe, livro único, no Estado Novo.
Qual a razão do seu sucesso ? Não foi tanto pelo seu “valor literário” como pelo seu extraordinário valor ludopedagógico. Há nele várias coisas nossas, da pedagogia portuguesas, do João de Deus: o gosto antigo pela enumeração; a musicalidade, a lengalenga dos contos e romances tradicionais; o prazer das palavras raras, eruditas, difíceis, a que chamávamos, no meu tempo de escola, "palavras de sete e quinhentos" (sete escudos e cinquenta centavos), como “crocita”, “regouga”, “chilrar”, “balidos”, “vagidos", "libando", etc.)
Estes versos reforçam a ideia de que a língua materna é um tesouro sonoro. E que para ser viva tem de ser falada. Tal como a poesia, que tem de ser partilhada, dita em voz alta, para pequenos auditórios (como aconteceu há dias, na minha terra, no "festival do leitor", "Livros a Oeste 2026").
O poema "Vozes dos Animais" remete também para o "saber enciclopédico": estão lá os principais animais "domésticos" e "selvagens" do nosso imaginário. E as diferentes e espantosas vozes animais. De uma penada, com umas tantas quadras, ensinava-se, à criançada, zoologia, vocabulário, fonética e memória.
Além disso, o poema funciona muito bem porque nasce do jogo da imitação. Não vou “explicar” à Rosinha o que é um animal ruminante, como a vaca, imito ou reproduzo a sua voz. E isso toca diretamente o mundo da infância. Antes da criança compreender conceitos (abstratos) (vaca e animal ruminante), reconhece sons (concretos), a onomatopeia: "muuuu"...
A Rosinha, aos 16 meses, já "pintainha": está exatamente nessa idade mágica em que o mundo entra pelos ritmos, pelas vozes, pelos sons, pela onomatopeia, pelas repetições. O "vovô" que “mia”, "pia", “muge”, “zurra”, "cacareja" ou “cucurica” está a fazer o mesmo que os antigos contadores de histórias, as velhas amas, as mães de leite faziam há séculos: transformar linguagem em jogo afetivo.
E há uma ternura involuntária do final: os "vagidos" (sic) do bebé.. A criança aparece ali como mais um animalzinho da "criação", na "arca de Noé". Depois vem a moral escolar (que era "criacionista", reproduzindo a mitologia bíblica da nossa cultura judaico-cristã, não integrando os contributos da biologia e demais ciências da vida e da natureza: “A fala foi dada ao homem, /Rei dos outros animais…”),
Omitindo este último verso (que é anacrónico, obsoleto, antropocêntrico), o resto do poema continua vivo porque pertence ao território universal da infância, da oralidade, da magia, do encantamento.
Espero que a Rosinha goste ou venha a gostar mais tarde, quando tiver mais entendimento das coisas da vida e do mundo. Ainda não irá memorizar os versos; mas ficará, sem dúvida, no ouvido esta lengalenga, a música da voz do "vovô a fazer “miauuuu”, “méééé”, "fuuuu", "ão-ão-ão", "muuuu", “có-có-ró-có-có. E isso, muitas vezes, é o princípio da poesia e do gosto pela poesia.
2. Chamo a atenção (dos pais e avós) para a "forma" e o "fundo" do poema. Vão, adicionalmente, algumas sugestões ludopedagógicas.
- tem uma forma fixa: é composto por estrofes de 4 versos (quadra), com rima em geral cruzada (ABAB);
- ritmo cantado e memorizável, ideal para crianças;
- métrica: versos heptassílabos (7 sílabas métricas ou "redondilha maior") com cadência simples e musical, facilitando a recitação;
- refrão implícito: a repetição de estruturas como "Pia, pia o pintainho" ou "Late e gane o cachorrinho" cria um efeito de lista rítmica, quase como uma canção de embalar.
- catálogo onomatopaico: o poema é um inventário lúdico dos sons dos animais, desde os domésticos ("cacareja a galinha", "mia o gato") aos exóticos ou selvagens, que só se podem observar no jardim zoológico ou na televisão ("ruge o leão", "bramam os tigres");
- cada verso imita o som do animal (onomatopeia), o que o torna interativo, e que é perfeito para a nossa Rosinha, que adora ouvir e imitar logo as vozes;
- antropocentrismo: o poema termina com uma reflexão moralizante: "A fala foi dada ao homem, / Rei dos outros animais: / Nos versos lidos acima / Se encontra, em pobre rima, /As vozes dos principais.
- aqui, o autor deixa trair a sua conceção antropocêntrica da natureza, a superioridade humana no topo da vida animal (preconceito típica do século XIX ocidental) e a diversidade da criação divina, embora sempre com uma intenção pedagógica e um tom afetuoso (que não chocam, nesta idade).
- léxico simples: vocabulário acessível e concreto, adequado a crianças; mesmo as palavras (novas) como "arrulham" (pombos), "regouga" (raposa), ou "zurrar" (burro) são preciosismos linguísticos que enriquecem o poema sem o tornar abstruso ou complexo;
- adjetivação expressiva: termos como "sagaz raposa", "tímida ovelha", "mocho agoureiro" ou "rola inocentinha" infantilizam e humanizam os animais, dando-lhes personalidade;
- humor e ironia: o poeta brinca com a limitação (e a utilidade) de alguns animais: "O pardal, daninho aos campos, / Não aprendeu a cantar; / Como os ratos e as doninhas / Apenas sabe chiar"; (aqui, pode haver um toque, leve, de crítica social: o pardal do telhado que, como o rato, é um "intruso" nos campos; há um preconceito ecológico: o pardal-telhado e o rato do campo (contrariamente ao da cidade...) têm um papel importante na dinâmica dos ecossistemas
- intenção pedagógica: o poema foi escrito para livros escolares de meados do séc. XIX, com o objetivo de transmitir às crianças conhecimentos sobre a natureza, a vida, a linguagem e a moral; era comum na época usar a poesia como ferramenta de memorização e disciplina;
- influência da escola romântica: embora Pedro Dinis não fosse um grande poeta e muito menos um romântico (como o foram Garrett ou Herculano), o poema reflete o gosto romântico pela natureza e pela infância como estado, primordial, de pureza.
Sugestões para a Clara (que tem 6 anos e meio e já sabe ler) e para os papás da Rosinha (e até para a educadora da Rosinha):
(i) podes ler em voz alta e fazer uma pausa para ela depois imitar os sons ("Muge a vaca... Muuu!", "Cucurica o galo... Cocorocó!"); a repetição e as rimas fáceis ajudam-na a reter palavras; a isto chama-se Interatividade;
(ii) os sons dos animais ativam a sua imaginação e associam a leitura à ideia de brincadeira ou jogo (estimulação sensorial);
(ii) ao oferecer este poema à neta, os avós estão a passar um pedaço da sua infância para ela, criando uma ligação emocional entre eles e a neta (tradição familiar);
(iv) o poema ensina o respeito pela natureza e a diversidade dos seres vivos, valores importantes para a geração dos nossos netos;
Mais sugestões:
(v) vamos comprar e oferecer o livro "Vozes dos Animais", da Luísa Ducla Soares (com ilustrações Sandra Serra);
(viii) podemos inventar um jogo de adivinhas: lemos um verso ("Grasna a rã...") e pedimos à Rosinha para imitar o som ou apontar para a imagem da rã.
Dedicatória:
"Piu-piu, o que mais quereis ?
Geme a rola inocentinha.
Muge a vaca, berra o touro,
Grasna a rã, ruge o leão,
O gato mia, uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.
Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros,
A tímida ovelha bala,
Zurrar é próprio dos burros.
Regouga a sagaz raposa,
Brutinho muito matreiro;
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.
Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar:
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.
O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.
O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho,
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.
Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir,
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.
Bramam os tigres, as onças,
Pia, pia o pintainho,
Cucurica e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.
A vitelinha dá berros,
O cordeirinho balidos,
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.
A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontra, em pobre rima,
As vozes dos principais.








































