Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28442: Tabanca Grande (587): Henk Eggens senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 920: nasceu nos Países Baixos (que para nós é sempre a velha Holanda...) e é cidadão do mundo, médico de saúde global; é vizinho de Salazar, vive em Santa Comba Dão

 




Henk Eggens, ontem e hoje. Grão-tabanqueiro nº 920.  Nasceu nos Países Baixos (que para nós é sempre a Holanda...) e é cidadão do mundo, médico de saúde global.  Foi cooperante na Guiné-Bissau (1980/74). É vizinho de Saklazar, vive em Santa Comba Dão.
(Fotos do  álbum do Henk Eggens, restauradas digitalmente com recurso à IA - ChatGPT Open AI, 2026)



1. O nosso amigo Henk Eggens já devia ter sido apresentado à Tabanca Grande há pelo menos dois meses atrás. Estamos em falta com ele. De facto, em mensagem de 29/07/2026, 22:30 (*), ele já tinha aceite formalmente o nosso convite para se sentar à sombra do nosso poilão, o mesmo é dizer, passar a fazer parte formalmente da nossa tertúlia, o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné:

Luís,

Aceito o convite com muito prazer e agradeço-vos a confiança.

Gosto de fazer parte de uma comunidade que valoriza as experiências vividas numa terra estrangeira, em circunstâncias muito difíceis, sem cair na tentação de reduzir um povo à condição de inimigo ou de mero figurante na história de vida de alguém.

É esse respeito que encontro nos artigos publicados no vosso blogue. Por isso, é para mim uma honra passar a fazer parte da Tabanca Grande!



Mantenhas!

2. Ainda não nos conhecemos pessoalmente, ao vivo e a cores. Perdemos uma oportunidade (histórica!) de nos encontrarmo-nos, há dias, em Carregal do Sal, no Museu Aristides Sousa Mendes, eu, ele, o João Crisóstomo e a Vilma. Razão: conflito de agendas...

Seria entretanto delegante, da nossa parte, adiar por mais tempo essa formalização. E  já dissemos o essencial sobre o nosso novo grão-tabanqueiro (**):

(i)  é neerlandês (que é mais do que holandês...), nascido em 1947, no difícil pós-guerra de todos nós, europeus;

(ii) médico especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública);

(iii) cidadão do mundo,  já percorreu os quatro continentes como cooperante em saúde;

(iv) esteve 4 anos na Guiné-Bissau (incluindo dois anos em Fulacunda e outros dois na capital) (1980/84);

(v) antes tinha estado em Cabinda, Angola, já no tempo da 2ª guerra da independência (1976/78); 

(vi) também trabalhou na Indonésia, as  antigas Índias Orientais Holandesas, que se tornaram independentes em 1949, depois de 4 anos de brutal ocupação japonesa (1942/45) e de uma dura guerra de descolonização  (1946/49);

(vii) fala e escreve o português e o crioul0 guineense;

(viii) está "reformado" (que é uma palavra feia, em português);

(ix) é um apaixonado (uma palavra bonita!) por Portugal, a Guiné-Bissau, Angola, Brasil, a lusofonia...

(x) vive em Portugal,  em Santa Comba Dão (sem quaisquer privilégi0s nem complexos por ser vizinho do senhor professor doutor António de Oliveira Salazar);

(xi) a sua companheira é luso-brasileira;  tem duas filhas de um primeiro casamento: a esposa, médica, que esteve com ele na Guiné-Bissau, já faleceu;

(xii)  foi administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês,  muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); e onde tem publicado textos do nosso blogue, com a devida autorização dos autores e editores;

(xiii) tem mais de uma dezena referências no nosso blogue.

 
2. Já há meses que o tínhamos convidado,  para, de pleno direito, passar a integrar a Tabanca Grande, como amigo da Guiné...  Será o primeiro neerlandês a sentar-se ao nosso lado, como igual. No ugar nº 920.

Na brincadeira, tinha-lhe lembrado  (em 29/7/2026):

Henk: e o convite para te juntares à Tabanca Grande, onde há filhos e filhas de muitas mães ? Tugas, das sety partidas, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, mas também alemães, americanos.. Tu serias o primeiro neerlandês... O Roel Coutinho (para mais com ascendência judaico-portuguesa) faz cá falta... mas nunca interagiu connosco e, depois, não fala português...nem deve sentir-se confortável num blogue coletivo como o nosso (...).

Não, ele não foi combatente, em nenhum conflito armado, felizmente para ele, mas dedicou pelo menos seis  anos da sua vida a dois povos lusófonos,  guineense e angolano, e numa época particularmente difícil.  

Por outro lado, o facto de ter sido administrador e editor (e hoje continuar como colaborador) do  Portugal Portal vem reforçar ainda mais a ideia de que ele é um mediador cultural por excelência. Há pessoas que passam por um país, muitas com chorudos vistos Gold, e privilégios; outras criam pontes entre países, as pontes da amizade, da solidariedade, da cooperação, da cultura.

O Henk pertence claramente ao segundo grupo.  Vive, conhece, assimila, traduz, divulga, aproxima culturas e ainda leva textos do nosso blogue a leitores neerlandeses e portugueses emigrados na sua terra. É uma forma discreta, mas muito eficaz, de diplomacia cultural. E sobretudo cultivar e aprofundar a amizade entre povos (Portugal, Países-Baixos, Guiné-Bissau, Angola, mas também a Indonésia e Timor-Leste).

O Henk (não o vou tratar cerimoniosamente por dr. Eggens), merece o nosso apreço pelo que fez e tem feito pela Guiné-Bissau, por Portugal, e pela pela diáspora lusófona nos Países Baixos, que conta com cerca de 135 mil emigrantes (!): mais de metade brasileiros, mas também portugueses (35,6 mil), cabo-verdianos (23,1 mil) e outros PALOP (maioritariamente angolanos, mas também guineenses, etc.) (11,0 mil).

Cidadadão do mundo,  a sua  presença na Tabanca Grande será inteiramente natural e vem enriquecer ainda mais esta comunidade de memória, amizade e afetos. 

 Henk / Henrique, estás em casa!...E conheces as regras da casa. Obrigado pelos links dos teus 4 artigos que me mandaste, e que ainda eu não  li (em neerlandês...) mas prometo lê-los com a ajuda da IA...  

_________________


Guiné 61/74 - P28441: Notas de leitura (1971): Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905 (Mário Beja Santos)

Capa da revista Brasil-Portugal, edição de 16 de novembro de 1905. Aspeto curioso é a publicidade a uma água que foi famosa, Lombadas, tinha a sua nascente na ilha de São Miguel, Açores, quando prestei serviço militar como aspirante a oficial miliciano no Batalhão Independente de Infantaria nº 18, Arrifes, a escassos quilómetros de Ponta Delgada, descobri esta belíssima água de mesa.

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A Biblioteca da Sociedade de Geografia permite por vezes estes tesouros, eles surgem inesperadamente, anda-se à procura de trabalho sobre a cidade de Tomar, tinha havido uma excursão científica ao património tomarense, o Dr. José Vieira Guimarães, conceituado médico e historiador proferira palestra e andara como guia entre a cidade e o Convento de Cristo, e é a folhear os números da revista Brasil-Portugal,, publicação que é da sua existência entre 1899 e 1914, que aparece este trabalho sobre a Guiné, algumas destas imagens eram-me desconhecidas, outras não tanto.Porventura correspondente, o autor não está para vénias nem laudes, diz verdades como punhos, revela o estado da colónia, o domínio total do comércio por franceses e alemães, a permanente incúria num território com potencialidades agrícolas de indiscutível valor, falham estrondosamente os investimentos portugueses.

Um abraço do
Mário



Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905

Mário Beja Santos

Brasil-Portugal era uma revista quinzenal ilustrada, editou-se entre 1899 e 1914. De algum modo concorria com a revista Ocidente, eventos sobre a família real, visitas a lugares com património, noticiário sociopolítico; no caso vertente da Brasil-Portugal havia o foco de procurar sensibilizar os leitores de ambos os países não só para os laços irmãos como mostrar, dito em linguagem de hoje, as potencialidades da cooperação, despertando os interessados também para as possibilidades de investimento.

Ora neste número de novembro de 1905, temos um desassombrado artigo sobre a Guiné, encavalitado com outro da autoria do escritor Zófimo Consiglieri Pedroso, que foi Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, vai explanar sobre a guerra russo-japonesa que debilitou profundamente o regime czarista.

Indo ao que interessa, vejamos o que um autor anónimo, porventura correspondente da revista, veio dizer sobre o estado da Guiné:
“A enorme região da Guiné, tão descurada e quase desconhecida, é uma inesgotável mina de tesouros que ninguém pensou nunca em explorar, levando para ali capitais e elementos do trabalho. A nossa tradicional indolência e o receio do risco em matéria de empresas, tem deixado no abandono aqueles riquíssimos territórios em que há séculos dominamos dormindo. Todos os países coloniais tendem a desenvolver as suas possessões, e os que não as têm vão fixar-se nas alheia, explorando-as comercialmente e estabelecendo carreiras de navegação para os seus produtos que assim valorizam. Nós cruzamos os braços e assistimos impassíveis a essa invasão que pouco a pouco vai sugando o que poderia enriquecer-nos. É o que sucede na Guiné, em que a parte continental e a parte do arquipélago se medem por muitos milhares de quilómetros quadrados.

Hoje pode dizer-se que a Guiné é apenas uma grande feitoria comercial de alemães e de franceses que se limitam a importar mercadorias para a permuta sempre vantajosa com os produtos indígenas, numa luta contante de interesses e de competência. O negócio com os naturais no país está quase exclusivamente nas mãos desses concorrentes que auferem lucros fabulosos em prejuízo dos poucos portugueses que ali moirejam.

Nos séculos XVII e XVIII, Geba, Cacheu, Farim e Buba tiveram grande importância como depósitos de escravos, mas caíram em decadência, e estão reduzidos a pequenos povoados sem vida. Atualmente os verdadeiros centros comerciais são Bolama e Bissau. Na Guiné há comércio apenas, e esse acanhado, sempre o mesmo, sempre assente na troca de produtos e na exploração do trabalho do indígena.

Em agricultura não se pensa. A orientação sobre os modernos processos de plantação é nula. No entanto, os terrenos são feracíssimos, o clima e a humidade dos plainos os mais adaptados para todas as culturas intertropicais, e alguns dos seus portos naturais são amplas enseadas onde poderiam fundear navios das maiores lotações, a sua verdadeira riqueza seria a agricultura, que se mantém rudimentar. Começam a surgir tendências para um impulso agrícola. Mas não bastam esses movimentos isolados. Torna-se necessário que os governos coadjuvem essas iniciativas e que os capitais portugueses afluam corajosamente e concorram para o engrandecimento daquela província, hoje encravada em território francês. Poucos anos de cultura bastariam para se transformar a Guiné que, pela sua situação especial, pela sua flora, pelos seus jazigos mineiros, tem direito a sair da miséria em que se acha, e a deixar de ser, como é, um pedinte morrendo de fome sobre montanhas de ouro (…) A Guiné não tem défice. Vive com os recursos dos direitos aduaneiros e o imposto de palhota. Contém uma grande variedade de raças, sendo as menos atrasadas as dos Fulas e Mandingas, gente belicosa, mas submissa ao Governo e com ótimos marinheiros. Os Papéis, ainda asselvajados, são belos carregadores e os mais aproveitáveis para os trabalhos de campo.”


As gravuras que hoje publicamos foram-nos enviadas pelo nosso correspondente na Guiné e referem-se à viagem que o Governador, Senhor Carlos Pessanha fez há pouco tempo no interior, pelo rio Geba, e onde se reuniram 22 régulos com as suas comitivas compostas de Fulas e Mandingas, formando um grande exército de 20 mil homens a cavalo e a pé, e todos armados de espingardas e de espadas, estas fabricadas por eles próprios. Inesperadamente o texto muda para a guerra russo-japonesa, Zófimo Consiglieri Pedroso tinha a seu cargo a secção de política internacional, ela aparece dentro deste artigo da Guiné Portuguesa, todo o artigo que ele publica sobre o conflito russo-japonês está enxameado de fotografias da referida visita do governador Carlos Pessanha. Para que conste.


Fotografia do novo governador da Guiné (fevereiro de 1905 a agosto de 1906), publicada na Revista Brasil-Portugal, na sua edição de 16 de agosto de 1905
_____________

Nota do editor

Último post da série de 12 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28440: Documentos (67): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (I)






Guiné  > c. 1965 >   Este é o primeiro postal de uma coleção de postais de propaganda das NT, dirigida aos "homens do mato" (SIC)... A coleção foi -nos disponibilizada,  para ser digitalizada e publicada no blogue, pelo nosso saudoso  camarada Joaquim Nunes Sequeir, o "Sintra" (1944-2024), que foi 1º cabo canalizador, BENG 447 (Brá, 1965/67), e que encontrávamos quase sempre nos almoços-convívios da Magnífica Tabanca da Linha. 

 

Joaquim Sequeira (1944-2024): vivia em Mucifal, Sintra; era um entusiástico 
membro do Núcleo de Sintra da Liga dos Combatentes


O cartaz, tipo vinheta de BD, a cores, foi "restaurado" digitalmenete, com recurso à IA. É um material produzido no âmbito da Acção Psicológica (mais conhecida pela abreviatura  APsic)  e deve remontar ao tempo do com-chefe e governador-geral gen Arnaldo Schulz (1964-1968).

Não sabemos se já existia na época a  Rep ACAP (Assuntos Civis e Ação Psicológica), do QG/CCFAG, a funcionar no forte da Amura. 

Já aqui o  dissemos, é um material muito interessante, do ponto de vista documental, iconográfico e e historiográfico, mesmo que  revele; (i) muita ingenuidade; (ii) desconhecimento grosseiro  da organização e funcionamento das FARP (Forças Armadas Revolucionárias do Povo, criadas em fevereiro de 1964: fardas, armamento, etc.);  e (iii) uma estética pobre,  de mau gosto e de duvidosa eficácia, já que o público-alvo são os próprios combatentes do "mato" (nem sequer o artista se lembrou dos amuletos dos "bandoleiros", e os fenótipos representados são incaracterísticos, tendo pouco ou nada a ver com os balantas e outros grupos  guineenses que engrossavam as hostes do PAIGC).

O PAIGC não era  a UPA/FNLA, um simples bando de gente esfarrapada, descalça, esfomeada, desmoralizada (o mesmo não se pode dizer eventualmente da população que "vivia no mato", e nomeadamente no interior do território)... 

Mas, provavelmente, era essa a imagem boçal, caricatural,  que "encomendaram" ao artista gráfico, cuja identidade ainda hoje desconhecemos. 

A mensagem que se queria transmitir, na época,  era sobretudo psicológica: associar a guerrilha à miséria, a fome, à doença, ao sofrimento físico e à morte, apresentando o "homem do mato" (sic )  como um foragido, uma vítima da  própria desgraça, o "vírus subversivo" que ele andava a espalhar...

É uma representação propagandística, não é (nem pretende ser) um retrato documental neutro. Tal como os documentos de propaganda do PAIGC dirgidos aos "tugas" e aos "cães dos colonialistas" que eram os nossos soldados e mílicias fulas. A propaganda de guerra é sempre caricatural, feita a preto e branco, a traço grosso, e tem o propósito de "diabolizar" o inimigo.

Iremos reprodir os restantes cartazes, restaurados digitalmente.



Guiné > c. 1965 >  "Guiné Portuguesa, Guiné Feliz... O nosso camarada Joaquim Sequeira, o "Sintra, assinalou os nomes dos aquartelamentos e destacamentos por onde passou em serviço, como 
 1º cabo carpinteiro, BENG 447 (Brá, 1965/67):
  • no sector de Bissau, Brá, Santa Luzia, Bissalanca e Safim;
  • na região de Quínara, Enxudé, Tite, Jabadá e São João; 
  • no arquipélago dos Bijagós, ilha das Galinhas e Bolama; 
  • na região do Gabu, Nova Lamego;  
  • no região do Oio, Cuntima, Jumbembem, Canjambari, Farim, K3, Mansabá, Mansoa, Cutia, Bissorã, Olossato; 
  • na região do Cacheu, Binta...

A colecção (no fundo, é uma sequência de banda desenhada, sob a forma de um folheto desdobrável com uma meia dúzia de postais, impressos de um lado e do outro) começa com uma imagem do mapa da Guiné ("Guiné Portuguesa, Guiné Feliz") (cópia do original, não restaurada digitalmente; o restauro é um "desastre"). À direita está escrito: "Do Sintra, 8/65".

Foto (e legenda): © Joaquim Sequeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI]



Fernando Louro


1. Vamos recuperar para esta série ("Documentos") alguns textos sobre a "Psico", como dízíamos na Guiné. APsic, na terminologia militar.  (Ou "Pchícola",  como pronunciavam 
 algumas  das nossas praças, em linguagem brejeira, já que para eles fazer a "psico" era ir  às tabancas catrapiscar  as bajudas...).

Recorde-se que em plena "Spinolândia"  (maio de 1968 / agosto de 1973)  havia no QG/CCFAG, na Amura, a 2ª Rep, a  Rep ACAP (Assuntos Civis e Acção Psicológica) onde trabalharam ilustres militares como Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Lemos Pires, etc., a "intelligentsia" político-militar do gen Spínola.  Mas também o nosso camarada Ernestino Caniço, hoje médico.

A "Psico" não foi uma "invenção" de Spínola, mas foi com ele e os seu "estado-maior" que ela se tornou uma "arte & ciencia", castrense, apurada... Em todo o ca, convira ir aos "primordios.Vale a pena rcuar até ao tempo de Fernando Louro, ao ano do início da guerra com o PAIGC, para perdermos melhor como evoluiu o conceito e se ch3gou a criação da Rep ACAP.

Recorde-se que o brigadeiro Fernando Louro de Sousa (1911–1989) foi nomedao Comandante-Chefe das Forças Armadas na Guiné Portuguesa em 13 de março de 1963, cargo que exerceu durante pouco mais de um ano. 

Ele e o governador, o comandante Vasco Rodrigues, nunca se terão entendido sobretudo no exercício e na partilha das suas funções, permitindo  com isso que  PAIGC tivesse uma arrancada fulgurante, sobretudo no sul. (E isto, apesar da Op Tridente, cujo sucesso relativo não chegou para mudar a ideia de que o brigadeiro  fora um tremendo erro de "casting".)

Ambos, o comandante-chefe e o governador,  serão substituídos em maio de 1964, pelo brigadeiro Arnaldo Schulz, que passou a acumular os dois poderes, o político e o militar.

 As ideias de Fernando Louro sobre a "acção psicossocial" não destoavam muito do "assistencialismo" que ainda se praticava no início dos anos 60 na metrópole. 

E, em termos práticos, não passaram do papel, por falta de meios humanos, técnicos e financeiros, etc., além da proverbial falta de articulação entre as ainda escassas forças armadas e a administreção civil, já em colapso.  

Enfim, não havia médicos, professores, engenheiros, quadros técnicos, nem civis nem militares... Sobretudo não havia visão  estratégica nem tática para fazer frente ao PAIGC... que muito rapidamente ganhou  a adesão, a mal  ou a bem,  o da grande maioria dos animistas (em especial os balantas, que vão servir de "carne para canhão" ) mas também parte da população muçulmana (biafadas, mandingas, nalus...).

O "checklist" que a seguir se publica é de um indigência intectual atroz, resultante de uma leitura apressada da "Bíblia", o manual “O Exército na Guerra Subversiva” produzido pelo Estado-Maior do Exército (1963) (em 5 volumes, revistos em 1966).  

Vê-se que Louro é um militar de outro tempo, ainda eivado de estereótipos coloniais, como o uso infamante do termo "nativo", apesar de tudo mais "neutro" do que "indígena" (o indigenato  tinha acabado de ser abolido, pelo Decreto-Lei n.º 43 893, aprovado em 6 de setembro de 1961 sob a alçada do ministro do Ultramar, Adriano Moreira). 

__________________________

 
Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (I) 
(Excertos: CECA, 2014)
 

O primeiro documento de que se tem conhecimento na Guiné, sobre o assunto, é a Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63. (#)

Na primeira parte, trata da acção psicossocial com o objectivo de "obter ou manter apoio da população". Na segunda parte, da "Acção psicossocial sobre as NT", no âmbito da acção psicológica e acção social.

Expõem-se de seguida ambas as partes.

Em 15Nov, através da Nota n° 247/C da 3ª Rep/QG/CTIG, foi enviado aos Comandantes de Sector e Chefes de Serviço, entidades que o iriam elaborar, o modelo de "Relatório Periódico de Acção Psicológica" com a finalidade, âmbito, periodicidade e difusão. Este é apresentado no final: Anexo A "Acção Psicossocial-Instruções".

1ª  PARTE

Acção Psicossocial junto das Populações

Introdução

Uma das principais diferenças existentes entre a Guerra Convencional e a Guerra Subversiva, é que, nesta última, se procura conquistar a população para depois dominar o território por ela ocupado. 

A população é, pois, o objectivo número um de qualquer dos partidos em luta, e quem tiver o seu apoio dispõe de muito maiores possibilidades de vitória.

Para manter ou obter o apoio da população, existem diferentes modos de acção sendo de destacar entre eles a "Acção Psicossocial".

"Quando houver que actuar psicologicamente sobre a população dum território onde se leva a efeito uma luta contra a subversão, é possível conquistar simultaneamente o afecto e a confiança dessa população, tornando-a mais sensível à acção psicológica, por meio de uma acção social ou de assistência dirigida no sentido de diminuir as suas principais deficiências morais e materiais. É ao conjunto destas duas acções, psicológica e social, que se chama Acção Psicossocial". (O Exército na Guerra Subversiva - III Acção Psicológica).

I. Acção Social

A Acção Social consiste na aplicação planeada de um conjunto de medidas, que têm por fim não só levantar o nível de vida da população como também ganhar o seu afecto e confiança,  tornando-a mais facilmente permeável à Acção Psicológica.

- Exige muito bom senso e ponderação, pois de forma alguma se pode prometer aquilo que não se pode ou não se tem a certeza de poder dar ou realizar. Em todos os escalões é preciso "saber prometer, a fim de nunca comprometer".

- É igualmente muito importante actuar com autoridade e não pretender convencer que somos muito ricos ou todo-poderosos, capazes de tudo resolver dum momento para o outro. Há que ter a noção clara das realidades e das possibilidades,  procurando sempre resolver ou tornear as dificuldades no sentido de serem atingidos os objectivos propostos e cuidadosamente seleccionados.

- É também muito importante procurar compreender o nativo mostrando-se interessado pelos seus problemas e aspirações. A população civil branca deve ser levada a interessar-se pelos problemas respeitantes à Acção Psicossocial. É pois fundamental que exista uma "compreensão mútua" entre os diferentes elementos da sociedade.

Os campos de acção normalmente abertos à Acção Social das Forças Militares são os seguintes:

  • Assistência Sanitária;
  • Assistência Religiosa;
  • Assistência Educativa;
  • Assistência Económica.

Seguidamente se indicam algumas das muitas actividades que se podem realizar nestes campos:

Assistência Sanitária

Campo Sanitário:

- Criação de P.S. [Posto de Socorros] e centros de tratamento.

- Elaboração de calendários de visitas de modo a garantir uma assistência regular às diferentes localidades do sector.

- Procurar colaborar com o S.S.[Serviço de Saúde] da Província e obter a sua colaboração.

- Utilizar viaturas militares para o transporte de doentes. Quando as circunstâncias o aconselharem providenciar para se efectuar a evacuação aérea.

- Por intermédio deste Comando, procurar obter a colaboração das Autoridades Administrativas, MNF Movimento Nacional Feminino] , Cruz Vermelha Portuguesa, Cáritas e elementos civis para a aquisição de medicamentos (não há distribuição mas apenas aplicação de medicamentos, quando se torna necessário a aplicação repetida de um medicamento, é o doente que se desloca até ao P.S.).

- Vigilância do estado sanitário das populações.

- Conselhos de profilaxia.

- Vacinações.

- Consultas e tratamentos (incluindo as vítimas dos insurrectos).

- Intervenções cirúrgicas dentro das suas possibilidades.

Campo de higiene

- Divulgar medidas de higiene.

- Aconselhar sobre a alimentação mais adequada.

- Orientar a construção de novas casas com melhores condições de
habitabilidade.

- Demonstrar os perigos e inconvenientes que tem o gado andar dentro
de casa, pelas ruas, etc .


Assistência religiosa

- Elaboração de calendários de visitas de modo a garantir uma assistência
regular às diferentes localidades do sector.

- Procurar colaborar com as autoridades eclesiásticas e obter a sua colaboração.

- Prestar assistência religiosa, a qual pode apresentar as seguintes modalidades:  apoio espiritual, celebrações de acto de culto, catequese.


Assistência Educativa

Cultura Geral

- Criar escolas para crianças e adultos.

- Procurar colaborar com os professores nos locais onde já existem escolas e obter a sua colaboração.

- Procurar aumentar a frequência das escolas não esperando que venham inscrever-se.

- Divulgar a existência das escolas e as vantagens que podem usufruir
aqueles que as frequentam.

- Criar prémios para os melhores alunos e para os mais assíduos.

- Procurar obter a colaboração de elementos civis (fornecimento de
material escolar).

- Organizar bibliotecas populares com livros, jornais e revistas, pedindo
por intermédio deste Comando a colaboração de A.G.  [Agência Geral do] Ultramar, MNF, entidades particulares, etc .

- Organização de festas culturais, orfeões, sessões de música (principalmente
folclórica), cinema, etc .

Cultura Técnica

- Organizar escolas de artes e ofícios em todas as localidades onde isso for possível e obter para elas a colaboração dos elementos civis.

- Construções.

- Conselhos técnicos.

- Fornecimentos de alimentação, abafos, alojamentos, etc. (em casos especiais) .

- Compras (os pagamentos serão feitos a pronto e os contratos estabelecidos
livremente).

- Entusiasmar os nativos na organização de granjas com vista não só à satisfação das suas necessidades como também para poderem fornecer às Forças Militares, aumentando assim os seus proventos.

- Interessar os nativos na criação de animais com vista à satisfação das suas necessidades e fornecimento às F. Militares que os comprarão, aumentando assim os seus lucros.

- O contacto com as populações deverá ser sempre procurado preconizando- se o seguinte:

  • Participação nas festas gentílicas, quando convidados;
  • Pernoitar e tomar refeições nas tabancas e convidar para estas os elementos mais importantes;
  • Convidar os régulos, chefes de tabancas e homens grandes para visitarem o quartel;
  • Quando dos reconhecimentos, efectuar visitas de cortesia àqueles indivíduos (não estranhar que inicialmente as populações fujam ao contacto com a tropa e procurar, a bem, fazer-lhes ver que somos amigos e procuramos a sua amizade e confiança);
  • Tomar as medidas que estiverem ao seu alcance para resolver os problemas apresentados pelos nativos;
  • Procurar que os colonos tratem os nativos como homens, não os explorando (enviar relatórios imediatos sobre actos de injustiça de que tenha conhecimento);
  • Aproveitar todas as oportunidades para explorar em nosso favor os erros, mentiras e exageros de propaganda adversa (facilmente rebatíveis, pois duma maneira geral são grosseiros);
  • Aproveitar todas as oportunidades para efectuar uma propaganda baseada em factos ou temas que possam ser facilmente verificados pelo indígena. Os dados utilizados devem ser rigorosamente verdadeiros; 
  • Aproveitar todas as oportunidades para elevar o nível político através duma doutrina dirigida e compatível com o grau de civilização da população.
(Continua)

Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 149 / 154.

(Seleção, revisão / fixação de trexto, negritos: LG)


______________

Nota da CECA:
 
(#) Para elucidação sobre os antecedentes, organização, estruturas e actividades do Exército no campo da acção psicológica veja-se o Capítulo VII do 10 Volume "Enquadramento Geral", da Resenha Histórico Militar das Campanhas de Africa (1961-1974) da CECA/EME; páginas 373 a 398.
 ______________

Notas do editor LG:


Último poste da série > 26 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28133: Documentos (66): Para a história da administração civil ultramarina: "Levante auto e envie os indígenas para Bolama a fim de serem expulsos da Província!"... Despacho (do Governador ?) a uma nota do administrador António Augusto de Barros, vítima de agressão, em Pete, chão mancanha, em 8/4/1920

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28439: Recortes de imprensa (147): Na Série Especial "A minha Guerra", do Correio da Manhã do passado dia 11 de Outubro, foi publicado um pequeno texto sobre o nosso camarada Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Esp da CART 3492, Pel Caç Nat 52 e CCAÇ 15, que aqui reproduzimos com a devida vénia

(clicar nas imagens para leitura dos textos)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 23 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27048: Recortes de imprensa (146): Suécia, Guiné-Bissau e Cabo Verde: já não vale a pena corrigir os jornalistas portugueses: o PAIGC nunca declarou a independência em Madina do Boé nem nunca teve 400 mil habitantes nas "zonas libertadas" - Parte I

Guiné 61/74 - P28438: Estórias do Zé Teixeira (66): Recordações do Dia 10 de Junho de 1968 em Ingoré (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381)

1. Em mensagem do nosso camarada e amigo José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381 (Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70) com data de 13 de Outubro de 2026:

Carlos
Espero que tu e a Dina estejam bem.
Luís e Alice os mesmos votos de saúde e bem-estar.
Por cá, vai-se andando.

Junto uma narrativa curiosa que vivi no dia 10 de junho de 1968 em Ingoré.

Beijos e abraços
José Teixeira



Recordações

10 de junho de 1968. Estava eu em Ingoré na fronteira norte da Guiné. Era dia feriado em todo o mundo português, por ser o Dia de Camões, da Raça e de Portugal. Tinha passado um mês da minha chegada à Província. A enfermaria militar estava fechada, por ser dia feriado e como tinha saído para o mato no dia anterior, estava livre de qualquer tarefa, pelo que decidi, após o pequeno-almoço, dar uma volta pela Tabanca. Era tempo de partir à exploração da localidade e das gentes, sozinho. À minha maneira, observar, a terra, as casas, as pessoas e os seus costumes.

Ouvi, um som de batuque. Estranhei por ser de manhã, mas dispus-me a segui-lo atentamente. Ainda não tinha tido a oportunidade de ver a tão famosa batucada africana de que falavam os que tinham regressado à Metrópole. Localizei um recinto fechado em cana de bambu e entrei. Era uma espécie de discoteca, com muita juventude que dançava e suava por todos os poros da pele. Um cheiro a catinga como nunca tinha sentido. Dois jovens, logo se dirigiram a mim, com palavras e gestos com palavras que não entendi. (o meu crioulo ainda estava muito ferrugento), e delicadamente pegaram-me por um braço e puseram-no no exterior. Continuei, então, o meu caminho pela tabanca, quando vi aproximarem-se de mim dois “lusitos”. Dois pequenos e franzinos miúdos, bem aprimorados com a farda da Mocidade Portuguesa. Para quem não sabe, ou não se lembra, era o nome dado às crianças que andavam no Liceu. Eram obrigadas a inscreverem-se na Mocidade Portuguesa, e usar a devida farda nas atividades da Mocidade, que eram ao sábado à tarde. No dia 10 de Junho havia grandes desfiles de jovens com a farda da Mocidade, em Lisboa e no Porto, nos grandes ajuntamentos e desfiles militares, onde eram condecorados os heróis do Ultramar, muitos dos quais a título póstumo.
Ingoré, 10 de Junho de 1968 > José Teixeira com os lusitos da Mocidade Portuguesa

OBS: - Foto colorizada com recurso à IA - ChatGPT

Esfreguei os olhos para me certificar que não estava a ver fantasmas. Não! Era verdade. Aproximei-me e cumprimentei-os com um – Bom dia! Responderam-me com uma saudação típica da Mocidade e retribuíram com um bom dia, senhor!

Ali ficamos no meio da tabanca, com um sol do caneco a falar em português correto. Vinham da escola primária local, as comemorações do Dia de Camões de Portugal e da Raça, onde eram alunos da quarta classe.

Para testar os seus conhecimentos fui um pouco malandro, revi a minha 4.ª classe, e fiz perguntas, sobre Portugal continental na área de História e Geografia, e descobriu que sabiam, na ponta da língua, os nomes dos Rios; nascentes, afluentes e onde desaguavam; o nome das serras foi cantado na mesma ladaínha que nós usávamos para decorar; das estações da CP em Portugal; dos Reis que nos governaram, etc. no meio da conversa descobri que não faziam ideia do que era e como era um comboio. No seu livro escolar, parece que havia uma fotografia a preto e branco, com uma máquina a vapor envolvida em fumo e umas carruagens, mas como se movimentava aquele monstro? Explicar-lhe não foi fácil, mas o possível, creio eu, para entenderem.

Na primeira oportunidade, fui visitar a escola, conhecer o professor (creio que se chamava Domingos). Da primeira vez estava a dar aulas, com uma sala cheia de crianças em silêncio, muito atentas. Tinha algumas carteiras, se a memória não me falha, mas não dava para tanta criança. Voltei várias vezes, depois do horário escolar para conversarmos sobre o ensino, a aprendizagem das crianças e do futuro daquela gente esmagada pelo medo da guerra. Era um jovem professor de dezasseis anos. Estava ligado à Comunidade Salesiana de S. Domingos, onde tinha feito alguns estudos do Secundário. Fora colocado em Ingoré no princípio do ano escolar e queria seguir a carreira de professor. Esperava que chegasse o fim do mês de julho para ir nas viaturas militares até ao Sedengal e depois, seguir pela mata, até S. Domingos para continuar os seus estudos durante as férias. Caminho que conhecia bem, pois já o tinha feito algumas vezes.

Passado um mês, a minha Companhia foi deslocada para Sul. Foi tal a rapidez da mudança, que nem me deu tempo para me despedir do jovem professor Domingos, que tinha ganho a minha amizade e profunda admiração pela sua força de vontade e dedicação. Voltei a Ingoré em 2011 com o saudoso Pepito, acompanhado dos meus filhos, para visitar o Infantário Pipisa, que quer dizer Flor de Arroz, o qual estava a ser apoiado pela Associação Tabanca Pequena de Matosinhos. Passei uma bela manhã, a conviver com cerca de cinquenta crianças.

Perguntei pelo Professor Domingos. Era um ilustre desconhecido para aquelas jovens que geriam o infantário. A Escola tinha desaparecido. Havia outra, maior e mais atual. Creio que atualmente há um liceu. A Tabanca cresceu imenso. Incorporou Ingorezinho e outras pequenas tabancas existentes no meu tempo. Ingoré é um mundo, como pude constatar em 2013 e 2015, quando lá voltei.

O tempo (cerca de quarenta e três anos) tinha apagado muita coisa das nossa memórias, mas os dois simpáticos e sabichões “lusitos” e o Professor Domingos continuam bem presentes na minha.

Que será feito deles?
José Teixeira

Eu a interagir com as crianças em 2011
O meu filho Tiago a interagir com as crianças em 2011
O meu Tiago e o saudoso Pepito com as crianças, em 2011
_____________

Nota do editor

Último post da série de 30 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26094: Estórias do Zé Teixeira (65): Da Guiné a Lisboa a pé pelo Saará - O sonho que durou vinte anos a concretizar-se (2) (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381)

Guiné 61/74 - P28437: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XV: semana de 12 a 18 de maio


Lourinhã > 4 de outubro ode 2026 > Caas do Rui Chamusco : As minhas netas, Clara e Rosa, mais a avó  Chita., a ajudar o Rui a apanhar diospiros. Reconstituiçáo artística, com recurso a ferramenta de IA, a patir de uma imgem HDR (High Dynamic Range).

.Foto (e legenda: ©  Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT/Open AI]
 


1. Prosseguimos a publicação das crónicas de 2019 (III Viagem a Timor-Leste) do nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, natural da Malcata, Sabugal, a viver na Lourinhã.

Vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (só não foi  na pandemia, 2020, 21 e 22). Ele é um exemplo vivo do que é a solidariedade e o amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar, e de que é dirigente (a ASTIL).

Essa história, em tétum e em português,  de dedicação às crianças das montanhas da martirizada Liquiçá (onde está funcionar, em Manatti / Boebau, a Escola de São Francisco de Assis) merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné. Bem como outros aspetos da geografia, história e cultura de Timor-Leste, país membro da CPLP, que as crónicas do Rui também procuram  divulgar.

Em Timor-Leste, o Rui fica na casa do Eustáquio, irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro dos co-fundadores  e dirigentes da ASTILl juntamente com a Glória Sobral).




Prompting  e orientação editorial: Luís Graça
Imagens e texto: Rui Chamusco (2019)
Geração gráfica assistida por IA (Google Gemini AI)
(2026)


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 22 de março de 2025 > 7º aniversário da Escola de São Francisco de Assis (ESFA) > O 1º ministro da RDTL com o grupo de professores, mais o Rui  (à direita) e o  João Moniz Sobral ("Eustáquio") (ao lado de Xanana Gusmão)


O 1º ministro da República Democrática de Timor-Leste (RDTL), Kay Rala Xanana Gusmão, acompanhado do administrador do município de Liquiça, Rogério dos Santos, fez uma visita-surpresa à ESFA, em Boebau / Manatti, município de Liquiçá, por ocasião do 7º aniversário, sendo recebido pelo Rui Chamusco ("Tiu Rui" ou "Abô Rui"), "malae"m português, dirigente da ASTIL, e pelo coordenador da escola, o timorense João de Araújo Moniz Sobral ("Eustáquio").

Imagens da Média - GPM / RDTL (República Democrática de Timor-Leste, com a devida vénia)... Fonte:  Página do Facebook do 1º Ministro da RDTL, Kay Rala Xanana Gusmão
I

III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XV: semana de 12 a 18 de maio (*)



12.05.2019, domingo - A ociosidade...mãe de todos os vícios

Já referi em relatos anteriores que um dos grandes problemas a resolver nesta sociedade timorense é a ocupação dos jovens. Enquanto que bastantes prosseguem os seus estudos, obtêm diplomas e tentam arranjar emprego no país ou no estrangeiro, outros ficam-se pelo ensino básico, à espera que algo lhes aconteça.

É frequente encontrarmos grupos de jovens em qualquer parte e a qualquer hora do dia. E nós perguntamo-nos: “ O que é que eles estão fazendo?” 

Muitos deles frequentam lições de artes marciais, capacitando-se assim para a luta de corpo a corpo. De vez em quando há episódios que lhes são atribuídos. Por exemplo terem atacado e morto um senhor (normalmente atacam para roubar, sobretudo dinheiro que tanta falta lhes faz). Depois, esquartejaram o seu corpo e foram lançá-lo ao mar, para alimento dos crocodilos.

Esta noite, aqui bem perto, aconteceu outro ataque: um senhor que descansava tranquilamente na sua casa, foi assaltado por um destes grupos para o roubar. Estragaram-lhe a motorizada e, possivelmente, limparam-lhe os dólares que encontraram. Safou-se ao menos de ser atirado ao mar.

Este clima de insegurança já levou uma alta patente do exército − o coronel Ledere  − a fazer declarações em canal televisivo, dizendo: 

 −  Se o governo não tomar medidas, a tropa virá para a rua resolver a situação.

 Mas até agora, não se tem sentido o efeito de qualquer medida adotada.

“Quem poderá domar os cavalos do vento” ? Quem terá a coragem de intervir? Oxalá não apareça algum político demagogo a prometer mundos e fundos a estes jovens, pois facilmente os arrastará pra a sua causa e, quem sabe, para o combate violento.

Não sei,  não! Mas gostaria que, tal como a maioria dos habitantes deste país,a guerra e a violência nunca mais cá voltassem.

Hoje e amanhã, dia 12 e 13 de Maio, multiplicam-se rezas e procissões pelas ruas e igrejas deste país, porque é o aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima. 

Que bom seria que todos pedissem a paz para este povo tão martirizado recentemente. As cicatrizes e as memórias da guerra ainda estão muito presentes.

13.05.2019, segunda feira    − A festa dos mortos

Parece incrível mas é verdade. Logo de manhã, depois do matabicho (pequeno almoço), inadvertidamente comecei a trautear uma canção. Fui logo chamado atenção pela Adobe e pela Aurora: 

− Tiu Rui não pode cantar, porque morreu asenhora.

 Ontem soou a meio da tarde a sirene do carro mortuário que trazia o corpo da senhora falecida cuja casa de família é daqui bem perto. E por respeito aceitei a reprimenda, sem que no entanto deixasse de pensar e retorquir: 

− Então eu aqui em vossa casa não posso cantar, mas vocês à noite, na casa do velório, a rir, comer e beber,rezar, jogar cartas, etc...?!”

Parece um paradoxo, segundo o que queiram pensar. O facto é que, aqui em Timor, o culto dos mortos é motivo de tristeza e de festa. Guardam os corpos durante três ou quatro dias, e durante esse tempo, todas as noites se faz o mesmo ritual. Sei até que há o costume de nessas vigílias falarem bem e mal do morto, pondo a nu a sua vida.

Choro e riso, lágrimas de alegria e de tristeza, mal dizer e bem dizer, preces e orações, tudo pode acontecer. E estas cerimónias vão repetir-se ao longo do ano: seis meses depois para anunciarem o o pequeno luto (luto kíik), e um ano depois para comunicarem o desluto (koremetan).

A tradição, a cultura timorense, é muito exigente no cumprimento destas cerimónias e rituais. Traz muita carga de responsabilidade, sobretudo para os “manefons” (genros) que têm de suportar uma despesa enorme, conforme os “humanes” (irmãos do falecido) decidirem. É por isso que eu digo: esta gente que respeitar e cumprir estas exigências culturais nuca poderá enriquecer.

Talvez um dia possa descrever em pormenor toda a negociação que se gera em torno destes eventos associados à morte. Por enquanto não me resta outra solução do que respeitar esta cultura e tentar compreender esta dialética entre a vida e a morte.

14.05.2019, terça feira  - Nós, os mosquitos e o mosquiteiro

Viajar para países tropicais supõe sempre uma prevenção que passa pela consulta do viajante, por vacinas e cuidados a ter contra as doenças que proliferam no país de destino. Timor não sai desta regra e, quase sempre, vimos prevenidos com cremes, comprimidos, etc, etc...

Um dos agentes mais comuns na transmissão destas doenças são os mosquitos que, a bem dizer, nem sei porque Deus os põe neste mundo, mas como bom crente acredito que de alguma missão foram incumbidos. Que mais não seja para nos chatear e por à prova a nossa paciência.

Por precaução e para evitar as picadas de mosquitos, particularmente das melgas, utilizamos diversos artefactos: 

  • raquete mosquiteira (muito eficaz mas que deixa um rastro de carne queimada), 
  • os sprays (também infectam o ar tornando-o irrespirável);
  •  a rede mosquiteira.;
  • e, em último recurso, a palmada certeira que reduz a vítima asanduíche. 
De todos eles, a rede mosquiteira é talvez a mais utilizada, o que implica uma espécie de teto falso sobre as nossas camas. tornando-o quase transparente.

Muitas vezes não conseguimos distinguir se os atacantes estão dentro ou fora deste habitáculo, originando assim situações caricatas. Quantas das vezes não fazemos deDon Quixote de la Mancha, perseguindo mosquitos que mais não são do que pontos negros ressaltando do teto ou das paredes. E então quando o perseguidor já tem falta de vista ou é mirolho, pior ainda. São golpes e chapadas em vão que até nos fazem rir de nós próprios. É uma guerra injusta, mas que temos de suportar...

14.05.2019 - “Com bolos se enganam os tolos...”

Hoje vim a saber que, em Portugal como em Timor, há práticas ancestrais comuns para alcançar determinados fins.

Lembro-me em criança, nos anos cinquenta, que um dia os ciganos apresentaram uma égua a meu pai, para fazerem o negócio de troca por uma burra mais uma quantia em dinheiro. Para provarem que o animal era manso, foram à Eira buscar uma carga de ferrém. O meu pai ficou encantado, a égua era mansinha, e de pronto se fez o negócio. 

No dia seguinte, meu pai foi experimentar de novo a doçura do equídeo, e depressa se deu conta que tinha sido enganado. O animal parecia que tinha o diabo no corpo. Ninguém a segurava. Soubemos então que eles tinham embebedado a égua,  deitando-lhe aguardente para dentro das orelhas. Claro que o meu foi de imediato ter com os ciganos para desfazer o negócio. A troca da burra pela égua endiabrada foi possível. O que não conseguiu foi recuperar o dinheiro.

Vamos então ao caso de hoje em Timor, em Ailok Laran. O Eustáquio, como os outros vizinhos, tem por aqui vários galináceos, donde ressaltam belos exemplares de galos (manu-aman") que, devido à liberdade de que gozam, é muito difícil apanhá-los. 

Então qual foi a estratégia adoptada? Deitou-lhes uma mão cheia de grão de milho e, num recipiente improvisado (uma garrafa de água vazia cortada ao meio) misturou "sabu" (aguardente de palmeira) com cocola e deu de beber aos dois “pica-no-chão”.

 Regalados, foram bebendo até à saciedade, até cairem de borrachos como se costuma dizer. Não caíram, mas ficaram muito calmos, podendo assim, se o quiserem, apanhá-los e levá-los para onde for o seu destino: mudança de lugar, luta de galos, ou o cadafalso para servirem de manjar.

Pois é! Parece que a utilização do álcool como droga anestesiante funciona mesmo.

Quem teria ensinado este povo timorense? Não me admiraria nada que tenham sido os portugueses. Aliás temos a fama de sermos grandes consumidores de álcool, particularmente de vinho.

16.05.2019, quinta feira  - Há mar e mar...Há ir e voltar...

Esta é a sina de todos nós: viajar. No tempo, no espaço, de uns lados para os outros num constante devir. Ontem chegamos, amanhã partimos. Tal e qual, como peregrinos e forasteiros neste mundo.

Estes últimos anos os ventos sopraram para os lados do Oriente. Pela terceira vez que o destino é Timor, sempre com ordem de voltar ao país de origem. E chegou a hora de pensar no regresso, atempadamente, até porque nos fazem melhores preços. Pois assim será: na primeira semana de julho próximo, lá estaremos nós (eu) de abalada.

Mas como ainda falta um mês e meio, e há tanta coisa por fazer, vamos trabalhar no projeto de solidariedade com unhas e dentes, na esperança que alguns dos problemas e necessidades se resolvam. Penso até que, quando o tempo urge, somos mais eficazes nas nossas ações. Assim mesmo. Sem perdermos de vista o que realmente nos traz porcá, vamos caminhando nesta reta final, de peito ao vento e de cabeça erguida, esperando o dia do regresso.”Há mar e mar...Há ir e voltar...”

17.05.2019, sexta feira - Farmácia natural

Hoje tomei conhecimento de mais uns quantos produtos naturais que a cultura timorense aplica para determidas doenças. Enquanto esperávamos no jardim do Mundo Mágico, o Eustáquio deu-me uma aula sobre remédios naturais, a partir das plantas que ali se encontram, A saber:

  • Buganvília: as suas raízes, depois de bem lavadas, são fervidas. Não se deve tapar o recipiente. A sua água deve beber-se regradamente. É um remédio utilizado para curar a tuberculose. O Eustáquio afirma que já foi aplicado num familiar, e que a partir daí nunca mais teve esse problema de saúde.
  • Birama: as suas folhas esfregadas são bom coagulante do sangue. Uso externo.
  • Papaia: as suas sementes, engolidas sem mastigar, são um bom digestivo e regulador do intestino.

Sempre a aprender nesta escola da vida, com um professor de excelência.



Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2023 > Transporte coletivo, uma "anguna"

Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


18.05.2019, sábado  - A caminho de Boebau ...


Mais uma viagem para as montanhas de Liquiçá. Como sempre cada viagem é uma aventura, nunca sabendo o que iremos encontrar: chuva, sol, nevoeiro, lama, buracos e árvores atravessadas no caminho, animais ("kraus" / bois e "manus" / galinhas), pessoas sobretudo crianças, etc... Uma constante atenção a ter em conta, especialmente pelos condutores.

Desta vez tivemos de alugar um “carro” para transportar alguns materiais (mesas e cadeiras) que o Jardim Mágico (creche e jardim de infância, fundado em 2016, e que fica na Rua Santo António de Motael, em Díli, junto à Igreja de Motael) ofereceu, a fim de equiparmos a Escola de São Francisco. Carga pronta, e lá fomos até Liquiçá, onde dois amigos − o professor Mário e a educadora Mariana − nos esperavam para seguirmos a viagem até Boebau.

Por conselho do Eustáquio a Mariana deixou o seu “motor” em Hepu’u, em casa de familiares da família Sobral. E começou então propriamente a aventura desta viagem:os dois “motores” do Eustáquio e do Mário à frente, e o “carro” do Apeu atràs, onde viajávamos eu e a Mariana. 

Para além dos solavancos e apertões a que fomos sujeitos, pois os buracos do caminho são cada vez mais e maiores  não há manutenção nem seviços de estrada - por três vezes tivemos de descer da viatura para a ajudarmos a sair do lamaçal ou de subidas íngremes onde o cheiro dos pneus queimados nos ia entupindo as narinas. 

Valeu-nos em situação mais difícil a boa vontade dos viajantes da “anguna” (camioneta ou carrinha, tipo toca-toca)  que prontamente acudiram para empurrar.

Depois de duas horas de caminho com mais ou menos doze quilómetros de distância carregado de peripécias, chegámos finalmente a Boebau, onde nos esperavam as crianças, as assistentes e bastantes pais à entrada da Escola de São Francisco. 

Cantado o hino da escola e mais algumas canções anteriormente aprendidas procedeu-se à sessão de fotografias das crianças que frequentam esta escola: 

  • grupo A (3, 4 anos) )= 16; 
  • grupo B (5,6 anos) = 25. 

A professora Rita Gonçalves, a lecionar na escola de Kilo, e que colobora na escola de São Francisco, reuniu os pais das crianças e quis que eu dissesse algumas palavras sobre esta visi ta. Quiseram também saber qual o motivo da presença do professor Mário e da educadora Mariana. E tive que lhes dizer que é uma visita de amigos, porque alguns já pensavam que eram os professores para a Escola de São Francisco de Assis. Quem nos dera!...

Chegou a hora do almoço e, como sempre, fomos até à casa do Bozé, onde nos esperavam as iguarias desta refeição: arroz, folha de mandioca, flor de papaia, bocadinhos de frango caseiro (aqui não há frango de aviário) ("manus") e água. 

A Mariana comentava: 

 −Adoro estas comidas... 

Eu também.

A Mariana ainda teve tempo para dar as instruções necessárias sobre a utilização e aplicação do material pedagógico que nos trouxe.

Rui Chamusco  | Revisão / fixação de texto, título, negritos: LG.

_______________


Nota do editor LG: