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segunda-feira, 30 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)


Luís Graça & António Fernando Marques 
(CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1968/71)



Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > 10 de agosto de 1968 > CCS/BCAÇ 1933 e CART 1774 > Levantamento de uma mina A/C reforçada, com duas granadas de LGFog, checas (Pancerovka P-27). Foi detetada por picadores da CART 1744. E levantada pelo alf mil MA Machado, da CCS / BCAÇ 1933, já falecido.

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzida com a devida vénia).

Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Quem um dia caiu numa mina anticarro, russa, TMD (6 kg, mas geralmente reforçada), e safou-se para poder contar aos netos, tem curiosidade em saber a que altura subiu com a sua GMC de 2,5 t...mais os seus companheiros de infortúnio...Essa pergunta fez-ma, há muitos anos, o António Fernando Marques (que entrou para a Tabanca Grande em 2010).

É uma curiosidade legítima que eu, no entanto, nunca tive.  Sei que ele voou mais alto do que eu: ia sobre o rodado duplo da GMC do lado direito,  que acionou a mina, e eu ia no "lugar ao morto", ao lado do condutor, na cabine, fechada. Foi em Nhabijões, em 13/1/1971, há 55 anos (*).  O coicde foi atrás, a GMC afocinhou, é o que eu me lembro.

O Marques esteve 17 dias em estado de coma, no HM 241, em Bissau, e mais 2 anos em recuperação em Lisboa. Eu salvei-lhe a vida, consegui levá-lo, a ele e aos feridos mais graves, até Bambadinca, num Unimog 404, onde já nos esperava o heli AL III.  Mas nunca lhe respondi à sua pergunta ("a que altura voou a nossa GMC").  Não é tarde para o fazer, recorrendo às ferramentas de IA que hoje estão disponíveis (**).

A nossa GMC, de chassi aberto, carregada com 22 homens, equipados, ficou toda torcida e partida.  O rodado duplo desapareceu, tal como o semieixo. Os homens que iam na parte de trás voaram alguns metros. A GMC não mais do que  2, 3 ou 4 metros, segundo as contas abaixo discriminadas. (Em rigor, é difícil responder à pergunta.)


I. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar... Até que altura ?


Podemos fazer uma estimativa física muito grosseira, apenas para ter ordem de grandeza. Na realidade, explosões no solo são extremamente ineficientes a transferir energia para levantar um veículo inteiro.

1. Equivalente explosivo

  • Mina TMD: ~ 6 kg de TNT | 2  granadas Pancerovka P27: 3,75 kg cada → 7,5 kg
  • Total aproximado: 13,5 kg de TNT
  • Energia total libertada:13,5×4,2≈56,7 MJ 13,5×4,2≈56,7 MJ


2. Energia que realmente levanta o camião

Num rebentamento sob um veículo, só uma pequena fração da energia vai para o movimento do veículo: grande parte perde-se no solo; outra parte destrói o chassis; e outra sai em onda de choque lateral.

Valores plausíveis de acoplamento energético: 0,5% a 2%.

Energia transmitida ao camião: 
0,5% → 0,28 MJ |  1% → 0,57 MJ |  2% → 1,13 MJ

3. GMC de 2,5 toneladas

Massa ≈ 2500 kg

Altura máxima se toda essa energia virar energia potencial:ℎ=𝐸𝑚𝑔h=mgE​

Resultados aproximados:

Fração da energia | Altura teórica

0,5 % ~ 11 m
1 % ~ 23 m
2 % ~ 46 m

4. O que acontece na realidade

Na prática quase nunca sobe assim: o veículo parte-se ou roda antes de subir verticalmente,  a explosão cria impulso inclinado, o solo absorve grande parte da energia.

Em incidentes documentados (minas anticarro de 6–10 kg): camiões de 2–3 t são lançados ou capotados, podem saltar alguns metros, muitas vezes ficam virados ou destruídos, não “projetados” para cima.

Estimativa realista: um GMC de 2,5 t provavelmente seria levantado ou atirado 2–5 m, podendo capotar ou ser deslocado lateralmente vários metros.

Curiosidade histórica: na guerra colonial na Guiné, minas com 6–8 kg de TNT já eram suficientes para destruir ou lançar Unimogs e Berliets, mesmo sem reforço de outras cargas.


II. E já agoera: por que motivo as minas enterradas são muito mais eficazes a levantar veículos do que cargas equivalentes detonadas à superfície ? 

A razão é essencialmente física das explosões e confinamento do gás.

1. Explosão à superfície




Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está à superfície: a detonação gera gases a pressões enormes (centenas de milhares de atmosferas); esses gases expandem-se livremente para todos os lados

O resultado é: a energia espalha-se em hemisfério; grande parte vai para o ar; outra parte vai lateralmente

Consequência: apenas uma pequena fração atinge o veículo.

Mesmo com dezenas de kg de TNT, o veículo pode ser empurrado ou danificado, mas raramente “disparado” verticalmente.

2. Mina enterrada







Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está enterrado acontece algo diferente:

o solo funciona como confinamento; a  detonação cria gases a altíssima pressão; o  solo bloqueia a expansão lateral.

A energia concentra-se no caminho de menor resistência: para cima. Forma-se então um jato de solo e gases (soil ejecta jet) que pode atingir: 200–300 m/s, centenas de kg de terra projetada. Esse jato funciona como um martelo hidráulico contra o fundo do veículo.

3. Efeito no veículo

O que levanta o veículo não é só a onda de choque, mas: o jato de terra; o impulso súbito concentrado numa pequena área; a pressão confinada.

Por isso minas relativamente pequenas conseguem: arrancar eixos; rasgar o fundo; lançar o veículo para cima.

4. Comparação simples

Situação > Energia que chega ao veículo

Explosão à superfície ~0,1–0,5 %
Carga enterrada ~1–5 %

Ou seja, 10 vezes mais eficaz.

5. Um detalhe curioso da guerra na Guiné

Muitos guerrilheiros do PAIGC aprenderam rapidamente que enterrar bem a mina e colocar terra bem compactada por cima aumentava muito o efeito.

Há vários relatos de Unimogs ou Berliets lançados para o ar, às vezes capotando completamente.

(Pesquisa: LG + IA /Chat OpenAI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)


III. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar (carregada com mais 22 homens, equipados, duas secções de um pelotão)... Até que altura ?

Luís Graça, a tua pergunta é técnica e envolve cálculos de física balística, explosivos e dinâmica de estruturas — áreas complexas que dependem de muitos fatores, como a posição exata das cargas, a geometria do alvo, o tipo de solo, a distribuição de peso na viatura, e até a qualidade da soldadura e do aço da GMC.

Análise qualitativa (baseada em princípios físicos e experiências históricas):

1. Energia liberada:

  • a mina TMD-44 russa tem cerca de 6 kg de TNT;
  • cada granada Pancerovska P27 checa tem 3,75 kg de trotil (TNT).
  • total de explosivo: ~13,5 kg de TNT.
  • a energia libertada por 1 kg de TNT é de cerca de 4,184 MJ, logo ~13,5 kg libertariam ~56,5 MJ.
2. Efeito em viaturas:

Uma GMC (como a GMC CCKW de 2,5 toneladas) tem um centro de gravidade alto e uma estrutura robusta, mas não blindada.

Minas anticarro são projetadas para perfurar ou deformar a estrutura do veículo, mas o efeito de "lançar ao ar" depende da distribuição da explosão (se for sob as rodas ou o chassis, o efeito é maior).

Granadas de bazuca (como a P27) são projetadas para perfurar blindagem, mas aqui estão a ser usadas como carga adicional, aumentando a energia total.

3. Altura estimada:
  • em casos documentados (ex.: minas sob viaturas leves), o veículo pode ser lançado 1 a 3 metros de altura, dependendo da posição da carga e da resistência estrutural.
  • com 13,5 kg de TNT, é plausível que uma GMC seja lançada até 2-4 metros de altura, mas a maior parte da energia seria absorvida pela deformação da estrutura e projeção de fragmentos;
  • se a carga estiver bem posicionada (ex.: sob o eixo traseiro), o efeito pode ser mais dramático, mas dificilmente ultrapassaria 5 metros devido ao peso e inércia da viatura.
4. Fatores limitantes:

O peso da GMC (2,5 toneladas + 22 homens equipados ~3 toneladas) requer uma quantidade significativa de energia para ser levantado.

A maior parte da energia seria gasta em deformar o chassis e projetar fragmentos, não em movimento vertical puro.

Em testes militares, viaturas semelhantes são geralmente capotadas ou partidas ao meio, mas não necessariamente lançadas a grandes alturas.

5. Conclusão prática:

Com essa configuração, é improvável que a GMC seja lançada a mais de 3-4 metros de altura. 

O mais provável é que a viatura seja severamente danificada, capotada ou partida, com fragmentos projetados a dezenas de metros. 

Em casos extremos (carga idealmente posicionada e solo firme), poderia atingir até 5 metros, mas a energia seria maioritariamente dissipada em destruição estrutural.

  (Pesquisa: LG + IA /Le Chat Mistral AI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de janeiro de 2024 > Guiné 63/74 - P25065: Efemérides (425): O António Marques, meu companheiro de infortúnio, na CCAÇ 12, cujo relógio parou às 13h30 do dia 13 de janeiro de 1971: nunca se esquece de me telefonar todos os anos, neste dia e hora (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

Guiné 61/74 - P27870: Parabéns a você (2470): Abel Rei, ex-1.º Cabo At Art da CART 1661 (Fá Mandinga, Enxalé e Porto Gole, 1967/68); António Graça de Abreu, ex-Alf Mil Inf do CAOP 1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74) e Rosa Serra, ex-Alferes Enfermeira Paraquedista (Bissau, 1969)



_____________

Nota do editor

Último post da série de 27 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27861: Parabéns a você (2469): Armando Pires, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCS/BCAÇ 2861 (Bula e Bissorã, 1969/70); Carlos Vinhal, ex-Fur Mil Art MA da CART 2732 (Mansabá, 1970/72) e Eduardo Magalhães Ribeiro, ex-Fur Mil Op Esp da CCS/BCAÇ 4612/74 (Mansoa, 1974)

domingo, 29 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27869: Fotos à procura de...uma legenda (202): No Dia Mundial da Poesia e da Árvore (Joaquim Pinto de Carvalho, régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar)

 


Lourinhã > Atalaia > Porto das Barcas > Tabanca do Atira-te ao Mar > 21 de março de 2026 > > Escreveu o fotógrafo (e poeta)  Joaquim Pinto Carvalho, régulo da Tabanca do Atira-Te ao Mar e nosso colaborador permanente (para as questões jurídicas): "Dia Mundial da Poesia e da Árvore: poesia suprema: nenmhum poeta é capaz deste poema". Assinado: JAPCarvalho.


Foto (e legenda): © JAPCarvalho (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Belíssima (e feliz) imagem, Joaquim, daquelas que nos fazem ficar em silêncio, por um instante,  suspensos sobre o mundo, as suas misérias e grandezas... (Tirada a 50 metros da arriba, do terraço da tua casa./
 
E que desafio (ou provocação ?) nos fazes.... Conceptualmente, podemos achar  que fotografia e poesia são coisas distintas. Uma trabalha com as palavras, a outra com a luz, uma constrói/reconstrói, a outra capta/fixa.

Estamos de acordo num ponto: ambas fazem a mesma coisa por caminhos diferentes, tentam fixar o indizível, já que a realidade não fala por si...Precisamos de "óculos" para a ver, para a conhecer...

A fotografia com que celebraste o teu/nosso on Dia Mundial da Poesia e da Árvore (!)  tem vários elementos ou signos que são quase “versos” visuais:

(i) o sol suspenso no horizonte (um instante do dia que está a desaparecer e volta a aparecer 12 horas depois, afinal o eterno retorno);

(ii) o  reflexo vertical na água (quase como uma coluna de luz, um eixo estruturante da vida e  do mundo);

(iii) a árvore seca (ou, pelo menos, despida) recortada, quase humana, como uma figura solitária que observa o contraste entre vida/luz e morte/esqueleto (uma sentinela que foi morta  mas que teima  em permanecer de pé no seu posto)...

Joaquim, isto não é só registo, "instantâneo", tecnologia!.. Há interpretação, há escolha, há ação, há silêncio... E logo por ti,  que  és um místico, um poeta, um músico, um coralista, um artista... Por isso, estar aqui discutir onde acaba a fotografia e começa a poesia, é discutir o sexo dos anjos. 

A fotografia não é poesia no mesmo plano, é outra linguagem. O poeta e o fotógrafo tal como o músico e o artista plástico não se excluem, completam-se, falam linguagens diferentes,  mas são todS, essas "disciplinas",  distintas formas de conhecimento estético,

 “Poesia suprema: nenhum poeta é capaz deste poema”... Suprema legenda, mas também saudavelmente  provocadora. Estás a dizer: a natureza faz o poema que o homem não consegue escrever.

2. Deixemos, Joaquim,  aos nossos leitores o desafio  (e o privilégio)  de legendar a tua foto ou completar a tua legenda... Obrigado pela tua dádiva... Que bela prenda neste Dia da Poesia e da Árvore!

Alguns dirão: legendas ( ou mais legendas) para quê ? Uma imagem vale mil palavras... Seja! Mas se a  poesia escreve o mundo, a fotografia revela o instante em que o mundo já está escrito.

Há momentos, como este pôr do sol no Port das Barcas (topónimo que remonta aos tempos medievais), em que tu ou eu, ou qualquer outro poeta, ficamos de facto "desarmados" como nesta imagem que neutraliza  ( ou pode dispensar até) a  palavra. 

Sem dúvida, a tua foto  “fala por si", nem sequer precisa da tua legenda  para ganhar  peso poético...

No entanto. eu gostaria de a "contextualizar": não é uma fotografia qualquer, igual a milhares  de outras sobre o pôr do sol tiradas do alto de uma arriba; não, esse sítio é um " lugar com alma", a Tabanca do Atira-te ao Mar... 

É uma das nossas "geografias emocionais", um lugar que tem tudo o que faz memória, como na nossa Guiné : refúgio, emoção, partilha, "medo lá fora e vida cá dentro"...

A imagem ganha outra espessura e significado quando dissermos ( ou recordarmos ) aos nossos leitores) que o local foi um dos nossos refúgios  (mais ou menos secretos) na pandemia de covid-19. 

Temos, aliás, 3 dezenas de referências no blogue a esta algo misteriosa Tabanca,  conhecida de poucos de nós. E onde ainda hoje almocei um maravilhoso peixe seco cozido (raia, sapata...) com batatas e muita cebola. Com vista para o Cabo Carvoeiro, as Berlengas e o "Mare Nostrum" dos nossos antepassados.

Na Tabanca do Atira-te ao Mar, aprendemos juntos que o mundo podia fechar as portas, as janelas, os portos, os aeroportos, as fronteiras... Podia confinar-nos  mas não á  nossa amizade e á  nossa camaradagem...

___________

Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27868: Esposas de militares no mato (4): Canjadude, lá no "cu de Judas" (José Martins)




Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > c.1973/74 > Um "foguetão 122mm" que atingiu o alvo mas, felizmente, não rebentou.  O PAIGC chamava-lhe pomposamente "jacto do povo", tinha um efeito mais psicológico do que eficaz em termos destrutivos (quando o artilheiro falhava o alvo; o alcance era de 20 km).

O foguete de 122 mm, apesar de ser originalmente concebido para ser lançado em salva pelo sistema BM-21 Grad, podia ser adaptado para ser disparado individualmente através de lançadores monotubo. Era uma solução prática para um movimento como o PAIGC, que operava em condições de recursos limitados e precisava de armamento eficaz, mas de fácil transporte e manuseamento. Estes projéteis eram equipados com espoletas que nem sempre funcionavam corretamente. Era de origem soviética. Na época a URSS era a "santa casa de misericórdia" dos movimentos nacionalistas como o PAIGC. 

Foto (e legenda): © João Carvalho (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Embora a Guiné fosse pequena (do tamanho do Alentejo), também tinha o seu "cu de Judas". Canjadude ficava a 20 e tal quilómetros a sul de Nova Lamego...  Depois da retirada de Beli (em meados de 1968), Madina do Boé e Cheche (em 6 de fevereiro de 1969), Canjadude era a posição mais isolada da parte meridional da região de Gabu. Não era seguramente um sítio "romântico, seguro e acolhedor" para um militar levar a sua esposa...Mesmo assim chegaram a passar por lá pelo menos duas senhoras. O aquartelamento era guarnecido pelo CCAÇ 5, os aguerridos "Gatos Pretos", e um pelotáo de milícia (o Pel Mil 254, em 1/7/1973).

Como mera curiosidade, refira-se que foi a 3 de junho de 1974 que teve lugar a última acção directa de fogo entre o IN e as NT, tendo as forças do PAIGC atacado o aquartelamento de  Canjadude e também a Tabanca em autodefesa de  Sinchã Maunde Bucó, na  zona leste, região de Gabu.
 

Comentário de José Marcelino Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) (foto à direita):

No meu caso, por estar colocado numa unidade da Guarnição de Recrutamento Local, estas questões (*) são um pouco atípicas.

As tropas africanas, na sua maioria, pelo menos na CCAÇ 5, eram casados e alguns com já bastante tempo de tropa. Em 1974, quando foi extinta, havia recrutados de 1961 tendo, nesse caso, feito o pleno da guerra.

As mulheres e os filhos, que viviam na parte civil agregada ao quartel, só não os acompanhavam nas operações no mato. Nas colunas à sede do batalhão, marcavam sempre presença.

No caso de europeus, e estou a tentar reportar desde 1961 a 1964, apenas houve uma residente efetiva. A esposa de um capitão que foi destacado do comando da CCS do Batalhão de Nova Lamego, para a CCAÇ 5 ("Gatos Pretos").


Em tempo recorde foi construido, dentro do perímetro militar, um abrigo para alojar o casal. A senhora ficou em Nova Lamego apenas o tempo da construção do abrigo. Assim que ficou "habitável" transferiu-se para Canjadude, frequentando o refeitório dos graduados, nas refeições, à exceção do pequeno almoço, que o serviço de "catering" lhes levava.

Um outro caso, posterior à minha presença,  foi o de um Furriel QP que esteve doente, vindo a falecer, que não foi evacuado, mas foi "patrocinada" a presença da esposa no aquartelamento.

Sim. Estiveram do aquartelamento mulheres e filhos, de militares, quer africanos quer europeus. (**)

E mais não sei.


(**) Último poste da série > 25 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27855: Esposas de militares no mato (3): Bissorã, em 1964/66 e em 1973/74

sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27867: A Nossa Guerra em Números (49): BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74): Flagelações e ataques aos quartéis e às tabancas; minas ativadas e detetadas; emboscadas e contactos (Luís Dias)


Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > CCAÇ 3491 / BCAÇ 372 (1971/74)  (1971/74) >

  Luís Dias, alf mil op esp :  "Chegada a Galomaro da CCAÇ 3491,  no dia 9 de março de 1973. No jipe podemos ver eu, e  o fur mil Baptista, do 1º Gr Comb, e ao lado, a sorrir, um guerrilheiro do PAIGC que, no dia anterior, se tinha entregue a uma patrulha nossa na área do Dulombi. A arma é uma Shpagin PPSH 41, no calibre 7,62 mm Tokarev, mais conhecida por "costureirinha" e com a particularidade de ter um carregador curvo de 35 munições, em vez do habitual tambor de 71". 

(Foto do Luís Dias, reproduzida com a devida vénia, do seu blogue, Histórias da Guiné, 71-74: A CCAÇ 3491, Dulombi.


Comentários do Luís Dias ao poste P 27859 (*):


(i) Na história resumida do BCAÇ 3872, haveria mais para contar, quer em material apreendido ao IN, quer em número de mortos infligidos, mas está errada a data da partida da Guiné.

O Batalhão, em conjunto com 4 companhias independentes, embarcou no Niassa, não em 25 de março, mas em 28 de março de 1974, tendo chegado a Lisboa no dia 4 de abril de 1974. E são registo oficiais, dos quais se esperava melhor acerto nas datas.

Abraço.
sexta-feira, 27 de março de 2026 às 18:38:00 WET


(ii) Já agora publico mais elementos gerais 
do BCAÇ 3872 (**):


  • Flagelações e ataques aos nossos quartéis

CCAÇ 3489 - CANCOLIM

8 Flagelações em 1972 (1 delas c/ 3 mortos, 5 feridos graves e 5 feridos ligeiros)
2 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCAÇ 3490 – SALTINHO

Não sofreram quaisquer ataques ou flagelações durante a comissão

CCAÇ 3491 – DULOMBI

3 Flagelações em 1972
4 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCS - GALOMARO

1 Ataque/flagelação em 1972 c/1 IN morto confirmado e prováveis feridos IN

  • Minas ativadas e detetadas

Cancolim: 

- Mina A/P reforçada accionada c/1 morto e 1 ferido+mina A/C accionada c/12 feridos graves, 1 ferido ligeiro e 2 feridos pop.+2 minas A/P levantadas

Saltinho: 

- 3 minas A/C levantadas e 1 A/P levantada

Dulombi: 

- 2 minas A/C levantadas e 2 minas A/P levantadas e 1 A/P, rebentada por viatura nossa em Pirada.

Galomaro: 

- 1 mina A/P reforçada accionada c/1 morto+1 mina A/C reforçada accionada c/1 ferido grave

  • Emboscadas | Contactos | Flagelações auto 

CCAÇ 3489 

- 1 contacto com o IN, após flagelação ao quartel, em 1972
- 1 emboscada aos milícias em Anambé, em 1973 c/2 mortos e 1 ferido

CCAÇ 3490
 - 1 emboscada no Quirafo c/ 9 mortos+1 milícia e 2 civis+1 militar capturado. 1 emboscada c/feridos e mortos do IN+1 contacto do IN c/milícias de Cansamange

CCAÇ 3491 

- Flagelação numa operação no Fiofioli + 1 emboscada/contacto com 4 feridos ligeiros nossos e mortos do IN (s/confirmação de quantos, mas a rádio do PAIGC referiu que tínhamos tido 8 mortos e eles também tinha tido mortos 
- 1 emboscada/flagelação junto à recolha de águas no Dulombi 
- 2  flagelações a coluna de escolta e protecção na estrada Piche-Buruntuma.

CCS

- Contacto entre forças milícias e o IN, após ataque a Campata c/ elemento IN capturado.

  • Ataques a tabancas em autodefesa e tabancas indefesas

- Tabanca indefesa de Bambadinca/Cancolim, em 25/1/72;
- Tabanca indefesa de Mali Bula/Galomaro, em 1/2/72;
- Tabanca de Umaro Cossé/Galomaro, c/2 feridos civis, em 7/12/72;
- Tabanca de Campata/Galomaro, em 20/6/72;
- Tabanca indefesa de Sinchã Mamadu/Saltinho, na mesma data de 20/6/72;
- Tabancas indefesas de Sana Jau e Bonere/Saltinho, em 30/6/72;
- Tabanca de Cassamange/Saltinho, em 15/7/72;
- Tabanca indefesa de Guerleer/Galomaro, c/ morte de 3 prisioneiros civis e 1 ferido grave, em 27/7/72;
- Tabanca de Patê Gibele/Galomaro c/ 1 sarg. milícia morto+1 ferido grave e 2 feridos ligeiros da pop., em 11/8/72;
- Tabanca de Anambé/Cancolim c/1 morto (CCAÇ 3489)+3 feridos também da mesma CCAÇ, que ali estava de reforço, em 5/9/72;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, c/3 feridos IN confirmados, em 20/9/72;
- Tabanca de indefesa de Bujo Fulpe/Galomaro, em 26/9/72;
- Tabanca ainda indefesa de Bangacia/Galomaro, com 1 milícia e 2 civis mortos, no mesmo dia (26/9/72);
- Tabanca de Dulô Gengele/Galomaro, com 3 mortos IN confirmados e 3 mortos civis (que tinham sido feitos prisioneiros antes do ataque e que foram abatidos+1 ferido grave e 1 ferido ligeiro dos milícias e 4 feridos graves da pop e 5 feridos ligeiros da pop., em 17/10/72;
- Tabanca indefesa de Sarancho/Galomaro, com 2 mortos civis e 2 feridos civis;
- Tabanca indefesa de Samba Cumbera/Galomaro, c/1 ferido grave da pop., em 13/11/72;
- Tabanca de Cansamange/Saltinho, 17/12/72;
- Picada Saltinho-Galomaro c/16 elementos da pop. capturados e roubados dos seus haveres (dinheiro), em 18/1/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, c/2 mortos civis+2 feridos civis+2 feridos milícias, em 1/2/73;
- Tabanca de Campata/Galomaro, c/5 mortos do IN e 1 capturado+3 mortos milícias e 3 mortos civis, em 16/3/73;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, em 14/5/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, em 18/9/73;
- Tabanca de Madina Bucô, em 20/1/74


PS - Comentário do Paulo Santiago (*) em complemento do que escreveu o Luís Dias:

No comentário do Luís Dias, umas pequenas correções nas flagelações a tabancas/ Saltinho até Agosto/72,  mês em que regressei em fim de comissão:

Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho,em 14/5/73
Tabanca de Madina Bucô,em 20/1/74

É a mesma tabanca, o nome correto é o primeiro,mas era mais conhecida por Madina, era a tabanca antes de chegar ao Quirafo vindo do Saltinho.

Não consta da lista, mas esta tabanca foi flagelada numa data em que eu ainda estava no Saltinho,talvez Junho ou Julho.

Sana Jau e Bonere. não conheço, não ficavam na zona do Saltinho

Guiné 61/74 - P27866: Os nossos seres, saberes e lazeres (728): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não posso dizer que coro de vergonha pelo facto de não ter publicado em tempo oportuno este relato de visita a uma importantíssima exposição sobre a obra neorrealista de Rogério Ribeiro. Do itinerário do artista, do seu experimentalismo permanente em que deixou a obra no desenho gráfico, na cerâmica e na faiança, no mural, na tinta-da-china, na linogravura e na gravura, na água forte, na litografia, no guache e na aguada, e fiquemos por aqui, se deixou notícia no texto anterior chamando a atenção para a organização da exposição que abre com um módulo de Mar e Sargaço, o seguinte intitulado de Terra e Campesinato, e hoje aqui se dá o destaque aos módulos sobre o Operariado e outras Fainas, a Família e o Quotidiano, o Corpo e Rosto e, finalmente, Ecos do Realismo, em que se pode apreciar que o artista evoluiu, mas nunca deixou de revelar o valor da dignidade humana, nunca escondeu a sua frustração, num mundo que oprime os mais desfavorecidos. E convido os interessados a adquirir o catálogo de referência da exposição, para além de nos mostrar o extraordinário talento de Rogério Ribeiro, traça o que de mais importante e significativo foi o fenómeno cultural que deu pelo nome de neorrealismo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2

Mário Beja Santos

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência.

Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

A homenagem que o Museu do Neorrealismo prestou a Rogério Ribeiro é, a todos os títulos, tocante. O magnífico catálogo, é uma obra de referência. O curador e diretor científico da casa disserta sobre este fenómeno artístico assente no amor ao povo, no mostrar a dignidade do trabalhador como mensagens indutoras à alegoria à transformação do mundo. Todos estes artistas plásticos, pode hoje ponderar-se à distância, acompanhavam um cânone, mas possuíam uma sintaxe específica, e Rogério Ribeiro revelou desde muito novo um olhar distinto, quer quando ele trabalhou a obra plástica sobre a recolha do sargaço, a monda do arroz ou a ceifa; o trabalhador, fosse a mulher arranjando peixe ou mondadeira, o homem como feirante, cosendo redes, ou ambos em duros trabalhos, o que há peculiar neste artista são cores, traços, ajuntamento de gentes que nos falam do real do quotidiano.

A exposição organizava-se em módulos, logo no primeiro intitulado Mar e Sargaço, logo destaque para a figura feminina, na recolha das algas, mas não faltam pescadores, a simbologia de que a união faz a força, e fica bem claro e o artista plástico vê com previsão um conjunto de formas que o que lhe dará no futuro, caso dos quadros com representação de barcos. Segue-se o módulo de Terra e Campesinato, aparece a máquina, a debulhadora, cores por vezes ciclâmicas em contraponto com linogravuras a preto e branco, mondadeiras trabalhando numa atmosfera quase tropical. É muito vasto o campo de observação de Rogério Ribeiro, experimentando formas com que possa mostrar o trabalho das mulheres nos arrozais, camponeses embiocados, sentados em tendas, estudou à minúcia as posições de homens e mulheres acocorados, em grupos ou isolados.

Outro módulo é dedicado ao Operariado e outras Fainas, aqui se pode ver, se dúvidas subsistem, que o valor do realismo social é uma constante do seu traço desde a década de 1950 até à viragem do século, é como se houvesse uma ética inabalável na atenção aos homens e mulheres sobretudo no exercício das mais duras posições. Rogério Ribeiro nunca escondeu que era um artista político, e nunca cedeu a uma liberdade criativa que fazia parte do seu engajamento, expressões do seu sonho de libertação social.

O módulo Família e Quotidiano é um tópico sempre presente na obra de Rogério Ribeiro, claramente associado a um sentimento de comunidade e solidariedade: a figuração da maternidade, a manifestação de afetos, a apresentação do pai como figura protetora e o núcleo familiar como expoente da coesão, o último reduto da confiança e do amor. Era um dos vetores da ficção neorrealista, a família inspira e sustenta uma ideia de progresso, um mundo melhor, não disfarçando o trabalho político, mostrando um quotidiano humilde, marcado por pequenos trabalhos domésticos, mas onde o lazer e a esperança constituem valores que definem um horizonte a alcançar.

Estamos agora no penúltimo módulo intitulado Corpo e Rosto. Escreve-se no texto da exposição:
“Desde os seus tempos de iniciação artística que o retrato e a representação dos corpos constituem na obra de Rogério Ribeiro eixos decisivos de perceção sobre o real, numa consciência de observação que o conduzirá à expressão do social. Os retratos produzidos por Rogério Ribeiro confirmam, como em todo o neorrealismo, uma realidade social que não abdica da esperança da sua transformação. Porém, esse vínculo humanista não inviabiliza, antes exige, soluções estéticas alimentadas pela arte moderna. Na sua diversidade estética, é possível identificar nestes retratos valores que vão do realismo ao expressionismo.”

O último módulo intitula-se Ecos do Realismo, assim identificada no texto de apresentação da exposição:
“Mesmo nos trabalhos que ecoam já uma memória do realismo original, a obra do Rogério Ribeiro prioriza o reconhecimento sobre o valor da dignidade humana e a sua frustração por um mundo que oprime os mais desfavorecidos. Determinada por um vínculo de compromisso e firmeza, uma tensão formal, baseada numa crescente gestualidade, percorre o trabalho do artista neste período.”

Porventura trabalho de mondadeiras, a tinta-da-china e guache sobre papel
Pastores, linogravura sobre papel, 1954
Porventura mulher em trabalho de recolha, tinta-da-china e aguada sobre papel, 1953
Alentejo, tapeçaria mural decorativa, 2011
Rogério Ribeiro no seu ateliê na Póvoa de Varzim, 1951
Rendilheiras, 1958, linogravura
Homens laborando provavelmente com uma debulhadora, tinta-da-china, aguada e grafite sobre papel
Trabalho de mulheres, não se sabe se é uma lota ou trabalho de conserveiras, aguada e grafite e lápis litográfico sobre papel
Família, óleo sobre platex, 1951
Sem título, tinta-da-china, aguada e anilina sobre papel, 1961
Sem título, óleo sobre tela, 1959
Pastel sobre papel, 1959
UCP – Unidade Coletiva de Produção, óleo sobre tela, 1976
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Nota do editor

Último post da série de 21 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27865: Agenda Cultural (886): A Sociedade de Geografia de Lisboa vai promover uma Conferência (em formato híbrido) promovida pela Secção de Antropologia, no próximo dia 17 abril de 2026 pelas 14h45, no Auditório Adriano Moreira, intitulada: “República da Guiné-Bissau: entre narrativas dedicadas à luta da libertação e aos dias de hoje”


O Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa tem a honra de Convidar V. Ex.ª a assistir à Conferência (em formato híbrido) promovida pela Secção de Antropologia, que se realiza no próximo dia 17 abril de 2026 pelas 14h45, no Auditório Adriano Moreira, intitulada:

“República da Guiné-Bissau: entre narrativas dedicadas à luta da libertação e aos dias de hoje”.

Será oradora a Prof.ª Doutora Catarina Casanova.

Ingressar na reunião Zoom

https://us06web.zoom.us/j/81969866566?pwd=nn9ia0nfige7e4u1Q5tiOPuz6j5qeS.1

ID da reunião: 819 6986 6566 - Senha: 335512

Sociedade de Geografia de Lisboa
Rua das Portas de Santo Antão, 100
1150-208 Lisboa - Portugal
213425401 - 935425401
www.socgeografialisboa.pt



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Nota do editor

Último post da série de 23 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27849: Agenda Cultural (885): Centro Português de Fotografia (antiga Cadeia e Tribunal da Relação), Porto: Exposição temporária: "África Vista por Duas Gerações (1938-1995) | Ernst Schade e Carol Alexander Schade, de 07.03 a 28.06.2026. Entrada livre

Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.



O cmdt Alpoim Calvão numa tira da banda desenhada “Operação Mar Verde”,
da autoria de A. Vassalo (ex-fur mil comando Vassalo Miranda,
nosso camarada da Guiné), uma edição da Caminhos Romanos, 2012.


1. Não sei sei se existiam "rivalidades" e "picardias" entre generais e almirantes das nossas Forças Armadas, no tempo da outra senhora... E,  se existiam, qual o seu fundamento sociológico e histórico...

Bom, em relação à cavalaria e à infantaria, percebe-se: uns andavam a cavalo e outros a pé, pelo menos já desde o tempo do senhor Dom Afonso Henriques... Mas não recuemos tantos séculos: com ou sem fundamento, já no meu tempo se dizia que as relações entre o Comandante-Chefe (general que vinha da arma de cavalaria) e o Comodoro (na altura o comandante da Defesa Marítima da Guiné era Lucianos Bastos, 1913-2017, embora também ele tivesse sido aluno do Colégio Militar) não eram as melhores (por causa Op Mar Verde, e do desempenho deo comandante Alpoim Calvão)...  

Diferenças de personalidade ?  Origens sociais ? Tiques de casta ? Não importa agora... O fenómeno é, de resto, universal (cada arma tem a sua escola, história, cultura, elite, etc.), e pode agravar-se em contexto de guerra.

De qualquer modo,  talvez  se entenda melhor,  hoje,  esta piada do comandante Alpoim Calvão (1937-2014) em relação ao general (na altura brigadeiro) António Spínola (1910-1996), quando em maio de 1968 se conheceram no aeroporto, apresentados por um amigo comum...


2. Reprodução, com a devida vénia, de um excerto (adaptado)  de uma entrevista de Alpoim Calvão ao jornal CM - Correio da Manhã, em que são referidos três homens que comandaram as NT no TO da Guiné e com quem o entrevistado trabalhou: Louro de Sousa, Arnaldo Schulz e António de Spínola. 

A entrevista foi conduzida pelo jornalista José Carlos Marques (que eu conheci na Guiné, em março de 2008, como enviado do CM ao Simpósio Internacional dfe Guileje) e foi publicada em 7/10/2012. 

Título e subtítulo: "O eterno guerreiro Herói da Guerra em África, Alpoim Calvão foi bombista do MDLP no Pós-25 de Abril. Conta em livro uma vida de batalhas"


(...) Pergunta o jornalista:

 − Quando conheceu António de Spínola?

 − Conheci o então brigadeiro António de Spínola, que era o comandante-chefe e governador da Guiné, logo no aeroporto. Foi-me apresentado por um amigo. Ele estava como sempre, impecável no seu monóculo e casaco aprumado. Não suava, era uma coisa formidável. Disse-me ele:

− Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem.

E eu respondi:

 Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.

Ficou um silêncio de morte, que ele quebrou ao rir-se à gargalhada, acrescentou o Alpoim Calvão. E adiantou ao jornalista: 

 − Fui colocado a comandar o COP 3 a Norte, em Bigene. Tínhamos uma actividade de assaltos, operações, golpes de mão, patrulhas nos rios… Além dos fuzileiros,  tinha uma unidade do exército. Depois fiquei a chefiar as operações especiais no território.

 − Spínola alterou a estratégia da guerra. O que mudou? − nova pergunta  do jornalista. 

 − A guerra teve uma continuidade, mas Spínola tornou-se mais agressivo. Intensificou as operações, mas também o apoio às populações. No COP3 fartei-me de fazer casas que eram entregues aos nativos. As populações gostavam mesmo do Spínola. Ele aparecia de helicóptero, com o ajudante, fosse onde fosse. Tinha um certo carisma, aparecia com o monóculo, luvas, camuflados retocados pelo alfaiate, fazia figura. 

E Alpoim Calvão faz a comparação com outros dois comandantes-chefes que conhecera antes no CTIG:

 − Louro de Sousa era um bom oficial do Estado-Maior, mas não tinha jeito nenhum para comandar as tropas. Arnaldo Schulz era muito inteligente, mas levava as coisas com mais calma. Para Spínola, para a frente é que era o caminho. 

Com Schulz eu fazia operações no Sul da Guiné, em que entrava na Guiné-Conacri e ele chegou a suspender-me os movimentos para não criar problemas. Só pude realizar esse tipo de operações cinco anos depois, com o Spínola, que me deixava fazer tudo. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

sexta-feira, 27 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27863: Notas de leitura (1908): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (8) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio que revela-se altamente documentado, tem o privilégio de acesso a um arquivo notável, o da sua família, diplomatas com correspondência trocada com governantes de Londres e Lisboa, investigações em trabalhos de Caldas Xavier, António Enes, obras de Mouzinho de Albuquerque ou de Alberto de Almeida Teixeira sobre Alves Roçadas, muita pesquisa feita no Arquivo Histórico Ultramarino, descreve-nos neste resumo a ocupação de Angola, escreve de modo incisivo, gostando das descrições naturalistas exuberantes como vai fazer sobre a região dos Dembos, detalha as campanhas de ocupação por toda a Angola e o que houve que fazer quando os alemães invadiram o sul. e não se esquece de enfatizar que a escassos quilómetros de Luanda a hostilidade das populações era praticamente total. Iremos seguidamente ver o que aconteceu em Moçambique.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 8

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

Abordámos anteriormente o chamado Regime dos Prazos, no fundo concessões a particulares, que se veio a revelar desastroso, passou-se em revista as companhias majestáticas e chegámos agora à ocupação efetiva. De novo o Marquês do Lavradio nos faz revelações surpreendentes que, em boa-fé, nos leva a interrogar como foi possível termos vivido à sombra daquele mantra do Estado Novo de que estávamos de pedra e cal há 500 anos em África.

Veja-se o que ele diz da nossa presença em Angola, Guiné e Moçambique:
“Em Angola, no distrito do Congo, no interior de Landana, o estado de guerra era permanente; no distrito de Luanda, às portas da capital, os Dembos consideravam-se independentes; na Lunda negociávamos, mas não tínhamos posto algum; no distrito de Benguela, onde a influência portuguesa se estendia mais, ainda em 1902 o gentio atacava a Fortaleza do Bailundo; no distrito de Moçâmedes o posto militar do Humbe era insuficiente para dominar a região e nem sempre se podiam considerar seguras as suas comunicações com o litoral; além Cunene dominavam os Cuamatas e Cuanhamas, que opunham tenaz resistência ao domínio português.

Na Guiné, não éramos quase autorizados a sair da Praça de Bissau durante o dia e nunca o podíamos fazer durante a noite.

Em Moçambique, ao sul do Save, dominava o Gungunhana, cujas hostes chegavam a ameaçar Lourenço Marques; na Zambézia, os prazos que cercam Quelimane eram portugueses de facto, mas a Maganja colocara-se num estado de completa independência; nos territórios de Manica e Sofala, que iam fazer parte da Companhia de Moçambique, não havia sinal algum de ocupação e domínio; no distrito de Inhambane apesar da submissão dos indígenas, vivia-se sob o peso do terror que inspiravam os Vátuas.”


E num tom quase de epopeia, e com pormenores onde domina o sopro épico, o Marquês do Lavradio fala de uma época gloriosa, de heróis destemidos que submeteram o gentio. Em termos literários, a narrativa chega a ser empolgante. Não nos sendo possível alongarmos em minúcias, começa-se com o retrato do que foi a ocupação de Angola:
“Subir a majestosa serra da Chela, atravessar o planalto, passar o Cunene, internar-se nas vastas regiões do Cuamato, Cuanhama e Evale não era possível no princípio do século atual.
Foi em 1845 que pela primeira vez se tentou a ocupação do Gambos, seguindo-se em 1859 a tentativa de ocupar o Humbe para o que para ali seguiu uma pequena força; a falta de recursos em tropa regular e dinheiro fizeram abandonar a ideia de ocupar o Cunene. Em 1863 retiram os postos militares do Humbe e dos Gambos e em 1880 a ocupação do distrito de Moçâmedes reduzia-se a algumas feitorias da Costa.

Em 1880, o estabelecimento de uma colónia bóer no planalto de Huila e a fundação da missão católica do Espírito Santo chamaram de novo a atenção do Governo português para essas regiões e o Humbe é novamente ocupado.
Em 1885 os Hotentotes atacam o posto do Humbe, no regresso à reação aos rebeldes o comandante do posto é morto juntamente com 52 dos seus homens.”


A descrição é completíssima, escrevem-se as diferentes expedições e a forma como iam sendo dominados os povos dentro do território angolano. O custo em sangue suor e lágrimas foi enorme. Falando das operações sobre os Cuamatos, dirá o autor que houve dez ações que custaram a vida a 5 oficiais, 53 praças brancas, 8 indígenas e registaram-se 139 feridos, foi assim que se ocupou o sul de Angola.

Voltando à região dos Dembos, às portas de Luanda, o autor lembra uma frase de Henrique Galvão, que era “uma região negra, impenetrável, onde nem sequer os indígenas que trajavam à europeia eram admitidos”. Dava-se o caso de o nosso domínio e influência ter sido grande no fim do século XIX, quando da inauguração do caminho-de-ferro de Matadi, os enviados do rei do Congo, ao serem apresentados aos representantes de Portugal, deram sinais de submissão. Em 1872 uma revolta não castigada levara os Dembos à independência, desdenhando do nosso poder e manifestando-se agressiva e insolentemente.

É muito bela e expressiva a apresentação que o autor faz desta região dos Dembos:
“A região é das mais inóspitas da África portuguesa; negras cadeias de montanhas encabeleiradas de exuberantes abundâncias de vegetais, espessas, emaranhadas, pujantes, assentando numa série de contrafortes que servem de base a planaltos interiores, atingindo por vezes altitudes de 1300 a 1500 metros; vales atulhados de vegetação, ásperas ravinas, ora cortadas a prumo ora em declives vertiginosos; subidas tão ásperas que tornavam necessário cavar degraus para os cavalos passarem; descidas tão penosas que os próprios homens, agarrados às trepadeiras e arbustos, mal se aguentavam; planícies alagadiças; linhas de água frequentes, que na época das chuvas transformam as margens em lameiros intransitáveis; vegetação luxuriante, que chega a forma maciços impenetráveis; temperaturas que atingem 47 a 48ºC; terreno empestado de mosquitos e mosca tsé-tsé; tal era a região onde, em 1907, uma coluna de 900 homens, em grande parte formada por condenados, ia escrever uma das mais belas páginas da nossa história colonial.”

Heroísmo atrás de heroísmo, a ocupação da Lunda, depois de duras campanhas, ocupação, em 1887, de Santo António do Zaire, mas em 30 de janeiro de 1900 os povos do congo atacavam e roubavam a missão católica de Santo António do Zaire.

Vamos seguidamente falar das páginas de heroísmo da ocupação de Moçambique.



D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
A batalha de Mongua, sul de Angola, 1915.

“O combate durou três dias, entre 17 e 20 de Agosto de 1915, e terá constituído a maior batalha campal alguma vez ocorrida em solo africano entre tropas indígenas e europeias. Apesar da diferença qualitativa, dum grau de eficácia e letalidade incomensuravelmente superior do armamento luso, a verdade é que o cerco às nossas tropas durou três dias, tendo um só combate durado 10 horas, chegando as forças nativas a aproximarem-se até a uns escassos 50 metros do quadrado.”
Imagem retirada da RTP Ensina, série As guerras de ocupação, com a devida vénia

(continua)
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Notas de editor

Vd. post de 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27850: Notas de leitura (1907): "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, por Luís de Albuquerque, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Editorial Caminho, 1991 (Mário Beja Santos)