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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28133: Documentos (66): Para a história da administração civil ultramarina: "Levante auto e envie os indígenas para Bolama afim de serem expulsos da Província!... Despacho (do Governador ?) a uma nota do administrador António Augusto de Barros, vítima de agressão, em Pete, chão mancanha, em 8/4/1920





Governo da Província da Guiné Portuguesa | 5ª Circunscrição CFivil (Brames) | Secretaria dos Negócios Indígenas | 2ª Secção | Ano de 1920 | *Porcesso nº 41 | Objeto: Agressão ao adminstrador da 5ª circunscrição civil (Bramnes), António Augusto de Barros, e assuntos que a mesma se prendam 

(A letra manuscrita, lê-le: "Concessão de terreno, Okika de Sá")


Governo da Província da Guiné  | Administração da Circunscrição Civil dos Brames |  

Bula, 9 de abril de 1920 
À Secretaria dos Negócios Indígenas   
Bolama

Registo de entrada: Governo da Província da Guiné Portuguesa | 3ª Secção  Nº 0717 | 17 abr 1920 | Secretaria Geral | Procº nº 9/1920

Despacho (ao alto, em letra manuscrita): 

Mo mo"Levante auto e envie os indígenas para Bolama afim de serem expulsos da Província. 24-4-920.  


Para conhecimento dessa Secretaria e devidos efeitos, tenho a honra de comunicar o seguinte:

Em 1917, por informação que obtive, os indígenas da povoação de Pete reclamaram ao então administrador interino desta circunscrição, Eugénio Veloso da Veiga,  a entrega de uns terrenos destinados à cultura de arroz, os quais, segundo se afirma, desde há muitos anos eram cultivados pelo concessionário João Gomes Okika [de Sá] que os adquiriu por compra ao antigo régulo do Brame Grande, Muncuruco. 

Aquele, porém, receando que as insistentes reclamações dos indígenas conseguissem  tirar-lhe uns terrenos que só a ele pertenciam, quis pôr termo a essas reclamações apresentando, 



para esse efeito, o documento da compra e o alvará da sua concessão na qual supunha que entravam os terrenos em litígio e, ainda, para maior segurança, requereu uma nova medição.

 Esta, porém, tendo sido feita por pessoal competente, veio demonstrar, muito ao contrário do que ele, Okika, imaginava, que as terras não tinham entrado nos 200 hectares da concessão.

Restava-lhe, pois, a última prova, além da testemunhal,  o documento de compra, mas este não o pôde apresentar por lhe ter desaparecido juntamente com outros papéis e dinheiro num incêndio que dias antes houvera na sua casa.

Muito desanimado, teve que assistir à posse que foi dada aos mancanhas de Pete, das suas bolanhas, mas ainda convencido que lhas restituiam logo que ele pudesse provar que desde há

2.

muitos anos, essas bolanhas eram por ele cultivadas e que, para as desbravar e preparar para a cultura de arroz, tinha gasto algumas centenas de escudos, aproveitou as disposições da Portaria nº 588, de 5 de dezembro findo, requerendo a S. Exª o Governador a  mera posse dessas terras. 

Seguindo para Bolama a fim de tratar do assunto, de lá voltou com umas tabuletas para a demarcação das mesmas, pedindo-me para eu assistir à sua colocação.

Anui ao pedido para evitar um conflito entre os mancanhas de Pete e o Okika, o que, certamente, se dava logo que eles vissem aquele a colocar as referidas tabuletas.

Seguindo, pois, para aquela povoção às 5 horas da manhã do dia 8 do corrente, mandei chamar os indígenas para lhes dizer que as tabuletas não representavam para eles nenhum prejuízo e que eu muito desejava que entre todos houvesse um entendimento sobre a futura cultura das bolanhas, afim de se pôr termo a rivalidades e a questões que, a todo o transe, eu não permitiria.

Ouviram-me muito desconfiados e, um tanto exaltados, pediram-me para os

acompanhar a fim de eu ver o terreno demarcado pelo pessoal da agrimensura e também verificar que as bolanhas eram só deles e não do Okika. 

Para ali me dirigi no intuito de examinar essa demarcação e verificar se os marcos tinham ou não sido deslocados do seu primitivo lugar.

No momento, porém, em que eu, a cavalo, examinava uma dessas tabuletas, fui agredido por um indígena de nome [ espaço em branco ] o qual, devo confessar, não matei a tiro em seguida à agressão, porque as nossas leis não permitem que uma autoridade civil, quando gravemente ofendida por um indígena, execute imediatamente esse indígena para que o respeito e o prestígio sejam sempre, e através de tudo, bem mantidos.

Limitei-me, pois, a defender-me o melhor que pude, arrancando-lhe das mãos o cacete com o qual continuava a ameaçar-me e apenas o castiguei com o mesmo o cacete. O castigo, porém, foi pequeno mas... Dura Lex... Sed Lex...

Encontra-se  aqui, sob prisão, o indígena que me agrediu, à disposição de S. Exª o Governador, e, por intermédio dessa Secretaria, eu peço licença ao mesmo Exmo. Sr. para me dispensar de propor a penalidade que lhe deve ser imposta.

3.

Devo ainda acrescentar que, se a falta de respeito praticada por esse indígena é grave, a altivez desrespeitosa como  os indígenas me falaram, fazendo até ameaças, não é a meu ver menos grave. 

Mas, infelizmente, não é só nos Brames que se nota a pouca consideração e a falta de respeito que os indígenas têm, ultimamente, pelas ordens da autoridade; em outras circunscrições o mesmo está acontecendo. 

Dão-se ordens para os indígenas trabalharem nas estradas, recusam-se ou fogem. O comércio precisa de trabalhadores, não os encontra porque eles preferem morrer de fome ou afogados em aguardente do que trabalhar; e,  não tendo necessidades, têm no entretanto abundância de dinheiro e este não se esgota rapidamente porque o álcool, ultimamente, tem faltado na Província.

Finalmente, sou de opinião que os indígenas estão carecendo, presentemente, de castigos muito severos e que as autoridades administrrativas devem ter poderes mais latos para poderem proceder com o máximo rigor nos casos em que seja preciso mostrar e manter bem íntegros o respeito e os poderes das mesma autoridade Não são as deportações para os Bijagós que os


incomoda, como eles de resto confessam: as multas, pouco ou nenhuma diferença lhes fazem - há dinheiro em quantidade -  e na aplicação de castigos corporais todo o cuidado é pouco porque as leis da metrópole, tendo aplicação nos julgamentos indígenas, aparece nos Tribunais um ou outro advogado para defender e exigir uma condenação severa para os administradores por terem abusado da sua autoridade.

Concluindo, são estas as considerações que tomo a liberdade de levar ao conhecimento dessa Secretaria, informando-a igualmente que o indígena em questão também já faltou ao respeito ao meu colega Eugénio Veloso da Veiga quando ele aqui esteve como administrador interino, tentando agredi-lo, tendo o referido administrador que o mandar amarrar e conduzir para esta Administração onde o mesmo se conservou algum tempo sob prisão.

O administrador, António Augusto de Barros,


Instituição: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, Bissau
Pasta: 09907.085 | Assunto: Envio de nota da 5.ª circunscrição civil (Brames), respeitante a concessão de terrenos, assinada pelo administrador António Augusto de Barros | Remetente: Secretaria Geral do Governo | Destinatário: Secretaria dos Negócios Indígenas | Data: Sexta, 21 de Maio de 1920 | Fundo: C1.6 - Secretaria dos Negócios Indígenas | Tipo Documental: Correspondencia | Cota Original: C1.6/01.085 


Fonte: (1920), Sem Título, Fundação Mário Soares / C1.6 - Secretaria dos Negócios Indígenas, Disponível HTTP: http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=09907.085 (2026-6-25)
[ Com a devida vénia...]


1. É um documento (de 3 páginas ) interessante para que se conhecer as "agruras" da vida de administrador de circunscrição na "província da Guiné Portuguesa", mal acabada de "pacificar" em plena República..

Esta "nota" do administrador António Augusto de Barros, da 5ª Circunscrição Civil (Brames), não é um simples "fait-divers",   tem um enorme valor documental para a historiografia da presença portuguesa em África e, em especial, para a história do  colonialimo na Guiné.

Não temos dados biográficos deste administrador, possivelmente de origem cabo-verdiana. Mas sabemos por onde andou nos anos de 1920, de acordo com registos da plataforma Casa Comum (que disponibiliza a reprodução e descrição de documentos custodiados pela Fundação Mário Soares e Maria Barroso, neste caso do .Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), Bissau):

  • Administrador da 13.ª circunscrição civil (Bijagós) em 1924;
  • Administrador da circunscrição civil de Buba em 1928;
  • Intendente, Intendência de Bolama, em 1930.

É contemporâneo de Eugénio Veloso da Veiga, outro administrador colonial português na Guiné, com atividade registada nas décadas de 1920 e 1930, de acordo coma a mesma fonte (INEP / Casa Comum):

  • Administrador de Bubaque (Arquipélago dos Bijagós): documentos entre 1927 e 1928 registam a sua correspondência com a Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas; as suas funções incluíam a cobrança do imposto de palhota pelas ilhas e o envio de mapas de importação de bebidas;
  • Administrador de Gabu, em  1933 e 1934; 
  • Administrador da Circunscrição Civil de Bafatá em 1934;
  • Membro da Comissão de Limites (1934):  a 25 de janeiro de 1934, integrou a comissão portuguesa de representação do governo da Guiné Portuguesa que se reuniu com as comissões da Guiné Francesa na região de Catabá, para definir a fronteira.


Augusto de Barros
(1917-1969). Arquivo da família.
Não sabemos quando terminou a  carreira do António Augusto de Barros.. Mas há mais nomes de apelido Barros, ligados à administração ultramarina na Guiné: por exemplo, António Augusto de Barros Júnior, bem como Augusto de Barros.  É possível que tenham alguma relação de parentesco. 

Este último, Augusto de Barros,  nasceu em 1 de março de 1917 e faleceu em 21 de maio de 1969.  Foi administrador do concelho de Nova Lamego (1960/69). Deixou em vida um primeiro volume de  um livro inacabado em língua fula, que ele intitulou “Rudimentos da Língua Fula” e escreveu no final da década 1950 enquanto chefe de posto de Piche. 

O seu filho, António Augusto de Jesus Ferreira de Barros (nascido em Piche, em 17 de setembro de 1958) publicou em coautoria o livro "Rudimentos da língua fula: fúlbé rímbé ê djiábé = fulas forros e pretos" (Lisboa, Edições Nimba, 2023, 223 pp.).

Mas voltando ao administrador António Augusto de Barros, acrescente-se que à data da "nota" acima transcrita, era Govcrnador da Guiné Henrique Alberto de Sousa Guerra (de 31 de maio de 1919 a 16 de Junho de 1920).

Será dele o despacho, seco e cru, "Levante auto e envie os indígenas para Bolama afim de serem expulsos da Província. 24-4-920" ?.



Durante a República (1910-1926), a taxa de "turnover" dos governadores da Guiné era altíssima: praticamente o governador mudava todos os anos (ou a cada governo da Metrópole)...

Enfim, não somos especialistas da historiografia da presença portuguesa em África, e muito menos da história do nosso colonialismo.  Talvez o nosso especialista, amigo, camarada e colaborador permanente do blogue, o Mário  Beja Santos, queira e possa acrescentar algo mais sobre este caso e sobre esta época, bem co.o sobre o papel da Secretaria dos Negócios Indígenas.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, notas, parênteses retos, links e título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série >  25 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28131: Documentos (65): A administração civil ultramarina

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28132: Blogoterapia (316): Fim de tarde em Mato Cão (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)

Joaquim Mexia Alves
Ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492 / BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas;
CMDT do Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Undunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73


Guiné > Região Leste > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > Pel Caç Nat 52 > 1973 > O destacamento do Mato Cão, no tempo em que o Pel Caç Nat 52 era comandado pelo Alf Mil Joaquim Mexia Alves (1972/73).


FIM DE TARDE EM MATO CÃO

O calor quase te sufoca.
O suor escorre-te pela cara, pelos braços, fruto de uma humidade insuportável.
Sentes-te dentro de uma estufa, só que esta é aberta a um horizonte sem fim, 
à visão de uma bolanha que ondeia ao sabor do vento.

E, no entanto, é já fim de tarde.
O sol vai-se escondendo por detrás de uma mata cheia de segredos e
 a sua luz avermelha ainda mais a terra vermelha 
que cobre todo o espaço onde estás sentado, num cadeirão de palha.

As fogueiras à entrada das tabancas vão-se acendendo, 
e os cheiros quentes do óleo de dendê da comida dos militares guineenses, 
vão-te enchendo de saudades de um bom refogado em azeite da tua terra.

Olhas mais ao longe, para além do pequeno planalto onde agora permaneces, 
e sentes, apesar de tudo, um bem-estar inexplicável, 
talvez fruto daqueles que ao teu lado vão contando histórias, 
que não ouves, mas sentes.

Por uma qualquer razão, que nem sequer te dás ao trabalho de discernir, 
a guerra está parada no teu pensamento, 
e agora apenas pretendes viver e desfrutar do pouco que tens, 
ali naquele sítio esquecido de todos, 
e basta-te uma cerveja fresca de uma velha arca a petróleo, 
para te sentires bem melhor do que muitos 
que por aquele território de África penam.

Vêm-te ao pensamento imagens de casa lá longe, a milhares de quilómetros, 
mas afasta-las de imediato, para fazeres um sorriso e um aceno de cabeça 
a algo que te perguntaram, mas tu nem sequer ouviste, 
envolvido que estás naquele momento de paz inexplicável.

A noite cai, e sabes que rapidamente vais ficar na escuridão, 
porque ali, naquele “buraco” como lhe chamam os teus camaradas de armas, 
não há gerador, não há luz, não há nada, afinal.

Acendem-se uns petromax, 
(mais ou menos escondidos para não chamarem a atenção do escuro da mata), 
e também uns candeeiros improvisados, 
feitos de garrafas de cerveja vazias, com um qualquer óleo e um pavio, 
que vai ardendo sem se queimar.

Também tu vais ardendo de saudades, 
mas com a tua maneira de ser, não te importas, 
porque neste momento nada podes fazer para matar tais saudades.

Olhas um pouco mais à frente de onde estás sentado e
 ris-te ao ver um buraco no chão que deveria ser um poço de água, 
fruto de uma mente de militar “superior” 
que se lembrou de mandar fazer um poço no cimo de um tão pequeno planalto.

Ouves a voz do Geba que, no sopé do planalto, vai correndo para o mar.
Se fosse tempo de macaréu a voz do Geba seria bem mais ruidosa.

O dia chegou ao fim e são horas de te enfiares no abrigo onde tens cama, 
envolvida num mosquiteiro, (que naquela terra os mosquitos são aviões de combate), 
e deitas-te empapado em suor, 
para dormires mais uma noite com um olho aberto.

Amanhã será um novo dia, ou melhor, 
será menos um dia na contagem de regresso a casa.

Que Deus nos proteja e nos faça regressar a bom porto.

Marinha Grande, 25 de Junho de 2026
Joaquim Mexia Alves

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Nota do editor

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27653: Blogoterapia (315): A Saudade (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)

Guiné 61/74 - P28131: Documentos (65): A administração civil ultramarina



Foto nº 1 e 1A > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Bambadinca > BART 2917 (1970/729 > Março de 1972 > Carreira de tiro > Da direita para a esquerda:

(i) na primeira fila: o Comandante do CAOP 2, o General Spínola, e o ten cor Polidoro Monteiro (comandante do BART 2917);

(ii) atrás, na segunda fila,  o Paulo Santiago (,de bigode e óculos escuros), o ten-cor Tiago Martins (comandante do BART 3873,que foi render o BART 2917). e o antigo administrador do oncelho de Bafatá, o então intendente Guerra Ribeira (de seu nome completo, Manuel da Trindade Guerra Ribeiro. natural de Chaves) (*).(vd. Foto nº1-A).



Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca > BART 2917 (1970/729 > Março de 1972 > Carreira de tiro > Em primeiro plano, dois civis, da administração ultramarina sendo o segundo o intendente Guerra Ribeiro (o primeiro pode ser  talvez o chefe de posto de Bambadinca) no meio de militares, com o gen Spínola ao centro; ao fundo, à direita o nosso grã-tabanqueiro Paulo Santiago, na altura instrutor e comandante de companhia de milícias.

Fotos (e legendas): © Paulo Santiago (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Vd. também na RTP Arquivos o vídeo (5'14') (sem som, a preto e branco) , "General António de Spínola, Governador Geral da Guiné Bissau, visita campo de instrução de milícias em Bambadinca, na Guiné Bissau" (passou  na RTP, no noticiário nacional, em 24/10/1971).

Resumo Analítico (revisto e melhorado, RTP/LG):

(i) lápides e monumentos em memória de soldados mortos em combate colocados junto ao pau da bandeira e em frente ao edifício da escola local, pertencentes a várias unidades e subunidades que passaram por Bambadinca: CCAV 678 (1964/66),  BCAÇ 1888 (1966/68), Pel Mort 1192 (1967/69), BCAÇ 2852 (1968/70), Pel Mort 2106 (1969/70), CCAÇ 2590 / CCAÇ 12  (0'-23'');

(ii) helicóptero aterra; general Spínola (com o seu ajudante de campo, cap cav Lourenço Fernandes Tomás), desce do helicóptero e cumprimenta militares (24''-30'');

(iii) população local assiste à chegada do Governador e acompanha-o, saudando-o efusivcamente (31''- 38'');

(iv) Spínola dirige-se às milícias formados em parada; é acompanhado pelo cmdt do BART 2917, ten cor Polidoro Monteiro e pelo intendente Guerra Ribeiro;  milícias apresentam armas; Com-chefe em continência perante a parada e a passar revista às tropas; população aplaude (39'' - 1' 04'');

(v) general Spínola e individualidades militares na tribuna de honra; desfile militar; militares realizam exercícios físicos com arma e exercícios de obstáculos (1' 05'' - 1' 32'')

(vi) comitiva dirige-se à carreira de tiro (perto do destacamento da ponte do rio Udunduma, na estrada Xime-Bambadinca (alcatroada); milícias desmontam e montam a G3; General Spínola observa os militares durante o exercício; militares praticam tiro ao alvo e fazem fogo com morteiro 60 e LGFog; vista do campo de tiro (pareço reconhecer o José Luís Vacas de Carvalho, junto aos milícias que operam a bazuca, ele seria, na altura, o oficial de tiro) (1' 33 - 2' 03'');

(vii) visita as obras de construção da nova ponte do rio Udunduma; milícias simulam operação de guerra com progressão no mato (2' 04'' - 2' 50'');

(viii) regresso a Bambadinbca; Spínola e demais individualidades, militares (ten cor Polidoro Monteiro, major Carlos Fabião, cmdt do CAOP2 / Bafatá, ajudante de campo de Spínola...) e civis (intendente Guerra Ribeiro) percorrem o recinto e entregam ofertas aos mílicias; alguns são graduados; vista geral do recinto (2' 51'' - 3' 40'');

(ix) General Spínola e individualidades locais, apoiantes da "causa nacional" (incluindo o régulo de Badora) discursam (sem som) (3'41'' - 4' 13''):

(x) parte final: desfile militar; General Spínola conversa com militares, dirige-se para o helicóptero e despede-se; helicóptero descola (4'14'' - 5' 14'').



Guiné > Região do Cacheu > Outubro de 1964 > Tabanca de Caboiana > O chefe de posto do Cacheu, mais duas senhoras: (i) a esposa do chefe de posto; e (ii) a esposa do tenente [que o autor não diz quem é; seria o comandante do Pel Caç Ind 953, a quem o 1º cabo António Paulo Bastos pertencia?]

Foto (e legenda): © António Bastos (2015). Todos os direitios reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Nunca vi o chefe (ou administrador) de posto de Bambadinca. Também nunca vi o administrador de Bafatá (Guerra Ribeiro, transmontano de Chaves; em 1972, no vídeo supracitado, aqui já era intendente, e colaborador próximo de Spínola).

Acrescente-se que esta gente tem sido ignorada por nós, aqui no blogue, e sobretudo pelos  historiadores académicos. Temos falado pouco destes homens que, de resto, conviviam pouco ou nada connosco, militares. Mesmo sendo nossos vizinhos... E, temos que o reconhecer,  foram "maltratados" depois da descolonização.  Como sendo os "maus da fita", a começar pelos cabo-verdianos, que levaram com o "rótulo" de "turras"; outros, os régulos, os cipaios, os milícias, etc. , "cães dos colonialistas". 

Mais de meio século depois, está na altura de rever o discurso da "diabolização colonial" e da "hagiografia revolucionária".  Por exemplo, Amílcar Cabral tinha um ódio de estimação ao António Carreira que foi administrador colonial, funcionário da Casa Gouveia e grande etnógrafo, estudioso da história e da sociedade tanto da Guiné como da sua terra, Cabo Verde...

Na Guiné (tal como em Angola ou em Moçambique), o administrador de circunscrição e o chefe de  posto não eram apenas burocratas (nem muito menos pequenos déspotas). Em vastas regiões do interior eram simultaneamente representantes do governo, gestores de conflitos, magistrados, coordenadores de obras públicas, recrutadores de mão-de-obra, coletores de impostos, responsáveis pelo recenseamento, interlocutores dos régulos e, por vezes, a autoridade mais visível do Estado (embora, com a guerra, suplantados pela tropa).  

Além disso, não eram todos "maus, racistas e colonialistas"... 

Essa dimensão,  prática, quotiana, de "interface",  ajuda a compreender porque tantas memórias locais (leia-se o nosso António Rosinha, o nosso Cherno Baldé...)  ainda hoje recordam "o administrador" ou "o chefe de posto" pelo nome próprio. Por boas ou más razões... Guerra Ribeiro e António Carreira, por exemplo, são dois nomes que nos vêm à memória. O primeiro transmontano, o segundo cabo-verdiano. 

E ainda há dias falámos aqui do caso do Agnelo Macedo (1925-1972),  chefe de posto de Catió, vítima de perseguição política, preso pela PIDE em 1962/63, detido na Ilha das Galinhas e transferido compulsivamente para Moçambique.

No ultramar português, os administradores de circunscrição (ou de concelho) e os chefes ( ou administradores) de posto pertenciam a uma carreira específica da Administração Civil Ultramarina, integrada no funcionalismo público do Ministério do Ultramar e, portanto, distinta das carreiras da função pública na metrópole.

O recrutamento, a progressão e as atribuições destes funcionários eram regulados por legislação própria, nomeadamente pelo Estatuto do Funcionalismo Ultramarino e pelos diplomas orgânicos dos Serviços de Administração Civil.

A hierarquia administrativa estruturava-se, de forma simplificada, da seguinte maneira:
  • Aspirante administrativo; categoria de ingresso na carreira, destinada aos candidatos em fase de formação e aprendizagem prática;
  • Administrador de posto ( tradicionalmente designado por chefe de posto): responsável pela unidade administrativa básica, assegurando o contacto direto com as populações, as autoridades tradicionais e os serviços locais do Estado;
  • Administrador de circunscrição ou de concelho: encarregado da administração de uma área territorial mais vasta, coordenando vários postos administrativos e exercendo amplas funções de governo local;
  • Intendente de distrito e inspector administrativo: categorias superiores, responsáveis pela coordenação, fiscalização e orientação dos serviços administrativos;
  • Inspector superior de administração ultramarina: um dos patamares mais elevados da carreira.

Ao longo do século XX, o acesso à carreira passou a estar fortemente associado à formação ministrada pela:
  • Escola Colonial (criada em 1906 e instalada na sede da Sociedade de Geografia de Lisboa);
  • posteriormente Escola Superior Colonial (a partir de 1926/27) (em 1933 passa a ocupar o  Palacete dos Anjos, no Príncipe Real, ficou mais diretamente dependente do Ministério das Colónias);
  •  Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (ISEU) (a partir de 1954, integrando-se na Universidade Técnica de Lisboa com o início da guerra colonial em 1961);
  • e, mais tarde, Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU) (1962-1974 (quando passa a ocupar o Palácio Burnay, na Rua da Junqueira);
  •  e finalmnete,  com o 25 de Abril,  ISCSP - Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP / UL).(em 2001 mudou-se para o Campus da Ajuda). 

Claro que hoje não é mais a escola de quadros da administerçáo colonial, já que Portugal "liquidou" o seu velho império...  A instituição, que comemora 120 anos,  nasceu por decreto de 18 de janeiro de 1906, durante a monarquia constitucional, no reinado de Dom Carlos, inserindo-.se  a  sua criação no  movimento europeu de profissionalização da administração colonial, semelhante ao que existia, de resto,  em países como a França, a Bélgica ou o Reino Unido.

O curso de Administração Colonial (e depois ultramarina) procurava preparar os futuros administradores para lidar com as realidades políticas, jurídicas, económicas, sociais e culturais dos territórios do Ultramar, muito diferentes das da Metrópole.

Entre as disciplinas lecionadas nesta escola de quadros da admistração colonial (e, depois, de 1951, ultramarina) encontravam-se o Direito Administrativo e Colonial, a Administração Colonial, a Antropologia, a Etnografia, a Geografia Económica, a História da Expansão Portuguesa, a Higiene Tropical,  Línguas Africanas e Orientais, e outras matérias ligadas às sociedades africanas e asiáticas. 

Diferentemente de um funcionário administrativo da metrópole, o administrador ultramarino acumulava frequentemente funções de:
  • representação do Estado;
  • administração local;
  • polícia administrativa;
  • recolha de impostos;
  • recenseamenmto da população;
  • coordenação de serviços públicos; 
  • relacionamento com as autoridades tradicionais, etc.
Nas regiões mais afastadas dos centros urbanos, era frequentemente a figura que personificava a presença do Estado português perante as populações locais.

2. Outro tema a explorar no nosso bloguye seria o desenvolvimento  da etnografia / antropologia coloniais já no séc. XX... Vários administradores coloniais portugueses atuaram também como antropólogos ou etnógrafos. 

Durante o século XX, a própria administração ultramarina incentivava estes funcionários a recolher dados culturais e físicos para melhorar o controlo e a governação das populações locais. 

A partir de 1945, por exemplo, o concurso para administrador de circunscrição passou a exigir obrigatoriamente a apresentação de uma "monografia etnográfica original".

Um dos momes mais conhecido é o do cabo-verdiano António Carreira (que tem mais de 45 referências no nosso blogue). Foi mais tarde funcionário da Casa Gouveia e, ao que parede, injustiçado (e até diabolizado) na história do 3 de Agosto de 1959 (o chamado massacre do Pidjiguiti). 

António Barbosa Carreira nasceu na Ilha do Fogo, em 1905. Morreu em Lisboa, aos 82 anos, em 1988. 

3. Fontes a consultar (legislação e regulamentação) | Sitografia:

Decreto n.º 44 241, de 19 de março de 1962:  Orgânica dos Serviços de Administração Civil do Ultramar > Define a hierarquia do quadro administrativo (inspectores, intendentes, administradores de circunscrição e de posto).

Decreto n.º 46 982, de 27 de abril de 1966:  Aprova o novo Estatuto do Funcionalismo Ultramarino.

Decreto n.º 48 792, de 24 de dezembro de 1968:
  Reorganização dos serviços de administração civil e atualização das categorias administrativas.

História institucional do atual ISCSP, herdeiro da Escola Colonial (1906), Escola Superior Colonial, ISEU e ISCSPU. A ligação da escola à formação dos quadros administrativos ultramarinos está bem documentada.
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Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de março de 2013 > Guiné 63/74 - P11288: (De) caras (13): Guerra Ribeiro, natural de Bragança: de administrador colonial no tempo do Schulz a intendente no tempo de Spínola (Paulo Santiago / Cherno Baldé / António Rosinha)

(...) No poste P11281 (...) fala-se do Guerra Ribeiro, Administrador de Bafatá. Conheci a pessoa num dia em que apareceu no Saltinho,e lá pernoitou.

Mais tarde, apareceu em Bambadinca na cerimónia de encerramento do curso de Milícias. Nesta altura, já não era Administrador, era Intendente, e penso que estava em Bissau, mas sei muito pouco sobre estes cargos da Administração Civil.

(...) Voltei a Bambadinca em Janeiro de 72 e, durante o novo curso de milícias, tive duas visitas do Com-Chefe, uma aí pelo meio e a outra no final tendo, desta vez, sido cumprido todo o programa de encerramento, que incluiu uma deslocação de viatura à carreira de tiro, que ficava para lá do destacamento da Ponte de Udunduma, a caminho do Xime. (...)

Nas fotos juntas, Março de 72, aparece o então Intendente Guerra Ribeiro. Na primeira, é a pessoa de farda amarela, atrás do Polidoro Monteiro e do Spínola. Na segunda, está a olhar para o lado esquerdo, e vê-se, também fardado,um outro elemento da Administração Civil que não sei quem é. (...)

(**) Último poste da série > 19 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28114: Documentos (64): A Última Operação: Retirada Final – Ordem nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz, filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001), último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74)

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")





Foto nº 1, 1A e 1B > Guiné . Bissau > Bolama > Junho de 2021 > Depósito de água (também conhecido como "castelo"): este é o histórico depósito (em inglês, "water tower") erigido na periferia da antiga capital colonial de Bolama, e recentemente reabilitado (em 2024) para responder à tradicional falta de água na ilha (que tem, de resto, fracos lençóis freáticos). A sua origem remonta aos anos 30/40. Em 2021 estavada degradado, como toda a antiga capital da Guiné. Havia sinais de grafitos, reboco caído, corrosão das estruturas metálicas superiores, infiltrações antigas,  ausência de manutenção regular, etc, tudo sinais de que não era usada há muito. Mas o edifício possui grande valor patrimonial  e merece restauro. Há uma estrutura parecida em Canchungo (antiga Teixeira Pinto), cuha data de construção é de 1946.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nçº2 : Guiné-Bissau > Zona Leste > Gabu > Depósito de água, cuja origem remonta aos anos 80/90. Por isso, não faz parte da memória de nenhum dos antigos combatentes protugueses que passaram por Nova Lamego (hoje, Gabu) durante os anos da giuerra (1961/74).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Entre as duas fotos distam 40 anos. O nosso leitor poderá ter curiosidade em saber  um pouco mais a sua origem, história, arquitetura, estado de conservação, etc.

Comecemos por dizer que, no caso do "castelo" de Bolama (como era conhecido localmente) a sua arquitectura não pode ser britânica, vitoriana, como já vimos por aí escrito (na IA do Google, citando o sítio britânico Medium: "Water tower, built during the British occupation. Photo credit: Brad Yonaka").

Os camaradas que estiveram no CIM de Bolama devem-se lembrar do "castelo", que fica(va) junto ao antigo hospital militar e civil da ilha (e antiga capital de Bissau, entre 1879 e 1941). No entanto, a primeira foto que publicámos no nosso blogue foi da autoria do Patrício Ribeiro, em 2021 (*). (Sobre a localização do antigo hospital e do "castelo",  vd. o roteiro que o nosso saudoso António Estácio elaborou e publicou em livro, bem como no nosso blogue).

Numa primeira análise visual  da foto nº 1 não parece haver qualquer relação com a arquitetura britânica ou vitoriana. E duas ou três ferramentas de IA que consultámos confirmam a nossa opinião. Aqui vão alguns dos factos históricos e arquitetónicos que desmontam esse mito.

Recorde-se que a disputa territorial com os ingleses (a famosa "Questão de Bolama") foi resolvida em 1870 pelo presidente americano Ulysses S. Grant, que deu a razão a Portugal (e daí ter-se constrruído uma estátua  em bronze em sua homenagem, infelizmente vandalizada e roubada).

A presença britânica na ilha de Bolama foi esporádica e precária, caracterizada por duas fases de curta duração que culminaram na disputa diplomática que opôs o Reino Unido a Portugal, e resolvida a favor de Portugal. 

Em maio de 1792 houve uma primeira tentativa de ocupação, oficiais da Armada Britânica (tenentes Philip Beaver e Henry Hood) desembarcaram com cerca de 270 colonos para estabelecer uma "colónia-modelo" após a compra da ilha a um régulo local. O projeto gurou-se ao fim de um ano, devido a a uma série de factores adversos ( clima, doenças,  hostilidade do povo nativo).

 A segunda tentativa foi mais série: a partir de 1834, no contexto da repressão ao tráfico de escravos, o Reino Unido voltou a reclamar a ilha. Os britânicos chegaram a desembarcar, destruir fortificações e marcos portugueses, e a declarar o arquipélago sob a jurisdição da coroa britànica).

De qualquer modo, nessa época (meados do séc. XIX), os depósitos de água de engenharia britânica eram construídos em alvenaria de tijolo maciço, pedra ou estruturas de ferro fundido.

O depósito na imagem é inteiramente construído em betão armado  uma tecnologia construtiva que só começou a ser amplamente utilizada em obras públicas na Guiné Portuguesa bem avançado o século XX.

E quanto ao estilo arquitectónico, o  desenho da torre filia-se claramente no Modernismo/Art Déco tardio e na arquitetura de cariz utilitário do Estado Novo.  
Destacam-se as linhas geométricas simplificadas, as frestas verticais estreitas e alongadas (rasgadas para iluminação e ventilação da escadaria interna) e as varandas circundantes com guarda-corpos maciços ou com pilaretes geométricos de betão.

Aqui há divergências na análise visual da foto, pela IA do Gemini / Google, e pela IA e do ChatGPT Open AI, e na caractrização da estrutura. 

O ChatGPT  diz tratar-se de  estrutura em alvenaria rebocada, de grande massa volumétrica, com composição simétrica e monumental, janelas verticais em arco, de inspiração neoclássica simplificada, varandas com balaustradas decorativas, reservatório superior oculto por uma espécie de torre arquitetónica.

 Inclinamo-nos também mais para a hipótese de a estrutura ter construída em alvenaria rebocada, analisando as fotos acima, do Patrício Ribeiro e outras, disponíveis na Net (Vd. foto nº 3).

Não sabemos a data exata da inauguração do "castelo" (teríamos que ver a  documentação específica do Ministério das Colónias ou das Obras Públicas da época), sabemos, sim, que as s infraestruturas de saneamento e modernização urbana de Bolama foram projetadas e erguidas maioritariamente entre as décadas de 1920 e 1940. 

Trata-se, portanto, de um exemplar genuíno da engenharia e arquitetura colonial portuguesa do segundo quartel do século XX, construído no período que antecedeu ou coincidiu com a transferência definitiva da capital para Bissau (1941). O depósito de água de Teixeira Pinto (hoje Canchungo) segue a mesma tipologia, e data de 1946.

O depósito  tinha capacidade para mais de 70 mil litros. Mas há meios século que estava inativo. Foi reabilitado em 2024, com fundos da União Euriopeia, e por inciativa da ONG espanhola AIDA (vd. foto nº 5).





Fotos nº 3 e 4 > Guiné-Bissau > Bolama > 2018 > "AntigoHospital Militar e Civil"... Fotos  de Helena Maria Pestana (2018). Imagens do domínio público,. Cortesia de Wikimedia Commons.



Foto nº 5 > Guiné-Bissau > Bolama > 2024 > O depósito de água, reabilitado. Fotro da página da ONG espanh0ola, com sede em Madrid, AIDA.- Ayuda, Intercambio y Desarrollo


Da página da AIDA, transcrevemos o seguinte (tradução livre para português):

(...) "Em 16 de setembro, a ONG espanhola AIDA, com o apoio das ONG ACRA e Pro-Bolama e financiamento da União Europeia, pôs em funcionamento a Expansão da Rede de Abastecimento de Água na cidade de Bolama, Guiné-Bissau.

Iniciado em 2021, este projeto representa uma melhoria significativa para a região, incluindo a perfuração do poço mais profundo da ilha, com 195 metros. A iniciativa envolveu a reabilitação de um reservatório de água com capacidade superior a 70 mil litros; construída originalmente na época colonial, a instalação estava sem uso há mais de 50 anos.

O projeto também inclui a instalação de dois sistemas de bombeamento movidos a energia solar, a construção de novas fontes públicas e a ligação dessa infraestrutura à rede de água existente, implantada originalmente pela AIDA em 2008.

Graças a essa expansão, que agora conta com 19 fontes públicas e abastece os dois principais mercados, o hospital e várias escolas, é possível garantir o fornecimento de água potável a uma população que não tinha acesso a ela há mais de 25 anos.

Embora Bolama tenha sido a capital da Guiné-Bissau até 1941, os habitantes não tinham anteriormente de acesso contínuo à água potável. Este projeto marca um grande avanço no desenvolvimento da região, melhorando a qualidade de vida de milhares de pessoas". (...)


2. Com a ajuda do ChatGPT, pode acrescentar-se mais o seguinte sobre as característcias arquitetónicas desta estrutura:


(...) "O objetivo não era apenas armazenar água. Era também afirmar a presença do Estado. Na época colonial, muitos edifícios técnicos eram desenhados para transmitir autoridade e permanência: quartéis, hospitais, administrações, correios, tribunais e até depósitos de água!"(...)

Há uma influência a que se poderia chamar "colonial português tardio", misturando funcionalidade,  neoclassicismo simplificado e alguma influência art déco muito discreta.
 
Bolama, depois de resolvida a questão da soberania, foi concebida e planeada como uma cidade-modelo para funcionar como capital política e administrativa (veremos isso melhor em próximo poste). A rede de abastecimento de água fazia parte do conjunto de infraestruturas urbanas que procuravam demonstrar alguma modernidade: hospital (que já existia em 1908),  câmara municipal (1919),  ponte-cais,  central elétrica, etc,

"O facto de o reservatório estar escondido dentro da torre revela uma preocupação estética pouco comum hoje" (veja-se a foto nº 2, que ilustra outra tipologia de "!castelos de água").
 
Sobre de depósito de água do Gabu, que data já do pós-independência,  falaremos mais detalhamente num próximo poste desta série. (**)

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Net + IA (Gemini / Google | ChatGPT / Opena AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, links, título: LG)

Guiné 61/74 - P28129: Historiografia da presença portuguesa em África (532): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, depois do 25 de abril (91) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Faltava a narrativa do Boletim Oficial após o 25 de abril, são estes os elementos que julguei mais relevantes, pensando não só no leitor como igualmente atrativos para investigações subsequentes. Chamo a atenção para a ambiguidade da tomada de medidas pelo encarregado do Governo num tempo em que claramente as negociações iam apontando para o reconhecimento da independência da República da Guiné-Bissau por Portugal, não deixa de ser curioso que dentro desse quadro de ambiguidade se concedesse terrenos a particulares e a firmas, por vezes a título definitivo, se criassem escolas de artes e ofícios, isto a par de louvores inequivocamente relacionados com a situação político-militar e continuam a fazer-se reforço de verbas, nomeações e tudo o mais que dimana da rotina administrativa como se não houvesse um novo normal.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1974, depois do 25 de abril (91)


Mário Beja Santos

Os dados que agora se reportam têm como arco cronológico os meses que vão de junho a setembro, publica-se a imagem do último Boletim Oficial com data de 9 de setembro, foi o que pude encontrar na documentação existente na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Feito o crivo, considerei como mais relevantes para estudos posteriores as seguintes informações. No Boletim Oficial n.º 24, de 11 de junho, o Encarregado do Governo, Carlos Fabião, Brigadeiro Graduado assina uma Portaria em que louva o Tenente-Coronel Engenheiro António Eduardo Mateus da Silva pela forma altamente eficiente como se houve durante o período de cerca de um ano em que desempenhou cumulativamente com as suas obrigações militares, as funções de Engenheiro-Chefe da Repartição Provincial dos Serviços das Obras Públicas e Transportes. “Na altura em que todos os esforços das Forças Armadas, em coordenação com o povo português, se conjugaram para, por derrube do regime de opção, instalar a democracia em todo o país, também o Tenente-Coronel Mateus da Silva respondeu presente, liderando o movimento das Forças Armadas da Guiné simbolizando a esperança de reconduzir a Guiné a uma Guiné Melhor por toda a população desejada.”

No Boletim Oficial n.º 26, de 25 de junho, temos o Decreto Provincial n.º 8/74, que não deixa de suscitar curiosidade, pois revela a ambiguidade de uma administração colonial em pleno funcionamento enquanto já decorriam conversações que iriam inevitavelmente conduzir ao reconhecimento da independência da República da Guiné-Bissau. O texto reza o seguinte:
“1. A dinâmica do trabalho moderno reclama a existência de mão-de-obra qualificada, para que sejam aproveitados, ao máximo, os constantes e renovados benefícios da Técnica. Ao operário já não basta a força da experiência tradicional laborial. Exige-se-lhe a par de uma cultura básica geral, uma adequada preparação profissional e um apurado sentido de adaptação às mais evoluídas técnicas do trabalho.
Ora, é precisamente esta a razão de existir das Escolas de Artes e Ofícios: ministrar ao futuro artífice a cultura básica geral que lhe faculte a possibilidade de eventual promoção a escalões sociais mais amplos e, simultaneamente, iniciá-lo nas técnicas da profissão que escolheu.
2. O Governo da Província, dentro do vasto programa que se impôs de valorização social e cultural das suas gentes, não podia deixar de ativar a formação profissional, como fator do progresso que é.”


E com estes termos era criada na cidade Teixeira Pinto uma Escola de Artes e Ofícios para o sexo masculino.

No Boletim Oficial n.º 26, de 25 de junho, assiste-se à concessão provisória de terrenos: a Joaquim Morais Pereira é concedido, por aforamento, 1940 m2 em Mansabá; a Valentim João Manuel Pinto é concedido, por aforamento, 1900 m2 na povoação de Porto Gole; a Barbosas & Comandita é concedido definitivamente um terreno com uma área próxima de 1430 m2 na povoação de Galomaro; e à mesma firma comercial faz-se a concessão definitiva de um terreno com uma área próxima de 2800 m2 na povoação de Bambadinca.

No Boletim Oficial n.º 27, de 2 de julho, o Alferes Miliciano Duarte Rodrigues Pires é nomeado para desempenhar, por acumulação, as funções de Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Agricultura e Florestas. No mesmo Boletim Oficial o Brigadeiro Graduado Carlos Fabião assina a seguinte Portaria:
“A povoação de Pirada foi flagelada no dia 25 de abril findo tendo falecido a auxiliar de enfermagem de 2.ª classe, dos Serviços de Saúde e Assistência, Margarida de Pina Araújo, em consequência dos ferimentos que foi vítima, enquanto prestava assistência aos doentes, tendo falecido horas depois.
A auxiliar de enfermagem, apesar de jovem, revelava grande espírito de sacrifício, zelo e dedicação pelos doentes o que a evidenciava como um dos melhores elementos dos Serviços de Saúde, prestando valioso contributo como única encarregada de um Posto Sanitário situado na zona fronteiriça de muito movimento e de risco considerável, tratando desveladamente todos os doentes que procuravam assistência, muitos de nacionalidade diferente, pois são numerosos os estrangeiros que aí acorrem a procurar cuidados médicos, gozando de consideração não só dos militares do Batalhão como da população de Pirada.”


E louva-se auxiliar de enfermagem a título póstumo referindo a sua dedicação com que assistia todos a que procuravam no Posto Sanitário e até em sua própria casa, fora das horas de consulta de tratamento.

No Boletim Oficial n.º 32, de 6 de agosto, temos o Decreto Provincial n.º 11/74, esclarece-se que já está completamente posto de parte o uso obrigatório de boné para os condutores de veículos automóveis ligeiros de aluguer de passageiros. E na Guiné mais razões havia para que fossem abandonadas tais imposições. E sem mais explicações promulga-se que os condutores dos veículos automóveis ligeiros devem apresentar-se decentemente vestidos e que a contravenção será punida com uma multa de 200 escudos. E temos também, no mesmo Boletim Oficial, uma Portaria assinada pelo Brigadeiro Graduado Carlos Fabião louvando o Alferes Miliciano António Eduardo Sobral Mendes pela forma altamente meritória como serviu na Província da Guiné, durante cerca de dois anos, quer como comandante operacional e tropas no interior do teatro de operações quer desempenhando funções na Repartição do Gabinete do Governo. Como é timbre destes louvores faz-se alusão ao seu desembaraço dotes de comando, muito senso, lhaneza de trato e isenção, bem como as suas qualidades de carácter, a sua cultura e alto espírito de bem servir e como um elemento perfeitamente integrado no Programa do Movimento das Forças Armadas.

E deste modo se dá por concluído o levantamento que se procurou fazer de mais de um século da vida desta colónia, desde os tempos do Boletim Oficial de Cabo Verde e da Costa da Guiné até ao período aproximado de um mês antes da chegada dos dirigentes do PAIGC a Bissau.

Encontro de Aristides Pereira, Secretário-Geral do PAIGC, e Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros, em Londres, na presença de Abdou Diouf, Primeiro-Ministro do Senegal, e de Almeida Bruno. Maio de 1974. Fonte: Fundação Mário Soares, Arquivo Amílcar Cabral, Pasta 10078.001.009.
Fotografia publicada no Diário de Notícias em 27 de agosto de 1974
O General António de Spínola e Major Carlos Fabião num campo de instrução de milícias na Guiné, 12 de janeiro de 1972. Fonte: ANTT, DME.
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Nota do editor

Último post da série de 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28108: Historiografia da presença portuguesa em África (531): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, até ao 25 de Abril (90) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28128: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (8): tropas e paisanos, e "a Guiné...para os guinéus"

t

Foto nº 1 >  Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor)


Foto nº 1 B > Possivelmente, os pais (na segunda fila, do lado direito),  avós (nma terceira fila, de óculos escuros) e familiares e amigos da criança, mais o padre, missionário (em primeiro plano, à direita). A jovem mãe seria de origem libanesa.


Foto nº 1 > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá 


Foto nº 1 C > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor): o Fernando Andrade Sousa é o primeiro da esquerda; o Joaquim Vidal Saraiva (alf mil médico) é o segundo da última fila, de óculos escuros e boné, Há mais 3 militares, fardados, que não identificamos. À esquerda do do Vidal Saraiva, pode ser o José Carlos Lopes, o ex-fur mil dos reabastecimentos...



Foto nº 1 D > Os padrinhos e a criança (ao colo da professora  Dona Violete)


Foto nº 2 > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca... Pelo que se depreende da visualização da imagem, a cerveja Cristal era muito popular na época... Se calhar, era por ser a mais barata... Os comerciantes de Bambadinca também estavam muito dependentes da tropa para efeitos de logística e segurança: os barcos civis que chegavam a (e partiam de) Bambadinca tinham segurança militar, pelo menos em dois pontos do rio Geba: Mato Cão e Ponta Varela...


Foto nº  2 A > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca (pormenor): um civil, em primeiro plano (talvez irmão ou cunhado da mamã libanesa), e o alf mil médico,Vidal Saraiva, já à civil.


Foto nº 2 B >  O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca: O Fernando Andrade, de bigodinho, é o terceiro... (Ele já não se lembrava do bigodinho, à margem do RDM...). 


Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Batizado de um filho de um casal de comerciantes de Bambadinca, para o qual foram convidados alguns militares da CCS/BCAÇ 2852 e da CCAÇ 12. Por volta de finais de 1969. A mãe da criança era libanesa, o pai possivelmente era português de origem metropolitana, talvez até transmontano (o padrinho, o alf mil Carlão,  era de Mirandela)  (Foto nº 1 B)...


Fotos: © Fernando Sousa (2018). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca >  Abril de 1965 (?) > Festa da primeira comunhão > A menina branca, filha do chefe do posto de Xitole, ladeada pela Professora Primária Dona Violete (à esquerda, de óculos escuros) e a esposa de um dos comerciantes locais (à direita).




Foto nº 4 >Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Foto nº 3 > Abril de 1965 (?) > Capela local > Um grupo de meninos e meninas (só uma das quais é branca, filha do chefe de posto do Xitole, a frequentar a escola primária em Bambadinca), no dia da comunhão solene, devidamente enquadrados por uma freira, católica, muito possivelmente missionária e estrangeira (italiana?)
 
 Fotos do álbum do ex-Fur Mil At Manuel Bastos Soares,  natural de Vila Nova de Gaia e residente na Maia.

 
Fotos (e legendas): © Manuel Bastos Soares (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá> Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Parada do aquartelamento, frente à escola primária > Memoriais de unidades que passaram por Bambadinca > 
 

Foto (e legenda): © Humberto Reis (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Nunca vi o chefe de posto de Bambadinca. Diziam que era cabo-verdiano. Tal como a professora primária, Dona Violete. E provalmente o encarregado da Casa Gouveia. Sei que havia uma pequena comunidade cabo-verdiana em Bambadinca. E que era cristã. Também havia, pelo menos, uma família de origem sírio-libanesa. Civis, "paisanos",  comerciantes, incluindo o Fernando Rendeiro (casado com uma guineense, mandinga, e pai de uma ranchada de filhos) e o Zé Maria (que a tropa dizia que era "turra"). De origem metropolitana, estes dois últimos. Mas todos apartados da hierarquia militar. Havia 7 casas comerciais em Bambadinca mas eu nunca as contei.  Também nunca vi o administrador de Bafatá (Guerra Ribeiro, transmontano de Chaves; será depois promovido a intendente).

Nunca vi o chefe de posto nem  a professora, que viviam connosco dentro do perímetro de arame farpado, serem convidados para cerimónias militares ou festas no quartel (Natal, por exemplo). 

Racismo, segregação, discriminação ?... Temos de ser cautelosos com as palavras e sobretudo evitar os "chavões" e o "sociologuês"...

Na metrópole, militares e civis também não conviviam... Como eu costumo dizer, simplificando a realidade, éramos os "três estados": clero, nobreza e povo...Na minha terra, eu também nao convivia com a elite local, e muito menos comia á sua mesa, encontrávamo-nos apenas na igreja, mesmo assim em espaços segregados...

Na Guiné, os oficiais e os sargentos milicianos e as praças  eram mais abertos e conviviam, informalmente, com os civis. Nalguns casos, poderia haver afinidades (pessoas da mesma terra ou região). Falo de Bambadinca, onde estive, de julho de 1969 a março de 1971. 

 O Rodrigo Rendeiro, que estava na Guiné desde os 17 anos, e que era natural da Murtosa, convidava alguns de nós, milicianos, para comer o seu famoso "chabéu de galinha". Mas nunca nos apresentou a cozinheira, que era a mãe dos seus filhos. Teve uma aventura rocambolesca que já aqui contámos, quando se conseguiu evadir dos "libertadores" do PAIGC... Já faleceu. Mais recentemente ficámos a saber que tinha sido "informador" da PIDE/DGS e que terá tido problemas ainda na Guiné a seguir ao 25 de Abril. (A propósito, o Anjos de Carvalho,  em 1973, aparece em listas dos colaboradores militares, remunerados, da censura para as obras literárias...).


2. As fotos acima mostram uma cena, que já em tempos cataloguei, há dez anos atrás (*), como  "algo insólita", no TO da Guiné, numa zona de guerra, em Bambadinca, uma festa de batizado para a qual (tal como  na boda), como se costuma dizer, só vão os convidados... 

Mas,  como todas as "fotos de família", estas têm algo de ternurento... Perguntei-me na altura: quem serian  estas pessoas, por onde andanriam então (em 2016) ... Algumas , eu conhecia-as, tinham sido meus camaradas... E dos civis, meus vizinhos, nem sequer tinha uma vaga lembrança... 

Afinal,  morávamos perto, uns dos outros, durante, quase dois anos... Espantoso: eu vivia a 100 metros da escola, nunca vi, "ao vivo", a professora dona Violete (nem a sua mãe, que vivia com ela, na "casa da professora", anexa à escola primária, as duas enclausuradas). Tal como nunca vi o chefe de posto, nem me lembro de ter entrado no seu "estaminé" (que, se não erro, era junto ao depósito de água e á escola)..

O Fernando Andrade Sousa (ex-1º cabo aux enf da CCAÇ 12, 1969/71), que vive na Trofa (e que está doente, infelizmente, ele que foi uma dos mais entusiásticos participantes e organizadores dos convivios anuais do pessoal de Bambadinca desde os anos 90),  já não se lembrava  bem de toda a gente, muito menos dos civis. 

Disse-me ao telefone que;

(i) ele e o alferes Carlão eram os únicos representantes da CCAÇ 12; 

(ii) o Carlão fora convidado para padrinho possivelmente por ser da terra ou da região (Trás -os-Montes) de alguém da família da criança ( pai ou avós);

(iii) a criancinha batizada era da "Casa Libanesa", de Bambadinca;

(iv) ele,  Fernando, "caiu lá de paraquedas", foi convidado porque fazia parte do pessoal do serviço de saúde, cujo chefe era o alf mil médico Joaquim Vidal Saraiva, da CCS/BCAÇ 2852 (que deve ter feito o parto, e que acabaria a comissão em maio de 1970) (**);

(v) o Silvino Aires Lopes Carvalhal (fur mil, SAM, CCS/BCAÇ 2852) também esteve presente;

(vi)  ficou de me mandar (mas não mandou...) maia fotos deste "batizo"  

O casal libanês  (ou ela, de origem libanesa, e o pai, português da metrópole, transmontano) que vivia em Bambadinca, moravam possivelmente numa das casas junto à rampa de acesso ao quartel,  do lado direito (no sentido descendente), talvez em frente à casa e loja do Fernando Rendeiro (que ficava do lado esquerdo), e que eu frequentava com alguma regularidade, tal como o bar / tasco do Zé Maria , já na zona ribeirinha... 

Os Rendeiro não aparecem aqui. Possivelmente o jovem casal, os pais da criança, aparecem,  na foto nº 1 B, ao centro, tendo a atrás os avós  e possivelmente um tio (o mais forte).

A cerimónia religiosa foi em Bafatá, onde a foto de grupo (nº 1) é tirada. Quer dizer que não havia padre em Bambadinca. O padre era missionário, posssivelmente italiano (foto nº 1 B). Os missionáriso católicos italianos (. do IPME) tiveram uma relação difícil com as autoridades portuguesas. Alguns foram presos ou expulsos (o missionário de Catió, o de Samba Silate....).

Os padrinhos da criança foram o alf mil António Manuel Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018), ainda solteirinho, sem a sua Helena que há de vir depois morar para Bambadinca, e a única professora, branca, que lá havia,  a Dona Violete da Silva Aires (que segura a criança, e que era solteira, nascida em Cabo Verde; vivia no edifício da escola, com a mãe). (Foto nº 1 D).

O Fernando lembra-se de ter sido convidado, mesmo sem conhecer (nem privar com) a família. Dos militares, da CCS/BCAÇ 2852  (incluindo Carvalhal) e da CCAÇ 12 (o Fernando), terão sido convidados o pessoal dos serviços de saúde e do reabastecimento ( incluindo o José Carlos Lopes, fur mil).

O fur mil enf João Carreiro Martins não aparece aqui, o que não admira: ele recusava-se a sair do arame farpado...  Aparece o alf mil médico Joaquim António Vidal Saraiva (1936-2015), acabado de chegar de Guileje em novembro de 1969 (foto nº  1 C) e que seguramente terá feito o parto da mamã libanesa...

As fotos devem ser de finais de 1969. E eu achava que deviam merecer generosos comentários. Se o Vidal Saraiva não tivesse morrido em 2015 (**), possivelmente estes fotos iriam ficar esquecidas no álbum do Fernando Sousa que pediu, a instâncias minhas,  a um sobrinho para as digitalizar...  


3. Estamos a falar de cosias que a historiografia académica não tem abordado... E que são delicados como a "estigmatização" dos civis, comerciantes, metropolitanos, cabo-verdianos ou libaneses, bem como a administraçáo ultramarina onde os cabo-verdianos estavam sobrerrepresentados, uns e outros "mal vistos" pela PIDE e pela tropa... ( Mas quem é que queria ir viver e trabalhar para a Guiné?!... E quem numa guerra civil, como foi aquela, não joga com um pau de dois bicos ?)

Mal vistos, e depois marginalizados, com Spínola e a sua política de africanização da guerra e da administração. O slogan "A Guiné para os guinéus" era também uma provocação para o PAIGC de Amílcar Cabral.

Durante a fase final da guerra da Guiné, a política de Spínola procurou, de facto,  promover uma elite política, militar e administrativa guineense, reduzindo o peso relativo das tradicionais elites cabo-verdianas na administração do território. (Administração que, com ele, e com a guerra,  praticamente foi substituida por quadros militares.)

Como muitos cabo-verdianos eram vistos pelos serviços de informação e pela tropa  como potenciais simpatizantes do PAIGC, desenvolveram-se atitudes de desconfiança e, por vezes, de estigmatização e repressão.

Contudo, essa realidade deve ser entendida mais como uma estratégia política de reequilíbrio de poderes e de conquista das populações guineenses do que como uma política oficial de discriminação racial contra os cabo-verdianos (que até ao início cio dos anos 60  eram minorias relativamente influentes na administração, tal como os libaneses, no pequeno comércio).


Foto nº 6 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Festa de anos do 1º srgt Fernando Brito. Convívio no bar de sargentos, em meados de 1970: ainda estávamos em "lua de mel", os "velhinhos" da CCAÇ 12, e os "piras" do BART 2917, aqui representados pelo 2º Comandante, maj art José António Anjos de Carvalho, sempre fardado, sempre "militarista", amante do fado de Coimbra (já falecido, no posto de cor art ref), e o 1º srgt art Fernando Brito (1932-2014) (falecido no posto de major, depois de ter feito a Escola Central de Sargentos)...

À direita do Brito, a Helena, mulher do falecido alf mil at inf António Manuel Carlão, do 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (o casal vivia em Fão, Esposende): à direita do Anjos de Carvalho, a esposa do major art, Jorge Vieira de Barros e Bastos (mais familiarmente conhecido por Bê Bê, era o major de operações do comando do BART 2917; mais tarde cor art ref); e à sua direita, a Isabel, a esposa do José Alberto Coelho, o fur mil enf da CCS/BART 2917 (o casal vive hoje, ou vivia até há uns anos, em Beja). Eram as únicas "três mulheres brancas", esposas de militares, que viviam no "quartel".

Em Bambadinca, mesmo dentro do perímetro de arame farpado onde viviam a professora, branca, cabo-verdiana (e a sua mãe), e o chefe de posto, também cabo-verdiano, os espaços de convívios eram socialmente segregados. Os oficiais vinham ao bar e messe de sargentos, os sargentos não podiam frequenta o bar e a messe de oficiais, os civis também não conviviam com a tropa dentro do "quartel"...E as praças tinham o seu  "refeitório e cantina"... E foi assim que fizemos todos a guerra...

Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



(***) Último poste da série > 21 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças