1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2026:Queridos amigos,
A obra de Pedro Dias, conceituado professor de História de Arte, tem o seu foco nas relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente. Um dos seus trabalhos de referência é exatamente a Arte de Portugal no Mundo, que o Jornal Público deu à estampa em 15 volumes numa edição muito cuidada. Retirei este texto sobre a Guiné do volume centrado na África Ocidental, que recomendo a quem queira conhecer melhor o nosso património deixado em Arguim, no Senegal, na Guiné e Serra Leoa, S. Jorge da Mina e Benim, S. Tomé e Príncipe, reino do Congo e Angola.
Um abraço do
Mário
A presença portuguesa na Guiné:
A arquitetura colonial
Mário Beja Santos
Pedro Dias é um conceituado historiador de arte, o seu campo preferencial de investigação é o das relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente; foi professor catedrático da História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra os seus livros são referenciais nos domínios da arte portuguesa no mundo. O Jornal Público editou um conjunto de 15 livros deste seu trabalho, o que agora importa é o quarto volume que trata do reconhecimento da costa de África subsariana, das navegações que levaram a dobrar o Cabo da Boa Esperança, o autor estuda as feitorias e posições fortificadas, recorda as artes de marfim e dos metais na Serra Leoa, Benim e Nigéria; a presença portuguesa está testemunhada em Cabo Verde e São Tomé onde se construíram fortalezas, igrejas e habitações à maneira do Reino; a partir do século XVII, na Guiné e Angola, que foi a principal possessão na África Ocidental, criaram-se vilas cujo incremento foi intensivo, a partir de meados do século XIX. Obviamente que nos vamos a ter ao que este conceituado historiador escreve sobre a Guiné.
A Guiné teve a primeira povoação de portugueses em 1588, de Cacheu, fundada pelo cabo-verdiano Manuel Lopes Cardoso, ficando sujeita à jurisdição de Cabo Verde. Em 1642, Gonçalo Gamboa de Ayala fundou Farim e Ziguinchor, ocupando-se pouco a pouco de outras povoações situadas nas margens dos principais rios: o Casamansa, o Geba, o Buba e o Cacheu. Em meados do século XVIII as principais praças fortificadas eram as de Cacheu, Bissau, Geba, Farim e Ziguinchor, importa dizer que eram bastante débeis do ponto de vista construtivo.
Falando da povoação de Cacheu, no final do século XVI, a fortificação resumia-se a uma paliçada e a uma tabanca com doze palmos de altura. Em 1629 já havia a intenção de fortificar a barra de Cacheu, em virtude dos ataques dos holandeses. Em 1644 D. João IV pediu aos moradores de Geba para se mudarem para Cacheu e ajudarem o Capitão Gamboa de Ayala a fortificar este lugar. Há notícia de estar de pé a fortaleza numa pequena elevação, tendo 18 ou 20 peças de artilharia. Era tudo manifestamente insuficiente, por documentação de 1772 sabe-se que em Cacheu havia carência de fortalecimento e de guarnição, que era fechada com paus do mato e a artilharia não tinha os indispensáveis reparos. Os habitantes levantavam pequenas paliçadas de estacaria, sobretudo à borda de água. Ocorreram grandes melhoramentos em 1788, o então Capitão da Praça, engenheiro Luís Pedro de Araújo e Silva deu conta à rainha D. Maria I que lhe faltavam os reparos para os canhões e casas de guerra. A povoação foi sempre muito modesta, em 1850 não teria mais do que 1.800 habitantes. São muitos escassas as informações quanto à arquitetura religiosa em Cacheu. Houve uma residência da Companhia de Jesus, mas em 1733 o capitão queixava-se do estado miserável da Igreja matriz, o edifício estava em ruína.
Ter-se-á fundado o estado de Bissau em 1456, procurou-se um acordo com o rei local para fundar uma fortaleza. Há uma carta para a Corte datada de 10 de janeiro de 1689 onde se diz textualmente ter sido feita a fortaleza de pedra e cal, tinha sete peças de artilharia. Sabe-se que as obras da fortaleza de Bissau não chegaram ao fim e que em 1708 a Capitania foi extinta e a fortificação derrubada. Segue-se um role de peripécias até se chegar à construção da fortaleza definitiva em 1766, a construção estava a cargo do Tenente Engenheiro Bernardino António Alves de Almada, quem ultimou os trabalhos da fortaleza foi António Félix do Amaral. A planta da Praça revela as suas pequenas dimensões, regular, com quatro baluartes poligonais ligados por cortinas retas, com escarpa exterior, parapeito, banqueta e terra pleno, e no interior, na Praça de Armas, os quartéis da tropa dispostos em quadrado. Conserva o essencial da sua estrutura primitiva, mas sofreu alterações significativas. A perda de valor estratégico levou à construção de um maciço de dependências de carácter administrativo, mas no fundo a fortaleza que se pode ver é ainda, no essencial, a de 1767.
A evolução urbana de Bissau deu-se fundamentalmente a partir da transferência da capital do território, deixou-se Bolama. Defendida por uma fortaleza com algum poder, estabeleceram-se outros dispositivos menores do lado do mar e do lado do sertão, o de maior dimensão chamado Forte Nozolini, de planta quadrangular, que ficava no extremo da paliçada, que saía do baluarte da Balança. Está bem visível numa vista da cidade publicada na revista Ocidente, que aqui se mostra. Recorde-se os nomes dos outros três baluartes do Forte de S. José: Bandeira, Poana e Onça. Construíram-se à sombra dos baluartes os principais edifícios administrativos, e também se lançaram as ruas fundamentais da expansão da urbe, com casas de habitação e comércio. A Rua do Fosso e Rua de Alfandega faziam face à fortaleza, mas a frente de água estava desimpedida com a Rua da Praia que ia desde o Largo da Fonte do Pijiquiti até à paliçada da Poana. Depois, a Travessa Larga e a Travessa da Igreja formavam os quarteirões com outras seis ruas ou travesses, entre a Rua do Fosso e a Rua da Tabanca, que as cortavam ortogonalmente. Mais tarde esta vias foram sendo batizadas com outros nomes, normalmente de personalidades que se desenvolveram na colónia, ou governantes portugueses, é o caso da Rua Honório Pereira Barreto, que na transição do século XIX para o século XX era uma das mais prósperas da cidade e dotada dos melhores edifícios.
É esta a matéria do historiador Pedro Dias sobre a Guiné.
Nota do editor
Último post da série de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (Mário Beja Santos)















































