quinta-feira, 23 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17172: Blogpoesia (500): "Vivo perdido entre a gente", um poema de amizade para um grande amigo (Fernando de Jesus Sousa)

Rio Saltinho - Guiné-Bissau
Com a devida vénia a Guinea Bissau Turismo


1. Mensagem do nosso camarada Fernando de Jesus Sousa (DFA), (ex-1.º Cabo da CCAÇ 6, Bedanda, 1970/71, autor do livro de poemas "Sussurros Meus"), com data de 20 de Março de 2017, com um poema de sua autoria, dedicado a um grande amigo.


Vivo perdido entre a gente

Sou como a água dum rio,
Que livre passa a correr.
Tão alegre tão genuíno…
Sigo em paz o meu caminho
Nesta vontade de viver!

Sou um prado verdejante,
Nestas campinas da vida,
Onde as flores são uma constante!
O gosto de viver é permanente,
Mesmo com a felicidade perdida!

Sou a ave que no céu vai,
Plena liberdade em movimento!
Grito de voz que do peito sai,
Sonho que nunca se esvai…
Em expressões dum sentimento!

Sou um mar sou um continente,
Um velho livro que ninguém lê.
Sou a aragem que mal se sente,
Vivo perdido entre a gente,
Grão de areia que mal se vê!

Sou água do rio com lamentos…
Como elas sigo o meu destino!
A vida são breves momentos,
Com alegrias ou desencantos.
Tal como a água dum rio!…

Fernando Sousa
26/2/2017
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Nota do editor

Último poste da série de 19 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17158: Blogpoesia (499): "Oração ao sol..."; "Viver é arte..." e "O camião do lixo...", poemas de J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P17171: Convívios (789): 40.º Encontro do pessoal da CCAÇ 3547 - "Os Répteis de Contuboel", dia 27 de Maio de 2017 na Vila do Bombarral (Manuel Oliveira Pereira)




1. Mensagem do nosso camarada Manuel Oliveira Pereira (ex-Fur Mil da CCAÇ 3547 - "Os Répteis de Contuboel", Contuboel, 1972/74), com data de 16 de Março de 2017, solicitando a divulgação do 40.º Encontro/Convívio da sua Unidade, coincidente com o 43.º aniversário do regresso da Guiné.

Amigos, ex-camaradas,
Solicito a divulgação do Encontro/Convívio da CCaç 3547 "Os Répteis de Contuboel"´, a ter lugar na Vila do Bombarral próximo dia 27 de Maio.
Se estiver por cá, penso também fazer-vos companhia a 29 de Abril; Amieira já vai longe.
Logo que tenha definida a minha agenda de "obrigações familiares", informar-vos-ei.

Continuo a procurar nos meus arquivos - um pouco espalhados - mas também a encetar contatos com elementos da CCS (Bafatá), C.Caç. 3547 (Contuboel), CCaç 3548 (Geba) e CCaç 3549 (Fajonquito), todas do BCaç 3884, a fim de "arranjar" a fotografia do nosso Comandante de Batalhão, Ten. Cor. Correia de Campos.

Abraço,
Manuel OLIVEIRA PEREIRA,
ex-Fur. Mil.
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Nota do editor

Último poste da série de 21 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17165: Convívios (788): XX Encontro do pessoal da CCAÇ 4150 - "Os Apaches do Norte", dia 14 de Maio de 2017, na Senhora da Aparecida, Lousada (Albano Costa)

quarta-feira, 22 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17170: Os nossos seres, saberes e lazeres (204): Central London, em viagem low-cost (6) (Mário Beja Santos)

Interior do Museu de Fitzwilliam, em Cambridge


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 10 de Novembro de 2016:

Queridos amigos,
Era o último dia, reservei para ele toda a energia disponível para percorrer jardins, voltar à King's College Chapel, percorrer horas a fio uma portentosa exposição em iluminura, nunca vi coisa com tal dimensão e grandiosidade, foi despedir-me dos colégios, sentei-me em frente à ponte de Silver State, andei a cheirar nas livrarias.
Há anos que uma semana não tinha uma dimensão de um mês, tal a diversidade de sítios, tal o comprazimento com a beatitude das formas, o agrado que permite visitar uma cidade universitária no início do ano letivo.
Despeço-me com saudade de Cambridge e um dia destes dou-vos notícia de uma nova viagem.

Um abraço do
Mário


Central London, em viagem low-cost (6)

Beja Santos

O viandante confessa que se está a despedir do seu leitor em estado de nostalgia, tivesse o dom da ubiquidade e neste exato momento passeava-se por Cambridge para rever o que tanto lhe agradou e procurar conhecer mais, a cidade universitária oferece muitíssimo. O que se vê neste estacionamento de bicicletas parece pura banalidade, mas atenda o leitor à profusão de mensagens apensas ao gradeado: concertos, espetáculos de toda a índole, conferências, troca de informações, por aqui se pode medir o pulso da vibração cultural entre exposições, récitas de teatro, apelos à solidariedade.



Todos os colégios têm cunho próprio, identificam-se por emblemas, o vestuário capricha pela sua própria simbologia, quem estuda em Peterhouse, Pembroke, Queens, Clare ou Christ’s tem a sua própria indumentária, os seus brasões. E há estabelecimentos comerciais para satisfazer a questão da identidade.



Esta região chama-se os Backs, ou seja, seis dos colégios mais antigos de Cambridge dão para o rio, possuem prados, jardins, são fundos com alamedas que permitem passeios de barco, de contemplar a magnífica arquitetura dos colégios. Na gíria turística, uma visita a Cambridge fica incompleta sem pôr o pé numa destas bateiras, muitas vezes conduzidas pelos alunos. Na primeira imagem desfruta-se uma vista do King’s College vizinho da mais esplendorosa capela que o viandante conhece.


Este é o Clare, o segundo colégio em, antiguidade de Cambridge, a sua ponte que liga para os Backs é magnífica, daqui também se pode avistar a fachada principal da King’s College Chapel.


O viandante sente-se atraído pelo colorido das bateiras, felizmente que uma nesga de sol modificou a paisagem, alterou as cores do rio Cam e dá perfeitamente para ver como o ambiente incita à contemplação, pega-se num livro e aqui se desfruta a natureza, é um aprazimento ouvir relógios e sinos, a cidade ganha mística, percebe-se como estes estudantes que acabam de chegar se sentem tão maravilhados pelo recolhimento e o vigor destes monumentos do passado ao serviço do presente e do futuro.



O museu mais importante de Cambridge chama-se Fitzwilliam, prende logo a atenção a solidez do edifício neoclássico com um vestíbulo magnificamente decorado. O seu património em coleções de arte é deveras impressionante. Para comemorar os 200 anos do museu, na altura em que o viandante por lá passou, decorria uma exposição sobre a arte e a ciência dos manuscritos iluminados, era um festival de iluminuras de incalculável valor. Estavam patentes manuscritos excecionais e o visitante tinha à sua disposição um itinerário entre os séculos XIII e XVII, percorrendo o Reino Unido, a Pérsia e o Nepal, e muito mais. Subestimamos a iluminura, há quem por ignorância a trate por arte decorativa. Ora estes manuscritos são as melhores fontes para estudar as técnicas da pintura, a arte do fabrico das cores, os materiais e poder estudar a história, usos e costumes, enfrentar uma dada realidade nestas belíssimas cores, como a imagem mostra.



Sim, Cambridge é uma cidade de colégios, onde prima a vida estudantil e afã cultural, mas o seu monumento número um é a King’s College Chapel, Henrique VI lançou a primeira pedra em 1441, as obras terminaram sete décadas depois, no reinado de Henrique VIII. Entra-se e fica-se aturdido com a sua abóbada em leque, nas paredes laterais há vitrais fabulosos construídos por flamengos e ingleses, a meio um grande órgão, e não se visita Cambrigde sem ouvir neste ambiente o coro juvenil do King’s, atenção a quem por ali viaja, habitualmente pelas seis da tarde tem-se entrada gratuita no ofício religioso, o viandante teve esse privilégio podendo estar constantemente a olhar o quadro “A adoração dos reis magos” por Rubens.


Acabou a viagem? A viagem nunca acaba, o viajante é que desanda para outras paragens. Nada como despedida desta viagem a Londres e Cambridge falando de uma exposição que estava patente na National Portrait Gallery sobre a presença dos negros na Grã-Bretanha antes de 1948, fixa-se esta imagem como se um menino dissesse ao outro: “Toma atenção pá, o que se vai passar nesta fotografia é uma coisa séria, ficarás para a posterioridade, alguém te recordará por teres ficado congelado no que vamos fazer”.

É assim um relato de viagem, como aqui se pretendeu fazer, deixei a minha saudade e aprazimento partilhando-os convosco.
Até à próxima.
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Nota do editor

Último poste da série de 15 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17141: Os nossos seres, saberes e lazeres (203): Central London, em viagem low-cost (5) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17169: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XVIII Parte: Cap IX - Guerra 2: O primeiro Lassa a morrer em combate, o sold at inf Marinho


Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCç 763 (1965/67) >  T6 com motor gripado, a aterrar na pista de Cufar, depois de alvejado  em Caboxanque.


Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCç 763 (1965/67) > 1965 > Dakota afocinhando, na pista de Cufar, quando transportava motor do T6 alvejado em Caboxamque. O Mário Fitas é o 1º da direita-

Fotos ( e legendas): © Mário Fitas (2016). Todo os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Capa do livro (inédito) "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra", da autoria de Mário Vicente [Fitas Ralhete], mais conhecido por Mário Fitas, ex-fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67.

Mário Fitas foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô. [Foto  em baixo, à direita, março de 2016, Tabanca da Linha, Oitavos, Guincho, Cascais.]

Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra > XVIII Parte > Cap IX - Guerra 2 (pp. 58-61)

por Mário Vicente


Sinopse:

(i) Depois de Tavira (CISMI) e de Elvas (BC 8),

(ii) o "Vagabundo" faz o curso de "ranger" em Lamego;

(iii) é mobilizado para a Guiné;

(iv) unidade mobilizadora: RI 1, Amadora, Oeiras. Companhia: CCÇ 763 ("Nobres na Paz e na Guerra");

(v) parte para Bissau no T/T Timor, em 11 de fevereiro de 1965, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa.;

(vi) chegada a Bissau a 17:

(vii) partida para Cufar, no sul, na região de Tombali, em 2 de março de 1965;

(viii) experiência, inédita, com cães de guerra;

(ix) início da atividade, o primeiro prisioneiro;

(x) primeira grande operação: 15 de maio de 1965: conquista de Cufar Nalu (Op Razia):

(xi) a malta da CCAÇ 763 passa a ser conhecida por "Lassas", alcunha pejorativa dada pelo IN;

(xii) aos quatro meses a CCAÇ 763 é louvada pelo brigadeiro, comandante militar, pelo "ronco" da Op Saturno;

(xiii) chega a Cufar o periquito fur mil Reis, que é devidamente praxado;

(xiv) as primeiras minas, as operações Satan, Trovão e Vindima; recordações do avô materno;

(xv) "Vagabundo" passa a ser conhecido por "Mamadu"; primeira baixa mortal dos Lassas, o sold at inf Marinho: um T6 é atingido por fogo IN, na op Retormo, em setembro de 1965.

Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XVII Parte: Cap IX: Guerra 2 (pp. 58-61)

E voltamos ao Cantanhez agora para fazer a {Op] Retorno a 17 de Setembro [de 1965]

Flaque Injã é o objectivo e o novo acampamento IN. Os Lassas a três grupos de combate embarcam em duas LDM, no cais de Impungueda pelas 24h00,  desembarcando na bolanha a oeste de Caboxanque, progredindo rapidamente,  ultrapassando esta tabanca e a de Flaque Injã, internando-se na mata a leste desta última.

Como primeiro objectivo teríamos a visita ao antigo acampamento, destruído na operação Satan, no entanto foram emboscados cinco elementos tendo sido aprisionados dois, que conduziram a CCAÇ ao novo acampamento existente. A recepção foi forte por parte do pessoal do PAIGC, utilizando armas ligeiras e pesadas, com balas tracejantes. Apesar dessa forte resistência, os Lassas assaltaram o acampamento desalojando o IN a quem causaram seis baixas confirmadas, apreendendo diverso material. 

Dirigem-se depois para Caboxanque em cujo cais deveriam reembarcar. Na frente da coluna em primeiro escalão, vai a secção do Chico Zé,  comandada pelo Carlos Manuel,  da secção de cães, levando como guias, Alfa Nan Cabo, Gibi Baldé e  Carlos Queba. Seguem-se as secções de Tambinha e Vagabundo. Há que atravessar um túnel arbustivo, onde se encontra uma cobra verde enroscada. A malta vai passando a palavra para trás, para as precauções necessárias pois uma picada desta bonita e simpática coisinha, de vinte e cinco centímetros no máximo é morte certa entre três, quatro minutos. 

Quando a cabeça da coluna atinge as proximidades da mata, de acesso ao cais de Caboxanque, há umas rajadas e uns tiros de G3 isolados. Malta para o chão, seguindo-se uns segundos sepulcrais. Que terá acontecido? Carlos Manuel e os seus homens lá na frente tinham desfeito dois indivíduos, capturado uma metralhadora ligeira, uma pistola e vários cunhetes de munições É aqui que Alfa torce o nariz, vem atrás e fala com Carlos.
– Ali na frente, manga de chatice! Pessoal não pode passa lá!

Inquieto, nariz no ar como que animal adivinhando catástrofe da natureza, rinoceronte perscrutando o perigo, não deixando de fazer o seu vocal som característico de “tchee… tchee…”.. Manga de chatice são as únicas palavras que sabe dizer. Almeida e Vagabundo chegam à frente, Alfa e Gibi apontam o chão. A experiência de escuteiro leva o furriel a verificar a erva levemente inclinada e a concluir também que por ali passaram dezenas de indivíduos.

Almeida leva os três guias e conferenciam com Carlos e Paolo. Carlos manda os Lassas abandonarem a mata em ziguezague e entrarem na bolanha, afastando o máximo possível.

É impressionante! O festim estava preparado com toda a ciência, uma emboscada com uma técnica fora do vulgar.

Quando os comandos do PAIGC se aperceberam que lhes tínhamos morto a detecção à retaguarda, fazer a diversão para terreno aberto, escamoteando a entrada na zona de morte, papando-lhe as migas na cabeça, ficaram fulos. Desvairado, o pessoal do PAIGC veio também para terreno aberto. Então começou o lindo espectáculo das bazucas e dos RPG a digladiarem-se. Estamos um pouco em vantagem porque as granadas dos RPG ao caírem na bolanha enterrando-se na lama, grande parte não rebentava. O céu mantinha-se encoberto e não tínhamos apoio aéreo. Verifica-se que são mais do que nós e que sem medo avançam em terreno descoberto.

Dá-se um milagre!... O sol desponta e ouve-se o roncar dos velhos T6. Damos a nossa posição no terreno com granadas de fumo. O “Mais Audaz” localiza tudo e faz duas picagens. Vagabundo, rádio sintonizado com o ar,  ouve nitidamente o tenente piloto dizer:
– Só vejo malta a rebolar… estou a atingir em cheio… vou picar novamente e gastar os últimos roquetes!

E assim faz, aparecendo sobre o tarrafo do lado do cais de Caboxanque, faz nova picagem. Ficamos suspensos por momentos, o piloto informa que a aeronave foi atingida e que ia tentar aterrar na pista de Cufar. Corações pequeninos, ouvimos que tinha conseguido. Quando regressados a Cufar soubemos, o T6 tinha sofrido bastantes impactes que lhe causaram dezassete furos,  um dos quais no depósito do óleo que esvaziara por completo, o avião a tocar na pista de terra batida e o motor a gripar.

Entretanto o festival em Caboxanque continuava. Alertadas, as lanchas e a vedeta da Marinha tinham subido o Cumbijã. Com a sua ajuda e mais uma parelha de T6, as forças do PAIGC foram reduzidas ao silêncio e os Lassas embarcaram,  regressando a Cufar.

Passados dias soube-se e ficará gravada na história da CCAÇ 763, tínhamos tido à nossa espera uma Companhia do Exército Popular, comandada, nada menos nada mais, do que pelo comandante 'Nino', a qual sofreu das mais avultadas perdas em termos humanos averbadas pelo PAIGC.

Obrigado Alfa, FAP e Marinha,  pois estaríamos metidos numa enorme e indefinida encrenca se não fosseis vós. A sorte também conta, sendo de uma importância extraordinária nesta guerra.

Nunca será pouco enaltecer os amigos fuzos e marinheiros, e aquilo que por nós fizeram com as suas lanchas e vedetas. Aos pilotos, e às enfermeiras páras, bastará o conhecimento e forma como são recebidos em Cufar para saberem como lhes estamos gratos por tudo.

É claro que nem tudo foram rosas.

Havendo uma grande operação dos fuzos na zona de Cabedu, foi montado o posto de comando e evacuação em Cufar,  derivado da sua bela pista e segurança. Hospital de campanha montado do lado esquerdo junto à entrada do aquartelamento. Por escala os Vagabundos de piquete. O seu chefe furriel já alcunhado de Mamadu, vestido ou despido à maneira do mato, calção e camisa de caqui, bota de lona e boina preta, pistola caindo do cinturão à “pistoleiro” em vez de carregar com a G3. Malta almoçada, segurança montada às aeronaves na pista, um calor de rachar, toca de espreguiçar numa maca, instalada no improvisado Hospital de Campanha.

Foram-se juntando alguns soldados em redor do furriel, começando as anedotas e histórias da vida de cada um. Mamadu delirando contar e ouvir uma anedotazinha, contava aquela do dramático caso do patrício que se queria suicidar por infidelidade de sua companheira e que, subindo ao quinto andar do prédio, de lá gritava estar farto da vida e que se iria mandar dali abaixo. O povoléu juntava-se todo à espera do desfecho do drama, quando apareceu a mulher do infeliz e que em desespero gritou:
– Oh!, a  homem, não faças isso,  porque eu só te pus os cornos, não te pus asas!

Encontrava-se Mamadu e aquela malta toda nesta bagunçada, quando de repente aparece a alferes pára enfermeira. Ao ver a malta por ali sentada, correu com a soldadesca toda. O furriel continuou agora sentado na maca, mas também ele teve ordem para se pôr a andar. Verificando o protagonismo que a sra. alferes estava a tomar, o chefe dos Vagabundos resolveu manter o seu. Deu-se então um diálogo interessante. Mamadu levantou-se e informou:
– Saiba Vossa Senhoria, meu alferes, que eu não vou abandonar esta posição, se há alguém que tenha de solicitar autorização para permanecer neste local, não serei eu, pois quem é aqui o responsável neste momento é este maltrapilho do mato que se apresenta a vossa senhoria!...

Perfilando-se, na posição de sentido, o furriel pronunciou:
– Apresenta-se o furriel miliciano Mamadu, comandante do piquete com a responsabilidade total pela segurança desta tenda, bem como de todas as aeronaves que se encontram na pista. Não tenho as divisas nos ombros, porque no mato é adorno que não usamos e a boina preta está superiormente autorizada.

Grande discurso!... A alferes enfermeira [, Maria Ivone Reis, foto à esquerda,]  sorriu e repostou:
– São todos iguais!... Têm todos a escola do vosso capitão! Mas pelo menos deveria estar com roupa em condições!
–  Saiba sra. meu alferes, que a minha lavadeira Miriam está em Catió com montes de roupa à espera de portador, pelo que não tenho o prazer e a honra de lhe satisfazer esse desejo. Mas como sabe e muito melhor do que eu, para morrer tanto faz estar de smoking como de camisa rota, o importante é estar lavada!
– Machistas de merda!

Foi a resposta que o furriel recebeu. Tinha razão a alferes enfermeira!?... Sim! Tinha razão, mas a CCAÇ não pode parar com estas ninharias pois o caminho a percorrer é longo. Reentramos nos cercos e limpeza e bate-se toda a tabanca de Cubaque,  dando forma à operação Rissol. Voltamos a Camaiupa e Cantumane para efectuar a [op] Rastilho, reconhecendo toda a mata. Uns tiros sem importância para comunicação e reunião, nós sabemos que eles continuam lá, é vital para dar seguimento ao corredor de Guilege. 

Quando entrávamos em Cantumane aconteceu precisamente o mesmo que na operação Trovão. No mesmo local e da mesma forma, fomos emboscados e atacados com o sistema de abelhas. O grupo de combate que seguia em primeiro escalão é obrigado a recuar. Só depois do envolvimento dos outros dois grupos e após uma hora de fogo intenso, a CCAÇ consegue repelir o IN causando-lhe nove mortos e pelo menos um ferido. Pela nossa parte um morto e vários feridos com picadas de abelhas. O soldado Marinho regressou à sua terra para nela repousar eternamente. Alguém irá ao Terreiro do Paço, receber a medalha postumamente atribuída. Os feridos no total de oito tiveram de ser evacuados alguns para Bissau,  resultante das picadas das abelhas, pelo que nos tivemos de deslocar para a bolanha para serem levados pelos helicópteros.

Com a morte do primeiro militar da CCAÇ 763, houve que definir coisas muito importantes. Tendo em atenção, a construção da nossa identidade, com o direito à identificação e localização, de um ente que faz intrinsecamente parte do nosso génese, ou agregação espírito-matéria. Sendo um direito adquirido, fazendo parte da nossa complexa estrutura cultural, o cultivar o culto dos mortos, e fazermos o nosso luto. Nunca um combatente poderá ficar no campo de batalha, local da sua morte, mas sim onde as suas cinzas façam parte de um todo, de uma vontade una daqueles a quem estão ligados.

É Cultura Portuguesa, caso contrário não teríamos ninguém nos Jerónimos.Todos devem ter direito aos seus sentimentos!

É importante que as nossas famílias saibam o que lhes é entregue. Quem não dignificou o valente soldado português, vindo dos mais recônditos lugares deste país? Não são considerados e respeitados por quem devia.

Carlos manda formar a Companhia e é assumido o compromisso:
–  Qualquer elemento da CCAÇ 763 que tenha a infelicidade de aqui falecer, a família receberá o seu corpo. Todos contribuirão para o efeito, em função do seu vencimento. Assim acontecerá!

Não abrandamos o controlo a sul. Num golpe de mão a Cantone, Quepul Na Cuenha,  chefe de partido de Mato Farroba, e Go Na Ialá,  enfermeiro do PAIGC, são feitos prisioneiros. Go Na Ialá é abatido por uma sentinela ao tentar a evasão, saltando o arame farpado. Mas também não temos meios para fazer tudo na noite de 26 para 27 de Novembro, elementos do PAIGC aparecem nas tabancas a sul tentando aliciar a população, raptando alguns blufos que conseguiram fugir e se apresentaram no aquartelamento informando do acontecido.

Confirmamos as dificuldades do PAIGC com a população, e no recrutamento interno, mas chegam-nos informações de que o Exército Popular está a ser reforçado por pessoal estrangeiro que não se limita a dar instrução, entrando também em combate. Verificamos que a guerra começa a internacionalizar-se. Não é novidade, já haviamos abatido uma ave estranha.

Continua a cobrança!... Hoje pagas tu, amanhã pago eu!

Primeiro de Dezembro, uma data que ainda diz qualquer coisa a este povo português. Inauguramos uma escola para as crianças nativas. A sua actividade é iniciada com a frequência de uma centena de alunos das povoações a sul e por nós controladas. É-lhes igualmente distribuída diariamente a primeira refeição, tendo-lhe sido fornecidos livros e outro material, tudo a expensas da CCAÇ 763. Desempenha as funções de professora Dª. Glória, tendo como assistente na parte de desporto Jata, o nosso amigo Micaelense, sargento Luís Tavares de Melo.

Não param os Lassas, apesar dos mortos e dos feridos que já sofreram, é necessário aproveitar a maré alta e por isso já fomos para o outro lado do Cumbijã, estamos cá para quê?... Fazer a guerra? Faça-se!
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Guiné 61/74 - P17168: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (41): Pedido de ajuda para tese de doutoramento sobre "o papel dos negros que combateram nas tropas especiais" (Sofia da Palma Rodrigues)

1. Mensagem da nossa leitora Sofia Rodrigues, doutorando pela Universidade de Coimbra:

Data: 4 de março de 2017 às 11:47
Assunto: Ajuda para tese de doutoramento

Caro Luís Graça,

Estou neste momento a começar a pesquisa para o meu trabalho de doutoramento. A minha tese analisará o papel dos negros que combateram nas Tropas Especiais portuguesas na Guiné-Bissau.

Estarei de partida, por um ano, para a Guiné em Outubro. Antes, gostaria de fazer uma recolha o mais exaustivas possível da bibliografia e documentação existente.

Queria pedir-lhe se me pode ajudar com referências bibliográficas de que se recorde,  escritas sobre este tema. Conheço o seu blogue e já lá encontrei algumas preciosidades. Mas nunca é demais perguntar.

Muito obrigada e fico a aguardar uma resposta da sua parte.
Sofia da Palma Rodrigues

www.sofiadapalmarodrigues.wordpress.com

Telef +351 96 862 08 10


Luís Graça
2. Comentário de LG:

Sofia, obrigado pelo seu contacto. Vou estar fora do país até ao princípio de abril próximo, mas não quis deixar de publicar a sua mensagem, na esperança de que alguns dos meus/nossos camaradas, que lidaram com soldados guineenses, a possam ajudar, com bibliografia e sobretudo com documentação, escrita ou oral.

A Sofia vai ter que esclarecer, com mais precisão, o que entende "por tropas especiais portuguesas":  refere-se apenas aos paraquedistas, fuzileiros e comandos ? Se sim, ficam de fora, as milícias, os pelotões de caçadores nativos, as companhias de caçadores formadas por soldados do recrutamento local (como era a minha, a CCAÇ 12 e outras que formavam a "nova força africana"...), os pelotões de artilharia, etc. Fica de fora o "grupo especial" do Marcelino da Mata, ficam de fora muitos milhares de guineenses que colaboraram com as nossas tropas durante a guerra coloniial na antiga Guíné portuguesa...

Por outro lado, convém termos critérios claros de inclusão / exclusivão em relação aos "negros" que estavam nas nossas fileiras: são só guineenses ? são também os cabo-verdianos ? são também  alguns guineenses de origem sírio-libanesa ?

Deixo aqui os seus contactos, que podem ser úteis para receber eventualmente respostas ao seu pedido.  Mande um email ao nosso coeditor Carlos Vinhal a esclarecer a questão de lhe pus... Pode igualmente deixar aqui a sua resposta na  caixa de comentários.

Também era bom podermos saber um pouco mais sobre si,  a sua motivação para estudar este tema, a universidade por onde vai fazer o doutoramento, os seus orientadores e equipa tutorial, os contactos que eventualmente precisa na Guiné-Bissau, etc. Se não erro, vive em  Lisboa, está ligada ao Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e tem-se interessado por  questões como cidadania global e pós-colonialismo nos países lusófonos, segundo informação da sua página no Facebook. Além disso, pelo que pesquisámos na Net, a Sofia adora histórias/estórias e tem uma paixão pela Guiné e as suas gentes,

Vamos, concerteza, poder ajudá-la, para além da informação e conhecimento que já adquiriu da leitura do nosso blogue, como de resto temos ajudado outros investigadores, nacionais e estrangeiros. Esteja à vontade para nos contactar. Boa sorte para o seu projeto académico.
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Nota do editor:

Último poste da série > 13 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17045: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (40): O jornalismo e a guerra colonial: contactos precisam-se de pessoas (civis ou militares) que tenham trabalhado na imprensa da Guiné portuguesa: O Arauro, Notícias da Guiné, Voz da Guiné... (Sílvia Torres, ex-oficial da FAP, doutoranda)

Guiné 61/74 - P17167: Parabéns a você (1225): José Lino Oliveira, ex-Fur Mil Amanuense do BCAÇ 4612/74 (Guiné, 1972/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 17 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17149: Parabéns a você (1224): José Armando F. Almeida, ex-Fur Mil TRMS do BART 2917 (Guiné, 1970/72)

terça-feira, 21 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17166: In memoriam (280): Manuel Fernandes Oliveira, ex-sold aux coz, CART 2716 / BART 2917 (Xitole, 1970/72): o funeral é amanhã,. 22 de março, 16h30,. em Serzedelo, Vila Nova de Famalicão



1. Mensagem de Benjamim Durães, ex-fur mil op esp, CCS/ BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), com data de hoje, às 17h24: 

Boas Tardes,

Acabo de receber a triste notícia de mais um nosso camarada, o Manuel Fernandes Oliveira, ex-Soldado Auxiliar de  Cozinheiro, que faleceu ontem,  dia 20 de março, e  vai ser sepultado amanhã,  dia 22, em Serzedelo, Vila Nova de Famalicão. O Oliveira era de 1948.
Paz à sua alma.
Um abraço de pesar para a família e para os ex-camaradas da CART 2716, Xitole, 1970/72, que pertenciam ao meu batalhão, o BART 2917.

Benjamim Durães
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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P17165: Convívios (788): XX Encontro do pessoal da CCAÇ 4150 - "Os Apaches do Norte", dia 14 de Maio de 2017, na Senhora da Aparecida, Lousada (Albano Costa)

 

Em mensagem do dia 14 de Março de 2017, o nosso camarada Albano Costa (ex-1.º Cabo da CCAÇ 4150, Bigene e Guidaje, 1973/74), pede-nos a divulgação do XX Encontro dos "Apaches do Norte", a levar a efeito no próximo dia 14 de Maio, em Lousada.


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Nota do editor

Último poste da série de 19 de Março de 2017 > Guiné 61/74 - P17156: Convívios (787): XIX Encontro do pessoal da CCAV 2748, dia 3 de Junho de 2017, em Almeirim (Francisco Palma, ex-Soldado Condutor Auto Rodas)

Guiné 61/74 - P17164: Manuscrito(s) (Luís Graça) (114): No Dia Mundial da Poesia... Quem não faz 69, não chega aos 100!

1. Os portugueses (e as portuguesas) não gostam de fazer 69...Dizem: "Ah!, faço 68 + 1"... 

Confesso que não sei por que é que eles (e elas), os portugueses (e as portuguesas)  não gostam de fazer 69!... 

Não conheço ninguém que chegue aos 100, sem fazer  69!...

Hoje, 21 de março de 2017, Dia Mundial da Poesia,  lembrei-me de um soneto que fiz ainda há umas semanas atrás, em homenagem  a um amigo, camarada e parente que fazia justamente 69,.,. Não o vou identificar, por razões óbvias, não sendo ele nosso grã-tabanqueiro, nem me tendo dado autorização para isso. Mas faço questão, até como apreço e homenagem a todos os que fazem 69, este mês, de reproduzir aqui  o "manuscrito" que lhe fiz e li, em voz alta, num almoço de uma tertúlia a que ele pertence (e eu também, por afinidade...), e onde nos juntámos para comer um delicioso arroz de lampreia,

O soneto era antecedido por uma extensa dedicatória:(que o leitor do blogue pode passar por cima).


Parabéns, Rogério, quem não faz 69, não chega aos… 100!

Um soneto natalício,
uma brincadeira poética,
uma singela homenagem a ti,
que és a ave canora
da tertúlia dos caminheiros
da Quinta das Conchas…
Tu não  quiseste dizer nada a ninguém,
mas no sábado fizeste 69…

Este é o pretexto para a gente te cantar os parabéns,
com amor e humor…
Além do mais,
tu és meu primo, conterrâneo, amigo e camarada…
É também,
juntamente com outros caminheiros e amigos oeste-estremenhos,
membro da nossa tertúlia da Praia da Areia Branca.

Contigo partilha um bom pedaço do ADN dos Maçaricos,
incluindo uns comuns tetravôs,
nados e criados em Ribamar da Lourinhã,
e que conheceram o terror das invasões napoleónicas, em 1807…

Sabemos que fá foste quase tudo na vida,
filho de pescador e de poeta,
tu próprio pescador na juventude, antes da tropa,
exímio tocador e competente professor de viola,
baladeiro,
cantautor

Tens o mar no teu ADN,
és um lídimo representante da tribo dos Maçaricos
de Ribamar da Lourinhã,
gente que andou desde Quinhentos
a abrir a autoestrada da globalização
sem cobrar portagem…

Como Pedro,  foste escolhido pelo Senhor
para ser seu representante na Terra,
mas não passaste nos testes…
Em contrapartida, foste engenheiro agrónomo,
com diploma passado pelo ISA,
competências que puseste ao serviço da banca nacionalizada, nossa…
Foste banqueiro do povo
sem nunca teres posto a mão na massa (leia-se: no cofre),
razão por que,  no fim da carreira,
nunca poderias ter apanhado a comenda
da república de Belém.
Não és comendador,
com muito orgulho,
mas és casado com a Leonor.
com muitas bênçãos de amor…
Dizem que te enamoraste dela
quando ela, ainda adolelescente, ia para a fonte dos amores,
descalça, formosa,  mas pouco segura,
com o cântaro à cabeça….
Não consta que tu, nosso trovador ,
tal como o Camões,
tenhas sido acusado de pedofilia…
Para já tens a sorte,
quando chegares aos 100 anos,
de ter uma babá, só para ti,
a teu lado…

Foste soldado contra a tua própria guerra,
fizeste a guerra em Angola,
e no peito ostentas com orgulho,
não uma cruz de guerra do 10 de junho,
mas um porrada que te deu um general,
por, sendo tu oficial miliciano,
estares a acamaradar com o Zé Soldado…

Parabéns, Rogério,
por teres chegado até aqui,
ao km 69
da tua autoestrada da vida!
Obrigados, dizemos todos nós,
por seres nosso caminheiro,
por caminhares ao nosso lado,
obrigados pelo privilégio da tua companhia e amizade
e pelos momentos de canto e encanto
que já nos proporcionaste,
e vais por certo continuar a proporcionar…

E eu acrescento:
“Força, parente,
que até aos 100
é sempre em frente!”...

Ontem como hoje,
cuidado apenas com as minas e armadilhas,
não só as dos inimigos mas também as dos amigos…
Como diz o povo,
“Que Deus me proteja dos meus inimigos,
que dos amigos cuido eu”…

E agora vamos lá ao soneto,
que é uma paródia a um dos mais belos e lancinantes poemas da língua portuguesa,
escrito pelo Elmano Sadino,
mais conhecido por Bocage,
e que morreu há 211 anos…
Pelas minhas contas, ele nunca fez 69,
morreu aos 40 anos, em 1805.

Só uma nota de circunstância:
constou-nos que tinhas posto a viola no saco…
Os teus amigos ficaram, naturalmente, alarmados…
Vejo agora, com regozijo,
que a notícia foi um bocado exagerada…


Já Rogério não sou, o baladeiro…

Já Rogério não sou, o baladeiro,
Minha voz emudeceu, aos sessenta
E oito mais um, pró ano setenta,
E até me esqueci que sou… engenheiro!

Confuso, pus no saco a viola,
E, no prego, as minhas partituras;
Mas, pior que nos dedos as tremuras,
São as brancas que me lixam… a tola!

Que raio – grito ! – foi este aniversário,
Que até a vela apaguei à socapa,
Com medo de voltar ao infantário ?!

“Come a papa, Rogério, come a papa”!,
Essa… guardem-na pró meu centenário,
Se não ‘tiver' choné, tirem-me… uma chapa!

Luís Graça

Tertúlia dos caminheiros da Quinta das Conchas,
Almoço de lampreia, "Tasca do João", Lumiae, Lisboa, 21/2/2017
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Nota do editor:

Último poste da série >  12 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17128: Manuscrito(s) (Luís Graça) (113): Não há mortes grátis!

Guiné 61/74 - P17163: Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias (António Graça de Abreu) - Parte V: Caraíbas: Granada e Aruba... Já ouviram falar ?







Parte V  (pp. 14-17)



Texto, fotos e legendas: © António Graça de Abreu (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação das crónicas da "viagem à volta ao mundo em 100 dias",  do nosso camarada António Graça de Abreu, escritor, poeta, sinólogo, ex-alf mil, CAOP 1 [Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74], membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com mais de 175 referências. 

É casado com a médica chinesa Hai Yuan e tem dois filhos, João e Pedro. Vive no concelho de Cascais.

Partida do porto de Barcelona em 1 de setembro de 2016. Duas semanas depois o navio Costa está nas Caraíbas. Grenada (im inglês e francês), Granada em português, tem pouco mais de 100 mil habitantes e é metade da ilha da Madeira... Aruba ainda é mais pequena, mas tem um PIB "per capita" 3 vezes superior ao dos granadinos, graças às "contas do pitróleo"...  As fotos de Aruba têm a data de 16/9/2016. Antes de entrar no canal do Panamá e depois no Oceano Pacífico, ainda há uma paragem em Cartagena de las Indias.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17162: Boatos e mentiras que correm o risco de entrar para a história (2): De 1 a 10 - Parte II: 4/5. Guileje cercado e conquistado pelo PAIGC; 6. Áreas libertadas; 7. MiG e carros de combate; 8. FAP sem voar; 9. Guerra perdida; 10. Isto não interessa a ninguém... (António Matins de Matos, ten gen pilav ref)


Guiné > Região do Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 (1966/68) > O "menino-soldado"... a fingir. Uma das melhores fotos do álbum do Manuel Coelho, o fotógrafo de Madina do Boé... As NT retiraram deste aquartelamento em 6/2/1969.

Foto: © Manuel Caldeira Coelho (2014). Todos os direitos reservados [ Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A. Continuação da publicação da mensagem do António Martins de Matos (ex-Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74), com data de 3 do corrente:

(...) Relembrando o que nos uniu, talvez pudéssemos passar a uma nova fase, organizar umas “mesas redondas”, “quadradas”, “tertúlias” ou algo parecido, com algum pessoal a participar, moderador, um secretário e um “historiador de serviço”, discussão construtiva sobre um determinado tema, com conclusões fundamentadas e aceites pela maioria. Depois era só enviar o papel a quem de direito.

Há um grande número de assuntos com interesse a que correspondem um número infindável de postes e que poderiam dar lugar a um texto devidamente “certificado”…

Que acham?.. Entretanto e para (re)animar a malta juntei alguns assuntos que já foram discutidos e discutidos mas que nunca obtiveram um consenso alargado.

Deixo-vos com 10 temas, ideias que tenho defendido e que, se o entenderem, poderemos abordar durante o nosso almoço anual, talvez ao lanche [, dia 29 de abril de 2017, em Monte Real], entre um croquete e uma imperial. (...)  (*)



P'ra a mentira ser segura
e atingir profundidade,

tem de trazer à mistura

qualquer coisa de verdade.

(António Aleixo)


4. O Guileje esteve cercado
Os últmos inquilinos  de Guileje:
a CCAV 8350


Não é verdade.

A unidade que esteve cercada foi o Guidaje. Se o Guileje tivesse sido cercado não poderiam ter de lá saído cerca de 600 alminhas, todas em bicha de pirilau, bagagem à cabeça e armas a tiracolo (conforme fotos esclarecedoras)

5. A conquista do Guileje pelo PAIGC  

Não é verdade.

Guileje foi abandonado, depois apareceu a curiosidade, vamos lá ver o que ficou. Comeram bem e melhor beberam, carregaram uns recuerdos e … foram-se embora.


6. As áreas libertadas 

Não é verdade.

Havia áreas sem qualquer população (região do Boé), outras em que as NT evitavam hostilizar as populações (Ilha do Como, Morés, Cantanhez)… Spínola não autorizava que se tocasse na Ilha do Como, em finais de 1972 foram corridos da “área libertada” do Cantanhez.  Pelo sim pelo não,  a sua declaração de independência em 1973 e numa suposta área libertada,  foi… em território da Guiné Conacri, “à cause des mouches” [literamente: por causa das moscas...]


7. Os MiG e os Carros de Combate 

Não é verdade.

Nunca ninguém os viu


8. A FAP sem voar 

Não é verdade.

Em 1973,  e já depois do aparecimento do Strela, a FAP voou muito mais que em períodos anteriores, basta ler os relatórios oficiais.


O temível MiG 17 russo...
que nunca ninguém viu
9. A guerra perdida

Não é verdade.

A guerra estava e continuaria empatada até que um dos contendores se cansasse. Dizer que a guerra estava perdida é passar um atestado de incompetência aos 30.000 homens que por lá andavam e que lutavam contra 5.000 guerrilheiros.


10. Estes assuntos não interessam a ninguém

Não é verdade.

Na nossa geração praticamente todas as famílias tiveram alguém a combater em África e os vindouros, netos, bisnetos, querem saber por onde andaram os seus familiares.
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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 14 de março de  2017 >  Guiné 61/74 - P17138: Boatos e mentiras que correm o risco de entrar para a história (1): De 1 a 10 - Parte I: 1. O território guineense do tamanho do Alentejo; 2. O Strela, a arma que revolucionou a guerra; 3. A FAP perdeu a supremacia aérea (António Matins de Matos, ten gen pilav ref)

Guiné 61/74 - P17161: Agenda cultural (548): Lançamento do 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional, Tomo II - Guiné, Livros I, II e III da obra "Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África", a ter lugar no próximo dia 18 de Abril de 2017, pelas 15h30, no Aquartelamento da Amadora da Academia Militar

CONVITE PARA O LANÇAMENTO DO 6.º VOLUME - ASPECTOS DA ACTIVIDADE OPERACIONAL, TOMO II - GUINÉ, LIVROS I, II E II DA OBRA "RESENHA HISTÓRICO-MILITAR DAS CAMPANHAS DE ÁFRICA



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Nota do editor

Último poste da série de 19 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17157: Agenda cultural (547): Comemoração do Dia da Poesia, com o lançamento de 28.º livro Fim do Império, "Caminhos... dos Valores, da Guerra e da Paz", e apresentação de "Força Restante", da autoria de General Joaquim Chito Rodrigues, Livraria-Galeria Municipal Verney/Colecção Neves e Sousa, Oeiras, dia 21 de Março de 2017, às 15 horas (Manuel Barão da Cunha)

Guiné 61/74 - P17160: (De) Caras (69): Os camaradas Miguel e Giselda Pessoa, "o casal mais 'strelado' do mundo" (LG)... Nos EUA teriam feito um filme e ganho uns milhões; na Suécia, teriam feito um grande documentário televisivo com debate público... E no nosso querido Portugal ? (José Belo, Suécia/EUA)


Guiné > Bissalanca > BA12 > 1974 > 26 de março de 1973 > O então ten pilav Miguel Pessoa na pista do aeroporto, em maca, ... À esquerda, a 2.ª srgt enfermeira paraquedista Giselda Antunes (mais tarde, Pessoa). No dia anterior, domingo, 25, e em pleno dia, o aquartelamento de Guileje fora duramente atacado durante cerca de hora e meia. Foram usados foguetões 122 mm. A parelha de Fiat G-91 (Miguel Pessoa e António Martins de Matos) que estava de alerta em Bissalanca, nesse dia e hora, veio em apoio de fogo. A aeronave do Miguel Pessoa, que vinha à frente, foi atingida por um Strela, sob os céus de Guileje... Foi o primeiro Fiat G-91, na história da guerra da Guiné, a ser abatido pela nova arma, fornecida pelos soviéticos ao PAIGC, o míssil terra-ar SAM-7 Strela (de resto, já usada e testada na guerra do Vietname)... O ten pilav  Miguel Pessoa conseguiu, felizmente, ejectar-se. E a sua posição foi sinalizada pelo seu asa... Vinte quatro horas depois, era resgatado, são e salvo, pelo grupo de operações especiais do Marcelino da Mata e por forças da CCP 123, comandadas pelo malogrado cap paraquedista João Cordeiro).

Foto: © Miguel Pessoa (2009). Todos os direitos reservados, (Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

Nota do  MP: "Caro Luís: Olhando para as fotos que acabei de te enviar, lembrei-me que não te expliquei a razão de eu segurar uma garrafa de espumante na mão, enquanto era transportado na maca... Não, não fazia parte do meu kit de sobrevivência! E eu também não estava a soro! Na minha transição do local da evacuação para o hospital, o heli aterrou primeiro no aquartelamento do Guileje, onde alguém resolveu presentear-me com a referida garrafa. Devo dizer que nunca cheguei a bebê-la pois, tendo sido mais tarde evacuado para Lisboa, resolvi deixá-la à guarda das nossas enfermeiras pára-quedistas, as quais confirmaram a boa qualidade do produto e o gosto requintado do pessoal do Guileje. Um abraço, Miguel Pessoa". 


1. Mensagem do José Belo, com data de 18 do corrente  10:44  

[ foto atual à direita: José Belo, ex-alf mil inf, CCAÇ 2381 (Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70); atualmente é cap inf ref e vive na Suécia há quase 40 anos; no outono / inverno, costuma "emigrar" para Key West, Florida, EUA, onde a família tem negócios; foi autor da série "Da Suécia com saudade" de que se publicaram 55 postes (*); vai mantendo troca de emails, intermitente, com o nosso editor LG]

Assunto - E mais uma vez, esquecidos por näo referidos ao grande público nacional

Nos Estados Unidos teriam feito um filme sobre a história (única!) do casal e... ganho uns bons milhöes de dólares!

Na Suécia (mais fria e analítica) teriam criado interessante documentário sobre o assunto; bem enquadrado em referências históricas, políticas e sociais; apresentado em hora e dia favoráveis a um grande número de espectadores.
Também (tradicionalmente) seria seguido de alargado debate com a participação de vasto público.

Mas, no nosso querido Portugal, quantos (fora dos antigos combatentes da Guiné) terão conhecimento desta histórica única (!) relacionada com o casal dos militares Giselda e Miguel Pessoa?

Para mais... ambos com contactos pessoais com os mísseis "Strela"!

Parece incrível, mas os meios de comunicação lusitanos não se têm interessado, ou terão conhecimento, de tal história.
Haverá por aí alguém com "conhecimentos" nos meios de comunicação?

(O assunto está hoje publicado na Tabanca do Centro)

Um abraço,
José Belo


2. Tabanca do Centro > 18 de março de 2017 > P893: Uma análise do nosso camarigo José Belo > Inesperadamente, a minha profunda inveja do amigo e camarada Miguel Pessoa

[Reproduzido com a devida vénia ao autor, José Belo, e ao editor, Miguel Pessoa, da Tabanca do Centro]

Hoje, ao começar o dia trocando alguns e-mails com o "Herr Överste" (Senhor Coronel em sueco) Miguel Pessoa, surgiu bruscamente no meu pensamento algo que até agora não tinha considerado com a devida atenção.

Nas conversas com antigos combatentes, sejam eles portugueses ou norte-americanos (também por lá vivo!), surge sempre a referência às frustrações sentidas quando se procura descrever aos familiares, amigos, ou simples conhecidos, as experiências e sentimentos de cada um aquando da passagem por teatros de guerra.

Sente-se sempre que este tipo de comunicação, na procura de explicações, sejam elas geográficas, sociais ou outras, é extremamente difícil de ser apreendido em todas as suas "variantes" por quem nos escuta.

Muitas vezes sente-se que não escutam... aparentam escutar! Isto sem se entrar em referências a situações concretas de combate, estas ultrapassam totalmente quem as não viveu.

Se a "comunicação" é difícil em Portugal, em famílias portuguesas, os que formam família no estrangeiro, com filhos quase automaticamente estrangeiros e com netos ainda mais estrangeiros que estes, torna as referências a uma guerra colonial como algo de pré-histórico... no melhor dos casos!

É sempre necessária infindável introdução quanto aos enquadramentos históricos e sociais, ao significado dos 400 anos de colonialismos vários, as consequências do longo período da ditadura no tipo muito específico de formação que, aos nascidos e educados nesses tempos, acabou por ser imbuída muito mais profundamente do que muitos hoje gostam de reconhecer.

MAS... no caso do Miguel Pessoa tudo é... diferente! Casado com uma nossa Camarada de armas.

Alguém que com ele COMPARTILHOU, no conjunto de difíceis situações de guerra, certamente inesquecíveis, mas (e principalmente!)... sem necessitarem das tais infindáveis explicações quanto a factos, quando, porquê e quem!

Confesso, mais uma vez, nunca ter pensado neste pequeno-grande "detalhe", em relação aos outros ex-combatentes.

Hoje em Portugal, em situação muito diferente quanto à paz e tipo de serviço militar, casamentos entre camaradas de armas não serão invulgares.

Mas... compartilhando o pior teatro de guerra das guerras de África, como o era a Guiné... ao mesmo tempo... nos mesmos locais... e em algumas situações incríveis... não haverá muitos... se alguns houver!

Será que em relação aos outros (a nós), tanto a Giselda como o Miguel terão consciência do privilégio que é esta não necessidade das tais tão limitativas "explicações"?

Um grande abraço do
José Belo


Guiné > Bissalanca > BA 12 > 1972 > A Giselda (à direita), com um militar do Exército e a enfermeira Rosa Mota (Mendes pelo casamento).

Foto (e legenda): © Giselda Pessoa (2009). Todos os direitos reservados.(Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


3. Comentário do editor LG:

Zé Belo, querido amigo e camarada da diáspora, és sempre bem-vindo, a qualquer hora do dia, da semana, do mês ou do ano... Levantas a eterna questão da (in)comunicação humana, que já de si não é complexa, e ainda mais quando envolve combatentes e não-combatentes de uma guerra...

Será que o casal Miguel & Giselda por serem camaradas de armas, do tempo da guerra de África, tem esse problema "simplificado" ou "resolvido"?

Só eles, enquanto casal, poderão responder te, a ti e a nós... Mas, à partida, há questões sobre as quais estarão melhor sintonizados do que nós e as nossas caras-metade... ou nós e os nossos filhos, ou nós e os nossos amigos que não foram à guerra...

Quanto à sua história de amor e guerra, estamos de acordo: dava um grande filme, um grande documentário, um grande debate, um grande livro...

Há tempos uma das nossas estações televisivas interessou-se pelo seu "caso". Tanto quanto me lembro, era um daqueles programas, em direto, para o "grande público", de manhã ou de tarde, tendencialmente a puxar para o "popularucho", com conversas da treta, abordando problemas, alguns sérios, na verdade, mas de maneira ligeira, sem contextualização, explorando por vezes o sensacionalismo, quiçá o anedótico, o "voyeurismo" e até a lágrima fácil. Os convidados correm o risco de, expondo-se e expondo a sua vida íntima, fazerem o papel de "macaquinhos do circo"... Em suma, não devia ser para um trabalho sério de jornalismo de investigação, como estás a habituado a ver na Suécia, na terra dos teus filhos...

Contactaram-me, já não me lembro se foi no dia dos namorados... Conhecendo o Miguel como eu o conheço, ainda lhe telefonei a medo... Ia apanhando com um "Fiat G-91" na cabeça... Nem sequer sondei a Giselda...

Apesar de serem o "casal mais 'strelado' do mundo" (, como a gente lhes chama carinhosamente) (**), são o casal militar mais discreto e avesso à fama que eu conheço... Aliás, não conheço mais nenhum casal militar do nosso tempo, se bem que haja mais algumas enfermeiras paraquedistas casadas com camaradas de armas...

Enfim, são seguramente dois camaradas com um grande sentido de dignidade e querem respeitar (e fazer respeitar) a sua privacidade... Ambos têm partilhado, nas redes sociais, aquilo que entendem pertencer à história e ao "domínio público"... Mas não mais do que isso.


4. Comentário do José Belo, com data de 18 do corrente:

Desconhecia ter sido o Miguel Pessoa já anteriormente abordado pela TV quanto a um programa sobre eles, e que o mesmo se recusou a participar por razões, quanto a mim, bem justificáveis.

Daí que o meu E-mail anterior sobre o assunto só deverá ter um azimute que é o... TRASH (lixo)!


5. Resposta do editor LG:


José: Não concordo contigo quanto ao destino a dar à tua mensagem. Já expliquei no ponto 3 que o convite do programa televisivo não era aceitável pelo Miguel & Giselda,

Se não te importas, deixas-me fazer um poste (já estava feito na manhã do dia 18...) com a tua mensagem para mim, o texto publicado na Tabanca do Centro e a um comentário... Continuo a pensar que o Miguel e a Gisela mereciam/merecem muito mais e melhor... Este país, esta "nossa gente", tem que aprender ser grata e reconhecer o valor dos seus compatriotas, que se destacam, seja em que domínio for, incluindo na guerra e na paz. É preciso muitas vezes que esse reconhecimento venha "de fora", da "estranja"...

Até novas ordens, o poste (que estava feito, à espera de  publicado) não vai para a "pubela", como diziam os nossos beirões, alentejanos ou transmontanos dos anos 60 nos "bidonvilles" de Paris...

Vamos esperar também, o OK dos visados... Se eles disserem SIM, tu por certo dirás YES... Penso que é essa a tua vontade, afinal, porque muito os estimas e admiras.

Vistos de fora, os nossos camaradas, que são um casal, são dois heróis... Dentro da parvónia, limitaram-se a cumprir o seu dever... A história deles tem de merecer um outro olhar: tem de ser vista de cima, do Olimpo!... Que raio, com tantos comendadores da treta, não há guardião das comendas que diga: "Eh!, aquela homem e aquela mulher, aquele piloto aviador e aquela enfermeira paraquedista honraram a nossa Pátria, e têm em comum uma história bonita de coragem e de amor que deve servir de inspiração aos nossos filhos e netos"...

Acho que a questão que tu, Zé, pões, é muito interessante, a da (in)comunicação dos combatentes, vista de longe, vista da Tabancas da Lapónia e da Flórida. Os nossos queridos camaradas Miguel e Giselda não têm que responder ou acrescentar nada, já fizeram o que tinham a fazer, sem alardes... Quero/queremos que eles entendem isto como uma simples homenagem... e uma demonstração de carinho, tua e de todos nós. 


6. Comentário do Miguel, com data de ontem:

Caro Luís; se foi publicado na Tabanca do Centro, naturalmente poderá sair igualmente na Tabanca Grande... De resto, a abordagem do Zé Belo pareceu-me bastante interessante.

Aliás, de há muito que tenho um acordo com o Carlos Vinhal para reproduzirem os textos que vos possam interessar, sem mais burocracia.

Eu e a Giselda temos por hábito aceitar participar em programas (preferencialmente gravados) em que nos seja proposto falar das nossas experiências no Teatro de Operações da Guiné, fugindo a programas de entretenimento, em directo, que roçam o popularucho. E, como dizes, sou (somos) um bocado avesso(s) a dar nas vistas...(***)

Abraço.
Miguel
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Notas do editor:


(...) Aqui fica uma nova versão, por ordem alfabética. Está longe de estar completa... É apenas o embrião do proverbiário ds Tabanca Gramde... É uma recolha, onde todos/as podem colaborar... Cultivamos o humor e o humor (ainda) não paga imposto (...)

(...) Mais morto de alma do que vivo de corpo.
Mais vale um camarada vivo do que um herói...morto!
Miguel & Giselda, o casal mais 'strelado' do mundo
Muita saúde e longa vida, porque tu mereces tudo (...)

(***)  Último poste da série > 9 de março de  2017 > Guiné 61/74 - P17119: (De) Caras (68): Buruntuma, 1961: o enfermeiro Cirilo e o professor primário Timóteo Costa... (Jorge Ferreira / Mário Magalhães)

Guiné 61/74 - P17159: Notas de leitura (939): "Irmãos de Armas", por António Brito, Clube de Autor, 2016 (Mário Beja Santos)



Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Março de 2017:

Queridos amigos,
António Brito é um dos nomes consagrados da literatura da guerra colonial, devemos-lhe uma obra-prima titulada Olhos de Caçador, seguramente associado à sua experiência de paraquedista, foi combatente em Moçambique e participou em algumas das mais importantes operações em território moçambicano.
Para quem duvida que esta literatura já disse o que tinha a dizer, "Irmãos de Armas" irá surpreender os mais exigentes e os mais céticos, é um notabilíssimo romance, os Rolling Stones vão ser conhecidos desde as suas infâncias duríssimas, vamos acompanhá-los em operações arriscadíssimas e assistir ao seu triunfo, e depois o definhamento no regresso.
Como se escreve na capa do livro, a guerra transformou-os em matilha de caçadores, ninguém os treinou para viver em paz.
Que grande romance!

Um abraço do
Mário


"Irmãos de armas", por António Brito: 
Um notabilíssimo romance sobre a guerra colonial, do antes ao depois

Beja Santos

“Irmãos de Armas”, por António Brito, Clube de Autor, 2016, é um romance assombroso, daqueles que vai constar no conjunto das obras incontornáveis da literatura da guerra colonial. Devemos a António Brito uma obra-prima, um dos seis mais de sempre, "Olhos de Caçador", um herói paraquedista em Moçambique. Em Irmãos de Armas voltamos a Moçambique, vamos acompanhar a ascensão e a queda dos seis Rolling Stones, as pedras rolantes com quem se podia contar para as operações mais temíveis. Iremos à infância dura de todos estes futuros paraquedistas, no final seremos convocados para ajuizar a sua hecatombe e a homenagem que lhes prestam as mulheres amadas, mas nem sempre consideradas.

O narrador é Alex Baldaia, o alferes que comandou esta unidade combatente que percorreu os territórios mais arriscados de Moçambique, para destroçar operações da FRELIMO, arruinar-lhes equipamento de vária ordem ou laquear-lhes as redes de abastecimento. Alex vai remexer na cinza fria ao escrever o seu caderno de memórias em que um punhado de heróis condecorados, ao regressar, se tornou numa lista de pobres diabos dispersos na multidão, alucinados, traumatizados, desencontrados, delituosos.

Tudo vai começar no Dondo, Moçambique, em Setembro de 1970. A unidade dos Rolling Stones vai viver experiências emocionantes. Logo no Planalto dos Macondes, é aí que vão conhecer Filipe Maltês, Milhafre de seu nome de guerra, um piloto de helicóptero que será o companheiro de todas as sagas. Vão resgatar um desertor da FRELIMO, traz no alforge segredos comprometedores para a guerrilha. Logo o leitor irá mergulhar no horror da guerra, e arrepiar-se com as consequências na morte de um gato. Os nomes dos Rolling Stones só terão importância para lhes conhecermos as vicissitudes da vida civil, no antes e depois. No horror da guerra eles dão pelo nome de Jonas, Marradas, Cochise, Lince, Príncipe, movem-se com metralhadoras, bazucas e granadas diversas. A narrativa é compulsiva, uma autêntica montanha russa entre jovens que fogem da miséria, que emigram para os locais mais inacreditáveis mas também os mais acreditáveis, desde a América dos Peles Vermelhas até ao Barreiro. Transformaram-se em máquinas de guerra, toda esta narrativa buliçosa, explosiva, todo este linguajar de caserna socorre-se de prosopopeia, parágrafos rápidos, secos e disparados para meter o leitor no âmago das andanças, verdadeiras correrias na caça ao homem. Vamos conhecendo-lhes o passado, entremeado por cartas ou diários de mulheres influentes que quebram na trama narrativa o choque dos combates, das perseguições, das matanças. Os Rolling Stones devem ser tidos em alto conceito pelos comandos das forças armadas, dão-lhes as missões mais arriscadas, pelo caminho destroem tudo e põem as colunas guerrilheiras viradas do avesso.

Príncipe é um alferes paraquedista culto, medularmente líder, de instinto felino, um verdadeiro irmão mais velho desta pequena fraternidade. Movem-se como enguias, estes Rolling Stones, desembaraçados e expeditos, percebemos melhor a naturalidade do seu heroísmo quanto mais lemos sobre o que passaram na infância, como se endureceu o coiro e se fez um saber de experiência feito. É essa uma das notabilidades da narrativa de António Brito, não há tempo a adormecer ou esfriar a leitura, ou estamos nas profundezas de um Portugal paupérrimo ou saltamos de helicóptero para entrar na mata na caça ao homem ou resgatar algum dos nossos, que até pode ser piloto de helicóptero ou de T6. Liquida-se um grupo na Tanzânia e destrói-se todo o armamento, a escrita é envolvente e ribombante:
“Um vómito de terra e árvores jorrou do solo e elevou-se no ar. O chão fendeu-se em rasgões bárbaros, os túneis romperam-se como tripas podres cheias de peidos, vomitando gases, golfadas de trotil e ferro. Toneladas de morte destinada aos portugueses fundiram-se num pulsar da retina. Um eco de catástrofes espalhou-se pelas encostas, atordoando o vale. Reverberou mesmo depois de o solo em ruínas ter morrido desfigurado.
Da arriba nada restou. A aba encostada às cabanas ruiu como um bano falido. Naquele sítio a geografia mudara de lugar. Os mapas terão de ser refeitos.
Espalhados pela encosta, em cima das árvores, distinguimos restos de empenagens de rockets, aletas de granadas de morteiro, ferragens de metralhadora, motores de propulsão dos Strela.
Saímos dali com o coração num alvoroço.
Tínhamos aniquilado a morte”.

Este grupo de mosqueteiros audazes aproveita as pausas para frequentar bordéis, beber cervejolas, comer do bom e do melhor. Assiste ao desenvolvimento da guerra, a FRELIMO já não está só no Norte, avança para o Sul e Oeste de Moçambique, mais uma razão para os Rolling Stones destruírem corredores de abastecimento e pôr os guerrilheiros em fuga. Há quem já esteja a fazer segundas comissões, caso do sargento Sorraia, um homem da lezíria que não se ajeitou à vida de casado na Ribeira de Santarém, gosta de espalhar a sua adrenalina, não teme as balas nem a sede nem os reencontros com os frelimos.

Findo o heroísmo, em Fevereiro de 1972, regressam e a paz foi para todos eles uma tragédia. “Juntos sobrevivemos a mortes e desvarios, realizámos façanhas de epopeia que nos transfiguraram para sempre. Sabíamos que se fôssemos vivos, estivéssemos perto ou longe, não íamos faltar à chamada. Nisso podemos estar seguros, promessa feita a um camarada que combateu ao nosso lado, nos remendou as feridas do corpo e nos carregou às costas, dura mais que um talho rasgado na pedra bruta”. Alex fará a demanda de todos os seus camaradas. E no fim, para pasmo do leitor, serão as mulheres dos Rolling Stones que se encontram para os lembrar. O país de onde partiram ignora-os.

António Brito com Irmãos de Armas vem recordar-nos que a literatura da guerra colonial ainda está de muitíssimo boa saúde.
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de março de 2017 > Guiné 63/74 - P17151: Notas de leitura (938): (D)o outro lado do combate: memórias de médicos cubanos (1966-1969) - Parte XIII: O caso do médico militar, especialista em cirurgia cardiovascular, Virgílio Camacho Duverger [IV]: o fim de uma odisseia