Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada, o general Spínola, com o seu ajudante de campo, o cap cav cmd João Almeida Bruno, 1935-2022, mais tarde general (e que deu origem a uma das diversas alcunhas do general, "Aponta, Bruno").
Na foto, o Almeida Bruno (que faleceu em 10/8/2022, aos 87 anos), está de luvas e óculos Ray-ban, empunhando uma G3. O com-chefe, por sua vez, está também de luvas, e com o seu aristocrático monóculo. Estavam ambos em pleno local, onde se deu a emboscada, de que resultaram 2 mortos entre as NT.
A foto acima reproduzida (e editada pelo nosso blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...).
José Teixeira: (i) colaborador permanente (com o pelouro de Tabancas, Cooperação & Desenvolvimento ); (ii) ex-1.º cabo aux enf, CCAÇ 2381 (Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70); (iii) gerente bancário reformado, escritor, vive em Leça do Balio, Matosinhos; (iv) é um histórico da Tabanca Grande (desde 14/12/2005); (v) tem 460 referências no nosso blogue; (vi) cofundador e régulo da Tabanca de Matosinhos; (vii) é autor da série "Estórias do Zé Teixeira", de que já se publicaram 65 postes, desde 31/12/2005 a 30/10/2024; (viii) é também autor da série "O meu Diário"...
1. O Zé Teixeira, além de ser um "histórico" da Tabanca Grande (foi dos primeiros camaradas a sentar-se, simbolicamente, à sombra do nosso poilão...), foi também (e continua a ser) um profícuo, talentoso, ativo, proativo e bem-humorado autor de textos de memórias: por exemplo, nos primeiros mil postes que publicámos, 60 são dele (entre dezembro de 2005 e julho de 2006).
O Zé Teixeira foi dos que acreditou na força, importância e viabilidade do nosso projeto bloguístico coletivo, como repositório (partilhado) de memórias de antigos combatentes da Guiné. E o tempo deu-lhe razão. Tem sido também dos mais "leais" grão-tabanqueiros.
Estive com ele, na passada quinta feira, dia 9: fui a um velório de uma senhora amiga da família de Candoz, na igreja de Padrão da Légua, Matosinhos, perto da sua casa, e que ele de resto conhecia; dei-lhe um toque, apareceu logo a seguir, conversámos um pouco; anda compreensivelmente preocupado com uns problemas de saúde; espero que o prognóstico lhe seja favorável; quero voltar a ver-te, Zé, em boa forma!)
Do poste P613, de 16 de março de 2006 (há 20 anos!), sob o título "Aponta, Bruno! (ou outra alcunha do Spínola) (Zé Teixeira)", voltamos a publicar uns excertos, que ficam muito melhor nesta série "Humor de caserna > O anedotário da Spinolândia" (*).
Esta "cena" deve ter-se passado em Buba, em meados de 1969, quando os "Maiorais" (a CCAÇ 2381) estiveram particularmente empenhados na seguranç e proteção dos trabalhos de construção da estrada Buba - Aldeia - Formosa. Spínola tinha então 59 anos (!). Se fosse vivo faria hoje, 11 de abril, 106 anos. Nasceu em Estremoz em 11 de abril de 1910. Morreu, aos 86 anos, em 13 de agosto de 1996, no Hospital Militar de Belém, em Lisboa.
Alcunhas do Spínola: do "Caco Baldé" ao "Aponta, Buno"
por José Teixeira
— O Aponta, Bruno!... Aí vem o Aponta, Bruno ! — dizia logo o pessoal quando se avistava o héli que o transportava.
Porquê ? Toda a zona de Buba, Nhala, Mampatá, Chamarra e Aldeia Formosa esteve uns tempos a comer, ao almoço e ao jantar, arroz com arroz e de vez em quando uma amostra de chispe. A barcaça que levava os mantimentos foi afundada pelos nossos amigos, e ficámos a ver . . . barcaças
Isto gerou um mal estar que mais se agravou com o ataque às 5 da matina, como já contei no meu diário .
Devo dizer que a minha companhia estava reduzida a 36 homens operacionais, dado esforço que se estava a fazer com a protecção à nova estrada de Buba para Aldeia Formosa, em que saíamos com o que seriam três pelotões às seis da matina. Regressávamos à tarde, e no dia seguinte estávamos de serviço à segurança do quartel e logo de seguida abalávamos de novo para a estrada.
Então o homem chega e começa o discurso:
— Pátria está a exigir de vós um grande esforço e vós sois .....blá, blá, blá. Sei que a comida não tem sido a melhor, mas a Pátia exige sacrificios... blá, blá,blá. Quando estiverdes a comer feijão ou arroz, sem mais nada, fechai os olhos e imaginai-vos a comer um belo perú recheado ou um grãozinho com bacalhau, lá em Lisboa... blá, blá, blá.
Acompanhava-o um capitão, seu ajudante de campo, que toda a gente conhece, e perante as reclamações do major e do médico, o Spínola só dizia:
— Aponta, Bruno!
Felizmente tinhamos um excelente médico, a quem presto a minha homenagem no Blogue, o Dr. João Carlos de Azevedo Franco, que, à mais pequena mazela, muitas vezes resultante do estado psicológico em que vivívamos, dava uma baixa.
Recordo que nesse célebre dia do Aponta, Bruno, , o Spínola disse ao médico:
— Estes rapazes o que precisam é de umas picas, vou lhe mandar uma boa dose de medicamentos... Aponta, Bruno!
Ao que o médico lhe respondeu:
— O que eles precisam é de uns bons bifes e descanso.
Claro está que o capitão Bruno não apontou o que o médico disse. Mas, não é que oito dias depois chega a barcaça com mantimentos e duas enormes caixas de medicamentos não solicitados ?!
Escusado será dizer que foram devolvidas ao remetente, com a informação "medicação não solicitada"... E a vida continuou.
(Revisão / fixação de texto, título, negritos, itálicos: LG)
2. Ficha de unidade > Companhia de Caçadores nº 2381
Identificação CCaç 2381
Unidade Mob: RI2 - Abrantes
Cmdt: Cap Mil Inf Jacinto Joaquim Aidos | Cap Mil grad Inf Eduardo Moutinho Ferreira Santos
Divisa: "Os Maiorais" - "Pela Lei. Pela Grei"
Partida: Embarque em 01Mai68; desembarque em 06Mai68 | Regresso: Embarque em 03Abr70
Síntese da Actividade Operacional
(i) Em 06Mai68, seguiu para Ingoré, a fim de efectuar a instrução de aperfeiçoamento
operacional com a CCaç 1801, sob orientação do BCaç 1933 e seguidamente, assegurar a segurança e proteção dos trabalhos de reordenamento de Antotinha e efectuar ações de patrulhamento e emboscadas nas áreas dos corredores de Sano e Canja, em reforço da guarnição local e daquele batalhão.
(ii) Em 18Ju168, na sua função de subunidade de reserva do Comando-Chefe, foi deslocada para Buba, a fim de reforçar o BCaç 2834, em substituição da CArt 1613, que anteriormente recolhera a Bissau, por fim de comissão.
(iii) Em 08Ago68, por troca com a CCaç 2382, assumiu a responsabilidade do subsector de Aldeia Formosa, com pelotões destacados em Chamarra, de 10Ago68 a 08Fev69, ficando integrada no dispositivo e manobra do COSAF/ COP 1 e depois do BCaç 2834.
(iv) Em 04Jan69, substituída pela CCaç 1792, seguiu para Buba, no mesmo sector, a fim de colaborar na segurança e protecção dos trabalhos da estrada Buba-Aldeia Formosa e na ação de contrapenetração, passando a ficar integrada no dispositivo e manobra do COP 4, então criado, a partir de 19Jan69.
(v) Em 01Mai69, por troca com a CCaç 1792, assumiu a responsabilidade do subsector de Empada, continuando na dependência do COP 4 e depois do BCaç 2892 e mantendo dois pelotões em Buba até 03Dez69, um dos quais foi deslocado para Mampatá, de 04 a 31Mai69, orientando a Companhia a sua atividade para a realização de emboscadas, patrulhamentos e defesa e controlo das populações.
(vi) Em 26Fev70, foi rendida no subsector de Empada pela CArt 2673 e recolheu a Bissau, em 28Fev70, a fim de aguardar o embarque de regresso.
Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº 94 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).
Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 366.
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Nota do editor LG:
Últimpo poste da série > 10 de abril de 2026 >
Guiné 61/74 - P27908: Humor de caserna (255): O anedotário da Spinolândia (XXVII): Os comparsas da FAP - Parte II