1. Texto publicado na página do Facebook da Tabanca Grande, no passado dia 15 de setemebro, terça feira, pelo nosso amigo e camarada Angelino Santos Silva.
A obra foi publicada em 2026, tem 455 páginas e constitui o primeiro volume de um projeto que terá continuação.
O título é particularmente significativo. A expressão “Geração Afro” desloca o centro da narrativa do combatente português para uma realidade mais ampla: a dos homens africanos que combateram de ambos os lados da guerra.
Uma das principais qualidades da obra está em não reduzir a Guerra Colonial a operações militares, emboscadas, minas ou confrontos entre o Exército Português e o PAIGC.
O verdadeiro objeto do romance é o ser humano colocado perante uma situação-limite.
Portugueses e africanos aparecem unidos por circunstâncias históricas, mas separados por experiências, interesses e expectativas diferentes. Os jovens portugueses chegam à Guiné inicialmente convencidos de que defendem uma causa patriótica. Progressivamente, porém, confrontam-se com a realidade colonial e com a complexidade da sociedade guineense.
Mais interessante ainda é a representação dos africanos que combatem ao lado de Portugal. O romance procura mostrar que estes homens não podem ser simplesmente classificados como “colaboracionistas”. São indivíduos com famílias, afetos, ambições, medos e conceções próprias sobre o futuro da Guiné.
Do outro lado estão os combatentes do PAIGC. A dimensão trágica nasce precisamente do facto de muitos deles serem irmãos, primos, meios-irmãos ou membros da mesma comunidade. A guerra deixa, portanto, de ser apenas uma guerra entre dois exércitos: torna-se também uma guerra dentro das próprias famílias e comunidades africanas.
Este é, provavelmente, um dos aspetos mais relevantes do romance.
Na literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial, existe uma tradição importante de representação do soldado português, da sua angústia, do absurdo da guerra e do trauma do regresso. Recaredo parte dessa tradição, mas procura acrescentar-lhe uma dimensão particularmente importante: dar voz aos combatentes africanos.
É justamente essa complexidade que dá ao romance uma das suas maiores potencialidades históricas e literárias.
Os protagonistas pertencem a uma geração que participa numa guerra destinada a preservar uma estrutura política e colonial que já se encontra historicamente enfraquecida. Existe, por isso, uma contradição fundamental: os jovens combatentes lutam com coragem e, muitas vezes, com genuíno patriotismo, mas o projeto político pelo qual combatem aproxima-se do seu desaparecimento.
É aqui que o título ganha todo o seu significado.
Os “últimos guerrilheiros do Império” são simultaneamente combatentes e testemunhas de uma derrota histórica.
O romance não parece interessado em transformar essa derrota numa simples acusação moral contra os soldados. Pelo contrário, procura compreender o que levou aqueles homens a combater e o que aconteceu às suas vidas depois da guerra.
Essa atitude dá à obra uma dimensão memorialista importante: compreender não significa necessariamente justificar.
Um dos percursos psicológicos mais importantes é a passagem do patriotismo inicial para o desencanto.
O romance acompanha esse processo de transformação: o soldado que inicialmente pensa em termos de Pátria, honra e dever começa a confrontar-se com a morte, a mutilação, o sofrimento dos civis, a pobreza e as contradições do sistema colonial.
O desencanto não significa necessariamente perda de amor pelo país. Significa, antes, uma descoberta dolorosa da distância entre aquilo que lhes foi ensinado e aquilo que encontram no terreno.
Esta é uma das dimensões mais humanas da obra.
Outro aspeto importante é a reflexão sobre a ética da guerra.
- Quando é legítimo matar?
- Qual é a diferença entre matar por necessidade e matar por vingança?
- Pode existir heroísmo numa guerra?
- Quem determina aquilo que é justo?
- Como distinguir o inimigo do ser humano?
- O soldado é responsável pelas decisões políticas que conduzem à guerra?
Formalmente, o romance apresenta uma estrutura relativamente ambiciosa.
A narrativa organiza-se em 68 capítulos, alternando diferentes núcleos de personagens e diferentes momentos da Guerra Colonial. Há personagens que chegam à Guiné em 1966 e outras que chegam em 1970, permitindo representar experiências distintas do conflito.
- narrativa de ficção;
- memória autobiográfica;
- cartas;
- diálogos;
- episódios militares;
- reflexão histórica;
- poesia;
- comentário político.
Esta mistura de géneros constitui simultaneamente uma força e uma fragilidade.
É uma força porque torna a obra multifacetada e aproxima-a de uma espécie de arquivo literário da memória da guerra.
Mas também pode ser uma fragilidade porque as longas digressões históricas interrompem, por vezes, o ritmo da ação.
A linguagem é outro elemento característico.
Recaredo recorre frequentemente a uma linguagem oral, militar e popular, incorporando expressões utilizadas pelos combatentes da época. Surge também vocabulário ligado à realidade guineense, incluindo termos de crioulo e palavras referentes à cultura, à alimentação, à fauna e à paisagem africanas.
Essa opção tem grande importância porque cria verosimilhança histórica.
O leitor não encontra apenas uma descrição abstrata da Guiné: encontra uma linguagem que procura reproduzir o ambiente vivido pelos homens que participaram naquele conflito.
As cartas e alguns momentos de carácter poético introduzem, por outro lado, uma linguagem mais intimista, permitindo equilibrar a dureza da narrativa militar.
A Guiné não funciona simplesmente como cenário.
O ambiente condiciona o comportamento dos soldados e contribui para a sensação de vulnerabilidade permanente.
A natureza é simultaneamente bela e ameaçadora. O soldado combate um inimigo que conhece parcialmente, mas combate também um território que lhe é estranho.
Esta dimensão ajuda a compreender por que razão a guerra de guerrilha se transforma numa experiência psicológica tão desgastante.
Aqui é necessário fazer uma distinção importante entre romance histórico e obra historiográfica.
"Geração Afro" utiliza acontecimentos, personalidades e contextos históricos reais, mas continua a ser uma obra literária. As interpretações apresentadas pelas personagens não devem ser automaticamente tomadas como verdades históricas.
Este ponto é particularmente relevante quando o romance aborda episódios controversos da Guerra Colonial, como o Massacre do Chão Manjaco, ou interpretações sobre as relações entre Spínola, a PIDE/DGS e o PAIGC. A análise crítica disponível identifica essas posições como interpretações heterodoxas sustentadas dentro da narrativa.
Literariamente, isto pode ser muito produtivo: permite às personagens discutir versões diferentes da História.
Talvez a melhor maneira de definir o romance seja como uma obra de memória.
Entre os principais méritos do romance destacaria:
- A valorização das personagens africanas, evitando tratá-las simplesmente como figurantes;
- A multiplicidade de perspetivas sobre a Guerra Colonial;
- A dimensão humana, que coloca o sofrimento individual acima da estratégia militar;
- A riqueza documental e vocabular;
- A recuperação da memória dos antigos combatentes;
- A reflexão sobre o fim do Império Português;
- A tentativa de ultrapassar a divisão simplista entre colonizador e colonizado:
- A articulação entre ficção e experiência vivida.
Uma análise crítica equilibrada deve também apontar algumas limitações.
A primeira é a já referida irregularidade do ritmo narrativo. As digressões históricas e filosóficas podem afastar o leitor da ação.
A segunda está relacionada com a própria ambição da obra. Ao querer ser simultaneamente romance, testemunho, ensaio histórico, reflexão política e documento de memória, o livro corre por vezes o risco de sobrecarregar a narrativa.
Também a linguagem oral, embora seja uma importante marca de autenticidade, pode produzir alguma irregularidade estilística.
Finalmente, por se tratar do primeiro volume de uma obra projetada para continuar, alguns conflitos e trajetórias ficam necessariamente em aberto. A própria análise crítica publicada observa que essa continuidade pode justificar determinados nós narrativos, mas reduz a autonomia deste primeiro volume.
"Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império" é, acima de tudo, um romance de memória, guerra e desencanto.
A sua maior contribuição está na tentativa de olhar para a Guerra Colonial da Guiné não apenas através do soldado português, mas também através dos africanos que combateram de ambos os lados do conflito. Dessa forma, a obra desmonta uma visão excessivamente binária da guerra e mostra uma realidade em que as fronteiras políticas frequentemente atravessavam famílias, comunidades e afetos.
O romance não pretende apenas reconstruir batalhas. Pretende recuperar homens concretos, com os seus medos, convicções, contradições e feridas.
Nesse sentido, a expressão “últimos guerrilheiros do Império” assume um significado profundamente simbólico: aqueles homens são simultaneamente protagonistas de uma guerra e testemunhas do desaparecimento do mundo político em que essa guerra fazia sentido.
O maior mérito de Recaredo está, portanto, em transformar a memória individual numa memória coletiva, lembrando que o fim da guerra em 1974/75 não significou necessariamente o fim das suas consequências. Para os combatentes, para as suas famílias e para as sociedades portuguesa e guineense, a guerra continuou — na memória, no silêncio, no trauma e na necessidade de compreender o passado.
Por isso, "!Geração Afro" pode ser lido não apenas como um romance sobre a Guerra Colonial, mas como uma tentativa de responder a uma pergunta fundamental: como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?
É precisamente nessa procura — entre História e memória, patriotismo e desencanto, portugueses e africanos, ficção e testemunho — que reside a força e também a complexidade da obra.
Análise crítica feita por ferramenta de IA (ChatGPT / Open AI), a pedido do autor
Último pposte da série > 14 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28346: Notas de leitura (1960): "O Imenso, Sereno e Doce Rio", de Rui de Azevedo Teixeira; Guerra e Paz Editores, 2023 (Mário Beja Santos)
















_v2.jpg)
.png)











