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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28369: Retalhos da vida militar (10): As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Guiné > Região do Oio > Jumbembem > CART 730 (1965/67) > Estes eram meninos de Jumbembem que eu gostava de ensinar.
Foto: © Artur Conceição


1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:


As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão

Tendo em conta vários factores, este episódio terá acontecido em novembro de 1965 em Jumbembem. A CART 730 chegou à Guiné em outubro do ano de 1964. Era prática ao fim de um ano de Guiné vir de férias à Metrópole. Esta prática não era uma prática geral, mas era prática para Oficiais e Sargentos. Para as praças era muito rara, era quase exclusiva para os contemplados com o chamado Prémio do Governador Geral da Guiné, atribuído por actos valorosos de alguns militares.

O comandante da CART 730, Amaro Rodrigues Garcia, encontrava-se de férias na Metrópole e o comando da CART 730 estava entregue ao Alferes Francisco Miranda Ferreira, que penso que tal como o Alferes Orlando Valdez já terá falecido, por ser o mais antigo dos oficiais presentes. Tinha sido o dia mensal da ida a Farim para buscar os mantimentos para o mês. Acontece que, por acaso, naquele mês vinham algumas galinhas que não ultrapassariam a dúzia. Perante quantidade tão reduzida não faria muito sentindo irem para o rancho geral das praças.

Assim foi decidido por quem tinha poderes para o acto, de que as galinhas iriam ser consumidas nas Messes dos Oficiais e dos Sargentos.

Quando as Praças tiveram conhecimento da decisão que havia sido tomada, resolveram apresentar o seu protesto.

Ao final da tarde, já depois de todas as galinhas terem regressado ao seu poleiro, resolveram saltar para cima dos Unimogs e durante mais de uma hora fizeram uma serenata junto das Messes. Para o efeito foi utilizada a música e letra de uma canção muito usada ao tempo e que era cantada pelo Conjunto de António Mafra.

Ho senhora Marquinhas olhe que suas galinhas fugiram do capoeiro.
Ho senhora Marquinhas cuidado com as suas galinhas porque o meu galo é solteiro

__________

O Alferes Francisco Ferreira, sobre quem caía toda a contestação, refugiou-se no Posto de Rádio e aguardou que os ânimos se acalmassem.

O Alferes Ferreira era uma excelente joia de pessoa e toda a Companhia gostava muito dele. No dia seguinte tudo tinha passado e as galinhas foram consumidas de forma pacífica.

Toda a Companhia tinha muita consideração pelo Alferes Chico Ferreira, mas confesso que tive pena dele quando o vi perante uma situação que não era de perto nem de longe invejável.

Quero deixar aqui mais uma memória que eu encontrei.

O nome do criador deste espaço tem a afinidade com o meu nome. Senão vejamos:
O nome Luís Henriques Graça, filho do Henrique e da Graça tem alguma afinidade com:

O nome Artur António da Conceição, filho do António e da Conceição.

O meu padrinho, Hipólito Fernandes Nogueira, que já vai a caminho dos 95, que esteve prisioneiro na Índia, ainda hoje quando vê o seu primeiro afilhado que adquiriu logo aos 10 anos, ainda exclama, olha o Artur do António e da Conceição!

Artur António da Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
Diácono das praças da CART 730
Em 7-9-2026

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Nota do editor

Último post da série de 8 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28332: Retalhos da vida militar (9): Couves para a Ceia de Consoada (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Guiné 61/74 - P28368: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (20): a "Venda" na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX - Parte II: Neorrealismo (Manuel da Fonseca, Alves Redol, Fernando Namora)

 























Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Em todas as nossas terras havia uma venda, ou pelo menos uma taberna.  No seu romance,  "3 x 44: Abel e Caim en Contrapé (Porto: Vida Económica, 2026, pp.33-36), o António Carvalho tem uma primorosa descrição da "venda da igreja", no lugar de "Emendadas" (leia-se: Medas, Gondomar), em plena II Guerra Munidal.

 Para além da função comercial (estabelecimento onde os aldeões, os vilões e até os viajantes se abasteciam do que precisavam para a sua subsistência ou viagem), a venda (misto de taberna, merceria, casa de pasto e até hospedaria) era um local de socialização por excelência. E um dos raros espaço de liberdade ou de evasão, naquela época, no Portugal provinciano do Estado Novo.

A minha terra, uma vilória do Oeste, teria uma meia dúzia de tabernas, quando eu era puto: umas evoluiram, outras extinguiram-se. O cheiro a sarro e serradura no chão ainda está "entranhado" nas minhas memórias de infância... Uma das últimas, que eu frequentei, com o jornal diário ("Diário de Lisboa") ou um semanário ("Comércio do Funchal") e um livro debaixo do braço, já depois de vir da Guiné, em 1971, era a "Taberna do Macaco". 

Era também conhecida, ironicamente, por "Sociedade de Geografia", onde se reunia a "nata" local dos "colarinhos brancos", a pequena burguesia do funcionalismo público  (câmara municipal, tribunal,  finanças, conservatórias, grémios, etc.). Funcionava como tertúlia, ao fim da tarde, depois de fecharem os serviços.

A expressão, "Sociedade de Geografia",  é atribuída a um poeta local, o saudoso Mariano Vicente (1917-1977), homem de fino trato, autodidata,  que era contabalista da firma José Maria Carvalho, e  que foi escritor, jornalista, poeta de talento, e um dos raros lourinhanenses que se assumia publicamente como figura da oposição democrática local.

O topónimo, "Taberna do Macaco", advinha-lhe da existência de um pobre babuíno ("macaco-cão", no crioulo da Guiné), trazido por antigo combatente  lourinhanense, no regresso da guerra de Angola, logo no início. Do alto do seu poiso, numa trave de eucalipto, o bicho assistia a acaloradas partidas de chinquilho, jogatanas de sueca e também a umas rodadas de "tinto", acompanhando os pratinhos de salada de polvo.  Morreu, no exílio e, por certo, de saudade dos cafezais do Norte de Angola. E sem nunca ter ouvido discussões, em voz alta, sobre a guerra do ultramar, tema que era tabu.

Sem preocupações de sermos exaustivos, nem muito menos originais, vamos continuar a procurar referências literárias à "Venda" que, no séc. XX, passa a ser sobretudo a "Taberna" (ou a "Tasca"), e que sobreviveu até ao 25 de Abril de 1974. (*) 

Neorrealismo português (meados do século XX):  a representação da venda e da taberna 


Há aqui uma profunda viragem ideológica e estética, ao relação ao romantismo e ao naturalismo do séc. XIX.   O espaço perde quase por completo a conotação pitoresca, folclórica,  romântica ou até pícara do séc. XIX e as primeirs décadas do séc. XX,  para se converter no foco da consciência de "classe", do desespero e da opressão social. (Para já fica de fora desta análise, a  taberna dos bairros populares de Lisboa, intimamente ligada à história do fado.)

Se no séc. XIX a venda, no interior do país, era o poiso do viajante, o local das bisbilhotices da aldeia mas também o sítio onde chegavam, atrasadas, as notícias da capital, é no romance neorrealista que ela assume mais nitidamente três funções fundamentais:

(i) espaço da servidão financeira: é onde o camponês, o ganhão, o jornaleiro, oo cabvador de enxada, o minmeiro ou o operário gasta a sua féria, jorna ou salário, vende a sua força de trabalho a eito (ao primeiro agente da "praça da jorna"), empenha a pouca terra que tem ou amanha, acumula a dívida do "fiado" na caderneta da loja, ficando, enfim,  acorrentado ao comerciante ("vendeiro") ou ao lavrador abastado;

(ii)  "válvula de escape" do alcoolismo: o álcool (o vinho e o bagaço) surge como um anestésico amargo contra a miséria, o cansaço do trabalho esgotante e o desemprego sazonal (e nomeadamente no inverno);

(iii) fórum da solidariedade e da revolta de "classe": é na penumbra da venda ou da taberna, longe dos olhos daos patrões,  autoridade e da polícia, que nascem os sussurros de greve, a solidariedade entre o proletariado (urbano e rual)  e a tomada de consciência política.

Três autores, entre outros, podem ser aqui citados, ligados à estética neorrealista. São hoje, injustamente, tratados como "escritores menores", sobretudo pela crítica académica. Ou, pelo menos, estão já esquecidos, apesar da existência, em Vila Franca de Xira, do Museu do Neorrealismo. (A escolha de Vila Franca de Xira não foi casual; a região do Ribatejo, as lezírias, o trabalho duro no campo e no Tejo, serviu de cenário e inspiração direta para obras estruturantes como o romance Gaibéus (1939) de Alves Redol, que é justamente considerado o marco fundador do movimento neorrealista;  o museu consolida essa ligação identitária entre o território e a criação literária.)


Manuel da Fonseca (Santiago do cacém, 1911 - Lisboa, 1993)


  • Manuel da Fonseca: a taberna alentejana como palco do drama social


Manuel da Fonseca, alentejano de Santiago do Cacém,  foi talvez quem melhor terá captado a atmosfera densa e dramática das vendas / tabernas das vilas e montes do Alentejo. Retrata o Alentejo com um tom lírico e social, onde a venda é um símbolo da comunidade e da identidade local.  A taberna é um refúgio escuro de homens de chapéu enterrado até às orelhas.

Obras de referência: Cerromaior (1943), Seara de Vento (1958)

A venda e a taberna são espaços de convívio popular, onde se retratam os costumes e as dificuldades do mundo rural alentejano. Em Aldeia Nova, a venda da aldeia é um local onde se reúnem os trabalhadores agrícolas, trocando histórias e queixas. Na venda, entre copos de vinho e conversas arrastadas, os homens da aldeia falavam das secas, dos patrões, e das promessas não cumpridas.

Em Seara de Vento, a mercearia é um espaço de resistência cultural, onde se preservam tradições orais.

Seara de Vento (1952):

A taberna é o centro gravitacional onde a fome e a opressão dos ceifeiros desempregados se condensam:

(...) "A taberna estava cheia de uma fumaça densa que fazia doer os olhos. Homens de braços cruzados, encostados ao balcão de madeira gasta, ouviam em silêncio. Não havia dinheiro para o vinho, nem sequer para o fiado. O taberneiro olhava de lado, com a caderneta das dívidas aberta sobre a gaveta do tinto. Ali, no escuro daquele compartimento que cheirava a aguardente e a suor antigo, a raiva dos homens não fazia barulho: crescia por dentro, devagar, como o fogo na ceifa." (...)

Cerromaior (1943) / O Fogo e as Cinzas (1951) (contos) 

Nas suas narrativas curtas, as vendas de beira-estrada alentejanas são descritas com um lirismo duro: o jogo da bisca, o murmúrio dos homens sós e o olhar vigilante dos proprietários rurais (ou dos seus maiorais ou manajeiros) que controlam quem bebe e quem fala.

Em Cerromaior (1943), a venda, o café e o clube são três lugares distintos, social e espacialmenet segregados:

(...)  " - Então, por cá Maltês ?

Maltês não respondeu, entretido em arranjar as calças em volta da corda que lhe servia de cinto, A seguir torceu as pontas  do colete, que pingaram para o chão escuro da venda, e uniu-o, ajeitando-o sobre o  peito arqueado.

Chegou-se ao balcão.

- Enche-me um dos grandes, Brissos.

O homem da venda olhou-o, inquisitivo. Maltês aparou-lhe o olhar, sereno,  como se não temesse nem devesse. O Brissos curvou-se, encheu o copo. Maltês esvaziou-o. Pediu outro. O sol aparecia, luminoso,  por entre a   chuva miúda que abrandava. Voltou atrás, jogou a manta paar o ombro. Rapidamente, à laia de despedida, disse:

- Mete na conta, Brissos. " (...)



Alves Redol (Vila Franca de Xira, -1911- Vila Franca de Xira, 1969)


  • Alves Redol: o feitor, o fiado e o trabalho duro

Em Alves Redol, o pioneiro do movimento com Gaibéus (1939), a venda e a taberna no Ribatejo e na lezíria  surgem intimamente ligadas à exploração do trabalho agrícola sazonal.  São espaços fundamentais no Ribatejo rural, onde se retratam as condições de vida dos trabalhadores do campo (gaibéus, ceifeiros) e do rio (avieiros). 

Além dos Gaibéus, outras obras de referência são Barranco de Cegos (1961) e Avieiros (1942)

 Em Gaibéus, a venda é descrita como um local de encontro dos trabalhadores, onde se trocam notícias, se bebe vinho e se tecem intrigas. A venda era o "coração da aldeia",  ali se falava dos patrões, das jornas, das colheitas, e até dos amores e desamores  que excitavam corpos e inebriavam almas.

Alves Redol documenta o Ribatejo com um olhar neorrealista, onde a venda é um microcosmo da vida rural e das tensões sociais.A venda à beira da estrada é um motivo recorrente, simbolizando a marginalidade e a luta pela sobrevivência

Em Barranco de Cegos, a mercearia é um espaço de resistência e solidariedade entre os mais pobres.
Em Avieiros, a taberna à beira do rio é um local de abrigos para os corpos cansados  para os trabalhadores do Tejo.

Gaibéus (1939):

(...) "A loja do senhor Tomé era o coração faminto da aldeia. Vendia-se lá de tudo: desde o petrópio para os candeeiros ao bacalhau duro como tábua. Mas o que mais pesava na loja era o lápis do vendedor a apontar no caderno as somas do fiado dos camponeses. Cada côdea de pão levada para casa vinha carregada com os juros da miséria. Na taberna ao lado, os ceifeiros ribatejanos afogavam a mágoa do salário de fome em quartilhos de tinto carrascão." (...)

Em Fanga (1943), Redol explora a figura do pequeno comerciante da venda que, embora pertencendo ao povo, atua muitas vezes como intermediário e instrumento de pressão dos grandes latifundiários sobre os camponeses enfraquecidos pelas dívidas.

 

Fernmando Namora (Condeixa-A-Nova, 1919 - Lisboa, 1989)


  • Fernando Namora: a  taberna das Beiras vista pelo João Semana

Em Fernando Namora, particularmente nos romances de ambiente rural da Beira Baixa e Serra da Estrela, a venda e a taberna surgem vistas através do olhar do médico de aldeia, o "João Seamana", que testemunha a degradação física e moral causada pelas condições de vida.

Retalhos da Vida de um Médico (1949/1963):

(...) "A taberna do Ti Bento era um antro enfumaçado onde a gente da serra se ia encharcar em vinho roxo para esquecer a geada e a fome. O ar era irrespirável, impregnado do cheiro a sardinha assada, a sabão e a roupas encharcadas pela chuva. Naquela penumbra, entre um gole e uma praga, viam-se os rostos chupados pela maleita e pela tuberculose. Para aquela gente, a taberna não era um vício: era o único posto de socorro contra a dor de viver." (...)

Mina de S. Francisco (1946):

Nas zonas de mineração do volfrâmio, a venda torna-se a "loja da empresa" ou o estabelecimento explorador onde o mineiro deixa o magro salário do mês antes mesmo de o receber, trocando o seu suor por víveres de péssima qualidade. (A ação do romance situa-se no Fundão.)

Síntese das diferenças estéticas sobre a venda / taberna  na literatura dos séc. XIX e XX

(i) Século XIX (Camilo, Eça)

  • Ambiente: pitoresco, acolhedor, idílico, pícro ou tragicómico.
  • Vinho: elemento de folguedo, apetite e convívio rústico.
  • Função: pousada de viajante, troca de notícias da capital.
  • Protagonistas: almocreves, fidalgos, morgados e estalajadeiros/as

(ii) Século XX (Neorrealismo) (Alves Redol, Manuel da Fonseca)

  • Ambiente: denso, enfumaçado, claustrofóbico e tenso.
  • Vinho: anestésico contra o desemprego, a fome, o frio e o desespero.
  • Função: mecanismo de endividamento e controlo social.
  • Protagonistas: ceifeiros, jornaleiros, operários, mineiros e o "fiador".

 
 Conclusão: A "Venda/Taberna" como Símbolo Literário

A "venda" (merceria, taberna, loja) na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX assume múltiplas funções:  (i) espaço social (local de encontro, convívio e trocas) (Eça, Camilo, Alves Redol);
(ii) crítica social (retrato das desigualdades e conflitos de classe) (neorrealismo: Alves Redol, Manuel da Fonseca); (iii) cenário etnográfico (descrição dos costumes e da vida rural (Camilo, Aquilino); (iv) símbolo de resistência e espaço de solidariedade entre os mais pobres (Manuel da Fonseca, Alves Redol).
 
Pesquisa: LG + Museu do Neorrealisno + Wikipedia + IA (ChapGPT, Mistral)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG
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Nota do editor LG:


Guiné 61/74 - P28367: Agenda cultural (903): Feira do Livro de Fafe, Biblioteca Municipal, 24/9/2026, 5ª feira, 16h00: apresentação do livro do Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não Esquecemos os Jovens Militares do Concelho da Lourinhã Mortos na Guerra Colonial"

 


Cartaz com o anúncio do livro do nosso camarada e amigo Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, 1º CCP / BCP 21 (Angola, 1970/72), que vai ser apresentado no dia 24 de setembro, quinta feira, às 16h00, na Biblioteca Municipal de Fafe, no âmbito da Feira do Livro de Fafe, 1ª edição, 2026. 


Recorde-.se aqui algumas datas-chave da sua história de vida:

Jaime Silva (foto ao lado):

(i) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(ii) cumpriu o serviço militar obrigatório (jan 1969 / jul 1972);
(iii) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, fev 1970 /jul 72;
(iv) foi condecorado com a medalha de Cruz de Guerra de 3ª Classe;
(v) licenciado em Educação Física (ISEF / UTL, 1978);
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura" (1986-1997);
(vii) viveu lá durante cerca de 4 décadas; e lá nasceram os seus filhos Pedro e Sofia;
(viii) é professor de educação física, reformado (Escola Secundária e Escola Superior de Educação de Fafe);
(ix) é membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(x) tem 145 de referências, no nosso blogue;
(xi) tem página pessoal do Facebook;
(xii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1) (prefácio, de Luís Graça: O direito a não ficar na 'vala comum do esquecimento', pp. 21-27: posfácio, de Joaquim Pinto de Carvalho: Entre as brumas da memória..., pp. 229-233);

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28366: Notas de leitura (1963): "Sobretudo a Agonia, Angola, Memórias de uma Guerra Íntima", por Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento, 2025 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Começa a ganhar velocidade de cruzeiro esta nova dimensão da literatura da guerra colonial em que os filhos de ex-combatentes vão pelos trilhos do passado, evocam o percurso do pai, no caso vertente Celso Braga Rosa consegue dar-nos o ambiente de horror que se viveu em Carmona (hoje Uíge) na guerra travada entre o MPLA e o FNLA, a fuga dramática de brancos e pretos, os raptos, os roubos, os vexames, a agonia vivida até chegar um avião que os transportou para Portugal. E temos aqui uma relação não conseguida entre pai e filho, como o autor dirá na parte final, a originalidade desta obra assenta também em escritos que são memórias dos outros, portanto citações adequadas e ajustadas, há citações de sufoco, até lamentos por termos perdido a memória como escreveu António Lobo Antunes em Os Cus de Judas: "Tudo é real, sobretudo a agonia [...] Tudo é real menos a guerra que não existiu nunca: jamais houve colónias, nem fascismo, nem Salazar, nem Tarrafal, nem PIDE, nem revolução, jamais houve, compreende, nada, os calendários deste país imobilizaram-se há tanto tempo que nos esquecemos deles [...]."

Um abraço do
Mário



Nascido em Angola, filho de ex-combatente, uma dilacerada relação com o pai

Mário Beja Santos

É um livro que manda respeito, não só pelo alto mérito da narrativa, um estupendo carrossel de memórias órfãs de Angola e de conflitos familiares ainda com muito por resolver; como, igualmente, uma peça de grande calibre para esta nova abordagem da literatura da guerra colonial em que os filhos peregrinam e se encaminham para os locais onde as famílias, ou tão somente os pais, ficaram indelevelmente marcados pelas experiências da guerra, à procura de sublimação, pelo claro entendimento do que ali aconteceu, para que haja reconciliação ou perdão.

Celso Braga Rosa
Sobretudo a Agonia, Angola, Memórias de uma Guerra Íntima, por Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento, 2025, é um livro de dor na recuperação da memória, dotado de uma hábil construção, não faltam múltiplas citações e obras de outros autores, mas tudo num rendilhado com forte coesão destas diferentes vozes. O autor é antropólogo, nasceu em 1973 num ponto do Quanza Norte, vivia em Carmona (hoje Uíge) quando se deram os terríveis combates entre a FNLA e o MPLA, obrigando muita gente a fugir dessa quadra infernal.

A figura central desta memória de uma guerra íntima é o fantasma/espectro do pai, um jovem que parecia destinado ao seminário, em Mogofores, e que fugiu para Angola ao encontro do pai, fazendeiro em Quiculungo, e depois fez três comissões militares antes de passar à vida civil. Celso Braga rendilha primorosamente a trama narrativa, aquele pai não embarcou no cais da Rocha do Conde de Óbidos, não houve lágrimas nem lenços brancos, o pai partiu jovem, fez várias comissões militares em Angola, foi desmobilizado, conseguiu emprego em Quiculungo, no Banco Pinto e Sotto Mayor, aqui casou, Celso nasce a 23 de setembro de 1973, o pai irá revelar-se violento, mas muito pouco comunicativo e terno com o filho.

Um dos momentos mais vibrantes desta narrativa passa pelos acontecimentos que viveu em Angola depois do 25 de abril, aqui se retratam os horrores da guerra civil, os combates mortais entre a FNLA e o MPLA, estamos no Kwanza norte, no início dos acontecimentos, tudo parece decorrer na normalidade, as viagens entre povoações, sob proteção de colunas militares, vão gradualmente tornando-se um risco demasiado grande. Em 1975, a caminho da independência, sai-se da paz podre entre os três movimentos, o autor irá descrever os acontecimentos vividos em Carmona. Havia acordos entre FNLA e a UNITA, nessa Carmona depois batizada de Uíge, a população branca era obrigada a ter o cartão de membro da FNLA.

No final do ano as forças do MPLA já controlavam Vila Salazar, depois rebatizada como N’Dalatando, caminharam para Carmona, traziam um poderio militar muito superior ao da FNLA, vão começar os combates nas ruas, e começa então uma formidável fuga numa coluna de viaturas. “Viam-se pessoas desesperadas nos passeios e assistia-se a discussões entre condutores no meio da rua, gritos e choro por todo o lado, carros batidos no meio da estrada. E os tiros e bombardeamentos sempre ali a estalar nos tímpanos, como uma banda sonora macabra. Viam-se grupos de pessoas fugindo a pé ou tentando pedir boleia aos condutores das viaturas que passavam na estrada. Ninguém se importava com ninguém, num salve-se quem puder.”

E assim se fez uma viagem até junto à fronteira com o Zaire, três dias com inúmeros incidentes, vai seguir-se o horror das rusgas e das intimidações Zairenses e dos combatentes angolanos, os fugitivos serão esbulhados nas diferentes triagens. E depois um Boeing 747 da TAP traz a família para Portugal.

Será um regresso inacabado, a vida daquele agregado familiar conheceu uma amputação, como escreve o autor o seu passado é uma imensidão de falhas, de perdas, de grandes silêncios. Ele guarda boas recordações da Nazaré, onde chegaram no mês de fevereiro de 1978, o pai tinha lugar no banco. Ele descreve-nos a adaptação, o grupo de pequenada que se formou, a hostilidade manifesta para quem tinha vindo de África. A mãe voltou ao ensino, o pai progrediu na agência do Banco, tornou-se numa figura de tranche bastante simpática no meio. A irmã de Celso nasce em 1980. Quando vai estudar para Coimbra, Celso sente-se perdido e sozinho, é como que uma ausência de identidade.

E depois os pais divorciam-se, o pai praticamente desaparece da sua vida. Celso regressa a Angola em 2007. Na véspera de partir, recebe um telefonema do pai, queria marcar um encontro. Em 2009, Celso perde a sua companheira, faleceu num acidente de viação e estava grávida. Recebe novo telefonema do pai, Celso, depois da perda da sua companheira, entra no quadro depressivo, tudo se passa em Angola, depois regressa. Em 2019 encontra-se com o pai, almoçam. “Ao regressar a casa depois de almoço, já sozinho, acabei a censurar-me por não ter feito as tantas perguntas que lhe queria fazer, por não o ter colocado frente aos tantos silêncios que queria entender.” Ainda falam ao telefone em 2021, nesse ano o pai morre num acidente de automóvel.

É muito tocante o sentir da despedida que este antropólogo de profissão nos oferece na atmosfera da despedida do seu pai:
“A morte social não se compadece com a morte física. E por isso o meu pai vive ainda porque o escrevo, porque o esquecimento é o único modo de morrer para sempre, e porque acredito que de cada vez que alguém diz o nosso nome, tornamos a viver, nem que seja por um breve instante. Porque nem todas as estórias e vidas ficam registadas em livro, o meu pai, cujo corpo de transmutou em cinzas que foram entregues ao mar de Sagres no mês de novembro, vive ainda em memórias que guardo em caixas que só eu conheço o paradeiro. Vai-se afastando devagar o passado, indiferente, sem se despedir de mim, alheio à herança que me deixou nas mãos e nas páginas. Ao meu pai, que fez finalmente caminho comigo nestas últimas horas e dias, dir-lhe-ia se pudesse, olhando-o nos olhos: a ti calhou-te a guerra, e as guerras depois da guerra.
Calhou-te talvez ser marido sem que o quisesses ser, pai sem que o tivesses verdadeiramente desejado, e a mim, calhou-me ser teu filho, fazer traduções literárias, amar uma mulher de olhos castanhos. Que nem chegaste a conhecer. Este foi um esforço íntimo e assumido de criação e construção de memória, relato de uma viagem que não vai parar de acontecer. Escolhi o que recordar tanto tempo o que deveria esquecer, e nas memórias de outros não só me busquei como essa busca não se revelou infrutífera: encontrei-me nessas memórias alheias, como se, sem que o soubessem, tantos e tantos escrevessem sobre mim há tanto tempo.”


Um belíssimo romance. Uma originalidade na literatura da guerra colonial (haverá quem diga que se trata de literatura da guerra pós-colonial, conceito em que não acredito).

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Nota do editor

Último post da série de 18 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28357: Notas de leitura (1962): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (6) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28365: Manuscrito(s) (Luís Graça) (296): Quinta de Candoz: "aguarelas"

 


Foto nº 1 > Não, não é  uma pintura a óleo... Muito menos uma aguarela. ´R uma peça em cerâmica vidrada, com um estilo muito característico das majólicas ou vinhagens portuguesas, especialmente associadas à Fábrica Bordallo Pinheiro (Caldas da Rainha). A técnica de vidrado brilhante e as cores vibrantes (verdes, vermelhos, amarelos) são típicas do trabalho da oficina, que produzia peças utilitárias e decorativas desde o século XIX.

 Está cá em casa há cerca de 27 anps.  Não está assinada nem tem a marca da oficina. De qualquer modo, é um tributo em barro à antiga abundância de Quinta de Candoz, sita na região de Entre-Douro-e-Minho, terra roubada aos castanheiros e aos carvalhos, feita de solcalcos (uma dezena), nas faldas da serra de Montedeiras, no concelho de Marco de Canaveses, que o Zé do Telhado tristemente celebrizou com o trágico assalto à Casa do Carrapatelo, em 1852. Quinta que já  foi de milho  agora é de vinha. Mas sempre deu de tudo um pouco, das cebolas às batatas, das castanhas às cerejas, do milho ao linho, do centeio ao vinho, dos tomates às pencas...



Foto nº 2 > A castanha já a sorrir, á espera do dia de São Martinho e do vinho novo. Antes da batata, a castanha era a comida dos pobres. O cultivo da batata levou muito a generalizar-se.


Foto nº 3 > A casta de uva branca "Pedernã" ou " Arinto"... Maduríssima, a uva,  este ano, o vinho terá um álcool provável de 14 graus. Há uma crise na vitivinicultura nacional (e mundial). Estamos  a chegar ao fim de um ciclo. Os nossos vizinhos ainda têm vinho ao ano passado nas cubas de inox...


Foto nº 4 > O nosso azevinho (Ilex aquifolium), tão cobiçado,  no Natal, pelos portugueses. Hoje, espécie protegida. Presentemente, o risco de ameaça de extinção do azevinho em Portugal é considerado "pouco preocupante". Com a ajuda da IA, as bagas ficaram mais vermelhas (ainda estão alaranjadas...)


Foto nº 5 > Uma romã da romãzeira (Punica granatum) da tia Nita (1947-2023), a alma-mãe da Quinta de Candoz.




Foto nº 6  e 6A> Entre o apeadeiro do Juncal (Marco de Canaveses) e o apeadeiro da Pala (Baião) na Linha do Douro existe este viaduto que é a Ponte das Quebradas, uma grande obra de arte ferroviária, dos anos 40 (veio substituir uma de ferro). E é de trágica memória, devido ao acidente que em 1 de setembro de 2009, às 5h55 fez 6 vítimas mortais, naturais da freguesia de Santa Leocádia, incluindo o chefe da  junta de freguesia. (Estávamos em casa, quando o acidebnte ocorreu, e da nossa janela, demos, pela manhá, com o aparato de ambulâncias). Um automóvel foi colhido por um comboio regional. Os passageiros dirigiam-se e para Fátima, A ponte tem 170 metros de comprimento, e fica no km 67,9. 

Depois deste viaduto da Ponte Quebrada, a seguir ao apeadeiro da Pala e antes da estação de Mosteiró / Tormes, vem o ainda mais espectacular viaduto da Pala, ao km 70,3 (tem 195 metros de extensão e vistas soberbas sobre a albufeira da barragem do Carrapatelo).  

A Imagem, acima, nº 6, foi gerada pela IA, a partir da foto original, a nº 6A, tirada da nossa casa em Candoz; a ponte e em alvenaria, um trabalho magnífico, obra do Estado Novo; ainda me lembro do patriarca da família, José Carneiro, nascido em 1911, falar dela, e dos carros de bois e centenas de braços que mobilizou, em plena II Guerra Mundial)

Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > Vindimas > 18 de setembro de 2026 >  "Aguarelas"


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28348: Manuscrito(s) (Luís Graça) (295): Em 6 de setembro passado, a orografia que rodeia a Quinta de Candoz retirou-me cerca de uma hora e meia de insolação direta: cerca de 35 minutos de manhã e cerca de uma hora ao fim da tarde.

Guiné 61/74 - P28364: Parabéns a você (2527): José Macedo, 2.º Ten Fuz Esp da RN (DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74)

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Nota do editor

Último post da série de 15 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28347: Parabéns a você (2526): Manuel J. Ribeiro Agostinho, ex-Soldado Radiotelegrafista da CCS/QG/CTIG (Bissau, 1968/70)

domingo, 20 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28363: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (56): batatada de peixe seco num dos almoços das vindimas da Quinta de Candoz

 





Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > Vindimas > 18 de setembro de 2026 > Batatada de peixe seco (raia, safio, cação, sapata...) "by chef Alice"...( Na primeira foto, o peixe já demolhado, como o bacalhau.)


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].


1. Já não é a primeira vez que a gente traz peixe seco da Lourinhã para as vindimas  da Quinta de Candoz... É uma prato festivo (e com muita "sustância", como diria o cavador de enxada de antigamente). Prato que, por isso, fica bem nas "serviçadas".  

Quem já o provou, pela primeira vez, aqui no Norte, há dois ou três anos, gostou e aprovou. São saberes e sabores antigos, provavelmente tão ou mais antigos que o bacalhau escalado, salgado e seco ao sol. Era o governinho da mulher do pescador e do lavrador das aldeias ribeirinhas da Lourinhã, antes da chegada da electricidade e da arca frigorífica. Tal como aqui é o porco que era guardado na salgadeira, e que tinha que dar para o ano todo, até à próxima matança, no início do inverno.

Desta vez a dose era generosa, dava bem para 8 comedores. (Obrigado, Jaime, por teres sido o internmediário na transação.) E diversificada: tinha raia, sapata (cada vez mais rara), safio (aqui diz-se "congro"), cação... O nosso "vagomestre" merece chapa 5. E a "chef" Alice, com tão boa matéria-prima, só teve cozer, à parte, a batata (com pele), a cebola (muita!) e os ovos (ingrediente facultativo, mas que fica bonito, na travessa e na fotografia).

Serve-se com muito azeite e vinagre. E repete-se. Pode ser acompanhado com um vinho verde tinto, "carrascão",,,que a gente agora já não faz, na Quinta de Candoz. Mas ainda se arranja por aqui...

Tudo isto, caros amigos, não é para vos fazer inveja. É só para vos dizer que no céu não há disto. E é bom a gente começar a tratar de um lugarzinho, à direita ou à esquerda de Deus Pai (ideologias à parte)... E, a propósito, ainda hoje, por coincidência, tive dois telefonemas de antigos colegas (e amigos) das lides académcias. Há uma dezenas de anos que não sabiam de mim. E em vão ligavam para um antigo número de telemóvel ou escrevima um endereço de email, descontinuado. Um deles, que sempre foi muito brincalhão, mostrou-se exuberanhte e feliz por, finalmente, saber do meu paradeiro e ouvir a minha voz

- Porra, pá, constava para aí que já tinhas "ido...para a terra"!

Ao que, refeito da surpresa, retorqui:

- Em boa verdade, tenho andado de terra em terra. Agora estou em Candoz, nas vindimas, que já acabaram ontem...E, se queres que te diga, não estou com pressa de me despedir da Terra da Alegria... Nem ainda escrevi o poema que alguém há de ler no meu enterro...

O que vale é que eu não sou supersticioso... E vamos marcar um almoço para fazer a prova de de vida. Obrigado, Carlos, obrigado, Prista, pelo vosso cuidado.  Parafraseando o Marc Twain,  a notícia da minha morte foi manifestamente exagerada... 
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 26 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28214: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (55): Mafé e Baguitch (Henk Heggens, médico neerlandês, especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, Fulacunda e Bissau, 1980/84)

Guiné 61/74 - P28362: Os nossos seres, saberes e lazeres (751): Alcobaça Terra de Paixão (Juvenal Amado da CCS / BCAÇ 3872)

1. Mensagem do nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo CAR da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), com data de 1 de Setembro de 2026:


Alcobaça Terra de Paixão

Não há amor como o primeiro dizem, e eu estou totalmente de acordo.

Alcobaça é uma cidade calma longe do fulgor industrial e comercial que teve até ao ano 2000. Não acabou o Mundo como era profetizado, mas acabou uma época de crescimento. Actividades industriais, muitas com história, desapareceram e hoje são motivo de lembrança em museu de cerâmica a visita obrigatória.

Vivi na Av. Bernardino Lopes de Oliveira e passei à sua residência (palacete na rua da Conceição, hoje Dr. Nascimento e Sousa) pelo menos quatro vezes por dia,  durante 14 ou 15 anos, e nada sabia do nome desse ilustre alcobacense.

No passado mês de Junho foram os alcobacenses convidados a participar numa visita guiada a dez palacetes de Alcobaça.

Ao ler esta notícia lamentei não poder participar, mas trouxe-me à lembrança os edifícios apalaçados da minha juventude. Alguns ainda existem, outros desapareceram para sempre dando lugar a prédios de apartamentos.

Mas voltando ao nome da rua onde morei desde 1963 até aos fins dos anos 70. Bernardino Lopes de Oliveira foi um dos regressados que fizeram fortuna no Brasil, que ao chegar ficou chocado com o atraso da vila e decidiu dedicar-se a tentar remediar as carências – Assim fundou o Gabinete de Leitura de Alcobaça, o Asilo Para Infância Desvalida, sendo ainda Fundador e Provedor do Hospital da Misericórdia de Alcobaça. Republicano, participou no 5 de Outubro de 1910 e, na 1.ª República, obteve cargos como Vice-cônsul do Brasil e presidente da Câmara de Alcobaça.

Palacete Bernardino Lopes de Oliveira

Em matéria de palacetes construídos em finais do Século XIX, arquitectura romântica e apontamentos vindos do Brasil, está Alcobaça bem fornecida de História, bem de nomes importantes. Continuam muitos desses edifícios de plena saúde e utilidade. Exemplos como o do Pena que foi residência do senhor Francisco Oriol da Pena. Foi construído nos terrenos de uma antiga Gafaria Pena, hoje Câmara Municipal de Alcobaça.
Palacete de Francisco Oriol da Pena

O palacete das Escadinhas como nós garotos conhecíamos foi residência do director da companhia de fiação e tecidos depois externato Dr. Cabrita e por fim alugado à CEERIA, cooperativa de ensino especial, é posteriormente comprada por esta no seguimento da falência da empresa COFTA. No seguimento das obras de manutenção regressou à sua cor inicial que ocre.
Palacete das Escadinhas

O Palacete da Cova Da Onça foi residência do senhor António Magalhães, um dos meus patrões enquanto trabalhei na Crisa Cristais de Alcobaça. Embora fossem vários irmãos sócios, o senhor António Magalhães era um industrial que nasceu rico mas soube modernizar-se e modernizar a sua empresa (chegou a ser a mais avançada da Europa na área do cristal). Dizia ele que tinha uma caneta guardada para firmar acordos com o duro sindicato vidreiro, habituado às lutas e reivindicações, bem como às perseguições politicas.
Trabalhavam lá famílias inteiras como a minha.

Tinha cooperativa de abastecimento para os seus empregados, creche com horário para as mães amamentarem, comparticipação nos medicamentos, e quando eu fui para a tropa ainda funcionava uma cantina onde podíamos almoçar por um valor irrisório.

Eu ainda guardo as recordações de a minha tia me enviar a esta casa, com a roupa que a senhora dona Regina mandava limpar na lavandaria, onde a minha tia era empregada. Está claro que a gorjeta era o principal incentivo.
Palacete da Cova da Onça

Embora só aqui tenha mencionado uns poucos, não posso deixar de falar do palacete Rino mais conhecido como o da Rina.
O construtor deste palete foi um grande lavrador poprietário de terras que se estendiam pelos concelhos de Alcobaça e Batalha, chegando a ser dono do mosteiro de Cós. Foi casado com a filha do fundador da fiação e tecidos a que lhe chamou Maria Cristina Rino. Ela foi casada com um filho do nosso escritor Eça de Queiroz e, posteriormente, com Dr. Pereira de Matos, historiador que se dedicou ao estudo da região.
Foto do Casamento, em Paris, de Maria Cristina Rino com António Eça de Queiroz, filho do famoso escritor Eça de Queiroz.

Bem mas a história não acaba aqui. A dona Maria Cristina Rino após a viuvês duou o Chalet a uma ordem religiosa de S. José de Cluny que assim beneficiou de um dos recheios mais ricos da região. É habitado pelas freiras e julgo que funciona uma cresche nas suas instalações.
Mas como tudo na vida na vida desta Dama foi-se o brilho e o lustro, nos últimos anos da sua vida sem criados, tinha algum apoio de pessoas da terra, entre elas a minha colega Alice (rata) que fazia recados e ajudava na casa. Está claro que cá para fora veio muito do que passava lá dentro. Conta-se que uma bela vez, a peixeira que vendia pelas portas, ao vê-la pegar num carapau com ar enjoado lhe de disse: - “O qué foi dona? O carapau ca…… “descuidou-se?”.

Palacete Rino

Há muito para observar e apreciar a sua beleza mais alguns, bem como casas apalaçadas que para muito terá contribuído o êxito das visitas guiadas.
Casa Tomaz Silveira Raposo
Palacete da Fonte Nova hoje uma unidade hoteleira
Casa Ilda Serrano mesmo em frente ao Mosteiro

Os seus palacetes, o Mosteiro, a sua zona histórica onde poderão ouvir o Belo Canto num dos arcos entre duas praças, jantar, enfim dar razão à Maria de Lurdes Resende quando cantava:
Quem Passa Por Alcobaça / Não passa sem lá voltar.
De Silva Tavares e Belo Marques

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Nota do editor

Último post da série de 19 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28360: Os nossos seres, saberes e lazeres (750): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (271): Heidelberg, cidade poupada na Segunda Guerra Mundial, pilhada pelos exércitos de Luís XIV em 1689, as ruínas mais famosas do romantismo - 6 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28361: Humor de caserna (292: Em Bissau, bebia-se "Cuba Livre", e em Lisboa, no Cais do Sodré, ..."uísque de Sacavém"






















Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Textos  Jorge Golias (2024) | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Excerto do texto "Memórias do Agrupamento de Transmissões e Histórias de Guerra na Guiné – 1972/74", da autoria do cor eng trms ref Jorge Golias, publicado em 24/9/2024, no sítio "História das Transmssões Militares" (reproduzido com a devida vénia...):



(...) 12. À margem da guerra


Por vezes alguém se lembra de um episódio, ou anedota, passada na Guiné e que, pela sua graça, aqui deixo alguns registos.

Um Comandante de uma Unidade de Artilharia, o major Gaspar [maj art José Joaquim Vilares Gaspar, mais conhecido na tropa por Gasparinho, na altura 2ª cmdt do GA7 - Grupo de Artilharianº 7 ] (*) enviou a seguinte mensagem Imediato para o Comando-Chefe:

– Info impossível cumprir missão por falta de mat rádio. Solicito envio urgente de meios rádio.

Resposta do Com-Chefe:

– Ref v/ msg info não haver rádios disponíveis; Mais info Teixeira Pinto pacificou Guiné sem rádios.

Réplica do major Gaspar com mensagem Relâmpago:

– Ref v/ msg solicito envio urgente de Teixeira Pinto.

Há quem atribua o protagonismo deste episódio ao ten-coronel Sanches da Gama, comandante das trms, e ao major Gaspar, de artilharia, ambos muito conhecidos pelo seu bom humor.

O major Gaspar, aliás, viria a tornar-se num mito, pelas deliciosas histórias que se contam da sua autoria. Relatarei apenas mais duas: quando um dia ao aproximar-se um heli com o general Spínola a caminho da sede do CAOP (**) ele enviou mensagem ao escalão superior dizendo: "Info Vexa que Sexa passou na mexa!"

Conta-se que a partir daqui foi proibido o uso destes termos em mensagens.

Era proverbial a aversão do major Gaspar aos papéis e à burocracia. Dizia-se que dependurava todas as notas vindas do QG/CTIG em cordões por cima da sua mesa de trabalho. E, quando vinha alguém de Bissau e indagava sobre um processo qualquer, ele, passando a mão pela nota dependurada e abanando-a, respondia:

– Está pendente!

À medida que o tempo ia passando, as pessoas iam ficando “apanhadas do clima”. Era o efeito do cacimbo em terra de extremos!

A propósito do passar do tempo, era prática corrente encher o calendário de cruzes à medida que os dias iam passando, e os que não confessavam esta prática eram traídos quando sabiam sempre os dias certos que estavam em falta para o regresso.

Mas, a partir de certa altura, quando se constatou que na messe se comia sempre uma banana de sobremesa (durante o ano de 1973 foi sempre assim), então começaram a aparecer os que mediam o tempo de comissão pelos km de bananas que tinham comido, ou o tempo em falta pelos km de bananas que faltava comer!

Coisas de apanhados! Ficou célebre o dito dos que iam acabando a sua comissão:

– Está na mala!

Apanhados e não, depois das refeições, nomeadamente à noite, saboreavamos um bom velho uísque, Martins20, Swing, Old Parr, com água “Perrier” ou um bom brandy Napoleón ou Curvoisier ou uma boa aguardente Carvalho Ribeiro & Ferreira.

Não fazíamos a coisa por menos porque estas excelentes bebidas eram baratas. Os mais modernaços iam para a coca-cola, bebida proibida em Portugal antes da revolução! E assim se descobriu a "Cuba-Livre" (***) que, na Guiné, era a mistura da coca-cola com uísque.

(Revisão / fixação de texto, negritos, títulos, notas de rodapé: LG) (****)
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Notas do editor LG:

(*) Mas antes, foi cap art, o primeiro de 3 comandantes da CART 3330 (Nhamate e Bula, dez 1970/dez 1972); Comandente do COP 6 (Mansabá) e 2º cmdt do GA7.

(**) Mais provavelmente COP6

(***) Variante do cocktail "Cuba-libre" (que junta rum, coca-cola e sumo de lima, simbolizando historicamente a transição da independência cubana e a influência dos Estados Unidos no Caribe da viragem do séc. XIX para o séc. XX); a criação do cocktail remonta ao contexto da Guerra Hispano-Americana (1898) e aos primeiros anos da ocupação militar norte-americana em Cuba; o brado de guerra das forças libertadoras cubanas contra o domínio colonial espanhol era "¡Cuba Libre!" (Cuba Livre).