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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28490: A nossa guerra em números (52). Ao fim de um ano, eu e tu, camarada, gastávamos, cada de um nós, uma GMC carregada de abastecimentos, 2,8 toneladas...

 

















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: CECA (2014)
Imagens : Arquivo do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)


1. Camaradas, os números podem ser "fastidiosos". Todos temos falhas de numeracia. O português não gosta de pensar e falar com números. Mas  estes são  muito interessantes para uma abordagem, mesmo superficial,  da logística militar no CTIG (1961-1974). 

Aliás, há aqui uma questão que merece ser valorizada: a nossa guerra da Guiné não se fazia apenas com homens e armas; fazia-se também com toneladas e toneladas de abastecimentos, transportadas por terra, ar e, sobretudo, por água.

No mato, sentíamos a falta dos abastecimentos (víveres, artigos de cantina, comida, bebida, correio, munições, etc.). Mas nunca nos preocupámos muito em saber da  logística que estava por detrás de tudo isso (do planeamento aos transportes)... 

Ora, era uma condição indispensável da operacionalidade das NT. E, num território como a Guiné, com uma extensa rede hidrográfica, más estradas e mais de 200  guarnições dispersas e muitas isoladas, em ambiente de guerra (às vezes danada!), o transporte fluvial tinha uma importância estratégica enorme.

Cada companhia destacada num aquartelamento ou destacamento representava uma obrigação logística permanente. Não bastava lá colocar 150 ou 160 homens, em Farim, em Canjadude, no Xitole, em Fulacunda, em São  João, em Buba, em Aldeia Formosa, em Guileje, em Catió...  

Era preciso alimentá-los, equipá-los, municiá-los, assegurar o combustível das viaturas e geradores, fornecer medicamentos, manter as ligações postais, carrear materiais para a "psícola", sem esquecer o arroz com que alimentávamos grande parte da população que estava sob a bandeira portuguesa...

 Spínola também sabia que não havia almoços grátis (neste caso a bianda nossa de todos os dias)...

Dá para pensar o que cada um das nossas companhias no mato consomia por mês:

Tipo de abastecimento | Peso mensal
  • Víveres | 14 500 kg
  • Artigos de cantina | 3 000 kg
  • Combustíveis | 8 000 kg
  • Munições | 700 kg
  • Medicamentos | 500 kg
  • Lubrificantes | 500 kg
  • Fardamento e calçado | 300 kg
  • Correio | 250 kg
  • Total | 37 750 kg
Ao fim de um  ano (12 meses), eu e tu, camarada  gastávamos, cada de um nós,  uma GMC  carregada de abastecimentos, 2,8 toneladas... (E ainda faltam aqui materiais de construção, etc.; aliás, cada companhia de quadrícula não eram 160 homens, era também muitas vezes uma tabanca inteira!)

Esta BD didática convida-nos a não esquecer estes números. E mais: que guerra também se fazia a bordo do BOR, das LDM, das LDG, dos "barcos-turras"... 

E essa é uma dimensão da história da Guiné que merece ser contada, também com a memória dos marinheiros e das guarnições que asseguravam aquelas ligações, entre Bissau e o mato.

Marinheiros, mas também pessoal de terra e de ar...Não esqueçamos ninguém. 
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P284888: A nossa guerra em números (51): a epopeia dos transportes: só por via fluvial, e por mês, Bissau enviava em 1966 c. 3 mil toneladas para o interior (o "mato")


terça-feira, 3 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28489: Efemérides (398): No Dia dos Fiéis Defuntos, romagem aos cemitérios de Leça da Palmeira e Matosinhos para homenagear a memória dos matosinhenses caídos na I Guerra Mundial e Guerra do Ultramar (Carlos Vinhal)

Realizou-se no passado dia 2 de Novembro, Dia dos Fiéis Defuntos, a tradicional romagem ao Cemitério n.º 1 de Leça da Palmeira e Cemitério n.º 2 de Matosinhos (Sendim), locais onde existem Talhões da Liga dos Combatentes, para homenagear os matosinhenses caídos em Campanha na I Guerra Mundial e Guerra do Ultramar.

A cerimónia teve início no Talhão do Cemitério de Leça da Palmeira, pelas 10h30, com a deposição de duas coroas de flores, seguindo-se o toque de homenagem aos mortos e uma evocação religiosa pelo Pároco de Leça da Palmeira, Padre Francisco Andrade.

Em Matosinhos, pelas 11h15, no Cemitério de Sendim, depôs-se uma coroa de flores no Talhão, a que se seguiu o toque de homenagem aos mortos e foi lida a prece do Exército.

Posteriormente, no mesmo cemitério, os participantes dirigiram-se para junto do Memorial aos 70 Combatentes Mortos na Guerra do Ultramar, onde se procedeu à deposição de duas coroas de flores, seguindo-se o toque de homenagem aos mortos e a leitura da prece do Exército.

Os toques nas cerimónias foram executados, como habitualmente, pelo senhor Francisco, Clarim dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça.

Estiveram presentes nas cerimónias:
o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Dr. Carlos Mouta;
o Presidente da Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, Dr. Plácido Santos;
em representação da Junta de Freguesia de Matosinhos, Prof. Paulo Ferreira.

O Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes fez-se representar pelo Presidente da Direcção, TCor Armando Costa e Presidente da Mesa da Assembleia Geral, Combatente Ribeiro Agostinho;
Assitiram e participaram nas cerimónias, Antigos Combatentes, familiares e público em geral.

Foto 1 > Leça da Palmeira > Início da cerimónia
Foto 2 > Leça da Palmeira > Senhor Pe. Francisco Andrade, Dr. Carlos Mouta, Dr. Plácido Santos e Tenente Coronel Armando Costa
Foto 3 > Leça da Palmeira > Momento da deposição de coroa de flores pelos TCor Armando Costa e Dr. Carlos Mouta.
Foto 4 > Leça da Palmeira > Momento de reflexão
Foto 5 > Leça da Palmeira > Dr. Plácido Santos depois da deposição da coroa de flores da Junta de Freguesia
Foto 6 > Leça da Palmeira > Momento religioso pelo Pe. Francisco Andrade, auxiliado pelo Antigo Combatente Raul Ramos
Foto 7 > Leça da Palmeira > Talhão da Liga dos Combatentes
Foto 8 > Matosinhos > Sargento Mor David Caetano, do Núcleo de Matosinhos da LC que coordenou as cerimónias; Clarim dos B.V. de Leça da Palmeira, senhor Francisco, e Porta-estandarte do Núcleo, Antigo Combatente Neves
Foto 9 > Matosinhos > Autoridades e Antigos Combatentes presentes na cerimónia
Foto 10 > Matosinhos > Momento da deposição da coroa de flores no Talhão da LC do Cemitério de Sendim
Foto 11 > Matosinhos > Cemitério de Sendim > Talhão da Liga dos Combatentes
Foto 12 > Matosinhos > Memorial aos Combatentes Matosinhenses caídos em campanha na Guerra do Ultramar > Deposição de coroa de flores
Foto 13 > Matosinhos > Momento de reflexão junto ao Memorial
Foto 14 > Matosinhos > Parte do Memorial onde constam os 69 nomes dos Combatentes caídos em campanha
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Fotos: © José Trindade. Editadas e legendadas pelo coeditor CV

Guiné 61/74 - P28488: A nossa guerra em números (51): a epopeia dos transportes: só por via fluvial, e por mês, Bissau enviava em 1966 c. 3 mil toneladas para o interior (o "mato")



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >  Sector L1 (Bambadinca) > Rio Geba > Xime > A LDG 101 "Alfange" a abicar ao porto fluvial do Xime... O pessoal desembarcado, mais as bagagens e o armamento, seguiam depois em coluna auto para os seus destinos, mais a leste (Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego, Canjadude, Madina do Boé, Piche, Pirada, Buruntuma, Canquelifá etc.)...

Em 7 de maio de 1968, desembarcaram aqui, nesta ou noutra LDG, os elementos que constituíam o Pel Rec Daimler 2046, comandado pelo alf mil cav Jaime Machado, e colocado no setor L1 (Bambadinca). Vinte e dois meses depois, em fevereiro de 1970, terminada a comissão, os nossos camaradas de cavalaria voltavam apanhar a LDG, de regresso a Bissau onde, em abril de 1970, regressavam a casa, no mesmo T/T Niassa, que os tinha trazido 


Foto (e legenda): © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Sabe-se que uma companhia (160 homens, em média, de atiradores, de infantaria, de artilharia ou de cavalaria) precisava de cerca de 40 toneladas de abastecimentos por mês...o que é equivalente à capacidade de carga de:

  • 1 motor"Bor", "BM1" ou "Bm2";
  • 3 a 4  LDM (Lancha de Desembarque Médio);
  • 1/5 de uma LDG (Lancha de Desembarque Grande) (como a foto acima),

Imaginemos que o transporte fosse apenas feito por via fluvial e por LDG: ao fim da um comisssão de serviço de 22 meses, a carga transportada (880 toneladas por companhia) implicaria:

  • 22 viagens de um motor como o "Bor";
  • 4  viagens de LDG;
  • c. 80  viagens  de LDM.

2. Discriminam-se a seguir, por tipologia de abastecimento, os respetivos valores por mês (em percentagem do total e em quilogramas) (*)

(i) 38,7 %; víveres (alimentação): 14,5 mil  kg, sendo 12 mil kg de víveres secos, e 2,5 mil kg de víveres frescos:

(ii) 34,7%: artigos de cantina (cerveja, tabaco, higiene, papelaria, etc.): 13 mil kg:

(iii) 21,4%: combustíveis (gasóleo, gasolina, petróleo): 8 mil kg;

(iv) 1,6%: munições:  700 kg;

(v) 1,3%: medicamentos; 500 kg:

(vi) 1,1%:  lubrificantes (óleo para viaturas e armamento, etc.): 500 kg;

(vii) 0,7%: fardamento e calçado: 300 kg;

(viii) 0,5%: correio: 250 kg.

Total= 100% | 37750 kg (a dividir por 160 homens=235,9 kg).

3. Os transportes foi sempre um "problema bicudo" no TO da Guiné, do princípio ao fim.  Por muitas razões, a começar por:

  •  falta de meios (homens, viaturas, embarcações, aeronaves, etc.);
  • escassez de  infraestruturas (terminais portuários, estradas, aeródromos, etc.); 
  • crescente aumento de efetivos e de guarnições;
  • incremento da resposta às necessidades de desenvolvimento socioeconómico (reordenamentos, estradas, equipamentos sociais, etc.).

No 4° trimestre de 1964, no 2º ano ano oficial da guerra, o CTIG dispunha de um total estimado de 15150 militares. Nove anos depois, em 1973, as NT (Exército, FAP e Marinha) ultrapassavam os 35 mil efetivos.

O número de companhias (caçadores/atiradores de infantaria, mais atiradores de artilharia e infantaria, vai crescendo com a intensificação da guerra: 

  • 30 (1963), 
  • 50 (1965), 
  • 60 (1967),  
  • 84 (1969), 
  • 87 (1971), 
  • 98 (1974)... 

(Excluem-se outras subunidades: companhias de comandos, esquadrões e pelotões de reconhecimento, pelotões de artilharia,  pelotões de caçadores nativos,  pelotões de armas pesadas de infantaria, companhias de milícas, etc.)

Vale a pena citar a CECA (2014), que faz uma boa síntese sobre a situação dos transportes (fluviais, terrestres e aéreos) em 1966, e nos dá alguns números que merecem reflexão  (**):


Transportes

Generalidades

Embora já tenha sido criada a Chefia do Serviço de Transportes do CTIG, cujos QO foram aprovados superiormente, continua a existir na 4ª Rep por não ter sido ainda nomeado o respectivo Chefe, o Major do Serviço de Transportes.

Compete à 4ª Rep o planeamento do emprego dos meios da Companhia de Transportes, cujo QO, já aprovado, prevê a constituição de 8 Secções de Transportes e a dotação de 40 viaturas TG. 

Presentemente esta Companhia dispõe apenas de 4 Secções e 20 viaturas, das quais 50% operacionais, em média, o que é manifestamente insuficiente para as necessidades. 

Num futuro próximo, serão atribuídas ao CTIG 30 viaturas "Mercedes" tipo civil, para serviço não operacional o que em muito virá beneficiar os transportes rodoviários e permitir a recuperação de algumas viaturas operacionais para a Companhia de Transportes.

Pelas dificuldades verificadas na estiva do porto de Bissau e pela necessidade de se proceder a carregamentos noutros locais e às mais variadas horas, houve que manter a constituição dum grupo de estivadores assalariados privativo do CTIG, o qual se tem mostrado extremamente útil e rendoso. 

Também para alguns terminais do interior está autorizada a utilização de pequenos grupos de estiva, até 15 homens, com a finalidade e aliviar as guarnições respectivas, libertando-as para o seu emprego operacional, como é lógico. 

Em muitos casos e para carregamentos da ordem das 100 ton, ou superiores, têm-se utilizado grupos de estivadores acompanhando a carga até aos respectivos pontos de descarga.


1. Transportes Fluviais

Em média, é a seguinte a tonelagem que mensalmente se torna necessário enviar de Bissau para o interior, por via fluvial: Total Geral = 2.920 ton

Meios Disponíveis:

- Serviços de Marinha

Os Serviços de Marinha da Província dispõem das seguintes embarcações:

  • Rebocador "Diana";
  • Rebocador "Atro";
  • Motor "Bor" ( 40 ton);
  • Motor "Corubal" (30 ton):
  • Motor "BM 1" (40 ton);
  • Motor "BM 2" (40 ton);
  • Motor "Formosa" (25 ton);
  • Draga "Geba"

Embora empenhados, na sua maior parte, em carreiras normais dentro da Província, às FT (Forças Terrestres)  são sempre cedidos 2/3 da carga.

Por outro lado, sempre que necessário, estas embarcações são dispensadas ao CTIG no regime de frete redondo para fazerem face ao transporte quer de pessoal quer de carga.

Tem sido a seguinte a aplicação dos meios dos Serviços de Marinha da Província:
  • Rebocadores "Diana" e "Atro": reboque de batelões ou lanchas fretados às casas comerciais de Bissau (Casa Gouveia, Sociedade Ultramarina, Manuel Barbosa, etc.);
  • Motores "Bor", "Corubal", "BM I", "BM 2" e "Formosa": transporte de carga e pessoal quer em carreiras normais quer em frete redondo;
  • Motor "Rui Manuel": transporte de pessoal e de pequenas cargas, utilizando as carreiras normais;
  • Draga "Geba": transporte de pessoal e carga dos T/T (navios de transporte de tropa)  para o cais e vice-versa, em regime de fretamento.

A média mensal transportada nestas embarcações pode computar-se como se segue:

  • Regime de fretamento: 100 ton;
  • 2/3 carga carreiras normais: 200 ton;
  • Total=300 ton
Nota do editor LG: Não sei se o motor "Rui Manuel" não era também conhecido por "Pecixe" (operava mais no rio Cacheu, segundo informação do António Bastos). 

Na lista de embarcações do Serviço da Marinha da Província, não se incluem as embarcações civis, privadas, pertencentes às casas comerciais (como a "Manuel Barbosa"), ou a armadores que operavam os chamados "barcos turras": a "Bubaque" (do pai do Manuel Amante da Rosa), a "Mampatá", a "Olhão"... Quatro embarcações  (cito de cor) que foram atacadas no Geba Estreito; Ponta Varela, Mato Cão, São Belchior... (Mas a LDG Bombarfa também atacada em plena do dia, em 3 de agosto de 1970, na Pona Varela.)

Voltando à CECA (2014, pp. 481/484)...


Comando da Defesa Marítima (CDM)

O CDM continua a estabelecer quinzenalmente um crédito para transportes logísticos, de acordo com as suas disponibilidades; sendo porém as necessidades do CTIG muito superiores, neste crédito são incluídos um determinado número de LDM (entre 2 e 4) e uma ou duas LDG em serviço na Província ("Alfange" e "Montante").

  • Uma LDM transporta 10/12 ton;
  • As LDG apresentam uma capacidade de carga de cerca de 200 ton, o que nem sempre aconselha o seu emprego;
  • No entanto, as LDG vêm sendo permanentemente empenhadas em carregamentos de grande vulto, como seja, para Bambadinca, Teixeira Pinto, Farim, Rio Grande de Buba e Rio Cacine [...].

Casas Comerciais

Estas embarcações continuam a ser, em geral, orientadas para os portos
que interessam às casas comerciais e só podem ser fretados quando disponíveis,
o que raramente acontece, sucedendo também que muitas vezes  o batelão está disponível, mas não há rebocador. 

Além disso estes meios por pertencerem a firmas civis, pelas suas más condições de serviço e por insuficientes, não permitem um emprego regular nem um planeamento prévio; no entanto, note-se que a grande corrente de reabastecimento é através destas embarcações (os chamados "barcos turras", LG).

Cargas e descarga de barcos fretados

Durante o mês de novembro  de 1966 chegaram a Bissau, vindos da metrópole, dois T/T (navios de transporte de tropa) que exigiram um empenhamento da quase totalidade dos meios (CDM, Serviços de Marinha e Casas Comerciais). 

No mês de dezembro chegam a Bissau um T/T e outro barco em carreira comercial transportando uma Companhia de Comandos. O volume de trabalho é um factor negativo que contribui para o desequilíbrio do sistema Disponibilidades-Necessidades pelos meios que se tornam necessários desviar dos serviços normais de reabastecimento. 

Assim, o sistema de transportes encontra-se em permanente crise pois quando se procura atenuar, de novo se agrava com a chegada de novos T/T [...].

(Continua)

Fonte: Excertos de: Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 481/485.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

______________________

Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de 11 de novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22707: A nossa guerra em números (4): Cada militar necessitava em média, por mês, de 240 kg de abastecimentos (no essencial, víveres e artigos de cantina, mais de 70%)... O consumo "per capita" mensal de outros artigos era o seguinte: 50 kg de combustíveis; 4,4 kg de munições; 3,1 kg de medicamentos; 1,6 kg de correio... E, miséria das misérias, tínhamos direito a... 520 gramas de víveres frescos por dia!

(**) Último pposte da série > 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28153: A nossa guerra em números (50): o custo de uma chamada telefónica, de 3 minutos, em 1969, para a Metrópole, podia ir de 100 a 130 escudos (37 a 48 euros, a preços de hoje)

Guiné 61/74 - P28487: A Nossa Marinha (7): Uma viagem inesquecível no "Bor", de Bolama a Bissau, em fevereiro de 1965, com uma avaria na Ilha das Cobras, e a minha filha a querer nascer... (Rui Santos, ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, e CIM Bolama, 1963/65)


Guiné > Viagem no "Bor" > Fevereiro de 1965 > Entre Bolama e Bissau. Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné  + IA (ChatGPT / Open AI) .

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Rui Santos (2014)
Imagens : António Bastos (2014) + Arquivo do blogue
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)



Guiné > Bolama > 1964 > O ferryboat "Bor", em viagem entre Bissau e Bolama. Foto, a sépia, de António Paulo [Bastos], ex 1º cabo at inf, Pelotão Caçadores 953, Cacheu , Farim, Canjambari, Jumbembem, 1964/66. Resconstituida e colorizada com recurso à IA. 

Acrescenta o Rui Santos: "Amigo Luís, de certeza que era o Bor, foi em fevereiro de 1965, dias antes do nascimento de nossa filha, o Bor nessa altura ja navegava de 'bengalas' e 'boias nos braços', enferrujado, velho combatente,  mas navegando à superficie dos canais e rios limítrofes de Bolama e Bissau".

1. Afinal muita boa gente (ou gente boa) andou na Bor (ou no  Bor, já que, além de embarcação dos Serviços da Marinha da Província, era "motor" e  "ferryboat"): do general Spínola ao José Colaço, do Ismael Augusto ao Torcato Mendonça, do Luís Dias ao Libério Lopes, do Manuel Amante da Rosa ao Fernando Chapouto...

Ninguém sabe donde veio, nem quando (diz um "anónimo", que veio de Alverca, em 1963!)... Só se sabe que morreu na praia... Em Bolama, já depois da independência. Ingloriamente, como todas as embarcações, depois de terem feito muitas milhas náuticas, num vida que em geral era muito mais curta do que a dos seus marinheirtos... Morreu na Guiné na terra dos mil e um rios e braços de mar...

Um dos muitos passageiros, nosso camarada,  foi o veteraníssimo Rui Santos (ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, e CIM, Bolama, 1963/65) de quem não tenho notícias desde meados de 2024 (!), e a quem mando um alfabravo fraterno. 

O motor "Bor" pertencia ao Serviço da Marinha da Província. Mas tanto era usado pelos civis como pelos militares.  Foi pau (ou melhor, ferro) para toda a obra!... Entrou em batalhas como a Op Tridente (1964) ou a Op Lança Afiada (1969). Fazia a carreira normal Bissau - Bolama - Bissau. Mas também levou muita tropa e bagagens até ao Xime e até Bambadinca (!), a porta de entrada da zona leste, o chão fula por excelencia...

Alguém escreveu, um "anónimo", em comentário ao poste P13967, de 2 de dezembro de 2014: 

"A Bor era um ferry-boat fluvial construido em 1963 pela Argibay, Alverca. Muita semelhança com dezenas de pequenos ferries usados na Suécia (os barcos da classe Farja) e rio Reno (Alemanha e Holanda). terça-feira, 9 de dezembro de 2014 às 21:51:00 WET .



Um viagem inesquecível no Bor, de Bolama para Bissau, em fevereiro de 1965

por Rui Santos


Já aqui contei a minha história a bordo do Bor, minha e de minha mulher que estava "pançuda" e o médico disse que não devíamos ir de avião... 


Rui Santos
Então vai disto ... Bor,  "bamo bora" e lá vai um jovem casal,  sentado em rolos de cabos grossos, quando começa uma tempestade daquelas que todos conhecem, os que estiveram pisando o solo da Guiné, quase à saida do Canal de Bolama...

À passagem defronte da Ilha das Cobras começa o motor a... puff, puiuff e puift mêmo,  já perto do Geba, chuva na chube noss alfer ...

Pois... e eu à rasca por causa da minha mulher que nem lhe via a cor branca da face, mas aguentou estoicamente... Fui falar ao "comandante" mas pouco, e ninguém conseguía pôr a nau Catrineta a funcionar...

 E eu a ver os canais do Geba e a imaginar duas coisas:  ou ficamos aqui nos baixios ou vamos a caminho do Atlântico, sem rádio, sem comunicação com terra ... Zero!

Não sei o que se passou...  De repente ouço os motores trabalhando e os "mecânicos" rindo, cantando e dançando. 

Fui para o pé da minha mulher e, passado uma hora, para mais  não para menos, eis-nos chegando ao Pidjiguiti (se não for assim, é parecido) onde estava o capitão João Nogueira e a esposa,  esperando, ambos  muito apreensivos.

A minha/nossa aventura do Bor...

PS - A propósito, a minha mulher foi comigo para a Guiné, quando fui tranferido para Bolama, após as férias que me concederam em maio de 1964, quando aproveitei para me casar.

Naquela terra, da qual tenho saudades e por vezes sobrevoo no Google Earth, verificando o abandono dos edificios do quartel do CIM em Bolama, fabricámos uma filha que ainda hoje mostra, orgulhosa, o B.I. onde se lê: natural de Guiné-Bissau! (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)

2. Comentãrio do editor LG:

Rui, foi uma viagem atribulada, essa  no Bor, em fevereiro de 1965, acompanhando a tua mulher,  grávida,  de Bolama para Bissau. A escassos dias de nascer a vossa filha... Atribulada, por isso inesquecível... O motor parou entre bancos de areia, mais próximo do cam das areias do que do canal do Furo, não ?! Mas voltou, felizmente,  a funcionar. Se tivesse ficado à deriva, sem rádio (!), seria uma tragédia!...

Quanto ao tempo de viagem, há uma referência posterior ao motor "Corubal", que fazia a ligação em cerca de duas horas. Mas isso não prova que a pachorrenta  Bor demorasse o mesmo,  ajuda apenas a enquadrar a estimativa.

Rui, aceita estacpequena composição comemorativa, juntando a fotografia restaurada e colorizada do Bor (o original é do António Bastos), mais o mapa com o percurso Bolama–Bissau... 

Achei que devia recuperar esta tua pequena história, de  uma viagem atribulado no Bor, de Bolama a Bissau, a caminho da maternidade. Uma avaria, um grande susto e uma história para contar, meio século depois. Mas faz parte das nossas memórias da Guiné, de que tu (e muitos de nós) continuas a guardar saudades.

Acho que  é uma bonita recordação para os dois,  e para a tua filha que estava prestes a nascer!

 Quanto ao  desenho" do percurso, dá o devido desconto à IA, que não é boa em geografia... Perdi aqui duas horas, desde as 6h30 da manhã, a dizer-lhe, meia dúzia de vezes,  que:

(i) estava a pôr sistematicamente a ilha das Cobras, no lugar da ilha das Galinhas (a noroeste da Bolama);

(ii) de acordo com carta de Bolama (1952, escala 1:50 000), e a descfrição do Rui, a "Bor" deve ter feito o seguinte trajeto: partiu de Bolama (em frente, São João, região de Quínara, no continente), seguiu pelo Canal do Porto, contornou a ponta a nordeste, onde fica a ilha das Cobras, aqui teve uma varia já no Canal do Furo (ou talvez mais a frente), atravessou os baixios, alcançou o canal de Pedro Álvares e finalmente o Canal do Geba até Bissau;

(iii) Bissau ficava na margem direita (Norte) do estuário do Geba...

O gerador gráfico, do ChatGPT / Open AI, o Nano Banana 2,  "chumbava" a geografia se fosse ao fazer o exame da 4ª Classe...Mas, em compensação, faz outras coisas com piada...



Guiné > Carta de Bolama (1952 ) / Escala 1/50 mil >  Reconstituição do provável percurso da "Bor", no trajeto Bolama -Bissau.  A sudoeste fica a ilha das Galinhas.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 2 de novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28485: A Nossa Marinha (6): O motor Bor (uma UAM, unidade auxiliar da marinha), que pertencia aos Serviços da Marinha da Província, tal como o "Corubal", o "Formosa", o "BM1" e o "BM2"

Guiné 61/74 - P28486: Parabéns a você (2538): Ten-General PilAv António Martins de Matos, ex-Tenente PilAv da BA 12 (Bissalanca, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de 2 de Novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28483: Parabéns a você (2537): Abílio Magro, ex-Fur Mil Amanuense do CSJD/QG/CTIG (Bissau, 1973/74)

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28485: A Nossa Marinha (6): O motor Bor (uma UAM, unidade auxiliar da marinha), que pertencia aos Serviços da Marinha da Província, tal como o "Corubal", o "Formosa", o "BM1" e o "BM2"





Foto nº 1, 1A, 1B


Foto onº 2

Guiné > Bissau >  Cais do Comando de Defesa Marítima  > 1970 > "UAM BOR", ao lado da LFG Orion P362 e LFG Cassiopeia P373. Bissau.  Foto da página do Facebook de Carlitos Montego. O pai foi marinheiro cabo-de-mar no motor "Bor", em 1969/72. Promovido a cabo em 1970. E ele próprio foi "filho da Escola".  Foto (a cores) do Carlitos Montego (Carlos Gomes), Reconstituída e melhorada, em termos de resolução e qualidade da imagem.


1.  É uma (nº 2)  da página do Facebook do Carlitos Montego, nosso amigo do Facebook da Tabanca Grande. Vive em Benfica, Lisboa, é filho de marinheiro, e também ele "filho da Escola". E ele próprio (e o irmão, Paulo Gomes) "bebeu a água do Geba" (estiveram os dois em Bissau, com os pais; vamos apresentá-los em próximo poste). 

Tem uma página popular na rede social Facebook (com cerca de 2,8 mil seguidores) dedicada à partilha de memórias, fotografias, vídeos e histórias ligadas à Marinha Portuguesa e à vida no mar. Ele próprio se define, de maneira poética e bem-humorada, como "Calceteiro Marítimo. Endireitar o mar, como se o mar fosse calçada."

Publica frequentemente imagens históricas e atuais de navios da Marinha Portuguesa (incluindo os que operaram no CTIG) e promove o convívio e a partilha de recordações entre antigos e atuais camaradas do meio naval.

O Carlitos Montego adicionou há tempos uma foto (nº 2)  da "UAM Bor"  ao álbum Bissau > 23 de janeiro de 2023 ·

 Bissau Ponte-cais

UAM BOR
LFG Orion P362
LFG Cassiopeia P373
1970


Legendagem:

"Meu pai foi Mar. CM [ leia-se: marinheiro cabo-de-mar]  na BOR de 69 a 72, promovido a Cabo em 70. A BOR pertencia ao Comando da Defesa Marítima de Bissau.

"Esta embarcação era como um ferryboat, com dois motores, um a bombordo à proa, e outro a estibordo na popa, com pás (não tinha hélices) navegava para qualquer direcção. É um tipo de propulsão com pás verticais (tipo “remadores”) que giram num disco horizontal. Ao contrário das hélices normais, pode mover o barco para frente, trás, lado, ou girar no próprio eixo.

Era usado para transporte de carga diversa, desde vacas, galinhas, viaturas, e passageiros, podendo transportar cerca de 400 passageiros e bagagem, que viajavam em pé e alguns sentados. E também fazia o transporte de guarnições militares, ou a rendição de companhias de unidades militares, nos postos do rio Geba principalmente. 

"Apanhou por duas vezes, atracado no Xime, o 'macaréu', penso que em 1971. Pode formar ondas de até dezenas de metros de largura, com até três a cinco metros de altura, e velocidades de até trinta a cinquenta quilómetros por hora...

"  E por uma vez, depois de ter rebentado com quase todos os cabos reforçados que prendiam o Bor ao cais, a sorte é que o 'macaréu'  acabou, a maré baixou,  a corrente perdeu força, e a embarcação ficou presa por um cabo de aço.

"A guarnição (dois militares e dois civis), que estava em terra,  ficou aliviada, se demorasse mais alguns minutos o cabo rebentaria e a embarcação sairia desgovernada rio Geba abaixo. 

"Aqui uma vez, numa viagem Bissau-Xime, numa curva 'famosa' do rio, de que não lembro o nome [provavelmente Mato Cão],  foi atacada, penso que em 1972.

"Nas missões de rendição de companhias era escoltado e acompanhado por LDG, LDM, Patrulhas, e apoiada pelos Fiat da Força Aérea."


2.  UAM - Unidade Auxiliar da Marinha

Este acrónimo e  designação são atribuídos a embarcações ao serviço da Marinha que, pelas suas características ou funções específicas, não são consideradas navios de guerra combatentes da linha da frente (ou seja, não recebem o prefixo militar NRP — Navio da República Portuguesa).

No contexto da Guerra do Ultramar na Guiné (como o caso da "Bor" na foto, um "motor", de 40 toneladas), as UAM desempenhavam um papel logístico crucial:

(i) eram frequentemente utilizadas para o transporte de tropas, reabastecimento de material, combustíveis ou água doce ao longo dos rios, e apoio logístico geral aos fuzileiros e companhias no interior do território;

(ii) no caso do motor "Bor" (é assim que a CECA, 2014, lhe chama, pág. 482) a sua estrutura de fundo chato e a rampa à proa assemelhavam-na visualmente e funcionalmente a uma lancha de desembarque (daí poder ser confundida com as LDG), ideal para encalhar em bancos de areia e margens lamacentas para carregar ou descarregar pessoal e viaturas;

(iii)  tinha um sistema de propulsão especial (Voith-Schneider):  contava com dois motores, dispostos de forma assimétrica, um à proa a bombordo (lado esquerdo) e outro à popa a estibordo (lado direito), como já se disse acima; este sistema utilizava hélices de pás verticais orientáveis (cicloides), que giravam num disco horizontal.

(iv) este arranjo conferia à embarcação uma manobrabilidade excecional: conseguia girar 360 graus praticamente sobre o seu próprio eixo e navegar lateralmente, algo crucial para escapar de emboscadas ou contornar os canais estreitos, sinuosos e de pouca profundidade (os "tarrafes" e esteiros) dos rios da Guiné;

(v)  embora fossem consideradas unidades auxiliares não-militares no papel, podiam ser tripuladas por militares da Armada, ou por marinheiros militarizados ou civis;

(vi) o "Bor" e outros "motores" pertenciam aos Serviços da Marinha da Província; caso do "Corubal (30 t), do "BM1" (40 t), do "BM2" (40 t) e ainda do "Formosa", fazendo tanto transportes militares como civis:
 
(vii)  devido ao seu perfil lento e vulnerável, sempre que navegava em missões fluviais mais arriscadas, as UAM eram, em geral. escoltada por Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG) ou Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), como as que aparecem ao lado da "Bor" na foto original (Orion e Cassiopeia) (fotos nº 1 e 2);

(viii) sendo uma UAM,  a "Bor" não dispunha originalmente de sistemas de armas pesados de fábrica; contudo, no ambiente de guerra da Guiné, uma UAM como esta embarcação podia ser reforçada à pressa com reparos locais para metralhadoras pesadas (como as Browning 12.7 ou canhões de 20mm) à proa e nos flancos para autodefesa contra fogo vindo das margens;

(ix) a "Bor" participou, por exemplo, na Op Tridente (jan-mar 1964).

Continuamos a chamar-lhe "ferryboat" (como de resto, a CECA também lhe chama). Tem 9 referências no nosso blogue. Procuram-se mais testemunhos e fotos da "Bor". Falaremos mais e melhor, em próximo poste, dos "transportes fluviais" na Guiné.
 
 [ Pesquisa: IA  + Facebook do Carlitos Montego + CECA + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini / Google AI)]

(Condensação, revisão / fixação de texto : LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série >  28 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27474: A Nossa Marinha (5): Os últimos marinheiros do Império

Guiné 61/74 - P28484: Notas de leitura (1976): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
Estamos a passar em revista alguns dos pontos altos deste memorável romance de Lobo Antunes, tudo acontece num jantar de militares que anos antes regressaram de Moçambique, vamos ficar a saber como eram os interrogatórios, os espancamentos e os lugares lúgubres para onde eram lançados os adversários do regime; entramos na vida daquele grupo minoritário maoísta e assim chegamos ao 25 de abril, o alferes casado com uma menina muito bem vai contar-nos a reação de uma família abastada que até pensa logo em pirar-se para o estrangeiro, temem as violações das hordas comunistas que por aí vêm, com russos e checoslovacos à frente; a comandar no quartel da Encarnação, mandou às urtigas as ordens transmitidas pelo coronel Ricardo, este irá tornar-se num espantoso vira-casacas, o temível saneador de coronéis e majores, pôs ao seu serviço o tenente-coronel Artur, este, mais tarde, limpa-lhe o sebo. mas ainda há mais coisas a dizer sobre o PREC.

Abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 4

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. "Fado Alexandrino", considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Já aconteceu o 25 de abril, mas não vamos ainda disparados para o processo revolucionário, ficamos a saber que o alferes maoísta foi apanhado pela PIDE, ele diz durante o jantar que da cela se avistava um bocado da praia, a seguir ao muro, o guarda de metralhadora numa espécie de trono de cimento, ele via casas distantes e automóveis minúsculos nas estradas em obras, encontrou no pátio alguém da Organização, o Emílio, reconheceu-o logo apesar dos inchaços das feições, da órbita esquerda destruída, murcha e pendente como um lírio, fora bem espancado de cima a baixo, é um encontro convulsivo, extremamente doloroso, a Organização não dá sinal de vida. Algo tinha acontecido na vida do regime, houvera mudança de carcereiros.

“Já deviam desconfiar da revolução, sugeriu o alferes. Já deviam saber do que se tramava e andavam todos borrados de medo, a tirar as castanhas do lume, a preparar o salto. Querias tratamento de comité central, meu lindo, tortura, pancadaria da boa, isolamento, querias sentir-te importante, certificar-te que existias, mas já não tinhas nenhum interesse para eles. Em certo sentido a revolução lixou-te: fez-te compreender que quando toca a Santos ninguém dá meio tostão furado por ninguém.”

E explica os seus sentimentos de presidiário: “Se alguém comia porrada em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém ia aos interrogatórios em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém era castigado e posto em dieta em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo.”

É assim que ele rememora Caxias. E depois chegou a liberdade, voltou para o prédio perto da Feira Popular, a tia e a Esmeralda receberam-no, emocionadas.

Começa a vida agitada do período revolucionário, o marido da Inês ouve o telefone tocar, é a mulher que atende, do outro lado a sogra do alferes informa com toda a intensidade melodramática: “Houve uma revolução comunista esta noite, anda tudo aos tiros na Baixa, o povinho quer pendurar nos candeeiros as pessoas decentes. A mãe manda que aa gente vá quanto antes para Carcavelos.”

Segue-se o delírio da fantasia, vêm aí as violações, os roubos dos talheres de prata, engraxadores batendo com as escovas enormes em pobres administradores das empresas indefesos, os russos vão degolar gente, haverá checoslovacos e húngaros a dar tiros por toda a parte. O ambiente em Carcavelos é de gente em pânico, família e amigos, a mãe está consternada:
“Prenderam o governo e o Presidente da República, coitado, educadíssimo, uma joia, que mal é que ele fez seja a quem seja, prenderam centenas de pessoas, há por aí hordas de ateus, desses que dão a pílula às mulheres, a destruir as igrejas, a fuzilar os católicos. Eu aqui não fico, já mandei o pai arranjar bilhetes de avião para todos, não estou para que um bando de selvagens me invada sem mais nem menos a casa e me viole a família inteira.”

Há comentários cataclísmicos sobre prisões de gente de bem, quando os carros já estão atulhados de malas, repensa-se a fuga, descarrega-se a carga, fica-se por enquanto em Carcavelos, voltam as descrições delirantes de violações, de assaltos, de vagabundos a obrar sem cerimónia nos tapetes, o mais que se quiser. Inês, o marido e a filha voltam para a casa de Lisboa.

O soldado do serviço de mudanças entra na conversa, revela que o tio perdera o entusiasmo, a empresa prosperava por inércia, o que lhes tramou a vida foi a trombose da dona Isaura, a tia. Apareceu depois a contabilista, passou a tomar conta não só da escrita como dos negócios, ocupava autoritariamente o lugar da dona Isaura nas refeições. O genro daquela senhora despótica de Carcavelos interrompe a narrativa do soldado para falar das gritarias da sogra: “Leram a pouca-vergonha do jornal? Que vão dar o dinheiro dos ricos a todos, que os católicos se vão poder divorciar, que criam partidos políticos às dúzias. Ó Jaime, você livre-se de me trazer para casa mais porcarias dessas, ainda por cima com fotografias de comunistas horrorosos na primeira página.” Mas o genro também tem outras intimidades para contar, agora ganham uns cobres com relações homossexuais, sobretudo com um pintor, é uma descrição inultrapassável. E ficamos a perceber que a vida amorosa de toda esta gente que está agora a rememorar o 25 de abril fala de alterações profundas, o soldado apaixona-se por Odete, menina muito intelectual que vive lá em casa dos tios, irá saber-se mais tarde que é a maoísta Dália, é ela a controleira do alferes que trabalha no Ministério do Exército.

Mas talvez o episódio mais empolgante aqui narrado seja o que se passou com a vida do nosso tenente-coronel que irá passar a colaborar, como a unha com a carne com o coronel Ricardo, um espantoso vira-casacas que deu em Torquemada, o nosso tenente-coronel Artur recebe uma escabrosa missão:
“Estes revolucionários matam-me de trabalho, vais-me ser utilíssimo aqui. Por vontade de eles, sabes como é, todos os oficiais superiores iam à viola, temos de ceder nalguns casos para ganhar espaço de manobra para os restantes.
Saneamentos, graduações, produções, aí tens o tipo de chatices que te esperam. Consultas as folhas de serviço, elaboras um memorando, formulas o teu parecerzinho, discutimos os dois, em conjunto, a decisão a tomar, eu levo o que a gente resolveu lá acima e os artolas que mandem o que muito bem entenderem, não temos nada com isso.”


É mais um texto espantoso do Lobo Antunes, o vira-casacas torna-se num temível saneador, marca profundas distâncias com o tenente-coronel Artur, quer mais e mais saneamentos: “Assim não vamos lá, Artur: passa-me no mínimo noventa porcento dos oficiais superiores à reserva, eram esses cabrões quem segurava o regime. Dá-me os pareceres que eu carrego-os aqui e ali e convenço os nossos capitãezinhos de fraldas com manias de Guevara: são um bocado esquivos, percebes, mas correndo-lhes a mão pela garupa faz-se deles o que se quiser.” E o tenente-coronel conversa com a sua gente de Moçambique, um dia adoeceu gravemente, visitou-o no hospital, disse-lhe tudo na cara, o moribundo nem se contorceu, o tenente-coronel Artur tirou-lhe o tubo de soro e todo o equipamento que ligava o general Ricardo ainda à vida. A vingança servia-se fria.

Mas que o leitor se acautele, ainda temos 25 de abril e processo revolucionário pela frente.
António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Nota do editor

Vd. post anterior de 26 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28476: Notas de leitura (1975): Meio século de lutas no Ultramar (Guiné), pelo Tenente-Coronel Bello de Almeida, edição da Sociedade de Geografia de Lisboa em comemoração da Semana das Colónias, 1937 - 1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28483: Parabéns a você (2537): Abílio Magro, ex-Fur Mil Amanuense do CSJD/QG/CTIG (Bissau, 1973/74)

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Nota do editor

Último post da série de 1 de Novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28480: Parabéns a você (2536): José Carlos Gabriel, ex-1.º Cabo Operador Cripto de 2.ª CCAÇ / BCAÇ 4513/72 (Aldeia Formosa, Cumbijã e Nhala (1973/74)

domingo, 1 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28482: As nossas geografias emocionais (70) : Bolama dos anos de 1978/79 - Parte I: Fotos de embarcações do nosso tempo, a "Bor" e a "Corubal"...



Foto nº 1 > Bolama: Ferryboat "Bor" a apodrecer no cais


Foto nº 2 > Bolama: Embarcação "Corubal", ainda a navegar 

Foto nº 3 > Bolama: porto-cais,  baixa-mar


Foto nº 4 > Bolama: Avenida prinicpal e o seu casario colonial


Foto nº 5 > Bolama:  antigos combatentes


Foto nº 6 > Bolama: alfaiate



Foto nº 7 > Bolama: capitão de embarcação (seria da "Corubal" ?)

Guiné-Bissau >  Arquipélago dos Bijagós > Bolama > c. 1978/79 >  

Fotos: Cortesia do sítio Guiné-Bissau Recordações em Imagens  
(Melhoradas com recurso à IA/Google | Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026)


1. Há tempos (há 12 anos atrás!), o nosso camarada João Parreira  [ex-fur mil op esp, CART 730 / BART 733, Bissorã, 1964/65; ex-fur mil comando, Gr Cmds Fantasmas, CTIG, Brá, 1965/66], descobriu uma foto da velha Bor, um antigo ferryboat, ao serviço do Comando Defesa  Marítima da Guiné... A apodrecer no cais de Bolama...

Data: 12 de dezembro de 2014 às 23:09

Assunto: Bor

Boa noite,  Luís,

Os meus camaradas que fizeram a viagem para Bolama na Bor [em 1964,] e que contatei, já me responderam a dizer que não tinham nenhuma foto.(**)

Assim, comecei a procurar e acabei agora de descobrir onde fui buscar a foto do ferryboat Bor  com a qual ilustrei o meu diário na parte referente à minha viagem para Bolama em 1964.

Foi no blog guinebissaulembrancas.blogspot. A foto da balsa Bor  foi tirada em 1978 por um casal de brasileiros que viveu na Guiné-Bissau em 1978-79.

Um abraço, João


2. Comentário do editor LG.:


Os dois brasileiros, um casal, que criou
o sítio "Guiné-Bissau: Recordações em Imagens"

Estas fotos têm quase meio século. A da Bor, a do Corubal (duas embarcações do nosso tempo) e outras tiradas em Bolama. 

Repescámos algumas, com a devida vénia, de um sítio criado por um jovem casal de brasileiros, cooperantes, ainda no tempo do regime de Luís Cabral (1978/79). 

 A qualidade das fotos, a cores, foi melhorada com recurso à IA / Google. Há fotos de Bolama, Bolama de Baixo e Bubaque, e da população local. 

O sítio ainda está "on line" (!), e merece uma visitinha.


["De um casal de brasileiros que viveu naquele grande pequeno país em 1978-79, voluntários das Nações Unidas, professores do Jardim Escola e da Escola Piloto do PAIGC, na ilha de Bolama, arquipélago dos Bijagós."].

[https://guinebissaulembrancas.blogspot.com/p/blog-page_580.html] 

[https://web.archive.org/web/20181112051545/https://guinebissaulembrancas.blogspot.com/p/blog-page_580.html]

Seria uma pena estas fotos perderem-se na voragem do tempo e no turbilhão da Internet. São imagens que pertencem ao mundo e à lusofonia. E em primeiro lugar aos guineenses. Mas também a nós, antigos combatentes... Para muitos de nós, Bolama foi o primeiro contacto com aquela terra verde-rubra. Bolama, tal como a Bor, fazem parte das nossas geografias emocionais. 

Obrigado aos nossos  camaradas que resgataram as memórias da velha Bor: Manuel Amante da Rosa, João Parreira,  Libério Lopes, José Botelho Colaço, António Bastos, Rui Santos, Torcato Mendonça, Ismael Augusto, Fernando Chapouto... Obrigados ao(s) fotógrafo(s) brasileiro(s).

A Bor participou, por  avaria de uma LDG,  na Op Lança Afiada (Sector L1, BambadincA, 8-19 de março de 1969). Fez muitas viagens até Bolama. Mas também ao Xime e a Bambadinca. 

Segundo o falecido João Candeias Silva  (1950-2022)  (ex-fur mil, CCAÇ 12, 1973), "a Bor pifou de vez e passou em 1973, em meados de junho, a deslocar-se atrelada a um rebocador". 

E acrescentou: 

"Numa das viagens que fiz, Xime-Bambadinca, por deferência do comandante do rebocador, foi bem mais confortável e com direito a bebida a bordo do rebocador. Curiosamente nunca fiz a viagem inversa de barco."
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Nota do editor LG: