terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18335: Vídeos da guerra (14):visionamento e resumo analítico do vídeo da ORTF / INA, "Guerre en Guinée" (1969, 13´ 50''): tradução e adaptação de Luís Graça e Virgínio Briote


Vídeo: "Guerre en Guinée" (1969) (13' 50'')... Cortesia de INA - Institut National de l' Audividuel

[Em 2009, o vídeo não estava disponível para ser visto, diretamente, no nosso blogue, apesar do Virgímnio Briote ter comprado uma cópia para uso pessoal;  a política do INA mudou; este vídeo foi obtido diretamente do seu portal,. utilizando um código de exportação... Vive la France!... Mas este trabalho da ORTF foi "pago" pelos contribuintes portugueses: o Spínola ofereceu aos jornalistas franceses "cama, mesa e roupa lavada"... É o preço da propaganda de Estado... Só que a "ostra" saiu-nos mesmo amarga, a todos nós... A vergonha, para nós portugueses, é que os fotocines do exército e os repórteres da RTP nunca conseguieram oferecer-nos nada de jeito, que não fosse mera propaganda...]

Guerre en Guinée | Point contrepoint  | Video 11 Nov. 1969  | 88892 Vues  | 13 min 50s






Guiné > Região do Cacheu > Bula > CCAV 2487 / BCAV 2862 (Bula, 1969/70) > 18 de Outubro de 1969 > Dois mortos e um ferido no decurso da Op Ostra Amarga (também ironicamente conhecida como Op Paris Match)...

As NT (2 Gr Comb da CCAV 2487, comandadas pelo cap cav José  Sentieiro, hoje cor cav  ref e cruz de guerra de 1ª classe  (, a viver em Torres Novas,) caiem num emboscada do PAIGC... O combate é registado por uma equipa da televisão francesa, a ORTF... 

Foto: INA - Institut National de l' Audiovisuel (2006) / Cópia pessoal de Virgínio Briote (**)


1. O filme-documentário da portuguesa Diana Andringa e do guineense Flora Gomes, As Duas Faces da Guerra, (2017) , utilizou cenas de uma reportagem feita em 18 de Outubro de 1969 por uma equipa da televisão francesa, a ORTF, acompanhada de um ou dois repórteres do então muito em voga semanário Paris-Macth.

Segundo a investigação posterior feita pelo nosso co-editor  (. hoje jubilado...) Virgínio Briote, junto de Diana Andringa e de outras fontes (antigos camaradas, coronel ref José Sentieiro, cor ref e escritor Carlos Matos Gomes, Arquivo Histórico Militar, etc.) descobrimos na altura que estas cenas referim-se à Op Ostra Amarga, na região de Bula, em que as NT caíram debaixo de uma emboscada do PAIGC, sofrendo dois mortos e um ferido…

Estas cenas de combate são mostradas no vídeo, que está disponível no sítio do INA – Institut National de l’Audiovisuel [Instituto Nacional Francês do Audiovisual] .

No filme-documentário, As Duas Faces da Guerra, que se estreou, entre nós, no dia 19 de Outubro último, no decurso do 5º Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa (*), dois antigos combatentes portugueses que participaram nessa operação (um deles o que fora ferido), comentam emocionados esse episódio de guerra, que ficou também conhecido, ironicamente, por Operação Paris Match, já que nela iam integrados vários jornalistas franceses, incluindo uma mulher, com o beneplácito e a cumplicidade do  gen Spínola.

É de referir que o General Spínola aparece, em carne e osso, no local, às 15 horas da tarde, acompanhado do então capitão (ou já major?) Almeida Bruno a trocar impressões com o ten cor Alves Morgado (comandante do BCAV  envolvido na op.).

Será depois entrevistado no final da reportagem, no palácio do Governador,  fazendo-se perante os jornalistas estrangeiros o arauto da política do Governo Português, no que diz respeito à defesa das “províncias ultramarinas”. Fala em francês, mas com erros e pouca desenvoltura. Uma parte das suas declarações são lidas.

Em suma, tudo indica que os jornalistas estrangeiros, oriundos de um país amigo, da NATO, a França, iriam fazer um mero passeio pelo mato e testemunhar, com os seus próprios olhos, que a situação militar, no interior da Guiné, estava sob o nosso inteiro controlo, contrariamente à propaganda externa do PAIGC (que também irá usar, sobretudo nos anos 70, a arma da sedução e da propaganda, convidando jornalistas estrangeiros e diplomatas, de países amigos, a visitar as regiões libertadas).

No que respeita à Op Ostra Amarga (que raio de nome, que premonição!), as coisas, de facto, não correram, como se previa, e os próprios jornalistas caíram debaixo de fogo, juntamente com os dois Grupos de Combate onde iam integrados… O pior é que tivemos dois mortos e um ferido, sendo a agonia de um dos nossos camaradas registada em filme…

2. O Virgínio Briote tinha, tempos antes, comprado, ao INA francês (, o Instituto Nacional do Audiovisual), os direitos de “téléchargement” (download), para uso estritamente pessoal , de nove vídeos sobre a Guiné, embora não tendo na altura conseguido autorização para os passar directamente no nosso blogue, como era sua e nossa intenção (**).

Decidimos na altura fazer um resumo alargado do filme (que é falado em francês), de modo a possibilitar o seu visionamento e a sua melhor compreensão pelos nossos camaradas (muitos dos quais não dominam a língua gaulesa)… Não o podemos inserir directamente no blogue (por causa do copyright) , mas podemos fazer uma ligação (ou link) para o sítio do INA (**)

Hoje o vídeo está disponível para ser descarregado livremente. E ainda bem, A França e a língua francesa bem precisam de marcar pontos no mercado global. Decidimos voltar a publicar a sinopse do filme, em francês, seguida de um resumo analítico, mais alargado,  feito por nós.   As imagens que aqui reproduzimos são fotogramas do filme, retiradas pelo Virgínio Briote da sua cópia pessoal.


3. Vídeo Guerre en Guinée

(Resumo analítico e descrição das cenas em português. trabalho dos editores Luís Graça e Virgínio Briote)

Point contrepoint
ORTF - 11/11/1969
Vídeo: 13' 50''

Guinée Portugaise / VA de la région / VA d'un bateau à quai / VA de la berge / grues / transportement des caisses / marin armé / deux noirs sur une petite embarcation / la rue / travelling latéral le long d'un grand immeuble à loggias / zoom arrière sur un bac / soldats armés / camions militaires / hélicoptère survolant une région à la frontière du Sénégal / soldats armés qui en descendent / ils partent dans un canot pneumatique et s'éloignent /


VA à bord de l'hélicoptère sur les berges de la rivière / BA de la forêt / soldats patrouillant dans la forêt / PA de soldats blancs et noirs qui patrouillent / colonne dans forêt lors de l'embuscade / soldats pris sous le feu / tir au lance grenades / images très assemblées / soldat touché / blessé à terre / cadavre sur le sol / GP sur le soldat blessé / GP de cadavres sur le sol / GP de soldats l'air écoeuré / après l'attaque / soldat aux visages tuméfiés / blessé allongé à qui on fait une transfusion / on essaie de la transporter / il a une jambe coupée / départ du blessé / râle du blessé / GP mort.

Quelques soldats autour du blessé / un soldat assis / GP d'un jeune soldat / un autre fume / GP d'un soldat qui traspire / soldat qui est mort / soldat autour d'un mort / hélicoptère dans le ciel / 2 soldats soutiennent un blessé / hélicoptère qui atterit en contre plongée / attérissage / on retire la civière / une infirmière descend / un monte un blessé sur une civière à l'intérieur de l'hélicoptère / un homme blessé à bras d'homme est hissé à bord / départ de l'hélicoptère / deux têtes de palmiers se détachent dans le ciel / soldat qui boit à la gourde / mise au point de l'officier, de ses hommes /.


Général A. Spinola commandant en chef de l'armée (portant monocle) / "défendre les institutions contre l'avenir du Sénégal et en Guinée" (retire ses monocles) / préoccupation constante des forces militaires / de ménager les populations... le pays profite surtout de l'appui des pays du Pacte de Varsovie.




4. Resumo analítico >  Tradução e adaptação de LG/VB:

Guerra na Guiné

(Carregar aqui para ver o filme) (**)


Programa: Ponto Contraponto
Estação de TV: Organismo da Radiotelevisão Francesa [ORTF]
Data: 11 de Novembro de 1969
Duração do filme: 13m 57s



0' 00'' > Guiné Portuguesa em 1969 [apresentação: geografia, história, demografia… Território do tamanho da Bélgica… Meio milhão de habitantes, apenas 3 mil de origem portuguesa…].
Vista aérea da região /
Vista aérea dum barco no cais de Bissa /
Vista aérea da margem /
Gruas /
Estivadores [ Referência à greve dos marinheiros e estivadores do cais do Pindjiguiti em 1959, cuja repressão vai desencadear o início da luta contra o domínio português, segundo os testemunhos posteriores dos fundadores e dirigentes do PAIGC… Referência ao papel histórico de Amílcar Cabral, um homem de origem mestiça (sic), fundador do PAIGC, um partido marxista (sic)] /
Marinheiro armado /
Dois negros numa piroga /
A rua /

1' 00'' > Travelling lateral ao longo de zona comercial de Bissau, de casas de arquitectura colonial
[Vinte cinco mil soldados portugueses controlam um terço do território e dois terços da população; o PAIGC controla outro terço do território; o resto está sob duplo controlo]
Zoom de uma barcaça [Bissau é um ilha… A 30 km, é o preciso tomar uma barcaça para penetrar no interior… Referência à travessia do Rio Mansoa, em João Landim, segundo se depreende] /
Soldados armados /
Camiões da tropa da caminho da barcaça / jangada


Helicóptero que sobrevoa uma região de fronteira com o Senegal
[ Fuzileiros vão uma base do PAIGC onde não encontram ninguém… Referência ao constante patrulhamento de rios e braços de mar… Um zebra dos fuzileiros… Uma Lancha de fiscalização da Marinha de Guerra…].
Uma equipa de fuzileiros parte num barco pneumático e afasta-se /
Vista aérea do helicóptero sobre as margens do rio /
Vista aérea da floresta.


3' 35'' > Soldados armados que descem do heli...
(Aqui começa a Op Ostra Amarga, envolvendo soldados de uma companhia de cavalaria, - e não de comandos, como nos pareceu inicialmente… A força é comandada pelo então Capitão de Cavalaria José Sentieiro… A operação decorre na regia de Bula. setor da responsabilidade do BCAV 2862. comandado pelo ten cor Morgado).


4' 30'' > Soldados deslocam-se na floresta /Soldados, brancos e alguns negros /
(Ouvem-se os ruídos típicos da floresta… Já de dia, às 7 horas e um quarto, a testa da coluna na mata sofre um emboscada. É atingida por rockets…) /
Soldados debaixo de fogo/ Ouve-se o matraquear de armas automáticas.



Contra-resposta  da coluna emboscada/
Tiro de lança-granadas das tropas portugueses [ que estão equipadas com LGFog 3.7, que eram originalmente só usadas pelas tropas especiais, paraquedistas, comandos e fuzileiros...] /
Tiro de morteiro 60 /
Correria até à frente da coluna.



Soldado atingido /
Ferido no chão /
Corpos no chão /
(Há um morto imediato, o Henrique Costa, de Peniche, retalhado pela roquetada, enquanto o António Capela, de Ponta de Lima, sobreviverá apenas 45 minutos, morrendo na altura em que chega o heli para a evacuação) /
Grande Plano do soldado ferido /
Grande plano de cadáver no solo /
Grande plano de um soldado com ar abatido.



5' 30'' > Depois do ataque… Soldados de rosto entumecido /
Ferido estendido no chão recebendo soro do maqueiro, de pé (segundo a Diana Andringa, deve ser o Pedro Gomes, o 1º cabo auxiliar de enfermagem, natural de Peniche, e  falecido em 2007) /
Tentam transportá-lo /
Tem uma perna partida /
Partida do ferido /
Estertor do ferido /
Grande plano do morto.
Alguns soldados à volta do ferido /Um soldado sentado /
Grande plano de um jovem soldado /
Um outro que fuma /
Grande plano de um soldado que transpira /
Soldado que morreu /

8' 47'' > Imagens breves das lavadeiras do rio Lima estendendo a roupa ao sol (, Ponte de Lima era a terra do Capela)
Soldado à volta do morto /
Um crucifixo caído no capim, perto do morto.
Helicóptero que surge no céu /
Dois soldados apoiam um ferido a caminho do helicóptero /
Helicóptero que aterra, em contre plongée /
Aterragem /
Retiram a maca /
9' 50'' > Uma enfermeira-paraquedista, de blusa branca e calças de camuflado, que sai.


Transporte dum ferido em maca para o interior do helicóptero /
Um homem ferido é levado para bordo, em braços/
Partida do helicóptero /
As copas de duas palmeiras destacam-se no céu /
Soldado que bebe água do cantil /
Enfoque da câmara no oficial (capitão de cavalaria José Sentieiro), rodeado dos seus homens (os 2 Gr Comb da CCAV 2487).

11' 30'' > Chega o Spínola (, com o seu ajudante de campo, o então capitão Almeida Bruno, hoje general, que empunha a G-3, com luvas branca)... Está também acompanhado de um oficial superior, tenente coronel Morgado, comandante do Batalhão de Cavalaria 2868, com sede em Bula


11' 53'' > Por fim, o general Spínola (comandante-chefe das forças portugesas, usa monóculo, diz o guião) dá uma entrevista à equipa da ORTF e possivelmente aos restantes jornalistas (que nunca aparecem no filme), defendendo a política ultramarina do Governo Português... e a sua actuação na Guiné... Dá impressão que também está a ler um papel. Às tantas tira o monóculo (o "caco") e segura-o na mão. Aparenta estar em boa forma física. Está com 59 anos feitos em 11 de abril.

No essencial, diz o Com-Chefe português: A preocupação constante das forças militares é de proteger e apoiar as populações, contrariamente ao que diz a propaganda do PAIGC, o qual beneficia sobretudo do apoio dos países do Pacto de Varsóvia e da China… (Discurso de circunstância ou de contrapropaganda…). (***)

__________

Notas do editor:

(*) Vd. post de 20 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2197: A nossa Tabanca Grande e As Duas Faces da Guerra (4): Encontro tertuliano no hall da Culturgest na estreia do filme (Luís Graça)

(**) Vd. post de 16 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1958: Vídeos da guerra (1): PAIGC: Viva Portugal, abaixo o colonialismo (Luís Graça / Virgínio Briote)

 (***) Último poste da série > 8 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16577: Vídeos da guerra (13): Documentário "Cartas da Guerra - Making of" (, produção O Som e a Fúria, 2016) passou na RTP2, dia 14 de setembro de 2016, e pode ser visto "on line"

Guiné 61/74 - P18334: (De)Caras (104): Onde fica a Rua António da Silva Capela ?... Fica em Lousa, Loures... Quem foi ? Um herói limiano, esquecido na sua terra natal, Ponte de Lima (Mário Leitão / Adelino Silva)



Localização da Rua António da Silva Capela, Lousa, Loures. Fonte: © Google (2018)  (com a devida vénia...)

Freguesia: Lousa
Concelho: Loures
Distrito: Lisboa
GPS: 38.867017, -9.213068


1.  Como chegar à Rua António da Silva Capela, em Lousa, Loures ?  O portal Moovitapp dá-te uma ajuda...

E sabes quem foi o António da Silva Capela ? Não sabes, como ninguém sabe... tanto em Loures (onde está sepultado) como em Ponte de Lima (onde nasceu)... Ninguém sabe, nem está sequer interessado em saber... Para ter nome de rua, é alguém que já morreu...

É verdade, é alguém que já morreu. Um jovem minhoto, que morreu em combate, numa guerra já esquecida, e que ninguém quer lembrar: guerra do ultramar, para uns, guerra colonial, para outros... Em suma, um camarada nosso cuja memória temos a obrigação de honrar...

Foi homenageado em 1971, dois anos depois da sua morte, com um nome de rua no município onde foi sepultado (e onde deveria residir ao tempo em que fora chamado a prestar o serviço militar obrigatório)... Era então presidente da câmara municipal de Loures (1970-1974) um tal Luís Filipe da Cunha de Noronha Demony (nascido em Moçambique, em 1928)... Estávamos no "tempo do fascismo", dirão alguns... 

Hoje já ninguém se lembra dessa simples homenagem do município de Loures ao soldado limiano... Felizmente, há quem se recuse em deixar este nosso camarada, morto em combate na Guiné, no setor de Bula, em 18 de outubro de 1969, ficar "sepultado na vala comum do esquecimento"... Conterrâneos seus como Mário Leitão, nosso grã-tabanqueiro, ou o jornalista Adelino da Silva, fazem questão de resgatar a sua memória.

Sobre o herói limiano António da Silva Capela (Cabaços,. Ponte de Lima), escreveu o  nosso Mário Leitão:

(...) "Soldado Atirador 72441868. Este jovem deixou-nos algumas das mais lancinantes e emotivas imagens que se conhecem de toda a filmografia da Guerra do Ultramar, divulgadas pelo Institut National de l’Audiovisuel francês (...) Trata-se de um filme chocante sobre a agonia de António Capela, nascido em Cabaços no dia 25 de Outubro de 1947 e recenseado em Loures, onde está sepultado no Cemitério da Lousa. Foi mobilizado para a Guiné pelo Regimento de Cavalaria 7, extinto em 1975, como membro da Companhia . de Cavalaria 2487, pertencente ao Batalhão de Cavalraia  2868, que embarcou no dia 23/02/1969 e regressou a 30/12/1970. Era filho de Gabriel dos Santos Capela e de Rosa Araújo da Silva." (...)


Adelino da Silva, por sua vez, escreveu, em 18 de julho de 2016, no portal "Vale Mais" um vibrante e brilhante artigo de opinião ("As lavadeiras do rio Lima e a guerra colonila") que merece ser conhecido dos amigos e camaradas da Guiné que aqui se sentam sob o poilão da Tabanca Grande.


2.  AS LAVADEIRAS DO RIO LIMA E A GUERRA COLONIAL

Opinião > Adelino Silva > Jornal Vale Mais, 18 Julho, 2016

[Texto e foto: reproduzidos com a devida vénia, ao autor e ao editor]

Estávamos em 18 de outubro de 1969, era um sábado de outono, morno e soalheiro. Vivíamos no “Portugal Maior” — assim batizado por Norton de Matos, o nosso General —, aquele Portugal, real e utópico, cujos territórios se estendiam do Minho a Timor.

Na Guiné-Bissau — uma das parcelas desse “Portugal Maior” —, os jovens soldados portugueses combatiam, há alguns anos, contra uma guerrilha “invisível”, mas vivamente determinada em derrotar o exército colonial, com emboscadas ferozes e minas insidiosas.

Em Ponte de Lima, na centenária vila, as mães desses soldados — as airosas e risonhas “lavadeiras do Lima” —, engalanavam o pitoresco areal, ainda doirado e luminoso, com fulgentes estendais, em cenário policromático matizado por incontáveis peças de roupa.

Na Guiné, nas rústicas tabancas, circundadas por verdes matas gementes, as mães dos guerrilheiros pilavam arroz e milho, de forma ritmada e vagarosa, em mais um dia longo e sonolento.

Perto de Bula, nos bosques viridentes e adversos, um jovem limiano de Cabaços (António da Silva Capela), integrava como soldado atirador, uma patrulha da “Operação Ostra Amarga” (*), precisamente aquela que Spínola — o enigmático comandante-chefe —, escolheu, como palco improvisado, para promover mais um episódio de propaganda inútil, levando, para os “trilhos da morte”, uma equipa de repórteres franceses, ao serviço da rádio e da televisão ORTF e da revista Paris-Match.

“Ostra Amarga” viria a tornar-se, nesse dia, num doloroso e gélido malogro para as nossas tropas e num invulgar batismo de guerra para os jornalistas franceses.

Em “direto”, a cores e debaixo de “fogo cerrado”, aquela equipa de ousados repórteres registou, em película, num longo travelling dantesco, o clímax dramático e apocalítico, tingido de rostos de dor, horror e tragédia, de uma das operações de combate mais desumanas, alguma vez filmada nas frentes da guerra colonial e que viria a ser fatal para o jovem limiano.

As imagens ácidas, cortantes e pungentes, resultantes de mais uma emboscada impiedosa, correram mundo; a televisão francesa emitiu-as em 11/11/1969; e a revista “Paris Match” publicou, em 15/11/1969, uma reportagem, sob o título, “Guiné: a estranha guerra dos Portugueses”.
UM POVO QUE LAVA NO RIO E A ESTRANHA GUERRA DA GUINÉ

Mas, para mostrar o contraste, entre essa “estranha guerra dos Portugueses” (a cores) e o “Portugal real” (a “preto e branco”), o realizador francês, um génio criativo sabedor da força da tessitura da cor e do poema “povo que lavas no rio”, de Pedro Homem de Mello (PHM), inseriu, no meio do caos cénico, alguns fotogramas pincelados de beleza extrema, onde brota o gracioso areal limiano, esmaltado por infindas peças de roupa a flutuar ao vento, em suaves bailados coreográficos, e vigiadas, com denodo, por duas mãos cheias de generosas mulheres — as míticas “lavadeiras do Lima”. 

[Vd. INA.fr., vídeo "Guerre en Guinée",  minuto 8, 47º segundo...]

São imagens expressivas, a “preto e branco”, onde sobressai o quotidiano simples dessas “mulheres-lavadeiras”, que o atento realizador francês, utilizando o efeito catalisador da arte cinematográfica, exibiu ao mundo, simbolicamente, como sendo as “mães de Portugal”, que sustentavam a “estranha guerra” da Guiné, com a seiva mais valiosa da juventude.

Hoje, na sempre vetusta e renovada vila, as “mães de Portugal” — as “lavadeiras do Lima” — deixaram de ser a imagem icónica do “povo que lava no rio” e, no pictórico areal do Lima, os lençóis de alvura reluzente já não tremulam, em animada sinfonia visual, com a pureza das brisas que passam. Na Guiné, as mães dos antigos guerrilheiros, continuam a viver nas tabancas, envolvidas por cortinados de paisagens de ruínas e de silêncio, e a pilar arroz e milho, em tardes sempre quentes e intermináveis.

Em 31/10/1971, António Capela foi homenageado com o nome de uma rua em Loures (onde se encontra sepultado), evento noticiado com grande brilho, em 15/11/1971, no jornal “Mirante”.

Mães que lavam no rio ou que pilam arroz nas tabancas, jovens soldados ou guerrilheiros que combatem ou morrem em “estranhas guerras”, são os laços traumáticos que unem dois povos, num véu de mágoa e de mistério, e que só serão suavizados pelas teias do tempo que passa. O resto, já o havia escrito, de forma sublime, PHM [Pedro Homem de Melo, 1904-1984], o tal poeta esquecido: “Pode haver quem te defenda; Quem compre o teu chão sagrado; Mas a tua vida não”.(**)

________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 19 de fevereiro de 2018 >  Guiné 61/74 - P18333: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (49): Quem são os camaradas da CCAV 2487 / BCAV 2862 (Bula, 1969/70), que assistiram aos últimos minutos de vida do trágico herói limiano António da Silva Capela (1947-1969), uma das vítimas mortais da emboscada, em 18/10/1969, no último dia da Op Ostra Amarga ? Estou a fazer a biografia deste filho de Ponte de Lima, que não pode ficar sepultado na vala comum do esquecimento na sua terra natal... (Mário Leitão)


(**)  Último poste da série > 10 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18197: (De)Caras (103): Patrício Ribeiro, "pai dos tugas" ou o "último improvável herói tuga" na Guiné-Bissau?... Recordando o seu ato de heroísmo e altruísmo em Varela, em 1998, ao "pôr a salvo", na fragata Vasco da Gama, um grupo de portugueses e outros estrangeiros... 18 milhas / c. 33 km pelo mar dentro, numa canoa nhominca...

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Guiné 61/74 - P18333: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (49): Quem são os camaradas da CCAV 2487 / BCAV 2862 (Bula, 1969/70), que assistiram aos últimos minutos de vida do trágico herói limiano António da Silva Capela (1947-1969), uma das vítimas mortais da emboscada, em 18/10/1969, no último dia da Op Ostra Amarga ? Estou a fazer a biografia deste filho de Ponte de Lima, que não pode ficar sepultado na vala comum do esquecimento na sua terra natal... (Mário Leitão)




Foto nº 2


Foto nº 3


 Foto nº 4


Foto nº 5


Foto nº 6



Foto nº 7


Foto nº 8


Foto nº 9


 Foto nº 10



Foto nº 11


 Foto nº 12


Foto nº 13



Foto nº 14

Footogramas, selecionados por Mário Leitão, do vídeo, em francês, "Guerre en Guinée" [, "Guerra na Guiné", ORTF, Paris, 1969] , hoje disponível no portal do INA - Institut national de l'audiovisuel (13' 58'').


1. Mensagem, com data de 8 do corrente, do nosso camarada: Mário Leitão [ hoje farmacêutico reformado, ex- Fur Mil na Farmácia Militar de Luanda, Delegação n.º 11 do Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos (LMPQF), 1971 a 1973; residente em Ponte de Lima, membro da nossa Tabanca Grande, escritor, autor de livros como "História do Dia do Combatente Limiano" (2017) e "Biodiversidade das Lagoas de Bertiandos e S. Pedro d´Arcos" (2012).



Camarada Luís, um grande abraço!

Não sei se será possível ou oportuno pedir à nossa comunidade de grão-tabanqueiros e aos visitantes assíduos as identificações dos camaradas que aparecem nos frames do vídeo ORTF sobre a morte de ANTÓNIO DA SILVA CAPELA, ocorrida no último dia da Operação Ostra Amarga. (*)

A questão é a seguinte: estou a terminar a biografia desse herói limiano (que tem o seu nome numa rua de Loures, mas que é desconhecido em Ponte de Lima!) e gostaria de deixar para a história o maior número de referências possível!

Referir alguns dos camaradas cujos rostos aparecem no filme, seria elementar sob o ponto de vista de rigor histórico, creio eu.

De resto, a biografia do Soldado Atirador de Cavalaria António Capela (CCAV 2487) está bastante completa, havendo uma descrição cronológica dos acontecimentos desde a madrugada do dia 18/10/1969, até ao regresso ao aquartelamento, no final da tarde.

Se for possível lançar um SOS, seria muito bom!
Outro abraço, extensivo a toda a tua equipa!

Muito obrigado!


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Bula > CCAV 2497 / BCAV 2862  (Bula, 1969/70) > 18 de Outubro de 1969 > Dois mortos e um ferido, numa emboscada,  no decurso da Op Ostra Amarga (que ficou também ironicamente conhecida como Op Paris Match)... Os nossos camaradas foram atingidos por um LGFog inimigo.

As duas vítimas mortais foram: (i) o Henrique Ferreira da Anunciação Costa, soldado clarim n.º 03434368, natural de Ferrel,  freguesia de Atouguia da Baleia, concelho de Peniche,  que teve morte imediata; e (ii) o  António da Silva Capela, soldado atirador n.º 0721868, natural da freguesia de Cabaços, concelho de Ponte de Lima:  morreu à espera da helievacuação.  Está sepultado no cemitério de Lousa, concelho de Loures (, município onde tem também nome de rua, homenagem realizada dois anos depois, em 1971).

As NT (2 Gr Comb da CCAV 2487, comandadas pelo Capitão Cav José Sentieiro, hoje coronel ref) caem num emboscada do PAIGC... O combate é presenciado por jornalistas estrangeiros e registado em filme por uma equipa da televisão francesa... No fotograma acima (foto nº 1), as NT prestam os primeiros socorros a um dos feridos graves. Um dos militares transporta, às costas, uma fiada de granadas de LGFog 3,7...

Foto: INA - Institut National de l' Audiovisuel (2006) / Cópia pessoal de Virgínio Briote, editor jubilado do nosso blogue (*)


2. Comentário do editor LG:


Fazemos um apelo para que os nossos leitores, e em especial os da CCAV 2487 / BCAV 2862 (Bula, 1969/70), possam idenrtificar estes camaradas que estiveram envolvidos na Op Ostra Amarga. (**)

O nosso camarada Mário Leitão tem-se dedicado, de alma e coração, à indispensável e exaustiva recolha e tratamento da informação relativa aos 52 limianos, os naturais do concelho de Ponte de Lima, mortos nos TO de Angola, Guiné e Moçambique bem como no continente ou outros territórios, no cumprimento do serviço militar, no período que abarca a guerra do ultramar (1961/74).

A lista (52 nomes no total). já aqui por nós publicada.  é enriquecida com fotos e valiosas notas biográficas. Os camaradas mortos no TO da Guiné  foram assinalados a vermelho (sublinhado). Um deles foi o António da Silva Capela, sold at, CCAV 2487 (1969/70), morto em combate no decurso da Op Ostra Amarga, e cuja atroz agonia foi filmada por uma equipa da televisão francesa, de visita ao TO da Guiné.

3. Este é o vídeo mais 'pornográfico' da guerra da Guiné, passado e repassado nas nossas estações televisivas,  na Net e no cinema, muitas vezes sem um mínimo de "pudor", sem uma informação de contexto, sem citação da fonte: a helievacuação ipsylon que não chegou a tempo, a atroz agonia do sold at da CCAV 2487, António da Silva Capela, natural de Ponte de Lima, mortalmente atingido nessa emboscada, no último dia da Op Ostra Amarga, no subsetor de Bula, região do Cacheu, uma ostra amarga para Spínola, para todos nós  e para os jornalistas franceses que cobriram este acontecimento de guerra.

O vídeo, em francês, "Guerre en Guinée" [, "Guerra na Guiné", com resumo analítico, em português, no poste P2249 (*)] , está disponível no portal do INA - Institut national de l'audiovisuel (13' 58''). Foi produzido pela ORTF, a estação de televisão pública francesa, em 1969. Não o podemos reproduzir, diretamente aqui, no blogue, pro razões de direitos de autor.  Mas apelamos a que os nossos leitores o vejam ou revejam, no portal do INA.fr [clicar aqui "Guerre en Guinée"]  para melhor identificação dos nossos camaradas, cujos fotogramas constam da primeira parte deste poste, e que vão renumerados, de 2 a 14.

__________








Guiné 61/74 - P18332: A cidade ou vila que eu mais amei ou odiei, no meu tempo de tropa, antes de ser mobilizado para o CTIG (31): Abrantes, sede do antigo RI 2 - Regimento de Infantaria 2, mais tarde Escola Prática de Cavalaria (2006) e hoje Regimento de Apoio Militar de Emergência



Abrantes > O antigo RI 2 - Regimento de Infantaria 2 >  Hoje  Regimento de Apoio Militar de Emergência


Abrantes > O antigo RI 2 - Regimento de Infantaria 2 >  Já foi Escola Prática de Cavalaria (2006)

Fotos: © Manuel Traquina (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Abrantes > RI 2 -  Regimento de Infantaria 2 > 1970 > A unidade mobilizadora de muitos batalhões que passaram pelo TO da Guiné como foi o caso  do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70)... Durante a guerra do ultramar, o RI2 incorporou, treina e mobilizou um total de 52.000 homens para os diverso Teatros de Operações. Mais concretamente, foi a unidade mobilizadora de  63 batalhões, 30 companhias independentes e 82 pelotões de apoio.

Na foto, em primeiro plano, o nosso camarada Otacílio Luz Henriques, a caminho da "peluda"...

Foto: © Otacílio Luz Henriques (2013). Todos os direitos reservados.   [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Abrantes > RI 2 -  Regimento de Infantaria 2 > 1969 > Vista aérea.

 Foto: Unidades do Exército Português > Regimento de Infantaria nº 2  (página  de Nuno Chaves, em construção) (com a devida vénia...)


1. Mensagem do nosso camarada Manuel Traquina, deixada ontem na página do Facebok da Tabanca Grande:


Para aqueles que passaram pelo Regimento de Infantaria de Abrantes vão estas fotos.

O RI2, como em tempos o conhecemos, e por onde passaram largos milhares de militares, agora virou RAME - Regimento de Apoio Militar de Emergência. 

Com um número de militares muito reduzido em relação aos tempos de guerra, foi já também Escola Prática de Cavalaria [, em 2006].

2. Comentário do editor LG:

No seu livro, "Os tempos de guerra: de Abrantes à Guiné" [Edições Palha de Abrantes, 2009), o Manuel Traquina tem um pequeno capítulo dedicado ao RI 2. unidade que mobilizou a sua companhia, a CCAÇ 2382...E dai partiram para a Guiné... O Manuel Traquina "jogava em casa", já que era natural do concelho (, Souto, a 20 km da sede)...

Sobre a sua terra diz o seguinte:

"Curioso é que ainda hoje a cidade de Abrantes seja lembrada por muitos que por aqui passaram e, também, por alguns que aqui arranjaram madrinha de guerra, namorada e noiva... casaram e por aqui ficaram" (p. 31).

Meu caro Manuel, a minha companhia, a CCAÇ 2590 (mais tarde, CCAÇ 12) foi mobilizada pelo RI 2. Aliás, éramos meia dúzia de gatos pingados (graduados e especialistas, uma meia centena). Formámos companhia, tirámos a Escola Preparatória de Quadros e fizemos a IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, também "à pedrada", como vocês,  no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), que ficava no concelho vizinho de Constança... A cerimónia de despedida foi junto à capela do CMSM, E dali fomos diretamente, de comboio (, tenho a ideia que de noite, quase como "clandestinos"...) para o Cais da Rocha Conde de Óbidos. Embarcámos no T/T Niassa em 24 de maio de 1969...

Da tua terra, Abrantes, não tenho memórias, desse tempo. Ou varreram-se-me as memórias, de todo.. Posso dizer que passei por Abrantes como cão por vinha vindimada... com os (des)acordes da fanfarra do RI 2 muito ao longe...


3. Recorde-se que o Manuel Traquina (ex-Fur Mil Mec Auto, da CCAÇ 2382, Buba, 1968/70) vive em Abrantes [, foto atual, acima]. Aliás,  nasceu no Souto, Abrantes, em 1945. 

Frequentou o Curso de Sargento Milicianos (CSM), nas Caldas da Rainha, no 1º trimestre de 1967. Em 30 de Março, dava início à especialidade de Mecânico Auto, na Escola Prática de Serviço e Material (EPSM), em Sacavém. Fez ainda estágio no Centro de Instrução de Condutores Auto nº 3 (CICA3) em Elvas. Em finais de Agosto, é transferido para o Depósito Geral de Material de Guerra (DGMG), em Beirolas. Quinze dias depois, a 13 de setembro, é mobilizado para a Guiné. A 19 de fevereiro de 1968, apresenta-se no RI 2, em Abrantes, a fim de integrar a CCAÇ 2382. Passados dois meses e meio, a 1 de Maio de 1968, parte no Niassa, com destino a Bissau, aonde desembarca a 6.

Na Guiné, passou pelos seguintes aquartelamentos: Brá, Bula, Aldeia Formosa e Bula. Regressa a Portugal em Abril de 1970, no mesmo T/T Niassa.

Depois da ‘peluda’, trabalhou em Angola, no Serviço de Emprego. Regressa Portugal, em 1975, na sequência do processo de descolonização. Em Abrantes, foi técnico de emprego, do Centro de Emprego local. Está actualmente aposentado do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFO). Tem página no Facebook > Manuel Batista Traquina.

Publicou "Os Tempo de Guerra, De Abrantes à Guiné”,  Edição Palha de Abrantes, 2009. E, mais recentemente,. em 2017, na Chiado Editora, "Angola que eu conheci: de Abrantes a Luanda"

(*) Último poste da série > 27 de abril de 2017 > Guiné 63/74 - P17290: A cidade ou vila que eu mais amei ou odiei, no meu tempo de tropa, antes de ser mobilizado para o CTIG (30): Tavira, CISMI, onde há 48 anos frequentei o 1.º Ciclo do Curso de Sargentos Milicianos (António Tavares)

Vd. também 28 de janeiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12649: A cidade ou vila que eu mais amei ou odiei, no meu tempo de tropa, antes de ser mobilizado para o CTIG (14): As localidades por onde passei, sofri e amei - Conclusão (Veríssimo Ferreira)

(...) Até que um dia me transmitem:
- Vais para Abrantes.

Bati o pé e disse:
- Não vou... Não vou... Não vou... 

E fui.

Em Abrantes, estava mais perto de casa [, Ponte de Sor], o que me agradou.

Lá se foi passando o tempo e coube-me ajudar o Oficial instrutor, ensinando novos militares. Por que alguns de nós, os recentes cabo-milicianos, estávamos já a ser mobilizados, fui-me preparando. Contudo, tal mobilização só veio a acontecer, quando já houvera prestado 20 meses de tropa.

Entretanto em Abril de 1965 e "por equivalência a seis meses consecutivos em Unidade Operacional, condição a que satisfaz para promoção ao posto imediato (sic)" , fui promovido a Senhor Furriel-Miliciano. Estava então em Tomar a preparar outros jovens, que afinal acabaram por ser os que fazendo parte da Companhia de Caçadores 1422, embarcaram comigo para a Guiné, em 18 de Agosto. (...)

Guiné 61/74 - P18331: Notas de leitura (1042): História do Dia do Combatente Limiano”, por Mário Leitão (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Janeiro de 2018:

Queridos amigos,

Mário Leitão entra por vezes pela nossa sala de conversa adentro e conta-nos o que faz em Ponte de Lima, no dever de memória. Ciranda pelos estabelecimentos de ensino, faz convergência com instituições cívicas, lança os seus apelos nos jornais. Acha que os combatentes da I Guerra Mundial e das guerras de África ainda não receberam a merecida homenagem, ele estuda afincadamente os que tombaram e neste livro menciona-os com elevo e ternura. É um combate que nos comove e enquanto lia o seu livro lembrava o privilégio que me tinha sido dado de ir a Fafe falar a antigos combatentes de um livro que fora escrito para cinzelar o seu esforço e os seus sacrificos.

Um abraço do
Mário


Honra e glória ao combatente limiano

Beja Santos

Mário Leitão costuma vir conversar connosco, é com toda a justeza o mais denodado estudioso e promotor em Ponte de Lima do dever de memória, não se cansa de lembrar que durante 100 anos Ponte de Lima esqueceu-se dos seus filhos sacrificados na I Grande Guerra e pouco faz por recordar os mais de 50 limianos que tombaram em África, entre 1961 e 1974. Desse labor, e em edição sua, publicou em 2017 a “História do Dia do Combatente Limiano”, honrou-me com a oferta do seu trabalho.

É sobretudo um documento tocante de alguém que não desfalece e que anda pelas escolas, pelas associações cívicas e pelos jornais a batalhar pela sua causa, a nossa causa. Logo no prefácio o Coronel Luís Gonzaga Coutinho de Almeida explica o sentimento que os irmana, conta uma história:

“Um dia, a ouvir a lancinante dor de uma mãe por não poder fazer o luto do filho que morreu em combate no Ultramar, onde ficou sepultado, também a minha vida mudou no dia em que soube que um jovem da minha terra havia tombado pela Pátria, em 1917, na batalha de La Lys, e que jazia esquecido no cemitério francês de Richebourg L’Avoué, no Norte de França.

Nesse Verão, peguei no meu automóvel e percorri mais de 4 mil quilómetros à sua procura. Quando o encontrei (no Talhão A, Fila 10, Coval 13) pus-me em sentido à sua frente e benzi-me. Depois, baixei-me e abracei a sua lápide. Chorei e pedi-lhe desculpa, em nome de todos os habitantes da minha freguesia, por o termos esquecido durante 96 anos. E, quando à noite, voltei ao hotel a Lille, sentia-me outra pessoa, com o sentimento de um dever cumprido, mas essencialmente feliz e livre”.

Evocam-se partidas e sacrifícios, páginas de exaltação, como aquela situação de Júlio Dantas a propósito do embarque das tropas portuguesas da primeira expedição para Angola, no início da I Grande Guerra:

“Vi-os passar. Caminhavam quase nos braços do povo. Pequenos, robustos, tisnados do sol, curvados sobre as mochilas enormes, os trigueiros doirados das cabeças espreitando da sombra dos capacetes de feltro, as pernas curtas apertadas nas grevas, avançando, cinzentos, baços, compactos, como uma espessa coluna de poeira que tivesse aberto o caminho entre uma multidão – respirava neles, nas suas figuras desmanchadas, truncadas e alegres, aquela simples e ingénua bravura, aquele risonho e resignado heroísmo, que foi sempre, desde que os burgueses escuros e bárbaros dos primitivos concelhos se bateram em Navas de Tolosa, a caraterística fundamental da nossa raça”.

Há 6 corpos de limianos que ficaram na guerra, 5 em Moçambique e 1 na Guiné, que se transformaram num luto incompleto, nunca cumprido e permanentemente recordado. O mesmo, ou pior, se passa com os corpos de Celestino Sousa e Júlio Lemos, não recuperados de afogamentos ocorridos em rios guineenses. Isto escreveu Mário Leitão na sua coluna regular em Cardeal Saraiva, um dos jornais de Ponte de Lima. Ele vai descrever com detalhe toda a sua militância para que se comemore o dia do combatente limiano, lembra que Ponte de Lima foi o primeiro município a celebrar a memória dos seus filhos mortos ao serviço da Pátria em territórios ultramarinos, o que aconteceu em 1986. 10 anos depois foi colocado uma placa alusiva à homenagem de Ponte de Lima com o nome de todos os cidadãos do concelho mortos em missão militar. Investigações ulteriores revelaram mais nomes, o número ultrapassa os 50. Tem havido homenagens, mas, ao que ele nos revela, há em Ponte de Lima uma rivalidade sem quartel entre o CDS e o PSD, decretou-se temporariamente que esse dia do combatente não tem razão de ser, é suficiente o que se comemora sob a égide da Liga dos Combatentes.

É uma edição profusamente ilustrada, com textos alusivos e de várias proveniências. Numa dessas homenagens aparece o Coronel António Feijó a recolher a última Bandeira Nacional que esteve hasteada na Guiné até à hora da sua independência. Aqui fica o seu registo e um abraço ao Mário Leitão, um corredor de fundo que acompanhamos de perto.


A última bandeira nacional a ser hasteada na Guiné. Foi trazida pelo Coronel Bruno Pereira de Castro, conjuntamente com o clarim usado na cerimónia de transmissão da soberania para a República da Guiné-Bissau. Foram confiados ao Dr. Francisco Maia de Abreu de Lima para fins museológicos. Cobriu a urna do Coronel Pereira de Castro do dia do seu funeral
____________

Nota do editor

Último poste da série de 16 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18324: Notas de leitura (1041): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (22) (Mário Beja Santos)