Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28074: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (5): Vendedeiras de bananas, no antigo estacionamento do aeroporto internacional Osvaldo Vieira, Bissalanca, agora requalificado (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)




 
Guiné-Bissau > Bissau > Bissalanca > 3 de maio de 2025 >  Jovens vendedeiras de bananas... Lindas bajudas!...E bela froto!... " Tirada no estacionamento do aeroporto Osvaldo Vieira, atualmente em remodelação e ampliação por uma firma turca". (Depois das obras de requalificação, foi inaugurado em março de 2026: vd. aqui vídeo da pãgina da famosa  Tita Pipoka, ativista e empreendedora social).


Foto da página no Facebook (João Reis Melo)


1. João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74): 

(i)  é profissional de seguros, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha; 

(ii) viaja regularmente, desde 2017,  para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade" (em que distribui material pelas escolas de Cumbijã, e apoia também, mais recentemente,  o clube de futebol local); 

(iii) regressou há pouco tempo da sua viagem desde último ano (2026); 

(iv)   tem já  cerca de meia centena de  referências no nosso blogue para o qual entrou em 1 de março de 2009.


2. Na sua página do Facebook, em 3 de junho, 18:12, escreveu a sguinte nota sobre as estas e outras fotos de gente anónima de Bissau;

(...) Eu vou quase todos os anos à Guiné. Tiro imensas fotos daquele belo povo e NÃO TIRO E NÃO PUBLICO uma foto que não tenha a autorização das pessoas que aparecem nas mesmas! 

Tenho muito respeito por toda a gente e, em especial para com o Povo da Guiné que merece de tudo menos de ser "usado".  Nunca existiu, nem nunca existirá, de minha parte, qualquer outra intenção (...) senão  a vontade de transmitir a beleza que a mulher Guineense tem! (...)
_________________

Guiné 61/74 - P28073: Casos: a verdade sobre ...(73): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa (Rui Oliveira, ex-fur mil trms, CART 2742 / BART 2920, 1970/72)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L2 > Fajonquito > CART 2742 > Domingo de Páscoa, 2 de abril de 1972. Os momentos dramáticos que antecederam a tragédia.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Rui Osório Oliveira
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Mensagem recebida através do  Formulário de Contacto do Blogger 

Data - 4 de junho de 2026 11:22 

Assunto - Narrativa da morte de vários elementos da CART 2742, em  02/04/1972

1.1. Era furriel de transmissões na CART 2742 e gostaria de enviar um documento com a realidade do que presenciei detalhadamente no trágico dia de 2 de Abril de 1972 onde morreram o capitão Borges de Figueiredo, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva, e o soldado Almeida que originou o acidente.

Muito do que consta no blog sobre o trágico dia é FALSO (*)

Gostaria rectificar o evento com a minha narrativa (**).

Cumprimentos,

Rui Osório Oliveira, F.N. 07486708  | 
Endereço de email: (...)

Rui Osório  Oliveira 
IT Remote Worker
Vive na Murtosa
(Foto no Linkedin)

AC 101 517 505
ICT System Engeneering
ICT Functional Analysis
WEB.3 - Blockchain
New Business Development
UN Online Volunteer 2010 AWARD

1.2. BART 2920 – CART 2742 - O DIA NEGRO – Dia 2 de Abril de 1972, Domingo de Páscoa


Era habitual aos domingos jogarmos Poker de Dados, éramos 5 habitualmente, o capitão
 [Carlos Borges Figueiredo ], o sargento Moura, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva e eu.

Já tinha decorrido algum tempo de jogo quando abruptamente a porta do bar foi aberta com violência. Era o já referido soldado Pedro Almeida, ex-comando, tinha sido expulso da sua unidade e colocado na nossa companhia, para seu castigo e nossa desgraça. 

Na sua mão esquerda tinha uma granada defensiva sem cavilha de segurança. De imediato nos levantámos e o Almeida só dizia: “Quero falar com o nosso capitão”, frase que repetia constantemente, sem uma palavra trocada entre nós, que estávamos a jogar. 

Fomos tentando acalmar o Almeida e instintivamente tentado nos afastar do bar e aproximar de uma saída, estávamos no meio dos corredores na posição que mostro no esquema que segue.


[ Infografia: Rui Osório Oliveira, 2026]


Quando da passagem pedonal se ouviu a voz de um soldado: "É preciso alguma coisa, meu  capitão ?". 

O Almeida, sem mover do sítio os pés, torceu o seu tronco em direcção à voz que se tinha ouvido, apontando com o seu braço esquerdo que segurava a granada e disse: "Ide embora que isto não é convosco, mas com o nosso capitão". 

Neste preciso momento, em que acabou a frase, deu-se a explosão da granada que ele, devido ao seu gesto. deve ter aliviado a alavanca de segurança provocando o seu despoletar. 

Após o primeiro impacto vi o capitão, o Félix, o Alcino e o Almeida por terra tendo tido morte instantânea, os corpos estavam completamente dilacerados, o sangue jorrava por todos os lados. 

No corpo do soldado Almeida havia um buraco em forma de semicírculo que ia da axila esquerda à anca esquerda curvando até á coluna vertebral. Foi este facto que salvou o sargento Moura, que teve unicamente escoriações, e a mim que tive escoriações também, mas em menor grau. Um estilhaço ainda permanece incrustado num osso na base esquerda da minha mão direita, outros tive no braço e na cabeça, mas desapareceram com o tempo.

Fiquei em estado catatónico, e a primeira pessoa a chegar foi o Cabrita Martins que, vendo o meu estado,  me deu um estalo e gritou: "Vai para o rádio e pede socorro". Assim fiz.

Não passou muito tempo quando chegou o general Spínola, de helicóptero, com a sua comitiva entre os quais um médico, que após uma rápida vista dos corpos, viu o sargento Moura e depois a mim, mandou-me tomar um Valium 10mg, só foi pena não me ter dito para não tomar bebidas alcoólicas, o que fiz até voltar para casa.

O general Spínola reuniu os que estavam presentes numa grande roda disse umas palavras de circunstância, alertou para o sucedido, agradeceu o nosso esforço e despediu-se, voltou para o helicóptero e foi embora com a comitiva.

Vi umas mensagens que, entretanto, tinham chegado e fui ao local do acidente onde se encontravam os enfermeiros,  ajudados por outros militares a transportarem o que restava
dos corpos para a enfermaria e posteriormente seguirem para Bissau.

Sei perfeitamente o que o soldado Pedro Almeida queria dizer ao acpitão, era que o deixasse ficar na tropa quando acabasse a comissão, por mais de uma vez o tinha feito anteriormente, mas o capitão nada podia fazer, após o que lhe tinha acontecido em Viana do Castelo, que levou o Almeida a ser expulso dos comandos e vir para a CART 2742. Com tal evento registado jamais poderia permanecer nas forças armadas.

Também sempre senti na pele que, pelo facto de dormir fora, numa moradia, com outro furriel, ter um laboratório de fotografia, e o capitão falar isoladamente comigo, criou um certo mal-estar, quanto à minha pessoa. Sentia-se constantemente algo no ar, no entanto realço que nunca senti qualquer diferença da amizade que me tinham e eu tinha por eles ou diferença de tratamento.

Ao fim da tarde desse dia fui para o bar do sr. Avelino, sentei-me numa mesa que estava num canto, virado para esse mesmo canto, pedi ao ajudante do sr. Avelino uma garrafa de whisky e bebi-a até ficar sem gota, não falei com ninguém, só me fui embora já era de madrugada e ninguém a não ser o sr. Avelino se encontrava no bar, nem na rua. 

Desde esse dia nunca mais consegui entrar à noite no quarto que partilhava com o Alcino Silva, passei a dormir em casa da Cristina, mulher de idade avançada, que me tratava da roupa, onde vivia também a Mimi, mulher linda, com quem eu ficava. 

Quando o acidente ocorreu faltavam cerca de 2 meses para o fim da comissão de serviço e regresso à metrópole. Foi um acidente que me traumatizou para toda a vida e que ainda hoje me vem frequentemente à memória e em pesadelos. 

Este acidente foi ainda mais penoso para mim, pelo simples facto de que o capitão, quando foi de férias pela primeira vez, chamou-me ao gabinete, e disse-me: "Dá-me o endereço de teus pais, porque  quero visitá-los". 

E assim fez, acompanhado de sua esposa, a dra.  Rosa Figueiredo, esta falava frequentemente com a minha mãe, dando notícias minhas, pois eu detestava escrever aerogramas, a tal ponto de alguém ter comunicado o facto ao comando militar de Bissau, tendo eu recebido uma missiva a mandarem-me escrever para a família, e continuar a fazê-lo regularmente sob pena de sanção disciplinar. 

Havia imensas hipóteses de contacto, para provocarem esta reacção, a minha família conhecia a família dos 2 majores do Batalhão  [BART 2920], e uma grande amiga de minha mãe conhecia o comandante do Batalhão, factos que só vim a constatar na altura em que vim férias, no Carnaval de 1971.

Há um hiato de tempo que permanece completamente em branco na minha mente, um período que vai desde este acidente e o já estarmos em Bissau para regressar à Metrópole.

Estava eu e o sargento Moura no Hotel que fica à esquerda de quem desce pela avenida
[da República, hoje av Amílcar Cabral], frente ao Palácio do Governador. Em dois quartos frente um ao outro, e de o Moura me ter pedido para o ajudar a conferir as contas da companhia, dado que conhecia os meus conhecimentos de contabilidade e já o tinha ajudado por diversas vezes anteriormente, dado que existia um erro no balanço final. Ajudei-o e não me lembro da continuação.

Recordo, sim, que eu me sentia mal da minha cabeça, descuidando por vezes a minha aparência. A última recordação da Guiné é de eu estar na 5ª Rep [ Café Bento]. a beber uma cerveja,  quando chegou ao meu lado um polícia militar, era periquito, notava-se pela farda e branquinho de pele, que me disse: “Meu Furriel,  peço-lhe que se recomponha e aperte os botões da camisa e endireite a gravata, senão sou obrigado a dar-lhe ordem de prisão”. 

Eu não disse nada, fiquei a olhar para ele, talvez com cara de parvo, quando vi alguém, um major do  [BART 2920] , chegar ao meu lado e dizer ao PM: “Você vai sair daqui imediatamente ou quem lhe dá ordem de prisão sou eu”. Recordo que ainda houve uma troca de palavras, mas o PM pôs-se na alheta.

O próximo facto de que me recordo, foi já no aeroporto de Figo Maduro, chegar ao pé da família e primos(as) Amaral, de Lisboa, lembro-me de ter entregado à Nanducha um ceptro
dos nativos guineenses. Fomos para um quartel junto ao aeroporto, desfardarmo-nos, vestimos a roupa civil e fui ter com a família, voltei para casa no Porto.

Passado uma prima disse-me: “Ó rapaz quando chegaste ao pé de mim, parecias um Zombie!”.

Este evento mudou completamente o meu mundo, e durante muitos anos ninguém notou, reparou ou analisou o que se passava. Quando tentava falar do que se passava comigo,
acusavam-se de ser solitário, “doido”, “maluco”, “parvo” e "deixa-te disso".

Certo dia numa visita de rotina à médica de família, a mesma notou que algo se passava comigo e perguntou-me o que se passava e o que se tinha passado na Guiné. Receitou-me
um calmante e sem me dizer nada enviou um pedido de agendamento de consulta de psiquiatria no Hospital Magalhães Lemos
 [HML].

Passadas umas semanas,  recebo um convocatória para me apresentar numa consulta no HML, estava nesse momento internado no Hospital Joaquim Urbano, nas infecto-contagiosas com um abcesso de 7 cm no fígado, tendo aí permanecido 1 mês e meio.

Levaram-me à consulta numa cadeira de rodas numa ambulância. No final da consulta receitaram-me Efexor e o psiquiatra comunicou-me que iam iniciar um processo de Stress Pós-Traumático de Guerra, e para avisar quando tivesse alta do Joaquim Urbano.

Assim fiz. Permaneci no HML em regime Ambulatório durante 11 meses e fui acompanhado durante 13 anos com consultas periódicas. 

Passados uns tempos e, após várias consultas no Hospital Militar e  Juntas Médicas, foi-me reconhecida em 29 de outubro de 2008  Deficiência de 39% das minhas capacidades de saúde mental, tendo como tal direito a uma Pensão de Deficiência do Exército via CGA  [Caixa Geral de Aposentações].

Passaram-se 10 anos e, em todas as tentativas do obter a situação do processo, sempre recebi a resposta de ainda não se encontrar finalizado. Nesta altura estava completamente
desaustinado e resolvi apresentar a minha situação no Portal da Internet do Provedor de Justiça, lembro-me do último parágrafo: “Penso que estão à espera de que eu morra para
não pagarem a Pensão a que tenho direito...”

Estávamos em outubro de 2018, no dia seguinte recebi um email do secretariado a comunicarem-me que sido iniciada a análise expedita do meu processo. Tendo na altura
recebido o conteúdo de uma cópia do processo da morte do capitão Borges de Figueiredo, alferes Félix, furriel Alcino Silva e soldado Almeida.

O que mais me custou foi ver os falsos testemunhos dados por vários elementos da companhia, nomeadamente sargento Moura, alferes Baltasar Gomes da Silva e mais um soldado de que não me recordo do nome, afirmando que eu não estava presente durante o acidente. 

Valeu o relatório efectuado por um membro da comitiva em que estava exarado que estava presente no momento acidente, tendo saído ileso unicamente com alguns estilhaços no braço direito que estava estendido, milagrosamente, devido ao facto de o corpo do soldado Almeida, dado que se tinha virado para o soldado que tinha falado, ter absorvido o impacto da granada, salvando igualmente o sargento Moura e  tendo este sofrido mais escoriações.

No dia 18 de novembro estava em Lisboa, dado que a minha irmã se tinha suicidado atirando-se para a Linha do Metro quando este ia a passar, tendo sido trucidada. Estávamos em casa de um familiar, e após os trâmites legais, identificação do corpo, levantamento dos seus pertences e cremação no cemitério de São João. 

Na viagem de regresso ao Porto no Alfa Pendular,  em determinada altura resolvi ligar o telemóvel e ver os emails recebidos, entre eles encontrava-se um da CGA, a dizer  que o processo tinha sido aprovado e que iria receber os retroactivos que tinha direito desde o início do processo até à data, passando a partir desse momento a receber a Pensão de Deficiente mensalmente via CGA.

Rui Osório Oliveira

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, links: LG)

___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:

16 de agosto de 2014 > Guiné 63/74 - P13505: Quem era, afinal, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, cmdt da CART 2742 (Fajonquito, 1970/72), morto em 2/4/1972, num sangrento domingo de Páscoa? Bem como o infeliz sold Pedro José Aleixo de Almeida? (José Cortes / Luís Graça / Carlos 'Gomes' / Cherno Baldé / António Bernardo)

14 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9041: Memórias do Chico, menino e moço (30): A propósito do poema K3, de Nuno Dempster: Relembrando dois malogrados capitães de Fajonquito, Carlos Borges Figueiredo (CART 2742) e José Eduardo Marques Patrocínio (CCAÇ 3549) (Cherno Baldé)


Guiné 61/74 - P28072: Humor de caserna (271): "Poema para o meu irmão branco" (ou... a única cor que não muda é a da hipocrisia)






Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: António Rosinha 
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Foi pelas mãos do 'colón' (como ele gosta de chamar-se a si próprio) António Rosinha  que chegou ao blogue este pequena obra-prima de humor poético.  

Escreveu o nosso camarada (que conheceu bem "a Angola-é- nossa",  que foi retornado em Portugal e no Brasil, e cooperante na Guiné-Bissau), em comentário ao poste P19654 (*): 

"A pátria de Leopold Senghor que, para além de ter sido chefe de Estado, foi também filósofo, poeta e um ideólogo que sempre entendeu e valorizou a negritude tendo combatido os milenares preconceitos racistas, só podem vir reflexões elevadas que consolam a alma, como por exemplo este significativo poema que transcrevo"...

 E acrescentou em nota de rodapé: "Venderam-me esta, e achei graça!".

Tratava-se da versão, em português do Brasil, do "Poème à mon frère blanc". Fui à procura da versão francesa (**), que traduzi e adaptei para português de Portugal. Aqui vai:

Poema para o meu irmão branco

Meu querido irmão branco...
Quando eu nasci, era negro,
Quando eu cresci, era negro,
Quando eu me exponho ao sol, sou negro,
Quando eu estou doente, sou negro,
Quando eu estou com medo, sou negro,
Quando eu estou doente, sou negro,
Quando eu morrer, serei negro.

Quanto a ti, homem branco...
Quando tu nasceste, eras cor de rosa,
Quando tu cresceste, eras branco,
Quando te expões ao sol, ficas vermelho,
Quando estás com frio, ficas roxo,
Quando estás com medo, ficas verde,
Quando estás doente, ficas esverdeado,
Quando tu morreres, serás cinza.

Depois de tudo isto, Homem Branco,
E, já  que tu és  tão inteligente,
Diz-me por que é que me chamas
... Homem de cor?


Léopold Sédar Senghor (1906-2001) 
(atribuição errónea, mas simbólica) (**)


2. Comentário do editor LG (com a colaboração da menina Vibe, a nova ferramenta de IA da francesa  Mistral AI):

Há pequenos textos, como este poema,  que são como "granadas de mão":  parecem brinquedos, inocentes, inócuos, engraçados, mas explodem na mão de quem os lê. 

Este é um deles. Circula amplamente na Net,  até em sítios institucionais,  como sendo da autoria de Léopold Sédar Senghor. 

Recorde-se quem foi o senhor: o  primeiro presidente do Senegal, e grande poeta, de língua francesa, cujo apelido evoca, e se calhar não é por acaso, uma ancestralidade lusitana (Senghor = Senhor) (o que alguns autores, de resto, contestam).

Se qualquer modo, a autoria do poema é incerta ou duvidosa... O que, por si só, já é irónico. Afinal, não há melhor forma de "desmontar o racismo" do que com um texto como este que, por ser anónimo, pertence a todos, em geral, e a não pertence a ninguém, em particular... Como se a voz do outro, historicamente oprimido,  fosse, ela própria, uma criação coletiva!...

Este poema não é, propriamente,  no meu entender, uma diatribe, um panfleto,  contra o racismo. Tem subtileza, tem inteligência emocional, tem humor... 

Vejo-o sobretudo como uma espécie de carta aberta, de ironia fina, dirigida por uma "pessoa de cor" (um "negro") a um seu semelhante, "de cor branca", a quem trata por "querido irmão". 

Imagino-o entregue, fechado, em envelope cor de rosa, quiçá lacrado, por uma mão, negra, vestida de veludo branco, a um "tuga", no Café Bento, a famosa 5ª Rep, em Bissau. Ou talvez antes, em Luanda ou em Lourenço Marques (onde se diz que  o racismo era "menos português suave").

Num tom de falsa ingenuidade, o autor repete, uma e outra vez, a lista de situações em que o "homem negro" é sempre negro, enquanto o "homem branco" muda de cor,  conforme os quatro humores,  a saúde, a idade, o clima, as situações.

A pergunta final ("Por que é que me chamas...homem de cor?") é uma estocada, um  golpe de ironia: afinal, quem tem uma identidade cromática instável é o "branco", não o "negro". E no entanto, é este último que é rotulado, classificado, categorizado, reduzido a um adjetivo.

Este poema fica bem na série "Humor de caserna" (***).

Na guerra colonial, como em qualquer contexto de violência, o racismo era (e é) muitas vezes normalizado sob a forma de piadas, estereótipos, rótulos, praxes, "brincadeiras de mau gosto"... Este poema usa a mesma estrutura do discurso colonizador (a repetição, a classificação, a categorização, o supremacismo, mesmo subtil),   para o desmontar por dentro. 

É o humor como arma crítica: uma crítica disfarçada de conversa amigável e tratamento afetuoso  ("meu querido irmão branco"), e que só no fim se revela como "granada de mão",  com a "cavilha de segurança" à vista, pronta a saltar, e  quando já é tarde para recuar.

Na caserna, nas tabancas, ou nas esplanadas de Bissau, ouvia-se de tudo: "barrote queimado", "nharro", "preto", "baldé",  "turra", "mulato", "escurinho", "tuga", "portuga", "branco", "verdiano"... Mas, afinal, quem é que, no fundo, tinha cor? E quem é que, no fundo, era transparente, ou seja, "invisível na sua humanidade"?

Por fim, a ironia da autoria (ou o mito do "Senghor / Senhor"): que este poema seja atribuído a Senghor também não é de todo inocente. Senghor = Senhor: um africano com um nome que soa a herança portuguesa, um intelectual que foi um dos pais do movimento da negritude (que celebrava a identidade negra), e que, ironicamente, se vê associado a um texto que desconstói a própria ideia de raça como falso conceito científico, desenvolvido no século XIX  e primeira metade do século XX.

Tudo indica que o poema é de autor desconhecido. Trata-se de um "meme" literário que ganhou força justamente por não ter dono. Como se o racismo fosse tão óbvio que até a sua crítica fosse obra de todos.

Dá para refletir, camaradas, brancos, negros, crioulos,  amarelos... Para refletir, e até rir e chorar... Se o "homem branco" muda de cor conforme o estado de espírito, o ciclo de vida, a condição de saúde, etc., por que razão então é o "homem negro" é que  é "de cor"?

Será que a única cor que não muda é a da hipocrisia? E se, no fundo, o verdadeiro "homem de cor" fosse aquele que se recusa a ver as cores dos outros? 

Curiosamente, o "preto" é a única "cor" que, dizem, não existe na paleta do arco-íris.

(Revisão / fixação de texto, negritos, título, links: LG)
__________________

Notas do editor LG:
 

(**) Vd. o sítio, em francês,  Un Jour Un Poeme:

Poème à mon frère blanc

Cher frère blanc,

Quand je suis né, j’étais noir,
Quand j’ai grandi, j’étais noir,
Quand je suis au soleil, je suis noir,
Quand je suis malade, je suis noir,
Quand je mourrai, je serai noir.

Tandis que toi, homme blanc,
Quand tu es né, tu étais rose,
Quand tu as grandi, tu étais blanc,
Quand tu vas au soleil, tu es rouge,
Quand tu as froid, tu es bleu,
Quand tu as peur, tu es vert,
Quand tu es malade, tu es jaune,
Quand tu mourras, tu seras gris.

Alors, homme blanc,
Si tu es si intelligent,
Dis-moi pourquoi tu m’appelles
« homme  de couleur » ?

(***) Último poste da série > 24 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28050: Humor de caserna (270): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVII: Oh, homem, cale-se! (Alberto Branquinho, ex-alf mil art OE, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

Guiné 61/74 - P28071: Parabéns a você (2492): João Moreira, ex-Fur Mil Cav da CCAV 2721 (Olossato e Nhacra, 1970/72)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 31 de maio de 2026 >
Guiné 61/74 - P28061: Parabéns a você (2491): Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Missirá e Bambadinca, 1968/70)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28069: Efemérides (395): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte VI: CCAÇ 2591/CCAç 13, "Os Leões Negros" (1969/71)

Guiné > Região do Oio > Binar > Nhamate > 1970 > CCAÇ 13 > Spínola de visita ao reordenamento de Nhamate, cumprimenta o cap mil inf Álvaro Alberto Durão, o primeiro capitão da CCAÇ 13 (1969/71).

Foto do álbum de Adriano Silva, ex-fur mil, CCaç 13 (a companhia passou por Bissau, Bolama, Bissorã, Encheia, Binar e Biambi;foi substituída, em Binar, em finais de março de 1970, pela CCAÇ 2658, que terá mais tarde, numa coluna de Nhamate a Binar, 8 mortos.

Foto: Cortesia de Carlos Fortunato, ex-fur mil,  CCAÇ 13 (1969/71), o melhor sítio na Net sobre companhias individuais que estuveram no CTIG > Guerra na Guiné - Os Leões Negros > CCAÇ 13, Binar, 1970


1. Uma das companhias que seguiu connosco (CCAÇ 2590 /CCAÇ 12) no T/T Niassa, com destino à Guiné,  em 24 de maio de 1969 (fez agora 57 anos), foi a CCAÇ 2591 (será extinta em 18 de janeiro de 1970, dando origem à CCAÇ 13). 

Infelizmente temos escassas referências à CCAÇ 2591.  Alguma informação estava disponível no sítio criado e administrado pelo nosso amigo e camarada Carlos Fortunato:  CCAÇ 13 -Os Leões Negros: Memórias da Guerra na Guiné (1969/71), já há muito descontinuado. Felizmente foi recuperado, como arquivo morto, podendo ser consultado aqui, no  Arquivo.pt:

https://arquivo.pt/wayback/20100531194155/http://leoesnegros.com.sapo.pt/index.html

Tal como a CART 11, CCAÇ 12, CCAÇ 14, etc., esta subunidade passou a fazer parte da "nova força africana", tão cara ao gen Spínola.


2. Comecemos pelas fichas de unidade das CCAÇ 2591 e CCAÇ 13


Carlos Fortunato
 : tem cerca
de uma centena de referências


Companhia de Caçadores n.º 2591


Identificação: CCaç. 2591

Unidade Mob: RI 16, Évora

Cmdt: Cap Mil Art Álvaro Alberto Durão

Divisa: "Conduta brava e em tudo distinta"

Partida: Embarque em 24Mai69;  desembarque em 30Mai69 | Extinção em l8Jan70

Síntese da Actividade Operacional

A subunidade foi constituída com quadros e especialistas metropolitanos e enquadrou pessoal natural da Guiné, da etnia Balanta, tendo efectuado a 2ª fase da instrução de formação no CIM, em Bolama, 
 e sido utilizado em patrulhamentos, reconhecimentos e contactos com as populações da região.

Em 05Nov69, foi colocado em Bissorã, como força de intervenção e reserva do BCaç 2861, tendo sido empregada em várias acções, patrulhamentos e emboscadas nas regiões de Namedão, Cate e Camã.

Em Jan70, destacou dois pelotões para Binar, a fim de efectuar a segurança e protecção dos trabalhos da estrada Binar-Nhamate.

Em 14Jan70, a subunidade foi colocada em Binar, a fim de colaborar nos trabalhos de recuperação das populações da área da península de Encherte e na instalação e autodefesa dos reordenamentos.

Em 18Jan70, a subunidade passou a designar-se CCaç 13, sendo subunidade de guarnição normal, a partir daquela data.

Observações - Não tem História da Unidade.

Fonte: livro Resenha histórico militar das Campanhas de África, 7º Volume, Fichas das Unidades, Tomo II - Guiné


Companhia de Caçadores n.º 13


Carlos Prata, membro da Tabanca Grande
desde  24/11/2011

Identificação: CCaç 13

Cmdts:
  • Cap Mil Inf Álvaro Alberto Durão
  • Alf Mil Inf (Ranger) Adelino Manuel de Almeida Pimenta Correia
  • Cap Mil Inf João Carlos Carvalho de Castro
  • Cap Mil Cav (Ranger) Carlos Matos de Oliveira - 06/72 a 03/74
  • Cap Cav Carlos Alberto Duarte Prata - 03/74 a 04/74(?)
  • Cap Mil Inf Humberto Manuel Teixeira Gonçalves de Figueiredo - 05/74(?) a 08/74
Início: 18Jan70 (por alteração da anterior designação de CCaç 2591) | Extinção: 20Ago74


Síntese da Actividade Operacional




Em 18Jan70, foi criada por alteração da sua designação anterior, integrando os quadros e praças especialistas metropolitanos e pessoal natural da Guiné, predominantemente da etnia Balanta, que constituíam, anteriormente, a CCac 2591.

Continuou instalada em Binar, então orientada para a segurança e protecção dos trabalhos dos reordenamentos da península do Enxerte, tendo estabelecido o seu estacionamento em Nhamate, a partir de 02Fev70, com os seus pelotões disseminados por Manga, Encherte e Unche.

Em 14Mar70, substituída no subsector de Nhamate pela CCaç 2658, foi colocada em Bíambe, passando então à dependência directa do CAOP l como subunidade de intervenção e reserva daquele comando e, a partir de 30Mai70, do BCaç 2861., tendo tomado parte em diversas operações realizadas nas regiões de Encherte, Queré, Chaté-Inquida e Mores, entre outras.

Em 12Jun70, foi deslocada para Bissorã, a fim de assumir a responsabilidade do respectivo subsector, em. substituição da CCaç 2.444, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 2861 e sucessivamente do BCaç 2927, do BCaç 4610/72 e do BCav 8320/73.

Em 20Ago74, foi desactivada e extinta.

Obs - Tem História da Unidade a partir de OlMar72 (Caixa n." 128 - 2.ª Div/ 4ª Sec,
do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 633

o_________________


Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28068: S(C)em comentários (89): O "ouro branco" do caju e a "Suiça Africana (Cherno Baldé / António Rosinha)





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: Cherno Baldé / António Rosinha
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários ao poste P28066 (*):


1.1. Cherno Baldé:


O autor e editor do texto (LG) fala da produção do caju pós-colonial como se tratasse de uma visão e orientação económica bem construída e aplicada no terreno.  Não há nada mais errado.

A ideia apareceu na época colonial, provavelmente nos anos 40/50, a década da visão abrangente de longo prazo e de todas as obras de infraestruturas no território iniciadas com o consulado do Sarmento Rodrigues. 

A política da promoção do caju continuou ainda nos anos 60/70, sem conseguir, todavia, uma aceitação geral no seio da população, sobretudo no Leste do território, mas já dominava em largos espaços no litoral Oeste (Biombo), Norte (Bissorã) e algumas partes do Sul (Tite e Fulacunda).

O que aconteceu no pós-25A74 é uma completa desordem na economia. O PAIGC não tinha uma política económica definida, o regime do Luís Cabral, um grande sonhador e voluntarista, quis transformar um país recém-independente, agrário, desprovido de quadros técnicos e de especialistas e sem infraestruturas,  num país industrializado, com fábricas e numa aventura de substituição de importações.

Os camponeses,  que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, o sistema produtivo, de fomento e captação vs distribuição através da rede de lojas e armazéns no mato em que se apoiavam, foi desmantelado na tentativa forçada de criação de uma nova rede controlada pelo Estado (Armazéns do Povo), o que desincentivou a produção do amendoim em larga escala. 

As famílias camponesas, desorientadas e sem apoio moral nem material, pegaram naquilo que podiam e/ou tinham em mão e, foi assim que, rapidamente, sem qualquer decisão superior, aconteceu a corrida ao caju como meio de salvação e substituto dos anteriores produtos de renda,  combinando-se com um período de forte procura desse produto no mercado internacional.

Como uma desgraça nunca vem só, então a facilidade da sua produção, aliada ao volume das receitas, acabou por conquistar a totalidade do território e familias,  e com isso levar ao abandono das outras culturas, inclusive alimentícias como os campos de arroz e milho. 


1.2. António Rosinha:


"Os camponeses, que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados", diz o Cherno.

Claro que para o PAIGC de Luís Cabral, bem como para todos os "portugueses" do Ultramar que formaram os movimentos nacionalistas nas diversas colónias, foram anos e anos a sonhar nas riquezas que "tínhamos debaixo dos pés".

A lavoura salazarista do azeitinho, da corticinha,  da sardinhinha... termos que atiravam à cara dos transmontanos, beirões, minhotos, algarvios e madeirenses,  não era para eles.

Isso do óleo de palma, amendoim, caju...isso não era para eles.

O Luís Cabral e seus irmãos das outras colónias sonhavam mais alto. Luís Cabral queria industrializar, mesmo depois dele ainda ficou aquela de que a Guiné ia ser a "Suíça africana",

Só mesmo os barcos da Sogeral (CUF) com tripulação cabo-verdiana, gastava gasóleo para se desviar da rota de Luanda e subir o Geba até Bissau para levar uns tantos barris de vinho e aproveitava e carregava uns tantos tambores de chabéu para as suas fábricas de sabão do Barreiro.

Sem CUF e sem cabo-verdeanos não havia ânimo para uma segunda Guiné. (**).

quarta-feira, 3 de junho de 2026 às 00:14:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
________________


Guiné 61/74 - P28067: Guine-Bissau, hoje: factos e números (8): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte II



 









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. O cajueiro (Anacardium occidentale), ainda não era muito abundante na Guiné, no nosso tempo, na época da guerra colonial (1961/74).

É uma planta tropical deveras   interessante, tanto do ponto de vista botânico como económico.


(i) Origem: Nordeste brasileiro

O cajueiro é originário do Nordeste do Brasil, especialmente das zonas costeiras entre  os estados do Maranhão e do Rio Grande do Norte.

Foram os navegadores portugueses que, a partir do século XVI, o levaram para África e para a Índia, onde se adaptou extraordinariamente bem.

Hoje, muitos africanos (a começar pelos nossos amigos guineenses) pensam que o caju é uma planta autóctone.  Na verdade, trata-se 
de uma das mais bem-sucedidas "exportações" biológicas realizadas pelos portugueses durante a expansão marítima.

O nome científico Anacardium deriva do grego kardia , que quer dizer "coração" ( devido à forma da fruta).

É conhecido pelos nomes derivados do original da língua tupi, akaîua: caju, acajaíba, acajuíba, caju-comum, cajueiro-comum, cajuil, caju-manso, cajuzeiro e ocaju.

Em Moçambique é ainda conhecido como mecaju e mepoto. O nome inglês cashew é derivado da palavra portuguesa,  de pronúncia similar, caju, do tupi acaju.

Na Venezuela,  o cajueiro é denominado merey, mas em outros países da América Latina é chamado marañón, provavelmente devido ao nome da região onde foi visto pela primeira vez, o estado brasileiro do Maranhão.

(ii) O que se aproveita do cajueiro?

Na natureza existem dois tipos: o comum (ou gigante) e o anão. O cajueiro comum pode atingir entre 5 e 12 metros de altura,  podendo chegar,  excecionalmente,  aos 20 metros, em condições muito propícias.

O cajueiro anão anda em média  nos 4 metros de altura.


Aproveita-se quase tudo desta planta:
  • a castanha de caju (a semente);
  • o pedúnculo carnudo ("maçã de caju"), consumido fresco ou em sumos;
  • aguardentes e licores (como a célebre "feni" de Goa, o "vinho de caju" da Guiné-Bissau e do Brasil);
  • madeira;
  • cascas;
  • óleo da casca da castanha (utilizado na indústria química).
A chamada "maçã de caju" contém mais vitamina C do que muitas variedades de citrinos.

(iii) A Guiné-Bissau: a  "cajulândia"

Aqui está uma das maiores transformações agrícolas da história recente da Guiné-Bissau.

Em 1964, o caju era de reduzida ou quase nula importância. A economia agrícola colonial estava centrada no amendoim, coconote,  óleo de palma, arroz e mais algumas culturas alimentares (sorgo, milho, fundo, mandioca...).

Depois da independência, e sobretudo a partir dos anos 1980, o Estado guineense e os organismos internacionais (FMI, Banco Mundial) i
ncentivaram fortemente a expansão dos cajueiros. O país precisava desesperadamente de dívisas.

O resultado foi impressionante:
  • cerca de 90% das famílias rurais dependem hoje do caju;
  • o caju representa aproximadamente 90% das exportações do país;
  • as exportações ultrapassaram recentemente as 250 mil toneladas anuais;
  • a maior parte da produção segue para a Índia e para o Vietname, onde a castanha é descascada, processada e reexportada com muito maior valor acrescentado.

(iv) O paradoxo guineense

A Guiné-Bissau produz enormes quantidades de castanha bruta mas transforma localmente apenas uma pequena fração. Ou seja:

  • exporta matéria-prima ( como no tempo do colonialismo);
  • importa pouco rendimento industrial;
  • cria relativamente poucos empregos industriais.
É uma crítica frequente dos economistas guineenses.


(iv) Quem promoveu a "cajulândia", o "país do caju"?

Não existe um único "pai do caju". A expansão resultou da conjugação de vários fatores:

  • políticas agrícolas dos governos pós-independência;
  • projetos do Banco Mundial e de outras agências internacionais;
  • interesse dos comerciantes indianos;
  • extraordinária adaptação da espécie aos solos pobres e ao clima guineenses.

O cajueiro tem uma vantagem enorme para um pequeno agricultor:

  • dá pouco trabalho, exige relativamente poucos cuidados;
  • funciona como uma espécie de "conta bancária ao viva";
  • produz castanhas vendáveis todos os anos.

(v) Em Moçambique, o caju tem uma história mais antiga

Os portugueses introduziram-no ali ainda no século XVI.

Durante os anos 1950 e 1960, Moçambique era um dos maiores produtores mundiais de castanha de caju. Existiam fábricas de descasque e processamento que empregavam milhares de trabalhadores.

Depois da independência, a guerra civil e várias políticas económicas desastrosas provocaram o colapso de grande parte da indústria.

Nos últimos anos tem havido alguma recuperação, sobretudo nas províncias de Nampula, Zambézia e Cabo Delgado.


(vi) O lado menos conhecido da "cajulândia"

A expansão do caju na Guiné-Bissau teve efeitos contraditórios, uns positivos, outros negativos: 

Positivos:
  • rendimento monetário para centenas de milhares de camponeses;
  • reflorestação parcial de algumas áreas;
  • redução da erosão dos solos.
Negativos:
  • substituição de culturas alimentares (nomeadamente, arroz, milho...)
  • dependência excessiva de um único produto;
  • vulnerabilidade aos preços internacionais, às  flutuações do mercado ao envelhecimento dos pomares  e ás alterações climáticas;
  • trabalho infantil  (e feminino) na apanha e processamento artesanal, problema que continua a ser denunciado por várias ONG e outras  organizações.
É um caso clássico de monocultura de exportação. Tal como o era até ao fim do séc. XIX o vinho do Porto em Portugal: export
ávamos vinho para a Inglaterra e importávamos tecidos e outros produtos manufaturados ingleses.

Em 2026 há  um claro receio de que a campanha do caju na Guiné- Bissau seja um desastre. A floração foi mais tardia. Há um claro envelhecimento dos pomares. E sinais de stress hídrico devido às alterações climáticas. O preço de referência nesta altura deve andar nos 425 francos  CFA o quilo (0, 65 euros).

A produtividade é baixa: 400/500 kg por hectare. O que em meio milhão de hectares dá 200 / 250 mil toneladas. Razões: envelhecimento dos pomares ( alguns já com mais de 30 anos); fraca seleção genética; poda e manutenção deficientes; excessiva concentração de plantas; pragas e outras doenças, etc.

(viii) Uma curiosidade histórica

Muitos de nós, antigos combatentes, que servimos  na Guiné nos anos 1960 e início dos anos 1970, passámos  por extensas áreas onde praticamente não existiam cajueiros. 

Hoje, ao regressarmos às mesmas regiões, encontramos vastas paisagens dominadas por pomares de caju. Tive essa experiência em 2008. É  como voltar ao Alentejo, 50 anos depois,  e deparar-se com  extensas áreas de oliveira, vinha e estufas. 

Em poucas décadas, o cajueiro transformou-se numa das marcas da paisagem rural guineense, mais emblemática aínda do que a do amendoim  na época colonial (cuja área de cultivo seria da ordem dos 100 mil hectares).

Eis um tema que vamos continuar a desenvolver no nosso o blogue: como a Guiné passou, em meio século, de um território onde o caju era marginal para uma economia quase inteiramente dependente da castanha de caju. 

E daí a pergunta: trata- se da nova "semente do diabo" ( como os fulas chamavam à mancarra)?

(Pesquisa: LG + Wikipedia + DW +  ChatGPT / Open AI)

(Condensação, revisão/ fixação de texto, negritos, título: LG)

terça-feira, 2 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28066: Guiné-Bissau, hoje: factos e números (7): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte I

Castanha de caju:  a nova "semente do diabo" ?

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O cunhado do nosso camarada Beja Santos, o professor Dragomir Knapic (1925-2006), especialista em geografia económica,  terá sido um dos primeiros a antever,  em 1964, a  importância da fileira do caju no desenvolvimento agroindustrial da então Guiné Portuguesa (Guiné-Bissau, a partir de 1974, quando Portuga reconheceu a independência).

É um pequeno trecho, premonitório, de uma "sebenta" sobre a geografia económica da Guiné. Merece ser lido e comentado (*):



Fonte: Excerto, pág. 28, de Dragomir Knapic (1925 - 2006) - "Geografia económica de Portugal : Guiné". (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada). (Sublinhados a vermelho, nossos).


2. Em 1964 haveria penas umas escassas centenas hectares de cajueiros plantados na antiga colónia portuguesa da Guiné, segundo o citado autor. A castanha de caju não era exportada nem tinha interesse industrial na época.  (E muito menos os subprodutos do cajueiro.) Era ainda uma cultura marginal.

O grande ciclo económico colonial assentava sobretudo no amendoim ("mancarra" ou a "semente dio diabo", como lhe chamavamos fulas) (**), no coconote (copra), no óleo de palma, em alguma madeira e em produtos alimentares para consumo interno  (arroz, milho, fundo, jeijão, mandioca, batata doce, inhame,  banana e outros frutos tropicais).

Entre 1960 e 1965, exportou-se em média (segundo os números recolhidos por Dragomir Knapic):
  • Amendoim > 31,4 mil toneladas | 107,8 mil contos  | 3,4 contos por tonelada
  • Coconote > 11,9 mil toneladas | 31,2 mil contos |  2,6 contos por tonelada
  • Óleo de palma > 87,7 toneladas  (1960/63) | 381  contos | 4,3 contos por tonelada
Em contrapartida, a Guiné, que era autossuficiente em arroz, antes da guerra,  exportou em média, de 1956 a 1969, 1,4 mil toneladas, ao preço de 3 contos por tonelada. Com a guerra, passou a importar arroz: 8,9 mil t em 1962: 11,8 mil em 1963; 29,9 em 1964. (Não sabemos a que preço.).

Observ. - Em 1965, um conto (=1000 escudos) seria equivalente a menos de 500 euros a  pre 

3.  O caju existia, mas quase como árvore dispersa, de quintal ("ponta") ou de sombra (na "tabanca"). Tal como a papaia, a banana, o abacaxi, o coco, a manga, a cola, a laranja...  

Qual seria então a produção de caju ? Quantos hectares, quantas toneladas ? E hoje ? Quem teve responsabilidade política na decisão de fazer caju para exportação ? É uma perigosa monocultura... não acautela a segurança alimentar da população guineense.

Não se encontrou um recenseamento agrícola colonial suficientemente rigoroso para dizer quantos hectares havia exatamente em 1964. Mas há alguns indicadores.

Segundo séries estatísticas da FAO, a produção de castanha de caju na Guiné-Bissau rondava apenas as 2  mil toneladas em 1961.

Um estudo histórico refere que as primeiras exportações documentadas ocorreram em 1966, e que nesse período o caju ocupava apenas o quarto lugar entre os produtos exportados, muito atrás do amendoim e do coconote. Em 1970 as exportações eram ainda da ordem das 1,2 mil  toneladas.

Portanto, para 1964, a ordem de grandeza plausível será:

  • poucos milhares de hectares (talvez 2 mil  a 5 mil  ha, mas esta estimativa deve ser tomada com muita prudência);
  • produção anual na casa das 2 a 3 mil  toneladas de castanha;
  • praticamente nenhuma indústria local;
  • peso económico insignificante quando comparado com o amendoim.

Hoje estamos noutra galáxia. A produção recente oscila entre 120 mil  e 200 mil  toneladas anuais, conforme os anos e as campanhas. Em 2024, por exemplo, foram reportadas cerca de 178 mil  toneladas, das quais 163 mil  toneladas exportadas.


A área plantada é frequentemente estimada entre 200 mil  e 250 mil  hectares, embora os números variem conforme as fontes e os critérios utilizados. O país tornou-se um dos maiores produtores africanos e o caju representa cerca de 90% das exportações



"Mancarra"

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Comparen-se estes números com os da "mancarra" (em 1964):

  • era o principal produto de exportação da Guiné;
  • representava 76% do total (em 1965, um pouco menos: 61%);
  • área cultivada: 100 mil hectares (=25% do total);
  • produção: c. 65 mil toneladas;
  • rendimento médio: 0,65 toneladas por hectare;
  • regiões de maior produção:  Farim, Bafatá e Gabu.

3. Quem tomou a decisão política?

A questão é interessante porque não houve propriamente uma decisão única nem há um "pai do caju".

A expansão começou ainda no final do período colonial, quando a quebra da produção moçambicana abriu espaço no mercado internacional.

Mas a verdadeira transformação ocorreu após a independência.

Os governos do PAIGC, desde a década de 1970, favoreceram a plantação do cajueiro porque:

  • era uma cultura resistente;
  • exigia pouco investimento;
  • dava rendimento monetário rápido às famílias rurais;
  • permitia obter divisas num país com escassas exportações.

Durante os anos 1980 e sobretudo 1990, com os programas de ajustamento estrutural apoiados pelo FMI e Banco Mundial, o modelo consolidou-se: a Guiné-Bissau passou a exportar castanha em bruto, principalmente para a Índia e mais tarde para o Vietname.

Ou seja, a responsabilidade política é repartida entre:

  • os últimos anos da administração colonial, que reintroduziram o produto nos circuitos comerciais;
  • os governos do PAIGC pós-independência;
  • as instituições financeiras internacionais (Banco Mundial,  FMI) que incentivaram culturas de exportação.

4. Pergunta o leitor: foi um erro?

Não há um resposta  simples. O caju trouxe benefícios reais:

  • rendimento monetário para centenas de milhares de famílias;
  • entrada de divisas;
  • integração de regiões rurais na economia de mercado.

Mas os custos também são evidentes (ambientais, sociais, económicos, alimentares, etc.). Diversos estudos alertam para o avanço dos cajueiros sobre antigas áreas agrícolas e florestais e para a dependência excessiva de uma única cultura de exportação.

O problema maior não  seria tanto o cajueiro em si, mas  o facto de ele ter passado a dominar o sistema agrícola.

Quando o agricultor troca arroz, milho, sorgo, mandioca ou hortas por cajueiros, fica dependente de vender castanha para depois comprar alimentos. 

Se o preço internacional cai ou se a campanha corre mal, a segurança alimentar deteriora-se rapidamente.

A Guiné-Bissau vive hoje uma espécie de paradoxo:

  • exporta quase duas centenas de milhares de toneladas de castanha;
  • mas continua a importar arroz em grandes quantidades.

Há algo de estruturalmente frágil nisto: o país passou de uma dependência colonial do amendoim ("mancarra")  para uma dependência pós-colonial do caju. Mudou o produto, mas não desapareceu a lógica de especialização excessiva.

O desafio seria transformar o caju numa componente importante da economia, sem deixar que ele substitua as culturas alimentares tradicionais nem destrua os sistemas agroflorestais que durante séculos garantiram a subsistência das tabancas. 

Essa é hoje uma das grandes questões económicas e ecológicas da Guiné-Bissau.

(Pesquisa: LG + Knapic (1964) + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

(Continua)

__________________________

Notas do editor LG:

(**) Vd. poste de 7 de abril de 2019 > Guine 61/74 - P19654: (Ex)citações (352): O amendoim ('mancarra'), a semente do Diabo ('Iblissa', em fula) (Luís Graça / Cherno Baldé)