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terça-feira, 12 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28013: Humor de caserna (265): A ronda do sono e as sentinelas... desarmadas (Fernando de Jesus Anciães / Joaquim Pinto de Carvalho, CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852, Buba, 1971/73)












Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição (e legendagem)  orientada pelo editor LG, sob história contada pelo FJA/JAPC .11 de maio de 2026, 



1. Quem é que não se lembras destas expressões da gíria ou calão de caserna  que usávamos para designar "dormir" ?!... Quem é que, nas longas noites quentes e húmidas da Guiné, naquelas horas mortais da madrugada, no aquartelamento ou destacamento no mato, no seu posto de sentinela, não foi apanhado pela ronda a "chonar", a "ferrar o galho", a "passar pelas brasas", a "bater a sua sorna", com a sua "namorada" (a G3), pousada no peito...? 

A gíria ou calão de caserna é um universo à parte, cheio de criatividade e ironia, especialmente para escapar à monotonia e ao cansaço das noites intermináveis na Guiné: onde havia de tudo, mosquitos, e miríades de outros insetos, calor, humidade, chuva, trovoada (conforme a estação),  uivos das hienas, silvos de granadas, very ligths, balas tracejantes...  Mas também tédio, cansado, medo, lassidão, angústia, sono, sobretudo muito sono...

Eis algumas expressões para "dormir" (ou tentá-lo) no posto de sentinela, em emboscada,  no mato, ou na caserna, em véspera de uma "saída":
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  • "Chonar" ( ou "xonar") – Clássico, vindo do calão lisboeta, mas adoptado em todo o lado; era o verbo por excelência para "dormir" (ou "tirar uma sesta", mesmo que fosse só uns minutos entre turnos);
  • "Ferrar o galho" – Esta era mais usada para "dormir profundamente", muitas vezes em situações menos formais ou quando se aproveitava um momento de folga;
  • "Passar pelas brasas" – Esta tinha um tom mais irónico, como se fosse um ritual de resistência: aguentar o sono a todo o custo, mas acabava por ser o mesmo que "adormecer"; sinónimo: passar pelo sono;
  • "Bater a sorna" – Outra pérola! Sorna era o sono, e bater era tirá-lo, mesmo que fosse à pressa: às vezes ouvia-se também "bater uma soneca";
  • "Pegar no sono" – Mais literal, mas também muito usada.
  • "Dormir a sono solto" – Quando o cansaço era tanto que nem a ronda ou os mosquitos ou os "turras" conseguiam acordar.
  • "Ninar" – Usada mais em tom de brincadeira, como se alguém estivesse a embalar-se e a dormecer (ao som de uma cantiga);
  • "Dormir como um prego" – Esta era mais específica: dormir em pé, encostado a uma parede ou a um poste, como os soldados faziam nos postos de sentinela (com a G3 ao peito); ter um sonmo profundo; sinónimo: dormir como um anjo;
  • "Fazer a sesta do leão" – Para quem conseguia dormir em qualquer lado, como os animais do mato;
  • "Estar a sonhar com a terra" – Quando o sono era tão profundo que se sonhava com Portugal, com a família, ou com a comidinha da mamã.
 
Outras expressões relacionadas com o sono (ou a falta dele):
 
  • "Ficar a olhar para o teto" – Quando não se conseguia dormir, mas se fingia que sim (neste caso, olhar para o céu estrelado, ou para o negrume da floresta à volta);
  • "Ficar a contar carneiros" – Quando não se tem sono, ou quando se tem insónias;
  • "O sono é o melhor soldado" – Um ditado que se ouvia muito, especialmente nas noites antes de uma operação; sinónimo: passar a noite em branco;
  • "A ronda não perdoa" – Para quem era apanhado a "chonar" em serviço.
  • "Dormir de olho aberto" – Literalmente, tentava-se, mas não era fácil com o calor, a humidade,  os mosquitos, os ruídos da mata;
  • "O sono é o único luxo que não se paga" – Uma forma de justificar uns minutos de descanso roubados;
  • "O sono é o melhor médico" – Provérbio judaico;
  • "O teu mal é sono" – Quando  uum gajo andava a bater com a cabeça pelas paredes (ou nas árvores e arbustos, em operações, ou no gajo da frente); sinónimo: bêbedo de sono.


Pinto Carvalho.

Foto  LG (2010)

E a G3 como "namorada"? Essa sim, era uma imagem recorrente! A G3 era a nossa companheira constante, sempre ao peito ou ao lado (na cama, na caserna) como uma namorada (ciumenta) que não se podia largar. E quando se adormecia com ela ao colo, era sinal que o cansaço tinha ganho a batalha.


2. E a propósito do sono ( em tempo de guerra), temos hoje mais   um contributo do  nosso colaborador permanente
Joaquim António Pinto Carvalho (JAPC) que, como já o dissemos, é reconhecidamente, um homem dotado de apurado sentido de humor. 

Foi alf mil da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 (Buba) e CCAÇ 6 (Bedanda) (1971/73). É hoje advogado, ainda no ativo. 

Da brochura, de que é autor,  com a história da unidade, a CCAÇ 3398, distribuída no respetivo XXV Convívio, realizado no Cadaval, em 18/9/2021,  vamos "sacar" mais uma historieta engraçada,  que o JAPC recolheu junto do seu camarada, também ele alf mil at inf, Fernando de Jesus Anciães (FJA).



Fonte: "A 'chama' que nos chamou: um contributo para a história da CCAÇ 3398, "Os Incendiários", Buba, Guiné, 1971-1973, na comemoração do seu cinquentenário. Edição de autor, s/l, 2021, pp. 55/56. (Com devida vénia...)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28012: Timor-Leste: passado e presente (34): a revolta de Manufai (dez 1911 / out 1912) - Parte I




"Um contingemte de soldados de artilharia e infantaria embarcou no África com destino a Moçambique, a fim de que possam ser destatacadas forças d'aquela provínica para Timor, onde os régulos fizeram há pouco um movimento de revolta que as nossas autoridades sufocaram, sendo necessário, todavia, assegurar ali  com a presença de tropas mais completa tranquilidade.

"É sobretudo na região d' Oecússi que é maior a agitação provocadas por medidas políticas para o régulo  [Boaventura Boaventura da Costa Sottomayor], cujo pai  [Duarte da Costa Sottomayor ] foi um tão dedicado amigo de Portugal que seus filhos foram educados à custa do governo na colónia de Macau"


Legendas: 1 - No tombadilho do Africa os soldados da coluna. | 2 - Os oficiais da coluna ao centro o comandnate, tendo à direita os srs. tenente Ribeiro da Fonseca e alferes Cidrães e à esquerda os srs. tenente Domingos Vicente e alferes Cabeçadas. |  3 - A despreocupação dos soldados expedicionários. | 4 - A coluna formada antes do embarque. | 5 - O embarque das tropas. - Clichés de Benoliel.

Fonte: Ilustração Portuguedsa, 2ª série, nº 325, 13 de maio de 1912, pág.640 (Cortesia de Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa)





Pélissier, René — Timor em Guerra: a Conmquista Portuguesa (1847-1913). Lisboa: Editorial EstampA, 2007, 512 pp.


Simopse: "A partir do estudo de fontes portuguesas e holandesas, a obra analisa, nomeadamente, mais de cinquenta campanhas e expedições, necessárias à Monarquia e à Primeira República para que os guerreiros timorenses se tornassem súbditos portugueses.

"Neste livro, o leitor ficará a saber como o governador José Celestino da Silva (1894-1908) foi o grande aniquilador da resistência dos «reinos locais» e um «precursor» da unidade luso-timorense. O que não impediu a eclosão e o esmagamento assaz sangrento da última grande revolta (1911-1912) contra a Administração colonial.

"Sem maniqueísmo e com uma atenção aos pormenores inigualada até hoje, esta obra faz cair por terra alguns mitos relativos à presença portuguesa na Oceânia."





Timor Leste > Parque Dom Boaventura. Comemoração,  dos 20 anos do referendo sobre a independência da Indonésia (1999-2019), e centenário da revolta de Manufai.

A estátua (gigante)  de Dom Boaventura foi inaugurada em 23 de novembro de 2012, por ocasião da comemoração do 37° Aniversário da Proclamação da Independência (28 de Novembro de 1975 – 28 de Novembro de 2012) e do 1o. centenário da Revolta de Manufai ( 1912-2012), liderada por Dom Boaventura ( que terá morrido no desterro, em Moçambique).

Foto: cortesia de Wikimedia Commons (editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2024)



1. No tempo da República, Timor era, como as restantes colónias portuguesas, parte integrante de Portugal (segundo o artº 2º da Constituição de 1911). 

TÍTULO I - DA FORMA DO GOVERNO E DO TERRITÓRIO DA NAÇÃO PORTUGUESA 

ARTIGO 1.º A Nação Portuguesa, organizada em Estado Unitário, adopta como forma de governo a República, nos termos desta Constituição.

ARTIGO 2.° O território da Nação Portuguesa é o existente à data da proclamação da República.

 § único -  A Nação não renuncia aos direitos que tenha ou possa vir a ter sobre outro qualquer território. (Fonte: Assembleia da República)

A desastrosa, precipitada, mal planeada e sangrenta participação de Portugal na I Guerra Mundial, foi justificada pelos políticos da República como o  imperioso dever do país face ao imperalismo alemão que olhava, com olhos de ave de rapina, territórios como Angola e Moçambique.  

Em contrapartida, Timor ficava longe da Europa e podia ter menos interesse para as grandes potências coloniais, com exceção da Holanda (hoje Países Baixos)...

A República (1910-1926)  sempre defendeu, para as colónias, um modelo de descentralização administrativa e financeira, com recurso a um Alto Comissário ou governador. 

A instabilidade política, militar, social e económica da República não permitiu o aprofundamento e aperfeiçoamento do modelo. (Em 16 anos, houve 45 Governos e 2 Juntas, incluindo governos de um só partido, coligações e governos militares; 8 Presidentes da República Eleitos pelo parlamento, com grande instabilidade no cargo;  refira-se ainda a elevada rotatividade dos governos e a grande crispação política, para além da participação na I Grande Guerra, crise económica, social e sanitária, etc.)

Com a  Ditadura Militar (a partir de 1926) e o Estado Novo (a partir de 1933), há um claro retrocesso na autonomia administrativa e financeira das colónias.  O Acto Colonial (1930) vai ser integrado na Constituição de 1933. É o triunfo da perspetiva imperial na relação metrópole-colónias.

A relação da República com Timor e os timorenses também não será pacífica, em parte por inabilidade dos republicanos... 

Há a  "revolta indígena"  de Manufai (1911/12),  cuja história merece ser melhor conhecida dos nossos leitores. Ocorreu  durante o governo de Filomeno da Câmara Melo Cabral (o primeiro governador republicano, 1911/13  e 1914/17). (Nasceu em Ponta Delgada, em 1873, e morreu em Lisboa, em 1934; foi governador, controverso,  de Timor em dois períodos, 1911-1913, e 1914-1917; na sua última comissão, em 1915, foi promovido a capitão-tenente.)

O território (do que é hoje Timor Leste) estava  dividido em 71 reinos, cada um com o seu liurai e a sua pequena corte e o seu pequeno exército!...  
 
Houve  causas próximas para explicar a revolta de Manufai de 1911/12, e  que seria uma réplica da iniciada em 1895 (ao tempo do governador Celestino da Silva).

 Desta vez foi iderada por Dom Boaventura da Costa Sottomayor, filho de Dom Duarte da Costa Sottomayor:

(i) A mudança de regime em Portugal (1910) e a imposição da bandeira republicana (verde e vermelha):    foram vistas como uma ruptura de um pacto simbólico com a Coroa, a quem muitos liurais, como Boaventura, juravam lealdade; a bandeira monárquica (azul e branca) era vista como sagrada e associada a uma relação de vassalagem direta com o rei de Portugal, não com o presidente da República; os timorenses davam (e ainda dão) muita importância a símbolos nacionais como a bandeira:  a sua lealdade ia para o rei e para a bandeira "azul e branca" da monarquia, que de repente  é substituída  (em 29 de novembro de 1910); durante a revolta, o "gentio" amotinado, sob o comando de Dom Boaventura, usaram a bandeira monárquica como emblema de luta, reforçando a ideia de que estavam a defender não só os seus direitos seculared, mas também uma relação histórica com Portugal que a República havia rompido;

(ii) a ambiguidade e a instabilidade da transição política foram aproveitadas  pela Holanda (uma monarquia)  para incitar os timorenreses à revolta contra os "novos senhores" da metrópole, e pôr em causa as fronteiras do território;

(iii) a substituição da "finta" pelo "imposto de capitação " (equivalente ao "imposto de palhota" na Guiné) vem afetar os poderes gentílicos, semifeudais,  limitando o poder discriconário dos "régulos" (ou "liurais"), 

(iv) o recrutamento forçado de trabalhadores ("corveia") para as plantações de café e algodão;

(v) a proibição do abate de árvores de sândalo e de animais para rituais tradicionais; 

(vi) a resistência (aberta)  à autoridade colonial portuguesa, que procurava consolidar o controlo sobre as estruturas tradicionais de poder timorenses;

(vii) a escassa presença militar portuguesa no território (agravada pela longa distância,por via marítima, entre Lisboa e Díli, funcionando Moçambique como uma espécie de entreposto ou base recuada);

Não temos elementos para perceber  o papel da Igreja Católica, que, em alguns casos, era vista como aliada dos portugueses, mas também como mediadora entre as populações locais e o poder colonial; a igreja, nesta época, era claramente antirrepublicana, e o jesuitas tinham sido expulsos, ainda em 1910, do território.

O aumento do imposto de capitação (a "finta" ou "imposto e cabeça") e o arrolamento de coqueiros e gados, a principal riqueza dos timorenses), a par da proibição do corte de árvores de sândalo (prática sancionada com multas), serão talvez  as razões mais visíveis que levam a despoletar a revolta de Manufai.

A partir do reino de Manufai, a revolta conquista grande adesão das populações e levará mais tempo a ser debelada. 

A revolta foi militar, tendo sido subjugada por uma conjugação de forças que envolveu:
  • militares portugueses metropolitanos;
  • militares provenientes das colónias portuguesas (de Goa, de Macau e principalmente de Moçambique,  os "landins").
  • e, sobretudo, aliados dos reinos timorenses.
As forças africanas e nativas correspondiam a 88% dos efetivos militares envolvidos, segundo o historiador René Pelissier (2007).

A resposta foi militar, com o envio de tropas  oriundas da metrópole. A artilharia fez grandes razias. Aldeias inteiras são arrasadas. As baixas entre os revoltosos vão reflectir-se mais tarde na demografia do território. Fala-se em 5 mil a 20 mil mortos, números difíceis (ou impossíveis hoje) de confirmar. 

A par disso, e como seria de prever, a forte repressão vai agravar as relações entre colonizados e colonizadores... 

Aponta-se como  início formal da revolta o dia 24 de dezembro de 1911, domingo, véspera de Natal . Essa data marca o ataque ao posto de Same: o primeiro-tenente Luiz Alvares da Silva, da marinha, é  morto e decapitado, à frente da mulher.

A guerra vai decorrer até meados de 1912 num movimento de cerco e aniquilamento das forças rebeldes, acabando de levá-las à rendição. Todavia, o destino do líder da revolta ainda hoje é controverso: terá sido  poupado e desterrado para Moçambique.

O Estado vai anexa terras dos vencidos (caso da futura Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho). O poder dos "liurais" passou a ser mais simbólico, mas mesmo assim o governador Filomeno da Câmara soube depois imprimir uma dinâmica de desenvolvimento e pacificação efetiva do território, política que será prosseguida com algum êxito até à II Guerra Mundial.

O triunfo das autoridades portuguesas e seus aliados vai marcar a consolidação da até então precária soberania  em toda a parte oriental da ilha.( A delimitação da fronteira só fica resolvida em 25 de junho de 1914, com a decisão do tribunal de Haia sobre o diferendo relativamente ao enclave de  Oecússi-Ambemo: a demarcação no terreno só vai acabar em abril de 1915.)

A revolta do régulo de Manufai será o último dos grandes levantamentos contra a autoridade colonial. E tende hoje a ser vista como uma "revolta protonacionalista", de cariz anticolonialista, "avant la lettre" (Figueiredo, 2003).

 
Carlos Bessa (2004, pág. 333) tirou deste período trágico da história de Timor  (e de Portugal) a  seguinte conclusão:

(...) A nobreza nativa sairá muito enfraquecida destas campanhas, mas, mesmo assim, a autoridade portuguesa continuou a não pretender ser mais do que superestrutura aglutinadora e arbitral das autoridades nativas dos vários reinos, embora se tornasse marcante factor de identidade e unificação política através da influência de uma cultura luso-timotense e do catolicismo,  contrapostos ao islamismo e à influência calvinista holandesa excercida na restante Indonésia, do que resultou o tão impressionante e conhecido culto dos Timorenses pela bandeira portuguesa".
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Bibliografia:

Bessa, Carlos : "Timor Do Domínio Liurai à Pacificação Portuguesa", in Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira, ed. lit - Nova Históriaa Militar de Portugal. Vol. 3. S/l: Círculo de Leitores.  2004. 323-333.

Figueiredo, Fernando Figueiredo, "Timor (1910-1955), in: "História dos Portugueses no Extremo Oriente", 4º volume: Macau e Timor no Períod0 Republicano", dir. A. H. de Oliveira Marques, Lisboa: Fundação Oriente, 2003, pp. 521-575.


Pélissier, René — Timor em Guerra: a Conmquista Portuguesa (1847-1913).                            Lisboa: Editorial EstampA, 2007, 512 pp.

  
Pesquisa: LG + Bibliografia + Wikipedia + IA (Le Chat Mistral AI | ChatGPT Open AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links, parênteses retos: LG)

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Guiné 61/74 - P28011: Convívios (1065): Rescaldo do 41.º Encontro Nacional dos ex-Oficiais, Sargentos e Praças do BENG 447 - Brá- Guiné, levado a efeito no dia 9 de Maio de 2026, nas Caldas da Rainha (João Rodrigues Lobo, ex-Alf Mil)

"5 especiais" do Pelotão de Transportes Especiais. Da esquerda para a direita: alferes, três condutores e sargento, nomeadamente Lobo, Neves, Leal, Pessanha e Franklin. Pois... sem nós literalmente o Batalhão não andava.

1. Mensagem do nosso camarada João Rodrigues Lobo, ex-Alf Mil, CMDT do Pelotão de Transportes Especiais / BENG 447 (Bissau, Brá, 1968/71) com data de 9 de Maio de 2026:

Boa noite,
Com a presença de 189 camaradas e suas familias, realizou-se hoje o habitual convivio anual do BENG 447 com excelente organização do Araújo e do Lima.

Começou com tristeza com a noticia do recente falecimento do Capitão Aguiar.

Mas continuou com são convivio e as recordações de sempre nas nossas memórias.

Guiné 61/74 - P28010: Notas de leitura (1921): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Agora que chegamos ao término da viagem, importa realçar que não estamos perante uma história da guerra nem mesmo história oral de valor memorial sobre a guerra. Trata-se de uma abordagem onde se procura analisar a estratégias desenvolvidas pelas famílias no tocante à relação entre pais e filhos durante a guerra. Há uma linha de conduta dos militares lá longe apelando aos filhos perseverança nos estudos e coesão familiar, como se houvesse a antevisão de que eles viriam mudados e se impusesse um esforço de adaptação. Estes filhos dos militares, em conversa com as autoras, falavam por vezes como se ainda fossem pequenos; e o terem retomado as memórias da infância e da adolescência, as estadias do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas, a necessidade dos irmãos se terem reunido para relerem cartas e aerogramas traz leituras por vezes bem curiosas sobre a relação dos pais depois dos militares terem definitivamente regressado a casa. Nestas reuniões com as autoras também houve assombros a escutar de novo as fitas magnéticas onde não faltam cantigas, conversas sobre os estudos e até músicas do Festival da Canção. Na verdade, os pais voltaram outros, em muitos casos houve a necessidade de deixar passar o tempo para depois descobrir que tudo tinha mudado na sociedade, nos valores e nos contextos sociais.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 7

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Vamos hoje despedir-nos destas conversas entre filhos e pais em tempos de guerra falando de Joaquim Pires Afreixo e Fernando Manuel Saraiva. Joaquim era funcionário dos CTT quando foi requisitado em 1961 para o Serviço Postal Militar (SPM), tinha 36 anos e foi graduado em alferes. Constituído o teatro de operações de Angola havia que organizar a distribuição do correio aos militares em campanha. Os CTT em Angola não dispunham de meios para fazer face ao crescente volume da correspondência. Deu-se o caso de a correspondência entre os combatentes e as suas famílias se ter acumulado em Luanda por mais de três meses. Determinou-se que essa correspondência seria enviada para o Quartel-General da Região Militar de Angola, mas o problema não ficou resolvido.

Foi então que o ministro do Exército determinou a organização do SPM, o objetivo era criar uma estrutura que fizesse chegar ao seu destino, o mais rapidamente possível, a correspondência e as encomendas. Joaquim fez quatro comissões, sempre neste serviço, em Moçambique, em Macau, na Guiné, de novo em Moçambique. Joaquim permaneceu muito tempo afastado dos filhos. José, o mais velho, nasce em 1955, e Lucinda em 1962. Quando Joaquim regressa dois anos depois, José não o reconheceu. Até ao seu regresso em 1965, Joaquim passará apenas curtos períodos em Lisboa com a família. A mulher de Joaquim trabalhava como bibliotecária e arquivista, manifestamente não quis ir para os locais onde o marido procurava manter o SPM em bom andamento.

Lucinda vai com dez anos para o Instituto de Odivelas e o irmão para a Faculdade de Medicina. Na correspondência Joaquim nunca fala da guerra, mas em Lisboa aborda-a, à luz do que vê e ouve. Ele comprara um gravador de cassetes para poder enviar à família notícias suas e canções românticas; nas cartas remetia fotografias. O pai pede aos filhos notícias. Com o passar do tempo, Joaquim vai revelando um outro olhar sobre o lugar onde está. Na troca de cartas o tema da escola é recorrente.

Finda a guerra, Joaquim regressa em 1975, depois da independência de Moçambique, é integrado no Exército e chega a Tenente-coronel. A guerra raramente esteve presente nas conversas da família. O tempo foi passando e o que ficou desses tempos está na correspondência que se salvou da fogueira.

Agora Fernando Manuel Saraiva. Nuno tem três anos e oito meses quando o pai, o Capitão Miliciano Fernando Saraiva parte para Moçambique, mobilizado para comandar a 1.ª Companhia do Batalhão de Caçadores n.º 4811, partiu em abril de 1973, vai de avião com 165 homens, entre os quais um médico, um enfermeiro e dois auxiliares de enfermagem, quase todos os militares são originários dos Açores. Ao chegar a Moçambique, o Batalhão assume a responsabilidade por uma zona de atuação no distrito de Niassa com uma superfície aproximada de 14 mil km2.

Antes da mobilização, Fernando era estudante de Engenharia e havia entrado na carreira de Despachante. Quando soube que ia ser mobilizado, preparou a saída de Portugal com destino a Paris, mas o pai impediu-o. Nuno fica com a mãe, de nome Maria José, era doméstica. Maria José escreve todos os dias a Fernando, lamentando a sua ausência. Nos aerogramas que envia ao filho, Fernando faz desenhos para Nuno colorir ou copiar.

Nuno recorda às autoras: “As cartas que escreve para a minha mãe é para a descansar. É o paraíso. A forma como ele fala comigo é por vezes autoritária, outras vezes como se fala com um bebé. Nas cartas em que enviava ao meu avô a forma é um pouco mais dura. A partir de uma certa altura, o meu avô deixa de escrever, era a minha tia que escrevia em nome dele. A escrita do meu avô era muito certinha, escrevia autênticos testamentos onde ele dava conta do que estava a acontecer ao país real.”

Em 1 de abril de 1974 Nuno e a mãe chegam a África, comenta o filho: “Muita insistência dela, o meu pai não queria.” Mãe e filho chegaram a Muembe, local onde estava a Companhia de Caçadores que o pai comandava. Nuno não o reconhece. A família fica alojada no aquartelamento juntamente com outros oficiais e as respetivas mulheres. A companhia encontrava-se instalada numa zona montanhosa, cortada por inúmeros rios e linhas de água. Não há população branca na zona de atuação do Batalhão, apenas dois cantineiros. A população vive em aldeamento para onde foi deslocada. Muitos fugiram para o Maláui e para a Tanzânia, e aldeias que se sabe estar sob controlo do inimigo. A população é maioritariamente muçulmana e não fala português.

A conversa de Nuno com as autoras recolhe muitas informações do livro da Unidade. Chegou-se ao 25 de abril e Nuno lembra-se da agitação e da alegria dentro do quartel, veio depois uma grande tensão, pela indefinição relativa ao futuro dos militares. O Batalhão inicia o seu regresso a partir de novembro de 1974. A família regressa a casa. Nascem mais duas filhas. Não se fala da guerra. A mãe não esconde as boas memórias da passagem por África. Com o pai foi diferente, como Nuno relata: “O meu pai tornou-se extremamente violento comigo, e eu atribuo isso também um bocado à cabeça meio esfrangalhada com que ele veio. Houve episódios de violência muito, muito grandes. O meu pai também se reencontrou, mas muito mais tarde.”

Depois da sua morte, Nuno tem participado nos almoços de confraternização da Companhia. “O meu pai destruiu tudo o que tinha a ver com a guerra ou com a memória da guerra.” Dos poucos aerogramas que sobraram, Nuno lê um excerto:
“E por saber que tens ido à praia o pai fez hoje um desenho para colorires. Trata-se de um marinheiro, que está a passear numa praia e tem uma gaivota com um peixe na boca em cima do chapéu. Quando a mamã escrever diz-lhe para ela contar como o Nuno passa os dias, como costuma brincar. E também se desenhas e pintas bonecos.”
E a conversa com as autoras termina assim: “Eu tinha sempre de participar, sempre, o que me faz pensar que também esse exercício, esse jogo contínuo, me levou a ser o que sou hoje, um desenhador.”

No epílogo da obra, as autoras reafirmam que o seu objetivo era de contribuir para um melhor conhecimento deste período. “A separação familiar revelou-se uma experiência avassaladora, com repercussões nos laços entre o casal e os pais com os filhos. Esta vivência torna-se consciente muito mais tarde na vida das crianças envolvidas, hoje adultos.” Consideram que este recuo a memórias da infância, a descoberta de novas fotografias, a reunião com irmãos para falar desses tempos resultou num visível alívio para quase todos. Há filhos que fizeram perguntas ao pai sobre a guerra, as respostas foram raras, por vezes evasivas. E nos relatos onde se usa a crueza de narrar o acontecido, como observam as autoras, mais parecem desabafos escritos para si próprios do que para os filhos, que não podiam compreender do que falava o pai. Falava-se por vezes da fuga das populações, das aldeias dispersas permeáveis à influência do inimigo, há militares que falavam das crianças órfãs então escrevem sobre elas, alguns pensando nos próprios filhos.

O epílogo termina de modo muito poético:
“No regresso, os pais voltaram outros. Como só a poesia, nas palavras de Fiama Hasse Pais Brandão, sabe exprimir:
Outras andorinhas voltam, não as que
partiram dos beirais, no outono.
Mudaram no deserto as suas imagens,
e as que volteiam hoje sobre esta água
no passado conheceram outro destino.
Que lugar trarão na memória dos olhos?”

Terna e estrénua foi a pesquisa, o resultado é este livro esplendente.

Ana Vargas e Joana Pontes
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Notas do editor:

Vd. post de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28009: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte VII: Bissau e Bolama - Parte I


















Fotogramas > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", documentário de San Payo (1936) > Guiné > Bissau > Agosto de 1935 >  

Os fotogramas são reproduzidos com cortesia da Cinemateca Digital (Cinemateca Nacional). Para visualizar o documentário completo, consultar:

I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo.

 Chamada de atenção ao leitor: caso não consigas visualizar o vídeo, por favor verifica se o endereço completo da página indica http://www.cinemateca.pt (e não https://www.cinemateca.pt/)

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O filme, feito em parte com dinheiros públicos,  não chegou a passar nas salas de cinema:  terá sido projetado uma única vez, no S. Luiz, em Lisboa, a 29 de junho de 1936, em sessão destinada  aos participantes do cruzeiro.


1. Desde 4/11/2025, temos mostrado alguns fotogramas do documentário, de longa duração (91' 13''), sobre o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente. O filme está disponível, em formato digital, no portal "Cinemateca Digital", da Cinemateca Nacional.

Ainda não o visionámos na totalidade. É uma reportagem completa do cruzeiro, de Dois meses, com imagens  e informação muito "interessantes", do ponto de vista da historiografia da presença portuguesa nas quatro "colónias" da África Ocidental visitadas, além de pormenores da partida de Lisboa, da chegada aos vários portos (Mindelo, Praia, Bissau, Bolama, Luanda, Lobito, etc.)  bem como da vida a bordo. (*)

Um documentário, raro, com 90 anos, que diz muito (até pelo que omite, por defeito, conveniência, autocensura ou opção) sobre o "império colonial", expressão que se usava na época sem complexos,  e até com orgulho.  O filme (feito em 35 mm, ainda sem som) tem algumas erros de montagem (cenas trocadas ou repetidas),  e muitas imperfeições  de imagem na cópia digitalizada. Mesmo assim, estamos gratos á Cinemateca Nacional por retirá-lo do pó dos arquivos, restaurá-lo e pô-la á disposição do público lusófono, em geral, dos antigos combatentes, em particular 

2. Recorde-se que o  realizador  é San Payo, nome artístico  de Manuel Alves San Payo (Melgaço, 1890-Lisboa, 1974),  que contou com a colaboração de Artur Costa Macedo, um conhecido  operador e diretor de fotografia (S. Tomé, 1894 - Lisboa, 1966).

O mostra a viagem do paquete "Moçambique" a Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e Angola entre agosto e outubro de 1935.  O cruzeiro coincidiu com as férias escolares. O navio, a vapor, "Moçambique", pertencia à  CNN, será abatido, quatro anos depois, em 1939, e substituido por um novo "Moçambique", a motor, maior e melhor.

A iniciativa foi da revista "O Mundo Português", com apoio do Secretariado da Propaganda Nacional e Ministério das Colónias. A revista era editada pela Agência Geral das Colónias e pelo Secretariado da Propaganda Nacional. 

Os "excursionsistas" não chegavam às duas centenas,   incluindo 7 dezenas de estudantes , considerados os melhores alunos na conclusão do curso geral dos liceus (entre eles,  o Ruy Cinatti). E só 20% eram mulheres.

Um dos mentores do projeto foi Marcelo Caetano, então com 29 anos, e já brilhante professor de direito administrativo na  Faculdade de Direito de Lisboa, e intelectual orgânico  do regime. Seria também  ele  o "diretor cultural" do cruzeiro.  O objetivo desta iniciativa era didático e propagandístico: cativar as jovens elites do país para a questão colonial, num altura em que outras potências coloniais   deitavam o olho a alguns territórios do império colonial português.

O  documentário dedica menos de 15 minutos à visita à Guiné (Bissau e Bolama). O realizador viveu na 2ª década do séc. XX no Brasil, país onde se iniciou na fotografia e no cinema: fez alguns filmes e documentários. Mas é em Portugal se torna um reputado fotógrafo das elites (políticas, sociais e culturais), sobretudo nos 30, 40 e 50. A clientela reflete também a qualidade técnica e estética do seu trabalho. 

Dizia-se, todavia, "apolítico". Mas sua escolha como realizador deste documentário não pode ser vista como "inocente":  como fotógrafo das elites (incluindo Salazar), dava garantias que o documentário reforçaria a "narrativa oficial". 

Neste  filme, o realizador dá sempre maior destaque aos aspetos cénicos do cruzeiro: as chegadas, o cais, a receção das populações locais, com as suas "danças indígenas", o exotismo humano e paisagístico, o anedótico, o "flagrante", ... 

Há um ou outro apontamento sobre a história da colonização: por exemplo, um dos intertítulos, referente ao forte de São José da Amura, diz explicitamente que a cidade de Bissau, até aos anos 20, cabia dentro das muralhas... Não sei se a censura  terá gostado, ou até pode ser que sim: podia interpretado  como uma "bicada" á malfadada República,  derrubada em 28 de maio de 1926.

Bissau  em 1935 ainda não era a capital, a cidade estava a crescer, segundo um plano urbanístico do tempo da Republiva, mas tinha  apenas um cais-acostável... Há poucas imagens da cidade, de resto as obras públicas só virão mais tarde, com o impulso dado pelo governador Sarmento Rodrigues à "modernização" da colónia... Mas um dos fotogramas mostra já a Av da República, com candeeiros de iluminação pública.

Era então governador  da Guiné (1933-1941) o major do exército  Luís António de Carvalho Viegas  (chegará a general em 1948; será deputado na Assembleia Nacional, na IV Legislatura, 1945-1949).

Resumo análitico do filme: 

  • até  8' >  Lisboa (despedida e partida do navio); viagem até Cabo Verde;
  • 8' - 23' > Cabo Verde (Mindelo, Praia, interior);
  • 23' - 37' > Guiné (Bissau e Bolama);
  • 37' - 46' > São Tomé e Príncipe (incluindo em São Tomé, visita às roças Água Izé, Monte Café, e Rio do Ouro; no Príncipe, roça não identificada):
  • 46' - 91' > Angola (Luanda, rio Dande, Catete, Dalatando, Casengo, Porto Amboim, Gabela, fazenda de café, Lobito, caminho de ferro de Benguela,  empresa de Cassequel, Catumbela,  Ganda, Moçamedes, foz do rio Bero, regersso a Luanda, minumento aos mortos da Grande Guerra, batuques, desfile) (incluindo visita à fazenda Tentativa, à granja S. Luiz e outras fazendas não especificadas, além da Estação Zootécnica e missão na Huíla).


3. Registe-se que  só as visitas a Luanda, Lobito e Moçâmedes duraram mais do que um dia,  nos restantes locais, os "excursionistas" ficaram apenas algumas horas.  

Em 1935, a organização do cruzeiro teve de enfrentar muitos problemas logísticos (falta de viaturas automóveis, péssima rede viária e hoteleira, etc.), problemas esses agravados num território como a Guiné, ainda não totalmente "pacificado" (daí que a visita se tenha limitado se a duas cidades costeiras, com cais acostável, Bissau e a capital, Bolama).

Recorde-se que só entre 1925 e 1936 é que foram "pacificados" os últimos povos animistas, no noroeste do território ("chão felupe") e nos Bijagós, tendo a última campanha sido na ilha de Canhabaque, cujos habitantes eram acusados de praticar  a pirataria.

Tratando-se de um documentário sem som síncrono,  o realizador recorreu aos intertítulos (no fundo, as velhas legendas usadas para apresentar diálogos ou explicar a narrativa entre as cenas ou sequèncias no cinema mudo). Eram cartões de texto filmados e inseridos durante a montagem do filme para ajudar o público a compreender a narrativa,  uma vez que não havia som sincronizado.
 . 
Por razões de produção, financeiras e técnicas, os documentários continuarão a fazer-se sem som síncrono até muito tarde, início dos anos 60.

Diversas empresas portuuguesas expuseram os seus produtos a bordo, e fizeram publicidade no roteiro, ajudando assim ao encaixe necessário para o financiamento da viagem, que contou ainda com 150 contos dados pelo governo, mais as receitas das inscrições dos excursionistas (que eram caras para a época, como já vimos).

 (Seleção e edição de imagens: LG)
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Nota do editor LG:


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domingo, 10 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28008: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IV: semana de 23 de fevereiro a 1 de março : "barak obrigadu" (muito obrigado) a todos!


Timor > Díli >Hotel Timor > 3 de fevereiro de 2019 > "A vida tem destas coisas... hoje conheci um primo (aos 46 anos) e a mais de 14500 km da nossa terra. Foi um prazer e privilégio conhecer-te,  primo Rui Chamusco! Temos muitas aventuras para realizar em Timor em prol deste maravilhoso povo maubere! " 

Foto e legenda da página do Facebook de Rui Nunes Ferreira, comandante-de-fragata, em serviço em Timor-Leste, com a devida vénia; o Rui Pedro Nabais Nunes Ferreira foi entretanto promovido a capitão-de-mar-e-guerra da classe de Marinha; é o atual Adido de Defesa de Portugal em Bissau; foi Antigo Aluno do Colégio Militar, nº 300/1982.

O Rui Chamusco e o Rui Pedro Ferreira conheceram-se pessoalmente neste dia, em Díli, onde o oficial da Marimnha, ainda seu parente, estava destacado em serviço de Portugal, durante um ano, desde setembro de 2018.

1. Estamos a publicar excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste (fazem parte de um ficheiro em pdf, de 273 páginas, com todas as suas crónicas de viagem àquele país lusófomo, desde 2016, e que ele disponibilizou aos membros da ASTIL e demais amigos, em 28 de maio de 2025).

Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Este ano de 2026, irá por razões de saúde. Está hospitalizado, depois de uma bem sucedida intervençãp cirúrgica no Hospital Cury Cabral, em Lisboa, mas surgiram algumas complicações pós-operatórias. Fazemos votos para que regresse, depressa e bem, à sua casa na Lourinhã.


Fundadores: Rui Chamusco (Sabugal e Lourinhã) | Glória Sobral (Sabugal e Coimbra)  | Gaspar Sobral (Timor Leste e Coimbra)



Rui Chamusco

A publicação desta série, já o dissemos, é uma  pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez mais  200 mil quilómetros de avião, desde 2016, por solidariedade com o povo timorense e as crianças de Boebau, nas montanhas da martirizada Liquiçá.

É também uma forma de a gente não se esquecer dos timorenses, e  os timorenses, por sua vez, não se esquecerem de nós. Ser solidário com quem é solidário é também uma das nossas formas de ser estar dos amigos e camaradas da Guiné, alguns dos quais também são amigos de Timor-Leste. Enfim, é também, da nossa parte, um tributo à lusofonia.

O Rui Chamusco é membro da Tabanca Grande ( nº 886), desde 10 de maio de 2024. E preside à ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste, com sede em Coimbra. 

O João Crisóstomo, o "nosso régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona (Nova Iorque, EUA),  é também membro da ASTIL, fundada por Rui Chamusco, Gaspar Sobral e Glória Sobral. 


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de  24 de fevereiro a 1 de março

por Rui Chamusco

24. 02.2019, domingo - A festa de Domingo

Ao romper da bela aurora fomos chegando á escola, recomeçando os trabalhos de finalização para recebermos os ilustres convidados. A eucaristia está marcada para as 11.00 horas, e até lá cada um vai-se anafaiando para este encontro dominical. 

Todos ajudam: uns na distribuição de fardas aos alunos da escola, outros nos enfeites dos arcos;  uns limpam e varrem o local, outros ensaiam os cânticos. A pouco e pouco vão chegando as crianças, as famílias, e por fim alguém anuncia que os visitantes estão quase a chegar. As crianças fazem alas, os adultos vão se aproximando. Todos na expetativa de conhecerem os “amos” (padres) e o acompanhante Rui Pedro. 

Logo queo carro aparece, e logo que os seus ocupantes se mostram toda a atenção lhes é dedicada. Qualquer gesto, qualquer palavra é ansiosamente recebida. E depois de oferecerem um coco a cada visitante a fim de saciarem a sua sede, seguiu-se o canto do hino da escola, o beija mão (gesto típico timorense de respeito dos mais novos para com os mais velhos) e a preparação da eucaristia.

O Padre Fernando, que esteve onze anos em Timor Leste, pelo seu saber e personalidade, depressa sintonizou a assistência, falando em tetum. Graças aos cânticos a língua portuguesa também se fez ouvir.

Depois, na casa do Bôzé, foi a vez de alimentarmos o corpo. Um almoço frugal, onde mais que a comida ao dispôr, era necessário pôr as conversas em dia. Foi um dia em festa, que só acabou com as formalidades da despedida.

Este povo agradece a todos os que dele não se esquecem e lhes dão o prazer de uma visita. 

Boebau / Manati também é Timor Leste. Onrigadu,  frei Feranando; Obrigadu, frei Tinoco; Obrigadu, comandante Rui Ferreira!...

25.02.2019, segunda feira  - Mais uma boa notícia

Hoje, ao consultar o correio eletrónico deparo com um e-mail do Dr. Manuel Meirinho, presidente do ISCSP,  da Univerisdade de Lisboa, confirmando a sua chegada a Timor Leste no próximo dia 2 de Março. 

Com a agenda cheia de trabalho, pois juntamente com outros professores vêm dar formação a quadros timorenses, não poupa esforços em se encontrar connosco, mais concretamente em Liquiçá, a fim de podermos concretizar passos em ordem à geminação dos municípios de Sabugal e Liquiçá. 

O Dr. Manuel Meirinho, para além do múnus de docente,  é também presidente da Assembleia Municipal de Sabugal. E ninguém melhor para representar o município a que ambos pertencemos.

Será para nós uma honra e um privilégio colaborar neste ato de solidariedade. Aliás, foi por influência nossa, da ASTIL, que este processo se iniciou. Com certeza que o protocolo de colaboração entre os dois benefícios vai trazer benefícios para ambos. E particularmente vai criar laços de amizade que nos irão dar a conhecer mutuamente.

Bem vindo,  Dr. Manuel Meirinho! Já estamos de braços abertos para o receber...


27.02.2019, quarta feira  - Alegrias e dores, penas e cansaço

Hoje foi um daqueles dias em que tudo parece correr mal. Logo de manhã, às 9.00 horas, fomos à embaixada de Portugal em Dili a fim de legalizar dois documentos na seção consular. 

Com ou sem razão, as senhoras que me atenderam resolveram não proceder à legalização (tratava-se de carimbar os documentos), e foram de uma prepotência e arrogância raramente vistas. Claro que saí de lá revoltado e a ferver.

Teremos que dar a volta doutra maneira. Com todo o respeito que os funcionários públicos me merecem, acho que há outras maneiras e outras formas de tratar os assuntos, dialogando e inteirando-se verdadeiramente da situação.

É verdade que perante estas e outras dificuldades o cansaço se apodera de nós. Algumas vezes até o desânimo e a vontade de desistir. Mas felizmente que a paz de alma faz vencer estes obstáculos. Fica no entanto a má imagem de atendimento, que não abona nada a favor da embaixada de Portugal em Dili.

28.02,2019, quinta feira - Ei-los que partem...

Há mar e mar; há ir e voltar. Por volta do meio-dia dirigimo-nos ao aeroporto, em motor, a fim de me despedir do Pe Frei Fernando. Um abraço de despedida bem sentido, pois sei o esforço que o frei Fernando dispendeu para aceitar e cumprir o nosso convite de visitar a escola de São Francisco de Assis em Boebau. Estamos-lheeternamente gratos. Bom regresso a Portugal, e até um dia, cá ou lá, na senda de Francisco de Assis, “como peregrinos e forasteiros neste mundo”.

O regresso a Ailok Laran foi doloroso, pois, para além das mazelas corporais que há oito dias me afligem, dores musculares no pescoço ombros e pé esquerdo deixaram-me prostrado, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Espero bem que estas dores acalmem, porque já me chateia fazerem de mim o objeto das atenções desta gente da casa, que se desfazem em aliviar a minha dor com os meios que têm ao dispôr.

01.03.2019, sexta feira  - Uma questão de sensibilidade

Esta história de ficar doente de modo a preocupar os outros tem muito que se lhe diga.

Então não é que ontem, deitado no chão sobre um “triplex” e com quase toda a família à minha volta, me sai desta boca de ocidental uma frase perdida, que põe a Aurora e a Adobe (mãe e filha) a chorar? 

Em tom de brincadeira digo para o Eustáquio: "vai buscar duas tábuas, tira as medidas e faz o caixão”.Não sei se por imaginarem a cena ou talvez porque me querem bem demais, começo a ouvir o choro lacrimoso que, por mais que eu lhes dissessse que estava a brincar, não lhes pude evitar uns bons minutos de choradinho. 

Ainda mais: como para me acomodar pus as mãos cruzadas no peito, depressa a Adobe me corrigiu a posição, dizendo: “Pai Rui, assim não. Assim fazem aos mortos. E nós não queremos que o Pai Rui morra”.

Tanta coisa ainda por entender da cultura e psicologia deste povo! Mais uma vez me vem à memória o título do livro de Roger Garaudy “Oriente ou O(A)cidente? Quem poder entender que entenda...


02.03.2019, sábado - A amizade alimenta-se, cuida-se...


Os verdadeiros amigos fazem tudo para fortificar a sua amizade. Vem a propósito o convite que fizemos ao comandante Rui Pedro para vir jantar a Ailok Laran. E, embora muito fatigado pelo esforço dispendido com bastantes horas de mergulho no dia de hoje, à hora combinada lá fomos ao seu encontro para o trazermos a este labirinto do Bairro Pité. A gente da casa desfez-se e primorou por apresentar uma refeição não muito habitual. 

Até uma garrafa de vinho de Setúbal serviu para brindarmos. Mais umas fotos, mais um fio de conversa, música, cantorias particularmente em língua portuguesa fizeram parte do pequeno serão que se organizou no “alpendre” da casa.

Dizia o Rui Pedro: “ Mesmo sem televisão e outras comodidades, como esta gente se sente feliz com outros valores que, nós ocidentais, quase desprezamos”.

E como o cansaço era notório no rosto do meu amigo, propus de imediato ao Eustáquio para reconduzirmos o Rui ao seu paradeiro.

Entretanto o Rui agradecia “barak” a todos. “Obrigado,  primo Rui!” E, porque também sou Rui, tive de explicar a esta gente “o Tio Rui Pedro é comandante de fragata (todos icaram muito admirados e estupefactos); o Pai Rui sou eu, que vós já bem conheceis.” 

São momentos destes que nunca se agradecem suficientemente e que alimentam e cuidam da nossa amizade.

(Continua)

(Seleção, revisão / fixaçãod e texto: LG)
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Nota do editor LG

Último poste da série > 3 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27983: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte III: semana de 17 a 23 de fevereiro: finalmente a caminho de Boebau... de "motor" (motorizada)