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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28348: Manuscrito(s) (Luís Graça) (295): Em 6 de setembro passado, a orografia que rodeia a Quinta de Candoz retirou-me cerca de uma hora e meia de insolação direta: cerca de 35 minutos de manhã e cerca de uma hora ao fim da tarde.

 

Foto nº 1 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07;16

Foto nº 2 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:18


Foto nº 3 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07: 20


Foto nº 4 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:22

Foto nº 5 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:24

Foto nº 6 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:31


Foto nº 7 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:35


Foto nº 8 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:35


Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Candoz  > 6 de setembro de 2026


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição:   Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Não é habitual ver o nascer do sol, só o pôr do sol. Justamente porque vivo no Oeste, na Lourinhã, junto à costa atlântica... (O Oeste é uma região da Estremadura, que vai de Torres Vedras a Alcobaça.) 

Não sei porquê,  ninguém fotografa o nascer do sol... Terá menos magia ?  (Acho que não...  O nascer do sol exige acordar cedo, enquanto o pôr do sol é mais acessível:  no fim do dia, o fotógrafo tem mais liberdade e disponibilidade; por outro lado, o pôr do sol tende a ter tons mais quentes e dramáticos (laranjas, vermelhos intensos), enquanto o nascer pode ser mais suave e frio (amarelos, brancos, cinzentos, azuis); e, adicionalmente,  há uma razão cultural: tendemos a associar o pôr do sol ao fim de algo (romântico, melancólico, trágico), que é um tema recorrente na arte ocidental; enfim, o  nascer do sol é mais difícil de capturar em palavras, ligado à ideia de começo, recomeço, trabalho, suplício de Sísifo, mas esperança, desafio,  incerteza...).

 Em Candoz, a mais de 300 km de distância, freguesia de Paredes de Viadores e Manhuncelos. concelho de Marco de Canaveses, estou rodeado de serras (Montedeiras, Aboboreira, Montemuro, Gralheira, Meadas, Marão...).

O rio Douro que vejo da minha janela ou varanda, na Quinta de Candoz, à direita (Porto Antigo, barragem do Carrapatelo e, mais à direita, Cinfães, já na serra de Montemuro),  separa os distritos do Porto e Viseu... 

Da minha janela ou da minha varanda,  virada para nascente,  vejo também em frente, a linha do Douro, a escassos 200 ou 300 metros: o comboio que vai do Porto à Régua e ao Pocinho (e até Barca de Alva, em viagens de turismo histórico) passa pelo vale que me separa do concelho de Baião, que fica a Leste e Nordeste. Em frente, as freguesias, de povoamento disperso, de Mesquinhata, Santa Leocádia, Grilo (e por detrás do 1º horizonte, Grove, Ancede, cujo fogo de artifício vejo na Páscoa)...

Eu estou aqui:  Quinta de Candoz, Coordenadas GPS:41.118254559520246, -8.1129390491463

No dia 6 de setembro de 2026, o sol nasceu em Portugal às 07.01 mas eu só o vi da varanda da nossa casa, na Quinta de Candoz, mais de meia-hora depois... Em rigor, devo tomar como referência a hora solar local, a da cidade do Marco de Canaveses, que foi às 07:03.  E o pôr-do-sol às 19:57. Houve, portanto 12 h 53 min de dia astronómico.

Mas eu estou  numa situação completamente diferente: o horizonte montanhoso é o meu “segundo horizonte”. Na varanda no VIGIA, na Praia da Areia Branca, eu vejo o sol a cair pique no Atlântico, com as Berlengas e o cabo Carvoeira à minha direita...Claro, quando não há nuvens...

Aqui, em Candoz, comecei a ver o primeiro sol direto aproximadamente às 07:37. Ou seja, preguiçosamente, o sol só "pegou ao trabalho" uns 34 minutos depois... E o seu trabalho é o de iluminar e aquecer a nossa encosta, as nossas vinhas: estamos  de 250/300  metros acima do nível do mar, nas faldas da serra de Montedeiras,  que ficou tristemente famosa pelas andanças e façanhas do Zé do Telhado, e nomeadamente o assalto à Casa do Carrapatelo, em 8 de janeiro de  1852. 

Montedeiras fica no concelho de Marco de Canaveses, e tem altitudes que variam entre os 450 e os 650 metros...

E no passado dia 6, domingo, o pôr-do-sol foi às 19:57, mas em Candoz,  eu despedi-me dele cerca de uma hora mais cedo (estimativa minha, hora não documentada)... 

Em conclusão, perdi  nesse dia cerca de  uma hora e meia de sol direto...

Como me levantei cedo nesse dia, de resto como habitualmente, deu-me na veneta de o fotografar, minuto a minuto, e até fiz um vídeo de 2 minutos... Aqui fica uma seleção desses momentos em que o sol amigo nos diz "bom dia, cheguei para te iluminar e aquecer, a ti e a todos os bichos e demais seres vivos que te rodeiam"...


2. Com a ajuda da IA (ChatGPT) fiz o cálculo da posição do sol para as minhas coordenadas (41.1183 N, 8.1129 W): às 07:37, o sol estava aproximadamente:

  • 5,6° acima do horizonte astronómico
  • azimute ≈ 86°, ou seja, praticamente Este.

Portanto, a minha serra/horizonte nascente (parte do concelho de Baião) (a 3, 5, 5 km, em linha reta,  da minha janela ou varanda)  está a ocultar aproximadamente os primeiros 5–6 graus de altura do Sol. É precisamente o que será de esperar de uma casa encaixada numa paisagem montanhosa como a da Quinta de Candoz.

A fotografia das 07:37 é, portanto, uma excelente evidência de campo: a minha observação dos 34 minutos está perfeitamente dentro do que o cálculo astronómico prevê.

Menos rigoroso, porque não tenho fotografias recentes (e disponíveis aqui), é a estimativa de perda de sol direto ao fim da tarde.

Se a minha observação de que o Sol desaparece cerca das 19:00 estiver correta, então:

19:57 − 19:00 ≈ 57 minutos. Ou seja, perco quase uma hora de Sol direto ao fim do dia.

E  momento em que o sol desaparece por trás da minha encosta (a poente) ele ainda estará aproximadamente 10° acima do horizonte astronómico.

Isto significa que a serra de Montedeiras (o conjunto de relevos que tenho  a poente) funciona como uma verdadeira parede solar. "A serra engole o sol"...

Em conclusão, no passado domingo, o sol direto começu: ~07:37; e terminou: ~19:00. Perdi c. 90 minutos de sol direto.

Mas há uma distinção importante: não estou propriamente a perder “luz do dia” durante esses 90 minutos, mas sim "sol direto".

Às 07:20, por exemplo, já há claridade em Candoz (vd. foto nº 3), apesar de a serra impedir que os raios solares atinjam diretamente a nossa a casa e as nossas vinhas. E depois das 19:00 ainda temos crepúsculo, embora já não tenhamos o disco solar.

Em rigor, devo então dizer: “Em 6 de setembro, a orografia que rodeia a Quinta de Candoz retirou-me cerca de uma hora e meia de insolação direta: cerca de 35 minutos de manhã e cerca de uma hora ao fim da tarde.”

Neste último fim-de-semana, colhemos uvas com vamos fazer o vinho verde branco DOC Nita, Escolha, 2026, com 14 graus de álcool provável.

É uma ironia bonita: a mesma montanha que nos rouba sol, é também parte da paisagem que nos ajuda a obter este vinho, que continuamos a fazer por amor...

























Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Candoz  > 12 e 13 de setembro de 2026 > As primeiras vindimas...


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição:   Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Candoz  > 18 de setembro de 2020 > A nossa querida Nita (1947-2023), a "alma mater" da nossa quinta..


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Foto: Luís Graça (2020)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI. (2026)


Guiné 61/74 - P28347: Parabéns a você (2526): Manuel J. Ribeiro Agostinho, ex-Soldado Radiotelegrafista da CCS/QG/CTIG (Bissau, 1968/70)

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Nota do editor

Último post da série de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28338: Parabéns a você (2525): Adolfo Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2796 (Gadamael e Quinhamel, 1970/72)

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28346: Notas de leitura (1960): "O Imenso, Sereno e Doce Rio", de Rui de Azevedo Teixeira; Guerra e Paz Editores, 2023 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o labor de Rui de Azevedo Teixeira, ele organizou congressos internacionais sobre a guerra colonial e a sua literatura, publicou livros como A Guerra Colonial e o Romance Português, é autor de uma biografia de Jaime Neves, oficial dos Comandos que teve um papel preponderante no 25 de novembro de 1975 e como romancista escreveu uma trilogia, aqui se apresenta uma síntese da sua última obra intitulada o Imenso, Sereno e Doce Rio, apresenta-se como o termo de um itinerário que começou na guerra de Angola, Angola a que ele voltará no segundo romance, está agora na meia idade e vai viver uma vibrante paixão com uma militante do PCP, viverão entre os jardins do Éden e os do Inferno, ambos sentiam no outro o fascínio pelo melhor inimigo. O escritor questiona se não se viveu neste romance o triângulo dramático de Circe, Ulisses e Penélope.

Um abraço do
Mário



Oficial dos Comandos em Angola, professor universitário, e agora uma violenta paixão

Mário Beja Santos

A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o Rui de Azevedo Teixeira, na foto à direita. Este Doutor em Literatura Portuguesa Contemporânea organizou os dois primeiros congressos internacionais sobre a Guerra de África, bem como os respetivos livros; deve-se-lhe um indispensável estudo sobre a guerra colonial e o romance português, escreveu sobre a guerra em Angola e, mais recentemente, no estatuto de romancista, publicou O Elogio da Dureza, O Longo Braço do Passado e em 2023 O Imenso, Sereno e Doce Rio, Guerra e Paz Editores.

Vamos acreditar que se trata de uma trilogia, em O Elogio da Dureza temos uma mocidade com muitas leituras, uma vida familiar cruenta, sentiu-se impelido pelo fascínio da força, iremos ler o que era a preparação de um Comando, tudo entremeado com passagens daquilo que o autor chama Diário Incerto; fará a guerra em Angola que será um palco revisitado no seu romance O Longo Braço do Passado (não esquecer que o autor foi professor em Angola nos tempos dramáticos da guerra civil). Acabada a guerra lançou-se nos estudos universitários e após a licenciatura ensinou na ilha da Madeira, aqui conhece Iza, haverá casamento “sublime, sólido, sagrado”. E afastamento relacional com os seus pais. No segundo romance, portanto, em Angola, haverá uma paixão que terá triste fim porque Iza é o pilar da vida de Paulo de Trava Lobo.


Estamos agora no terceiro romance, já morreram os pais de Paulo, ele e Iza caminham para a meia-idade, vivem no Porto, ele gosta de estadear umas temporadas na Toca do Lobo, lugar onde passou a sua infância e juventude, continua a dedicar bastante atenção ao seu Diário Incerto, sente-se envelhecer muito devagar, o casal passa férias em antigas colónias e depois recebe convite para vir lecionar em Lisboa. Aqui volta a encontrar Ana Roriz, sua colega e militante comunista no tempo em que ele fora assistente universitário no Porto. Paulo instalou-se perto do Campo Pequeno, a mulher ajudou-o a retocar o ambiente, só que Iza foi convidada a dar aulas em Zurique. Está criada a atmosfera para uma segunda infidelidade, a inevitável tentação e a dita Ana Roriz. Vai agora tecer-se uma tapeçaria em torno de uma relação que se poderia tornar à partida improvável entre uma mulher filiada do PCP e um académico de boa cepa conservadora.

Começam por almoçar juntos, depois passeiam do Saldanha ao Rossio, depois descobrem o Alentejo juntos, vão até Marvão. Muita conversa com muitas tiradas literárias. Iza aparece nos sonhos de Paulo. No seu Diário Incerto, ele apresenta Ana Maria de Jesus Almeida Roriz:
“Licenciada em Clássicas, professora do ensino secundário, requisitada pela universidade para assessorar a vice-reitora. Depois do primeiro divórcio, a senhora dra. Ana Roriz desligou-se um tanto da militância. Regressou em força anos mais tarde. Tão em força que chegou a ser controleira. Os seus dois ex-maridos eram militantes comunistas e o homem com quem vive, um tal João Gomes, também da militância.”

Paulo desabafa, tem uma longa história relacional com os comunistas, como estudante em Coimbra, diz ter apanhado o comunismo nas matas de Angola, apanhou o comunismo no PREC e, sob o comando de Jaime Mendes, tiraram a tosse aos comunas, voltou a apanhar com o comunismo em Angola, considerava-se definitivamente vacinado, não podia deixar de apreciar o idealismo ingénuo de Ana Roriz. Há, contudo, ambivalências e paradoxos comportamentais em Paulo: “O comunismo era um inimigo pelo qual, sem deixar de sentir um ódio consistente, Paulo sentia também curiosidade e, em relação a alguns comunistas mais velhos, respeito e até admiração.” Paulo e Ana personificavam o defeito perfeito.


Em determinados momentos, Paulo via Ana como um robô, engessada na criminosa ideologia marxista-leninista. Têm arrufos momentâneos, há roturas curtas, logo a seguir vibra a paixão, há toques permanentes no telemóvel, separam-se e reconciliam-se. Paulo recorda o seu caso com Diana Sotirova, assunto tratado no segundo romance desta trilogia. Quando a paixão vibra mais forte, evitam-se as discussões políticas. Paula entende que deve dar um quadro da sua formação, ele que foi alferes dos Comandos, “nessa guerra em que uma esmagadora maioria de homens bons lutou por uma ideia, mais do que errada, romântica, fora do tempo”, recorda que o professor da escola primária metia na cabeça dos miúdos a fervente ideia do Império, e fala concretamente de si: “O alferes, o rapaz de vinte anos que, comandando outros rapazes, tinha de se desenrascar mandando matar e matando ele próprio. Um posto bem pior do que o do soldado.” Ana ouve todas estas declarações e já fala em casamento simbólico.

Procuram ter uma habitação para viverem juntos, a solução encontrada foi dececionante, uma autêntica alfurja em Cascais. Paulo viaja até Zurique, regressa e temos novamente os arroubos da paixão. Os meses passam, Paulo já vai dormir a casa de Ana, o tal Gomes vai ficando arredado, um dia será mesmo mandado embora. Temos cenas de ciúmes, aparecem cartas anónimas. Paulo é convidado pela Universidade de Colónia para dar um cursinho sobre temas literários, antes de ele partir viveram a desesperada paixão física, Iza aparece vinda de Zurique, no regresso a Lisboa, Paulo desanca no Diário Incerto a ideologia comunista, não obstante retoma-se o idílio, vivem juntos, aquilo que Paulo chama uma conjugalidade adúltera, há um ciclo de conferências na universidade, Ana tem funções de secretariado, Iza aparece inesperadamente.

O ambiente na universidade não é favorável aos dois, Paulo parte para a Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, já se sente em rotura final com Ana. Paulo organiza com Iza quinze dias de férias na África do Sul, o comboio é assaltado por elementos da RENAMO, consegue escapar são e salvo. Em Lisboa, Paulo vê Ana à distância, encontra-se com outros elementos dos Comandos, temos aqui um outro quadro ideológico, falando da situação mesquinha e sem grandeza nenhuma em que vive o país, eles consideram-se os leopardos, os leões, a seguir a eles vieram os chacais, as hienas, tipos que tiraram licenciaturas trafulhadas e pedófilos e condecorações para ladrões. E depois destas jaculatórias de exaltação nacionalista vão pelos bares, como o Procópio e o Hipopótamo.

Paulo acusa os sinais de envelhecimento, passou a viver sob a ditadura das análises clínicas, amolecia com a idade, passou a estar muito mais atento ao sofrimento dos velhos e dos pobres. Iza e Paulo voltam para o Porto, aparece Ana desvairada a querer apunhalar Paulo, o casal Iza e Paulo sai reforçado desta horrível contenda, é um casal que constitui a unidade de contrários, dois rios de vida que, após se terem colado na paixão formaram um imenso rio único. E aqui finda a terceira e porventura última obra deste ciclo romanesco, Paulo de Trava Lobo e Iza Maria Possolo d’Ornellas de Trava Lobo parecem ter pela frente uma velhice pacata, sem sombra de novas infidelidades.

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Nota do editor

Último post da série de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)













Reconstituição da Venda de Medas, Gondomar, 1944

Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.

Texto: António Carvalho (2026) 

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Amigos e camaradas, é um pedaço de prosa que vale ouro. É uma autêntica pepita de ouro, esta descrição de duas páginas e meio do nosso escritor António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá" (ex-fur mil enf, CART 6250, 1970/72, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. )




Capa do livro, publicado pela editora Vida Económica, com apoio da Fundação Hermínia Vilar  Ribeiro. Preço de capa (em papel): 16,20 euros (promoção até final do ano).




A "Venda" (misto de taberna, mercearia, pensão, loja, local de encontro e convívio...) teve o seu papel na economia, geografia e história de Portugal. Havia uma Venda em todas as aldeias. E ao longo dos eixos rodoviários. E às vezes em pontos isolados. Deu inclusive nome a diversas povoações: Venda das Raparigas, Venda da Gaita, Venda do Pinheiro, Venda da Porca, Vendas Novas...  

A "Venda" faz parte das nossas geografias emocionais. Remete para um tempo que nasceram e cresceram os nossos pais... E ainda muitos de nós.  É, sem dúvida,  uma das instituições mais fascinantes do património socioantropológico e da geografia humana de Portugal. Antes do aparecimento das redes de distribuição modernas, dos supermercados e dos postos de abastecimento, a venda era o verdadeiro «nó de rede» do mundo rural e do eixos viários de um país, como o nosso,  acidentado (sobretudo a Norte), entrecortado por rios, com uma economia até à II Guerra Mundial, de base agrícola e em grande parte de autosubsistência. 

A "Venda" era uma espaço multifuncional:  operava como entreposto comercial ponto de apoio para o viajante e sobretudo como espaço de sociabilidade,  sobretudo dos homens. Era à "Venda" em muitas terras, de Norte a Sul do país, que chegavam as notícias (o jornal, a rádio), mas também o correio, os boatos, as anedotas...

Na série "Coisas & loisas do nosso tempo de meninos", merece o devido destaque este excerto do livro do António Carvalho, a quem bem podíamos chamar o "etnógrafo de Medas" ("Emendadas", no romance, e que é a história, verídica, de um "brasileiro de torna-viagem", que em pela II Guerra Mundial, depois de 15 anos de vida numa fazendo de café no Estado de São Paulo, regressa à terra, Medas/Emendadas, e torna-se  um bem-sucedido negociante de madeira, carqueja e carvão de choça;  de nome Abel, é assassinado em 1944, a caminho de Avintes, sendo o móbil do crime não apenas os 20 contos que trazia consigo, mas a inveja, a vingança, enfim, um crime em que está envolvido, Caim, outro nome de ressonância bíblica; em 1942, Abel está viúvo, a arranja um vizinha, Micas, mulher de mineiro, como ama de leite dos seus  dois filhos pequenos)... 

Nesta reconstitituição da "Venda da igreja" (e que o autor nos autoriza a reproduzir), o que  nos fascinou, numa primeira leitura, foi   ela aparecer como uma verdadeira instituição social da aldeia.

 Faremos depois uma analíse mais detalhada, na série "Nomadizações de um marginal-secante", deste excerto o livro que andamos agora a reler, em Candoz, em plena época das vindimas. Em homenagem ao autor, nosso querido amigo e e camarada António Carvalho, elaborámos , com a ajuda da IA, a ilustração acima publicada.

Uma nota explicativa rápida: em 1944, ainda não tinha chegado a iluminação pública a Medas. Mas havia a gente a trabalhar, como toupeiras, nas minas do Pejão, cuho início de exploraçáo remomnta a 1884 (do outro do rio Douro: a distância de Medas era de c. 4 quilómetros, que os mineiros da aldeia faziam em geral a pé; quando recebiam o salário, vinham no tejadilho da camioneta, e gastavam mais alguns tostões na "Venda"; era dura e perigosa a vida destes homens, alguns terão morrido de acidentes e de silicose).

A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas"

por António Carvalho 

(...) Micas não gostava nada que o seu homem, antes de chegar da mina do Pejão, se deixasse ficar na venda da igreja, a dar à língua e a beberricar por copo ou caneca, como se não tivesse pressa de entrar em casa. 

Não é que ele lhe batesse ou resmungasse sequer, quando chegava meio avermelhado, mas gastava sempre algum tempo e alguns tostões que lhes fariam falta para outras precisões.

Por esses anos austeros, as vendas eram os estabelecimentos onde os que não tinham terra se obrigavam a mercar quase tudo e os que a tinham compravam apenas o que ela lhes não dava. 

Mas eram também locais de encontro, por onde passavam, no fim da jornada, mineiros e gente de outros ofícios, juntando-se, em inférteis tagarelices, a velhos gastos e tossegosos, antes da última etapa que os levava a casa, a direito ou aos esses. 

Distinguiam-se os mineiros dos outros fregueses da venda cuja porta ficava a meia dúzia de metros das cancelinhas da igreja, pela roupa enegrecida de farruscas, que envergavam dentro e fora da mina. 

Alguns não cuidavam sequer de lavar a cara, depois da jornada de trabalho, como se se sentissem orgulhosos das marcas do seu penoso e insalubre labor, debaixo do chão, sempre sujeitos a perder a vida numa imprevisível derrocada ou explosão de grisu. 

Algumas vezes, quando a hora de saída do turno lhes permitia alcançar a carreira que partia de Rio Bom e passava por Emendadas, lá vinham eles empoleirados, como passageiros de segunda categoria, na cobertura da ronceira camionete pintada de azul e amarelo, bem agarrados ao gradeamento que bordejava todo o tejadilho, de pernas penduradas sobre as vidraças das janelas. 

Assim empoeirados de carvão, não lhes era permitido sujar os assentos lustrosos do autocarro, pelo que se sujeitavam a viajar naquelas condições desconfortáveis e pouco seguras, não obstante pagarem, por inteiro, o bilhete. 

Quando chegavam à paragem da tal venda de Emendadas, desciam aqueles dez ou mais enfarruscados, pela
mesma escada por onde tinham subido, apensa à traseira da camionete. 

Alguns deles apressavam-se a caminho de casa, onde os esperavam tarefas que a força das mulheres não tinha sido capaz de realizar, ou que fosse mesmo,como então se dizia, trabalho de homem. Mas outros faziam da venda uma paragem intermédia, de retempero de energia e animação da alma, antes de se encaminharem para os sítios onde moravam. 

Nesse estabelecimento, onde se vendia de tudo, havia um balcão separando o espaço dos fregueses da área onde se arrumavam, em prateleiras, gavetas e gavetões, os diferentes produtos alimentícios, tecidos, ferramentas e outras coisas precisas. 

Neste espaço do interior do balcão, de uso reservado ao vendeiro, havia ainda uma pipa de vinho verde tinto, por vezes emparelhada com outra de verde branco, de onde ele enchia, com indisfarçada satisfação, por uma chiante torneira de madeira, canecas de vinho, ao ritmo da sede e do vício dos clientes. 

Pendentes sob o teto, um perfeito expositor, havia, pendurados em pregos, toda a sorte de ferramentas, vasilhas de alumínio ou de folha zincada e todos os
apetrechos de utilidade doméstica
, alguns já enferrujados pelo tempo. 

Era sobre esse balcão, onde a pequenada se pendurava furtivamente para ver o que estava para além dele, que o vendeiro, avezado aos gostos e aos bolsos dos
fregueses, dispunha, sobre uma folha de papel mata borrão, um pedaço de broa, uma talhada de toucinho salgado, um punhado de azeitonas, um chouriço que os clientes cortavam com um canivete que traziam no bolso, ou até um cibo de bacalhau seco. 

Essas lambarices vinham sempre acompanhadas de uma caneca de verde onde todos pousavam os beiços, não se podendo assim contar a quantidade que cada um bebia. Era por isso que, algumas vezes, chegavam a casa, cambaleantes. 

Havia sempre três ou quatro homens que se constituíam clientes mais assíduos e ficavam por lá horas seguidas, em poiso certo, numa lambança pegada, fazendo daquele sítio movimentado o centro de dia dos tempos atuais. Eram quase sempre idosos de pouco poderem fazer, padecentes de silicose ou de qualquer outro mal sem cura, que ali se acoitavam. 

Afeitos àquele recanto de convívio, sentavam-se sobre o tampo de uma grande caixa de milho, defronte do balcão que fazia de mesa, levantando-se intermitentemente, cada um, para mais um gole de verde tinto da caneca de cerâmica, até a escorripichar consolado deixando-a repousar sobre a boca, de fundo para o ar. 

Noutras ocasiões, em perfeita comunhão, beberricavam, um a um, por um enorme copo de vidro de meia canada, no qual misturavam vinho, gasosa e açúcar, num gesto que se repetiria em sucessivas rodadas entremeadas por palavrório emaranhado que se ouvia cada vez mais longe. As mãos serviam de guardanapo que passavam pela boca e logo limpavam nas calças de cor já pouco decifrável.

As mulheres também ali entravam, mas pelo tempo estrito de se proverem da despesa para uma semana, que havia de caber numa pequena giga tecida de tiras de madeira de salgueiro que mãos habilidosas de um gigueiro do lugar teciam. 

Cabisbaixas, encostavam-se ao balcão, mas no extremo oposto ao dos homens, fazendo de conta não os ouvirem, pedindo artigo por artigo, baixinho, como se quisessem evitar que se soubesse o que levavam, mesmo que quase todas comprassem o mesmo. 

A vendeira, enquanto o marido aturava mais os homens, ia enchendo, em cartuchos de papel mata-borrão, um quilo de açúcar, um quarto de café de mistura, um quarto de azeitonas e dois ou três quilos de arroz… acomodados numa saca feita de diferentes pedaços de tecido que as mulheres emendavam pacientemente nas suas horas de sesta. 

Havia ainda que encher uma garrafa de azeite para alegrar as batatas cozidas com couves galegas e bacalhau, e outra de petróleo para as candeias, que a freguesa trazia vazias, de casa. 

Não podia faltar, naquele artístico cesto de duas asas, um bacalhau, um quilo de carboneto para o gasómetro e uma barra de sabão para lavar a roupa e ensaboar, sobretudo ao domingo, antes da missa, senão o corpo, pelo menos as partes dele que andassem à mostra. 

Algumas mulheres tinham que levar, também, tabaco e palhetes para o marido, que chegassem para o mês todo. Essas podiam até discordar do vício dispendioso dos seus homes, mas acediam a comprar-lhes os cigarros, porque eles sempre eram homens ou, pior, porque temiam desobedecer-lhes.

Esporadicamente compravam também, na venda onde havia de tudo, um par de socos, dois metros de ganga e uma foucinha de segar erva. 

Só pagavam no fim do mês, quando o marido arrecebia do patrão, confirmando então se os valores parcelares anotados no livro mestre da venda correspondiam aos apontados no seu pequenino livro de capa preta que traziam sempre no bolso de asseado avental escolhido para aquela ocasião. (...)

O pão que [Micas] cozia todas as semanasm era todo do milho que o marido  levantava na cantina damina do Pejãom com as senhas de racionamento a que tinha direito. Sob rava-lhe assim, para vender, a bom preço, o milho que semeava, num campo lenteiro, perto da porta, regado com água da mina. (...) (pp. 33/37)


Fonte: Adapt. de António Carvalho "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026), pp. 33/37. (Com a devida vénia...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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domingo, 13 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28344: 66º Almoço-convívio, dia 24/9/2026, quinta feira, no Resturante Caravela de Ouro, Algés: há já 31 inscritos (Manuel Resende)


Prompt e orientação editorial: Luís Graça
Texto: Manuel Resende (2026)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 13 de setembro de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].



Lista (provisória) das inscrições até quarta feira, di 9 de setembro de 2026
(Fonte: Facebook da Magnífica Tabanca da Linha)


1. Vai realizar-se no dia 24 de setembro,  5ª feira, o 66º almoço-convívio da Magnífica Tabanca ds Linha. Pormenores a seguir;


66º Almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha
5ª feira, dia 24 de setembro de 2026, 12h30-15h00

Restaurante "Caravela de Ouro"
Praça 25 de Abril de 1974  1495 Algés


Grupo · Membros de A MAGNIFICA TABANCA DA LINHA

12h30 – entradas; 

13h00-15h00 - almoço 

I N S C R I Ç õ E S : 

Até 21 de Setembro de 2026
para:
Manuel Resende - Tel. 919 458 210
manuel.resende8@gmail.com
magnificatabancadalinha2@gmail.com
dizendo "vou" no Facebook ou WhatsApp

PREÇO POR PESSOA ... 30 €
(Crianças dos 5 aos 10 anos pagam metade)


+ + + + + + + + E M E N T A + + + + + + + +

APERITIVOS DIVERSOS
Bolinhos de bacalhau | Croquetes de vitela | Rissóis de camarão  | Tapas de queijo e presunto 

Martini tinto e branco | Porto seco | Moscatel.

SOPAS
Canja de galinha - Creme de marisco

PRATO PRINCIPAL
Nacos à Nortenha com grelos e batata a murro

SOBREMESA
Salada de fruta ou Pudim - Café

BEBIDAS INCLUIDAS
Vinho branco e tinto “Ladeiras de Santa Comba" ou outro
Águas - Sumos – Cerveja
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 

Último poste da série > 9 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28334: Convívios (1074): 114.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 25 de Setembro de 2026, com concentração, às 12 horas, na Quinta do Paul, Ortigosa

Guiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 31 de Agosto de 2026:


Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes

No princípio da década de 90 começaram a ter lugar os primeiros convívios de Antigos Combatentes pertencentes à mesma companhia e/ou ao mesmo batalhão. Esta iniciativa partia sempre da boa vontade de alguns antigos combatentes. Por meados da década de 90, quando os convívios já eram moda, apareceu uma nova modalidade, mas sempre com os mesmos objectivos.

Esta nova modalidade consistia de um convívio entre todos os naturais de uma mesma freguesia, que tivessem participado na guerra do ultramar. Convívios desta natureza reuniam sempre um número de presenças muito elevado, porque eram abertos a residentes e não residentes. Na freguesia de Campia, com 182 antigos combatentes, as presenças eram sempre superiores à centena. Muitas foram as freguesias que aderiram a esta modalidade, havendo mesmo casos de algumas onde à falta de iniciativa por parte de antigos combatente era a própria junta da freguesia a tomar a seu cargo a organização de um convívio, como era o caso da Freguesia de Cacia no Concelho de Aveiro.

Muitas associações de antigos combatentes como é o caso da “Tabanca Grande” tiveram e muitas ainda tem, os seus convívios anuais.

O número de convívios atingiu no ano de 2014 o valor 360, publicitados, estando esse valor reduzido para o ano 2026 a 70 convívios aproximadamente. Tudo terá um fim no dia em que todos os antigos combatentes façam parte das hostes celestes da Paz e do Amor.

O nosso camarada da Tabanca Grande, Victor Barata, alfacinha, nascido na cidade de Lisboa foi encontrar noiva na aldeia onde eu nasci. Casou com uma filha da Amélia da Laja e do padeiro de Caveirós, neta materna da Senhora Dália Campos, segunda prima direita da minha avó.

A encosta norte da serra do Caramulo é riquíssima em granitos de alta qualidade. Só para o pavimento do IP5 foram destruídos milhares de toneladas de granito azul transformadas em gravilha, sem que alguém gritasse, não destruam o património.

A Victor Barata procedeu à instalação de uma fábrica de serração de granitos e não de mármores como aparece num comentário do blogue. Só não está sepultado no cemitério de Campia por ter sido cremado na cidade de Viseu.

Nunca consegui que o camarada Victor Barata participasse nos convívios dos combatentes da freguesia de Campia. Uma divergência entre o Victor Barata e um dos quatro elementos da Comissão Organizadora de primeiro convívio realizado em Campia, Mário dos Santos Ferreira, Furriel de Transmissões da Companhia que estava sediada em Ingoré no ano de 1965.
O Mário dos Santos Ferreira, meu companheiro de carteira da primeira, dois anos, até à quarta classe não era pessoa fácil.

A divergência teve origem na aquisição de duas placas em granito, com a inscrição, “Ditosa Pátria que tais filhos tem” para serem colocadas nas campas dos dois mortos em combate, que estão sepultados no cemitério de Campia. Sendo amigo dos dois, tentei por mais que uma vez, sempre que me cabia a organização do próximo convívio, a reconciliação, mas sem resultados.

Sinto cada vez mais dificuldade em aceitar que amizades com mais de 30, 40, 50 anos, possam desaparecer por uma pequena quezília que não vale umas míseras cascas de alhos.

Como consequência destes convívios surgiu também a iniciativa do levantamento de Marcos Históricos aos antigos combatentes. Estes pequenos monumentos foram erguidos a nível de freguesia, como é o caso Campia, a nível de concelho e também a nível nacional como é o caso do Bom Sucesso em Lisboa. Também estes monumentos foram patrocinados pelos antigos combatentes como é o caso de Campia, por Autarquias Locais e também por outras entidades.


Este Monumento aos Antigos Combatentes, naturais da freguesia de Campia foi custeado pelos próprios Combatentes. A Junta de Freguesia de Campia cedeu o terreno e a Câmara Municipal de Vouzela honrou-nos com uma presença no dia da inauguração (13-11-1999).

Quase ao virar da esquina como nos indica a gíria popular, já no ano de 2025 surge uma iniciativa de um antigo combatente, Alferes Miliciano em Angola, natural de Macieira-a-Velha, freguesia de Macieira de Cambra do concelho de Vale de Cambra, de seu nome Martinho Tavares de Almeida, Professor de Educação Física Aposentado. A cidade de Vale Cambra faz parte da Área Metropolitana do Porto.

Com a colaboração de um Grupo de patrocinadores encabeçado pela Câmara Municipal de Vale de Cambra, este antigo combatente decidiu levar a cabo a seguinte tarefa:
Fazer uma recolha ao nível do Concelho de Vale Cambra de dados relativos a todos os naturais que tivessem participado na Guerra do Ultramar. Para além dos dados pessoais também foram recolhidos dados relativos ao Posto e à frente de combate onde teve lugar a sua participação.

À semelhança do que é pedido na adesão à Tabanca Grande também aqui foi usado o mesmo critério em relação à entrega de fotos.
A partir da recolha efectuada, foi feita a edição de um livro em formato A4 com uma primeira tiragem de 1500 exemplares, com 512 páginas e um peso superior a 2 quilos.

Cada um dos Antigos Combatentes ainda vivos, recebeu um exemplar de forma gratuita. Todos os familiares dos Antigos Combatentes já falecidos, que colaboraram com a iniciativa receberam do mesmo modo um exemplar de forma gratuita como é o meu caso.

As duas imagens a seguir mostram a frente e o verso da obra que foi feita a partir desta brilhante iniciativa.

Frente do livro dedicado aos Antigos Combatente do Concelho de Vale de Cambra
Contracapa do livro dedicado aos Antigos Combatente do Concelho de Vale de Cambra

A todos os antigos combatentes a quem foi concedido o privilégio de regressar à sua origem sem ser dentro de um caixote, lutaram para serem os melhores, para terem o reconhecimento daquilo por que passaram em defesa dos ideais da época.
De nada lhes valeu, cada vez valem menos e a cada vez que aparece algo de benesse para antigos combatentes logo aparecem as discórdias a gritarem que os antigos combatentes não são pessoas de bem.

É público de que os antigos combatentes não pagam medicamentos. Não é verdade porque apesar de existir na Constituição um Artigo 13.º que diz que somos todos iguais. Há a possibilidade de serem produzidos medicamentos para pobres e para ricos. O antigo combatente não paga medicamentos se apenas usar os medicamentos para pobres. Em caso contrário paga como pagam os outros.[1]

O livro faz referência a todas as figuras do Estado Novo que durante 13 anos conduziram a Guerra, às grandes operações, tais como a tomada da Pedra Verde e a Operação Mar Verde, às grandes catástrofes como afundamento de uma jangada que vitimou mais de uma centena[2], e a tragédia do Chão Manjaco. É de igual modo feita uma referência a todos os intervenientes do lado oposto.

Tenho muita pena que não exista em todos os restantes concelhos deste país um Alferes Martinho Tavares de Almeida com capacidade para levar a bom porto uma nau com tanta carga. Até à página 225 este livro é de uma enorme riqueza para quem gosta de História.

Nas primeiras 225 páginas há espaço para:

- 1. O Império Ultramarino e o Estado Novo
- 2. Factos que antecederam o Conflito Armado
- 3. Período anterior ao início do Conflito Armado
- 4. Início do Conflito Armado em Angola
- 5. Principais protagonistas
- 6. Teatros de operações
- 7. Movimentos independentistas
- 8. Grandes operações
- 9. Meios terrestres aéreos e navais
- 10. Quarteis e aquartelamentos
- 11. Armas de combate. Perfeita elencagem de todas as armas com ilustração de todas as armas usadas de ambos os lados.
- 12. Minas. A chamada guerra subterrânea
- 13. Alguns números da Guerra do Ultramar
- 14. As grandes tragédias
- 15. As nossas Enfermeiras na Guerra do Ultramar
- 16. A missão do movimento nacional feminino
- 17. O papel da Igreja no conflito
- 18. Factos relevantes
- 19. Personalidades que exerceram funções de chefia e comando envolvidas na guerra do ultramar
- Da página 226 até à página 463 foram colocadas todas as fotos acompanhadas de um pequeno perfil de todos os antigos combatentes do concelho de Vale de Cambra.

O segundo da última fila é o autor desta brilhante obra (Alferes Mil Martinho Tavares de Almeida)

- Da página 464 em diante estão transcritos os louvores atribuídos a todos antigos combatentes naturais de Vale de Cambra.
- Uma lista de todos os falecidos.
- Lista de feridos graves acompanhada de alguns depoimentos.
- Notícias publicadas em alguns jornais da época.


Para terminar deixar um grande abraço com elevado reconhecimento ao Autor
Os meus mais sinceros parabéns Dr. Martinho Almeida.


Artur Conceição
SPM 2578


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2 . Notas do editor Carlos Vinhal:

[1] - Peço desculpa ao amigo Artur Conceição, mas por uma questão de justiça, venho afirmar que é incorrecto dizer-se que os Antigos Combatentes só têm direito a medicamentos para pobres. Em Portugal não há medicamentos para pobres e para ricos. Uma vez que há muita falta de informação e desinformação a mais, esclareço, a título pessoal, que o Estado comparticipa os Antigos Combatentes a 100% o preço de referência de todos e quaisquer medicamentos receitados e comparticipados pelo SNS, genéricos ou de marca.
Os utentes do SNS, em geral, não saberão, nem se aperceberão, de que há medicamentos cujo PVP (preço de venda ao público) é superior ao PR (preço de referência). O SNS, nestes medicamentos, só comparticipa o PR, ficando a diferença a cargo do utente. Nunca dei conta de ver no balcão da farmácia alguém perguntar porque está a pagar aquela importância e não menos.
Com os Antigos Combatentes passa-se o mesmo, às vezes pagamos uns cêntimos por causa da tal diferença, mas porque se intuiu que nos comparticipam (sempre) 100% do preço dos medicamentos, reclamamos por falta de conhecimento.
Um exemplo prático: o reumatologista receitou-me Lepicortinolo (um medicamento de marca, não genérico), cujo preço de venda ao público é 3,82€ e o preço de referência é 2,80€. Perante isso, paguei a diferença, 1,02€, sendo comparticipado a 100% do preço de referência.
Também não é justo dizer-se que os Medicamentos Genéricos têm uma eficácia inferior aos de marca. Está provado cientificamente que é mentira. Eu sou um dos que opta sempre pelos genéricos. O SNS não nada em dinheiro, cabendo a cada um de nós zelar pela sua sobrevivência.
Aconselho a leitura atenta do nosso Poste de 6 de Janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26354: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (109): Portaria n.º 372-C/2024/1, de 31 de Dezembro que estabelece as condições de acesso dos Antigos Combatentes a uma percentagem adicional de comparticipação sobre a parcela não comparticipada dos medicamentos pelo SNS

[2] - Aqui não sei se o nosso amigo Artur se se está a referir ao desastre da jangada durante a travessia do rio Corubal. Se sim, e se considerarmos vítimas os camaradas falecidos, foram 43.

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Nota do editor

Último post da série de 8 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28250: (In)citações (289): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol... (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)