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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28294: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XII : Que futuro para os jovens que, dizem, são o futuro ?!


Timor-Leste > "Estudantes protestaram em frente ao Parlamento Nacional de Timor-Leste, exigindo o fim da lei da pensão vitalícia e pedindo mais investimento nos setores produtivos para criar oportunidades e desenvolver o país.

"Com poucas oportunidades de emprego e salários que muitos consideram insuficientes para construir uma vida estável, milhares de jovens timorenses continuam a olhar para o estrangeiro como uma oportunidade para mudar de vida. Outros preferem ficar e apostar no empreendedorismo, na agricultura ou em pequenos negócios.

"Timor-Leste é um dos países mais jovens da região. De acordo com os Censos de 2022, cerca de 65% da população tem menos de 30 anos. Esta geração representa uma enorme reserva de energia e potencial para impulsionar o desenvolvimento do país."

Entre partir e ficar: o futuro da juventude timorense (com a devida vénia...)

 

1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).


São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e fez recentemente uma operação cirúrgica, delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Ele é um exemplo vivo de amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL), Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Estamos agora a publicar aos do ano de 2019.



III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XII: semana de 21  a 27 de abril



21.04.2019, domingo  - Feliz Páscoa!...


O sol brilha. “ Ele é belo, radiante e com todo o esplendor: de Ti Altíssimo é a
imagem.” (Cântico das Criaturas)

E, se ontem à noite a lua quis associar-se ao evento da da vigília pascal, hoje o sol não quis ficar para trás, espalhando a notícia: ALELUIA! O SENHOR RESSUSCITOU!... FELIZ PÁSCOA!...  

E vêm à memória uma catadulpa de canções e músicas relacionadas com a Páscoa (...).

O Domingo de Páscoa aqui em Timor, para além das cerimónias religiosas/ missas
dominicais em que muita gente participa, pouco ou nada se passa fora do normal.
Nada que se compare com a animação que se observa sobretudo no norte de Portugal, onde a visita pascal é a raínha. As procissões, as ruas com tapetes de flores, os folares, as amêndoas, os ovos de páscoa, etc fazem-nos alguma saudade e fazem crescer a água na boca. Paciência! Quem estiver mal que se mude (...).


Timor Leste > s/l > 2016 > O crvo vermelho e o acordeáo... O que seria o Rui sem eles, o carvo e o  acordeão ? O Rui, à esquerda, e o seu acordeão, levando às montanhas de Liquiçá a alegria, a esperança e a solidariedade das gentes da Malcata/Sabugal, e de outros lados de Portugal, de Coimbra à Lourinhã.  

O Rui com parte da  família Sobral, em Dili, no bairro Ailok Laran, em cuja casa ele fica quando vai a Timor-Leste.



Com a devida vénia à página do Facebook, Malcata.net, 21 de junho de 2016

 
22.04.2019, segunda feira  - Lições de acordeão


O acordeão é um instrumento pouco conhecido em terras do oriente, ainda que as suas origens mais remotas sejam na China. Era então um instrumento de sopro - o “Sheng” sendo o som produzido por palhetas numa das extremidades de cada tubo. 

Muitos anos mais tarde, fizeram diversas adaptações, sobretudo na Europa, sendo o ar produzido através de um fole que devidamente pressionado pelos braços faz vibrar as palhetas e tocar as notas da mão direita e da mão esquerda. Na Itália e na França situam-se as fábricas mais famosas da suas melhores marcas.

Aqui em Timor há quem toque (muito poucos instrumentistas) acordeão de teclado, mas acordeão de botões, acho que foi uma novidade quando eu apareci em 2016, tocando este estimado instrumento. Já explicarei a palavra “estimado.”

Por isso há sempre alguma surpresa quando se ouve o toque do acordeão, que é um
timbre muito activo, e por isso impossível de lhe ser indiferente. Há dias lancei um repto à minha afilhada Adobe, que tem muito jeito para a música, sobretudo para cantar: 

- Não queres aprender a tocar acordeão? Eu ensino-te... 

Foi o que ela quis ouvir. Disse logo que sim, e a partir daí começamos já as lições. Hoje já foi a segunda e, digo-vos, a rapariga depressa vai aprender.

Porque é que referi “estimado” instrumento? Este acordeão é da Carolina, a filha mais nova do meu primo (irmão) Carlos, que Deus chamou para si na flor da idade, logo após fazer os dezassete anos. Tenho a certeza que ela lá no céu exulta quando eu, com carinho, me lembro dela e faço tocar o seu acordeão. O Carlos diz-me sempre: 

- Deixa-o estar que ele está em boas mãos.

 Terei todo o gosto do o estimar como se fosse meu. Mas não!... Ele é da Crolina e disso faço questão que o saibam.

A Adobe é uma menina com quase doze anos, que dentro de mais alguns terá a idade com que tu nos deixaste. Eu já lhe falei de ti, e tenho a certeza que nunca te irá esquecer, pois está a ter lições neste teu acordeão. Espero sinceramente que ela seja uma boa acordeonista e que, sempre que ela toque, a sua música chegue aos céus para júbilo de todos os que aí estão. Beijos meus e da Adobe. Sempre no coração!...

25.04.2019, quinta feira  - 25 de Abril...SEMPRE!...

Há quarenta e cinco anos. Aconteceu aquilo que muitos esparávamos: a libertação dos jugos de uma ditadura. Houve festa, houve flores, houve música e canções, houve alegria “ o povo saíu p’ra rua com alegria que (não) costumava ter”, manifestada em abraços e sorrisos rasgados; houve marchas, houve comícios e grandes concentrações.

Quem teve a sorte de viver este dia nunca mais poderá esquecer o que realmente se passou. Por isso, concordem ou não comigo, gritarei sempre, de peito bem erguido: 25 DE ABRIL ... SEMPRE!...

E não adianta que “os velhos do Restelo” ou “os profetas da desgraça” ostracizem esta comemoração, argumentando que isto está cada vez pior, clamando até pelo antigo regime, perguntando: “Foi para isto que foi feito o 25 de Abril?!” 

Claro que não!... A culpa dos males atuais não é do 25 d Abril. A culpa é de quem se serviu ou serve do poder, seja ele político ou económico, para escravizar os outros, para dominar e apropriar-se do que, por direito ou justiça não lhe não lhe pertence, para explorar e servir-se de esquemas de compadrio e corrupção. E, quem não se sente não é filho de boa gente. Mas até esta liberdade de nos podermos queixar é ao 25 de Abril que a devemos. (...)

E, sem ligar muito ao que irão dizer uns e outros, pois neste momento estou muito
distante do local das operações, dir-vos-ei apenas que, à minha maneira, irei viver este dia com intensidade, pois nada nem ninguém poderá prender esta minha liberdade interior. 25 de Abril sempre!... VIVA O 25 DE ABRIL!....

25.04.2019 - Jovens timorenses... Que futuro?...

Já o afirmei noutros relatos: “a força de Timor Leste está nos seus jovens”.
É um chavão bem comum,  “os jovens são o futuro “. Mas não é por isso que eu estou escrevendo.

Esta manhã, ao ir dar um recado a casa do Anô, deparei-me com um grupo de jovens de 17 aos 30 anos (+ ou -) que, aparentemente,  nada faziam a não ser passar o tempo em amena cavaqueira. É frequente passarem por aqui durante o dia muitos jovens, individualmente ou em pequenos grupos,

A explosão demográfica aconteceu, consequência do incremento à natalidade que
fizeram, depois da chacina feita pelas tropas indonésias e milícias timorenses (de
700.000 ficaram mais ou menos 500.00 habitantes).

 Famílias muito numerosas são a base atual desta sociedade timorense que, de um momento para o outro, se vê a rebentar pelas costuras, como soe dizer-se. Os diversos governos que têm exercido o poder, embora tenham já feito muita coisa, parecem impotentes de responder a todas as necessidades, particularmente às necessidades básicas de água, luz, saneamento. Há ainda muito a fazer neste domínio.

As escolas estão repletas de crianças que as frequentam. As universidades e institutos de ensino superior, idem. É uma alegria saber e verificar que a maioria das crianças vai à escola (exceção feita às crianças que vivem no interior, nas montanhas que, por dificuldades de deslocação, pais e crianças optam por ficar em casa). 

Nos dia de hoje, oitenta por cento da população timorense é alfabeta, resultado de um grande investimento na educação.

Chega?...É claro que não. Para além da quantidade, falta a qualidade. Mas é notório o esforço que todos vêm fazendo.

Então, qual é o problema? O problema é que estes jovens, muitos deles com cursos
superiores e universitários, não têm emprego. E trabalhar só para aquecer, sem o justo salário do seu trabalho, não dá. 

Muitos procuram trabalho no exterior, emigrando para a Coreia do Sul, para a Austrália, para a Inglaterra. Mas até neste sector já houve mais facilidades. Os processos de pedido de nacionalidade portuguesa, para depois poderem rumar para Inglaterra,  estão cada vez mais emperrados devido ao elevado número de pedidos e aos entraves da documentação incompleta ou falsificada.

A capacidade de resposta a esta juventude desempregada é insuficiente perante tantas solicitações. Eu não sei o que será de toda esta juventude que espera desesparada por uma resposta favorável. Até quando irão aguentar?

É compreensível que se houver um lider, venha ele de onde vier, que lhes prometa e responda aos seus anseios, possa rebentar esta bolha de ar comprimido que se está formando-

Mas o pior será se, para atingirem os fins em vista, esta matéria incandescente vira para a violência e outras coisas indesejadas. As memórias recentes das guerras e guerrilhas travadas pela independência, no último quarteirão do século passado, ainda estão muito presentes. Seria um castigo demasiado pesado para toda esta gente que, de alma e coração, é timorense. Oxalá que nunca mais!

Jovens, que futuro?... Incerto. Deus vos guie por bons caminhos!...

26.04.2019, sexta feira  - Lágrimas de alegria...

Quem espera sempre alcança. A Dílsia Rosa Oliveira, a Rosinha como carinhosamente lhe chamamos, foi das primeiras jovens a inscrever-se no programa de apadrinhamento que, há três anos, acabava de ser criado, integrado no Projeto de Solidariedade em Timor Leste. 

Quase todos os dias ela aparece por aqui, pois mora bem perto do local onde moramos, em Ailok Laran. Confesso que me dava pena sempre que chegava a notícia de algum apadrinhamento, ver a Rosinha ansiosa por saber se seria a sua vez.

Ontem, a meio da tarde, recebi um telefonema da educadora Mariana Gomes, que
trabalha na Escola Cafe de Taibessi, perguntando se era possível um encontro nesta tarde. De pronto respondi: 

- Claro que sim! Às horas que quiser...

Não demorou muito tempo, e já a Mariana e o seu “motor” davam entrada no pátio da família Sobral. Falamos de crianças, de música, da profissão, da vida neste país que agora nos acolhe. Por fim, a Mariana abordou o programa de apadrinhamento, pois já anteriormente tinha manifestado a vontade de apadrinhar uma criança /Jovem. 

Sendo sempre a decisão da responsabilidade de quem apadrinha, e depois de ser pedida a minha opinião uma vez que conheço todas as propostas, sugeri que fosse apadrinhada a Rosinha. Mais a mais a Rosinha pode vir aqui de imediato para que o conhecimento mútuo se estabeleça. A Mariana aceitou a minha sugestão e, em minutos, mandou-se chamar a afilhada que, surpreendida, perguntou várias vezes, sem querer acreditar:

- Ai?!... Vai ser minha madrinha?!... 

E, nervosa, levava as mãos ao seu rosto, chorando de alegria. A madrinha Mariana por sua vez repetia:

- Sim! Quero ser tua madrinha. 

E selaram este pacto com beijos e abraços bem apertados e lágrimas à mistura. Que cena de ternura que até faz inveja a quem faz de testemunha!...

A seguir será o preenchimento da ficha de apadrinhamento a incluir no processo.
Obrigado, Mariana,  em nome da Astil, por fazeres parte do nosso projeto de
solidariedade. Parabéns, Rosinha , pela madrinha que Deus te deu. Tens muita sorte de ter a Mariana como madrinha. Tenho a certeza que será uma relação muito eficaz.

27.04.2019, sábado  - As mães ... e os filhos

Vou falar-vos de mães e filhos galinhas e de mães e filhos teques (osgas) (náo confundir com as toqués). Ambas as mães na sua tarefa de ensinarem os seus filhotes a procurarem os alimentos que os sustentam e fazem crescer.

Ontem, uma galinha com os seus pintaínhos faziam aqui em frente uma demonstração de “ensinar para aprender” ou, por outras palavras, “aprender fazendo”. A mãe galinha esgravatava no chão e indicava o fruto do seu trabalho: um grão de arroz, um verme, um bicharoco, etc. Os pintaínhos, ainda mal saídos da casca, picavam também e aproveitavam as descobertas da mãe. Coisas da natureza...

Hoje, ainda mal se via, e estando à espera da luz do dia, vejo na parede do quarto uma mãe teque e a sua cria. A mãe estava ensinando a caçar mosquitos, uma verdadeira arte dos teques. Todas as noites presenciamos esta caça ao tesouro. Mas ver dar uma lição destas, de mãe ou de pai para o seu filho ou filha,  é um privilégio.

E eu, que tantos mosquitos tenho matado com a dita “raquete assassina”, começo a
pensar que a natureza tem sempre surprezas para nos dar. Quem sabe se os mosquitos, estes seres tão odiados e perseguidos, não são mesmo necessários neste mundo em que vivemos. Pelo menos para alimentar esta ditas criaturas,  os teques que até dizem por cá darem sorte aos da casa. Que assim seja!...


(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Guiné 61/74 - P28293: A Nossa Poemateca (12): Ruy Belo (1933-1978) no "país sem olhos e sem boca", onde "não acontece nada", que "é o que o mar não quer", e que tem "a forma do sável que vem nas enxurradas"... Como construir o "Portugal futuro" ?


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Fez agora 48 anos que morreu Ruy Belo (Rio Maior, 1933- Monte de Abraão, Queluz, Sintra, 1978).
 
Morreu cedo, aos 45 anos. De edema pulmonar. Em  9 de agosto de 1978. Desconfio que a Pátria, ingrata, distraída ou descuidada, o deixou morrer (para não dizer que que o matou, precocemente, por negligência). Como tem deixado morrer ou matado, precocemente, alguns dos melhores de nós... 

Ele, um dos "vencidos do catoliscismo",  não foi soldado de armas na mão, mas lutou por (e sonhou com)  "O Portugal futuro"... 

Este é justamente um dos poemas  de que eu mais gosto, ao ponto de o ter reproduzido na dedicatória (à Alice, à Joana e ao João),  constante da minha tese de doutoramente em saúde pública/saúde ocupacional, "Política(s) de saúde no trabalho: um inquérito sociológico às empresas portugueses" (Universidade NOVA de Lisboa, 2004).

Tal como gosto, particularmente, dos três outros poemas, que aqui também reproduzo na nossa poemateca (*):  "Portugal sacro-profano - Lugar onde",  "Portugal sacro-profano - Vila do Conde" e "Morte ao Meio-Dia". 

Na "explicação preliminar" à 2ª edição do seu livro de 1970, "Homem de Palavra(s)", ele escreveu, três meses antes de morrer,  que em "O Portugal futuro"  nos surge "um país descolonizado", que tinha a forma de um "sável", um peixe que vinha nas enxurradas, em Rio Maior, "quando os barcos navegavam entre as cepas" (Ruy Belo, "Todos os poemas", 2000, pág. 187)...

Já nos  nos outros dois poemas ele retoma o tema da dicotomia pátria / país (onde nada acontece), que lhe era particularmente caro. "Desenhar" um país novo implicaria, de algum modo, renunciar ao passado: afinal, "o meu país é o que o mar não quer", diz ele no célebre e genial verso do poema "Morte ao Meio-Dia":

(...) No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça (...)

(...) A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


E o que o mar não quer,  são os "náufragos", os destroços da história trágico-marítima, do Império, do Estado Novo, os pescadores, os marinheir0s, os cavadores de enxada, as mulheres que pariam com dor os futuros s soldados, mas também os mortos das guerras de descolonização,  os desterrados, os retornados, e todos os demais perdedores...
 
Quando leio e releio este poema icónico, não posso deixar de pensar nos soldados 
que, como eu, se sentiram "náufragos" de uma guerra sem sentido... (Eu, pelo menos, nunca consegui encontrar o fio à meada no labirinto desta guerra.)

Por outro lado,  chama a Portugal "país sem olhos e sem boca", uma "pátria" que da palavra só tem a "superfície"...

E Vila do Conde, "o lugar onde o coração se esconde"  ? Bom, foi lá que o poeta, ribatejano,  se casou com uma minhota, Maria Teresa Carriço Marques, professora de liceu, mãe dos seus 3 filhos, um deles um notável fotógrafo, Duarte Belo.

Não sendo um poeta "fácil", Ruy Belo merece ser lembrado e sobretudo melhor conhecido, por nós, antigos combatentes... Um poema como  "Portugal sacro-profano: lugar onde",  ajuda-nos a questionar o que foi (e é)   "Portugal", milenar, um lugar de memória, de ausência, de conflitos (internos e externos)...

Por outro lado, o título ("Portugal sacro-profano") sugere uma tensão dicotómica entre o sagrado (o ideal, o espiritual, o transcendente, a missão, o dever) e o profano (o real, o quotidiano, o imanente, a violência, a dúvida). 

Eu leio-o como  uma metáfora poderosa para a experiência da guerra da Guiné: o ideal de servir a pátria 'versus' a realidade brutal de um conflito absurdo, e  sem fim à vista.

Ruy Belo era um homem de/da palavra. Também um artesão. Um perfeccionista. E um incansável poeta.  Teríamos hoje uma obra gigantesca, se ele fosse vivo.  (Mesmo assim, a sua obra completa, em edição crítica da Assírio & Alvim, é um grosso volume de quase 7 centenas de páginas.)

São quatro poemas, os da minha antologia pessoal,  que têm uma estrutura, um ritmo, uma cadência, uma oralidade,  que os torna fáceis de ler em voz alta, em qualquer  uma das nossas tertúlias... ou encontros de antigos combatentes. (Gostaríamos de os levar comigo, na minha derradeira viagem, quando me despedir um dia destes da Terra da Alegria: é, de resto, o título do seu penúltimo livro de poesia, publicado em 1977, "Despeço-me da Terra da Alegria".)

Não são poemas panfletários, "à Guerra Junqueiro", não têm uma leitura imediatista, são intemporais, o que é um  ponto a favor do nosso  público-alvo de quem se diz que "não gosta nem  sabe nada de poesia"... O que até nem é verdade: fomos também na Guiné homens de/da palavra, veja-se o nosso "cancioneiro da guerra", com os seus lamentos e protestos, a  sua irreverência, o seu humor de caserna, o apelo à liberdade, à justiça, à paz, enfim, com letras que glosavam a  saudade, a esperança do regresso, sem esquecer a paródia que fazíamos a letras de fados, baladas, canções, bem como a grandes obras e poetas, como os "Lusíadas", de Luís Vaz de Camões...  LG
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PORTUGAL SACRO-PROFANO ‑ LUGAR ONDE

Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria de palavra apenas tem a superfície)
os comboios são mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui põem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa de varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com a saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após as sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca

(pp. 196/197)

PORTUGAL SACRO-PROFANO – VILA DO CONDE

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

(pp. 197/198)

O PORTUGAL FUTURO

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

(pp. 199/200)


MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência  cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga  calado cada prestação
Para banhos de sol nem se precisa
E cai-nos  sobre os ombros quer a armaquer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

(pp. 363/364)


Ruy Belo (1933.1978) - Todos os Poemas. Liaboa: Assírio e Alvin, 2000 (com  devida vénia...) 






(1978), “Diário de Lisboa”, n.º 19727, ano 58, quarta, 9 de agosto de 1978, Fundação Mário Soares e Maria Barroso / Ruella Ramos, Disponível em: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_3667 (consultado em 2026-08-23)


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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 27 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27262: A Nossa Poemateca (11): "Aforismos", de Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

Postes anteriores da série:

12 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27007: A Nossa Poemateca (10): Ovídio Martins (Mindelo, 1928 - Lisboa, 1999), um grande poeta cabo-verdiano bilingue

28 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26536: A Nossa Poemateca (9): Cesário Verde (1855-1886): Excertos de "Nós", seguidos de "O sentimento de um ocidental"

10 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26482: A Nossa Poemateca (8): José Gomes Ferreira (Porto, 1900 - Lisboa, 1985), por Mário Gaspar

21 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26410: A Nossa Poemateca (7): Adília Lopes (1960-2024): "Os amores / que não tive / (e foram muitos) /moeram-me / o juizo"...

4 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26347: A Nossa Poemateca (6): Adeus, de Eugénio de Andrade ("Os Amantes Sem Dinheiro", 1950) (escolha de Mário Vitorino Gaspar, ex-fur mil art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé,1967/69)

2 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26335: A Nossa Poemateca (5): Romance de Tomasinho Cara-Feia, de Daniel Filipe (Ilha da Boavista, 1925-Lisboa, 1964 ) (escolha de Alberto Branquinho, ex-alf mil, CART 1689,1967/69)

31 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26331: A Nossa Poemateca (4): Força de Crecheu, de Eugénio Tavares (1861 - 1930) (escolha de Luís Graça)

30 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26328: A Nossa Poemateca (3): Adeus, irmão branco!, de Geraldo Bessa Victor (Luanda, 1917 - Lisboa, 1985) (escolha de Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 / BCAÇ 3880, Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74)

29 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26323: A Nossa Poemateca (2): "Lágrima de preta" (1961), de António Gedeão / Rómulo de Carvalho (1906-1997) (escolha de Beja Santos, nosso crítico literário)

27 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26318: A Nossa Poemateca (1): "Ladainha dos Póstumos Natais" (1971), de David Mourão Ferreira (1927-1996) (escolha de Valdemar Queiroz, minhoto de criação, alfacinha por adoção)

Guiné 61/74 - P28292: Convívios (1071): Almoço-Convívio do pessoal da 2.ª CART do BART 6521/72, a realizar-se no próximo dia 26 de Setembro, em Fátima (José Morgado, ex-Soldado CAR)


1. Mensagem do nosso camarada José Morgado, ex-Soldado Condutor Auto da 2.ª CART/BART 6521/72, com data de 23 de Agosto de 2026, dando notícia do próximo convívio da sua Unidade:

Boa tarde,
Serve a presente mensagem para anunciar que, este ano, o nosso convívio anual se realizará em Fátima, e agradeço em meu nome e em nome dos meus Camaradas a divulgação no Blog Luís Graça.
Darei posteriormente notícias do nosso referido encontro.

Atenciosamente,
José Morgado


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A 2.ª Companhia — “Os Có Boys”, do BART 6521 — voltará a reunir-se no dia 26 de setembro, no Hotel Steyler, em Fátima, para mais um dos seus encontros anuais.

Será um dia de reencontro, convívio e partilha, no qual celebraremos uma amizade nascida há 54 anos e que permanece viva até aos dias de hoje, não apenas entre os Camaradas, mas também entre as nossas famílias.

É um dos dias mais aguardados do ano… um dia que desejaríamos que fosse mais longo!... Quando chega a hora da despedida, fica sempre a sensação de que o tempo foi pouco para tantas recordações, tantas histórias e tantos momentos que ainda gostaríamos de partilhar.

Em momento próprio, recordaremos com respeito, emoção e profunda saudade os Camaradas que já partiram. Evocaremos os seus nomes e honraremos a sua memória, pois continuam presentes nos nossos corações e fazem parte da história dos Có Boys.

Infelizmente, já são muitos os que nos deixaram, quer pelo avançar da idade, quer pelas consequências de uma vivência militar profundamente desgastante. Todos enfrentámos dificuldades físicas, psicológicas e emocionais, agravadas pelas duras condições de vida e pela falta de uma alimentação digna.

Apesar de tudo, permanecemos unidos pela camaradagem, pela memória e por uma amizade que o tempo nunca conseguiu apagar.

Passados 54 anos, a amizade continua!

José Morgado

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Nota do editor

Último post da série de 28 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28140: Convívios (1070): Rescaldo do XXVII Encontro dos Tigres de Cumbijã, levado a efeito no passado dia 23 de Maio de 2026 em Portalegre (Joaquim Costa, ex-Fur Mil API)

Guiné 61/74 - P28291: Retalhos da vida militar (8): Prémios de especialidade (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Agosto de 2026:


Prémios de especialidade

Os condutores dos veículos militares com destino à guerra em África recebiam formação adequada nos chamados CICA e CIACA.

A quarta incorporação de 1963 no CICA 4 em Coimbra não foi destinada a condutores, mas antes a outras especialidades, com uma complementar de condução.

Terminada a recruta no final do ano de 1963, uma parte dos incorporados foi enviada para Caçadores 5 em Lisboa, para tirar a especialidade de Transmissões de Infantaria, um outro grupo foi enviado para o Entroncamento, para tirar a especialidade de Ponteneiros. Condutor Auto e finalmente um grupo mais reduzido, enviado para o Trem Auto para tirar a especialidade de Auxiliar de Serviços Religiosos. Era este último grupo que eu deveria ter escolhido, tendo em conta que era só preciso dizer que sabia ajudar à missa, como era o meu caso. Optei por Transmissões, mas acredito que debaixo da Sotaina do Capelão sempre era menos arriscado. Nem o Capelão nem o seu auxiliar tinham viatura atribuída. Então qual era a razão desta segunda especialidade de condutor auto que até dava a garantia de um posto 1.º Cabo? Quem puder que explique.

Quando o Capelão ia na sua missão para Jumbembem, o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC tratavam dessa missão. Ao grupo que foi para a especialidade de Transmissões de Infantaria Condutor Auto, veio juntar-se um grupo de reprovados da Especialidade de Radiotelegrafistas, realizado em Tancos.

Esta Companhia de Instrução tinha como Comandante o Capitão Carlos Fabião que mais tarde viria a ser Governador da Guiné.

A meio da especialidade falou-se da escolha para frequentar a Escola de Cabos. No final da especialidade os reprovados de Tancos ficaram todos 1.º Cabo de Transmissões de Infantaria e os restantes, Soldados de Transmissões de Infantaria Condutor Auto (STICA).

Concluída a especialidade foram distribuídos por várias unidades, tendo cabido ao Regimento de Infantaria 11 de Setúbal quatro elementos a saber: O Artur 2712/63, o Morato 2714/63, o Adolfo 2716/63 e o Manuel 2720/63.


Por ocasião do São Martinho do ano de 1964, o Morato resolve fazer um disparate e é punido com 10 dias de prisão disciplinar. A pena acabou por ser alterada para 20 dias de prisão disciplinar agravada que tinha como pena acessória uma mobilização imediata. A CART 730 tinha partido para a Guiné com algumas faltas na secção de transmissões. Quem vai para a Guiné fazer companhia ao Morato? Seria o Adolfo. O Morato tinha um Tio Coronel que não conseguiu evitar a mobilização, mas conseguiu arranjar maneira de o sobrinho não ir para zona de conflito. Assim o Morato foi passar dois anos férias a São Tomé e Príncipe. O Adolfo arranjou maneira de ser amparo de mãe e o Manuel ofereceu-se para ir para a Guiné no lugar dele. E agora quem vai para a Guiné fazer companhia ao Manuel. Esta é a história de como se ia parar na Guiné por culpa de terceiros.

Em 1964, a 2.ª incorporação do CICA 2 na Figueira da Foz enviou para o Porto um grupo para dar origem aos primeiros e últimos Radiotelegrafistas Condutor Auto.

Dessa recente especialidade a CART 730 também tinha dois, embora um deles, o Manuel Carvalho só lá tenha estado dois meses.

A secção de transmissões da CART 730 era composta por:
- Um Furriel natural da Ilha da Madeira, que aparecia uma vez por semana, que era o CMDT da secção.

- Um 1.º cabo operador cripto
- Um 1.º cabo de transmissões de infantaria
- Dois 1.ºs cabos radiotelegrafistas
- Um 1.º cabo radiotelegrafista condutor auto
- Dois soldados de transmissões de infantaria condutor auto (STICA)

O prémio de especialidade era algo que não fazia parte das conversas do dia-a-dia. Era recebido por três 1ºs cabos com a especialidade de radiotelegrafistas. O facto de não ser falado nem criar qualquer tipo de mal-estar entre o grupo, não lhe tira o caracter de injustiça adjacente. O grupo era unido e muito colaborante. Se os apelidos ajudam... um dos elementos do grupo era LEAL Matias e outro era LEAL Chagas.

O prémio era recebido pelos radiotelegrafistas, mas uma coisa pode e deve ficar clara. Nunca foi emitida nem recebida qualquer mensagem em grafia durante todo o tempo em que a CART 730 esteve sediada em Jumbembem.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas. Foto e Legenda: © Artur Conceição

Aprendi e treinei a transmissão em grafia durante os últimos seis meses de comissão enquanto estive na PIDE. Os radiotelegrafistas da PIDE permitiam, mas era preciso que o recetor não desse o recado, que consistia: “Essa tarefa é feita com as mãos não é com os pés”. Era fundamental uma boa concentração e acima de tudo um ouvido apurado.

A conceção deste prémio não era famosa e como tal estava envolta em algumas injustiças sendo algumas mais flagrantes do que outras.

Os condutores auto rodas como eram designados não tinham direito a tal prémio. O 1.º cabo auxiliar de enfermagem tinha direito e muito bem. Neste caso concreto o que não estava bem era, o soldado maqueiro não ter igualmente direito. Para quem participou em situações de feridos, sabe muito bem qual era a missão de cada uma destas especialidades.

Durante os 24 meses de comissão nunca recebi mais do que os 400 pesos que me estavam destinados.

Canjambari era um local onde estava sediado um pelotão independente. As condições eram degradantes e muito penosas para os militares ali sediados.

Decidiram as altas patentes do sector de Farim e arredores que passaria a haver uma alternância com um pelotão da CART 730, permitindo assim ao Pelotão de Canjambari vir mês sim mês não a Jumbembem recuperar energias. Esta nova situação implicava algumas adaptações nalgumas áreas nomeadamente na Secção de Transmissões.

À partida havia dois elementos que estavam isentos de ir para Canjambari, sendo um deles o “Fininho” 1.º cabo operador cripto a quem o estatuto relacionado com a especialidade não permitia exercer a sua actividade em estrutura abaixo de Companhia. O segundo caso era o Artur que por via das muitas tarefas extras exercidas não lhe era permitido sair de Jumbembem. Canjambari recebia e emitia mensagens via rádio que tinham de ser codificadas e descodificadas. No final da comissão todos os elementos da secção eram capazes de executar essa tarefa.

Para terminar permitam-me uma pequena história para tema dos nossos camaradas que adoram a Banda Desenhada. Recordo a todos que a Cidade da Amadora é a Capital Portuguesa da Banda Desenhada.

Para além dos guarda costas, havia também alguns soldados com missões específicas conhecidas de todos.
Uma dessas missões era fazer-se acompanhar de um isqueiro, uma caixa fósforos ou algo que pudesse lançar fogo de uma maneira rápida.
Terminada uma operação a um objectivo, o Garcia diz para o “incendiário” fogo nisso. Isso eram meia dúzia de moranças abandonadas pelos nativos.
Obedecendo à ordem recebida, o nosso camarada puxa da G3 e dispara uma rajada contra a inofensiva morança.

O Garcia que tinha alguma dificuldade em aceitar este tipo de maus entendimentos enfia-lhe um merecido par de estalos que quase iam dando fagulhas.

Existe assim para primeira mão uma outra história relacionada com um nosso camarada, que no final de um assalto a uma Casa de Mato, se fazia acompanhar de um burro transportando uma máquina de costura quase em estado novo.

Mais uma vez o Garcia deve ter tido um descontrolo emocional. Prega dois tiros no pobre do burro que não tinha nenhuma culpa do que se estava passar. Que pena não haver alguém por perto para enfiar dois bufardos no Garcia.

Deixo o mote para o nosso camarada Furriel João Parreira que conhece muito bem esta história, para que nos possa brindar com mais alguns pormenores que ele tão bem conhece.

Um Abraço
Artur Conceição
STICA 2712/63

SPM 2578
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Nota do editor

Último post da série de 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

Guiné 61/74 - P28290: Agenda cultural (900): É já no sábado, dia 29, na Feira do Livro do Porto 2026, que o nosso António Carvalho apresenta, ÀS 16h00, o seu notável romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", 228 pp. de ação e emoção que se leem de um fôlego














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026) | António Carvalho (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. O nosso amigo e camarada António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá",  vai fazer a apresentação do seu romance "3 x 44:  Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. ) na Feira do Livro do Porto 2026, evento cultural que começou em 21 de agosto e termina em 6 de setembro de 2026.

É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands,  entre editoras, livreiros e alfarrabistas.

O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar. 

Tenho pena de não poder estar presente, apesar do amável convite do autor.  Mas desejo as melhoras venturas para este seu 2º livro, que é mais do que uma promessa, é a confirmação do seu talento literário e do seu fôlego como contador de histórias e criador de personagens.

Local, data e hora:

Jardins do Palácio de Cristal | Lago dos Cavalinhos | sãbado, 29 de agosto de 2026 | 16h00

Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes. 

Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica). 

 Do livro tomo a liberdade de reproduzir, para abrir o apetite do leitor, a "Introdução" (pp. 7/9)

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Introdução

Propus-me, ao longo destas páginas, contar as passadas dos caminhos, ora chãos ora ínvios, por que passaram as personagens desta saga. Às reais apenas dei retoques, às verosímeis moldei-as segundo a fluência da minha imaginação. Todavia deixei que fossem elas as autoras dos seus projetos e trajetos, os quais me limitei a descrever, ao meu modo, sem conhecer ab initio os seus momentos de bonança ou turbulência, de felicidade ou desdita, nem antever até onde elas me levariam, nos seus percursos calculados ou traçados pelas circunstâncias.

O trágico perecimento da personagem principal, roubado à vida ainda vigoroso, evento de que ouvi falar em surdina, de modo impreciso, enquanto criança, e trouxe sepulto, no cerne da mente, até aos dias de hoje, foi a mola impulsionadora da decisão de escrever este romance, porque por nenhuma outra razão me atreveria a empresa tão arriscada.

Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial. Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego, passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

-Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro.

Abel é verdadeiramente a personagem central desta minha criação, um menino de Emendadas, levado ao interior de S. Paulo e aí deixado, numa fazenda de café, ao cuidado de um tio. Os que haviam de lhe seguir o rasto, mais tarde, esperavam que desse gente e lhes abrisse caminho na lonjura de uma fazenda paulista, apesar dos seus dez anos por fazer.

Cruzar-se-ia com namoradas, por lá, quando lhe viesse a idade apropriada, mas não se agarraria, firmemente, como lapa se prende a rochedo, a nenhuma, por assim ter decidido ou por assim ter calhado, ou até por se ter deixado guiar por cabeça alheia.

Tinham-lhe ficado quinze anos, no Brasil, quando, já meio depenado, regressou, para não mais voltar, julgando que voltaria. Quem ficou lá para sempre, na região onde nascera, senhora do seu destino, foi a sua namorada da verdura da adolescência, a prelúcida Chiquinha, fiel a um projeto de vida grandioso. Por isso ela é a segunda personagem mais importante que aqui retrato, a rapariguinha espevitada dessa fazenda, que não podia ficar de fora deste romance que desenvolvo à roda de dois seres que se cruzaram e descruzaram, ainda imaturos, sem nunca mais se recruzarem, em vida.

O leitor, no percurso das páginas deste livro, perceberá melhor as razões porque jamais obliteraria a determinada e audaz Chiquinha, da passagem atribulada de Abel por este mundo. Nem tampouco, no contexto da caminhada infortunada deste português abrasileirado, a relegaria para um papel secundário. Porque, na verdade, se as vidas de ambos se descruzaram, a sombra dela sempre pairou, imperecível, no âmago de Abel. Certo que imersa por muitos anos na profundeza do seu ser, ela reemergiria como tábua salvífica, à tona dos seus pensamentos, sobretudo nos momentos mais tormentosos da sua vida.

No grande fluxo migratório para o Brasil, registado entre meados do século dezanove e o início da Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas de Emendadas se abalançaram, primeiro em barcos à vela, assustando-se sob perigosas procelas; depois em grandes e seguros vapores, até aos portos do Norte e do Nordeste, do Rio de Janeiro, de Santos, de Paranaguá e de Porto Alegre. Alguns iam muito novos, pela mão de tutores, fossem eles familiares ou amigos confiáveis; outros afoitavam-se já maduros, sozinhos, à procura de novo rumo, deixando tudo para trás.

Abel é o nome fictício do rapazinho nascido em Emendadas, quase a findar o século dezanove, que percorreu um caminho, de cá para lá e de lá para cá. Podia ter ficado por aquelas bandas, mas deixou-se tomar de amuos injustificados, voltando ao lugar de onde tinha provindo, sítio seguro e previsível, como julgava. Mas o pior perigo é o que não é previsível, especialmente quando advém de um plano forjado pelo nosso semelhante, congeminado até no reconditório mental de quem menos esperamos, nesse território secreto onde pode ser concebido tanto o mais nobre gesto como o ato mais abjeto.

António Carvalho

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28277: Agenda cultural (899): Feira do Livro do Porto 2026: apresentação do romance do António Carvalho, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp.), sábado, dia 29 de agosto, às 16h00, nos Jardins do Palácio de Cristal, Lago dos Cavalinhos

Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)













Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Dizia o meu pai, filho e neto de gente do mar (pescadores, negociantes de peixe de...) que no dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, o diabo andava à solta... 

Dizia o meu pai, dizia o povo. 

Na minha terra, Lourinhã, Oeste, costa atlântica, era dia de lançar os meninos ao mar, agarrados nus ou pelos fundilhos dos calções. Nos idos anos 40/50... 

Resquícios de um tradição antiga ? ... Talvez.  Como ainda hoje se faz, em São Bartolomeu do Mar, em Esposende, que  mantém o ritual  coletivo do Banho Santo de São Bartolomeu... (Dizem, é único no país e no mundo.)

Também passei por esse ritual de iniciação... Traumático.

 O meu tio Silvano Constâncio, casado com a minha tia materna Ema Barbosa, com casa térrea e logradouro no Nadrupe (terra dos meus avós maternos, e a onde a minha mãe, que vivia na Lourinhã,  me foi parir...), levava-nos na sua carroça à Praia da Areia Branca, eu, a minha irmã Graciete,  mais os nossos primos e as nossas mães, em dias de festa... Com destaque para o São João, 24 de junho, feriado municipal na Lourinhã. Mas também no 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, se calhasse a um domingo. O meu pai ia lá ter, de bicicleta.

Deve ter sido no domingo de 24 de agosto de 1952. Só se ia à praia, no verão, nos dias feriados e domingos. Duas a três vezes por ano, no máximo, mesmo com o mar ali a 3 km...  Eu tinha 5 anos. Tive o meu batismo de mar. Recordo-me ainda hoje, passados 74 anos (!), de o meu tio Silvano, que era o meu "herói" (e que morreu tão cedo aos 40 e tal anos, para meu/nosso grande desgosto!),  me ter pegado pelos fundilhos dos calções e eu, a berrar e a espernear, ter sido  lançado, sem dó nem piedade, às "ondas gigantes" do Oceano Atlântico!...

Ainda hoje não confio muito no mar e só tomo banho com pé... Mas gosto agora de recordar essas memórias da minha ida à praia (e do meu "batismo atlântico" )... São memórias precoces da minha infância, que já deixei em verso algures:

(..) Ah, os camponeses e os seus burros com as albardas e as canastas,
que ainda não estavam em extinção,
nem uns nem outros,
iam aos magotes até à praia da Areia Branca,
no feriado do são João,
entre brincadeiras e dichotes,
levavam a trouxa e a merenda, os tremoços e as pevides,
as peras, os peros, os alperces, as ameixas e os abrunhos,
os melões e as melancias,
o pão de trigo do moleiro cozido em forno a lenha,
a broa de milho com sardinha,
as azeitonas mal curadas,
bebiam vinho pelo palhinhas, o garrafão de palha,
comiam o arroz de cabidela, de galo ou de coelho,
misturado com a areia e o vento e as lágrimas de sal,
em cima de mantas grossas, feitas de trapos, berrantes, multicolores.

(...) Sangravam de saúde os camponeses da tua aldeia,
“muita saúde, pouca vida, que Deus não dava tudo”,
no tempo em que “beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses”.

Nunca lhes perguntaste se eram felizes,
nem essa era pergunta de se lhes fazer!...
Por uma questão de vergonha, de pudor.
Mas achavas que sim, que eram felizes,
com o pouco que tinham,
já que a bem pouco podiam aspirar naquele tempo (...)


Passei a ter medo do mar e prometi a mim mesmo ( vã promessa de menino!) nunca vir a ser marinheiro, que “na água de mares, não procures cabelos para te agarrares”.

Misóginos os provérbios da minha terra que, quando o mar estava manso, lhe chamava “mar de mulher” (sic), para logo a seguir acrescentarem que “da mulher e do mar, não há que fiar”. Ou então: “do mar se tira o sal e da mulher muito mal”.



São Bartolomeu, Penafiel
2. Todos os anos, no dia 24 de agosto, realiza-se a romaria de São Bartolomeu do Mar, padroeiro da freguesia com o mesmo nome, pertencente ao concelho de Esposende, Minho, durante a qual as crianças são levadas a mergulhar, pelo menos três vezes, mas sempre em número ímpar, na água fria do mar. 

E para quê ? Para que fiquem livres ("esconjuradas") dos males da gaguez, do medo e da epilepsia, doenças atribuídas ao diabo. Mas para esta prática ter efeito terapêutico ou preventivo, as crianças têm que ir ao banho de mar  antes de completar os sete anos de idade, como manda a tradição.

Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo, o qual  durante o resto do ano traz preso, representado num medonho  cão negro  atado com uma grossa corrente de ferro. E só volta à noite. 

É esse o motivo para levar as crianças ao mar, durante o dia 24 de agosto, para que aproveitem as águas excepcionalmente  puras e terapêuticas. O "banho santo" é um dos pontos altos da romaria de São Bartolomeu, uma das mais importantes do Minho. 

Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma "galinha preta" (aqui diz-se "pito"), dando três voltas em redor da capela,  antes de nela entrarem e procederem à oferenda sacrificial. Colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. (E, já agora, porquê, uma "galinha preta" ? Há / havia a crença popular de que uma galinha preta em casa livra / livrava o dono ou a dono de ser atacado pelo diabo...)



Foto: Alfredo Cunha  (2025) (com a devida vénia...)

Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar (e aonde o diabo regressará ao anoitecer).  

Com a ajuda de um sargaceiro, cada crianca   é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar (três, cinco, sete ou nove).

De tarde, faz-se o agradecimento ao santo, através de uma imponente procissão. Apesar de o percurso ser curto, menos de dois quilómetros da igreja à praia e regresso, pode demorar  duas a três horas.

Nela se incorporam centenas de figurantes, que reconstituem episódios bíblicos, e andores de grande porte. Durante a romaria, a praia local enche-se de gente, incluindo muitos forasteiros,  apesar do frio e da temperatura gelada da água.

O São Bartolomeu é, no céu e na terra, o "advogado do medo". 

Além de Sao Bartolomeu do Mar (Esposende), é  um santo venerado em muitas terras, de Norte a Sul do País, a começar por São Bartolomeu dos Galegos (Lourinhã),  Penafiel, Ponte da Barca, Sabugal, Cavez (Cabeceiras de Basto), etc.

Camaradas do Portugal ribeirinho, esta tradição do "banho santo", das nossas terras e das nossas gentes, merece esta bela e bem humorada BD como só o  ilustrador do ChatGPT sabe fazer, embora seja muito conservador, púdico e teimoso como um raio...(Imaginem, obrigou-me a ir ao mar de calções!... Com 5 anos, em 1952!...Nada de mostrar a pilinha!).

Tive um diálogo áspero com a menina IA do ChatGPT que não aceitou a foto do Alfredo da Cunha (foto acima, capa do livro "Mar de Fé:  S. Bartolomeu do Mar: 1996 -2024", da autoria de Alfredo da Cunha, fotografia, e Rui A. Faria Viana, texto. Lisboa: Guerra e Paz, 2026, 154 pp.)

Eis o nosso diálogo de surdos (de resto, frequente, entre nós):

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG - Tens cada uma !... A criança mal se vê, vai entrar na água, sem roupa... P*rra, isto não é pornografia infantil, é etnografia, é o meu Portugal sacroprofano! Mete isto na p*ta da tua cabeça inteligente!...

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG - F*da-se! Esquece a m*rda da fotografia (fabulosa!) do Alfredo Cunha!....E faz-me a BD!... Estás-me a decionar, camarada!

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

... E tive que retirar mesmo a foto "pornográfica" do Alfredo Cunha, o nosso maior fotógrafo vivo!... E submeter um novo prompt!

PS - Foram vinte e um (21) os mortos do concelho de Esposende, na guerra do ultramar / guerra colonial. Dez eram das freguesinhas ribeirinhas: Belinho (3), São Bartolomeu do Mar (2) (hoje freguesia do Mar), Marinhas (1), Fão (1) e Apúlia (3). Na década de 1960/70, Esposende tinha c. 24 mil habitantes, hoje tem 35 mil. 

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Nota do editor LG: