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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28032: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VI: semana de 10 a 17 de março: a polícia e a pedagogia da chapada

 

Timor Leste > s/l > 2016 > O que seria o Rui sem o seu acordeão ? O Rui, à esquerda, e o seu acordeão, levando às montanhas de Liquiçá a alegria, a esperança e a solidariedade das gentes da Malcata/Sabugal,  e de outros lados de Portugal, de Coimbra à Lourinhã. A foto não traz legenda, mas é do Rui com a família Sobral, em Dili, no bairro Ailok Laran, em cuja casa ele fica quando vai a Timor-Leste.



Rui Chamusco, antigo professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste


1.  Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.


Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). 

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).  

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo natal, se a saúde o permitir. Natural da Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã  ( e, por estes dias, no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, a recuperar de uma delicada intervenção cirúrgica).


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 10 a  a 17 de março

por Rui Chamusco


11.03.2019, segunda feira  - Assim se começa o dia

Hoje quase que ganhava aos galos cá do sítio. Levantei-me muito cedo, pelas cinco horas da manhã, porque não queria falhar à consulta médica que o Dr. Sérgio Lobo me marcou, para estar na sua casa, em Bemori, antes das sete. 

A continuação de dores neste físico que me suporta levou-me de novo a este médico, que até já foi em vários governos ministro da saúde. Na sua simplicidade trata os doentes com uma dedicação ímpar. 

Depois de devidamente observado prescreveu-me mais uma boa dose de remédios, receita que vou cumprir à risca. Não quero que me acusem de que sou um mau doente. De resto entrego-me aos cuidados de Deus, o melhor médico do
mundo. Estou certo de que tudo isto vai passar. É apenas uma prova nesta nossa terrena existência. Por isso, cara alegre,  “toca adelante!” Havemos de ter força e vencer esta pequenas dificuldades. Há por aqui muito que fazer, e não podemos dar-
nos ao luxo de andar ou de ficar doentes.


12.03.2019, terça feira - O bom filho à sua casa torna

Sem que estivéssemos à espera, o Amali, que há três meses e meio está em Portugal, decidiu voltar para Timor. Facto consumado, pois mostrou à tia Glória o bilhete que o irmão Zinon lhe mandou de Inglaterra. Embora tivesse de abdicar de alguns projetos de vida, o rapaz achou que seria melhor voltar à casa paterna.

A mãe, o pai, as irmãs Eza e Adobe até ficaram contentes, pois todos dizem que já tinham muitas saudades. Até eu fiquei contente, pois pensei logo aproveitar a boleia para o acordeão que ficou na Lourinhã, e que tanta falta aqui nos faz.

Hoje é o dia da partida: Lisboa / Munique / Bangkok / Bali / Timor.

Havemos de chegar eu bem sei... Entretanto, vão se contando por ordem decrescente os dias, as horas, os minutos e os segundos. No dia 15 a ansiedade aumenta, até que, pelas três horas da tarde, aparece o carro do vizinho Zé do Ti Beto, que estaciona no largo da casa e dá a mostrar os seus ocupantes e bagagem. 

Com abraços e beijos à istura, logo que pode o Amali começou a mostrar o conteúdo da bagagem. Claro que os meus olhos correram de imediato para a maleta onde vinha o acordeão. Os da casa comentaram logo: 

“ O tiu Rui está muito contente porque já tem o acordeão.”

Logo à noite já há ensaio das canções de reportório. E então vamos ouvir tocar e cantar: as notas (música no coração), abre a janela, ó rama da oliveira, o hino da alegria, a minha terra é linda, rosa enxertada, ó minha rosinha, Ti Anica, ao passar a
ribeirinha, etc, etc... Um serão, sem televisão, mas diferente...

13.03.2019 - Pedagogia timorense

Pois então!...

Hoje o Bartolomeu, que é o nosso chefe da aldeia, saiu-se com esta: “Aqui a polícia resolve à chapada.” Mas, resolve o quê?

A meio da manhã, ouvi falar e fui ver. Eram dois jovens que se predispunham para viajar de mota até à capital. Como aqui “os motores” são aos milhões, numa confusão de trânsito caótico onde ninguém cumpre as regras da boa condução e todos procuram desenrascar-se, os viajantes de motor têm obrigação de levar o capacete na cabeça.

Mas como um dos moços montou para a mota sem o devido aparelho, eu próprio chamei a atenção para o facto.

Foi então que o Bartolomeu explicou: “quando a polícia apanha alguém sem capacete não paga multa. Manda descer da mota e espeta um par de bofetadas no transgressor. Ou então vai passar a noite na esquadra”. 

Ora aqui está uma pedagogia à timorense.

Concordemos ou não com este processo a roçar a violência, parece que os resultados são animadores, porque nenhum jovem quer passar por essa vergonha.

A par do negócio dos capacetes, convenhamos que há por aqui muita cabecinha pensadora...

14.03.2019, quarta feira  - Carta aos amigos e sócios da Astil


Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Projeto de Solidariedade em Timor Leste
ASTIL ( Associação de Amigos Solidários com Timor Leste)

Estimados Sócios e Amigos

É sempre com prazer que me dirijo a vós dando notícias das nossas atividades, dos êxitos e dos fracassos, dos nossos anseios e esperanças na construção de um mundo melhor para estas crianças e estas gentes. 

Tudo o que temos conseguido em prole deste objetivo tem sido graças à vossa ajuda e colaboração. Ressalto a construção e inauguração da Escola São Francisco em Boebau / Manati, a criação do Programa de Apadrinhamento de crianças/jovens necessitadas (já estão apadrinhadas mais de 50), a reconstrução da casa de família do Sr. Vitor (com as obras em curso).

No próximo dia 19 de março é o 1º aniversário da inauguração da escola que construímos, com valências para o pré-escolar e para o 1º ciclo. Neste momento a escola funciona precariamente, com dois grupos de crianças do pré-escolar, assistidas por duas senhoras que, devidamente preparadas com estágios no jardim “Mundo Mágico”, em Dili, vão garantindo as atividades com as crianças e o funcionamento da escola.

Das 75 crianças matriculadas, apenas nos deixaram ficar as crianças do pré escolar, o que causou um grande desgosto e decepção às famílias aí residentes. As escolas próximas do ensino oficial não reagiram muito bem à criação da nossa escola, temendo que lhes faltassem alunos para as suas turmas. E então tudo fizeram para que os alunos da primária se matriculassem nas suas escolas. Mas tudo se vai resolver, ainda que não à velocidade que nós pretendemos.

Este e outros problemas têm-nos ocupado grande parte do nosso tempo. Trata-se de estabilizarmos o funcionamento da nossa escola, partindo do princípio de que somos a escola número 36 do distrito de Liquiçá, registada no ministério da educação de Timor Leste. 

Temos estatutos próprios aprovados que a definem como “Escola de Ensino Particular Privado”, com referência do ensino da música, do tetum e do português. Vamos tudo fazer para que os estatutos sejam cumpridos.

Permiti que vos fale da principal dificuldade: arranjar professores que queiram lecionar na nossa escola. Compreendemos plenamente as razões da recusa: os acessos (caminho, estradas) são muito difíceis, as condições de habitabilidade são poucas ou nenhumas, a luz prometida nunca mais chega, não há água corrente, etc, etc... 

Para os professores timorenses a gente desenrasca-se. Mas para os professores portugueses é muito difícil de motivar. É urgente criarmos no local uma infra estrutura - Uma Casa Residencial para professores e voluntários, com o mínimo de condições de habitabilidade que permita aí residir a quem aceite a difícil missão de aí ensinar.

Já pedimos informações sobre o orçamento para a construção. E foi-nos dito que mais ou menos 25.000 dólares.

Assim sendo, decidimos avançar a obra. Estamos esperançados que, no começo do novo ano escolar de 2020, já poderemos contar com a casa pronta.

Porque é um projeto solidário, fazemos um apelo a todos os amigos e sócios a espalharem esta notícia e nos ajudarem a angariar fundos económicos para concretizar a construção desta casa residencial. Convidem os vossos amigos (pessoas, empresas, instituições) a associarem-se a esta campanha solidária.

Estamos certos que com a vossa ajuda e colaboração iremos conseguir este grande objetivo. Deus, que é bom pagador, vos recompensará com as suas bençãos.

Com consideração por todos vós, e agradecendo desde já, em nome pessoal e da

ASTIL, um grande abraço

Rui Chamusco



17.03.2019, sábado  - Fora de horas...


O que a natureza nos ensina!... Nós que pensamos que já sabemos tudo, de repente vem um galináceo, dar-nos uma lição de inconformismo, de rebeldia...ou então, visto por outro lado, de cumprimento da missão para que foi destinado.

Ainda não era meia noite, quando o meu vizinho senhor galo se fez ouvir alto e em bom som. Enchendo bem o peito de ar, bate três ou quatro vezes as asas, e cheio de pujança grita: Có có ró có có!... E faz isto umas quantas vezes, sem que algum outro parceiro lhe responda. 

Por isso me questiono: será um galo com alguma missão especial?

 Lembro-me do galo que cantou três vezes quando Pedro negou que não conhecia Jesus; lembro-me do galo que anunciava o nascimento Menino Jesus ( meia noite dada / meia noite em pino / o galo cantando / nasceu o menino). 

Mas este galo timorense, por que canta fora de horas?... É um desalinhado, talvez por rebeldia ou até por contestação. Ora desde sempre ouvimos dizer que o cantar dos galos é o relógio ou o despertador natural, que indica mais ou menos a hora de levantar. E então, quando começa a desgarrada, é um “ver se te avias!”

Cá para mim, a eletricidade e o seu sistema de luz artificial, já trocaram as voltas a estas humildes criaturas. Dia e noite já não são o que era. Já não é quando Deus quer mas sempre que os homens queiram, acendendo ou apagando os interruptores. 

A confusão reinante deve-se à maldade humana e não a estes seres que amavelmente nos despertam, mesmo que fora de horas. Por isso irmão galo canta quando te apetecer, porque mais que não seja, o teu cantar será sempre um hino ao criador...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 14 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28020: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte V: semana de 3 a 9 de março“: "Castelo de cinco quinas / Só há um em Portugal, / Que fica à beira do Coa, / Na cidade de Sabugal"

Guiné 61/74 - P28031: Parabéns a você (2487): Joaquim Fernandes Alves, ex-Fur Mil Art da CART 1659 (Gadamael, 1967/68)

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Nota do editor

Último post da série de 17 de Maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28027: Parabéns a você (2486): António Figueiredo Pinto, ex-Alf Mil Inf do BCAÇ 506 (Bafatá, Nova Lamego e Bambadinca, 1963/65)

domingo, 17 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28030: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (1): A "bidera" (vendedora ambulante) de Bissau (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)




Guiné-Bissau > Bissau > c. março / abril de 2026 > A "bidera" Ramatulai


Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Publicou o João Melo, no passado domingo, dia 10 de maio de 2026, na sua página do Facebook, esta "retrato da Guiné-Bissau", com a seguinte legenda: 

As "bideras" são vendedoras de rua,  fundamentais na economia informal da Guiné-Bissau, comercializando frutas, legumes e produtos essenciais, dependendo dessa venda de rua para o sustento familiar.

Há tensões frequentes entre as vendedoras e a Camara Municipal de Bissau, devido à sua ocupação de passeios e vias públicas,  especialmente na zona de Alvalade, tentando com isso centralizar o comércio no Mercado de Bandim (a alma de Bissau) ou no Mercado Municipal no centro da cidade.

Esta simpática vendedora, de seu nome Ramatulai, está quase sempre no mesmo local a vender essencialmente bananas e mandioca, onde muitas vezes se compra não só por necessidade, mas também com um sentido de cooperação para complemento de renda familiar.

Obrigado, Ramatulai,  por permitires a divulgação da tua foto.

João Melo (ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74); vai todos os anos à Guiné-Bissau, já mais para o fim da época seca (março / abril), em viagem de saudade e solidariedade.


2. Comentário do editor LG:

É uma retrato (des)humano que se multiplica pela África fora, que encontrámos na Guiné do nosso tempo, que voltei a encontrar em março de 2008, quando lá voltei, que eu encontrei em Luanda quando lá fui por várias vezes em trabalho (a partir de 2003), enfim, que os turistas ainda encontram no Mindelo, na Praia, no Sal (embora em menor escala)...

Esta jovem mulher guineense, Ramatulai de seu nome (será de que etnia ? papel, manjaca ? ou de alguma etnia islamizada ?), sorri com aquela dignidade de quem todos os dias transforma o passeio da cidade de Bissau, no seu "posto de trabalho volante" (e volátil)... A sua banca é "pobre", em variedade de produtos: dois paus de mandioca, uma dúzia de bananas (será que já tinha feito alguns CFA nesse dia ?) ...e um balde de plástico, que parece vazio (mas, não, é onde guarda a garrafa de água)...

Que história de vida será a sua ?  A da luta quotidiana pela sobrevivência, uma história feita de lições  de coragem, persistência, simpatia, humildade, paciência, sorriso franco mas também manha e  pé ligeiro para fugir ao fiscal camarário e à polícia (e, calhar, a outros "predadores sociais").

As “bideras” não são apenas as  simples vendedoras ambulantes de que os turistas gostam de bater uma "chapa" para ilustrar, no regresso a casa, o "exotismo da pobreza" em África: são também uma das colunas invisíveis da chamada economia informal, como bem diz o João Melo. Alimentam bairros, criam redes de solidariedade, dão alma às ruas de Bissau. 

7 em cada 10 mulheres da Guiné-Bissau vivem na pobreza,  pelo que têm de recorrer, para sobreviver,  às atividades informais e ao frágeis sistemas comunitários de apoio (incluindo ONGS, nacionais e estrangeiras).

No sorriso aberto desta Ramatulai que se deixou fotografar pelo nosso João Melo, deixa transparecer também uma lição que aqueles de nós, que ainda conseguem, hoje na Europa, viver com dignidade e liberdade: a pobreza é um círculo vicioso exasperante, mas nem sempre, como neste caso,  consegue derrotar a alegria, a dignidade e a humanidade de quem vive com o  muito pouco que tem.
 
(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

Guiné 61/74 - P28029: Humor de caserna (266): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIV: as alucinações da IA

 


Gen Spínola, governador e comandante-chefe no CTIG (1968/73), s/d. Foto editada e reproduzida com a devida vénia do livro de Luís Nuno Rodrigues, "Spínola: Biografia" (Lisboa, A Esfera dos Livras, 2010, 748 pp.). Pertence ao Arquivo António Spínola, desconhece-se o autor. Poderá ter sido o fotógrafo oficial do general, no TO da Guiné,  Álvaro de Barros Geraldo ?


I. Há 2 meses atrás (em 12 de março) pedi a uma ferramento de IA que me selecionasse "algumas das melhores anedotas do general Spínola na Spinolândia (1968/73, quando foi Comandante-Chefe e Governador da então Guiné Portuguesa, hoje Guiné-Bissau)"... 

Listou-me dez... Bom,  pareceu-me logo que a maioria das "10 melhores anedotas"  listadas estavam longe de ser as "melhores". E, pior ainda,  vi logo que eram, pura e simplesmente,  "alucinações" da IA:

  • de facto, não há fotos do Spínola a fumar (e ele, aos 60, parecia ainda ter uma saúde de ferro):
  • não há testemunhos do "Caco Baldé" a caçar, e muito menos  hipopótamos (animais furtivos, que só saem de água para pastar, à noite; para mais, não faziam parte da dieta dos "tugas");
  • também não constava que o nosso general andasse a cavalo, para mais  branco, em Bissau, etc.. (é outra "anedota hilariante",  produto de uma outra ferramenta de IA, que está em concorrência com esta a que me refiro acima);
  • por outro lado, sexa,  o governador, devia saber dizer meia dúzia de palavras de crioulo tal como eu ou qualquer outro militar que convivesse com a população local, mas daí a dizer-se que "falava fluentemente o crioulo" vai uma distância;
  • não se usava no nosso tempo a expressão "chefes tribais" (mas sim 'régulos" e "dignitários religiosos");
  • sim, como aluno do Colégio Militar e depois oficial de cavalaria, produto da "Escola de Guerra", ele deveria saber dançar, como qualquer "oficial e cavalheiro" dos anos 30,  mas não dançaria em Bissau, já com os seus 60 anos, e muito menos com as bajudas; não a estou a vê -lo a dançar a coladera cabo-verdiana, ou a participar num batuque fula;
  • os jovens oficiais do QP que chegavam à Guiné, não vinham da "Escola de Guerra", mas sim da "Academia Militar" (designação em vigor desde 1959);
  • também não vejo o governador a "brincar" com a bandeira da República Portuguesa,  (ele não brincava com os símbolos nacionais);
  • nem estou a vê -lo  a usar, propriamente,   o "humor negro": era capaz de perder as estribeiras, isso sim e arrancar os galões a um oficial ou dar um par de bofetadas a um soldado;
  • enfim, na Guiné, nunca houve um 'rei", quando muito no passado o imperador do Mali, e depois o rei ( ou "mansa") do Gabu; havia reizinhos, régulos...

Ontem confrontei esta ferramenta de IA (que não vou citar...) com estas "incongruências"  e "alucinações", e obriguei-a a citar as fontes... O resultado sairá em próximo poste...  

Só  as anedota no. 8 e  no. 10 me parecem "verosímeis" ou próximas do "espírito" do "anedotário da Spinolândia" (*). Se não se baseiam em factos reais ( o que é hoje impossível de comprovar), podiam pelo menos  ter acontecido e sido presenciadas por alguém.

 Em boa verdade, esta listagem “cheira” a geração automática de IA, denunciada por frases demasiado redondas, diálogos certinhos se mais,  com lições de moral implícita à laia de conclusão, ausência de contexto documental e, por fim,  estilo que remete para o guião cinematográfico. 

Enfim, parece-me um produto típico da IA, que usa  modelos de linguagem que “preenchem lacunas" de informação e conhecimento com recurso á chamada plausibilidade narrativa.

De qualquer modo, verosímeis ou não,  merecem figurar nesta série "Humor de Caserna", sobretudo como ilustração  das "calinadas"  ( para não usar outro termo mais feio) da IA e da necessidade de a utilizarmos com moderação, com humor e  com espírito crítico, cruzando inclusive as respostas de outras  ferramentas de IA (e outras fontes digitais  ou não).  Em suma, fazer aquilo que qualquer investigador ( seja jornalista, polícia, estudante ou cientista) faz ou deve fazer: a chamada "triangulação" de fontes  e "saturação" na pesquisa de dados e  informação para produzir conhecimento.

De qualquer modo, há sempre aqui um "handicap": nenhum de nós (tirando algum oficial superior do QG, como o hoje, e felizmente ainda vivo,  cor inf Mário Arada Pinheiro) conheceu Spínola na "proximidade" ( já não digo "intimidade") do dia-a-dia.

II.  Resposta da IA, com data de 12/3/2026: 

Luís, aqui ficam algumas anedotas e episódios marcantes associados a Spínola e à Spinolândia do teu tempo:

1. "O Governador que falava crioulo"

Spínola era um dos poucos oficiais portugueses que falava fluentemente o crioulo guineense, o que lhe granjeou enorme respeito e proximidade com as populações locais. 

Diz-se que, em reuniões com chefes tribais, usava expressões e provérbios em crioulo para desarmar tensões e criar cumplicidade. 

Uma das suas frases famosas, em tom de brincadeira, era:

"Nka boka di brancu, boka di pretu!"

(Tradução livre: "Não é conversa de branco, é conversa de preto!"), usando a expressão para mostrar que estava do lado das populações e não apenas da hierarquia militar portuguesa.

2. "O leão e o hipopótamo"

Spínola era conhecido por caçar hipopótamos, uma atividade que, além de ser um desporto, servia para alimentar as tropas e as populações locais. Conta-se que, numa ocasião, depois de abater um hipopótamo, terá dito aos soldados:

"Isto não é caça, é serviço público!"

A anedota espalhou-se como exemplo do seu pragmatismo e da sua capacidade de transformar necessidades (como a falta de proteína) em oportunidades de aproximação às comunidades.

3. "A bandeira da Spinolândia"

Spínola tinha um sentido de humor irreverente e, por vezes, usava-o para criticar a burocracia de Lisboa. 

Diz-se que, em tom de brincadeira, chegou a sugerir que a Guiné deveria ter a sua própria bandeira — uma bandeira branca com um hipopótamo negro — para simbolizar a autonomia e a identidade local. 

A ideia, claro, nunca foi levada a sério, mas refletia o seu desejo de uma abordagem mais adaptada à realidade guineense, longe das ordens rígidas de Lisboa.

4. "O general que dançava"

Spínola era conhecido por participar em festas e cerimónias locais, onde dançava ao som dos ritmos africanos. Em certa altura, terá dito a um oficial que o criticava por "perder a dignidade":

"Se não dançar com eles, como quer que eles dancem connosco?"

Esta atitude contrastava com a postura rígida e distante de muitos outros oficiais, e ajudou a criar laços de confiança com as populações.

5. "O conselho aos jovens oficiais"

Spínola tinha um estilo direto e por vezes provocador. Conta-se que, numa reunião com jovens oficiais recém-chegados à Guiné, lhes terá dito:

"Esqueçam o que aprenderam na escola de guerra. Aqui, o manual de campanha é a sabedoria dos velhos da tabanca."

Esta frase refletia a sua crença de que a vitória na Guiné não passava apenas pela força militar, mas pela compreensão da cultura e das dinâmicas locais.

6. "O general e o tabaco"

Spínola era um fumador inveterado e, em reuniões longas, costumava oferecer tabaco aos chefes locais. Diz-se que, numa ocasião, um chefe tribal lhe ofereceu um charuto artesanal, ao que Spínola respondeu:

"Isto é que é tabaco de homem, não aquelas palhinhas de Lisboa!"

O episódio tornou-se simbólico da sua capacidade de se integrar e valorizar os costumes locais.

7. "A resposta a Lisboa"

Spínola era conhecido por desafiar as ordens de Lisboa quando considerava que não faziam sentido no terreno. Em certa altura, terá recebido um telegrama do governo a criticar a sua gestão. A sua resposta foi lacónica:

"Aqui, a 4.000 km de Lisboa, as ordens têm de ser temperadas com bom senso."

Esta frase resume bem a sua postura: pragmática, adaptativa e, por vezes, rebelde face à hierarquia.

8. "O general e as crianças"

Spínola tinha um carinho especial pelas crianças guineenses. Conta-se que, em visitas a tabancas, levava sempre rebuçados e brinquedos, e que, numa ocasião, uma criança lhe perguntou:

"Ó branco, tu és o rei da Guiné?"

Ao que Spínola respondeu, sorrindo:

"Não, sou só um soldado que gosta de vocês."

9. "O humor de caserna"

Entre os militares, Spínola era conhecido por frases de humor negro, típicas do ambiente de guerra. Diz-se que, numa altura em que as tropas estavam desmoralizadas, terá dito:

"Aqui, ou nos adaptamos ou nos tornamos alvo fácil. E eu não gosto de ser alvo fácil!"

O tom era de desafio, mas também de camaradagem, e ajudava a manter o moral das tropas.

10. "A despedida"

Quando Spínola deixou a Guiné, em 1973, a sua saída foi marcada por uma cerimónia emocionante, com milhares de guineenses a despedirem-se dele. Diz-se que, ao embarcar no avião, terá dito a um oficial:

"Deixo aqui o meu coração. O resto é política."

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série >  12 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28013: Humor de caserna (265): A ronda do sono e as sentinelas... desarmadas (Fernando de Jesus Anciães / Joaquim Pinto de Carvalho, CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852, Buba, 1971/73)

Guiné 61/74 - P28028: Convívios (1067): Rescaldo do XXVII Encontro/Convívio da CCAÇ 4150/73, levado a efeito no passado dia 10 de Maio, na Mealhada (Albano Costa, ex-1.º Cabo At Inf)


1. Mensagem do nosso camarada Albano Costa, ex-1.º Cabo At Inf da CCAÇ 4150/73 (Bigene e Guidaje, 1973/74), com data de 16 de Maio de 2026:

Bom dia bom amigo Carlos Vinhal
No domingo passado (10-5-2026) aconteceu mais um convívio da CCaç 4150 na Mealhada, o XXVII no restaurante Maurício.
Uma boa parte dos colegas e suas famílias fizeram a deslocação em autocarro de Matosinhos até ao local do convívio, os restantes vieram de todos os pontos do país, de Norte a Sul.

Aos poucos foram chegando com a vontade de encontrar os colegas pelo menos uma vez por ano e dar aquele abraço que só quem passou pelo «teatro de guerra» é que sente.
Perguntamos o que nos leva a andarmos quilómetros e quilómetros para estarmos umas horas uns com os outros. A resposta é sempre, para reviver aquele período da nossa juventude e que já vai há 52 anos.

Um abraço de amizade,
Albano Costa


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Notas do editor:

Vd. post de 19 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27931: Convívios (1061): XXVII Encontro-Convívio da CCAÇ 4150/73, dia 10 de Maio de 2026, na Mealhada (Albano Costa, ex-1.º Cabo At Inf)

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28018: Convívios (1066): Estão abertas as inscrições para o 112.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 29 de maio de 2026, no Restaurante Atrium Buffet, Quinta do Paul, Ortigosa

Guiné 61/74 - P28027: Parabéns a você (2486): António Figueiredo Pinto, ex-Alf Mil Inf do BCAÇ 506 (Bafatá, Nova Lamego e Bambadinca, 1963/65)

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Nota do editor

Último post da série de 16 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28023: Parabéns a você (2485): Vasco da Gama, ex-Cap Mil Cav, CMDT da CCAV 8351/72 (Aldeia Formosa e Cumbijã, 1972/74)

sábado, 16 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28026: As nossas geografias emocionais (66): Uma árvore na capital de São Tomé e Príncipe que guarda memórias coloniais (António Bastos, ex-1.º Cabo)



1. Mensagem do nosso camarada António Paulo Bastos (ex-1.º Cabo do Pel Caç Ind 953, Teixeira Pinto e Farim, 1964/66), com data de 4 de Março de 2022, onde nos fala da "Ambulância" que fazia a carreira Bissau-Cacheu-Bissau:

Boa tarde Companheiros da Tabanca
Sou o Bastos do Pelotão Caçadores 953.
Companheiros, vim de uma viagem a Luanda, São Tomé e ao Príncipe e como me despertou a atenção o que veem na foto, esta árvore muito conhecida de todos nós, está toda escrita com o nome de Soldados e os números: Sol Silva 30/70, Pereira 220/70, Valter 120/70 e mais alguns que não consegui decifrar, é já difícil ver-se.

Ora isto despertou-me a atenção e dirigi-me a uma tasca ali perto onde falei com um pescador, então ele disse-me que no Tempo Colonial a tropa Portuguesa vinha de carro e passava as tardes na praia.
A Praia é perto de São Tomé, não recordo o nome.
Como me despertou a atenção, lembrei-me de divulgar, pode ser que alguns soldados que estiveram em São Tomé vejam a notícia na nossa Tabanca.

Um abraço a todos e muita saúde.
Muito Obrigado.

António Paulo S. Bastos
Ex-1.º Cabo 371/64 do Pel Caç Ind 953



(clicar nas fotos para ampliar)
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Nota do editor

Último post da série de 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27948: As nossas geografias emocionais (65): O Jorge Ferreira, no CIM de Bolama, em junho/julho de 1961

Guiné 61/74 - P28025: Os nossos seres, saberes e lazeres (735): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (256): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A língua albanesa é indo européia mas desconhece-se a sua origem, pensa-se que houve povos nativos que foram influenciados pelos Ilírios; foi um ponto de encruzilhada na península balcânica, por aqui andaram gregos, romanos, temos mostras evidentes do período helenistico e da arte bizantina, muita gente aqui bateu à porta, até a República de Veneza, não contando com os mais de quatro séculos da presença de turcos otomanos. Daí a riqueza patrimonial, natural e edificada, ainda com muitos sinais de uma ditadura que começou em 1944 e se estendeu até 1992, um ditador bem singular, fechou hermeticamente o país, decidiu em 1967 que o país seria ateu, tornou-se marxista-leninista-estalinista, cortou relações com a URSS, odiava mortalmente o Marechal Tito, recebeu calorosamente a China e despediu-a quando esta ingressou no seu modelo de comunismo com a economia de mercado. São todas as particularidades que geram um fascínio entre o lugar e a História.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (256):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 1


Mário Beja Santos

Há muito que sonhava visitar a Albânia, tinha apreciado o passeio que dera na Sérvia, Montenegro, Croácia, e daqui o Trieste e Veneza; comecei por arquitetar uma digressão que incluísse a Macedónia do Norte, o Kosovo, a Bósnia e depois a Albânia, cedo reconsiderei o tremendo disparate, andar a saltitar com passagens praticamente epidérmicas de lugares que merecem o devido desfrute. Centrei-me então na Albânia, escolhi a região da capital do sul, um plano de doze dias; nada de excursões organizadas, para mim têm mais contras que prós. Não há voos diretos, depois de várias tentativas na linha do low cost, conseguiu-se um voo de Lisboa até Bérgamo, daqui um comboio até Milão e por fim um voo para Tirana. Muitas surpresas nas buscas digitais de apartamentos, preços módicos para dormir, então marcaram-se dois dias em Tirana e depois viagens em pequenos furgões até Pogradec, só para ver o lago Ohrid, nova viagem até Korçë, local maravilhoso, novo furgão até Përmet, depois Gjirokastër e depois Saranda/Butrint. No antepenúltimo dia um estirão de cinco horas de Saranda até Tirana, havia ainda muita coisa para ver na capital, tinha curiosidade em tomar um autocarro até Porcelane e visitar um dos projetos mais megalómanos de Enver Hoxa, o abrigo antinuclear, estamos a falar de um país onde o então regime ditatorial espalhou pelo território cerca de 175 mil bunkers.

Guardo as mais belas recordações desta viagem, o país tem belezas inacreditáveis, quase cerca de 70% do seu território é montanhoso, quando se viaja no furgão contemplam-se montanhas algumas delas com neves eternas, sempre panoramas diversificados; Tirana lembra a aventura arquitetónica de Berlim (claro, ressalvadas as grandes distâncias) a cidade lembra um estaleiro de arquitetura arrojada, certamente discutível, não entendi como foi possível construir edifícios altíssimos na Praça Skanderbeg, possuía uma harmonia própria, tinha a ver com os anos eufóricos da independência, logo nos inícios do século XIX; ali perto desta Praça estão os quarteirões ministeriais, todos embandeiram o país e a União Europeia, a Albânia faz parte dos pretendentes balcânicos.

Devo dar ao leitor uma explicação sobre este conjunto de imagens. No regresso de Tirana, no aeroporto de Barajas, tive a fatalidade de deixar o meu telemóvel no segundo check-in, vinha de um país fora da União Europeia, tive que sair e entrar novamente, estava exausto dos quilómetros percorridos a pé dentro daquela estrutura medonha, felizmente que a segurança entregou o telemóvel no serviço de objetos extraviados, conto voltar a ter telemóvel em breve, nele estão muitas imagens que captei ao longo da viagem.

Mas tive a dita de enviar algumas dessas imagens para dentro do meu computador, são essas as que agora mostro e espero ter oportunidade de detalhar os dez dias úteis do passeio. O que aqui mostro é um pormenor da belíssima parte alta da cidade de Bérgamo, tirei imagens da Piazza Vechia, da Basílica de Santa Maria Maior e da Catedral. Entrei numa igreja onde está sepultado Bartolomeu Colleoni, uma das figuras mais importantes de Bérgamo, mas não me deixaram tirar qualquer imagem. Daqui segui para Tirana, mostro a Praça Skanderbeg, onde está a estátua do herói nacionalista, visitei a Grande Mesquita, opulenta e recentíssima, como mais tarde mostrarei a catedral ortodoxa albanesa denominada de Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Enfim, há duas imagens do bunker antinuclear e há algumas outras que fui tirando ao longo do percurso. O que aqui se mostra é um mero aperitivo de um país que é hoje apresentado como a nova pérola do mediterrâneo, não só graças aos seus panoramas naturais como também a turística Riviera que tem o seu polo no mar Jónico entre Saranda e Ksamil. Espero que desfrutem.


Bérgamo, um pormenor da Piazza Vechia
Bérgamo, fachada da Capela Colleoni, aqui está sepultado o condottiero veneziano Bartolomeu Colleoni
Pormenor da Praça Skanderbeg, Tirana
Pormenor da Grande Mesquita de Tirana
Entrada do bunker antinuclear, obra do regime de Enver Hoxa, Tirana
Pormenor do quarto destinado ao ditador no bunker antinuclear, Tirana
Pogradec, pormenor do lago Ohrid, ao fundo uma montanha da Macedónia do Norte, uma das fronteiras da Albânia
Dois pormenores da belíssima igreja ortodoxa denominada de Sexta-Feira Santa, em Përmet
Skënduli House em Gjirokastër, Património da Humanidade, uma esplendorosa casa Otomana
Zekate House em Gjirokastër, Património da Humanidade, pormenor do quarto dos hóspedes
Pormenor da Grande Basílica ou residências episcopais do século V, Butrint, Património da Humanidade
Pormenor da fachada do Santuário de Esculápio, o Deus da Medicina, século IV a.C., estilo helenístico, Butrint, Património da Humanidade
Pavimento bizantino, Museu Arqueológico de Saranda, sul da Albânia, século VI d.C.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28004: Os nossos seres, saberes e lazeres (734): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (255): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28024: (De) Caras (250): o jovem capitão mil cav Vasco da Gama que nos guiou desde Estremoz até ao Cumbijã (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8531/72, 1972/74)



Guiné > Região de Tombali > CCAV 8351/72 > O cap mil cav Vasco da Gama, no meio dos "djubis" do Cumbijã

Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


João Melo
(2009)
1. Mensagem publicado pelo Jorge Melo, na página do Facebook da Tabanca Grande, com data de 11 de maio de 2026, 11:44:


O nosso comandante, capitão Vasco da Gama, em um momento de pausa e cercado de três dezenas de jovens. Momento que, por mais curto que fosse, era mais que merecido!

Depois de aglutinar uma centena de meia de jovens que mais tarde vieram a formar a grande família dos “Tigres de Cumbijã” com que ficou conhecida a nossa CCav 8351/72 e 
desse conjunto ter conseguido entre Estremoz e Portalegre 
construir uma equipa que, até hoje, está unida!


Vaco da Gama
(2008)
Respeitada como foi (e ainda é) por todos aqueles que de perto lidaram e/ou tiveram conhecimento dos seus feitos em teatro operacional, desde a sua chegada a solo guineense em 27out72, a Aldeia Formosa (atual Quebo) em 19nov72, Cumbijã de 01abr73 a 26jun74 e com regresso a Portugal às 00:10 h do dia 27ago74, todo ele foi um percurso que honrou todos aqueles que dela fizeram parte.

Regressámos felizes por voltar, não obstante àquela única angústia, pelos camaradas que foram e não regressaram connosco. Essa, é uma marca que nos afetou para toda a vida!...

E se não houvessem outros motivos, estes bastariam para dizer hoje e sempre: obrigado, capitão, por nos ter 
sabido guiar num dos piores períodos das nossas vidas!!!

(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27999: (De) Caras (249): Duas referências na história da capelania militar no CTIG: Bártolo Pereira (QG/CTIG, Bissau, 1965/67) e Arsénio Puim (CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/71)

Guiné 61/74 - P28023: Parabéns a você (2485): Vasco da Gama, ex-Cap Mil Cav, CMDT da CCAV 8351/72 (Aldeia Formosa e Cumbijã, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de10 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28006: Parabéns a você (2484): Henrique Matos, ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Enxalé, 1966/68)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

III - O que eu sei da guerra que estou a travar

Estou consciente que não disponho de tempo para manter este nível de pormenor, quando comecei a estruturar esta intervenção achei por bem pôr ênfase neste tempo de adaptação, dou-lhe um valor incalculável, foi nascendo o meu amor por aquelas gentes que tanto confiavam em mim, faltava-lhes tudo, exigiram-me que lhes desse o devido cuidado, tudo somado nasceu entre nós o respeito, a consideração, a lealdade. Eu estava ali para fazer a guerra, ou para travar os ímpetos do chamado inimigo, cedo descobri que tudo passava por mostrar às populações a moeda da lealdade do cuidado pelo Outro.

À cautela, supondo que irei viver num universo radicalmente diferente do que vivi em Lisboa, apetrechei-me de dois malões feitos em pinho, levei neles umas largas centenas de livros e discos de vinil e o gira-discos a pilhas. Nada sei da Guiné, quando ali desembarquei, nem do seu mosaico étnico, em que locais estão implantadas as tropas portuguesas e onde há guerrilha, li durante a viagem de barco um volume sobre a Guiné Portuguesa da autoria do então Comandante Teixeira da Mota, esclarecedor quanto a aspetos históricos, geográficos, antropológicos e etnográficos, mas era um livro de 1954, fiquei com uma ideia quanto à severidade do clima, e havia tornados e uma espantosa diversidade quanto a fauna e flora, mangais, vários tipos de floresta, palmares, lalas de água salgada, Savanas, não faltam macacos, cobras, ratos-voadores e uma espécie de abutres, alimentam-se de tudo.

Desembarcado em Bissau, ainda esperei ser convocado para uma reunião onde ficasse a saber que guerra de guerrilhas ali se vivia, nada aconteceu, fiquei entregue a mim próprio, ia diariamente a uma repartição do Quartel-General saber se tinha guia de marcha. Passeei-me por Bissau, o museu da Guiné surpreendeu-me, comprei um livro sobre os Mandingas, o jeito que me deu. Resta dizer que me mandaram apresentar no cais do Pidjiquiti na manhã de 2 de agosto, embarquei num barco com vários africanos, deram-me um garrafão de água e uma ração de combate. Fiz o estuário do Geba, havia um jovem que me ia explicando os locais, ali ao fundo é Jabadá, vamos parar em Porto Gole, anoiteceu, alguém me dirá em voz baixa que vamos passar perto de Ponta Varela, é ali que os barcos são atracados, o barco navega com toda a gente em silêncio, depois entrou num estreito leito do rio, sinuoso, mais adiante há luzes, primeiro o Xime mais adiante Bambadinca.

Algo me está a maravilhar, assim como descobri na recruta e na especialidade a energia física e o prazer da marcha, começo a entender agora que tenho capacidade de liderança, nestes primeiros três meses vamos fazendo patrulhas de reconhecimento, vou tirando notas do terreno percorrido, deslumbrei-me com os palmares de Gambiel e de Chicri, estou ciente de que aquelas obras são mais do que indispensáveis, não tenho ilusões quanto à insegurança em que vivemos. Vivo numa morança onde se pôs saibro no chão, foi pintada uma cama de ferro e feito um colchão de folhelho, mais tarde descobrirei que aquela cama pertenceu a um dos nossos maiores cartógrafos, Armando Cortesão. Converso regularmente com o régulo, com o chefe de tabanca, com o responsável religioso. Apareceu um jovem a oferecer-se para guarda-costas, o seu nome é Ieró, parece ser uso e costume haver tal intendência, Ieró explica-me o que é que pretende fazer: entregar a roupa suja à lavadeira e verificar o estado em que regressa; limpar o armamento e a limpeza da casa de nosso alfero, vai por aí fora falando das botas para engraxar, levar e trazer recados, e, súbito, diz algo que arrepia nosso alfero: se necessário pôr, protege com o seu corpo o seu comandante, deve estar preparado para dar a sua vida por ele.

Vive-se com o que a vida nos ensina: os graves problemas de saúde, sobretudo dos civis, as carências nutricionais das crianças, o imperativo das colunas de abastecimento; apanhou-se um grande susto, um dia em Mato de Cão, ouve-se um ronco medonho, depois as águas parecem estar a ferver em remoinho, deitam espuma para os lodos das margens, segue-se uma onda, então desatei a fugir colina acima, soldados a rirem-se, e eu a pensar que era um marmoto e os soldados a dizerem que não, é macaréu.

Multiplicam-se as tarefas, na secretaria do Batalhão entregam-me um processo de averiguações, uma criança, anos atrás, em Finete, acionou uma granada incendiária que tinha ficado num reboque militar, o seu corpo foi severamente atingido, como eu irei ver mais tarde, passei horas e horas a mandar deprecadas para muitos lugares de Portugal, o processo acabou em nada. Percorro aquelas matas, vejo estacas calcinadas, houve para ali vida, apercebo-me agora que vivo num território dividido, onde se deu um turbilhão demográfico, fugiu gente para muitos sítios, os que ficaram estão em Missirá e Finete, em Madina e Belel. É assim que se vive num território em guerra de guerrilhas.



IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida

Aproveito as idas a Mato de Cão para fazer patrulhamentos, quero descobrir os caminhos que as gentes de Madina e de Belel percorrem atravessando o Geba em diferentes sentidos. Iremos descobrir pirogas camufladas dentro do mato denso do tarrafe, para quem vai aos Nhabijões; junto do Geba estreito, frente à bolanha de Mero, na margem esquerda, encontramos indícios da sua passagem, desde carregadores de espingardas a bosta de vaca. Seguem-se emboscadas, o chamado inimigo terá os seus mortos e feridos, sofremos também com gente nossa acidentada, o Natal mais luminoso da minha vida será o de 1968, alegria irrepetível, gente de cá enviou vitualhas, houve festa para toda a população civil e para os contingentes de Missirá e Finete.

Em fevereiro de 1969 fui ao hospital militar de Bissau para ser operado, sofria de uma cartilagem atrás do joelho direito que me dava dores insuportáveis. Antes de ir, participei numa operação desastrosa onde se acidentou gravemente mais um amigo meu. Feita a operação, descubro que Missirá fora flagelada, o incêndio consumira cerca de dezasseis moranças, consegui apoios no Batalhão de Engenharia, não me irá faltar cimento, nem dinheiro para as madeiras, virão chapas onduladas, o essencial para que quando chegou a época das chuvas toda a gente tinha o mínimo de conforto e aproveitou-se a ocasião para renovar um bom número de abrigos.

Entretanto, não faltarão flagelações, a resposta será sempre pronta e enérgica. Tenho de abreviar, a contragosto. Participaremos também nas operações dos outros, deixei de ter medo da noite. Uma vez escrevi o seguinte: “Descobri que a floresta à noite tem outras expressões de vida, os estalos da madeira sobressaltam, o piar das árvores pode parecer de muito mau agoiro, um porco-do-mato pode assustar uma patrulha em marcha, há sons que se confundem, o pior são os gemidos das hienas, lembram o choro dos bebés; em emboscadas noturnas, sente-se o bafo do vizinho do lado, parece que estamos perdidos num oceano de sombras, já me habituei ao restolhar dos animais, quem está à noite na floresta em circunstância alguma pode perder de vista o camarada que segue à frente, já ouvimos falar no terror, no desespero que é estar perdido em território perfeitamente desconhecido.”

Os meses passam, os homens do meu pelotão dão-me claramente a saber que estão fartos de viver naquele ponto do mato, há mais de três anos que combatem em Missirá, fui forçado a pedir ao comando do batalhão transferência, não deixando de advertir os meus homens que não iríamos para melhor em Bambadinca. Tal como aconteceu.
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Notas do editor:

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho