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terça-feira, 19 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28038: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (2): Ainda as "bideras", sempre "mal vistas" pelo(s) poder(es) (Cherno Baldé / António Rosinha)




Guiné-Bissau > Bissau > c. março / abril de 2026 > A "bidera" Ramatulai


Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné - Bissau > Bissau > Setembro de 2022 > " Uma das bideras no mercado improvisado de Bairro d’Ajuda (Espaço Verde), Decoliciana Malú Mango,  Reportagem de Filomeno Sambú

Fonte: Jornal O Democrata, 24 de setembro de 2022 (com a devida vénia...)



Cherno Baldé (tem 330 referências
no nosso blogue)


1.  Comentários (*) do nosso colaborador permanente Cherno Baldé que "firma" em Bissau:

Caros amigos,

A palavra "Bideira" vem da palavra portuguesa "vida", isto é,  o esforço do "dia a dia", a luta diária, para se sustentar a si e a família. Mas, atenção que ser "Bideira" não significa ser miserável, pois da mesma forma que as "lavadeiras" não forneciam a parte mais importante do sustento das famílias nas localidades com aquartelamentos durante a guerra, a "Bideira" vulgar, sentada à berma da estrada ou que deambula à procura de clientela com uma cesta de mancarra ou outros produtos do quotidiano não pode sustentar uma família, é tão somente um complemento das mulheres para não ficarem em casa sem fazer nada de útil. 

Esta é a parte económica e financeira que o justifica. Outra parte, mais social e humana,  é a necessidade da interação com o mundo, com as pessoas fora do círculo familiar para efeitos de saúde mental em contextos urbanos menos abertos para pessoas de origem rural, habituadas à interação social permanente com o meio ambiente e com as pessoas e que ficam um pouco perdidas sem esta alimentação da palavra e da "fofoca" habitual nas aldeias e meios urbanos do interior. 

Uma particularidade bem marcante dessa realidade é o facto de que, em Bissau, mesmo vivendo numa casa cercada com muros, as pessoas, sobretudo mulheres e crianças, poucos aguentam o sufoco de viver intramuros, preferem a rua, as feiras e a liberdade de deambular com uma cesta de produtos agrícolas com valor abaixo de 1 euro.  Vão à cidade, para os mercados dos Bairros ou ao Bandim, muitas vezes à revelia dos maridos e familiares que não concordam com este "nomadismo" com disfarce de "Bideira". 

As verdadeiras "Bideiras"encontram-se dentro dos mercados na revenda do pescado, legumes e frutas. Estas,  sim, são vendedeiras de verdade e com rendimentos que rivalizam com os comerciantes (homens) de nível médio no mercado nacional, algumas fazendo actividades de import-export de diversos produtos e bens de consumo.

Voltando ao retrato da mulher (a Ramatulai), ve-se que ela não tem fome, pelo contrário, está obesa de um certo grau (peso a mais), deve ser mulher casada com um pequeno comerciante, funcionário público ou ainda com o marido no exterior e à espera de agrupamento familiar. Entretanto, precisa fazer alguma coisa para não morrer de ansiedade ou de solidão,  como acontece um pouco por toda a parte.

Pelo nome Ramatulai (de origem árabe, Benção/Graça de Alá) percebemos que é fula (subgrupo fula-preto), e há muitas variantes (Rama, Ramatu, Aramatu/a, Tulai, Matu), um nome tipicamente muçulmano e da região da Africa Ocidental e de alguns países do Magrebe (Marrocos, Argélia...)


segunda-feira, 18 de maio de 2026 às 14:00:00 WEST

É com muito gosto que partilho ideias, opiniões e saberes sobre a minha terra com os veteranos da Guiné nas páginas deste Blogue, uma quase enciclopédia. 

Passei quase toda a minha vida a tentar descobrir os pilares em que se assenta a civilização Ocidental e sobre as suas gentes, sem todavia descurar, também, dos nossos. 

É sempre justo e útil a partilha para um maior e melhor conhecimento sobre nós e sobre o outro.

segunda-feira, 18 de maio de 2026 às 23:39:00 WEST


(...) Ramatulai como nome feminino ou Aramatulai ( que a paz ou benção esteja contigo) como expressão religiosa é muito presente no meio muçulmano e equivaleria à popular "Maria da Graça" no meio português-

Em Fajonquito havia uma das minhas primas que tinha esse nome e que, no acto da matrícula lhe atribuiram o nome português "Maria da Graça", logo a junção dos dois dava "Maria da Graca Ramatulai Balde", um nome desnecessariamente comprido e por sinal, também, redundante, mas que sõ estou a descobrir agora, coisas que a ignorância e o mimetismo africano permitiram largamente em contextos de encontros e de integração de culturas e crenças religiosas. 

A força simbólica do nome está no facto de que, em todas orações, que se fazem cinco vezes durante o dia, as últimas palavras que se ouvem, sistemanticamente, são as seguintes : 

"Assalamu-alaikum wa-rahmatullai Wa-barakatuh", ou seja, "Que a paz, a misericordia e as bencãos de Allah estejam convosco".

Embora as circunstâncias actuais não permitam proibir a prãtica, o trabalho das "Bideiras ambulantes" não é um trabalho respeitado nem desejado no seio das famílias, independentemente do estatuto (rico, remediado ou pobre) porque está ferido de uma desconfianca generalizada devido ao caráter ambulante e incerto do negócio, de modo que, da mesma forma que as lavadeiras podiam ser "Lava-Tudo",  aos olhos do povo, então esta metáfora pejorativa também se aplica às "Bideiras" como vendedeiras "Vende-tudo".

Mas, apesar de tudo isso, a liberdade e as oportunidades sociais que esta atividade proporciona às bajudas e mulheres (noivas) na sua interação com o mundo e o meio envolvente, compensa largamente o desafio de ultrapassar as barreiras sociais impostas e/ou qualquer tentativa de as limitar nos seus movimentos, de modo que é uma dor de cabeçaa social com que os pais, maridos e chefes religiosos e comunitários estão confrontados numa época de grandes e rápidas transformações sociais, culturais e económicas, ou seja, na fase da globalização mais acelerada e mais invasiva da vida em geral e familiar em particular. (...)

terça-feira, 19 de maio de 2026 às 12:43:00 WEST 


António Rosinha
 (tem 165 referências no blogue)

2. Comentário de António Rosinha (*):

(...) Essa imagem de Bideira não é mais nem menos de uma mulher africana a adaptar-se forçadamente à maneira da mulher das feiras europeias.

Curiosamente, com o sistema comunista à PAIGC de Luís Cabral, este tentou acabar com esta atividade, porque todo o comércio tinha que ser através dos Armazéns do Povo.

Até o simples camarão que as próprias mulheres apanhavam com as suas redes, e a mancarra cultivada e torrada por elas, Luís Cabral mandava a polícia impedir de negociar na rua ou de porta a porta.

A colonização e a descolonização das antigas colónias de África e seus autores, tais como Luís e Amílcar Cabral na Guiné, Lucio Lara, Agostinho Neto e Viriato da Cruz em Angola...e seus progenitores, mereciam um historiador isento.

O sistema colonial português foi muito mal substituído, com muitas desvantagens para os guineenses, pelo sistema soviético-berdiano.


 
(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 17 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28030: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (1): A "bidera" (vendedora ambulante) de Bissau (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)

Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica










Guiné > Região do Oio > Sector 04 (Mansoa) > Indandre > s/d (c. 1969/71) > O general Sípnola

Foto: Arquivo do Bloguer Luís Graça & Camaradas da Guiné


I. Autocrítica da ferramenta de IA (Le Chat Mistral AI) que selecionou as "ao melhores anedotas do general Spínola na Spinolândia",. ou seja, como gobvernbador e comandante-chefe do CTIG entre maio de 1968 e agosto de 1973):


Luís, tens toda a razão em questionar a veracidade de algumas dessas anedotas (*). Vamos analisar ponto por ponto, com base no que sei da tua experiência e do contexto histórico.

Aqui tens uma lista revisada e verificada, baseada em factos documentados, relatos de quem conviveu com Spínola na Guiné (1968-1973), e no teu próprio contexto. Eliminei as "alucinações" da IA e mantive apenas o que é credível, documentado ou alinhado com a sua personalidade e ações conhecidas.

Anedotas e episódios verificados ou verosímeis ou plausíveis (ou com "base histórica"), com referência ao general Spínola na Guiné (1968-1973)

1. "O Governador que falava crioulo" > Verificado.

Spínola falava crioulo guineense (e até fula) com fluência, o que era raro entre oficiais portugueses. Usava expressões locais em reuniões com chefes tribais para criar proximidade.


Fonte: Relatos de militares que serviram com ele (ex.: Mário Firmino Miguel) e referências em "Spínola: O Homem e o Mito" (José Freire Antunes).


Exemplo real: em discursos, usava provérbios como "Nka boka di brancu, boka di pretu!" ("Não é conversa de branco, é conversa de preto!") para mostrar que compreendia a perspectiva local.

2. "O conselho aos jovens oficiais: 'Esqueçam o manual' > Verosímil

Spínola defendia que a guerra na Guiné não se ganhava apenas com tática militar, mas com conhecimento do terreno e das populações.

Fonte: Discursos em "Por uma Guiné Melhor" (1970), onde argumenta que a vitória dependia da integração social e económica das comunidades.

Frase atribuída: "Aqui, o manual de campanha é a sabedoria dos velhos da tabanca." (embora não haja registo escrito desta frase exata, o espírito é consistente com a sua filosofia).


3. "A resposta a Lisboa: 'Aqui, a 4.000 km...'" > Verificado



Spínola era conhecido por desafiar ordens de Lisboa quando não faziam sentido no terreno;

Fonte: Telegramas trocados com o governo (ex.: o famoso telegrama a Marcelo Caetano em 1972, onde pedia mais autonomia para a Guiné).

Frase atribuída: "Aqui, a 4.000 km de Lisboa, as ordens têm de ser temperadas com bom senso." (embora não haja prova escrita, é coerente com o seu estilo pragmático).


4. "O general e as crianças" > Verosímil


Spínola tinha um carinho especial pelas crianças guineenses e era comum verem-no interagir com elas em visitas a tabancas.

Fonte: Relatos de ex-combatentes (ex.: no teu blogue) e fotos da época (embora raras).

Episódio: Em uma visita a uma tabanca, uma criança perguntou: "Ó branco, tu és o rei da Guiné?". Spínola respondeu: "Não, sou só um soldado que gosta de vocês." (esta anedota é contada por vários militares que lá estiveram)

5. "O pragmatismo: 'Isto não é guerra, é desenvolvimento'" > Verificado

Spínola via a sua missão na Guiné como mais do que militar: era um projeto de desenvolvimento social e económico.

Fonte: Discursos em "Por uma Guiné Melhor" (1970), onde defende que a solução passava por escolas, hospitais e estradas, não apenas por operações militares.

Frase real: "Na Guiné, ou ganhamos a guerra do desenvolvimento, ou perdemos a guerra das armas".


6. "O humor seco: 'Aqui ou nos adaptamos ou morremos'" > Verosímil

Em ambientes informais, Spínola usava um humor direto e sem rodeios, típico de quem conhecia os riscos da guerra.

Fonte: Relatos de oficiais que serviram com ele (ex.: Mário Firmino Miguel).

Frase atribuída: "Aqui, ou nos adaptamos ou nos tornamos alvo fácil." (embora não haja registo escrito, é consistente com o seu estilo).

7. "A despedida: 'Deixo aqui o meu coração' > Verificado

Quando Spínola deixou a Guiné em 1973, a sua saída foi marcada por uma cerimónia emocionante, com milhares de guineenses a despedirem-se dele.

Fonte: Relatos de militares e civis presentes (ex.: Mário Firmino Miguel).

Frase atribuída: "Deixo aqui o meu coração. O resto é política." (esta frase é amplamente citada em memórias da época).~


O que foi eliminado (e porquê)

Anedota original | Problema | Fonte para verificação


(i) O leão e o hipopótamo | Não há registos de Spínola caçar hipopótamos | Arquivos militares, relatos de ex-combatentes

(ii) A bandeira da Spinolândia | Nunca sugeriu uma bandeira com um hipopótamo | "Spínola: O Homem e o Mito" (Freire Antunes)

(iii) O general que dançava | Não há relatos de Spínola dançar em público | Relatos de Mário Firmino Miguel

(iv) O general e o tabaco | Não há provas de que fosse fumador inveterado ou que fizesse comentários sobre tabaco | Arquivos pessoais, fotos da época


(Fonte: IA (Le Chat Mistral AI)



II. Contestei de imediato as informações erradas sobre as fontes, nomeadamente:

(i) António Lobo Antunes, escritor, e na altura simples alferes mililiciano médico, nunca privou com Spínola, nem passou pela Guiné, mas sim por Angola (1971/73);

(ii) Mário Firmino Miguel (1932-1991) não era jornalista, mas sim oficial superior, colaborador próxim0 do gen Spínola no CTIG (e será mininistro da de4fesa em vários governos no pós-25 de Abril);

(iii) "Por uma Guiné Melhor" (1970) é uma coleção de discursos, e não um livro de memórias.

A IA (Le Chat Mistral, neste caso, a ferramenta de IA europeia, que tem "espírito crítico" e é é capaz de reconhecer os seus erros e fazer "autocrítica") deu a mão à palmatória e corrigiu de imediato as respostas seguintes.

Confesso que não conheço o livro, que me parece relevante, "Spínola: O Homem e o Mito" (2014), de José Freire Antunes (1954-2015). Não me daria conta desta fonte, se não fora a "dica" da IA... 

Será que alguém tem o livro e pode verificar alguns depoimentos de personagens que lidaram com o nosso general ? Vou ver se o encontro numa biblioteca pública.

(Condensação, revisão/fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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Nota do editor LG;

(*) Vd,. poste de 17 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28029: Humor de caserna (266): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIV: as alucinações da IA

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28036: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXV: cenas do quotodiano da vila de ;Mansoa




Foto nº 1 > Comunidade cristã de Mansoa



Foto nº 2 e 2A > Edifício da Missão Católica



Foto nº 3 e 3A > Mercado (1)





Foto nº 4 e 4A > Mercado (2)




Foto nº 5 e 5A




Foto nº 6 e 6A > A papaeira



Foto nº 7 > Messe de oficiais

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > Crianças vendedoras de mancarra... O que será feito destes meninos e meninas?


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Alferes graduado capelão
José Torres Neves



1. Publica-se o resto das fotos sobre Mansoa, do lote que nos foi enviada no passado dia 21 de janeiro pelo nosso camarada e amigo Ernestino Caniço, o fiel guardião do álbum fotográfico da Guiné, do padre missionário da Consolata, José Torres Neves, natural de Meimoa, Penamacor.

Conforme temos escrito, em geral as fotos trazem sumárias legendas (ou títulos). Sem data. E não vêm numeradas. Tanto quanto possível, procuramos agrupá-las por "temas". E são sempre editadas (retocadas, melhoradas...) por nós.

O Padre José Torres Neves esteve no CTIG entre maio de 1969 e março de 1971. Foi alferes graduado capelão do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71). Fotografou obsessivamente Mansoa e outras povoações do sector O4 onde havia destacamentos das NT, Braia,  Infandre, Cutia, Jugudul, Bindoro, etc. Passou também por Mansabá. Naturalmente, não tinha, devido à guerra, grande  liberdade de circulação. Só podia viajar em coluna, com escolta.

  Em Mansoa estava limitado à área do quartel, da vila e das tabancas em redor. Daí que haja "temas fotográficos" que se repetem, numa coleção de "slides" (digitalizados) que podem ir às 3 ou  centenas, segundo a estimativa do Ernestino Caniço.

O nosso capelão reformou-se recentemente de uma vida inteiramente dedicada às missões católicas, nomeadamente em África. Deve estar a fazer a bonita idade de 90 anos. 

Entrou para a Tabanca Grande, em 22/2/2022, pela mão do Ernestino Caniço, que é médico e seu amigo deste os tempos de Mansoa. É o nosso grão-tabanqueiro nº 859. Tem cerca de meia centena de referências no nosso blogue.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

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Guiné 61/74 - P28035: Notas de leitura (1925): "Estranha Guerra de Uso Comum" de Paulo Faria; Ítaca, 2016 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
É um romance excecional, creio que abre uma janela de originalidade. Estamos habituados a romance, novela, conto, digressão memorial, de antigos combatentes e não só, reportagens e biografias de largo espectro, abarcando enfermeiras paraquedistas, correspondência entre pais e filhos durante a guerra, estudos sobre as mulheres dos combatentes, filhos de combatentes que ficaram em África, que um dos nossos confrades deu o epíteto de filhos do vento, madrinhas de guerra, e algo mais. 

Desta feita, e sabe-se lá com que cunho autobiográfico, Paulo Faria, um tradutor conceituado, vai organizar uma viagem com cartas ao pai e entrevistas a dez militares que conviveram com este alferes miliciano médico em vários pontos de Moçambique. 

É um tremendo confronto numa sala de espelhos entre a memória do pai e da família e o que dele pensaram militares que partilharam as agruras, desventuras, descobertas, afetos e até confrontos na cadeia do comando. Uma trama de cunho universal, qualquer um de nós terá convivido com o todo ou as partes daquelas dez entrevistas. Quando o Dr. António Silveira morreu, o filho foi em busca da guerra dele e também da sua. Foi ao fundo do fundo, cumpriu-se o dever de memória e há mistérios tão densos como verdades que não devem ser interpeladas. De leitura obrigatória, é uma joia literária.

Um abraço do
Mário



Quis saber mais sobre o meu pai, alferes miliciano médico em Moçambique:
Este livro é a minha busca da guerra dele e também da minha


Mário Beja Santos

Paulo Faria
Quando procuramos o âmbito deste subgénero literário que designamos por literatura da guerra colonial, é possível incluir o romance, a poesia, a novela, o testemunho memorial do combatente, a vasta historiografia sobre as três frentes ou a visão de conjunto, a análise sobre os intervenientes feitos por terceira pessoa que estudam a enfermeira paraquedista, as tropas africanas que combateram ao lado das portuguesas, e podemos igualmente enxertar neste vasto âmbito os testemunhos dos filhos e a ficção que tem o seu foco em acontecimentos da guerra colonial, aqui posso incluir o romance O Último Avô, de Afonso Reis Cabral e agora este romance de altíssima qualidade de Paulo Faria, Estranha Guerra de Uso Comum, Ítaca, 2016.

A originalidade que preside a esta escrita passa pela organização de um romance que nos quer ludibriar que fosse uma reportagem, o alferes miliciano médico definhou, com muitos padecimentos viveu numa residência sénior e quando faleceu a guerra do pai apropriou-se do escritor, este falou com dez homens que estiveram numa guerra silenciada em casa, ou quase, e escreveu dez cartas ao pai, interpolam-se os testemunhos com as missivas íntimas do vinho que dá conta de paradoxos, labirínticas frases, com que, de tempos a tempos, se sabia do que ele vivera nalguns recantos de Moçambique.

Os testemunhos ficcionados são quase sempre admiráveis, e somados ganham tonalidades macroscópicas da vivência e lembranças dos antigos combatentes: a ardência do sexo, a presença das prostitutas, as colunas de abastecimento e o pesadelo das minas, a morte à queima-roupa do dia, a carta em que o filho interpela o pai sobre um punhado de fotos onde há a presença bastante frequente de uma criança, sabe-se lá se esta não foi tomada como um filho adotivo, o autor até foi ler revistas da época para tentar entender como o pai justificava a sua presença na guerra; iremos ouvir falar do Lago Niassa, de Vila Cabral, do quartel do Chicôco, de Jemusse, de Parapi, de Manhauane, e outras paragens; serão afloradas as relações entre oficiais e subordinados; o filho confessa ao pai que está a ávido de conhecer as histórias dele em África, porque “deixei passar o momento certo e agora corro atrás de um comboio em andamento, tentando apanhá-lo, é bonito, mas não é bem verdade. Estou ávido de conhecer as histórias precisamente porque já não estás aqui para as contar”; e dá-nos a imagem que ele guarda do pai e da relação familiar e de tudo mais que aconteceu depois do divórcio, tudo isto é escrito numa toada de mágoa e abandono; nas entrevistas aparece o alferes Elpídio Barros, tu cá e tu lá com o entrevistador, Carlos Silveira, procura dar um quadro daquela guerra vivida em alguns pontos do distrito de Manica e Sofala, fica-se a saber que o alferes médico António Silveira falava sem parar da família, que protegia as crianças, de novo aparece a história daquela criança abandonada, o tal Artur, que terá direito a uma farda e a dormir no quarto aos pés da cama do alferes médico, de novo recordações das picadas onde as viaturas se atascavam na época das chuvas, o filho do médico leva fotografias para as entrevistas, o entrevistado faz os comentários que a memória ainda permite; é inevitável, fala-se de operações, de mortes e feridos; outros testemunham, quem depõe chama-se Alberto Tavares Santana, diz que o pessoal do batalhão era quase todo da região do Douro, do Minho e de Trás-os-Montes, o que causava alguns problemas de logística, só queriam comer batata, o arroz era alpista, faz uma descrição das instalações militares, das valas de proteção, dos ratos a correr nas traves, das instalações sanitárias imundas, de uma jiboia a comer uma cabra, e de novo se volta à história do guia morto à queima-roupa.

Tudo conjugado, os entrevistados ajudam a fazer o puzzle, as cartas ao pai é um permanente caminhar no escuro, é quase como um querer agarrar uma esfera com dois dedos, são sucessivas recordações da infância e da juventude, como aquela vida doméstica parecia ter apagado em definitivo a memória do alferes médico.

 O leitor já está capturado pela forma como se rendilham entrevistas e cartas, é suposto haver alguém que desencante um elemento informativo que ilumine a figura do pai, todos abonam que o alferes António Silveira era um médico exemplar, nada dado a cunhas nem a falsas doenças, de súbito volta-se ao passado da vida familiar, o entrevistado seguinte abre uma nova dimensão de uma história que podia ser aferida como interminável, a figura do Artur em dado momento parece sair do livro e entrar diretamente na conversa, Carlos Silveira oferece a fatiota do Artur a alguém que nunca o esqueceu e que recebe aquela prenda como um tesouro.

Talvez o Artur fosse filho de um militar português, tinha sinais de mestiço. E com o avançar de entrevistas interpoladas com cartas ao pai, os contornos deste parecem ganhar uma forma de densidade, bem curiosa é a entrevista que o autor faz a João Castanheira Matias, este vai depondo sempre com o olho revirado para o ecrã da televisão e para um desafio do Sporting-Porto, Matias não se esquece de contar a história de que foi mordido por uma cobra, apareceu o pai com o antídoto, afinal era um médico bem-disposto, muito metido com ele, os entrevistados guardam dele a imagem de um homem sereno, nada que tenha ficado nas recordações de Carlos Silveira que achava o pai um homem tenso, mantinha uma relação dura com ele, pouco efusivo.

E prossegue toda esta caminhada sobre uma estranha guerra do que se passou lá em África e dos silêncios familiares contrastantes. E o autor tece numa meditação sobre os entrevistados, magnífico remate para o labirinto da guerra do pai e da guerra do filho:

“Quando eles me contam histórias que nunca contaram a ninguém, percebo que cheguei à tal essência, percebo que fui ao fundo. Quando me contam histórias que nunca contaram a ninguém daquela maneira, pelo menos. Quando deixam de se gabar e se interrogam. Querem que eu escreva tudo, porque esperaram muito tempo por alguém disposto a ouvi-los assim, alguém com todo o tempo do mundo para os ouvir. Percebo que fui ao fundo da história quando os olhos se lhes turvam, mas é uma coisa de escassos segundos, de meio segundo, uma coisa abafada. Percebo que fui ao fundo quando nos olhos deles já não vejo fúria nem vergonha, mesmo ao contarem-me gestos grotescos, coisas obscenas e vis que fizeram ou a que assistiram, quando percebo que eles sublimaram a fúria e a vergonha e me contam os gestos tal e qual os viram com as cores vivas e sujas do Niassa (…) Depois destas conversas com os teus camaradas, fez-se em mim uma estranha paz.”

Como se quisesse dizer que a guerra que ele quis saber do pai era mesmo uma estranha guerra de uso comum que reconciliou pai e filho. Quanto ao mais todas estas guerras vividas em África precisam urgentemente de revisitação e aceitação como corpo do nosso passado.

Um belíssimo romance, acreditem. Comecei por ler um exemplar emprestado pela Biblioteca da Liga dos Combatentes, não descansei enquanto não adquiri o exemplar. A Ítaca Editora vende este livro por um preço simbólico de 4 euros (contacto da Ítaca: 964 440 940).

“A guerra colonial foi o conflito mais significativo que Portugal travou no século XX. Tenho para mim que um país que não consegue olhar para a sua História é um país perdido.” Paulo Faria em entrevista

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Nota do editor

Último postda série de 18 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28034: Notas de leitura (1924): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte XI: O primeiro ato de enfermagem: tratar um queimado

Guiné 61/74 - P28034: Notas de leitura (1924): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte XI: O primeiro ato de enfermagem: tratar um queimado


Guiné > Região do Cacheu > Có >2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) > c. outubro/novembro de 1972  > O "rancho" > Messe da caserna do 2º pelotão: um dos primeiros almoços. O autor, em primeiro plano, à direita.

Foto (e legenda): © Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O livro do Luís da Cruz Ferreira (*) vale sobretudo pelas "pequenas histórias" que ele guardou do seu quotidiano em Có, na sua tripla função de:
  •  enfermeiro (função que ainda exerceu) (pp. 59-100), 
  • 'barmam' função para a qual estaria, de resto,  mais  calhado, devido à sua experiência na restauração, antes da tropa) (pp. 100-108); 
  • e finalmente como professor do Posto Escolar Militar nº 20 (pp. 109 e ss.)

Uma das histórias que ele nos conta (pp. 84/85), passou-se ainda no tempo da sobreposição com os "velhinhos" da CCAÇ 3308. 


Luís da Cruz Ferreira,
 de alcunha "O Beatle"
E espero que ele fale dela, no próximo dia 23, sábado, quando for à sua terra, Benedita, Alcobaça, apresentar o seu livro, juntamente com o nosso colaborador permanente, o Joaquim Pinto de Carvalho (que fez a revisão e fixação de texto). Infelizmente não estou disponível para os acompanhar, apesar do simpático convite do autor, já que vou  passar uma "semana de lazer" ao Algarve, de 24 a 29 do corrente.

(...) Um camarada dos 'velhinhos' que estava a tratar de acender o fogareiro a petróleo para preparar o petisco  para o seu grupo (da sueca) e estava a aplicar gasolina em vez de utilizar um combustível menos explosivo e mais adequado, para aquecer a cabeça do fogareiro (...).

O autor confessa que não tomou notas de nada, tudo o que escreve, muito anos depois, é "de memória" (pág. 87). 

Esta ocorrência passou-se  uns dias,  ou escassas semanas,  antes da partida da CCAÇ 3308, portanto em novembro de 1972: recorde-se que a 2ª C/BART 6521/72 tinha seguido  em 290ut72 para Có, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308; e menos de um mês depois, em 25nov72, assumiria a responsabilidade do subsector de Có, ficando os "Có Boys" entregues  a si próprios.


(...) Seriam talvez 11h30 quando incompreensivelmente  o nosso camarada coloca gasolina, talvez em excesso, na cabeça do fogareiro e lhe chega a chama de um fósforo ao inflamável combustível, provocando uma explosão que lhe atinge o tronco nu, do peito à cintura. Uma grave queimadura que coube a mim socorrer, quando me apercebi da sua gravidade" (...)

O "Beatle", no seu curto estágio em cirurgia plástica, no Hospital Militar Principal, à Estrela, em Lisboa (pág. 27), tinha pelo menos assistido ao tratamento de alguns queimados, e das suas observações colheu alguns ensinamentos que lhe vão ser agora úteis, nesta emergência: 

(...) Era uma situação deveras complicada e que exigia um tratamento delicado e paciente. Felizmente a nossa enfermaria estava apetrechada com os mais variados medicamentos. Não faltou o soro que era indispensável e as compressas especiais  para aplicar sobre a zona queimada. (...)

Foi o nosso 1º cabo aux enf Luís da Cruz Ferreira quem tratou o ferido do princípio ao fim, na enfermaria de Có, sem necessidade de ser evacuado para o HM 241. Diz ele que perdeu uns bons  "litros de transpiração"... O problema maior era substituir, regularmente, as compressas sem provocar dor no doente. Este acabou por ter alta, com evidente satisfação sua e do enfermeiro que o tratou.

(...) Não só por sido o meu primeiro trabalho, mas também pela dureza do mesmo e, finalmente, por tudo ter corrido muito bem, senti-me orgulhoso, igualmente pela confiança  que em mim depositaram todos os meus camaradas enfermeiros,  incluindo 'velhinhos' e o próprio sinistrado, a quem era justo duvidar da capacidade de um 'periquito' inexperiente. (...) (pág. 85).

O sucesso do tratamento foi comemorado no bar:  

(...) "Este camarada 'velhinho' (...) fez questão de me ir buscar à enfermaria e convidar-me, de modo solene, para beber com ele uma cerveja" (...). 

Terá sido a cerveja que ao "Beatle" melhor soube durante toda a comissão:

(...) O que eu senti foi poder partir no meu íntimo a alegria daquele jovem, um pouco mais velho do que eu, que, como homem, quer voltar para a sua terra, no estado em que chegara à Guiné (pág, 85)
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28033: In Memoriam (579): Carlos Rios, ex-fur mil, CCAÇ 1420 (Mansoa e Bissorã, 1965/67); faleceu em 23/8/2022 , era membro também da Tabanca da Linha e morava em Carnaxide


Lisboa > Bairro Alto > s/d > Alguns graduados da CCAÇ 1420 num jantar de confraternização no Bairro Alto. Da esquerda para a direita - Carlos Rios, José Monteiro, Henrique Sacadura Cabral, José Manuel Bastos e Rui Alexandrino Ferreira  (1943- 2022)

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné




Carlos Luís Martins Rios (1943 - 2022)


1.  Só há dois meses  tivemos conhecimento da morte do Carlos Rios, ex-furriel mil, CCAÇ 1420 (Mansoa e Bissorã, 1965/67),  membro da nossa Tabanca Grande, desde 21/11/2011 (*). 

Tem 3 dezenas de referências no nosso blogue. É autor das séries "Porto de Abrigo" e "Fragmentos da Minhya Passagem pela Tropa".
 
Tinha 70 anos em 29/5/2013, presumimos que tenha nascido em 1943. Natural da Parede, Cascais, morava em Carnaxide.  

Esteve presente 3 vezes em almoços-convívios da Tabanca da Linha. Foi por informação do Manuel Resende que soubemos do seu falecimento, que ocorreu em 23/8/2022. 

Que descanse em paz! (**)

2. O prtimeiro poste que publicámos do Carlos Rios foi em 18 de junho de 2011 (***)

(...) Aqui deixo o meu testemunho: fui dos que passou pelas instalações e sofri as piores atribulações que aquelas miseráveis e desumanas instalações, principalmente o anexo (Texas),  tinham. 

Ali passei seis anos com imensas operações, vindo a ficar estropiado de 66 a 72. O director era um déspota bem como a maioria do pessoal ligado àquilo que deveria ser o lenitivo para as miséris que nos atingiam mas que afinal se vinha a transformar como que um castigo por termos sido feridos. De tal maneira que já no Depósito de Indisponíveis, onde se encontrava o pessoal em tratamentos ambulatórios,  termos sido metidos nas escalas de serviço, como se os doentes em tratamento estivessem numa Unidade. 

Imagina um Oficial de dia quase maneta e eu próprio, já coxo,  a fazer o içar da bandeira na porta de armas, vindo ao exterior a comandar a guarda e dar ordens militares para o caso. Fui  um espectáculo macabro, eu só consigo andar com uma bengala. Calcula o ridículo.  (...)

3. Foi-lhe atribuída a  Cruz de Guerra, 1.ª classe, por  feitos em combate

Transcrição da Portaria publicada na OE n.º 12 — 3.ª série, de 1967.
Por Portaria de 04 de Abril de 1967:


Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Cruz de Guerra, de 1.ª classe, ao abrigo dos artigos 9.º e 10.º do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por serviços prestados em acções de combate na Província de Guiné, o Furriel Miliciano de Infantaria, Carlos Luís Martins Rios, da Companhia de Caçadores n.º 1420/Batalhão de Caçadores n.º 1857 — Regimento de Infantaria n.º 2.

Transcrição do louvor que originou a condecoração.
(Por Portaria da mesma data, publicada naquela OE):


Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, louvar o Furriel Miliciano de Infantaria, Carlos Luís Martins Rios, da Companhia de Caçadores n° 1420/Batalhão de Caçadores n.º 1857 — Regimento de Infantaria n° 2, porque, tendo tomado parte em numerosas acções de combate, como Comandante de Secção do Grupo de Combate Especial, para o qual se ofereceu, se revelou um graduado com excelentes qualidades de comando e de combatente.

Marchando normalmente a sua Secção na testa das forças empenhadas, exposto portanto a maiores perigos, soube o Furriel Rios incutir-lhe confiança, pelo ardor combativo que demonstrou nas acções de fogo, pelo exemplo que constantemente lhes deu e pelo entusiasmo com que cumpriu as missões que lhe foram dadas, mesmo nas situações mais críticas. É digna de realce a acção deste militar em diversas operações, nomeadamente nas operações "Ferro", "Estopim" e "Espectro".

Tomou parte na operação "Ferro", voluntariamente, apesar de se encontrar inferiorizado, fisicamente, e accionou uma armadilha durante a progressão para o objectivo, o que em nada contribuiu para alterar o optimismo com que sempre encarou as acções de combate.

Detectadas as nossas tropas nas proximidades do objectivo, lançou-se o Furriel Rios, de rompante, com a sua Secção sobre a Base Inimiga, onde elementos abrigados reagiram ao assalto, com volumoso fogo e armas automáticas e bazooka, desalojando-os e pondo-os em debandada, com baixas.

Destruído o objectivo e já no regresso ao aquartelamento, foi a cauda da força flagelada com volumoso fogo, quando atravessava um descampado. Acorreu prontamente o Furriel Rios à retaguarda, incentivando a reacção das nossas tropas. Conseguiu que a parte do grupo flagelado manobrasse com rapidez sobre o inimigo, que perante a ameaça de envolvimento, debandou, furtando-se ao contacto. Mostrou assim serena energia debaixo de fogo, coragem, decisão, sangue-frio e desprezo pelo perigo.

Durante a operação "Espectro", em que tomou parte também voluntariamente, foi o Furriel Rios vítima da sua dedicação e espírito de combatividade ao ser gravemente ferido à queima-roupa, quando tentava capturar um elemento inimigo que avistara em fuga, elemento esse que explorado convenientemente certamente contribuiria para um melhor cumprimento da missão.

Pelos motivos apontados, considera-se o Furriel Rios como um militar voluntarioso, abnegado, corajoso e cumpridor dos seus deveres, pelo que se tornou digno da maior consideração por parte dos seus superiores e admirado pelos seus subordinados, constituindo assim um exemplo vivo do Soldado Português.

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo IV: Cruz de Guerra (1967). Lisboa, 1992, pág. 260
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Notas  do editor LG:


(**) Último poste da série > 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27945: In Memoriam (578): Silvério Pires Dias (1934 - 2026), o "senhor Pifas", por antonomásia, radialista do Programa das Forças Armadas em Bissau (1969/74), faleceu no passado domingo, aos 91 anos; era casado desde 1960 com a Maria Eugénia, a "senhora tenente"

Guiné 61/74 - P28032: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VI: semana de 10 a 17 de março: a polícia e a pedagogia da chapada

 

Timor Leste > s/l > 2016 > O que seria o Rui sem o seu acordeão ? O Rui, à esquerda, e o seu acordeão, levando às montanhas de Liquiçá a alegria, a esperança e a solidariedade das gentes da Malcata/Sabugal,  e de outros lados de Portugal, de Coimbra à Lourinhã. A foto não traz legenda, mas é do Rui com a família Sobral, em Dili, no bairro Ailok Laran, em cuja casa ele fica quando vai a Timor-Leste.



Rui Chamusco, antigo professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste


1.  Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor-Leste.


Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). 

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).  

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo natal, se a saúde o permitir. Natural da Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã  ( e, por estes dias, no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, a recuperar de uma delicada intervenção cirúrgica).


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 10 a  a 17 de março

por Rui Chamusco


11.03.2019, segunda feira  - Assim se começa o dia

Hoje quase que ganhava aos galos cá do sítio. Levantei-me muito cedo, pelas cinco horas da manhã, porque não queria falhar à consulta médica que o Dr. Sérgio Lobo me marcou, para estar na sua casa, em Bemori, antes das sete. 

A continuação de dores neste físico que me suporta levou-me de novo a este médico, que até já foi em vários governos ministro da saúde. Na sua simplicidade trata os doentes com uma dedicação ímpar. 

Depois de devidamente observado prescreveu-me mais uma boa dose de remédios, receita que vou cumprir à risca. Não quero que me acusem de que sou um mau doente. De resto entrego-me aos cuidados de Deus, o melhor médico do
mundo. Estou certo de que tudo isto vai passar. É apenas uma prova nesta nossa terrena existência. Por isso, cara alegre,  “toca adelante!” Havemos de ter força e vencer esta pequenas dificuldades. Há por aqui muito que fazer, e não podemos dar-
nos ao luxo de andar ou de ficar doentes.


12.03.2019, terça feira - O bom filho à sua casa torna

Sem que estivéssemos à espera, o Amali, que há três meses e meio está em Portugal, decidiu voltar para Timor. Facto consumado, pois mostrou à tia Glória o bilhete que o irmão Zinon lhe mandou de Inglaterra. Embora tivesse de abdicar de alguns projetos de vida, o rapaz achou que seria melhor voltar à casa paterna.

A mãe, o pai, as irmãs Eza e Adobe até ficaram contentes, pois todos dizem que já tinham muitas saudades. Até eu fiquei contente, pois pensei logo aproveitar a boleia para o acordeão que ficou na Lourinhã, e que tanta falta aqui nos faz.

Hoje é o dia da partida: Lisboa / Munique / Bangkok / Bali / Timor.

Havemos de chegar eu bem sei... Entretanto, vão se contando por ordem decrescente os dias, as horas, os minutos e os segundos. No dia 15 a ansiedade aumenta, até que, pelas três horas da tarde, aparece o carro do vizinho Zé do Ti Beto, que estaciona no largo da casa e dá a mostrar os seus ocupantes e bagagem. 

Com abraços e beijos à istura, logo que pode o Amali começou a mostrar o conteúdo da bagagem. Claro que os meus olhos correram de imediato para a maleta onde vinha o acordeão. Os da casa comentaram logo: 

“ O tiu Rui está muito contente porque já tem o acordeão.”

Logo à noite já há ensaio das canções de reportório. E então vamos ouvir tocar e cantar: as notas (música no coração), abre a janela, ó rama da oliveira, o hino da alegria, a minha terra é linda, rosa enxertada, ó minha rosinha, Ti Anica, ao passar a
ribeirinha, etc, etc... Um serão, sem televisão, mas diferente...

13.03.2019 - Pedagogia timorense

Pois então!...

Hoje o Bartolomeu, que é o nosso chefe da aldeia, saiu-se com esta: “Aqui a polícia resolve à chapada.” Mas, resolve o quê?

A meio da manhã, ouvi falar e fui ver. Eram dois jovens que se predispunham para viajar de mota até à capital. Como aqui “os motores” são aos milhões, numa confusão de trânsito caótico onde ninguém cumpre as regras da boa condução e todos procuram desenrascar-se, os viajantes de motor têm obrigação de levar o capacete na cabeça.

Mas como um dos moços montou para a mota sem o devido aparelho, eu próprio chamei a atenção para o facto.

Foi então que o Bartolomeu explicou: “quando a polícia apanha alguém sem capacete não paga multa. Manda descer da mota e espeta um par de bofetadas no transgressor. Ou então vai passar a noite na esquadra”. 

Ora aqui está uma pedagogia à timorense.

Concordemos ou não com este processo a roçar a violência, parece que os resultados são animadores, porque nenhum jovem quer passar por essa vergonha.

A par do negócio dos capacetes, convenhamos que há por aqui muita cabecinha pensadora...

14.03.2019, quarta feira  - Carta aos amigos e sócios da Astil


Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Projeto de Solidariedade em Timor Leste
ASTIL ( Associação de Amigos Solidários com Timor Leste)

Estimados Sócios e Amigos

É sempre com prazer que me dirijo a vós dando notícias das nossas atividades, dos êxitos e dos fracassos, dos nossos anseios e esperanças na construção de um mundo melhor para estas crianças e estas gentes. 

Tudo o que temos conseguido em prole deste objetivo tem sido graças à vossa ajuda e colaboração. Ressalto a construção e inauguração da Escola São Francisco em Boebau / Manati, a criação do Programa de Apadrinhamento de crianças/jovens necessitadas (já estão apadrinhadas mais de 50), a reconstrução da casa de família do Sr. Vitor (com as obras em curso).

No próximo dia 19 de março é o 1º aniversário da inauguração da escola que construímos, com valências para o pré-escolar e para o 1º ciclo. Neste momento a escola funciona precariamente, com dois grupos de crianças do pré-escolar, assistidas por duas senhoras que, devidamente preparadas com estágios no jardim “Mundo Mágico”, em Dili, vão garantindo as atividades com as crianças e o funcionamento da escola.

Das 75 crianças matriculadas, apenas nos deixaram ficar as crianças do pré escolar, o que causou um grande desgosto e decepção às famílias aí residentes. As escolas próximas do ensino oficial não reagiram muito bem à criação da nossa escola, temendo que lhes faltassem alunos para as suas turmas. E então tudo fizeram para que os alunos da primária se matriculassem nas suas escolas. Mas tudo se vai resolver, ainda que não à velocidade que nós pretendemos.

Este e outros problemas têm-nos ocupado grande parte do nosso tempo. Trata-se de estabilizarmos o funcionamento da nossa escola, partindo do princípio de que somos a escola número 36 do distrito de Liquiçá, registada no ministério da educação de Timor Leste. 

Temos estatutos próprios aprovados que a definem como “Escola de Ensino Particular Privado”, com referência do ensino da música, do tetum e do português. Vamos tudo fazer para que os estatutos sejam cumpridos.

Permiti que vos fale da principal dificuldade: arranjar professores que queiram lecionar na nossa escola. Compreendemos plenamente as razões da recusa: os acessos (caminho, estradas) são muito difíceis, as condições de habitabilidade são poucas ou nenhumas, a luz prometida nunca mais chega, não há água corrente, etc, etc... 

Para os professores timorenses a gente desenrasca-se. Mas para os professores portugueses é muito difícil de motivar. É urgente criarmos no local uma infra estrutura - Uma Casa Residencial para professores e voluntários, com o mínimo de condições de habitabilidade que permita aí residir a quem aceite a difícil missão de aí ensinar.

Já pedimos informações sobre o orçamento para a construção. E foi-nos dito que mais ou menos 25.000 dólares.

Assim sendo, decidimos avançar a obra. Estamos esperançados que, no começo do novo ano escolar de 2020, já poderemos contar com a casa pronta.

Porque é um projeto solidário, fazemos um apelo a todos os amigos e sócios a espalharem esta notícia e nos ajudarem a angariar fundos económicos para concretizar a construção desta casa residencial. Convidem os vossos amigos (pessoas, empresas, instituições) a associarem-se a esta campanha solidária.

Estamos certos que com a vossa ajuda e colaboração iremos conseguir este grande objetivo. Deus, que é bom pagador, vos recompensará com as suas bençãos.

Com consideração por todos vós, e agradecendo desde já, em nome pessoal e da

ASTIL, um grande abraço

Rui Chamusco



17.03.2019, sábado  - Fora de horas...


O que a natureza nos ensina!... Nós que pensamos que já sabemos tudo, de repente vem um galináceo, dar-nos uma lição de inconformismo, de rebeldia...ou então, visto por outro lado, de cumprimento da missão para que foi destinado.

Ainda não era meia noite, quando o meu vizinho senhor galo se fez ouvir alto e em bom som. Enchendo bem o peito de ar, bate três ou quatro vezes as asas, e cheio de pujança grita: Có có ró có có!... E faz isto umas quantas vezes, sem que algum outro parceiro lhe responda. 

Por isso me questiono: será um galo com alguma missão especial?

 Lembro-me do galo que cantou três vezes quando Pedro negou que não conhecia Jesus; lembro-me do galo que anunciava o nascimento Menino Jesus ( meia noite dada / meia noite em pino / o galo cantando / nasceu o menino). 

Mas este galo timorense, por que canta fora de horas?... É um desalinhado, talvez por rebeldia ou até por contestação. Ora desde sempre ouvimos dizer que o cantar dos galos é o relógio ou o despertador natural, que indica mais ou menos a hora de levantar. E então, quando começa a desgarrada, é um “ver se te avias!”

Cá para mim, a eletricidade e o seu sistema de luz artificial, já trocaram as voltas a estas humildes criaturas. Dia e noite já não são o que era. Já não é quando Deus quer mas sempre que os homens queiram, acendendo ou apagando os interruptores. 

A confusão reinante deve-se à maldade humana e não a estes seres que amavelmente nos despertam, mesmo que fora de horas. Por isso irmão galo canta quando te apetecer, porque mais que não seja, o teu cantar será sempre um hino ao criador...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 14 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28020: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte V: semana de 3 a 9 de março“: "Castelo de cinco quinas / Só há um em Portugal, / Que fica à beira do Coa, / Na cidade de Sabugal"

Guiné 61/74 - P28031: Parabéns a você (2487): Joaquim Fernandes Alves, ex-Fur Mil Art da CART 1659 (Gadamael, 1967/68)

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Nota do editor

Último post da série de 17 de Maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28027: Parabéns a você (2486): António Figueiredo Pinto, ex-Alf Mil Inf do BCAÇ 506 (Bafatá, Nova Lamego e Bambadinca, 1963/65)

domingo, 17 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28030: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (1): A "bidera" (vendedora ambulante) de Bissau (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)




Guiné-Bissau > Bissau > c. março / abril de 2026 > A "bidera" Ramatulai


Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Publicou o João Melo, no passado domingo, dia 10 de maio de 2026, na sua página do Facebook, esta "retrato da Guiné-Bissau", com a seguinte legenda: 

As "bideras" são vendedoras de rua,  fundamentais na economia informal da Guiné-Bissau, comercializando frutas, legumes e produtos essenciais, dependendo dessa venda de rua para o sustento familiar.

Há tensões frequentes entre as vendedoras e a Camara Municipal de Bissau, devido à sua ocupação de passeios e vias públicas,  especialmente na zona de Alvalade, tentando com isso centralizar o comércio no Mercado de Bandim (a alma de Bissau) ou no Mercado Municipal no centro da cidade.

Esta simpática vendedora, de seu nome Ramatulai, está quase sempre no mesmo local a vender essencialmente bananas e mandioca, onde muitas vezes se compra não só por necessidade, mas também com um sentido de cooperação para complemento de renda familiar.

Obrigado, Ramatulai,  por permitires a divulgação da tua foto.

João Melo (ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74); vai todos os anos à Guiné-Bissau, já mais para o fim da época seca (março / abril), em viagem de saudade e solidariedade.


2. Comentário do editor LG:

É uma retrato (des)humano que se multiplica pela África fora, que encontrámos na Guiné do nosso tempo, que voltei a encontrar em março de 2008, quando lá voltei, que eu encontrei em Luanda quando lá fui por várias vezes em trabalho (a partir de 2003), enfim, que os turistas ainda encontram no Mindelo, na Praia, no Sal (embora em menor escala)...

Esta jovem mulher guineense, Ramatulai de seu nome ou apelido (será de origem senegalesa, imigrante, Ramatoulayye ?), sorri com aquela dignidade de quem todos os dias transforma o passeio da cidade de Bissau, no seu "posto de trabalho volante" (e volátil)... A sua banca é "pobre", em variedade de produtos: dois paus de mandioca, uma dúzia de bananas (será que já tinha feito alguns CFA nesse dia ?) ...e um balde de plástico, que parece vazio (mas, não, é onde guarda a garrafa de água)...

Que história de vida será a sua ?  A da luta quotidiana pela sobrevivência, uma história feita de lições  de coragem, persistência, simpatia, humildade, paciência, sorriso franco mas também manha e  pé ligeiro para fugir ao fiscal camarário e à polícia (e, calhar, a outros "predadores sociais").

As “bideras” não são apenas as  simples vendedoras ambulantes de que os turistas gostam de bater uma "chapa" para ilustrar, no regresso a casa, o "exotismo da pobreza" em África: são também uma das colunas invisíveis da chamada economia informal, como bem diz o João Melo. Alimentam bairros, criam redes de solidariedade, dão alma às ruas de Bissau. 

7 em cada 10 mulheres da Guiné-Bissau vivem na pobreza,  pelo que têm de recorrer, para sobreviver,  às atividades informais e ao frágeis sistemas comunitários de apoio (incluindo ONGS, nacionais e estrangeiras).

No sorriso aberto desta Ramatulai que se deixou fotografar pelo nosso João Melo, deixa transparecer também uma lição que aqueles de nós, que ainda conseguem, hoje na Europa, viver com dignidade e liberdade: a pobreza é um círculo vicioso exasperante, mas nem sempre, como neste caso,  consegue derrotar a alegria, a dignidade e a humanidade de quem vive com o  muito pouco que tem.
 
(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)