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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27735: Os nossos seres, saberes e lazeres (722): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se volta a falar da exposição A Coleção da Casa das Histórias Paula Rego com a coleção da artista, visitável até 15 de março. Retiro observações da curadora Catarina Alfaro: "Ao longo da sua carreira, usou o desenho e a pintura para gerar um universo artístico tão disruptivo quanto belo, abordando temáticas que ecoam na vida de cada cidadão na contemporaneidade. Da projeção de tradições e dinâmicas familiares ao papel da mulher em cada época histórica, de contos e mitos à liberdade e à desigualdade, a artista luso-britânica produziu obras artísticas dotadas de integridade, harmonia e esplendor. Pelas diferentes salas passa-se em revista a vida da artista, obras que permitem uma visão panorâmica da sua evolução técnica e estilística, destaca-se o sentido transgressor e a necessidade de desafiar não só os restritos códigos morais vigentes à época, mas sobretudo a opressão sexual das mulheres; nas distintas fases da sua produção artística, os contos tradicionais e os contos de fadas serão sempre uma fonte fértil para o desenvolvimento do seu trabalho criativo (...) Esta exposição não ficaria completa sem que, na sua última sala, se desse uma especial atenção à construção das personagens femininas que se destacam na sua obra pela imponência física e expressividade emocional. Evidenciam-se três obras de uma série dedicada à depressão psicológica, em que a artista capta o sentimento de compreensão, construindo imagens ferozes de solidão e de sofrimento humano."

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243):
Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade - 2

Mário Beja Santos

“Pintar é uma maneira de se lidar com a realidade, com o mundo de todos os dias, pois a pintar absorve-se tudo quanto há.”
Paula Rego


Estão patentes na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, duas exposições de arromba: uma, em que a coleção da artista parece entrar numa sala de espelhos, a coleção do Museu irá desdobrar-se pelos temas dominantes e transversais à sua obra; outra, a obra de Paula Rego é apresentada através da lente da moda e do vestuário, introduzindo pela primeira vez o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem. Vastidão de leituras, justifica que se vá faseando o que o leitor pode visitar até 15 de março, asseguro-lhe que não se arrependerá de ir contemplar Paula Rego em corpo inteiro, entrando mesmo nos bastidores onde os adereços patentes podem ajudar a descodificar este carrossel de emoções, de encontros e desencontros e de uma grande fiabilidade na defesa de causas e desmontagem de tabus.
Na continuação da visita, vale a pena focar o exemplo do trabalho de Paula Rego nos chamados primeiros anos. Entre 1952 e 1956 ela teve a sua formação numa reputada instituição londrina, a Slade School of Fine Art. Experiência que ela considerou traumática, com aspetos entusiasmantes. No entanto, o ensino aí praticado tinha como base a aula de desenho à vista. Recebeu um conselho do diretor da instituição, “ir pintando o que ia cá dentro na cabeça”. É um período fértil, vai projetar nas suas artes plásticas o protagonismo das mulheres, não faltará um carácter assumidamente político à ditadura que ocorre em Portugal, explora a arte figurativa, como se pode ver neste retrato do seu pai.

Fotografia correspondente aos primeiros anos como pintora
Paula Rego, Retrato de José Figueiroa Rego, 1954-55

Uma outra dimensão que a artista explorou e continuará a explorar até ao fim da sua vida prende-se com imagens familiares e enredos ficcionais: contos de fadas como Capuchinho Vermelho, romance A Relíquia de Eça de Queirós, são obras que ganham um novo sentido com elementos e histórias que apenas à artista dizem respeito. O mesmo acontece quando ela evoca as memórias de infância e o contexto familiar, também a rememoração é um tema de referência no seu desenho e pintura, caso das figuras maternais e imagens femininas familiares.
Paula Rego, sem título, 2001
Paula Rego, Encontro com Adélia, 2013, da série “A Relíquia”

Passado o período de afirmação, Paula Rego na exploração de múltiplos domínios dará imensa atenção aos contos tradicionais e contos de fadas. A sua arte pictórica nessa fase envolve histórias violentas e cruéis, esta aproximação sistemática aos contos de fadas e aos contos populares leva-a a estabelecer como plano de trabalho quer essas histórias como modos de composição onde não falta o enredo cénico, um embate entre uma arte aparentemente ingénua e a presença de grupos que aparentam estar em ensaios, gerando no espetador um aturdimento entre o indivíduo, um pequeno grupo e a tentativa de entendimento do quadro geral – qualquer coisa como um inconsciente coletivo, um ponto alto da psicanálise.
Paula Rego, O Ensaio, 1989

Na viragem do século vemos que as personagens femininas criadas pela artista se destacam pela sua imponência física e emocional. Os corpos revelam vivências e emoções, entram imediatamente no olho do espectador, numa série de obras em que criou poderosas imagens que exploram a dimensão paradoxal da depressão psicológica, podemos ver que são registos pessoais de expressão física do sofrimento associado à depressão. Algo que a artista vivenciou: “Em 2007 passei por uma depressão particularmente profunda; tentei encontrar a saída através do desenho e fiz estas obras.”
Paula Rego, Três, 2007, da série “Depressão”
Paula Rego, da série “Depressão”, 2007

A rememoração da infância pesa enormemente em todo o seu trabalho. Um exemplo pode ser dado numa série de gravuras intitulada As pranchas curvas, seis águas-fortes e águas-tintas, tem a ver com um poema do poeta francês Yves Bonnefoy. As imagens criadas a partir desta narrativa poética põe no centro uma criança sozinha no mundo que deposita num estranho, um barqueiro, as suas esperanças. A artista estabelece paralelismo entre a narrativa de Bonnefoy, histórias de figuras religiosas e episódios da sua história pessoal. São também imagens que revelam a esperança na salvação das crianças que procuram um destino diferente no outro lado do rio, auxiliadas na sua travessia por intrépidos barqueiros, estes parecem ser uma espécie de entidades mágicas.
Paula Rego, Manobrando o barco, 2009

Se no início da sua carreira, Paula Rego escolheu motivos políticos declarados, como a denuncia da ditadura salazarista, a partir dos anos 1990 ela começa a encenar no seu estúdio histórias num processo onde não falta uma dimensão espetacular. Em 2008, ela exprime pela primeira vez a sua vontade de expor um conjunto de desenhos com as respetivas cenografias. Isto acontece num momento coincidente com a sua plena maturidade artística, alcançada em Carga Humana, obra que assume a mesma escala das suas grandiosas pinturas a pastel.
Paula Rego, Carga Humana, 2007, um tríptico sobre o tráfico humano

Vamos agora despedir-nos desta primeira exposição e antes de entrar noutra intitulada O vestuário na obra de Paula Rego, sento-me confortavelmente num banco diante de uma imensa tapeçaria intitulada Batalha de Alcácer-Quibir, obra datada de 1966, aqui se mostra um pormenor da parte central da obra. Mas que projeto foi este?
Pormenor central da tapeçaria Batalha de Alcácer-Quibir.

Esta tapeçaria foi produzida na sequência de uma encomenda para um hotel no Algarve, mas acabou por não ser adquirida pelo dono da obra. Paula Rego apropriou-se de diversos meios técnicos e tradições: o uso da linha e da agulha intermedeia-se com a sobreposição de formas, devedora da imaginação e da intuição, mantendo-se a violência da utilização da tesoura e o rasgar apressado dos retalhos como elemento comum à prática da pintura-colagem. A artista inscreve no tema escolhido intenções de denúncia da demência da guerra, nem se poupa a histeria, esboçada no grito de guerra de uma fisionomia que se assemelha a um típico galo de Barcelos. Há faixas vermelhas a representar sangue que jorra de uma ferida mortal. É um trabalho singularíssimo, um itinerário que Paula Rego não voltou a trilhar. E vamos agora para a exposição O vestuário na obra de Paula Rego.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 7 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27712: Os nossos seres, saberes e lazeres (721): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (242): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

1. Mensagem de 12 de Fevereiro de 2026 do nosso camarada João Crisóstomo, colaborador permanente, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1439 (Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67); relações externas na diáspora lusófona; natural de Torres Vedras; luso-americano que vive em Nova Iorque desde 1977; ativista social, conhecido por causas como Foz Côa, Timor Leste, Aristides Sousa Mendes:

Caro Luís Graca,

O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o dia dos namorados”, é o ‘Dia da amizade”: uma ocasião para contactar os meus amigos, fomentar amizades presentes ou mesmo passadas que precisam de ser alimentadas para não caírem no esquecimento. Amigos e boas amizades são o melhor que a vida me tem proporcionado; e eu quero que eles saibam da minha satisfação em os ter como amigos e da minha gratidão pela amizade que me têm concedido.

Com isto em mente, tentando contactar os nossos camaradas, fiz dezenas de telefonemas para os quatro cantos do mundo, da Holanda ao Canadá, mas mais uma vez com pouco sucesso que, parece, poucos são os que ainda apanham o telefone. Mas mesmo assim valeu a pena: se de alguns já só consegui saber notícias através de familiares, com outros foi uma alegria falar "ao vivo” com o Freitas na ilha da Madeira, o Henrique Matos no Algarve e alguns outros que me deram o prazer de dois minutos para, relembrando coisas, matar as muitas saudades dos tempos em que vivemos juntos. De outros, como do Cherno Baldé, recebi uma resposta que me encheu de alegria. Até o seu número de telefone me enviou! Se ir novamente à Guiné-Bissau não me parece ser mais possível concretizar, vou pelo menos tentar falar com ele um dia destes.

Se quiseres aproveitar algo disto (cortando e editando como achares pertinente)… que este é acima de tudo para "dar sinal de vida" e enviar aos nossos camaradas o abraço virtual que não posso dar pessoalmente. A todos os que lerem este… de coração um grande abraço.

Aliás parece-me que esta esta idéia de chamar “Dia da Amizade” a este dia não é de todo despropositado: "Thank you very much for your kind message in anticipation of February 14, as the Day of friendship”, foi parte da resposta do Sr. Arcebispo Gabriele Caccia, Representante do Vaticano nas Nações Unidas, a quem eu enviei uma mensagem. O facto de Sua Excelência mencionar "February 14, as the “Day of friendship” foi para mim quase um "reconhecimento oficial”…

No que pessoalmente nos diz respeito… não nos podemos queixar: embora sem a força e energia que no passado nos tem proporcionado eventos de maior amplitude, continuamos fazendo o que está ao nosso alcance. Como te disse,  a Vilma e eu fomos no dia 10 ajudar a celebrar (embora com alguma antecipação) o que eu chamo "Dia da Amizade” em vez de ‘dia dos namorados” para abranger toda a gente, mesmo que não tenham nenhuns “valentinos" nas suas vidas, aos “seniors" da nossa rua.

Entre as muitas fotos/memórias lá apostadas nas paredes, encontrei esta foto que junto, tirada em 2018 no dia em que, com o Rui Chamusco que cá estava na ocasião, fomos celebrar o Natal desse ano. As outras fotos foram tiradas neste dia. Como podes ver, a Vilma foi imediatamente absorvida e dominada pelo seu espírito de artista, e sentando-se numa das mesas juntou-se logo aos “seniors" que neste dia participavam numa sessão de arte dedicada à pintura…

Bom, já chega por hoje. Vou tentar mais alguns telefones…
Para ti, Alice, e teus queridos um bem apertado…
dos João e Vilma

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Nota do editor

Último post da série de 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27667: Efemérides (382): Conforme noticiado oportunamente, os nossos amigos e camaradas, Luís Graça e José Marcelino Martins, foram agraciados, respectivamente, com a Medalha de Honra ao Mérito da Liga dos Combatentes (grau Ouro) e Medalha de Honra ao Mérito (grau Prata), durante as Cerimónias comemorativas do 107.º aniversário do Armístício da Grande Guerra e 51.º aniversário do fim da Guerra do Ultramar

Guiné 61/74 - P27733: Documentos (54): A retirada de Madina do Boé (José Aparício, ex-cap inf, cmdt CCAÇ 1790, Madina do Boé, 1967/68 + CECA, 2014)


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé: vista aérea, tirada de DO 27, c. 1967.  As tão faladas colinas do Boé... "O resto era deserto", diz o fotógrafo, Manuel Coelho, um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68) (natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem 47 referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).

Foto (e legenda): © Manuel Coelho  (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 
1. Há operações que ficaram na nossa memória, por uma razão ou outra, em geral por más razões... A Op Mabecos Bravios (retirada do aquartelamento de Madina do Boé, sector L3, de 2 a 7 de fevereiro de 1969) é uma daquelas que  marcaram para sempre os combatentes da Guiné, que nela participaram ou que dela tiveram conhecimento, sendo seus contemporâneos. 

Marcou-nos a todos, aos daquele ano de 1969,  pela tragédia que ocorreu no rio Corubal, em Cheche, na derradeira travessia feita pela jangada de serviço. Durante a noite de 5 para 6 e ao longo da madrugada desse dia passaram por ela 55 viaturas, todas carregadas no limite, e algumas  centenas de homens.  À luz de holofotes, em condições precárias de segurança.


Mas faltam aqui ainda outras versões  sobre a retirada de Madinado Boé. Como se sabe, continua ainda haver  controvérsia sobre o  origem, as causas do acidente que provocou 47 vítimas mortais. 

2. Encontrámos esta versão,  que vamos reproduzir a seguir, no livro da CECA (2014), com o valioso testemunho do ex-comandante da infortunada CCAÇ 1790,  o então cap inf José Aparício, hoje cor inf ref, e antigo comandante geral da PSP de Lisboa.

Corrigimos as datas, que não estão corretas. Alterámos o topónimo usada pela CECA (Comissão para Estudo das Campanhas de África), embora na carta de Jábia o topónimo grafado seja Ché Ché. No nosso blogue temos usado a grafia Cheche (que tem mais de 7 dezenas de referências).

Já publicámos o depoimento do comandante da operaqção, o então cor inf Hélio Felgas (1920-2008). Publicámos também nesta série, "Documentos", o testemunho de dois ex-alf mil da CCAÇ 2405, o Paulo Raposo e o Rui Felício, nossos grão-tabanqueiros.

Continuará  a faltar-nos aqui o prometido testemunho do ex-alf mil José Luís Dumas Diniz, da CART 2338, responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando da retirada de Madina do Boé, e a quem competia cumprir as normas de segurança constantes da Ordem de Operaçáo, redigidas pelo cor inf Hélio Felhas, e superiorimente aprovadas pelo Com-Chefe que, de resto, fez várias visitas de héli, às NT,  ao longo da Op Mabecos Bravios.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché (grafado também como Cheche), na margem esquerda do Rio Corubal. Pela carta, o rio aqui teria 150 metros de largura.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)






Guiné-Bissau > Região do Boé > Rio Corubal > 30 de junho de 2018 > Rampa de acesso, na margem direita... Lavadeiras e canoas no rio, Veja-se a cor da água, esverdeada, na época das chuvas. Em 6/2/1969, o destacamento de Cheche ficava do outro lado, na margem sul (ou esquerda). E não havia rampa nenhuma... Segundo a análise técnica destas fotos, com a ajuda de uma ferramenta de IA (ChatGPT), teríamos as seguintes medidas deste troço do rio, em 30/6/2018:

Largura: ~150 metros | Profundidade no centro do canal: ~5 metros | Profundidade junto às margens: 0,5–2 metros

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


 A retirada de Madina do Boé

José Aparício (cap inf, cmdt, CCAÇ 1790, 
Madina do Boé, 1967/69) +  CECA, 2014)


Op Mabecos Bravios (de 2 a 7 de fevereiro de 1969)

Forças envolvidas:

Estas forças, com APAR [apoio aéreo], efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Canjadude - Cheche - Madina do Boé ,  e regresso a Nova Lamego, pertencente à Zona Leste, Sector L3 [BCAÇ 2835].

Foi accionada mina A/C no cruzamento de Beli, sem consequências; e foram detectadas e destruídas 2 minas A/C entre Cheche e Canjadude. 

Durante a operação, Madina foi flagelada 4 vezes sem consequências.

No regresso, na travessia do rio Corubal, um acidente com a jangada que transportava forças de segurança da retaguarda, provocou a morte de 47 militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 milicias).


Acidente no rio Corubal em 6 [e não 8] de Fevereiro de 1969 - Dados fornecidos pelo tenente-coronel José Ponces de Carvalho Aparício, à época Cmdt da CCaç 1790,  aquartelada em Madina do Boé.

" Na Guiné-Bissau nos anos 60 a travessia do Rio Corubal para a região do Boé era feita, como hoje, junto à povoação do Cheche  onde durante a guerra se encontrava ali em permanência uma força militar de um pelotão de infantaria, reforçado com uma secção de morteiros de 81 mm.

Esta travessia era então obrigatória para a rendição das forças militares portugueses estacionadas em Madina do Boé e Beli, e ainda para o reabastecimento daquelas forças que na época das chuvas (cerca de 6 meses) ficavam completamente isoladas.

Por isso, durante a época seca realizavam-se normalmente 2 colunas por mês, cada uma escoltada por uma companhia reforçada com um pelotão de autometralhadoras "Fox" ou "Daimler" e com protecção aérea permanente.

Cada coluna era constituída por um elevado número de viaturas, cerca de 20 a 30, carregadas com munições e reabastecimentos.

A travessia do rio Corubal era então feita por uma jangada constituída por uma plataforma sobre 2 canoas; um longo cabo ligando 2 pontos fixos instalados em cada margem corria numa roldana instalada na plataforma; a impulsão necessária para mover a jangada era dada pela força braçal dos militares puxando manualmente o cabo. Como segurança do movimento, uma embarcação "Sintex",  com motor fora de bordo, acompanhava lateralmente cada movimento de vaivém, pronta para qualquer emergência.


Em fevereiro de 1969 após a decisão do Comando-Chefe da Guiné de abandonar todo o Boé [Directivas n° 1/68 de 1 jun, 20/68 de 25 jul e 59/68 de 26 dez do Cmdt-Chefe] - sendo que  Beli já tinha sido abandonado meses antes retirando para Madina do Boé todas as forças ali estacionadas - foi desencadeada a Op Mabecos Bravios sob o comando do agrupamento nº 2957 [cmdt: cor inf Hélio Felgas]. 

Uma enorme coluna com cerca de 50 viaturas pesadas escoltadas por 2 Companhias de Caçadores 
 [,CCAÇ 2403 e CCAÇ 2405]  , e dois pelotões de autometralhadoras  [Pel Rec Daimler 1258, reduzido], e com apoio aéreo permanente, chegou a Madina do Boé na tarde de 07 de fevereiro de 1969 [lapso do autor, deve ser 4 e não 7] [, perfazendo cerc de 40 km].

Por decisão do comandante da operação, o número de dias previsto para a sua realização foi reduzido de vários dias, para libertar os meios aéreos empenhados.

Em vez da corda inicial, o movimento da embarcação era garantido pelo "Sintex" com motor fora de bordo amarrado à jangada, do lado de jusante do rio, e operado por um sargento de Marinha requisitado para o efeito. A velha jangada esteve sempre acostada na margem direita.

Nas travessias do rio durante a noite, com as viaturas foram também indo passando secções dos militares empenhados. 

No início da manhã de 6 [e não na tarde de 9]  de Fevereiro de 1969, na última e fatídica viagem, embarcaram a parte que restava dos militares das CCaç 2405 e da CCaç 1790, cerca de 80 a 90 militares  [na realidade, eram 4 Gr Comb, dois de cada subunidade, no máximo 120 homens].

A meio do rio, uma aceleração brusca do motor do "Sintex" fez erguer a frente de bombordo da jangada; tendo sido dada logo ordem para reduzir a velocidade, a jangada fez o movimento pendular inverso, desta vez mergulhando ligeiramente no rio a frente de estibordo, as canoas ficaram cheias de água mas o tabuleiro ficou flutuando, com os militares a bordo com água pelos tornozelos.

Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de 47 militares das duas Companhias.

O Comandante da Operação 
 [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Cheche para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego.

O acidente em causa deu origem de imediato a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa no 3.° Tribunal Militar Territorial.

O julgamento durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano,  comandante do Destacamento estacionado no Cheche [pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69,  o José Luís Dumas Diniz] ".
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Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné -  Livro I  (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014),
pp. 353-355. 
 
(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos, itálicos,  título: LG)


2. Não havia nenhum major  (*) no Cmd Agrupamento nº 2957, a quem coube o planeamento e execução da Op Mabecos Bravios.  O Cmd Agr 2957 era uma estrutura leve, com no, topo, um coronel (Hélio Felgas) e um CEM (Chefe de Estado Maior), que na época devia ser o ten cor cav Manuel Xavier Ferreira Coelho

Ficha de unidade:

Comando de Agrupamento n.º 2957
Identificação Cmd Agr 2957
Unidade Mob: RAL I - Lisboa
Cmdt: Cor Inf Hélio Augusto Esteves Felgas | Cor Art José João Neves Cardoso
CEM: TCor Cav Emanuel Xavier Ferreira Coelho | TCor Inf Artur Luís Félix Teixeira da Silva
Divisa: -
Partida: Embarque em 09Nov68; desembarque em 15Nov68 | Regresso: Embarque em 19A9070

Síntese da Actividade Operacional

Em 18Nov68, rendendo o CmdAgr 1980,assumiu a responsabilidade da zona
Leste, com sede em Bafatá, e abrangendo os sectores de Bambadinca, Bafatá e
Nova Lamego e depois os novos sectores, então criados, com a consequente
reformulação dos respectivos limites, em Piche, em 24Nov68 e em Galomaro,
em 07Nov69. 

De 11Mar69 a 11Out69 e de 26Jul69 a 06Nov69, foram ainda constituídos,
transitoriamente, na zona Leste, o COP 5 e COP 7, respectivamente e
criado, em 26Jun70, o COT1.

Desenvolveu a sua actividade de comando e coordenação dos respectivos
batalhões e das forças atribuídas de reforço, planeando, impulsionando e controlando a respectiva actuação que foi, essencialmente, de patrulhamento, reconhecimento e de contacto com as populações e de acções sobre grupos inimigos infiltrados, com destaque para as operações "Lança Afiada", "Baioneta Dourada" e "Nada Consta", entre outras. 

Em 02/07Fev69, planeou e executou a operação"Mabecos Bravios", respeitante à evacuação dos aquartelamentos de Madina do Boé, Béli e Ché-Ché.

Em 01Ag070, já na fase de sobreposição com o Cmd Agr2970, passou a integrar
o CAOP Leste, então organizado por despacho ministerial de 20Jun70, pelo
que foi extinto e o seu pessoal recolheu a Bissau, a fim de aguardar o embarque de
regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº  121 - 2ª Div/4ª Sec., do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 35.
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27730: Documentos (53): A retirada de Madina do Boé (Rui Felício, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70) 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio faz um resumo da situação de Cabo Verde, Guiné e S. Tomé e Príncipe em meados do século XIX, lançado-se depois na análise das principais causas da decadência do Império Português. Observa que quando foi descoberto o caminho para a Índia, os portos de África passaram a ser apenas portos de escala para as armadas; e descoberto o Brasil, a colonização encontrou em África o viveiro onde ia procurar os braços necessários para as minas e engenhos americanos, deu-se uma concorrência feroz no comércio negreiro, África despovoou-se. E tece as considerações que se prendem com a dominação espanhola, a ausência de um plano colonial e a abolição das ordens religiosas. Mas também se pode admitir um outro fator: a escolha dos governadores nem sempre se atendeu às qualidades e valor dos nomeados, eram escolhas que obedeciam a influências na corte, tudo se agravou com a guerra fratricida entre miguelistas e liberais. E o Marquês do Lavradio diz também o seguinte: "A péssima administração financeira do Estado, a falta de energia, o fatal hábito de fazer tudo fora de tempo, são outras tantas causas do estado da decadência." É neste quadro que se inicia a Era da Regeneração e a diplomacia portuguesa ir-se-á confrontar com ambições das grandes potências coloniais, será o caso da Questão de Bolama e a Questão de Lourenço Marques, que iremos ver proximamente.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 2

Mário Beja Santos

Incúria minha, desconhecia inteiramente a existência desta obra que saiu do punho do 6.º Marquês do Lavradio, que não deixa de causar uma certa estupefação, na data da sua publicação pela Agência Geral das Colónias, em 1936, já corria a torrente do nacionalismo imperial do Estado Novo, feita de glórias, de guerreiros invictos e de feitos estrondosos, nunca se questionando que aquelas parcelas exibidas no mapa tinham verdadeiramente 500 anos de presença portuguesa; e agora o Marquês do Lavradio vinha dizer que não era exatamente assim. Deu-se uma súmula do estado das colónias de Angola e Moçambique em 1851 e a narrativa vai agora prosseguir a partir de Cabo Verde.

“Cabo Verde fora sempre mais pobre e miserável de todas as possessões portuguesas. A sua colonização começou em 1562 com alguns casais do Algarve e Alentejo, a que e juntaram casais da Guiné das tribos Balanta, Papel, Bijagó, Felupe, Jalofo, dando origem a uma raça especial variável de ilha para ilha. Durante longos anos a sua importância resultava principalmente de ser um entreposto de escravos e a ilha de Santiago fora muito florescente quando os navios com escravos eram obrigados a ir ali pagar os quartos e vintenas.

A grande maioria dos terrenos, ainda os mais abundantes de água, e nas ilhas mais saudáveis, como S. Vicente, S. Nicolau e Fogo, estavam incultos; no interior das ilhas não havia estradas e as comunicações entre as diferentes ilhas e com a capital eram morosas e difíceis. João de Fontes Pereira de Mello, assumindo o Governo da Província em 1849, descreve o estado em que a encontrou nas seguintes linhas:
‘Achei exaustos os cofres públicos, o crédito perdido pelo não pagamento em Lisboa das letras sacadas aqui pela Junta da Fazenda; os oficiais e mais empregados públicos com cinco meses de atraso e o clero com treze; devendo-se um mês de pré, quinze dias de pão e onze contos de reis de massas aos soldados. A tropa estava desgostosa pelos descontos que são obrigadas a fazer as praças de pré (militares de baixa patente) para ocorrer à sua maior precisão de vestir e calçar. E finalmente encontrei a necessidade de mandar render os destacamentos da Guiné e a impossibilidade de acudir a este importante serviço’.”


O autor, na sequência de outros depoimentos refere os sacerdotes imorais, ébrios e debochados, homens sem vocação, o maior rendimento da Província, no passado, provinha da urzela.

Passando agora para a Guiné, dirá o autor que estava muito reduzida da sua antiga grandeza, marchava todos os anos para uma decadência total. E conhecia um apertar de cerco de franceses e ingleses. Dependia do Governador-Geral de Cabo Verde. Não tinha fronteiras explícitas, os seus limites só viriam a ser definidos pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. É relevada a figura de Honório Pereira Barreto, comprara com o seu próprio dinheiro parcelas do território, fizera convenções que davam exclusivamente aos portugueses o direito de navegar e comerciar em certos pontos. Denunciou a ocupação da região do Casamansa, enviou cartas insistentes ao Governador de Cabo Verde, nada teve andamento. E o autor também explica o comportamento dos ingleses que disputavam a ilha de Bolama, vai referir uma série de peripécias que nós já temos conhecimento.

Falando das ilhas de São Tomé e Príncipe, desfaz-se em elogios:
“São, juntamente com o Brasil a maior coroa de glória da dominação portuguesa. Desde que as ilhas de São Tomé e Príncipe foram bem povoadas, em 1493, começaram logo sendo uma colónia agrícola importante; a primeira cultura experimentada foi a cana sacarina, transplantada para ali da ilha da Madeira; o grande desenvolvimento que essa cultura teve no Brasil aniquilou por completo as duas ilhas, forçando os colonos a experimentar novas culturas. Em 1800, o Governador Lagos mandou ir do Brasil sementes de café; a cultura desenvolveu-se rapidamente, a produção, devido à fertilidade do solo, compensou largamente a iniciativa, a qualidade premiou os agricultores e o café das duas ilhas do Equador em breve as tornou famosas.

Em 1822, foi introduzida a cultura do cacau, que devido a iniciativas particulares se estendeu pelas duas ilhas, transformando-as numa modelar colónia de plantação e dando-lhe o primeiro lugar nas colónias de plantação de toda a costa africana. As medidas repressivas do tráfico de escravos criavam grandes dificuldades ao recrutamento de serviçais para S. Tomé; embora os tratados com a Inglaterra autorizassem a ida de negros livres de Angola, os cruzeiros ingleses originavam conflitos constantes, davam origem a reclamações diplomáticas e impediam que o recrutamento se fizesse com regularidade.
Nas ilhas havia sossego, tranquilidade e segurança individual. Os naturais das ilhas, descendentes dos negros de Angola e judeus de Espanha, eram ignorantes, fanáticos e corrompidos e viviam de roubo e da rapina.”


O autor vai agora explanar-se sobre as causas principais da decadência: a escravatura, dizendo que o lucro que os negreiros ofereciam não ficavam nas colónias e as receitas que o Tesouro arrecadava estavam muito longe de compensar o prejuízo que resultava da saída de tantos homens válidos que iam enriquecer com o seu trabalho domínios alheios; a dominação espanhola, entrámos em decadência com o desastre da Invencível Armada, fechado o porto de Lisboa ao comércio do inimigo, este foi procurar conquistá-lo nos mares, Castela levou-nos mais de 7 mil peças e havia 900 bocas de fogo que Sevilha guardava nos seus depósitos com as armas de Portugal, e escreve o Marquês do Lavradio:

“Foi sobretudo na Índia e nos últimos dez anos de dominação espanhola que os holandeses e ingleses mais nos perseguiram, mas as duas costas africanas tiveram de sofrer duros ataques, e o nosso domínio no interior foi fortemente abalado.
Em dez anos o nosso comércio do Oriente passou quase por completo para as mãos dos holandeses e quando, em 1669, se assinou finalmente a paz com os Países Baixos, estes guardaram o que nos haviam tomado na Índia, renunciando ao Brasil, donde os havíamos expulsado, mediante uma indeminização de 3 milhões de florins.”


Continuando as causas da decadência, refere o autor a completa ausência de um plano de colonização ou de administração colonial. E simplifica:
“A doação feita a Paulo Dias de Novais (neto de Bartolomeu Dias) de 35 léguas de costa de Angola, do Cuanza para o Sul, sem limite para o interior, com obrigação de ali estabelecer cem famílias e levar quatrocentos homens válidos e seis cavalos (doação feita por El Rei D. Sebastião) não pode ser considerada como obedecendo a um plano de administração colonial, antes deve ser olhada como um ato isolado e como uma mercê arrancada ao Rei com fins bem diferentes daqueles que se encontravam na carta de doação”; e a última causa invocada pelo autor foi a abolição das ordens religiosas; desaparecidas as missões, com elas desapareceu a obra de séculos, caíram em ruína monumentos levantados pelos missionários, morreram plantações por eles feitas, diminuiu o nosso prestígio no sertão, e a falta de missionários portugueses facilitou mais tarde a Livingstone as missões protestantes que tão funestas nos foram.

De seguida o autor vai abordar questões diplomáticas começando pela Questão de Bolama.


D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27731: E as nossas palmas vão para... (35): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16.º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte VII

Foto nº 53 > Esta a mesa do Jorge Ferreira, o "calmeirão", à direita de telenóvel em punho... A seu lado, o António Graça de Abreu, com o microfone, anunciando que se vai cantar os parabéns a você, à menina Tabanca da Linha que fazia 16 anos, nesse dia, 14 de janeiro de 2026.


Foto nº 54 > à esquerda, em segundo plano o Manuel Joaquim (e esposa), em animada discussão com os seus companheiros de mesa... Reconheço o Paraíso Pinto (Lisboa) e o Jorge Ferreira à direita


Foto nº 55 >  O  Manuel Joaquim (e esposa)

 Foi uma grande alegria para todos nós (e para mim e a Alice, em especial) poder abraçar o Manuel Joaquim e a esposa... Problemas de saúde (do foro oftalmológico) tem-no impedido, há muito, de comparecer aos nossos convívios. Tem 110 referências no nosso blogue.

É autor, como se lembram, de uma das mais belas histórias, com fim feliz, contadas no nosso blogue. Foi fur mil armas pesadas inf da CCAÇ 1419 (Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67), hoje professor do ensino básico reformado: trouxe para a sua casa e educou, como padrinho, o "nosso minino Adilan", o Zé Manel, o José Manuel Sarrico Cunté...


Foto nº 56 > Paraíso Pinto, Jorge FerreirCe António Oliveira Pena (Caxias), mais um 'pira".


Foto nº  57 > Um "periquito",a partir de agora Um"Magnífico"Não me parece, já o tenho visto noutros convívios... Há sempre uns mais assíduos do que outros... Peço desculpa se não reconheço de imediato as caras... Até porque às vezes vêm com um novo visual...


Foto nº 58 >  Alguns dos pais-fundadores" da Tabanca da Linha, em 14 de janeiro de 2010, há 16 anos: ao fundo, o Zé Carioca, o Mário Fitas e o António F. Marques. Na mesa estão sentados dois camaradas da mesa do Manuel Joaquim... O do meio é o José Iná Ribeiro (Linda-a-Velha). À sua direita, o Victor Jesus Carvalho (Linda a Velha)


Foto nº 59> Da esquerda para a direita,  um outro camarada cuja identidade me escapa e o Paraíso Pinto 

Magnífica Tabanca da Linha > Restaurante Caravela d'Ouro > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63.º almoço-convívio > 16.º aniversário

Fotos (e legendas) © Manuel Resende (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.


1. Continuação da fotorreportagem do último almoço-convívio da Tabanca da Linha, Algés, 16 de janeiro de 2026, em que participaram 73 "magníficos" dos 76 inscritos. Fotos do Manuel Resende, régulo da Tabanca da Linha. 

Já chegámos à foto n.º 59...  E já falámos de 7 mesas. Cada mesa em geral leva 9/10 convivas. Deve faltar mais uma mesa, que fica para o próxim o poste  (*). O melhor é pedir a ajuda do Manuel Resende, que tem a preocupção de fotografar esta gente toda, logo no início do almoço. E não falha nenhum.

Bom, começámos no dia 17 de janeiro. E comprometemo-nos a pôr  a fotografia e o nome de toda malta que foi à festa dos 16 anos da Magnífica Tabanca da Linha. Missão quase cumprida. E, mais uma vez, palmas para o nosso régulo.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27705: E as nossas palmas vão para... (35): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte VI

Postes anteriores:

30 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27686: E as nossas palmas vão para... (34): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte V

24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27668: E as nossas palmas vão para... (33): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte IV 

21 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27657: E as nossas palmas vão para... (32): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algès, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte III

19 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27648: E as nossas palmas vão para... (31): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algès, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte II

18 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27647: E as nossas palmas vão para... (30): António Brito Ribeiro: loriguense a viver a em São João do Estoril, Cascais, benemérito da Magnífica Tabanca da Linha, fornecedor não-oficial de... "old bottles" para as ocasiões especiais

Vd, poste de 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P26744: E as nossas palmas vão para... (29): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convívivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algès, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte I

Guiné 61/74 - P27730: Documentos (53): A retirada de Madina do Boé (Rui Felício, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)


O Rui Felício, que foi uma das vítimas do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão em 6/2/1969), é um dos históricos do nosso blogue.

Entrou para a Tabanca Grande em 12/2/2006 (a par do Paulo Raposo). Ex-alf mil, CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), tem 35 referências. Advogado, é autor do blog Escrito e Lido 2010-2014, colaborou no blog Encontro de Geraçóes do Bairro Norton de Matos . É um talentoso contador de histórias, autor da série "Estórias de Dulombi". Natural de Coimbra, vive na Ericeira, Mafra.

A retirada de Madina do Boé

por Rui Felício (*)


1. Preâmbulo

Acabei de ler um texto escrito pelo camarada José Martins onde relata a sua experiência na zona de Madina do Boé (**).

Embora tenha reconhecido que não assistiu diretamente ao que se passou no célebre e lamentável desastre do Cheche, ocorrido no fatídico dia 6 de Fevereiro de 1969, o José Martins conheceu bem o local e a região e desenvolveu a sua descrição socorrendo-se de relatos e documentos alusivos ao sucedido.

E nota-se pelo seu relato que sofreu muito, e que ainda hoje sente as marcas do desastre, passados 37 anos sobre a sua ocorrência.

Ninguém, bem formado e sensível, poderia nunca, de resto, ficar indiferente a semelhante tragédia, ainda que, como o narrador José Martins, não tenha dela sido testemunha ocular.

Imagine-se então a ferida profunda que aquele desastre deixou a quem, como eu e muitos outros, foi não só testemunha ocular mas também, e principalmente, interveniente e vítima do colapso da artesanal jangada que servia de transporte aos militares e equipamentos que participaram na complexa, perigosa e cansativa operação de resgate da Companhia de Caçadores [CCAÇ 1790que se evacuou do célebre aquartelamento de Madina do Boé.

Desastre onde pereceram, segundo as estatísticas oficiais, 47 militares, onze dos quais, do pelotão que eu comandava… Permito-me destacar dois deles pelas relações especiais de amizade e de confiança que neles depositava, sem esquecer obviamente a dor causada pela morte de todos os outros:

(i) um, o furriel Gregório [dos  Santos Corvelo  Rebelo [,natural de Terra Chã, Angra do Heroísmo], açoriano de sotaque cerrado e quase ininteligível,  que assumia as funções, embora não protocolares, de meu substituto em todas as circunstâncias, no comando do pelotão, e que mantinha a orgânica disciplinar e operacional da pequena unidade militar;

(ii) o outro, o soldado Octávio [AugustoBarreira, [,natural de Suçães, Mirandela], transmontano de gema, homem rude, de uma só palavra, de têmpera sã, de antes quebrar que torcer, mas capaz de morrer para salvar a vida do seu amigo, e a quem eu atribuira as funções, também não protocolares, de meu guarda-costas.

Quem passou pela guerra colonial sabe que a escolha do guarda-costas recaía invariavelmente no soldado em que o alferes depositava maior confiança e amizade.

Aliás, como também é sabido, a designação de guarda-costas não tem a mínima conotação com a ideia que na vida civil se faz de alguém com este titulo ou funções. O guarda-costas era, acima de tudo, o soldado às ordens, o confidente, o amigo… E muito menos, ou quase nada, o protector da integridade fisica do alferes, ao contrário do que se possa pensar.

A perda destes treze homens, que recordo com saudade e dor, sempre que a memória da Guiné me vem à lembrança, e que ajudei a formar para a guerra, em Abrantes e Santa Margarida, após oito meses de convivência próxima nas diversas tabancas onde o pelotão esteve destacado, foi um choque tremendo, inolvidável, cuja lembrança ainda hoje me faz arrepiar a alma e assomar as lágrimas.

2. Sobre o desastre do Corubal

Feito o preâmbulo, entro de imediato no motivo que me levou a servir-me do espaço disponibilizado pelo camarada Luís Graça a quem, sem o conhecer pessoalmente [conhecemo-nos depois no nosso I Encontro Nacional da Tabanca Grande, em 15 de outubro de 2006, na Ameira], desde já transmito o meu aplauso pela feliz e dinâmica iniciativa da criação deste blogue.

É que é importante que seja a nossa geração, aquela que interveio, por obrigação ou por convicção ou por ambas as coisas, na guerra da Guiné, que tem que dar testemunho o mais exacto possível daquilo que por lá se passou.

Se assim não for, corremos o risco de a história ser deturpada, porque feita com base em documentos ou relatos nem sempre seguros, nem sempre fiéis… É por isso que, correndo o risco de desencadear alguma polémica, que não pretendo, achei que devia esclarecer alguns pontos do relato feito pelo José Martins a que atrás aludi.

Deduz-se daquele relato [do José Martins], publicado no blogue, que o desastre teria acontecido essencialmente devido a três factores:

(i) os militares descomprimiram e tentaram encher os cantis com água do rio, o que terá provocado, depreende-se, o desiquilíbrio da estabilidade da jangada;

(ii) teria sido ouvido um som abafado, semelhante a uma morteirada, que teria provocado agitação entre os militares e, em consequência, desiquilibrado a jangada;

(iii) que, após o acidente, a água do Rio Corubal terá tomado um tom avermelhado, querendo com isso dizer-se que os crocodilos que habitavam as águas do rio, teriam consumado a morte dos militares que caíram à água.

A versão dos acontecimentos, veiculada pelo José Martins, assenta, como já se disse, em relatos e documentos sobre os factos, dado que este camarada, como ele próprio confirma, não assistiu ao que se passou. Mas, não obstante a presumível credibilidade das fontes a que recorreu, posso garantir que não foi exactamente assim que as coisas se passaram.

E digo isto com a mais profunda convicção e a mais inabalável certeza de alguém que estava na jangada, caiu à água, nadou durante uns cinco minutos e a ela retornou após a mesma se ter de novo equilibrado.

São factos que não se apagarão jamais da minha memória, por mais anos que viva, e apesar de não estar de posse de documentos que os comprovem...


3. O fime da SIC sobre o desastre do Rio Corubal

O mais curioso é que no filme, da autoria de José [ManuelSaraiva, realizado por Manuel Tomás, que foi visto há uns anos atrás [, em 2009], por muitos milhares de portugueses através da sua transmissão pela SIC e pela distribuição de um vídeo feita na mesma altura pelo Diário de Notícias, são apresentadas aquelas mesmas razões como causas imediatas do desastre.

Já nessa altura contestei as conclusões do filme, e fi-lo por escrito e em reunião pessoal com o Director de Informação da SIC, Dr. Alcides Vieira, estando presente o realizador Manuel Tomás, que dirigiu a realização do filme.

Refiro que a carta entregue na SIC foi subscrita não só por mim mas por dezenas de ex-militares da CCAÇ 2405 que, por coincidência nessa mesma altura, no almoço de confraternização anual, a leram e assinaram.

A contestação dos factos descritos no filme foi feita nessa reunião na SIC, com a prévia concordância do Comandante da Operação, brigadeiro Hélio Felgas, e estando presentes, além de mim próprio, o capitão miliciano José Miguel Novais Jerónimo e o alferes mliciano Paulo Enes Lage Raposo [, ambos da CCAÇ 2405].

E ela foi por nós solicitada à SIC em virtude do impacto que a exibição do filme teve nos ex-militares que a ele assistiram e que tinham estado presentes na jangada naquele dia do desastre. Com efeito, no próprio dia da exibição do filme comecei a receber telefonemas de antigos camaradas, um tanto decepcionados e alguns até revoltados, pela inexactidão dos pormenores que ali eram descritos.

Todos nós três, presentes na dita reunião, participámos na operação de evacuação de Madina do Boé, e todos estávamos presentes no local do acidente no Cheche naquele dia 6 de fevereiro de 1969.

O capitão Jerónimo, comandante da CCAÇ 2405, e eu próprio, estávamos na jangada no momento do acidente, onde se encontrava também o alferes miliciano Jorge Rijo, oficial da CCAÇ 2405, com o seu pelotão.

O alferes miliciano Paulo Raposo, também oficial da CCAÇ 2405, já tinha feito a travessia do rio na viagem anterior, e encontrava-se na margem norte do Corubal com o seu pelotão, observando a tragédia (***)

Na referida reunião da SIC, o realizador Manuel Tomás argumentou que o filme fora realizado com fundamento em entrevistas e em documentos oficiais militares a que tinha tido acesso, pelo que considerava o filme suficientemente documentado.

E disse que esses documentos atestavam as razões acima referidas, isto é, que a jangada se virou porque, no essencial, teria havido disparos de morteiro que, supostamente vindos do IN, teriam criado o pânico nos militares, os quais, ao agitarem-se, teriam provocado o desiquilíbrio da jangada.

Perante a irredutível posição da SIC em manter a versão veiculada pelo filme, nada mais nos restou do que desistirmos do pedido que lhe fizemos para que fosse proporcionado esclarecimento público sobre as conclusões desse filme.

Foi dito, nessa reunião, ao Dr. Alcides Vieira e ao Sr. Manuel Tomás,  que, por muito credíveis que pudessem parecer os documentos militares em que fundamentaram a versão filmada, nenhum deles jamais desmentiria ou apagaria da minha memória e dos meus camaradas o que realmente se passou.

Mais importante que os documentos preparados no silêncio dos gabinetes militares, sabe-se lá com que inconfessados motivos, era a indesmentível memória daqueles que tinham sido protagonistas e vítimas do desastre.

É com o mesmo espírito de esclarecimento da verdade dos factos que volto hoje ao assunto, desta vez no ambiente mais acolhedor de um blogue criado e gerido por alguém como o Luís Graça que, tendo estado na Guiné, sabe melhor que ninguém que não queremos honrarias, distinções ou protagonismo público.

Queremos tão só que a história seja o mais verdadeira e exacta possivel... Esse é o legado que queremos deixar aos vindouros, para que jamais seja ignorado o sacrificio de uma geração inteira, retirada à sua despreocupada juventude para fazer uma guerra em longínquas terras, em nome dos seus deveres e obrigações para com a sua Pátria.


3. A verdade do que sucedeu

Mas então, o que se passou realmente naquela manhã de 6 de Fevereiro [de 1969]?

A CCAÇ 2405, comandada pelo cap mil inf Novais Jerónimo, integrava a coluna militar que tinha partido na manhã do dia anterior de Madina do Boé, rumo ao Cheche, e tinha como missão escoltar a Companhia de Caçadores [1790] evacuada daquele aquartelamento e que era comandada pelo cap inf Aparício (que, após o 25 de Abril, veio a assumir a função de Comandante Geral da PSP de Lisboa).

Ao fim desse dia a coluna chegou às imediações do rio Corubal, junto ao local de cambança para o Cheche. E durante toda a noite a jangada fez contínuas viagens transportando pessoal de apoio e, sobretudo, equipamentos militares e de transporte.

Ao amanhecer, as viagens de transporte entre as duas margens continuaram consecutivamente, até que chegou o momento em que na margem sul do rio Corubal já só restavam quatro grupos de combate, todos eles comandados pelos respectivos alferes, bem como os capitães Aparício e Novais Jerónimo. 

Além destes, encontrava-se o 2.º comandante da Operação [Mabecos Bravios], um major cujo nome já não recordo.

Segundo a rotina estabelecida e as instruções recebidas pelo responsável pela condução da travessia (alf mil Diniz), esperávamos na margem do rio que este responsável mandasse entrar metade do pessoal ainda ali estacionado, ou seja, dois dos quatro pelotões acima referidos.

É que a jangada, segundo bem explicou o alferes Diniz, tinha uma lotação de segurança de um máximo de 60 homens (2 pelotões). E o alferes Diniz assim fez, à semelhança do que tinha já feito dezenas de vezes ao longo da noite, zelando para que a carga da jangada não excedesse os limites de segurança estabelecidos.

Mandou entrar o meu pelotão e o do alferes Rijo, ficando na margem para a viagem seguinte, os dois pelotões da Companhia do capitão Aparício. 

Subitamente porém, assisti a uma conversa entre o 2.º Comandante da Operação e o alferes Diniz, em que este foi intimado pelo referido 2.º Comandante a mandar embarcar os dois pelotões restantes, dado que não se podia atrasar mais a operação.

Apesar dos argumentos do alf Diniz, tentando que em vez dos 4 pelotões embarcassem apenas dois, prevaleceu a autoridade da patente militar mais alta e assim acabaram por embarcar os 4 pelotões, para a derradeira viagem da jangada...

E foi de facto a sua derradeira e trágica viagem... 

Ainda não estavam percorridos 10 metros e já a jangada submergia e, de seguida, se virava projectando para a água quantos nela seguiam... E não me recordo de ter ouvido qualquer disparo de morteiro, antes do desastre... E não me lembro de ter detectado antes qualquer sinal de pânico entre os soldados... 

Aliás, a sua experiência operacional no teatro de guerra era já apreciável e não entrariam em pânico por um simples disparo de morteiro que estou seguro que não existiu.

Houve alguns disparos de morteiro, é verdade, mas após o desastre e feitos pelas NT, no intuito de prevenir qualquer aproveitamento do IN que eventualmente estivesse emboscado nas imediações.

Exceptuando os militares que infelizmente pereceram afogados no Corubal, passados poucos minutos, todos restantes retornavam à jangada que, pouco depois, se reequilibrou e retomou a sua viagem para a margem norte do rio. 

E eu fui um deles... Depois de me ter libertado da espingarda, das cartucheiras, das botas e das granadas, cujo peso me puxava inexoravelmente para o fundo...

Em nenhum momento descortinei qualquer tipo de pânico quando regressei à jangada e, talvez nervosos ainda do desastre, todos sorriamos e aceitávamos o banho forçado como uma dádiva divina depois de vários dias de sede e calor.

Ninguém se apercebeu de nenhum camarada em aflição ou pedindo socorro. Ninguém sequer sonhou que a tragédia tivesse atingido as proporções que tomou. Só na margem norte do rio, quando mandei formar o meu pelotão e o vi reduzido a quase metade é que tive consciência da desgraça que tinha acontecido.

E foi então que, algo descontrolado, me dirigi à margem do rio que engolira os meus soldados na esperança de ainda ver alguém... Mas a tragédia estava consumada de forma silenciosa, definitiva e rápida.

Em resumo e concluindo:

(i) o desastre do Cheche ficou a dever-se, em minha opinião, ao excesso de peso entrado na jangada;

(ii) e ela é corroborada por todos aqueles que, como eu, viajavam na jangada e que em conversas a seguir ao desastre manifestaram a mesma opinião;

(iii) note-se que a mesma jangada tinha já feito dezenas de travessias sob as ordens directas do Alf Diniz sem nunca se ter detectado qualquer problema;

(iv) esse problema surgiu de forma trágica na última travessia, ou seja, naquela em que o responsável Alf Diniz não pôde efectivamente proceder segundo o que estava estabelecido, deixando entrar na jangada o dobro da sua capacidade, por ordem do 2.º Comandante da Operação a que, pela natureza da hierarquia militar, não poderia opor-se;

(v) mas fê-lo, e disso dei testemunho no âmbito do inquérito que se seguiu, advertindo previamente o seu superior hierárquico para o facto de estar a infringir as determinações que tinha sobre a forma de fazer a travessia do rio e da lotação definida para a embarcação;

(vi) e estou convencido que a rapidez do desaparecimento das vítimas nas águas calmas, escuras e profundas do Corubal, se ficou a dever ao facto de todos transportarem consigo pesado equipamento de guerra que lhes tolheu os movimentos e os conduziu para o fundo do rio, de forma tão rápida, com a agravante de que a maior parte deles não sabia nadar;

(vii) finalmente, não posso deixar de fazer referência ao que o José Martins diz ter ouvido de "alguém que esteve no centro do acontecimento" de que as águas tomaram um tom avermelhado.

(viii) sei da existência de crocodilos naquele troço do rio Corubal.

(ix) sei que alguns dos corpos de soldados encontrados dias mais tarde, apresentavam sinais de terem sido dilacerados por crocodilos.

(x) mas sei também que as águas, naquele dia, e após o acidente, apenas apresentavam o tom natural verde escuro de um rio calmo e profundo e tenho dúvidas que os crocodilos tivessem estado presentes naqueles momentos, com o ruído de helicópteros sobrevoando as águas a baixa altitude, na tentativa de encontrar e socorrer algum soldado em dificuldades.

(xi) Não devemos dramatizar mais o que só por si já foi suficientemente dramático...


O Rui Felício, em 2013


4. Breves dados sobre a CCAÇ 2405 (1968/70)


Composição da CCAÇ 2405:

A CCAÇ 2405, à data dos acontecimentos, tinha a sua sede em Galomaro .

Comandante: Cap mil José Miguel Novais Jerónimo

1º Grupo de Combate – Alf mil Jorge Lopes Maia Rijo
2º Grupo de Combate – Alf mil Vitor Fernando Franco David
3º Grupo de Combate – Alf mil Rui Manuel da Silva Felício
4º Grupo de Combate – Alf mil Paulo Enes Lage Raposo

O 2º Grupo de Combate, comandado pelo alf mil Vitor David, não integrou a Companhia na operação de evacuação de Madina do Boé, ficando na sede da companhia em Galomaro, onde porém a acompanhou através dos meios rádio.

As baixas resultantes do desastre do Cheche foram sofridas pelos 1.º e 3.º Grupos de Combate, que viajavam na jangada na altura do acidente.

Rui Felício (***)
(Ex-alf mil inf CCAÇ 2405

[ Fixação / revisão de texto / negritos/ título: L.G.]


Montemor-o-Novo > Ameira > Herdade da Ameira > Restaurante Café do Monte >  I Encontro Nacional da Tabanca Grande > 14 de Outubro de 2006 > Da esquerda para a direita: Rui Felício, Maria Alice Carneiro (esposa do Luís Graça), António Pimentel (que veio propositadamente do norte, com o Hernâni Figueiredo. ambos antigos alf mil do BCAÇ 2851), o Victor David /1944-2024) e a esposa e, por detrás, o Paulo Raposo, o nosso amável anfitrião.

Foto (e legenda): Arquivo do Blogue Luís Grdaça & Camaradas da Guiné (2006)


Anexos

I. Mensagem de 16/2/2006 (****)

Camarada e Amigo Luís Graça:

Obrigado por teres publicado o texto que escrevi. Compreendo que queiras mais informações àcerca de alguns militares que refiro no texto. Lamentavelmente, porém, a estes anos de distância há pormenores que se apagam da memória, pelo que tenho dificuldade em identificar devidamente o major, 2.º Comandante da Operação e o alf mil Diniz.

Recordo-me do seguinte:

(i) a operação era comandada, no terreno, pelo então Coronel Hélio Felgas que comandava o Agrupamento sediado em Bafatá;

(ii) o  2.º  comandante, cujo rosto ainda me lembro, mas que só conheci naquele dia do desastre do Cheche, era major e, suponho eu, pertenceria igualmente ao referido Agrupamento de Bafatá;

(iii) quem o conhece bem, certamente, será o Capitão Aparicio que, se quiser, poderá dar uma achega a este assunto.

(iv) aliás, quando se levantou a questão na altura da transmissão pela SIC do tal filme, o capitão Aparício, então salvo erro já coronel, telefonou-me tentando convencer-me que as coisas não se teriam passado como eu dizia e que, embora elogiando-me (!!!), me disse que possivelmente após tantos anos eu já não estaria bem lembrado dos factos (!);

(v) o  elogio era um tanto descabido, dado que ele mal me conhecia; agradeci-lhe contudo a simpatia;

(vi) relativamente à minha eventual perda de memória, entendi a sua preocupação, na medida em que a minha versão dos factos contrariava os depoimentos que, no próprio filme da SIC, o cap Aparicio tinha feito e que davam como causa do desastre as tais "morteiradas" e algum pânico que se instalou entre os soldados;

(vii) quanto ao alferes miliciano Diniz, conheci-o apenas na travessia de Norte para Sul do rio Corubal no início da operação (ida para Madina de Boé) e que já estaria próximo do fim da sua comissão de serviço na Guiné;

(viii) sei que era o responsável pela travessia porque ele próprio se me identificou como tal quando embarquei com o meu Grupo de Combate, recebendo dele as instruções adequadas à colocação do mesmo dentro da jangada;

(ix) suponho que ele era o Comandante do destacamento do Cheche e que ali se encontrava habitualmente estacionado, pertencendo organicamente à Companhia de Canjandude.

(x) No entanto, não estou inteiramente certo que assim fosse.

Um abraço e uma vez mais o meu agradecimento pela paciência de teres lido o que escrevi...

Rui Felicio
ex-alf mil 
CCAÇ 2405 (Galomaro, 1968/69)
 

 2. Mensagem de 21/2/2010 (*****)

(...)  Reitero tudo o que disse o Paulo Raposo. E não o faço pela grande amizade que lhe tenho. Faço-o porque o que ele diz é a verdade.

Com efeito, como já antes escrevi e como já antes disse telefonicamente ao próprio cap Aparício, foi ele mesmo quem deu a ordem ao alf Diniz.

E também escrevi que este alferes alertou o cap Aparício para o facto de a ordem que lhe estava por ele a ser dada ser contrária às instruções que tinha. Isto é, que a jangada não poderia suportar uma lotação superior a dois grupos de combate, sendo certo que a ordem do cap Aparício significava o embarque do dobro dessa lotação.

Escrevi também então, que o alf  Diniz, contrariado, se conformou com a ordem recebida e lhe deu execução, em virtude da patente mais alta do cap Aparício.

Quanto ao major, tanto quanto julgo lembrar-me, era um oficial com funções de 2.º comandante da operação comandada pelo Cor Hélio Felgas.

Sempre estive convencido que ele estava no lado sul do rio. Pelo menos sei que o vi por lá. Talvez durante as travessias anteriores. Mas se o Raposo afirma que na altura do acidente ele estava já no lado norte, não tenho razões para duvidar do que ele diz.

Porque, sem querer que pareça que estou com ele a trocar galhardetes, o Paulo Raposo é um homem por cuja idoneidade e seriedade seria capaz de pôr as mãos no lume. E admito que neste caso do major a minha memória já me tenha atraiçoado.

Onde ela não me atraiçoa, e essas imagens ainda hoje as tenho presentes, é na própria catástrofe e no diálogo entre o cap Aparício e o alf Diniz. Passassem cem anos e jamais esqueceria. (...)

 Rui Felício

[Fixação / revisão de texto / bolda a vernelho / título: L.G.]

(**) Vd. post do José Martins > 6 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - D: Madina do Boé, 37 anos depois
 
(***) Último poste da série : 12 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27726: Documentos (52): A retirada de Madina do Boé (Paulo Raposo, ex-alf mil, MA, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)

(****) Vd. poste de 16 de fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - P526: A verdade sobre o desastre do Cheche (Rui Felício)

(*****) Vd. poste de 21 de fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5861: Ainda o desastre do Cheche, em 6 de Fevereiro de 1969 (4): Cem anos que viva nunca esquecerei as imagens da catástrofe e o diálogo entre o Alf Diniz e o Cap Aparício (Rui Felício)