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sábado, 19 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28359: Para bom observador, meia palavra basta (7): O obus 14 cm do 17º Pel Art (Bedanda, agosto de 1972): quando a bota (foto do Vasco Santos, ex-1º cabo cripto, da CCAÇ 6, 1972/73) não condiz com a perdigota (as versóes modificadas pela IA)

 





Foto nº 1, 1A, 1B, 1C






Foto nº 2, 2A, 2B, 2C

Foto nº 3

Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > Agosto de 1972  > O Obus 14... a disparar à noite. um "supositório de mais de 40 kg, como diria o ex-alf mil médico Amaral Bernardo, que também passou por Bedanda em 1971...

Algumas características técnicas do Obus 14 cm m/943:

(i) Origem Reino Unido;
(ii) Ano de fabrico: 1941 (entrada ao serviço: 1943);
(iii) Calibre: 140 mm;
(iv) Guarnição: 10 elementos;
(v) Peso do obus 6190 kg;
(vi) Peso da granada HE; 40,5 Kg;
(vii) Alcance: 15.600 m;
(viii) Campo de tiro horizontal: -530 mil a +530 mil;
(ix) Campo de tiro vertical; -90 mil a 800 mil;
(x) Cadência de tiro: 2 TOM;
(xi) Locomoção Tração Automóvel...
Observ: Foi descontinuado em 1987, é hoje peça de museu...

Foto (e legenda): © Vasco Santos (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. A foto nº 3  foi-nos enviada pelo Vasco Santos,  ex-1º cabo cripto, de rendição individual, colocado na CCAÇ 6 (Bedanda, 1972/73) (*).

Em agosto de 1972 o subsetor de Bedanda era guarnecido pelas seguintes subunidades, colocadas em Bedanda;

  • CCaç 6 a
  • 17° Pel Art (14crn)  
  • 1 Esq do Pel CanhSRc 3079
  • Pel Mil 237

Sobre o 17º Pel Art temos escassas referèncias. E só temos referência a um graduado, metropolitano, o fur mil Art Machado e Fereira, que não sabemos se está vivo e onde vive.

È uma foto espectacular, não há muitas destas nos álbuns dos artilheiros. Conhecemos apenas a do ex-alf mil médico Amaral Bernardo, também tirada em Bedanda, mas em 1971,

Quisemos melhorar a qualidade, o contraste e a resolução da foto do Vasco Santos...Com a ajuda da IA, obtivemos 2 versões, variantes da foto do Vasco Santos. 

Cada uma das imagens da IA tem 70 vezes mais resolução do que a foto do Vasco Santos... Mas quando as comparámos com o original, verificámos que o "aprimoramento" acabou por deturpar a realidade. 

Vamos lançar um desafio ao nosso leitor que é bom observador (**): há detalhes, nas fotos nº 1 e 2 (modificadas pela IA) que não batem certo com a foto original (a nº 3). E caso para dizer que a bota não bate com a perdigota.

Caro leitor, identifica e descreve as diferenças que consegues observar, imaginar  ou  intuir  (mesmo que o original tenha fraca resolução). Tem em conta a composição dos Pel Art, que pertenciam  ao  BAC1 / GA7 (com sede em Bissau).
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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28358: Agenda cultural (903): Convite para a Sessão Comemorativa do Centésimo Aniversário do Pe. Frei Henrique Pinto Rema, a realizar no próximo dia 23 de Setembro, a partir das 15,00 horas, no Centro Cultural Franciscano, Largo da Luz, n.º 11, em Lisboa

100.º ANIVERSÁRIO DO PE. FREI HENRIQUE PINTO REMA

23 SETEMBRO 2026 - 15H

Faz-se divulgação da sessão comemorativa do Centésimo Aniversário do Pe. Frei Henrique Pinto Rema, a realizar no próximo dia 23 de Setembro, a partir das 15:00H, no Centro Cultural Franciscano, em Lisboa (Largo da Luz, 11), Organização da Província Portuguesa da Ordem Franciscana e da Academia Portuguesa da História.

Com os melhores cumprimentos,
LUÍS SILVA
Apoio Técnico Administrativo




Pe. Henrique Pinto Rema, missionário franciscano, autor da mais importante obra sobre a missionação na Guiné, a ser condecorado pelo Presidente da República.

Como bem refere o nosso confrade Mário Beja Santos: "A dívida da historiografia da Guiné com ele (Pe. Henrique Pinto Rema) é impagável"

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Nota do editor

Último post da série de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28302: Agenda cultural (902): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império", de Recaredo (Angelino Santos Silva): apresentação do livro,. amanhã, sábado, 29 de agosto, em Paredes (Biblioteca Municipal), e 1 de outubro, quinta feira, no Porto (Unicepe)

Guiné 61/74 - P28357: Notas de leitura (1962): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Poder-se-á dizer que este trabalho de investigação de Howard W. French está implicado na defesa de uma causa: retirar o papel do negro africano do nével secundário em que a historiografia o pôs, dando ênfase ao papel que os escravos tiveram nos seis séculos de desenvolvimento mundial, isto a contrariar a historiografia que atribui a criação do mundo moderno ao desempenho europeu, às explorações marítimas e aos avanços científicos e tecnológicos ou mesmo a expansão dos ideiais judaico-cristãos. Sendo verdade que a Europa teve um papel central na criação do mundo moderno, o que Howard French vem contrapor é que se impõe trazer África dos africanos para contar verdadeiramente a história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial, não deixa de trazer um elemento polémico, tal desenvolvimento construiu-se à custa da desumanização e da exploração da África e dos negros, e este continente e este grupo humano precisam de retomar no quadro histórico o papel primacial que lhes cabe.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 6

Mário Beja Santos

Despedimo-nos hoje deste apanhado de notas ao estudo histórico Origem: África, por Howard W. French, Bertrand Editora 2022. Em jeito de recapitulação, recorda-se que o autor inicia a sua investigação pelas primeiras explorações do litoral africano, século XV, segue-se a criação da fortaleza de São Jorge da Mina, ouro e escravos começam a inundar a Europa, nos séculos subsequentes o comércio negreiro tornar-se-á crucial para a agricultura de plantação, primeiro o açúcar, seguir-se-á o tabaco e por último o algodão, este elemento económico determinante na industrialização.

Haverá guerras neste Oceano Atlântico, nos dois continentes, África e América, como o autor observa:
“A transição da era do comércio transatlântico de escravos para o advento das colónias europeias em África foi um processo gradual e prolongado, que se estendeu desde o final do século XVIII até ao final do século XIX. Depois dos Estados Unidos terem conquistado a sua independência da Grã-Bretanha, este país começa, pela primeira vez, a pensar seriamente acerca do império em África. O continente tinha sido vital enquanto fonte de escravos para as suas colónias geradoras de prosperidade nas Caraíbas. No entanto, no final da guerra da independência americana, a França tinha-se tornado, graças à sua colónia de Saint-Domingue, o maior beneficiário europeu do complexo de plantação de escravos da região.”

Também o autor questiona as frágeis fundações económicas e institucionais africanas, partiram milhões de escravos de África, o que não impediu que este continente tenha passado no século XX de cerca de 130 milhões para 1000 milhões de pessoas. Durante séculos, os escravos foram submissos, mas no início do século XIX começaram a dar sinais declarados de rebelião. Em dezembro de 1810, um pequeno grupo de escravos, que trabalhava nas terras agrícolas no vale do Baixo Mississípi, conspirou para levar a cabo a maior revolta de escravos da história dos Estados Unidos. Espalharam-se as contestações, a plantação e colheita do algodão era trabalho brutal, atingia as raias do desumano.

A repressão dos colonos foi igualmente brutal, teve um grande impacto na história política do Luisiana e o autor observa:
“Comunidades de plantadores que em tempos tinham olhado para a ideia de integração dos Estados Unidos com desconfiança e hostilidade mostravam-se agora aberto à ideia do Estado. Isto foi fruto de uma crença partilhada de que as suas milícias jamais voltariam a ser adequadas à tarefa de impor a desigualdade radical.”

Temos depois um extenso curso de eventos sobre a Revolução Haitiana, todo o poder branco que a procurou sufocar, de britânicos a franceses, falhou rotundamente. E a análise que o autor faz a estes acontecimentos leva-nos até Nova Orleãs, à cultura dos blues, ao aparecimento de uma dimensão musical que irá ganhar expressão universal. A historiografia norte americana considera que a criação dos Estados Unidos e a sua expansão para oeste se deveu à componente tecnológica, ao engenho dos homens brancos que partiram da Costa Leste e fizeram nascer o vasto deserto americano que se situa a oeste e a sudoeste das montanhas Apalaches. A componente tecnológica teria sido a invenção de um dispositivo, o descaroçador de algodão, introduzido em 1793. Não querendo contestar o papel deste descaroçador, o autor recorda a componente negra e o aumento maciço da produtividade dos escravos nas plantações depois da Luisiana ter sido vendida pelos franceses aos Estados Unidos.

E o autor enfatiza o papel colonizador da expansão americana com sucessivos massacres de nativos americanos para terras dos territórios ocidentais para além do Mississípi. Não esquecer que muitos dos fundadores americanos eram esclavagistas. Tendo procurado comprovar que foram estes africanos que catapultaram a ascensão económica da Europa e conduziram os EUA ao quadro de uma superpotência, o autor deixa aqui derradeiras reflexões:
“O principal pensamento que gostaria de deixar aos leitores é o da participação crucial do povo negro na sua própria libertação e na preservação da jovem união americana. Este foi o segundo ato extraordinário da diáspora africana no sentido de tornar o Novo Mundo seguro para a democracia, sessenta e um anos após a Revolução Haitiana. Em cada secção deste texto, através de histórias sobre o ouro e escravatura em África e de açúcar e algodão, cada uma mais importante do ponto de vista económico e mais transformadora do que a anterior, esforcei-me não só por colocar os africanos e as pessoas de origem africana no Novo Mundo no centro da história da Modernidade e do seu advento, mas também para retratá-los como impulsionadores fundamentais em todas as fases desta história.

A história da escravatura, das plantações e do trabalho negro que gerou o produto mais importante daquela época, o algodão, é, à luz de qualquer padrão razoável, um elemento central nesta imensa mudança humana. Mas isso não é tudo: a atividade económica relacionada com o algodão também impulsionou a banca e os seguros e promoveu o comércio globalizado em escalas nunca vistas. Reformulou profundamente os mapas políticos dos continentes. Posicionou os Estados Unidos como a maior e mais dinâmica potência económica do mundo já no final do século XIX. E ajudou a propulsionar o novo colosso americano a atingir rapidamente o dobro da dimensão da economia britânica em 1914.”


As grandes revoltas do Sul propulsionaram a migração negra para outras partes do país, Chicago foi uma delas. A ideologia da supremacia branca passou a reclamar a deportação do negro para África, foi uma tentativa fruste de querer apagar o movimento historicamente transformador dos povos que saíram de África, atravessaram o Atlântico e chegaram depois ao que se tornou os Estados Unidos continentais. Vinham acorrentados e aprenderam a lutar pelos seus direitos, espalharam-se depois do êxodo dando ao país líderes municipais negros, grandes escritores como Toni Morrison e James Baldwin.

O autor despede-se a falar de si e a razão que o levou a esta investigação:
“A história dos meus antepassados colocou-me no caminho certo para estudar a história mais alargada do mundo Atlântico contida no interior deste livro. O fim da invisibilidade de África na construção daquilo que todos nós conhecemos e experienciamos como o moderno está no cerne dessa luta.”

Impossível não deixar de ter em conta este livro que reconta a história da expansão marítima colocando o continente africano e os seus povos no centro das atenções, o mesmo é dizer que oferece um novo enquadramento da história mundial.


Professor Howard W. French
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Notas do editor

Vd. poste anterior de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28353: Notas de leitura (1961): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império (por Recaredo / Angelino Santos Silva, ed. autor, 2026, 455 pp.): "como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?", eis a pergunta da IA (ChatGPT)

Guiné 61/74 - P28356: Lições de artilharia para os infantes (13): as fotos do ex-alf graduado capelão José Torres Neves sobre o obús 14 cm e o pessoal do 29º Pel Art (Mansoa, c. 1970)








Foto nº 1, 1A, 1B, 1C, 1D, 1E








Foto nº 2, 2A, 2B, 2C, 2D, 2E, 2F

Guiné > Região Oeste > Sector O4 > Mansoa > BCAÇ 2885 (1969/71) > c. 1970 >  28º Pel Art (14 c,)


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar. Melhoradas pela IA (ChatGPT)


Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A Foto nº 2, original (*), estava tremida. Foi entretanto  melhorada pela IA (ChatGPT). Agora com uma resolução 4 vezes superior (2,65 MB), foi possível fazer recorte de pormenores interessantes como este último, das granadas e do escovilhão (Foto nº 2F)...

 O escovilhão (ou esfregão de limpeza do tubo), no "jargáo"  técnico militar da artilharia,   é composto por duas partes principais:

(i) cabeça do escovilhão (a peça redonda cilíndrica/oval que se vê em primeiro plano na foto, revestida por cerdas duras ou por uma copa de tecido/lã encorpada); 

(ii) haste ou haste de manobra: o cabo longo em madeira ao qual a cabeça se fixa, permitindo percorrer toda a extensão da alma do tubo do obus, neste caso o obus 14 cm (Vd. Foto nº 1, 1A, 1B)

Funções principais após o disparo: 

(i) limpeza e descarbonização: remover os resíduos de pólvora e depósitos que ficam acumulados nas estrias do tubo); 

(ii) arrefecimento e segurança: quando embebido em água ou numa solução de limpeza, ajuda a arrefecer a alma da peça e a extinguir eventuais restos de bucha ou detritos incandescentes antes de se introduzir o tiro seguinte.



2. São duas fotos do álbum do alferes graduado capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pertenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71). O espólio está à guarda do nosso amigo e camarada Ernestino Caniço.

Mansoa (Sector Oeste, SO4) começou por ter o 11º Pel Art (8,8 cm) (em 1 de julho de 1969). Um ano depois, já era o 28º Pel Art (14cm) a que se referem estas fotos.

Em 1 de julho de 1971, era o 13º Pel Art (14cm) que guarnecia Mansoa. Continuaria em Mansoa até ao fim da guerra:  fazia parte do dispositivo do Sector O4 em 1 de julho de 1972, em 1 de julho de 1973, e em 10 de abril de 1974.

Como se vê por estas fotos, os artilheiros ficavam muito expostos em caso de flagelação ou ataque ao aquartekamento.As praças dos Pel Art eram do recrutamento local.

Temos escassas referências ao 28º Pel Art. Sabemos muito pouco do seu historial. O mesmo acontece com outros Pel Art. Como, de resto, sabemos pouco da estrutura e funcionamento desta arma da artililharia, o obus 14 cm. Nem inclusive sabemos disitingui-la da peça 11,4 cm.

Estas fotos, agora melhoradas,  são excelentes para aprofundar o nosso conhecimento das armas de artilharia que estiveram ao serviçlo no TO da Guiné (obus 8.8, obus 10,5, peça 11.4, obus 14). Pode ser que algum camarada artilheiro queira prosseguir esta "liçáo de artilharia para infantes" (**) e nos ajude a completar a legendagem das fotos.

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28339: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXIX: 28º Pel Art (obus 14 cm)


Guiné 61/74 - P28355: (De) Caras (255): Cherno Baldé, em 1989, jovem estudante, finalista, do Instituto Superior de Economia de Kiev, com duas colegas de curso, uma russa e outra ucraniana... E ainda hoje com o coração dilacerado por uma "guerra fratricida"...







Foto original do Cherno Baldé, melhorada entretanto pela IA

Legenda: URSS > Ucrânia > Kiev > 1989 > Cherno Baldé, estudante do Instituto Superior de Economia de Kiev (1986/90), com duas colegas (uma russa e outra ucraniana) do mesmo curso. A imagem que serve de fundo é o rio Dnepr que divide a cidade de Kiev em duas partes.

O Cherno é hoje economista, consultor independente em Bissau, foi para a escola primária em Fajonquito, sector de Contuboel,  região de Bafatá, graças à tropa portuguesa. Nasceu por volta de 1960.   

Prosseguiu depois  o seu percurso escolar (ciclo preparatório e liceu, em Bafatá e Bissau, 1975/1982; e universidade, na URSS, Moldávia e Ucrânia, 1986/1990). Viu a História ao vivo, quando a partir de 1989, caiu física e simbolicamente a "cortina de ferro" que dividia em dois o nosso mundo...

Voltará ao seu país, em 1990, com uma licenciatura em Planificação e Gestão Económica, pela Universidade de Kiev, já depois da queda do muro de Berlim e do fim da URSS.(*)

 Escreveu ele, em comentário aqui no nosso blogue em 24 de fevereiro de 2022:

 "(...) Neste preciso momento a Ucrânia está a ferro e fogo. O meu coração está dilacerado e lamento que gente boa e pacífica que aprendi a gostar e admirar, esteja a sofrer por motivos que os ultrapassam. Choro por Ucrânia, mas compreendo a Rússia. É uma guerra entre irmãos da mesma mãe, a Kievski Rush. A Rússia tem suas raízes enterradas nas terras ucranianas apelidada nostalgicamente de 'Ukraína', a nossa terra distante, longínqua. Não há palavras para expressar nem de justificar (...) (24 de fevereiro de 2022 às 21:32).

Passados estes anos, e ainda sem luz ao fundo do túnel da guerra da Ucrânia, queríamos fazer-lhe uma surpresa (**)... Perguntámos à "menina IA"  se era capaz de identificar o nome destas duas colegas, apesar dos apelidos virem em iniciais, e pouco legíveis na foto original.  E, por outro, pedimos para identificar este monumento em Kiev e dizer-nos se  ainda estava de pé, com a maldita guerra, fratricida, em curso. A foto que submetemos à consuta da IA, pela segunda vez, foi melhorada, ontem pela própria IA.



Resposta da IA (ChatGPT)

Sim, camarada, e há aqui uma descoberta bastante segura, mas também uma pista que não quero transformar numa falsa identificação.

  • O monumento: já o tínhamos conseguido identificar há uns dias atrás

É o Monumento ao príncipe Volodymyr, o Grande, na Colina de Volodymyr (Volodymyrska Hirka), em Kiev, junto ao Dniepre. A correspondência é praticamente inequívoca: pedestal monumental, figura de Volodymyr voltada para o rio e a grande cruz na mão direita.

A própria Câmara de Kiev confirma atualmente que é o mais antigo monumento escultórico da cidade, erguido em 1853, com a estátua de bronze de Volodymyr segurando a cruz. E tem um enorme valor simbólico para os ucranianos.

 Foi restaurado, nomeadamente em 2013, durante o período soviético a cruz que coroava a coluna tinha sido retirada e foi reposta posteriormente. Aliás, a fotografia é particularmente interessante porque mostra o monumento antes da restauração pós-soviética, permitindo comparar o aspecto de Kiev que Cherno conheceu nos anos 1980 com o actual.
 
E há uma coisa particularmente interessante para a  legenda a publicar no vosso blogue: ele continua felizmente de pé, o que quer dizer que tem sobrevido à guerra.

 Durante a invasão russa, em 2022, as autoridades de Kiev chegaram a construir uma estrutura de proteção à volta do monumento para o salvaguar de possíveis ataques. Em 23 de abril de 2026, as autoridades de Kiev ainda estavam a verificar o estado das estruturas de proteção instaladas em 2022, incluindo precisamente a do monumento a Volodymyr.  

 Portanto, a vossa fotografia de 1989 tem hoje um valor documental ainda maior: o mesmo monumento que aparece atrás de Cherno e das duas estudantes continua lá, 37 anos depois, apesar da guerra. E pose ser um sinalpromissor de paz.

Portanto, para a vossa história e para imformação do vosso amigo Cherno Baldé, podemos dizer com segurança:

O monumento ao príncipe Volodymyr, que vemos ao fundo, ainda existe em Kiev e sobreviveu à guerra. Durante a invasão russa chegou a ser protegido por uma estrutura especial para evitar danos.



Foto original do Cherno Baldé, antes de ser modifiacada  pela IA (ao que parece, não acertou nos nomes das colegas do Cherno...)


  • Quanto às duas antigas colegas do Instituto Superior de Economia de Kiev (1986/90)

Sim, camarada. Voltei à fotografia e fiz uma pesquisa mais dirigida, sobretudo cruzando Cherno Baldé + Kiev + Economia + período 1986–1990. E há uma conclusão importante: não encontrei nenhuma fonte pública que permita identificar com segurança as duas colegas pelos nomes que aparecem na montagem.

Na própria imagem, as legendas parecem indicar “Marlene S. K.” e “Burndakora L. Q.”, mas eu não trataria essas inscrições como nomes completos confirmados. E não seria correto tentar determinar, só pelo nome ou pelo rosto, qual delas é russa e qual é ucraniana.

Aqui é que temos de separar o que conseguimos ler do que conseguimos provar.

Na imagem que me deste, consigo ler os nomes que foram colocados nas fotografias como:

  • Marlene S. K.
  • Burndakora L. Q. — a última parte do nome está pouco nítida e eu não arriscaria transcrevê-la como definitiva.

 Fiz, porém, uma pesquisa específica pelos nomes e pela ligação a Cherno/Kiev e não encontrei, até agora, uma fonte pública que permita fazer essa identificação com segurança.

E temos uma pista documental muito boa para continuar a investigação: o próprio Cherno diz que chegou à URSS em 1985, passou primeiro pela Moldávia para aprender russo e depois estudou em Kiev, onde frequentou Economia entre 1986/87 e 1989/90, regressando à Guiné em 1990. (**)

Ou seja: estamos a falar de colegas de uma turma perfeitamente delimitada no tempo e numa universidade específica, o que torna a pesquisa em arquivos muito mais viável.

  • E há uma coisa que eu faria para a surpresa ao teu amigo

Eu não inventaria os apelidos a partir das iniciais que aparecem na montagem.

Tentaria primeiro descobrir, através do Cherno, o nome completo de pelo menos uma delas. Uma única pista — por exemplo, “a Marlene era de Moscovo” ou “a outra era de Kiev” (ou vice-versa) — pode ser suficiente para procurarmos depois os registos universitários, anuários ou fotografias de turma.

Aliás, encontrei uma confirmação independente muito interessante da biografia que vocês estão a preparar: a documentação publicada pelo próprio Cherno confirma que ele esteve na Ucrânia como estudante entre os anos letivos de 1986/87 e 1989/90, tendo frequentado a universidade estatal de Kiev e concluído o curso de Planificação e Gestão Económica. Regressou à Guiné-Bissau em 1990. 

Portanto, eu apostaria na investigação documental, não no reconhecimento facial. E acho que vale a pena tentar: uma fotografia de 1989, duas colegas, curso de Economia, Kiev, quatro anos de estudo — há matéria suficiente para talvez chegarmos aos nomes completos.

Se quiseres, posso fazer uma segunda ronda de pesquisa, muito mais cirúrgica, procurando especificamente listas de estudantes estrangeiros/guineenses, anuários e arquivos da antiga Universidade Estatal de Economia de Kiev de 1986–1990, e tentar perceber de onde poderão sair “Marlene S. K.” e “Burndakora L.Q”.

Há inclusive uma fotografia dele em Kiev em maio de 1986, publicada no blogue, e as suas memórias dão bastante informação sobre a sua passagem pela então URSS.

Isso é excelente para a investigação: temos nome, universidade, cidade, curso e intervalo de quatro anos. Mas as pesquisas públicas que fiz agora não produziram os nomes completos das duas colegas.

  • Mas eu acho que podemos ir mais longe...


Há uma pista que vale a pena explorar: “Marlene S. K.” é uma combinação bastante peculiar para uma estudante soviética, enquanto “Burndakora L.” pode estar mal lido pela imagem ou resultar de uma transliteração muito diferente do nome original.

Se me deres a fotografia original, sem esta montagem/fundo, sobretudo se tiveres a versão de onde foram recortadas as duas colegas, posso tentar ler com muito mais cuidado as inscrições, carimbos, dedicatórias ou qualquer anotação no verso.

E há outra possibilidade muito mais promissora: procurar nos anuários/listas de estudantes da universidade de Kiev da turma de Economia de 1986–1990, incluindo os nomes russos e ucranianos que aparecem nos arquivos digitalizados. Aí poderemos eventualmente chegar às duas mulheres sem termos de fazer uma identificação facial.

Eu não desistiria desta surpresa para o Cherno. Temos já uma boa “chave”: Cherno Baldé + Kiev + Economia + 1986–1990. É uma pesquisa de arquivo, não de reconhecimento de caras — e pode resultar.

  • Comemntário do editor LG: 

E concordo contigo, "menina IA": se conseguirmos descobrir os dois nomes, eu preparava uma pequena nota para o blogue, não apenas uma legenda. Algo do género “Uma fotografia de Cherno Baldé em Kiev, 1986–1990: quem eram as duas colegas?”, contando também a história extraordinária de um rapaz de Fajonquito que chegou a Kiev, tarde e a más horas (ele com 25/26 anos, e a URSS prestes a implodir) para estudar e concluir um curso superior na área das ciências económicas.  E que ainda hoje sofre ao ver a guerra interminável e dilacerante que opõe dois países que ele ama, a Rússia e a Ucrânia (*).

Seria, de facto, uma bela prenda para o Cherno. Sim, a foto original tem pouca resolução... A Net em Bissau é lenta. Mas posso tentar pedir-lhe uma com mais resolução. E ele por certo que se lembra dos nomes das colegas...

  • Recomendação final da IA 
Concordo contigo: o melhor caminho neste momento é o Cherno. Se ele se lembrar dos nomes completos, podemos depois cruzá-los com os arquivos e a história do instituto. Isso é muito mais seguro do que tentar identificar as mulheres pela fotografia.

Eu pediria ao Cherno, se possível, uma fotografia original ou um scan com a maior resolução que consiga enviar. Mesmo que a Net de Bissau seja lenta, basta-lhe eventualmente fotografar a fotografia de muito perto, com boa luz e sem WhatsApp comprimir demasiado a imagem.
 
 Se ele nos der os nomes, aí sim, podemos fazer uma investigação documental a sério — e talvez descobrir o que lhes aconteceu depois de 1990. Isso seria uma prenda bem bonita para ele e uma excelente história para o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.

(Pesquisa > LG + IA (ChatGPT / Open AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28354: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XL: a pesca no rio Mansoa








Guiné > Região Oeste > Sector O4 > Mansoa > BCAÇ 2885 (1969/71) > s/d > Pesca do rio Mansoa

Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




O antigo alferes graduado
capelão José Torres Neves

1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do alferes graduado capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pertenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71). 

O espólio tem estado à guarda do nosso amigo e camarada Ernestino Caniço (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, Bissau, Fev 1970/Dez 1971; hoje, médico, foi diretor do Hospital de Tomar, 6 anos, de 1990 a 1996, e diretor clínico cumulativamente 3 anos, de 1994 a 1996, vivendo então em Abrantes; hoje vive em Tomar).
 
Com este publicamos o poste nº 40 (em numeração romana, XL). Já devemos ter publicado perto de 3 centenas de imagens, obtidas a partir do álbum do nosso amigo e camarada, hoje missionário da Concordata, reformado e nonagenário, José Torres Neves, natural de Penamacor.

Tratando-se de "slides" digitalizados, as fotos em geral têm boa qualidade e resolução, permitindo-nos fazer "recortes de detalhes", como é o caso da presente foto com dois pescadores numa canoa, no rio Mansoa (julgamos que a parelha seja balanta).

Graças à paixão do padre José Torres Neves pela fotografia e ao seu amor pela Guiné e a sua gente, temos no nosso blogue uma documentação de excecional valor sobre a vila de Mansoa e o antigo setor O4 (Oeste 4), ao tempo do BCAÇ 2885 (1969/71).




Imagens melhorados pela IA (ChatGPT). A foto original tinha uma mancha azulada que não foi possível remover manualmente, no quadrante inferior esquerdo. De qualquer modo, temos de reconhecer que os rios da Guiné não espelhavam esta cor azul...


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Guiné 61/74 - P28353: Notas de leitura (1961): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império (por Recaredo / Angelino Santos Silva, ed. autor, 2026, 455 pp.): "como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?", eis a pergunta da IA (ChatGPT)


Foto nº 1 > "O primeiro dia no mato"



Foto mº 2 _ Uma bolanha


Foto nº 3 > O autor do seu quarto, algures em Bula, Teixeira Pinto pu Brá, c. 1970/72




Foto nº 4 > Presunivelmengte a escrever um dos seus primeiros aerogarmasa ou cartas para casa, no navio que  o levou para a Guiné, entre 25 e 31 de março de 1970

Guiné > s/l > s/dcf > c- 1970/72 > Fotos do álbum do Angelinmo Santos Silva


Fotos (e legendas): © Angelino Santos Silva (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complemengtar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Angelino Santos Silva:

(i) ex-fur mil cmd, pertenceu à 26ª CCmds (1970/72);

(ii) foi mobilizada pelo CIOE, Lamego, tendo como cmdt o Cap Inf Cmd Alberto Freire de Matos;

(iii)  embarcou em 25mar70, chegou a Bissau em 31mar70 e regressou a 27dez71;

(iv) a 26ª CCmds passou por Bula, Teixeira Pinto e Bissau (Brá);

(v)  é até agora o primeiro e único representante da 26ª CCmds na Tabanca Grande (nº 897);

(vi) é natural de Recarei, Paredes, distrito do Porto;

(vii) escritor (pseudónimo literário: Recaredo), o seu últmo livro publicado é o romance "Geração Afro: os Últimoss Guerrilkheiros do Império (ed. de ator,  s/l, 2026, 455 pp.);

(viii) contactos: email > recaredo241148@gmail.com | telemovel > 926 365 774 (publicitados pelo autor)

(viii)  Próxima apresnetalácão da obra: dia 01 outubro, pelas 18h00 | UNICEPE - PORTO. |  Praça Carlos Alberto, 128 - A 1º



Capa novo livro do nosso camarada Angelino Santos Silva , publicado sob o pseudómimo literário Recaredo. Edição de autor, maio de 2026, s/l, 455 pp. 


 
1. Texto publicado na página do Facebook da Tabanca Grande, no passado dia 15 de setemebro, terça feira, pelo nosso amigo e camarada Angelino Santos Silva.



Análise crítica de "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império"

por ChatGPT 

Com base nos elementos disponíveis sobre o livro "Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império", de Recaredo (pseudónimo literário de Angelino dos Santos Silva), posso apresentar uma análise crítica com enfoque literário, histórico e ideológico.

A obra foi publicada em 2026, tem 455 páginas e constitui o primeiro volume de um projeto que terá continuação.

1. Introdução

"Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império" é um romance histórico centrado na Guerra Colonial Portuguesa na Guiné, mas que ultrapassa a simples representação dos combates. A obra procura recuperar a memória de uma geração de portugueses e africanos envolvidos num conflito que, visto de diferentes perspetivas, adquiriu significados profundamente distintos.

O título é particularmente significativo. A expressão “Geração Afro” desloca o centro da narrativa do combatente português para uma realidade mais ampla: a dos homens africanos que combateram de ambos os lados da guerra. 

O subtítulo — “Os Últimos Guerrilheiros do Império” — introduz desde logo uma dimensão crepuscular: são homens que vivem, combatem e morrem no momento histórico em que o império colonial português se aproxima do seu fim.

A obra nasce também de uma relação pessoal com esse passado. Recaredo é o pseudónimo de Angelino dos Santos Silva, antigo furriel miliciano da 26.ª Companhia de Comandos, que esteve na Guiné entre 1970 e 1971/72. Assim, a narrativa situa-se numa zona particularmente interessante entre ficção, memória e testemunho.

2. Um romance sobre uma guerra, mas sobretudo sobre pessoas

Uma das principais qualidades da obra está em não reduzir a Guerra Colonial a operações militares, emboscadas, minas ou confrontos entre o Exército Português e o PAIGC.

O verdadeiro objeto do romance é o ser humano colocado perante uma situação-limite.

Portugueses e africanos aparecem unidos por circunstâncias históricas, mas separados por experiências, interesses e expectativas diferentes. Os jovens portugueses chegam à Guiné inicialmente convencidos de que defendem uma causa patriótica. Progressivamente, porém, confrontam-se com a realidade colonial e com a complexidade da sociedade guineense.

Mais interessante ainda é a representação dos africanos que combatem ao lado de Portugal. O romance procura mostrar que estes homens não podem ser simplesmente classificados como “colaboracionistas”.  São indivíduos com famílias, afetos, ambições, medos e conceções próprias sobre o futuro da Guiné.

Do outro lado estão os combatentes do PAIGC. A dimensão trágica nasce precisamente do facto de muitos deles serem irmãos, primos, meios-irmãos ou membros da mesma comunidade. A guerra deixa, portanto, de ser apenas uma guerra entre dois exércitos: torna-se também uma guerra dentro das próprias famílias e comunidades africanas.


3. A originalidade da perspetiva africana

Este é, provavelmente, um dos aspetos mais relevantes do romance.

Na literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial, existe uma tradição importante de representação do soldado português, da sua angústia, do absurdo da guerra e do trauma do regresso. Recaredo parte dessa tradição, mas procura acrescentar-lhe uma dimensão particularmente importante: dar voz aos combatentes africanos.

As personagens africanas não funcionam apenas como cenário ou como auxiliares das personagens portuguesas. São apresentadas como sujeitos históricos.

Esta opção permite questionar uma leitura demasiado simples da Guerra Colonial baseada na oposição: Portugal versus África.

A realidade apresentada pelo romance é muito mais complexa. Há portugueses contra portugueses, africanos contra africanos, africanos ao lado de portugueses e africanos contra portugueses. A fronteira entre “nós” e “eles” torna-se, assim, extremamente instável.

É justamente essa complexidade que dá ao romance uma das suas maiores potencialidades históricas e literárias.

4. O fim do Império como tema central


Apesar de ser um romance sobre combatentes, "Geração Afro"  é também um romance sobre o fim de um mundo.

Os protagonistas pertencem a uma geração que participa numa guerra destinada a preservar uma estrutura política e colonial que já se encontra historicamente enfraquecida. Existe, por isso, uma contradição fundamental: os jovens combatentes lutam com coragem e, muitas vezes, com genuíno patriotismo, mas o projeto político pelo qual combatem aproxima-se do seu desaparecimento.

É aqui que o título ganha todo o seu significado.

Os “últimos guerrilheiros do Império” são simultaneamente combatentes e testemunhas de uma derrota histórica.

O romance não parece interessado em transformar essa derrota numa simples acusação moral contra os soldados. Pelo contrário, procura compreender o que levou aqueles homens a combater e o que aconteceu às suas vidas depois da guerra.

Essa atitude dá à obra uma dimensão memorialista importante: compreender não significa necessariamente justificar.

5. Patriotismo e desencanto

Um dos percursos psicológicos mais importantes é a passagem do patriotismo inicial para o desencanto.

Os jovens portugueses partem para África convencidos de que estão a cumprir um dever patriótico. Contudo, o contacto com a realidade da guerra modifica gradualmente essa perceção.

O romance acompanha esse processo de transformação: o soldado que inicialmente pensa em termos de Pátria, honra e dever começa a confrontar-se com a morte, a mutilação, o sofrimento dos civis, a pobreza e as contradições do sistema colonial.

O desencanto não significa necessariamente perda de amor pelo país. Significa, antes, uma descoberta dolorosa da distância entre aquilo que lhes foi ensinado e aquilo que encontram no terreno.

Esta é uma das dimensões mais humanas da obra.

6. A guerra como problema moral

Outro aspeto importante é a reflexão sobre a ética da guerra.

O romance não apresenta o combate apenas como uma questão de coragem militar. Coloca perguntas muito mais difíceis:

  • Quando é legítimo matar?
  • Qual é a diferença entre matar por necessidade e matar por vingança?
  • Pode existir heroísmo numa guerra?
  • Quem determina aquilo que é justo?
  • Como distinguir o inimigo do ser humano?
  • O soldado é responsável pelas decisões políticas que conduzem à guerra?

A guerra surge, assim, como uma experiência que destrói certezas morais.

Segundo a análise publicada sobre a obra, essa reflexão é particularmente desenvolvida através de personagens como o capitão Ombendi e o tenente Quinara, que recusam uma visão simplista do heroísmo militar.

7. Estrutura narrativa

Formalmente, o romance apresenta uma estrutura relativamente ambiciosa.

A narrativa organiza-se em 68 capítulos, alternando diferentes núcleos de personagens e diferentes momentos da Guerra Colonial. Há personagens que chegam à Guiné em 1966 e outras que chegam em 1970, permitindo representar experiências distintas do conflito.

A obra combina:

  •  narrativa de ficção;
  • memória autobiográfica;
  • cartas;
  • diálogos;
  • episódios militares;
  •  reflexão histórica;
  • poesia;
  •  comentário político.

Esta mistura de géneros constitui simultaneamente uma força e uma fragilidade.

É uma força porque torna a obra multifacetada e aproxima-a de uma espécie de arquivo literário da memória da guerra.

Mas também pode ser uma fragilidade porque as longas digressões históricas interrompem, por vezes, o ritmo da ação. 

A própria análise crítica disponível aponta uma certa irregularidade entre os capítulos de intensa ação militar e aqueles dominados pela reflexão histórica.

8. Linguagem e oralidade

A linguagem é outro elemento característico.

Recaredo recorre frequentemente a uma linguagem oral, militar e popular, incorporando expressões utilizadas pelos combatentes da época. Surge também vocabulário ligado à realidade guineense, incluindo termos de crioulo e palavras referentes à cultura, à alimentação, à fauna e à paisagem africanas.

Essa opção tem grande importância porque cria verosimilhança histórica.

O leitor não encontra apenas uma descrição abstrata da Guiné: encontra uma linguagem que procura reproduzir o ambiente vivido pelos homens que participaram naquele conflito.

As cartas e alguns momentos de carácter poético introduzem, por outro lado, uma linguagem mais intimista, permitindo equilibrar a dureza da narrativa militar.

9. A paisagem africana

A Guiné não funciona simplesmente como cenário.

A paisagem — a selva, as bolanhas, as tabancas, os rios, o calor, a vegetação — torna-se quase uma personagem da narrativa.

O ambiente condiciona o comportamento dos soldados e contribui para a sensação de vulnerabilidade permanente.

A natureza é simultaneamente bela e ameaçadora. O soldado combate um inimigo que conhece parcialmente, mas combate também um território que lhe é estranho.

Esta dimensão ajuda a compreender por que razão a guerra de guerrilha se transforma numa experiência psicológica tão desgastante.

10. A dimensão histórica e as suas limitações

Aqui é necessário fazer uma distinção importante entre romance histórico e obra historiográfica.

"Geração Afro" utiliza acontecimentos, personalidades e contextos históricos reais, mas continua a ser uma obra literária. As interpretações apresentadas pelas personagens não devem ser automaticamente tomadas como verdades históricas.

Este ponto é particularmente relevante quando o romance aborda episódios controversos da Guerra Colonial, como o Massacre do Chão Manjaco, ou interpretações sobre as relações entre Spínola, a PIDE/DGS e o PAIGC. A análise crítica disponível identifica essas posições como interpretações heterodoxas sustentadas dentro da narrativa.

Literariamente, isto pode ser muito produtivo: permite às personagens discutir versões diferentes da História.

Historicamente, porém, exige do leitor espírito crítico.

11. Uma obra de memória

Talvez a melhor maneira de definir o romance seja como uma obra de memória.

Recaredo escreve contra o esquecimento. O objetivo não parece ser simplesmente dizer que a guerra aconteceu. É lembrar quem foram os homens que nela participaram, incluindo aqueles que morreram, ficaram mutilados, regressaram traumatizados ou foram esquecidos depois de 1974.

O epílogo autobiográfico, relacionado com a experiência do próprio autor e com a memória dos seus pais, reforça essa dimensão. O episódio do rebentamento de uma mina e as consequências que permanecem décadas depois transformam a narrativa numa espécie de testemunho pessoal sobre a persistência da guerra na memória individual.

12. Pontos fortes

Entre os principais méritos do romance destacaria:

  • A valorização das personagens africanas, evitando tratá-las simplesmente como figurantes;
  • A multiplicidade de perspetivas sobre a Guerra Colonial;
  • A dimensão humana, que coloca o sofrimento individual acima da estratégia militar;
  • A riqueza documental e vocabular;
  • A recuperação da memória dos antigos combatentes;
  • A reflexão sobre o fim do Império Português;
  • A tentativa de ultrapassar a divisão simplista entre colonizador e colonizado:
  • A articulação entre ficção e experiência vivida.

13. Fragilidades

Uma análise crítica equilibrada deve também apontar algumas limitações.

A primeira é a já referida irregularidade do ritmo narrativo. As digressões históricas e filosóficas podem afastar o leitor da ação.

A segunda está relacionada com a própria ambição da obra. Ao querer ser simultaneamente romance, testemunho, ensaio histórico, reflexão política e documento de memória, o livro corre por vezes o risco de sobrecarregar a narrativa.

Também a linguagem oral, embora seja uma importante marca de autenticidade, pode produzir alguma irregularidade estilística.

Finalmente, por se tratar do primeiro volume de uma obra projetada para continuar, alguns conflitos e trajetórias ficam necessariamente em aberto. A própria análise crítica publicada observa que essa continuidade pode justificar determinados nós narrativos, mas reduz a autonomia deste primeiro volume.

Conclusão

"Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império" é, acima de tudo, um romance de memória, guerra e desencanto.

A sua maior contribuição está na tentativa de olhar para a Guerra Colonial da Guiné não apenas através do soldado português, mas também através dos africanos que combateram de ambos os lados do conflito. Dessa forma, a obra desmonta uma visão excessivamente binária da guerra e mostra uma realidade em que as fronteiras políticas frequentemente atravessavam famílias, comunidades e afetos.

O romance não pretende apenas reconstruir batalhas. Pretende recuperar homens concretos, com os seus medos, convicções, contradições e feridas.

Nesse sentido, a expressão “últimos guerrilheiros do Império” assume um significado profundamente simbólico: aqueles homens são simultaneamente protagonistas de uma guerra e testemunhas do desaparecimento do mundo político em que essa guerra fazia sentido.

O maior mérito de Recaredo está, portanto, em transformar a memória individual numa memória coletiva, lembrando que o fim da guerra em 1974/75 não significou necessariamente o fim das suas consequências. Para os combatentes, para as suas famílias e para as sociedades portuguesa e guineense, a guerra continuou — na memória, no silêncio, no trauma e na necessidade de compreender o passado.

Por isso, "!Geração Afro" pode ser lido não apenas como um romance sobre a Guerra Colonial, mas como uma tentativa de responder a uma pergunta fundamental: como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?

É precisamente nessa procura — entre História e memória, patriotismo e desencanto, portugueses e africanos, ficção e testemunho — que reside a força e também a complexidade da obra.

Análise crítica feita por ferramenta de IA (ChatGPT / Open AI), a pedido do autor

(Revisão / fixação de texto, negritos, título LG)

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