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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27725: Historiografia da presença portuguesa em África (516): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1960 (74) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
Folheia-se de fio a pavio esta caterva de edições de 1960 e parece que se vive habitualmente, são repetidas as informações quanto à legislação do Ministério do Ultramar, o sistema de Previdência, o reforço de verbas, sucessivas nomeações e aberturas de concursos, anuncia-se o recenseamento geral da população e fica-se igualmente a saber que a Fundação Calouste Gulbenkian apoia a campanha contra a tuberculose, mantém-se alguma vigilância nos preços, em novembro o Ministro da Presidência, Pedro Teotónio Pereira, visita a Guiné, desconhecem-se por enquanto os motivos da visita, por aqui já tinha passado uma comissão militar de que fazia parte o Coronel Francisco da Costa Gomes para avaliar a natureza dos meios existentes e o que se impunha refazer na eventualidade de estalar a subversão, mas isso não consta no Boletim Oficial, as referências à eclosão de guerrilha em Angola aparecerão no Boletim Oficial de 1961, ano em que o Secretariado-Geral da Defesa Nacional dá como justificada a necessidade, em caso de guerra ou de emergência, chamar à colaboração com as Forças Armadas um corpo de voluntários.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1960 (74)


Mário Beja Santos

Podemos dizer que 1960 regista no Boletim Oficial da Guiné a rotina de uma colónia que vive na normalidade, com uma economia que ainda não sofreu convulsões, chegaram escassos efetivos militares, mas ainda não há uma atmosfera declarada de subversão. Daí os sucessivos números do Boletim Oficial falarem da Caixa de Previdência dos Funcionários Públicos da Guiné, dos acórdãos do Conselho Superior de Disciplina do Ultramar, acentua-se a publicação da legislação emanada do Ministério do Ultramar, há reforço de verbas, nomeações, concursos, publicou-se o Regulamento dos Colonatos Indígenas da Guiné, que tem por base um casal agrícola que compreenderá casa de habitação, terreno de cultura e poço. Anuncia-se o Recenseamento Geral da População; a Fundação Calouste Gulbenkian irá apoiar a campanha contra a tuberculose. Por conseguinte, tudo segue dentro de um velho normal.

No Boletim Oficial n.º 2, de 6 de janeiro, informa-se que o Ministro do Ultramar aprovou a emissão de notas para a Guiné, notas de 50, 100 e 500 escudos, com a efigie de Teixeira Pinto. No Boletim Oficial n.º 3, de 16 de janeiro, ficamos a saber como vai funcionar a Comissão de Censura, a censura à imprensa e aos espetáculos passará a ser feita na Guiné por uma única comissão com a constituição igual à da atual Comissão de Censura à Imprensa, há direito ao abono e gratificações. Dá-se a composição da comissão com presidente e vogais, ficamos a saber que o administrador do Conselho de Bissau exercerá a censura à imprensa periódica, revistas, ilustrações, magazines e publicações similares; o padre José Maria da Cruz Amaral terá competência na censura aos espetáculos.

No Boletim Oficial n.º 11, de 15 de março, publicam-se os estatutos do “Desportivo Clube de Bafatá”, agremiação recreativa-desportiva, recentemente fundada, a sua finalidade é promover e praticar todos os jogos desportivos e recreativos adaptáveis ao meio e promover passeios e festas para distração dos sócios, expansão do espírito associativo e progresso de Bafatá.

Cresce notoriamente a onda clubista. No Boletim Oficial n.º 28, de 9 de setembro, fica-se a saber que surgiu o “Club Desportivo e Recreativo do Gabu”; à semelhança do que vimos para o clube de Bafatá, o do Gabu tem as mesmas finalidades.

É agora o momento azado para falar do Recenseamento Geral da População, consta do Boletim Oficial n.º 50, de 10 de dezembro. Atenda-se aos pontos principais desta matéria:
“O Recenseamento Geral da População não autóctone realizar-se-á no próximo mês de dezembro de 1960, em data a afixar. Este recenseamento será precedido de um reconhecimento do território feito por meio de um inventário de prédios e fogos. Aos administradores de circunscrição e concelho incumbe a fiscalização das operações do recenseamento. Em todos os fogos deverá ser entregue, conforme os casos, um boletim de família ou de convivência, mas, se por qualquer motivo essa entrega se não verificar, o chefe da família ou da convivência requisitá-lo-á à autoridade administrativa. Constitui transgressão estatística a recusa de informações pedidas, o preenchimento inexato ou incompleto dos boletins de família ou de convivência. Os naturais da província, para serem incluídos no censo, deverão exibir o antigo cartão de assimilado ou fazer prova de que são cidadãos. Os indivíduos da raça negra ou dela descendentes, de territórios estrangeiros, para serem incluídos neste censo, farão a prova de que são cidadãos à face da sua lei nacional.”

Em Portaria subsequente, o encarregado do Governo, o Coronel de Cavalaria Luís Alberto Filipe Rodrigues, manda publicar providências orientadoras da execução do Censo Geral da População. “Não sendo embora totalmente diferentes as condições de realização do Censo da População autóctone e da não autóctone, a experiência recomenda que sejam separadas as operações concernentes à população autóctone da não autóctone.” E daí a coordenação dos diferentes censos terem pessoas diferentes.

Já estou a folhear o Boletim Oficial referente a 1961, não se perceciona qualquer atmosfera de agitação ou alarme, fala-se das condições de venda e preço do arroz de pilão; há menção de uma guerra em Angola no segundo Suplemento do Boletim Oficial n.º 15, datado de 18 de abril; e há também um Decreto-lei, o n.º 43568, do Secretariado Geral da Defesa Nacional onde se diz que em caso de guerra ou emergência poderá justificar-se a necessidade da população civil ser chamada, em regime de voluntariado, a colaborar com as forças armadas, e assim sendo cria-se em cada uma das províncias ultramarinas um corpo de voluntários.

O Ministro da Presidência, Pedro Teotónio Pereira, chega à Guiné em 15 de novembro
Velho Mandinga
Os famosos cetros dos reis Biafadas

Estas quatro imagens são provenientes do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1960.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 4 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27701: Historiografia da presença portuguesa em África (515): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1959 (73) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27724: Foi há... ( 9): 57 anos: a retirada de Madina do Boé, vista pelo fotógrafo Hélio Felgas, na altura, cor inf, cmdt da Op Mabecos Bravios e do Cmd Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70) - II (e última) Parte


Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > c. 4/5 de fevereiro de 1969 >  Op Mabecos Bravios: apoio da FAP, na retirada do aquartelamento de Madina do Boé,  guarnecido pela CCAÇ 1790 (Madina do Boé, 1967/69) > Manobra de diversão, com os helis a simular a largada de tropas paraquedistas nas colinas que ladeavam o aquartelamento de Madina.

(...) "Fui para Madina na manhã da véspera do dia D. [ O dia D era 1 de fevereiro de 1969. ] Comigo foram 5 helicópteros pois eu queria executar com eles uma operação de diversão que consistia e, por duas ou três vezes, enviar os helis (vazios) para os locais de onde o PAIGC costumava bombardear o aquartelamento. Dava assim a ilusão de que estava colocando forças nesses locais, em emboscada.

A medida deve ter resultado pois nessa noite não houve bombardeamento a Madina.

Foi em completa calma que a complexa coluna auto se formou, com a parte dianteira já na estrada do Cheche.

Ao amanhecer iniciou-se o movimento com as viaturas e respectivos reboques completamente carregados e a grande maioria dos homens a pé.

Como era costume eu seguia à frente com o meu guarda-costas e o homem do posto-rádio. Só os picadores nos precediam, picando cuidadosamente a estrada com compridos ferros pontiagudos. E excelente trabalho fizeram pois nenhuma mina rebentou embora tenham sido levantadas 12 ou 14. (...)" (*)
 

Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > s/d      Não temos a certeza de a foto ter sido tirada na altura da retirada de Madina do Boé. Se sim, terá sido a última missa celebrada neste histórico aquartelamento.

No livro da CECA sobre a atividade operacional no período que vai de 1967 a 1970, pág.  353, a legendagem da foto, sem data, diz o seguinte: "CCaç 1790: missa em Madina do Boé celebrada pelo Capelão-Mor das FA, brig Reis Rodrigues"

Fonte: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014), pág. 353.

O celebrante era, pois, António dos Reis Rodrigues (1918-2009), um dos homens mais influentes da hierarquia eclesiástica de então: 
  • assistente eclesiástico da Juventude Universitária Católica (JUC) (1947-1965);
  • capelão (desde 1947) e professor da Academia Militar (onde leccionava Deontologia Militar e Ética);
  • procurador da Câmara Corporativa, na VIII Legislatura (1961/65), como representante  da Igreja Católica;
  • responsável pelo programa religioso da RTP (até 1966);
  • nomeado em 1966 bispo auxiliar de Lisboa, sob o título de Bispo de Madarsuma, com as funções de Capelão-mor das Forças Armadas (1967-1975);
  • diretor da revista Flama;
  • temos uma foto com ele a dizer missa em Gandembel, no Natal de 1968.


Foto nº 4 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > c. 5  de fevereiro de 1969 >  Op Mabecos Bravios: retirada do aquartelamento de Madina do Boé, guarnecido pela CCAÇ 1790 (Madina do Boé, 1967/69) > Homens e material prontos para deixar a mítica Madina do Boé, numa coluna de mais de meia centena de viaturas.


Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > s/d  >  A foto não deve ter sido tirada no decurso da Op Mabecos Bravios (retirada do aquartelamento de Madina do Boe, guarnecido pela CCAÇ 1790, Madina do Boé, 1967/69) > São momentos dramáticos depois da deflagração de uma mina A/C  na estrada Cheche - Madina do Boé... 

Pelo contrário, deve ter tirada em colunas anteriores. de abastecimento a Madina do Boé (e por mês, na época seca).  Não temos notícia de deflagração de minas, A/C ou A/O, no decurso da Op Mabecos Bravios (de 2 a 7 de fevereiro de 1969). O cor Hélio Felgas já visitara antes Madina do Boé, e pernoitara lá, inclusive. (*) 


1. São fotos, históricas, do  comandante da Op Mabecos Bravios,
 o então cor inf Hélio [Augusto Esteves ] Felgas (1920-2008) (foto à direita).

Reproduzidas com a devida vénia de Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, nº 5,  abril-junho 1999, pp- 8-15 (publicação editada pelo Instituto Camões; o nº 5, temático, foi dedicado ao "25 de Abril, revolução dos cravos").

Vêm inseridas num artigo do jornalista e escritor José Manuel Saraiva, "Excertos de Guerra", pp. 8-15, na citado número da revista Camões. (Seria mais tarde o autor do documentário, de longa metragem, que passou na SIC, em 2009, Madina do Boé - A retirada e em que, ainda antes de morrer, participou o Hélio Felgas)
 
Já publicámos anteriormente a primeira, nos pareceu merecer maior destaque (*P). Publicamos hoje as restantes fotos (4 das 5),  tiradas pelo então cor inf Hélio Felgas, comandante do Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70)  e comandante da Op Mabecos Bravios (retirada de Madina do Boé, 2 a 7 de fevereiro de 1969).

Ficamos a saber que o  major-general Hélio Felgas era também um fotógrafo, amador,  de grande talento, sensibilidade e qualidade. 

Redescobri, há 10 anos atrás,  esta e outras fotos  num artigo do jornalista (antigo combatente no CTIG)  José Manuel Saraiva. A quem devemos estar  gratos por  ter sido um dos primeiros a atirar uma pedrada no charco do "silêncio" (e "silenciamento"...) a que foi votada a guerra colonial depois do 25 de Abril como tema de partilha de memórias e debate. Não foi o primeiro... Muito antes dele, uma década antes, o jornalista Afonso Praça levou a cabo uma iniciativa inédita, arrojada, contra a corrente e até contra os interesses do jornal onde trabalhava... 

Em boa verdade, foi o audoso jornalista e escritor Afonso Praça (Torre de Moncorvo, 1939 - Lisboa, 2011) (ele próprio antigo combatente em Angola) quem criou no iníco dos anos 80 uma secção semanal (ou um suplemento) que ocupava duas páginas, ilustradas, justamente intitulada "Memórias da Guerra Colonial", no extinto semanário "O Jornal", consideradpo próximo do Grupo dos Nove. Ainda existia o Conselho da Revolução (14 de março de 1975- 30 de setembro de 1982). 

Colaborei, entusiástica e regularmente, com o Afonso Praça, no desenvolvimento e manutenção desta iniciativa pioneira a que começaram a aderir diversos antigos combatentes.  Publicou-se uma dúzia de edições (durante perto de três meses, tenho que confirmar). 

Houve, entretanto,  pressões para acabar com a secção, confidencipou-me o Afonso Praça. Teriam vindo de alguém, com muito poder, do Conselho da Revolução ( nessa altura, o presidente deste órgão,k que tutelava a nossa democracia, era o gen Ramalho Eanes).

 Prometo voltar ao assunto, um dia destes. Mas foi aí, talvez, que começou o princípio da "democratização" da(s) memória(s) da guerra colonial... e que nasceu,  no meu caso, o "bichinho" da Guiné...

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27723: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças


Angola > Moxico > Léua  > c. 1970 > O alf mil pqdt Jaime Silva com o menino de Léua

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72; 

(ii) tem uma cruz de guerra de 3ª classe;

(iii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iv) tem  c. 140  de referências, no nosso blogue; 

(v) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(vi) é professor de educação física, reformado;

(vii) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(ix) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças

por Jaime Silva

Eu não esqueci durante a minha comissão que na guerra não vale tudo…

Lembro-me, bem, duma operação no Leste, em que o meu pelotão tinha sido destacado para detetar e destruir um acampamento de guerrilheiros que, de acordo com as informações da PIDE, estaria localizado algures numa determinada zona, a norte do rio Cassai.

Progredimos durante dois dias na busca do objetivo e, na madrugada do segundo dia, deparámo-nos, a certa altura, com um grande trilho. E, enquanto avaliava a situação, vejo um grande grupo de mulheres e crianças que vinham do rio com as cabaças cheias de água à cabeça, algumas com os filhos às costas, dirigindo-se na direção do acampamento. 

O soldado que estava na minha frente dispara uma rajada, sem consequências. Mando parar o fogo. As mulheres atiram os utensílios ao chão, agarram nos filhos, espavoridas de medo, e correm na direção da base, enquanto gritam para alertar os guerrilheiros – “tropa, tropa!”

Os guerrilheiros disparam algumas rajadas…

Uma vez que tínhamos entre nós e os guerrilheiros, as mulheres e as crianças, e, perante a mortandade evidente que ocorreria se atacássemos, decidi não assaltar a base IN. 

Em vez disso optei montar uma emboscada no local que, pelas características do terreno e pela minha experiência em situações parecidas, previa que seria o ponto de fuga dos guerrilheiros. 

Passado pouco tempo, vejo vir, na nossa direção, um guerrilheiro armado que enquadrava e protegia um grupo com cerca de dez crianças que fugiram do local para se protegerem. Pelas crianças, dei ordens para ninguém abrir fogo e deixar o grupo prosseguir…
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Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.95.

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27722: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (1): Os desastres (do Cheche a Alcácer Quibir das Cheias de 1967 à tempestade Kristin) e a teoria do bode expiatório

1. Nunca é demais lembrar esta trágica efeméride (o "desastre do Cheche") e honrar a memória dos nossos camaradas que lá ficaram, nas águas turvas e nas margens do rio Corubal. Foram 47 vítimas inocentes de uma guerra que não tinha fim à vista e era cada vez mais sem sentido (para ambos os lados).

"Desastre", em contexto de guerra, é sempre um eufemismo. Pode até ser um insulto. Para as Forças Armadas Portuguesas, da época, não havia suicídios, homícidios, automutilações, e outros atos de violência autoinfligida.
  

A verdade é que estes nossos camaradas não se suicidaram nem morreram por ação direta do inimigo. Em combate. Mas morreram pela Pátria. Aos 21, 22, 23 anos. Em plena juventude.  A última coisa que queriam era morrer. No Cheche. Na cambança do rio Corubal. Deixavam para trás o inferno de Madina do Boé. 

57 anos depois, a vida continua, a Pátria continua... E alguém sabe lá onde era esse sítio de cambança do Rio Corubal, que uns chamavam Cheche, outros Ché-Ché... "Tchetche" dizem os locais. (Na carta de Jábia, o cartógrafo grafou "Ché-Ché" e a gente devia seguir a sabedoria dos nossos cartógrafos que chegaram a ser os melhores do mundo... Dizem. Não sou bom em cartografia.)

A vida é curta. E a memória ainda mais. Cabe-nos honrar a memória dos que morreram. Uma frase estafada.

2. Diz o nosso querido amigo e camarada Carlos Pinheiro (em comentário, na página do facebook da Tabanca Grande | 6 fev 2026, 11h30)

Eu estava lá, em Bissau, e devo ter sido dos primeiros a receber a triste notícia porque estava no STM no QG/CTIG. 

Dois sobreviventes, da CACÇ 1790,  vieram parar ao meu serviço como estafetas. Um era um soldado normal mas o outro era analfabeto e mal sabia falar.
Estiveram meses a viver debaixo do chão mas um senhor de muitos galões insistiu que o abandono de Madina do Boé se realizasse nas jangadas constituídas sobre três canoas.

Ao princípio a operação corria bem mas na última travessia uma das canoas estava partida e a jangada, com tanto peso mal arrumado, afundou-se. Foi uma grande tragédia.

Mas o Coronel,  que estava ao longe a comandar a operação, no 10 de Junho a seguir foi condecorado no Terreiro do Paço. Era assim...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026 às 12:42:45 WET



3. Permito-me, na minha qualidade de "marginal-secante",  alinhavar duas ideias sobre o caso:

Carlos, eu (ainda)  não estava lá... Parece que é preciso "ter estado lá" para falar de cátedra. Lá, no meio dos acontecimentos,  na cratera do vulcão, no epicentro do terramoto... Adiante: nunca fui ao Boé, mas andei por esses rios (o Geba), e o Corubal (nas margens.). Fiz muitas "cambanças" (de canoa) no Geba. Nunca andei de jangada. Aquelas águas, barrentas, sujas, na época das chuvas, metem respeitinho.

Conheci a malta do BCAÇ 2852 a que pertencia a CCaç 2405... O "desastre de Cheche" ainda era comentado, quando eu cheguei a 2 de junho de 1969 a Contuboel e,  mês e meio depois, a Bambadinca, E conheci malta que lá esteve, na retirada de Madina do Boé.

Temos, de resto, vários camaradas dessa subunidade, a CCAÇ 2405, Os "Baixinhos de Dulombi",  que integram a Tabanca Grande, e nomeadamente os quatro alferes: o Rui Felício, o Paulo Raposo, o Jorge Rijo e o Victor David (infelizmemnte já falecido em 2024)...
Quando cheguei à Guiné, em finais de maio, ainda se falava, com comoção, do desastre do Cheche... Como se falava de Gandembel,  abandonad pela NT em finais de janeiro desse ano.  Foi um ano de muitas emoções.

Por outro lado, não é verdade que o cor inf Hélio Felgas (1920-2008) "estava ao longe a comandar a operação"... O homem viveu ao milímetro a Op Mabecos Bravios,  do planeamento à execução, do  pionés no mapa à caixa de velocidades das GMC. É verdade que malta de Madina vivia como toupeiras.

E verdade que o coronel recebeu a Torre e Espada um ano e tal depois, no 10 de junho de 1970. E depois? O Estado Novo precisava de heróis. Eu não sei se a condecoração é "justa ou injusta". Não sei (nem sequer me interessa saber) os seus fundamentos. 

Claro que nessa época, em plena guerra colonial, os critérios teriam que ser, tendencialmente, os político-militares.  Hélio Felgas, que eu saiba, nunca contestou o regime. Não conspirou. Não cuspiu na sopa, como dizem os que se arrogam o monopólio do patriotismo cego e incondicional. Quem dá as honras, sabe a quem e porquê.

Mas vamos ao essencial: é "humano" arranjar um bode expiatório... Para o desastre do Cheche, ou outros mais recentes ou recuados no tempo, sejam militares ou naturais: Alcácer Quibir, as cheias na Grande Lisboa em 1967, a tragédia de Pedrógão Grande em 2017, a tempestade Kristin em 2026...

A teoria do bode expiatório é um dos mecanismos psicológicos e sociais mais persistentes da história da humanidade. É extremamente perigosa porque tende a simplificar o que é altamente complexo (o "caos", para o homem comum: terramotos e desastres naturais, pandemias, por exemplo, mas também outras catástrofes como a guerra, incêndios, acidentes brutais de comboio ou avião, naufrágios, etc.) convertendo uma "culpa coletiva" (?) ou um "azar sistémico" (?) num alvo individualizado.

Na idade média, e até tarde, os médicos eram judeus (ou cristãos-novos). Sanches Ribeiro, natural de Penamacor (a terra do recém-eleito Presidente da República) foi o nosso maior médico do séc. XVIII. Mas teve que se pôr na alheta para não cair nas malhas da Santa Inquisição, que foi uma máquina de matar "herejes" e sacar-lhes o património. Morreu em Paris.

No caso da Op Mabecos Bravios, o bode expiatório só poderia  seria o seu comandante, o cor inf Hélio Felgas, que é para isso que  os comandantes (também) servem. É um facto que no ano seguinte foi ao 10 de junho receber a sua "Torre e Espada" (o galardão mais cobiçado por um  militar português). 

Não sei se podemos estabelecer alguma associação, muito menos de causa e efeito: não faria qualquer sentido. Ninguém recebe uma condecoração por um desastre.  A verdade é que, para a história, o seu nome ficará para sempre associado ao "desastre do Cheche".

Quando a "desgraça" nos bate à porta, como nos dias de hoje (de Leiria a Alcácer do Sal), o "homem comum" raramente busca as causas complexas dos fenómenos (militares, sociais, demográficos, económicos, naturais, ambientais, etc.) ou assume a quota-parte (mesmo ínfima) de responsabilidade que lhe cabe, enquanto cidadão, munícipe, consumidor, contribuinte,  predador, poluidor, etc..

A nossa tendência é arranjar logo um rosto para culpar, bater e odiar. Em geral, alguém (ou algum grupo) fora do nosso "círculo" de influência, conforto, território, pertença... No passado, os bárbaros, os hunos, os mouros, os infiéis, os judeus, os médicos, os hereges, os cristãos-novos, os jacobinos, os maçons, os fascistas, os comunas... Agora há muitos mais...

Será assim uma tendência "tão" instintiva? Afinal, somos "primatas", dizem os zoólogos... Como explicar as "desgraças" de que somos vítimas?

Talvez estas pistas da área da psicologia social ajudem a explicar o fenómeno:  (i) redução da ansiedade; (ii) sentimento de controlo (mesmo falso); (iii) coesão grupal e (iv) mecanismo da desgraça.

A incerteza é insuportável para o ser humano. Os gregos consultavam a pitonisa de Delfos antes de tomarem grandes decisões. Os calvinistas e os luteranos criaram a "teoria da predestinação":  eu não sei se estou condenado ao céu ou ao inferno,  é uma angústia insuportável para mim, cristão; mas Deus manda-me sinais de que estou no bom caminho: tenho sucesso, ganho dinheiro, invisto que o ganho, sigo  a lógica do custo-benefício, sou racional... 

Na maioria dos casos, é  mais reconfortante acreditar que existe um "vilão" específico causando o problema do que aceitar que o sistema (sociotécnico, "societal", o Estado e a sociedade, a economia) falhou ou que o azar (o "fatum") é aleatório. Ou então alimentar o "sebastianismo"...

Se há um culpado, a solução é fácil: basta eliminá-lo, puni-lo, isolá-lo (os "terroristas", os "insurgentes", as "minorias", os "feios, porcos e maus", etc.) para que a "normalidade" seja restabelecida. Quase por magia.

Nada une tanto um grupo quanto a existência um "inimigo comum" (cristãos 'versus' mouros, brancos 'versus' pretos, puros 'versus' impuros, colonizadores 'versus' colonizados, etc.). 

Apontar o dedo (ou a arma) para "o outro", fortalece o "espírito de grupo", ao mesmo tempo desvaloriza, ignora, escamoteia, nega ou faz esquecer as nossas próprias fissuras internas, as nossas divergências, as nossas fraquezas, as nossas misérias, etc.

Há ainda o mecanismo da "desgraça": isso tem a ver com a nossa cultura judaico-cristã... O termo tem origem bíblica (o ritual do Levítico, onde um animal carregava simbolicamente os pecados do povo "eleito" para o deserto).

Transposto para os dias de hoje, esse mecanismo opera em várias escalas:

(i) a família: o "filho problema" (drogado, psicótico, vagabundo, falhado, criminoso,  marginal, 
etc.) absorve as tensões de um casamento infeliz;

(ii) empresa / organização / grupo empresarial: o gestor ou o CEO demitido pelos "maus resultados" imputáveis à "crise económica; ou, exemplo mais comezinho, o treinador de futebol... que "paga as favas" dos maus resultados da equipa;

(iii) sociedade / Estado / Nação: minorias ou estrangeiros que são culpados por crises económicas, derrotas militares, pandemias, etc. (veja-se o que se passou com a ascensão de Hitler ao poder; ou, na idade média, a acusação de que eram os judeus e os médicos a evenenar os poços de água, provocando a "peste", do latim "peius", a "pior doença"...

É mais fácil usar o chicote (num desgraçado) (fisica e metaforicamente falando) do que sentarmo-nos à mesa para aprender com a análise partilhada de um problema (causas próximas e remotas, processo, consequências) de modo a prevenir ou atenuar os efeitos de problemas mais graves no futuro...

A onda de populismo, negacionismo, irracionalidade, autoritarismo, ódio (contra a ciência, a arte, a cultura, as elites, a democracia, as liberdades e garantias, a Constituição, ), etc. que varre hoje o mundo (de Portugal aos EUA, da Rússia à China, etc.), tem muito a ver com essa teoria do bode expiatório.

Carlos, recuso-me, por isso, em entrar na tentação de procurar um "culpado" para o desastre do Cheche... Ainda falei com o major-general Hélio Felgas antes de morrer... Pareceu-me um homem que amava o seu país e que tinha orgulho na sua condição de militar. Outras posições mais polémicas que tomou, não comento. Não sei o texto nem o contexto: por exemplo, a Op Lança Afiada (8-19 de março de 1969, Sector L1).

Não o absolvo nem o condeno, não o glorifico nem o demonizo: o nosso blogue não é, felizmente, um tribunal da História.

Mas se eu fosse professor da Academia Militar juntaria este caso ("o desastre de Cheche") à minha casoteca. Devemos aprender com os erros.  Em Porttugal, infelizmente, não nos damos a esse trabalho.

Não vou analisar o caso: eu, que escrevi tanto, ao longo de 40 anos, sobre saúde e segurança no trabalho, sei que todos os acidentes são de etiologia multifactorial: acusar o maquinista do comboio de "erro humano" ou desculpar o acidente por "falha técncia", é a mais redutora e simplista das explicações. 

No caso de Cheche, houve uma "falha" de um sistema, em termos mais simples, o sistema homem-máquina. Não li o relatório encomendado ao cor cav Fernando Cavaleiro, herói do Como.

Guiné 61/74 - P27721: Parabéns a você (2458): José Brás, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 1622 (Aldeia Formosa e Mejo, 1966/68)

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Nota do editor

Último post da série de 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27706: Parabéns a você (2457): José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381 (Os Maiorais) (Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

Foto nº 1A, 1B, 1 > Guiné > Região do Boé  >  "Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic)... Estranha (e perturbante) foto do Arquivo Amílcar Cabral, sem legenda nem uma data precisas (1963-1973)... Estas cruzes só podem ser de militares portugueses, mortos por afogamento na travessia do Rio Corubal, em Cheche, em 6/2/1969... Devem ser captadas por gente do PAIGC.  Parecem ser 11 campas improvisadas, 8 assinaladas com cruzes de ferro e 3  em madeira.

Fonte: Instituição:Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.124 | Título: Cemitério à beira do rio Cheche | Assunto: Cemitério à beira do rio Cheche, Guiné-Bissau | Inscrições: Cheche. | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias |

(1963-1973), "Cemitério à beira do rio Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43446 (2026-2-9)
Foto nº 2 > Guiné > Região do Boé  > Cheche > Parecem ser restos do destacamento de Cheche, abandonado pelas NT em 6/2/1969, aquando da retirada de Madina do Boé.  A sua missão era proteger a jangada que fazia a cambança do rio Corubal. Ficava na margem esquerda. Chegou a lá haver uma pequena povoação.

Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.251 | Título: Depósito de combustível, em Cheche | Asunto: Depósito de combustível, em Cheche, localidade junto ao Rio Corubal. | Inscrições: Cheche | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias

(1963-1973), "Depósito de combustível, em Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43064 (2026-2-7)



Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.  (Habituámos-nos a a grafar o topónimo como "Cheche". Mas na carta de Jabiá vem Ché Ché.)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Ao que parece não foram resgatados nenhum corpos das 47 vítimas, por afogamento, na travessia do rio Corubal, em Cheche, na manhã,  de 6/2/1969, quinta feira. Foi a última travessia efectuada. A coluna (5 dezenasd de vituras) seguiu para Nova Lamego:

(...) " O Comandante da Operação  [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Ché Ché para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego" (...).(*)

O cor inf Hélio Felgas, mais tarde, em 1995, já brigadeiro na reforma, escreveria:

(...) Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado.(...) (**)

No dia 20, quinta feira, duas semanas depois depois (!),  é que alguns corpos (11)  serão  resgatados a  jusante: a dúvida é saber exatamente em que local do rio.

No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  terão conseguido resgatar  os restos mortais de 11 militares (de resto, irreconhecíveis)

Outra dúvida: teriam sido, ou não, seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes ? Ficaram as cruzes e levaram os restos mortais dos nossos camaradas  ? Não nos parece. Os corpos deviam estar em adiantado estado de putrefacção.

E já agora: porquê 8 cruzes de ferro e 3 de madeira ? Teriam sido trazidas de Bissau, obviamente, as cruzes de ferro (que são do mesmo modelo das  usada no talhão dos combatentes portugueses,  no Cemitério Municipal de Bissau). E essas só podem ter sido colocadas pelas NT.

As cruzes de madeira temos que admitir que tenham sido improvisadas por gente da população local, fula, que conheciam os "tugas" antes da independência. De qualquer modo,  a foto  nº 1 tem se ser da época do acidente (1969). O Arquivo Amílcar Cabral só contempla imagens e outros documentos com datas até 1973 (ano da morte de Amílcar Caberal). Por outro, é de todo improvável  que estass inprovisadas e precárias  sepulturas tenham sobrevido às cheias que vieram logo a seguir, na época das chuvas de 1969.


Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério Municipal > Talhão Militar Central > Abril de 2006 > Monumento que celebra os soldados portugueses, mortos nas diversas "campanhas de pacificação" da Guiné, desde a Campanha do Geba (1890) à Campanha do Cuor (1907/08), passando pelas Campamhas do Oio e Bissorã (1913), onde se destacou o Capitão Diabo, Teixeira Pinto. Este cemitério tem três talhões, reservados aos combatentes portugueses mortos em campanha).

Foto ( e legenda): © Hugo Costa (2006).Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Mais provável é que que  o brigadeiro  Spínola (acompanhado de um  capelão de Bissau) tenha  assistido a esta delicada operação, como de resto era sua intenção,  operação que foi enquadrada por fuzileiros especiais e terá tido forte apoio aéreo.

Estas 11 cruzes da foto nº 1 vêm baralhar a nossa narrativa, também por causa da sua localização...  A foto do Arquivo Amílkcar Cabral tem como legenda: 

"Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic).

Ora, não há nenhum rio Cheche, perto do local onde se deu o acidente. Há vários afluentes do rio Corubal, a montante e a jusante de Cheche (vd. carta de Jábai): o mais perto, é o rio Campossabane, a 600 metros,  a montante; a jusante, temos o rio Cambengoi (ou Cambengol), a 3,5 km;  o rio Canchã, a 7,5 km; e o rio Ché Ché Piri, muito mais longe, depois de várias curvas e contracurvas  do Corubal (vd. carta de Padada). Todos afluentes deste.

As cruzes foram colocadas pelos fuzileiros que terão recuperam alguns corpos, no dia 20 de fevereiro de 1969. Irreconhecíveis.

 A legenda deve, pois, estar errada. O rio Ché Ché Piri, afluente do Rio Corubal, ficava a jusante do local da tragédia, uns largos quilómetros abaixo. 

A seguir a Ché-Ché, uns 4 km, no sentido jusante, o rio Corubal fazia uma curva de 90 graus. A corrente deve ter arrastado os corpos. As margens aqui eram altas, cota 40/50. Estamos na época seca, o rio tem muito menor caudal, mas mesmo assim  a corrente era forte, segundo os testemunhos da época.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Padada (1959) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Burmeleu, do  rio Ché Ché Piri, e de um troço do rio Corubal,  largos quilómetros a jusante do antigo destacamento de Ché Ché (na estrada Nova Lamego - Madina do Boé)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


De qualquer modo, esta foto deve ter sido tirada por alguém do PAIGC e enviada para Conacri. É a única referência (mesmo que indireta) que encontrei, no Arquivo Amílcar Cabral, a esta brutal tragédia que nos enlutou.

Há cinco referências a Cheche  (topónimo) no Arquivo Amílcar Cabtral:
  • as duas que publicamos acima (fotos nºs 1 e 2);
  • e, por fim, uma mensagem urgente do Secretário Geral, para o Boé, com data de 29 de janeiro de 1971, com informações sobre "uma grande ofensiva militar portuguesa no Boé (concentração das forças inimigas em Cheche)", solicitando-se ao Humberto e ao Silvino preparação cuidadosa da defesa da região e ligação permanente com o Secretariado Geral.
O erro no título ("Cemitério à beira do Rio Cheche" também pode ser imputado, eventualmente, aos ténicos da Fundação Mário Soares que trataram o Arquivo Amílcar Cabral. Mas inclinamo-me mais para a hipótese de ter sido legendada por gente do PAIGC, que conhecia mal o nome dos rios naquela zona. 

O António Rosinha reconheceu o local, onde esteve em 1986: ficaria a " montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio" (!)... e não a jusante, como imaginávamos nós...(afinal, todos os rios correm para foz).

A haver ali um rio era o  o rio Campossabane, a montante,  a meio quilómetro de Cheche (segundo a carta de Jábia).  

2. Já tínhamos publicado em tempos esta foto (nº 1) que mereceu diversos comentários de dois  camaradas que conheceram a zona (*)

De qualquer modo, Cheche era  passagem obrigatória para quem vinha de Nova Lamego até Madina do Boé (e Guiné-Conacri) passando por Canjadude, sede da CCAÇ 5 (Os Gatos Pretos, a que pertenceu o fur mil trms José Martins, 1968/70). 

E a verdade é que ainda hoje não há ponte nenhuma, ali, no Cheche, para facilitar as comunicações com  o país vizinho. E, se calhar ainda bem (por razões ambientais).

(i) O nosso camarada José Martins pode esclarecer-nos melhor sobre onde terá sido tirada a foto.

(...) Esta foto, para mim, não é só surreal como ofensiva. A zona de Burmeleu, a jusante do Cheche, não tem as margens como a imagem sugere.

A tragédia ocorreu no rio Corubal e não no Rio Ché Ché Piri. Acho muito estranho que os militares do PAIGC, mesmo depois da independência, fossem retirar cruzes das campas dos militares portugueses, para as colocar ali.

Alguns corpos foram recolhidos por guineenses, mas não prestariam esta homenagem, até porque ocuparam o espaço de cemitérios com novas moranças, como se viu em reportagens televisivas, na zona de Bafatá. (...)

(ii) O Antº Rosinha que foi cooperante na Guiné, como topógrafo, depois da independência,  conheceu o local (em 1986):

(...) penso que aquele lugar fica a montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio.

Evidentemente que ali não há cemitério nenhum. Pode ter havido ali algum tipo de cerimónia de militares nas margens do rio, como se costuma fazer de pôr uma cruz e flores à beira da estrada onde morre de acidente um familiar.

Aquele rio chega, ou chegava quando a Guiné estava mais longe do deserto que é hoje, a ter cheias em que esse lugar está debaixo de água.

Este acidente deu-se no tempo seco, e as chuvas começam em maio /junho (e vão até outubro/novembro),.

Ali é difícil o acesso às margens junto à agua, devido aos grandes arbustos que se debruçam sobre a água, e aquele lugar (que é igual àquele que eu penso) é alcantilado (arriba) mas sem os tais arbusto fechados.

Conheço bem o lugar, porque trabalhei como cooperante das Obras Públicas vários dias a tentar pôr aquela jangada e seus acessos funcionais, em 1986.(...)


(Não sei se é verdade tudo o que eu digo, mas o que digo é apenas o que vejo)

A imagem que se consegue ver no Google é apenas em cheias, pelo que não se vê este pormenor da margem que eu digo.

Mas a foto ou foi tirada de canoa ou de algum bote de fuzileiros, pois como se vê aquilo é uma arriba de dificil acesso, mesmo para uma foto, quanto mais para fazer sepulturas.

Em arribas não se fazem cemitérios, embora lá se encontrem dinossauros.

Contemos a história, e em memória dos que morreram, mesmo sem pôr cruzes, afirmar que não foram eles os culpados de haver tantos guineenses junto ao arame farpado de Ceuta. (...)

sábado, 6 de fevereiro de 2016 às 11:20:00 WET

Enfim, fica aqui o desafio aos nossos leitores para trazerem novos contributos para o esclarecimento deste "misterioso cemitério de Cheche"(***). 


Guiné 61/74 - P27719: (in)citações (283): "Se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo" (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


SE A MINHA MÃE ESTIVESSE AQUI DAVA-LHE UM BEIJO

adão cruz

Depois de ser obrigado a assumir que a nossa democracia se resume a meter uma cruz dentro de um pequeno quadrado, de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, fui almoçar. O restaurante rapidamente se encheu de caras mais ou menos alegres e sorridentes, deixando transparecer a satisfação do dever cumprido. No fim do almoço, vim até casa seguir o ritual a que a velhice obriga, tomar os comprimidos e fazer uma pequena sesta. Como a chuva se dignou dar uma curta trégua, resolvi pegar no carro, como faço habitualmente, nunca sabendo ao certo se é o carro que me obriga a sair, se sou eu que o obrigo a mexer-se. O dilema mantem-se por alguns momentos, até que surja a decisão de andar ou voltar para casa.

Sempre que decido, o destino é o rio, as margens do Douro, mas logo que me encontro na rua, outra indecisão aparece, nascente ou poente. Resolvo a situação, alternando. Hoje calhou ser dia de ir para poente, para o Cais do Ouro, um pouco antes da Cantareira. Parei o carro frente ao rio, que embora cheio, não transbordava, e decidi fazer uma curta caminhada. Mal cheguei à pequena casa que fica na ponta do cais, vi uma rapariga, muito magra, aí dos seus quinze anos, com um kispo e carapuço na cabeça, uma saia bege cobrindo umas calças escuras, encostada à parede virada para o rio, gesticulando e fazendo movimentos desordenados, apontando o dedo para o rio como que a culpá-lo. Por vezes parava e sossegava. A seu lado tinha uma minúscula trotineta de criança. A uma certa distância, mantive-me atento, procurando não dar nas vistas. Ao fim de algum tempo, retomou os gestos, pegou na trotineta, em cima da qual andou alguns metros, deu umas voltas pelo relvado com a trotineta na mão e desapareceu.

A chuva começou a cair de mansinho obrigando-me a voltar para o carro. A meio do caminho, a rapariga apareceu subitamente a meu lado. Não era uma rapariga, mas um rapaz, muito magro, bonito, com ar doce e uma barbicha muito rala. Um tanto acanhado, pediu-me uma moeda. Que idade tens, perguntei. Vinte e um. Pareces muito mais novo, o que fazes? Encolheu os ombros. Tens alguma doença? Encolheu novamente os ombros e disse baixinho, uns problemas. Com a droga? Encolheu de novo os ombros. Tens fome? Assentiu, com a cabeça. Toma lá cinco euros e vai comer qualquer coisa. Baixou o rosto, sorriu docemente, não sei se para fora se para dentro e disse: eu ando de saia, mas não sou… a saia é da minha mãe e é muito quentinha. Como te chamas? Carlos. Olha, Carlitos, eu gostava de conversar mais contigo, mas a chuva está a pegar. Dá-me os cinco euros e toma lá vinte. Vai comer qualquer coisa.

O rapaz levantou a cabeça, espantado, e sorriu abertamente. Olhou-me com toda a doçura dos seus olhos negros e com a voz mais firme disse: se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo.

Voltei para o carro e ali me mantive por algum tempo, tão triste como a chuva que começou a cair sem piedade. Pobre Carlitos, como eu gostaria que tivesses tido outra sorte. E voltei para casa a pensar nos meus netos.

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Nota do editor

Último post da série de 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
É uma novidade, um romance histórico dedicado à vida e obra de Amílcar Cabral. Romance é romance, mesmo quando o autor apresenta bibliografia condigna assiste-lhe todo o direito de forjar diálogos, recriar ambientes. Tratando-se de um romance de 600 páginas, achei por bem compartimentar por períodos o trabalho de José Alvarez, arrancamos no período que antecede a sua vinda para Lisboa (1924, data de nascimento a 1944, conclusão dos estudos liceais a 1951, ano em que Cabral irá realizar o estágio para acabar o curso, passando bastante tempo em Cuba e na Vidigueira). No próximo texto, Cabral está formado, com alta classificação, optou por ir trabalhar na Guiné, a relação entre ele e a mulher é muito próxima, mas haverá muitas tensões por ele ter escolhido esta missão, que o levará à Granja de Pessubé e depois ao recenseamento agrícola na colónia, era uma exigência da FAO, há muito adiada, ele, e na companhia da mulher, cumprirão cabalmente esta missão.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 1

Mário Beja Santos

José Alvarez volta à Guiné, estreara-se na literatura com o romance Dois Amigos, Dois Destinos, isto em 2014. Publica agora algo a que se pode intitular romance histórico Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império, Âncora Editora, 2025.

Em nota prévia, justifica-se ao que vem:
“Por certo haverá leitores que se interroguem os motivos que me levaram a escrever este livro sobre Amílcar Cabral, decorridos mais de cinquenta anos sobre o seu brutal assassinato. Em boa verdade devo-lhes esta explicação. Eu pertenço à geração nascida nos anos 40, que viveu a Guerra Colonial até à queda do regime, a 25 de abril de 1974. O serviço militar era obrigatório e foi em fase de conclusão do meu curso universitário que decidi ingressar na Reserva Naval da Armada, por se tratar de uma alternativa menos penosa e com menos riscos que a do Exército. Concluída a fase de instrução, fui mobilizado para a Guiné, onde cheguei a 30 de julho de 1971, para só regressar à Metrópole no final da comissão, a 6 de outubro de 1973. Comecei por comandar um navio patrulha (LFP), lancha de pequena fiscalização, dotada de uma guarnição de oito militares, que tinha por missão a vigilância das águas territoriais marítimas e dos rios da Guiné, mormente o Cacheu, o Geba, o Rio Grande de Buba, o Tombali, o Cumbijã e o Cacine, para além de coordenar operações logísticas, comboiando batelões de mercadorias para abastecimento das povoações do interior como Bolama, Farim, Buba, Jabadá e Cacine. Participava ainda no transporte de tropas de intervenção, fuzileiros, para-quedistas ou comandos, em operações especiais. Em outubro de 1972, fui transferido para o Comando da Defesa Marítima, passei a ter acesso a documentos secretos e informações da PIDE, apercebendo-me de que Amílcar Cabral era um líder de grande dimensão, não só pela atividade política que desenvolvia no plano internacional, como também pela forma como conduzia as operações armadas do terreno.

Com a queda do Estado Novo, o país conheceu outros rumos, mas a Guerra Colonial deixou marcas profundas nos nossos combatentes. Aqueles anos de África ficaram gravados de forma especial na minha memória. Olhando para a guerra à distância e com os meus conhecimentos sobre Cabral, entretanto ampliados por muito que se foi escrevendo sobre aquela personagem e pela leitura detalhada da documentação do arquivo de Amílcar Cabral da Casa Comum, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, pude compreender melhor as ações do líder guineense, tendo em conta a sua infância, marcada pela influência dos seus progenitores e pelo seu percurso como estudante de Agronomia em Lisboa. Optei por escrever um romance histórico ficcionado sobre Amílcar Cabral baseado na sua bibliografia, dando vida ao Homem, à sua família e aos seus amigos. Preocupei-me em referir as circunstâncias diversas que Cabral viveu no Mindelo, em Lisboa, em Bissau, Conacri e Rabat. Dei ênfase aos acontecimentos contemporâneos, como a II Guerra Mundial, a independência da Guiné-Conacri, a Tricontinental de Havana, a operação Mar Verde, bem como a influência dos seus professores do liceu Gil Eanes e dos pensadores marxistas como Aimé Césaire e Franz Fanon e também do escritor e jornalista Basil Davidson.

Embora as personagens desta obra sejam reais, os seus diálogos são ficcionados com base em documentação consultada em vários arquivos.”


O autor começa por referir a filiação do líder do PAIGC, a transferência dos pais para Cabo Verde, em momentos diversos, a separação de Juvenal Cabral e de Iva Pinhel Évora, a frequência de Amílcar na Escola Central da Praia, a transferência de Iva e de Amílcar para São Vicente, os trabalhos duríssimos de Iva para sustentar a família que Amílcar deixará uma afetuosa evocação no seu livro de curso de Agronomia. No Mindelo, Amílcar observa a presença do Corpo Expedicionário que veio reforçar as defesas no decurso da II Guerra Mundial. Visita o pai na ilha de Santiago, na casa deste em Achada de Falcão, inevitavelmente falar-se-á de política, Juvenal era admirador da obra de Salazar, Amílcar brinca com os irmãos do terceiro casamento do pai. É neste período que vai emergindo a consciencialização nacionalista de Amílcar. Em 1945, ele ganha por concurso uma bolsa de estudos e chega a Lisboa, irá frequentar o Instituto Superior de Agronomia. Apresenta-se à chegada na Casa dos Estudantes do Império, prédio de esquina no Arco do Cego com a Rua D. Estefânia, vai fazer amizades, muda-se para Alcântara, logo procurou dar explicações de matemática, entra na Tapada da Ajuda, cedo revela as suas aplicações no meio universitário, conhece Maria Helena Vilhena Rodrigues, haverá amor transbordante, recíproco, a correspondência de Amílcar para Maria Helena será publicada em 2016, lendo aquela epistolografia manual não deixa de surpreender não haver para ali uma rasura, um desalinhamento, uma extrema sintonia entre a mente e a mão.

José Alvarez vai ficcionando relatos, desvela mentalidades das colegas de Amílcar, este vai-se apercebendo das tensões sociais, o leitor é induzido no relacionamento de Maria Helena com as amigas, cresceu, entretanto, a ligação amorosa, muito mal vista pela diretora do colégio de Maria Helena, Amílcar continua a frequentar a Casa dos Estudantes do Império, a polícia política começa a estar atenta às manifestações dos estudantes nacionalistas africanos. Nas relações de Amílcar surgem Marcelino dos Santos e Mário Pinto Andrade, já se fala na negritude, põe-se em causa o direito de Portugal possuir colónias, critica-se o luso-tropicalismo, considerada uma teoria que dava força à continuação do império português, desfigurando a realidade vivida pelos negros, sujeitos à discriminação social e à ideologia colonialista. Entra neste círculo de relações o angolano Agostinho Neto.

Em agosto de 1948, Amílcar arranjou emprego temporário na secção do Contencioso do Instituto Nacional do Trabalho. Reencontra Maria Helena depois das férias, Amílcar propõe-lhe um futuro comum. Amílcar está de regresso a Cabo Verde nas férias de verão de 1949, também visita o pai, recebe um convite para colaborar na Rádio de Cabo Verde, reencontra um amor da juventude, Rosa, a quem dedicará um poema Rosa Negra. Faz programas radiofónicos, é recebido pelo Governador Carlos Alves Roçadas, conversa calorosa.

Estamos em Lisboa no início da década de 1950, Amílcar inicia um estágio na Brigada dos Solos de Santarém, saiu, entretanto, do MUD, manifesta o seu desgosto da oposição não ter preocupações anticoloniais. Maria Helena e Amílcar já falam em casamento, chegam mais estudantes africanos, Lúcio Lara, angolano, Alda Espírito Santo, santomense. Nasceu na rua Actor Vale, n.º 37, em casa de Januário da Graça Espírito Santo, pai de Alda, o Centro de Estudos Africanos, espaço que se iria dedicar ao estudo e reflexão de temas africanos. Aqui se reuniram Agostinho Neto, Mário Pinto Andrade, Amílcar Cabral, Francisco Tenreiro, Marcelino dos Santos e Alda Espírito Santo.

Nesse ano de 1951, Amílcar e Maria Helena, entre outros estudantes de Agronomia, partem com o professor Botelho da Costa para o Alentejo, vão estudar a erosão dos solos.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)