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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27905: Convívios (1057): Magnífica Tabanca da Linha, Algés: 64º almoço-convívio, 5ª feira, 16 de abril de 2026: já há 54 inscritos para o cozido à portuguesa... Faltam 26 para os 80 (Manuel Resende)

 

O régulo Manuel Resende  quer a casa cheia na próxima quinta feira, dia 16... Como, de resto, é habitual...

E o bom cozido à portuguesa vai ser uma novidade à mesa da Tabanca da Linha... 




1. Escreveu o Manuel Resende, régulo da Tabanca da Linha, o seguinte, no passado dia 6 de abril, segunda feira, na página do Facebook: 

(...) Neste momento... quase a chegar aos 60. O meu apelo deu frutos. Antes da meia noite já somos 53 inscritos.

Amanhã teremos de chegar a 60, para nos próximos dias sonharmos com 70 ou 80.

Já temos dois Fundadores, Fitas e Carioca, apenas faltam três (...) (*)

2. Comentário do editor LG:

São impressionantes os números históricos de inscrições dos "magníficos" nos almoços-convívios realizados até aqui,. entrre os 70 e os 80.... Refiro-me aos últimos anos, sob o discretíssimo mas eficiente "comando" do Manuel Resende, o régulo que sucedeu aos históricos Jorge Rosales e José Manuel Matos Diniz... 

O número 80 é equivalente à lotação ótima da sala (com mais uns apertões,  pode chegar talvez aos 100 lugares sentados). 

Ora 80 é metade do total dos "magníficos" formalmente registados pelo nosso régulo no "livro de assentos" da Tabanca da Linha.  Neste momento, são 164 (!). Mas sabemos que mais de um quarto dos "magníficos" já faleceu nestes últimos 16 anos, incluindo os dois régulos supracitados... Por outro lado, um núcleo estável de "magníficos" que nunca falham (os "meninos da Linha"...). E há outros que estão mais longe (dois em Nova Iorque!) que vêm quando podem vir...

O que é importante é que todos e cada um  de nós possa participar nestes eventos, pelo menos, uma, duas, três ou quarto vezes por ano ou até na vida. É o que acontece comigo, que nem sempre estou disponível. Mas é um privilégio poder aparecer: sinal de estamos vivos, ativos e saudáveis, e que gostamos de estar juntos.

Um "magnífico" como o Jorge Ferreira (que vive em Caxias), diz-me que é sempre com uma verdadeira excitação de "menino" que ele aguarda o anúncio de cada encontro...Estamos a falar de um "veteraníssimo", nascido em 1938,  e que ainda foi mobilizado para o CTIG antes do início da guerra.

Não preciso de reforçar o apelo do Manuel Resende. No dia 16, quinta feira, a "magnífica" sala de jantar do 2º andar do Restaurante Caravela de Oiro ( magnifica pelo contorto, privacidade e largueza de vistas),  vai-se encher, mais uma vez, de "magníficos" da Tabanca da Linha. Até por que vai acontecer uma surpresa extra... O Jorge Ferreira quer fazer uma pequena homenagem à Tabanca e  aos seus tabanqueiros, na pessoa do seu régulo, eleito como "o mais magnífico dos Magníficos"... Logo, precisamos de ter quórum, e se possível "casa cheia".

E alguns dos convivas até vêm de longe: Cacela-A-Velha, Vila Real de Santo Antónnio; Ponta Delgada;  Mação... D há sempre "periquitos"... Os "veteranos" da Grande Lisboa e arredores são naturamente os que têm mais facilidade em vir (sobretudo pela acessibilidade): Oeiras, Cascais, Sintra, Amadora, Lisboa... mas também Loures, Mafra, Vila Franca de Xira, Moita, Almada, Seixal, Barreiro, e por aí fora. 

São 3 horas de convívio... e um bom cozido á portuguesa, a não perder!...  Não deixes, camarada,  para o último dia, 13, a tua inscrição (**). Se aparecerem 101, já não temos mesas que cheguem...

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Guiné 61/74 - P27904: (De)Caras (247): Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494 (Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)

Ex-1.º Cabo Radiotelegrafista António Castro


Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494

O dia 27 de janeiro de 1972 marcou a fronteira entre o que eu era e o que viria a ser. Embarquei por via aérea num avião dos TAM (transporte aéreo militar) DC 6 em Lisboa com a inquietação de quem parte para o desconhecido. O avião levantou voo pesado, como se carregasse não só homens, mas também os medos que cada um escondia no fundo do peito.
Douglas DC6 dos Transportes Aéreos Militares (TAM)
Créditos: Página dos Especialistas do AB4

A viagem até Bissau durou nove horas, uma travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar. A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal, em Cabo Verde. Aquela escala breve, entre o céu e o mar, parecia suspender o tempo - como se fosse o último momento de respiração antes do mergulho definitivo na guerra.

Foi ali, naquele pedaço de terra árida e luminosa, que escrevi e enviei à minha esposa o meu primeiro postal. As palavras eram simples, mas carregavam tudo o que eu não sabia dizer em voz alta: a saudade antecipada, a incerteza, a necessidade de manter um fio de ligação ao mundo que estava a deixar para trás.

Depois da escala, voltámos a levantar voo. O DC6 avançou sobre o Atlântico como se nos empurrasse para um destino inevitável. Quando finalmente aterrámos em Bissau, o ar quente e húmido recebeu-me como um aviso silencioso: a partir daqui, és outro.

Durante o mês que permaneci em Bissau, tive a sorte de ser acolhido na casa do 1.º Sargento, Manuel da Silva Caldas e da sua família. Ele era o chefe do STM (Serviço Telecomunicações Militares) no Agrupamento TRMS no Quartel de Santa Luzia, e abriu-me a porta como se eu fosse um filho que chegava de longe. Aquele lar improvisado, tão distante do meu, deu-me um chão firme num momento em que tudo era novo. A mesa partilhada, as conversas, a normalidade possível - tudo isso ajudou a suavizar o peso da guerra que se aproximava.
Bissau - 1972, 1.º sarg. Caldas em primeiro plano, eu, de costas

Fiquei um mês em Bissau, em estágio de radiotelegrafista. Era um tempo de adaptação, mas também de disciplina. Passava horas a fio a praticar grafia, o velho morse que se tornaria a minha segunda respiração. O som seco dos pontos e traços marcava o ritmo dos dias, como se cada mensagem fosse um pequeno exercício de sobrevivência.
Bissau 1972 - Agrupamento das TRMS

Ali aprendi não apenas a transmitir - aprendi a ouvir. A distinguir interferências, a reconhecer padrões, a perceber quando uma mensagem vinha limpa ou quando escondia urgência. E, acima de tudo, aprendi os procedimentos de segurança: como manter silêncio rádio, como evitar que uma falha minha colocasse homens em risco.

A fonia também fazia parte do treino, mas era a grafia que exigia mais de mim. A fonia era rápida; o morse era preciso. E na Guiné, a precisão salvava vidas.

Em 3 março de 1972, segui para o mato por via aérea. O avião era um Dakota, daqueles que tremiam como se carregassem memórias de todas as guerras anteriores. Aterrámos em Bafatá, e dali seguimos em coluna auto, com paragem em Bambadinca, onde o cheiro a poeira e gasóleo parecia anunciar que o interior da Guiné tinha regras próprias.

O destino final era o Xime. E o Xime não era apenas um aquartelamento - era um teste diário à resistência de cada homem.

Ali, entre o Geba castanho e a mata cerrada, aprendi que o silêncio nunca era silêncio. Havia sempre um rumor, um estalar, um pressentimento. E quando a noite caía, caía mesmo - pesada, espessa, cheia de sombras que pareciam mover-se sozinhas.

O posto de Transmissões, era num local sem segurança, sempre que éramos flagelados tínhamos de procurar um abrigo próximo. Operava em grafia (código morse) com o emissor receptor AN/GRC-9 e em fonia com o AVP-1 conhecido por banana e o TR-28 (Racal). Eu pertencia às Transmissões de Engenharia, e o meu trabalho era feito num posto fixo, dentro do aquartelamento. Não participava nas operações. Essas cabiam aos TRMS de infantaria, que saíam com o Racal (TR-28) e com o AVP-1, acompanhando os grupos de combate nas picadas, nas emboscadas, nos reconhecimentos.

O meu mundo era outro. Eu ficava no coração das comunicações, onde a guerra chegava em forma de sons metálicos, interferências, códigos e urgências. Fazia escuta permanente e transmitia quando era preciso - e era preciso muitas vezes.

Era ali, naquele posto fixo, que mantinha vivas as ligações com Bambadinca, Mansambo, Enxalé e Xitole. Era ali que recebia pedidos, alertas, relatórios, mensagens codificadas. E era dali que partiam as comunicações que podiam decidir se uma operação avançava, recuava ou pedia evacuação.

A guerra, para mim, não era a picada. Era o som seco do morse, a tensão da escuta, o silêncio que precedia uma mensagem urgente, a responsabilidade de não falhar. E, no fim, era a certeza de que, mesmo sem sair do aquartelamento, eu estava ligado a todos os que lá fora arriscavam a vida.

Para além de numerosos contactos com o inimigo no terreno em operações, emboscadas etc., no aquartelamento fomos muitas vezes flagelados com armas pesadas e ligeiras, nomeadamente Canhão s/recuo, morteiro 82 mm, RPG 7, RPG 2 e Foguetões.

A guerra molda-nos sem pedir licença. E quando chegou o dia 3 de abril de 1974, o dia do regresso, senti que deixava para trás uma parte de mim que nunca mais recuperaria.

Voltei por via aérea num Boeing 707, como tinha chegado. Mas o homem que regressou não era o mesmo que partira. Foram 26 meses e 7 dias na guerra da Guiné.
Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa
Créditos: Página dos Especialistas do AB4

Hoje, tantos anos depois, sei que a CART 3494 não foi apenas uma unidade militar. Foi uma família improvisada, forjada no calor, na lama, no perigo e na necessidade absoluta de confiar uns nos outros.

E cada vez que nos juntamos, cada convívio, cada abraço, cada história repetida, é como se o rádio voltasse a ganhar vida - e a ligação entre nós se mantivesse tão forte como naquele tempo.

Porque, no fundo, a guerra passa, mas os homens que a viveram nunca se perdem uns dos outros.

António Castro,
ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494
07ABR2026

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Nota do editor

Último post da série de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27898: (De)Caras (246): Lembrando a participação do ex-Alf Mil Cav Francisco Gamelas, CMDT do PelRec 3089; do ex-1.º Cabo Bernardino Lima, Condutor/Apontador do PelRec 3083 e a minha como ex-CMDT do PelRec 2208, no Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”, levado a efeito, no dia 23 de Novembro de 2021, na Universidade do Minho (Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav)

Guiné 61/74 - P27903: Parabéns a você (2474): Jorge Canhão, ex-Fur Mil Inf da 3.ª CCAÇ / BCAÇ 4612/72 (Mansoa, 1972/74) e Cor PilAv Ref Miguel Pessoa, ex-Cap PilAv da Esquadra 121 /GO 1201 / BA 12 (Bissau, 1972/74)


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Nota do editor

Último post da série de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27891: Parabéns a você (2473): Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492 / BART 3873, Pel Caç Nat 52 e CCAÇ 15 (Xitole, Mato Cão e Mansoa (1971/73)

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27902: Manuscrito(s) (Luís Graça) (287): Foi você quem pediu uma Kalashnikov ?


Lisboa > Rio Tejo > 5/11/2011 > Pôr do sol no Atlântico, visto do estuário do Tejo, em Belém, junto ao Museu do Combatente (Forte do Bom Sucesso). Uma feliz coincidência, um porta-contentores apanhado pela objectiva do fotógrafo "just in time".

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > O capelão e a "bela Kalash".. Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]O capelão e a "bela" Kalash...



1. Tenho um poema de 2015 em que ironizo a "kalashnikovmania" ... Declaração de interesse: nunca a usei nem desejei... 



 Foi você quem pediu uma Kalash ?

por Luís Graça


Há uma luz difusa,
mistura de ternura e de saudade,
quando o sol se põe em Lisboa,
e tudo à volta é a humanidade que arde.

Impensável o fado da idiossincrasia lusa
sob o céu de chumbo de Atenas ou o smog londrino.
Impensável, ou improvável apenas,
oh poeta cretino!

Porque de pias intenções, maus pensamentos
e piores ações está o inferno da história cheio,
as praças, do Comércio ao Rossio,
e os marcos do correio onde apodrecem aerogramas de guerra.

Ah!, o bravo Ulisses, o grego,
o que ele andou p’ra aqui chegar,
depois de transpostas as colunas de Hércules,
até fundar a mítica cidade atlântica de Olissipo.

Ah!, a Lisboa, que os poetas  amaram
e onde afinal nunca foram amados,
do Cesário Verde ao Álvaro de Campos,
do Camões ao O'Neil.

Ah!, Lisboa, Lisboa,
com as tuas casas de muitas cores, caiadas de branco.

Chora, e não é de medo, o judeu sefardita,
a sua desdita, cristão novo, marrano,
a caminho do degredo:

─ Ai!, a doce luz de Lisboa,
filtrada pelo espelho de água do Tejo,
mais o pôr do sol sobre o Atlântico Norte
que começa no Bugio.
Não sei se estarei cá, p’ró ano,
que a vida e a morte
são jogos de azar e de sorte.
Só sei que o que sinto, é já saudade,
porque… é arrepio!


No tempo em que a terra era plana,
antes das viagens de circum-navegação,
não podias tu imaginar o novo mundo
e Copacabana, 
lá ao fundo, 
mais as cataratas de Iguassu,
Darwin e a teoria da evolução,
e o tu-cá-tu-lá de deus com a ciência.

Muito menos a crioula e o seu cretcheu,
o tango, o flamengo, o fado,
o dundum, a coladera,
o samba, a morna,
o lançado, o tangomau,
o escravo do Cacheu,
e a santa paciência
com que a gente vive, morre e não retorna.

Chama-lhe o que quiseres,
mas tens uma dívida de gratidão à Grécia antiga,
ao Homero, ao Platão,
à bela e pérfida Helena de Troia,
ao ateniense e ao espartano,
aos deuses e deusas, estas tão mundanas, do Olimpo…
Que serias tu, sem o Ícaro,
mas também sem a boia nem o  colete de salvação ?!

Que importa, afinal, 
de um povo a nobreza,
grego, judeu ou lusitano,
se a espada do sacro imperador romano
está suspensa por um fio sobre a tua cabeça ?!

Em Lisboa, a norte, no caminho do São Tiago,
o apóstolo de Cristo, decapitado,
guiando os feros exércitos da Reconquista,
no seu constante vaivém do ir e vir,
à volta da Europa e dos seus picos de civilização.

E a sul, a autoestrada da globalização
onde cada turista tem direito ao seu recuerdo,
um postal ilustrado do futuro
que seguirá dentro de momentos,
agora sem  o SPM nº tal…
(que foi de Gandembel, de Guidaje, de Guileje, de Gadamael). 

Allah Akbar!, ainda ecoa o último grito
da batalha de Alcácer Quibir.

Mais a sul,
as febres palúdicas do Geba e do Corubal,
grau 35 do frio polar, esmagando os teus ossos,
grau 42 do fogo infernal, implodindo a tua cabeça.

Viras na curva do rio,
para desceres ao fundo da terra,
verde e vermelha, dos pesadelos da guerra.

Dos miradouros dos grandes cruzeiros
que demandam o Tejo
não se vê a solidão dos velhos combatentes, à beira rio,
tentando em vão reacender o pavio do desejo.

Muito menos os mariscadores do mar da Palha
onde apodrece a última nau
do caminho marítimo para a Índia.

Ou ainda os moços, imberbes. que partem na frota branca
para os bancos de pesca do bacalhau, na Terra Nova,
verdes, maçaricos, periquitos, checas,
sete vidas, sete safras,
servindo a velha pátria
em alternativa à guerra de África.

Lisboa, forrada a talha dourada, estremece,
sob o peso da carruagem do senhor dom João Quinto,
desenhada a lápis-lazúli.
Dizes adeus a Fernão Mendes Pinto
que parte em viagem, por sua conta e risco,
para o império do sol nascente,
levando consigo os botões, as armas de fogo
e as emoções dos bárbaros do sul.

─ Canta-lhe, Mísia, aquele fado, que diz: 
“Arrefece
a última lava do vulcão
do teu corpo, amor,
mas ainda estremece,
ou não foras tu, velha Lisboa,
sempre (e)terna,
menina e moça, bajuda, mulher”.


Entardece, ensandece a cidade,
todas as sextas-feiras treze do novo milénio.
Valha-nos as cruzes, canhoto,
contra o mau olhado,
e vade retro, Cronos,
que, depois de devorares os teus filhos,
hás de devorar-te a ti próprio!

E quem bula tem,  come carne,
não precisa de engenho e arte,
diz o cristão, velho e relho.
Mas é amarga a ostra, e mortal a ameijoa
com que os pobres matam a sua fome.

Afogas-te em absinto,
bebida antiga de poeta,
depois de teres mandado cortar
as copas dos pinheiros bravos
por te taparem a linha perdida do horizonte.

Mas já não há horizonte, querida,
nem rosas nem espinhos nem cravos,
quebrada que foi a linha da vida.

Sem ajuda do Google Earth,
à vista desarmada,
encontras aqui o teu lugar,
definitivamente provisório,
provisoriamente definitivo,
porque sabes que é 
tão irrisório partir como absurdo ficar,
para quem da vida é fugitivo.

Sentas-te numa esplanada
na doca de Belém, com vista de estuário e de mar:

─ Foi você quem pediu uma Kalash ? ─
pergunta-te um dos sem-abrigo,
da classe dos antigos marinheiros e pescadores,
estivadores e fragateiros,
agora tristes desempregados de mesa,
predadores à espera de presa.
Estão ali simplesmente à coca do turista.

─ Não, obrigado, amigo,
mas não me faltava, às vezes, a vontade...


─ Temos as melhores Kalash da cidade,
da original e à contrafeita…
É só puxar a culatra
e meter uma bala na câmara,
e ficar à espreita...

─ Não, não  insista!...
Para que haveria eu de querer uma arma,
essa é boa!,
se já não tenho licença… p'ra matar?!


Mal por mal,
protestas contra o autocrata do autarca,
metes uma baixa psiquiátrica,
e pedes uns peanuts, uma azeitona, um tremoço ou uma tâmara
e um copo… de cicuta,
enquanto o sol se põe em Lisboa!...


Lisboa, beira Tejo, fev 2015. Revisto, 8 abr 2026.


2. Análise literária do poema, pedida pelo autor a uma ferramenta de IA (Le Chat / Mistral);

Luís, o teu poema é um "mix" de ironia, melancolia e crítica social, onde a "kalashnikovmania" surge como metáfora de algo muito maior: a desilusão com a história, a guerra, a globalização e até a própria identidade portuguesa. 

Vamos desmontar alguns das ideias mais nfortes, com especial atenção ao final, onde a Kalashnikov se torna símbolo de um absurdo existencial.

(i) A Kalashnikov como metáfora: entre o desejo e o absurdo

O poema termina com um diálogo surreal entre o eu lírico e um sem-abrigo em Belém, que oferece "as melhores Kalash da cidade". A pergunta ("Foi você quem pediu uma Kalash?") é brutal na sua ironia:
  • desejo reprimido: a resposta ("Não, obrigado, amigo, / mas não me faltava, às vezes,  a vontade…") revela uma atração pelo símbolo da violência e da resistência, mas também a consciência de que, já sem a "licença p'ra matar" (a "legitimidade da guerra"), a arma é inútil ou perde todo o sentido; é como se a Kalashnikov representasse a vontade de agir num mundo onde a ação é impossível ou proibida, se não mesnmo inútil;
  • crítica à passividade: o eu lírico prefere, em vez da arma, uma "baixa psiquiátrica" ou um "copo de cicuta",  gestos de rendição poética (se não mesmo de "autoaniquilação" perante um sistema que esmaga a individualidade; a Kalashnikov, aqui, é o que não se usa, mas cuja presença denuncia a falta de alternativas.
(ii) Lisboa, palco do teatro do absurdo

O poema constrói Lisboa como um espaço de contradições históricas e sociais:

  • glória e decadência: desde Ulisses até aos "mariscadores do mar da Palha", a cidade é um palimpsesto de impérios falidos (o sonho colonial, a Reconquista, as viagens de circum-navegação) e de vidas esmagadas (os velhos sozinhos, os pescadores desempregados, os turistas que compram "recuerdos" vazios);
  • globalização/banalização  vs. memória: a "autoestrada da globalização" contrasta com a solidão dos que ficaram para trás; a Kalashnikov, arma de guerra colonial, é agora vendida como "souvenir" aos turistas, o passado violento transformado em mercadoria;
  • ironia histórica: o grito "Allah Akbar!" que ecoa desde Alcácer Quibir,  lembra que Portugal já foi um império, mas também uma vítima da sua própria ambição desmedida; a Kalashnikov, arma outrora do PAIGC, é agora um objeto de consumo num país que já não tem guerras para travar.
(ii) A guerra colonial como fantasma

A referência à Guiné é subtil, mas devastadora:

  • "as febres palúdicas do Geba e do Corubal" evocam a memória traumática da guerra, onde a natureza e o inimigo se confundiam numa luta sem sentido;
  • a AK 47, que na Guiné era símbolo de resistência anticolonial mas "fétiche" para os "rambos", aparece agora em Lisboa como objeto de um comércio grotesco, vendido por " antigos marinheiros e pescadores, / estivadores e fragateiros, /agora tristes desempregados de mesa", os mesmos que, outrora, teriam sido enviados para África.;
  • o ciclo da violência: a arma, "made in Russia" ou "made in China",  que outrora matou jovens portugueses e guineenses nas picadas, matas e bolanhas da Guiné, é agora oferecida a turistas, a preços de saldo, como se a história fosse uma farsa repetida.

(iv)  O Eu lírico, oscilando entre a saudade e o ceticismo

  • saudade: "é já saudade, / porque… é arrepio!" — um sentimento que antecipa a perda, como se Lisboa (e a vida) já fossem memória antes de acabarem;
  • ceticismo: "que importa, afinal, a nobreza de um povo, / grego, judeu ou lusitano, / se a espada do sacro imperador romano / está suspensa por um fio / sobre a tua cabeça?" — uma pergunta que desmonta mitos nacionais e revela a fragilidade da identidade;
  • humildade perante o "non-sense": "tão irrisório partir como absurdo ficar", sendo a Kalashnikov, no final, o símbolo dessa impossibilidade de escolher: não se quer a arma, mas também não se tem alternativa.
(v) A Kalashnikov como fetiche e  objeto poético
  • fetiche: desejada, mas não possuída; simboliza o que não se pode ter (a ação, a revolta, a mudança);
  • ironia: vendida por quem já não tem nada (os "deserdados", os "antigos combatentes"), comprada por quem não precisa dela ("turistas")
  • metáfora da história portuguesa: uma arma que veio de fora (com o colonialismo, com a globalização) e que agora pertence a todo o mundo e a ninguém; uma arma que se "democratiza" e "banaliza" e, portanto, se "dessacraliza".
Conclusão (definitivamente provisória):

Luís, este poema parece fechar um ciclo,  o da guerra colonial, da descolonização, da  identidade portuguesa, mas também o da tua própria relação com a violência e a memória. E, quiça, a tua própria história de vida.

 A Kalashnikov, a Kalash, a AK 47, no final, é quase uma piada trágica: o que resta de uma guerra são armas vendidas como souvenirs, e o que resta de uma vida são "azeitonas, tremoços, ou tâmaras", enfim,  "peanuts",  enquanto o sol se põe.

Será que a ironia é a única forma de lidar com o absurdo da história? (A história não tem sentido, não tem que ter...). Ou há, neste poema, um gesto de resistência escondido na recusa da arma ("Não insista…") e da "violência" dita "revolucionária" ?

(Pesquisa: LG + IA / Le Chat Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27901: Convívios (1056): Estão abertas as inscrições para o 111.º Encontro da Tabanca do Centro, que acontecerá no próximo dia 24 de Abril de 2026, no Restaurante Atrium Buffet, Quinta do Paúl - Ortigosa



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Nota do editor

Último post da série de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27897: Convívios (1055): 53.º Almoço de confraternização da CCAÇ 12, Pelotões Daimler e Caçadores Africanos, dia 23 de Maio de 2026, na Golegã (Jaime Pereira, ex-Alf Mil da CCAÇ 12, 1971/72)

Guiné 61/74 - P27900: Historiografia da presença portuguesa em África (524): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1966 (82) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Recordo-me quando cheguei à Guiné em 1968 ainda se falava numa explosão lá para os lados de Farim, uma barbaridade, ato insólito praticado por um grupo do PAIGC, não era prática corrente na guerrilha guineense lançar explosivos no meio de uma festa. Segundo os louvores dados pelo Governador Schulz, os agentes da PIDE que ali se deslocaram contaram com a colaboração da tropa local. Perguntará o leitor porque é que louvores desta natureza vêm no Boletim Oficial e não nos boletins das Forças Armadas. Acontece que a PIDE não estava enquadrada nas Forças Armadas, é a razão pela qual o Boletim Oficial regista a chegada e partida dos agentes da Polícia Política. O Governo central cede dezenas de milhões para financiar os planos de desenvolvimento. Fala-se neste ano de 1966 no contrato de concessão para a pesquisa e exploração de hidrocarbonetos na Província da Guiné, é esperável que tenhamos acesso ao desfecho desta missão. Criam-se novos grupos desportivos, caso da ANCAR e da SACOR, cria-se uma cooperativa de pesca em Bolama. E foi criado o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12, na dependência do Comando da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1966 (82)

Mário Beja Santos

O que mais me impressiona na leitura do Boletim Oficial destes anos tumultuosos é a tentativa de uma grande discrição, a Guiné vive em apuros, mas teima-se em silenciar os factos, nesta altura a Província vive uma tempestade demográfica, mas quem lê o Boletim Oficial precisa de ler nas entrelinhas os acontecimentos.

Talvez para benefício do leitor, dá-se o rol dos acontecimentos e fazem-se as citações necessárias. Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 3 de janeiro, o Governador Schulz dá louvores a dois agentes da PIDE, aqui sim, convém transcrever logo:
“O atentado terrorista, levado a cabo em 1 do passado mês de novembro, na tabanca de Morocunda, em Farim, por elementos então desconhecidos, motivou a deslocação de uma brigada da PIDE àquela vila, a fim de se proceder às averiguações necessárias para a descoberta dos criminosos.
Foram árduas e extremamente difíceis as investigações, não só pela falta de indícios, como também pelas massas autóctones, em estado de choque devido à explosão e seus efeitos, se recusara a prestar declaração, o estar convencida que o atentado fora perpetrado por brancos.
Só houve a suavizar as dificuldades criadas por meio tão hostil, a franca e leal colaboração dada pelas tropas locais, a cujo apoio moral e material se deve, em grande parte, o êxito obtido.

Foram estas que nos cederam os locais para concentrar os detidos por suspeita e as dependências para os interrogatórios, alimentaram os presos e ainda facilitaram a nossa tarefa muito contribuindo para a descoberta dos criminosos.
A atuação do pessoal desta Polícia, também merece especial relevo dado que foi graças ao seu inexcedível zelo, competência, espírito de sacrifício e vontade de bem servir, que se descobriram os autores do crime e uma vasta e bem organizada rede de elementos do PAIGC que tudo prepararam e mais projetavam fazer.”

Em sequência, foram louvados um chefe de Brigada e quatro agentes de 2.ª classe, que vêm perfeitamente identificados no Boletim Oficial.

No Boletim Oficial n.º 2, de 8 de janeiro, publica-se a Portaria n.º 1767, que estipula que durante o ano de 1966 é autorizada a isenção de direitos na importação de arroz. Em termos nacionais, o Governo decidira melhorar os vencimentos dos militares do Exército, Armada e Força Aérea. Dá-se igualmente reforço de verbas inscritas na tabela de despesa do orçamento privativo das forças terrestes ultramarinas em vigor na Província da Guiné. Ficamos a saber que pelo Decreto-Lei n.º 46826 foi instituído o Serviço Postal Militar; também pelo Decreto n.º 46796, do Ministério do Ultramar, é aprovada a renovação do contrato para pesquisa e exploração com a Esso Exploration Guiné Inc., celebra-se um novo contrato que consta no Boletim Oficial n.º 6, de 5 de fevereiro.

Igualmente merece destaque o contrato de empréstimo à Província Ultramarina da Guiné para a execução de empreendimentos previstos no Plano Intercalar de Fomento. Vale a pena dar conta de como se previa a aplicação destes recursos financeiros oriundos de uma receita extraordinária, provenientes do empréstimo a conceder pela metrópole: conhecimento científico do território; investigação científica; estudos de base; agricultura, silvicultura e pecuária; pesca; energia; indústria; transportes e comunicações; turismo; habitação e melhoramentos locais; promoção social. Tudo somado: 40.000.000$00.

Voltando ao contrato de concessão com a Esso, talvez valha a pena dizer que a concessão tinha por objeto o direito de pesquisar e explorar, à custa do concessionário, em regime de exclusivo, todos e quaisquer jazigos de hidrocarbonetos sólidos, líquidos e gasosos, incluindo petróleo, nafta, ozoquerite, gases naturais e asfalto, e ainda enxofre, hélio, anidrido carbónico e substâncias salinas; obviamente que se define a área de concessão que teria um período inicial de cinco anos.

No mês de abril, conforme consta no Boletim Oficial n.º 17, de 23 de abril, constitui-se a Cooperativa de Pesca de Bolama, diz-se mesmo no preâmbulo do despacho do Governador:
“É de todos conhecida a enorme riqueza ictiológica das águas interiores e fluviais da Província da Guiné. Dos cursos fluviais de maior riqueza ictiológica destaca-se o rio Grande de Buba em cujo troço designado por Ria de Buba, entre a foz do rio Lenguete e a ponta Nalu, abundam várias espécies ictiológicas comestíveis, tais como a bicuda, o barbo, a taínha, a corvina, etc.
Dos portos nas proximidades da Ria de Buba o porto de Bolama é aquele que oferece, sem sombra de dúvida, melhores condições para enxurrar as embarcações com mais recursos do que se refere à possibilidade de uma regular manutenção tanto das embarcações propriamente ditas como dos respetivos equipamentos propulsores.”

Estabelece-se a natureza, os fins e sede da sociedade.

No Boletim Oficial n.º 19, de 7 de maio, pela Portaria n.º 1803, aprovam-se os estatutos do Grupo Desportivo, Recreativo e Cultural ANCAR. Ficamos a saber que foi fundado pelos empregados, assalariados e simpatizantes da Firma António Augusto de Carvalho, a coletividade tem a sua sede em Bissau e as suas finalidades são, para além das modalidades desportivas, a organização de cursos de ginástica, excursões, criação de uma biblioteca técnica, realização de palestras, conferências e exposições, o resto dos estatutos mostra a afinidade com a estrutura de todos os outros.

Disse-se inicialmente que se procura o máximo de discrição quanto às dificuldades económico-financeiras, elas vão sendo desveladas pingo a pingo.

No Boletim Oficial n.º 30, de 23 de julho, a Portaria n.º 22107 determina que o Governo da Província Ultramarina da Guiné abra créditos destinados a suportar determinados encargos provenientes de objetivos previstos no programa de financiamento do Plano Intercalar de Fomento, e destacam-se as rúbricas envolvidas: regularização do abastecimento interno do pescado; portos e navegação; educação; meteorologia; fomento dos recurso agro-silvo-pastoris; aproveitamento dos meios de obtenção de água doce; transportes rodoviários, aéreos e aeropostais, etc. O Boletim Oficial n.º 33, de 13 de agosto, pelo Decreto n.º 47132 autoriza o Governo da Província a contrair no Banco Nacional Ultramarino, um empréstimo, em moeda local, até ao montante de 12 milhões, destinado a ser aplicado em obras inscritas em planos de fomento.

Já estamos em setembro, no Boletim Oficial n.º 36, de 13 de setembro, são aprovados os estatutos do Grupo Desportivo e Recreativo do Pessoal da SACOR.

No Boletim Oficial n.º 45, de 5 de novembro, temos a Portaria n.º 22260, da Presidência do Conselho e Ministério do Ultramar é constituído o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12. No Boletim Oficial n.º 48, de 26 de novembro, pela Portaria n.º 1849 voltamos à candente questão do reforço de verbas, será assim até ao fim do ano.

Procurando refletir conjuntamente com o leitor, subjaz a grande questão dos meios económico-financeiros que foram postos por Lisboa à gestão do Governador Schulz, é bem percetível de toda esta avalanche de reforço de verbas de que a economia guineense ainda não está exangue, mas deu-se uma reviravolta nas receitas fiscais, nas taxas aduaneiras, lê-se permanentemente no Boletim Oficial que há nomeações, e da leitura que estou a fazer do Boletim Oficial de 1967 já faltam candidatos para os postos administrativos, a dissuasão é dado pelo alastramento da guerra de guerrilhas. Não deixo de insistir que a dilucidação de todo este período da governação de Schulz aguarda uma tese de doutoramento.

General Arnaldo Schulz
O Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino, Rui Patrício, visita a Guiné em abril
Felupe em traje festivo
Tecelão Manjaco
Dança Manjaca
Rapariga Manjaca tatuada
Tocadores Fulas

Estas cinco imagens são retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1966

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27879: Historiografia da presença portuguesa em África (523): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1965 (81) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27899: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXIII: da "cobiçada" Kalash do IN ao nosso obus 14


Foto nº 1 > O alferes Pires (à esquerda), com o oficial de dia (em segundo plano) e o alf graduado capelão José Torres Neves (examinando a "cobiçada" Kalash dos "turras")


Foto nº 2 > 28º Pel Art (obus 14 cm)


Foto nº 3 > A ponte nova



Foto nº 4 > Pòr do sol na ponte nova



Foto nº 5 > Passeio de domingo, paragem perto da ponte nova


Foto nº 6 > A antig ponte, em ruínas


Foto nº 7 > Messe de oficiais

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mais um conjunto de fotos sobre Mansoa, enviadas no passado dia 21 de janeiro pelo nosso camarada e amigo Ernestino Caniço.

Como é sabido,. tem sido o guardião, solicito, zeloso, dedicado, entusiasta, do álbum fotográfico da Guiné, do padre missionário da Consolata, José Torres Neves, natural de Meimoa, Penamacor.

O Padre José Torres Neves, antigo capelão do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) reformou-se recentemente de uma vida inteira, generosa, abnegada, dedicada às missões católicas, nomeadamente em África.

Entrou para a Tabanca Grande, em 22/2/2022, pela mão do Ernestino Caniço, que é médico. É o nosso grão-tabanqueiro nº 859. Tem cerca de meia centena de referências no nosso blogue.

Segundo o Ernestino Caniço, seu amigo de longa data, deste os tempos de Mansoa, o álbum deve conter cerca de 400 fotos (obtidas a partir de "slides"), dos quais já teremos publicado mais de metade.

Em geral as fotos trazem sumárias legendas (ou títulos). Sem data. E não vêm numeradas.  

(Revisão / fixação de texto: LG)

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terça-feira, 7 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27898: (De)Caras (246): Lembrando a participação do ex-Alf Mil Cav Francisco Gamelas, CMDT do PelRec 3089; do ex-1.º Cabo Bernardino Lima, Condutor/Apontador do PelRec 3083 e a minha como ex-CMDT do PelRec 2208, no Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”, levado a efeito, no dia 23 de Novembro de 2021, na Universidade do Minho (Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav)

1. Mensagem do nosso camarada Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2208 (Mansabá e Mansoa) e Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, (Bissau) (1970/1971), com data de 5 de Abril de 2026:

Caros amigos
Votos de ótima saúde.

Face à referência de Francisco Gamelas, ocorreu-me enviar-vos fotografias aquando da nossa participação em 2021.11.23, no auditório da Universidade do Minho no Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”.

A participação dos ex-combatentes no painel, foi precedida de entrevistas moderadas pelo Sr. Comandante do RC6 Coronel Miguel Freire e pelo Professor Francisco Mendes da Universidade do Minho.


Na fotografia 1 da esquerda para a direita:
1 - Professor Francisco Mendes da Universidade do Minho
2 - Ex-Alferes Francisco Gamelas que foi Comandante do PelRec 3089 e que esteve na Guiné entre novembro de 1971 e outubro de 1973.
3 - Ex-1.ºCabo Bernardino Lima que foi Condutor/Apontador de Daimler no PelRec 3083 que esteve na Guiné de novembro de 1971 a outubro de 1973.
4 - Ex-Alferes Ernestino Caniço que foi Comandante do PelRec 2208 e que esteve na Guiné entre janeiro de 1970 e dezembro de 1971
5 - Tenente Mário Sampaio Nunes que foi Comandante do PelRec 1166. Este pelotão esteve em Moçambique, entre fevereiro de 1967 e março de 1969, e, o então Alferes Sampaio Nunes comandou o pelotão, em rendição individual, entre dezembro de 1967 e fevereiro de 1969
6 - Comandante do RC6 Coronel Miguel Freire

Foto n.2
Foto n. 3

Páscoa feliz.

Um abraço,
Ernestino Caniço

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Nota do editor

Último post da série de 24 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27853: (De)Caras (246): Memórias do meu braço direito no Pel Caç Nat 52, em Missirá e Bambadinca: O Furriel João Manuel Sousa Pires (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52)

Guiné 61/74 - P27897: Convívios (1055): 53.º Almoço de confraternização da CCAÇ 12, Pelotões Daimler e Caçadores Africanos, dia 23 de Maio de 2026, na Golegã (Jaime Pereira, ex-Alf Mil da CCAÇ 12, 1971/72)

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Nota do editor

Último post da série de 2 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27882: Convívios (1054): Magnífica Tabanca da Linha, Algés: 64º almoço-convívio, 5ª feira, 16 de abril de 2026: já há 39 inscritos para o cozido à portuguesa... (Manuel Resende)

Guiné 61/74 - P27896: Agenda Cultural (887): Apresentação do Catálogo "O Movimento das Forças Armadas e o 25 de Abril", dia 9 de Abril de 2026, pelas 18h00, na Associação 25 de Abril, Rua da Misericórdia, 9 - Lisboa


Convido todos os meus amigos para estarem presentes na próxima 5.ª feira, dia 9 de Abril, na Associação 25 de Abril, pelas 18h00, para o lançamento do meu livro: "O MFA e o 25 de Abril".

É um livro especial. Sendo um catálogo da Exposição de 2024 de que fui curador, integra adaptações quer de texto quer de imagem que permitem uma leitura mais completa e fluida.

O livro é uma edição da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril e da editora Âncora.

Pedro Lauret

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Nota do editor

Último post da série de 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27865: Agenda Cultural (886): A Sociedade de Geografia de Lisboa vai promover uma Conferência (em formato híbrido) promovida pela Secção de Antropologia, no próximo dia 17 abril de 2026 pelas 14h45, no Auditório Adriano Moreira, intitulada: “República da Guiné-Bissau: entre narrativas dedicadas à luta da libertação e aos dias de hoje”

Guiné 61/74 - P27895: As nossas geografias emocionais: Teixeira Pinto, ao tempo do Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 3089 (1971/73)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto  (hoje Canchungo)> c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel e da vila (e depois cidade)


Foto nº 1A > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel (lado esquerdo e direito da imagem)


Foto nº 1B > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel (lado esquerdo) (1)


Foto nº 1C > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea de parte do quartel  (lado direito) (2) e da  vila  (início da avenida principal) (4)


Foto nº 1D > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea da do início da pista e do heliporto (4) e da povoação, mais peerto da bolanha (5)


Foto nº 1E > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea da vila  (avenida principal e, ao fundo, a tabanca de Canchungo (4)

Se dividirmos a foto nº 1, em quatro ou cinco partes, teremos: 

(i) Em baixo, direita  – Aquartelamento (Foto nº 1A) (dividida em 1 e 2);.

(ii)  Aquartelamento, lado esquerdo (Foto nº 1B): oficina e por cima da oficina, ao meio, os gabinetes do comando do batalhão e secretaria, e as comunicações;  linha de edifícios sobre a direita: instalações dos sargentos, refeitório e instalações dos oficiais.

(iii) aquartelamento, lado direito  (Foto nº 9C): instalações dos soldados, refeitório dos soldados e bar dos oficiais; depois da última linha dos edifícios, por entre as árvores ainda se divisam as instalações do CAOP1 e, ao lado, as casernas dos comandos.

(iv)  final do caminho que vem da bolanha e entra pelo aquartelamento, fica a porta de armas;

(v) Em baixo,  esquerda – para baixo, o caminho que vai dar à bolanha, que termina no cais (foto nº  2) e, sobre a esquerda, vê-se o início da pista de aterragem e o heliporto.

(vi) Em cima,  direita (Foto nº 1E) – centro da vila (depois cidade), avenida principal), no final da qual ficava o aldeamento do Canchungo.

 
 Foto nº  2> Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 >   Cais fluvial (Rio Costa Pelundeo, afluente do rio Mansoa


Foto nº  3> Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 >  Quartel > Pau da bandeira (2)


Foto nº 4 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro / fevereiro de 72 >  Quartel (pormenor), cum uma Berliet em primeior plano, em segundo plano a antena das telecomunicações (2)

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Carta da Província  (1961) > Escala 1/500 mil >Posição relativa de Teixeira Pinto, na zona oeste, entre o rio Cacheu e o rio Mansoa. A nordeste fica Pelundo e a leste Bula e a sudeste Bissau.


Guiné > Carta de Teixeira Pinto (1953) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Teixeira Pinto / Canchungo, capital do chão manjaco (que eram densamenmte povoado antes da guerra)

Infografias: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Francisco Gamelas: nascido em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica (ISEP, 1969), esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado (foi quadro superior da PT),  tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico.
 
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue. (*)


 2. No seu livro, "Outro olhar - Guiné 1971-1973" (AVeitro, ed. autor, 2016, 127 pp.) pode encontrar-se uma detalhada descrição da Teixeira Pinto daqueles tempos (pp. 16 e ss.) (**)


(...) "Implantada na planície, a meio da metade litoral norte da Guiné, entre os rios Cacheu, a norte, e Mansoa, a sul, mais próxima do último e dele recebendo a visita das suas águas na bolanha (...), a sua parte nobre e mais recente desenvolveu-se a partir da abertura de uma larga avenida em linha recta, com orientação aproximada norte-sul, que ligava o primitivo aldeamento do Canchungo ao quartel erguido a sul do povoado, a cerca de seiscentos metros de distância. 

"O quartel albergava as sedes de uma batalhão [o BCAÇ 3863] e de um CAOP [CAOP1]. Este com uma companhia de forças especiais - comandos [a 35ª CCmds]. 

"Na avenida, ou a ela chegados, sediavam-se os serviços disponibilizados, próximos do quartel. (...) 

"De ambos os lados erguiam-se casas de habitação de aspecto colonial, tendencialmente as melhores da cidade. Que me recorde, em nenhuma delas habitava uma família nativa". (...)

3. Em 1 de julho de 1972, havia cerca de 380/400 homens em armas na vila de  Teixeira Pinto (Zona Oeste, Setor O5)

CAOP1 - Comando + 35ª CCmds
BCAÇ 3863 - Comando Sector 05 + CCS
1 Pel / CCAÇ 3461
Pel Rec Daimler 3089

(**) Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)