Luís Graça & Camaradas da Guiné
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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domingo, 9 de agosto de 2026
Guiné 61/74 - P28251: Parabéns a você (2512): Anselmo Garvoa, ex-Fur Mil Op Especiais da CCAÇ 2315 / BCAÇ 2835 (Mansoa, 1968)
Nota do editor
Último post da série de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28229: Parabéns a você (2511): Manuel Augusto Reis, ex-Alf Mil Cav da CCAV 8350/72 (Guileje, Gadamael, Quinhamel e Cumbijã, 1972/74)
sábado, 8 de agosto de 2026
Guiné 61/74 - P28250: (In)citações (289): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol... (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)
1. Mensagem do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66), com data de 10 de Novembro de 2022, falando-nos da sua Unidade:Olá Carlos,
Olha, hoje levantei-me a gritar coisas más contra os governos de Portugal que nos abandonaram e escrevi estas linhas para que todos eles saibam a revolta que continuo a sentir.
Se achares que deves publicar, publica, se não achares que é importante justamente ignora.
Um abraço meu eterno amigo companheiro combatente da Guiné.
Tony Borie
Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol
…Companheiros ex-combatentes, nós, tal como vós, todos sabemos o trauma ou a angústia que sofremos mas…, as novas gerações e os políticos que nos governaram ou presentemente nos governam, (felizmente para eles), NÃO SABEM que…, lá no “posto avançado” onde estivemos pelo período de dois longos e dolorosos anos, não havia paz.
No silêncio da noite ou em qualquer outro infeliz momento, “DE REPENTE O INFERNO EXPLODIA” e…, não sabíamos se iríamos ser o próximo a ser embrulhado no nosso próprio camuflado sujo com o nosso próprio sangue.
…Assim, não sabemos as vezes que tanto nós, tal como vós companheiros ex-combatentes, estivemos perto de morrer, e nesses momentos, éramos forçados a aprender a valorizar um pouco as nossas vidas e…, éramos uns jovens de 20 e poucos anos. Às vezes pensando nisto, sentimos a pele a arrepiar-se.
…Por favor cuidem-se.
Toni Borie
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Nota do editor
Último post da série de 28 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28141: (In)citações (288): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol, porque muitos sonham com o amanhã, mas nunca o veem (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)
Guiné 61/74 - P28249: Os nossos seres, saberes e lazeres (744): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (265): Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral, uma réplica do teatro Alla Scala, de Milão (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Julho de 2026:
Queridos amigos,
Já por aqui se andarilhou pelo museu, pela estação de caminhos de ferro, era imperativo visitar o teatro Eduardo Brazão que prima pela raridade e beleza arquitetónica. Há mesmo programas de visitas a importantes teatros da região oeste, recordo Nazaré e Leiria, o do Bombarral tem a singularidade de uma traça que não esconde o classicismo italiano, mas com laivos românticos e da emergente Arte Nova. Impressiona também pela qualidade do restauro e a sua primorosa manutenção, houve o extremo cuidado de não beliscar a profunda harmonia da sala e dos espaços frequentados pelo público. Enfim, se possível, não percam a visita.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (265):
Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral, uma réplica do teatro Alla Scala, de Milão
Mário Beja Santos
O que há para ver dentro do Bombarral? É um concelho com pouco mais de 100 anos, mas que goza de um património digno de visita. Já aqui falei do museu que ocupa o Palácio Gorjão, um solar datado do século XVII, o museu está aqui desde a década de 1990, foi alvo de obras, não dececiona ninguém, alberga património cerâmico esplêndido, aqui trabalhou Júlio Pomar e deixou legado. Impossível não ver os azulejos da estação de caminhos-de-ferro, também já aqui foram mostrados, mostram cenas de vitivinicultura e do ambiente rural da região. No centro da vila, perto do museu, temos o edifício dos Paços do Concelho, foi propriedade do Alcaide de Óbidos, depois doado por D. João I a um Cavaleiro de nome Luís Henriques, depois da Batalha de Aljubarrota, houve reconstrução e a Câmara Municipal adquiriu-o na década de 1920. Da mata municipal falaremos mais adiante, hoje vamos visitar com guia autorizado o teatro Eduardo Brazão, não esconde no seu interior a lembrança dos teatros italianos, data de 1921. A primeira nota vai para um conjunto de notáveis teatros na região oeste, incluindo a Nazaré e Leiria. A questão que se põe quanto a este teatro terá sido o orgulho cívico, o Bombarral estava adstrito a Óbidos e queria provar a identidade própria, queria exibir a sua própria riqueza, que superava a do tutor, havia que exibir um dado cultural relevante, e assim aconteceu.
Perguntei ao amável guia porquê crismar o Teatro Eduardo Brazão se o grande ator nada tinha a ver com o Bombarral. O coordenador de todo o projeto do teatro fora Evaristo Judicibus que pediu autorização a Eduardo Brazão para o crisma, autorização dada, Brazão sentiu-se muito honrado. A construção não indicia um mero classicismo italiano, aflora elementos, ainda que modestos, do romantismo e do despontar da Arte Nova. A fachada é sóbria, a sala de receção é acolhedora e harmoniosa. Subimos depois aos andares e fica-se de boca à banda, dada a natureza retangular da construção, ou seja, a receção do rés-de-chão e o grande salão por cima, segue-se a sala de espetáculos e temos depois os bastidores. Obviamente que a construção se focou na sala, possui um equilíbrio notável, goza de intimidade e uma visibilidade perfeita em todos os ângulos do proscénio, as obras de conservação e restauro em nada alteraram a traça primitiva e daí o orgulho com que se pode falar desta pequena réplica do Alla Scala.
É uma bela sala de eventos, como o ensaio a que assistimos, tem os seus espetáculos de cinema, aqui se realiza anualmente um festival de música, esqueci-me de perguntar se existe no Bombarral teatro amador, mas desde já incito o leitor, quando tiver oportunidade, de pedir uma visita guiada a tão deslumbrante teatro, como as imagens pretendem ilustrar.
Nota do editor
Último post da série de 1 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28233: Os nossos seres, saberes e lazeres (743): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (264): Os jardins cada vez mais admiráveis da Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, Oeiras (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P28248: As nossas geografias emocionais (68): Bambadinca, meu amor ! (Torcato Mendonça, 1944 - 2021)
1. O Torcato Mondonça (1944- 2021) vivia debaixo de terra, num "bunker", em Mansambo, um quartel construido de raiz, a pá e pica, pelos valentes "Viriatos", da CART 2339 (Mansambo, 1968/69).
Sobre Mansambo temos de 370 centenas de referências... e 2 centenas das quais sobre a CART 2339. Sobtre Bambadinca, temoso dobro (c. 740)
Fotos: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem: Blogue Luís Graça & camaradas da Guine]
A igreja... fui lá uma vez assistir à colocação do Bessa no caixão. Escola, o posto administrativo, a tasca de A ou B, não sei. Memórias perdidas. Só agora soube da existência do mestre-escola, Professora D. Violete.
Recordo a tabanca e uma morança, à direita de quem desce a rampa da estrada na direcção do porto, Missirá, Fá ou Bafatá – essa, a grande cidade.
Nessa morança pernoitei algumas noites. Certamente por lotação esgotada nas instalações dos oficiais. Dormia-se bem, mais fresco, mais... melhor.
Mas é bonito ver hoje fotos de militares à civil. Calças, camisas brancas e, pasme-se, sapatos reluzentes.
Para que queria eu roupa civil em Mansambo e por outros lados onde me aquartelava?
Mas porquê Bambadinca, eu, amor? Pois, porque, além de se fazer o dito, era local de boa cama e boa mesa, bar de bebida fresca.
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Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 10 de dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3592: Do Fundão, com insónias: Bambadinca, meu amor... (Torcato Mendonça)
(**) Último poste da série > 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Guiné 61/74 - P28247: Notas de leitura (1948): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026 (4) (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:Queridos amigos,
Recomendo sem qualquer hesitação a leitura deste importante estudo organizado por Patrick Chabal e que contou com uma equipa de especialistas de topo que apresentaram estudos sobre as cinco antigas colónias portuguesas africanas. Não é um estudo que aprofunde o pré-colonial, a presença e a colonização em si, a vida dos movimentos de libertação.
A questão fulcral proposta por Chabal e outros é avaliar o primeiro quarto de século da vida destes países independentes, a partir das descolonização, e encontrar pontos de relação entre essas mesmas cinco colónias portuguesas.
O estudo de Joshua Forrest dá-nos conta das governações de Luís Cabral e Nino Vieira, relata o que de fundamental aconteceu no conflito político-militar de 1998-99, no seguimento de outros trabalhos seus não esquece pôr ênfase sobre o afastamento do poder central das comunidades locais e como estas se revigoraram neste quadro de afastamento; o autor procede a uma narrativa que revela como durante esse quarto de século, o povo, mesmo descurado pelo Estado central assumiu energias de subsistência e, espantosamente, sempre que há eleições, vota em soluções genuinamente democráticas.
Um abraço do
Mário
Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 4
Mário Beja Santos
É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.
Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.
Recapitulando o que se escreveu nos três textos anteriores, temos um longo ensaio de Patrick Chabal, expondo o propósito de uma história abrangente destes cinco países africanos, seguindo-se estudos complementares desses mesmos cinco países de que aqui se dá destaque à Guiné-Bissau. Já se comentou como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico. Nino Vieira viu-se obrigado a abrir o país a eleições multipartidárias, isto numa atmosfera de reconhecimento de que as experiências socializantes tinham caído na água, houvera mau aproveitamento da ajuda internacional quer na saúde, nos transportes e na habitação, ficara-se cada vez numa maior dependência do FMI e do Banco Mundial. O PAIGC iniciou programas de ajustamento estrutural que incluíam o incentivo à iniciativa privada, à desvalorização da moeda, à redução da despesa pública, cortes em subsídios etc, etc. O Governo da Guiné-Bissau recebeu um total superior a 31 milhões de dólares do FMI no período 1987-90 como incentivo para prosseguir as reformas.
Diferentes autores já se pronunciaram sobre o resultado destas reformas. Apareceram empresas privadas ligadas à cultura do caju e da amêndoa de palmiste, e o caju tornou-se a principal cultura de exploração do país. Mas houve consequências bastante problemáticas. A expansão do comércio de import-export saudou-se numa proliferação de “pontas”. Algumas dessas pontas foram originalmente criadas durante o século XIX como explorações agrícolas do amendoim. A expansão dessas pontas no final da década de 1980 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros, quem mais beneficiou do empréstimo a médio e a longo prazo associado ao programa de ajustamento estrutural – a maioria destes ponteiros eram altos funcionários do Governo que não tinham competências para transformar as novas pontas em empresas produtivas. Resultado: dinheiro dos empréstimos perdido, a agricultura não melhorou; com as sucessivas desvalorizações disparou os preços dos bens alimentares sociais; não houve crédito para os pequenos agricultores, não se conseguiu estimular o aumento da produção de amendoim. Cresceu a economia informal, as trocas diretas que asseguraram a subsistência da maioria das pessoas. Os bens importados (caso do vestuário, rádios, pilhas e bicicletas) eram trazidos do Senegal ou da Guiné-Conacri.
Deu-se, portanto, uma combinação do comércio informal local com o comércio não regulamentado de longa distância. As reformas do ajustamento estrutural não beneficiaram os pequenos agricultores, mas os ponteiros; houve uma divisão entre os comerciantes privados, predominantemente orientados para a exportação e ligados ao Estado e a grande maioria dos produtores rurais. Cresceu a dependência do regime de Nino Vieira em relação a fontes de financiamento externas, e num contexto de grande debilidade financeira ponderou-se a hipótese de trocar o peso guineense pelo franco CFA, o que veio a acontecer em janeiro de 1997.
O partido do poder ia-se progressivamente afastando da população em geral. Joshua Forrest detalha como foi desaparecendo a presença do Estado na administração regional e comunitária. “Ressurgiu com um particular vigor um conjunto de estruturas sociais e políticas camponesas localizadas, com raízes no período pré-colonial e que nunca tinham sido totalmente capturadas pelo Estado colonial. As lealdades políticas, as redes sociais e os recursos locais passaram a organizar-se mais claramente em torno de bases de poder controladas pelas aldeias e não pelo Estado. Não pretendo afirmar que os camponeses guineenses eram agora contra o PAIGC, mas sim que estavam mais interessados em reivindicar a sua autonomia política relativa.”
Temos, portanto, um Estado que deixou de exercer o controlo direto sobre as comunidades rurais e que nos seus escalões mais elevados de poder central revelava incoerência e discórdia, dominado por uma burocracia interna. Quem estava no topo do poder só podia subsistir reforçando as suas cliques e integrando nelas apoiantes da burocracia e das Forças Armadas. De Luís Cabral a Nino Vieira vão suceder-se golpes de Estado, repressão dos opositores e rutura da unidade interétnica. Agravou-se o conflito até então surdo entre as alas cabo-verdiana e guineense do PAIGC. Num contexto de dificuldades causadas pela escassez de arroz, Nino Vieira organizou grupos de apoio com as Forças Armadas e concluiu um golpe de Estado praticamente sem derramamento de sangue.
O regime de Vieira assumiu um carácter cada vez mais autoritário. Em setembro e outubro de 1999, descobriram-se duas valas comuns, uma perto de Bissau, com 14 corpos de pessoas que se crê terem sido mortas em meados dos anos 90, e outra perto de Mansoa, contendo 22 corpos, aparentemente de indivíduos acusados de conspiração golpista e executados em 1986. A descoberta destas valas fez aumentar o nível de hostilidade popular contra a ditadura de Vieira. O autor dá-nos um quadro da evolução das eleições, demissões sucessivas de primeiros-ministros, o descontentamento das Forças Armadas era por demais evidente, Vieira forçou a destituição de Ansumane Mané, Chefe de Estado-Maior, foi a gosta de água para a rebelião que se iniciou em 7 de junho de 1998; nem a chegada de tropas estrangeiras fez estancar aa rebelião, pois o apoio popular maciço aos rebeldes fez com que o regime de Vieira ficasse praticamente confinado à Guiné-Bissau.
Houve tentativas de negociação internacionais, procurou-se levar por diante um Governo de transição que não revelou operacionalidade, e em 8 de maio de 1999, cedendo à provocação que foi a chegada de um navio de guerra da Guiné-Conacri que transportava armas pesadas destinadas aos partidários de Vieira, os rebeldes atacaram os aliados do Presidente e as suas tropas de apoio senegalesas. Era a decisiva batalha final, as tropas pró-Mané empurraram para o centro de Bissau todos os apoiantes da fação presidencial e os senegaleses, derrotaram-nos em combates de rua. Vieira refugia-se na Embaixada de Portugal e parte depois para o exílio, primeiro para a Gâmbia e depois das Portugal.
O sonho da estabilidade durou pouco tempo. Formara-se uma Junta Militar, houve eleições em novembro desse ano, ganhou o Partido de Renovação Social, seguido do Partido Resistência Guiné-Bissau, o PAIGC ficou em terceiro lugar.
Em 2000 foi eleito o Presidente Kumba Ialá, tudo acabou mal. Aqui termina o ensaio de Joshua Forrest e damos por concluída a recensão ao livro "História da África Lusófona Pós-Colonial", organizado por Patrick Chabal e outros colaboradores, Tinta-da-China, 2026.
Notas do editor:
Vd. post de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 5 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28242: Notas de leitura (1947): "Parábola do livro esquecido", retirada, com a devida vénia, do livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho; Partenon, 2026
Guiné 61/74 - P28246: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (73): A árvore sagrada, secular, da tabanca de Bijante, junto à baloba, na ilha de Bubaque, Bijagós, é muito provável que seja uma Ficus polita
Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijante > 1 de agosto de 2026 > A árvore sagrada, junto à baloba (ou casa dos irãs) (*)
Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]
1. Fotos enviadas pelo Patrício Ribeiro, nosso "embaixador em Bissau", empresário (Impar Lda), que chegou a Bubaque, no dia 10 de julho, por volta das 13:55. Em trabalho.
Data - sábado, 1/08/2026, 20:35
Foto nº 1 > Ilha de Bubaque > Tabanca de Bijante > Árvore, do género "Figueira", de grande tamanho, junto da baloba.
Foto nº 2 > Ilha de Bubaque > Tabanca de Bijante > Tronco da "Figueira", com mais de 5 mt de diâmetro
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Guiné 61/74 - P28245: O nosso livro de visitas (230): Emília da Silva Balula procura informações sobre o seu tio, sold at cav Francisco da Silva Oliveira, CCAV 2540 / BCAV 2876 (Ingoré, 1969/71), falecido em 24/2/1971, na sequência de acidente de viação
(i) Francisco da Silva Oliveira,
(ii) natural de Liceiras, Ermesinde,
(iii) soldado atirador n.º 04316469,
(iv) Companhia de Cavalaria 2540 / Batalhão de Cavalaria 2876,
(v) falecido na Guiné em 24 de fevereiro de 1971.
Se algum antigo camarada ou familiar possuir fotografias da companhia ou o reconhecer, ficaria imensamente grata pela partilha. Muito obrigada
Último poste da série > 5 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27497: O nosso livro de visitas (229): M’bana N’tchigna, balanta, da Guiné-Bissau, professor do ensino médio em Vitória, no Brasil, autor do Blogue "Intelectuais Balantas na Diáspora", autor de uma texto sobre Pansau Na Isna (1938-1970)
Guiné 61/74 - P28244: (Ex)citações (448): Guiné: Na linha do tempo (José Saúde)
Na linha do tempo
Na linha do tempo
Na linha do tempo, sempre finita para um ser vivo, recorro a ímpetos históricos e revejo-me absorvido pelas origens de uma cidade, onde habito, que foi fundada 400 anos a.C. pelo povo celta. Descreve a história que os Cónios, denominados, como os Cornistorgis, foram uma população que, nesses recuados tempos, coabitaram no burgo. No século III, também a.C., foram os cartagineses que terão restabelecido o maior tempo de permanência no lugar, sendo, contudo, a civilização romana aquela que romanizou as populações por ali existentes.
O nome de Pax Júlia surge intrinsecamente ligado ao período do Império Romano. Pax Júlia teve honras de metrópole e de uma enorme grandiosidade na Península Ibérica, albergando então uma das três jurisdições romanas da Lusitana. O Imperador Augusto terá sido o homem que deu origem ao nome de Pax Júlia. No ano de 1162 os cristãos reconquistaram o burgo e em 1524, a cidade recebeu o foral, mas antes, 1517, já tinha sido elevada a cidade.
Poder-se-á afirmar, com elevada segurança, que Beja foi berço de notáveis famílias. J de pedagogos e de humanistas na era do Renascimento. Diogo Gouveia, Francisco Xavier, conselheiro dos reis, D. Manuel I e de D. João III de Portugal, André Gouveia e António Gouveia, sintetizam algumas das figuras que brilharam no palco do humanismo em Portugal.
Conta a história que a primeira restauração dos muros de Beja, teve lugar no reinado de D. João III com recursos oriundos, por 10 anos, de dois terços dos dízimos das igrejas existentes, à época, na velhinha urbe. Diz ainda a lenda Beja, que esta foi uma pequena localidade rodeada por matagais onde uma cobra assassina se apresentava como um dos maiores problemas, e dúvidas. para a população em geral, sendo que solução do dilema passou por assassinar a serpente. O efeito gerado terá originado a morte de um touro que envenenado pela serpente, sucumbi-o. Neste contexto, eis-nos perante o brasão da cidade que exibe a presença de uma cabeça de touro.
1ª página do jornal “República”, 2 de fevereiro de 1962, Recorte recolhido, com a devida vénia, por via da Internet
A história do Regimento de Infantaria (RI3), em Beja, é longa e a sua origem remonta ao ano 1648. É óbvio que não entramos pelo fastidioso texto em atravessar o campo da pormenorização. Mas, há um feito aventureiro que marcou o Estado Novo: o assalto ao quartel na noite de 31 de dezembro de 1961 para o de 1 de janeiro de 1962.
Tinha então11 anos e lembro-me desse acontecimento. Morava com a minha tia Maria, o marido, tio António, e filhas, Isabel e Ana, na Rua Ramalho Ortigão nº1, uma rua que nos conduz a outros pontos do Sul do país.
A missão teve como um dos principais protagonistas o capitão Varela Gomes (1924-2018). O assalto tinha incumbência uma ação contra o Regime. Na aventureira intentona participaram Manuel Serra, que antes tinha chefiado os civis no Golpe da Sé, o major Francisco Vasconcelos Pestana, o capitão Pedroso Marques, o tenente Brissos de Carvalho e Fernando Piteira Santos. No golpe estiveram envolvidos alguns civis, só que o objetivo não correu de acordo com os planos previamente delineados. Houve “negas” de última hora, resultando da negação dos militares, que viraram o bico ao prego, dois mortos ao que se soube. O major Galapez, segundo comandante do quartel, fez resistência, o golpe falhou e Varela Gomes foi gravemente ferido.
Com o rebentamento da guerrilha Ultramarina, primeiro em Angola, seguindo-se Moçambique e depois Guiné, constata-se que o RI3, de Beja, terá sido um antro onde foram depositados ao longo dos anos milhares de jovens camaradas com destino às três frentes de guerra. Ao largo da década de 1960 e princípios dos anos de 1970, tive a oportunidade de ver magotes de jovens rapazes que chegavam à velha Pax Júlia para se iniciarem no serviço militar obrigatório.
Envergando uma farda verde, uma boina que por vezes pouco ou nada se enquadrava com o perímetro da cabeça, de cabelo rapado e calçando umas botas militares de delgada memória, o jovem, feito militar à força, passeava-se pelas ruas da cidade e regozija-se pelo estatuto de homem valente. Enchia o peito e sentia-se já um defensor da Pátria. Por outro lado, a plebe, mais humilde que o fosse, via-os com alguma tristeza perante o futuro próximo do rapazito recém-chegado às fileiras do exército, sabendo o povo que o seu porvir passava consequentemente pela fatídica guerra além-fronteiras.
Ficava, porém, a certeza de que parte deles arranjava namoricos, alguns com criadas de servir em lares abastados, ou seja, de senhores endinheirados, outros ficavam-se pelo pedido de madrinhas de guerra, sabendo eles que ida para a guerrilha estava tão próxima, outros passeavam-se vaidosos pela cidade, outros dispersavam-se pelos cafés e cervejarias. Seguia-se a especialidade e o adeus deste cantinho à beira-mar plantado. E terão sido muitos dos camaradas que no RI3 iniciaram o facto de se tornarem militares.
Quartel de Gabu envolvido numa selva que nunca “dorme"
Tocadores improvisados acertavam as mãos nos instrumentos e os camaradas… gostavam!
Guiné esperou-nos
Dando continuidade à linha do tempo, nós antigos combatentes no território da Guiné, concretamente, somos pessoas que nos deparámos com uma selva que nunca “dorme”, que vimos as estrelas a brilhar num breu de uma noite repleta de mistérios, ou uma trovoada noturna onde proliferava o recurso aos nossos “ponchos”. que ouvimos os barulhos estridentes das armas de guerra, que contemplámos situações que jamais esqueceremos, ou de momentos, quiçá únicos, onde os divertimentos vinham à baila, principalmente em tardes de calor intenso onde dar uns toques numa bola se assumia como um prazer enorme, ou das noites passadas na messe de sargentos, onde o toque dos tocadores “deliciaram” a malta, momentos de laser que nos preenchia uma alma que se esvazia num tempo que, entretanto, se esgotava em tácitos objetivos que todos ambicionávamos.
Hoje, resta-nos perspetivar um amanhã melhor, já que as curvas das nossas vidas se limitam à esperança de continuámos a viver.
José Saúde,
Abraços camaradas,
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
__________
Nota de M.R.:
Vd. último poste desta série em:






























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