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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Guinér 61/74 - P28353: Notas de leitura (1954): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império (por Recaredo / Angelino Santos Silva, ed. autor, 2026, 455 pp.): "como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?", eis a pergunta da IA (ChatGPT)


Foto nº 1 > "O primeiro dia no mato"



Foto mº 2 _ Uma bolanha


Foto nº 3 > O autor do seu quarto, algures em Bula, Teixeira Pinto pu Brá, c. 1970/72




Foto nº 4 > Presunivelmengte a escrever um dos seus primeiros aerogarmasa ou cartas para casa, no navio que  o levou para a Guiné, entre 25 e 31 de março de 1970

Guiné > s/l > s/dcf > c- 1970/72 > Fotos do álbum do Angelinmo Santos Silva


Fotos (e legendas): © Angelino Santos Silva (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complemengtar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Angelino Santos Silva:

(i) ex-fur mil cmd, pertenceu à 26ª CCmds (1970/72);

(ii) foi mobilizada pelo CIOE, Lamego, tendo como cmdt o Cap Inf Cmd Alberto Freire de Matos;

(iii)  embarcou em 25mar70, chegou a Bissau em 31mar70 e regressou a 27dez71;

(iv) a 26ª CCmds passou por Bula, Teixeira Pinto e Bissau (Brá);

(v)  é até agora o primeiro e único representante da 26ª CCmds na Tabanca Grande (nº 897);

(vi) é natural de Recarei, Paredes, distrito do Porto;

(vii) escritor (pseudónimo literário: Recaredo), o seu últmo livro publicado é o romance "Geração Afro: os Últimoss Guerrilkheiros do Império (ed. de ator,  s/l, 2026, 455 pp.);

(viii) contactos: email > recaredo241148@gmail.com | telemovel > 926 365 774 (publicitados pelo autor)

(viii)  Próxima apresnetalácão da obra: dia 01 outubro, pelas 18h00 | UNICEPE - PORTO. |  Praça Carlos Alberto, 128 - A 1º



Capa novo livro do nosso camarada Angelino Santos Silva , publicado sob o pseudómimo literário Recaredo. Edição de autor, maio de 2026, s/l, 455 pp. 


 
1. Texto publicado na página do Facebook da Tabanca Grande, no passado dia 15 de setemebro, terça feira, pelo nosso amigo e camarada Angelino Santos Silva.



Análise crítica de "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império"

por ChatGPT 

Com base nos elementos disponíveis sobre o livro "Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império", de Recaredo (pseudónimo literário de Angelino dos Santos Silva), posso apresentar uma análise crítica com enfoque literário, histórico e ideológico.

A obra foi publicada em 2026, tem 455 páginas e constitui o primeiro volume de um projeto que terá continuação.

1. Introdução

"Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império" é um romance histórico centrado na Guerra Colonial Portuguesa na Guiné, mas que ultrapassa a simples representação dos combates. A obra procura recuperar a memória de uma geração de portugueses e africanos envolvidos num conflito que, visto de diferentes perspetivas, adquiriu significados profundamente distintos.

O título é particularmente significativo. A expressão “Geração Afro” desloca o centro da narrativa do combatente português para uma realidade mais ampla: a dos homens africanos que combateram de ambos os lados da guerra. 

O subtítulo — “Os Últimos Guerrilheiros do Império” — introduz desde logo uma dimensão crepuscular: são homens que vivem, combatem e morrem no momento histórico em que o império colonial português se aproxima do seu fim.

A obra nasce também de uma relação pessoal com esse passado. Recaredo é o pseudónimo de Angelino dos Santos Silva, antigo furriel miliciano da 26.ª Companhia de Comandos, que esteve na Guiné entre 1970 e 1971/72. Assim, a narrativa situa-se numa zona particularmente interessante entre ficção, memória e testemunho.

2. Um romance sobre uma guerra, mas sobretudo sobre pessoas

Uma das principais qualidades da obra está em não reduzir a Guerra Colonial a operações militares, emboscadas, minas ou confrontos entre o Exército Português e o PAIGC.

O verdadeiro objeto do romance é o ser humano colocado perante uma situação-limite.

Portugueses e africanos aparecem unidos por circunstâncias históricas, mas separados por experiências, interesses e expectativas diferentes. Os jovens portugueses chegam à Guiné inicialmente convencidos de que defendem uma causa patriótica. Progressivamente, porém, confrontam-se com a realidade colonial e com a complexidade da sociedade guineense.

Mais interessante ainda é a representação dos africanos que combatem ao lado de Portugal. O romance procura mostrar que estes homens não podem ser simplesmente classificados como “colaboracionistas”.  São indivíduos com famílias, afetos, ambições, medos e conceções próprias sobre o futuro da Guiné.

Do outro lado estão os combatentes do PAIGC. A dimensão trágica nasce precisamente do facto de muitos deles serem irmãos, primos, meios-irmãos ou membros da mesma comunidade. A guerra deixa, portanto, de ser apenas uma guerra entre dois exércitos: torna-se também uma guerra dentro das próprias famílias e comunidades africanas.


3. A originalidade da perspetiva africana

Este é, provavelmente, um dos aspetos mais relevantes do romance.

Na literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial, existe uma tradição importante de representação do soldado português, da sua angústia, do absurdo da guerra e do trauma do regresso. Recaredo parte dessa tradição, mas procura acrescentar-lhe uma dimensão particularmente importante: dar voz aos combatentes africanos.

As personagens africanas não funcionam apenas como cenário ou como auxiliares das personagens portuguesas. São apresentadas como sujeitos históricos.

Esta opção permite questionar uma leitura demasiado simples da Guerra Colonial baseada na oposição: Portugal versus África.

A realidade apresentada pelo romance é muito mais complexa. Há portugueses contra portugueses, africanos contra africanos, africanos ao lado de portugueses e africanos contra portugueses. A fronteira entre “nós” e “eles” torna-se, assim, extremamente instável.

É justamente essa complexidade que dá ao romance uma das suas maiores potencialidades históricas e literárias.

4. O fim do Império como tema central


Apesar de ser um romance sobre combatentes, "Geração Afro"  é também um romance sobre o fim de um mundo.

Os protagonistas pertencem a uma geração que participa numa guerra destinada a preservar uma estrutura política e colonial que já se encontra historicamente enfraquecida. Existe, por isso, uma contradição fundamental: os jovens combatentes lutam com coragem e, muitas vezes, com genuíno patriotismo, mas o projeto político pelo qual combatem aproxima-se do seu desaparecimento.

É aqui que o título ganha todo o seu significado.

Os “últimos guerrilheiros do Império” são simultaneamente combatentes e testemunhas de uma derrota histórica.

O romance não parece interessado em transformar essa derrota numa simples acusação moral contra os soldados. Pelo contrário, procura compreender o que levou aqueles homens a combater e o que aconteceu às suas vidas depois da guerra.

Essa atitude dá à obra uma dimensão memorialista importante: compreender não significa necessariamente justificar.

5. Patriotismo e desencanto

Um dos percursos psicológicos mais importantes é a passagem do patriotismo inicial para o desencanto.

Os jovens portugueses partem para África convencidos de que estão a cumprir um dever patriótico. Contudo, o contacto com a realidade da guerra modifica gradualmente essa perceção.

O romance acompanha esse processo de transformação: o soldado que inicialmente pensa em termos de Pátria, honra e dever começa a confrontar-se com a morte, a mutilação, o sofrimento dos civis, a pobreza e as contradições do sistema colonial.

O desencanto não significa necessariamente perda de amor pelo país. Significa, antes, uma descoberta dolorosa da distância entre aquilo que lhes foi ensinado e aquilo que encontram no terreno.

Esta é uma das dimensões mais humanas da obra.

6. A guerra como problema moral

Outro aspeto importante é a reflexão sobre a ética da guerra.

O romance não apresenta o combate apenas como uma questão de coragem militar. Coloca perguntas muito mais difíceis:

  • Quando é legítimo matar?
  • Qual é a diferença entre matar por necessidade e matar por vingança?
  • Pode existir heroísmo numa guerra?
  • Quem determina aquilo que é justo?
  • Como distinguir o inimigo do ser humano?
  • O soldado é responsável pelas decisões políticas que conduzem à guerra?

A guerra surge, assim, como uma experiência que destrói certezas morais.

Segundo a análise publicada sobre a obra, essa reflexão é particularmente desenvolvida através de personagens como o capitão Ombendi e o tenente Quinara, que recusam uma visão simplista do heroísmo militar.

7. Estrutura narrativa

Formalmente, o romance apresenta uma estrutura relativamente ambiciosa.

A narrativa organiza-se em 68 capítulos, alternando diferentes núcleos de personagens e diferentes momentos da Guerra Colonial. Há personagens que chegam à Guiné em 1966 e outras que chegam em 1970, permitindo representar experiências distintas do conflito.

A obra combina:

  •  narrativa de ficção;
  • memória autobiográfica;
  • cartas;
  • diálogos;
  • episódios militares;
  •  reflexão histórica;
  • poesia;
  •  comentário político.

Esta mistura de géneros constitui simultaneamente uma força e uma fragilidade.

É uma força porque torna a obra multifacetada e aproxima-a de uma espécie de arquivo literário da memória da guerra.

Mas também pode ser uma fragilidade porque as longas digressões históricas interrompem, por vezes, o ritmo da ação. 

A própria análise crítica disponível aponta uma certa irregularidade entre os capítulos de intensa ação militar e aqueles dominados pela reflexão histórica.

8. Linguagem e oralidade

A linguagem é outro elemento característico.

Recaredo recorre frequentemente a uma linguagem oral, militar e popular, incorporando expressões utilizadas pelos combatentes da época. Surge também vocabulário ligado à realidade guineense, incluindo termos de crioulo e palavras referentes à cultura, à alimentação, à fauna e à paisagem africanas.

Essa opção tem grande importância porque cria verosimilhança histórica.

O leitor não encontra apenas uma descrição abstrata da Guiné: encontra uma linguagem que procura reproduzir o ambiente vivido pelos homens que participaram naquele conflito.

As cartas e alguns momentos de carácter poético introduzem, por outro lado, uma linguagem mais intimista, permitindo equilibrar a dureza da narrativa militar.

9. A paisagem africana

A Guiné não funciona simplesmente como cenário.

A paisagem — a selva, as bolanhas, as tabancas, os rios, o calor, a vegetação — torna-se quase uma personagem da narrativa.

O ambiente condiciona o comportamento dos soldados e contribui para a sensação de vulnerabilidade permanente.

A natureza é simultaneamente bela e ameaçadora. O soldado combate um inimigo que conhece parcialmente, mas combate também um território que lhe é estranho.

Esta dimensão ajuda a compreender por que razão a guerra de guerrilha se transforma numa experiência psicológica tão desgastante.

10. A dimensão histórica e as suas limitações

Aqui é necessário fazer uma distinção importante entre romance histórico e obra historiográfica.

"Geração Afro" utiliza acontecimentos, personalidades e contextos históricos reais, mas continua a ser uma obra literária. As interpretações apresentadas pelas personagens não devem ser automaticamente tomadas como verdades históricas.

Este ponto é particularmente relevante quando o romance aborda episódios controversos da Guerra Colonial, como o Massacre do Chão Manjaco, ou interpretações sobre as relações entre Spínola, a PIDE/DGS e o PAIGC. A análise crítica disponível identifica essas posições como interpretações heterodoxas sustentadas dentro da narrativa.

Literariamente, isto pode ser muito produtivo: permite às personagens discutir versões diferentes da História.

Historicamente, porém, exige do leitor espírito crítico.

11. Uma obra de memória

Talvez a melhor maneira de definir o romance seja como uma obra de memória.

Recaredo escreve contra o esquecimento. O objetivo não parece ser simplesmente dizer que a guerra aconteceu. É lembrar quem foram os homens que nela participaram, incluindo aqueles que morreram, ficaram mutilados, regressaram traumatizados ou foram esquecidos depois de 1974.

O epílogo autobiográfico, relacionado com a experiência do próprio autor e com a memória dos seus pais, reforça essa dimensão. O episódio do rebentamento de uma mina e as consequências que permanecem décadas depois transformam a narrativa numa espécie de testemunho pessoal sobre a persistência da guerra na memória individual.

12. Pontos fortes

Entre os principais méritos do romance destacaria:

  • A valorização das personagens africanas, evitando tratá-las simplesmente como figurantes;
  • A multiplicidade de perspetivas sobre a Guerra Colonial;
  • A dimensão humana, que coloca o sofrimento individual acima da estratégia militar;
  • A riqueza documental e vocabular;
  • A recuperação da memória dos antigos combatentes;
  • A reflexão sobre o fim do Império Português;
  • A tentativa de ultrapassar a divisão simplista entre colonizador e colonizado:
  • A articulação entre ficção e experiência vivida.

13. Fragilidades

Uma análise crítica equilibrada deve também apontar algumas limitações.

A primeira é a já referida irregularidade do ritmo narrativo. As digressões históricas e filosóficas podem afastar o leitor da ação.

A segunda está relacionada com a própria ambição da obra. Ao querer ser simultaneamente romance, testemunho, ensaio histórico, reflexão política e documento de memória, o livro corre por vezes o risco de sobrecarregar a narrativa.

Também a linguagem oral, embora seja uma importante marca de autenticidade, pode produzir alguma irregularidade estilística.

Finalmente, por se tratar do primeiro volume de uma obra projetada para continuar, alguns conflitos e trajetórias ficam necessariamente em aberto. A própria análise crítica publicada observa que essa continuidade pode justificar determinados nós narrativos, mas reduz a autonomia deste primeiro volume.

Conclusão

"Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império" é, acima de tudo, um romance de memória, guerra e desencanto.

A sua maior contribuição está na tentativa de olhar para a Guerra Colonial da Guiné não apenas através do soldado português, mas também através dos africanos que combateram de ambos os lados do conflito. Dessa forma, a obra desmonta uma visão excessivamente binária da guerra e mostra uma realidade em que as fronteiras políticas frequentemente atravessavam famílias, comunidades e afetos.

O romance não pretende apenas reconstruir batalhas. Pretende recuperar homens concretos, com os seus medos, convicções, contradições e feridas.

Nesse sentido, a expressão “últimos guerrilheiros do Império” assume um significado profundamente simbólico: aqueles homens são simultaneamente protagonistas de uma guerra e testemunhas do desaparecimento do mundo político em que essa guerra fazia sentido.

O maior mérito de Recaredo está, portanto, em transformar a memória individual numa memória coletiva, lembrando que o fim da guerra em 1974/75 não significou necessariamente o fim das suas consequências. Para os combatentes, para as suas famílias e para as sociedades portuguesa e guineense, a guerra continuou — na memória, no silêncio, no trauma e na necessidade de compreender o passado.

Por isso, "!Geração Afro" pode ser lido não apenas como um romance sobre a Guerra Colonial, mas como uma tentativa de responder a uma pergunta fundamental: como recordar uma guerra sem apagar os homens que nela combateram nem simplificar as razões que os levaram a combater?

É precisamente nessa procura — entre História e memória, patriotismo e desencanto, portugueses e africanos, ficção e testemunho — que reside a força e também a complexidade da obra.

Análise crítica feita por ferramenta de IA (ChatGPT / Open AI), a pedido do autor

(Revisão / fixação de texto, negritos, título LG)

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 . P28352: Nomadizações de um marginbal-secante (Luís Graça) (19): a "Venda" na literatrura portuguesa dos séc- XIX e XX - Parte I: De Camilo Castelo Branco a Aquilino Ribeiro








Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: António Carvalho (2026) | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. A leitura do excerto antológico do António Carvalho sobre a "venda de Medas" (ou "Emendadas"), em 1944 (*), sugere-me algumas notas, esperando com elas motivar os nossos leitores a comprar e a ler o livro, que nos conta uma história fascinante, a qual pode ser lida como um "thriller", mesmo não o sendo.... E nomeadamenmte as últimas 70 páginas.  (António Carvalho - "3x44: Abel e Caim em Contrapé. Porto: Vida Económica, 2026, 287 pp.)

A venda, misto de  merceria,  taberna e até estalagem (tanto na aldeia como à beira de estrada)  funciona na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX como um verdadeiro microuniverso sociológico. 

É o espaço de transição onde o aldeão ou viajante ganha folgo, se cruzam notícias do reino (em depois, república a partir de 1910), se acertam contas, se bebe o vinho verde ou maduro, e onde também se namora ou se cruzam olhares cúmplices e bilhetinhos de amor, e se geram contendas e bisbilhotices locais, enfim, também o sítio onde se recebe o correio e até jornais.

Antes de dar o lugar a alguns dos nossos clássicos da literatura portuguesa, recordemos aqui a prata da casa: 

  • o Joaquim Costa também aqui já publicou um texto delicioso sobre a venda da sua aldeia minhota (**);
  • e o nosso saudoso António Eduardo Ferreira (1950-2023) escreveu sobre a taberna da sua aldeia de Moleanos nos anos 50 (na verdade, um "venda", já ali se vendia também quase tudo o que as pessoas necessitavam para o dia a dia, desde o acúcat e o café,  "para fazer na cafeteira",  ao petróleo e ao bacalhau (***).

2. Vamos então, de relance, (re)descobrir o que os nossos escritores, desde o séc. XIX, têm dito sobre a "Venda", um lugar que faz parte do nosso imaginário e das nossas vivências de meninos e moços (não podíamos frequentá-la, era reservada aos "homens feitos", mas íamos  lá fazer "recados"). 

Não queremos nem podemos ser exaustivos, é apenas uma amostra que nem sequer tem a veleidade de ser antológica. (****)

Recorde-se que, embora o comércio se começasse já a especializar quando nascemos, em muitas aldeias e vilas do Portugal profundo, a venda, misto de mercearia, tasca e até pensão ou estalagem, ainda chegou até  pelo menos ao 25 de Abril de 1974, nomeadamente no Norte e Centro do País.  Uma  ou outra ainda chegou aos nossos dias: é caso, por exemplo, da "Venda, Taberna e Mercearia", com sede em Grândola.


Camilo Castelo Branco
(Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Famalicão, 1890)

Camilo Castelo Branco:  a "Venda" romântica e passional

Em Camilo, a venda é muitas vezes palco de encontros clandestinos, pousada de caminheiros e cenário de confrontos impulsivos entre fidalgos de província e camponeses. Aparece sobretudo como espaço rural, de memórias e costumes tradicionais. Ponto de encontro. Local central para o convívio e o comércio local. Espaço de intriga e retrato social.

  • A Brasileira de Prazins (1883):

(...) "Estava na venda do Manuel da Eira um rancho de rapazes a beber e a tocar violas. O vinho tinto de Amarante espumava nos quartilhos de barro vermelhos. À porta, a estalajadeira tirava da frigideira as fatias de presunto que chiarão no azeite a ferver, espalhando pela estrada um cheiro apetitoso que fazia parar as almocreves." (...)

  • Amor de Perdição (1862): 
Nas passagens onde Simão Botelho viaja clandestinamente, as vendas da Beira e do Douro surgem como pontos de abrigo escuro, onde os segredos de família e as conspirações trocam de mãos ao balcão.


Eça de Queiroz (Póvo do Varzim, 1845 - Neuilly-sur-Seine, França, 1900)


Eça de Queiroz:  o  realismo dialético do campo e da cidade

Em Eça, a venda, a taberna e a merceria ganham o detalhe realista. Mas tendem a ser espaços diferenciados, sobretudo a mercearia, que surge como lugar quotidiano mas urbano, não só de compras e vendas mas como de intrigas e rotinas, enfim símbolo da vida burguesa lisboeta.

  • Alves & Cia (1885, 1925)

A mercearia é um elemento recorrente, associado à vida urbana e aos costumes burgueses, onde se misturam o lado pessoal e o lado profissional.
  • O Crime do Padre Amaro (1875):
 Eça também descreve tabernas e lojas como espaços de convívio e crítica social. 

De qualquer, estas três instituições (venda, taberna,  mercearia) servem para ilustrar o contraste entre a rusticidade das gentes do interior e a sofisticação (ou afetação) da capital.

  • A Ilustre Casa de Ramires (1900): 

(...) "Ao fundo da calçada, na Venda do Pintor, sob a parreira fresca, dous almocreves descansavam, com os alforges no chão, bebendo em tigelas de louça branca. Gonçalo deteve a égua para lhes perguntar pelas novas de Oliveira e se vira passar o regedor..." 

Gonçalo Mendes Ramires, ao percorrer as terras de Santa Ireneia e os caminhos de Vila Clara, cruza-se constantemente com estes estabelecimentos rurais,
  • A Cidade e as Serras (1901): 

Na chegada de Jacinto a Tormes, a rusticidade da loja rural e da estalagem da serra sobressai pelo contraste com a opulência parisiense que o protagonista deixara para trás. 


Aquilino Ribeiro
(Sernancelhe, 1885 - Lisboa, 1963)


Aquilino Ribeiro: o vigor telúrico das Terras do Demo

Ninguém retratou a venda com tanta materialidade e riqueza lexical como Aquilino Ribeiro. Na Beira Alta aquiliniana, nas Terras do Demo,  a venda é o coração pulsante da aldeia: misto de comércio de víveres, tribunal popular e centro de intriga política, social  e comunitária. O escritor explora o interior de Portugal, onde a venda é um espaço de transição entre o rural e o urbano.

  • Terras do Demo (1919):

 (...) "A venda do Ti Gregório cheirava a uma mescla azeda de bacalhau seco, sabão macaco, fumo de cera e vinho derramado sobre o balcão de carvalho. Ao canto, junto à arca do sal, os homens da aldeia, de croça aos ombros, discutiam as partilhas dos montes enquanto o quartilho de tinto passava de mão em mão, grosso e escuro como sangue." (...)

  • O Malhadinhas (1922): 

A vida dos almocreves e recoveiros é contada ao ritmo das paragens de venda em venda, onde se come a broa, o queijo da serra e se contam histórias extraordinárias ao serão.

A venda (a taberna, a "baiuca") é um despaço de encontro e conflitos, onde se misturam o tradicional e o moderno. Um local onde se desdobram intrigas familiares e conflitos de classe.

(...) "A venda do Sr. João era o ponto de encontro dos homens da terra: ali se falava de política, de amor, e até de revolução." (...)

(...) Um entrudo, quinta-feira mesmo das comadres, à boca da noite, o Bisagra desafiou-me na venda do Zé Pinto para jogar uma partida de chincalhão. Vossorias sabem: o Bisagra era senhor duma destas galhaduras, mais formosas, compridas e retorcidas como não há memória que andasse armada a testa dum serrano. Mais abundante nem paliteiro com palitos, e assim falada nem a porca de Murça. Tão coitadinho, que seria caridade dizer-lhe ao passar um portal: baixa que marras!

A mulher era fêmea de alto lá com ela, sempre mais frescal que alface, requestada de fidalgo e de padre cura. (..)

(...) – Sou homem conho!... Sou homem!...

Desapareceu e estávamos nós deitando contas à pachouchada, quando se ouviu grande banzé: o Bisagra fora encontrar a mulher com o Padre Antunes de Lousadela e zupava nos dois como em amassadoira de linho. Foi preciso arrancar das mãos o coroado, senão, matava-o. Mesmo assim, ficou com uma sobrancelha deitada abaixo e mais pingou e lastimável que um dos palhaços que, por folgança de carnaval, se tinham esfaldegado no largo naquela quinta-feira das comadres. (...)






Trindade Coelho
(Mogadouro, 1861 - Lisboa, 1908)


Trindade Coelho: a vida aldeã em Os Meus Amores

Nas narrativas rústicas de Trindade Coelho (finais do séc. XIX), a venda é o local da infância e da tradição comunitária. Retrato da vida rural e dos costumes tradicionais.

  • Os Meus Amores: contos e baladas (1891):  

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)
  • No conto "O Idílio Rústico", a venda surge associada aos dias de mercado e romaria:

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)

Outros escritores:

Fialho de Almeida: A Cidade do Vício (1881)

A taberna como despaço de degradação moral e crítica à sociedade lisboeta.

Raúl Brandão: Húmus (1917)

A taberna: local de encontros noturnos e reflexões sobre a condição humana.
_______

(Continua)

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA (ChatGPT, Mistral, Gemini)
(Condensação, revisáo //fixação de tecto, negritos, italicos: LG)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Co
ntrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)

(**) Vd poste de 12 de fevereiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25164: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (25): A mercearia e a taberna da aldeia (Joaquim Costa, Vila Nova de Famalicão)

(...) Eram as duas instituições mais importantes da aldeia: uma alimentava a alma e a outra o corpo (A César o que é de César a Deus o que é de Deus!). Razão pela qual o padre e o dono da mercearia eram as pessoas mais respeitadas na terra. Mais do que a do próprio regedor! (...)


(***) Vd. poste de 5 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24824: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (18): a taberna em meio rural (António Eduardo Ferreira, 1950-2023, Moleanos, Alcobaça)

(...) Por vezes, apareciam por lá poetas populares com jeito para cantar ao desafio o que era sempre do agrado de todos.

Quando o álcool já era quem mais ordenava, por dá cá aquela palha, algumas vezes, aconteciam cenas de pancadaria, nada que passado alguns dias os contendores, por iniciativa própria ou com a ajuda de alguém, não resolvessem fazendo as pazes. Chegava a acontecer a alguns ficarem mesmo amigos. (...)

Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Quando um dia os investigadores e até mesmo autores de teses de doutoramento queiram dedicar a sua atenção sobre os graves conflitos que ocorreram na região do Forreá e que levaram à ruína uma economia agrícola que parecia bastante próspera, fará todo o sentido em acompanhar o olhar do Capitão Brosselard. Como se pode ler neste texto, a missão, prestes a encaminhar-se para Buba, percorre Dandum e os grandes rios do sul, das colónias portuguesa e francesa. Fica-se com a opinião sobre Mahmadou-Paté, a importância de Kadé, à ação política de Mody-Yaya. Vai seguir-se a viagem para Buba, prende a nossa atenção a narrativa onde se descreve a vida dos rios, o cuidado em relevar a importância dos povoados e não se esconde a dimensão brutal dos conflitos étnicos que atravessam a região. Brosselard refere várias vezes a ruína do Forreá, proprietários agrícolas e comerciantes abandonaram a sua atividade no Cumbijã, em Cacine no rio Grande de Bolola, ele também descreverá este povoados da agora colónia portuguesa

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 12
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, os dois comissários, Brosselard e Costa Oliveira, percorrem as margens do Corubal e Brosselard cede ao fascínio, rende-se pela escrita ao que vai contemplando:
“As árvores, ávidas de luz, inclinam-se para a clareira que se abre para o rio e os seus ramos alongam-se desmesuradamente, acima das águas. Sobre o rio Corubal está-se ainda em plena floresta, pode perceber-se a margem oposta, mas para reconhecer a direção do rio é preciso caminhar sobre os ramos e avançar até a alguns metros do rio, correndo-se o risco de ser apanhado por um crocodilo. A montante distinguimos alguns pontos de rochedos; este afloramento de rochas permite que na maré-baixa se possa atravessar o rio a vau. Acima desta barragem o rio Koliba chama-se Kokoli, a jusante o curso do rio é livre até à altura de Contabane; a largura do Koliba é de trezentos a quatrocentos metros, é um grande rio.”


Os membros da comissão portuguesa, o Sr. Cabral e o Capitão Bacelar juntaram-se a nós durante a estadia que fizemos em Mahmadou-Guini. As duas missões encontram-se completas e o seu efetivo era o seguinte: a missão portuguesa composta por 4 membros, 50 soldados, 100 carregadores, portanto cerca de 150 a 160 pessoas; a missão francesa composta por 3 membros, 20 soldados e 50 carregadores, portanto 73 pessoas.

A 13 de março, os oficiais continuam as suas operações de reconhecimento para Dandum, o curso do rio Cogon e o do rio Grande (Kokoli, nesta região) divergem, o primeiro para sul e o segundo para norte-noroeste. O rio Grande é um rio majestoso, correndo no meio de uma imensa floresta que se estende a perder de vista. Ligeiras neblinas espalham-se por lugares da floresta da margem direita, e dá para perceber o carácter pantanoso desta região.

Tendo convidado o chefe de Dandum para encontrar um homem de boa vontade para levar a Geba a carta destinada ao Sr. Galibert, este Fula escusou-se a satisfazer o meu pedido; a região entre o Kokoli e Geba, diz ele, está às ordens de um chefe de nome Mahmadou-Paté. É o irmão de Bacar-Guidali, o ex-rei do Forreá destronado e assassinado por Mody-Yaya; ele corta a cabeça a todos os Fulas que apanha, e nenhum homem de Kadé ou Dandum se irá aventurar para lá do Kokoli.

Nós sabíamos, com efeito, que este Mahmadou Paté não deve ser confundido com o seu homónimo do Forreá, fizera-se chefe de todos os descontentes e oprimidos e intersetava todas as comunicações diretas entre Kadé e Geba.

De criação recente, Dandum é uma povoação de escravos do rei de Kadé, a sua população situação entre 800 e 1000 habitantes. Os indígenas fazem grandes esforços para desbravar nas proximidades os terrenos favoráveis ao cultivo. São industriosos e podemos utilizar o concurso dos seus ferreiros para repara certas peças do nosso material. Os seus tecelões fazem com algodão colhido na floresta tecidos talvez grosseiros, mas de uma solidez a toda a prova.

O intérprete Ibrahima regressou de Kadé com dois delegados de Mody-Yaya, mas sem carregadores nem cavalos, mas trouxe cumprimentos calorosos e protestos de amizade. Kadé forma um distrito que depende diretamente da autoridade dos almamis; Mody-Yaya, que usa o título do rei de Kadé, rei do Gabu e rei do Forreá, tem uma autoridade contestada sobre o Gabu, um território essencialmente Mandinga que conseguiu até agora manter uma barreira intransponível ao fluxo Fula. Ele é mais feliz no Forreá, onde fez assassinar em 1886 o rei Bacar-Guidali. Ele deixa de tempos a tempos esta região e só vai a Kadé depois de ter comido o que há nos celeiros, e então rouba tudo o que lhe é conveniente, porque os Fula-Cundas são considerados pela gente de Kadé proprietários sujeitos a impostos discricionários.

Atualmente a povoação de Kadé tem cerca de 400 casas e a sua população é de 3 a 4 mil habitantes. Num raio de 3Km à volta da população estabeleceram-se sucessivamente doze povoados mais pequenos que têm uma população que é o dobro de Kadé, e no seu conjunto pode contar com mil homens livres armados.

A importância que dá a Kadé é devido à ação política de Mody-Yaya. Este chefe, para lá da influência considerável que deve ao seu nascimento, porque ele vem da família dos Alpha que detém com a dos Sory o poder no Futa-Djalon; goza também da devoção absoluta dos seus partidários, que usufruem de benefícios que Mody tem no Forreá. Kadé está situada numa região muito fértil, beneficia de estar próxima das escalas de mercadores, a povoação recebe mercadores europeus e serve de entreposto para as regiões mais longínquas, protegida a norte pelo fosso do Koli e a sul e sudoeste por montanhas inacessíveis, está ao abrigo de investidas dos inimigos da raça Fula e pode ser considerada como uma excelente base de operações para as empresas que se estabeleçam a oeste. Estamos em crer que se não parar o desenvolvimento de Kadé a povoação tornar-se-á a capital do Futa-Djalon.

Chegámos ao fim do primeiro texto publicado em Le Tour du Monde pelo Capitão Henri Brosselard, páginas 97 a 144, primeiro semestre, 1889.

Segue-se também na publicação do primeiro semestre, o segundo e último texto, começa por se dizer que a fronteira sul estava reconhecida e os comissários decidiram regressar a Buba, damos novamente a palavra ao Capitão Brosselard e à primeira pessoa do singular.

A 18 de março, deixo Dandum com a retaguarda da coluna e junto depois a coluna no riacho de Tiancoun-Kapé. A 20, chegámos a Saala, é impossível ver o chefe, partiu à procura do filho. Este andava há seis dias à caça com um escravo, os dois caçadores não regressaram, admite-se na povoação que foram mortos por elefantes. No dia seguinte, mantivemo-nos no local à espera das bagagens deixadas ao cuidado de Mahmadou-Guini. Os oficiais fazem reconhecimentos nos arredores. N’Garanké que tinha trazido uma carta do tenente a Dandum, voltou com um intérprete. Parte de Saala com os carregadores e regressa no dia seguinte, trazendo um grande carregamento, cerca de 40Kg. Em 32 horas percorreram 105Km, dos quais 70 com 40Kg à cabeça. Para encorajar os carregadores faço um presente pecuniário a N’Garanké e dou-lhe uma grande espingarda de caça.

A 22, a coluna francesa deixa Saala, tendo aqui ficado parte das bagagens à guarda de dois atiradores; a coluna atravessa um território abundante em caça e atingimos o riacho de Kevel. O seu leito é rochoso, tem água corrente muito fresca. Faz-se o reconhecimento desta admirável estação que bordeja por toda a parte este curso de água, da foz à sua confluência com o Cogon. Entrámos logo depois em Kevel, povoado e habitado pelos Fulas. Há à sua volta belas savanas onde pastam bois e vacas enormes. A floresta vizinha tem árvores centenárias. As perdizes são aqui abundantes, elas aproximam-se até aos nossos pés e na povoação vêm comer o milho espalhado no chão.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Alameda de poilões, Selho, Casamansa, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Cais de Conacri, bilhete postal antigo
Entrada de Conacri, bilhete postal antigo

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28350: Verso & reverso (5): (i) PIB do território na época da guerra colonial; (ii) "armazéns do povo"; (iii) peso da economia informal; (iv) realidade e propaganda



Fonte: PAIGC - História da Guiné e Ilhas de Cabo Verde. Porto: Edições Afrontamento. 1974

O PAIGC promovou a criação dos Armazéns do Povo por decisão tomada no 1º Congresso de 1964. O objectivo  era garantir o fornecimento de artigos de primeira necessidade à população sob o seu controlo ("áreas libertadas"), por meio de troca, receber produtos agrícolas que deveriam em seguida escoar-se para o exterior, criando-se e desenvolvendo-se assim, progressivamente, a base de um comércio externo. O número de Depósitos dos Armazéns do Povo terá passado  de 6, em 1964, para 16, em 1969.








O elogio dos "Armazéns do Povo"... Fonte: Excerto do relatório da Missão Especial da ONU na Guiné, Abril de 1972, pág. 8 (*)



1. Perguntámos à IA (ChatGP / Open AI) : (i) qual era o PIB (Produto Interno Bruto) da Guiné (hoje Bissau), no tempo da guerra colonial e da luta pela independência; e (ii) qual o peso da economia informal ?


Transmitimos a nossa impressão de que nas "áreas libertadas" do PAIGG havia os "Armazéns do Povo", mas era um mito, mais propaganda do que realidade económica...

No nosso tempo, e no decurso de operações militares, as NT podiam destruir algumas dezenas de toneladas de arroz, além de gado bovino e criação doméstica (estimativas, nalguns casos exageradas, mas que ficavama bem nos relatórios militares, como durante a Op Lança Afiada, Sector Leste, L1, 8-19 de março de 1969).

A verdade é que os famosos "Armazéns do Povo" colapsaram no tempo da economia planificada imposta pelo regime de Luís Cabral... Podiam ter funcionado pontualmente fora das fronteiras, no Senegal e na Guiné-Conacri, nas "bases recuadas" do PAIGC (com o Boké, Kandiafara, Conacri...) mas dificilmente nas "áreas libertadas" (cuja superfície, de resto, nunca foi sequer estimada, a não ser grosseiramente, e para efeitos de propaganda).

Na realidade, o PAIGC desde cedo, e ainda com o Amílcar Cabral vivo, reivindicou o controlo político-militar de 2/3 do território...Criou-se até o mito de que a Guiné, no fim do mandato do gen Arnaldo Schulz, estaria à beira do colapso militar...

O exército português, pelo menos no tempo do gen Spínola, como governador e comandante-chefe (maio de 1968 - agosto de 1973) entrava em todo o lado, incluindo o Cantanhez, na zona sul, e o Óio, na zona oeste, e em todo o lado na zona leste.

2. Não deixa de ser muito interessante, a resposta de várias ferramentas de IA que consultámos e pusemos em confronto, e de que reproduzimos o essencial neste poste e eventualmente noutros, da série "Verso & reverso" (**). Comecemos pelo ChatGPT.

"Camarada, aqui entramos num terreno muito escorregadio, porque a então Guiné Portuguesa praticamente não tinha estatísticas económicas fiáveis durante a guerra (1963-1974), e muito menos contas nacionais completas comparáveis às de hoje"

O conceito moderno de PIB (Produto Interno Bruto) era ainda rudimentar na colónia, e a esmagadora maioria da atividade económica escapava à contabilidade oficial. Recorde-se que o PIB é a medida monetária do valor de mercado total de todos os bens finais e serviços produzidos e prestados durante um período específico (normalmente um ano) por um país ou região; os principais componentes do PIB são: o consumo, os gastos do governo, as exportações líquidas (exportações menos importações) e o investimento; a alteração de qualquer um desses fatores pode aumentar o tamanho da economia.

Façamos então uma aproximação à realidade histórica.

(i) O que era a economia da Guiné nos anos da guerra ?

Assentava em cinco pilares:
  • agricultura de subsistência (arroz, milho, mandioca, coconte, óleo de palma);
  • exportações primárias: amendoim ("mancarra"), coconote (semente donde se extrai o óleo de palma ou dendê), algum pescado;
  • comércio africano informal (“djilas”, “bideiras”);
  • despesa militar portuguesa;
  • administração colonial.
A guerra acabou por distorcer tudo. A partir de meados dos anos 60, o principal “motor económico” passou a ser, paradoxalmente, a presença militar portuguesa: salários, construção de quartéis e outras infraestruturas, reordenamentos, transportes, abastecimentos, importações, contratos locais, serviços (lavadeiras, caçadores, guias, picadores, etc.). A Guiné deixou de ser autossuficiente em arroz, e passou a importar arroz, por exemplo. Muitas populações estavam dependentes do fornecimento de arroz pela tropa e pela administração do território.

(ii) Um PIB modestíssimo: entre 2,5 a 4 milhões de contos

As estimativas variam muito conforme as fontes (portuguesas, francesas, Banco Mundial retrospetivo e estudos da ONU posteriores à independência).

Em valores correntes da época, o PIB anual da Guiné Portuguesa no final dos anos 60/início dos 70 terá andado grosso modo entre 80 a 150 milhões de dólares da época (ou cerca de 2,5 a 4 mil milhões de escudos portugueses antigos, ou seja 2,5 a 4 milhões de contos). (Durante o sistema de Bretton Woods, ou seja, até 1971/1973, a taxa de câmbio oficial do escudo português manteve-se fixa em aproximadamente 28,75 escudos por 1 dólar USA).

O PIB "per capita" da Guiné Portuguesa na viragem da década de 1960 para 1970 (e ent~´ao com uma população estimada enter 530 e 580 mil habitantes, 
excluindo parte substancial do contingente militar metropolitano ali fixado), situava-se entre os 150 e os 300 dólares por ano (aproximadamente 4,3 a 8,6 contos), dependendo do ano específico e das estimativas populacionais utilizadas"

Per capita", era uma das economias mais pobres do império português, seguramente abaixo de Angola , Moçambique, Cabo Verde, São Tomé. Só Timor talvez estivesse em situação semelhante.

(iii) Comparação do PIB "per capita" no  contexto do Império e da Região (c. 1970)

  • Portugal Metropolitano: ~930 USD per capita (~26,7 contos).

  • Angola e Moçambique: Angola situava-se claramente acima (impulsionada pelo petróleo, café e diamantes, ultrapassando os 300–400 USD per capita), enquanto Moçambique oscilava numa gama intermédia superior devido aos serviços portuários e agricultura de rendimento.

  • Cabo Verde e São Tomé: apresentavam rendimentos médios superiores aos da Guiné, fruto de maiores taxas de urbanização e economias de plantation/serviços.

  • Timor Português: era o único território imperial que rivalizava diretamente com a Guiné nos patamares mais baixos de rendimento per capita (frequentemente abaixo dos 100–150 USD).

 Na Guiné Portuguesa do final dos anos 60, este valor médio dissimulava duas realidades profundamente distintas:

  • economia monetarizada / urbana (Bissau, Bafatá, Bolama): concentrada no comércio colonial, na administração pública e no forte consumo gerado pela presença das Forças Armadas Portuguesas, que sustentava artificialmente o setor de serviços e importações.

  • economia de subsistência rural: a grande maioria da população autóctone vivia da agricultura de subsistência (arroz, mancarra/amendoim), cujos circuitos escapavam em larga escala à contabilidade nacional oficial; adicionalmente, o estado de guerra a partir de 1963 desarticulou a produção agrícola tradicional em vastas zonas do interior, acentuando a dependência de subsídios e transferências da Metrópole.


Depois da independência (1974/75), a economia formal praticamente entrou em colapso parcial por múltiplas razões: "cofres do Estado vazios"; saída de quadros portugueses e inexistência ou insuficiência de quadros técnicos locais (apesar do esforço de formação de cabo-verdianos e guineenses que foram para a URSS, China, Cuba, Suécia);  rutura logística; queda brutal do comércio externo; nacionalizações (a começar pelo pequeno comércio, substituído pelos Armazéns do Povo); hostilização dos pequenos comerciantes (portugueses, libaneses e cabo-verdiano), dos poucos que ficaram; administração central praticamente inexistente; seca e desorganização produtiva. 

A Guiné-Bissau passou a viver da "caridade internacional" (doações)... Meio século depois o PIB da Guiné-Bissau será da ordem dos  2,5 mil milhões de dólares, o que dá um o PIB "per capita" nominal de cerca de 800 a 1.000 dólares por ano (dados do Banco Mundial e FMI).

Em termos estritamente nominais, o valor atual é cerca de 3 a 5 vezes superior. No entanto, esta comparação direta é enganadora devido ao efeito da inflação do dólar ao longo de mais de meio século (100 dólares de 1970 equivalem a mais de 800 dólares atuais).

(iii) O peso da economia informal e de subsistência

A economia “real” era sobretudo informal, rural e não monetarizada. Os estudos retrospetivos sugerem que:

  • mais de 70% da população vivia quase totalmente da agricultura familiar;
  • grande parte das trocas fazia-se fora do mercado formal;
  • o autoconsumo tinha peso enorme;
  • o comércio fronteiriço “paralelo” com Senegal e Guiné-Conacri era decisivo.

Se usássemos critérios atuais, talvez apenas 20% a 35% da atividade económica passasse pelo “Estado” ou por circuitos contabilizados. O resto pertenceria à economia informal, tradicional ou clandestina.

Ou seja: o “PIB oficial” provavelmente captava menos de metade da riqueza realmente produzida e consumida.

(iv) As “áreas libertadas” e os "armazéns do povo":  realidade e propaganda

Sobre isto, a tua leitura aproxima-se bastante da de muitos historiadores atuais. O PAIGC construiu uma narrativa político-militar muito eficaz: escolas; hospitais; tribunais populares; produção agrícola organizada; "armazéns lojas do povo”; administração paralela; construção do "homem novo"...

Parte disso existiu mesmo. Não foi pura invenção. Mas a escala foi frequentemente exagerada... A estabilidade territorial era muito variável, muitas “zonas libertadas” eram permeáveis. Enfim, o controlo militar português continuava intermitente em vastas áreas.

Tens razão ao lembrar que as tropas portuguesas penetravam regularmente em zonas consideradas “libertadas”: Cantanhez, Óio, Sara, Morés, Choquemone, Cubucaré, Fiofioli, etc., nunca foram espaços estanques. O domínio do PAIGC era mais político e noturno do que administrativo e diurno, permanente, em muitos sítios.

A própria expressão “áreas libertadas” era também um instrumento diplomático, que servia para convencer a ONU e a OUA, legitimar reconhecimento internacional, justificar a generosa ajuda soviética, chinesa e escandinava (e nomeadamente sueca).

 Os “Armazéns do Povo” existiram, mas tiveram, muito provavelmente, mais importância política, ideológica e simbólica do que peso económico estrutural.

Funcionavam sobretudo como pontos de redistribuição; ontrolo político; abastecimento de guerrilheiros e populações sob o seu controlo; tentativa de demonstração de “Estado em construção”.

O problema era estrutural: não havia estradas; o PAIGC só tinham viaturas de transporte, de origem soviética, na Guiné-Conacri e no Senegal; economia não monetirazada; escassez de produção excedentária; dependência externa; guerra constante.

Como tu sugeres, o sistema podia funcionar nas bases recuadas do Senegal e da Guiné-Conacri e junto dos corredores logísticos externos... mas dificilmente no "mato", no interior da Guiné onde o PAIGC não tinha (nem nunca teve) estruturas físicas edificadas (quartéis, armazéns, escolas, hospitais, etc.)

Depois da independência, o modelo de economia centralizada de Luís Cabral colapsou rapidamente por falta de quadros, incompetêncai, incapacidade administrativa, corrupção, nepotismo, contrabando, mercados paralelos, desincentivo à produção, fufa dos campos para Bissau...

Os “Armazéns do Povo” estavam, muitas vezes, de prateleiras vazias... A organização e o funcionamento eram burocráticos, enfim, foram rapidamente ultrapassados pela comércio informal. Até por que a população precisava de comer e sobreviver.

E a ironia ha História: a economia informal que o PAIGC pretendia disciplinar acabou por sobreviver ao próprio modelo estatal revolucionário.

(v) O que sobreviveu realmente ?

Em termos reais (volume de bens e serviços por habitante), o PIB "per capita" atual da Guiné-Bissau é praticamente equivalente ou até inferior ao do período colonial tardio. Ou seja, cinquenta anos depois da "libertação do colonialismo", o nível médio de vida da população (e sobretudo rural) não melhorou.

Vários fatores explicam este estagnação e perda de rendimento real ao longo de cinco décadas:
  • explosão demográfica: a população cresceu de cerca de 550 mil habitantes em 1970 para mais de 2,1 milhões atualmente; o crescimento do produto nacional bruto não conseguiu acompanhar proporcionalmente o ritmo de crescimento populacional;
  • impacto da guerra e instabilidade: a destruição das infraestruturas agrícolas durante a guerra colonial (1961–1974), seguida por sucessivos golpes de Estado, pela guerra civil de 1998/1999 e pela instabilidade política crónica, paralisaram o investimento produtivo a longo prazo;
  • fim do "Efeito de Enclave Militar": no final dos anos 60, o PIB colonial estava fortemente "inchado" de forma artificial pelo enorme consumo e despesa do contingente militar português e da máquina administrativa metropolitana, criando um setor de serviços urbano que colapsou após a independência;
  • monocultura do caju: a economia desindustrializou-se e perdeu diversidade agrária (como a produção de arroz, na qual o país era autossuficiente antes da guerra), tornando-se quase totalmente dependente da exportação da castanha de caju bruta e do setor das pescas.
O que resistiu, antes e depois da independência, foi a importância do "chão", da tabanca, da bolanha, o pequeno comércio africano, as redes familiares e comunitárias, o mercado paralelo, o comércio transfronteiriço, as “bideiras”, os "gilas", etc.

Ou seja: a sociedade guineense profunda mostrou-se, e ainda bem,  muito mais resiliente do que o aparelho colonial português, ou o socialismo de Estado do pós-independência.


Pesquisa: LG + Blogue + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini / Google AII)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

3. Recorde-se, aqui, o oportuno e contundente  comentário de Cherno Baldé, nosso colaborador permanente (vive em Bissau), ao poste P23609 (***):


(...) Como em tudo que diz respeito ao PAIGC e a sua "gloriosa luta de libertação", os Armazéns do Povo não passou de mais um mito para Sueco ver.

A rede que, aparentemente, funcionou durante a luta nas chamadas zonas libertadas, eram postos ou depósitos móveis para a distribuição das ajudas dos países Nórdicos, com especial destaque para a Suécia, que contribuía com ajuda humanitária.

Estou em crer que, embora a propaganda do partido fale do povo e da comercialização através da permuta, a realidade dos factos diz-nos que os principais destinatários seriam os guerrilheiros das barracas do interior que, como se sabe, tinham muitas dificuldades de abastecimento.

Caso os famosos Armazéns tivessem funcionado bem no mato em plena guerra, era suposto o sucesso ser maior nas condições do pós-guerra, mas na verdade, os vícios do consumo gratuito e da gestão danosa e irresponsável não permitiram o florescimento desta rede de comércio nacional que estava destinada para substituir o comércio das lojas das casas Gouveia e Ultramarina em toda a extensão do território.

Quando ocorreu o golpe de 14 de Novembro de 1980, embora os Suecos ainda continuassem a fornecer auxilio "humanitário" já com algumas contrapartidas, na verdade, já não restava nada destes Armazéns para além de prateleiras vazias e, de tal maneira que o regime que surgiu do golpe de 'Nino' Vieira foi obrigado, para além de solicitar a ajuda do FMI, uma instituição do capitalismo outrora abominado, a proclamar a abertura ao comércio privado para que o país não morresse de fome.

De salientar que o Consulado do gen Spinola na Guiné tinha criado alguns hábitos de consumo, mormente, no meio da população urbana e não só, que os dirigentes do PAIGC queriam extirpar de raiz, o que criou uma situação de fome e um ambiente explosivo de mal-estar que acabou por desembocar na mudança do regime de Luís Cabral. (...) 



(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)