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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28258: Historiografia da presença portuguesa em África (539): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (7): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
O Capitão Henri Brosselard revela-se um excelente observador e pela sua digressão até Kandiafara ganha a perceção de que a região do Futa-Djalon tem uma saída natural em rios que ficaram em território da Guiné Portuguesa, caso do rio Grande de Bolola (Buba) e o Cumbijã, acrescentando-lhe rios que ficavam em domínio francês como o Nuno e o Pongo, apontando para outra região importante, como os Rios do Sul. Brosselard encontrou-se com o rei Mamadu Paté e o seu colaborador Bacar-Lombi, este revelar-se-á um ganancioso, como veremos mais adiante, toda esta missão decorre em território tumultuoso, os Fulas procuram afastar os Nalus do Forreá. A grande surpresa deste relato é de ficarmos a saber que se tinha descoberto o rio Cacine, quando o Tenente Clerc, colaborador de Brosselard, chegou à povoação de Kandenbel, houve uma enorme agitação, era a primeira vez que aparecia ali um branco.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 7
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Prosseguindo o relato sobre a situação do Forreá, damos de novo a palavra ao Capitão Henri Brosselard. Atualmente a Praça de Buba assegura a manutenção do statu quo entre os Biafadas e os Fulas, pondo um travão à expansão destes últimos no noroeste, mas é em detrimento do seu comércio tanto mais que os fulas abandonam de boa vontade a escala de Buba onde os mercadores portugueses são pesadamente taxados, sabendo que lhes era fácil traficar em condições mais vantajosas nas escalas de Combidiah, do Cacine e sobretudo em Kandiafara. Também o comércio do Compony tem uma grande extensão: e se instalarmos ali uma alfândega uma parte do comércio do rio Nuno será desviado completamente deste rio.

Em Kandiafara, o rio Compony tem ainda 10 metros de água; até ao mar o leito do rio é sempre profundo, infelizmente à entrada há uma passagem difícil por causa de uma barra arenosa e com alguns rochedos; porém, nada impede a navegação a pequenos vapores e às embarcações de toda a natureza que podem subir até Kandiafara, mais de 80km do interior. A escala de Kandiafara parece, pois, destinada a prosperar, tanto mais que os barcos podem atracar no cais com 4 ou 5 metros de água. Porém, os progressos efetivos não se poderão concretizar sem a nossa proteção, só assim se poderão instalar de um modo permanente e seguro; e os indígenas não os impedirão até que nós tivermos feito o ato de posse.

Kandiafara beneficiará então completamente do comércio que existia antigamente no rio Grande de Bolola e que se cifrava em milhões. Esta escala terá, além disso, a vantagem de continuar o comércio com o Futa-Djalon, durante a época das chuvas, quando o Geba, o Combidiah, o rio Nuno, o Pongo e o Mellacorée não forem acessíveis às caravanas do interior. Um facto completamente novo e digno de atenção, que constatámos recentemente para a escala da Dubreka, produzir-se-á igualmente em Kandiafara: os Fulas vieram a Dubreka durante a época das chuvas e vieram e chegaram igualmente a Kandiafara. Estas duas escalas são de facto as únicas que se podem realizar no Futa-Djalon, por itinerários no país acidentado.

Kandiafara fica a três dias de Kadé para os Fulas; e esta povoação, como iremos ver adiante, tem uma importância capital e parece contrabalançar a influência dos maiores centros do Futa-Djalon. Em suma, esta escala no futuro está situada no terreno da navegação marítima do Cogon e o reconhecimento que fizemos deste rio, que desce do centro do Futa-Djalon, permite-nos apreciar a sua importância: estamos em crer que poderá ser utilizado para a navegação de pequenas embarcações até à altura de Dandum, isto é, a meio caminho de Kandiafara e de Kadé, e talvez para lá indo do rio Nuno ao Futa-Djalon; o Capitão Lambert atravessou este rio durante a baixa-mar, a mais de 500km de Kandiafara. A descrição que o nosso compatriota faz deste rio mostra a importância que ele ainda tem a esta distância da sua foz.

O rei Mamadu Paté disse a Bacar-Lombi na minha presença que ele devia fornecer-me carregadores. A fisionomia deste último revelou-se interessante, também fui informado da situação que ele ocupa no país.

Bacar-Lombi era o homem que Mody-Yaya queria fazer rei do Forreá; foi só devido às instâncias portuguesas que a nomeação recaiu em Mamadu Paté. Apesar deste insucesso à candidatura real, Bacar-Lombi que é chefe militar dos Futa-Cundas, não viu diminuído o imenso prestígio que possui. É, aliás, o tipo acabado de homem de guerra: alto, com uma fisionomia viril e severa, muitas cicatrizes provenientes de golpes de sabre. É ele que teve a iniciativa de todos os golpes de mão com êxito tentados pelos Fulas, nas últimas guerras. Sempre na primeira linha, dotado de uma bravura lendária, cobre-se de glória em todas as circunstâncias e mostra uma fidelidade sem mácula. Também, não sendo de facto o rei, ele é tão poderoso quanto o rei.

Estas informações eram mais do que suficientes para apreciar a necessidade de manter nas melhores relações com o vice-rei; também, em 16 de fevereiro, enviei-lhe um mensageiro para lhe recordar as palavras de Mamadu Paté e fiz acompanhar a missiva de um certo número de espingardas, barris de pólvora e noz de cola, presentes que me parecem dever ser bem acolhidos por um homem de guerra como ele.

Escrevi a Sayon-Salifou, convidando-o a fornecer informações sobre os movimentos dos Portugueses e encarregando-o igualmente de os informar da minha presença em Kandiafara. Dei-lhe a ordem de pôr à sua disposição todos os meios necessários para assegurar o sucesso das operações de que o incumbi. Entretanto, o Tenente Clerc foi convidado a estudar a solução do problema geográfico referente às nascentes deste rio. O Sr. Galibert foi igualmente convidado a completar o estudo do rio Compony a partir dos afluentes que o alimentam na parte do seu curso já visitado. Sendo o Cogon um grande rio era de presumir que o Cacine não tinha nascente no Futa-Djalon; as suas nascentes não podiam estar muito longe da foz.

Este rio, que o Tenente Clerc teve a honra de aqui revelar as nascentes tinha sido descoberto, em circunstâncias trágicas, pelo Sr. Wallon, hoje almirante.

Aí por 1855, tomou-se conhecimento no Senegal que dois industriais se tinham estabelecido num rio desconhecido da Costa e ali fabricavam moedas falsas de cinco francos com a efigie do rei Luís Filipe. Um aviso comandado pelo Tenente Wallon foi à procura destes audaciosos falsários e o seu refúgio foi descoberto no Cacine, rio cujos acessos haviam escapado até então às investigações dos navegadores. Quando o aviso apareceu nas proximidades dos moedeiros falsos estes infelizes suicidaram-se.

O Tenente Clerc organizou seguidamente a pequena expedição que ele estava encarregue de dirigir e deixou Kandiafara a dezoito pela manhã. Durante o primeiro dia de exploração, na curva de um caminho, ele apercebeu-se da presença de Bacar-Lombi, que estava acompanhado de dois escravos, à sombra de um gigantesco poilão.

Este chefe indígena estava informado da viagem do Tenente Clerc e, na esperança de um presente, pôs-se à disposição deste oficial.

Kandenbel mostrou satisfação com a chegada do explorador. Era a primeira vez que um branco entrava na povoação e toda a população se acotovelou com espanto e admiração à sua passagem. Precedido por um griot que dedilhava a sua guitarra de duas cordas as melodias mais suaves dos Fula-Cundas, ele teve dificuldade em abrir caminho para a morança do chefe da povoação. Muito curiosas estavam as mulheres que invadiram esta morança. Esperando desembaraçar-se da sua presença, o nosso companheiro distribuiu por elas braceletes em celuloide; foi uma ideia muito infeliz, porque todas as mulheres queriam por sua vez penetrar na morança para obter este presente, e como ele não podia satisfazer esta infinidade de pedidos, deixou bruscamente a povoação. Dirigiu-se para Dodi-Maovudo, não parou aqui, continuou na direção do pântano de Kakondum e, pelas seis horas da tarde atingiu o entreposto de Ahmadu-Boubou, comerciante negro que explora a zona do alto Cacine.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Pormenor da carta publicada por Le Temps em março de 1890 para ilustrar a viagem do Capitão Binger 1887-1889
Missão católica a Boffa, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Escrava de Mamadu-Guimi, desenho de G. Vuillier, segundo uma fotografia
Interior de Dandoum, desenho de A. de Bar, segundo uma fotografia
La Mésange e o seu escaler, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Mulher Fula, desenho de G. Vuillier, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 5 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28241: Historiografia da presença portuguesa em África (538): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (6): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28257: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (15): o "retrato de Mónica, aliás, da Cilinha: um conto exemplar da Xixa, a Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 1919 - Lisboa, 2004)



Guiné > Região de Tombali > Nhala > 2.ª CCAÇ / BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74) >  Domingo, 10 de março de 1974 > A visita da Cecília Supinco Pinto ("Cilinha") > A despedida... De costas, um alferes não identificado.

Foto (e legenda): © António Murta  (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Cecília Supico Pinto e António de Oliveira Salazar : "Oliveira Salazar apreciava a alegria e frontalidade de Cecília Supico Pinto que o considerava 'um verdadeiro príncipe'. Foi uma das últimas pessoas a vê-lo com vida (Arquivo do Diário de Notícias)". 

Fonte: foto reproduzida, com a devida vénia, do livro de Sílvia Espírito-Santo, "Cecília Supico Pinto: o rosto do movimento nacional feminino”. Lisboa: A Esfera do Livro, 2008, foto nº 42.



1. Confesso que só há pouco tempo li o livro "Contos exemplares", de Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 1919-Lisboa-2004; pref. António Ferreira Gomes. 9ª ed. Lisboa : Portugália, s/d, 250 pp.)  (edição original: Lisboa, Morais Editora, 1962). 

Da mesma autora levei comigo, em 24  de maio de 1969, para a Guiné, no T/T Niassa,  o livro de poemas "Livro Sexto", um dos meus livros de cabeceira em Contuboel e Bambadinca.

E lá está, no livro de contos, o "Retrato de Mónica" que também é, para mim, um retrato genial,  contundente, satírico, sarcástico,  em seis páginas (e  c. 115 linhas, pp. 169-174), de Cecília Supico Pinto, conhecida familiarmente por "Cilinha", a fundadora e líder histórica do MNF - Movimento Nacional Feminino. 

Desde o início, toda a gente, a começar pelos críticos literários, viram no conto "Retrato de Mónica" a caricatura de uma das mulheres mais "empoderadas" e influentes do Estado Novo. 

Todavia, a autora sempre negou em vida esse paralelismo. Até porque ambas eram amigas, da mesma idade, com a mesma origem social e... monárquicas! Uma nascida no Porto, a Xixa, em 1919, e outra, a Cilinha, natural de Lisboa (1921).

E continuaram a ser amigas, pela vida fora, antes e depois do 25 de Abril, mesmo não partilhando "as mesmas ideias políticas", como reconheceu a própria Cilinha,  citada pela sua biógrafa, a Sílvia Espírito-Santo (pág. 46 do livro supracitado).

2. Há vários indícios, óbvios, se bem que indiretos, que apontam nessa direção, ou seja, Mónica é Cilinha... caricaturada, enquanto símbolo da elite social que apoiava (e beneficiava de) o regime de Salazar e a guerra colonial. Vejamos:

  • Mónica é descrita , embora em traços manifestamente  caricaturais,  como uma senhora da alta sociedade, omnipresente, influente e profundamente ligada ao poder político e económico;
  • reune todos os predicados que faziam dela o ideal de mulher, a "supermulher", da elite do Estado Novo, conseguindo "simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da 'Liga Internacional das Mulheres Inúteis', ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs,ser pontual, ter imensos amigos, muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, toda a gente gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, , colecionar talheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo emplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria" (Contos Exemplares, op. cit, pp. 169/170);  (em boa verdade, só não foi mãe e fumava);
  • "tendo renunciadeo à santidade", dedica-se ostensivamente a "obras de caridade"(...): «faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome» (pág. 173);
  • é apresentada como sustentáculo do "Príncipe deste Mundo" (pp. 173/174), uma alusão que muitos críticos interpretam como uma referência implícita a Salazar;
  • o retrato coincide com a imagem pública de Cecília Supico Pinto enquanto presidente do Movimento Nacional Feminino, organização que apoiava moral e logisticamente o esforço de guerra colonial e mantinha grande proximidade com o regime; 
  • de resto, desempenhou diversas vezes o papel de "primeira-dama" (sic) do regime, mesmo até depois do início da guerra colonial, já que a hierarquia de Estado era de homens solteiros ou viúvos.

No entanto, convém fazer uma distinção importante:  Sophia nunca declarou publicamente (nem podia fazê-lo...) que Mónica fosse Cecília Supico Pinto: "Se o meu conto o ' Retrato de Mónica' é sobre ela ? Quem diz isso, não percebeu nada" (pág. 48)...

Mas este excerto parece assentar na Cilinha que nem uma luva: 

(...) "Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora dos seus silêncipos e dos seus discursos" (pág. 173).

E mais à frente acrescenta: 

 "Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto" (pág. 174).

O conto foi escrito em 1961, o "annus horribilis" de Salazar, do regime e de todos nós...O livro foi publicado em 1962.

"Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleiros", ou seja o upstairs e o downstairs do Portugal dos anos 50/60.

Faz um retrato impiedoso do marido:

(...) "um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo" (pág. 171): (...) Quando ele é nomeado administrador de mais algunma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamentio. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruina as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante" (pp. 172/173).

"Para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade" (pág, 170);

(i) a poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez na vida;

(ii) o amor é oferecido raramente, quem o nega uma ou mais vezes, já não o encontra mais;

(iii) a santidade é oferecida todos os dias, os que renunciam a ela, têm de repetir a negação todos os dias.

É por isso que Mónica se impôs, a si própria, uma "disciplina severa" (pág. 171), seja em relação ao que veste, seja em relação aos jantares que organiza ou aos amigos que convida..."Cada lugar é um emprego de capital" (pág, 171).

O segredo ?

(...) "Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez". Ou melhor: "a sua inteligència é feita da estupidez dos outros" (pp. 171/172).

Não existe (nem poderia existir) uma confirmação explícita da autora, que aprendeu a escrever e a publicar sob o regime de censura. Trata-se de uma interpretação crítica amplamente difundida e hoje quase consensual, baseada nas semelhanças biográficas e no contexto histórico, mas não de uma identificação assumida por Sophia. 

Cecília Supico Pinto, enquanto presidente do Movimento Nacional Feminino, esteve pelo menos quatro vez na então Guiné Portuguesa, visitando quartéis e unidades militares do Exército, durante a guerra colonial. E não deixou ninguém indiferente. Mesmo no nosso blogue, há camaradas que a admiravam e camaradas que a detestavam.

Mais um razão para, com o devido distanciamento crítico (e a não-fulanização...), eu sugerir a leitura de "Retrato de Mónica": de facto, não deve ser visto tanto como uma caricatura de uma mulher concreta (a Cecília Supico Pinto, 1921-2011) mas como uma sátira, cáustica, dirigida a uma personalidade pública, criadora, inspiradora e líder do Movimento Nacional Feminino, e ao universo social e político que ela simbolizava. Claro que uma e outra são indissociáveis.

O Bispo Dom António Ferreira Gomes (no seu extenso prefácio, não datado, de c. 4 dezenas e meia de páginas) chama a este conto uma "espantosa água-forte" (pág. 52).

Em suma: tudo indica que Sophia ("Xixa", na intimidade) construiu a personagem inspirando-se na sua amiga "Cilinha" (Cecília Supico Pinto), e usando-a como símbolo de uma elite social ligada ao Estado Novo, mais do que como um simples retrato biográfico individual.

 Uma elite pequena, mesquinha, hipócrita, provinciana,  profundamente conservadora,  e que se reproduzia a si própria. Uma elite restrita de famílias, apelidos, patrimónios, relações... e  que acabou mal, como em todos os sistemas endogâmicos...

Essa é, hoje, a leitura predominante entre críticos e historiadores da literatura portuguesa.

Curioso: mais de cinquenta anos depois de ter sido escrito (e publicado), o conto " Retrato de Mónica" continua a ser lido, debatido e fez parte, inclusive,  da prova de Exame Final Nacional de Português | Prova 639 | 2.ª Fase | Ensino Secundário | 2022 |12.º Ano de Escolaridade.
 
Mas o livro "Contos Exemplares" vale como um todo: é já um clássico, uma obra-prima da literatura portuguesa, e se continua a ser lido hoje é porque não está datado, vai muito para além da vida e morte do Estado Novo. 

Não é um panegírico nem um panfleto,  são parábolas, intemporais e universais. A sua atualidade ainda é mais inquietante hoje.  O tema central é a liberdade, nas suas múltiplas dimensões.

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Nota do editor LG:

Último poste da série : 5 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28240: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (14): as alucinações do soldado básico de Bambadinca que, em pânico, jurou ter visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28256: Facebook...ando (98): O jagudi de Galomaro ... e a gaivota da Foz do Douro (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)

 



O jagudi (Necrosyrtes monachus) e a gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis) 
(a mais comum em Portugal e a que se adaptou melhor à presença humana: há um programa em curso,  nos municípios costeiros da área metropolitana do Porto para controlar o crescimento populacional desta espécie de gaivotas)

Fonte: Wikipedia (com a devida vénia)


1. Há pequenas histórias do nosso quotidiano que não precisam de grandes feitos de guerra para merecer ser recordadas. Basta-lhes uma situação algo insólita, uma boa dose de humor q.b. e, sobretudo, alguém que a tenha vivido e não a tenha esquecido, ao fim de mais de meio século.

É o caso desta memória do António Tavares (ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912, Galomaro, 1970/72), que começa com um jagudi empoleirado numa árvore, à espera dos restos da matança de um vitelo, e acaba... com uma gaivota da Foz do Douro, Porto.

Duas aves, dois cenários muito diferentes (a savana arbustiva da Guiné e a paisagem marítima da Foz do Douro, no Porto, a 4 mil quilómetros de distância), mas com alguns comportamentos surpreendentemente semelhantes. Uma e outra sabem muito bem onde encontrar comida e, quando calha, também "gostam de pregar partidas" aos humanos...

O texto foi publicado na página do Facebook da Tabanca Grande (5 de agosto de 2026, 12:23 pelo António Tavares (que tem também página pessoal no Facebook).

É justamente para isso que serve esta série “Facebook...ando”: trazer para o blogue pequenos apontamentos, memórias, histórias e reflexões dos nossos camaradas, para que não se percam no imenso arquivo, do Facebook, que é como o mercado de Bandim ou a feira da Ladra de Lisboa: podem lá encontras-se no meio das velharias e de "muito lixo", coisas úteis e até preciosidades.

Aqui fica, portanto, o jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro. Duas aves , de espécies diferentes, uma terrestre e necrófaga (Necrosyrtes monachus), outra marinha, omnívara
 (Larus michahellis)  que de algum modo fazem o seu papel de "almeidas", e que se acomodam bem ao "lixo" dos humanos...

São, sobretudo, dois bons pretextos para a gente recordar e sorrir... Já que, como diz o autor, recordar é viver!

O jagudi (título do texto original) não é apenas uma ave. Era um elemento muito concreto da paisagem guineense do nosso tempo e da experiência dos vagomestres e dos cozinheiros dos nossos quartéis, ligada à matança do gado e à gestão dos resíduos (numa época em que ainda não havia consciência ecológica nem separação, recolha e tratamento dos lixos; quando muito, faziam-se fogueiras em bidões). 

Isso torna a memória mais interessante, para os nossos leitores, amigos e camaradas da Guiné, d o que uma simples anedota sobre um pássaro que "cagou" em cima da farda do vagomestre. É um pequeno apontamento etnográfico do nosso quotidiano, involuntariamente muito saboroso.

O jagudi de Galomaro e a gaivota da Foz do Douro

por António Tavares


Como é sabido o jagudi é um abutre africano,  de bico grande e recurvado, pescoço nu,  de coloração rosada ou esbranquiçada, e plumagem escura.
 
Eu tenho uma recordação negativa dos jagudis.
 
Certo dia de 1970 (ou de 1972 ?) fui "presenteado" pelos intestinos de um. A ave estava no galho de uma árvore situada numa ladeira perto da residência do chefe de posto de Galomaro.

Aguardava os restos da matança do vitelo que estava a decorrer e defecou em cima do meu ombro e fardamento.

A farda depois de lavada ainda cheirou a fezes durante uns dias.

Os dois ajudantes do fula João Baker matavam os bovinos. O Baker comerciava a carne com o vagomestre.

Na Foz do Douro, não temos jagudis mas temos... gaivotas a grasnar, infestando praias, ruas, telhados, jardins e contentores do lixo.

No Inverno por vezes em bando atacam as pessoas que passeiam nas praias. Os turistas adoram-nas, mas nas esplanadas roubam a comida dos mais incautos.

É uma ave bonita, mas causa prejuízos aos habitantes ribeirinhos. Volta e meia também brindam os passantes (e os carros) com os seus cáusticos dejetos.

Presentemente o adágio “Gaivotas em terra, tempestade no mar” está ultrapassado. Vê-se mais gaivotas em terra do que no mar.

Enfim, recordar é viver!

(Seleção, adaptaçáo, revisão / fixação de texto, título: LG)

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Nota do editor LG:

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Pelas minhas contas, julgava que o cardápio literário da guerra colonial tinha esgotado todas as formas de olhar: romance, conto, novela, poesia erudita e poesia popular, abordagem memorial, historiografia, ensaio e ou narrativas sobre figurantes como as mulheres que acompanharam os oficiais, o pessoal de saúde, incluindo as enfermeiras paraquedistas, e pouco mais. É nisto que irrompem em cena os filhos a recordar a correspondência dos pais e os filhos que vão visitar os locais onde os pais combateram. É nesta última dimensão que podemos apreciar a obra de Paulo Faria, detentor de uma belíssima escrita, leva-nos à guerra acompanhada de lembranças por vezes muitos dolorosas da infância, não se escusa a confissões íntimas, vamos assistir ao descalabro de Moçambique numa prosa talentosamente organizada com toda a engrenagem dos afetos da vida do narrador. Uma agradável surpresa, isto para quem julgava que este subgénero literário ia-se confinar à literatura memorial dos antigos combatentes, os filhos e os netos deles entrariam em cena muito mais tarde.

Um abraço do
Mário



Em Moçambique, à procura de lembranças do pai, alferes miliciano médico:
Viagem de expiação familiar, escrita de sublimação para encontros e desencontros - 1


Mário Beja Santos

Esta "Gente Acenando para Alguém que Foge", de Paulo Faria, Minotauro, 2020, é para efeitos práticos continuação de outro título do mesmo autor, "Estranha Guerra de Uso Comum", publicado pela Ítaca, 2016. De novo assalta à memória uma vida familiar lacerada, o autor diz-nos agora no prólogo que “A infância extingue-se no dia em que percebemos que os nossos pais nos sonegaram a parcela mais preciosa do seu afeto. Sem o sabermos, acumulamos visões que nos irão perseguir para sempre.” Retoma-se a duríssima memória daqueles pais divorciados que se reencontravam lá em casa da mãe pela sexta-feira à tarde, antes dos dois filhos seguirem para casa dele e da madrasta, tudo dissimulado, como se aquelas crianças não acabassem por perceber o que se passava no quarto, uma aprendizagem da hipocrisia e do cinismo. Só que a partir daqui a prosa entra numa cavalgada, o palco enche-se de inúmera gente, ficamos a saber que Carlos Silveira já está em Nampula, encaminha-se para Cuama, Niassa, vai à procura de Artur, uma criança muito mimada pelo pai, alferes miliciano médico e pelo furriel Gamito, história já contada no livro anterior.

A viagem àquele ponto de África, é uma dor de alma, um retrato detalhado do descalabro e miséria em que se encontra o país, não faltam as lembranças da dementada guerra civil que ali se viveu. É uma narrativa de avalanche, aqui e acolá despontam sketches de tragicomédia, feridas abertas, o casamento de Carlos com Fernanda e o divórcio, perguntas sobre o garoto Artur, filho de uma prostituta, que os dois militares tinham adotado no Chicôco, que coisa foi essa de se ter metido ao caminho para percorrer os quartéis onde viveu o pai militar só porque houve um profundo afeto por uma criança de que nem o médico nem o furriel eram pais – interpelam quem com Carlos Silveira vai convivendo.

A memória deste Carlos, que é sempre o narrador, está num completo turbilhão, anda à rédea solta, ele lança odes amorosas a quem ainda não nos foi apresentada, Amélia de nome; a viagem começa em Maputo, cidade arruinada e cheia de lixo, há uma pungente visita ao Museu da História Natural de Maputo e não se quer esconder o sofrimento que avassala o visitante, tudo a coberto de uma sensibilidade ocidental, porventura:
“O museu é bonitinho por fora, em estilo bolo de noiva pseudo-manuelino. Por dentro arrasta-se, malferido e bolorento, porque sim, porque não há dinheiro nem energia para virar a página, porque a força do que existe pesa sobre as coisas e faz estiolar o que o poderia existir, porque a violência não dá tréguas e não deixa revisitar o passado com gestos serenos. Os animais estão cheios de pó, corroídos de gangrena, há um leopardo cinzento, já sem manchas, com a cauda partida, a palha a ver-se. O búfalo e os leões que o meu pai fotografou estão ainda no seu lugar, na sala principal, debaixo de uma enorme claraboia, na mesma posição de há cinquenta anos, mas, vistos de perto, à luz crua do sol que dardeja dos vidros sujos, não tem encanto nenhum, parecem pessoas vestidas com peles de animais que lhes servem mal, nuns casos demasiados justas, noutros a dançarem-lhe no corpo, os olhos de vidros esbugalhados, as pálpebras secas e peladas.”

E o autor dá-nos a justificação para este propósito de ter vindo a Moçambique, tudo problema que vem da infância, aquele pai deixou documentação deveras intrigante da sua passagem pela guerra colonial, assim se deliberou, sabe-se lá por expiação ou por reconciliação por tantíssimos desencontros da vida familiar, viajar por esses locais onde o pai revelou afetos, vacinou gente de todas as idades, cuidou dos estropiados e guardou silêncio pela vida fora.


Entra agora em cena Camila, filha do primeiro casamento, de comportamento extravagante, fica-se igualmente a saber que Carlos vai buscar a filha ao Algarve aos fins de semana, de acordo com os ditames da tutela parental, e aproveita para fazer sexo com a primeira mulher. Camila, entretanto, cresceu, experimentou saídas profissionais, fez fotografia, regressa-se ao casamento com Fernanda e ficamos a saber que no dia seguinte ao casamento o sogro suicidou-se, voltamos a saber dos itinerários de Camila. Carlos Silveira já chegou a Nampula, é daqui que partirá à procura de Artur.

Carlos pergunta ao motorista se havia táxis para Cuamba, sim, era possível fazer o frete por 12 mil meticais. Mais adiante, Carlos acorda noutro frete, e é exatamente neste ponto que Paulo Faria engrena num espantoso puzzle de conversas avulsas onde jogam vários passados, várias histórias familiares, entrecruzamentos com a visita a Nampula, onde não faltam estátuas mutiladas dos colonizadores portugueses, irrompe agora uma nova situação, a insolvência de uma das suas mulheres, que irá definir um período de rigorosa austeridade, Carlos a comandar a operação. Ficamos a saber como o autor escrevera o seu romance "Estranha Guerra de Uso Comum", hospedado num convento e num retiro de silêncio.

E ficamos a saber em detalhe que isto de faltar dinheiro lá em casa começara com o divórcio dos pais, agora ganhara sofisticação, a dívida era um garrote. As recordações são agora canalizadas para a infância e para a vida de Camila com o Antero, e depois temos uma litania dirigida a uma Amélia que parece estar disposta a partir:
“Estás à mercê do pânico, do salve-se quem puder, da debandada geral. Há em ti a firmeza inabalável de quem não teme perder as coisas, porque sabe que em todas elas há uma verdade que só a sua perda nos revela.”


Estamos agora em Cuamba, antiga Nova Freixo, perto do lugar onde o alferes miliciano médico, o pai de Carlos, fez a guerra. Temos novos personagens, caso do Luís Gouveia, que é de Coimbra e vive em Cuamba há dez anos a chefiar a fábrica de algodão. “É o branco certo para trabalhar em Moçambique. Não carrega o peso do passado, finge que o passado não existe. Nunca diz ‘os pretos’, diz ‘esta gente’, diz ‘estes gajos’. As pessoas desta terra produzem algodão, ele dirige uma fábrica de onde tem saído todos os anos fardos de algodão aos milhares. Não me parece que tenha alma de carrasco, mas, se tiver de escolher entre ser vítima e carrasco, será sempre carrasco. E em Moçambique é preciso escolher todos os dias, a todas as horas do dia.”

Carlos anda por Cuamba a tirar fotografias, procura que o leitor entenda o seu comportamento, a sua mentalidade:
“Transferi para os outros, para os seres e para as coisas com quem me cruzava, a responsabilidade de me atraírem para junto de si, disponível para me deixar cativar. Ensaiei ousadias, pus de parte alguns pruridos. Semeei sorrisos a lanço, plantei olhares simpáticos sem cuidar de saber se iriam medrar naquele solo. Tratei esta terra com um tu-cá-tu-lá excessivo de velhos conhecidos, como se a reencontrasse depois de muitos anos sem nos vermos (…) Percorri a quadricula colonial destas ruas largas, sentei-me num alpendre que parecia ter sido posto ali para meu deleite. Era uma casa branca com muitas portas, uma fiada de lojas, e as portas davam todas para esse alpendre corrido que se apoiava em colunas de alvenaria e que dobravam a esquina numa curva suave. E o piso do alpendre era de cimento pintado de ocre, um socalco elevado em relação à poeira da rua, e eu sentei-me ali, encostado a uma coluna, e senti através do tecido das calças a frescura do cimento muito macio nas nádegas e nas coxas, e a altura daquele degrau pareceu-me feita à medida das minhas pernas. E um velho saiu de uma loja e meteu conversa comigo e disse-me que se chamava Faustino, e disse-me que eu estava diante da casa de alvenaria mais antiga da povoação, construída por um branco chamado Francisco Maria Soeiro em 1958, quando aquela terra ainda se chamava Nova Freixo, para servir de loja de comércio geral, e que nesse tempo se vendia ali tudo.”


Posto isto, Carlos confessa para si próprio que não dissera ao seu interlocutor que Cuamba era uma terra bonita. Mas ainda estamos bastante longe de fazer a peregrinação à procura de Artur, a pretensa figura central nesta viagem, mas também onde há um móbil da expiação e em que todas as memórias da infância se canalizam para a autodescoberta que dá a provar a felicidade que há nos outros.

Paulo Faria

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 7 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28247: Notas de leitura (1948): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026 (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia


Lourinhã > Praia da Areia Branca - GAPAB - Grupo dos Amigos da Praia da Areia Branca > Varanda do Vigia > 9 de agosto de 2026, 20:26 > Pôr do sol. Ao fundo, do lado direito as Berlengas e o cabo Carvoeiro.

Foto (e legenda) © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & camaradas da Guine]


Talvez um dia

por Luís Graça


talvez um dia o sol 
volte a girar à volta da terra

talvez um dia a gente não aguente
a fé inabalável na ciência

talvez um dia tu percas a fé 
e a decência 
e o controlo dos esfíncteres 

talvez um dia Galileu Galilei jure que não 
e o Ptolomeu diga que sim, 
muito simplesmente

talvez um dia tu caias na armadilha, 
antipessoal, 
de querer viver (e)ternamente 

talvez um dia se descarte, 
afinal, 
a dúvida metódica de Descartes 

talvez um dia a gente se desidrate 
até à útima gota 
d'água 

talvez um dia o sol 
caia
a pique 
sobre
a tua
cabeça 

talvez um dia,
com mágoa, 
tu deixes de pensar
e de ter um sitio para onde  ir,

e logo desistas  de existir

praia da areia branca | vigia
7 de agosto de 2026
(no 50º aniversário de casados do Luís & Alice)

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Nota do editor LG:

Último poset da série > 29 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28225: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: Ainda o conventinho da Arrábida... Salazar gostava de lá ir... E eu também gosto.

Guiné 61/74 - P28253: (De) Caras (251): Manuel Raposo Marques, natural de Mértola, um "básico" que foi... Prémio Governador da Guiné (Mário Pinto, 1945-2019, ex-fur mil at art, CART 2519, Bula, Aldeia Formosa e Mampatá, 1969/71)




Manuel Raposo Marques, natural de Mértola, ex-soldado básico,  CART 2519 (Bula, Aldeia Formosa e Mampatá, 1969/71), "Prémio Governador da Guiné" (1970). Foto: cortesia do portal Ultramar TerraWeb - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar





lustração: "Jornal do Exército" (c. 1970) (Adapt. com a devida vénia)



1. A propósito do "soldado básico", tão maltratado na caserna (e nas nossas memórias...): o Mário Gualter Rodrigues Pinto (1945-2019), ex-fur mil art,  CART 2519, "Os Morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), já contou aqui a história do Manuel Raposo Marques, sold básico nº 18757368, promovido depois a soldado atirador de artilharia,  e que foi, por feitos em combate, Prémio Governador da Guiné em 1970. Como tantas outras histórias já aqui partilhadas,  passou na altura despercebida do leitor...

Escreveu o nosso saudoso Mário Pinto (foto à esquerda):

 "Um homem, o Manuel Raposo Marques,  que apesar de ter sido classificado como 'básico', foi uma das nossas maiores e melhores referências em combate, tornando-se num exemplo de abnegação e de heroísmo, dignificando sobremodo o soldado Português".


Um básico que foi... Prémio Governador da Guiné (1970)

por Mário Pinto (1945-2019)


Para quem não sabe ou não se lembra já, básicos eram todos os soldados que não conseguiam qualificação ou aptidão, para serem enquadrados em qualquer outra das muitas especialidades existentes no Exército.

Eram assim a modos que uma espécie de proscritos, de mão-de-obra não especializada, que a tropa não dispensava e empregava no cumprimento de todo o tipo de tarefas indiferenciadas (tarefeiros, faxinas, auxiliares de pequenos serviços, etc.), normalmente apenas dentro das áreas delimitadas dos aquartelamentos.

Eles, tal como todos os outros especializados, iam, igualmente, “malhar” com os “ossinhos”em África. Nessa altura o que estava em causa era a quantidade de homens a enviar para a guerra e não a desejada e necessária qualidade, porque, no fundo, éramos massa destinada a “carne para canhão”.

Básico era então o carimbo com que eram marcados os incapazes e inábeis.  E esta designação fez escola, tendo-se o termo generalizado a todos os sectores da sociedade portuguesa. O “nabo” foi substituído pelo “básico”!

O Manuel Raposo Marques, conhecido na CART 2519 pelo "Básico", tal como qualquer outro homem, tinha uma deficiência psíquica (vulgo “pancada”), daí ele ter reprovado, intencionalmente, na especialidade de cozinheiro.

Dizia ele que não tinha nascido para andar de avental, de tamancos e de gorro na cabeça, e o que ele queria ser mesmo era atirador.

– Que grande maluco! – pensei eu.

Acabou por ser reclassificado em básico, após ter sido considerado pronto na instrução e apto para desempenhar qualquer função de segundo plano, compatibilizando-se as suas capacidades humanas com as necessidades da Companhia.

Assim, o Manuel Raposo Marques, chegado à CART 2519, pediu ao alf mil Claudino, comandante do 4º Grupo de Combate, para o integrar na sua equipa. O alferes falou ao capitão e este consentiu, numa fase experimental, que assim fosse. Mais tarde, em função do seu excelente comportamento activo e combativo no grupo, decidiu elevar este básico, por mérito próprio, à categoria de soldado atirador.

Nos primeiros tempos, os seus camaradas olhavam-no com desconfiança, porque receavam que o 4º Grupo de Combate viesse a ser apelidado, na generalidade, de "básico", mas tal não aconteceu e o Marques veio a revelar-se como um dos melhores soldados da Companhia, com predicados de combatente acima da média e tiques de herói, tendo inclusive sido agraciado com o prémio "Governador da Guiné".

Pois é, o nosso básico, ao ser confrontado com a “roleta da morte”, foi suficientemente corajoso e audaz para ter abatido dois combatentes IN, e conseguir salvar a vida do seu comandante de secção, que se encontrava em situação difícil e ferido numa perna, numa acção em que o seu grupo de combate interceptou um grupo do PAIGC.

O "Básico" passou a ser uma referência da CART 2519 e respeitado por todos os seus camaradas e superiores hierárquicos. (**)

Nota -  Estes dados foram retirados da História da Unidade e do livro “Há Sangue na Picada”, de Jacinto Manuel Barrelas, cor art ref,  ex-cap art, cmdt da CART 2519. (1969/71)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, links, edição de imagem: LG)

Guiné 61/74 - P28252: Parabéns a você (2513): Alberto Nascimento, ex-Soldado Condutor da CCAÇ 84 (Bissau, 1961/63)

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Nota do editor

Último post da série de 9 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28251: Parabéns a você (2512): Anselmo Garvoa, ex-Fur Mil Op Especiais da CCAÇ 2315 / BCAÇ 2835 (Mansoa, 1968)

sábado, 8 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28250: (In)citações (289): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol... (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)



1. Mensagem do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66), com data de 10 de Novembro de 2022, falando-nos da sua Unidade:

Olá Carlos,
Olha, hoje levantei-me a gritar coisas más contra os governos de Portugal que nos abandonaram e escrevi estas linhas para que todos eles saibam a revolta que continuo a sentir.

Se achares que deves publicar, publica, se não achares que é importante justamente ignora.

Um abraço meu eterno amigo companheiro combatente da Guiné.
Tony Borie



Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol

…Companheiros ex-combatentes, nós, tal como vós, todos sabemos o trauma ou a angústia que sofremos mas…, as novas gerações e os políticos que nos governaram ou presentemente nos governam, (felizmente para eles), NÃO SABEM que…, lá no “posto avançado” onde estivemos pelo período de dois longos e dolorosos anos, não havia paz.

No silêncio da noite ou em qualquer outro infeliz momento, “DE REPENTE O INFERNO EXPLODIA” e…, não sabíamos se iríamos ser o próximo a ser embrulhado no nosso próprio camuflado sujo com o nosso próprio sangue.

…Assim, não sabemos as vezes que tanto nós, tal como vós companheiros ex-combatentes, estivemos perto de morrer, e nesses momentos, éramos forçados a aprender a valorizar um pouco as nossas vidas e…, éramos uns jovens de 20 e poucos anos. Às vezes pensando nisto, sentimos a pele a arrepiar-se.

…Por favor cuidem-se.
Toni Borie

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Nota do editor

Último post da série de 28 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28141: (In)citações (288): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol, porque muitos sonham com o amanhã, mas nunca o veem (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)

Guiné 61/74 - P28249: Os nossos seres, saberes e lazeres (744): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (265): Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral, uma réplica do teatro Alla Scala, de Milão (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Já por aqui se andarilhou pelo museu, pela estação de caminhos de ferro, era imperativo visitar o teatro Eduardo Brazão que prima pela raridade e beleza arquitetónica. Há mesmo programas de visitas a importantes teatros da região oeste, recordo Nazaré e Leiria, o do Bombarral tem a singularidade de uma traça que não esconde o classicismo italiano, mas com laivos românticos e da emergente Arte Nova. Impressiona também pela qualidade do restauro e a sua primorosa manutenção, houve o extremo cuidado de não beliscar a profunda harmonia da sala e dos espaços frequentados pelo público. Enfim, se possível, não percam a visita.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (265):
Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral, uma réplica do teatro Alla Scala, de Milão


Mário Beja Santos

O que há para ver dentro do Bombarral? É um concelho com pouco mais de 100 anos, mas que goza de um património digno de visita. Já aqui falei do museu que ocupa o Palácio Gorjão, um solar datado do século XVII, o museu está aqui desde a década de 1990, foi alvo de obras, não dececiona ninguém, alberga património cerâmico esplêndido, aqui trabalhou Júlio Pomar e deixou legado. Impossível não ver os azulejos da estação de caminhos-de-ferro, também já aqui foram mostrados, mostram cenas de vitivinicultura e do ambiente rural da região. No centro da vila, perto do museu, temos o edifício dos Paços do Concelho, foi propriedade do Alcaide de Óbidos, depois doado por D. João I a um Cavaleiro de nome Luís Henriques, depois da Batalha de Aljubarrota, houve reconstrução e a Câmara Municipal adquiriu-o na década de 1920. Da mata municipal falaremos mais adiante, hoje vamos visitar com guia autorizado o teatro Eduardo Brazão, não esconde no seu interior a lembrança dos teatros italianos, data de 1921. A primeira nota vai para um conjunto de notáveis teatros na região oeste, incluindo a Nazaré e Leiria. A questão que se põe quanto a este teatro terá sido o orgulho cívico, o Bombarral estava adstrito a Óbidos e queria provar a identidade própria, queria exibir a sua própria riqueza, que superava a do tutor, havia que exibir um dado cultural relevante, e assim aconteceu.

Perguntei ao amável guia porquê crismar o Teatro Eduardo Brazão se o grande ator nada tinha a ver com o Bombarral. O coordenador de todo o projeto do teatro fora Evaristo Judicibus que pediu autorização a Eduardo Brazão para o crisma, autorização dada, Brazão sentiu-se muito honrado. A construção não indicia um mero classicismo italiano, aflora elementos, ainda que modestos, do romantismo e do despontar da Arte Nova. A fachada é sóbria, a sala de receção é acolhedora e harmoniosa. Subimos depois aos andares e fica-se de boca à banda, dada a natureza retangular da construção, ou seja, a receção do rés-de-chão e o grande salão por cima, segue-se a sala de espetáculos e temos depois os bastidores. Obviamente que a construção se focou na sala, possui um equilíbrio notável, goza de intimidade e uma visibilidade perfeita em todos os ângulos do proscénio, as obras de conservação e restauro em nada alteraram a traça primitiva e daí o orgulho com que se pode falar desta pequena réplica do Alla Scala.

É uma bela sala de eventos, como o ensaio a que assistimos, tem os seus espetáculos de cinema, aqui se realiza anualmente um festival de música, esqueci-me de perguntar se existe no Bombarral teatro amador, mas desde já incito o leitor, quando tiver oportunidade, de pedir uma visita guiada a tão deslumbrante teatro, como as imagens pretendem ilustrar.


Como era o teatro em 1925
O teatro na atualidade, foi sujeito há anos a obras de conservação, a porta principal tem mais de um século, é um tormento e custa um despesão manter esta relíquia do passado
Homenagem a Evaristo Judicibus no 60.º aniversário do Teatro Eduardo Brazão, 27/02/1981
Pormenor da elegância das colunas do átrio
Retrato do ator Eduardo Brazão (1851-1925)
Um detalhe dos três níveis do teatro
A elegância da compartimentação dos lugares
No palco as meninas fazem o último ensaio antes de se apresentar a público, uma ternura
Pormenor do teto e do lustre
Outro pormenor da sala de espetáculos
Faz de conta de que estamos a assistir ao espetáculo e a deslumbrar-nos com a arquitetura da sala
Lembrança da passagem de dois monstros sagrados do teatro
Pormenores decorativos da Grande Sala do primeiro andar
Entrada da mata municipal do Bombarral
Homenagem dos alunos da escola à escultora Maria Barreira, à entrada da mata municipal
Em frente à mata municipal temos este pequeno jardim, não resisti à exuberância de tantos agapantos
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Nota do editor

Último post da série de 1 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28233: Os nossos seres, saberes e lazeres (743): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (264): Os jardins cada vez mais admiráveis da Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, Oeiras (Mário Beja Santos)