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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28387: Retalhos da vida militar (11): Levar a carta a Garcia (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 23 de Setembro de 2026:


Levar a carta a Garcia

A expressão "levar a carta a Garcia" significa cumprir uma missão difícil ou impossível com eficácia, iniciativa e sem hesitação, superando todos os obstáculos. Terá sido isto que me aconteceu quando fui mobilizado para o Comando Territorial Independente da Guiné, CTIG.

Um dos meus três patrões civis era o Senhor GARCIA. Dos três era o mais mau de aturar e como se isso não bastasse era pai de um filho com uma deficiência psíquica que também gostava de mandar. Fui mobilizado e vim com guia de marcha para o RAL 1, em Lisboa, para me apresentar ao senhor Capitão GARCIA Leandro. Embarquei a 11 de fevereiro de 1965, a bordo Navio Timor, cheguei a Bissau a 17 e logo que houve coluna militar com destino a Bissorã lá parti para me apresentar ao Senhor Comandante da CART 730 Capitão Amaro Rodrigues GARCIA. Passado cerca de mês e meio estava em consulta externa em Brá. Era norma o pessoal de transmissões em consulta externa irem fazer turnos ao Quartel General.

Também me calharam uns quantos turnos onde ficava às ordens do Senhor Capitão GARCIA dos Santos.

Senhor Capitão Garcia dos Santos tinha sempre a porta do seu Gabinete aberta. Sempre que aparecia um novato também chamado de maçarico era-lhe feito o batismo. A missão era levar algo ao senhor Capitão. O senhor Capitão não respondia à pergunta que o maçarico lhe fazia.

Dá licença meu Capitão? E ficava à espera da resposta que não vinha. Então a tarefa dava para o turno interno. Com o Senhor Capitão Garcia dos Santos era assim. Fazia a pergunta e entrava-se de imediato. Se o senhor Capitão não pudesse atender de imediato o que raramente acontecia, respondia, aguarda um minuto ou coisa parecida.

Todos sabemos que a expressão “Levar a carta a Garcia” tem outra origem, mas em meu entender esta também não ficava mal aplicada.

Voltando um pouco atrás também o senhor Capitão Garcia Leandro tinha uma caraterística muito especial que era a de entender que todos os soldados eram provenientes das obras ou do sector agrícola. Na escala de serviço havia uma tarefa designada por Brigada da Pedra. O senhor Capitão andava a fazer uma vala com mais de 100 metros de comprimento com um metro de profundidade e 50 cm de largura. Para a Brigada da Pedra eram escalados apenas os soldados. Este senhor Capitão Garcia Leandro que já tinha chegado ao Posto de Capitão ainda não tinha percebido de que a origem social de Cabos e Soldados era mais ou menos a mesma.

No dia em que entrei na escala da Brigada da Pedra, o meu colega de brigada perguntou-me se eu queria usar a pá ou a picareta, respondi que queria a pá, quando ele acabou o trabalho de picareta, eu disse-lhe que havia mudado de ideias, toma lá a pá e dá cá a picareta. Quando o meu colega de brigada percebeu que tinha de fazer tudo sozinho foi fazer queixa, e com toda a razão. O castigo foi: Guarda ou Piquete todos os dias, por me ter recusado a trabalhar de pedreiro. Já tinha trabalhado em muitas profissões, mas de pedreiro nunca tinha experimentado.

Ao contrário do que havia acontecido em Setúbal, na Guiné ninguém se terá apercebido da segunda especialidade de condutor auto. Logo na primeira saída deram-me um PRC10 e um “carregador” para transportar o rádio.

Em Jumbembem havia um Unimog adaptado e todo revestido com chapa de bidons e sacos de areia e com uma cobertura feita também de chapas de bidons. Este Unimog também chamado de “Palucha” tinha atribuído um condutor que ou era o Alberto ou o Pato. Nas colunas dominicais para ir a Farim levar a correspondência emitida, a “Palucha” ficava às ordens do pelotão que ficava junto ao Rio Lamel a manter a segurança. Este serviço salvo muito rara exceção cabia ao Artur.

Sempre que era o terceiro pelotão a ficar a fazer segurança, o Alferes Crespo refugiava-se dentro da “palucha” onde ouvíamos o programa Música na Estrada, programa de discos pedidos emitido pela Emissora Nacional. Para sintonizar a Emissora Nacional, o Unimog tinha de estar no local exacto, isto queria dizer que a sintonia cabia também ao condutor da “palucha”. Um metro mais atrás ou mais à frente fazia toda a diferença. Com o Alberto, “O pachorras” da Companhia, a coisa era fácil. Com o Pato era mais difícil a sintonia. O Alberto era de tal maneira calmo que um domingo em que não ia a conduzir a “palucha”, mas sim um Unimog, pregou um susto à rapaziada.

A velocidade entre Jumbembem e o Rio Lamel era nos limites. A estrada tinha a picagem feita porque a CART 732 vinha sempre à frente. A dado momento o amigo Alberto despista-se, entra pela mata dentro com os ocupantes todos aos gritos foi sempre conseguindo desviar-se de todas as árvores que lhe apareceram pela frente. Quando conseguiu parar o Unimog, meteu a marcha atrás e fez questão de voltar a entrar na picada no mesmo sítio onde tinha saído.

Para além do um enorme “cagaço” não aconteceu mais nada.

Para terminar quero apenas deixar um bem-haja ao senhor Alferes João José Andrade Crespo pela amizade. Tantas foram as vezes que passou pelo Posto de Rádio e disse: Artur quando tiveres uma aberta passa pela Cantina.

Os radiotelegrafistas e os radiotelegrafistas condutor auto, eram tratados como radiotelegrafistas. Da mesma maneira também os Transmissões Condutor auto eram tratados como transmissões. Os radiotelegrafistas eram 1.ºs cabos e tinham direito ao celebre prémio de especialidade, os soldados tinham só os 400 pesos. Os premiados pagavam o azeite para regar a salada que era caro como caraças.

Um grande Abraço para aqueles que ainda o possam receber, com muita amizade. E não se esqueçam! Vamos tornar o blogue do Luis Graça e Camaradas da Guiné cada vez mais novo com os cada vez mais velhos. Reajam porra…! Porra não carago…! que eu sou do Norte.

Artur Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 22 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28369: Retalhos da vida militar (10): As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Guiné 61/74 - P28386: Para bom observador, meia palavra basta (8): qual a povoação, no sector oeste do CTIG, que ficava a 93 km de Bafatá, a leste ?





Guiné > s/l > c. 1963 >Dois VCC,  militares presumivelmente  da CCAÇ 413 (1963/65)... posando junto a um tabuleta rodoviária,  toponímica e quilométrico, indicando diversas localidades de destino e respetivas distâncias: Encheia (18 Km), Nhacra Posto (28 Km), Bissalanca / Bissau (48 Km), Porto Gole (28 Km), Enchalé (50 Km), Bambadinca (85 Km) e Bafatá (93 Km). Foto original, a preto e branco , reproduzida com a devida  vénia do livro "Nos celeiros da Guiné", de Albano Dias Costa e José Sá-Chaves (Lisboa: Chiado Editioar, 2015)

 Restauro, melhoria técnica e colorização digital: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT/OpenAI, 2026.

1. Estes painéis de informação são designados por placas de orientação, painéis toponímicos e de distâncias ou sinais de indicação de itinerário (à época também conhecidos popularmente por placas toponímicas/quilométricas da rede viária), existiam na Guiné, no tempo colonial, onde eram elementos comuns da rede rodoviária, localizados em  geral junto às principais povoações do interior da Guiné ou entroncamentos. Eram habitualmente instalados e mantidos pela Junta de Autónomas de Estradas (JAE) ou pelos serviços de obras públicas locais. Jugalmos que remontam ao tempo do governador  Sarmento Rodrigues (1945-49). Grande parte deles devem ter sido desttruída com o  início da guerra,. Lembrei-me de ver alguns no leste.

Para testar os teus conhecimentos de geografia...Meu caro leitor,  se és bom observador, diz-me: tendo em conta o cruzamento e as distâncias indicadas, o painel estaria situado em que região (Oeste, Leste, Sul) ? E mais próximo de que localidade ?


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Nota do editor LG:

Último poste da série > 19 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28359: Para bom observador, meia palavra basta (7): O obus 14 cm do 17º Pel Art (Bedanda, agosto de 1972): quando a bota (foto do Vasco Santos, ex-1º cabo cripto, da CCAÇ 6, 1972/73) não condiz com a perdigota (as versóes modificadas pela IA)

Guiné 61/74 - P28385: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XLI: Porto Gole, na margem direita do rio Geba - Parte I


Foto nº 1 e 1A > Vista aérea de Porto Gole, e da sua pista de aviação (!), à direita, com a bolanha ao fundo



Foto nº 2 e 2A > Porto Gole >  Quartel, pau da bandeira e monumento ao pessaol da CART 1611 (1066/68) (a que pertenceu o nosso camarada Abel Rei). O edifício ocupado pelas NT era a antuga casa do chefe de posto mais o celeiro local. Como aconteceu em muitas outras povoaçóes.  Com o início da guerra, e sobretudo a partir de 1963, a adminisytração civil ficou desarticulada...





Foto nº  3  e 3A > Quartel ao tempo da CART 2411 (Porto Gole, Bissá e Enxalé, 1968/70). Antiga casa do chefe de posto.


Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI)] 




Guiné-Bissau > Região do Oio > Porto Gole > s/d > E tudo o vento dfa História levou... Foto muito posterior à independència... As antigas instalações (casa do chefe de posto + celeiro, depois quartel das NT) em estado de completa ruina. A casa estava virada para o  rio (que se vê ao fundo). Imagem restaurada pela IA (ChatGPT / OpenAI), a partir de fotos de Patrício Ribeoiro (2019) e de Mário Beja Santos (s/d).



O antigo alferes graduado
capelão José Torres Neves

1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do alferes graduado capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pertenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71). 

Hoje missionário da Concordata, reformado e nonagenário, José Torres Neves é natural de Penamacor,
a terra também do nosso atual Presidente da República, 
António José Seguro e de figuras históricas como o Sanches Ribeiro, o maior médico portuguès do séc. XVIII e uma das grandes referèncias do Iluminismo europeu.

O espólio fotográfico do José Torres Nerves tem estado à guarda do seu e  nosso amigo e camarada Ernestino Caniço (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, Bissau, Fev 1970/Dez 1971; hoje, médico, foi diretor do Hospital de Tomar, 6 anos, de 1990 a 1996, e diretor clínico cumulativamente 3 anos, de 1994 a 1996, vivendo então em Abrantes; hoje vive em Tomar).
 

Excerto de foto
 do Abel Rei (2002)

Com este publicamos o poste nº 41 (em numeração romana, XLI). Já devemos ter publicado perto de 3 centenas de imagens, obtidas a partir do álbum do nosso amigo e camarada, antigo capelão. 

Tratando-se de "slides" digitalizados, as fotos em geral têm boa qualidade e resolução, permitindo-nos fazer "recortes de detalhes", como é o caso da presentes fotos  (melhoradas com recurso à IA).

Graças à paixão do padre José Torres Neves pela fotografia e ao seu amor pela Guiné e a sua gente, temos no nosso blogue uma documentação de excecional valor sobre o sector O4 )Peste 4) (Mansoa) ao tempo do BCAÇ 2885 (1969/71).

Nas fotos nºs 2 e 3 vê-se ao monumento aos bravos da CART 1661 (enão aos "mortos"), que aqui estiveram em 1967/68. (A IA não conseguiu reproduzir com fidelidade a inscrição no monumento; também não se pode exigir que... adivinhe, quando a resolução das fotos é baixa; compare-se  a leitura da IA com a inscrição ao lado:  "Para testemunho de fé e de trabalho  do povo balanta (?)"... Hilariante!..

Esta visita do capelão deve ter sido feita no início de 1970, no tempo seco; em Porto Gole estava então a CART 2411 qu foi rendida em 5 de março de 1970 pela CCAÇ 2587 / BCAÇ 2885.  Deve ter-se deslocado de avioneta, de Mansoa até Porto Gole (foto nº 1). Visitou Bissá, indo até lá de sintex (!)...O nosso capelão não era homem para "capinar sentado", como se diz no Brasil. Foi a todos os sítios onde havia gente que  precisava dos seus cuidados espirituais.



Excerto da foto original do
José Torres Neves (2026)
Em 07nov68, rendendo a CART 1661,  a  CART 2411 assumiu a responsabilidade do subsector de Porto Gole, com destacamentos em Bissá e Enxalé (este até à suapassagem para a zona de acção do BCaç 2852,sector L1, Bambadinca,  em 290ut69) e ficando integrada no dispositivo e manobra do BCAÇ 1912 e depois do BCAÇ 2885.

O João Crisóstomo (que pertenceu à CCAÇ 1439, 1965/67) vai ficar feliz ao rever o Porto Gole do seu tempo... E o Abel Rei também. (Temos mais fotos.)

Guiné 61/74 - P28384: Tabanca da Diáspora Lusófona (45): O regúlo que chega à terra dos seus antepassados Crisóstomos & Crispins para passar o outono /outubro connosco...



Foto nº 2


Foto nº 2

Guiné > Região do Óio > Porto Gole > CCAÇ 1439 (1965-67) > s/d > O alf mil João Crisóstomo  e o capitão de 2.ª linha Abna Na Onça. A foto nº 2, original, é a preto e branco, e faz parte do álbum João Crisóstomo, ex-alf mil at inf, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67). Restauro, melhoria técnica e colorização digital: ChatGPT/OpenAI, 2026.   Na colorização procurou-se, tanto quanto possível, respeitar as características das fardas da época: João Cristóvão surge com a farda de trabalho n.º 3, de sarja, mais para o branco sujo. Abna Na Onça com farda camuflada verde.  A foto nº 1 é uma montagem também com recurso à IA (ChatGPT/OpenAI), a partir de uma foto do padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) (de um lote de fotos sobre Porto Gole, a publicar dentro de dias)  e da foto nº 2, original, do João Crisóstomo (2019).



Guiné > Carta de Fulacunda (1955) > Escala 1/50 mil > Pormenor: posição relativa de Porto Gole e Bissá, e de outras povoações na margem direita do rio Geba, algumas abandonadas com a guerra.

Segundo o nosso camarada Abel de Jesus Carreira Rei, autor do livro "Entre o Paraíso e o Inferno: De Fá a Bissá: Memórias da Guiné, 1967/1968" (Prefácio do ten gen Júlio Faria de Oliveira, edição de autor, 2002, 171 pp. Execução gráfica: Tipografia Lousanense, Lousã), a ocupação de Bissá pelas NT remontava a 7 de abril de 1967. 

Passaria a ser um destacamento, guarnecido por um pelotão (-) da CART 1661 e uma companhia (-) da Polícia Administrativa de Porto Gole, comandandada pelo valente capitão de 2ª linha, e régulo balanta, Abna Na Onça.  

Uma semana depois, na noite de 14 para 15 de abril de 1967, um ataque do PAIGC a Bissá, de duas horas,  faria sete mortos e cinco feridos. Entre os mortos, contou-se o Abna Na Onça.  Na sequência deste desastre, o destacamento foi (temporariamente) abandonado e depois reocupado pelas NT.

Infografia; Blogue Luís Graça & Canmaradas da Guiné (2019) 

 1. É uma pequena homenagem ao nosso amigo e camarada, luso-americano, João Crisóstomo, que acabou de chegar este fim de semana de Nova Iorque, terra onde vive há meio século: como muitos outros  camaradas nossos, depois da "peluda" (em 1967), correu mundo à procura de melhores condições de vida. Acabou por ir parar à Terra do Tio Sam, onde nasceram os seus dois filhos. Em 2013 casou, em segundas núpcias, com  s nossa amiga,  a esloveno-americana Vilma Kracun, que também se senta à sombra do nosso poilão.

O João é uma figura conhecida de (e estimada por)  todos nós. Vem regularmente a Portugal. É o régulo, "por decreto", da Tabanca da Diáspora Lusófona.

Recentemente, mandou-me um mail a que, indecentemente, ainda não respondi. Estive fora do "escritório", mais de 3 semanas (no Norte, nas vindimas).

Resumo do mail: (i) o João propõe almoço de aniversário do Manuel Resende a 10 de outubro, sábado, no restaurante Caravela de Ouro; e (ii) solicita envio de cartas físicas ao Primeiro-Ministro de Portugal protestando contra o projeto de exploração mineira em Peniche.

Ele não conseguiu chegar a tempo de participar, como tencionava, no último almoço-convívio da Tabanca da Linha no passado dia 24 de setembro. Quer, entretanto, tirar o máximo partido da sua estadia em Portugal. Tem já uma agenda cheia. Vamos a ver como conseguiremos compaginá-la com a nossa e a de outros camaradas e amigos.

Data - 06/09/2026, 09:23

Assuntos - Dois assuntos : um deles , um "SOS"! Paremos a "mina de desgraças" em Portugal!


(...) "Quando já tinha comprado os bilhetes de viagem e tudo o mais, recebi instruções para estar livre durante a semana da Assembleia Geral das Nações Unidas para poder encontrar-me com um dos participantes que quer falar comigo.´

Só poderei ir nos últimos dias de setembro, e vou estar aí o mês de outubro. Mas não quero deixar de fazer coisas importantes como o de me encontrar com os familiares e amigos que estiverem ao meu alcance durante o mês de outubro.

Como o Manuel Resende, régulo da Tabanca da Linha, faz anos no dia 10 de outubro, um sábado, eu gostava de o ver nesse dia e pergunto-me se seria possível convidar quem  estiver disponível... Podíamo-nos encontrar então nesse dia para almoçar no mesmo restaurante, o Caravela de Ouro, onde ele organiza os convívios da Tabanca da Linha. Para simplificar cada um pede o que quiser do menu normal da casa e cada um paga por si… Que achas ? Diz algo sim? (...)"


Por outro lado, o João  não deixou, em Queens, Nova Iorque, as suas "armas de ativista social"... Onde há um "boa causa", direta ou indiretamente relacionada com a sua terra natal, e a terra dos seus antepassados Crisóstomos &  Cripins, que até Torres Vedras, Oeste, Estremadura, Portugal, ele aí está, inquieto e pronto para inquietar-nos e mobilizar-nos para a ação.

(...) "Segundo: muito importante, sobre essa malfadada mina de desgraças que estão a pensar explorar em Portugal. E logo pertinho de nós, no Oeste … Essa... Não!
´
Aqui vai o que estou a fazer e a enviar a todos a quem posso chegar. Neste caso os meus camaradas da Guiné, na esperança de que cada Tabanca participe, e cada régulo envie uma carta (real de papel, com selo, pelo correio normal), e   cada carta com várias assinaturas, ao nosso Primeiro Ministro (...)

Segue, no mail,  a minuta, que depois divulgaremos, por mail, se for caso disso: temos de fazer o ponto da situação e concertar estratégias, além de discutir se essa petição pública tem cabimento no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, tendo em conta as nossas regras editoriais.

Para já saúdo, em meu nome pessoal e da Alice,  bem como de toda a Tabanca Grande, a chegada do João e da Vilma, que entretanto espero  poder abraçar e com eles "partir mantenhas"  dentro de  dias na Lourinhã, que é uma extensão da sua terra natal.

 Welcome to Portugal, John and Vilma!

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28383: Parabéns a você (2529): António Bastos, ex-1.º Cabo At Inf do Pel Caç Ind 953 (Cacheu, Farim, Canjambari e Jumbembem, 1964/66)

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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28370: Parabéns a você (2528): Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto do CMD AGR 16 (Mansoa, 1964/66)

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A iniciativa antológica de João de Melo foi o ponto de partida para outros estudos e investigações e é de elementar justiça recordar Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Estávamos em 1988 e o autor de "Gente Feliz com Lágrimas" questionava se havia uma geração literária da guerra colonial, pelo que hoje se sabe este subgénero literário cresceu e multiplicou-se, tem ficção e História, já conheceu algum esplendor na literatura memorial e iniciativas se multiplicam para conhecer outros agentes que não propriamente os ex-combatentes, caso das mulheres, das enfermeiras paraquedistas, de quem recebia correio com a assumida responsabilidade de ser madrinha de guerra e, mais adiante, filhos de ex-combatentes interrogam o significado da guerra que os pais viveram e, inclusivamente, como aquela guerra veio a confluir no destino das famílias.Vamos agora ao segundo volume, que este foi só o primeiro.

Um abraço do
Mário



Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial - 1

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€.

João de Melo abre a edição refletindo sobre a colonização portuguesa, a literatura de guerra, questiona se há ou não uma geração literária da guerra colonial, põe em cima da mesa um lote de nomes da escrita, não esquecendo os nomes daqueles que escreveram literatura colonial anteriormente à guerra. Cabe a Joaquim Vieira um ensaio sobre África na década de 1960. À data em que escreve este ensaio, 1984, reescrevendo-o em 1987, falando desse lote de obras já publicadas, dirá não acreditar que existisse uma reconhecida obra-prima. Juízo temerário, digo eu, a este tempo já tinham sido publicadas algumas obras de arromba, e cito: Nó Cego, por Carlos Vale Ferraz, Os Cus de Judas, por António Lobo Antunes, Lugar de Massacre, por José Martins Garcia e Autópsia de um Mar de Ruínas, por João de Melo (a primeira edição é irrefutavelmente uma obra de referência. Acresce que Os Anos da Guerra é de algum modo uma conversa em sala de espelhos, aparecem os escritores portugueses e os escritores africanos independentistas, tais como José Luandino Vieira ou Pepetela.

Limito-me agora a algumas lembranças de escritores intervenientes neste primeiro volume.

Primeiro, um extrato do romance de Álamo Oliveira intitulado Até Hoje (Memória de Cão, 1967), nitidamente autobiográfico, um suspiro de quem vem da Ilha Terceira:
“Viera da ilha com seus horizontes azuis, punhados de verde e réstias de cinza. A grandeza da terra diminuía perante a grandeza do mar que assumira como seu. Viera como cavalo manso atrelado à carroça da Pátria – esse fetiche desmantelado que há muito lhe devorava os intestinos para vomitar de seguida o asco, a pobreza, enchendo o saco da sua história de lixo triste e podre. Era pela ilha que João se deixava escorregar, a memória atada a todos os tempos, lugares, pessoas, sonhos intemporais. Ilha redonda ou pão de milho, hóstia desconsagrada de franja roída, suas gentes voltadas para o mar – o deus do pão e da aventura e também do medo e da saudade. João vinha do lado norte mais alto e ventoso, os campos rasos e verdes, casas a brilhar de cal, pequenas, baixas, conchas perdidas na ilha perdida. Passara a infância embrulhado no cheiro saboroso que o suor empresta às pessoas, ao tempo, às coisas. Eram perfumes silvestres – muita bonina, conteiras, faias do Norte, quase bedum de esperma, queijo (…) E João, perdido naquele barco enorme, no meio de mil duzentos e cinquenta e três homens, lá ia a caminho da guerra como se fosse voluntário dela. Destino: Guiné.”

Segundo, um extrato de Autópsia de um Mar de Ruínas, de 1984, também nitidamente autobiográfico:
“O furriel enfermeiro sacou rapidamente da faca-de-mato e cortou-lhe as calças, o dólman e a camisa. Fazia-o com a determinação dos homens perdidos, dos homens que não iriam, nunca mais, perder a sua memória dos outros e de si mesmo. Cortava grandes pedaços de tecido à navalhada e estava já ensopado daquele suor de lágrimas que tem a espessura da chuva e o salitre de uma navegação mortal. Ao ver os intestinos espalhados por todo o baixo-ventre do ferido, abriu muito os olhos e disse três caralhos à vida, duas porras e três conas de madrinhas-de-guerra aos capitães do Norte e, pondo-se a coçar a cabeça, sem saber o que faria àquele balão fumegante, começou por tomar as mãos do Gonçalves e disse:
- Juro que não te vou deixar morrer, irmãozinho.

Aquelas mãos estavam, porém, tão rígidas, nos dedos entrelaçados que formavam uma concha para segurar as suas vísceras, que nenhuma promessa as obrigaria a deixar de praticar o último grande gesto da sua vida.

- Pelo amor de Deus, meu furriel: tenho mulher e três filhos!

Um por um, os dedos do furriel soltaram os dedos do soldado, e então as tripas rolaram-lhe um pouco para as virilhas e pareceram aumentar de volume. Eu vi duas solidões – de – homem enfrentarem-se num olhar; ouvi que um deles continuava a lembrar três filhos e uma mulher, enquanto o outro dizia porra, porra, porra; dizia Chamem-me um helicóptero, Chamem-me um helicóptero com médico e serviço de sangue e dizia-me a mim Onde está o alferes? E disse-me ainda, sempre no mesmo tom, como quem comanda uma tribo contra um incêndio ou chama os náufragos todos pelo nome:
- Corre-me aí à frente a ver se há outros feridos graves, Renato. Chama-me o alferes. É preciso um helicóptero com serviço de sangue.

Corri, corri, corri, e nunca mais deixarei de correr por ali fora; tropeçava em tudo, caía, levantava-me. Havia na minha boca um sabor a vísceras expetoradas e eu caía de novo. Fugir por ali adiante e nunca mais deixar de correr o resto da vida, assim mo pediam todos os órgãos conhecidos e desconhecidos do meu corpo, enquanto não sobrevinha um enorme vómito de mar ou um tiro que pusesse termo à minha solidão de animal acossado pelo fogo. Aquelas coisas não podiam estar a acontecer-me a mim: vira-as algumas vezes nos filmes, ouvira falar delas à distância e com ouvido distraído; faziam parte da morte dos outros e só deles, não podiam estar agora a acontecer-me a mim (…) – Ajuda-me, Renato. Ai, que eu morro!

Ajoelhei-me ao lado de Sérgio e pensei em poder acariciar devagarinho o seu pequeno rosto ainda imberbe. Tinha todo o mundo fechado nas minhas costas: limbo, cemitério novo, morte miúda e cada vez mais numerosa da minha aflição, não podia ver nem ouvir mais nada. Dei uma corrida para junto do furriel enfermeiro, disposto a trazê-lo de empurrão na minha frente, e fui dar com ele de joelhos no chão, lavado em suor. Não era certo que rezasse, por quanto vi que procurava desesperadamente a veia perdida do Gonçalves. Que tenho três filhos e uma mulher, meu furriel! E pensava ainda poder aplicar-lhe um soro e cumprir a promessa de que não o deixaria morrer. Acabara de ligar-lhe todo o ventre e administrara-lhe repetidas doses de hemostáticos, os sopros angélicos das suas ampolas de cardiotónicos, os sininhos mágicos das suas mãos de fada com avental de mãe de Deus. Era um homem desesperado porque lutava contra esse cordão azul que se perdia no fundo da carne, tentado pescar o seu último peixe com o anzol da agulha mal biselada.”


Ex-combatente e escritor João de Melo
Álamo de Oliveira (1945-2025)
Manuel Alegre, deve-se-lhe o mais belo poema feito por um português sobre a guerra colonial
Álvaro Guerra (1936-2002)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27381: In memoriam (587): De Elvas a Tancos: como é que eu fui parar aos paraquedistas e fiquei apurado, no dia em que Portugal perdeu a Índia



Foto nº 1A



Foto nº 1B


Fotos nº  1

Elvas > Regimento de Lanceiros nº 1 > 1961 > Recruta > O António Dâmaso é o 2º da 1ª fila, a contar da esquerda para a direita  (Vd. em detalhe, a foto nº 1A).


Foto (e legenda): © António Dâmaso (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].



Excerto da 1ª página o "Diário de Lisbos", 20 de dezembro de 1961


(1961), “Diário de Lisboa”, n.º 14016, ano 41, quarta, 20 de dezembro de 1961, Fundação Mário Soares e Maria Barroso / Ruella Ramos (Diário de Lisboa e Sempre Fixe), Disponível em: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_16535 (consultado em 2026-09-27)


1.  António Dâmaso, srgt mor pqdt  reformado (Odemira, 12/6/1940 - Lisboa, 22/9/2026), com três comissões na Guiné ao serviço do BCP 12  (1966/67, 1969/70 e 1972/74), é  
membro da Tabanca Grande desde 26/7/2009, tendo  à data da sua morte mais de 4 dezenas referências no nosso blogue. Publicou diversos postes aqui e no blogue dos Especialistas da Base Aérea 12 (Guiné, 1965/74).


Não é muito habitual os paraquedistas, antigos combatentes da guerra do ultramar / guerra colonial, "abrirem o livro" da sua vida, civil e militar... 

Entre eles, há o que se pode chamar um "pacto de silêncio" (o mesmo sucede com outras tropas especiais, como os comandos e os fuzileiros). E também há o "pudor social"... que, num blogue de pares como nosso, limita, condiciona  ou até inibe a partilha de memórias mais pessoais ou íntimas.

O Dâmaso é (ou foi) uma das exceções que confirmam a regra do "pacto de silêncio". Daí nos sentirmos na obrigação, em sua homenagem (e em homenagem também  aos camaradas que com ele combateram, brava e galhardamente, no CTIG), de recuperar e divulgar, para um público mais vasto, alguns postes que ele entendeu mandar em exclusivo para o blogue dos nossos camaradas da BA 12, fundado pelo nosso querido Victor Barata, que infelizmente também já realizou o seu "último voo". 

Recorde-se que na época (desde 1955 e até 1993), os "boinas verdes" estavam integrados na Força Aérea e consideravam-se, eles próprios (e com razão), uma "tropa de elite". 

Sabe-se pouco sobre o  "lado humano" das tropas especiais: por exemplo, o que é que levava os jovens, oriundos do povo, a oferecerem-se como voluntários, para os paraquedistas, em plena guerra do Ultramar, a partir de 1961... quando o império colonial português se começou a desmoronar... Falar apenas em "patriotismo" é redutor...

A motivação humana é complexa, mas também passa pelo "pão com manteiga"... Já que tenho a tropa, porque não fazê-la em Tancos onde me ttatam muito melhor do que em Elvas ? 

 A seleção era exigente e o treino muito duro: o Dâmaso relata que metade dos 30 candidatos que foram com ele,  de Elvas para Tancos,  chumbaram nas provas físicas e exames médicos...E depois sabia-se que os paraquedistas não iam propriamente para África para fazer... "sol & praia".

Nascido no Baixo Alentejo, em Odemira, o Dâmaso tinha apenas a 4ª classe do ensino primário. Mas já trabalhava em Lisboa ( " já tinha mundo"),  quando, aos 21 anos, foi chamado para cumprir o Serviço Militar Obrigatório. 

Mostrou, entretanto, ter "físico" e "aptidões psicotécnicas" para 1º cabo e condutor auto... 

Em abril de 1962 já tinha o "brevet" de paraquedista.  Em 1966, está na Guiné como furriel (ligado ao serviço de manutenção auto, a "ferrugem", do BCP 12).  Mas também foi operacional, como 2º sargento, na Guiné (onde esteve na batalha dos 3 G, em Guidaje,  em Gadamael) e em Moçambique (onde participou na Op Nó Górdio). 

Com 20 anos de paraquedistas, e 4 ou 5 comissões em África (3 na Guiné), atingiu o  topo da hierarquia da classe de sargentos, tendo-se reformado  como sargento-mor.  

Podia ter feito, julgamos nós,   o curso de oficiais, mas optou por trabalhar como enfermeiro e depois técnico de radiologia, no Hospital da Força Aérea e por fim no Centro de Saúde da sua terra, Odemira,  durante mais 30 anos... 

Os sargentos, oriundos de praças, foram a espinha dorsal dos paraquedistas na guerra de África, e alguns chegaram a oficiais... Eram homens com experiência de liderança no terreno e conhecimento prático de diferentes teatros de operações.  Tinha outro "calo", outra maturidade, outro saber-ser, saber-estar e saber-fazer que, se calhar, faltava a alguns ou até muitos dos oficiais subalternos ( milicianos ou até do QP).

As tropas especiais não gostam de dar a conhecer o "outro lado da lua"  das suas vidas e atividade operacional. No brilhante historial do Regimentos de Caçadores Paraquedistas, durante a guerra do Ultramar, não houve apenas  "honra & glória", mas também alguns insucessos, pontos fracos,  tricas,  rivalidades, problemas disciplinares, etc., como em todas as organizações e instituições. (Como se costuma dizer, nenhum de nós é perfeito, só juntos podemos sê-lo.)

Este depoimento, escrito já aos 70 anos (e cuja pontuação revi, o Dâmaso escrevia como falava...) tem grande interesse documental, sociologicamente falando... 

Neste texto, a seguir, ele conta-nos como é que, chamado a fazer a recruta no Regimento de Lanceiros 1, em Elvas, em agosto de 1961,  e acabou por ir, como voluntário, em dezembro desse ano, para o Regimento de Caçadores Paraquedistas (RCP), em Tancos. (Originalmente publicado no Blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 1965/74 >  domingo, 16 de outubro de 2011 > Voo 2530: Venturas e Desventuras da Vida Militar; corrigimos a pontuação, fizemos a revisão e fixação de texto.)



Fur pqdt António Dâmaso, BA 12, BIssalanca,
Natal de 1966


De Elvas a Tancos: como fui parar aos paraquedistas, e fiquei apurado, no dia em que Portugal perdeu a Índia

por António Dâmaso


(i) Corria o mês de agosto de 1961, já tinha feito 21 anos de idade (em 12 de junho) e tinha atingido a maioridade. Como estava a trabalhar em Lisboa recebi uma carta da terra (Odemira)  a dizer que tinha de lá ir levantar umas guias  para ir para a tropa, cumprir o Serviço Militar Obrigatório.

Uma vez chegado à terra, dirige-me ao regedor que me deu uma guia de marcha e uma requisição de transporte para Elvas. 

Passei a noite de 20 de agosto a andar de camioneta e comboio, tendo chegado à estação de Elvas pela manhã, por sorte havia transporte à espera.

Assentei praça no Regimento de Lanceiros 1, situado no Forte de Santa Luzia,  em Elvas. No dia 21 de agosto de 1961, fiz exame psicotécnico para condução auto, tendo ficado aprovado. 

No mesmo dia foi-me perguntado se queria ir para a Polícia Militar, ao que respondi que não,  por ter presenciado as abordagens que a PM fazia aos magalas em Lisboa.

Depois entrei de licença registada até 15 de outubro, data da incorporação, fui integrado no CICA 3 / RL 1, Elvas,   para frequentar a instrução de condutor auto simultaneamente com a recruta.

Em Elvas existiam duas Unidades, Regimento de Caçadores 8 (RC 8) e Regimento de Lanceiros 1 (RL 1). 

No pico de um cerro havia um presídio militar a que chamavam o Forte da Graça. O trabalho dos prisioneiros era descerem com barris para carregarem água às costas, alguns diziam que chegavam lá acima despejavam a água para virem buscar mais.

A instrução estava a decorrer com normalidade até que sofri o primeiro revés na vida militar: as nossas malas com os pertences civis foram guardadas numa arrecadação, a minha mala tinha os meus pertences, o meu melhor fato, camisa, camisola, sapatos de biqueira quadrada e o dinheiro que tinha levado.

Como a alimentação além de escassa era de inferior qualidade (e eu precisava de suplemento alimentar),  vi-me na necessidade de ir à mala levantar mais dinheiro para poder ir à cantina aviar-me de sandes para me alimentar... Azar dos azares, da mala nem rasto.

Dois ou três dias depois a dita mala apareceu num palheiro que ficava ao lado do refeitório e em frente à minha caserna, mas arrombada e sem nada dentro. Claro que dali para a frente, até receber algum dinheiro de casa, passei fome.

(ii) Quando fui informado de que os paraquedistas pediam voluntários, apesar de na altura dizerem que o pessoal que optava por servir nas Tropas Páraquedistas era todo maluco, não liguei e vi ali uma maneira de me escapar daquele local. 

Ofereci-me imediatamente e comecei a praticar saltos em altura e exercícios com cordas no picadeiro.

Já tinha feito exame de condução, jurado bandeira em 8 de dezembro, feito a escola de cabos e passado ao CIACA (Centro de Instrução de Adaptação de Condução Auto) para adaptação a todas as viaturas de rodas existentes no Exército.  

Depois de ter feito nove tiros, estava apto para embarcar para Angola,  integrando qualquer Companhia ou Batalhão, como aconteceu aos meus camaradas que ficaram em Elvas, até que recebi guia de marcha para embarcar no comboio das 21,25 no dia 18 de dezembro para ser submetido a exames médicos e provas psicofísicas, e lá fomos cerca de trinta elementos com destino a Tancos.

Embarcámos numa carruagem de 3.ª Classe, a que nós chamávamos o comboio do Texas porque aquele tipo de carruagens faziam parte dos cenários dos filmes de cowboys por ter portas dos dois lados e ao meio dois bancos corridos de madeira em ripas virados um para o outro não existindo corredor para comunicação.

Chegámos à estação de Almourol por volta das duas da manhã do dis 19, tínhamos elementos do RCP para nos indicarem o caminho e lá fomos a pé e entrámos na porta de armas do antigo mas ainda recente BCP, já à data RCP.

Levaram-nos para uma companhia de alunos onde nos colocaram no sótão com uns colchões estendidos e duas mantas para passar o resto da noite.

No dia seguinte  (20 de dezembro) fomos ao pequeno-almoço e verificámos que estávamos num mundo diferente, dois pães com manteiga e marmelada, café com leite à descrição, com um pequeno-almoço daquela natureza pensámos estar preparados para o que viesse.

Lá me fui desenvencilhando das provas físicas, salto do muro, salto em altura, salto para a lona, salto em comprimento, corrida de velocidade, subir uma corda a pulso de 8 metros de altura, exercícios físicos, até que me apareceu a prova de boxe... 

Calçaram-me umas luvas pesadas, que só elas pelo peso cansavam, colocaram-me um adversário na frente, cometemos a estupidez de combinar não bater com muita força, fomos apartados e puseram-nos com outros adversários. 

Aqui ainda existiu a combinação, claro que mais uma vez novo adversário e o aviso de que a prova de boxe era eliminatória... Disse para o meu adversário para me desculpar porque dali para a frente era pancadaria a torto e a direito, até nos entusiasmámos e demos e levámos pancadaria até sentirmos o cansaço do peso das luvas.

Com o almoço ainda ficamos mais maravilhados com a qualidade e quantidade, tratava-se nada mais, nada menos, de que uns bons bifes, coisa que não tínhamos tomado nem o cheiro em Lanceiros 1. Já ao jantar embora primoroso, não o pude saborear convenientemente devido ao murro que tinha levado nos queixos que me dificultava a mastigação.

No dia seguinte (dia 21 de dezembro) foi à inspecção médica para os que tinham passado nas provas físicas: fomos metidos numas viaturas Bedford 4 x 4, com umas rodas enormes e levados para o Posto de Socorros da BA 3. Foram considerados aptos para o paraquedismo cerca de 50%. 

Os que chumbaram voltaram para a unidade e os aprovados ficámos adidos ao RCP e entrámos de licença registada, isto no dia em que se soube que Portugal disse adeus à Colónia Indiana.

Durante os dois meses que estive em Elvas, depois de ter sido roubado,  tinha um pó aquele local. Já a primeira experiência de vivência em grupo foi positiva, tinha no meu Pelotão uns indivíduos bem apanhados, havia um que sonhava alto, depois de ter feito exame de condução, escreveu uma carta à mãe e à noite a dormir desbobinou o conteúdo da mesma.

-Querida mãe, fiz exame e fiquei bem..., chega-te 
para lá Moreira… (Passados que são 50 anos ainda me lembro do nome de alguns.)

O Regimento de Lanceiros 1 foi extinto a 25 de Abril de 1975.

Saudações Aeronáuticas

A Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)
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domingo, 27 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P27380: Verso & reversos (6): A "fêmea", o "anjo mau", a "Eva", a graça Macute, do conto de Artur Augusto Silva (1912-1983), "O Cativeiro do Bichos" (escrito na Prisão de Caxias, 1966)...



Excerto da BD "O Cativeiro dos Bichos" (*)


1. Comentários so poste P22953 (**):

(i) Tabanca Grande Luís Graça

É interessante verificar que neste conto ou fábula da literatura oral fula, o "anjo mau" que introduziu o pecado, o mal, o conflito, a guerra no mundo seja também uma "Eva", uma "fêmea", a garça Macute (**)..

"Misoginia" das sociedades patriarcais, gerontráticas,  teocráticas, bíblicas ? Afinal da nossa comum cultura judaico-cristã ? ... Misoginia: o grego miseó ("ódio") e gyné ("mulher").

Por outro lado, o rei da selva não é o leão mas o elefante... 

Talvez o Cherno Baldé possa acrescentar algo mais ou contestar a minha "leitura". 

De resto este conto ou fábula, como toda a literatura oral tradicional,  não tem uma leitura "única"...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022 às 10:11:00 WET 

Cherno Baldé,
Kiev, 1989

(ii) Cherno Baldé 

Caro Luis Graça, a tradição africana e fula em particular não menospreza a mulher nem a segrega como alguns estudiosos ocidentais apresentam em seus estudos. 

Os africanos, sobretudo, nas comunidades de cultura ou roupagem isláâmica, onde eu cresci e fui educado, protegem a mulher, poupando-a de muitos trabalhos físicos e da exposição exagerada ao público, ao mesmo tempo que fazem tudo para se proteger da inteligência superior e argúcia das mulheres. 

Mais tarde, ao ler a Bíblia (antigo testamento, livros poéticos e sapienciais) nos capítulos dos Salmos, provérbios, Eclesiástico, Cântico dos Cânticos, e sabedoria do Salomão, percebi a ligação com o fundo da cultura judio-cristã e asiática em geral.

No fanado (ritual de iniciação a vida adulta entre os africanos da região ocidental) a ferramenta mais importante consiste em dotar aos jovens rapazes a técnica de descobrir os malefícios e artimanhas inerentes ao sexo feminino e de capacidades de reconhecer as sementes da discórdia que as mulheres são capazes de semeiar entre irmãos da mesma familia. 

Diziam-nos (em letras musicais): 

"Se as fronteiras que nos dividem aparentam ser normais, são as mulheres que nos dividem, posto que, se todas as portas (da morança) são idênticas, cada uma limpa a porta da sua casa e cria a sua fronteira". 

Desta forma, a sociedade patriarcal tentava proteger-se da divisão, cada vez mais, em unidades menores das famílias extensas, que era um dos desafios maiores que as sociedade rurais africanas enfrentavam no limiar dos séculos XIX/XX, com recursos muito escassos do ponto do vista económico e com várias ameaças à coesão social a partir do exterior das comunidades.

A garça Macute do conto, com a ambição de se coroar em rainha da espécie,  representa a mulher pretensiosa que é uma ameaça à ordem estabelecida e à coesão familiar e  que alimenta a semente da discórdia e da divisão.

Em muitas comunidades e famílias africanas existem práticas e crenças, fundadas ou não, que atestam a "diabolização" da mulher, ligando-a a forças ocultas e/ou ao azar, má sorte para o homem em viagem ou que parte para a guerra.

Lembro-me que na nossa familia as mulheres se escondiam quando os homens partiam para uma viagem difícil ou para a guerra e ai de quem se atrevesse a cruzar-se de frente com o "bravo" à saida da morança e mesmo da aldeia, porque era um mau augúrio.

Infelizmente, por força destas vivências, mesmo não o impondo a ninguém, sou perseguido por estas crenças e não raras vezes sou confrontado com a opção difícil de acreditar ou não acreditar, de recuar ou avançar.  

A verdade é que, tenho constatado, o encontro com a mulher, em muitas ocasiões, sempre me deu azar, infelizmente. 

A minha "kontrada", pelos vistos, como dizem os guineenses,  é homem. Faz parte das pancadas ou taras que carreguei desde a infância. (***)

Quanto ao rei dos animais, de facto, é o elefante e não o leão.
É incrível como os contos encerram realidades vividas no passado. O elefante era sempre dotado de paciência, sabedoria e de capacidades extraordinárias de sobrevivência entre os animais em situações extremas de penúria e seca. 

Mais tarde, através de filmes, documentáros ocidentais, constatei a veracidade daquelas palavras dos antepassados, vendo como os elefantes conseguiam detectar a presença d'água e de a fazer aparecer à superfície salvando a manada e restantes animais de uma morte mais que certa.

Com um abraço amigo,

PS - Queria responder desde ontem, mas fui interrompido pelos acontecimentos lamentáveis que todos já sabem. (Alegada tentativa de golpe de Estado contra o Presidente Umaro Seco Embaló.)  



Vd. poste de 31 de janeiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22951: Antologia (83): O Cativeiro dos Bichos, conto de Artur Augusto Silva (Cabo Verde, 1912 - Guiné-Bissau, 1983), escrito na Prisão de Caxias, em 1966, e que era uma fabulosa fábula que tinha também uma contundente crítica, implícita, à hipócrita política colonial do Governo Português da época

Guiné 61/74 - P28379: Humor de caserna (294): "Periquito hoje, velhinho um dia"...




O capelão também ajudava à festa...na receção ao "periquito"... Também ele um dia  fora "praxado", também  ele um dia fora "periquito"...







Terão sido as bajudas fulas quando chegaram ao cais para oferecer ao novo contingente os seus préstimos de lavandeiras e se depararam com uma formatura de soldados todos vestidos de verde,  que os batizaram: "Iiih!, jubi ! Agora cá tem maçarico, só manga de periquito".

(Conta o Zé Botelho Colaço, um VCC, da batalha do Como, jan-mar de 1964) 



Duas coisas em que o burro do "artista gráfico" da IA nunca acerta: a p*ta da G3 e a m*rda do quico!


Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA (ChatGPT/OpenA).
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Nota do editor LG:

Último poste da série : 26 de setembro de 2026 >
Guiné 61/74 - P28377: Humor de caserna (293): "Salta, periquito, salta!"...