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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Guinér 61774 - P28487: A Nossa Marinha : Uma viagem inesquecível npo "Bor", de Bolma a Bissau, em fevereiro de 1965,. com uma avaria na Ilh das Conbras, e a minha filha querer a nascer... (Rui Ssantpos. ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, e CIM Bolama, 1963/65)


Guiné > Vaigem no "Bor" > Fevereiro de 1965 > Entre Bolama e Bissau. Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné  + IA (ChatGPT / Open AI) .

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Rui Santos (2014)
Imagens : António Bastos (2014) + Arquivo do blogue
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)



Guiné > Bolama > 1964 > O ferryboat "Bor", em viagem entre Bissau e Bolama. Foto, a sépia, de António Paulo [Bastos], ex 1º cabo at inf, Pelotão Caçadores 953, Cacheu , Farim, Canjambari, Jumbembem, 1964/66. Resconstituida e colorizada com recurso à IA. Acrescenta o Rui Santos: "Amigo Luís, de certeza que era o Bor, foi em fevereiro de 1965, dias antes do nascimento de nossa filha, o Bor nessa altura ja navegava de 'bengalas' e 'boias nos braços', enferrujado, velho combatente,  mas navegando à superficie dos canais e rios limítrofes de Bolama e Bissau".


1. Afinal muita boa gente (ou gente boa) andou na Bor (ou no  Bor, já que, além de embarcação dos Serviços da Marinha da Província, era "motor" e  "ferryboat"): do general Spínola ao José Colaço, do Ismael Augusto ao Torcato Mendonça, do Luís Dias ao Libério Lopes...

Ninguém sabe donde veio, nem quando (diz um "anónimo", que veio de Alverca, em 1963!)... Só se sabe que morreu na praia... Em Bolama, já depois da independência. Ingloriamente, com todas as embarcações, depois de terem feito muitas milhas náuticas, num vida que em geral era muito mais curta do que a dos seus marinheirtos...

Um dos muitos passageiros, nosso camaradas,  foi o veteraníssimo Rui Santos (ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, e CIM, Bolama, 1963/65) de quem não tenho notícias desde meados de 2024 (!), e a quem mando um alfabravo fraterno. 

O motor "Bor" pertencia ao Serviço da Marinha da Província. Mas tanto era usado pelos civis como pelos militares.  Foi pau (ferro) para toda a obra!... Entrou em batalhas como a Op Tridente (1964) ou a Op Lança Afiada (1969). Fazia a carreira normal Bissau - Bolama - Bissau. Mas também de levar tropa e bagagens até ao Xime e até Bambadinca (!)....

Alguém escreveu, um "anónimo", em comentário ao poste P13967, de 2 de dezembro de 2014: 

"A Bor era um ferry-boat fluvial construido em 1963 pela Argibay, Alverca. Muito semelhança com dezenas de pequenos ferries usados na Suécia (os barcos da classe Farja) e rio Reno (Alemanha e Holanda). terça-feira, 9 de dezembro de 2014 às 21:51:00 WET .




Um viagem inesquecível no Bor, de Bolama para Bissau, em fevereiro de 1965

por Rui Santos


Já aqui contei a minha história a bordo do Bor, minha e de minha mulher que estava "pançuda" e o médico disse que não devíamos ir de avião... 


Rui Santos
Então vai disto ... Bor,  "bamo bora" e lá vai um jovem casal,  sentado em rolos de cabos grossos, quando começa uma tempestade daquelas que todos conhecem, os que estiveram pisando o solo da Guiné, quase à saida do Canal de Bolama...

À passagem defronte da Ilha das Cobras começa o motor a... puff, puiuff e puift mêmo,  já perto do Geba, chuva na chube noss alfer ...

Pois... e eu à rasca por causa da minha mulher que nem lhe via a cor branca da face, mas aguentou estoicamente... Fui falar ao "comandante" mas pouco, e ninguém conseguía pôr a nau Catrineta a funcionar...

 E eu a ver os canais do Geba e a imaginar duas coisas:  ou ficamos aqui nos baixios ou vamos a caminho do Atlântico, sem rádio, sem comunicação com terra ... Zero!

Não sei o que se passou...  De repente ouço os motores trabalhando e os "mecânicos" rindo,  cantando e dançando. 

Fui para o pé da minha mulher e, passado uma hora, para mais  não para menos, eis-nos chegando ao Pidjiguiti (se não for assim, é parecido) onde estava o capitão João Nogueira e a esposa,  esperando, ambos  muito apreensivos.

A minha/nossa aventura do Bor...

PS - A propósito, a minha mulher foi comigo para a Guiné, quando fui tranferido para Bolama, após as férias que me concederam em maio de 1964, quando aproveitei para me casar.

Naquela terra, da qual tenho saudades e por vezes sobrevoo no Google Earth, verificando o abandono dos edificios do Quartel do CIM em Bolama, fabricámos uma filha que ainda hoje mostra, orgulhosa, o B.I. onde se lê: natural de Guiné-Bissau! (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)

2. Comentãrio do editor LG:

Rui, foi uma viagem atribulada, essa  no Bor, em fevereiro de 1965, acompanhando a tua mulher,  grávida,  de Bolama para Bissau. A escassos dias de nascer a vossa filha... Atribulada, por isso inesquecível... O motor parou entre bancos de areia, mas voltou a funcionar. Se tivesse ficado à deriva, sem rádio (!), seria uma tragédia!...

Quanto ao tempo de viagem, há uma referência posterior ao motor "Corubal", que fazia a ligação em cerca de duas horas. Mas isso não prova que a pachorremta  Bor demorasse o mesmo,  ajuda apenas a enquadrar a estimativa.

Rui, aceita uma pequena composição comemorativa, juntando a fotografia restaurada e colorizada do Bor (o original é do António Bastos), mais o mapa com o percurso Bolama–Bissau... 

Achei que devia recuperar esta tua pequena história, de  uma viagem atribulado no Bor, de Bolama a Bissau, a caminho da maternidade. Uma avaria, um grande susto e uma história para contar, mais de sessenta anos depois. Mas faz parte das nossas memórias da Guiné, de que tu (e muitos de nós) continuas a guardar saudades.

Acho que  é uma bonita recordação para os dois,  e para a tua filha que estava prestes a nascer!

 Quanto ao  desenho" do percurso, dá o devido desconto à IA, que não é boa em geografia... Perdi aqui duas horas, desde as 6h30 da manhã, a dizer-lhe, meia dúzia de vezes,  que:

(i) estava a pôr sistematicamente a ilha das Cobras, no lugar da ilha das Galinhas (a noroeste da Bolama);

(ii) de acordo com carta de Bolama (1952, escala 1:50 000), e a descvfrição do Rui, a "Bor" deve ter feito o seguinte trajeto: partiu de Bolama (em frente, São João, região de Quínara, no continente), seguiu pelo Canal do Porto, contornou a ponta a nordeste, onde fica a ilha das Cobras, aqui teve uma varia já no Canal do Furo, atravessou os baixios, alcançou o canal de Pedro Álvares e finalmente o Canal do Geba até Bissau;

(iii) Bissau ficava na margem direita (Norte) do estuário do Geba...

O gerador gráfico, do ChatGPT / Opena AI, o Nano Banana 2,  "chumba" a geografia...Mas faz outras coisas com piada...



Guiné > Carta de Bolama (1952 ) / Escala 1/50 mil _ Reconstituição do provável percurso da "Bor
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Nota do oeditor LG:

Último poste da série > 2 de novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28485: A Nossa Marinha (6): O motor Bor (uma UAM, unidade auxiliar da marinha), que pertencia aos Serviços da Marinha da Província, tal como o "Corubal", o "Formosa", o "BM1" e o "BM2"

Guiné 61/74 - P28486: Parabéns a você (2538): Ten-General PilAv António Martins de Matos, ex-Tenente PilAv da BA 12 (Bissalanca, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de 2 de Novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28483: Parabéns a você (2537): Abílio Magro, ex-Fur Mil Amanuense do CSJD/QG/CTIG (Bissau, 1973/74)

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28485: A Nossa Marinha (6): O motor Bor (uma UAM, unidade auxiliar da marinha), que pertencia aos Serviços da Marinha da Província, tal como o "Corubal", o "Formosa", o "BM1" e o "BM2"





Foto nº 1, 1A, 1B


Foto onº 2

Guiné > Bissau >  Cais do Comando de Defesa Marítima  > 1970 > "UAM BOR", ao lado da LFG Orion P362 e LFG Cassiopeia P373. Bissau.  Foto da página do Facebook de Carlitos Montego. O pai foi marinheiro cabo-de-mar no motor "Bor", em 1969/72. Promovido a cabo em 1970. E ele próprio foi "filho da Escola".  Foto (a cores) do Carlitos Montego (Carlos Gomes), Reconstituída e melhorada, em termos de resolução e qualidade da imagem.


1.  É uma (nº 2)  da página do Facebook do Carlitos Montego, nosso amigo do Facebook da Tabanca Grande. Vive em Benfica, Lisboa, é filho de marinheiro, e também ele "filho da Escola". E ele próprio (e o irmão, Paulo Gomes) "bebeu a água do Geba" (estiveram os dois em Bissau, com os pais; vamos apresentá-los em próximo poste). 

Tem uma página popular na rede social Facebook (com cerca de 2,8 mil seguidores) dedicada à partilha de memórias, fotografias, vídeos e histórias ligadas à Marinha Portuguesa e à vida no mar. Ele próprio se define, de maneira poética e bem-humorada, como "Calceteiro Marítimo. Endireitar o mar, como se o mar fosse calçada."

Publica frequentemente imagens históricas e atuais de navios da Marinha Portuguesa (incluindo os que operaram no CTIG) e promove o convívio e a partilha de recordações entre antigos e atuais camaradas do meio naval.

O Carlitos Montego adicionou há tempos uma foto (nº 2)  da "UAM Bor"  ao álbum Bissau > 23 de janeiro de 2023 ·

 Bissau Ponte-cais

UAM BOR
LFG Orion P362
LFG Cassiopeia P373
1970


Legendagem:

"Meu pai foi Mar. CM [ leia-se: marinheiro cabo-de-mar]  na BOR de 69 a 72, promovido a Cabo em 70. A BOR pertencia ao Comando da Defesa Marítima de Bissau.

"Esta embarcação era como um ferryboat, com dois motores, um a bombordo à proa, e outro a estibordo na popa, com pás (não tinha hélices) navegava para qualquer direcção. É um tipo de propulsão com pás verticais (tipo “remadores”) que giram num disco horizontal. Ao contrário das hélices normais, pode mover o barco para frente, trás, lado, ou girar no próprio eixo.

Era usado para transporte de carga diversa, desde vacas, galinhas, viaturas, e passageiros, podendo transportar cerca de 400 passageiros e bagagem, que viajavam em pé e alguns sentados. E também fazia o transporte de guarnições militares, ou a rendição de companhias de unidades militares, nos postos do rio Geba principalmente. 

"Apanhou por duas vezes, atracado no Xime, o 'macaréu', penso que em 1971. Pode formar ondas de até dezenas de metros de largura, com até três a cinco metros de altura, e velocidades de até trinta a cinquenta quilómetros por hora... E por uma vez, depois de ter rebentado com quase todos os cabos reforçados que prendiam o Bor ao cais, a sorte é que o 'macaréu'  acabou, a maré baixou,  a corrente perdeu força, e a embarcação ficou presa por um cabo de aço.

"A guarnição (dois militares e dois civis), que estava em terra,  ficou aliviada, se demorasse mais alguns minutos o cabo rebentaria e a embarcação sairia desgovernada rio Geba abaixo. Aqui uma vez, numa viagem Bissau-Xime, numa curva 'famosa' do rio, de que não lembro o nome [provavelmente Mato Cão],  foi atacada, penso que em 1972.

"Nas missões de rendição de companhias era escoltado e acompanhado por LDG, LDM, Patrulhas, e apoiada pelos Fiat da Força Aérea."


2.  UAM - Unidade Auxiliar da Marinha

Este acrónimo e  designação são atribuídos a embarcações ao serviço da Marinha que, pelas suas características ou funções específicas, não são consideradas navios de guerra combatentes da linha da frente (ou seja, não recebem o prefixo militar NRP — Navio da República Portuguesa).

No contexto da Guerra do Ultramar na Guiné (como o caso da "Bor" na foto, um "motor", de 40 toneladas), as UAM desempenhavam um papel logístico crucial:

(i) eram frequentemente utilizadas para o transporte de tropas, reabastecimento de material, combustíveis ou água doce ao longo dos rios, e apoio logístico geral aos fuzileiros e companhias no interior do território;

(ii) no caso do motor "Bor" (é assim que a CECA, 2014, lhe chama, pág. 482) a sua estrutura de fundo chato e a rampa à proa assemelhavam-na visualmente e funcionalmente a uma lancha de desembarque (daí poder ser confundida com as LDG), ideal para encalhar em bancos de areia e margens lamacentas para carregar ou descarregar pessoal e viaturas;

(iii)  tinha um sistema de propulsão especial (Voith-Schneider):  contava com dois motores, dispostos de forma assimétrica, um à proa a bombordo (lado esquerdo) e outro à popa a estibordo (lado direito), como já se disse acima; este sistema utilizava hélices de pás verticais orientáveis (cicloides), que giravam num disco horizontal.

(iv) este arranjo conferia à embarcação uma manobrabilidade excecional: conseguia girar 360 graus praticamente sobre o seu próprio eixo e navegar lateralmente, algo crucial para escapar de emboscadas ou contornar os canais estreitos, sinuosos e de pouca profundidade (os "tarrafes" e esteiros) dos rios da Guiné;

(v)  embora fossem consideradas unidades auxiliares não-militares no papel, podiam ser tripuladas por militares da Armada, ou por marinheiros militarizados ou civis;

(vi) o "Bor" e outros "motores" pertenciam aos Serviços da Marinha da Província; caso do "Corubal (30 t), do "BM1" (40 t), do "BM2" (40 t) e ainda do "Formosa", fazendo tanto transportes militares como civis:
 
(vii)  devido ao seu perfil lento e vulnerável, sempre que navegava em missões fluviais mais arriscadas, as UAM eram, em geral. escoltada por Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG) ou Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), como as que aparecem ao lado da "Bor" na foto original (Orion e Cassiopeia) (fotos nº 1 e 2);

(viii) sendo uma UAM,  a "Bor" não dispunha originalmente de sistemas de armas pesados de fábrica; contudo, no ambiente de guerra da Guiné, uma UAM como esta embarcação podia ser reforçada à pressa com reparos locais para metralhadoras pesadas (como as Browning 12.7 ou canhões de 20mm) à proa e nos flancos para autodefesa contra fogo vindo das margens;

(ix) a "Bor" participou, por exemplo, na Op Tridente (jan-mar 1964).

Continuamos a chamar-lhe "ferryboat" (como de resto, a CECA também lhe chama). Tem 9 referências no nosso blogue. Procuram-se mais testemundos e fotos da "Bor". Falaremos mais e melhor, em próximo poste, dos "transportes fluviais" na Guiné.
 
 [ Pesquisa: IA  + Facebook do Carlitos Montego + CECA + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini / Google AI)]

(Condensação, revisão / fixação de texto : LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série >  28 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27474: A Nossa Marinha (5): Os últimos marinheiros do Império

Guiné 61/74 - P28484: Notas de leitura (1976): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
Estamos a passar em revista alguns dos pontos altos deste memorável romance de Lobo Antunes, tudo acontece num jantar de militares que anos antes regressaram de Moçambique, vamos ficar a saber como eram os interrogatórios, os espancamentos e os lugares lúgubres para onde eram lançados os adversários do regime; entramos na vida daquele grupo minoritário maoísta e assim chegamos ao 25 de abril, o alferes casado com uma menina muito bem vai contar-nos a reação de uma família abastada que até pensa logo em pirar-se para o estrangeiro, temem as violações das hordas comunistas que por aí vêm, com russos e checoslovacos à frente; a comandar no quartel da Encarnação, mandou às urtigas as ordens transmitidas pelo coronel Ricardo, este irá tornar-se num espantoso vira-casacas, o temível saneador de coronéis e majores, pôs ao seu serviço o tenente-coronel Artur, este, mais tarde, limpa-lhe o sebo. mas ainda há mais coisas a dizer sobre o PREC.

Abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 4

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. "Fado Alexandrino", considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Já aconteceu o 25 de abril, mas não vamos ainda disparados para o processo revolucionário, ficamos a saber que o alferes maoísta foi apanhado pela PIDE, ele diz durante o jantar que da cela se avistava um bocado da praia, a seguir ao muro, o guarda de metralhadora numa espécie de trono de cimento, ele via casas distantes e automóveis minúsculos nas estradas em obras, encontrou no pátio alguém da Organização, o Emílio, reconheceu-o logo apesar dos inchaços das feições, da órbita esquerda destruída, murcha e pendente como um lírio, fora bem espancado de cima a baixo, é um encontro convulsivo, extremamente doloroso, a Organização não dá sinal de vida. Algo tinha acontecido na vida do regime, houvera mudança de carcereiros.

“Já deviam desconfiar da revolução, sugeriu o alferes. Já deviam saber do que se tramava e andavam todos borrados de medo, a tirar as castanhas do lume, a preparar o salto. Querias tratamento de comité central, meu lindo, tortura, pancadaria da boa, isolamento, querias sentir-te importante, certificar-te que existias, mas já não tinhas nenhum interesse para eles. Em certo sentido a revolução lixou-te: fez-te compreender que quando toca a Santos ninguém dá meio tostão furado por ninguém.”

E explica os seus sentimentos de presidiário: “Se alguém comia porrada em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém ia aos interrogatórios em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém era castigado e posto em dieta em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo.”

É assim que ele rememora Caxias. E depois chegou a liberdade, voltou para o prédio perto da Feira Popular, a tia e a Esmeralda receberam-no, emocionadas.

Começa a vida agitada do período revolucionário, o marido da Inês ouve o telefone tocar, é a mulher que atende, do outro lado a sogra do alferes informa com toda a intensidade melodramática: “Houve uma revolução comunista esta noite, anda tudo aos tiros na Baixa, o povinho quer pendurar nos candeeiros as pessoas decentes. A mãe manda que aa gente vá quanto antes para Carcavelos.”

Segue-se o delírio da fantasia, vêm aí as violações, os roubos dos talheres de prata, engraxadores batendo com as escovas enormes em pobres administradores das empresas indefesos, os russos vão degolar gente, haverá checoslovacos e húngaros a dar tiros por toda a parte. O ambiente em Carcavelos é de gente em pânico, família e amigos, a mãe está consternada:
“Prenderam o governo e o Presidente da República, coitado, educadíssimo, uma joia, que mal é que ele fez seja a quem seja, prenderam centenas de pessoas, há por aí hordas de ateus, desses que dão a pílula às mulheres, a destruir as igrejas, a fuzilar os católicos. Eu aqui não fico, já mandei o pai arranjar bilhetes de avião para todos, não estou para que um bando de selvagens me invada sem mais nem menos a casa e me viole a família inteira.”

Há comentários cataclísmicos sobre prisões de gente de bem, quando os carros já estão atulhados de malas, repensa-se a fuga, descarrega-se a carga, fica-se por enquanto em Carcavelos, voltam as descrições delirantes de violações, de assaltos, de vagabundos a obrar sem cerimónia nos tapetes, o mais que se quiser. Inês, o marido e a filha voltam para a casa de Lisboa.

O soldado do serviço de mudanças entra na conversa, revela que o tio perdera o entusiasmo, a empresa prosperava por inércia, o que lhes tramou a vida foi a trombose da dona Isaura, a tia. Apareceu depois a contabilista, passou a tomar conta não só da escrita como dos negócios, ocupava autoritariamente o lugar da dona Isaura nas refeições. O genro daquela senhora despótica de Carcavelos interrompe a narrativa do soldado para falar das gritarias da sogra: “Leram a pouca-vergonha do jornal? Que vão dar o dinheiro dos ricos a todos, que os católicos se vão poder divorciar, que criam partidos políticos às dúzias. Ó Jaime, você livre-se de me trazer para casa mais porcarias dessas, ainda por cima com fotografias de comunistas horrorosos na primeira página.” Mas o genro também tem outras intimidades para contar, agora ganham uns cobres com relações homossexuais, sobretudo com um pintor, é uma descrição inultrapassável. E ficamos a perceber que a vida amorosa de toda esta gente que está agora a rememorar o 25 de abril fala de alterações profundas, o soldado apaixona-se por Odete, menina muito intelectual que vive lá em casa dos tios, irá saber-se mais tarde que é a maoísta Dália, é ela a controleira do alferes que trabalha no Ministério do Exército.

Mas talvez o episódio mais empolgante aqui narrado seja o que se passou com a vida do nosso tenente-coronel que irá passar a colaborar, como a unha com a carne com o coronel Ricardo, um espantoso vira-casacas que deu em Torquemada, o nosso tenente-coronel Artur recebe uma escabrosa missão:
“Estes revolucionários matam-me de trabalho, vais-me ser utilíssimo aqui. Por vontade de eles, sabes como é, todos os oficiais superiores iam à viola, temos de ceder nalguns casos para ganhar espaço de manobra para os restantes.
Saneamentos, graduações, produções, aí tens o tipo de chatices que te esperam. Consultas as folhas de serviço, elaboras um memorando, formulas o teu parecerzinho, discutimos os dois, em conjunto, a decisão a tomar, eu levo o que a gente resolveu lá acima e os artolas que mandem o que muito bem entenderem, não temos nada com isso.”


É mais um texto espantoso do Lobo Antunes, o vira-casacas torna-se num temível saneador, marca profundas distâncias com o tenente-coronel Artur, quer mais e mais saneamentos: “Assim não vamos lá, Artur: passa-me no mínimo noventa porcento dos oficiais superiores à reserva, eram esses cabrões quem segurava o regime. Dá-me os pareceres que eu carrego-os aqui e ali e convenço os nossos capitãezinhos de fraldas com manias de Guevara: são um bocado esquivos, percebes, mas correndo-lhes a mão pela garupa faz-se deles o que se quiser.” E o tenente-coronel conversa com a sua gente de Moçambique, um dia adoeceu gravemente, visitou-o no hospital, disse-lhe tudo na cara, o moribundo nem se contorceu, o tenente-coronel Artur tirou-lhe o tubo de soro e todo o equipamento que ligava o general Ricardo ainda à vida. A vingança servia-se fria.

Mas que o leitor se acautele, ainda temos 25 de abril e processo revolucionário pela frente.
António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Nota do editor

Vd. post anterior de 26 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28476: Notas de leitura (1975): Meio século de lutas no Ultramar (Guiné), pelo Tenente-Coronel Bello de Almeida, edição da Sociedade de Geografia de Lisboa em comemoração da Semana das Colónias, 1937 - 1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28483: Parabéns a você (2537): Abílio Magro, ex-Fur Mil Amanuense do CSJD/QG/CTIG (Bissau, 1973/74)

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Nota do editor

Último post da série de 1 de Novembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28480: Parabéns a você (2536): José Carlos Gabriel, ex-1.º Cabo Operador Cripto de 2.ª CCAÇ / BCAÇ 4513/72 (Aldeia Formosa, Cumbijã e Nhala (1973/74)

domingo, 1 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28482: As nossas geografias emocionais (70) : Bolama dos anos de 1978/79 - Parte I: Fotos de embarcações do nosso tempo, a "Bor" e a "Corubal"...



Foto nº 1 > Bolama: Ferryboat "Bor" a apodrecer no cais


Foto nº 2 > Bolama: Embarcação "Corubal", ainda a navegar 

Foto nº 3 > Bolama: porto-cais,  baixa-mar


Foto nº 4 > Bolama: Avenida prinicpal e o seu casario colonial


Foto nº 5 > Bolama:  antigos combatentes


Foto nº 6 > Bolama: alfaiate



Foto nº 7 > Bolama: capitão de embarcação (seria da "Corubal" ?)

Guiné-Bissau >  Arquipélago dos Bijagós > Bolama > c. 1978/79 >  

Fotos: Cortesia do sítio Guiné-Bissau Recordações em Imagens  
(Melhoradas com recurso à IA/Google | Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026)


1. Há tempos (há 12 anos atrás!), o nosso camarada João Parreira  [ex-fur mil op esp, CART 730 / BART 733, Bissorã, 1964/65; ex-fur mil comando, Gr Cmds Fantasmas, CTIG, Brá, 1965/66], descobriu uma foto da velha Bor, um antigo ferryboat, ao serviço do Comando Defesa  Marítima da Guiné... A apodrecer no cais de Bolama...

Data: 12 de dezembro de 2014 às 23:09

Assunto: Bor

Boa noite,  Luís,

Os meus camaradas que fizeram a viagem para Bolama na Bor [em 1964,] e que contatei, já me responderam a dizer que não tinham nenhuma foto.(**)

Assim, comecei a procurar e acabei agora de descobrir onde fui buscar a foto do ferryboat Bor  com a qual ilustrei o meu diário na parte referente à minha viagem para Bolama em 1964.

Foi no blog guinebissaulembrancas.blogspot. A foto da balsa Bor  foi tirada em 1978 por um casal de brasileiros que viveu na Guiné-Bissau em 1978-79.

Um abraço, João


2. Comentário do editor LG.:


Os dois brasileiros, um casal, que criou
o sítio "Guiné-Bissau: Recordações em Imagens"

Estas fotos têm quase meio século. A da Bor, a do Corubal (duas embarcações do nosso tempo) e outras tiradas em Bolama. 

Repescámos algumas, com a devida vénia, de um sítio criado por um jovem casal de brasileiros, cooperantes, ainda no tempo do regime de Luís Cabral (1978/79). 

 A qualidade das fotos, a cores, foi melhorada com recurso à IA / Google. Há fotos de Bolama, Bolama de Baixo e Bubaque, e da população local. 

O sítio ainda está "on line" (!), e merece uma visitinha.


["De um casal de brasileiros que viveu naquele grande pequeno país em 1978-79, voluntários das Nações Unidas, professores do Jardim Escola e da Escola Piloto do PAIGC, na ilha de Bolama, arquipélago dos Bijagós."].

[https://guinebissaulembrancas.blogspot.com/p/blog-page_580.html] 

[https://web.archive.org/web/20181112051545/https://guinebissaulembrancas.blogspot.com/p/blog-page_580.html]

Seria uma pena estas fotos perderem-se na voragem do tempo e no turbilhão da Internet. São imagens que pertencem ao mundo e à lusofonia. E em primeiro lugar aos guineenses. Mas também a nós, antigos combatentes... Para muitos de nós, Bolama foi o primeiro contacto com aquela terra verde-rubra. Bolama, tal como a Bor, fazem parte das nossas geografias emocionais. 

Obrigado aos nossos  camaradas que resgataram as memórias da velha Bor: Manuel Amante da Rosa, João Parreira,  Libério Lopes, José Botelho Colaço, António Bastos, Rui Santos, Torcato Mendonça, Ismael Augusto, Fernando Chapouto... Obrigados ao(s) fotógrafo(s) brasileiro(s).

A Bor participou, por  avaria de uma LDG,  na Op Lança Afiada (Sector L1, BambadincA, 8-19 de março de 1969). Fez muitas viagens até Bolama. Mas também ao Xime e a Bambadinca. 

Segundo o falecido João Candeias Silva  (1950-2022)  (ex-fur mil, CCAÇ 12, 1973), "a Bor pifou de vez e passou em 1973, em meados de junho, a deslocar-se atrelada a um rebocador". 

E acrescentou: 

"Numa das viagens que fiz, Xime-Bambadinca, por deferência do comandante do rebocador, foi bem mais confortável e com direito a bebida a bordo do rebocador. Curiosamente nunca fiz a viagem inversa de barco."
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28481: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XVI: semana de 19 a 26 de maio











Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Rui Chamusco (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)

Em tétum, laco (ou laku) refere-se à civeta-de-palmeira-asiática (Paradoxurus hermaphroditus), um pequeno mamífero carnívoro asiático conhecido popularmente em português como gato-de-algália ou civeta. Em algumas regiões de Timor-Leste, também recebe o nome de busa-fuik (gato-bravo).


1. Prosseguimos a publicação das crónicas de 2019 (III Viagem a Timor-Leste) do nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Cham
usco
, professor de música reformado, natural da Malcata, Sabugal, a viver na Lourinhã.


Vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (só não foi na pandemia, 2020, 21 e 22). 

Tem sido apresentado aos nossos leitores como   um exemplo vivo do que é a solidariedade e o amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar, e de que é dirigente (a ASTIL).

É uma  história de dedicação às crianças das montanhas da martirizada Liquiçá (onde está funcionar, em Manatti / Boebau, a Escola de São Francisco de Assis), E merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné. 

Através das suas crónicas temos conhecidos também   diversos aspetosda geografia, história e cultura de Timor-Leste, país membro da CPLP.

Em Timor-Leste, o "Tiu Rui" fica em Díli, na casa do "Eustáquio",  alcunha familiar de João Moniz,  irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro dos co-fundadores e dirigentes da ASTIL juntamente com a Glória Sobral).



III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XVI: semana de 19 a 25 de maio (*)

19.02.2019, domingo  - De negociação...em negociação

Um dos motivos que aqui nos trouxe foi encontrar o terreno para a construção da casa residencial (dos professores) (entretanto já construída) (LG). 

Depois de visitarmos vários locais, ficamos de analisar as diversas possibilidades, de acordo com as exigências e as condições propostas, paradecidirmos qual a melhor solução.

O Eustáquio, que é um negociador nato, encarregou-se de explicar, nos diversos locais, as razões e a necessidade de construir esta casa. Apelando à força e proteção dos antepassados de Boebau, fazia um discurso eloquente e comovente a que os presentes respondiam com palavras e com gestos. E eu, sempre que solicitado, dava a minha opinião, em português com tradução, economizando as palavras. Porque, em “terra aliena”, vale mais ouvir do que falar.

Não tardará em tomarmos a decisão. Porque queremos que esta obra seja iniciada o mais breve possível.

Das quatro propostas de negócio escolheremos a que seja mais viável, tendo em conta a localização, a segurança, o acesso à água, a tranquilidade, O negócio far-se-á da seguinte maneira: o proprietário do terreno faz uma doação, devidamente registada, e a ASTILMB (Associação dos Amigis de Timor de Manaty / Boebau) comnpensará o preço acordado em dólares. 

Convenhamos até que para o proprietário do terreno escolhido será uma sorte ter algumas centenas de dólares na mão, uma vez que o dinheiro aqui é escasso.

Terante as várias ofertas de terrenos, o Eustáquio dizia sempre: "Agradeço a vossa colaboração e boa vontade de nos ajudar a resolver este assunto. Peço-vos que não fiqueis aborrecidos ou zangados connosco se não forem escolhidos. Amigos, amigos, negócios à parte."

Ainda não sabemos o preço do terreno, nem temos ainda o orçamento da obra. Mas disseram-nos que uma casa como a que nós pretendemos fazer fica mais ou menos entre vinte a vinte e cinco mil dólares. Seja como for, vamos avançar. E faremos como na construção da escola São Francisco de Assis. Com a colaboração de todos, e particularmente dos amigos e sócios da Astil, havemos de arranjar verbas para que a obra se realize. 

“Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalharão os seus construtores.” Deus vai ajudar!

19.05.2019 - Ai Cami... Ai Cameli...

Estamos falando da flora que povoa estes montes de Boebau. Parecem a mesma coisa, mas são bem diferentes: Ai (árvore) Cami, uma árvore de grande porte, de quatro a cinco metros de altura, que dá um fruto parecido à avelã na forma e no gosto; Ai Cameli, uma árvore de altura média, cuja madeira foi e é muito apreciada pela sua textura e pelo seu odor. 

Estou a falar do famoso sândalo que outrora foi tão comercializado incluso pelas exportações que se faziam para Portugal. Pela primeira vez na minha vida pude saborear o fruto cami e cheirar a madeira de sândalo.

Como a natureza é pródiga em ofertas para os nossos sentidos. Há sempre algo desconhecido que nos é oferecido. Generosidade da “mãe natureza”, diria São Francisco de Assis.

19.05.2019 - Regresso a Ailok Laran, Díli


Ailok Laran é o nosso quartel geral. A maior parte do meu tempo é passada qui. Aqui comemos, aqui dormimos, aqui trabalhamos, sobretudo na escrita e na preparação dos eventos.

O nosso regresso a este lar deu-se sem incidências. Salvo as mazelas corporais que estas viagens provocam num físico com quase setenta e três anos de idade. Tenho que me convencer que, andar de “motor” nestas circunstâncias já não é bem para a minha idade. . Mas a teimosia e a vontade de me mostrar-me forte tudo suporta.

Não te cuides, não! Depois, queixa-te...

20.05.2019, segunda feira  - Comemoração da independência

Faz dezassete anos que a independência de Timor foi proclamada.

Por todo o lado se vive de alguma maneira o acontecimento. Bandeiras nacionais de todos os tamanhos são agitadas no vai e vem do carros, carretas, microletes e motores dando ares de festa. Aqui e ali ouvem-se discursos de circunstância, de todos os quadrantes políticos, com predominância das cerimónias promovidas pelo governo.

Em Ailok Laran pouco se sentiram as comemorações. Curte-se o dia feriado nacional, e pouco mais.

Quanto a mim, ao fim da tarde encontrei-me com o brother Peter Corr, que é o diretor do Instituto Católico de Formação de Professores de Baucau, segundo dizem o melhor estabelecimento para a formação de professores em Timor Leste. Falamos claro está da educação e do ensino neste país, e dos nossos projetos em curso. Foi um jantar bem saboroso pelos produtos consumidos e pelas conversas que mantivemos.

E VIVA TIMOR LESTE!

22.05.2019, quarta feira  - Santa paciência!...

Hoje, dezasseis horas e trinta e cinco minutos, já por cinco vezes que nos foi cortada a corrente elétrica.

Que falta de paciência!... Quem pode trabalhar no computador nestas condições? Que nas montanhas de Boebau haja fracas condições de comunicação e de trabalho compreende-se. Mas aqui, mesmo ao lado da capital, como é possível que isto aconteça? Imagino os estragos causados, sobretudo na área comercial. 

Quem assume os danos causados? Aqui ninguém ousa reclamar, seja o que for. Associações de defesa do consumidor são inexistentes.

Tanto caminho por fazer neste Timor em crescimento! É verdade que só em 2020 atinge a maioridade, mas este Timor indepedente ainda tem um longo caminho a percorrer.- Tão martirizado no passado e tão privado de bens essenciais no presente.

Força, país irmão! “A vitória é difícil mas é nossa!” O caminho faz-se andando...

25.05.2019, sábado - Lendas e histórias de Timor

Quase por acaso, à conversa com o Gaspar Sobral, veio à baila o tema da fidelidade que o cão tem para com o homem. Isto porque o Dura e a Lira, dois canídeos que pertencem à casa, estão a nossos pés, por interesse de apanharem as migalhas de pão que caiem da mesa dos senhores, ou por destino que Deus lhes deu de serem fiéis aos seus donos. 

Foi então que o Gaspar se lembrou duma história contada pelo Eustáquio sobre o tema em questão. “Pergunta ao Eustáquio que ele é que sabe bem esta história”.

E foi o que eu fiz. Logo que tive a oportunidade, perguntei-lhe pela lenda / história timorense sobre a fidelidade canina.

“Então o Tiu quer saber mais histórias?” E, sentados à mesa, foi contando e eu escrevendo as três lendas/histórias que vos apresento.

(i) Lenda da relação do cão e do homem

Quando Deus criou o mundo e tudo o que nele existe, o homem só tinha cabeça, que rebolava constantemente pelo chão. Ao contrário, o cão estava completo, com cabeça tronco e membros.

Um dia o homem, já cansado de andar a rebolar, foi ter com Deus e pediu-lhe para que lhe desse também um corpo inteiro. Deus acedeu ao seu pedido e deu-lhe então o  corpo que hoje conhecemos.

O cão ao ver o homem completo encheu-se de inveja por o homem já ter também todos os membros do corpo, e foi ter com Deus, pedindo-lhe que lhe desse mais alguma coisa para ser superior ao homem. E Deus disse-lhe: “Quando te criei, já te criei completo. Porque tens inveja do homem?” 

Então Deus castigou-o, dizendo-lhe:

“Se queres mais, toma estas patas e vais fazer de guarda e segurança do homem.”

A partir daí, o cão passou a ser o animal mais fiel ao homem.

(2) Lenda do cão e o laco

Antigamente o cão também subia às árvores, tal como outros animais seus conhecidos.

Uma vez o cão atacou o laco que, correndo mais veloz, subiu para uma árvore AiKu, árvore de quatro a cinco metros de altura cujo fruto é duro e pesado. (Existe uma aqui mesmo em frente da casa onde moramos.)

O cão logo que chegou olhou para o laco e preparou-se para subir e apanhar o laco.Mas o laco disse-lhe: “Tu não me vais apanhar. Só me apanhas se conseguires apanhar este fruto.” E atirou com o fruto ao cão que, ao tenter apanhá-lo se aleijou,ficando-lhe umas bolas nas patas. A partir de aí, nunca mais o cão pode subir às árvores, porque não se pode agarrar aos troncos.

(3) Lenda da corda kalik

Antigamente o céu estava perto da terra, e havia uma corda kalik feita das raízes aéreas de algumas árvores, que se puxava para a gente subir e descer de um lado para o outro.

Um dia a mãe mandou o filho a buscar lume. Entretanto o garoto começou a brincar com a kalik subindo e descendo, e esqueceu-se do recado da mãe. Quando chegou acasa a mãe ralhou com ele. Ele não gostou da reprimenda, e disse à mãe: 

“ Eu vou brincar lá para cima.” 

E, saindo de casa, pegou na corda, e foi subindo...subindo. A mãe zangada, foi buscar uma tesoura e cortou a kalik. Então o céu começou a afastar-se cada vez mais da terra.

Por isso agora o céu é tão distante da terra.

(Selereção, revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

(`*) Último poste da série 15 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28437: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XV: semana de 12 a 18 de maio

Guiné 61/74 - P28480: Parabéns a você (2536): José Carlos Gabriel, ex-1.º Cabo Operador Cripto de 2.ª CCAÇ / BCAÇ 4513/72 (Aldeia Formosa, Cumbijã e Nhala (1973/74)

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Nota do editor

Último post da série de 11 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28425: Parabéns a você (2535): Benito Neves, ex-Fur Mil Cav da CCAV 1484 (Nhacra, Catió, Cachil e Cufar, 1965/67); Eduardo Campos, ex-1.º Cabo TRMS da CCAÇ 4540 (Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74) e Patrício Ribeiro, Amigo Grã-Tabanqueiro, Empresário na Guiné-Bissau

sábado, 31 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28479: Os nossos seres, saberes e lazeres (757): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (277): Um jardim zen à moda de um jardim de Quioto, no Planalto das Sezaredas (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Outubro de 2026:

Queridos amigos,
Estava indeciso se vos devia falar hoje de uma importante exposição patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea sobre as memórias do Tarrafal, com base numa obra de João Pina publicada na Tinta da China em 2024 ou dar-vos conta de uma amizade que ganhei a um pedaço de terra de barro duro e ácida, onde teimosamente se combate a dureza de um terreno infestado de pedregulhos e onde despontam árvores de fruto, imensos e inesperados catos, suculentos, bolbos, lírios bravos e agapantos. Ganhamos amor a um local, descobrimos nele o que há de belo num terreno cheio de acidentes que se veio encontrar cheio de mato bravio, dizia o anterior proprietário que não queria que ninguém por ali andasse para que não se dessem graves acidentes. Não é bem um jardim zen, é um jardim à medida dos sonhos que cada um de nós, por regra, acalenta, por amor à natureza.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (277):
Um jardim zen à moda de um jardim de Quioto, no Planalto das Sezaredas


Mário Beja Santos

Vai para uns anos bons adquiri num local chamado Reguengo Grande, uma freguesia do concelho da Lourinhã, já a abicar no distrito de Leiria e concelho do Bombarral, uns casebres que o anterior proprietário tinha em alojamento local. Fartara-se de obras, de desistências em cima da hora, de dificuldades em arranjar pessoal para as limpezas e até reparações. Pronto me afeiçoei ao interior das casinhas (um quarto, uma entrada/sala com cozinha e casa de banho, cada uma) parece terem sido moldadas para o dito alojamento local, o proprietário foi-me mostrando as dependências, os terraços e apontou para o que me pareceu um matagal, fiz-lhe perguntas, sim, o terreno fazia parte das casas, era muito pedregoso, temendo acidentes para os sucessivos usuários das casas, deixara crescer todo aquele mato bravio que indispunha qualquer curioso a meter-se por ali a dentro. Enquanto apalavrávamos o negócio, o dito senhor perguntou-me, depois de me dizer categoricamente que o preço não era negociável, que obras eu pretendia que ele fizesse antes da venda. Não fui peco a pedir: pinturas dos casebres, limpeza dos ladrilhos dos terraços e remoção daquela vegetação anárquica, queria saber o que me esperava para ali, tanto quanto possível, ajardinar. Cumpriu à risca, e quanto ao jardim dei com um declive tendo à entrada duas laranjeiras, uma infinidade de infestantes, um loureiro monumental e uma figueira.

Devo dar uma explicação para o título que usei para este texto, é um tanto bombástico e não cumpridor da verdade. De facto, um jardim zen tem a singularidade de assentar em rochas e muita areia. Este, que me coube, era uma terra barrenta e ácida, via-se imediatamente que tinha de trazer umas boas sacas de terra, testar o que ali podia medrar. Havendo barro pesado e ácido, era natural que ali se pudessem dar bem bolbos, catos, suculentos, narcisos, beladonas. Foi por aqui que começou a aventura jardineira, com o empolgante desafio de tentar de pôr plantas nas fendas e resquícios das rochas. Chegou a hora de mostrar as imagens e contar o que se ensaiou, o que resultou e o que fracassou.

Encostado a uma parede do terraço, acredita-se piamente que esta glicínia, que já pareceu ter morrido duas vezes, desta vez vai singrar. A glicínia pode demorar 15 anos para florescer, aquelas lianas têm que ser fixadas, conduzidas em linhas horizontais ou numa pérgola, dá aqueles cachos pendurados, tantas vezes de cor roxa, com os anos os troncos robustecem, a glicínia dura uma vida. E há aquele combate constante de limpar à volta, as infestantes não dão descanso. Foi aqui que tudo começou à volta das duas laranjeiras, limpando todo aquele mato fora de controlo.
É um exercício feito de paciência, aproveitar estas trinchas e estar atento à evolução dos catos, eu maravilho-me com este fulgor da natureza, como arrebitam catos dentro destes pedregulhos de calcário que devem ser muito anteriores ao Quaternário.
Está na estação do plumbago, já por aqui perto andaram agapantos e lírios bravos
Perco-me, extasiado, com estes sinais da natureza, catos teimosos, resistentes, ornam estas massas calcárias de eras muito antigas, há catos que dão flor, percorre-se com cuidado à procura de frinchas para meter mais catos, isto quando também se anda à procura de como estão as árvores de fruto que se plantaram, houve uma pereira que deu sinais de raquitismo e depois espigou, houve uma ameixoeira no primeiro ano da compra da casa deu umas ameixas amarelas saborosíssimas e depois secou… a vigilância tem de ser permanente, felizmente que nas ausências a nossa amiga Susana, uma vizinha adorável e que mora lá em baixo junto ao vale, sobe até aqui e põe a mangueira a funcionar. Com o andar da experiência, as perdas são cada vez menores.
Não dava nada por estes catos há um ano, bem me enganei, olho-os com a emoção de sentir a natureza vibrante, lutadora, a seu modo espetacular.
Uma imagem de baixo para cima, impõe-se ter um caminho bem definido por aqui amarinhar, descendo vou todo lampeiro ver a pereira tratada, a figueira limpa de infestantes, saber, como agora se sabe, que aqui podem crescer fisálias, jarros, malmequeres, açucenas; o loureiro está bom de saúde e recomenda-se, há um loendreiro branco, há sálvia mexicana, sálvia branca e púrpura, nerina que tem uma cabeça como se fosse um agapanto, não falta lantana nem alecrim, nos meses de verão delicio-me com tanta policromia.
O antigo e o novo, a árvore já cá estava, o cato veio com os novos proprietários
Detenho-me a olhar para o vale e a ver no topo da colina moinhos e miradouro, cá em baixo a Susana e o Henrique têm a terra em pousio, agora dedicam-se também à vinha, estou ansioso que plantem abóboras para eu fazer sopas.
Andei à procura do ângulo para tirar esta imagem, não tive fé nenhuma neste cato, pensei que desaparecesse com a primeira invernia, agora estou de joelhos a fotografá-lo, viçoso e saudável.
Uma outra perspetiva, o casario no topo de uma outra colina, e moinhos não faltam
Chegou o outono, mas na aspereza deste solo de barro pesado e ácido, como gotas de sangue, estas flores voltam-se para a luz do sol.
Daqui a umas semanas tenho à minha disposição umas laranjas sumarenta, mas um tanto ácidas, nada sei da limpeza das laranjeiras e a saúde do meu amigo Henrique fraqueja, paciência.
Despeço-me com duas imagens que só são idênticas na aparência, um pouco de vale no seu pousio, e dois níveis do casario, detenho-me às vezes a pensar nas alegrias que a vida nos dá, este permanente combate para que a terra seja vicejante, e sempre num estado de fé de que este Planalto das Sezaredas não venha a ser alvo de cobiças que lhe retirem a placidez de uma orografia que nos fala do esplendor da pedra, como se tivéssemos saído ontem da última etapa da Pré-História.
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Nota do editor

Último post da série de 24 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28460: Os nossos seres, saberes e lazeres (756): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276): Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo (Mário Beja Santos)