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sábado, 22 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28282: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (116): Lei n.º 52/2026, de 19 de Agosto, que "Estende o direito ao transporte público gratuito para os antigos combatentes a todo o território Nacional, alterando a Lei n.º 46/2020, de 20 de Agosto"

1. Embora ainda aguarde a aprovação do próximo Orçamento de Estado para entrar em vigor, deixamos aqui, para conhecimento, a Lei n.º 52/2026, de 19 de Agosto, que "Estende o direito ao transporte público gratuito para os antigos combatentes a todo o território Nacional, alterando a Lei n.º 46/2020, de 20 de Agosto".

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Nota do editor

Último post da série de 26 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27675: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (115): Comparticipação adicional de 100% da parte não comparticipada pelo SNS nos medicamentos adquiridos pelos Antigos Combatentes Reformados

Guiné 61/74 - P28281: Os nossos seres, saberes e lazeres (746): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (267): Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
Jogo à defesa com as limitações que me impõe uma hérnia inguinal bilateral que, acabo hoje de saber, vai à faca em 18 de outubro, estou bem farto dela e de engolir comprimidos de paracetamol; ponho-me à sombra em casa dos anfitriões e continuo a reler Fado Alexandrino, deste livro notável falarei no blog num outro espaço; à tarde sou honrado com o convite de ir ao primeiro dos dois espetáculos com que fui seduzido, um concerto no castelo de Johannisberg, um espaço histórico e vinícola onde se bebe o vinho Riesling, um parente talvez remoto do João Pires, ainda por cima acompanhado de água mineral com borbulhas. Um passeio estupendo que dá para ver como o Reno tem pouca água, tal o poder da canícula. No dia seguinte viagem até Mainz, o que mais me tocou foram os vitrais de Marc Chagall, achei a catedral, com o devido respeito, um tanto matacão, o claustro esplendoroso, impressionado com um Cristo escultórico contemporâneo, Mainz é uma bela cidade cosmopolita, haja saúde e voltarei aqui de bom grado.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (267):
De Wiesbaden para Idstein, o Festival de Música do Reno no castelo de Johannisberg, visita a Mainz - 2


Mário Beja Santos

É este o terceiro dia de viagem, tenha-se em conta que se voo de Lisboa para o Luxemburgo, grão-ducado percorrido de noite em direção a Trier, aqui se pernoitou, ao alvorecer encetou-se a viagem de comboio à volta do rio Mosela até Wiesbaden, aqui os meus anfitriões levaram-me para Idstein, burgo que pertenceu ao príncipe de Nassau-Idstein, hoje na órbita de Wiesbaden, a umas dezenas de quilómetros de Frankfurt. Dois dias de viagem que justificam, a quem padece de uma hérnia inguinal bilateral e que tem um programa previsto à volta do Reno, um belo concerto do Festival de Música do Reno, no castelo Johannisberg, o Quarteto Maxwell, música de Haydn Brahms e música folclórica da Escócia, um bom pedaço de repouso. Enquanto me ponho à sombra para fugir à caloraça que progride para perto dos 40ºC, vou bisbilhotar o jardim de quem tão amigavelmente me recebeu, vejo um ácer bem novinho a fazer sombra a um Buda, vou até ao fim da vedação e avisto um ácer maduro de um vizinho ali em frente, é uso e costume dizer-se que são os britânicos que têm a paixão dos jardins, e então os alemães? Enfim, mitos e preconceitos. E fico toda a manhã, embevecido, a reler Fado Alexandrino, já que tenho limite na bagagem trouxe estas 700 páginas para grande regalo.
Fachada do castelo Johannisberg, um dos palcos em que decorre o festival musical do Reno, pertenceu ao Príncipe Klemens Wenzel von Metternich, que teve um relevante papel no Congresso de Viena, é aqui que desde o século XVIII se passou a cultivar a uva com que se produz o vinho Riesling
Gosto de chegar cedo, garanto que quando subiu ao palco o Quarteto Maxwell não havia uma cadeira vazia
De paredes meias com o castelo temos uma reminiscência medieval, uma igreja associada a um convento, tudo cercado de vinha, no final do concerto percorre-se o caminho para disfrutar um esplêndido panorama de Wiesbaden ao fundo e o serpenteio do rio Reno
Era o fim de tarde, muita gente perto, tal é a maravilha do panorama, mesmo com o Reno com pouca água, estávamos embevecidos com o maravilhoso cenário
No dia seguinte partiu-se de comboio para Mainz, em português Mogúncia, em francês Mayence, é a capital do Land Renânia-Palatinado, ali perto corre o rio Meno. Consta que há uma população afável, tem um dos carnavais mais espetaculares da Alemanha, uma história que supera dois mil anos, por aqui andaram as legiões de Roma, teve um período dourado na Idade Média, como não se pode visitar uma grande cidade em escassas horas, não pude visitar o museu Gutenberg, considerado uma joia para a história daa imprensa. Vim munido de um calhamaço que há meio século era famoso, um Guide Bleu dedicado à República Federal da Alemanha. Recomendava-me que fosse diretamente da Gare Central à Catedral, daqui à Praça Schiller, desobedeci, queria ir à igreja de Santo Estevão, famosa pelos vitrais de Marc Chagall, foi um regalo para a alma, vou mostrar
Não escondo a comoção, estes vitrais, além de serem os únicos que Chagall fez para a Alemanha, como expressão do que ele entendia ser a reconciliação entre os judeus e os alemães, foram os únicos vitrais feitos diretamente por Chagall, são nove na envolvência do altar-mor. Depois do seu falecimento, um conjunto de discípulos terminou o trabalho dos vitrais da paróquia de Santo Estevão. A escolha desta igreja teria sido devido à amizade que unia Chagall ao respetivo padre de Santo Estevão. Se é verdade que as imagens podem substituir mil palavras, deixo a quem me está a ler o deslumbramento destes azuis de incomparável intensidade.
A Fonte do Carnaval, na praça Schiller, é uma impressionante escultura em bronze com quase 9 metros de altura. Projetada pelo artista Blasius Spreng e inaugurada em 1967, a obra celebra a rica e animada tradição carnavalesca da cidade. A torre de bronze está repleta de mais de 200 figuras detalhadas, incluindo bobos da corte, heróis, animais e símbolos satíricos da história local e da mitologia.
Escultura "Christus" (1998), da autoria do artista alemão Karlheinz Oswald, Catedral de Mainz
Vista do interior da Catedral de Mainz, são bem visíveis as múltiplas adições, recorde-se que o templo foi muito danificado pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial
Púlpito do período tardo-gótico, renovado no século XIX, um impressionante trabalho escultórico, de cima a baixo
Estamos a falar de uma catedral com 112 metros de comprimento, com o nome de São Martinho e Santa Genoveva, teve inicialmente três naves, hoje cinco, duas absides, recorda os tempos carlíngios, fica aqui um pormenor das suas torres vista do claustro tardo-gótico
Uma perspetiva do claustro, ainda há mais coisas para mostrar, fica para a semana

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28262: Os nossos seres, saberes e lazeres (745): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (266): Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28280: Notas de leitura (1952): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" (volume I, 2026, 455 pp sinopse feita pelo autor, Recaredo (pseudónimo literário de Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)


























Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e imagens: Angelino dos Santos Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. O Angelino Santos Silva,  ex-fur mil cmd, pertenceu à 26ª CCmds, passou por Bula, Teixeira Pinto e Bissau, em 1970/72, Foi mobilizada pelo CIOE, Lamego, tendo como cmdt o Cap Inf Cmd Alberto Freire de Matos. Embarcou em 25mar70, chegou a Bissau em 31mar70 e regressou a 27dez71. 

O Angelino é até agora o primeiro e único representante da 26ª CCmds na Tabanca Grande, para onde entrou formalmente em 21 de janeiro de 2025 (*).

. É natural de Recarei, Paredes. Como escritor, usao pseudónimo literário Recaredo. Publoicou recentemente o livro (o primerio de dois), "Geração Afro: os últimos guerrilheiros do Império" (edição de autor, 2026, 455 pp.) (**)


GERAÇÃO AFRO – OS ÚLTIMOS GUERRILHEIROS DO IMPÉRIO - Livro I 

Resumo feito pelo autor, Recaredo (pseudónimo lietrário de Angelinmo da Silva Santos) (***)

Este documento é uma homenagem aos combatentes portugueses e africanos da Guerra Colonial em África, abordando suas experiências, conflitos e o impacto histórico da guerra.

Para criar um resumo focado nas experiências dos combatentes portugueses e africanos durante a Guerra Colonial, utilizei exclusivamente os relatos, testemunhos e análises presentes no documento "Geração Afro – Os Últimos Guerrilheiros do Império".

O objetivo é apresentar uma visão clara, humana e multifacetada das vivências dos combatentes, destacando tanto os aspetos comuns quanto as diferenças entre portugueses e africanos que combateram sob a bandeira portuguesa ou nos movimentos de libertação.

Resumo das experiências dos combatentes portugueses e africanos

1. O início: patriotismo, desencanto e realidade

 Os jovens portugueses embarcavam para África "imbuídos de um mesmo amor à Pátria, considerando as suas comissões uma causa justa". 

No entanto, logo no início da viagem, o desconforto, as más condições nos navios e o choque com a realidade africana geravam desencanto e frustração.

Ao chegarem, deparavam-se com combatentes africanos armados ao serviço de Portugal, o que causava estranheza e, ao mesmo tempo, aliviava o desconforto inicial.

2. A Vida no terreno: dificuldades, medos e camaradagem

O quotidiano era marcado por condições extremas: calor, humidade, doenças como o paludismo, chuvas torrenciais, emboscadas, minas e noites mal dormidas na selva.

A camaradagem entre soldados era fundamental para suportar o medo, a saudade e o desgaste físico e psicológico. O humor, as pequenas festas e as conversas ajudavam a aliviar a tensão constante.

Os combatentes africanos, como os do Grupo Especial de Combate (GEC), partilhavam o risco e o sacrifício, mas tinham motivações e preocupações distintas, muitas vezes relacionadas com o futuro das suas famílias e a incerteza do pós-guerra.

3. Contradições e dilemas

Muitos africanos lutavam ao lado dos portugueses, enquanto familiares seus combatiam no PAIGC (movimento de libertação). Isso criava situações de "irmãos contra irmãos", ilustrando a complexidade das lealdades e dos laços familiares.

 Os portugueses, por sua vez, questionavam o sentido do sacrifício, especialmente ao perceberem que a guerra era "uma causa perdida" e que o império colonial estava no fim.

4. O impacto psicológico e social

O regresso à Metrópole era frequentemente marcado por traumas psicológicos, ausência de apoio psiquiátrico e falta de reconhecimento social. Muitos ex-combatentes sentiam-se ignorados e desamparados.

Entre os africanos, o medo de represálias após a independência e a incerteza quanto ao futuro das suas famílias eram fontes de grande angústia.

5. O quotidiano e a sobrevivência

As operações militares eram descritas como extenuantes e perigosas, com relatos de emboscadas, minas, flagelações e ataques noturnos.

A sobrevivência dependia tanto da preparação militar quanto da adaptação ao ambiente hostil e do apoio dos guias e combatentes africanos, conhecedores do terreno.

6. Humanidade, humor e resistência

Apesar da dureza da guerra, havia espaço para a amizade, o humor e até para momentos de festa e confraternização, com refeições de churrasco (ementa desconhecida na Metrópole).

O contacto com a cultura local, a aprendizagem de palavras em crioulo e a partilha de refeições aproximavam portugueses e africanos, criando laços que iam além da guerra.

7. O fim da guerra e o legado

O fim do conflito trouxe sentimentos mistos: alívio, mas também frustração e sensação de missão inacabada.

Muitos combatentes, portugueses e africanos, carregaram para sempre as marcas físicas e psicológicas da guerra, sentindo-se "diferentes" e, por vezes, incompreendidos pela sociedade.

Exemplo de testemunho resumido

"Já lá fomos e voltamos. Percorremos o lado negro da vida, tropeçamos na face má da sorte e andamos por trilhos e picadas da morte. [...] Já lá sorrimos e penamos. E abrimos a caixa de Pandora e antes de virmos embora enfrentamos medos e emboscadas, carregamos sonhos e granadas, corremos perigo e aflição, bebemos água da bolanha, comemos colados ao chão, adormecemos de arma na mão, socorremos camaradas feridos, beijamos rostos estendidos, cerramos os punhos cantando, festejamos a vida chorando, deixamos os sonhos esquecidos..."

Conclusão

As experiências dos combatentes portugueses e africanos na Guerra Colonial foram marcadas por sofrimento, coragem, dilemas morais e laços de solidariedade. O livro retrata com realismo e sensibilidade a complexidade humana da guerra, dando voz a todos os que nela participaram, independentemente do lado em que lutaram.

"Do embarque ao regresso a casa, o leitor com poucos conhecimentos sobre a Guerra Colonial Portuguesa em África vai ter o privilégio de acompanhar, em tempo real, o dia a dia da maior parte dos combatentes: desde as deficientes condições de viagem até à estranha surpresa ao desembarcar, quando vê, no cais, soldados africanos a combater ao lado da bandeira portuguesa. Já no “mato”, vai acompanhar os passos de quem faz a guerra “mexer”, testemunhando os dias de sorriso e tristeza, os dias de aflição e lazer, e os “acasos” do azar e da sorte que separam a vida da morte. Por fim, vai sentir no corpo e na “cabeça” as mazelas que trouxemos de África e a injustiça do tratamento inadequado votado aos combatentes por parte dos governos, desde o regime do Estado Novo ao regime do pós-25 de Abril — algo que permanece até hoje

Principais locais onde se desenrola o romance:

Bissau, Brá, Bula, Binar, Bissorá, Olossato, Mansoa, Mansabá, K3.
São Vicente, Pelundo, Teixeira Pinto, Bachile, Cacheu.
Catió, Cabedu, Guileje, Gadamael Porto, Kandiafara [Guiné-Conacri] e Cumuré.
Hospital Militar de Bissau.

Angelino dos Santos Silva
(RECAREDO)
Combatente na Guiné-Bissau, 1970-71

Contactos para encomenda do livro:

e-mail: recaredo241148@gmail.com | telem  926365774
 
Fonte: adapt da página do Facebook da Tabanca Grande Luís Graça, 5 de agosto de 2026, 08:42

(Revisão / fixação de texto: LG)
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(***) Últino poste da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28279: Parabéns a você (2517): José Luís Vacas de Carvalho, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1969/71)

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Nota do editor

Último post da série de 19 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28269: Parabéns a você (2516): Mário Fitas, ex-Fur Mil Op Especiais da CCAÇ 763 (Cufar, 1965/66)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Tenho consciência de estar a deglutir uma continuidade de capítulos, pontuando questões que seguramente todos nós já ouvimos falar nos bancos da escola sobre a história da expansão marítima e como África e os seus povos se colocaram no centro das atenções. Há uma efetiva singularidades nas observações deste investigador que é a de querer ver o reverso do espelho, o que para além dos feitos históricos da exploração marítima, dos avanços científicos e tecnológicos com contributos até de muçulmanos e judeus, o que ele põe em relevo é o desempenho dos africanos na ascensão económica da Europa e como o desenvolvimento político e a concretização dos ideais do Iluminismo se construíram à custa do continente negro e de uma mão-de-obra escravizada que foi determinante para mudar o curso da História, como ia acontecer no século XIX com a Revolução Haitiana e a explosão dos direitos humanos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 2

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro "Origem: África", o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

No contexto das expedições henriquinas, em dado momento a Coroa passou a ter acesso regular a grandes quantidades de ouro, o que nos remete para a fortaleza da Mina.

Não estávamos sozinhos na busca do ambicionado ouro, também os Reis Católicos encorajavam a esta região chamada Elmina mediante expedições privadas. D. João II, em 1481, ordenou a construção de um forte ao longo da costa do Gana para proteger o crescente fornecimento de ouro a Portugal de rivais e piratas, construção que ficou a cargo de Diogo da Azambuja. A maior parte do comércio de ouro português tinha estado concentrada em redor de Shama, considerada um porto inadequado, daí a escolha ter recaído em Elmina. Correram bem as negociações com as chefaturas locais. Nascia uma experiência nova, a construção de uma guarnição permanente e fortificada nos trópicos africanos. Este acontecimento decorre em simultâneo com o tráfico de escravos no Atlântico. São Jorge da Mina tornou-se no primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos, ao longo da costa do Gana dos tempos modernos.

“São Jorge da Mina tornou-se o primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos ao longo da costa do Gana dos tempos modernos, nos três séculos que se seguiram, por um conjunto diversificado de nações europeias. A primeira vaga de construção de postos avançados tinha como objetivo a obtenção de ouro. Só muito mais tarde, a partir da década de 1640, é que esta região se tornou uma importante fonte de escravos, muito depois de outras regiões como a Alta Guiné, o Congo e Luanda. No século XXI, o Castelo de Elmina, como é hoje chamado o Forte de São Jorge da Mina, é tão sólido e bem construído como parece, visto à distância do cume da colina a que escalei para admirá-lo.
Hoje em dia, multidões de visitantes acorrem ao castelo para visitas guiadas aos andares do topo, que abrigavam o governador e os seus oficiais superiores, às masmorras, situadas mesmo ao lado do pátio, por baixo, e à famosa Porta sem Retorno, por onde os escravos saiam para os barcos em direção às Caraíbas, ao Brasil e, mais tarde, às colónias britânicas na América do Norte. O metal foi o motor da história que conduziu os portugueses até aqui. E assim se desencadearam os eventos que se seguiram, desde as descobertas espanholas do Novo Mundo até ao lançamento das economias de plantação que, quase literalmente, ‘aspiravam’ os africanos cativos para as longínquas costas do Atlântico.”


Portanto o ouro foi o motor. Como observa o autor, desde a conclusão do forte em Elmina até meados do século XVI, a caravela portuguesa vai e vem até à Costa do Ouro, com uma média de 46 a 57kg de metal precioso por mês. O tesouro do reino, anteriormente conhecido como Casa da Guiné, foi renomeado Casa da Mina e transferido para o próprio edifício do Palácio Real. Por si só, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos vinte anos do século XV.

Em 1506, o ouro da região de Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa. A Costa do Ouro gerava cerca de 680Kg de ouro para Portugal ou, estima-se cerca de 1/10 de toda a oferta mundial de ouro naquela época. Esta enxurrada de metal precioso impulsionou uma complexa integração económica baseada no comércio a longa distância. Para adquirir ouro africano ofereciam-se manilhas e armas de fogo. Tendo descoberto que a lã e linho eram pesados impróprios para os trópicos, os portugueses começaram a usar algum do seu ouro de origem africana para comprar algodões indianos.

Esta quantidade de ouro era tão estimada que a alardeada busca de uma rota para a Ásia ficou suspensa, deu-se prioridade a continuar a identificação de outras jazidas de ouro em África. Os portugueses enviaram embaixadas a Tombuctu, tinham a expetativa de monopolizar o mercado de ouro a partir do Sahel. Empreendeu-se uma grande embaixada ao reino no Congo, em 1491, um projeto repleto de padres e artesãos. Portugal durante anos não deu continuidade ao progresso alcançado por Bartolomeu Dias no Oceano índico, o país estava demasiado ocupado em África.

Howard French observa que há uma outra perspetiva completamente distinta sobre o impacto histórico do ouro proveniente da África Ocidental. Este ouro teria contribuído para o financiamento de novas frotas e missões de exploração em várias latitudes, mas primeiro prosseguiu-se a Costa Africana a partir de 1497. Ele diz mesmo que o gigantesco ouro da Mina proporcionou à Coroa o desejo de descobrir ainda mais ouro em África; bem como, tronou possível a Portugal acompanhar o ritmo da Espanha no seu percurso acelerado de exploração oceânica. E recorda o encontro entre Colombo e D. João II. Estava em curso o Tratado de Tordesilhas de 1494, os dois países ibéricos tinham dividido as terras recém-descobertas fora de Portugal. Porventura, depois de conversar com Colombo, o rei português ficara esclarecido que a rota asiática não estava em perigo.

Veremos seguidamente como se instalou o tráfico negreiro e os seus circuitos.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post da série de 14 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28277: Agenda cultural (899): Feira do Livro do Porto 2026: apresentação do romance do António Carvalho, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp.), sábado, dia 29 de agosto, às 16h00, nos Jardins do Palácio de Cristal, Lago dos Cavalinhos

 



Ilustração: © Feira do Livro do Porto 2026 (com a devida vénia...)

 
1. O nosso camarada António Carvalho vai fazer a apresentação do seu romance "3 x 44:  Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. ) na Feira do Livro do Porto 2026, evento cultural que começa hoje, 21 de agosto e termina em 6 de setembro de 2026.

É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands,  entre editoras, livreiros e alfarrabistas.

O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar.

Local, data e hora:


Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes. 

Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica).

Capa do livro, publicado pela editora Vida Económica, com apoio da Fundação Hermínia Vilar  Ribeiro. 


O António Carvalho, e a esposa, Maria de Fãtima, na sessão de lançamento do seu livro, no passado dia 11 de julho, na quinta  da Fundação Hernínia Vilar Rodrigues, em Medas, Gondomar, que teve mais de 8 dezenas de presenças. 

Foto: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00) (com a devida vénia...)

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Nota do editor LG:

Último pposte da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28276: Agenda cultural (898): "Ilha de Santa Maria: Recortes da História de um Povo", novo livro de Arsénio Puim (Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2026, 135 pp.)

Guiné 61/74 - P28276: Agenda cultural (898): "Ilha de Santa Maria: Recortes da História de um Povo", novo livro de Arsénio Puim (Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2026, 135 pp.)


 

Capa do livro "Ilha de Santa Maria Recortes da História de Um Povo, de Arsénio Chaves Puim (Ponta Delgada: Letras Lavadas, 135 pp.)


Sinopse: "Ilha de Santa Maria – Recortes da História de Um Povo!

Fruto de seis décadas de dedicação à salvaguarda da memória mariense, este livro é uma obra de cariz histórico-etnográfico que resgata e humaniza a História da ilha de Santa Maria entre o século XVII e meados do século XX. Composta em forma de “recortes”, Arsénio Puim reúne acontecimentos, práticas e testemunhos que atravessam do século XVII a meados do século XX, revelando aspetos do património humano e material muitas vezes esquecidos ou silenciados.

Através de uma criteriosa seleção de “recortes” históricos, acontecimentos e aspetos do património humano e material — muitos deles olvidados ou silenciados —, o autor combina rigor científico com fontes primárias, secundárias e uma vivência pessoal profunda.

O resultado é uma obra que humaniza o passado, ilumina fenómenos sociais e relações comunitárias, e reforça o contributo de Santa Maria para a história mais ampla dos Açores.Este livro é, acima de tudo, um legado: a transmissão de uma vida dedicada à preservação da memória coletiva e ao aprofundamento da identidade açoriana.

Ficha técnica: 

Peso > 0,267 kg
Dimensões  > (C x L x A) 21 × 14,8 × 1,4 cm
ISBN  > 9789897356964
Encadernação > Capa mole
Páginas > 135
Edição > Agosto de 2026
Idioma  > Português
Editora > Letras Lavadas
Preço de capa > 12,00 €

Sobre o autor > Arsénio Chaves Puim

(i) nasceu em 1936, na ilha de Santa Maria, no termo da Calheta, Santo Espírito;

(ii) concluiu o ensino primário na sua freguesia natal de Santo Espírito e prosseguiu estudos em Teologia no Seminário de Angra do Heroísmo;

(iii) exerceu funções sacerdotais até 1976;

(iv) nesse mesmo ano, obteve o diploma de enfermagem na Escola de Enfermagem de Ponta Delgada e trabalhou como profissional desta área até 1995;

(v). em Santa Maria, foi também professor de Português e História no Externato e desempenhou vários cargos públicos, incluindo Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Vila do Porto;

(vi) foi cofundador do Museu Etnográfico de Santa Maria e dos jornais “Pico Alto” e “O Baluarte de Santa Maria”, dos quais foi o primeiro diretor;

(vii) desde 1982, Arsénio Puim reside em Vila Franca do Campo, na Ilha de São Miguel, onde casou, tem dois filhos e três netos;

(viii) este concelho, foi membro de vários órgãos de freguesia e municipais, mesário da Santa Casa da Misericórdia e, entre 2000 e 2018, redator principal do jornal “A Crença”;

(ix) Arsénio Puim foi também um importante ativista contra o Estado Novo e contra a Guerra Colonial, tendo sido membro do Movimento Democrático Português (MDP) antes e depois do 25 de Abril;

(x) em 2009, foi distinguido com a Medalha de Cidadão Honorário e Mérito Municipal pela Câmara Municipal de Vila Franca do Campo;

(xi) desde 2001, publicou cinco livros sobre história e etnografia açoriana, com especial enfoque em Santa Maria.

Fonte: adapt de Letras Lavadas (Ponta Delgada, São Miguel, Açores)


2. Comentrário do editor LG:

Segundo o portal da CM de Vila do Porto, o lançamento do livro  "Ilha de Santa Maria – Recortes da História de Um Povo" foi realizado  no passado do 9 de agosto, às 18 horas, na Biblioteca Municipal de Vila de Porto, juntamente com o livro e “Echoes of Azorean Life: A Cultural and Linguistic Portrait of the Island of Santa Maria", respetivamente o sexto e o sétimo livros do autor, ambos em edição da Letras Lavadas.

Tratou.se de um evento culltural inttegrado nas festas de 15 de agosto.

(...) "O primeiro livro, de cariz histórico-etnográfico, incide sobre uma seleção de acontecimentos e aspetos do património humano e material da Ilha de Santa Maria, situados entre o século XVII e meados do século XX. São abordados temas como os expostos na Roda da Câmara, os alevantes populares, a lepra (“mal de Lázaros”), as incursões dos Mouros e outros aspetos de grande interesse na história e vivência populares"

 O livro é prefaciado por Pilar Damião de Medeiros, professora de Sociologia na Universidade dos Açores, que fez também a sua apresentação.

(...) "O segundo título – 'Echoes of Azorean Life: A Cultural and Linguistic Portrait of the Island of Santa Maria' – corresponde a uma edição em inglês do livro 'Povo de Santa Maria - Seu Falar e Suas Vivências', publicado em 2021". 

Esta edição foi traduzida para inglês e anotada por Giuseppe Formato, investigador associado no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (ISCTE), que também apresentou  o livro. 

(...) "A obra, prefaciada por Onésimo Teotónio Almeida, reúne uma extensa investigação etnográfica relativa à Ilha de Santa Maria, em especial em torno da linguagem e vivência popular no período anterior a meados do século XX" (...)

A sessão de apresentação dos livros, com moderação de António Monteiro, contou com a participação da Presidente da Câmara Municipal de Vila do Porto, Bárbara Chaves, e da editora Letras Lavadas.

 Fonte: CM de Vila do Porto



Guiné 61/74 - P28275: O Nosso Livro de Visitas (231): Arsénio Puim, antigo alferes graduado capelão, CCS/BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), acaba de lançar um novo livro sobre o povo da sua ilha, e vem "partir mantenhas"


Arsénio Puim (n. 8 de maio de 1936):  ilhéu, açoriano, mariense, ex-sacerdote católico (de 1960 a 1976), ex-capelão militar (1969/71): foi autarca, professor, enfermeiro; é jornalista, escritor,  cidadão do mundo, pai, avô, amigo... Natural de Santa Maria, vive hoje em São Miguel, em Vila Franca do Campo, desde 1982. Membro da Tabanca Grande desde 12 de junho de 2009; tem 86 referências no blogue. 

Foto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

1. Mensagem do Arsénio Puim

Data - 19/08/2026, 17:44

Assunto - Cumprimentos

Caro amigo Luís

Obrigado pelos emails, mensagens, textos e informações que tens tido a delicadeza de me enviar, assim como o livro «O Capelão Militar na Guerra Colonial», do Padre Bártolo. 

 Um livro com interesse, que agradeço. Não pretendo, porém, fazer uma análise do mesmo. Mas não posso deixar de manifestar a minha estranheza e profunda discordância relativamente à afirmação do autor que considera "suja" a minha visão sobre a presença do capelão militarizado na guerra colonial. Julgo que quem escreve e quem critica o que quer que seja que foi escrito deve usar linguagem limpa.

Cheguei ontem de Santa Maria, onde passei uma linda semana com toda a minha família nuclear. Neste entretanto fiz na minha terra o lançamento de um novo livro, que se intitula «Ilha de Santa Maria - Recortes de um Povo», editado por Letras Lavadas (agosto de 2026, 135 pp.) (imagem da capa à esquerda). 

Vou enviar ao meu amigo Luís um exemplar, com todo o gosto.

De resto, cá vamos andando, com os meus 90 anos. Não obstante os meus achaques, considero que «para a idade não está mal», e sinto-me muito grato.

Melhores cumprimentos para Alice e família. 

Um grande abraço,

Arsénio Puim

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28245: O nosso livro de visitas (230): Emília da Silva Balula procura informações sobre o seu tio, sold at cav Francisco da Silva Oliveira, CCAV 2540 / BCAV 2876 (Ingoré, 1969/71), falecido em 24/2/1971, na sequência de acidente de viação