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terça-feira, 16 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28104: Movimento Nacional feminino: Mais artistas de renome em digressão pelo CTIG: os atores do teatro de revista e depois dupla humorística na televisão, Francisco Nicholson & Armando Cortez, atuaram, de 28 de setembro a 5 de outubro de 1967, em Nova Lamego (29Set), Bafatá (30Set), Tite (1Out), UBIB/Bissau (1Out), Teixeira Pinto 02Out) e Mansoa (04Out) (Emanuel Ribeiro Fernandes, ex-alf mil, Gabinete Militar do Com-Chefe, set 67/set 69)



Oeiras > Algés > Restaurante Caravela de Ouro > Magnífica Tabanca da Linha > 57º almoço-convívio > 26 de setembro de 2024 > A estreia do "mgnífico" Emanuel Ribeiro Fernandes


Foto (e legenda): © Manuel Resende (2024). Todos os direitos reservados. [Edição : Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Email enviado através do Formulário de Contacto do Blogger

Data - sexta, 14/11/2025, 20:56

Caro Luis Graça

Há alguns anos estive inscrito no blogue, mas também não era comum visitá-lo. Prestei serviço como alferes miliciano no Gabinete Militar do Comando-Chefe, de set67 a set69.

Abraço, e espero encontrar-te no próximo almoço da Tabanca da Linha.

Cumprimentos,
Emanuel Ribeiro Fernandes


2. Nova mensagen remetida pelo Formulário de Contacto do Blogger


Data - segunda, 15/06/2026, 21:35

Caro Luis Graça:

Respondendo ao teu desafio sobre a participação de artistas nacionais em visita às NT na Guiné (*), junto este pequeno contributo.

Os actores Francisco Nicholson e Armando Cortez e a actriz Manuela Maria (Alzira) visitaram a Guiné de 28 de setembro e 5 de outubro de 1967.

Deram espetáculos em:
  • Nova Lamego (29set), 
  • Bafatá (30set), 
  • Tite (1out), 
  • UBIB/Bissau (1out), 
  • Teixeira Pinto (?) (2out) 
  • Mansoa (4o lóut).
Testemunhei o excelente acolhimento dos nossos militares mas também a generosidade destes artistas, que não se furtaram a incómodos e riscos.

Cumprimentos,
Emanuel Ribeiro Fernandes

3. Comentário do editor LG:

Olá, Emanuel. Obrigado pelo teu contributo. Precioso. Quem é que, ao fim destes anos todos, ainda guarda memórias precisas (nomes, datas, locais), da visita ao CTIG de artistas de primeiro plano, conhecidos sobretudo do teatro de revista e da televisão, como os que citas ?

São dados que não constam nas biografias destes atores, infelizmente já falecidos, os dois primeiros:
Fico feliz por o nosso apelo não ter caído em saco roto, e que volto aqui a repetir:

"Quem assistiu, no mato, a espetáculos de artistas da metrópole em digressão pela Guiné ? Em que local? Quem atuou? Há fotos, cartazes, programas, autógrafos ?"


Emanuel, tenho-te encontrado na Tabanca da Linha. Sei que és de Mafra. E, se entendi bem, trabalhaste no aeroporto de Lisboa ou na TAP. Para a próxima temos que ficar juntos, à mesa, para me falares com mais pormenor dos teus tempos de Guiné. 

E ficas, claro, desde já convidado para integrar a Tabanca Grande. Falta-te essa honra no teu currículo... Honra para ti e para os demais amigos e camaradas da Guiné. Já somos 915 (entre vivos e mortos). 

Um alfabravo, Luís.

A dupla em "Riso e Ritmo" (RTP, 1969).
(Com a devida vénia...



4. A dupla humorística Armando Cortez / Francisco Nicholson
 
Em 1967, os atores do teatro de revista Armando Cortez e Francisco Nicholson, caras conhecidas da televisão (que começara  emitir regularmente em Portugal em 1957, a preto e branco, e só 23 anos depois, a cores!), integraram uma das digressões artísticas ao ultramar, organizadas pelo Movimento Nacional Feminino, atuando para a população civil e para os militares. 

No caso da Guiné, foram aos únicos sítios possíveis que tinham salas de cinema ou de espetáculos, tipo cine-teatro, minimamente aceitáveis (Bissau, Mansoa, Bafatá, Nova Lamego,  Teixeira Pinto,  e pouco mais).

E praticamente ainda não havia estradas alcatroadas (a não ser o troço Bissau-Mansoa).

O itinerário limitou-se aos principais centros urbanos (sedes de circunscrição / conselhos)  e aquartelamentos de maior dimensão que dispunham de infraestruturas mínimas (cine-teatros ou pavilhões multiusos dos clubes locais, além de instalações das Forças Armadas):
  • Bissau: onde se exibiram na União Desportiva Internacional de Bissau (UDIB), o grande polo dinamizador da vida social e desportiva da capital da província, a par da Associação Comercial e Industrial (que ficava perto);

  • Mansoa, na região do Óio, e a vila do interior mais perto da capital, por estrada (alcatroada); tinha um clube de futebol, ainda hoje famoso, o Clube Futebol Balantas de Mansoa, fundado em 1946, filial (nº 13) do nosso Os Belenenses!

  • Bafatá e Nova Lamego (Gabu): no Leste, que eram zonas de forte presença militar e eixos estratégicos de circulação; na altura Batafá, outrora próspera  graças ao comércio da mancarra, e agora de cara lavada  devido ao "patacão ": será elevada a cidade, a segunda, da Guiné, em 1969;

  • Teixeira Pinto (Canchungo):  no Norte, na região do Cacheu, sede de um importante subsetor militar, e do "chão manjaco",  e cuja vila tinha um cinema;

  • Tite: no Sul, região de Quínara, uma  das zonas mais fustigadas pelo conflito, mas que disporia de instalações capazes de acolher a comitiva com relativa segurança para a época: estava perto de Bissau, passara a ser sede circunscrição com a decadência e o isolamento de Fulacunda, impostos pela guerra. (Não tenho ideia nenhuma de haver um cine-teatro em Tite, no nosso tempo!)


Na altura,  a dupla Armando Cortez e Francisco Nicholson estava no auge do sucesso em Portugal graças ao programa humorístico da RTP "Riso e Ritmo" (1965-1969), o que tornou os atores figuras muito reconhecidas e acarinhadas pelos militares metropolitanos.

Recorde-se que essa dupla  foi um marco fundamental no humor português, sobretudo  na televisão, abrindo portas para muitos outros. Ambos os atores transitaram com sucesso do teatro de revista,  no popular Parque Mayer, em Lisboa,  para a televisão nos anos 60, onde se destacaram como autores, produtores e protagonistas de alguns dos programas mais emblemáticos da RTP. 
 
O "Riso e Ritmo" (1965-1969) é hoje considerado um dos progranmas pioneiros do humor televisivo em Portugal.  Com autoria e produção de ambos (e realização de Luís Andrade), o programa decorria num cenário de uma cozinha gigante, tendo marcado a época com rábulas aceleradas e um formato de variedades. O humor era de tipo "non-sense", a única maneira de iludir a censura dos senhores coronéis.

Para além do humor, esta dupla de sucesso envolveu-se também na produção de música, espetáculos ao vivo e na ligação a editoras discográficas, ajudando a moldar o panorama de entretenimento da época. 

Tinha um estilo inconfundível:  os seus textos focavam-se fortemente na realidade portuguesa e caracterizavam-se por um ritmo acelerado, o que frequentemente resultava em momentos cómicos espontâneos ("gags") durante as gravações. (Veja-se, aqui, na RTP Arquivos,  a emissão especial de Natal de 1969, com a duração de 1 hora e c. 15 minutos.)

Essa digressão de Armando Cortez e Francisco Nicholson (mais a Maria Manuela) à Guiné, em 1967, ilustra bem o esforço logístico e psicológico que se fazia na época para elevar o moral das tropas através do entretenimento. 

No auge do sucesso do "Riso e Ritmo", os dois atores e autores eram das caras mais conhecidas e queridas do público português, e a sua deslocação ao TO da Guiné teve naturalmente algum impacto  junto dos militares (e dos poucos "colonos", que viviam naquelas paragens inóspitas).

Esta digressão foi organizada e patrocinada pelo Movimento Nacional Feminino (MNF), liderado pela carismática e influente Cecília Supico Pinto (conhecida popularmente como "Cilinha"): íntima de Salazar, era então uma mulher poderosa, talvez a mulher mais poderosa do Portugal da época, embora já em fim de época e de regime...

Mas em setembro de 1967, ainda era vivo e temido o "senhor doutor" com quem ela emparceirou diversas vezes,  fazendo o papel de "primeira dama" em eventos públicos; recorde-se que Salazar era solteiro; e ela foi uma das últimas pessoas a vê-lo com vida, recorda a sua biógrafa, Sílvia Espírito-Santo).

O MNF terá sido inspirado diretamente na USO (United Service Organizations), criada em 1941, como forma da sociedade civil apoiar moral e psicologicamente os militares norte- americanos e as suas famílias durante a II Guerra Munda. Levava grandes estrelas de Hollywood e da música (o "show business") para os teatros de operações para entreter os soldados envolvidos nesse conflito, e noutros subsequentes (Coreia e Vietname). 

A Cecília Supico Pinto percebeu cedo o impacto avassalador que o contacto direto com os artistas em voga na Metrópole exercia sobre o moral dos jovens mobilizados no ultramar, a milhares de quilómetros de casa.

O MNF utilizava a sua enorme influência junto do regime, dos meios empresariais e dos transportes (como a TAP e os  TAM) para viabilizar estas "caravanas artísticas", garantindo que as maiores figuras do teatro, da rádio e da televisão estivessem presentes nos palcos possíveis do Ultramar.

Embora o programa "Riso e Ritmo" fosse em formato televisivo de variedades, era  complexo, envolvendo orquestra, corpo de baile, vários cantores, etc.. Daí que, na deslocação à Guiné,  teve de ser adaptado à realidade de um território em guerra ativa, e com escassez de salas de espetáculos.  A dupla Cortez e Nicholson terá apresentado um espetáculo focado sobretudo em sketches de comédia, rábulas humorísticas e sátira social ligeira,  permitindo uma montagem rápida, barata e flexível.

A ligação de Armando Cortez e Francisco Nicholson ao esforço de apoio moral aos soldados não se esgotou nesta curta e intensa semana de 1967 na Guiné. Anos mais tarde, em 1971 a dupla voltou a dar a cara por uma das maiores iniciativas do MNF: o célebre LP de vinil "Natal 71" (inserido na Operação Presença)

Com uma tiragem impressionante (para o país e para a época) de 300 mil exemplares distribuídos pelas frentes de combate, esse disco juntava mensagens e participações de figuras maiores da cultura e do desporto nacional (como Amália Rodrigues, Eusébio, Hermínia Silva e os Parodiantes de Lisboa). 

Armando Cortez e Francisco Nicholson participaram ativamente na gravação, oferecendo o seu humor como bálsamo para mitigar a solidão e o isolamento dos milhares de jovens que passavam a quadra natalícia no mato. 

Embora o disco tenha sido um fiasco e um rombo no cofre do MNF: é que os soldados no mato não tinham gira-discos ,nem eletricidade... Ninguém, no MNF, no "bem bom" de Lisboa, se lembraria destes detalhes...

Pesquisa; LG + IA (Gemini / Google) (Vibe / Mistral )

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos,links, título: LG)
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Nota do editor LG:


Guiné 61/74 - P28103: Timor-Leste: passado e presente (35): Barlaque: casamento tradicional e modernidade, o verso e o reverso (resumo analítico de artigo, publicado pelo Diligente, excelente jornal digital, feito em Díli)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: Luís Graça + Rui Chamusco

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?
Autoria: Equipa do Diligente
Fonte: Diligente (16 de julho de 2023)


1. Sobre a "Equipa do Diligente", convirá saber o seguinte:


“Sobre as pessoas. Para as pessoas”

Somos um grupo de jovens jornalistas timorenses ansiosos por melhorar a indústria dos media no nosso país. Queremos difundir informação imparcial que possa ajudar as pessoas a enfrentar todas as questões sociais e económicas com pensamento crítico.

Queremos que o povo timorense seja ouvido. Queremos que todos estejam conscientes do que se passa no nosso país.

Ambicionamos ser um projeto inovador, com uma aposta forte em trabalhos de investigação, reportagens, podcasts e outros conteúdos informativos.

Como primeiro website informativo totalmente em português, em Timor-Leste, temos a preocupação acrescida de produzir conteúdos de fácil compreensão e explicar assuntos complexos de forma simples.

Vamos dar voz aos cidadãos, promovendo debates sobre os direitos humanos e a defesa das minorias, ao mesmo tempo que mostramos ao mundo a riqueza cultural de Timor-Leste e os aspetos que o tornam único.


2. Aqui vai uma sinopse crítica do artigo supracitado, estruturada, para melhor legibilidade.   Inclui os pontos-chave, as tensões culturais e as vozes dissonantes, além de uma reflexão final que convida ao debate.

O barlaque (ou barlak, em tétum) é uma tradição ancestral timorense que formaliza o casamento através da negociação entre famílias, envolvendo a troca de bens (dinheiro, animais, adornos como belak ou kaebauk) como símbolo de união e respeito. 

Originário do termo indonésio berlaki (mulheres com companheiro para casamento), o ritual divide-se em três fases:

(i) Tuku odamantan (“bater à porta”): 

primeiro contacto entre famílias, a do pretendente e a da futura noiva, com troca de presentes simbólicos: cigarros, vinho, cabrito, noz-de-areca (equivalente à noz-de-cola africana).

(ii) Hamos dalan (“abrir o caminho”): 

cerimónia de reconhecimento mútuo, onde a mulher passa a integrar a família do homem (fetosán), e os homens da família da noiva se tornam umane (herdeiros da uma lisan, casa sagrada).

(iii) Kahe aitahan (“prenda”): 

casamento cultural, com troca de anéis e fios de ouro/p e prata; aqui, define-se se o sistema é patriarcal (kaben sai: a mulher e filhos passam à uma lisan do homem) ou matriarcal (habanin: o homem entra na uma lisan da mulher).

A Face oculta: violência, dívida e desigualdade

O artigo desmonta o mito da “união familiar” ao expor casos concretos de exploração económica e opressão de género (os nomes são fictícios, para proteger a privacidade das pessoas entrevistadas):

  • Martinha, mãe de duas filhas, recusa o barlaque por considerá-lo uma "venda de mulheres": os tios da noiva (figuras centrais no processo) decidem o valor e ficam com a maior parte, reduzindo a mulher a um objeto de transação. 

A recusa de Martinha em ser "barlaqueada" (sic) gerou conflitos familiares, mas a sua resistência expôs uma verdade incómoda: mulheres barlaqueadas são frequentemente vítimas de bullying, violência doméstica e controle excessivo por parte do marido e da família do marido.

“Se eu não fosse a um funeral ou não soubesse cozinhar, seria alvo de ofensas. Não quero ser propriedade de ninguém.”

  • Yane Maia, revisora linguística, viu o seu casamento desmoronar-se devido a conflitos entre sistemas matriarcais e patriarcais, na cultura Bunak (matriarcal), as mulheres barlaqueadas não podem pertencer à uma lisan do homem, sob pena de “maldição de morte” para si e para os filhos; a família do marido recusou um compromisso híbrido, demonstrando a rigidez de um sistema que nega autonomia às mulheres.

Mais de 50% das mulheres timorenses (15-49 anos) já sofreram violência física ou sexual por parceiros masculinos (fonte: CEDAW/ONU). 

O barlaque, segundo o artigo, agrava esta realidade: casais endividados para pagar o ritual (que pode ir até aos 20 mil dólares, num país em que os rendimentos médios mensais andam na casa dos 150 dólares) vivem sob stress extremo, gerando divórcios e agressões.
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O artigo opõe três perspetivas

Defensores
do Barlaque
Críticos
do Barlaque
Neutrais
(Antropólogos)

Eugénio Sarmento (lia-nain):

o barlaque é um fator de união familiar e respeito pela fertilidade da mulher.

 
A violência doméstica não é culpa da tradição, mas de “pessoas que não a compreendem”.
Berta Antonieta (ativista feminista):
´
o barlaque reduz a mulher a um bem material, equiparando-a a búfalos ou dinheiro.

A cultura é dinâmica e deve ser mudada.
Alessandro Boarccaech

o barlaque é um facto social com dois lados: união familiar vs. discriminação.

A violência doméstica está ligada a fatores estruturais (educação, hierarquias, álcool, políticas públicas).

Josh Trindade
(antropólogo): os objetos trocados não são para “comprar” a mulher, mas para valorizar a sua fertilidade.

Critica os “colonialistas” que julgam a cultura sem a conhecer.

Martinha/Yane Maia
:

o ritual perpetua a desigualdade e a violência, especialmente quando as famílias pobres usam as filhas como fonte de rendimento.
Paulino dos Santos (engenheiro):

propõe reduzir os custos do barlaque e de outros rituais (lia mate, lia moris) para evitar pobreza e divórcios.
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O Debate Central: Tradição vs. Direitos Humanos

O artigo levanta questões incómodas e urgentes:


(i) O barlaque é compatível com a igualdade de género?

  • Os defensores argumentam que o ritual simboliza respeito e consolida laços familiares.
  • Os críticos respondem que, na prática, a mulher perde autonomia: os tios decidem o seu valor, e ela passa a ser “propriedade” da família do marido (ou, no caso matriarcal, o homem é que se torna dependente).
(ii) O barlaque é a causa da violência doméstica?

  • Não diretamente, segundo os antropólogos: a violência tem raízes mais profundas (educação, poder, álcool).
  • Mas legitima-a: ao tratar a mulher como um bem transacionável, o ritual normaliza a sua subalternização, criando um ambiente propício ao abuso.

(ii) Pode o barlaque adaptar-se aos tempos modernos?

  • Josh Trindade sugere que o pagamento pode ser fracionado (em prestações), aliviando a pressão financeira.
  • Berta Antonieta propõe uma revolução cultural: “A cultura foi feita pelo homem, mas é dinâmica. Podemos mudá-la.”
  • Alessandro Boarccaech questiona: “Para que serve o barlaque hoje? É justo? Respeita a diversidade?

Reflexão final: um espelho para Portugal  ( e Guiné-Bissau) ?

O artigo do Diligente é um retrato cru de como a tradição pode ser ao mesmo tempo um pilar cultural e uma prisão

OkEm Timor-Leste, o barlaque é um sistema complexo, com nuances entre o matriarcal e o patriarcal, mas com um denominador comum: a mulher é o último elo da cadeia de decisão.

Paralelos com Portugal

  • A dote (ou enxoval ou bargal) em Portugal também já foi um símbolo de status e negociação familiar, mas evoluiu para um gesto simbólico.
  • A violência doméstica em Portugal (como em Timor-Leste) tem raízes culturais profundas, muitas vezes mascaradas por “tradições”.
  • A resistência de Martinha lembra as mulheres portuguesas que, nas décadas de 60/70, recusaram casamentos arranjados pelas famílias ou a submissão ao marido, "chefe da família.
  • A igualdade da mulher perante a lei em Portugal é um direito fundamental consagrado no Artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, que garante que todos os cidadãos são iguais e proíbe qualquer discriminação com base no sexo.A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • As principais alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 496/77 incluíram: (a) fim da figura de "chefe de família": o poder de decisão exclusiva do marido sobre o agregado familiar foi eliminado; (b) gestão conjunta do património: o marido deixou de ser o único administrador dos bens do casal, passando a direção da família a pertencer a ambos os cônjuges.

Pergunta para os leitores do nosso blogue:

Até que ponto uma tradição (o "fanado", por exemplo, ou o "casamento infantil", na Guiné-Bissau) pode ser “respeitada” se ela perpetua desigualdades ou tem práticas que atentam contra os direitos humanos ?

 Será o barlaque um ritual de união… ou um mecanismo de controle social ? 

Veremos, em próximo poste, algumas semelhanças com o casamento tradicional na Guiné-Bissau.

Nota para citação: Sinopse crítica elaborada por LG +  IA  ( Vibe  / IA Mistral Medium 3.5) a partir do artigo “Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?”, publicado no Diligente, 16 de julho de 2023.

(Revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28012: Timor-Leste: passado e presente (34): a revolta de Manufai (dez 1911 / out 1912) - Parte I

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28102: Notas de leitura (1928): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Temos agora o percurso desta solícita paraquedista em toda a luta armada, percorre os diferentes teatros de operações e haverá a reforma, sempre bondosa e ativa, a sua biógrafa dedica-lhe páginas esplendentes, Eugénia do Espírito Santo deixa um rasto de grande discrição, espírito magnânimo, uma paraquedista da primeira hora tão pouco referida.

Um abraço do
Mário



Capitão Paraquedista Eugénia do Espírito Santo Sousa, de Santo Antão para as guerras de África: esteve na Guiné em 1962, 1969, 1972 e 1973, temos aqui uma biografia tocante - 2

Mário Beja Santos

Há parágrafos luminosos nesta biografia que Rosalina Vaqueiro dedicou à enfermeira paraquedista Eugénia do Espírito Santo Sousa, nomeadamente o capítulo dedicado à infância e juventude em que ela viveu na ilha de Santo Antão, em Cabo Verde. Nascida em 1935, tendo feito os estudos no arquipélago, continuou a sua formação primeiro no Porto e depois em Lisboa. Tirou o curso de paraquedismo em Tancos, em 1962, ano em que faz a sua primeira estadia na Guiné, relata algumas das peripécias que viveu, uma delas merece aqui realce: “Um doente da Marinha, que trouxe em evacuação para Lisboa, queria-lhe dar 100$00, porque Eugénia lhe deu uma aspirina. A enfermeira não aceitou e recorda à sua biógrafa que ainda se lembra da mão dele estendida com os 100$00.” Era sua colega na época a Arminda Lopes Pereira.

Depois da Guiné, Angola, Rosalina Vaqueiro dá-nos o quadro em que se desenvolveu a luta armada, a partir de 1961 e as tarefas árduas que couberam a estes primeiros combatentes, um chão de mato cerrado, sem estradas, a tormentosa tarefa de desbastar árvores e o capim, abrindo caminhos rudimentares, tudo dificultado pela guerrilha que atravessava troncos de embondeiro ou abriam valas fundas que impediam a circulação de veículos militares. Eugénia estava alojada com as suas colegas enfermeiras em Luanda, no edifício da Força Aérea. Não deixava de ser extenuante a missão de evacuação dos feridos.

Seguiu-se Moçambique, a autora dá-nos agora uma sinopse dos acontecimentos nesta região, vai tomando nota das observações de Eugénia. Esta conta-lhe que um dia em Nampula perguntou a um criado de mesa se já tinha almoçado, este respondeu que os criados tinham de esperar que todos comessem pelo que só podiam comer o que sobrava das mesas. Eugénia a partir daí passou a ter o cuidado de não sujar o prato todo e dizia discretamente ao criado, apontando, que só tinha usado metade do prato. Desta sua estadia guardou a recordação de um acidente de dois homens brancos que tinham ficado tão queimados que ela pensou que eram negros.

Está de regresso a Angola em 1965, no mesmo ano foi indicada para uma comissão no Hospital da Força Aérea, em Terra Chã, ilha Terceira, para dar aulas de enfermagem; a autora aproveita para nos falar da religiosidade açoriana, dizendo que em 1967 Eugénia será novamente destacada para este Hospital. Esse ano será um ano aziago na vida dela, teve um acidente num salto de paraquedas em Tancos, onde partiu os ossos da bacia. Ficou a recuperar em Lisboa e só voltou a Moçambique em 1968.

Temo-la novamente na Guiné em 1969. Dirá que as mulheres dos militares eram um ninho de víboras. Fala das evacuações. Não sei a que título e a que nível de informação Rosalina Vaqueiro escreve que nos anos de 1970 ainda havia canibalismo no interior da Guiné. E adiante escreve uns parágrafos sobre a operação Mar Verde.

Volta a Angola, irá a Santo Antão despedir-se de Rosáia, uma das três manas Sequeiras, aquela que ela mais amava, e estará presente na Guiné de 1972 a 1973. Também não sei a que nível de informação a autora escreve que o PAIGC declarou independência em Guilege. Eugénia, não é demais insistir, fala permanentemente da sua convicção religiosa, da fé que vem do berço, nesta fase da guerra, como ela declara, o trabalho das enfermeiras e de toda a equipa era demasiado intenso e sentia-se o constante perigo de vida da morte da colega Celeste Costa que ao correr para um avião em vez de contornar a cauda passou por baixo da zona do motor e veio a ser atingida pelas pás. Não esconde o sofrimento que esta morte lhe provocou. Fará referências detalhadas à chegada dos mísseis terra-ar, ao cerco de Guidaje e aos acontecimentos que ocorreram no sul. O livro está repleto de fotografias desta época.

E chegámos ao tempo de paz. De 1974 a 1983 não passou à vida civil como poderia imaginar-se com o fim da guerra. Fez fisioterapia e recuperação devido aos seus problemas ortopédicos, continuou o seu trabalho como enfermeira no Hospital da Força Aérea. Será depois professora de enfermagem, pediu autorização para fazer o curso de ensino. Tinha então casa em Santo António dos Cavaleiros. Reforma-se em 1983, reforma extraordinária vitalícia. Recebe a visita de Maria de Lourdes Sequeira, as outras Sequeiras já tinham falecido. Fala-se também das peripécias da herança das Sequeiras.

Eugénia instala-se em Sesimbra, muito do seu viver é para ajudar, humanos e animais. Procura manter atividade física, desloca-se sempre com a sua canadiana. A autora transcreve uma carta que Eugénia envia à mulher do coronel Morais da Silva, ex-chefe da Força Aérea, não resiste a contar-lhe algumas das suas reminiscências:
“As irmãs Sequeiras tinham orgulho de usar o seu dinheiro ajudando. Quando só estavam as três, eu sabia que iam poupar nas despesas para recuperar o dinheiro gasto. Era o seu orgulho. Eu era criança e sabia. Na época da fome, em 1950, elas cozinhavam um panelão, uma caldeira de cachupa e cada pessoa pobre ia lá a casa com um prato. Na rua faziam fila e eu ajudava a levar a cada pessoa um prato cheio de comida (…) O meu estado de saúde pirou depois de perder amigos. Tenho 50% de surdez e ando ansiosa. Não há grandes facilidades de consulta para mim, mesmo quando o psiquiatra recomendou consulta urgente. Não dormia. Agora com os comprimidos durmo, não quero tomá-los sempre, senão fico dependente ou drogada.”

A carta data janeiro 2016, a autora vai juntando recordações avulsas pelos anos seguintes. Anda sempre indisposta com a desarrumação das duas casas, a de Santo António dos Cavaleiros e a de Sesimbra. As suas recordações de enfermeira paraquedista persistem, como diz à autora: “Trabalhei muitas vezes sem poder ir à cama, e fiz diretas sem dormir, porque era preciso. Também durante todo o dia não tinha tempo de comer, porque as urgências me chamavam. Subestimávamos o sono e a comida. Dávamos o nosso tempo para tentar salvar vidas.” E permanentemente relembra à autora as pessoas de quem guarda uma eterna gratidão. Vai a reuniões das enfermeiras paraquedistas. O livro termina em janeiro de 2024, relata mais recordações da vida, tem então 88 anos.

Eugénia foi de facto uma mulher de coragem, altruísmo e fé.


Autora da biografia, Rosalina Vaqueiro
Eugénia do Espírito Santo Sousa, Cap. Enf. Pqdt. (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025)
A Eugénia do Espírito Santo Sousa um bonito sorriso na sua idade maior, imagem retirada da Associação Portuguesa de Enfermagem Militar, com a devida vénia.
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Notas do editor:

Vd. post de 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28101: Mi querido blog, por qué no te callas?! (13): o país virou a página da guerra mas não leu o capitulo, diz (por outras palavras) o Tony Boré... Não sei se não seria melhor fechar o blogue durante o mês e tal em que o futebol já está a entrar pelas nossas casas dentro "ad nauseam".


Fonte:
Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Textos: TB / LG
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 15 de junho de 2026) [Grande modelo de linguagem].


1. O Tony Borié (António Rés Borié) é o nosso grão-tabanqueiro nº 564, desde 4/7/2023. Foi 1º cabo cripto, do Cmd Agr nº 16 (Mansoa, 1964/66). 

Como muitos outros camaradas que regressaram da guerra, não foi recebido de braços abertos pela Pátria. Nem muito menos com bandeirinhas e foguetes. Tirou o passaporte e emigrou (em 1972, pelas nossas contas) para a América, onde vive há mais de meio século. 

Passou por Ironbound, o histórico bairro português de Newark, New Jersey, onde descreve uma vida de muito trabalho, horas extraordinárias e sacrifícios comuns à primeira geração de emigrantes portugueses. Bem sucedido profissionalmente e reformado, instalou-se na Florida onde, dizem, o verão nunca acaba. E terá sido aqui, com tempo e vagar, que  começou a escrever sobre as suas memórias, a guerra, a emigração, a vida quotidiana. E a viajar, de autocaravana,  pelasgrandes estradas da grande América .  

Tem 273 referências no nosso blogue, sendo autor de 4 séries (e colaboração noutras):

  • Do Ninho d'Águia até África (de julho 2012 a março 2013 (60 postes)
  • Bom ou Mau tempo na Bolanha (abril 2013 / janeiro 2015) (84 postes)
  • Libertando-me (janeiro 2015 / janeiro 2016 ) (50 postes)
  • Atlanticando-me (janeiro 2016 / outubro 2016) (14 postes)

Ele tem sido o nosso cicerone da América, e um dos cronistas da diáspora lusófona.  Mas também da Mansoa,  região do Oio, Guiné,  de há 60 anos atrás, nos primeiros anos de guerra.

(...) "A minha estadia na guerra da Guiné deu-me experiência e força anímica, para me adaptar a um país como os Estados Unidos, onde a princípio é difícil superar todas as anomalias que nos surgem, como a língua e os costumes. Quando aqui cheguei,  com trinta anos, com responsabilidade de família, fui para a escola como uma criança de seis anos, frequentei a escola, até  tirar classes na universidade, para me graduar profissionalmente, lavei carros, e tive os trabalhos mais pesados e sujos que havia. 

Os meus filhos têm cursos superiores. Foi difícil para qualquer pessoa, mas eu tinha sobrevivido à guerra da Guiné!. Portanto,  estava preparado". (...)

2.  Voltámos a ter notícias suas, através do Carlos Vinhal (*). Vale a pena comentar:

É um sentimento "esquisito", contraditório: a comunidade lusófona na América, que emigrou para a aquele país, depois de ter pago do "imposto de sangue", como o Tony Borié, regressado da Guiné em 1966...

Pertencem a dois mundos, os nossos luso-americanos. O texto, irónico, do Tony Borié toca num ponto profundamente humano e doloroso: a desvalorização do nosso sacrifício como antigos combatentes em nome de um símbolo (uma pátria, uma bandeira que, depois, não reconheceu quem lutou por ela). 

Já o padre António Vieira, em meados do séc. XVII, glosava o tema da do "patriotismo" e "ingratidão da Pátria":

"Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma"! (in: Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma, 1669).

É uma ferida aberta para muitos de nós, antigos combatentes, tanto em Portugal como na diáspora lusófona...


A bandeira é o mesmo símbolo, não mudou de cores, mas o contexto é radicalmente diferente, quando o Tony põe em comparação a seleção de futebol, que chega a Palm Beach, Florida, para disputar o Campeonato Mundial de Futebol (11 de junho -19 de julho de 2026): 

(...) "O avião que trazia a seleção de futebol de Portugal, já aterrou próximo do local onde vivemos e…, nós quando ainda jovens, também oriundos da Europa, com uma educação de aldeia, onde os princípios honestos de família vinham de há séculos, vendo todo este cenário de jovens milionários vestidos a rigor com o emblema da bandeira nacional, carregando luxuosas malas, desembarcando sorridentes, alguns até faziam “caretas” e acenavam querendo talvez “pôr faladura”, fez-nos mais uma vez compreender que todos os sacrifícios que passamos defendendo esta mesma bandeira mas em cenário de guerra, infelizmente, foram em vão". (...)

Ou visto o filme em termos simplistas e redutores;

(i) de um lado, "eles" (os jogadores da seleção nacional), desembarcando na sala VIP como heróis temporários, celebrados, com o país a vibrar por antecipação com as suas esperadas vitórias; o seu "imposto" é o suor, a disciplina, a pressão mas também a glória efémera (... e  os milhões);

(ii) do outro lado, nós, os antigos combatentes, desembarcados  há mais de 50 anos  em África com o peso da responsabilidade, da morte à espreita, e regressados com o estigma do silêncio; o nosso "imposto" foi o sangue, o medo, a incerteza de um futuro que nunca chegou a ser promissor e que nos levou, a muitos de nós (como o Tony) aos duros caminhos da emigração. 

E, pior, com a sensação de que a Mãe-Pátria  nos tratou não como filhos, mas como enteados... E nos virou as costas.

E tudo isto, porquê ? Para quê ? Não há respostas simples para perguntas complexas...

A guerra foi sempre tabu, antes e depois do 25 de Abril...  Foi um trauma mal resolvido; o 25 de Abril trouxe os 3 DDD, a democracia, o desenvolvimento, a descolonização. Pior ou melhor. Mas não trouxe (ou só mais  tarde, ou só muito mais tarde para a grande maioria) o reconhecimento aos que lutaram (800 mil, portugueses da metrópole, e africanos, muitos dos quais se consideravam portugueses).  

O país preferiu virar a página da guerra sem nunca abrir e ler... o capítulo.. Somos os heróis anónimos ( e incómodos ) de uma história que ninguém quer ler (ou sabe ler).

Não sei se não seria melhor fechar o blogue durante o mês e tal em que o futebol já está a entrar pelas nossas casas dentro "ad nauseam" (**).

É a nova versão do "pão e circo" que nos vem dos nossos colonizadores romanos, os do império dos mil anos. Escravizaram-nos, aos antepassados lusitanos, roubaram-lhes a alma, o corpo, a língua (ninguém sabe sequer qual era a língua que falavam, o nosso português é um produto do colonialismo romano).

A bandeira tem sido utilizada como fetiche, talismã... A bandeira é fácil de agitar nos estádios, nas festas, nas paradas, nas comemorações,  etc., mas é incómoda quando associada à guerra (e à morte). É mais cómodo celebrar o futebol do que enfrentar o passado, a história, o lado mais sombrio do passado, da história.

Somos  uma geração sacrificada que pagou o preço de um império em colapso, sem ter tido voz na decisão. E, quando passámos por baixo da ponte sobre o Tejo, a Pária já olhava para nordeste, ou fingia que olhava, de cu virado para o Atlântico,  os olhos postos nos Pirinéus, em Bruxelas, na Europa... Encerrava-se um ciclo de 500 ou 600 anos...

O Tony Borié tem razão: não havia futuro para nós. Nem uma mísera medalha de cortiça. Aliás, nada nos prometeram em troca. E agora, na América ou em Portugal, somos  uma ponte entre dois mundos: o passado, a Guiné, a guerra, a juventude perdida, os camaradas que não regressaram; o presente, um país que nos ignora, uma diáspora que tentou reconstruir a vida, longe da Pátria, mas com a sombra da desilusão.

Mas há uma coisa que o Borié não diz explicitamenmte, mas deixa antever: a nossa história não foi em vão. Não pela bandeira, não pela Pátria, não pelo Estado, mas por todos nós. Pelos que sobreviveram, pelos que contam as histórias, pelos que transformam as memórias doridas em palavras, em  imagens, em livros, em blogues, em sítios na Net...
 
Fica, por fim,  o apelo, o desafio do Tony, lúcido e fraterno, nos lança: "Por favor, protejam-se"... É um aviso mas também um mimo. É como se dissesse: "Não esperemos que o mundo nos faça justiça. Cuidemos uns dos outros, porque ninguém mais o fará.  Sejamos nós a contar as nossas histórias antes que apareçam os vendedores da banha da cobra a contá-las por nós".

E, no entanto, a bandeira continua a ser a mesma... Com  as mesmas cores, os mesmos símbolos...

Guiné 61/74 - P28100: Convívios (1069): Até amanhã, às 11h00, temos de chegar aos 40 (a zero)... 5ª feira o "jogo principal" do nosso campeonato é no Restaurante Caravela De Ouro, Algés (Manuel Resende, régulo da Magnífica Tabanca da Linha)




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto e fotos: Manuel Resende

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



Lista provisórias dos insvritos (até ontem, domingo, 14)


1. Mensagem do régulo da Magnífica Tabanca da Linha:

Somos 33 resistentes, mas queria chegar a 40, pois o limite para as salas são: menos de 40 sala de baixo, mais de 40 salão de cima. Vamos a ver o que se consegue.
 
Ah!,… e as inscrições acabam terça feira às 11 horas, hora a que tenho de dizer quantos somos. Já sabem que no próprio dia, mais um menos um, não faz diferença.

Abraço a todos e até quinta-feira.

PS - Apelo aos novos membros da Magnífica Tabanca da Linha, recentemente integrados, e de que eu não tenho contactos... que se inscrevam para o nosso convívio do dia 18. Como deverão saber têm de "picar o ponto" para serem considerados , definitivamente, "MAGNÍFICOS".
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 8 de junho de 2026 Guiné 61/74 - P28083: Convívios (1068): Magnífica Tabanca da Linha: 65º almoço, em Algés, 18 de junho quinta feira...Ainda há 77 vagas... até ao dia 15, segunda feira (Manuel Resende)

domingo, 14 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28099: Facebook...ando (97): A Bandeira continua a mesma, mas existe uma enorme diferença de tratamento (Tony Borie, ex-1.º Cabo Op Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66)


Companheiros ex-combatentes,
O avião que trazia a seleção de futebol de Portugal, já aterrou próximo do local onde vivemos e…, nós quando ainda jovens, também oriundos da Europa, com uma educação de aldeia, onde os princípios honestos de família vinham de há séculos, vendo todo este cenário de jovens milionários vestidos a rigor com o emblema da bandeira nacional, carregando luxuosas malas, desembarcando sorridentes, alguns até faziam “caretas” e acenavam querendo talvez “pôr faladura”, fez-nos mais uma vez compreender que todos os sacrifícios que passamos defendendo esta mesma bandeira mas em cenário de guerra, infelizmente, foram em vão.

…Porquê? Porque “sem qualquer inveja de velho rabujento”, na verdade existe uma enorme diferença de tratamento. Nós e vós também, também desembarcámos em África, saindo dos porões dos navios da guerra colonial, com um saco contendo as roupas de combate às costas e vestidos de camuflado, com uns míseros trocados no bolso e…, sem qualquer futuro, porque em qualquer momento, uma bala ou um fornilho, faziam com que a família lá na Europa, fosse informada por uma simples carta de que…, já não fazíamos parte da lista de pessoas vivas.

…Também compreendemos que eram outros tempos mas…, a bandeira continua a mesma e…, qual a razão porque o governo tanto nos ignora?

Por favor, protejam-se.

Tony Borie

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Nota do editor

Último post da série de 16 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27536: Facebook...ando (96): No Star Club, Reeeperbahn, Hamburgo, fevereiro de 1967... (António Graça de Abreu)

Guiné 61/74 - P28098: Blogpoesia (813): "Ouço o silêncio", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© Adão Cruz


OUÇO O SILÊNCIO

adão cruz

Ouço o silêncio dos olhos
que se fecham na falta de esperança.
Amo o silêncio das cores vivas
e do sonho que nos tece a alma entre a vida e a morte.
Dói-me o silêncio negro dos gritos proibidos
e sinto o dourado silêncio dos gestos da noite
que nos abrem os olhos.
Amargo o silêncio das horas sem brilho
e vivo o silêncio do mar
que risca na areia a força vencida.
Assumo o silêncio sagrado da liberdade e da vida
e o silêncio de um céu de fogo
que nos abre a cova na terra fria.

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Nota do editor

Último post da série de 9 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28005: Blogpoesia (812): "A Mulher Grande lá do Canchungo", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (2)

Guiné 61/74 - P28097: Tabanca Grande (582): Isaías Teles, superintendente da PSP, na situação da reforma, grão-tabanqueiro nº 915: uma viagem em 2018 para ir "partir mantenhas" com o régulo e as gentes do Saltinho


Isaías Teles, foto de Carlos Ricardo (2013)


Isaías Teles, alf inf, CCAÇ 1591, Mejo, 1967

Fotos (e legendas): © Isaías Teles (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 
1. O superintendente da PSP, na situação de reforma, ex-alf  mil inf, CCAÇ 1591 (Mejo, Aldeia Formosa e Buba, 1966/68), é o nosso novo grão-tabanqueiro, nº 915 (*). É também membro da Magnífica Tabanca da Linha. E é o presidente da direção, desde 2013, do Núcleo de Oeiras / Cascais da Liga dos Combatentes. 

Para completar a sua apresentação à Tabanca Grande, publicamos hoje o relato de sua viagem à Guiné-Bissau, efetuada em 2018, em que foi acompanhado do seu amigo e camarada Carlos Clemente, cor inf ref, ex-cmdt da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72). 

A ideia de voltar à Guiné havia surgido cerca de um ano antes no decurso de um almoço que juntou, entre outros, o Carlos Clemente e o Suleimane Baldé (1938.2025), régulo de Contabane, ex-1º cabo do Pel Caç Nat 53 (1968-1974), filho por sua vez do régulo Sambel Baldé (**). 

Foi nessa altura, por volta de 2017, que o Isaías Teles conheceu o Suleimane Baldé, entretanto falecido em 2025, e que passou a integrar a nossa Tabanca Grande a título póstumo.


Partir Mantenhas com o régulo e as gentes do Saltinho, em 2018

por Isaías Teles
 








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Notas do editor LG:


sábado, 13 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28096: Os nossos seres, saberes e lazeres (736): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (257): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Foi quase uma visita de médico a Bérgamo, mas muito gostei de rever a Piazza Vechia e todo o seu belo património circundante, não faltam por ali reminiscências venezianas, basta pensar na Capela do Condottiero Colleoni, que era veneziano. Para ser sincero, o que me encheu a alma foi voltar a deslumbrar-me com a Basílica de Santa Maria Maior e sentir a Bérgamo Alta como um território de eleição, bem merecedor de uma visita mais cuidada, mas o tempo urgia, impunha-se tomar o comboio até Milão e partir para Linate e daqui para Tirana, o meu destino, fica uma enorme vontade de voltar, até porque toda esta região bergamasca está rodeada de magníficos recantos, como Cremona. Mas por ora não há que suspirar por esses tempos futuros, não escondo a muita curiosidade pela viagem que tenho pela frente, a partir do fim da tarde de hoje, acho que se fez bem em passar dez dias por metade da Albânia, há para ali valioso Património da Humanidade que merece uma visita cuidada, oxalá eu possa reter imagens merecedoras do vosso interesse.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (257):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 2


Mário Beja Santos

O meu destino é a Albânia, mais concretamente arribar à capital, Tirana, e descer até ao sul, a chamada Riviera albanesa, indo percorrendo lugares de rico património. Tirando as excursões das agências de viagens, não há voos diretos de Lisboa para Tirana. Impunha-se estudar as rotas alternativas e apostar na menos dispendiosa. Assim se tomou a decisão de sair de Lisboa até Bérgamo, ao romper da aurora, estagiar algumas horas na cidade, apanhar o comboio na estação ferroviária até à estação central de Milão e daqui seguir para Linate, o voo para Tirana é ao fim da tarde, chega-se ao aeroporto já passa da meia-noite.

Tinha, pois, à minha disposição um bom par de horas em Bérgamo, era a segunda vez que voltava a esta belíssima cidade. A primeira estava relacionada com o casamento da minha filha mais velha, casou lá para a zona dos Alpes, acima de Bréscia, no dia seguinte o pai do noivo e eu levámos os pombinhos ao aeroporto de Bérgamo, seguiram para turismo tunisino. O sogro da minha filha revelou-se prestável, na véspera sugerira que passássemos o dia juntos, visitaríamos Bérgamo, o Lago de Garda, deixar-me-ia em Verona, onde eu dormiria, seguindo de manhã cedo para o aeroporto de Marco Polo, em Veneza, regresso a Lisboa. Em Bérgamo visitámos alguns dos monumentos de que vos vou falar, inopinadamente, deu-me a saber que queria que eu conhecesse o lendário teatro Donizetti, este fabuloso compositor era bergamasco, entrámos no teatro e ele anunciou que trazia um alto perito português em ópera, tinha vindo propositadamente à Itália para conhecer este teatro. Eu nem tugia nem mugia, ainda receei que me fizessem perguntas sobre a minha apregoada perícia, quem nos acolheu disse que era impossível ligar o sistema de luzes, o meu anfitrião insistia e voltava a insistir, depois de muitas exclamativas, quem nos acolheu lá se resignou e condescendeu em que visitássemos os camarins de cantores célebres, começámos pelo camarim Maria Callas, eu não escondia a alegria de ver aqueles espaços de figuras históricas do bel canto. Jamais esqueci esta situação parodiante de ser apresentado no teatro Donizetti com um alto perito que viera propositadamente de Lisboa para me maravilhar com a arquitetura de uma casa histórica da ópera. E ponto final quanto a este episódio humorístico. Sai-se da estação ferroviária e dá facilmente para perceber que Bérgamo tem duas situações orográficas distintas, a parte plana e a alta Bérgamo, é aí que estão os seus principais tesouros artísticos. Ou se apanha um funicular ou um autocarro, linha 1.ª, preferiu-se esta, saboreou-se o passeio, num ponto ermo ajardinado, bastou seguir os outros turistas, seguiram-se ruas bem antigas até se atingir a Piazza Vechia, onde sobressaem o Palazzo della Ragione, uma formosíssima torre-campanário e o Palazzo del Podestà, passa-se um arco, e estamos em frente da capela Colleoni, edifício do século XV, tendo ao lado a Basílica de Santa Maria Maior e a Catedral. Houvesse tempo e far-se-ia a visita às famosas muralhas venezianos de Bérgamo e à Academia Carrara, que guarda tesouros de valor inexcedível. É completamente interdito tirar fotografias na Capela Colleoni, vou desforrar-me na Basílica e na Catedral.


A imagem mostra a Piazza Vecchia na Città Alta (cidade alta) de Bérgamo, Itália, um local histórico conhecido pela sua arquitetura medieval e renascentista. Campanone: A torre sineira alta ao fundo é a Torre Civica, popularmente conhecida como "Campanone", construída originalmente no século XII pela família Suardi. Piazza Vecchia: Esta praça é considerada o coração da cidade antiga e historicamente abrigava o mercado principal.
Palazzo della Ragione localizado na Piazza Vecchia, em Bérgamo Alta. É considerado um dos edifícios municipais mais antigos da Itália, datando do século XII.
A fachada apresenta o Leão de São Marcos, um símbolo da República Veneziana que governou a cidade no século XV.

Bérgamo, fachada da Capela Colleoni, aqui está sepultado o condottiero veneziano Bartolomeu Colleoni
Entrada da Basílica de Santa Maria Maior
Como toda e qualquer construção monumental, tudo começou aqui no século XII, construiu-se um edifício romano, com planta de cruz grega, a grande abside tem outras absides laterais. O exterior que se pode ver na imagem anterior mantém o seu aspeto românico original, embelezado com portais góticos do século XIV, no interior, basta ver na imagem acima, há muitas transformações e daí a exuberância barroca, que nos deixa de boca aberta; não faltam tapetes, estuques, portais góticos, esculturas de leões, frescos do século XIV, tapeçarias flamengas, um espantoso confessionário que é uma obra-prima da escultura barroca, até lá está o túmulo do compositor bergamasco Gaetano Donizetti, de que atrás se fez referência; na Basílica pode ver-se um grande tapete de Luca Giordano alusivo à travessia do Mar Vermelho, episódio bíblico; e, claro está, é tudo uma questão de tempo, pode visitar-se o tesouro da Basílica, preciosas alfaias religiosas, esculturas medievais, ourivesaria sublime.
Tapeçaria flamenga alusiva à Crucificação
Magnifico confessionário que é obra-prima do Barroco com tapeçaria flamenga por detrás
Pormenor da grandiosidade de uma nave lateral
Outro pormenor do teto da nave lateral, é o esplendor do Barroco
Outra leitura do teto vendo-se ao fundo um pormenor da cúpula
Fresco antigo com diferentes representações, tendo na parte superior a leitura da Última Ceia
Pormenor dos esplendorosos tetos da Catedral de Bérgamo
Saindo da Basílica de Santa Maria Maior entra-se na Catedral de Bérgamo, aqui é a sede do Bispado. Tudo começou no século V, houve depois alterações no século IX e em inícios do século XII deu-se a transformação românica; a nossa catedral nasce em 1489, vem depois a grande transformação do período barroco. É um edifício opulento, quer as capelas laterais, quer o presbitério, quer o transepto norte, a nave e a cúpula. A escultura Barroca é soberba, temos cenas de martírios, esculturas de santos. Despeço-me com a imagem que procurei capturar no transepto apontando para a cúpula. Tudo grandioso, mas é este o meu humilde ponto de vista, é uma majestade com acanhada espiritualidade.
As muralhas venezianas de Bérgamo, Património da Humanidade

Está na hora de voltar à estação ferroviária e partir para Milão. Vou voltar ao vosso contacto amanhã, quando me lançar no centro histórico de Tirana, a partir de amanhã tenho um pedacinho da Albânia por minha conta.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 16 de maio de 2026 >
Guiné 61/74 - P28025: Os nossos seres, saberes e lazeres (735): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (256): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 1 (Mário Beja Santos)