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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Terá sido uma exposição esplêndida, uma oportunidade em conhecer o espólio deste fotógrafo que tinha estabelecimento em Bissau e que se revelou particularmente ativo na governação de Spínola. Este espólio tem a sua história que aqui se conta, uma técnica conceituada, Catarina Mateus, reflete sobre questões de acesso, legado e poder colonial, para nos lembrar a exiguidade de recursos, daí poder dizer-se que deste espólio monumental só se conhece um vislumbre. Foi convocado o historiador Pedro Aires Oliveira para contextualizar a governação de Spínola, nela mergulhou este fotógrafo, registando um sem número de eventos. Deixamos para o texto seguinte as considerações das curadoras da exposição do que foi organizar a partir do Arquivo esta exposição de que resulta este livro/catálogo que conheceu uma edição muito magra, trezentos exemplares.

Um abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro de Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

A então colaboradora técnica deste arquivo, Catarina Mateus, depõe no livro/catálogo: que tomara conhecimento deste espólio em 2025, pois na altura integrava uma equipa que se ocupava da identificação e diagnóstico do vastíssimo acervo fotográfico do Instituto de Investigação Científica Tropical; no ano seguinte, em 2006, iniciaram-se os tratamentos às coleções.
“Foi neste contexto que o espólio de Álvaro de Barros Geraldo (ABG) foi integrado no Arquivo Histórico, analisado e diagnosticado. Estima-se um acervo de 82.300 fotografias, maioritariamente negativos em película de 120mm e de 35mm, e um conjunto de slides e provas de contacto, para além de uma pasta com documentação impressa e recortes de imprensa. Excetuando estes últimos, todos os negativos se encontram embalados em envelopes de papel, devidamente identificados, que por sua vez, se encontram em caixas de cartão distribuídas por ano. Documentam uma década de trabalho deste fotógrafo que, estabelecido com uma casa comercial de fotografia na Guiné-Bissau a partir da década de 1950, acompanhou de perto as movimentações políticas sociais e culturais, que registou entre os anos de 1966 e 1974.”

Porventura e atendendo a estas datas, convidou-se o historiador Pedro Aires Oliveira a depor sobre a governação de Spínola na Guiné, de algum modo ABG colaborou para a sua imagem, as suas fotografias aparecem na publicação Voz da Guiné e tratadas em meio local. O historiador procura dar sentido histórico à ação desenvolvida por este governador, apresentada em inúmeras fotografias. Instalado em Bissau, a partir de finais de maio de 1968, foi delineando o seu plano de contrassubversão, plano esse sistematizado através de um conjunto de Diretivas do Comando-Chefe.

Em Lisboa, recebe-se um diagnóstico por ele escrito que era devastador, relevava a desmoralização das forças portuguesas, a deficiência no campo das informações e à forma como o dispositivo militar se encontrava organizado – dispersão excessiva em aquartelamentos sujeitos à flagelação persistente do inimigo; para inverter este estado de coisas, o Comandante-Chefe recria uma mais completa unidade de comando (uma maior concentração de todas as competências operacionais) e pedia meios compatíveis para reequilibrar o estado da guerra, atendendo à notória falta de armamento e equipamento dissuasor. Vieram helicópteros Alouette III, equipamentos de transmissões, reforços para a Marinha, uma expansão da estrutura local da PIDE/DGS, ao mesmo tempo que se criava um novo serviço de informações.

Pedia inovações e obteve-as: a preparação dos efetivos a realizar no final da especialidade passariam a ser feitos na Guiné; e acentuou a africanização do recrutamento, deu-se ênfase a tropas de elite guineenses, envolvendo comandos, fuzileiros e tropas especiais. Na linha dos ensinamentos da guerra contra subversiva, foi criado o programa Por uma Guiné Melhor, criaram-se aldeamentos, diques, escolas, melhoraram-se as estruturas habitacionais, algumas destas com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian; a ação psicossocial e da propaganda ganhou novo fôlego, com o uso do panfleto, do cartaz, dos materiais audiovisuais, da fotografia, sobretudo, da rádio, esta passou a ter emissões em línguas nativas.

É evidente que tudo isto é matéria consabida, por muito carisma pretoriano que acompanhasse toda esta ação, como observa o historiador, acabou num beco sem saída, Marcello Caetano recusou-lhe a negociação com a força nacionalista, deu mesmo a entender que não era forçoso que os exércitos vencessem em todas as circunstâncias, o que veio agitar o fantasma da União Indiana, em que o regime encontrou os seus bodes expiatórios.

E assim passamos do Arquivo à exposição e a olhar o espólio de ABG como uma indeclinável fonte documental relevante. O texto de Inês Vieira Gomes e Catarina Laranjeiro, intitulado do Arquivo à Exposição: Guerra Colonial, Revolução e o Espólio de ABG retoma as considerações de Catarina Mateus, a então conservadora de fotografia do Arquivo Histórico Ultramarino.

“Mostrar este espólio no contexto das comemorações dos 50 Anos do 25 de abril pareceu-nos extremamente pertinente. Esta retrospetiva revela não só a importância histórica na guerra da Guiné-Bissau para as independências das ex-colónias portuguesas, mas também o seu papel central na própria Revolução de Abril. A Guerra Colonial continua frequentemente ausente daas comemorações do 25 de abril, como se se tratasse de um capítulo incómodo que o regime democrático preferisse manter à margem da memória pública.”

As autoras põem enfâse no número dos efetivos militares, lembram as obras plásticas produzidas, algumas delas entraram em sinergia com o período da exposição que decorreu no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Fala-se então do espólio:
“A parte da Guiné-Bissau no inventário do Arquivo Histórico pode ser subdividida em dois conjuntos temáticos. O primeiro é constituído por reportagens que documentam atividades sociais, políticas e desportivas. Incluem-se aqui receções protocolares, inaugurações de edifícios, visitas oficiais, procissões, atividades escolares, bem como atividades e operações militares. Nestes registos, destaca-se as exibições de armamento apreendido ao PAIGC, e a libertação de prisioneiros, entre outros eventos. Imagens de propaganda. O segundo conjunto insere-se no amplo desígnio de usos e costumes: retratos, danças ou outras expressões culturais, detalhes (penteados, tatuagens, roupas, acessórios). É evidente o modo como a fotografia foi apropriada no contexto colonial: homens e mulheres são fixados pela câmara como objetos etnográficos, captados num olhar que os classifica e os distancia, reiterando uma visão hierárquica e exotizante sobre as populações colonizadas. É notável a forma como ABG organizou o seu espólio.”

Veremos depois a biografia controversa e fragmentada de ABG, mostrando mais um acervo fotográfico das suas imagens.

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
João Egreja e Álvaro de Barros Geraldo na fronteira do Senegal, Pirada, 14 de junho de 1972
Ramadão, 27 de fevereiro de 1969
Congresso de Etnia Balanta, 22 de abril de 1972
Chegada do Duo Ouro Negro, 4 de novembro de 1969

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro

Guiné 61/74 - P28375: In Memoriam (587): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte II : O meu Natal de 1966, no Clube de Sargentos, na BA 12, Bissalanca







Foto nº  1A, 1B, 1C, 1D  e 1> Guiné > Bissalanca > BA 12 >  Comemoração do Natal de 1966 >  Clube de Sargentos > Sargentos da Base Aérea 12 e do BCP 12: em primeiro plano, do centro para a esquerda, o  1º srgt MMT Azevedo e o furriel  sou eu. Em segundo, plano, à direita, o "barista; à esquerda, camaradaa que já não consigo identificar.



 






Foto nº 2A, 2B, 2C 2 > Guiné > Bissalanca > BA 12 >  Comemoração do Natal de 1966 >  Clube de Sargentos > 

Em primeiro plano, da esquerda para a direita: (i)  o 1º srgt Telo, do BCP 12,  brincalhão de primeira; (ii) e pé o srgt Bergano, da Messe; (iii)  fur  Dâmaso (BCP 12), de bigode; (iii)  srgt pqdt  Coimbra; (iv) 1º srgt /MMT Azevedo; (v) barista. Os restantes elementos do grupo estão por identificar.

 





Foto nº 3A e 3 > Guiné > Bissalanca > BA 12 >  Comemoração do Natal de 1966 >  Clube de Sargentos > 

Primeiro plano, da esquerda para a direita, (i) (?); (ii)  srgt pqdt  Coimbra; (iii) srgt ajud Fróis (?);  (iv) O de pêra e canhangulo ao ombro (?); 

Em segundo plano, da esquerda para a a direiat: (i)  srgt pqdt Castanheira; (ii) 1 srgt SG Telo; (iii) srgt pqdt Coutada; (iv) 1º srgt MMT Azevedo; e (v) fur  pqdt  Dâmaso
 

Fotos (e legendas): © António Dâmaso (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].



1. O António Dâmaso (1940-2026), natural de Odemira,  membro da Tabanca Grande desde 26/7/2009, tinha à data da sua morte cerca de 4 dezenas de  referências no nosso blogue. Publicou diversos postes aqui e no blogue dos Especialistas da Base Aérea 12 (Guiné, 1965/74).

Estamos recuperar um ou outro poste que tem a ver com as relações, mais próximas, que ele mantinha com os nossos camaradas da BA 12, nas suas passagens pelo CTIG (1966/68, 1969/70 e 1972/74), e naturalmente com as tropas paraquedistas, a cujo batalhão pertencia, o BCP 12, como furriel e depois 2º srgt. (*)

Neste poste (Voo 904, de 9 de abril de 2009) ele recorda alguns dos camaradas que passaram com ele o Natal de 1966, no Clube de Sargentos da BA 12. Um dos muitos natais passados fora da família.

Recordações da Guiné: Natal de 1966, na BA 12, Clube de Sargentos

por António Dâmaso (1940-2026)


O BCP 12, além das três Companhias operacionais, tinha ainda uma 4.ª Companhia que
começou por se chamar CP (Companhia de Pessoal) e posteriormente CMI (Companhia de Material e Infraestruturas).

Cada Companhia era constituída pelos seus efectivos, no caso da CMI a sua constituição era a seguinte (n=58)



Como se pode ver existem cerca de 50 elementos de outras especialidades, que viviam o dia-a-dia dos páras e, como diziam alguns,  só lhe faltava saltarem para estarem totalmente integrados.

Tal como eles, eu que estive por diversas vezes integrado na CP/CMI / BPC 12, convivemos muito de perto com os Especialista da FAP e eles comigo, de modo que,  além da camaradagem existente nestes casos, havia algo mais que nas circunstâncias nos unia mais como família FAP.

Já falei aqui do 1º srgt MMT Azevedo que me acompanhou no sentido de conseguir peças para as viaturas do BCP 12, que tinham ido para lá já usadas do RCP, mais concretamente os Unimog 404. Íamos ao Serviço de Material do Exército, na Amura.

 Por cortesia os nossos camaradas mecânicos lá nos iam desenrascando umas peças usadas mas ainda com capacidade de fazer alguns quilómetros, a lei do desenrascanço, que a tropa mandava desenrascar.

Nos contactos na Amura, dava sempre direito a irmos ao bar, como toda a gente sabe, aquele calor provocava cá uma sede que só com “ bazucas” frescas a conseguíamos debelar, uns tinham mais poder de absorção que outros e alguns andavam sempre bem aviados, enfim, dizia-se que estavam apanhados pelo clima.

Para os camaradas Especialistas da BA 12, seguem algumas fotos da época, no Natal de 1966, com alguns,  vestidos a rigor, outros nem mais para menos. Talvez me possam ajudar a identificar os de que eu já não lembro o nome.
 
Saudações aeronáuticas
António Dâmaso
Odemira

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28374: In Memoriam (586): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte I: os 50 anos dos "brevetados" do 1º Curso de Paraquedismo Militar (1962-2012)

Foto nº 1 > Tancos > Escola de Tropas Paraquedistas > 25 de outubro de 2012 > Três pioneiros do 16.º Curso, eu,  a enfermeira Eugénia e o Nunes Ferreira (eu e ele viemos do RL 1 em Elvas).

Foto nº 2 >  Tancos > Escola de Tropas Paraquedistas > 25 de outubro de 2012 > As enfermeiras Eugénia Espírito Santo Sousa e Maria do Céu Pedro, irrandiando ternura.


Foto nº 3 >  Tancos > Escola de Tropas Paraquedistas > 25 de outubro de 2012 > Na Capela da Unidade na missa por alma dos que já partiram.

Foto nº 4 >  Tancos > Escola de Tropas Paraquedistas > 25 de outubro de 2012 > Porta de armas das TP, com o emblema do Exército

Fotos (e legendas): ©  António Dâmaso  (2012). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].


1. O António Dâmaso (1940-2026) (*), membro da Tabanca Grande desde 26/7/2009, tinha à data da sua morte  42 referências no nosso blogue. Publicou diversos postes aqui e no blogue dos Especialistas da Base Aérea  12 (Guiné, 1965/74). 

Vamos recuperar um ou outro poste que têm a ver com as relações, mais próximas, que manteve com os nossos camaradas da BA 12, nas suas passagens pelo CTIG (1966/68, 1969/70 e1972/74), e naturalmente com as tropas paraquedistas, a cujo batalhão pertencia, o BCP 12, como furriel e de+ppois 2º srgt

Oriundo de 1º cabo, tirou o brevet em abril de 1962 (16º Curso). Em 1966 era furriel e esteve ligado ao serviço de manuntenção auto, a "ferraugem", do BCP 12. Mas também foi operacional, como 2º sargento, na Guiné e em Moçambique. Já publicámos no nosso blogue (e estão publicadas também no blogue criado pelo Victor Barata, o nosso saudoso grão-tabanqueiro da FAP) algumas das  suas memórias da Guiné (anos de 1969 e 1973). 

O primeiro  texto que recuperamos, do blogue dos Especialistas da Base Aérea 12 (Voo nº 2552, de 14 de novembro de 2012)  é uma notícia do reencontro do pessoal do 16º Curso de Paraquedismo nº 16 (1962),  cinquenta anos depois, em Tancos (2012). 


Cinquentenário dos Brevetados em Paraquedismo Militar em 1962, Curso nº 16 


por António Dâmaso (1940-2026) 


Caros camaradas/companheiros de armas:

Alguns esqueceram-se que as Tropas Paraquedistas (TP) pertenceram por muitos e bons anos à Força Aérea Portuguesa, que o digam aqueles que,  não sendo paraquedistas, com eles prestaram serviço e viveram em harmonia com os Páras e, no que me foi dado observar nos vinte anos que lá estive, a sua colaboração foi excelente.

De início esteve o BCP (Batalhão de Caçadores Paraquedistas) com sede em Tancos Militar, posteriormente promovido a RCP (Regimento de Caçadores Paraquedistas), tudo isto debaixo da tutela do então Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Kaúlza de Arriaga. 

Este senhor foi o impulsionador das TP em Portugal e, dentro das mesmas, do Quadro das Enfermeiras Paraquedistas. Estas jovens,  sem serem aventureiras na aceção da palavra, aventuraram-se no altruísmo e na convicção de que,  na sua qualificação de paraquedistas, poderiam alargar o seu horizonte na sua prestação de cuidados de saúde a militares.

Enfrentaram novos horizontes, tiveram de fazer ver a muita gente que podiam competir com os homens, isto na altura em que todos os que se lançavam em paraquedas eram malucos.

Depois da introdução vamos aos factos:

Desde há seis anos que tenho promovido esforços junto de diversas individualidades no sendo de saber endereços dos meus camaradas de Curso, o 16º, só recebi negas. E por último através deste blogue dos especialistas da BA 12 (Guiné, 1965/74).

Gastei algum dinheiro em chamadas que não deram em nada, mesmo assim contribuí para a localização de vários elementos não só do meu Curso como de outros.

A União Portuguesa de Paraquedistas, organizadora do evento,  convocou os que teve acesso ao endereço e que ainda estavam vivos para comparecerem na cerimónia: uns não compareceram por motivos económicos, por estado de saúde e outros porque não quiseram, estamos num país “livre”.

No dia 25 de outubro de 2012, data do termo do último Curso de 1962, lá fui a caminho de Tancos levando comigo um vizinho que é do Curso a seguir ao meu. Quando chegámos,  conheci a maior parte dos presentes, exceto aqueles que depois de terem cumprido a sua obrigação militar se foram embora.

Dos 78 finalistas do meu Curso (16º), encontrei 10, alguns que não via há 48 anos. A salientar que englobados no meu Curso estão 5 Enfermeiras que complementaram os saltos na mesma altura, em junho de 1962:

  • Maria Amélia Reis de Morais (nº 1596)

Destas apenas compareceram duas, foi com emoção que as cumprimentei por ter sido instruendo de uma e posteriormente ter tido o privilégio de ter trabalhado com elas em prol da prestação de cuidados de saúde a militares da Força Aérea Portuguesa. Para mim apesar da morfologia da idade, continuam a ser aquelas jovens que conheci e com quem privei profissionalmente.

Com elas aprendi a prestar cuidados de saúde com dedicação, entusiasmo e empatia, nos mais de trinta anos em  que exerci.

O dia estava de aguaceiros, mas com algumas pequenas abertas. Levava a minha máquina fotográfica que, apesar de estar na garantia, pifou,  julgo que devido a pilhas, e  fui obrigado a desembolsar 19 Euros pelo conjunto da reportagem.

Este "voo" é dedicado às Enfermeiras Paraquedistas e demais camaradas de 1962. Seguem algumas fotos.

António Dâmaso, srgt-mor pqdt ref
Azeitão

(Seleção, revisão / fixação de texto, links,  negritos, título: LG)
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 Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de (*) Vd. poste de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28373: In Memoriam (585): António Dâmaso, SMor Paraquedista Reformado (12/6/1940 - †22/9/2026) das CCP 121 e 123 (Guiné, 1969/70 e 1972/74)

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28373: In Memoriam (585): António Dâmaso, SMor Paraquedista Reformado (12/6/1940 - †22/9/2026) das CCP 121 e 123 / BCP 12 (Guiné, 1969/70 e 1972/74)


IN MEMORIAM


António Maria Dâmaso (12 de Junho de 1940 - † 22 de Setembro de 2026)
SMor Paraquedista Reformado das CCP 122 e 123 / BCP 12 (Guiné, 1969/70 e 1972/74). Brevet nº 1555 (abril de 1962)

Foto (melhorada pela IA): Cadique, Naatl de 1972 


1. Ontem, dia 22 de Setembro de 2026, recebemos uma mensagem de Maria Costa, neta do nosso camarada António Dâmaso, participando a notícia do seu falecimento:

Boa tarde,
Venho com grande tristeza informar que o Sargento Mor António Maria Dâmaso, que já escreveu para este blog, faleceu esta manhã no Hospital das Forças Armadas.

Muito obrigada por terem dado voz ao meu avô.

Com os melhores cumprimentos
Maria Costa

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2. No mesmo dia foi enviada resposta à neta do nosso camarada:

Caríssima amiga Maria:

Foi com muita consternação que ficamos a saber da morte do senhor seu avô, o nosso querido camarada António Dâmaso.

Se quiser que dêmos os pormenores das cerimónias fúnebres do seu avô, envie-nos o mais cedo que puder para publicarmos atempadamente no Blogue.

Apresente a toda a família os nossos mais sentidos pêsames, e a certeza de que estamos solidários com a vossa dor.

Ao vosso dispor
Carlos Vinhal
Coeditor

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3. O camarada António Dâmaso, que agora nos deixou para fazer parte do Batalhão Celestial, apresentou-se formalmente ao Blogue em 26 de Julho de 2009, tendo participado uns dias antes, 20 de Junho, no IV Encontro Nacional da Tasbanca Grande, em Ortigosa.
Quinta do Paul, Ortigosa > IV Encontro Nacional > 20 de Junho de 2009 > Na foto: à esquerda António Dâmaso, ao centro António Martins de Matos e à direita António Graça de Abreu

António Dâmaso teve uma colaboração muito importante no Blogue com mais de 40 referências. Nas suas memórias ficamos a conhecer algumas operações levadas a efeito pelos Paraquedistas em território da Guiné. Também nos deu a conhecer atritos com a hierarquia castrense o que lhe valeram alguns dissabores na vida pessoal e porfissional.

33.º Aniversário em Gadamael Porto (12-07-73)
29.º Aniversário, Gabú, em 1969

Perante o falecimento do amigo Dâmaso, resta-nos apresentar o nosso pesar à família, assim como a nossa solidariedade e disponibilidade.

Como até esta hora não recebemos nenhuma mensagem com os pormenores das cerimónias fúnebres, não nos é possivel indicar o local, data e hora das mesmas.

C.V.

4. Informação adicional:

Apesar de estar reformado como sargento-mor de infantaria, e ter integrado o BCP 12, com três comissões de serviço na Guiné (1966/68, 1969/70 e 1972/74), o nosso camarada e grão-tabanqueiro António Dâmaso:

(i) tinha um curso de sargento enfermeiro tirado no NEFA1 (Hospital da Força Aérea) com a duração de 18 meses, equivalente a dois anos lectivos:

(ii) conforme OA n.º 45, 3.ª Série, pág. 579, exerceu  enfermagem no mesmo Hospital até 1981;

(iii) era técnico de radiologia também diplomado no Hospital da Força Aérea com o aval da Escola Superior de Saúde Pública (sic);

(iv) exerceu  radiologia no HFA e durante 26 anos no Centro de Saúde de Odemira (onde morava em 2008);

(v) colaborou também no blogue dos Especialistas da BA 12 (Guiné 1965/74);

(vi) em 2009 vivia em Azeitão, Setúbal:

(vi) de seu nome completo, António Maria Dâmaso, tirou o brevet em abril de 1962 (nº 1558 da lista) (curso de paraquedismo, nº 16);

(vii) fez as seguintes comissões de serviço no Ultramar:
  • Angola, de nov64 a jan 65, no posto de Cabo, ainda fez uma Operação em Vista Alegre na mata de Cambamba;
  • Guiné, de nov 66 a abr68, no posto de furriel na "ferrugem" (mecânico desampanador auto);
  • Guiné, de mar69 a jun70, no posto de 2.º sargento, na "ferrugem" e como operacional (BCP 12);
  • Moçambique, Nacala, de jun70 a Jul71 no posto de 2.º sargento, tendo tomado parte na Operação "Nó Górdio";
  • Guiné, de nov72 a ago74, como 2º srgt pqdt (BCP12).

Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro


Capa do livro de Rosalina Coelho Vaqueiro - "Coragem, Altruísmo e Fé". Lisboa: Chiado: Books, 2025, 540 pp.


1. Comentário de Rosalina Coelho Vaqueiro ao poste P28102 (*)

Muito grata ao Dr. Mário Beja Santos que teve a gentileza de referir aqui os meus "escritos" sobre a história de vida da minha querida amiga Geninha, essa pessoa extraordinária que tive a sorte de conhecer (*). 

Tentei transcrever o mais fielmente possível as histórias que a minha amiga me foi contando ao longo dos tempos, na minha forma simples de escrever.  

Era minha intenção trabalhar mais o texto e pedir a alguém que tivesse acompanhado a minha amiga nos tempos da guerra para fazer uma leitura crítica 

No entanto tudo isso implicaria muito mais tempo - meses provavelmente - até ter o livro pronto e eu queria que ela tivesse o prazer de ter a sua história em papel e poder oferecê-la aos amigos. 

Felizmente ainda fui a tempo (**). Mesmo internada no Hospital das Forças Armadas foi muito gratificante entregar-lhe o livro em mãos. 

Acrescento aqui que concorri a um concurso de biografias organizado por uma editora brasileira para os escritores de língua portuguesa espalhados pelo mundo e a história da nossa Eugénia agradou ao júri que lhe deu o 1º lugar. 

Não é um grande prémio literário, mas ainda assim, é gratificante para uma humilde "escrevinhadora" como eu.

Mais uma vez, muito grata pelas gentis palavras sobre o meu trabalho de escrita e a história da nossa extraordinária amiga.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026 às 14:41:09 WEST
(Seleção, revisão/fixação de texto: LG)
 

2. Sinopse do livro:


(...) Aos dois anos e meio fiquei sem mãe. Fui ao funeral ao colo de vizinhos e aquele povo ia passando a minha pessoa de mão em mão. Eu pensava que não devia chorar porque elas podiam arrepender-se de me tomar para criar. Desde muito cedo tive a percepção de que nada naquela casa pertencia-me. Elas davam-me tudo, mas eu sabia que nada era meu.

A partir de 1945 houve seca em Cabo Verde e eu vi pessoas morrerem de fome. O padre perguntou-me se cometia pecados das tentações da carne e eu não sabia o que isso era.


Subestimávamos o sono e a comida. O sofrimento da pessoa a ser evacuada não nos deixava pensar na fome. Dávamos o nosso tempo para tentar salvar vidas. Naqueles dias difíceis tínhamos que aguentar firme, encerrar o medo de morrer e não pensar.

Guiné 1973. Estava toda a agente a morrer e os aviões a cair. Todos os dias perdíamos algum colega ou piloto. As baratas davam-me a certeza de estar viva. Ao vê-las no meu quarto eu me beliscava falando baixinho: "Agora já sei que estou viva".

No avião, a ser evacuado para Lisboa o soldado, paralítico e sem sexo não queria ver a namorada e chorou agarrado ao meu pescoço. As minhas lágrimas juntaram-se às dele. (...)

(Fonte: Wook)


3. Sobre a autora: Rosalina Coelho Vaqueiro:


(i) nasceu em 1954, em Sesimbra!

(ii) tradutora, professora de inglês, correspondente de Línguas Estrangeiras;

(iii) em 2014 alcança o 2º lugar entre 1.265 concorrentes no Concurso Internacional de contos juvenis - "Prémio Cultural O Feiticeiro das Letras" no Brasil, com o seu conto "Feiticeira Maga";

(iv) em 2015 representa Portugal, como júri, no Campeonato Internacional "Troféu Corujão das Letras", no Brasil;

(v) é convidada para Júri no Concurso "Até que a vida nos separe" da Editora Papel D'Arroz;

(vi) em 2016 participa no II Encontro de Escritores brasileiros e portugueses, em Lisboa;

(viii) em 2023 é convidada a participar com oito poemas num coletivo de poesia das Edições Vieira da Silva, destinado apenas a 13 autores selecionados;

(ix) participa, como coautora, em mais de 80 Coletâneas e Antologias, de prosa e de poesia, de diversas editoras, em Portugal e no Brasil.

(x) em 2025 lança no mercado "Coragem, Altruísmo e Fé", a biografia de Eugénia Espírito Santo (uma das primeiras enfermeiras paraquedistas de Portugal, nascida em Cabo Verde, em 1935 e falecida em Sseimbra, em 2025).

(xii) foi a vebncedora do Prêmio Literário Clarice Lispector 2026 -  Melhor Biografia, "Coragem, Altruísmo e Fé"

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG) (***)

___________________


Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de


(**) Vd. poste de 4 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26763: In Memoriam (546): Eugénia do Espírito Santo Sousa, cap enf pqdt (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): era do 2º curso (1962) e passou pelos 3 teatros de operações

(***) Último poste da série > 21 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28366: Notas de leitura (1963): "Sobretudo a Agonia, Angola, Memórias de uma Guerra Íntima", por Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento, 2025 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28371: Historiografia da presença portuguesa em África (545): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (13): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Confesso que por vezes me maravilham as descrições do Capitão Brosselard, é verdade que estamos num período cultural que deu pelo nome de naturalismo, com um uso na literatura e nas artes plásticas de um especial relevo a todos os elementos de natureza, privilegiando a parte sensorial, a observação cuidada sobre as pessoas no seu meio, etc. O relato, como o leitor se apercebeu, é quase um diário, tem um especial destinatário, as autoridades que virão ou não a aprovar as decisões tomadas pelas comissões lusa e francesa. O que há a destacar neste texto é o exame que ele faz da beleza das Fulas, da ruína em que se encontra todo o Forreá, devido às guerras inter-étnicas e não deixa de nos assombrar o elogio que ele faz à tropa portuguesa em Buba. Dentro em breve os delimitadores irão para norte, iremos assistir ao adeus do Casamansa em português.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 13
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, a coluna francesa às ordens do Capitão Henri Brosselard desloca-se para a colónia portuguesa, estão definidas as fronteiras na região sul. Dotado de um grande espírito de observação, o oficial descreve travessias, riachos, florestas, populações. Veja-se o que ele nos diz dos Fulas em Kevel:
“No chão Fula, eles gozam, em geral, de pouca consideração. Têm o estatuto de rendeiros ou feitores dos chefes que lhes pagam em proteção. Os que temos encontrado não parecem mestiçados, como a maior parte dos seus congéneres, parece que preservam o seu tipo de origem. A sua cor é bronzeada (significa que se trata da sub-etnia Futa-Fula), cor do café ligeiramente queimado. As raparigas são graciosas, algumas são mesmo bonitas; os seus olhos grandes com longas pestanas pretas têm uma expressão de doçura incomparável; os seios têm uma forma notável; os seus membros são bem feitos, os seus braços têm as extremidades finas; as suas pernas são mais robustas que magras. As raparigas Fulas herdaram a beleza das suas ancestrais, mas elas são mais escuras; porém, conservam estes grandes olhos velados de negro que dão um delicado encanto à sua fisionomia.”

Continuando na primeira pessoa do singular:
Pelas nove horas, a vanguarda da coluna e os oficiais entram em Contabane. Esta povoação é a maior do Forreá, a sua povoação estima-se entre 1000 e 1500 habitantes, o povoado está situado na margem direita do rio Gounaba. Estamos nos últimos dias da época seca; os indígenas estão concentrados a fazer buracos para recolher uma água estagnada. Percorremos os dias seguintes para lá de Contabane, uma região coberta de povoados e bem arroteada (desbravada), infelizmente a situação política não permite ainda que se pratique o cultivo; pastavam por toda a parte manadas de bois e vacas. Os riachos são numerosos; correm em geral para o Combidiah (Cumbijã) que é um afluente entre o Cacine e o rio Grande de Buba, porque as suas nascentes (?), que fizemos o reconhecimento, são muito mais a leste que as do Cacine. Todos estes riachos estão rodeados de bosques impenetráveis com árvores de grande porte.

A 23, acampámos perto de um riacho vizinho de Guidali e esperávamos chegar a Buba no dia seguinte. O Sr. Oliveira seguia-nos com um dia de atraso, com a sua coluna.

Para retemperar as forças dos homens da nossa coluna, os cozinheiros estiveram ativos toda a noite e confecionaram uma pantagruélica refeição de arroz e cuscuz, a que se juntou carne de vaca. Come-se à luz das fogueiras e pelas cinco da manhã pomo-nos em marcha. Hoje o despertar teve lugar antes da hora, devido à invasão de formigas que queriam tomar conta de tudo.

Atravessámos uma povoação de nome Kolibouïa onde ficámos surpreendidos por encontrar casas construídas à europeia, mas que estavam em ruína. Foram outrora a residência de comerciantes que abandonaram a sua atividade no Cumbijã, como outros abandonaram Cacine e o rio Grande de Bolola.

Continuámos a nossa marcha na direção de Bolola. Esta povoação compõe-se de muitos grupos de casas; cada grupo está rodeado de uma dupla proteção de vimes entrançados numa malha apertada; cada grupo forma uma pequena cidadela e estas cidadelas têm entre elas posições de defesa. Estas cidadelas estão dispostas em terreno descoberto e circunscritas de um lado, ao alcance de tiro de espingarda, por uma curva de riacho que o mato denso torna intransponível. Outros pontos de defesa estendem-se pela floresta, desbravada e ao alcance do tiro de espingarda, mas dificilmente praticável para lá da orla. Só se pode chegar por campo aberto através do caminho de Buba ou o que vai para Kolibouïa.

Perto de Bolola encontramos o nosso amigo Mahmadou-Paté, no meio do exército que ele já exibira em Simbéli. Os guerreiros conversam em círculo, sentados no chão, a espingarda sobre as pernas. Apesar da insistência do rei, que queria que ficássemos mais tempo, continuámos para Buba e após uma marcha rápida facilitada pela natureza do caminho atingimos o rio Grande de Bolola.

Estava maré-alta, era imprudente, na ignorância dos lugares onde se podia passar a vau, atravessá-la. Do ponto onde nos encontrávamos apercebemo-nos que a 2Km a montante do rio estavam os telhados de Buba. Para se pedir uma embarcação era preciso chamar a atenção do comandante da Praça ou dos habitantes da outra margem. Fez-se uma grande fogueira, arderam à mistura árvores enormes e três atiradores deram tiros para o ar, regularmente espaçados para fazer saber que era um sinal europeu.

Inesperadamente, e para nossa total surpresa, vimos os negros de Buba acorrer da outra margem, armados de catanas e espingardas. Chegam pela margem a 200 metros onde nós descansávamos à sombra das árvores. Agrupam-se, falam entre si e precipitam-se sobre nós lançando gritos que parecem ameaçadores, vêm em direção dos nossos atiradores. Estes, um tanto embaraçados, preparam-se para ripostar a tiro; nós apressámo-nos a chamá-los, batem em retirada, gritando aos outros que não vínhamos fazer guerra, precisávamos simplesmente de uma embarcação. Enfim, os outros chegam e cercam-nos, parecem hostis. Para grande surpresa nossa vem o atirador Semba d’Yaye anunciar que tudo estava esclarecido.

Os Biafadas temiam tratar-se de um ataque dos Fula-Cundas, estavam agora esclarecidos da situação e os nossos inimigos do momento ofereceram-se para atravessarmos às suas cavalitas o rio e levar-nos a Buba. Aceitámos tal proposta como uma solicitude. Havia muita água no rio e a travessia fez-se com uma certa dificuldade. Depois da travessia examinámos a indumentária bizarra destes guerreiros, na sua maioria vestidos de calções de cores berrantes e camisas onde predominavam o vermelho, o amarelo e o verde.

Tendo mudado muitas vezes de carregadores, conservámos sobre as nossas calças brancas a marca de uma série de cores variadas, o que comprova a má qualidade do tingimento dos tecidos de que são feitas.

O comandante Buba, a que não se explicara o que se estava a passar, pusera a tropa de prevenção. Logo que se apercebeu da nossa chegada, veio até nós e introduziu-nos na Praça.

A postura irrepreensível deste oficial fazia um contraste singular com a nossa. Os soldados estavam no seu posto de combate, os artilheiros ao pé das peças, prontos a fazer fogo. Podemos apreciar a disciplina e a compostura das tropas portuguesa. Não me poupei a elogios.

Buba foi uma escala perfeita quando a mancarra estava plantada em toda a região. Hoje o comércio só existe para satisfazer as necessidades locais. Há algumas casas construídas ao modo europeu, mas estão abandonadas e em estado de ruína. O aldeamento indígena conta com 150 moranças e 600 habitantes.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Tipo Serere, desenho de Thiriat, segundo uma fotografia
Edição da Nova Geografia Universal, de Élisée Reclus, 1887, de onde se retiraram as imagens abaixo
Imagem da Guiné retirada da obra de Reclus
Imagem das populações à volta do rio Geba, retirada da obra de Reclus
Tipo Fula, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia da coleção Bayol

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 16 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28370: Parabéns a você (2528): Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto do CMD AGR 16 (Mansoa, 1964/66)

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Nota do editor

Último post da série de 21 de Setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28364: Parabéns a você (2527): José Macedo, 2.º Ten Fuz Esp da RN (DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28369: Retalhos da vida militar (10): As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Guiné > Região do Oio > Jumbembem > CART 730 (1965/67) > Estes eram meninos de Jumbembem que eu gostava de ensinar.
Foto: © Artur Conceição


1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:


As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão

Tendo em conta vários factores, este episódio terá acontecido em novembro de 1965 em Jumbembem. A CART 730 chegou à Guiné em outubro do ano de 1964. Era prática ao fim de um ano de Guiné vir de férias à Metrópole. Esta prática não era uma prática geral, mas era prática para Oficiais e Sargentos. Para as praças era muito rara, era quase exclusiva para os contemplados com o chamado Prémio do Governador Geral da Guiné, atribuído por actos valorosos de alguns militares.

O comandante da CART 730, Amaro Rodrigues Garcia, encontrava-se de férias na Metrópole e o comando da CART 730 estava entregue ao Alferes Francisco Miranda Ferreira, que penso que tal como o Alferes Orlando Valdez já terá falecido, por ser o mais antigo dos oficiais presentes. Tinha sido o dia mensal da ida a Farim para buscar os mantimentos para o mês. Acontece que, por acaso, naquele mês vinham algumas galinhas que não ultrapassariam a dúzia. Perante quantidade tão reduzida não faria muito sentindo irem para o rancho geral das praças.

Assim foi decidido por quem tinha poderes para o acto, de que as galinhas iriam ser consumidas nas Messes dos Oficiais e dos Sargentos.

Quando as Praças tiveram conhecimento da decisão que havia sido tomada, resolveram apresentar o seu protesto.

Ao final da tarde, já depois de todas as galinhas terem regressado ao seu poleiro, resolveram saltar para cima dos Unimogs e durante mais de uma hora fizeram uma serenata junto das Messes. Para o efeito foi utilizada a música e letra de uma canção muito usada ao tempo e que era cantada pelo Conjunto de António Mafra.

Ho senhora Marquinhas olhe que suas galinhas fugiram do capoeiro.
Ho senhora Marquinhas cuidado com as suas galinhas porque o meu galo é solteiro

__________

O Alferes Francisco Ferreira, sobre quem caía toda a contestação, refugiou-se no Posto de Rádio e aguardou que os ânimos se acalmassem.

O Alferes Ferreira era uma excelente joia de pessoa e toda a Companhia gostava muito dele. No dia seguinte tudo tinha passado e as galinhas foram consumidas de forma pacífica.

Toda a Companhia tinha muita consideração pelo Alferes Chico Ferreira, mas confesso que tive pena dele quando o vi perante uma situação que não era de perto nem de longe invejável.

Quero deixar aqui mais uma memória que eu encontrei.

O nome do criador deste espaço tem a afinidade com o meu nome. Senão vejamos:
O nome Luís Henriques Graça, filho do Henrique e da Graça tem alguma afinidade com:

O nome Artur António da Conceição, filho do António e da Conceição.

O meu padrinho, Hipólito Fernandes Nogueira, que já vai a caminho dos 95, que esteve prisioneiro na Índia, ainda hoje quando vê o seu primeiro afilhado que adquiriu logo aos 10 anos, ainda exclama, olha o Artur do António e da Conceição!

Artur António da Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
Diácono das praças da CART 730
Em 7-9-2026

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Nota do editor

Último post da série de 8 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28332: Retalhos da vida militar (9): Couves para a Ceia de Consoada (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Guiné 61/74 - P28368: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (20): a "Venda" na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX - Parte II: Neorrealismo (Manuel da Fonseca, Alves Redol, Fernando Namora)

 























Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Em todas as nossas terras havia uma venda, ou pelo menos uma taberna.  Multifunções na aldeia:  mercearia; drogaria;  loja de bugigangas, tachos e panelas; carvoaria;  casa de comida ou  de pasto; pensão, hospedaria (de beira de estrada),  etc. ... Mais especializada na vila, onde  havia mais oferta e maior número de estabelecimentos comerciais.  Mas, em geral, a taberna também é casa de comida, de petiscos , etc. O taberneiro não podia viver só dos " copos de três"... 

  No seu romance,  "3 x 44: Abel e Caim en Contrapé"  (Porto: Vida Económica, 2026, pp.33-36), o António Carvalho tem uma primorosa descrição da "venda da igreja", no lugar de "Emendadas" (leia-se: Medas, Gondomar), em plena II Guerra Munidal.

 Para além da função comercial (estabelecimento onde os aldeões, os vilões e até os viajantes se abasteciam do que precisavam para a sua subsistência ou viagem), a venda (misto de taberna, merceria, casa de pasto e até hospedaria) era um local de socialização por excelência. E um dos raros espaço de liberdade ou de evasão, naquela época, no Portugal provinciano do Estado Novo.

Era um espaço masculino, tal como a igreja e o lavadouro público eram territórios femininos. A mulher não entrava  na tasca, mandava o filho mais velho fazer alguma compra de  última hora. "In extremis" , entrava na tasca para trazer para casa o homem com vinho a mais.

A minha terra, uma vilória do Oeste, teria uma meia dúzia de tabernas, quando eu era puto: umas evoluiram, outras extinguiram-se.  O cheiro a sarro, a serradura no chão, a peixe frito, a vomitado e  a lixivia ainda está "entranhado" nas minhas memórias de infância... 

Uma das últimas, que eu frequentei, com o jornal diário ("Diário de Lisboa") ou um semanário ("Comércio do Funchal" ou " Notícias da Amadora") e um livro debaixo do braço, já depois de vir da Guiné, em 1971, era a "Taberna do Macaco". 

Era uma tasca icónica, e também casa de pasto, conhecida, ironicamente, por "Sociedade de Geografia", por nela ter assento a "nata" local dos "colarinhos brancos", a pequena burguesia do funcionalismo público  (câmara municipal, tribunal,  finanças, conservatórias, grémios, etc.). Funcionava como tertúlia, ao fim da tarde, depois de fecharem os serviços. Também servia de escritório para os solicitadores...

A expressão, "Sociedade de Geografia",  é atribuída a um poeta local, o saudoso Mariano Vicente (1917-1977), homem de fino trato, de verbo fácil,  autodidata,  que era contabalista da firma José Maria Carvalho, e  que foi escritor, jornalista, poeta de talento, e um dos raros lourinhanenses que se assumia publicamente como figura da oposição democrática local. Seria depois autarca a seguir ao 25 de Abril.  Infelizmente morreu cedo,  aos 60 anos.

O topónimo, "Taberna do Macaco", advinha-lhe da existência de um pobre babuíno ("macaco-cão", no crioulo da Guiné), trazido por antigo combatente  lourinhanense, no regresso da guerra de Angola, logo no início. 

Do alto do seu poiso, numa trave de eucalipto, o bicho assistia a acaloradas partidas de chinquilho, jogatanas de sueca ou de bisca, e também a umas rodadas de "tinto", acompanhando os pratinhos de salada de polvo ou postas de moreia e de "arraial" fritas.

  Morreu no exílio e, por certo, de saudade dos cafezais do Norte de Angola, o macaco. E sem nunca ter ouvido discussões, em voz alta, sobre a guerra do ultramar, tema que era tabu.

Sem preocupações de sermos exaustivos, nem muito menos originais, vamos continuar a procurar referências literárias à "Venda" que, no séc. XX, passa a ser sobretudo a "Taberna" (ou a "Tasca"), e que sobreviveu até ao 25 de Abril de 1974. (*) 

Neorrealismo português (meados do século XX):  a representação da venda e da taberna 


Há aqui uma profunda viragem ideológica e estética, em relação ao romantismo e ao naturalismo do séc. XIX.   

O espaço perde quase por completo a conotação pitoresca, folclórica,  romântica ou até pícara do séc. XIX e as primeiras décadas do séc. XX,  para se converter no foco da consciência de "classe", do desespero e da opressão social. (Para já fica de fora desta análise, a  taberna dos bairros populares de Lisboa, intimamente ligada à história do fado.)

Se no séc. XIX a venda, no interior do país, era o poiso do viajante, do almocreve, etc., a par do  local das bisbilhotices da aldeia mas também o sítio onde chegavam, atrasadas, as notícias da capital, é no romance neorrealista que ela assume mais nitidamente três funções fundamentais:

(i) espaço da servidão financeira: é onde o camponês, o ganhão, o jornaleiro, oo cavador de enxada, o mineiro ou o operário gasta a sua féria, jorna ou salário, vende a sua força de trabalho a eito (aos agentes da "praça da jorna", aos recrutadores de mão-de-obra), empenha a pouca terra que tem ou amanha, acumula a dívida do "fiado" na caderneta da loja, ficando, enfim,  acorrentado ao comerciante ("vendeiro" ou "taberneiro" ) ou ao lavrador abastado;

(ii)  "válvula de escape" do alcoolismo: o álcool (o vinho e o bagaço) surge como um anestésico amargo contra a miséria, o cansaço do trabalho esgotante e o desemprego sazonal (e nomeadamente no inverno);

(iii) fórum da solidariedade e da revolta de "classe": é na penumbra da venda ou da taberna, longe dos olhos daos patrões, das autoridades e das polícias ( a GNR, a PVDE / PIDE), que nascem os sussurros de greve,  de incitações á revolta , a solidariedade entre o proletariado (urbano e rual)  e a tomada de consciência política.

Três autores, entre outros, podem ser aqui citados, ligados à estética neorrealista. São hoje, injustamente, tratados como "escritores menores", sobretudo pela crítica académica. Ou, pelo menos, estão já esquecidos, apesar da existência, em Vila Franca de Xira, do Museu do Neorrealismo.

Acrescente-se, a propósito, que aescolha de Vila Franca de Xira não foi casual; a região do Ribatejo, as lezírias, o trabalho duro no campo e no Tejo, a conflitualidade social  etc., serviu de cenário e inspiração direta para obras estruturantes como o romance Gaibéus (1939) de Alves Redol, ou o Cerromaior, de Manuel da Fonseca (1943), que são  justamente considerados dois  marcos fundadores do movimento neorrealista;  o museu consolida essa ligação identitária entre o território e a criação literária.


Manuel da Fonseca (Santiago do cacém, 1911 - Lisboa, 1993)


  • Manuel da Fonseca: a taberna alentejana como palco do drama social


Manuel da Fonseca, alentejano de Santiago do Cacém,  foi talvez quem melhor terá captado a atmosfera densa e dramática das vendas / tabernas das vilas e montes do Alentejo. Retrata o Alentejo com um tom lírico e social, onde a venda é um símbolo da comunidade e da identidade local.  A taberna é um refúgio escuro de homens de chapéu enterrado até às orelhas.

Obras de referência: Cerromaior (1943), Seara de Vento (1958)

A venda e a taberna são espaços de convívio popular, onde se retratam os costumes e as dificuldades do mundo rural alentejano. 

Em Aldeia Nova, a venda da aldeia é um local onde se reúnem os trabalhadores agrícolas, trocando histórias e queixas. Na venda, entre copos de vinho e conversas arrastadas, os homens da aldeia falavam das secas, dos patrões, e das promessas não cumpridas.

Em Seara de Vento, a mercearia é um espaço de resistência cultural, onde se preservam tradições orais.

Seara de Vento (1952):

A taberna é o centro gravitacional onde a fome e a opressão dos ceifeiros desempregados se condensam:

(...) "A taberna estava cheia de uma fumaça densa que fazia doer os olhos. Homens de braços cruzados, encostados ao balcão de madeira gasta, ouviam em silêncio. Não havia dinheiro para o vinho, nem sequer para o fiado. O taberneiro olhava de lado, com a caderneta das dívidas aberta sobre a gaveta do tinto. Ali, no escuro daquele compartimento que cheirava a aguardente e a suor antigo, a raiva dos homens não fazia barulho: crescia por dentro, devagar, como o fogo na ceifa." (...)

Cerromaior (1943) / O Fogo e as Cinzas (1951) (contos) 

Nas suas narrativas curtas, as vendas de beira-estrada alentejanas são descritas com um lirismo duro: o jogo da bisca, o murmúrio dos homens sós e o olhar vigilante dos proprietários rurais (ou dos seus maiorais ou manajeiros) que controlam quem bebe, quem fuma, quem se avia quem fala...

Em Cerromaior (1943), a venda, o café e o clube são três lugares distintos, social e espacialmente segregados:

(...)  " - Então, por cá Maltês ?

Maltês não respondeu, entretido em arranjar as calças em volta da corda que lhe servia de cinto, A seguir torceu as pontas  do colete, que pingaram para o chão escuro da venda, e uniu-o, ajeitando-o sobre o  peito arqueado.

Chegou-se ao balcão.

- Enche-me um dos grandes, Brissos.

O homem da venda olhou-o, inquisitivo. Maltês aparou-lhe o olhar, sereno,  como se não temesse nem devesse. O Brissos curvou-se, encheu o copo. Maltês esvaziou-o. Pediu outro. O sol aparecia, luminoso,  por entre a   chuva miúda que abrandava. Voltou atrás, jogou a manta paar o ombro. Rapidamente, à laia de despedida, disse:

- Mete na conta, Brissos. " (...)



Alves Redol (Vila Franca de Xira, -1911- Vila Franca de Xira, 1969)


  • Alves Redol: o feitor, o fiado e o trabalho duro

Em Alves Redol, o pioneiro do movimento com Gaibéus (1939), a venda e a taberna no Ribatejo e na lezíria  surgem intimamente ligadas à exploração do trabalho agrícola sazonal.  São espaços fundamentais no Ribatejo rural, onde se retratam as condições de vida dos trabalhadores do campo (gaibéus, ceifeiros) e do rio (avieiros). 

Além dos Gaibéus, outras obras de referência são Barranco de Cegos (1961) e Avieiros (1942)

 Em Gaibéus, a venda é descrita como um local de encontro dos trabalhadores, onde se trocam notícias, se bebe vinho e se tecem intrigas. A venda era o "coração da aldeia",  ali se falava dos patrões, das jornas, das colheitas,  dos conflitos, e até dos amores e desamores  que excitavam corpos e inebriavam almas.

Alves Redol documenta o Ribatejo com um olhar neorrealista, onde a venda é um microcosmo da vida rural e das tensões sociais.A venda à beira da estrada é um motivo recorrente, simbolizando a marginalidade e a luta pela sobrevivência

Em Barranco de Cegos, a mercearia é um espaço de resistência e solidariedade entre os mais pobres.

Em Avieiros, a taberna à beira do rio é um local de abrigos para os corpos cansados  para os trabalhadores do Tejo.

Gaibéus (1939):

(...) "A loja do senhor Tomé era o coração faminto da aldeia. Vendia-se lá de tudo: desde o petrópio para os candeeiros ao bacalhau duro como tábua. Mas o que mais pesava na loja era o lápis do vendedor a apontar no caderno as somas do fiado dos camponeses. Cada côdea de pão levada para casa vinha carregada com os juros da miséria. Na taberna ao lado, os ceifeiros ribatejanos afogavam a mágoa do salário de fome em quartilhos de tinto carrascão." (...)

Em Fanga (1943), Redol explora a figura do pequeno comerciante da venda que, embora pertencendo ao povo, atua muitas vezes como intermediário e instrumento de pressão dos grandes latifundiários sobre os camponeses enfraquecidos pelas dívidas.

 

Fernmando Namora (Condeixa-A-Nova, 1919 - Lisboa, 1989)


  • Fernando Namora: a  taberna das Beiras vista pelo João Semana

Em Fernando Namora, particularmente nos romances de ambiente rural da Beira Baixa e Serra da Estrela, a venda e a taberna surgem vistas através do olhar do médico de aldeia, o "João Seamana", que testemunha a degradação física e moral causada pelas condições de vida.

Retalhos da Vida de um Médico (1949/1963):

(...) "A taberna do Ti Bento era um antro enfumaçado onde a gente da serra se ia encharcar em vinho roxo para esquecer a geada e a fome. O ar era irrespirável, impregnado do cheiro a sardinha assada, a sabão e a roupas encharcadas pela chuva. 

Naquela penumbra, entre um gole e uma praga, viam-se os rostos chupados pela maleita e pela tuberculose. Para aquela gente, a taberna não era um vício: era o único posto de socorro contra a dor de viver." (...)

Mina de S. Francisco (1946):

Nas zonas de mineração do volfrâmio, a venda torna-se a "loja da empresa" ou o estabelecimento explorador onde o mineiro deixa o magro salário do mês antes mesmo de o receber, trocando o seu suor por víveres de péssima qualidade. (A ação do romance situa-se no Fundão.)

Síntese das diferenças estéticas sobre a venda / taberna  na literatura dos séc. XIX e XX

(i) Século XIX (Camilo, Eça)

  • Ambiente: pitoresco, acolhedor, idílico, pícro ou tragicómico.
  • Vinho: elemento de folguedo, apetite e convívio rústico.
  • Função: pousada de viajante, troca de notícias da capital.
  • Protagonistas: almocreves, fidalgos, morgados e estalajadeiros/as.

(ii) Século XX (Neorrealismo) (Alves Redol, Manuel da Fonseca)

  • Ambiente: denso, enfumaçado, claustrofóbico e tenso.
  • Vinho: anestésico contra o desemprego, a fome, o frio e o desespero.
  • Função: mecanismo de endividamento e controlo social.
  • Protagonistas: ceifeiros, jornaleiros, operários, mineiros e o "fiador".

 
 Conclusão: A "Venda/Taberna" como Símbolo Literário

A "venda" (merceria, taberna, loja) na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX assume múltiplas funções: 

 (i) espaço social (local de encontro, convívio e trocas) (Eça, Camilo, Alves Redol);

(ii) crítica social (retrato das desigualdades e conflitos de classe) (neorrealismo: Alves Redol, Manuel da Fonseca); 

(iii) cenário etnográfico (descrição dos costumes e da vida rural (Camilo, Aquilino); (

iv) símbolo de resistência possivel e espaço de solidariedade entre os mais pobres (Manuel da Fonseca, Alves Redol).
 
Pesquisa: LG + Museu do Neorrealisno + Wikipedia + IA (ChapGPT, Mistral)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG
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Nota do editor LG: