Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continhuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas.
III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL)
Parte VII: semana de 18 a 24 de março: aqui não há andorinhas a anunciar a Primavera
19.03.2019, segunda feira - 1º aniversário da inauguração da Escola São Francisco de Assis
Projeto de Solidariedade em Timor Leste - ASTIL
Faz hoje, dia 19 de março, um ano que a Escola São Francisco de Assis (ESFA) em Boebau foi inaugurada. Apenas com um ano de existência, muito se tem feito para que a ESFA vá caminhando, com passos certos, rumo à sua sustentabilidade e
funcionamento.
Embora sendo uma escola de ensino privado e particular, como definem os seus estatutos, a ESFA está registada no Ministério da Educação de Timor Leste, com o número 36 da rede de escolas da direção regional de educação do distrito
de Liquiçá.
Ainda sem capacidade de resposta para as 75 crianças inscritas inicialmente, a escola funciona com um grupo de 40 crianças que frequentam o ensino pre escolar, assistidas por duas auxiliares de educação com formação e estágios no “Mundo Mágico” de Dili, instituição credível que a educadora Diana Rebelo dirige, e que graciosamente nos apoia com toda a dedicação.
Ano após ano, iremos acrescentado as turmas de 1º, 2º, 3º e 4º anos de escolaridade, até atingirmos os nossos objetivos: uma escola de ensino pre escolar e primário, com eferências de ensino do programa do ministério, da língua portuguesa e da música.
A par da luta por estes objetivos, preocupa-nos a contratação e a fixação de
educador(a) de infância e de professores do 1º ciclo, a fim de garantirmos o
funcionamento pleno deste estabelecimento. Por isso vamos começar a campanha de angariação de fundos para a construção no local de uma casa para professores residentes, com as condições de habitabilidade necessárias, que nos permita motivar docentes a aqui exercerem as suas funções.
Talvez que, no começo do próximo ano letivo (Janeiro/fevereiro) já possamos contar com esta infraestrutura.
Quero uma vez mais agradecer a colaboração de todos os amigos e pessoas de boa vontade que ao longo destes três anos nos têm apoiado. Queremos continuar a merecer a vossa confiança. Este projeto de solidariedade é obra de todos nós. Com a participação de todos, e sobretudo com a ajuda de Deus, havemos de conseguir um mundo um pouco melhor, particularmente para estas crianças esquecidas das montanhas de Luiºçã / Manatti / Boebau e das famílias pobres deste país irmão.
CONTAMOS CONVOSCO!...
Rui chamusco
20.03.2019, terça feira - É primavera com certeza...
Esta é a estação do ano mais desejada. Porque a vida se renova na natureza, porque os rebentos, as flores e as folhas das árvores reaparecem, porque os dias vão crescendo, etc, etc... Assim, nós ocidentais, estamos acostumados a recomeçar de três em três meses cada uma das quatro estações do ano, e a sermos levados musicalmente por Vivaldi a ouvir “as quatro estações”, com destaque para “a sagração da Primavera”.
Pois é. Aqui por este extremo oriente, só contam duas estações: o verão e o inverno.
Da primavera e do outono nem sequer se fala. O que por cá marca a mudança é o
período das chuvas. De resto mal se nota se é inverno ou verão. No inverno como
chove quase todos os dias, são as enxurradas e os caminhos enlameados; no verão é a poeira e um pouco mais de calor.
Aqui é raro encontrar árvores de folha caduca. Cada espécie, ao seu ritmo, vai florindo e dando frutos sem definir o tempo ou a estação que lhe pertence. Também não se vêm andorinhas que anunciem a primavera.
Por isso sem sinais evidentes de mudança, esta gente não se apercebe de que já começou a pimavera. Resta-nos a primavera interior, onde a renovação das nossas vidas ganha mais significado e novas dimensões.
Em todo o caso, prefiro soletrar a canção que todos os anos e cantava para os meus
alunos:
"É primavera com certeza / Vejo andorinhas a voar / Oh, como é linda a
primavera / Com o sol sempre a brilhar./
Sinto alegria / Ao ver na terra / Como as flores / Ficam tão belas.”
21.03.2019, quarta feira - “ Entendeu?”... “Não, não entende!”
Pode ser caricato, mas é assim mesmo.
A mãe da Mércia (afilhada do amigo José Escada) veio a meu pedido falar comigo
para esclarecimento de uma situação do programa de apadrinhamento. Depois do
cumprimento habitual, perguntei à senhora:
− Fala português?
Ao que ela respondeu:
− Sim. Um pouco.
E vai daí, toca a explicar o que realmente aconteceu, para que tudo ficasse bem claro, sem lugar a qualquer dúvida.
Pelo sim e pelo não voltei a perguntar-lhe:
− Entendeu o que eu disse?
E respondeu-me prontamente:
− Não!
Fiquei embasbacado, e tive de recorrer ao amigo Eustáquio para que lhe traduzisse em tetum o que eu lhe tinha dito. Claro que tudo se resolveu, sem que de vez em quando a gente recorde este episódio com bastante riso à mistura.
É assim. Em terra estrangeira, sem o domínio da língua dos falantes, quando tu pensas que disseste alguma coisa, não disseste nada. Apenas falaste...
22.03.2019, quinta feira - Tão longe e tão perto...
As novas tecnologias (computadores, telemóveis, facebooks, whatsapp,etc...) dão-nos possibilidades, mesmo aos mais velhos, de entrar em sintonia com os nossos amigos, independentemente da distância a que nos encontremos.
Vem isto a propósito do encontro do mês de Março que os professores aposentados do concelho de Sabugal organizam, percorrendo as terras deste território, e que inclui o almoço como alimento para o corpo e a visita cultural como alimento para o espírito.
Quis a organização que este mês fosse realizado em Malcata, terra que me viu nascer, crescer e viver intensamente ao longo deste setenta e dois anos que já conto.
Sendo eu um malcatanho ferrenho e um frequentador assíduo deste enconttros,
imaginem como vivi este acontecimento à distância. Tão longe e tão perto destes
meus amigos e de tudo o que neste dia por lá aconteceu.
Sei que leram a mensagem que eu lhes mandei, sei que se lembraram de mim, sei que até cantaram a carquejinha”, canção emblemática de Malcata, sei que o almoço foi espetacular, sei que gostaram muito das visitas que fizeram ao Largo da Torrinha, à sede da AMCF, à igreja paroquial, aos polos do Lar, et, etc... Mas o que mais me comoveu (malandrice) foi a fotografia que o grupo tirou frente à casa onde eu nasci.
Obrigado, colegas e amigos pelo carinho que demonstraram por mim; obrigado Zé Manel pela reportagem fotográfica que me enviaste; obrigado Quim pelas cantigas e guitarradas; obrigado lice por seres a porta-voz da minha mensagem; obrigado Carlos Almeida, pela feliz ideia de criar, concretizar e promover este tipo de encontros. Fiquem cientes que não irei esquecer facilmente este dia. E prometo-vos que, quando regressar, participarei no encontro organizado seja onde for... Até lá um grande e forte abraço, porque a distância não é prisão. A distância faz mais forte a nossa união...
22.03.2019 - Mensagem
Caros companheiros e amigos
Sei que hoje, terça feira, o almoço de convívio dos prof aposentados vai ser em
Malcata, na Tasca do Manel. Claro que, como grande apreciador destes almoços e
orgulhoso malcatanho, não poderia deixar de estar presente, ainda que ausente por grande distância. “Longe da vista, mas perto do coração.
Sei que, à semelhança da outra vez, a MariZé, a Isabel, o Manel e o Zé vão tudo fazer para que seja um almoço memorável. Eles são sempre assim: incansávéis em servir os seus clientes, e muito mais os amigos de sempre. Beijos e abraços para eles e, já agora, o vosso aplauso...
Eu por aqui vou lutando, neste momento com alguns problemas de saúde mas que estão a ser tratados. Como beirão genuíno, resisterei até que a carne os ossos
aguentem. Já lá vão 14 kg.
Neste momento temos lutado em várias frentes. Desculpai os termos “lutando”,
“lutado”, mais próprios de linguagem guerrilheira. Mas é assim que me sinto por aqui.
Somos os novos guerrilheiros, com outras armas, lutando por outras causas. A nossa grande arma é a solidariedade, que embora seja uma palavra desgastada, é a que melhor nos define. É para nós uma honra, e particularmente para mim, podermos contar com a vossa colaboração e sobretudo com a vossa amizade
No dia 19 próximo faz um ano que foi inaugurada a Escola São Francisco de Assis, em Boebau / Manati, nas montanhas de Liquiçá. Tem-nos sido difícil manter o seu funcionamento por diversas razões:
1º - acesso muito difícil: mais ou menos 2 horas para fazer 10 km;
2º- condições de habitabilidade inexistentes (para um ocidental); não há água corrente nem luz;
3º- dificuldade em motivar docentes (educadores, professores do 1º ciclo) para lecionar na nossa escola.
Por isso já tomamos a decisão de, quanto antes, começarmos a construção de uma casa para professores residentes e voluntários, que orçamentamos + ou - em 20 mil dólares. Talvez com esta infraestrutura a funcionar possamos resolver bastantes dos problemas que neste momento nos preocupam.
Está também em fase de construção, creio que em Maio estará concluída, a
reconstrução da casa de “família do Sr. Vitor” [um antigo guerrilheiro da FRETILIN] . O Colega Carlos Almeida poderá, se assim o entender, dar-vos mais esclarecimentos sobre esta causa solidária.
Também o programa de apadrinhamento de crianças/Jovens necessitadas (à volta de 50), me têm ocupado bastante tempo. Tento a todo o custo que as motivações que levaram ao apadrinhamento não esmoreçam, criando laços e pontes para que as relações entre padrinhos e afilhados se solidifiquem. Obrigado a todos o padrinhos e madrinhas aí presentes.
Desculpai estar a ocupar-vos tanto tempo com “as minhas coisas”. Mas, como estais na minha terra, senti-me no direito de vos chatear.
Se aí estivesse, de certeza que vos tocaria e cantaria a canção “carquejinha”. Assim não sendo, despeço-me com um GRANDE ABRAÇO para cada um de vós, e até que um dia Deus queira.
Hoje, em Malcata,
Rui da Ti Laurentina
Obs - Confesso-vos que, enquanto vos escrevia estas linhas, por diversas vezes limpei as lágrimas... Saudades, amizades? Mas “as coisas vulgares que há navida não deixam audades”...
(Revisão / fixação de texto, negritos, itálico, parènteses retos, título: LG)
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