Como alguém disse (o editor e escritor Francisco José Viegas, entrevistado ontem pelo "Diário de Notícias") , não foi o Lobo Antunes que perdeu o Nobel, foi o Nobel que perdeu o Lobo Antunes. Como perdeu muitos grandes escritores universais, desde o russo Tolstói ao irlandês James Joyce, do argentino José Luís Borges ao nosso Fernando Pessoa...
Segundo a RTP, e de acordo com a agência funerária responsável, as cerimónias fúnebres realizam-se a partir das 10h00, com a celebração de uma missa de corpo presente, pelas 12h00.
O funeral seguirá depois para o cemitério de Benfica, em Lisboa, o bairro onde ele nasceu e cresceu, e que é também uma das fontes primordiais das suas memórias.
Recorde-se que o António Lobo Antunes (um de seis irmãos de uma "ínclita geração") foi nosso camarada, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73), e tendo ficado com uma ligação muito especial â malta da CART 3313.
O título deste poste pode parecer ser pretensioso: "até sempre, camarada!"... Mas, não, não estamos a pôr-nos no pedestal, á boleia deste triste notícia necrológica: afinal, ele foi nosso camarada, antes de ser um escritor famoso, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73). Ficou com um ligação muito especial ao pessoal da CART 3313. E emocionava-se ao falar, em público, dos seus camaradas de armas.
Contrariamente ao que alguns pensam ou opinam, ele não foi o chefe de fila da literatura da guerra colonial, embora a guerra colonial seja um tema recorrente e obsessivo dos seus livros (e são mais de 4 dezenas). Mas, se não fosse a guerra, muito provavelmente nunca seria o escritor que foi (e é, porque as suas obras vão sobreviver à sua morte física).
Mas todos reconhecemos que os seus primeiros livros tiveram um efeito de catarse na nossa geração de antigos combatentes, surgidos a partir de 1979, com Memória de Elefante, Os Cus de Judas, Conhecimento do Inferno (1980), Explicação dos Pássaros (1981)..., obras marcadas pela sua experiência da guerra e pela sua prática clínica como jovem psiquiatra.
Tornou-se, de facto, o escritor de cabeceira de muitos de nós, nessa época. Nós, que com o 25 de Abril, tínhamos posto uma pedra em cima do vulcão das nossas memórias da guerra, da sua violência e do seu absurdo.
Temos 33 referências no nosso blogue ao António Lobo Antunes, e nem uma ao José Saramago, o que não representa qualquer discriminação. Simplesmente, o José Saramago (1922-2010) não tinha vivências de (nem escritos sobre) a guerra colonial. Era mais velho, era da geração dos nossos pais. (Referências, acrescente-se, que são, em boa parte, devidas às notas de leitura do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos.)
Por estes dias vai-se falar, "ad nauseam!", do escritor e do homem, o António Lobo Antunes, que em vida tinha fama de "enfant terrible". Muitos que o detestavam (sem nunca o terem lido...), vão pô-lo agora no altar da Pátria. É sempre assim, na hora da morte, que tem o condão, em Portugal, de fazer uma besta passar a bestial....
Conheço histórias (e anedotas) da vida dele (e algumas deliciosas mas impróprias para meninos de coro), porque ambos estávamos ligados à saúde, e de algum modo modo à psiquiatria, e ao Hospital Miguel Bombarda. E porque Lisboa é (ou ainda era nos anos 80/90) uma aldeia.
A última vez que o vi, já depois da pandemia de Covid-.19, foi num hospital privado, onde fui fazer um teste de avaliação neuropsicológica de diagnóstico precoce e diferencial de demências (sempre mais vale prevenir do que remediar do camaradas...).
Fiquei chocado de o ver: passou por mim, ia numa cadeirinha de rodas, empurrada por familiares, entubado, cabisbaixo, ao longo do corredor. No elevador, encontro depois, nessa mesma tarde, a descer comigo no elevador, um outro grande escritor, o poeta algarvio Nuno Júdice (1949-2024), que morrerá uns tempos mais tarde...
Escrevi no meu bloco de notas, nesse dia: "se calhar escrever, é isso mesmo, uma ilusão de eternidade, um combate (sempre desigual) contra a morte, o esquecimento, o absurdo da vida".
Fui repescar também o que escrevi sobre ele, no nosso blogue, há quase 20 anos atrás:
(...) "O Lobo Antunes conheceu, no Hospital de Santa Maria, aos 65 anos, a terrível e frágil condição do doente oncológico...
Em março de 2007 deixou-se operar por um amigo de longa data. Ele próprio revelou, em crónica publicada na Visão (12 de Abril de 2007) e ainda escrita no hospital, que estava a lutar (mal) com um cancro...
Na crónica da última semana, publicada na Visão (4 de Outubro de 2007), evoca com grande ternura e com o seu talento de escritor genial o seu camarada Zé, que terá falecido recentemente em brutal acidente de viação na autoestrada de Cascais. Dele diz: 'África ficou para sempre dentro de ti, a roer-te, e deu cabo da tua vida'...
A crónica começa assim, dando a melhor definição que eu alguma vez li sobre o que é ser um camarada. Só o Lobo Antunes poderia escrever isto:
'Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Eras meu camarada, que é uma palavra da qual só quem esteve na guerra compreende inteiramente o sentido: não é bem irmão, não é bem amigo, não é bem companheiro, não é bem cúmplice, é uma mistura disto tudo com raiva e esperança e desespero e medo e alegria e revolta e coragem e indignação e espanto, é uma mistura disto tudo com lágrimas escondidas' (...). (**)
Nunca o conheci na intimidade, mas apenas como figura pública, e esporadicamente nas feiras do livro de Lisboa. Não fazia parte da Tabanca Grande. Nem nunca poderia fazer parte. Além de nunca ter escrito sobre a Guiné, ao que eu saiba (nem por lá ter passado), não tinha, ao que se consta, email, computador ou telemóvel (nem carro)...
Não deixava por isso de ser nosso camarada, naturalmente ilustre. Tivemos aqui algumas picardias, de que ele nunca teve conhecimento porque também não nos lia, mas também nos demos conta, rapidamente, de que o mal-entendido foi nosso, que não o sabíamos ler nem tresler (***).
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Notas do editor LG:
(*) Último poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27796: In Memoriam (573): Rui Manuel da Silva Felício (Coimbra, 09/10/1944-Ericeira, Mafra, 26/02/2026): Cerimónia fúnebre, hoje, às 14 horas, na igreja de Santa Marta de Casal de Cambra e cremação, amanhã, às 14 horas, no Complexo Funerário de Casal de Cambra