Ilustração gerada por inteligência artificial com o ChatGPT, baseada em recordações pessoais da recruta nas Caldas da Rainha, durante o Curso de Sargentos Milicianos (abril–julho de 1969).
QUANDO O "115" PRECISOU DE EMERGÊNCIA MÉDICA
O último post do nosso amigo Artur Conceição,[1] sobre as vacinas que nos eram ministradas na tropa, lembrou-me um episódio passado no RI 5, Caldas da Rainha, durante a recruta.
Um dia fomos todos para a enfermaria do quartel a fim de recebermos a célebre vacina ou "injecção de cavalo", como era conhecida na gíria.
Longos bancos corridos num enorme corredor sombrio de chão de mosaico preto e branco, o pelotão todo em tronco nu esperava sentado, calmamente, a dita injecção.
Vem então um enfermeiro com algodão embebido em álcool, desinfectando um por um os recrutas. Mais atrás o segundo enfermeiro com uma tina cheia de agulhas que vai espetando nos nossos ombros. A seguir vem outro enfermeiro que vai injectando o desgraçado líquido e, finalmente, o último que de imediato remove as agulhas.
Todos nós conhecemos esta cena, mais ou menos assim.
No RI 5, cada um de nós tinha um número de ordem, na minha Companhia, a 6.ª, os números andavam pelo 2000. Eu era o número 2109, o meu amigo e vizinho de Leça, o Coelho, era o 2105, um camarada de S. Mamemede de Infesta (Matosinhos) era o 2107 e um camarada de Gaia, que dormia na cama ao lado da minha, seria o 2111.
Se bem se lembram, o número do emergência, hoje 112, era naquele tempo o 115. E nós tínhamos o nosso "115", mais propriamente o 2115, do qual não lembro o nome. Era um moço bastante alto, rondaria 1 metro e 80, magro e ar um pouco pálido.
Quando o enfermeiro, a quem competia injectar a vacina, passou, o 115 levantou-se de pronto, ainda com a agulha espetada. Alertámo-lo de que se devia manter sentado até lhe ser tirada. Ele, olhando por cima do ombro, vendo o canhão da agulha, de imediato perdeu os sentidos.
O "115" foi prontamente socorrido pelo pessoal de saúde ali presente, passando a partir daquele dia, e por uns tempos, a ser alvo das nossas piadas.
Lembro-me de a maioria de nós ficar com o braço "empenado" por uns dias. Acho até que nos mandaram de fim de semana prolongado.
_____________
Notas do editor:
[1] - Vid. post de 27 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28467: Retalhos da vida militar (15): A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28395: (Ex)citações (449): A velha placa que terá estado colocada em Mansoa (Artur Conceição, CART 730)
Luís Graça & Camaradas da Guiné
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Guiné 61/74 - P28469: Historiografia da presença portuguesa em África (550): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (18): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Março de 2026:
Queridos amigos,
Ganha-se a perceção de que o capitão Brosselard está muito orgulhoso de ter visto hasteada a bandeira francesa em Ziguinchor, e em modo de relatório descreve as novas possessões francesas, deixa-nos um retrato minucioso até da presença portuguesa em Ziguinchor, deixando crítica velada às nossas autoridades por terem consentido que as populações mantivessem usos e costumes que ele classifica como ultrajantes e bárbaros.
Confesso que o aspeto mais luminoso de todo este relato de Brosselard é ele falar no norte da colónia da Guiné portuguesa e a sua grande coesão com o território do Casamansa, logo os negócios entre Cacheu e o rio Casamansa, as matérias primas que iam até Selho vindas do Gabu, o elogio que ele faz da exploração das madeiras, sugerindo que o mesmo deva ser feito no baixo Compony. Aproveita para visitar os arredores de Ziguinchor, e ficamos a saber que o mosaico étnico era praticamente similar, dirá mesmo que as populações estabelecidas no Casamansa e rio Cacheu eram Djolas, Felupes e Banhuns e que os Balantas e Mandingas habitavam no alto Casamansa e no distrito de Farim. Veja-se a ironia da História, o preço de separar povos, etnias vizinhas, com convivências multisseculares.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 18
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Após uma apreciação sobre as interligações entre o Casamansa e a colónia portuguesa da Guiné, falando inclusivamente das riquezas em madeiras que se podem encontrar entre o Casamansa e o rio de São Domingos, bem como no rio Cogon, o Capitão Brosselard volta ao Casamansa, vamos registá-lo no seu discurso na primeira pessoa do singular.
As florestas do Casamansa são muito abundantes em casa e servem de antro às legiões de panteras. Durante a minha estadia em Ziguinchor tomei nota que um desses animais vinha todas as noites roubar os porcos de uma povoação vizinha, então fui ao dito lugar e ao cair da noite escondi-me a trezentos metros das casas. Estava acompanhado de um caçador da região que gozava de grande reputação, teve o cuidado de fazer amarrar a alguma distância uma cabra cujos balidos só podiam encorajar o senhor da floresta.
Uma hora, duas horas de espera passaram-se sem que nada acontecesse, tínhamos a luz da lua; enfim, a fera apareceu, avança lentamente, para, parece escutar; não está a mais de sessenta metros de nós e dispõe-se a atirar-se à sua presa. A infeliz cabra treme e lança gemidos que parecem uma oração. Dois tiros ecoam quase ao mesmo tempo; o animal dá um salto formidável, creio no instante que se vai atirar a nós, mas cai e não se mexe mais; a bala da minha carabina atingiu-o no dorso.
Os negros acorrem da povoação, esfolam, cortam a mandíbula porque a pele com as garras e os dentes têm um certo valor. Esta pele é uma das mais belas da minha coleção. Em 1837, a ocupação de Carabane tinha sido cedida da posse da ilha de Guimbéring. Nesse mesmo ano, uma comissão foi encarregue de procurar no rio um lugar favorável para a criação de um posto. A comissão escolheu um lugar de Selho, no Poudhié. Situado no centro de uma região rica, e habitado por uma população inteligente e trabalhadora, este novo estabelecimento só podia prosperar, estando seguro por uma boa proteção. Também se construíram grandes estabelecimentos e rapidamente a escala francesa tomou o aspeto de uma pequena povoação. Encontram-se agora aqui numerosas fontes de água a correr; belas avenidas onde estão plantadas árvores magníficas; há caminhos bem mantidos; uma igreja e uma escola francesa em que prestam serviço missionário. Numerosas e bonitas povoações agruparam-se à volta de Selho cuja defesa está bem organizada.
O forte foi construído ao pé de Selho, à beira-rio, as suas muralhas estão perfuradas por seteiras e os seus bastiões estão equipados com cinco peças de artilharia. A escola se Selho funciona em excelentes condições; é habitualmente frequentada por 79 alunos, alguns são bastante instruídos e fazem exames com sucesso, no fim do ano escolar fazem exames de admissão à escola secundária de S. Luís. Selho recebe algodão trazido do Gabu, exporta muitas toneladas, o resto é empregue na região e trocado com os Felupes e Banhuns. Os principais produtos comerciais são o arroz e o amendoim. Ziguinchor é o grande entreposto do arroz e Selho comercializa o amendoim.
Ensaiou-se a cultura da vinha, uma cepa deu duas colheitas no mesmo ano. Nada tem de extraordinário, pois no Casamansa todos os produtos que enriquecem os países quentes e tropicais dão-se aqui admiravelmente, e os legumes da Europa são cultivados com sucesso. As populações estabelecidas no Casamansa e rio Cacheu são Djolas; os Felupes e os Banhuns no baixo Casamansa e distrito de Cacheu; os Balantas e os Mandingas no alto Casamansa e no distrito de Farim. Os Djolas apresentam muito pouca genuinidade da raça indígena e estão muito misturados por elementos estrangeiros dos países vizinhos. Estes negros embriagam-se com vinho de palma e aguardente, e sofrem a influência nefasta da feitiçaria. Os Felupes habitam sobretudo as regiões pantanosas da margem direita do Casamansa, eles trabalham de uma maneira admirável a cultura do arroz.
As expedições de Hilor e de Thiong, em 1860, asseguraram a soberania da França sobre os territórios dos Felupes. Mas de 1877 a 1888 estes territórios foram devastados por Fodé-Kaba e os infelizes habitantes que puderam escapar à escravatura refugiaram-se sob a proteção dos postos coloniais. Foi assim que muitos povoados se criaram à volta de Ziguinchor. Os seus habitantes vieram em minha solicitação prestar juramento de fidelidade à França.
A sul, os Felupes têm por vizinhos os Banhuns que foram no passado um estado poderoso, eles ocuparam a maior parte dos territórios compreendidos entre a Gâmbia e o Cacheu; os seus reis eram sagrados sobre as pedras fetiches de Piedras e o seu cetro de ouro está conservado em Diagnou, na margem esquerda do Casamansa.
Os Banhuns são afáveis e bons cultivadores; infelizmente, têm por vizinhos bandidos de profissão, os Balantas, que estão espalhados pela margem direita do Geba e chegaram no século XIX ao rio Cacheu, estabeleceram-se nas magníficas florestas de S. Domingos e abriram caminho até ao Casamansa. Caçadores intrépidos, procuram as florestas impenetráveis e cheias de caça, e põem com sucesso uma barreira intransponível ao fluxo mandinga na região compreendida entre o Casamansa e o Cacheu.
Os Mandingas são originários dos países montanhosos do Alto Níger. Contidos pelos Fulas, disseminaram-se na baía superior do Casamansa e conquistaram a região à volta de 1830. Muçulmanos fanáticos e muito guerreiros, eles trazem com eles os germes de uma civilização civilizada.
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Bilhete postal antigo de Ziguinchor, chegada dos pescadores
Postal antigo de Ziguinchor, chegada do correio
Bilhete postal antigo de Ziguinchor, dançarinos da região
Bilhete postal antigo, Mandingas de Farim
Bilhete postal antigo, Balantas
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 21 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28453: Historiografia da presença portuguesa em África (549): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (17): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P28468: O segredo de... (54): Foi com as praxes ("Piriquito, vai p'ró mato!"...), que comecei a beber o bom uísque velho (Victor Costa, 1952-2026)
Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Victor Costa (2022)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)
1. Há 13 anos atrás, fizemos aos nossos leitores um inquérito por questionário "on line" sobre as "praxes" militares. O período de respostas decorreu entre 14 a 20 de fevereiro de 2013. Pedia-se a opinião do leitor em relação à frase "As praxes aos piras, no meu tempo, não lhes fizeram mal"...
Responderam 81 leitores. Comentámos, na altura:
(i) os resultados evidenciam um certa fratura relativamente à questão em apreço;
(ii) e qualquer modo, as respostas negativas poderão estar enviesadas pelas denúncias, nestes últimos anos, de abusos cometidos com as praxes quer académicas quer militares, abusos de que a comunicação social se tem feito eco;
(iii) alguns de nós poderão também ter passado por experiências individuais negativas, nomeadamente cá na Metrópole, no período de instrução militar (recruta e especialidade);
(iv) apenas 1 em cada cada 4 dos respondentes à nossa "sondagem" discorda do enunciado, revelando por isso uma opinião negativa em relação às praxes a que eram submetidos, no TO da Guiné, os "piras" (abreviatura de "periquitos", os recém-chegados);
(v) um em cada cinco não tem opinião sobre o assunto, não se tendo prounciado a favor ou a contra;
(vi) pelo contrário, mais de metade (53%) dos respondentes manifestou uma opinião favorável às praxes e aos efeitos benéficos sobre os "piras"...
Todos, de uma maneira ou doutra, fomos submetidos à praxe da receção. A maior parte, resumia-se às estafadas "bocas" dos "velhinhos": "Piriquito, vai p'ró mato!"
(iv) apenas 1 em cada cada 4 dos respondentes à nossa "sondagem" discorda do enunciado, revelando por isso uma opinião negativa em relação às praxes a que eram submetidos, no TO da Guiné, os "piras" (abreviatura de "periquitos", os recém-chegados);
(v) um em cada cinco não tem opinião sobre o assunto, não se tendo prounciado a favor ou a contra;
(vi) pelo contrário, mais de metade (53%) dos respondentes manifestou uma opinião favorável às praxes e aos efeitos benéficos sobre os "piras"...
Todos, de uma maneira ou doutra, fomos submetidos à praxe da receção. A maior parte, resumia-se às estafadas "bocas" dos "velhinhos": "Piriquito, vai p'ró mato!"
2. O Victor Costa (1952-2026) que chegou ao CTIG a um mês do 25 de Abril, e que era de rendição individual, já aqui tinha partilhado connosco as suas memórias da ida para a Guiné e da receção que teve no QG/CTIG...
De algum modo, foram "pequenos segredos" que ele-nos quis contar, mesmo sabendo nós que "há segredos que não se contam, vivem-se": por exemplo, terá sido graças às praxes do bar de sargentos do QG/CTIG, à sua chegada, que ele se terá tornado um bebedor (moderado) de uísque, ao longo da sua vida.
São impressões que, mais de 500 anos depois dos primeir0os navegadores do Infante Dom Henrique terem bebido a água do Geba, vão "enriquecer" a história com h pequeno da presença dos "tugas" naquele pedaço de terra da África Ocidental (na altura, a Senegâmbia):
Foi com as praxes ("Piriquito, vai p'ró mato!...), que comecei a beber o bom uísque velho
por Victor Costa (1952-2026)
(i) CICA 2: a "política" não fazia parte do programa da semana de campo...
(...) Cruzei-me várias vezes com o Jaime Gama no CICA 2 (Centro de Instrução de Condução Auto nº 2, na Figueira da GFoz) , mas apenas falei com ele 4 vezes durante um serviço comum, ele no papel de Oficial de Dia e eu no papel de Sargento de Dia.
Foi o único contacto directo que tive e por isso não dá para falar do ex-Presidente da Assembleia da República, enquanto pessoa ou militar. Desse dia recordo a imagem dum indivíduo pouco falador, não dava nas vistas, não era vaidoso, não era militarista mas cumpria as regras. Depois da minha mobilização foi um exemplo a seguir para evitar problemas na tropa.
No final da recruta do 1.º turno em fevereiro de 1974, no CICA 2, realizou-se a semana de campo numa mata chamada Foitos, localizada na freguesia de Louriçal. Apesar de ter decorrido sem incidentes, ficou gravada na minha memória para sempre.
No final da recruta do 1.º turno em fevereiro de 1974, no CICA 2, realizou-se a semana de campo numa mata chamada Foitos, localizada na freguesia de Louriçal. Apesar de ter decorrido sem incidentes, ficou gravada na minha memória para sempre.
No penúltimo dia da dita semana, uma 5.ª feira, houve melhoria de rancho, o Vitor Costa pouco bebia e não era todos os dias que se comiam febras na brasa (rancho melhorado) e eu aproveitei a oportunidade para regar as febras com tintol.
Com o aproximar da noite, a bebida a subir à cabeça e eu, eufórico, decidi fazer uma sessão de esclarecimento à tropa contra a guerra colonial, estava a dita tropa já acomodada dentro das viaturas Morris cobertas com toldo.
Com o aproximar da noite, a bebida a subir à cabeça e eu, eufórico, decidi fazer uma sessão de esclarecimento à tropa contra a guerra colonial, estava a dita tropa já acomodada dentro das viaturas Morris cobertas com toldo.
Que seca... deviam pensar os soldados, quem pensa este gajo que é. Quando terminei a sessão, lá fui para o acampamento do "IN" a que pertencia, salvo erro, com a arma e as munições simuladas.
No dia seguinte, sexta-feira, com a boca ainda seca, começaram os preparativos para a tropa regressar ao quartel e o Victor Costa ia recordando as peripécias da noite anterior e nem me queria lembrar daquilo que tinha feito.
No dia seguinte, sexta-feira, com a boca ainda seca, começaram os preparativos para a tropa regressar ao quartel e o Victor Costa ia recordando as peripécias da noite anterior e nem me queria lembrar daquilo que tinha feito.
Na segunda-feira seguinte e durante a semana tudo decorreu sem incidentes e eu, já mais calmo, comecei a pensar que afinal não tinha dado nas vistas.
Mas veio a outra segunda-feira e, às nove horas da manhã, chamaram-me pelo altifalante do quartel, ao gabinete do 2.º comandante, o major Pires. Ao chegar à porta faço anunciar-me, faço a continência e, "V.ª Ex.ª meu Major, dá-me licença", segue-se um momento de silêncio e lá veio a resposta:
− Entre, nosso cabo miliciano, esteja à vontade.
− Entre, nosso cabo miliciano, esteja à vontade.
Seguiu-se um período de silêncio.
− Então a semana de campo correu bem ?! − pergunta-me de chofre.
Seguiu-se um período de silêncio e lá veio a resposta.
− Sim, meu major, correu bem...
− Hum − ouvi eu...
− Mas ouvi dizer que houve política, que não estava no programa da semana de campo...
Silêncio.
Seguiu-se uma lição de meia hora sobre dever, disciplina, exemplo a dar à tropa, a política não era para ali chamada etc. E a terminar:
− Olhe, quero dizer-lhe que foi mobilizado para a província portuguesa da Guiné para render um camarada seu. É tudo, pode sair.
Faço a continência, despeço-me, dou meia volta aos tacões e lá segui para casa, com a convicção que tinha mijado fora do penico e falado de mais.
Daquela reunião com o 2.º comandante, fiquei também a saber com quantos paus se faz uma canoa, ou seja, havia um pau que tinha uma ponta no bico e tinha havido uma mão que tinha aproveitado o pau para escrever.
(ii) Piriquito vai no mato... ólé-lé-lé
Aqui começou o início de uma nova vida, seguiram-se 10 dias de licença para tratar da farda e da papelada, no Depósito Geral de Adidos de Lisboa, e apanhar um Boeing 727 dos TAM (Transportes Aéreos Militares) em Lisboa e daí para Bissalanca.
Até nisso eu tive sorte, porque foi a primeira vez que andei de avião. Ao chegar a Bissalanca já tinha uma carrinha Mercedes do Exército para me levar para os quartos do QG/CTIG, em Bissau, junto ao bar de Sargentos.
No outro dia depois de arrumar a mala com o fardamento e outros pertences, dirijo-me para o dito bar e, ao passar pelas mesas na esplanada, começo a ouvir umas bocas que me eram dirigidas, não liguei e dirigi-me para o balcão.
As bocas, "piu... piu... piu"..., eram de gozo, divertidas, nunca as tinha ouvido e com tendência para aumentar.
No outro dia depois de arrumar a mala com o fardamento e outros pertences, dirijo-me para o dito bar e, ao passar pelas mesas na esplanada, começo a ouvir umas bocas que me eram dirigidas, não liguei e dirigi-me para o balcão.
As bocas, "piu... piu... piu"..., eram de gozo, divertidas, nunca as tinha ouvido e com tendência para aumentar.
Que sorte, eu a pensar que ia ver gente triste e carrancuda e sai-me esta cena... A seguir, de uma das mesas, começa um coro, que só lhe faltava a música.
Hoje já não existem praxes pelo menos daquele tipo, para mim que sempre gostei de praxes, esta foi do melhor, ser praxado permite conhecer novas pessoas e uma boa integração melhora o nosso moral.
Entretanto o coro foi aumentando:
Piriquito vai no mato... ólé-lé-lé
que a velhice vai no Bissau... óla-ré-lé-lé
salta, salta piriquito... ólé-lé-lé
que a velhice já saltou...óla-ré-lé-lé
E a festa continuou.
Numa das mesas as picadelas tornaram-se mais fortes e foi para lá que eu me dirigi para os cumprimentar. Nem parecia que tinha chegado à Guerra;
Entretanto o coro foi aumentando:
Piriquito vai no mato... ólé-lé-lé
que a velhice vai no Bissau... óla-ré-lé-lé
salta, salta piriquito... ólé-lé-lé
que a velhice já saltou...óla-ré-lé-lé
E a festa continuou.
Numa das mesas as picadelas tornaram-se mais fortes e foi para lá que eu me dirigi para os cumprimentar. Nem parecia que tinha chegado à Guerra;
− De onde és ? − pergunta um.
− Não havia sol lá na terra ? −diz outro.
− Para onde vais?
− Vai trocar as divisas porque essas cheiram a leite! ...(Ainda hoje tenho as divisas de outro furriel.)
− O que queres beber ?
Foi aqui que comecei a beber o bom Whisky Old Parr, simples e seco, porque a água estraga o whisky e este, 5$00 a bolha e 127$50 a garrafa, era barato.
(...) Depois de começar a beber bom Whisky é difícil parar, só temos que manter o controle da situação. A primeira coisa que me lembro quando cheguei à CCaç 4541/72, foi da minha deslocação ao barraco, perdão queria dizer Bar, pedir um Old Parr e o soldado dizer que não havia, porque dava prejuízo... Foi a minha oportunidade para saber quantas bolhas tinha uma garrafa e ensinar o soldado a gerir o bar.
(...) Depois de começar a beber bom Whisky é difícil parar, só temos que manter o controle da situação. A primeira coisa que me lembro quando cheguei à CCaç 4541/72, foi da minha deslocação ao barraco, perdão queria dizer Bar, pedir um Old Parr e o soldado dizer que não havia, porque dava prejuízo... Foi a minha oportunidade para saber quantas bolhas tinha uma garrafa e ensinar o soldado a gerir o bar.
De facto 5$00 por cada dose e sendo elas 28, dava para ganhar dinheiro, mas a melhor opção seria vender do Dimple porque a garrafa custava 125$00, ainda hoje é raro o dia, não beber um uísque a seguir ao almoço.
As moedas que ainda mantenho na minha posse têm a ver com uísque. Na tropa aprendi que há limites para tudo e 10$00 correspondia a dois uísques e eram suficientes para andar direito, não falar demais, não dar nas vistas e não fazer coisas que nos tragam problemas. É o melhor remédio
(iv) Ordem para ir fazer o espólio de um morto
(...) Só no dia seguinte é que comecei a ouvir relatos sobre a guerra. O ambiente era bom, não fosse a saturação e a pancada no sotão, com alguns "velhinhos", com mais de 28 meses de comissão (!), fartos daquilo que era a fruta da época, a aguardar que os mandassem para casa.
Na minha primeira visita ao "Barracão" (perdão queria dizer Hospital Militar de Bissau), para visitar uns amigos do "velho" furriel Bilhau, da Leirosa, é que vi que tinha chegado à Guerra.
No dia 17 de março de 1973, ao som do altifalante e da voz de Raul Solnado, que falava das munições da Guerra de 1908, recebi a ordem para fazer o espólio dum furriel miliciano morto em combate na região de Bafatá e que era o objecto da minha mobilização.
No dia 17 de março de 1973, ao som do altifalante e da voz de Raul Solnado, que falava das munições da Guerra de 1908, recebi a ordem para fazer o espólio dum furriel miliciano morto em combate na região de Bafatá e que era o objecto da minha mobilização.
Foi um momento difícil:
- conhecer o historial desse camarada,
- fazer a seleção dos seus pertences para os enviar à família;
- e queimar a correspondência imprópria das cartas enviadas por cinco mulheres ou raparigas que com ele tinham tido uma relação muito íntima (não sei se seriam madrinhas de guerra ou outra ligação qualquer, a verdade é que aquele tipo de escrita até dava vida a um morto).
Fiquei então a saber que a fotografia dele de camuflado com chapéu à cowboy com a Walther de 9 mm a pender para o lado direito, pronta a sacar, não era nada, quando comparada com a dita escrita das cartas.
Apenas o vi em fotografias, não vi nem o caixão. E a dita escrita não permitiu saber que tipo de vida levava na Metrópole. Prefiro recordá-lo apenas como um guerreiro com tomates.
Entretanto, a dita rendição para Bafatá nunca se concretizou, nem cheguei a saber a razão. O facto é que fui direitinho para a CCaç 4541/72, em Safim, para aprender a arte da guerra.
Entretanto, a dita rendição para Bafatá nunca se concretizou, nem cheguei a saber a razão. O facto é que fui direitinho para a CCaç 4541/72, em Safim, para aprender a arte da guerra.
(v) Sem complexos de esquerda ou de direita
(...) Destas recordações sobre a minha mobilização para a Guiné, resta-me apenas um papel timbrado que a grande maioria não possui, que guardo como recordação e sem complexos de esquerda ou de direita.
O facto de ser contra a situação da guerra nas ditas colónias, refletia o pulsar da juventude do meu tempo e ela só trazia problemas.
Mas uma vez chegado à guerra da Guiné, o meu lado da barricada estava escolhido, a minha obrigação era cumprir e fazer cumprir as ordens, respeitar a hierarquia e fazer a guerra, ali comecei a respeitar aquele povo.
Mas também a aprender que, afinal, além de ter costelas de esquerda, tinha uma mão direita e um dedo que disparava a G3 apenas com o apoio do braço e da anca do mesmo lado e enquanto existissem ordens as ditas eram para funcionar.
A minha passagem pela Guiné mostrou-me que, se o Regime que nos conduziu à Guerra não era bom, o PAIGC não era melhor e as minhas costelas de esquerda começaram a perder força.
A minha passagem pela Guiné mostrou-me que, se o Regime que nos conduziu à Guerra não era bom, o PAIGC não era melhor e as minhas costelas de esquerda começaram a perder força.
Entre outras coisas eu consegui uma Declaração em papel timbrado de uma comissão por imposição, que nem o filho do Secretário do Gabinete do Ministro das Colónias, Baltazar Rebelo de Sousa, dessa altura, tem. (...)
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
Nota do editor LG:
terça-feira, 27 de outubro de 2026
Guiné 61/74 - P28467: Retalhos da vida militar (15): A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 27 de Outubro de 2026:Boa tarde meu caro Carlos Vinhal,
Mais um pequeno texto recordando coisas que já vão longe.
Um forte abraço com votos de muita saúde.
Artur António da Conceição
A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais
Eu não tenho formação nem conhecimentos suficientes para falar de um tema tão abrangente como este. Sei que tanto o paludismo como outras doenças tropicais têm os seus nomes científicos destinados a quem tem capacidade para os saber usar. Desejo muito boa sorte e muito bom proveito a todos. Eu nunca fui invejoso. Sei que já existem no blogue alguns postes sobre o mesmo assunto onde o tema é abordado de uma forma bastante científica. Permitam-me meus caros que vos deixe uma abordagem mais “baixinha” sobre o mesmo assunto.
Quase no fim da Recruta e antes da ida para fim de semana, resolveram dar-nos uma prenda de Natal. Estávamos em dezembro, quero tudo em frente ao refeitório do CICA 4 em fila indiana e em tronco nu. Vinha o primeiro com algodão e desinfetava a zona que fica entre o ombro e o pescoço, talvez no chamado lombo. Vinha um segundo espetava uma agulha com dimensões pouco habituais. Mais adiante estava um terceiro que injetava o veneno. Para finalizar ainda vinha mais um para retirar a agulha e desinfetar o buraco que ela tinha originado.
Não me senti totalmente confortável, mas não me impediu de trabalhar nesse fim de semana.
Depois de ter sido mobilizado fui mandado ao Instituto de Medicina Tropica sediado na Rua da Junqueira em Lisboa, onde me foi atribuído um certificado internacional de vacinação de cor amarela depois de ter levado umas boas picadelas.
Nasci no ano de 1942, dois meses depois da minha mãe ter completado vinte anos. O meu avô, pai da minha mãe, era manajeiro e vinha com ranchos de ratinhos para a monda dos arrozais na zona de Alcácer do Sal.
A minha mãe aos 18 anos apanhou uma febre a que os ratinhos, migrantes da zona do Caramulo, chamavam de Sezões. Não quero meter foice e seara alheia, mas penso que Sezões e paludismo são a mesma coisa. Haverá alguma relação entre este facto e a razão pela qual eu nunca apanhei o paludismo.
Assisti a um diálogo entre dois médicos, sendo que um deles era maçarico, a perguntar ao velhote se davam quinino aos militares, uma vez que o quinino matava. Se eu já era anti comprimidos ainda fiquei pior.
Aprendi a dar sangue durante o tempo em que estive na Guiné. A primeira vez foi uma transfusão direita para um camarada a quem estavam a amputar uma perna porque tinha rebentado uma mina. Fui apanhado pelo Médico Psiquiatra, Dr. Pimenta que me estava a tratar. Nos últimos 6 meses em que estive em Bissau ainda dei sangue mais duas vezes. Regressado da Guiné fui dador de sangue até a idade o permitir. Dar sangue e colocar a agulha não custava nada. Quando eu dizia que tinha estado na Guiné, lá vinha a pergunta, então teve paludismo.
Quando dizia que não, era certo e sabido que não acreditavam. Então lá vinha a pica na ponta do dedo que me irritava solenemente.
Indicam as estatísticas de que durante a guerra do ultramar teriam morrido por doença 475 militares em Angola, 320 em Moçambique e 266 na Guiné. Não é indicado o tipo de doença pela qual foram vitimados.
As doenças venéreas em Bissau existiam e cada um as escondia da maneira mais airosa que conseguia sem dar muito nas vistas, o que não acontecia em Jumbembem onde todos sabiam que em Jumbembem catota cá tem.
Fui fortemente mordido por mosquitos, abelhas e formigas, mas nunca causaram problemas de maior.
Na minha ida de Bissau para Jumbembem fui de “avião” até Farim e depois tive de ficar em Farim à espera de coluna para Jumbembem. A CCS do meu Batalhão, que já estava em Farim, quando pedi um local para dormir mandaram para um armazém sem portas onde se encontravam em monte uma catrefada de camas. Montei uma cama e deitei-me. Não tinha mosquiteiro e dormi vestido. Por meio da noite, quando acordei, tinha sido invadido por semelhante praga de percevejos que tive de andar a matá-los com uma tábua das caixas das batatas.
Convém aqui recordar de que as batatas para a Guiné não iam em sacos, mas sim em caixas de ripas de madeira fina.
Falava-se muito em sarna, mas nunca tive, nem me apercebi que existisse.
Havia o péssimo hábito do uso da alpercata de enfiar o dedo. Claro que esse péssimo hábito era um chamariz para apanhar matacanha. Pela minha parte dei sempre preferência às botas de lona. Em Jumbembem havia disso a dar com pau e também me calhou uma. Havia nativos que usavam uma ferramenta feita em madeira para tirar a matacanha. Não era permitido nessa tarefa fazer sangue. Os apanhadores de matacanhas eram apelidados de Calonjandas.
Resumindo: Durante todo o tempo que estive na Guiné fui escapando ao paludismo por entre os pingos da chuva que na Guiné até eram bem grossos.
No Quartel General em Bissau, eu ocupava para dormir uma casinha de rés do chão que ficava nas traseiras do lado da bolanha que ia desde a Administração Militar até às proximidades de Bissalanca. A “vivenda” tinha uma sala onde estava instalado um AN-GRC 9, dois quartos e uma casa de banho. Um dia por volta das 4 ou 5 da tarde lembrei-me de ir para o banho. Toalha pela cintura alpercata de enfiar o dedo e aí vai ele para debaixo do chuveiro. Não sei precisar quanto tempo lá estive debaixo do chuveiro, mas deve ter sido um bom bocado. Quando saí comecei a sentir uma forte comichão na sola dos pés. Esfreguei os pés no chão de tal maneira e com tal gana que quando dei por ela sangrava a bom sangrar. Fui direito à enfermaria e fui enviado para o Hospital. Uma vez tratado no Hospital mandaram-me lá estar à meia noite para fazer uma análise ao sangue para detectar um bicharoco que só atuava depois da meia noite. Vim para o QG e por volta da meia noite fui ter com o Senhor Oficial Dia pedindo-lhe que mandasse o Condutor Dia levar-me ao Hospital. O Senhor Alferes riu-se e disse-me. -Vai dormir e vais ver que amanhã pela manhã já estás bom. Eu fui, mas passados 10 minutos andava tudo à minha procura porque já tinham telefonado do Hospital a pedir a minha presença, porque os outros dois já lá estavam. Dei sangue para fazerem a análise, mas o resultado nunca me foi comunicado.
No início da década de 80 e durante uns anos quando era chegado o mês de outubro apareciam-me na sola dos pés umas bolhas com cerca de um centímetro de diâmetro que me impediam de calçar um calçado normal. Tinham de ser lancetadas de uma forma em que a anestesia era morder a aba do chapéu. Isto aconteceu durante uns quatro ou cinco anos e não mais voltou. Não tenho conhecimentos que me permitam relacionar este facto com aquilo que me aconteceu em Bissau.
Regressado a Lisboa, entrei de férias regulamentares durante um mês, tendo passado à disponibilidade a 15 de março do ano de 1967.
Quando fui fazer o resto espólio da roupa que tinha trazido vestida ainda tive de pagar sete escudos e cinquenta centavos para a lavagem dessa roupa, que o nosso primeiro atirou para um monte de trapos.
Com a passagem à disponibilidade foi-me entregue um documento que me obrigava a uma vez em cada mês ir a um departamento militar localizado na Rua Dona Estefânia em Lisboa para levantar medicamentos para o paludismo. O destino dado a esses medicamentos já foi dito num comentário feito ao Post 7012 de 20 de setembro de 2010.[1] Esta obrigatoriedade tinha origem no facto de não ter tido o paludismo durante o tempo que estive na Guiné.
Diziam os entendidos que quem não teve paludismo na Guiné iria ter em Portugal, mas com gravidade muito mais elevada.
Eu não nasci num berço de ouro. O meu berço foi uma canastra velha de ir ao pinhal mais próximo apanhar os chamiços dos pinheiros para alimentar a lareira onde eram colocadas as panelas de ferro para fazer o caldito dos pobres.
Deixo alguns pedidos neste meu documento, que espero sejam respondidos nos comentários.
Desde já os meus agradecimentos com um forte abraço e com votos de muita saúde para todos.
Artur António da Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
26 de outubro de 2026
_____________
2. Comentário do Coeditor CV
Como a partir da caixa dos comentários não se pode publicar imagens, aproveito este post do amigo Artur Conceição para publicar, complementando ao mesmo tempo o seu texto, três boletins de vacina a que fui sujeito durante a minha estadia no Exército Português.
O primeiro boletim diz respeito à célebre injecção em série que se levava ainda na recruta. Diz no registo que fomos vacinados em 9 de Maio de 1969 contra a varíola.
No Funchal, sensivelmente um mês antes do embarque para a Guiné, exactamente no dia 12 de Março de 1970, fomos todos em filinha ao Centro de Saúde do Funchal onde fomos vacinados contra a febre amarela. Finalmente e, provavelmente não menos importante, já na Guiné fomos revacinados, segundo o que está registado, contra a Febre Amarela. Curiosamente a data que consta é 12/3/70, que está errada, porque desembarcámos na Guiné só no dia 17 de Abril de 1970. Talvez quisessem escrever 12/3/71. O carimbo não deixa dúvida, "Serv. Saúde da Guiné Portuguesa Vacinação" _____________
Notas do editor:
[1] - Comentário de Artur Conceição no post Guiné 63/74 - P7012: Doenças e outros problemas de saúde que nos afectavam (1): Paludismo (Rui Silva)
Anónimo disse...
Eu não sei se posso dizer isto!...
Picadelas em Brá, em Bissorã e no Olossato e depois em Farim e Jumbembém apanhei umas boas centenas. Efeitos das picadelas não foram além das coçadelas habituais. Comprimidos nunca engoli nenhum, não pelo seu tamanho, porque até eram pequenitos, mas outra qualquer maluqueira de que não me recordo.
Matacanha apanhei uma que o Mamadu tirou com um canivete de madeira sem consequencias de maior. Das outras só vi no Hospital de Bissau.
Como durante os 24 meses de Guiné não apanhei paludismo, e como os Médicos entendiam que quem não apanhava na Guiné apanhava cá e com consequencias mais graves, acabei por ficar 6 meses de quarentena, pelo que uma vez em cada mês tinha de me deslocar a um Departamento na Rua D. Estefânia onde me era fornecido um saco de medicamentos. E agora não vou dizer o que lhes fazia porque já todos advinharam.
Na Guiné dei sangue por 3 vezes e nunca alguém me perguntou se já tinha tido paludismo.
Depois do regresso dei sangue várias vezes, e a cada vez o Médico perguntava, esteve no Ultramar? Estive na Guiné. Teve paludismo? Não tive. Nunca nenhum acreditou, e só depois da picadela no dedo para retirar sangue para análise, que custava bem mais do que dar sangue, é que acreditavam.
Não digo mais...
Os meus respeitos e a minha admiração para todos aqueles que não tiveram a mesma sorte. Vi muitos aflitos e em grande sofrimento.
Um grande abraço para todos os que apanharam paludismo e para os outros também...
Artur Conceição
segunda-feira, 20 de setembro de 2010 às 15:58:00 WEST
Último post da série de 20 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28451: Retalhos da vida militar (14): A (des) Vantagem de ter duas Especialidades (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Guiné 61/74 - P28466: As nossas geografias emocionais (69): João Landim e a sua famosa jangada (Victor Costa, 1952-2026)
Foto nº 1, 1A, 1B,1C
Foto nº 4A, 4B, 4
Foto nº 5, 5A,5B
Foto nº 6
Guiné > Sector de Bissau > Safim > CCAÇ 4541/72 > 1974 > Destacamento de Safim > Era aqui que a famosa jangada de João Landim fazia a travessia ("cambança") do rio Mansoa.. A foto nº 6, a preto e branmco, é uma das originais dp álbum do álbum do Victor Costa (1952.2026), que estve aqui destacado.
Foto (e legenda): © Victor Costa (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / OPen AI)]
Guiné > Carta geral da província (1961) / Eascala 1/500 mill > Posição relativa de João Landim: com Nhacra e Bissau a sudeste; região do Oio a nordeste (Mansoa, Bissorã,Mansabá, Olossato, Farim); região do Cacheu, a norte e e noroeste (Binar, Bula, Cõ, Pelundo, Teixeira Pinto,Cacheu, Ponta São Vicente. Imagem melhorada com recurso à IA / Google (2026)
Guiné > Carta de Bula (1953) / Escala 1/50mil > Posição relativa de João Landin, rio Mansoa, Bula e Binar . Imagem simplificada e melhorada com recurso à IA / Google (2026)

Guiné-Bissau > Ponte Amílcar Cabral, mais conhecida por ponte João Landim. Com 785 metros de comprimento, inaugurada em 2003, foi totalmente financiada pela União Europeia e construída por um consórcio espanhol [Foto: Acciona-Engineering, com a devida vénia...]
A travessia do Rio Mansoa era feita através de uma jangada, "pachorrenta", que transportava viaturas militares, tropa, civis e material logístico (geralmente apenas duas viaturas de cada vez), exigindo horas de espera e um esquema mínimo de segurança (nunca houve nenhuma emboscada, ataque, flagelação ou mina...).
Uma companhia de 160 homens, com 8 ou 10 viaturas, podia levar entre uma hora e meia e mais de duas horas, em 4 ou 5 viagens, para fazer a "cambança".
A equipagem e a manutenção da jangada de João Landim (tal como as de S. Vicente e Farim) estavam a cargo do BENG 447 e da Marinha.
O local em si era seguro. Durante o ano de 1971 a estrada João Landim - Bula ficou asfaltada, facilitando a ligação com Bissau.
Nunca houve financiamento para fazer uma "miserável" ponte sobre o rio Mansoa!... (Se a jangada era segura, e barata, e nunca fora atacada, para quê construir uma ponte, ó estúpido ?!...Afinal, não éramos ricos, mesmo tendo ambições imperiais...)
Os guineenses tiveram que esperar 30 anos (!) pela "ponte Amílcar Cabral", ou melhor "ponte João Landim", como é mais conhecida (que o povo é politicamente incorreto, como o caraças!...). Construída pelos espanhóis. Com patacão da UE... Tal como a ponte de São Vicente (670 metros de comprimento); essa, sim, com forte componente e orgulho da engenharia portugesa!...
Boa pergunta: quem foi o João Landim, consagrado pelos nossos cartógrafos e a memória do povo ? Teria sido algum "ponteiro" ? "Tuga" ou cabo-verdiano? Algum "herói das campanhas de pacificação" ?
Em 10 de abril de 1974 o destacamento de João Landim era guarnecido por um Gr Comb da 1ª Cav/BCav 8320/72 mais uma secção reforçada da CCaç 4541/72 (sediada em Safim). Os fuzileiros patrulhavam o rio Mansoa.
João Landim, subsetor de Safim, pertencia ao setor de Bissau (COMBIS - Comando de Agrupamento de Bissau). Além de Safim, o COMBIS compreendia ainda os subsetores de Brá, Bor, Prábis e Quinhamel
Ataques só lá mais para norte, na região do Cacheu... Por exemplo, em 17Set73. pelas 06h40, forças do Pel Mil 223/CMil Pelundo, em missão de escolta no itinerário Có- Bula - João Landim, foram emboscadas por um grupo inimigo na área de Pelundo, sector 07. As NT sofreram 11 mortos (10 da população), 12 feridos graves (5 da população) e 15 feridos ligeiros.
____________________________
Nota do editor LG:
Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Agosto de 2026:Queridos amigos,
É graças aos transportes de mudanças Ilídio que vamos conhecer a evolução dos acontecimentos na Baixa, a carripana atulhada de móveis vai sendo impedida aqui e acolá de circular, regressa à base, um novo empregado chega ali pelas onze horas e conta o que se passa no Tejo e no Terreiro do Paço, os microfones a pedir insistentemente para que a população fique em casa, uma multidão que se forma ali para os lados do Carmo, um dos presentes do jantar recorda a sua infância, passada naqueles sítios, chega o general do monóculo, mais tarde sai uma viatura militar que transporta o fim do regime em direção à Pontinha, naquele dia, viremos a saber no romance Fado Alexandrino, que mudou a vida de toda a gente, de tenente-coronel a soldado houve amores e desamores, houve quem partiu para o exílio, e até quem defendia o Estado Novo se declarou prontamente estar ao lado da revolução, é aquela longa metáfora, permanentemente repetida, dos vira-casacas.
Um abraço do
Mário
Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 3
Mário Beja Santos
Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de Abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.
Digo e repito que encontrei neste romance algumas das páginas mais fulgurantes sobre os acontecimentos vividos em 25 de Abril, Lobo Antunes pretexta uma mudança que vai passar pela Baixa, não resisto a transcrever alguns parágrafos que revelam tal escrita vigorosa, mesmo incandescente, o tio do soldado vai ao lado do motorista, que ele chama o velho, começam a encontrar infantaria nas esquinas, carros de assalto, militares de capacete de bazuca ao ombro, um tenente novinho mandou-os parar:
“Trânsito cortado, amigos, Tenho uma entrega urgente no Chiado, respondeu o tio, não é a nossa camioneta que vos vai estorvar, recuaram, deram meia volta e meteram pelo Entreposto, pelo Rato, pela Escola Politécnica, o soldado ligou a telefonia e as marchas e as cantigas à viola atroaram a cabina onde tudo vacilava e vibrava, a música interrompeu-se, a voz locutora recomeçou a falar, Cala-me essa porra, minha besta, rugiu o tio, possesso, apalpando a bomba para a asma no casaco, edifícios dignos, antiquários, o jardim do Príncipe Real cintilante de luz e quase logo a seguir um tanque atravessado no pavimento, homens fardados, morteiros, viaturas da tropa, e agora um sargento a aproximar-se, abespinhadíssimo, de pistola na mão, Desapareçam daqui antes que eu vos pregue um tiro, A gente espantava-se, nunca tínhamos sonhado aparato de guerra nas ruas de Lisboa, alguns camuflados, em pinha num banco, escutavam de cabeças juntas os hinos bélicos da emissora, rodei o volante, engrenei a primeira, a marcha atrás, a primeira de novo, o sargento fitava-nos numa desconfiança veemente, e dali a dez minutos entravam aos solavancos no armazém, com a caixa da camioneta repleta de móveis.”
Mas o dia mal começou temos mais peripécias para contar. “Às onze horas apareceu o Carmindo, de motorizada, um de bigode que entrara à experiência em março e vivia com a afilhada da contabilista, tirou o capacete e os cabelos puseram-se-lhe todos em pé, Foi o sarilho das Arábias para me deixarem passar, até barcos de guerra andam no Tejo, não querem que ninguém se pire de casa, e uma onda incontrolável de pessoas sobe o Chiado na direção da PIDE, na direção do Carmo.”
O senhor Ilídio, o tio do soldado, proprietário daquele serviço de transportes, não esconde a sua perplexidade, via o negócio a afundar-se, os móveis a desfazerem-se na arrecadação, as mudanças Ilídio sem encomendas nenhumas, congemina os cenários mais apocalíticos, cadáveres por toda a parte, os hospitais inundados de feridos, pelotões de fuzilamento, bandeiras vermelhas nos edifícios públicos.
E o escritor volta aos acontecimentos:
“O general de monóculo saiu por fim do quartel da Guarda, sem se emocionar com entusiasmo, sem corresponder aos aplausos, instalou-se no carro que de imediato principiou a rodar para fora do largo, iam chegando mais tanques de guerra que apontavam os canhões ao prédio deserto, mais oficiais, mais tropa, um fulano, munido de uma alcofa, distribuía cravos.” O senhor Ilídio encontrava-se num estado lamentável: “Se levarem o Presidente do Concelho num carro blindado estamos perdidos, lamentou-se com a cabeça entre as mãos. Não tarda nada vêm-nos buscar, de pistola, aqui ao armazém.”
Voltemos ao cenário do Carmo:
“O número de pessoas no largo não cessava de aumentar, muitas delas munidas de bandeiras e aparelhos de rádio como nos desafios de futebol, as árvores eram novelos de pernas e de braços e de olhos atentos, expectantes, vorazes, um tanque destacou-se da multidão, avançou para o quartel, bocas abertas, centenas de dentes rebrilhando ao sol na espuma verde coada pelas folhas, cotovelos que me empurravam, membros que se colavam aos meus, um suor entusiástico nas narinas, e, de súbito, meu capitão, senti-me de novo com quatro, cinco, seis, sete anos, submergido pelas fantásticas, espessas, terríveis proporções dos adultos.”
Todos berram pela liberdade, há perseguições, há correrias a eventuais membros da PIDE, e volta-se ao relato do que fora vito no Largo do Carmo:
“O carro de assalto, meu capitão, acabou por desaparecer seguido por um enxame de gente, e passados momentos a multidão abandonou o largo, entoando os hinos e as cantigas da rádio, a tropa retirou-se igualmente da praça à exceção de sete ou oito gajos de metralhadora e camuflado que protegiam o quartel contra o friozinho do crepúsculo.” No armazém do senhor Ilídio, um locutor triunfal anunciava na telefonia a vitória completa do Movimento das Forças Armadas.
O tenente-coronel também tem histórias para contar. Era comandante de uma unidade militar de peso, recebe de madrugada um telefonema do seu camarada Ricardo, está no Ministério da Defesa, diz-lhe que há uns tantos palermas que andam por aí a brincar às revoluções, deverá ir até à sua unidade, o mais depressa possível, pô-los na ordem, acabar com aquelas aventuras. “O Secretário de Estado diz que não temos tempo a perder, é necessário meter essa cambada de miúdos nos eixos, a bem ou a mal, antes que aconteça um disparate qualquer. O teu quartel controla a entrada em Lisboa de quem venha do Norte, bastam meia dúzia de carros de assalto por aqui e por ali. Tens de jogar com o teu prestígio junto dos oficiais mais novos, e é escusado sublinhar que todos contamos com isso, que te pedimos que ajudes a evitar custe o que custe uma asneirada infantil.”
Acontece que este Tenente-coronel Ricardo vai aparecer depois do lado da revolução, uma daquelas metamorfoses em que se dão cambalhotas do lado vencido para o lado vencedor, e este lado vencedor nem se inquieta com o ingresso dos cristãos-novos. O Tenente-coronel Artur apresenta-se na sua unidade, diz a todos que se está nas tintas para a revolução e até mesmo para aqueles que a contrariam, ainda não sabe que dentre em breve irá trabalhar às ordens do dito Ricardo saneando no Ministério da Defesa, pela mão do nosso Tenente-coronel Artur, uma barrigada de oficiais, mais tarde haverá saneamento ao contrário, é este o fadário das revoluções.
António Lobo Antunes (1942-2026)
(continua)
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Notas do editor:
Vd. postanterior de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 23 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28456: Notas de leitura (1973): "Nós, Os Filhos da Guerra", por Frederico Valarinho; Âncora Editora, 2024 (Mário Beja Santos)
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