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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra começa a ter uma dívida com Catarina Gomes que tem vindo a abrir portas e a dar mais longitude e latitude a este subgénero literário; é uma vertente do pós-colonial que mergulha num passado diluído, com claros-escuros, porque o essencial da história, até há pouco tempo, era constituído por relatos na primeira pessoa do singular, o tal ex-combatente e o poder da sua memória, e também a historiografia onde os filhos pouco ou nada contaram, até porque o tal poder da memória era de alguém maioritariamente solteiro ou com filhos muito pequenos. Importa reconhecer que é muitíssimo bom ver esses filhos que querem desvendar por onde andaram os pais - enfim, exaltemos este dever de memória que ganha continuidade nas gerações mais novas.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 1

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

“Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes, Matéria Prima Edições, 2014, comporta quadros desta nova visão, como a autora se procura explicar na introdução:
“Cada uma das histórias privadas deste livro é uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial: a realidade dos prisioneiros de guerra, das enfermeiras paraquedistas, dos desaparecidos em combate, das vítimas de stress de guerra, dos africanos que lutaram pelos portugueses, de ex-combatentes que também foram retornados. Sem se conhecerem entre si, algumas das histórias destes pais entrecruzam-se, embora isso não tenha sido procurado: a Operação Mar Verde atravessou a vida de dois pais, um fuzileiro, outro que era prisioneiro e foi libertado; Alexandra Penteado e Júlia de Sá da Costa são irmãs; o pai de Joana Bastos relembra uma enfermeira paraquedista que o socorreu; a mãe de Miguel Sousa foi uma dessas 46 mulheres. Mariama Sambu fica aqui como o símbolo de milhares de histórias que podiam ser contadas do outro lado de um conflito que foi batizado com outros nomes, como Guerra de Libertação Nacional ou Guerra da Independência.”

A narrativa abre com um prisioneiro de guerra. Teresa Capítulo sabia que o seu pai saíra para a guerra antes de ela ter nascido, fora dado como morto. No entanto, chegaram algumas vezes cartas, o pai dizia que estava preso, quando um dia regressar à sua terra, Sesimbra, terá um acolhimento eufórico, foi libertado durante a Operação Mar Verde. Teresa folheia o álbum deste soldado radiotelefonista que teve o cuidado de dizer no interrogatório do PAIGC que era maqueiro. Um pai sempre discreto a falar de acontecimentos violentos, comparece regularmente ao almoço dos prisioneiros de guerra. A memória de Teresa vai ao fundo da sua infância, sempre que ela ou o irmão diziam que não queriam comer ou que não gostavam da comida que tinham à frente, lá vinha a história dos três anos que o pai teve que passar a comer arroz. Ainda hoje em Sesimbra Teresa continua a ser conhecida pelos mais velhos como “a filha daquele rapaz que esteve lá fora, a filha daquele que esteve preso” e ela diz no fecho da história: “Seria uma pessoa diferente se não fosse Teresa Capítulo, filha de um prisioneiro de guerra.”

O relato de Alexandra Penteado é a de um pai violento e de uma vida familiar calamitosa. Sempre fez perguntas porque é que o pai batia tão violentamente na mãe e apavorava os filhos, embora Alexandra saiba que tinha um papel apaziguador quando o pai desvairava, chegava a ir de calções para a rua a gritar “vou matar os pretos”. Nas noites em que se enfurecia gritava “saiam, senão mato-vos a todos”, fúrias que geraram uma rotina na família: ninguém se despia a não ser no exato momento de ir para a cama. Isto passou-se no Barreiro velho. A família foi desenvolvendo uma espécie de sensor para medir os inícios da ira do pai, aprenderam a prever os momentos em que os surtos acabavam. O pai chegava a partir tudo em casa, buscava-se a normalidade indo comprar a loiça partida que era preciso repor. Em jeito de desabafo, Alexandra disse que o seu pós-guerra durou até aos 18, 20 anos, não resta quase nada da origem lá em casa, tudo foi sendo partido e substituído.

Descobriram depois que o pai sofria de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, mas o pai recusou ir a um psicólogo ou psiquiatra, dizia que não estava maluco, isto embora tivesse estado internado na ala de psiquiatria do Hospital da Marinha. Aos poucos, ela foi procurando saber o que acontecera ao pai durante a guerra. Por exemplo, num desses almoços de ex-combatentes, ouviu que o pai tinha matado uma mulher com um punhal. “Depois da sua morte foi encontrar a condecoração largada dentro de um saco de plástico atado com um nó, depositada numa menosprezada terrina com a tampa de duas flores amarelas e ramagens verde seco que andava lá por casa dos pais. Tem-se esforçado por perceber porque arrancou da caderneta um símbolo desses supostos atos de bravura e pensa que poderá estar relacionado com alguns dos seus fantasmas mais assustadores.”

Guarda as memórias do pai violento num diário de adolescência. O pai morreu de cancro do pulmão aos 59 anos, cinco anos antes da morte estava mais calmo. Guardou fotografias de guerra do pai, que era fuzileiro, para sua surpresa, no funeral o cemitério estava cheio. No dia em que acordava a meio da noite com o pai a gritar “saiam, senão eu mato-vos”, Alexandra vê agora a tentativa de proteger a família de si mesmo.

Temos agora a história de Marisa, muito curiosa com a mala de tropa do pai. Em momentos excecionais, o pai mostrava a homens, ex-camaradas de guerra, ou então aos tios, mais novos do que o pai, o conteúdo. O pai foi deixando que Marisa lesse livrinhos de aventuras que estavam guardados na mala. Num dia em que os pais estavam ausentes, Marisa abriu a mala e encontrou cartas, e descobriu uma coisa única: o pai na guerra tinha uma quantidade enorme de madrinhas de guerra, havia um inicio de contacto que tinha sempre um padrão: “Ao ler o meu nome verifica que lhe sou totalmente desconhecido, dirijo-me a si com sinceridade e com um fim que lhe é fácil realizar caso queira dar-me aquilo que até agora não obtive, o que lhe peço é correspondência como madrinha de guerra.” Apresenta-se a todas dizendo que tem 22 anos, 1,72m de altura, olhos castanhos, cabelo um pouco loiro e era natural do concelho Porto de Mós, não tencionava ficar muito tempo solteiro porque o pai tinha casa de comércio. “Marisa vivia fascinada com a forma como se podem conhecer tantas raparigas ao mesmo tempo não saindo do mesmo sítio e vivendo num local onde quase só se convive com homens.”

É uma correspondência assombrosa, começa sempre por tratar as meninas por você, depois passa a tratá-las por tu e a dizer amor. Em adulta, Marisa fizera uma grande surpresa ao pai, escreveu um livro para encaixar aqueles objetos, fotos e memórias ordenadas, o pai acedeu, entrou no jogo da verdade, fez-se a cronologia da sua comissão em Mocímboa da Praia, dedicou o seu relato às 21 madrinhas de guerra. Acontece que uma dessas madrinhas de guerra, de nome Mimi é a mãe de Marisa. Umas duas a três vezes por ano, o pai volta à mala, esta é um lembrete do que ele foi capaz de fazer e de até onde foi capaz de ir. Marisa sempre sonhou voltar àquele local onde o pai escreveu tantas cartas às madrinhas, ali no jardim previsto da paixão entre Fernando e Mimi Vieira Reis, Vila Nova de Ourém.

Por ironia do destino, vamos ouvir falar de novo do pai de Teresa Capítulo e da menina que ele deixou na Guiné, e há muitas outras histórias para contar. Que belo livro de narrativas que Catarina Gomes nos ofereceu.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)

Guiné 61/74 - P28287: A Nossa Poemateca (12): Ruy Belo (1933-1978) no "país sem olhos e sem boca", onde "não acontece nada", que "é o que o mar não quer", e que tem "a forma do sável que vem nas enxurradas"... Como construir o "Portugal futuro" ?


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Fez agora 48 anos que morreu Ruy Belo (Rio Maior, 1933- Monte de Abraão, Queluz, Sintra, 1978).
 
Morreu cedo, aos 45 anos. De edema pulmonar. Em  9 de agosto de 1978. Desconfio que a Pátria, ingrata, distraída ou descuidada, o deixou morrer (para não dizer que que o matou, precocemente, por negligência). Como tem deixado morrer ou matado, precocemente, alguns dos melhores de nós... 

Ele, um dos "vencidos do catoliscismo",  não foi soldado de armas na mão, mas lutou por (e sonhou com)  "O Portugal futuro"... 

Este é justamente um dos poemas  de que eu mais gosto, ao ponto de o ter reproduzido na dedicatória (à Alice, à Joana e ao João),  constante da minha tese de doutoramente em saúde pública/saúde ocupacional, "Política(s) de saúde no trabalho: um inquérito sociológico às empresas portugueses" (Universidade NOVA de Lisboa, 2004).

Tal como gosto, particularmente, dos três outros poemas, que aqui também reproduzo na nossa poemateca (*):  "Portugal sacro-profano - Lugar onde",  "Portugal sacro-profano - Vila do Conde" e "Morte ao Meio-Dia". 

Na "explicação preliminar" à 2ª edição do seu livro de 1970, "Homem de Palavra(s)", ele escreveu, três meses antes de morrer,  que em "O Portugal futuro"  nos surge "um país descolonizado", que tinha a forma de um "sável", um peixe que vinha nas enxurradas, em Rio Maior, "quando os barcos navegavam entre as cepas" (Ruy Belo, "Todos os poemas", 2000, pág. 187)...

Já nos  nos outros dois poemas ele retoma o tema da dicotomia pátria / país (onde nada acontece), que lhe era particularmente caro. "Desenhar" um país novo implicaria, de algum modo, renunciar ao passado: afinal, "o meu país é o que o mar não quer", diz ele no célebre e genial verso do poema "Morte ao Meio-Dia":

(...) No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça (...)

(...) A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


E o que o mar não quer,  são os "náufragos", os destroços da história trágico-marítima, do Império, do Estado Novo, os pescadores, os marinheir0s, os cavadores de enxada, as mulheres que pariam com dor os futuros s soldados, mas também os mortos das guerras de descolonização,  os desterrados, os retornados, e todos os demais perdedores...
 
Quando leio e releio este poema icónico, não posso deixar de pensar nos soldados 
que, como eu, se sentiram "náufragos" de uma guerra sem sentido... (Eu, pelo menos, nunca consegui encontrar o fio à meada no labirinto desta guerra.)

Por outro lado,  chama a Portugal "país sem olhos e sem boca", uma "pátria" que da palavra só tem a "superfície"...

E Vila do Conde, "o lugar onde o coração se esconde"  ? Bom, foi lá que o poeta, ribatejano,  se casou com uma minhota, Maria Teresa Carriço Marques, professora de liceu, mãe dos seus 3 filhos, um deles um notável fotógrafo, Duarte Belo.

Não sendo um poeta "fácil", Ruy Belo merece ser lembrado e sobretudo melhor conhecido, por nós, antigos combatentes... Um poema como  "Portugal sacro-profano: lugar onde",  ajuda-nos a questionar o que foi (e é)   "Portugal", milenar, um lugar de memória, de ausência, de conflitos (internos e externos)...

Por outro lado, o título ("Portugal sacro-profano") sugere uma tensão dicotómica entre o sagrado (o ideal, o espiritual, o transcendente, a missão, o dever) e o profano (o real, o quotidiano, o imanente, a violência, a dúvida). 

Eu leio-o como  uma metáfora poderosa para a experiência da guerra da Guiné: o ideal de servir a pátria 'versus' a realidade brutal de um conflito absurdo, e  sem fim à vista.

Ruy Belo era um homem de/da palavra. Também um artesão. Um perfeccionista. E um incansável poeta.  Teríamos hoje uma obra gigantesca, se ele fosse vivo.  (Mesmo assim, a sua obra completa, em edição crítica da Assírio & Alvim, é um grosso volume de quase 7 centenas de páginas.)

São quatro poemas, os da minha antologia pessoal,  que têm uma estrutura, um ritmo, uma cadência, uma oralidade,  que os torna fáceis de ler em voz alta, em qualquer  uma das nossas tertúlias... ou encontros de antigos combatentes. (Gostaríamos de os levar comigo, na minha derradeira viagem, quando me despedir um dia destes da Terra da Alegria: é, de resto, o título do seu penúltimo livro de poesia, publicado em 1977, "Despeço-me da Terra da Alegria".)

Não são poemas panfletários, "à Guerra Junqueiro", não têm uma leitura imediatista, são intemporais, o que é um  ponto a favor do nosso  público-alvo de quem se diz que "não gosta nem  sabe nada de poesia"... O que até nem é verdade: fomos também na Guiné homens de/da palavra, veja-se o nosso "cancioneiro da guerra", com os seus lamentos e protestos, a  sua irreverência, o seu humor de caserna, o apelo à liberdade, à justiça, à paz, enfim, com letras que glosavam a  saudade, a esperança do regresso, sem esquecer a paródia que fazíamos a letras de fados, baladas, canções, bem como a grandes obras e poetas, como os "Lusíadas", de Luís Vaz de Camões...  LG
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PORTUGAL SACRO-PROFANO ‑ LUGAR ONDE

Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria de palavra apenas tem a superfície)
os comboios são mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui põem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa de varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com a saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após as sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca

(pp. 196/197)

PORTUGAL SACRO-PROFANO – VILA DO CONDE

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

(pp. 197/198)

O PORTUGAL FUTURO

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

(pp. 199/200)


MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência  cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga  calado cada prestação
Para banhos de sol nem se precisa
E cai-nos  sobre os ombros quer a armaquer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

(pp. 363/364)


Ruy Belo (1933.1978) - Todos os Poemas. Liaboa: Assírio e Alvin, 2000 (com  devida vénia...) 






(1978), “Diário de Lisboa”, n.º 19727, ano 58, quarta, 9 de agosto de 1978, Fundação Mário Soares e Maria Barroso / Ruella Ramos, Disponível em: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_3667 (consultado em 2026-08-23)


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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 27 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27262: A Nossa Poemateca (11): "Aforismos", de Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

Postes anteriores da série:

12 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27007: A Nossa Poemateca (10): Ovídio Martins (Mindelo, 1928 - Lisboa, 1999), um grande poeta cabo-verdiano bilingue

28 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26536: A Nossa Poemateca (9): Cesário Verde (1855-1886): Excertos de "Nós", seguidos de "O sentimento de um ocidental"

10 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26482: A Nossa Poemateca (8): José Gomes Ferreira (Porto, 1900 - Lisboa, 1985), por Mário Gaspar

21 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26410: A Nossa Poemateca (7): Adília Lopes (1960-2024): "Os amores / que não tive / (e foram muitos) /moeram-me / o juizo"...

4 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26347: A Nossa Poemateca (6): Adeus, de Eugénio de Andrade ("Os Amantes Sem Dinheiro", 1950) (escolha de Mário Vitorino Gaspar, ex-fur mil art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé,1967/69)

2 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26335: A Nossa Poemateca (5): Romance de Tomasinho Cara-Feia, de Daniel Filipe (Ilha da Boavista, 1925-Lisboa, 1964 ) (escolha de Alberto Branquinho, ex-alf mil, CART 1689,1967/69)

31 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26331: A Nossa Poemateca (4): Força de Crecheu, de Eugénio Tavares (1861 - 1930) (escolha de Luís Graça)

30 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26328: A Nossa Poemateca (3): Adeus, irmão branco!, de Geraldo Bessa Victor (Luanda, 1917 - Lisboa, 1985) (escolha de Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 / BCAÇ 3880, Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74)

29 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26323: A Nossa Poemateca (2): "Lágrima de preta" (1961), de António Gedeão / Rómulo de Carvalho (1906-1997) (escolha de Beja Santos, nosso crítico literário)

27 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26318: A Nossa Poemateca (1): "Ladainha dos Póstumos Natais" (1971), de David Mourão Ferreira (1927-1996) (escolha de Valdemar Queiroz, minhoto de criação, alfacinha por adoção)

Guiné 61/74 - P28286: Parabéns a você (2519): António Fernando Marques, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1968/70)

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Nota do editor

Último post da série de 23 de Agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28283: Parabéns a você (2518): Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art da CART 1689 / BART 1913 (Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

domingo, 23 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28286: O Nosso Livro de Visitas (232): João Bonifácio, a viver no Canadá desde 1974, ex-Fur Mil Sam da CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)


1. Mensagem do nosso camarada João Bonifácio, Ex-Fur Mil do SAM da CCAÇ 2402/BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), com data de 14 de Agosto de 2026:

Parece ser o momento para por este meio enviar um abraço amigo a todos os que por aqui ainda visitam e escrevem.
Não tenho muito para contar, porque não esperava ver-me mais uma vez a entrar pela Tabanca do Luís e amigos. O tempo passa e já vão 16 anos desde que tive a triste ideia de me reformar em Portugal. Mas não é tudo mau. Já não tenho 65 anos mas estou a perder altitude nos 81 e em Fevereiro já cá cantam 82.

Nesta reforma que todos tanto desejamos, ficam as dores nas pernas e as energias que se vão perdendo. Por causa disso, não tenho podido ir a Portugal.
No próximo dia 5 de Setembro, o Esparteiro irá fazer a última reunião militar da CCAÇ 2402. Já se perderam muitos amigos e camaradas e em conjunto com a idade, temos de analisar a situação financeira de alguns, que já não podem andar na estrada, para se deslocarem para os pontos de reunião.

Neste ponto, eu apenas desejava dizer-lhes que estou bem vivo, com dores aqui e ali, mas ainda capaz de escrever e dizer-lhes que aprecio muito poder enviar um abraço amigo para todos, e pedir ao nosso chefe de Tabanca que aceite e divulgue as minhas saudações. Para o Luís Graça e todos os restantes, o meu eterno agradecimento por nos dar esta oportunidade.

Pronto. Um dia destes escrevo uma história acerca da minha vivência no Canadá, onde cheguei em Fevereiro de 1974. Again, thank you, stay well and enjoy life.

João Bonifácio
Ex-Fur Mil do SAM
CCAÇ 2402/BCAÇ 2851
Có, Mansabá e Olossato
1968/70

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Nota do editor

Último post da série de 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28275: O Nosso Livro de Visitas (231): Arsénio Puim, antigo alferes graduado capelão, CCS/BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), acaba de lançar um novo livro sobre o povo da sua ilha, e vem "partir mantenhas"

Guiné 61/74 - P28285: Em busca de... (335): Camaradas do Batalhão de Cavalaria n.º 8320/73 (João Rodrigues de Freitas, BCAV 8320/73, Bissorã e Bissau, 1974)

1. Mensagem do nosso camarada João Rodrigues de Freitas do BCAV 8320/73, enviada ao Blogue no dia 20 de Agosto de 2026 através do formulário de Contacto do Blogger:

O meu nome é João Rodrigues de Freitas e sou de Espinho.
Escrevo porque gostava de entrar em contacto com ex-colegas que estiveram na Guiné comigo. Pertencemos ao Batalhão de Cavalaria 8320/73.
Fomos os últimos a abandonar a Guiné. Fomos em Junho de 1974 e viemos em Outubro do mesmo ano, portanto só estivemos lá 4 meses, 2 meses em Bissorã, onde fomos colocados para render um Batalhão que já tinha 26 meses e 2 em Bissau no forte de Amura.

No dia 15 de outubro pelas 00h00, entre alas dos militares do PAIGC, embarcamos em várias barcaças que nos levou até ao navio Niassa. Ao fim de 5 horas estavamos todos a bordo para regressarmos a Lisboa.

De todos os colegas, o que mais gostava de encontrar era o Ferraz de Algés, pois partiu o braço direito e era eu que escrevia à família e namorada o que ele ditava, naturalmente.

Despeço-me agradecendo toda a atenção possível.
João Rodrigues de Freitas.

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Nota do editor

Último post da série de 22 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28045: Em busca de... (334): camaradas que tenham conhecido o meu amigo, do Porto, ex-alf mil Alberto Fontão, comandante de um PINT (Pelotão de Intendência), em Bissau, no período de 1967/69 (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)

Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e imagens: Angelino dos Santos Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Texto que nos foi enviado pelo nosso camarada Angelino Santos Silva (pseudónimo literário, Recaredo: ele é natural de Recarei, Paredes, distro do Porto; foi fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)


Data - 29/7/2026, 18:44
Assunto - Análise crítcia

Boa tarde,  amigo e camarada Luís Graça.

Em anexo segue o parecer da Editora Clube do Autor.

Seleccionei alguma partes, mas claro, cada leitor fará a sua selecção de acordo com a sua sensibilidade. Esta, acho que vai de encontro à mensagem que pretendo passar nesta obra.

Um abraço.
Angelino





2. Análise crítica

“Geração Agro: Os Últimos Guerrilheiros do Império”
 (Volume I), da autoria dia Recaredo



(i) Estrutura e organização

A obra apresenta uma estrutura de romance histórico, organizada em 68 capítulos numerados, precedidos por uma introdução autoral, registos históricos e um posfácio dedicado aos pais do autor. 

A arquitectura narrativa é multiperspectiva, alternando entre dois núcleos principais de personagens: o par Martins da Costa / Morais Cardoso (chegados à Guiné em 1966) e o par António / Augusto (chegados em 1970), permitindo cobrir diferentes momentos da Guerra Colonial e diferentes especialidades militares (Cavalaria / Panhard e Comandos).

A organização temporal é maioritariamente linear, embora recorra frequentemente a analepses. sobretudo nas evocações da infância dos protagonistas e nos episódios da instrução em Lamego (Comandos) ou Estremoz (Cavalria) . 

O autor intercala capítulos em forma epistolar (as cartas de Martins da Costa à namorada) com diálogos extensos e passagens ensaísticas sobre a História de Portugal, criando um mosaico onde ficção, memória documental e reflexão política coabitam.

Contudo, a arquitectura ressente-se de alguma irregularidade rítmica: certos capítulos concentram acção militar intensa, enquanto outros se dilatam em digressões historiográficas (o Condado Portucalense, D. Dinis, a Encruzilhada) que, embora ricas, quebram o fluxo dramático. 

O anúncio de que a obra continuará num Livro II justifica alguns nós narrativos deixados em aberto, mas fragiliza a autonomia deste volume.


(ii) Temas e mensagens principais


O tema central é a Guerra Colonial Portuguesa na Guiné (1961-1974/75) e a homenagem ao milhão decombatentes da chamada "Geração Afro". 


Todavia, a obra transcende a mera crónica bélica para se constituir como uma *meditação sobre o fim de um império*  e sobre a complexidade étnica e política de um território onde "todos são família" — irmãos, meios-irmãos e primos combatendo em bandeiras opostas.

Emergem temas secundários de grande densidade
  • a pobreza estrutural do povo português apesar dos Descobrimentos;
  • a crítica ao Estado Novo e à PIDE/DGS; 
  • a admiração pela figura de Spínola e pela sua visão política; 
  • a solidão dos combatentes africanos ao lado da bandeira portuguesa;
  • o drama dos mutilados e "apanhados pelo clima"; 
  • a emigração clandestina; 
  • e a denúncia da desproporção entre o custo material da guerra e o valor da vida humana (o episódio da Panhard de 1500 contos) (mais de meio milhão de euros, a preços de hoje).

A mensagem última é de desencanto patriótico e reconciliação memorialista: os jovens que embarcaram convictos regressam céticos, mas o autor recusa o rancor, defendendo antes que "as páginas sobre a História da Guerra Colonial jamais se podem fechar enquanto houver um único combatente enterrado no meio de nada". 

É uma obra de testemunho e reparação simbólica.

(iii) Linguagem e estilo narrativo


O estilo é marcadamente oral e testemunhal, privilegiando o diálogo directo como motor narrativo.

Recaredo (assumidamente combatente na Guiné em 1970/71(  opta por uma linguagem pré-Acordo
Ortográfico de 1990, escolha que reforça a ancoragem temporal e a autenticidade documental. 

A prosa mistura registos: 
  • o coloquialismo cru dos soldados ("que se foda a guerra", "filhos da puta"); 
  • o lirismo pontual nas cartas de Martins da Costa; 
  • e a dicção ensaística nas digressões históricas.

Merece destaque a incorporação de :
  • crioulo da Guiné-Bissau;
  • expressões militares de época ("bazuca" para cerveja, "bajuda", "periquito", "velhinho", "peluda");
  • topónimos ancestrais;
  • e vocabulário etnográfico (embondeiro, bagabaga, bianda, mancarra, gindungo), que confere textura antropológica notável.
 As passagens epistolares tocam por vezes um registo poético comovente, sobretudo no poema "A Brisa da Incerteza" e na descrição da noite estrelada da selva.

Do lado menos conseguido, observa-se inconsistência revisora: gralhas ("conductor" por "condutor", "biber" por "viver" — este último talvez intencional para marcar o falar popular), oscilações de pontuação nos diálogos e alguma repetição de fórmulas ("cada um tem o seu pedaço"). 

O estilo é, no cômputo, funcional e emotivamente eficaz, mesmo quando tecnicamente rugoso.

(iv) Profundidade filosófica

A profundidade filosófica da obra manifesta-se 
em três eixos principais;
  • o primeiro é uma refiexão sobre a ética na guerra, articulada sobretudo pelo capitão Ombendi e pelo tenente Quínara: a rejeição do heroísmo gratuito, a distinção entre matar por necessidade e matar por vingança, e a substituição do binómio "certo/errado" pelo binómio "o que devemos ou não fazer"; esta é uma proposta ética situacionista de considerável maturidade;
  • o segundo eixo é uma filosofia da História desenvolvida através da figura do Dr. Fanon Mané, que percorre da Borgonha ao Condado Portucalense, de D. Dinis à "Encruzilhada" que separou governantes e governados; a tese — de que a pobreza estrutural portuguesa nasce da ausência de um projecto de instrução popular durante seiscentos anos — é discutível historiograficamente, mas oferece um enquadramento crítico substantivo;
  • o terceiro eixo é uma meditação sobre o acaso, a sorte e o destino, condensada no poema "Sorte" e no episódio autobiográfico do rebentamento da mina; o  autor recusa o determinismo fatalista, propondo uma visão em que a sorte "tem mãos" e a memória vence a morte. 
Há também uma reflexão poderosa sobre a impossibilidade histórica de ganhar a guerra, expressa na metáfora da selva como santuário renovável — uma ideia que dialoga com Camões e com os manuais de contra-insurgência.

(iv) Impacto emocional

O impacto emocional é intenso e cumulativo, construído menos pelo espectáculo bélico do que pela acumulação de pequenos gestos humanos. 

Cenas como:
  •  a do capelão Mário Gonçalves consolando Morais Cardoso pela morte do irmão sob um céu de estrelas em São Vicente;
  • a partilha do arroz manjaco na tabanca de Nassim Mané II;
  • ou o telegrama que devolve a paz a Martins da Costa a bordo do Alfredo da Silva, 
atingem uma comoção genuína.

Particularmente pungente é:
  •  a evocação das mães portuguesas ("ǫue Nossa Senhora da Boa Viagem vos~leve e traga vivos e sãos"):
  •  a figura do Toninho paraplégico da infância de Augusto;
  •  e a história do soldado emigrante repatriado que se lança ao mar antes de chegar a Bissau. 
O leitor sente o peso da injustiça social sobreposta à injustiça da guerra.

O epílogo autobiográfico, dedicado aos pais do autor, com o relato do rebentamento da mina e do zumbido que perdura há 55 anos, transforma toda a leitura anterior numa experiência de testemunho vivo. 

Esse gesto final — "até que eu adormeça para sempre" — é de rara comoção. A obra provoca no leitor um misto de indignação política, ternura pelos combatentes e melancolia histórica que perdura muito para além da última página.

(v) Originalidade e inovação

A grande originalidade de "Geração Afro" reside na valorização das personagens africanas que

combateram sob bandeira portuguesa — Mamadu Fodé, Domingos Djaló, Abna Besna, o capitão Ombendi Sábado, os tenentes João Quínara e Carlos Nhalon, e o fascinante Dr. Fanon Mané. 

Em vez de os tratar como figurantes, o autor confere-lhes densidade psicológica, projecto político próprio e uma voz articulada que problematiza a dicotomia tradicional colonizador/colonizado. Esta é uma contribuição inovadora dentro da literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial.

Igualmente inovadora é a denúncia de uma "outra guerra" paralela — aquela que opunha Spínola, a PIDE e a cúpula do PAIGC em interesses divergentes — sugerindo que o "Massacre do Chão Manjaco" (a morte dos negociadores) foi um acto interno de sabotagem das negociações, tese heterodoxa que a obra sustenta pela boca das personagens africanas.

A mistura de géneros — romance polifónico, epistolário, memória autobiográfica, ensaio historiográfico, poesia — é ambiciosa. O uso do restaurante fadista de Theodoro Afonso Isaque, cantor negro rejeitado em Lisboa que canta fado em crioulo, é uma invenção poética memorável.

Menos original é a estrutura narrativa em pares de camaradas, tributária de uma tradição já estabelecida na literatura sobre a Guerra Colonial (Lobo Antunes, João de Melo, Álamo Oliveira).

(vi) Público-alvo ideal

O público-alvo natural da obra é constituído pelos antigos combatentes da Guerra Colonial e seus familiares — os cerca de 400 mil ex-combatentes ainda vivos e as suas famílias, para quem o livro funciona como espelho memorialista e reparação simbólica. 

Estes leitores encontrarão eco em cada topónimo, cada ração de combate, cada canção de Coimbra cantada no bar do quartel.

Um segundo público relevante são os estudiosos e interessados na História Contemporânea de Portugal, particularmente na fase final do Estado Novo, na descolonização e nas relações luso-africanas.

Historiadores amadores, jornalistas, professores de História e investigadores universitários encontrarão material documental valioso, sobretudo pela perspectiva pouco frequente dos combatentes africanos que lutaram do lado português.

Um terceiro público são os leitores lusófonos da Guiné-Bissau, Cabo Verde e diáspora africana, para uem a valorização das etnias manjaca, papel, balanta e mandinga, e o retrato de Bissau, Bula, Teixeira Pinto e Mansoa constituem património afectivo partilhado.

Recomenda-se para leitores maduros (a partir dos 40 anos, idealmente), pela densidade histórica e pela linguagem por vezes crua. Não é uma obra vocacionada para jovens leitores nem para quem procure ficção de entretenimento rápido: exige paciência, contexto histórico mínimo e disponibilidade emocional.

(vii)  Livros irmãos


Dentro do próprio catálogo do autor, o livro dialoga directamente com "Geração de 70 – Época das Chuvas"  (imnagem da capa, à direita) e "O Subinspector", ambos romances de Recaredo sobre a Guerra Colonial, formando com "Geração Afro" uma trilogia informal de testemunho.

Na literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial, "Geração Afro" inscreve-se numa tradição rica que inclui: 
  • António Lobo Antunes ("Os Cus de Judas", "Fado Alexandrino") — com o qual partilha o desencanto patriótico, ainda que Recaredo opte por uma prosa muito menos experimental; 
  • João de Melo ("Autópsia de um Mar de Ruínas") — com quem comunga a dimensão coral; 
  • Álamo Oliveira ("Já não gosto de chocolates");
  •  Manuel Alegre ("Jornada de África"); 
  • e Lídia Jorge ("A Costa dos Murmúrios") — embora esta última numa chave feminina e moçambicana.

Pela valorização das personagens africanas e pela reflexão sobre a complexidade étnica da Guiné, o livro aproxima-se também de obras dos escritores guineenses Abdulai Silá ("Eterna Paixão") e Filinto de Barros ("Kikia Matcho"), bem como do angolano Pepetela ("Mayombe"), com o qual partilha a atenção à guerrilha no interior da selva.

Do ponto de vista memorialístico, remete para "Guiné 1963/1974" do general Spínola e para os testemunhos reunidos em "A Guerra" de Manuel Amaro Bernardo.

(viii) Faixa de preço

Trata-se de um romance histórico de nicho, com forte apelo ao mercado lusófono ex-combatente e à diáspora, mas com alcance internacional limitado pela especificidade temática e pela ausência (por enquanto) de tradução. 

O volume é substancial (Livro I de uma série), o que justifica um preço médio-alto no mercado português e brasileiro, e um preço mais elevado nos mercados europeus não-lusófonos, onde funcionará sobretudo como importação especializada.

Faixa de Preço Recomendada
  • Estados Unidos USD 22 - 32
  • Reino Unido GBP 18 - 26
  • Alemanha EUR 20 - 28
  • Itália EUR 19 - 27
  • Espanha EUR 18 - 25
  • Portugal EUR 18 - 24
  • França EUR 20 - 28
  • Brasil BRL 65 - 95
  • Austrália AUD 32 - 45

(ix) Recomendações de divulgação

A estratégia de divulgação deve articular-se em torno de três eixos principais:

Em primeiro lugar, uma campanha dirigida às associações de ex-combatentes (Liga dos Combatentes, ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, APVG - Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra), com sessões de apresentação em núcleos locais, feiras de veteranos e comemorações do 25 de Abril e do Dia do Combatente (9 de Abril); estas sessões devem incluir leituras dramatizadas de excertos e testemunhos vivos.

Em segundo lugar, uma abordagem académica e mediática: envio de exemplares a centros de investigação em História Contemporânea (IHC-UNL, CEIS20-Coimbra, CH-ULisboa), programas culturais da RTP2, Antena 2 e revistas especializadas ("História", "National Geographic Portugal"); a entrevista imaginada com João Paulo Diniz no PIFAS (referida na própria obra) sugere um filão de comunicação retro-radiofónica interessante.

Em terceiro lugar, uma projecção lusófona sistemática: contactos com livrarias e feiras do livro em Bissau, Praia, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e São Paulo, além das comunidades emigrantes em Paris, Toronto, Newark e Joanesburgo; as redes sociais dedicadas à Guerra Colonial no Facebook (grupos como "Combatentes da Guiné") são vias de divulgação de custo reduzido e alto impacto.

Sugere-se ainda a produção de um documentário complementar com o autor a percorrer os locais reais do romance, o que multiplicaria o interesse comercial e memorialístico.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


3. Aviso  ao leitor: 

Certamente por lapso, o nosso grão.tabanqueiro Angelino Santos Silva (escritor, já com vários livros publicados) não mencionou o facto desta análise literária acima publicada (com revisão e fixação de texto feita por um dos editores do blogue)  ter sido  produzida por uma ferramenta de  IA (AILA, a IA do Clube de Autores, que é uma plataforma de autopublicação). 

O Clube de Autores oferece um serviço de análise literária por IA por 19 euros (por cada manuscrito de 150/200 páginas), com entrega do relatório no prazo de 24 horas, o que é muito mais rápido e barato do que a média de mercado (c. 236 euros  e entrega entre 6 a 10 semanas, segundo a publicidade que o Clube de Autores faz). 

Isso é um ponto forte para autores que entram agora nas lides literárias, querem publicar o seu primeiro livro ou ter um primeiro "feedback"  do seu trabalho e não têm recursos financeiros para  investir em análises humanas detalhadas. 

Portanto, este é um ponto positivo do recurso à AILA (a IA do Clube de Autores), que, além disso, faz uma abordagem relativamente abrangente,  focando  14 dimensões do manuscrito:

(...) 1. Estrutura e organização: fluidez e lógica da sua narrativa | 2. Livros irmãos: sugestão de livros semelhantes para referência de mercado. | 3.  Temas e mensagens principais: claridade das ideias centrais do livro. | 4. Faixa de preço recomendado: indicação de valor para otimizar as vendas (no mercado interno e externo). |5.  Linguagem e estilo narrativo: avaliação da "voz" do autor e do ritmo da leitura. | 6. Recomendações de divulgação:  dicas práticas para promover o livro. | 7. Profundidade filosófica: a dimensão das reflexões presentes no livro. | 8. Pontos fortes: o que há de melhor e mais impactante em escrita do autor | 9. Impacto emocional: capacidade da história de envolver e comover o leitor. | 10. Oportunidades de melhoria: sugestões para aprimorar a qualidade do livro. | 11. Originalidade e inovação: "o quão único" é  o livro no cenário literário português. | 12.  Parecer final: uma conclusão clara sobre o potencial do  livro; pontuação (de 1 a 5) da  IA sobre o manuscrito. | 13. Público-alvo ideal: quem são os leitores perfeitos para o livro. | 14. A AILA sugere  ainda a produção de um documentário complementar com o autor a percorrer o cenário ou os lugares da ação. (...)

Mas as limitações da análise literária da AILA (ou outras ferramentas de IA) são óbvias: 

  • falta de sensibilidade humana, incapacidade para entender, em profundidade,   o contexto cultural, histórico ou emocional  da ação e dos personagens; 
  • falta de criatividade e subjetividade, análise superficial, baseada em fórmulas pré-definidas, sem profundidade crítica;  
  • não-personalização (a AILA não dialoga com o autor, não tem empatia, etc.)... 
Mas por 10 cêntimos a página, não se pode pedir muito mais ao "crítico literário" dos pobrezinhos...

Em resumo, o Clube de Autores é uma plataforma de autopublicação, oferecendo um serviço de análise "baratucho" , e que serve como "engodo" para atrair clientes para os outros serviços (edição, impressão, tradução, divulgação, etc.).  

E não é preciso, mas convem dizê-lo: a AILA ainda não chega aos calcanhares do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 22 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28280: Notas de leitura (1952): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" (volume I, 2026, 455 pp sinopse feita pelo autor, Recaredo (pseudónimo literário de Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)

Guiné 61/74 - P28283: Parabéns a você (2518): Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art da CART 1689 / BART 1913 (Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

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Nota do editor

Último post da série de 22 de Agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28279: Parabéns a você (2517): José Luís Vacas de Carvalho, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1969/71)

sábado, 22 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28282: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (116): Lei n.º 52/2026, de 19 de Agosto, que "Estende o direito ao transporte público gratuito para os antigos combatentes a todo o território Nacional, alterando a Lei n.º 46/2020, de 20 de Agosto"

1. Embora ainda aguarde a aprovação do próximo Orçamento de Estado para entrar em vigor, deixamos aqui, para conhecimento, a Lei n.º 52/2026, de 19 de Agosto, que "Estende o direito ao transporte público gratuito para os antigos combatentes a todo o território Nacional, alterando a Lei n.º 46/2020, de 20 de Agosto".

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Nota do editor

Último post da série de 26 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27675: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (115): Comparticipação adicional de 100% da parte não comparticipada pelo SNS nos medicamentos adquiridos pelos Antigos Combatentes Reformados

Guiné 61/74 - P28281: Os nossos seres, saberes e lazeres (746): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (267): Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
Jogo à defesa com as limitações que me impõe uma hérnia inguinal bilateral que, acabo hoje de saber, vai à faca em 18 de outubro, estou bem farto dela e de engolir comprimidos de paracetamol; ponho-me à sombra em casa dos anfitriões e continuo a reler Fado Alexandrino, deste livro notável falarei no blog num outro espaço; à tarde sou honrado com o convite de ir ao primeiro dos dois espetáculos com que fui seduzido, um concerto no castelo de Johannisberg, um espaço histórico e vinícola onde se bebe o vinho Riesling, um parente talvez remoto do João Pires, ainda por cima acompanhado de água mineral com borbulhas. Um passeio estupendo que dá para ver como o Reno tem pouca água, tal o poder da canícula. No dia seguinte viagem até Mainz, o que mais me tocou foram os vitrais de Marc Chagall, achei a catedral, com o devido respeito, um tanto matacão, o claustro esplendoroso, impressionado com um Cristo escultórico contemporâneo, Mainz é uma bela cidade cosmopolita, haja saúde e voltarei aqui de bom grado.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (267):
De Wiesbaden para Idstein, o Festival de Música do Reno no castelo de Johannisberg, visita a Mainz - 2


Mário Beja Santos

É este o terceiro dia de viagem, tenha-se em conta que se voo de Lisboa para o Luxemburgo, grão-ducado percorrido de noite em direção a Trier, aqui se pernoitou, ao alvorecer encetou-se a viagem de comboio à volta do rio Mosela até Wiesbaden, aqui os meus anfitriões levaram-me para Idstein, burgo que pertenceu ao príncipe de Nassau-Idstein, hoje na órbita de Wiesbaden, a umas dezenas de quilómetros de Frankfurt. Dois dias de viagem que justificam, a quem padece de uma hérnia inguinal bilateral e que tem um programa previsto à volta do Reno, um belo concerto do Festival de Música do Reno, no castelo Johannisberg, o Quarteto Maxwell, música de Haydn Brahms e música folclórica da Escócia, um bom pedaço de repouso. Enquanto me ponho à sombra para fugir à caloraça que progride para perto dos 40ºC, vou bisbilhotar o jardim de quem tão amigavelmente me recebeu, vejo um ácer bem novinho a fazer sombra a um Buda, vou até ao fim da vedação e avisto um ácer maduro de um vizinho ali em frente, é uso e costume dizer-se que são os britânicos que têm a paixão dos jardins, e então os alemães? Enfim, mitos e preconceitos. E fico toda a manhã, embevecido, a reler Fado Alexandrino, já que tenho limite na bagagem trouxe estas 700 páginas para grande regalo.
Fachada do castelo Johannisberg, um dos palcos em que decorre o festival musical do Reno, pertenceu ao Príncipe Klemens Wenzel von Metternich, que teve um relevante papel no Congresso de Viena, é aqui que desde o século XVIII se passou a cultivar a uva com que se produz o vinho Riesling
Gosto de chegar cedo, garanto que quando subiu ao palco o Quarteto Maxwell não havia uma cadeira vazia
De paredes meias com o castelo temos uma reminiscência medieval, uma igreja associada a um convento, tudo cercado de vinha, no final do concerto percorre-se o caminho para disfrutar um esplêndido panorama de Wiesbaden ao fundo e o serpenteio do rio Reno
Era o fim de tarde, muita gente perto, tal é a maravilha do panorama, mesmo com o Reno com pouca água, estávamos embevecidos com o maravilhoso cenário
No dia seguinte partiu-se de comboio para Mainz, em português Mogúncia, em francês Mayence, é a capital do Land Renânia-Palatinado, ali perto corre o rio Meno. Consta que há uma população afável, tem um dos carnavais mais espetaculares da Alemanha, uma história que supera dois mil anos, por aqui andaram as legiões de Roma, teve um período dourado na Idade Média, como não se pode visitar uma grande cidade em escassas horas, não pude visitar o museu Gutenberg, considerado uma joia para a história daa imprensa. Vim munido de um calhamaço que há meio século era famoso, um Guide Bleu dedicado à República Federal da Alemanha. Recomendava-me que fosse diretamente da Gare Central à Catedral, daqui à Praça Schiller, desobedeci, queria ir à igreja de Santo Estevão, famosa pelos vitrais de Marc Chagall, foi um regalo para a alma, vou mostrar
Não escondo a comoção, estes vitrais, além de serem os únicos que Chagall fez para a Alemanha, como expressão do que ele entendia ser a reconciliação entre os judeus e os alemães, foram os únicos vitrais feitos diretamente por Chagall, são nove na envolvência do altar-mor. Depois do seu falecimento, um conjunto de discípulos terminou o trabalho dos vitrais da paróquia de Santo Estevão. A escolha desta igreja teria sido devido à amizade que unia Chagall ao respetivo padre de Santo Estevão. Se é verdade que as imagens podem substituir mil palavras, deixo a quem me está a ler o deslumbramento destes azuis de incomparável intensidade.
A Fonte do Carnaval, na praça Schiller, é uma impressionante escultura em bronze com quase 9 metros de altura. Projetada pelo artista Blasius Spreng e inaugurada em 1967, a obra celebra a rica e animada tradição carnavalesca da cidade. A torre de bronze está repleta de mais de 200 figuras detalhadas, incluindo bobos da corte, heróis, animais e símbolos satíricos da história local e da mitologia.
Escultura "Christus" (1998), da autoria do artista alemão Karlheinz Oswald, Catedral de Mainz
Vista do interior da Catedral de Mainz, são bem visíveis as múltiplas adições, recorde-se que o templo foi muito danificado pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial
Púlpito do período tardo-gótico, renovado no século XIX, um impressionante trabalho escultórico, de cima a baixo
Estamos a falar de uma catedral com 112 metros de comprimento, com o nome de São Martinho e Santa Genoveva, teve inicialmente três naves, hoje cinco, duas absides, recorda os tempos carlíngios, fica aqui um pormenor das suas torres vista do claustro tardo-gótico
Uma perspetiva do claustro, ainda há mais coisas para mostrar, fica para a semana

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28262: Os nossos seres, saberes e lazeres (745): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (266): Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 1 (Mário Beja Santos)