
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Agosto de 2026:Queridos amigos,
É graças aos transportes de mudanças Ilídio que vamos conhecer a evolução dos acontecimentos na Baixa, a carripana atulhada de móveis vai sendo impedida aqui e acolá de circular, regressa à base, um novo empregado chega ali pelas onze horas e conta o que se passa no Tejo e no Terreiro do Paço, os microfones a pedir insistentemente para que a população fique em casa, uma multidão que se forma ali para os lados do Carmo, um dos presentes do jantar recorda a sua infância, passada naqueles sítios, chega o general do monóculo, mais tarde sai uma viatura militar que transporta o fim do regime em direção à Pontinha, naquele dia, viremos a saber no romance Fado Alexandrino, que mudou a vida de toda a gente, de tenente-coronel a soldado houve amores e desamores, houve quem partiu para o exílio, e até quem defendia o Estado Novo se declarou prontamente estar ao lado da revolução, é aquela longa metáfora, permanentemente repetida, dos vira-casacas.
Um abraço do
Mário
Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 3
Mário Beja Santos
Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de Abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.
Digo e repito que encontrei neste romance algumas das páginas mais fulgurantes sobre os acontecimentos vividos em 25 de Abril, Lobo Antunes pretexta uma mudança que vai passar pela Baixa, não resisto a transcrever alguns parágrafos que revelam tal escrita vigorosa, mesmo incandescente, o tio do soldado vai ao lado do motorista, que ele chama o velho, começam a encontrar infantaria nas esquinas, carros de assalto, militares de capacete de bazuca ao ombro, um tenente novinho mandou-os parar:
“Trânsito cortado, amigos, Tenho uma entrega urgente no Chiado, respondeu o tio, não é a nossa camioneta que vos vai estorvar, recuaram, deram meia volta e meteram pelo Entreposto, pelo Rato, pela Escola Politécnica, o soldado ligou a telefonia e as marchas e as cantigas à viola atroaram a cabina onde tudo vacilava e vibrava, a música interrompeu-se, a voz locutora recomeçou a falar, Cala-me essa porra, minha besta, rugiu o tio, possesso, apalpando a bomba para a asma no casaco, edifícios dignos, antiquários, o jardim do Príncipe Real cintilante de luz e quase logo a seguir um tanque atravessado no pavimento, homens fardados, morteiros, viaturas da tropa, e agora um sargento a aproximar-se, abespinhadíssimo, de pistola na mão, Desapareçam daqui antes que eu vos pregue um tiro, A gente espantava-se, nunca tínhamos sonhado aparato de guerra nas ruas de Lisboa, alguns camuflados, em pinha num banco, escutavam de cabeças juntas os hinos bélicos da emissora, rodei o volante, engrenei a primeira, a marcha atrás, a primeira de novo, o sargento fitava-nos numa desconfiança veemente, e dali a dez minutos entravam aos solavancos no armazém, com a caixa da camioneta repleta de móveis.”
Mas o dia mal começou temos mais peripécias para contar. “Às onze horas apareceu o Carmindo, de motorizada, um de bigode que entrara à experiência em março e vivia com a afilhada da contabilista, tirou o capacete e os cabelos puseram-se-lhe todos em pé, Foi o sarilho das Arábias para me deixarem passar, até barcos de guerra andam no Tejo, não querem que ninguém se pire de casa, e uma onda incontrolável de pessoas sobe o Chiado na direção da PIDE, na direção do Carmo.”
O senhor Ilídio, o tio do soldado, proprietário daquele serviço de transportes, não esconde a sua perplexidade, via o negócio a afundar-se, os móveis a desfazerem-se na arrecadação, as mudanças Ilídio sem encomendas nenhumas, congemina os cenários mais apocalíticos, cadáveres por toda a parte, os hospitais inundados de feridos, pelotões de fuzilamento, bandeiras vermelhas nos edifícios públicos.
E o escritor volta aos acontecimentos:
“O general de monóculo saiu por fim do quartel da Guarda, sem se emocionar com entusiasmo, sem corresponder aos aplausos, instalou-se no carro que de imediato principiou a rodar para fora do largo, iam chegando mais tanques de guerra que apontavam os canhões ao prédio deserto, mais oficiais, mais tropa, um fulano, munido de uma alcofa, distribuía cravos.” O senhor Ilídio encontrava-se num estado lamentável: “Se levarem o Presidente do Concelho num carro blindado estamos perdidos, lamentou-se com a cabeça entre as mãos. Não tarda nada vêm-nos buscar, de pistola, aqui ao armazém.”
Voltemos ao cenário do Carmo:
“O número de pessoas no largo não cessava de aumentar, muitas delas munidas de bandeiras e aparelhos de rádio como nos desafios de futebol, as árvores eram novelos de pernas e de braços e de olhos atentos, expectantes, vorazes, um tanque destacou-se da multidão, avançou para o quartel, bocas abertas, centenas de dentes rebrilhando ao sol na espuma verde coada pelas folhas, cotovelos que me empurravam, membros que se colavam aos meus, um suor entusiástico nas narinas, e, de súbito, meu capitão, senti-me de novo com quatro, cinco, seis, sete anos, submergido pelas fantásticas, espessas, terríveis proporções dos adultos.”
Todos berram pela liberdade, há perseguições, há correrias a eventuais membros da PIDE, e volta-se ao relato do que fora vito no Largo do Carmo:
“O carro de assalto, meu capitão, acabou por desaparecer seguido por um enxame de gente, e passados momentos a multidão abandonou o largo, entoando os hinos e as cantigas da rádio, a tropa retirou-se igualmente da praça à exceção de sete ou oito gajos de metralhadora e camuflado que protegiam o quartel contra o friozinho do crepúsculo.” No armazém do senhor Ilídio, um locutor triunfal anunciava na telefonia a vitória completa do Movimento das Forças Armadas.
O tenente-coronel também tem histórias para contar. Era comandante de uma unidade militar de peso, recebe de madrugada um telefonema do seu camarada Ricardo, está no Ministério da Defesa, diz-lhe que há uns tantos palermas que andam por aí a brincar às revoluções, deverá ir até à sua unidade, o mais depressa possível, pô-los na ordem, acabar com aquelas aventuras. “O Secretário de Estado diz que não temos tempo a perder, é necessário meter essa cambada de miúdos nos eixos, a bem ou a mal, antes que aconteça um disparate qualquer. O teu quartel controla a entrada em Lisboa de quem venha do Norte, bastam meia dúzia de carros de assalto por aqui e por ali. Tens de jogar com o teu prestígio junto dos oficiais mais novos, e é escusado sublinhar que todos contamos com isso, que te pedimos que ajudes a evitar custe o que custe uma asneirada infantil.”
Acontece que este Tenente-coronel Ricardo vai aparecer depois do lado da revolução, uma daquelas metamorfoses em que se dão cambalhotas do lado vencido para o lado vencedor, e este lado vencedor nem se inquieta com o ingresso dos cristãos-novos. O Tenente-coronel Artur apresenta-se na sua unidade, diz a todos que se está nas tintas para a revolução e até mesmo para aqueles que a contrariam, ainda não sabe que dentre em breve irá trabalhar às ordens do dito Ricardo saneando no Ministério da Defesa, pela mão do nosso Tenente-coronel Artur, uma barrigada de oficiais, mais tarde haverá saneamento ao contrário, é este o fadário das revoluções.
(continua)
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Notas do editor:
Vd. postanterior de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 23 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28456: Notas de leitura (1973): "Nós, Os Filhos da Guerra", por Frederico Valarinho; Âncora Editora, 2024 (Mário Beja Santos)













































