Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > "Vista geral do aquartelamento... Foto tirada de cima duma das grandes pedras existentes em Canjadude. Em Abril de 1973, as NT são surpreendidas por um ataque certeiro de 6 foguetões 122 mm... Mais uma escalada na guerra". Foto do álbum do João Carvalho, um histórico da Tabanca Grande para a qual entrou há 20 anos, em 23/1/2006.
Fotos (e legendas): © João Carvalho (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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José Martins, nosso colaborador permanente, tem 490 referèncias no blogue; participou na Op Mabecos Bravios, no apoio de retaguarda |
A minha "ligação" a Madina é pequena mas muito intensa. Escrevi este texto em 2000, trinta anos após o meu regresso: faz parte de um livro não editado, que escrevi (e continuo a escrever), pois que todos os dias surgem histórias e estórias que faz desta compilação de emoções um livro nunca acabado.
Esta operação cumpria, da Diretiva n.º 1/68 do Comandante-Chefe, apenas na retirada desta martirizada e heróica companhia da sua isolada posição.
Esta operação contava com cinquenta e seis viaturas, uma vez que a retirada de Madina envolvia a recolha e transporte de todo o material que fosse possível recuperar.
Em 6 de fevereiro de 1969, as tropas até então estacionadas em Madina do Boé e as das companhias que tinha escoltado o comboio de viaturas, iniciavam o regresso. Estava, assim, consumado o abandono do local.
Chegados à margem sul do Rio Corubal, do lado oposto ao Cheche, tinha de se utilizar uma jangada constituída por um estrado assente em três grandes canoas e auxiliado, na travessia, por um barco com motor fora de borda, um "sintex".
A operação era perigosa, dado que as viaturas tinham de descer uma rampa em direcção ao rio, entrando na jangada utilizando pranchas e, após a travessia, sair de novo sobre pranchas e subir a ravina que partia do rio.
Eram cerca das seis da tarde do dia 5 quando se iniciou a travessia, que se estendeu por toda a noite e pela manhã do dia seguinte.
As companhias estacionadas em Canjadude (CCAÇ 5 e CART 2338) estavam em alerta e preparadas para prestar todo o apoio necessário e possível a esta operação.
Na operação estavam envolvidos centenas de efectivos e, sendo conhecedores de que na região não havia água, foi destacada, para a estrada entre Canjadude e Cheche, uma viatura com cerca de quinze bidões de água, para que os soldados fossem abastecidos.
Tocou-me o comando da escolta a esta viatura, tendo-me posicionado a cerca de cinco a sete quilómetros de Canjadude. Quando começaram a passar os militares que vinham na frente da coluna, notei que algo de estranho se tinha passado. Os soldados passavam cabisbaixos e praticamente ninguém aproveitou para se abastecer de água. Constatara, também, que havia um silêncio rádio, apesar de ter entrado na frequência da operação.
No regresso ao aquartelamento, soube que tinha havido um desastre na travessia do Rio Corubal, com um elevado número de mortes. As causas ainda eram muito obscuras. O necessário era providenciar apoio aos militares das companhias que tinham sofrido as baixas, alguns dos quais ainda se encontravam em estado de choque.
Fui, na qualidade de furriel de transmissões [da CCAÇ 5], encarregado de saber, interrogando os graduados das companhias atingidas, os nomes e patentes das vítimas, a fim de ser dado conhecimento aos escalões superiores, nomeadamente ao Quartel General, em Bissau.
Fui anotando, um a um, os nomes das vítimas. Entrecortados por soluços, os nomes foram sendo recordados pelos camaradas e, terminada a pesquisa, contei quarenta e sete nomes: quarenta e seis militares – dois furriéis, sete cabos, trinta e três soldados metropolitanos, quatro do recrutamento provincial - e um milícia.
Era um dia negro. Sentei-me no Centro Cripto, peguei no livro de codificações rápidas e transcrevi, para o impresso de mensagem, o texto cifrado que indicava que os nomes a seguir pertenciam aos militares mortos no acidente.
Procurei o comandante do destacamento, capitão Pacífico dos Reis e, em silêncio, entreguei-lhe a mensagem para assinar, sendo esta devolvida sem que fosse trocada qualquer palavra.
Momentos depois, no mais profundo silêncio possível, no posto de rádio, a voz pausada e comovida do radiotelefonista lançava ao ar, via VHF, os quarenta e sete nomes, como se fosse um toque a finados.
Pouco tempo depois, como que impulsionados por uma mola, começaram a chegar ao Centro de Mensagens pedidos de envio de telegramas para a Metrópole, em que os remetentes diziam estar de boa saúde, embora cheios de saudade.
Pretendiam com isto serenar os seus familiares, para que ao receberem o telegrama soubessem que estavam bem e de saúde.
Mais de vinte e cinco anos depois, o Diário de Notícias editou uma cassete vídeo, com uma reportagem no local, em que intervinham o tenente coronel José Aparício e o jurista Gustavo Pimenta, ao tempo capitão e alferes miliciano da CCAÇ 1790.
Já não era o primeiro vídeo que via sobre a Guerra do Ultramar, mas este falava de algo que eu tinha vivido, este reproduzia uma fase da minha própria vida de militar, e não me trazia boas recordações.
Entretanto o meu filho mais velho, o Tiago, entrou na sala e respeitou o que viu. Eu estava a chorar. As lágrimas corriam-me pela face sem as poder conter. Pelo ecrã corriam os nomes que, anos antes, no desempenho das minhas funções de sargento de transmissões, tinha manuscrito em mensagem.
Os heróis de muitos combates tinham morrido afogados e, ainda hoje, os onze que foram recuperados duas semanas depois, descansam lá longe, em país agora estrangeiro, nas ravinas que servem de margem ao Rio Corubal.
José Martins, 3 de Setembro de 2000












































