Timor-Leste > s/l > s/d > Familiares a negociarem o valor do "barlaque" | Foto: Josh Trindade. Fonte: Cortesia de Diligente, Dili, Timor-Leste (»*)O pedido tradicional de casamemto é comum a muitos povos. Em Angola, chama-se "alambamento". Na Guiné-Bissau, não há um termo específico em crioulo, variando conforme os grupos etno-linguísticos. Mas em Bissau é conhecido como o "pidi noiva". (LG)
1. Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (**), de Rui Chamusco a Timor-Leste.
1.1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos (exceto na pandemia), desde 2016. É o lider de uma associação de solidarieddae com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e fez o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar.
São 3 dias de viagem até Dili!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação delicada cirúrgica, de que está a recuperar bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.
Além da música, é o homem dos sete intrumentos (acordeão, viola, gaita de foles, violino, órgáo, etc.). Dá explicações de grego, latim e protiuguès. Faz a sua horta. E é especialista em micologia (a ciência dos cogumelos): sabe os cogumelos todos pelo seu nome científico... E atà data ainda náo comeu nenhum daqueles venenosos e mortais que deu direito a passaporte para a eternidade.
A sua história é inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência. Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cera de 3 centenas de páginas), aprende-se muito sobre a história, a cultura, a idiossincrasia dos nossos amigos timorenses.
1.2. Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).
Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).
Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se a saúde o permitir.
O Rui Chamusco, o "malae" (tuga), o "abô" (avô) Rui, é juntamente com a família luso-timorense Sobral (Gaspar e Glória, e também o "Eustáquio", irmão do Gaspar) um dos grandes pilares deste projeto de solidariedade com o povo timorense, que é a Esscola São Francisco de Assis.
É um exemplo vivo de amor à lusofonia e de solidariedade para com o povo de Timor-Leste, que merece ser conhecido pelos nossos leitores. Além disso, há aspetos da história, da geografia e da cultura timorenses que nos são totalmente desconhecidos.
Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continhuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Mas o encanto destas crónicas deve ser partilhado.
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Rui Chamusco, professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é ntaural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referèncias no blogue
III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL)
Parte VIII: semana de 24 a 31 de março: do ensino da língua portuguesa ao barlaque
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24.03.2019, domingo - “ Cantando espalharei por toda a parte ... se a tanto me ajudar o engenho e a arte... - Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )
Se há algo que nos une e identifica pelo mundo é a nossa língua mãe. Esta é uma das razões que justificam o nosso envolvimento neste projeto de solidariedade em Timor Leste: ajudar e promover ações que motivem os timorenses, e particularmente as crianças a aprender e a falar a língua portuguesa, que até é a segunda língua oficial desta nação.
Por isso construimos a Escola São Francisco de Assis em Boebau; por isso criamos o programa de apadrinhamento de crianças e jovens; por isso ensaiamos todas as semanas canções portuguesas a um grupo de crianças que, sempre que solicitem, se desloca a restaurantes ou lugares públicos para actuação; por isso dou todos os dias explições (aulas) a crianças e jovens que demonstrem uma vontade expressa de aprenderem o português.
“ Cantando espalharei por toda a parte...se a tanto me ajudar o engenho e a arte...”
- Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )
Como professor aposentado, habilitado para o ensino da música e da língua
portuguesa, sou testemunha de que o engenho e a arte, neste caso a música, são meios privilegiados do ensino do português, ou de qualquer outra língua. Com efeito dá um prazer enorme ouvir estas crianças de Ailok Laran ou de Boebau Manati interpretarem um elenco de canções portuguesas, numa língua que lhes é estranha mas que muito desejam compreender e falar.
É desta gente ávida de aprender que eu gosto e tento ajudar, com a ajuda do acordeão ou da guitarra. Já vi alguns portugueses que, assistindo aos ensaios do grupo, não conseguiram conter as lágrimas de emoção. (Não é João Crisóstomo e José Ascenso?)
Já vi alunos e professores da universidade de Dili interromperem por diversas vezes a Adobe (minha afilhada) que interpretava a canção “Chuva”, no dia 5 de Maio, dia da língua portuguesa. Já vi as crianças da montanha cantando o hino da escola com toda a alma e coração. Já vi o entusiasmo de toda esta gente com que cantam e dançam “ Ó malhão, malhão!”
Sim, acredito que a arte, a música fazem milagres. Que, como Camões escreveu, cantando espalharei por toda a parte, mais concretamente por estas terras do extremo oriente, a musicalidade da nossa língua e a possibilidade destas crianças e jovens poderem aprender e desenvolver a língua portuguesa.
Que bom é ser português! Que bom é fazer tantos amigos através da língua que
falamos. Que bom é sentir o amor dos timorenses por um país que se chama Portugal.
26.03.2019, terça feira - “ Eu só sei que nada sei...”
Esta nem ao diabo lembra.
Hoje à noite, ao jantar, enquanto saboreàvamos uma “pinguinha de vinho do Porto”, veio à baila o tema do álcool, mais propriamente dos vinhos: o sabor, o grau, as marcas, as diferentes qualidades de branco, tinto e rosé, e evidentemente o consumo.
Foi então que o Eustáquio nos revelou algo inimaginável para quem gosta mesmo de saborear um bom vinho, fruto das uvas e do trabalho do homem. Disse-nos que aqui, em Timor, mesmo não sendo uma terra produtora do néctar dos deuses, se consome muito álcool e há muitos bébados.
Como assim? Perguntamos nós. Ele então explicou:
- O timorense tem várias maneiras de se embriegar. Há quem beba o álcool simples; há o vinho da seiva de bananeira (sabo), uma espécie de aguardente, que misturam com cocacola e .......; há o vinho importado mas que é dificil de adquirir devido ao fraco poder de compra da maioria dos timorenses. Mas é raro beberem o vinho puro proveniente da fermentação do sumo das uvas. E aqui vem a revelação: ao álcool, ao vinho adicionam gasolina ou diluente para atingirem o mais rápido possível o efeito da bebedeira. São momentos de alienação e de curtição que parece agradar-lhes imenso. Até talvez quem sabe para esquecerem durante algumas horas os seus problemas e carências do dia a dia.
Seja como for, convenhamos que tal mistela pega fogo. E como o consumo exagerado de álcool é vício, nem quero pensar nas consequências físicas e psicológicas nestes corpos franzinos a que se sujeitam estes amigos de Baco. E, mesmo que seja uma questão cultural deste país, não me conformo a que nada se faça por esclarecer e emendar esta ementa tão perigosa. Que Deus nos valha!...
Mais ainda. O Amali contou que, quando apanham alguém bêbado, o que não deve
ser difícil de encontrar, fazem um menu todo estranho, e que consiste em fazerem
uma salada de tomate, cebola e outros ingredientes, que depois é recheada com
chinelos cortados aos bocadinhos. O desgraçado do bêbado, já não tendo a
clarividência do que está no prato, come tudo, inclusive os chinelos, pensando que
está comendo bocadinhos de carne. Isto já é malvadez e malandrice: gozar com quem não tem capacidade de discernimento. Que Deus lhes perdoe!...
26.03.2019 - Notícias aterradoras
Já não é a primeira vez que ouvimos falar disto. Um clima de violência fortuita
provocada por grupos de marginais, treinados em artes marciais ou outras técnicas de ataque, que espalham o terror nos bairros mais povoados e problemáticos da capital, Hudi Laran, Bairro Pité, Bidau, Comoro, etc... Ontem aconteceu em Ailok Laran, Um médico chinês foi assassinado, nem a polícia sabe por quem, e abandonado numa das estradas da localidade. Vingança? Ajuste de contas? Malvadez? Todas questões sem respostas que urge resolver para tranquilidade e sossego de todos nós.
A crueldade destes grupos de malfeitores é tão refinada que mortes já fizeram,
cortaram os corpos aos pedaços e foram deitá-los ao mar para alimento dos crocodilos que por aqui abundam.
O clima de terror está instalado. De tal modo que ninguém ousa sair à noite, e muito menos um malai (estrangeiro). Quanto menos se der nas vistas mellhor. Porque, de qualquer direção podem surgir os atacantes com setas, armas brancas (nelas incluindo as catanas), armas convencionais, ou até em confrontos corporais, lutas em que levam quase sempre a melhor devido aos cursos que frequentam em artes marciais.
O comandante das Forças Armadas, general Lere, já falou, em entrevista na GMN,
(uma das estações de Rádio e Televisão de Timor Leste) que se a polícia não resolver este problema da segurança das pessoas, as forças armadas encarregar-se-ão de o fazer. Mas até agora não se nota que algo tenha sido feito. E os factos assim o provam.
As consequências estão à vista. Para além da perda de vidas humanas e dos feridos
com marcas físicas e morais indeléveis, há países e governos que já reagiram a este
clima de medo e de terror. O governo chinês já anunciou de que iria retirar de Timor Leste todos os seus cidadãos.
Um grave problema que urge resolver para bem dos cidadãos estrangeiros e para bem de Timor Leste.
27.03.2019, quarta feira - “Não é com vinagre que se caçam moscas...”
Mais uma vez eu servi de recurso para obter o que se pretendia: a assinatura e carimbo do pároco de Motael, padre Justino, num assento de batismo a fim de dar andamento ao pedido de nacionalidade portuguesa. Sou testemunha das voltas e voltas que é preciso dar para que isso se consiga. Os pedidos são muitos, e até há párocos que já colocaram à porta do cartório um letreiro dizendo: “Não tenho tempo para atender estes pedidos”.
Em situação de desespero, porque o processo em Lisboa depende deste documento, foi-me pedido pela família para ir com o Amali falar com o pároco.
Não me fiz rogado, e depressa me aprontei para irmos de motor tentar obter o
almejado papel. Pedi para falar com o pároco, o que me foi logo concedido, com
muita simpatia de quem assiste os serviços do cartório paroquial. Passados três
minutos, o padre Justino vem até mim, e depois de um cumprimento de reverência
fomos para o seu gabinete de atendimento numa sala ali ao lado. Conversamos
durante bastante tempo (mais eu do que ele pois quis explicar-lhe os motivos da
minha estadia em Timor Leste), e já quase no final da conversa expliquei-lhe o que
pretendia.
O padre Justino compreendeu perfeitamente o que estava em causa (falamos bastante dos documentos falsos que abundam nos processos timorenses e
que bloqueiam ou anulam o andamento dos mesmos) e, sem qualquer resistência,
perante a apresentação da fotografia do assento de batismo, ele me disse: “Sim, vou
assinar e carimbar.”
Claro que fiquei contentíssimo que por minha intercessão se tenha obtido este precioso documento.
Um muito obrigado ao pároco de Motael fechou este nosso encontro, e uma alegria
enorme quando disse ao Amali: “Já está!”
Este episódio faz-nos pensar e perguntar: Quantos documentos não válidos serão
passados nos cartóríos paroquiais das igrejas de Timor que, por falta de
esclarecimento, de nada servem por os processos em causa? Quanto dinheiro (coisa rara para os bolsos de muitos timorenses) não se tem gasto inutilmente? Quem deve esclarecer esta situação, que se repete em muitos dos processos?
Em meu entender, a embaixada de Portugal e a igreja são os responsáveis de tal
situação. E por isso, devem proceder, quanto antes melhor, à resolução deste
roblema.
E já nem gostaria de falar de “advogados” e “solicitadores” oportunistas que, sem
saber o que fazem, estão extorquindo a economia que quem mal pode pagar os seus
serviços.
Moral deste caso: “Não é com vinagre que se apanham moscas...” mas com bons
modos, esclarecimentos e muita verdade.
29.02.2019, quinta feira - Em defesa da Língua Portuguesa
É uma preocupação de todos, e particularmente aqui em Timor Leste, país que adoptou o português como segunda língua oficial. A responsabilidade é dos governos de Portugal e de Timor Leste, dizem uns. A tarefa é de todos dizem outros. O que é certo é que, apesar de todos os esforços feitos por quem sente este dever de promover e desenvolver a língua portuguesa em terras timorenses, a nível oficial e particular, os resultados não são muito visíveis. E se o trabalho de campo desenvolvido por escolas de referência como as escolas CAFE implantadas nas principais cidades do país, e a escola Rui Cinatti em Dili que são apoiadas pelo governo de Portugal têm tido um papel importante na promoção e defesa da nossa língua, a verdade é que não vemos na prática, na vida do dia a dia, os timorenses como falantes de português. Falam tetum ou bahasa (língua indonésia).
Mas então, depois de 17 anos de independência, o bahasa ainda se fala correntemente?
É isso mesmo: idosos, adultos, jovens e crianças compreendem e falam correntemente a língua indonésia. Como é que, com tanto esforço dos dois governos envolvidos e de instiutições particulares o português não é mais compreendido e falado?! Como é que a geração dos mais novos tem apetência e competência para a prática do bahasa?
Talvez que tenhamos de ser humildes e aprender com a estratégia dos indonésios. É que o governo indonésio, salvo as barbaridades dos militares ocupantes que reprimiam com prisão e até a morte os falantes de português, investiu numa rede escolar que cobre boa parte do território timorense; investiu no comércio local com a presença de cidadãos daquele país; investiu nos meios de comunicação social tais como operadoras telefónicas (as suas mensagens são em bahasa), e particularmente nos canais de televisão que, queiramos ou não, são o melhor meio de divulgação, porque junta o som e a imagem. Hoje, nos lares que têm televisão e em espaços públicos afins, a maior parte do tempo de antena é coberta com filmes, programas entretimento, noticiários, etc... em lingua bahasa.. Crianças e jovens, adultos e idosos aprendem sem muito esforço, de uma maneira lúdica, este idioma que os atrai.
Ora, sabendo nós da afeição que os timorenses têm pelos portugueses - eu sou
testemunha e sujeito desta afeição - e necessitando muitos timorenses de compreender e falarem a língua portuguesa por questões de emprego e de estatuto social, pergunto se não será possível o estado português investir mais na utilização destes meios de comunicação, sobretudo a televisão. É que aqui, por terras do extremo oriente, só se onsegue ver (apanhar) a RTPI, a Rádio Televisão Internacioal, e na maior parte das vezes em péssimas condições. Porque não investir em programas de entretimento, em filmes, nalgumas telenovelas, noticiários, programas desportivos, programas musicais (incluindo o folclore nacional)?...
Bem me parece que seria muito mais eficaz na consequção dos objetivos do que muitas das ações de várias instituições apoiadas pelo governo de Portugal. Claro que contando sempre com o precioso tarbalho que estas instituições têm desenvolvido.
Aqui fica a sugestão deste grão de areia que, também preocupado e empenhado no
ensino da língua portuguesa (mesmo que seja a cantar) vai tentando no dia a dia
motivar sobretudo as crianças, para compreenderem, a falar e a cantar, e a
expressarem-se na língua de Camões, o idioma de muitas nações irmãs - a CPLP
(Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa).
31.03.2019, sábado - Curta metragem: Ação!..
Esta manhã, foi um rodopio aqui em Ailok Laran. Todas as crianças apadrinhadas
(treze) foram convocadas para gravarem uma mensagem para as suas madrinhas
ou padrinhos. Claro que tivemos de valer-nos das cábulas: folhas A4, onde préviamente escrevi o que cada um(a) tinha de dizer. Tempo de treino de leitura, correção, tentativas de gravação, olhares, gestos, cenários; pára, repete, agora, silêncio ... um sem fim de trabalhos que nos ocuparam toda esta manhã de domingo. Foi uma verdadeira aula de português, e creio que estas crianças não irão esquecer facilmente as suas mensagens. Aliás, cada uma guardou consigo a folha respetiva.
A seguir, é o envio das mensagens que, como eu não sou nenhum perito am novas
tecnologias, me ocupam parte importante do meu dia e noite de trabalho, A conta
gotas, lá vão sendo enviadas às madrinhas e aos padrinhos.
O feedback tem sido muito positivo, com mensagens de madrinhas e padrinhos a
manifestarem o seu regozijo por verem os seus afilhados a falarem em português.
E é assim que, com pequenas coisas, vamos lidando com esta grande tarefa de ensinar estas crianças a falar a língua de Camões.
31.03.2019 - “ barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...
Hoje o Eustáquio foi fazer de negociador no “barlak” (já grafado como "barlaque") de um sobrinho. Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.
Então, o que é o “barlak" (ou barlaque) ?
O “barlak” é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva “os dotes” para que se realize o casamento.
“Os dotes” envolvem dinheiro e bens. Neste "barlak" foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e tempêros; mais 15 caixas de cervejas, 10 caixas de coca cola e outras bebidas.
A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a mais ou menos 3kg do animal abatido.
Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.
A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está, de casamentos católicos.(*)
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Notas do editor LG:
(...) “Ter muitas filhas é uma alegria para a família timorense, pois, no futuro, poderão trocá-las por dinheiro e animais. A mulher, quer queira quer não, tem de aceitar a decisão dos seus familiares sobre o preço do barlaque. Eu não quis ser vendida”
O “grito de Ipiranga” é de Martinha (nome fictício), uma das poucas mulheres que, numa sociedade fortemente patriarcal como a de Timor-Leste, levanta a voz para dizer “não”.
O barlaque é uma tradição que existe em Timor-Leste desde os tempos antigos. Este ritual acontece quando um homem e uma mulher decidem casar e têm de, em consequência de uma espécie de “obrigação cultural”, envolver as famílias de ambas as partes para negociar o matrimónio, o que normalmente envolve entrega de bens ou dinheiro aos familiares da noiva. (...)