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sábado, 24 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28458: Para bom observador, meia palavra basta (13): O crocodilo do canal do Enxudé. ao tempo da CCAÇ 1549 / BCAÇ 1888 (Tite, Quinhamel e Bissau, 1966/68)... e as alucinações da IA





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Foto nº 1B, 1A, 1




Foto nº 2




Foto nº 3



Foto nº 4




O Germano Estêvão, à civil,
antes da tropa. Foto original
a preto a branco.
Colorizaçáo feita pela IA

1. Apresentámos ontem  o novo membro da Tabanca Grande, o nº 921, o Germano Estêvão (*). Foi "apadrinhado" pelo seu primo em 2º grau, e conterrâneo, o  João Crisóstomo. 

Das fotos (uma dúzia)  que o João trouxe consigo para digitalizarmos, consta esta, de muito fraca qualidade (Foto nº  5, abaixo reproduzida). 

Não a observámo com atenção e minúcia. O mal das pressas. Quisemos fazer o seu "restauro" digital e ver se a valia a pena "colorizá-la", com recurso à IA.

Para surpresa nossa obtivemos vários resultados para as nossas dúvidas sobre o "bicho" que os militares contemplam no cais de Enxudé. A foto deve ser de 1966/67.  Os militares devem pertencer à CCAÇ 1549, sediados em Tite (entre eles, deve estar o Germano Estêvão, que não conseguimos ainda identificar). 

Depois de várias "leituras" da foto (hilariantes, as primeiras), lá chegámos à conclusão que o "bicho" era, afinal,  um crocodilo do rio Geba...

(i) O Gemini / Google AI deu-nos esta resposta:

Com base nos registos históricos da fauna do rio Geba e no tamanho e formato alongado visíveis na imagem, o peixe capturado assemelha-se fortemente a um peixe-gato gigante africano (como as espécies do género Clarias ou Heterobranchus), ou potencialmente a um grande exemplar de tarpon ou barracuda de água doce, comuns nos estuários e águas salobras da Guiné-Bissau.

(ii) A mim, editor,  pareceu-me logo que era um crocodilo, e não um peixe, uma barracuda (palpite da IA do Google) (foto nº 2). 

O ChatGPT também não acertou à primeira (Foto nº 4). E lá fez a sua "autocrítica":

(...) "Tens toda a razão, camarada Luís — e não tens de pedir desculpa! Fui eu que interpretei mal a fotografia e, pior ainda, a colorização anterior inventou peixes e alterou bastante a cena original (Foto no. 4).

O animal é um crocodilo, e o homem de cócoras, ao centro, está a mexer-lhe nos maxilares, aparentemente a abrir-lhe a boca. A legenda deve respeitar o contexto que indicas: região de Quínara, Tite, margem esquerda do rio Geba, fotografia, a preto e branco, de Germano Estêvão, da CCAÇ 1549.

Vou corrigir a abordagem: preservar a composição original, os rostos, as posições dos homens, o crocodilo e a estrutura de madeira sob os seus pés. O restauro digital deve recuperar a fotografia histórica, não recriar uma cena diferente.

A nova versão (Foto no. 1) já representa o crocodilo com a boca aberta, mas devo ser rigoroso contigo: a ferramenta voltou a reconstruir partes da fotografia, em vez de se limitar a restaurar o original. Alterou pormenores das figuras e do animal, pelo que não a consideraria uma reprodução documental fiel para o blogue.

A legenda histórica que proponho é: Guiné, região de Quínara, rio Geba, margem esquerda, nas proximidades de Tite. CCAÇ 1549. Um grupo de militares junto de um crocodilo capturado, com um dos homens a abrir-lhe as mandíbulas. Fotografia de Germano Estêvão. Data não identificada.

Para o arquivo da Tabanca Grande, conservaria sempre a fotografia original a preto e branco como documento de referência.

A meu pedido, o ChatGPT fez uma "reconstituição" a preto e branco (Foto nº 2):

(...) "Camarada, fiz uma nova versão a preto e branco, procurando conservar o ambiente documental da fotografia de época, o enquadramento, os militares e o crocodilo, com maior nitidez e contraste.

Há, porém, uma ressalva importante: esta é uma reconstituição assistida por IA, não uma restauração puramente fotográfica. Alguns pormenores podem ter sido reinterpretados. Para um documento histórico da CCAÇ 1549, convém preservar sempre o original e comparar cuidadosamente os rostos, as mãos, o camuflado e a posição do crocodilo.

Quanto à identificação, concordo contigo: é um crocodilo, não uma barracuda. A fotografia, atribuída a Germano Estêvão, situa-se no canal do Enxudé, no rio Geba, junto de Tite, na região de Quínara, por volta de 1966/67. A classificação como crocodilo de tamanho médio é plausível, mas não determinaria a espécie nem o comprimento exato apenas com base nesta imagem" (...)

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT/Open AI | Gemini / Google AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)


Foto  nº 5

Guiné  > Região de Quínara > Tite > CCAÇ 1549 > c. 1966/67 > No canal do Enxudé, rio Geba, um grupo de militares no cais, em observação a um animal capturado no rio (que parece ser um crocodilo)

Fotos: © Germano Estêvão / João Crisóstomo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI) (Gemini / Google AI)]


3. Comentário do editor LG: 

A IA pode ser ( e tem sido) útil na recuperação de fotos dos nossos mal tratados álbuns, em geral com fraca resolução, e com já com muitas marcas do tempo (humidade, riscos,etc.). 

Mas a IA comete frequentemente erros ao interpretar ou "ler" fotografias antigas devido a limitações técnicas e à falta de contexto histórico (daí a importância da legendagem detalhada, como nós fazemos).  

É verdade que os modelos de visão por computador evoluiram muito, mas o processamento de imagens históricas apresenta  desafios únicos que as máquinas ainda não conseguem resolver perfeitamente. 

KA IA analisa pixels, formas e padrões, mas não entende o contexto social, cultural ou histórico bem como o significado político ou humano de um cenário. A IA "não pensa, não sente", mesmo que ela fale contigo e te trate por "camarada"...

Muitas das fotos dos nossos álbuns da Guiné (ao fim de 50, 60 anos...)  apresentam grão, riscos, manchas e descoloração (caso desta, do Germano Estêvão), que a IA pode confundir com elementos reais da imagem (troca do crocodilo pela barracuda, por exemplo)... 

Por outro lado, em imagens a preto e branco ou sépia, a IA tem de "adivinhar" as cores originais através de modelos de estimativa, o que resulta em tons de pele incorretos, roupas com cores historicamente erradas, perda de contraste original, etc.

No restauro digital,  a IA sofre muitas vezes de "alucinações visuais": ao tentar restaurar ou reconstituir  uma foto antiga, desfocada, com manchas, com riscos, rasgões, etc. (recorrendo a ferramentas de "upscaling"), a IA inventa texturas e traços faciais para preencher os espaços em branco. 

Além disso, a  IA pode alterar a fisionomia real de uma pessoa do passado, tornando o rosto demasiado "plastificado", "bonitinho",  ou parecido com os dados modernos com os quais foi treinada.

Temos de ser sempre cautelosos e críticos em relação a estes "restauros digitais"...E, primeiro que tudo legendar a foto... E comparar os "resultados"... 

Se nos dermos  ao trabalho de ampliar a foto original (usando inclusive a lupa...)  e observá-la atentamente, vê-se  que estes militares observam um crocodilo. De tamanho aparentemente médio...

Não, não  pode ser uma barracuda ou outro peixe do estuário do Geba. O camarada de camuflado segura a cauda, um africano em tronco num está debruçado sobre o réptil, o militar, á frente, ao centro, em tronco nu, de cócoras, segura o  maxilar superior. 

Pedimos ao Gemini/ Google AI   e ao ChatGPT/Open AI  que nos fizesse  o "restauro da imagem original",  que está  em mau estado.  A preto e branco. E depois com "colorização".

Já mostrámos o que foi "saindo"...com diferentes afinações da nossa parte... No que se perde muito tempo...

Esperemos que os nossos leitores também possam acrescentar algo mais sobre o que observam na foto original (**), e a comparem com as imagens da IA. E sobretudo nos falem da sua experiência (ou das suas memórias) da passagem por estas paragens...  (Nunca lá estive no Enxudé   nem em Tite, mas passei ao largo, em LDG e em "barco-turra", nas memoráveis viagens Bissau-Xime-Bambadinca e vice-versa.)

Devem ser raras, no nosso blogue,as fotos tiradas no "canal do Enxudé", no lado esquerdo do rio Geba, frente a Tite. Vou confirmar.

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Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 23 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28455: Tabanca Grande (588): Germano Estêvão, senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 921, apadrinhado pelo primo e vizinho da Bombardeira, João Crisóstomo: foi 1º cabo at inf, CCAÇ 1549/ BCaç 1888 (Tite, Quinhamel, Bissau, 1966/68)

(**) Último poste da série > 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28447: Para bom observador, meia palavra basta (12): Decifrado o enigma dos grafitos deixados pela CCAÇ 1620 em Cameconde e no Cachil: "3798" era, de facto, o SPM da companhia (Manuel Cibrão Guimarães, Rio Tinto / Gondomar, organizador do encontro anual do pessoal em 2018)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28457: O Nosso Livro de Visitas (234): António Joaquim Morais Caldas que nos vem falar do incidente que motivou a morte do Capitão Rui Romero e da presença da Alferes Enfermeira Paraquedista Maria Rosa Exposto na sua evacuação

1. Mensagem de António Joaquim Morais Caldas, enviada ao nosso blogue através do Formulário de Contactos em 21 de Outubro de 2026:

Hoje, e tão tarde, tive conhecimento, através do BLOGUE, da morte no dia 21/06/2021 da nossa querida camarada ALF. ENF. ROSA EXPOSTO.[1]
A última imagem que dela detenho, foi vivida em 10 de Julho de 1966, dia do dramático acidente do Cap. RUI ROMERO que ainda retenho na memória.[2]

Na verdade, estávamos, eu e o 2.º Sargento José Morais a descansar na sala do material de guerra, a 2 metros do quarto do Comandante Romero, quando ouvimos um tiro vindo do seu interior. Corremos, batemos à porta e, sem resposta, abrimos e deparámos com o corpo inerte do Comte Romero estendido no chão com a arma. Outros pormenores jamais os divulgarei.

De imediato, fui à varanda e encontrei um militar, não me recordo do seu nome, e pedi-lhe para correr a chamar o nosso Comte Amaro Rodrigues Garcia. A partir desse momento tudo decorreu de acordo com as suas orientações, que levou à chegada do helicóptero e cuja enfermeira era precisamente a ALF. ENF.ª MARIA ROSA EXPOSTO. Cumpridos todos os procedimentos, o corpo do Cte RUI Romero foi levado para o hospital de Bissau e, posteriormente, para a Metrópole.

Foi um dia dramático e de grande consternação que teve a particularidade de ter frente a frente a nossa querida camarada de armas Maria Rosa Exposto.
Obrigado Rosa pela tua camaradagem e abnegação.

REQUIEM IN PACE ROSAE.
Guiné > Região do Oio > Jumbembem  > Domingo, 10 de julho de 1966 > Um dia trágico: pormenor da evacuação do cap mil inf Rui Romero, na foto a ser transferido para a maca do helicóptero Alouette II... A enfermeira paraquedista era a Alf Maria Rosa Exposto.

Foto: © Artur Conceição (2007). Todos os direitos reservados [Edição de L.G.]

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Notas do editor:

[1] - Vd. post de 9 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26781: In Memoriam (547): Maria Rosa Exposto, ex-alf enf pqdt (Bragança, 1940 - Portalegre, 2021), pertencia ao 4º curso (1964) e passou pelo CTIG... Rosa, que descanses em paz!

[2] - Vd. post de 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

Último post da série de 7 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28328: O Nosso Livro de Visitas (233): Ana Vaz, neta do sr. José Caeiro, comerciante, dono da Casa Caeiro, Nova Lamego: português, natural da Figueira da Foz

Guiné 61/74 - P28456: Notas de leitura (1973): "Nós, Os Filhos da Guerra", por Frederico Valarinho; Âncora Editora, 2024 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Por amável empréstimo da Biblioteca da Liga dos Combatentes li as memórias de infância de Frederico Valarinho em Tete, são tocantes como retoma um sexagenário à vida de uma criança num ambiente predominantemente militar e ao elogio que tece aos seus pais. Assim se vai abandonando o terreno da especulação de que a literatura da guerra colonial ou era domínio de reserva de ex-combatentes ou de estudiosos, está amplamente confirmado pelo que temos lido de Paulo Faria, Joana Pontes ou Catarina Gomes, entre outros, que os filhos da guerra, incluindo os filhos de tuga, são hoje literatura constante do dever da memória da guerra colonial.

Abraço do
Mário



Os filhos da guerra são hoje a geração a quem compete transferir a memória das suas vivências coloniais

Mário Beja Santos

O dever de memória, em termos literários da guerra colonial, começou por se manifestar por testemunhos de ex-combatentes através de romances, novelas e contos, poesia e memórias; outros deram seguimento por via da historiografia, do jornalismo, até da hagiografia, narrativas múltiplas, não faltaram posicionamentos ideológicos. Passadas estas décadas, assiste-se à consolidação da literatura memorial e à emergência de novos protagonistas, com um peso particular para os filhos, mesmo aqueles filhos de tuga que reivindicam o direito à identidade. É uma variante do subgénero literário esta maré de escritos dos filhos de ex-combatentes.

É nesse contexto que se justifica um comentário ao livro de Frederico Valarinho "Nós, Os Filhos da Guerra", Âncora Editora, 2024. Valarinho nasceu em Nampula, em dezembro de 1964, o pai, oficial do Exército, fazia ali a sua comissão. Valarinho é homem dos sete ofícios, trabalhou como jornalista e tem o seu nome ligado à esgrima, modalidade desportiva em que o pai foi ilustre pioneiro. O Major-general Pedro Pezarat Correia prefaciou estas memórias de Valarinho criança na cidade de Tete, onde o pai aparecia de vez em quando, o seu batalhão estava em área de refrega.

O prefaciador não esconde a sua admiração por este poder de regressar à infância, o brincar despreocupadamente com outras crianças, o ambiente escolar, o seu interesse em ter recolhido lembranças de amigas mais chegadas daqueles tempos. Também pesa como documento as notas de enquadramento, o adulto que foi jornalista não se irá coibir de contextualizar histórica, geográfica, política e militarmente, as memórias da infância. É deste prefácio que retirei o título que dou a este apontamento: “Os filhos na guerra são hoje a geração a quem compete transferir o legado dos seus pais aos seus filhos e aos seus netos.” Trata-se de uma aventura memorial: a interrupção de estudos na metrópole, a viagem com a mãe para Moçambique, dá-se uma boa página de enquadramento histórico. A vida em Tete, o alojamento, a vida do colégio, as brincadeiras no dia-a-dia, uma nota de enquadramento do aparecimento nacionalista em Moçambique.


E dá-se o enraizamento afetivo, as boas horas na piscina com os amigos, ao seu olhar de criança escapou a sociedade militar em Tete, a música que se ouvia, a roupa engomada com ferro a carvão, a nova casa, diz o térreo, o comércio dos monhés (designação dada aos indianos) mais notas de enquadramento, o que o autor pode apurar da evolução da guerra do tempo em que viviam em Tete, o funcionamento dos serviços de saúde, o que se sabe e ainda não se sabe dos massacres de Wiriamu; o passeio à cidade da Beira, como os moçambicanos, principalmente os colonos portugueses, viviam a guerra, importa não esquecer que a maioria esmagadora dos portugueses em Moçambique estava concentrada no sul.

Extensa nota de enquadramento sobre os acontecimentos vividos em Moçambique em finais de 1973 e até março de 1974. Memória de como se viveu o 25 de abril de 1974, o comovente elogio feito aos seus pais. Termino com a referência à apresentação do livro pelo seu autor:
“Por falar em memórias, convirá que fique desde já definida uma das regras que me impus ao escrever esta obra: mal ou bem, errado ou não, tudo aquilo que consta nestas páginas foi retirado exclusivamente da minha memória. Claro que poderia ter pedido aos meus pais, adultos com uma capacidade de observação e um discernimento completamente diferentes daqueles que eu à época dispunha, que me lembrassem factos e pessoas e corrigissem detalhes que pudessem ter sido alterados pelo olhar e pela imaginação de uma criança entre os 6 e os 9 anos. Só que, se o fizesse, estaria a adulterar o que aqui pretendia fazer. Este é um livro sobre aquilo que uma criança viu e sentiu.”


Frederico Valarinho
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Nota do editor

Último post da série de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28455: Tabanca Grande (588): Germano Estêvão, senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 921, apadrinhado pelo primo e vizinho da Bombardeira, João Crisóstomo: foi 1º cabo at inf, CCAÇ 1549/ BCaç 1888 (Tite, Quinhamel, Bissau, 1966/68)







Foto nº 1


Foto nº 2



Foto nº 3


Foto n º 4



Foto nº 5


O novo grão-tabanqueiro nº 921, Germano Estêvão, natural de Torres Vedras: 1º cabo at inf, pertenceu à CCAÇ 1549 / BCAÇ 1888 (Tite, Quinhamel, Bissau).

Legendas:  Foto nº > 1º cabo at inf, Tite  |  Foto nº 2> Na recruta > Foto nº 3 > No canal do Enxudé  | Foto  no. 4 >  Bombardeira: o Germano na sua casa, com a esposa Etelvina e o primo João |  Foto 5 > Foto atual

Fotos (e legendas): © Germano Estêvão / João Crisóstomo  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI) (Gemini / Google AI]



Brasão do BCaç 1888, "Vendo, Tratando e Pelejando" (Fá Mandinga e Bambadinca, 1966/68). Coleção: Carlos Coutinho (2009). (Imagem melhorada com a IA / Gemini.)



1.Mensagem do John Crisostomo, luso-americano, membro da Tabanca  Grande, régulo por decreto real da Tabanca da Diáspora Lusófona, activista social de muitas e boas causas, natural de Torres Vedras, a viver em Queens, Nova Iorque, com a sua querida Vilma, de origem eslovena:


Data -. domingo, 11/10/2026, 19:36
Ãssunto - O meu primo Germano Estêvão


Caro Luís Graça,

(....)  Já uma vez te falei dum primo meu que esteve na Guiné ao mesmo tempo que eu. Recordou um facto que eu já tinha esquecido: que nos encontrámos uma vez em Tite, onde ele estava estacionado, durante uma operação em que a minha companhia, a CCAÇ 1439,  fazia a sua parte. 

Estive há dias com ele, lembrando coisas e loisas,  especialmente das nossa experiências na Guiné e acabei por lhe perguntar se ele não queria fazer parte da nossa Tabanca Grande. Concordou em entrar e portanto aqui estou eu para “apadrinhar" mais um camarada nosso...

Aliás,   eu já o mencionei num email (de 3 de dezembro de 2023) e que até tinha várias fotos que tu depois publicaste no poste   P24983 de 21 de dezembro de 2023 mas que inicialmente  não apareciam (conforme confirmaram o saudoso Valdemar Silva e o Fernando Ribeiro,  em comentários a esse poste).

Na casa dele fui encontrar muitas fotos dos seus tempos da Guiné , mas estão todas muito velhas, não sei se as podes utilizar. Escolhi algumas que amanhã vou “ identificar”. (...)

Entretanto o que se segue é a “história da sua vida”. Diz que não gosta de escrever (muito menos por vias digitais ), mas prontificou-se a contar-me o que se lembra e que eu escrevesse por ele. Aqui está o que me disse, e que vou tentar replicar com a precisão que eu for capaz (...)


2. O novo grão-tabanqueiro nº 921 > Germano Estevão, 1º cabo at inf, CCAÇ 1549 / BCAÇ 1888 (Tite, Quinhamel e Bissau, 1966/68),a seguir  apresentado pelo João Crisóstomo:
 

(i) nasceu na Bombardeira, freguesia de A-Dos-Cunhados, concelho de Torres Vedras, no dia 11 de março de 1944;

(ii) ingressou na tropa no dia 15 de outubro de 1965, com 21 anos, em Leiria, no R.I. 17;

(iii) foi para a Guiné, integrado como 1º cabo at inmf, na CCAÇ1549 /  BCAÇ 1888,  no dia 25 de abril de 1966, já com os 22 anos feitos,  no navio Uíge, o mesmo navio que no dia 17 de janeiro de 1968 o trouxe de volta a Portugal;

(iv) logo que chegou a Bissau, foi de barco até Enxudé, onde desembarcou e daí seguiu em coluna de viaturas até Tite onde ficou durante 16 meses;

(v)  a CCAÇ 1549 veio substituir a CCav 677, em Tite, como subunidade de intervenção e reserva do sector: teve  um pelotão destacado em Fulacunda, até 28Jun66 e outro em Enxudé, 

 (v) depois foi para Quinhamel onde permaneceu alguns meses, antes de ir para Bissau, em substituição da CCAÇ 1498.  onde passou os últimos dois meses   até regressar a Portugal.

Três irmãos a servir a Pátria, ao mesmo tempo

É talvez pertinente mencionar um facto que aliás não foi único: enquanto ele fazia o seu serviço na Guiné os seus dois irmãos faziam também o seu tempo de tropa ao mesmo tempo que ele em lugares diferentes : o Rui, irmão mais velho, estava em Angola; e o Luís, o mais novo, fez o seu tempo todo em Portugal numa repartição administrativa, safando-se assim de ir ao Ultramar. 

 Os pais não tinham muitas posses… e ficaram sós,   com duas filhas, uma delas ainda criança,   "a aguentarem como podiam ” até que os filhos voltassem.

A sua companhia era a Companhia de Infantaria nº  1549, a  CCAÇ 1549, que "andou sempre à porrada".  Uma companhia de Intervenção sob o comando do capitão Brito, integrada ao BCAC 1888.

 Quando este Batalhão voltou a Portugal,   sua companhia ficou adida ao BCAÇ 1860, que por sua vez foi rendido por uma outra unidade, cuja identidade não se lembra mais.

Apesar de ser uma companhia de intervenção "que andava sempre no mato”, o número de sinistrados desta companhia foi bastante baixo: yiveram muitos feridos, mas tiveram apenas duas baixas fatais cujas circunstâncias lembra com bastante clareza, apesar do tempo que já passou.

O primeiro foi o alferes Dias, natural de Queluz, que foi morto em combate. O Germano lembra que, ao regressar, tiveram de atravessar uma bolanha com água pela cintura, e não tinham comunicação com ninguém. 

O comandante da secção que transportava o corpo do falecido alferes Dias ordenou então aos seus homens que levantassem e mostrassem o corpo do falecido por cima das suas cabeças para que o  de helicóptero sobrevoava a coluna de regresso (o PCV), se apercebesse de que eles tinham um morto e queriam que o helicóptero apanhasse o corpo do falecido alferes.

O furriel Joaquim  Peixeira, que pertencia a esta companhia e que já várias vezes esteve nos nossos convívios, ainda hoje vai à campa do alferes Dias levar flores,   honrando a sua memória e prestando a sua homenagem.

A história do outro sinistrado não é menos pungente, porque se tratou de um acidente, sem qualquer falta ou culpa de ninguém . O enfermeiro da companhia estava com uma arma nas mãos que estava armada sem ele o saber. "Não sabe porque cargas de água", a arma disparou-se e a bala foi atravessar a chapa que era a parede comum com a caserna seguinte, atravessou um caixote de bacalhau ( creio que vazio) e foi atingir o primeiro cabo Cardoso que teve morte instantânea.

(Texto de João Crisóstomo, revisão / fixação de texto: LG)


4. Comentário do editor LG: 

João, obrigado pelo teu empenho e "apadrinhamento". O teu primo e nosso camarada  Germano Estêvão  é bem-vindo, e vai sentar-se à sombra do nosso poilão no lugar nº 921.

 Infelizmente não tínhamos até agora nenhum representante da CCAÇ 1549 (e apenas 3 ou 4 escassas  referências a esta subunidade).  

Em próximo poste, apresentaremos mos mais fotos e a ficha da unidade, e algumas referências à sua atividade operacional. 

Este BCAÇ 1888 esteve em Bambadinca, embora já não  seja do meu tempo. Mas lembro-me do seu memorial, na nossa parada, em frente àescola.

Como bem dizes, as fotos do álbum do Germano Estrêvão que me entregaste e eu digitalizei, são de fraca qualidade. Procedi ao seu "restauro" e colorização, com recurso à IA. 

Ele fica com o teu endereço de email. Manda-lhe um abraço fraterno, meu, de camarada e vizinho (da Lourinhã).

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28442: Tabanca Grande (587): Henk Eggens senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 920: nasceu nos Países Baixos (que para nós é sempre a velha Holanda...) e é cidadão do mundo, médico de saúde global; é vizinho de Salazar, vive em Santa Comba Dão

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28454: Convívios (1079): Os antigos combatentes da vila de Loriga, a princesa da Serra da Estrela, homenagearam as suas mães, no almoço-convívio realizado na Escola Secundária de Sacavém, no passado sábado, dia 17 - Parte II




Foto nº 17 > O António de Brito Ribeiro brindou-nos, no fim da refeição, com um magnífico uísque velho, da sua "garrafeira da Guiné"... Um "Whytte & Macakays'", 21 anos... Um rótulo com um tremendo sinbolismo!    

Ainda com o estojo, esta garrafa  devia valer, no   mercado de coleccionismo,  entre os 200 e os 300 euros,  dizem os entendidos...

Dividido irmamente, chegou para todos. Estava em ótimo estado de conservação... Revelou-se um verdadeiro néctar. Foi bebido também em homenagem das mães de Loriga (*)... Os seus filhos tinham, em geral, na altura,  a idade deste "scotch": 21 anos...


Foto nº 18 > O António foi um dos elementos da comissão organizadora mais presentes no evento: ele não parou, falou com toda a gente, foi a todas as mesas,  esteve atento a tudo e a todos...Por outro lado, é difícil não  dar nas vistas, sendo ele um calmeirão... Aqui na nossa mesa, a nº 5, com o Manuel Resende, o régulo da Tabanca da  Linha, e o Hélder Sousa (que veio aqui encontrar o "velhinho" que ele veio substituir em Piche...)


Foto nº 19 > Sempre gentil, afável e cavalheiro, o Antóni0 explica à Alice Carneiro e à Isaura (esposa do Manuel Resende) a história desta garrafa, umas das últimas da sua "garrafeirra da Guiné!...


Foto nº 20 > À direita, o António e ao centro o seu irmão José (de Brito Ribeiro) que também esteve na Guiné, como alferes miliciano, em Bissau, na Amura, na 3ª Rep /QG / CCFAG, a "Rep do IN" (Informações), disse-nos ele com piada... (Engenheiro-quimico, foi gestor no Grupo CUF.) Há um terceiro irmão, o Jorge, que foi mobilizado para Moçambique, onde foi ferido. Não esteve presente neste encontro. O António tem ainda mais duas irmãs vivas, mais novas.


Foto nº 21 > O António e o Abílio (?), um camarada de veio de Loriga de propósito: esteve em Angola (abr 1967/ mai 1969) e ainda hoje é pastor na Serra da Estrela.  O António estebva na Guiné, tem fiota amarela; o Abílio (?) tem fita encarnada, esteve em Angola.

O Abílio (?) pertenceu à CCAÇ 1696 (divisa "Firmes e Constantes"):  (i) esta subunidade esteve colocada na Zona Norte de Angola, mais especificamente no setor de Nambuangongo, tendo como base principal a Fazenda Madureira e com destacamentos noutras localidades da região, como Santa Eulália; (ii) foi mobilizada pelo Regimento de Infantaria 15 (RI 15 - Tomar); (iii) embarcou em Lisboa no T/T Vera Cruz a 15 de abril de 1967, chegando ao porto de Luanda a 24 de abril de 1967; o pessoal regressou a casa em maio de 1969;  (iv) era comandada pelo cap mil inf Joaquim Inácio Machado de Sola Campos; (v) operou numa das zonas de guerrilha mais ativas e difíceis da altura (o triângulo do café nos Dembos/Nambuangongo), realizando patrulhamentos e escoltas nos itinerários entre Nambuangongo, Madureira e Muxaluando.

Não confundir o Abílio com o António Macedo (n. 1948), outro pastor da serra da Estrela, loriguense de gema, que recentemente foi vedeta do  programa da RTP1, "Pão da Nossa Terra > Pão da Serra  da Estrela > Ep 1 > 28 de setembro de 2026 (vd. a partir de 09:50). Embora  o Abílio e o Antõnio tenham algumas parecebças físicas,  o primeiro é mais velho (deve ter nascido por volta de 1945; e o António, que tinha 13 anos em 1961,  é mais conversador, pelo que pude observador o programa da RTP).


Foto nº 22 >  A mesda da comissão organizadora: o António ao centro, ladeado  à esquerda por outro elemento da comissão organizadora do almoço-convívio, o Gabriel Pina; e à direita, pelo presidente da Junta de Freguesia de Loriga, Luís Costa, que veio cá abaixo com uma delegação de gente da aquela terra serrana, de gente voluntariosa, trabalhadora e bairrista (tem hoje c. de 850 habitantes; tinha em 1950, no auge da indústria de lanifícios, c. de 3 mil).

Outros elementos da comissão organizadora, que estavam presentes na mesa, além do António Ribeiro (Guiné) e do Gabriel Pina (Moçambique):  António Fernandes (Guiné); José Manuel Alves (Angola); e José Ambrósio (Guiné).

Segundo me informou o António de Brito Ribeiro, a ANALOR (Associação  dos Naturais e Amigos de Loriga) (com sede em Sacavém, mesmo aqui ao lado da escola secundária) realiza todos os anos a "semana serrana". Aqui, em Sacavém, terra que está geminada com Loriga. Um evento que abrange diversas actividades, da cultura à diversão. Este ano o ponto alto foi a apresentação dos livros do filho e historiador de Loriga, Augusto Moura Brito (que tive o prazer de conhecer pessoalmente no sábado).

Ainda segundo a nossa fonte, estão identificados 338 antigos combatentes loriguenses, e não 235 como referi no poste anterior (*) (dado que vou corrigir). Existem ainda cerac de meia centena, nascidos entre 1941 e 1952, que o António ainda não conseguiu contactar para saber em que teatro de operações estiveram presentes.

Desses 338 loriguenses identificados, sabe-se o seguinte: 

(i) eram filhos de 265 mães; 

(ii) duas mães tiveram, cada uma, 4 filhos no ultramar; 

(iii) 14 tiveram 3 filhos (é o caso da mãe do António, Aurora de Brito Pina Ribeiro. 1925-2014); 

(iv) 39 tiveram 2 filhos no ultramar. 

"Foi uma desumanidade!", comenta o António...



Loures > Sacavém > Escola Secundária de Sacavém > 17 de outubro de 2026 > Almoço-convívio dos antigos combatentes do ultramar de Loriga, Seia (*)


Fotos (e legendas): © Luís Graça  (2026). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Nota do editor LG:

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28453: Historiografia da presença portuguesa em África (549): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (17): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Considero que nesta fase da narrativa do Capitão Brosselard surgem várias observações francamente atrativas para a investigação historiográfica. Já vimos como ele aprecia a importância estratégica do Ziguinchor, como, implicitamente, se tornava de toda a conveniência necessário afastar a presença portuguesa do rio Casamansa. Dá-nos uma descrição de Ziguinchor no exato momento em que partimos. Faz uma apreciação da presença portuguesa na região desde o século XVII, refere ou Grumetes e Manjacos e a riqueza das madeiras que se encontram tanto na colónia francesa como na colónia portuguesa. Eu desconhecia que desde 1830 as florestas situadas entre o Casamansa e o rio de São Domingos eram exploradas pelo Governo português, e Brosselard não se acanha de propor a exploração destas madeiras na região do rio Cogon. Goste-se ou não, até porque a História não pode ser posta em tribunal nem sujeita a ressentimentos, é implícito nas observações de Brosselard que havia uma coerência territorial que a ganância política desconsiderou. A memória da identidade não se perde e vejam-se as sublevações do Casamansa que não se sente integrado no Senegal.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 17
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Retomando a narrativa, estamos em pleno Casamansa, o Capitão Brosselard rememora dados históricos da presença portuguesa, refere que no século XVII os portugueses se tinham estabelecido no Cacheu, São Domingos, Farim, Ziguinchor e um conjunto de outros lugares. Quem vinha, casava ou coabitava, com as mulheres do país, daí a numerosa população mestiça existente na Guiné. Estas alianças luso-africanas facilitaram as aproximações e as boas relações com os indígenas porque o islamismo não impede ainda que o negro aceite os princípios dos europeus.

Também uma multidão de indígenas fixados perto dos portugueses e unidos por laços de sangue se adaptaram sem resistência aos costumes dos recém-chegados, sofrendo a sua influência religiosa. Assim se formou a população dos Grumetes e dos Manjacos. Os que nós vimos trazem muitas vezes um Cristo em cobre sobre o peito: é uma herança dos seus ancestrais. Apresentando-se como cristãos, os Manjacos são polígamos, bebedores e muito debochados. Porém, são bons agricultores e bons marinheiros. As suas mulheres vestem-se com uma certa elegância e muitas vezes com distinção. Todas as cerimónias, casamentos, enterros, etc. são para os Manjacos uma ocasião para beber aguardente e vinho de palma. Quando uma rapariga se casa, todas as mulheres da povoação se juntam, vestem-se a primor e acompanham-na com cantos e gritos, de casa em casa. É do uso oferecer um presente à noiva e vinho de palma ao cortejo.

Nos dias de festa religiosa ou de procissões passeia-se igualmente pela povoação e os manifestantes fazem novas libações por cada casa por onde passam. Pode avaliar-se da compostura dos fiéis após algumas horas de peregrinação nas ruas. Toda esta gente fala um português incorreto.

O pântano de Cajanolle é um canal de comunicação entre o Casamansa e o rio Cacheu, desagua neste rio, perto de Bolor, que era, há alguns anos, um estabelecimento de uma grande importância, e servia de sanatório a Cacheu. Esta povoação está hoje em decadência; fundada em 1588, foi outrora o centro mais importante dos portugueses nesta costa e o único estabelecimento que tinha a aparência de uma povoação. Tinha alguns funcionários, uma numerosa população branca e as relações com a Europa eram frequentes.

A povoação de Cacheu tinha um aspeto muito especial bastante pitoresco. Existia aqui, ao que parece, uma sociedade de gente destemida que operava com a maior tranquilidade fazendo vigilância desde o anoitecer. Não era preciso contar com a guarnição porque as rondas que eles faziam eram quase tão temidas como os encontros com os bandidos. Atualmente a povoação de Cacheu compõe-se de 1800 habitantes, um terço são brancos. Um forte em más condições, armado de doze canhões, protege a povoação encravada nos limites estreitos de uma muralha feita de terra. O rio Cacheu é navegável até ao posto de Farim, cuja situação no interior corresponde à de Selho; mas esta escala está longe de ter a importância da sua vizinha do Casamansa.

A região compreendida entre Cacheu e o Casamansa a este do pântano de Cajanolle está coberta de magníficas florestas mais ou menos impenetráveis, alguns caminhos permitem passar do rio francês para o rio português. Paralelamente a estes dois rios, é praticamente impossível circular à volta, porque as florestas só têm claridade na vizinhança da fronteira mandinga, no Alto Casamansa.

Todas as madeiras que aqui se encontram são apropriadas para construção; podem convir tanto para marcenaria como para a construção de mobiliário de luxo e poderão ser objeto de um comércio próspero. Porém, será necessário escolher com discernimento os territórios de exploração, porque haverá dificuldades intransponíveis de penetrar em certos lugares destas florestas, e tentar uma exploração longe de zonas pantanosas que não permitem o escoamento de madeira pelos rios.

No Casamansa e Cacheu constroem-se numerosas embarcações com estas madeiras admiráveis, e desde 1830 as florestas situadas entre o Casamansa e o rio de São Domingos são exploradas regularmente pelo Governo português.

Trabalhadores vindos de Lisboa escolhem as madeiras e dirigem a operação; a exploração faz-se do lado do rio Cacheu. Todos os anos, um ou dois barcos vindos de Lisboa carregam estas madeiras destinadas às construções navais. Os barcos que fazem este transporte são construídos com as madeiras provenientes destas florestas.

Uma das árvores mais procuradas pelos portugueses pela sua duração e inalterabilidade é a missanda ou árvore de água vermelha, a sua casca avermelhada é um veneno violento, serve para compor a vida que os negros empregam na prova do julgamento de Deus.

Esta madeira não é atacada nem pela humidade nem pelas térmitas. Creio que poderia ser vantajosamente utilizada para fornecer as chulipas dos caminhos de ferro do Senegal.

Podemos constatar com satisfação que todas as essências do Casamansa se encontram igualmente nas margens do Cogon. Sobre um percurso de 400 a 500 quilómetros, este rio está bordejado por uma espessa floresta onde se amontoam árvores magníficas. Nas margens do Cogon mais ainda do que nas do Casamansa, será fiável explorar as madeiras. Poder-se-ão lançar as árvores no rio e levá-las pela corrente até ao baixo Compony, onde será fácil estabelecer uma serração.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Neste bilhete postal faz-se referência aos 212 mil africanos de toda a África ocidental francesa que combateram pela França na I Guerra Mundial. O corpo dos atiradores senegaleses foi criado por Louis Faidherbe, familiar próximo do capitão Henri Brosselard-Faidherbe, Louis Faidherbe foi governador geral da África ocidental francesa. Só muito recentemente a França se ressarciu do tremendo silêncio da sua historiografia, estavam esquecidos os 30 mil mortos vindos da África ocidental.
Bilhete postal da Guiné francesa, um caçador Coniagui
Bilhete postal antigo mostrando o porto de Dakar
Comerciante de Cayor, Senegal, 1910

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28436: Historiografia da presença portuguesa em África (548): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (16): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28452: Os bu...rakos onde vivemos (16): Cachil, o "forte Apache" (José Colaço, ex-sold trms, CCAÇ 557, Cachil e Bafatá, 1963/65)



Foto nº 1 


Foto nº 2 


Foto nº 3 

Fpoto nº 4

Foto nº 5


Foto nº 6


Foto nº 7


Foto nº 8

Guiné > Região de Tombali > Ilha do Como > Cachil > CCAÇ 557 (1963/65) > 1964 > São "fotos falantes" , como diria o nosso saudoso Torcato Mendonça, que também ele viveu num "bu...rako",  chamado Mansambo (1968/69)... São fotos do álbum do  José Colaço, que era sold trms, e que viveu neste "bu...rako" chamado Cachil. 

São alguns aspetos da construção do aquartelamento (?) de Cachil, o "Forte Apache" (por ser feito com troncos de palmeira, material abundante na ilha)... 

Tal aconteceu  na sequência da celebre Op Tridente (de 14 de Janeiro a 24 de Março de 1964)... que a rapaziada da CCAÇ 557 ainda apanhou mas não figura na ficha técnica do filme...por lamentável lapso da produção... 

(As fotos acima foram melhoradas digitalmente, com recurso à IA, que ainda não existia em1964; e, se existisse, já não  valia a pena tirar "slides" que ficavam por um dinheirão, tinham de ser revelados na Alemanha ou na Suécia .)

Fotos (e legenda): © José Colaço (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: LG + IA (Gemini Google) ]


 1. Inadmissível!... Desde 30 de setembro de 2022 que não falamos dos "bu...rakos em que vivemos" (*)... E foram muitos... 

Esta nossa série está muito pobrezinha, camaradas!.. Quem lá viveu e sobreviveu, não escreve... Quem por lá passou, não tem gratas lembranças, quem nunca lá penou, encolhe os ombros... Com o mal dos outros posso eu bem!... Ou como dizia o cangalheiro da minha terra, "eu não quero que ninguém morra, só espero que a minha vidinha corra!"...

A Guiné era um imenso bairro de lata  Como Lisboa e o Porto nessa   época...Não era só a Ponta do Inglês, Mampatá, Saré Banda, Banjara, Mato Cão,  Ponte Caium, Camabajá,  etc..  Havia muitos mais,  em 220 e tal aquartelamentos e destacamentos das NT no CTIG... (inventário feito pelo dono daquilo tudo, em 24 de abril de 1974, o general Bettencourt Rodrigues). 

Que me lembre, faltam muitos mais "bu...rakos" (alguns eram mesmo "bu...rak...inhos"): Ponte Caium, Copá, Ponte do Rio Udunduma, Ponte dos Fulas, Missão do Sono (em Bambadincazinho), Missirá, Enxalé, Porto Gole, Gandembel, Balana, Guileje, Gadamael,  Beli, Madina do Boé, Cheche, Sangonhá, Cameconde, Cacoca,  Cumbijã, Cadique, Cafal Balanta, Caboxanque, Jemberém, Saré Ganá, Mansambo, Afiá, Candamã, Madina Xaquili... sem falar das dezenas e dezenas de destacamentos de milícias, que às vezes nos tocava ir reforçar (Bissá, Dembataco, Taibatá, Amedalai, Contabane, cito de cor...)

E o Cachil, camaradas !... Não fora o Zé Colaço, e já ninguém se lembrava  mais do Cachil...E eu que lhe tinha prometido, ainda no tempo da pandemia, que não me ia esquecer do Cachil!...Na ilha paradisíaca do Como! 

 Imperdoável, Zé!... Mas ainda  cá estamos para poder cumprir a promessa. E quem não cumpre as promessas, vai para o inferno! 

Em boa verdade, o Cachil sempre foi um "bu...rako" até o brigadeiro Spínola, dono do "resort", ter mandado despejar todos os inquilinos, logo em julho de 1968 ...

De facto, já era um "bu...rako" no tempo do Zé Colaço , continuou a sê-lo no tempo do João Sacoto (**), e por aí fora... até ao tempo do Manuel Cibrão Guimarães, o último inquilino.  (***)  

Em resumo, aquilo não tinha licença de habitabilidade. Não tinha água, eletricidade, saneamento  básico... Enfim, os minimos confortos da civilização... cristã e ocidental. Nem condições de segurança: imaginem, o "turista" a dormir e as cobras a entrarem e  a saírem  por aqueles "bu...rakos"...




Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 557 (Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65) > 1964  Abrigo "Cova do Comando"... Alguém chamou a esta subunidade, que também participou na Op Tridente (jan/mar 1964), "a esquálida e esgrouviada Companhia de Caçadores 557" (sic). 

Por detrás desta foto estão cinquenta e cinco dias a ração de combate, cerca sessenta dias sem mudar de roupa nem tomar banho, e com água racionada para beber. Legenda: a começar da esquerda para a direita: 
  • 1.º cabo enfermeiro Leiria; 
  • 1.º cabo radiotelegrafista Joaquim Robalo Dias; 
  • Dr. Rogério Leitão, tenente  mil médico, que já partiu; 
  • atrás, o 1.º cabo enfermeiro António Salvador;
  • e por último, de quico, a sair do "bu...rako",  eu, soldado de transmissões,  José Colaço. 

As barbas com cerca de 90 dias e os cabelos já tinham levado um corte para melhor se aguentar o calor. Aquela "divisória" entre o 1.º Cabo Dias e dr. Rogério é uma cobra que durante a noite se lembrou de nos assaltar o abrigo e que só de manhã com a luz do dia foi detectada a um canto da cova. Foi condenada à morte pela catana de um milícia.

Foto (e legenda): © José Colaço (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]



2. Comentário do José Botelho Colaço (*)

Servir da água dos poços em zona controlada pelo inimigo, nem lembra ao Diabo!... Mas lembrava aos nossos comandantes militares instalados no ar condicionado de Bissau...

Vem isto a propósito dum poço situado na mata do Cachil na fronteira com a mata do Cassacá, não sei como é que os comandantes instalados no ar condicionado de Bissau souberam da existência do referido poço. Talvez  por cartas cartográficas existentes ou qualquer outra informação,  o que sei é que foi recebido uma mensagem para a companhia ir fazer uma colheita de água do dito poço para ser analizada e passar a ser utilizada uma vez que no Cachil não havia água potável.

Esta tinha que vir de Catió na lancha LD4 que semanalmente se deslocava ao Cachil com reabastecimento de água e géneros alimentícios e material de defesa, porque no Cachil,  tirando o capim, palmeiras e o tarrafo,  nada mais sobrevivia além do imbondeiro de grande porte.

Ordens são ordens e são para cumprir. Certo dia dois pelotõoes da companhia batem a mata do Cachil e atingem o respetivo poço, recolhem a amostra da água para ser analizada em Bissau. 

No Hospital Militar 241 em Bissau quem é que foi escalado para fazer a análise  ? O Dr. Rogério Leitão, médico da CCAÇ 557. Por falta de médicos no HM 241 tinha sido chamado a Bissau mas este médico era o médico da CCAÇ 557 que tinha desembarcado  com o pessoal na tomada do Cachil no dia 23/01/1964.

Como o nosso médico conhecia muito bem a zona e sabendo os perigos que a companhia corria ao tentar deslocar-se ao referido poço "para ir ao do poço", fez o seguinte relatório da análise da água: "Não potável, imprópria para consumo". 

Isto é um resumo muito resumido mas é uma pequena amostra como os comandantes militares do ar condicionado de Bissau tratavam os assuntos do pessoal do mato. Parece mentira mas é a pura da verdade.

sábado, 1 de outubro de 2022 às 00:11:00 WEST 

(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

3. Comentário do editor LG:

Zé, comentários para quê ?! Tu ainda apanhaste o brigadeiro Louro, que nunca deve ter ido ao Cachil beber um simples copo de  água...de Catió.

E sobretudo nunca pôs em prática as normas da "acção psicossocial dirigida às NT"... já com data de  setembro de 1963 (3a. Rep /  QG / CTIG) e aprovadas por ele. 

Vocês, coitados,  tiveram um galo do caraças, a guerra dita subversiva estava a começar e a nossa "intelligentsia" de Bissau  ainda não sabia como lidar com ela... (E muito menos as mentes brilhantes" de Lisboa: sim, como se ganha uma guerra subversiva, pergunta alfito o com-chefe ?!)...  

Se fossem os americanos, que é um povo prático e que adora comprar e vender guerras e armas, tinham mandado à frente a engenharia militar construir de raíz um hotel de 5 estrelas, antes de vos lançar contra o IN armados de "tridentes" e "motoserras" ...

Zé, de facto, era preciso ser doido para marcar férias em "resorts" turísticos como esses...Qual foi a "agência de viagens" que vos enganou ?

 Bem,  vocês têm um grande alibi  (quer dizer, desculpa) perante a História com H grande: no vosso tempo tempo ainda a IA estava para nascer... Nem muito menos havia internet, telemóveis, GPS, mapas da Google...

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Notas do editor LG:
 

(**) Vd. poste 11 de julho de 2019 > Guiné 61/74 - P19967: Álbum fotográfico de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como, Cachil, 1964/66) e cmdt da TAP, reformado - Parte IX: O 'bu...rako' do Cachil (set 1965 / jan 1966)

(***) Vd. poste de 26 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18257: Memória dos lugares (372): Cachil, na altura da extinção do aquartelamento, em 1 de julho de 1968 (Manuel Cibrão Guimarães, ex-fur mil, CCAÇ 1620, Bissau, Cameconde, Cacine, Sangonhá, Cacoca, Cachil e Bolama, 1966/68)