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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
O comércio negreiro despertou uma grande apetência a um conjunto de países como a Espanha, a França, a Inglaterra e a Holanda. Ver-se-á neste texto como tais países procuraram implantar-se pelas Américas, a importância que irão adquirir Barbados, o sonho holandês de criar a Companhia das Índias Ocidentais para construir um sistema comercial monopolista no hemisfério ocidental, um tanto à imagem do que já tinha conseguido alcançar na Ásia; temos a América britânica que formou a Companhia de Aventureiros Reais em África, o ponto de partida foi encontrar uma forma de se impor no comércio do ouro na África Ocidental, seguiu-se o objetivo de fornecer escravos a Barbados. O autor dá-nos um quadro das lutas entre estas potências e enfatiza o enfraquecimento das posições portuguesas nos tempos da União Ibérica; e seguidamente vamos assistir a novas disputas, já não é só o comércio açucareiro o grande objetivo, surgiram o algodão e os metais preciosos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 5

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Já se falou da importância da fortaleza de S. Jorge da Mina, era um posto avançado de onde chegavam muitos quilos de ouro. O tesouro do reino era conhecido nos primeiros tempos como Casa da Guiné, título que foi substituído por Casa da Mina. Como escreve o autor, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos 20 anos do século XV. Em 1506, Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa, traduziram-se num dos sinais da modernidade e de um outro relacionamento entre Portugal e a demais Europa e a multiplicidade de contactos com povos africanos. A importância de Elmina irá desviar-se a favor do tráfico negreiro.

Como escreve Howard French, a escravatura era uma prática antiga embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar. Aproveitando os bons contactos, os portugueses encontraram uma ótima recensão do Benim. Um escravo vendido aos portugueses em 1500 teria rendido entre 12 e 15 manilhas; a arte beninense irá projetar a imagem de um português com os seus longos cabelos e barbas e narizes exageradamente pontiagudos. Em Elmina clamava-se por mais escravos, a coroa portuguesa enviou mais navios; mas por volta de 1514, o Benim começou a restringir o comércio de escravos, teve que se fechar aa feitoria e procurar novos circuitos. Escreve o autor:
“Usando uma plataforma de lançamento como Cabo Verde, Portugal percebeu que se poderia operar um comércio lucrativo de escravos nas zonas costeiras próximas do continente. Dentro deste novo circuito, São Tomé ganhou importância na produção de açúcar. Começou-se a olhar para o Congo com outros olhos, os líderes do Congo queriam cooperar politicamente com os portugueses – estava aberta uma nova rota que podia passar por São Tomé, Elmina e Atlântico sul".


Ao nível da produção de açúcar, São Tomé ganhou a liderança da produção, substituindo a ilha da Madeira, tornou-se uma colónia de escravos, depois foi ultrapassada pelo Brasil açucareiro. Nas Caraíbas foi crescendo a agricultura esclavagista, caso de Barbados. A América do Norte recebeu os seus primeiros negros na Carolina do Sul. E o autor dá-nos uma interpretação para o nascimento do crioulo. Esta língua constituiu-se como um compósito do que era falado pelos europeus e africanos, primeiramente nas feitorias onde se negociavam escravos. Formou-se o crioulo em Cabo Verde, tal como no Senegal ou em São Tomé. O crioulo vai também ser a língua veicular inicialmente no Novo Mundo entre os escravos. “Mais do que qualquer outra coisa, foram estes contactos e a consequente fusão, ou mistura, cultural, racial, social, económica, através de deslocações, uniões e trauma, que fizeram das Américas um verdadeiro Novo Mundo.” Obviamente que todos estes acentos se irão diluindo com a hegemonia das línguas predominantes, o inglês e o espanhol.

Todo o novo circuito comercial esclavagista vai ser um poderoso combate entre potências em todo o Atlântico Sul, chegando às Caraíbas, vão entrar em cena ingleses, franceses, holandeses e espanhóis, todos querem plantar cana-de-açúcar, mais tarde algodão, cada Governo estabelece a tua estratégia para se apoderar no território. O autor dá-nos o quadro das lutas entre os portugueses e os holandeses no Brasil e em África; os holandeses sonham em ter um predomínio tanto nas Índias Ocidentais e Orientais. A seguir à Restauração, a Coroa portuguesa deu importância primordial à recuperação de São Tomé e Luanda, era fundamental o escravo angolano para que o Brasil fosse uma potência açucareira.


Há que ter em atenção o que acontecera em termos demográficos no Brasil. Novamente a palavra ao autor: “A chegada dos caçadores de fortunas, soldados, comerciantes e colonos da Península ibérica desencadeou um período de morte maciça entre os povos nativos do Brasil. Para os portugueses, a população indígena tinha inicialmente parecido quase que inesgotável. Contudo, as doenças transmitidas pelos recém-chegados europeus causaram uma rotação espantosamente elevada nas plantações de açúcar devido ao aumento das taxas de mortalidade entre os escravos indígenas e os trabalhadores assalariados.” Foram epidemias devastadoras, uma longa lista de doenças que incluíam varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, cólera, escarlatina e gripe; até a constipação, recém-chegada à América do Sul abordo dos países europeus, era mortal.

Em suma, registou-se um declínio dramático da população nativa, houve que a substituir por escravos. Esta decisão política foi crucial: Portugal calculou que um Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. O período filipino em Portugal (1580-1640), como já foi sublinhado, foi tremendamente ruinoso para o Império Português: Portugal perdeu Elmina e Luanda; no Oriente perdeu Malaca, Colombo, portos essenciais na Índia no comércio das especiarias. Seguir-se-ão com a Restauração tremendas guerras no Brasil e Angola, no Oriente não foi nada parecido, perderam-se irremediavelmente posições outrora estratégicas.

Na continuação, o autor dá-nos o quadro do comércio negreiro em territórios conquistados pela Espanha. “No século XVI aproximadamente 277.000 africanos foram levados acorrentados através do Atlântico, sendo que quase 90 porcento deles foram para os territórios americanos recentemente conquistados por Espanha, liderados por Cartagena, Nova Espanha e Vera Cruz. Ao longo do seu extenso percurso, este tráfico humano traria cerca de 2,07 milhões de pessoas para as Américas Espanholas, quer por embarque direto através do Atlântico, quer através de um comércio interamericano intenso, traficado a partir de lugares como a Curaçau holandesa ou a Jamaica inglesa. Isto fez das Américas Espanholas a segunda zona mais importante de migração africana permanente e forçada, depois do Brasil.”

Vamos dar continuidade ao trabalho de Howard W. French falando da corrida aos escravos.
Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post anterior de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 7 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28340: Em bom português nos entendemos (34): Camaradas. aqui sejamos..."betacistas", troquemos os "Vês" pelos "Bês" à (b)(v)ontade...



















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Betacismo...Ouvi há dias o palavrão / palabrão da boca de um especialista da língua portuguesa, o popular Marco Neves/Nebes (por sinal meu vizinho, nasceu em Peniche, e autor e apresentador do programa da RTP1, "Esta Língua Que Nos Une"), num vídeo/bídeo sobre "Os bês e os vês do Norte", que passou na sua página do Facebook (Marco Neves, 24 de novembro de 2024).

Confesso que não conhecia o termo...É "jargão académico"... Daí ter recorrido também às meninas da IA...

O betacismo é, muito simplesmente, quando o som que normalmente associamos ao V(ê) passa a ser pronunciado como B(ê). Ou então  quando a distinção entre os dois sons se dilui ou se perde.

Por exemplo, em vez de: vaca → /vaca/, a  pessoa pode dizer algo mais próximo de: baca → /baca/.

Afinal, para quê e porquê dois sons diferentes na mesma língua ?   E por que é que isto dá tanta discussão em Portugal? E até "guerras do carago",  entre sulistas e nort...enhos ? 

Porque não é simplesmente uma questão de "falar mal". É uma característica histórica e regional de certas variedades do português (e não apenas do português, mas também de outras línguas, a começar pelas latinas).

Sem entrar em explicações professorais, muito eruditas e maçudas, o termo deriva do nome da letra beta (o "B" do alfabeto grego), indicando o processo em que diferentes sons passam a ser pronunciados com o som bilabial aproximado de beta.

O betacismo remonta ao próprio latim vulgar (, de "vulgus", povo) da época do Império Romano. No latim clássico havia a distinção, mas na fala popular o som da semivogal correspondente ao U (que soava como um W inglês) e o B intervocálico fundiram-se num som intermediário.

Com a evolução do latim para as línguas modernas (como o espanhol, o galaico-portugues), muitas regiões mantiveram essa pronúncia fundida onde não se fecham totalmente os lábios para distinguir o V do B.

Em Portugal, o fenómeno é muito característico dos dialetos do norte do país e do galego, onde os falantes continuam a preservar esta fase fonética antiga da mesma forma que ocorre noutras línguas latinas.

No português europeu, a pronúncia-padrão distingue claramente: 

  • B(ê) → uma consoante produzida fechando os lábios: bala, beber, cabo; 
  • V(ê) → uma consoante produzida com os dentes de cima contra o lábio inferior: vala, viver, cavalo, vinho.

Ou seja: bala ≠ vala |  bela ≠ vela |  basta ≠ vasta.

Mas há regiões do país e variedades do português, incluindo tradicionalmente algumas áreas do Norte,  onde essa oposição pode ser neutralizada, fazendo B e V soarem iguais ou muito semelhantes.

 Mas, atenção, não há uma fronteira do betacismo, muito menos a  fronteira "Norte/Sul".

De facto, há uma história dialetal bastante mais interessante por trás disso, como explica o prof Marco Neves, no vídeo supracitado. A realização de B/V varia regionalmente e socialmente, e os mapas linguísticos portugueses mostram que a fronteira não coincide simplesmente com uma linha com "nortenhos",  de um lado, e "sulistas" do outro".

Além disso, betacismo pode significar coisas ligeiramente diferentes conforme estamos a falar de história da língua, de fonética ou da descrição de um dialeto.

 A piada é que, para quem faz a distinção, ouvir: "Bou à bila lebar a baca ao beterinário para tomar a bacina", pode ser uma pequena agressão linguística e sobretudo levar à incomunicação, total ou parcial. 

Fiz o teste: até a IA, que é "inteligente" e poliglota, não entendeu metade da frase. Eis a tradução que ela fez a meu pedido:

(...) " Esta frase é uma forma muito popular e informal (com alguns erros propositados de pronúncia e calão) de dizer: "Vou à pressa levar a boca (provavelmente uma forma carinhosa de chamar o cão ou gato, ou referindo-se à 'boca' do animal) ao veterinário para tomar a vacina". (...).

Outra "menina", traduziu "baca" por "cadela"...

Como "veem / beem", camaradas, a IA não é menina  de se fiar inteiramente, tem que se lhe dado desconto, também delira as vezes...

2, E para quem não faz a distinção entre o Bê e o Vê, a resposta perfeitamente legítima é: "Mas qual é o problema, ó meu? Eu cá sei exatamente o que estou a dizer."

Em resumo:
  • Betacismo = B e V deixam de ser distinguidos na pronúncia (ou aproximam-se muito), de modo que palavras como "baca/vaca" podem soar iguais;
  • é um fenómeno dialetal/fonético, não simplesmente um erro de português;
  • em Portugal tem uma dimensão regional e social que ajuda a explicar por que razão o assunto desperta paixões (e discussões, às vezes acaloradas);
  • na tropa, na recruta, no sul, os instrutores (sulistas) gozavam com os recrutas (nortenhos, não se dizia, nem ainda hoje se diz, nortista, só no Brasil...) que trocavam os "vês" pelos "bês";
  • ora, ninguém gosta(va) de ser gozado por causa da língua que aprendeu com o leite materno, ou do sítio onde nasceu,  e muito menos de ser chamado por nomes ofensivos, depreciativas, gozões, seja "nortenho", "galego", "tripeiro" (referindo-se aos do Norte, incluindo o Porto), seja  "beiroco (os das Beiras), seja "mouro", "marroquino", "alfacinha",  "saloio", "marafado" (os de Lisboa, e do Sul);
  • felizmente que nesse tempo hão havia o termo "betacista" (adjetivo e nome).
Pesquisa: LG +  Facebook de Mário Neves + Wikipedia + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série >  26 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28213: Em bom português nos entendemos (33)_ a palavra "mafé", usada na culinária da Guiné-Bissau (crioulo, que vem do mandinga "mafen"): o velho pescador sai na sua canoa "à procura de mafé" (=acompanhamento da bianda, que pode ser peixe,marisco ou carne)

Guiné 61/74 - P28339: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXIX: 28º Pel Art (obus 14 cm)







Foto nº 1, 1A e 1B






Foto nº 2, 2A e B


Guiné > Região Oeste > Sector O4 > Mansoa > BCAÇ 2885 (1969/71) > c- 1970  28º Pel Art (14 c,)


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do alferes graduado capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pertenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71). O espólio está à guarda do nosso amigo e camarada Ernestino Caniço.

Mansoa (Sector Oeste, SO4) começou por ter o 11º Pel Art (8,8 cm) (em 1 de julho de 1969). Um ano depois, já era o 28º Pel Art (14cm) a que se referem estas fotos.

Em 1 de julho de 1971, era o 13º Pel Art (14cm) que guarnecia Mansoa. Continuaria em Mansoa até ao fim da guerra:  fazia parte do dispositivo do Sector O4 em 1 de julho de 1972, em 1 de julho de 1973, e em 10 de abril de 1974.

Como se vê por estas fotos, os artilheiros ficavam muito expostos em caso de flagelação ou ataque ao aquartekamento.As praças dos Pel Art eram do recrutamento local.

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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28338: Parabéns a você (2525): Adolfo Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2796 (Gadamael e Quinhamel, 1970/72)

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Nota do editor

Último post da série de 5 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28323: Parabéns a você (2524): José Marcelino Martins, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 5 (Canjadude, 1968/70)

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28337: Humor de caserna (270): Homenagem aos nossos comentadores: aos que já partiram, e aos que ainda resistem...

 






Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Alberto Branquinho (2010)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. Era para sair, anteontem,  com o poste P28327 (*). Mas a "gaija" (a menina da IA) sabotou-me o trabalho. Trocou-me os nomes todos, depois de muitas horas a "partir pedra". Deitei a toalha ao chão, chamei-lhe uma data de nomes feios e depois fui fotografar as uvas que vão ser colhidas no próximo sábado, e que irão vão fazer o melhor vinho verde  branco, Nita, DOC,  de 2026.

Retomei hoje o trabalho. Tive de sacrificar alguns nomes que não cabem nesta BD. Ficam para a próxima: Artur Conceição, Fernando Gouveia, José Câmara,  José Casimiro de Carvalho, José Ferreira da Silva, José Marcelino Martins, Vitor Junqueira... Do Carlos Nabeiro não tenh0 foto, e dos anónimos não posso adivinhar quem são (ou eram). Tirando o  Zé Belo, que esse tem "visto Gold"...

Com este poste damos por encerrada esta brincadeira de caserna, até por que o Alberto Branquinho,  o criador da personagem (o tal "básico" que tratava das coisas dos oficiais da companhia, e que trocava os "vês" pelos "bês", sendo uma espécie de "ordenança adhoc"),
 também acha que já tem protagonismo a mais no nosso blogue.

Mas antes de "partirmos para outra" (que o blogue é um carrossel de empções e memórias), convém que fique claro o seguinte: A reprodução fonética da troca do "vê" pelo "bê" ("bocemessê", "inbenções", "labadeira", "cerbeijas", ") e o uso de termos típicos da linguagem popular e do Norte ("gaija", "bossemessê", "prái") não servem aqui para gozar com a iliteracia, ou o sotque nortenho-.  Pelo contrário: conferem uma autenticidade humana e geográfica imediata.

A Guerra Colonial colocou lado a lado no mesmo espaço físico e na mesma ansiedade rapazes de Viana do Castelo, de Ovar, do Porto, de Aveiro, da Nazaré, de Bragança, da Covilhã, de Beja, de Faro, de  Lisboa, das ilhas..., mas também do ultramar (de Cabo Verde a Macau).  

Ao "ler" aquele sotaque, cada comentador "ouviu" instantaneamente na sua cabeça o seu próprio camarada de armas, o ordenança do seu capitão, o ajudante da cozinha que era básico... Não se está, pois, a acincalhar ninguém, nem muito menos reabrir guerras sociolinguísticas entre nortistas e sulistas... Afinal, trocar os "bês" pelos "vês", é natural e foneticamemnte correto, acontece em diversas línguas latinas (e outras) e chama-se... betacismo.

Quanto ao protagonismo, ele é de todos nós, os que todos os dias fazemos pacientemente o blogue, autores, editores, leitores, comentadores, e todos os demais colaboradores permanentes, uns mais ativos do que outros  nesta fase do campeonato, e todos já muito cansados de palmilhar quilómetros e quilómetros,  pela picada da vida fora, e de resto  minada  e armadilhada, desde muito cedo, para a maior parte de nós, que não nascemos em berço de ouro... 

Aos que já partiram e aos que ainda resistem, tiro o meu quico!... É em honra de todos eles, e não apenas dos que aqui estão "representados", que dedico esta BD.
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 7 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28327: Humor de caserna (269 ): A propósito da "Assinatura Ilegível", de Alberto Branquinho... Uma paródia aos "básicos" que, afinal, fomos todos nós, e que mereceu 39 comentários no blogue há 16 anos


Guiné 61/74 - P28336 Foi há... (12): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultarmar - Parte I: O mundo não seria mais como dantes...



Capa da "Vida Mundial Ilustrada, Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, preço avulso, 1$80...A imagem da capa não era das multidões a festejar o fim da guerra e a vitória dos Aiados ("Nações Unidas"), mas a visita... de Salazar ao embaixador de Inglaterra:

"O sr. Presidente do Conselho, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, esteve na Embaixada da Inglaterra, para exprimir ao sr. Embaixador, 'Sir' Campbell, o quanto satisfazia ao seu Governo e aos portugueses a vitória das Nações Unidas"...



1. Salazar e a censura tinham horror às multidões... Jornais do "reviralho" (oposição) como o "Diário de Lisboa" ou a "República" não puderam publicar fotos como estas a seguir, que aparecem no interior da "Vida Mundial Ilustrada" ou do "Mundo Gráfico", com a população de Lisboa a vitoriar os Aliados... Por razões técnicas, mas também devido à censura. 

Os diários tinham 8 páginas, os semanários ilustrados, 24. E o momento político era a visita de Salazar ao embaixador de Inglaterra bem como o seu discurso na Asembleia Nacional (veja-se aqui a primeira página da 3ª edição do "Diário de Lisboa" desse dia histórico).


O 8 de maio de 1945 marca o Dia da Vitória na Europa (V-E Day), data oficial da rendição incondicional da Alemanha Nazi e o fim da Segunda Guerra Mundial no continente europeu. (Alguns de nós estávamos a nascer, e outros já mamavam ou até gatinhavam.)

No Pacífico, o conflito só terminaria formalmente a 2 de setembro de 1945, após a rendição do Japão na sequência do trágico lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima (6 de agosto) e depois Nagasaki (9 de agosto). 

A partir daqui o mundo não seria mais como dantes.

Entretanto, só a 15 de setembro seria restaurada a soberania portuguesa sobre Timor-Leste, ocupada pelos japoneses desde 19 de fevereiro de 1942.



Lisboa > Na  Conde Redondo...


Lisboa > Na Av da Liberdade, junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra... (pág, 15)



Lisboa > s/d > Foto tirada na Conde Beirão ...Excerto da legenda:

(...) "Portugal vibrou de entusiasmo, Lisboa marchou à frente dos mais entusiastas para exprimiro seu júbilo pela vitória dos Aliados na Europa. Por toda a parte a multidão, disciplinada, gritoua  sua alegria. No Conde Redomndo, por exemplo, a certa altura,  o entusiasmo atingiu oi auge que a foto presente revela. Diante das embaixadas, diante das legações, pelas ruas da Baixa, a cidade de todas as condições sociais espalhava-se e comprimia-se porque todas as ruas pareciam pequenas para exprimir o seu entusiasmo" (Fonte: "Vida Mundial Ilustrada", Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, pág. 24). 

 (Com a devida vénia...)


Cauteloso, anónimo,  e com "pinças", o jornalista da "Vida Mundial Ilustrada" remetia o júbilo do povo para uma página interior (pág. 15) que só podia ler quem tivesse comprado o semanário por 1$80 (com a carestia do papel, tinha aumentado 80% desde a data do seu lançamento em meados de 1941) (*)...

Escrevia-se assim naquela época, em estilo gongórico e cheio de subentendidos:

"Acabou a guerra! Todo o mundo aguardava ansioamente esta notícia que devia chegar de um momento para o outro.

"E porque era assim esperada e era certo o fim da guerra, ninguém sonhava que chegasse tão longe a ordeira alegria do povo português, dia-a-dia vivendo a dureza de um conflito que, nem por estar longe, podia ficar estranho à nossa consciência de homens e de europeus.

"Pode-se dizer que não houve ninguém que não empunhasse uma bandeira, que não gritasse a sua alegria, e não dissese como Salazar no seu discurso: 'Ainda bem que acabou a guerra! Ainda bem que sairam vitoriosas as Nações Unidas' " (pág. 15)...


E se tivessem ganho as "potências do Eixo" ? Parte da elite portuguesa da época, política, militar, e até económica e financeira, era germanófila, apesar da "neutralidade" do país... Spínola, com 35 anos, e ainda capitão, era germanófilo, como toda a arma de cavalaria... 

Salazar, por seu turno,  era um político pragmático, mais próximo política e ideologicamente do fascismo de Mussolini do que do nazismo do Hitler... Destestava os americanos e o regime capitalista e demoliberal, leia-se, parlamentar...

2. O fim da Segunda Guerra Mundial (1945) foi vivido de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos territórios ultramarinos e as consequências humanitárias e económicas da guerra. Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época:

Portugal, sob o regime do Estado Novo e a liderança de António de Oliveira Salazar, manteve uma neutralidade oficial durante a guerra, mas com uma postura pragmática que beneficiou economicamente o país.

Salazar justificou a neutralidade como uma defesa do "interesse nacional", afastando-se de alinhamentos ideológicos com o Eixo ou os Aliados ( incluindo a velha aliada Grã-Bretanha).

No entanto, o país vendeu volfrâmio (tungsténio, um mineral estratégico para a indústria bélica) a ambos os lados), gerando lucros recordes no comércio externo, apesar da pobreza (e em muitos casos,  miséria)  da população (mais de metade da população ativa vivia no setor primário).

Um dos mitos que a propaganda do Estado Novo criou foi o da "criação de riqueza", apesar da guerra... Veja o que se diz aqui, sobre esse período, de acordo peritos da Fundaão Manuel dos Santos

1939-1945 Guerra, volfrâmio, más colheitas e duas recessões

(...) "Em 1939 o mundo mergulhava num dos mais amplos e dramáticos conflitos da história da Humanidade. Com as operações militares sobretudo centradas no solo europeu e nos mares do Pacífico, a Segunda Guerra Mundial teve um impacto económico global.

Portugal manteve, desde o início, a neutralidade militar, o que contribuiu para um aparente paradoxo: o país cresceu fortemente durante a Segunda Guerra, com uma expansão do PIB real entre 19% e 30% entre 1940 e 1944, em parte impulsionada pelas exportações de volfrâmio para as potências beligerantes de ambos os lados. A venda deste metal ao exterior permitiu um excedente comercial histórico em 1942.

Mais tarde, em 1944, esta fonte de crescimento económico viria a esgotar-se com o fim das exportações deste minério, imposto ao país por uma forte pressão internacional.

 Este facto coincidiu com a mais longa seca de que há registo em Portugal continental, entre 1943 e 1946. 

É essencialmente do efeito conjugado destes dois choques que nasce a recessão de 1944-45.

O país continuava com uma matriz setorial de forte peso agrícola, sendo as colheitas determinantes para o ciclo económico. (...)


A 8 de maio de 1945, o fim da guerra na Europa foi assinalado na Assembleia Nacional (arremedo de parlamento) e nas ruas. Salazar proferiu um discurso histórico na sessão extraordinária, transmitido por alto-falantes para a multidão em frente ao edifício de São Bento.

O fim da guerra acelerou a contestação ao regime em Portugal. Muitos portugueses interpretaram a vitória aliada como um sinal de que era chegada a hora de acabar com os regimes autoritários na Europa. Surgiram movimentos de oposição como o  Movimento de Unidade Democrática (MUD), formado em outubro de 1945 por republicanos, socialistas e democratas para concorrer às eleições legislativas. 

No entanto, o MUD desistiu de participar nas eleições (novembro de 1945) devido à repressão e à falta de garantias de liberdade, e o regime manteve-se de pé..

3. As celebrações pelo fim da guerra em Portugal e no Ultramar foram ambivalentes. Houve manifestações espontâneas em várias regiões (Algarve, Trás-os-Montes, Lisboa) que misturaram alegria pela paz com protestos contra o regime.

A censura e a polícia política (que vai mudar de nome em 1945)  tentaram reprimir as manifestações. Houve detenções, mas muitos protestos escaparam ao controlo das autoridades.

Há, todavia,  uma distinção importante em relação ao que se passou em Portugal continental e nas colónias. O fim da guerra foi vivido no Ultramar português como uma mistura de alívio, festa, esperança e, sobretudo, expectativas políticas muito diferentes consoante a colónia e os grupos sociais.

Para a Metrópole,  era a vitória dos Aliados e o fim da ameaça militar; para sectores africanos politizados, a derrota do nazismo e do fascismo podia significar outra coisa: a promessa de um novo mundo em que o princípio da autodeterminação também deveria aplicar-se aos povos colonizados.

E há uma ironia histórica extraordinária: Portugal saiu da guerra formalmente neutro e com o império intacto (apesar da tragédia de Timor), mas o mundo que nascia em 1945 era precisamente o mundo que começava a pôr em causa os impérios coloniais. Recorde-se alguns dos primeiros territórios a tornar-se independentes, no pós-guerra (1945-1948):

  • Líbano (22 de novembro de 1943):
  • Indonésia (17 de agosto de 1945);
  • Vietname (2 de setembro de 1945);
  • Síria (17 de abril de 1946);
  • Jordânia (25 de maio de 1946);
  • Filipinas (4 de julho de 1946);
  • Índia e Paquistão (14-15de agosto de 1947);
  • Birmãnia (hoje, Mianmar) (4 de janeiro de 1948);
  • Ceilão (atual Shri Lanka) (4 de fevereiro de 1948).


Há, de facto, uma diferença essencial: o 8 de maio não significava exactamente o mesmo em todo o Ultramar. Nas colónias africanas portuguesas (com exceção de Timor), a guerra tinha sido sobretudo uma guerra à distância: não eram teatros de grandes operações militares, mas sofreram mobilização, restrições económicas, falta de bens, inflação, perturbações comerciais e a presença de tropas expedicionárias. 

Cabo Verde, pela sua posição estratégica, teve ainda uma experiência muito particular, a par dos Açores.

Pesquisa: LG

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28335: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (18): o Alberto Branquinho, o soldado básico e o trocadilho Milo ® /Milho numa pequena obra-prima de humor de caserna



Milo da Nestlé, Portugal
 (com a devida vénia...)
(E passe a publicidade!)
1. A propósito do poste P28325 (*):

(...) " Eu era o soldado básico que tratava das cóisas dos ufissiais da nossa Cumpanhia. Bossemessê num creia em tudo o qum ufissial da nossa Cumpanhia escrébe prái [leia-se: no blogue, LG]

"Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. (...) 

" Mas olhe cus outros ufissiais tamém não eram milhores. Eram cuase todos das ilhas. Esses nunca os bi aí do seu computador.

"Um  [deles] um dia disse que cando chegasse da operação queria 
um copo de leite cum milho. Sabe lá bossemessê o queu passei prá arranjar o milho no quartel e quêle ficasse molinho pra pôr dentro do leite. Despois chateou-se comigo cu quêle queria era o leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada MILO." (...) (*)

A fala,"nortenha", do "ordenança" dos oficiais de uma companhia no mato (ou seja, a do Alberto Branquinho ou de um seu "alter ego", da CART 1689 / BART 1913, 1967/69; a mesma subunidade do José Ferreira da Silva, mas esse não devia ter "ordenança", proque era furriel de operações especiais , é um "tratado" de humor de caserna. 

Esse trocadilho "Milho / Milo", como recurso literário, é de antologia, para não dizer mesmo... "genial". Nunca me ocorreria, a mim, porque há séculos que não lia ou não via uma referência a esta bebida. Nem eu gosto sequer deste tipo de bebidas.

Milo ® era (e ainda é) uma marca de leite achocolatado que, no nosso tempo,  fazia as delícias da pequenada ao pequeno-almoço. Falamos, naturalmente, daqueles que se podiam dar ao luxo de tomar um saudável pequeno-almoço, com direito a leite e derivados do leite. 

O Milo ® é uma marca registada da Nestlé, o gigante da indústria de alimentos e bebidas,  de origem suíça. Lançado em 1934, na Austrália,  o 
Milo ® surgiu em Portugal no final dos anos 50, saiu do mercado  no início dos anos 90, e foi de novo relançado, em 2013, segundo leio na página da empresa.

(...) Após vinte anos de ausência e muitas centenas de pedidos de consumidores, Milo ® está de volta! Em Portugal, Milo ® saiu de comercialização no início dos anos 90, deixando uma geração de consumidores saudosos por voltar a provar o característico sabor de Milo®. Milo ® tem um sabor único e alto valor nutricional, graças à sua composição de malte, cacau e leite. É igualmente fonte de Cálcio e Fósforo e Vitaminas C e do complexo B, sendo assim a bebida ideal para fornecer energia logo ao acordar e preparar os jovens atletas para a prática de uma atividade física mais intensa. (...)

Quando chegou à mesa dos portugueses ainda não era para todos. Estamos a falar dos anos 50/60/70 do século passado: beber "Milo" (ou outros produtos da Nestlé) ainda era um pequeno luxo...

Essa pequena confusão entre o (i) "milho" (o cereal com que se fazia, no Norte,  o pão de milho, misturado com o centeio;  mas também com que se faziam as "papas de milho", muitas vezes sob a forma de"carolo", produto obtido pela moagem grossa ou incompleta do grão de milho, e que era, com as batatas e as couves, a  comida de sustento do meio rural de onde vinha o soldado básico);  e (ii) o "Milo" (o produto sofisticado da Nestlé,  que ia à mesa urbana do oficial do exército português, miliciano ou do quadro permanente) condensa, numa pequena palavra, as profundas diferenças da época, no plano económico, social e cultural.

(i) Uma "radiografia social" do Portugal dos anos 60 numa lata, de rótulo verde

O "Milo" nos anos 60/70 do século passado não era, de facto,  para todos. Era  símbolo de uma certa  modernidade e de um certo estatuto social, associado à emergente classe média /média-alta,  urbana,  que já podia dar aos filhos um produto industrializado da Nestlé ao pequeno-almoço. Mesmo assim, com peso, conta e medida.

Quando o oficial  (miliciano, um jovem com frequência universitário ou com o liceu concluído ou equivalente,   de origem em geral citadina) ordena ao seu "ordenança" que lhe sirva um copo de   "Milo", ao chegar do mato,   está a projetar no duro cenário da Guiné um hábito de conforto da sua vida civil. 

Para o soldado básico (geralmente de origem rural,  analfabeto ou com a instrução primária incompleta), a palavra "Milo" pura e  simplesmente não existia  no seu limitado léxico rural ou suburbano.  Não era coisa que chegasse à "venda" na aldeia ou da vilória do interior, que também funcionava como tasca... A única coisa que foneticamente fazia sentido na sua cabeça era o milho, o milho do pão, com mistura de centeio,   cozido no forno a lenha ou as papas de farinha de milho, feitas com água e um niquinho de azeite.

Estamos a imaginar a cena do pobre soldado  a andar,  no quartel, feito doido, à procura de farinha de milho  e depois pô-la  "molinha" (sic) dentro do copo de leite quente... quando afinal o  oficial  o que queria era um  copo de "leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada Milo" (!)...


(ii) Os pequenos luxos da manutenção militar

Nos quartéis do mato,  nas cantinas militares, nas messes de oficiais e sargentos, as latas de  Milo ® não eram sequer um artigo corrente... Eu não me lembro dessas latas com rótulo verde. Quando muito havia leite esterilizado, leite condensado, leite achocolatado de marca branca, em lata ou em garrafa de vidro... Não creio que a Manutenção Militar disponibilizasse, no ultramar, latas de Milo ®.

Mas poderiam eventualmente ser mandadas pelas famílias, pelo SPM, a par dos chouriços, salpicões, postas de bacalhau, etc., pequenas "guloseimas" que ajudavam a criar uma ligação afetiva à metrópole, e a matar saudades de casa e que funcionavam como  um verdadeiro "miminho", para a alma e para o estômago dos "expedicionários".

O mal-entendido ("Milo / milho") mostra bem como o stresse do quotidiano no mato  se podia manifestar no "upstairs" e no "downstairs" de um quartel: (i) o oficial,  saudoso do seu conforto de casa para espairecer a cabeça e aconchegar o estômago, depois de uma operação no mato;  e (ii) o "ordenança",  empenhado em fazer as vontadinhas ou caprichos  do "seu" oficial, mas completamente perdido na tradução de dois mundos  sociolinguísticos que a tropa e a guerra tinha juntado à força...na "colónia de desterro" da Guiné.


(iii) Mitologia & publicidade

O nome da leite achocolatado da Nestlé, da marca  Milo ®,  deriva,  ao que parece, do lendário Milo de Crotona (séc. VI a. C.), o mais célebre atleta da antiguidade clássica, famoso pela sua força sobre-humana (e que teve um fim trágico). 

A ironia histórica da origem do nome do produto  contrapõe-se deliciosamente à soçlidão e à fragilidade, psicológica,  dos oficiais do exército português na guerra de África / guerra colonial, que não podiam dispensar o seu bom uísque, a sua água de Perrier, o seu gin tónico, à tarde e à noite,  ou o seu energético Milo ® pela manhã.

O "pó" tónico e vitamínico  que devia dar a "força de Milo" ao oficial acabava apenas por gerar uma birra de caserna por causa de uma tigela de papas de milho (ou de "carolo") com leite!

É por coisas como esta que o texto do Alberto Branquinho é tão divertido (e tão rico, literariamente falando): sob o aparente  humor fácil da paródia ao sotaque nortenho do soldado básico que trocava os "vês" pelos "bês", há também uma subtil atenção à história social, ao consumo da época e à linguajar dos homens que combateram no TO da Guiné. E nisso o Branquinho é mestre, sem ser panfletário. (**)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 6 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28325: Humor de caserna (268): Afinal, tão básicos que nós éramos... (Alberto Branquinho)

(**) Último poste da série > 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)

Guiné 61/74 - P28334: Convívios (1074): 114.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 25 de Setembro de 2026, com concentração, às 12 horas, na Quinta do Paul, Ortigosa


Vd. post da Tabanca do Centro de 8 de setembro de 2026 > P1605: NOVO CONVÍVIO A CAMINHO
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Nota do editor

Último post da série de 2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28315: Convívios (1073): Regressámos - Aviso da Tabanca do Centro que anuncia também o próximo convívio para o dia 25 de Setembro

Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É da maior conveniência fazermos uma recapitulação de tudo o que até agora se tem passado nesta narrativa do Capitão Henri Brosselard, que chefia a comissão francesa para a demarcação das fronteiras da Guiné Portuguesa. Estávamos em 1888, ele saiu em janeiro de França e encaminhou-se para a capital da colónia portuguesa. Daqui seguiu para o sul, para o início de uma região chamada Rivières du Sud, esteve nos rios Nuno e Compony ou Cogon; e fez uma longa marcha até Kandiafara, foi aqui que se encontrou com a comissão portuguesa, ambas as comissões deram como definidas as fronteiras entre Ponta Cajet e a região de Kandiafara. Irão seguir depois para Buba. É uma narrativa onde o seu autor muito provavelmente utilizou o seu relatório oficial, os itinerários da viagem estão todos datados, as diferentes atividades de exploração claramente referenciadas; o Capitão Brosselard é observador, esculpe perfis, é exuberante em tudo quanto menciona das paisagens por onde passam, e dá-nos aqui um belo texto sobre a caçada ao elefante e como aqueles paquidermes em fúria destroçam os corpos dos caçadores. Não é demais insistir que o leitor deve retomar o que se publicou no blog sobre a narrativa do chefe da comissão portuguesa, que irá aparecer minuciosamente transcrito em Guiné, Bilhete de Identidade Tomo II.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 11
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que a coluna do Capitão Brosselard já passou pela fronteira do Forreá e do Futa-Djalon, ia a caminho da pequena povoação de Mahmadou-Guini e assistiu à destruição de uma floresta para a transformar em terras de cultivo. O capitão descreve agora o seu encontro com Mahmadou-Guini.

Mahmadou-Guini veio visitar-me. Este Fula apresenta-se com à-vontade e dignidade. É um negro grande e belo; de largas espáduas, parece estar dotado de um vigor fora do comum, o seu rosto transparece ousadia, tem marca de pertencer a uma raça superior. Na sua conversa, ele testemunha a sua devoção a Mody-Yaya. Em 1886 ele terá prestado grande ajuda ao seu soberano nas lutas que precederam o assassinato do rei do Forreá. Atualmente Mahmadou-Guini contenta-se a fornecer marfim ao rei de Kadé de quem recebe escravos dos dois sexos.

Durante a nossa estadia em Koumataly vi gente de Mahmadou-Guini que regressando a casa devem ter percorrido as florestas ribeirinhas do rio Grande à procura de sinais da passagem de elefantes. Manifestei interesse, se acaso se proporcionasse, de assistir à caça desses grandes animais e acordou-se que eu esperaria a chegada da coluna para nos lançarmos sobre as pistas dos elefantes, se tivéssemos a felicidade de os encontrar.

Alguns dias depois, estes pisteiros chegaram à povoação do seu senhor, anunciando que tinham encontrado a alguns quilómetros indícios muito recentes de um jovem elefante e que não tinham visto nenhum outro nas proximidades; era de supor que todos os da manada tinham atravessado a margem direita do rio Koliba (Koliba em francês, Corubal em português). A experiência indicava aos caçadores que o animal assinalado não ficaria muito tempo sozinho na margem esquerda. Era necessário apressarmo-nos sobre estes vestígios se não se queria perder a oportunidade, não se podia esperar a chegada dos brancos.

Oito caçadores partiram na pista do jovem elefante, bem abastecidos de pólvora e de balas, estavam armados de grandes fuzis que se podem encher de pólvora e de projéteis até à boca do cano. Os caçadores rapidamente reconheceram os indícios identificados pelos pisteiros. Quase nus, para poderem deslizar como répteis através das lianas e silvas, percorreram rapidamente muitos quilómetros e subitamente desembocaram numa clareira; o elefante estava lá, mas era apenas um adolescente e admirámo-nos dos seus companheiros estarem separados dele. Não havia tempo a perder, o jovem elefante deu conta da presença dos caçadores e persentindo um perigo procurou uma saída no matagal. Não havia tempo a perder, era preciso aproveitar deste seu embaraço no meio das lianas para o impedir da fuga rápida, e uma bala atingiu-o quando ele fazia um supremo esforço para abrir caminho. Gravemente ferido, o animal gritou de dor, os seus gritos ecoaram pela floresta. Os caçadores ficaram fora da clareira, na previsão de uma atitude ofensiva do jovem elefante. De repente ouviram-se outros gritos da manada respondendo aos do jovem elefante. Instintivamente os caçadores compreenderam o perigo que os ameaçava, os outros elefantes não estavam longe. Rapidamente os caçadores abandonaram a sua vítima que estava agonizante, e procuraram fugir através da floresta, corriam como loucos, atrás deles estalavam as lianas arrancadas e árvores quebradas, os monstros ganhavam rapidamente terreno.

Para desgraça dos caçadores, esbarraram num mato espinhoso e ficaram bloqueados. Feridos pelos espinhos, com o sangue a escorrer das feridas, não podiam recuar e cinco elefantes avançaram para eles. A fuga era impossível, urgia enfrentar o inimigo e defenderem-se com as armas. A uma boa distância, atiraram-se oito tiros a sangue-frio, todos acertaram, mas o adversário não parava, pelo contrário, precipitaram-se com cada vez mais fúria sobre os Fulas, sete deles foram apanhados pelos elefantes que os tomaram com a tromba e atiraram-nos ao chão ou quebraram-nos contra as árvores. Só um conseguiu escapar, fugiu enlouquecido até ao povoado, aqui os indígenas ficaram horrorizados com o que ele contou: só Mahmadou-Guini não parecia nada perturbado, incitou os mais bravos a segui-lo, todos os homens válidos correram para o lugar da carnificina. Os sete cadáveres que jaziam no chão estavam horrivelmente mutilados e de tal modo desfigurados que só puderam ser reconhecidos pelos familiares, identificados pelos amuletos e vestuário ainda presos aos pedaços de carne.

Mais longe viu-se um dos cinco elefantes, estava ferido, não se podia mexer, foi morto. Enfim, chega-se à clareira onde o jovem elefante fora a causa do acidente, estava sentado sobre o flanco, agonizando, foi morto à catanada.

Durante a nossa estadia ao pé de Mahmadou-Guini uma manhã informaram-me que estava a chegar um Fula que vinha pelo caminho de Dandum. Este homem, vestido de modo ridículo e bizarro, chamou a nossa atenção, os calções cor de cereja e um casaco castanho-esverdeado, trazendo à cabeça um embrulho volumoso e conduzindo pela mão um carneiro com bom tamanho. Passa à frente da habitação onde os oficiais tomam as refeições e apercebendo-se dos negros que comem cuscuz ao pé de uma casa vizinha, dirige-se para ali, senta-se entre os convivas, come e bebe sem ter previamente proferido uma palavra nem dirigindo a palavra a quem ali estava.

Uma vez saciado começa a conversar e cumprimenta todos os presentes, informa-os da finalidade da sua viagem. Parece que esta maneira de proceder é habitual no Futa-Djalon. Este homem era um servidor de Mody-Yaya, dirigia-se a Bolama para oferecer ao governador da Guiné Portuguesa, da parte do rei de Kadé, um dente de elefante quadrado, no volumoso embrulho que transportava à cabeça. Os dois comissários fizeram um reconhecimento do Koliba, eram acompanhados por uma escolta de carregadores, atiradores e soldados portugueses. Não há qualquer caminho para chegar ao rio, caminha-se como se pode através do mato, o capim alto torna por vezes a marcha tão difícil que é necessário deitar-lhe fogo para abrir caminho.

A quinhentos metros do rio, a vegetação toma uma dimensão imponente, é uma verdadeira floresta virgem quase impenetrável, que impede o acesso às margens. Os negros cortam a vegetação com as catanas e os machados, é a única maneira de fazer uma passagem. Chega-se enfim às margens do rio. As roupas estão em farrapos, as mãos feridas, os rostos desfigurados. As imensas árvores em forma de chapéu de sol estão ligadas por uma inextrincável rede de lianas que suspendem e entrecruzam lá nas alturas. Bandos de macacos mandris marcham em filas intermináveis sobre as lianas suspensas no espaço; lançam-se muitas vezes no topo das árvores da extremidade de um ramo para o outro, alguns deixam-se cair, agarram-se a um ramo ou mesmo a uma simples extremidade da folhagem, e lançam-se no vazio. Eles tomam certamente os viajantes por camaradas; não parecem minimamente emocionados pela nossa passagem.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta antiga de África e das ilhas de Cabo Verde, Sanson, cerca de 1680
Bijagós e um morro de bagabaga, desenho de Sirouy, segundo uma fotografia comunicada por Charles Brongniart
Escala de Foundiougne, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Posto de Kawlakh, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)