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domingo, 26 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28214: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (55): Mafé e Baguitch (Henk Heggens, médico neerlandês, especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, Fulacunda e Bissau, 1980/84)














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Fotos: Henk Eggens (2025)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Texto enviado para publicação no nosso blogue por Henk Eggens, médico neerlandês, especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública):


Data - sábado, 25/07, 11:19 (há 1 dia)
Assunto - Mafé e baguitch

Olá, Luís,

Gostei da história sobre as riquezas culinárias da Guiné (*). Deixou-me com água na boca e trouxe-me boas recordações. Achei, no entanto, que faltavam dois pratos emblemáticos da gastronomia guineense: a mafé e a baguitch.

Consultei o meu amigo Steven, que viveu muitos anos na Guiné, e recorri também à IA. Com base nisso, escrevi o texto em anexo, para tua apreciação e eventual publicação como comentário ao artigo referido.

Bom fim de semana!

Henk



Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Fulacunda > 1980 > "Casa do médico, Land Rover do projeto, mota da noiva e carro 404 privado".

Foto: (e legenda) © Henk Eggens (2024). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: LG/HE]



Foto nº 2 

2.  O meu amigo
Henk Eggens  (ainda não nos conhecemos pessoalmente, ao vivo e a cores...) é:

(i)  neerlandês, médico especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública), cidadão do mundo;

(ii) já percorreu os quatro continentes como cooperante em saúde;

(iii) esteve 4 anos na Guiné-Bissau (incluindo dois anos em Fulacunda) (Fotos nº 1 e 2) (1980/84);

(iv) antes tinha estado em Cabinda, Angola (1976/78); também trabalhou na Indonésia;

(v) fala e escreve o português e o crioul0 guineense;

(vi) está reformado (Foto nº 3);

Foto nº 3

(vii) é um apaixonado por Portugal, a Guiné-Bissau, Angola, a lusofonia...

(vii) vive em Portugal,  em Santa Comba Dão;

(viii) a sua companheira é luso-brasileira; 

(ix)  administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês,  muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); e onde tem publicado textos do nosso blogue, com a devida autorização dos autores e editores;

(x) tem 10 referências no nosso blogue;

 Quero reforçar o meu o convite, endereçado já há tempos,  para, de pleno direito, ele  passar a integrar a Tabanca Grande, como amigo da Guiné...  


Não foi combatente, em nenhum conflito armado, felizmente para ele, mas dedicou pelo menos aseis  anos da sua vida a dois povos lusófonos,  guineense e angolano, e numa época particularmente difícil. 

O facto de manter um sítio como  Portugal Portal vem reforçar ainda mais a ideia de que ele é um mediador cultural. Há pessoas que passam por um país, muitas com chorudos vistos Gold; outras criam pontes entre países. O Henk pertence claramente ao segundo grupo. Traduz, divulga, aproxima culturas e ainda leva textos do nosso blogue a leitores neerlandeses e portugueses emigrados na sua terra. É uma forma discreta, mas muito eficaz, de diplomacia cultural.

Naturalmente, que a sua presença, à sombra do nosso poilão,  só pode honrar-nos e enriquecer  o nosso blogue e as nossas memórias da Guiné.

Pedi à minha menina IA do ChatGPT para lhe fazer uma BD: não é uma biografia, mas uma pequena narrativa gastronómica e humana; e o estilo gráfico é o habitual, de que eu mais gosto, e que  temos vindo a apurar, a linha clara franco-belga. Esta BD não será apenas sobre o mafé ou o baguitch, será sobre algo muito mais importante,  a capacidade que um prato de comida tem de criar laços duradouros entre pessoas de países diferentes. Como acontece com o nosso bacalhau ou com as nossas sardinhas assadas...
 
O Henk (não o vou tratar cerimoniodsamente por dr. Eggens), merece esta homenagem. Não apenas por ter sido cooperante, mas porque faz parte daquele grupo discreto de estrangeiros que ajudaram a criar pontes entre Portugal, a Guiné-Bissau e o resto do mundo. A presença dele na Tabanca Grande será inteiramente natural e vem enriquecer a ainda esta comunidade de memória, amizade e afetos. Espero que ele aceite, formalmente,. este meu/nosso convite.


Mafé e baguitch: mais dois sabores da Guiné

por Henk Eggens

Mafé

O mafé é, provavelmente, o prato mais viajado da cozinha da África Ocidental. As suas raízes
mergulham no Mali, onde os povos mandinga e bambara o preparavam sob o nome
de domodah ou tigadegena,  literalmente, "molho de amendoim".

Foi durante o período colonial, quando a produção de amendoim foi fortemente incentivada em toda a região, que o prato se espalhou para o Senegal, a Gâmbia e, mais a sul, para a Guiné e a Guiné-Bissau, ganhando em cada país uma variante própria.

A base do mafé é sempre a mesma: um creme espesso de amendoim moído ou manteiga de
amendoim, engrossado com tomate e cebola refogados, por vezes com um fio de óleo de palma.

A esta base junta-se carne  (vaca, borrego ou frango) ou peixe, deixados a apurar lentamente
até a carne se soltar e o molho ganhar aquela textura aveludada e ligeiramente adocicada que
caracteriza o prato. Legumes como cenoura, couve, batata-doce ou mandioca são frequentemente cozidos no mesmo tacho, absorvendo o sabor amendoado do molho. 

Serve-se, invariavelmente, com arroz branco, que recolhe o molho como só o arroz sabe fazer.

Na Guiné-Bissau, o termo "mafé" tem um sentido mais lato: designa, de forma genérica, os
molhos e caldos que acompanham a bianda (o arroz cozido que é a base da alimentação),
preparados com peixe, marisco, frango ou carne. 

Mas quando um guineense pensa especificamente no primo do mafé senegalês, pensa no Caldo de Mancarra, o caldo de amendoim que é um dos pratos mais típicos e queridos do país: frango ou peixe estufado lentamente num molho cremoso de amendoim, tomate e limão, com a malagueta sempre por perto para dar aquele toque de fogo que a cozinha guineense tanto aprecia.


Baguitch

Se o mafé é conforto num prato, o baguitch é a assinatura verde da mesa guineense. Prepara-se a partir das folhas da hibisco-azedo, Hibiscus sabdariffa, uma planta arbustiva que cresce por quase toda a África Ocidental e que na Guiné-Bissau é conhecida por baguiche ou baguitchi (noutras paragens lusófonas chama-se-lhe vinagreira, e em inglês, roselle; no Senegal vizinho, é a planta do famoso bissap, a bebida de hibisco que ali se bebe gelada.

A preparação do baguitch é simples e ao mesmo tempo trabalhosa. As folhas frescas são primeiro cozidas em água, depois escorridas,. guardando-se muitas vezes essa água, rica em sabor, para usar como base de outros pratos, e batidas à mão com um garfo até se transformarem numa pasta homogénea, quase cremosa. 

É comum juntar-se-lhe um ou dois quiabos já cozidos, que ajudam a engrossar ainda mais a mistura e lhe dão aquela textura ligeiramente viscosa tão característica dos molhos da região. O resultado é um acompanhamento de sabor ácido e terroso, muito distinto do doce do mafé, que se serve tradicionalmente ao lado do arroz branco, do frango grelhado nas brasas e de um pouco de malagueta bem pilada.

(Revisão / frixação de texto: LG)

__________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 25 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28210: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (54): o caldo de chabéu é acompanhado com arroz, que é o rei à mesa; o funge é um prato angolano, lembra-nos o Cherno Baldé

Guiné 61/74 - P28213: Em bom português no sentendemos (33 ): a palavra "mafé", usada na culinária da Guiné-Bissau (crioulo, que vem do mandinga "mafen"): o velho pescador sai na sua canoa "à procura de mafé" (=acompanhamento da bianda, que pode ser peixe,marisco ou carne)

 


Excerto do "O Nosso Livro:  1ª Classe",  ediado pelo PAIGC (1970), "A Pesca",  pág. 34


1. O que dizer aqui, neste contexto, o termo "mafé" ? 

O velho Ali, de manhã cedinho, vai na sua canoa pescar nos "pequenos rios" que levam as suas águas ao rio Cacine (afluentes). 

"Ele sai à procura de mafé para os seus valentes filhos — os guerrilheiros." (Negritos nossos).

À primeira vista, para um leitor português, "mafé" faz pensar imediatamente no conhecido prato da África Ocidental (o mafé do Senegal ou do Mali, um guisado com molho de manteiga de  amendoim, "o caldo de mancarra", hoje também um dos pratos típicos da gastronomia da Guiné-Bissau). 

Mas não é esse o significado aqui. Neste contexto, "mafé" parece ser usado no sentido de "mantimentos para comer", "alimento", "comida", "conduto"... E mais concretamente peixe,  destinado a alimentar os guerrilheiros do PAIGC. 

O rio Cacine e os seus afluentes eram ricos em peixe,como eu próprio pude comprovar em 2008, quando voltei à Guiné, e mais concretamente ao Cantanhez.

Vejamos: o  título da lição é "A pesca"; toda ela descreve Ali a ir à pesca; o objetivo da pesca é abastecer os guerrilheiros. A frase "à procura de mafé" só pode, pois,  ser tomada como sinónimo de "à procura de alimento". 

Na segunda parte, descreve-se a sua bravura: ele não medo dos "jacarés" (leia-se: crocodilos, não há jacarés em África...) nem dos "colonialistas", com os seus canhores e aviões. Tem uma missão a cumprir, o que faz com orgulho.

O vocábulo "mafé" vem do crioulo, que por sua vez deriva de "mafen", uma palavra da língua mandinga.  Era usado no crioulo da época com o significado genérico de "comida" ou "conduto", e não apenas de "caldo de mancarra".  

Os manuais escolares do PAIGC recorriam frequentemente a vocabulário crioulo ou africanizado, mesmo quando o resto do texto era em português.

Há, porém, uma hipótese ainda mais interessante. Na Guiné-Bissau, hoje, "mafé"  designa genericamente  "conduto" que acompanha o arroz, isto é, o caldo de peixe,  galinha, de carne de caça, de marisco, de legumes,etc.,  que acompanha o arroz  ("caldo de mancarra" e outros pratos)

Nesse caso, a frase ganha uma precisão etnográfica muito bonita:

"Ele sai à procura de mafé" = "ele sai à procura do peixe que servirá de acompanhamento ao arroz/bianda  dos guerrilheiros."

Isto faz todo o sentido, porque o arroz era (e continua a ser) a base da alimentação guineense, sendo o peixe (mas também o marisco, a carne de frango, ou de caça, etc.) o respetivo mafé, isto é, o acompanhamento sob a forma de caldo.

Aliás, era nesse sentido que eu entendia o termo "mafé", usado pelos meus soldados fulas da CCAÇ 12, em 1969/71, em Bambadinca: hoje "ca tem mafé na bianda" (hoje é arroz com arroz, sem conduto).

Portanto, podemos grafar o termo com este significado: " Ele sai à procura de mafé (peixe para alimentação, o acompanhamento do arroz) para os seus valentes filhos, os guerrilheiros."

Logo, há que acrescentar aos dicionários de português: Mafé, substantivo de dois géneros ou só masculino (?): 1. [Guiné-Bissau] [Culinária] Molho ou caldo, geralmente feito de carne, peixe ou marisco (ex.: o mafé serve de acompanhamento à bianda); 2. Acompanhamento do arroz ("bianda"), geralmente peixe ou carne; por extensão, alimento, conduto.


2. Significado de mafé como vem grafado nos dicionários de português:

2.1. Priberam - Dicionário da Língua Portuguesa:

Mafé (lê-se: (maˈfɛ)
substantivo de dois géneros
[Guiné-Bissau] [Culinária] Molho ou caldo, geralmente feito de carne, peixe ou marisco (ex.: o mafé serve de acompanhamento à bianda).

2.2. Infopédia - Dicionários Porto Editora

Mafé (lè-se: maˈfɛ)
nome masculino
Guiné.Bissau | Culinária | Prato tradicional à base de carne ou de peixe cozido num molho de manteiga (de amendoim, na época colonial).

Etimologia: Do crioulo guineense mafé, do mandinga mafen.


Vd. tambéem >Wikipedia > Mafê



Capa de "O Nosso Livro: 1ª Classe... Exemplar capturado pelo nosso camarada Manuel Maia no Cantanhez, possivelmente em finais de 1972 ou princípios de 1973 (Op Grande Empresa).

 Vê-se que esse exemplar teve muito uso. A capa teve de ser reforçada com uns improvisados adesivos (aparentemente autocolantes, que acompanhavam embalagens de apoio humanitário, vindas do exterior). Sabe-se que foram feitos, na Suécia, 20 mil exemplares deste livro, em edição de 1970.

"Neste mesmo dia apanhei ainda duas cartas, uma escrita em árabe e outra em crioulo", diz.nos o nosso camarada Manuel Maia, ex-fur mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine (1972/74).

Sabemos que primeira edição de O Nosso Livro: 1.ª Classe foi publicada em 1970, em Uppsala, Suécia (e não em 1964,  como já temos lido). Há alguma confusão bibliográfica porque o projeto pedagógico do PAIGC começou em 1964, mas o manual com esta capa e este título pertence à edição de 1970.

A confusão resulta de haver dois livros diferentes:

(i) 1964 > O Nosso Primeiro Livro de Leitura: é o primeiro manual de alfabetização elaborado pelo PAIGC; preparado na Escola Piloto de Conacri, sob coordenação pedagógica de Lilica Boal; o manuscrito foi terminado em 1964 e inicialmente impresso com apoio internacional (há fontes que referem a RDA; outras indicam que a impressão passou depois para a Suécia).

(ii) 1970 > O Nosso Livro: 1.ª Classe: edição revista e ampliada; impressa em Uppsala (Suécia); é esta a edição cuja capa apresentamos em cima ("Nosso Livro: 1.ª Classe", menino junto ao quadro, "Amo a minha Terra", "3+2=5", assinatura "P.A.I.G.C.").

Quanto ao exemplar do Manuel Maia, tudo indica que é precisamente um desses exemplares da edição de 1970. O facto de ter sido capturado no Cantanhez em finais de 1972 ou princípios de 1973, na sequência da ocupação do Cantanhez,  encaixa perfeitamente: nessa altura o manual estava já amplamente distribuído nas escolas das  chamadas "zonas libertadas".

O número de 20 mil exemplares para a primeira edição sueca é referido em diversos estudos sobre o sistema educativo do PAIGC e é perfeitamente plausível, tendo em conta o financiamento sueco e a expansão da rede escolar nas zonas libertadas. A Suécia foi, de longe, o principal parceiro do PAIGC na produção de material escolar.

Há muita informação contraditória sobre estes manuais do PAIGC.

Um pequeno pormenor interessante da capa: a frase "Amo a minha Terra" sintetiza bem a filosofia do manual. O ensino da leitura estava intimamente ligado à formação cívica, política e ideológica da população e dos guerrilheiros. As primeiras frases não eram neutras, como nos antigos livros portugueses ("A mãe amassa a massa"), mas procuravam associar desde cedo a alfabetização ao sentimento nacional e à "luta de libertação", prosseguida pelo PAIGC.

Este exemplar é particularmente valioso porque mostra sinais de utilização real: a lombada reforçada com fitas adesivas; os remendos feitos com material de embalagem proveniente da ajuda internacional; o desgaste da capa.

Do ponto de vista da história da educação, estes sinais contam quase tanto como o próprio texto. Revelam que não era um exemplar de arquivo, novinho em folha, ainda a cheirar a tinta, mas um livro efetivamente usado por crianças numa escola do mato (ou pelo próprios guerrilheiros, que andavam a aprender português).

Foto (e legenda): © Manuel Maia (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27994: Em bom português nos entendemos (32): Ainda a papaia e o mamão: são da mesma espécie botànica, frutos da Carica papaya, ...mas de variedades diferentes

sábado, 25 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28212: Os nossos seres, saberes e lazeres (742): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se põe termo a uma inesquecível estadia na Albânia, visitei relíquias da ditadura, prodígios da nova arquitetura, lagos deslumbrantes, a permanência das florestas declivadas dos ermos das montanhas, impressionantes mesquitas e igrejas, num país que prima pela tolerância religiosa; falando da arquitetura, guardo a imagem das residências otomanas de Gjirokastër, as esculturas do realismo socialista. E pude igualmente aperceber-me que este país até há tão pouco tempo quase inacessível, está agora na mira dos potentados da promoção turística hoteleira, a Albânia corre o risco de se encher de Torremolinos e Las Palmas, sacrificando lagunas, praias selvagens, ambientes aprazíveis, florestas impressionantes. Quero voltar, os Alpes dos albaneses são uma tentação. Resta saber se ainda tenho pernas para tanta caminhada.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava-me uma maravilhosa igreja ortodoxa, como aqui se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade. Foi uma visita de dois dias, bem arrependido fiquei por aqui ter estacionado tão pouco tempo. Mais uma razão de fundo para aqui voltar e ver o que já foi visto com os mesmos olhos deslumbrados.

Segue-se a penúltima viagem, Sarandë, mas com os olhos postos no Parque Nacional de Butrint, no seu interior há ruínas fortificadas de tal importância que levaram a UNESCO a consagrá-la como Património da Humanidade. De facto, este local, de acordo com os vestígios e documentos conhecidos, foi ocupado desde 50.000 a.C., por aqui passaram gregos, romanos, bizantinos, venezianos e otomanos, encontramos indícios da sua presença nestas ruínas, caso do bem conservado anfiteatro grego, os banhos romanos, as igrejas bizantinas e as torres venezianas, isto para já não falar das poderosas muralhas helenísticas ou no teatro românico de Esculápio, santuário de peregrinação. Butrint teve um aqueduto feito pelos gregos, abandonado no princípio da Idade Média e reconstruído pelos bizantinos aí por 800 d.C. há também vestígios da adição otomana, uma fortaleza junto do antigo canal, obra do início do século XIX. Ou seja, escolheu-se Sarandë pelos magníficos panoramas que oferece na sua citação no mar Jónico, ali perto há uma praia famosa, Ksamil, situada entre Sarandë e Butrint, mas eram as ruínas de Butrint que me tinham trazido ao extremo sul da Albânia.

Entrada da área de devoções a Esculápio, o famosíssimo médico da Antiguidade
Júlio César mandou construir uma colónia em Butrint no século I a.C., introduziu-se mudanças radicais nas infraestruturas. Construiu-se um fórum onde no passado os gregos tinham a sua praça de comércio, a norte do fórum foram construídos três santuários. As ruínas do Fórum foram descobertas em 2005, o destaque vaia para o pavimento admirável que mede 20x52 metros e é datado de 2000 a.C.
O Batistério de Butrint é um dos mais importantes monumentos bizantinos do Mediterrâneo central. A sua complexa estrutura coloca-o ao lado dos grandes batistérios independentes da Itália da Antiguidade Tardia e da Idade Média, e o seu extraordinário pavimento em mosaico é o mais bem preservado e, de longe, o mais elaborado de todos eles. O desenho do pavimento é constituído por sete faixas que circundam a pia batismal central, num total de oito, o número cristão que representa a salvação e a eternidade. A salvação é um dos principais temas do mosaico, expressa como a água do batismo e a água da vida. Os mosaicos bizantinos estão cobertos por medida de segurança, não podem ser sujeitos a agressões ambientais.
Ruínas da Igreja cristã
Duas imagens da zona fortificada, as muralhas são impressionantes, aquele touro esculpido na parte superior da entrada não escapou à câmara de todos os turistas
Pormenor da Fonte de Junia Rufina, uma fonte romana do século I/II d.C. dedicada às ninfas, virá mais tarde a ser capela
Um aspeto de Sarandë e a sua marginal. É desmesurado o efeito da carga urbanística na orla marítima, são muralhas de edifícios uns atrás dos outros, ao arrepio das medidas de sustentabilidade. Aliás, os noticiários falam de grandes manifestações de protesto a construções que irão deformar a paisagem, a fauna e as áreas protegidas. Quando os grandes investidores descobriram esta nova pérola do Mediterrâneo, logo se fascinaram pela possibilidade de açabarcarem áreas protegidas, extremamente belas e selvagens, finalmente as populações estão a reagir. Só que a explosão turística é um dos motores do desenvolvimento albanês, uma nação que pretende a todo o custo entrar na União Europeia. Não será por acaso que todos os edifícios ministeriais ostentam a bandeira do país e a da União Europeia.
Não acreditei no que estava a ver, um hotel, restaurante e bar implantado sobre o rochedo, e este cheio de vida, erguendo vegetação para os céus, isto em Sarandë.
Numa das ruas da cidade encontrei o museu arqueológico, pequeno, mas com a singularidade de nos mostrar partes significativas de um mosaico bizantino.
Turista é turista, a marginal de Sarandë está cheia de convites como este, convidando a passeios a grutas, praias secretas, baías recônditas, deslumbramentos da água turquesa. Lá fui ao passeio, de facto tudo é fascinante, mas para meu gosto nada supera a vegetação que cresce e que cresce e cobre aquelas montanhas de pedra batidas pela água do mar.
Encantado por aquele rochedo quase escultórico, despeço-me de Sarandë e viajo para Tirana. Agora só penso em voltar, haja saúde e viajarei para o norte, para ver os altos albaneses, uma decoração selvagem preservada por torrentes tumultuosas de florestas espessas. Espero que venha a acontecer. Até à próxima, Albânia.
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Nota do editor

Último post da série de 18 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28193: Os nossos seres, saberes e lazeres (741): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28211: Agenda cultural (897): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" (ed. autor, 2026, 455 pp., por Recaredo, pseudónimo literário do nosso camarada Angelino Santos Silba, ex-fur mil cmd, 26ª CCmds, Brá, 1970/72)

 







Capa, contracapa e badanas do novo livro do nosso camarada Angelino Santos Silva , publicado sob o pseudómimo literário Recaredo.  Edição de autor, maio de 2026, s/l, 455 pp. 



1. No passado dia 15 de junho, o Angelino Santos Silva mandou-me pelo correio, para a Lourinhã, 2 exemplares do seu novo livro (é o décimo, desde 2008), um romance, um trabalho de grande fôlego (são 455 páginas!). Um dos exemplares é para a Tabanca Grande, com dedicatória ao editor Luís Graça, e outro exemplar para o nosso crítico literário, Mário Beja Santos.


A 13/06/2026, 16:55, eu felicitei-o pela conclusão do trabalho e mandei-lhe a minha direção postal (da Lourinhã, onde habitualmente só estou aos fins-de-semana). 

(...) Fico feliz por saber que "não morreste na praia" e que, tal como o Camões a nado, conseguiste "recuperar o teu manuscrito" e levá-lo a bom termo. neste caso ao prelo. Tenho pena não ter conseguido acompanhar o teu "timing", a tua pedalada... Mas farei com todo o gosto uma ou mais notas de leitura. Manda também um exemplar para o nosso "crítico literário oficial", o Mário Beja Santos, a quem dou conhecimento do feliz acontecimento.

(...) Ajuda-nos também a divulgá-lo, manda-nos: (i) cópia da capa e contracapa; (ii) como e onde adquirir o livro, preço de capa, etc.; (iii) sinopse e alguns excertos: (iii) plano de sessões de apresentação (local e data). (...).

2. O livro só me chegou às mãos quinze dias depois. E, como prometido, iremos fazer oportunamente várias notas de leitura. Infelizmente não consegui acompanhar o "making of" do livro, lê-lo com tempo e vagar e escrever o prefácio que o autor me tinha pedido. Aqui vai um mail que ele me mandou, há mais de 9 meses atrás:

Data - sexta, 3/10/2025 à(s) 12:32):
Assunto - Geração Afro

Bom dia Luís. Fico agradecido pela tua confiança. E prezo-a.

Gostaria, de que - ambos - fizéssemos desta obra, uma Obra de sucesso. Lê o texto com calma, sente-o e, se considerares que te diz algo, também dirá a alguns milhares de camaradas. E talvez valha a pena fazermos um esforço para deixar um trabalho que dignifique e preste homenagem a mais de um milhão de Combatentes. Que, em minha opinião, não tratados com a dignidade que merecemos.

Há cerca de 20 anos, entrei no restaurante Cortiço, em Viseu, para almoçar. Numa mesa ao lado estava uma equipa de reportagem da Antena 1, creio. Não conhecia nenhum dos elementos. Como conversavam, identifiquei - julguei identificar - a voz de João Paulo Dinis, que não conhecia pessoalmente. Mas tinha a sua voz registada na cabeça, ouvida através da rádio na Guiné. Troquei com ele algumas palavras sobre a Guiné, depois de lhe perguntar se era quem eu pensava.

Tenho - temos - muitos camaradas, que gostariam de dar uma opinião para ficar registada no livro. Mas não vou falar a ninguém. Porque são muitos.
 
Porém, gostaria de ter a opinião do JPDinis, registada. Admito, que devido à sua experiência como radialista na Guiné, "observador" de "coisas" que nem todos viram, a sua opinião seriam um acrescento à mensagem que pretendo passar nesta Obra. Se fosse vivo, pediria ao capitão Barbosa Henriques, meu instrutor em Lamego e que fui encontrar na Guiné. Ou ao capitão Jaime Neves, instrutor em Lamego. Infelizmente já não estão entre nós. Ou ao Spínola, que me visitou quando estive internado no Hospital Militar e que mais tarde mandou um helicóptero buscar-me a Gadamael Porto e me colocou no Cumuré para descansar, antes de me vir embora com a 26ª de Comandos.

No livro II falarei de algumas "coisas" mal contadas. Dito de outro modo, contadas no modo "politicamente correcto".

Sinto que podemos deixar um trabalho que marque a diferença e diga aos nossos netos, quem realmente fomos, apesar de ignorados por quem tem o dever oficial, de respeitar o nosso estatuto de Combatentes.

Ligo-te amanhã , sábado, por volta do meio-dia.

Um abraço. Angelino.

PS - Vê se consegues contacto com o camarada da capa.~

3. Recorde-se que o Angelino Santos, ex-fur mil cmd, pertenceu à 26ª CCmds, passou por Bula, Teixeira Pinto e Bissau, em 1970/72, Foi mobilizada pelo CIOE, Lamego, tendo como cmdt o Cap Inf Cmd Alberto Freire de Matos. Embarcou em 25mar70, chegou a Bissau em 31mar70 e regressou a 27dez71. O Angelino é até agora o primeiro e único representante da 26ª CCmds na Tabanca Grande. É natural de Recarei, Paredes.

A sua obra literária (dez títulos, desde 2008) tem-se repartido pelo romance,o conto, a poesia e as memórias. Sobre este último livro (o primeiro de 2 volumes) escreveu ele, em resumo:

Angelino Santos Silva > 27 de junho de 2026  às 21:41 ·

(...) O romance Geração Afro   Os Últimos Guerrilheiros do Império  baseia-se na vida de quatro combatentes da Guerra Colonial Portuguesa em África: os furriéis milicianos Martins da Costa e Morais Cardoso, que em 1966 embarcaram no navio Alfredo da Silva; e o furriel miliciano António Silva e o primeiro-cabo Augusto Sousa, que em 1970 partiram a bordo do navio Niassa.

Ao longo destas páginas, acompanhamos o percurso destes jovens, prestando uma justa homenagem a um milhão de combatentes que, entre 1961 e 1974–1975, tiveram como destino uma das três frentes de guerra: Angola, Guiné e Moçambique.

A narrativa segue também o destino dos combatentes africanos que optaram por lutar sob bandeira portuguesa, representados aqui pelo Grupo Especial de Combate (GEC) do tenente Mamadu Fodé — no qual se incluíam o furriel miliciano Domingos Djaló e o primeiro-cabo Abna Besna — e pelos tenentes João Quinara e Carlos Nhalon e o capitão Ombendi Sábado, todos homens com uma vasta experiência de guerrilha.

(...) Embora os nomes das personagens principais sejam fictícios, as suas vidas foram bem reais, tanto as dos que partiram da Metrópole como as das diferentes etnias da Guiné Portuguesa. É nesse chão sagrado e violento que o romance se desenrola.

Algumas figuras históricas serão mencionadas pelos seus verdadeiros nomes, facilmente reconhecíveis na imprensa nacional e estrangeira da época. Deste modo, prestamos-lhes homenagem, com especial relevo para aqueles que mais de perto conviveram connosco nesta dura vida de combatentes.

Os jovens da GERAÇÃO AFRO que embarcaram levavam com eles um objetivo comum: manter a presença colonial de cinco séculos, iniciada em 1418. E todos partiam imbuídos de um mesmo amor à Pátria, considerando as suas comissões uma causa justa.

Porém, à medida que os vamos ouvindo, intuímos um certo desencanto quanto ao fervor patriótico que os acompanhava no início da viagem — frustrações que começavam a ganhar corpo devido às fracas condições de alojamento nos barcos entre Lisboa e as colónias. Uma vez chegados, deparavam-se com a primeira grande estranheza ao presenciarem, logo no cais, jovens africanos empunhando armas ao serviço da nossa causa. Um facto que, ainda assim, amenizava o desencanto de uma viagem sem conforto.

Ao partilharmos o dia a dia com estes camaradas africanos, percebemos que a sua causa não era exatamente a mesma da nossa, que tínhamos embarcado na Metrópole. Com o andar do tempo compreendemos que, dentro da «nossa» guerra, corria «outra», também sob bandeira portuguesa. E concluímos que, justamente por isso, os destinos seriam divergentes.

Falaremos destes combatentes que ao nosso lado lutavam contra os seus irmãos do PAIGC.

Abordaremos também a vivência dos combatentes africanos no outro lado do conflito: os soldados do PAIGC, o partido que lutava pela emancipação total do colonialismo. Estes guerrilheiros eram irmãos, meios-irmãos, primos ou tios daqueles que, na mesma guerra, optaram pela bandeira portuguesa.

Alguma linguagem utilizada em episódios de grande tensão pode ferir a sensibilidade de leitores mais suscetíveis. Lembramos, contudo, que este é um romance sobre a guerra — e todos sabemos que, no calor do combate, a linha que separa o anjo do demónio é tão ténue como o sopro de uma criança ao apagar uma vela no dia do seu aniversário. (...)


Vd, Facebook de Angelino Santos Silva
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 9 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28168: Agenda cultural (896): Apresentação do romance, da autoria do António Carvalho, "3x44: Abel e Caim em Contrapé", Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, Medas, Gondomar, sábado, dia 11, às 15h30. Entrada livre

Guiné 61/74 - P28210: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (54): o caldo de chabéu é acompanhado com arroz, que é o rei à mesa; o funge é um prato angolano, lembra-nos o Cherno Baldé

 









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Aqui vai uma ilustração em BD do caldo de chabéu, prato tradicional da Guiné-Bissau que é servido com arroz e nunca com funge... Pode de peixe ou de carne ( frango, cabrito...). 

 Como nos esclareceu,  e bem, o nosso Cherno Baldé, o funge é angolano, não é guineense. Damos a mão à palmatória, a calinada é do nosso editor e da  menina da IA que é americana e, como tal, sabe pouco de geografia; metemos os dois a pata na poça, ao fazer a ilustração a quatro mãos.

Agora, sim, sai, corrigida, como prometido, a BD: longe de nós, eu e ela, querermos arranjar um  problema "diplomático" entre os nossos amigos lusófonos, guineenses e angolanos. 

Declaração de interesses do editor LG: nunca comi funge na Guiné, em 1969/71 nem em 2008; comi sim, na ilha de Luanda, quando lá ia em trabalho (a partir 2003). 

Mas nada impede os nossos "chefs" modernos, contratados pelos nossos vagomestres , de pôr o caldo de chabéu a acompanhar com o funge angolano, prato tradicional que é feito à base de farinha de mandioca (ou de milho) e água. ( O segredo está na força do braço para bater a massa e evitar grumos, diz o "chef angolano.) Mas na Guiné, ontem e hoje, quem era (e é) rei, á mesa, é o arroz.

Vamos pedir ao nosso amigo e colaborador permanente, o Cherno Baldé, que valide esta ilustração. A IA está sempre a aprender connosco. E nós com o Cherno Baldé. 

E depois do funge, a menina da IA  meteu outras duas "calinadas": no meu/nosso tempo, nas tabancas da Guiné não  se comia de colher, garfo e faca, nem havia pratos individuais...Comia-se à mão, todos à volta de um grande alguidar, de alumínio ou de  esmalte...

Por influência dos "tugas", já havia uma ou outra família (com homens que eram milícias ou militares) que tinha colheres...Por outro lado, a criançada (os "djubis" e as "bajudinhas") também não comiam com os adultos. E as mulheres, se não erro, também comiam àparte... 

Além disso, o peixe ou a carne (galinha, frango) era cortado aos pedacos. Não faz sentido o peixe ir inteiro para o tacho, não havendo facas nem garfos... 

Foram detalhes que tivemos de corrigir, eu e a menina IA. Mas esperamos o veredito do nosso crítico de Bissau.

Julgo que hoje na Guiné-Bissau seja mais cómodo comer de garfo e faca ou pelo menos com colher (no caso do caldo de chabéu, com arroz)...

2. Curiosidade etnocêntrica: o trio completo de talheres (garfo, faca e colher) passou a fazer parte da mesa em Portugal de forma regular a partir do século XVII para a alta nobreza, mas a sua generalização para toda a população só aconteceu no século XIX, com a Revolução Industrial.
 
 Em 1836, o rei consorte D. Fernando II (de Saxe-Coburgo-Gota) convenceu a rainha D. Maria II a oficializar o uso do garfo em todos os banquetes da corte.

 Com a Revolução Industrial e a produção em massa de metais mais baratos (como a alpaca e o banho de prata), os faqueiros completos tornaram-se acessíveis à burguesia e depois às classes laboriosas. Foram lentas mudanças de hábitos à mesa,  impulsionados também por novas regras de higiene e de saúde pública.

Ainda me lembro, nos anos 50, quando ia à "festa da matança do porco", no Nadrupe, Lourinhã, a casa dos meus tidos maternos, de toda a gente, pequenos e graúdos, comerem, de garfo de ferro (!), de uma enorme terrina (!)... Os putos, menos hábeis e menos lestos, ficavam sempre prejudicados na "corrida"... 

3. Confesso que gosto do estilo gráfico que eu e a IA concordámos em adoptar (embora possa levantar questões delicadas relacionados com eventual plágio, extrativismo, violação da propriedade intelectual)...No caso desta BD, as especificações foram:
  • estilo gráfico: linha clara franco-belga (Hergé, Jacques Ferrandez, Juillard);
  • cores quentes, próprias da África Ocidental;
  • grande rigor etnográfico;
  • utensílios de alumínio gastos pelo uso;
  • panelas sobre três pedras ou pequeno fogareiro;
  • cajueiro verdadeiro (não coqueiros...);
  • roupa simples do quotidiano;
  • sem exotismos nem caricaturas.
A resposta, a meu ver, é simples: eu sou livre de desenhar e pintar "à Picasso" (estilo Picasso). Não posso é, ética e legalmente:  (i) copiar um quadro dele e assiná-lo como seu; (ii) fazer uma obra tão próxima de uma obra concreta sua que seja uma reprodução disfarçada; e, por fim, (iii) induzir o público a pensar que é um Picasso autêntico.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Patrick Chabal já era um investigador distintíssimo quando se lançou neste empreendimento que se transformou num trabalho que é hoje de consulta obrigatória de quem se lança na pesquisa no antes, no durante e depois do grito anticolonialista das cinco colónias portuguesas em África. Trabalho que se desdobra em duas partes, a primeira completamente a cargo de Chabal, ele disserta sobre as condições em que se processou o fim do Império português em África, como os novos Estados se lançaram na construção do socialismo, como ocorreu o falhanço e se transitou para o pluralismo político; a segunda parte prende-se com os estudos dos cinco países, investigação imensa, a cargo de especialistas altamente qualificados.
Iremos dar voz à dissertação de Joshua Forrest sobre a Guiné-Bissau. Recordo ao leitor que esta vasta investigação compreende os primeiros 25 anos dos cinco novos países independentes de língua portuguesa, foi editado originalmente em 2002 e só este ano é que teve direito à edição portuguesa graças a Tinta-da-China. Por todas as razões, é de leitura obrigatória para todos os públicos.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 2


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Patrick Chabal, como vimos no texto anterior, alude aos aspetos essenciais que levaram ao fim do Império, como se desenvolveu a guerra até ao ponto de se ter enquistado a ideia de não haver solução militar; dá-nos depois uma perspetiva histórica da descolonização, e conclui como historiador dizendo que nos últimos 20 ou 30 anos as análises apresentadas é do Estado na África pós-colonial, mas há um senão que ele aponta:
“É intrigante concluir que durante muito tempo os estudiosos insistiram em alimentar a crença de que a evolução do Estado Africano pós-colonial devia ser igual à de outras partes do mundo. A enorme discrepância que marca o desenvolvimento dos Estados europeus devia ter alertado os africanistas para a improbabilidade de o Estado Africano pós-colonial seguir o exemplo de qualquer antecessor reconhecível. Os africanistas foram durante muito tempo induzidos a acreditar que os caprichos do Estado africano pós-colonial explicavam a política africana.”

E, mais adiante:
“A resistência, assim como as deficiências do Estado pós-colonial explicam-se melhor pela natureza dos laços muito complexos que unem, em vez de simplesmente oporem, Estado e sociedade. As redes clientelistas que ligam o Estado e a sociedade são de tal modo numerosas e extensas que garantem a manutenção de um sistema político neopatrimonialista no qual o Estado só detém a supremacia na medida em que é colonizado pela sociedade. Os políticos derivam a sua legitimidade da capacidade de apaziguar os seus clientes. Na África pós-colonial é, em grande parte, uma ilusão ver o Estado como o agente do desenvolvimento económico (socialista ou capitalista). Enquanto no Sudeste e no Leste Asiático, por exemplo, o Estado tem sido, com frequência, o responsável direto por taxas de crescimento económico impressionantes, em África ele tem sido o principal instrumento do ímpeto neopatrimonialista. Tem facultado aos detentores do poder do Estado e a todos os que a ele estão ligados por múltiplas redes o acesso aos recursos por si controlados.”

Chabal irá versar depois como se deu a criação da nação na África lusófona, qual o legado da experiência colonial, os obstáculos sentidos pelos dirigentes destes países, como se processou a construção do socialismo, já que para todos se afigurava o marxismo como ideologia orientadora; dá-nos um quadro de referência de como atuaram os dirigentes, as atuações foram verdadeiramente díspares. Veja-se como ele observa o caso da Guiné-Bissau:
“Embora se possa dizer com segurança que a ideologia deixou de ser politicamente relevante na Guiné-Bissau a partir do início da década de 1980, os alicerces do regime permaneceram estruturalmente socialistas até à alteração da Constituição, em 1994. A verdade, no entanto, é que o socialismo não afetou de forma significativa a construção da nação, ao contrário da construção do Estado, quer porque a legitimidade do partido não estava inicialmente em causa, quer porque a política formal, não teve repercussões importantes no plano local. Em grande medida, a evolução do regime pós-colonial respeitou a dos países vizinhos da África ocidental: um Estado neopatrimonialista de partido único, autoritário (mas não altamente repressivo), ainda que muitíssimo ineficiente. A alteração de liderança, em 1980, não afetou grandemente a natureza do sistema político. A cisão no interior do partido e a criação do PAICV ajudaram a liderança guineense a acelerar a sua transformação num instrumento de políticas patrimonialistas.”

Obviamente que a dimensão internacional acabou por ser determinante, havia o compromisso ideológico socialista e a ligação com o bloco soviético, mas cada um dos países agiu com flexibilidade, como foi o caso de Cabo Verde, com uma larga diáspora dos EUA e na Europa. Luís Cabral, na Guiné-Bissau, também procurou diversificar as fontes da ajuda externa, sem prejuízo de manter uma atitude amigável em relação ao universo socialista (Cuba e Europa de Leste). Com o tempo, ficou claro que a maioria do auxílio viria do bloco ocidental. Esta transição para uma política externa mais orientada para o Ocidente fortaleceu-se na presidência de Nino Vieira. Como também a Guiné-Bissau e Cabo Verde tinham beneficiado de um forte apoio por parte dos países ocidentais mais progressistas (Escandinávia, Países Baixos e Canadá) que tinham protegido os seus movimentos de libertação antes da independência. Nino, incapaz de corresponder ao modelo de desenvolvimento para o seu país aderiu à zona do franco CFA, estava à espera de um milagre económico e financeiro que não aconteceu. Chabal detalha o comportamento de todos estes cinco países.

A matéria seguinte tem a ver com as falhas dos Estados de partido único, tornaram-se clamorosas com o desmoronamento do Estado soviético, com maior ou menor velocidade mudou-se para um sistema político pluripartidário, também aqui o historiador destaca as nunces da diversidade, havia conflitos que não ficaram sanados, caso de Angola e Moçambique, Cabo Verde revelou a sua maturidade, o PAICV perdeu as eleições para o MPD; também o MLSTP, o partido do poder, foi derrotado pelo Partido de Convergência Democrática; veja-se agora o que ele escreve sobre a Guiné-Bissau:
“O caso da Guiné-Bissau é muito mais típico do que tem acontecido na África negra nos últimos dez anos. Apesar do enorme descontentamento contra o regime existente no país, não houve uma pressão organizada sistemática no sentido de uma mudança para um sistema político multipartidário. O único partido de oposição verdadeiramente ativo, o RGB/MB, estava sediado em Lisboa e contava apenas com um apoio limitado no país. Havia evidentemente cisões no seio do PAIGC, o partido governante, mas o presidente Nino Vieira conseguiu, ao longo dos anos, usá-las a seu favor e manter-se no poder com pulso firme. Foram as pressões externas que forçaram Vieira a aceitar a transição para a política multipartidária. Com efeito, só quando o Banco Mundial se recusou a manter os pagamentos do programa de ajustamento estrutural, é que o regime iniciou as reformas necessárias para a transição política. Vieira só agiu quando não lhe restou alternativa. Quando a Constituição foi alterada, em maio de 1991, o presidente já tivera oportunidade de analisar de perto o resultado das eleições em Cabo Verde e em São Tomé. Decerto, retirou os ensinamentos apropriado da derrota dos partidos no poder.”
Não deixará de agir até com crueldade esmagando oposições, deu brado a perseguição que fez a Vítor Saúde Maria, Paulo Correia e Viriato Pã, em eleições subsequentes perderá temporariamente o poder, irá retomá-lo depois do seu exílio em Portugal, culminará na sua execução bárbara, morto à catanada, e mostrado nas redes sociais.

Finda esta investigação de Patrick Chabal sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada, seguir-se-ão estudos dos cinco países, investigação de altíssima qualidade, iremos no texto seguinte falar da Guiné-Bissau e da investigação topo de gama do historiador Joshua Forrest.


Patrick Chabal (1951-2014)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)