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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28009: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte VII: Bissau e Bolama - Parte I


















Fotogramas > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", documentário de San Payo (1936) > Guiné > Bissau > Agosto de 1935 >  

Os fotogramas são reproduzidos com cortesia da Cinemateca Digital (Cinemateca Nacional). Para visualizar o documentário completo, consultar:

I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo.

 Chamada de atenção ao leitor: caso não consigas visualizar o vídeo, por favor verifica se o endereço completo da página indica http://www.cinemateca.pt (e não https://www.cinemateca.pt/)

Deixa o browser forçar o s; senão este deverá ser eliminado manualmente; deverás ainda, utilizar apenas os browsers Firefox, Google Chrome ou Microsoft Edge. 

O filme, feito em parte com dinheiros públicos,  não chegou a passar nas salas de cinema:  terá sido projetado uma única vez, no S. Luiz, em Lisboa, a 29 de junho de 1936, em sessão destinada  aos participantes do cruzeiro.


1. Desde 4/11/2025, temos mostrado alguns fotogramas do documentário, de longa duração (91' 13''), sobre o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente. O filme está disponível, em formato digital, no portal "Cinemateca Digital", da Cinemateca Nacional.

Ainda não o visionámos na totalidade. É uma reportagem completa do cruzeiro, de Dois meses, com imagens  e informação muito "interessantes", do ponto de vista da historiografia da presença portuguesa nas quatro "colónias" da África Ocidental visitadas, além de pormenores da partida de Lisboa, da chegada aos vários portos (Mindelo, Praia, Bissau, Bolama, Luanda, Lobito, etc.)  bem como da vida a bordo. (*)

Um documentário, raro, com 90 anos, que diz muito (até pelo que omite, por defeito, conveniência, autocensura ou opção) sobre o "império colonial", expressão que se usava na época sem complexos,  e até com orgulho.  O filme (feito em 35 mm, ainda sem som) tem algumas erros de montagem (cenas trocadas ou repetidas),  e muitas imperfeições  de imagem na cópia digitalizada. Mesmo assim, estamos gratos á Cinemateca Nacional por retirá-lo do pó dos arquivos, restaurá-lo e pô-la á disposição do público lusófono, em geral, dos antigos combatentes, em particular 

2. Recorde-se que o  realizador  é San Payo, nome artístico  de Manuel Alves San Payo (Melgaço, 1890-Lisboa, 1974),  que contou com a colaboração de Artur Costa Macedo, um conhecido  operador e diretor de fotografia (S. Tomé, 1894 - Lisboa, 1966).

O mostra a viagem do paquete "Moçambique" a Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e Angola entre agosto e outubro de 1935.  O cruzeiro coincidiu com as férias escolares. O navio, a vapor, "Moçambique", pertencia à  CNN, será abatido, quatro anos depois, em 1939, e substituido por um novo "Moçambique", a motor, maior e melhor.

A iniciativa foi da revista "O Mundo Português", com apoio do Secretariado da Propaganda Nacional e Ministério das Colónias. A revista era editada pela Agência Geral das Colónias e pelo Secretariado da Propaganda Nacional. 

Os "excursionsistas" não chegavam às duas centenas,   incluindo 7 dezenas de estudantes , considerados os melhores alunos na conclusão do curso geral dos liceus (entre eles,  o Ruy Cinatti). E só 20% eram mulheres.

Um dos mentores do projeto foi Marcelo Caetano, então com 29 anos, e já brilhante professor de direito administrativo na  Faculdade de Direito de Lisboa, e intelectual orgânico  do regime. Seria também  ele  o "diretor cultural" do cruzeiro.  O objetivo desta iniciativa era didático e propagandístico: cativar as jovens elites do país para a questão colonial, num altura em que outras potências coloniais   deitavam o olho a alguns territórios do império colonial português.

O  documentário dedica menos de 15 minutos à visita à Guiné (Bissau e Bolama). O realizador viveu na 2ª década do séc. XX no Brasil, país onde se iniciou na fotografia e no cinema: fez alguns filmes e documentários. Mas é em Portugal se torna um reputado fotógrafo das elites (políticas, sociais e culturais), sobretudo nos 30, 40 e 50. A clientela reflete também a qualidade técnica e estética do seu trabalho. 

Dizia-se, todavia, "apolítico". Mas sua escolha como realizador deste documentário não pode ser vista como "inocente":  como fotógrafo das elites (incluindo Salazar), dava garantias que o documentário reforçaria a "narrativa oficial". 

Neste  filme, o realizador dá sempre maior destaque aos aspetos cénicos do cruzeiro: as chegadas, o cais, a receção das populações locais, com as suas "danças indígenas", o exotismo humano e paisagístico, o anedótico, o "flagrante", ... 

Há um ou outro apontamento sobre a história da colonização: por exemplo, um dos intertítulos, referente ao forte de São José da Amura, diz explicitamente que a cidade de Bissau, até aos anos 20, cabia dentro das muralhas... Não sei se a censura  terá gostado, ou até pode ser que sim: podia interpretado  como uma "bicada" á malfadada República,  derrubada em 28 de maio de 1926.

Bissau  em 1935 ainda não era a capital, a cidade estava a crescer, segundo um plano urbanístico do tempo da Republiva, mas tinha  apenas um cais-acostável... Há poucas imagens da cidade, de resto as obras públicas só virão mais tarde, com o impulso dado pelo governador Sarmento Rodrigues à "modernização" da colónia... Mas um dos fotogramas mostra já a Av da República, com candeeiros de iluminação pública.

Era então governador  da Guiné (1933-1941) o major do exército  Luís António de Carvalho Viegas  (chegará a general em 1948; será deputado na Assembleia Nacional, na IV Legislatura, 1945-1949).

Resumo análitico do filme: 

  • até  8' >  Lisboa (despedida e partida do navio); viagem até Cabo Verde;
  • 8' - 23' > Cabo Verde (Mindelo, Praia, interior);
  • 23' - 37' > Guiné (Bissau e Bolama);
  • 37' - 46' > São Tomé e Príncipe (incluindo em São Tomé, visita às roças Água Izé, Monte Café, e Rio do Ouro; no Príncipe, roça não identificada):
  • 46' - 91' > Angola (Luanda, rio Dande, Catete, Dalatando, Casengo, Porto Amboim, Gabela, fazenda de café, Lobito, caminho de ferro de Benguela,  empresa de Cassequel, Catumbela,  Ganda, Moçamedes, foz do rio Bero, regersso a Luanda, minumento aos mortos da Grande Guerra, batuques, desfile) (incluindo visita à fazenda Tentativa, à granja S. Luiz e outras fazendas não especificadas, além da Estação Zootécnica e missão na Huíla).


3. Registe-se que  só as visitas a Luanda, Lobito e Moçâmedes duraram mais do que um dia,  nos restantes locais, os "excursionistas" ficaram apenas algumas horas.  

Em 1935, a organização do cruzeiro teve de enfrentar muitos problemas logísticos (falta de viaturas automóveis, péssima rede viária e hoteleira, etc.), problemas esses agravados num território como a Guiné, ainda não totalmente "pacificado" (daí que a visita se tenha limitado se a duas cidades costeiras, com cais acostável, Bissau e a capital, Bolama).

Recorde-se que só entre 1925 e 1936 é que foram "pacificados" os últimos povos animistas, no noroeste do território ("chão felupe") e nos Bijagós, tendo a última campanha sido na ilha de Canhabaque, cujos habitantes eram acusados de praticar  a pirataria.

Tratando-se de um documentário sem som síncrono,  o realizador recorreu aos intertítulos (no fundo, as velhas legendas usadas para apresentar diálogos ou explicar a narrativa entre as cenas ou sequèncias no cinema mudo). Eram cartões de texto filmados e inseridos durante a montagem do filme para ajudar o público a compreender a narrativa,  uma vez que não havia som sincronizado.
 . 
Por razões de produção, financeiras e técnicas, os documentários continuarão a fazer-se sem som síncrono até muito tarde, início dos anos 60.

Diversas empresas portuuguesas expuseram os seus produtos a bordo, e fizeram publicidade no roteiro, ajudando assim ao encaixe necessário para o financiamento da viagem, que contou ainda com 150 contos dados pelo governo, mais as receitas das inscrições dos excursionistas (que eram caras para a época, como já vimos).

 (Seleção e edição de imagens: LG)
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Nota do editor LG:


Vd. postes anteriores da série:




Vd. também postes de:

domingo, 10 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28008: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IV: semana de 23 de fevereiro a 1 de março : "barak obrigadu" (muito obrigado) a todos!


Timor > Díli >Hotel Timor > 3 de fevereiro de 2019 > "A vida tem destas coisas... hoje conheci um primo (aos 46 anos) e a mais de 14500 km da nossa terra. Foi um prazer e privilégio conhecer-te,  primo Rui Chamusco! Temos muitas aventuras para realizar em Timor em prol deste maravilhoso povo maubere! " 

Foto e legenda da página do Facebook de Rui Nunes Ferreira, comandante-de-fragata, em serviço em Timor-Leste, com a devida vénia; o Rui Pedro Nabais Nunes Ferreira foi entretanto promovido a capitão-de-mar-e-guerra da classe de Marinha; é o atual Adido de Defesa de Portugal em Bissau; foi Antigo Aluno do Colégio Militar, nº 300/1982.

O Rui Chamusco e o Rui Pedro Ferreira conheceram-se pessoalmente neste dia, em Díli, onde o oficial da Marimnha, ainda seu parente, estava destacado em serviço de Portugal, durante um ano, desde setembro de 2018.

1. Estamos a publicar excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste (fazem parte de um ficheiro em pdf, de 273 páginas, com todas as suas crónicas de viagem àquele país lusófomo, desde 2016, e que ele disponibilizou aos membros da ASTIL e demais amigos, em 28 de maio de 2025).

Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Este ano de 2026, irá por razões de saúde. Está hospitalizado, depois de uma bem sucedida intervençãp cirúrgica no Hospital Cury Cabral, em Lisboa, mas surgiram algumas complicações pós-operatórias. Fazemos votos para que regresse, depressa e bem, à sua casa na Lourinhã.


Fundadores: Rui Chamusco (Sabugal e Lourinhã) | Glória Sobral (Sabugal e Coimbra)  | Gaspar Sobral (Timor Leste e Coimbra)



Rui Chamusco

A publicação desta série, já o dissemos, é uma  pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez mais  200 mil quilómetros de avião, desde 2016, por solidariedade com o povo timorense e as crianças de Boebau, nas montanhas da martirizada Liquiçá.

É também uma forma de a gente não se esquecer dos timorenses, e  os timorenses, por sua vez, não se esquecerem de nós. Ser solidário com quem é solidário é também uma das nossas formas de ser estar dos amigos e camaradas da Guiné, alguns dos quais também são amigos de Timor-Leste. Enfim, é também, da nossa parte, um tributo à lusofonia.

O Rui Chamusco é membro da Tabanca Grande ( nº 886), desde 10 de maio de 2024. E preside à ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste, com sede em Coimbra. 

O João Crisóstomo, o "nosso régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona (Nova Iorque, EUA),  é também membro da ASTIL, fundada por Rui Chamusco, Gaspar Sobral e Glória Sobral. 


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de  24 de fevereiro a 1 de março

por Rui Chamusco

24. 02.2019, domingo - A festa de Domingo

Ao romper da bela aurora fomos chegando á escola, recomeçando os trabalhos de finalização para recebermos os ilustres convidados. A eucaristia está marcada para as 11.00 horas, e até lá cada um vai-se anafaiando para este encontro dominical. 

Todos ajudam: uns na distribuição de fardas aos alunos da escola, outros nos enfeites dos arcos;  uns limpam e varrem o local, outros ensaiam os cânticos. A pouco e pouco vão chegando as crianças, as famílias, e por fim alguém anuncia que os visitantes estão quase a chegar. As crianças fazem alas, os adultos vão se aproximando. Todos na expetativa de conhecerem os “amos” (padres) e o acompanhante Rui Pedro. 

Logo queo carro aparece, e logo que os seus ocupantes se mostram toda a atenção lhes é dedicada. Qualquer gesto, qualquer palavra é ansiosamente recebida. E depois de oferecerem um coco a cada visitante a fim de saciarem a sua sede, seguiu-se o canto do hino da escola, o beija mão (gesto típico timorense de respeito dos mais novos para com os mais velhos) e a preparação da eucaristia.

O Padre Fernando, que esteve onze anos em Timor Leste, pelo seu saber e personalidade, depressa sintonizou a assistência, falando em tetum. Graças aos cânticos a língua portuguesa também se fez ouvir.

Depois, na casa do Bôzé, foi a vez de alimentarmos o corpo. Um almoço frugal, onde mais que a comida ao dispôr, era necessário pôr as conversas em dia. Foi um dia em festa, que só acabou com as formalidades da despedida.

Este povo agradece a todos os que dele não se esquecem e lhes dão o prazer de uma visita. 

Boebau / Manati também é Timor Leste. Onrigadu,  frei Feranando; Obrigadu, frei Tinoco; Obrigadu, comandante Rui Ferreira!...

25.02.2019, segunda feira  - Mais uma boa notícia

Hoje, ao consultar o correio eletrónico deparo com um e-mail do Dr. Manuel Meirinho, presidente do ISCSP,  da Univerisdade de Lisboa, confirmando a sua chegada a Timor Leste no próximo dia 2 de Março. 

Com a agenda cheia de trabalho, pois juntamente com outros professores vêm dar formação a quadros timorenses, não poupa esforços em se encontrar connosco, mais concretamente em Liquiçá, a fim de podermos concretizar passos em ordem à geminação dos municípios de Sabugal e Liquiçá. 

O Dr. Manuel Meirinho, para além do múnus de docente,  é também presidente da Assembleia Municipal de Sabugal. E ninguém melhor para representar o município a que ambos pertencemos.

Será para nós uma honra e um privilégio colaborar neste ato de solidariedade. Aliás, foi por influência nossa, da ASTIL, que este processo se iniciou. Com certeza que o protocolo de colaboração entre os dois benefícios vai trazer benefícios para ambos. E particularmente vai criar laços de amizade que nos irão dar a conhecer mutuamente.

Bem vindo,  Dr. Manuel Meirinho! Já estamos de braços abertos para o receber...


27.02.2019, quarta feira  - Alegrias e dores, penas e cansaço

Hoje foi um daqueles dias em que tudo parece correr mal. Logo de manhã, às 9.00 horas, fomos à embaixada de Portugal em Dili a fim de legalizar dois documentos na seção consular. 

Com ou sem razão, as senhoras que me atenderam resolveram não proceder à legalização (tratava-se de carimbar os documentos), e foram de uma prepotência e arrogância raramente vistas. Claro que saí de lá revoltado e a ferver.

Teremos que dar a volta doutra maneira. Com todo o respeito que os funcionários públicos me merecem, acho que há outras maneiras e outras formas de tratar os assuntos, dialogando e inteirando-se verdadeiramente da situação.

É verdade que perante estas e outras dificuldades o cansaço se apodera de nós. Algumas vezes até o desânimo e a vontade de desistir. Mas felizmente que a paz de alma faz vencer estes obstáculos. Fica no entanto a má imagem de atendimento, que não abona nada a favor da embaixada de Portugal em Dili.

28.02,2019, quinta feira - Ei-los que partem...

Há mar e mar; há ir e voltar. Por volta do meio-dia dirigimo-nos ao aeroporto, em motor, a fim de me despedir do Pe Frei Fernando. Um abraço de despedida bem sentido, pois sei o esforço que o frei Fernando dispendeu para aceitar e cumprir o nosso convite de visitar a escola de São Francisco de Assis em Boebau. Estamos-lheeternamente gratos. Bom regresso a Portugal, e até um dia, cá ou lá, na senda de Francisco de Assis, “como peregrinos e forasteiros neste mundo”.

O regresso a Ailok Laran foi doloroso, pois, para além das mazelas corporais que há oito dias me afligem, dores musculares no pescoço ombros e pé esquerdo deixaram-me prostrado, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Espero bem que estas dores acalmem, porque já me chateia fazerem de mim o objeto das atenções desta gente da casa, que se desfazem em aliviar a minha dor com os meios que têm ao dispôr.

01.03.2019, sexta feira  - Uma questão de sensibilidade

Esta história de ficar doente de modo a preocupar os outros tem muito que se lhe diga.

Então não é que ontem, deitado no chão sobre um “triplex” e com quase toda a família à minha volta, me sai desta boca de ocidental uma frase perdida, que põe a Aurora e a Adobe (mãe e filha) a chorar? 

Em tom de brincadeira digo para o Eustáquio: "vai buscar duas tábuas, tira as medidas e faz o caixão”.Não sei se por imaginarem a cena ou talvez porque me querem bem demais, começo a ouvir o choro lacrimoso que, por mais que eu lhes dissessse que estava a brincar, não lhes pude evitar uns bons minutos de choradinho. 

Ainda mais: como para me acomodar pus as mãos cruzadas no peito, depressa a Adobe me corrigiu a posição, dizendo: “Pai Rui, assim não. Assim fazem aos mortos. E nós não queremos que o Pai Rui morra”.

Tanta coisa ainda por entender da cultura e psicologia deste povo! Mais uma vez me vem à memória o título do livro de Roger Garaudy “Oriente ou O(A)cidente? Quem poder entender que entenda...


02.03.2019, sábado - A amizade alimenta-se, cuida-se...


Os verdadeiros amigos fazem tudo para fortificar a sua amizade. Vem a propósito o convite que fizemos ao comandante Rui Pedro para vir jantar a Ailok Laran. E, embora muito fatigado pelo esforço dispendido com bastantes horas de mergulho no dia de hoje, à hora combinada lá fomos ao seu encontro para o trazermos a este labirinto do Bairro Pité. A gente da casa desfez-se e primorou por apresentar uma refeição não muito habitual. 

Até uma garrafa de vinho de Setúbal serviu para brindarmos. Mais umas fotos, mais um fio de conversa, música, cantorias particularmente em língua portuguesa fizeram parte do pequeno serão que se organizou no “alpendre” da casa.

Dizia o Rui Pedro: “ Mesmo sem televisão e outras comodidades, como esta gente se sente feliz com outros valores que, nós ocidentais, quase desprezamos”.

E como o cansaço era notório no rosto do meu amigo, propus de imediato ao Eustáquio para reconduzirmos o Rui ao seu paradeiro.

Entretanto o Rui agradecia “barak” a todos. “Obrigado,  primo Rui!” E, porque também sou Rui, tive de explicar a esta gente “o Tio Rui Pedro é comandante de fragata (todos icaram muito admirados e estupefactos); o Pai Rui sou eu, que vós já bem conheceis.” 

São momentos destes que nunca se agradecem suficientemente e que alimentam e cuidam da nossa amizade.

(Continua)

(Seleção, revisão / fixaçãod e texto: LG)
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Nota do editor LG

Último poste da série > 3 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27983: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte III: semana de 17 a 23 de fevereiro: finalmente a caminho de Boebau... de "motor" (motorizada)

Guiné 61/74 - P28007: Humor de caserna (265): Quando, em 1991, o António Graça de Abreu meteu uma "cunha" ao imortal poeta chinês do séc. VIII, Li Bai, para que fosse desbloqueado, na nossa Secretaria de Estado da Cultura, o "patacão" do Prémio de Tradução que ele ganhara e que só receberia ano e meio depois (eram 500 contos, c. 6 mil euros a preços de hoje, o que dava para os dois beberem uns copos valentes)


Ilustração: representação clássica de Li Bai, poeta chinês do século VIII.


Capa do livro: "Poemas de Li Bai: tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, 2ª ed. Macau: Instituto Cultural de Macau, 1996, 328 pp.  (1º ed., 1990).

Fotos (e legendas) : © António Graça de Abreu (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso amigo e camarada António Graça de Abreu (n. Porto, 1947),  é licenciado em Filologia Germânica e Mestre em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Esteve na Guiné, como alferes miliciano, pertenceu ao CAOP 1 (Teixeira Pinto/Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74). Integra a nossa Tabanca Grande desde 2007, tendo cerca de 390 referências no nosso blogue.

Entre 1977 e 1983 viveu e trabalhou na China, em Pequim e Xangai, tendo sido professor de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Pequim e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.

Tem diversos livros publicados na área da sinologia, da poesia e dos estudos luso-chineses, além da crónica de viagens (é um compulsivo viajante). 

Tem traduzido para português os grandes poetas clássicos chineses, a começar por Li Bai, Han Shan, Su Dongpo, Bai Juyim,  Wang Wei, Du Fu,  e outros.

Professor do ensino secundário, leccionou Sinologia na Universidade Nova de Lisboa e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e, mais recentemente, na Universidade de Aveiro. É casado com uma médica chinesa de Xangai. O casal, que tem dois filhos, vive no concelho de  Cascais.

Publicou há dias um texto que merece honras de figurar na nossa série Humor de Caserna, mesmo que não se refira diretamente à tropa e à guerra.

De facto, ele é um homem de muitos talentos. Em 1991 ganhou um prémio de tradução de 500 mil escudos (equivalente a preços de hoje a pouco mais de 6 mil euros). Mas demorou ano e meio a receber o prémio. Daí esta carta, bem humorada, a meter uma "cunha" ao poeta Li Bai (séc. VIII) que ele traduziu. Os portugueses, que também gostam de meter cunhas a Deus através dos santos (e sobretudo das santas), reveem-se neste texto.  E os nossos camaradas ainda mais

É um texto delicioso,  um "mix" elegante de ironia fina, erudição e humor, com uma pitada de sarcasmo pela nossa proverbial e secular burocracia. 

É um exemplo magnífico de como o humor pode ser usado para criticar, sem azedume, sem amargura, os passos de lesma com que às vezes achamos que o país marcha.  

Fica bem no espírito e  na letra da série "Humor de Caserna". O tom é leve, mas inteligente, e a referência à vida militar (ainda que indireta) está lá, no nosso espírito de resiliência e desdém pelas teias burocráticas, sejam civis ou castrenses.

De resto, a narrativa é envolvente: a  estrutura da carta é cativante,  começando com uma descrição poética do paraíso de Li Bai, passando depois  pela frustração terrena do prémio anunciado mas não pago, e finalizando com um convite a uma viagem etílica por Portugal em com ou sem a "massa" do prémio... 

O prémio acabou por ser pago, tarde e a mais horas, em outubro de 1992, só não sabendo nós como e onde  é que o patacão foi gasto... e se o Li Bai acabou por aceitar vir cá baixo beber uns valentes copos com o António.


2. Facebook > António Graça de Abreu > Quinbta feira, 7 de maio de 2026, 19:56 > A propósito de um Grande Prémio de Tradução

Estes Poemas de Li Bai obtiveram o Grande Prémio de Tradução 1990, da Associação Portuguesa de Tradutores e do Pen Club, tendo o júri sido constituído por Yvette Centeno, Pedro Tamen e Casimiro de Brito.

O prémio, no valor de quinhentos mil escudos — e não mil contos, como inicialmente eu imaginara — foi-me entregue pelo poeta Pedro Támen, em outubro de 1992, em cerimónia na Livraria Buchholz, em Lisboa. 

O atraso na sua entrega deveu-se a dificuldades na obtenção da verba referente ao prémio, resultantes da reestruturação entretanto levada a cabo por Pedro Santana Lopes, então Secretário de Estado da Cultura.

Longe de todos estes problemas, em dezembro de 1991 escrevi uma carta ao poeta Li Bai, que foi publicada no jornal Comércio de Macau em fevereiro de 1992 e no Jornal de Letras em abril do mesmo ano. É essa carta que agora recupero e transcrevo:

Carta aberta ao poeta Li Bai (*)

Meu caríssimo Amigo

Escrevo-te para o Céu, onde vives há muitos milhares de anos. Um grou imaculado levar-te-á a minha carta.

Desculpa incomodar-te com míseras coisas terrenas. Sei que continuas a brincar em mares de névoa púrpura, a subir às nuvens, a humedecer o teu corpo com vapores rosa, a levantar a mão e a tocar a Lua, a passear entre os pontos cardeis, a beber vinho mágico em taças de jade, a voar com o vento e a rodopiar à vontade na imensão do céu. Gostava muito de te poder fazer companhia, mas quem sou eu para merecer tal benção dos deuses?

Foi célere a tua passagem pelo mundo dos homens. Por comportamento menos atilado entre as divindades celestiais, foste condenado a um duro degredo na Terra, entre os anos de 701 e 762. Imortal no exílio, inundaste então a China com a tua grande poesia. Depois, quase todos os homens te consideraram o maior de todos os poetas chineses. No país que habitaste, os meninos de escola — há muitas, muitas gerações —, conhecem bem o teu nome e sabem sempre de cor dois ou três poemas teus.

Eu conheci-te em Pequim e durante oito agitados anos, por Xangai, por Macau, por Lisboa, outra vez por Pequim, fui traduzindo para língua portuguesa alguma da tua poesia. Foi um alvoroço, uma longa aprendizagem, um prazer transmutar, recriar, reinventar os teus gufeng, lushi e jueju em versos na língua de poetas como Camões e Pessoa. Creio que sabes quem são. Talvez já os tenhas encontrado aí pelo Céu, o Camões finalmente feliz, trepando às árvores e amando docemente a sua Dinamene chinesa (?), o Pessoa, sereno e solitário, agora à vontade para ir “buscar ao ópio que consola, um Oriente ao oriente do Oriente.”

Em 1990, o Instituto Cultural de Macau editou os teus (meus) Poemas de Li Bai. A 7 de junho de 1991, recebi um simpático telegrama assinado pela Yvette Centeno, professora, escritora e literata. Um júri, representando a Associação Portuguesa de Tradutores e o Pen Club, havia acabado de decidir, por unanimidade, conceder-me o Grande Prémio de Tradução 1990 pelos teus (meus) Poemas de Li Bai.

Podes imaginar, fiquei naturalmente satisfeito. A tua grande poesia obtinha reconhecimento em Portugal, o meu trabalho merecera uma recompensa. Depois, importante, o prémio era de quinhentos contos, uns largos milhões de sapecas para gastar com a minha mulher chinesa, os meus filhos, livros, vinho e pequenos prazeres.

Há doze séculos, quando da tua passagem por este mundo, não existiam estes prémios literários. Quando muito, o imperador honrava os mais subservientes e medíocres letrados com um lugar na Academia Hanlin, por onde tu também passaste, com a velocidade de uma estrela cadente. Estamos agora no fim do século XX, em Portugal, um pequeno país da Europa, quase há quinhentos anos ligado à China através de Macau.

Apesar de Macau e do Grande Prémio de Tradução, pouca gente conhece o velho poeta Li Bai, beberrão e sábio, há tantos séculos inebriando-se de sol e de luar. No entanto, lá do outro lado do mundo, nas Nascentes Amarelas, o lugar habitado pelos mortais imortais, tu, de vez em quando, repetes com o teu amigo Han Yu (768-824), a ouvidos desatentos e desinteressados, que “o mais perfeito dos sons é a palavra e a poesia é a forma mais perfeita da palavra”.

Escrevo-te esta carta para te pedir um favor: depois de haver sido informado, em junho passado, que os teus (meus) Poemas de Li Bai haviam ganho o Grande Prémio de Tradução, não mais fui contactado por quem quer que seja. O Prémio caiu no absoluto silêncio e esquecimento, e nunca me foi entregue. Creio que o vou receber, algum dia.

Na tua estada neste mundo, nunca tiveste jeito para lidar com os poderosos, mas tenho a certeza de que aí no Céu vivem pessoas influentes, hábeis no trato, no relacionamento com o mundo dos homens, cá em baixo. Essa gente, hoje, respeita-te.

Peço-te, caríssimo Li Bai, que fales com alguém poderoso aí no Céu, sugerindo-lhe que interceda junto de alguém poderoso aqui na terra portuguesa, compondo as coisas de modo a que o Grande Prémio de Tradução me seja entregue.

Eu não estou zangado com ninguém. Conheço o meu país, sei como em Portugal — na tua China também —, decidir, resolver demoram sempre algum tempo. Mas caríssimo Li Bai, este prémio são quinhentos contos, dinheiro suficiente para uma festa de arromba.

Conheço também o teu gosto pelo vinho, pelos prazeres da vida e, mesmo sem prémio, queria-te convidar a descer, pelo alto das montanhas, até à minha aldeia. 

Portugal é bonito, as pessoas são afáveis e o vinho é óptimo. Eu vou-te buscar e viajaremos pela terra fora, pelo Douro, pelo Alentejo, de taberna em taberna, de adega em adega, saboreando, encharcando-nos em preciosos néctares. Lucidamente bêbados, afogaremos em bom vinho as tristezas da existência.

Depois, diante do mar, com o azul a passear nos olhos, iremos buscar uma nuvem branca, aconchegá-la-emos no coração e deslizaremos no espaço.

Saúda-te, com muito respeito e amizade, o
António Graça de Abreu

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, notas, título: LG) (**)
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Notas do editor LG:

(*) Observações:
  • Li Bai (701–762): poeta chinês da dinastia Tang, conhecido como o "Poeta Imortal"; escreveu sobre vinho, lua, montanhas e a efemeridade da vida; o  António traduziu a sua obra para português.
  • Gufeng, lushi e jueju: formas poéticas chinesas que Li Bai dominava.
  • Academia Hanlin: Instituição imperial chinesa onde Li Bai serviu brevemente.
  • 500 mil escudos (e náo mil contos, como pensava inicialmente o premiado): equivalente a cerca de 6 mil euros hoje; o prémio foi entregue apenas em outubro de 1992, um ano e tal depois da decisão do júri.
  • O Grande Prémio Internacional de Tradução Literária é um prémio literário instituído pela Associação Portuguesa de Tradutores. Inicialmente foi organizado em associação com o PEN Clube Português e o patrocínio da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, atualmente realiza-se com o patrocínio da Sociedade Portuguesa de Autores; o prémio é atribuído a traduções publicadas no ano anterior. O valor pecuniário atual é de 3 mil euros.
  • Dois membros do Prémio de 1991 já morreram, Pedro Tamen e Casimiro Brito.

(**) Último poste da série > 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27996: Humor de caserna (264): o 1º cabo corneteiro António Torres (1949-2023), CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852 (Buba, 1971/73), no HM 241, sujeito a uma delicada e embaraçosa operação cirúrgica a um varicocelo (Joaquim Pinto de Carvalho)

Guiné 61/74 - P28006: Parabéns a você (2484): Henrique Matos, ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Enxalé, 1966/68)

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Nota do editor

Último post da série de 8 de Maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27998: Parabéns a você (2483): Arsénio Puim, ex-Alferes Grad Capelão da CCS /BCAÇ 2917 (Bambadinca, 1970/71)

sábado, 9 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28005: Blogpoesia (812): "A Mulher Grande lá do Canchungo", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (2)

1. Mensagem do nosso camarada Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845, Teixeira Pinto, 1968/70, com data de 5 de Maio de 2026:

Boa noite Carlos Vinhal
Como gosto destas coisas, aqui envio para a Tabanca Grande este elogio às mulheres grandes lá do Canchungo.
São verdades estas que escrevo, e como continuo a pensar que ainda ando pela Guiné, não esqueço nem um pouquinho daquilo que por lá vivi. Hoje é pela segunda vez que escrevo sobre a Mulher Grande, referindo-me às Balantas do Canchungo.

Vai um Abraço para toda a Tabanca em Especial para os Régulos
Albino Silva


16

Nas Tabancas por onde andei
fazia meu trabalho bem feito
e fosse Mulher Grande ou Bajuda
as tratava com respeito.

17

A todas eu bem tratava
com respeito e com carinho
e sempre com pena delas
eu lhes dava bom mésinho.

18

Mulher Grande do Canchungo
por tão bem eu as tratar
quantas e quantas vezes
até frangos me vinham dar.

19

Aos domingos quase sempre
Ia à Tabanca sim senhor
e então eu para elas
até já era o doutor.

20

Mulher Grande do Canchungo
Casada, solteira ou mãe
Lavadeiras de nossas fardas
que as lavavam muito bem.

21

Tantas vezes na Enfermaria
da comida que sobrava
eu nunca a deitava fora
e à Mulher Grande eu dava.

22

Até mesmo as crianças
com uma latinha na mão
quantas e quantas vezes
eu lhes dava do meu pão.

23

Ficava junto ao arame farpado
aquela nossa Enfermaria
e se eu fosse à janela
as águas da bolanha eu via.

24

Era o ponto de passagem
para quem fosse pescar
e daquilo que apanhavam
muitas me iam levar.

25

Algumas com os pés cortados
por na bolanha trabalhar
passavam na Enfermaria
para assim eu as curar.

26

Era tudo gente boa
e da pesca que faziam
ao passar na Enfermaria
elas connosco repartiam.

27

Era a Mulher do Canchungo
e só delas falo bem
e como eu er a amigo
elas eram amigas também.

28

A vós Mulheres do Canchungo
De vós eu só digo verdades
Vim embora e hoje digo
Que de vós tenho Saudades.

FIM

Por Bino Silva
011004/67

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Nota do editor

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28002: Blogpoesia (811): "A Mulher Grande lá do Canchungo", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (1)

Guiné 61/74 - P28004: Os nossos seres, saberes e lazeres (734): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (255): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Quero lembrar os meus confrades que pelo menos aos domingos a visita é gratuita para todos e em todos os casos para os ex-combatentes, Palácio e Jardins. Procurei passar em revista os espaços essenciais merecedores de visita, numa amplitude onde procurei inserir o valor arquitetónico, escultórico, as belas artes, não escapando a valiosíssima coleção de cerâmica e porcelana, pondo ênfase nas obras de conservação e restauro da capela real; os jardins, em toda a sua escala, bem como as estufas reais, têm sido primorosamente alvo de conservação e restauro, é evidente que se irá gastar uma fortuna para melhorar a conservação do canal de azulejos, também ele objeto de extremos cuidados, mas o tempo foi inclemente. Dá gosto encontrar tão grande harmonia entre o Palácio Real e os formosos jardins.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254):
No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2


Mário Beja Santos

Continuamos a visita a este Palácio que não pode deixar de nos fascinar pelo que tem de imponência e exuberância nos seus detalhes arquitetónicos – muita majestade para suas majestades. Recordo que o Infante D. Pedro, senhor da Casa do Infantado, futuro Rei D. Pedro III (por casamento com D. Maria I) encarregou o arquiteto Mateus de Vicente de Oliveira de ampliar o que se chamava “Paço Velho”, tudo começara com a Casa de Campo de Queluz, as obras encomendadas por este Infante D. Pedro datam de 1747. Em 1760, com o anúncio do casamento de D. Pedro com a princesa D. Maria com o irmão do rei D. José, iniciam-se obras para transformar este local num espaço de lazer e entretenimento, foi assim que se rechearam sala de aparato como a Sala do Trono ou a Sala dos Embaixadores.

Incendiada a Real Barraca da Ajuda em 1794, o Palácio de Queluz tornou-se residência oficial da rainha D. Maria I, aqui vão também viver os príncipes regentes, D. João (futuro D. João VI) e D. Carlota Joaquina. O Palácio foi habitado em permanência até à partida da Família Real para o Brasil. No seu regresso, a habitação real é intermitente, D. Carlota Joaquina viverá aqui em regime de semiexílio (era declaradamente antiliberal) aqui morrerá D. Pedro IV, no quarto chamado D. Quixote, onde nascera. Recordo igualmente que este Palácio foi classificado Monumento Nacional em 1910 e que a partir de 1957 o pavilhão D. Maria I, ala nascente deste Palácio, passou a ter funções de residência dos Chefes de Estado estrangeiros em visita oficial a Portugal.

A gestão deste monumento pela Parques de Sintra tem sido muito bem sucedida em todos os seus projetos de conservação e restauro, nomeadamente pondo os jardins históricos numa ligação harmoniosa entre a paisagem e a arquitetura palaciana, sente-se perfeitamente essa harmonia passando dos jardins junto dos canais por onde passa a Ribeira do Jamor para o patamar superior, que prima por belos lagos e esculturas.

O Corredor dos Azulejos é também chamado Corredor das Mangas, numa alusão às mangas de vidro que protegiam as velas que se presume terem sido aqui guardadas.
Trata-se de uma sala revestida a azulejos, representando as estações do ano, os continentes, cenas da mitologia clássica, singeries (representações de cenas com macacos), chinoiseries e cenas de caça.

Pormenor da bela Sala dos Embaixadores
Cómoda-papeleira com alçado, Itália, Piemonte, cerca de 1740
Retrato do rei D. Pedro IV representado com o uniforme de Coronel do Batalhão de Caçadores n.º 5, que comandou durante a Guerra Civil Portuguesa.
O Canal de Azulejos, por onde passa a Ribeira do Jamor, tem uma extensão de 115 metros e atravessa os jardins de Queluz, de norte para sul.
Aqui erguia-se outrora a Casa do Lago, também chamada Casa Chinesa ou Casa da Música. Neste pequeno pavilhão tocavam, nas tardes de Verão, os músicos de câmara da Rainha, enquanto a Família Real e a corte se passeavam de barco sobre as águas tranquilas (represadas por um sistema de comportas), apreciando as paisagens fantasiosas dos grandes painéis de azulejos, concebidas a partir de gravuras, representando portos de mar e paisagens variadas.
À noite, ao longo do canal, acendiam-se archotes em forma de cornucópias de talha dourada.

Pormenor do Jardim da Barraca Rica. Esta barraca ficou concluída em 1757, hoje desaparecida, era o elemento central deste jardim, outrora prefusamente decorada com estatuária em chumbo. Construída em madeira, a Barraca Rica compunha-se de sete pequenas divisões revestidas de damasco, com espelhos, tremós e talha dourada. Nesta zona localizam-se hoje três dos mais notáveis grupos escultóricos em chumbo da oficina londrina John Cheere: Caim e Abel, Eneias e Anquises e o Rapto de Perséfone.
Caim e Abel
Esplendor da arquitetura e da escultura, jardinagem formosa, o topo da harmonia
Duas obras-primas do jardim do patamar superior, as esculturas de chumbo de John Cheere foram muito bem restauradas
O Jardim Botânico do Palácio Nacional de Queluz foi construído entre 1769 e 1780, sendo contemporâneo das grandes realizações setecentistas do período barroco-rococó nos Jardins de Queluz. De pequena escala, quando comparado com outros jardins botânicos desta época, Queluz assume uma natureza de entretenimento e recreio. Também designado Jardim das Estufas, este era o espaço onde no reinado de D. Pedro III se plantavam ananases, um dos frutos mais apreciados pela família real. Esta zona estava ornamentada com lagos, bustos e estatuária.
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Nota do editor

Último post da série de 2 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27981: Os nossos seres, saberes e lazeres (733): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1 (Mário Beja Santos)