Bruno foi o seu primeiro ajudante de campo, o capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno (1935-2022) (morreu como general reformado).
António Spínola (1910-1996) quando foi para a Guiné em meados de 1968, escolheu a dedo os elementos da sua equipa, diz o seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues ("Spínola: biografia", Lisboa: A Esfera dos livros, 2010), pág. 106.
Uns vieram de batalhões de cavalaria com provas dadas em Angola:
- como Almeida Bruno (que foi cap cav, of inf op / adj, BCAV 745 , Angola, jan 1965/ fev 1967);
- ou como Henrique Bernardino Godinho (cap cav, of op / inf ( adj), e Rui Mamede Monteiro Pereira (cap cav, cmdt da CCAV 295) oficiais que pertenceram ao célebre BCAV 345, que o Spínola comandou em Angola, como tenente-coronel e depois coronel, entre dezembro de 1961 e fevereiro de 1964.
Além de pertencerem à arma de cavalaria, outro critério era terem sido alunos do Colégio Militar, como ele (que foi o nº 33, no período de 1920 a 1928).
Independentemente da arma de origem e/ou da pssagem pelo Colégio Militar, pesava muito a "competência técnico-militar", que ele reconheceu em militares como Firmino Miguel, Belchior Vieira, Lemos Pires, Pereira da Costa, Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Carlos Fabião.
A alcunha "Aponta, Bruno!”, associada ao António de Spínola, faz parte da Spinolândia, aquele universo meio mítico, meio pícaro, de humor caserna, que se criou à volta da sua figura (e da sua "entourage") durante a guerra colonial na Guiné, e mais exatamente no período em que foi governador e comandante-chefe (maio de 1968 / agosto de 1973).
A expressão ficou célebre porque, segundo relatos de militares da época, Spínola tinha o hábito de mandar , ao seu ajudante de campo, o capitão Bruno, “apontar” (registar, tomar nota, ou até preparar algo com rapidez), muitas vezes em tom perentório.
Quanto às anedotas, elas circulam sobretudo na tradição oral e variam bastante, mas seguem quase sempre o mesmo padrão: brincar com a autoridade do general e a prontidão do Bruno.
- Cap cav Lourenço Fernandes Tomás (1969/72) ;
- Cap Cav Carlos Domingos de Oliveira Ayala Botto (1972/73) (nosso grão-tabanqueiro).
2. A imagem que ficou (muito alimentada pelo humor de caserna e pelas memórias de antigos combantentes, além m da documentação fotográfica) era a de um Spínola teatral, de monóculo, pingalim, luvas e postura aristocrática, de “cavaleiro”, sempre impecável no seu uniforme, e que apontava alvos, reais ou figurados, com determinação e dramatismo. O Almeida Bruno não lhe ficava atrás na pose.
(i) A anedota típica (em várias versões): circulavam versões diferentes, mas o núcleo era mais ou menos este:
Spínola, em visita a uma posição no mato, observa o horizonte com o monóculo e diz, com ar solene:
— Inimigo à vista!...
Pausa teatral.
— Aponta, Bruno!
O Bruno, sempre pronto, apontava…
E alguém murmurava atrás, meio a sério, meio na galhofa:
— Já está apontado, meu general… agora só falta aparecer o inimigo…
(ii) Ou noutra variante mais mordaz:
— Aponta, Bruno!
— P'ra onde, meu general?
— P'ra qualquer lado, homem! O importante é manter a iniciativa!
— Não te preocupes, caga nisso… aponta, Bruno!
Ou seja, tornou-se também sinónimo de “deixa andar” ou “alguém há de tratar disso”.
Noutra versão mais caricatural, durante a IAO ou na carreira de tiro, se alguém falhava um alvo, um outro gritava:
— Ó pá, isso não é nada!... Aponta, Bruno!
Como se o Bruno resolvesse até as falhas da pontaria dos "tugas".
Dizia-se que o Bruno levava a ordem tão à letra que, se o general comentasse algo banal tipo “uff!, que calor”, ele pegava logo no famoso bloco “Aponta, Bruno!”... e lá ficava registado o desafo do comandante-chefe como se fosse ordem operacional.
Resposta típica da tropa:
— Não há problema… aponta, Bruno, que há de aparece, a tempo e horas!”
Entre oficiais mais novos, dizia-se:
— Queres subir na carreira? Não te chateies, não estudes… Aponta, Bruno!
Ou seja, bastava estar perto de quem mandava e cair nas suas boas graças, e ir dizendo ámen (isto é, “sim, meu general”).
— Olha, este!… Pensa que é o Aponta, Bruno, mas vê lá para onde é que apontas! — e virava o traseiro.
Aqui o humor já descambava para o duplo sentido, como era comum na caserna.
— Falta cerveja ?
— Aponta, Bruno!
— Faltam granadas de obus ?
— Aponta, Bruno!
— Eh, pá… essa já nem o Bruno aponta!
3. O que está por trás da graça ?
A piada joga com três traços atribuídos , mal ou bem, a Spínola:
- encenação e estilo pessoal: ele cultivava uma imagem muito forte, quase cinematográfica (embora, curiosamente, não costumasse andar com fotógrafos atrás, até por que o heli AL III tinha limitações de espaço);
- comando muito próximo da frente: visitava posições das NT, aparecia de helicóptero quando menos se esperava, marcava presença no mato junto dos seus soldados;
- dependência funcional e simbólica do ajudante de campo: o “Bruno” transformou-se numa personagem, quase como um escudeiro, um verdadeiro "cromo" (secretário, que tomava notas, mas também era guarda-costas, andando sempre armado).
A outra alcunha,"Caco" ou "Caco Baldé, é diferente, mas a sua origem é mais controversa: mas, dizem, viria sobretudo do contacto com o meio guineense (os "guinéus") e da forma como os africanos reinterpretavam nomes e figuras portuguesas, muitas vezes com humor muito próprio. Caco seria o monóculo; Baldé, um apelido fula vulgar (como o nosso Silva)...
Também aí há histórias, mas são mais difusas e menos padronizadas do que o “Aponta, Bruno!”
(...) O Caco Baldé acaba por ser um nome carinhoso para materializar a popularidade o prestígio de um chefe.
Enquanto que ele tinha operações todos os dias (de todos os tipos e formas); logística (má e insuficiente) todos os dias; gestão de pessoal (insuficiente) todos os dias e todo o resto... e era tudo par ter efeitos ontem, porque amanhã já era outro dia com novos problemas.
António J. P. Costa
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013 às 18:14:00 WET
4.2. Não menos original (e seguramente mais surpreendente) é a leitura que faz o nosso amigo Cherno Baldé [foto à direita] (***)
(...) Caco Baldé tem origens no meio e língua fulas, é uma alcunha bem conseguida e duplamente interessante.
Mais tarde, para simplificar, este termo seria simplesmente utilizado para designar, de forma disfarçada e caricatural, as autoridades coloniais ou seus representantes.
O apelido Baldé seria lindamente encaixado em acréscimo, certamente, seguindo a lógica da brincadeira muito habitual entre grupos que se consideram primos por afinidade (sanguínea ou territorial), a “sanencuia”.
Por exemplo, os Djaló são primos dos Baldé por afinidade sanguínea, da mesma forma que o grupo fula, na sua generalidade, é primo do grupo etnolinguístico mandinga que abrange Saracolés, Soninqués, Bambaras etc., por afinidade territorial.
Também é bastante lógico se tivermos em conta que a maior parte dos chefes tradicionais fulas (régulos) e colaboradores das autoridades coloniais, no chão fula, ou pertenciam a esta linhagem ou tinham este apelido, de modo que é uma homenagem e, ao mesmo tempo, uma caricatura dirigida a linhagem dos Baldé, na minha opinião bem conseguida, por um primo, resultante da brincadeira entre grupos de afinidade, usando a figura da maior autoridade portuguesa, de então, no território da Guiné.
Não tenho a certeza e trata-se de uma conjectura da minha parte como pista para uma pesquisa mais aprofundada. (...)
(Revisão / fixação de texto, títulos: LG)
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