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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27985: Em bom português nos entendemos (31): Carica papaya: Papaieira, mamoeiro, papaia, mamão, ababaia...



Guiné-Bissau >Bissau > Impar Lda > 2019 >  Belíssimo postal de boas festas que nos chegou, com data de 16/12/2019,   de Bissau, no correio do Patrício Ribeiro, "patrão" da empresa Impar Lda. (Na imagem acima, uma papaieira, árvore caricácea que produz a papaia: vê-se que ainda estavam verdes...).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >   O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta" (sem qualquer conotaçãio sexual...), neste caso, a papaia, que ainda estava verde... Em segundo plano , parece-nos o  padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente  em 1953). Ou então é algum oficial, à civil, da CCS/BCAÇ 2885.

Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Bissau > Quintal do Patrício Ribeiro > Abril de 2026 >  Uma papaieira (árvore caricácea que produz a papaia, nome científico Carica papaya).  uma linda papaia madura (parece-nos, pela cor).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Isto de frutas tropicais e subtropicais tem muito que se lhe diga... Papaia ou mamão ? É tudo a mesma coisa, só diferem no tamanho ?... O mamão maior e mais arredondado, e a papaia mais pequena e alongada ?...

Mamão, papaia ou ababaia é o fruto do mamoeiro ou papaeira, árvores da espécie  Carica papaya (nome científico).

A espécie é nativa do sul do México, América Central e norte da América do Sul, estando naturalizada nas Caraíbas, Flórida e diversas regiões de África e Ásia. 

A espécie é cultivada como fruteira no  Brasil, Índia, Austrália, Malásia, Indonésia, Filipinas, Angola, Havai e muitas outras regiões dos trópicos e subtrópicos... A Índia é o 1º produtor mundial, seguida do Brasil... E também cresce, e bem, no quintal do Patrício Ribeiro, o "pai dos tugas", em Bissau (*)...

Diz o Alberto Branquinho: 

"Da minha experiência nas andanças pela Guiné, fiquei com as seguintes ideias:

  • o mamão tem a configuração de um melão pequeno;
  • a papaia (cortada de cima - pedúnculo de fixação à planta - até à parte inferior) tem a configuração de uma viola
Ambos os frutos, quando bem maduros, têm cor idêntica (laranja forte).

Tanto em Cabo Verde como no Brasil encontrei pessoas que chamam mamão a ambas. A palavra 'ababaia' não conheço!"

sábado, 2 de maio de 2026 às 22:58:00 WEST 

2. O que apurámos  na Net, permite distinguir o seguinte:

Eventuais diferenças:

(i) Papaia (Hawai): fruto mais pequeno, peso à volta de 300g / 500g, polpa laranja intenso, muito doce e ideal para comer à colher;

(ii) Mamão (Formosa): fruto maior, pode pesar mais de 1 kg, polpa laranja claro/amarelo, sabor mais suave, ótimo para sucos e saladas.

No Brasil e em Angola, diz-se mamão.
 Mas também papaia: "em Angola utilizam-se os termos mamão / mamoeiro para identificar o fruto mais arredondado, identificando papaia / papaeira com o fruto mais alongado. São frutas ovaladas, com casca macia e amarela ou esverdeada. Sua polpa é de uma cor laranja forte, doce e macia. Há uma cavidade central preenchida com sementes negras". Distingue-ser duas variedades: mamão Formosa e mamão Hawai, que se dão muito em Angola, comforme a zona e o clima. 

Em Portugal,  na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, usa-se mais o termo papaia (e papaia gigante nos mercados em Bissau: vd aqui foto de Cabral Fernandes Yasmine, à direita).

No hiper onde  faço compras (o Auchan Alfragide, passe a publicidade), chamam papaia ao fruto mais pequeno e mamão ao maior... Vem do Brasil o mamão...

Na messe, em Contuboel e Bambadinca, comíamos manga,  papaia, banana e abacaxi. Na época destes frutos... Havia ainda algumas  "pontas" (quintas) em atividade, nos arredores, aonde nos abastecíamos de frutos tropicais... A ponta Brandão, por exemplo, entre Bambadinca e Fá Mandinga... 

Tal como nas tabancas em autodefesa: não me lembro de ter comprado, davam-nas...Mas quentes não tinham o sabor que têm hoje...E, estupidamente, nem sumos fazíamos. Também não tínhamos gelo nem máquinas de sumos... E aos vagomestres faltava-lhes imaginação (e formação)... Havia tantas coisas boas na Guiné. Mas dava trabalho arranjá-las... E estávamos em guerra, tínhamos vinte anos e éramos etnocêntricos (o que quer dizer, sem ofensa para ninguém, estúpidos!)

 Mas, se bem me lembro, comia-se mais o abacaxi e a banana. A manga existia em abundância, era "mato". A papaia era mais rara. Não havia grandes extensões de papaieiras. Era cultura de quintal.  Cada árvore (uma herbácea...) dava meia dúzia de papaias. 

A agricultura da Guiné era de autossubsistência. A guerra deu cabo das "pontas". E pensar  (ironia da História!)  que foi um engenheiro agrónomo (!) do ISA  e um professor de finanças, de Coimbra,  de botas de elástico,   que deram cabo de tudo aquilo... Hoje a Guiné poderia ser um paraíso. 


3.  Valha-nos, ao menos,  a nossa bela e rica língua comum... Vejamos então o que dizem os lexicógrafos (**):  s
egundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa , "papaia" é fruto da "papaieira", e a palavra seria de origem caribe, por via do espanhol. 

(Tenho a edição completa, 6 volumes, do Círculo de Leitores, Lisboa, 2003; uma grande obra, o melhor que conheço, só é pena que o tipo de letra  seja de tamanho pequeno, dificultando a leitura e tornando a consulta penosa para a vista, e portanto menos amigável;  o editor português quis pôr o Rossio na Betesga...)

Sinónimos de papaia: bepaia, mamão, mamoa.

A etimologia vem do espanhol "papaya" (1535), palavra indigena americana , caribe ou aruaque (impossível determinar com rigor a origem, alguns autores inclinam-se mais para o caribe: "papai").

Papaieira é a árvore (Carica papaya, nome científico ). Sinónimos: ababaia, bepaia, mamão, mamoeiro, pinoguaçu...´

Na Guiné-Bissau, e em Cabo Verde, tal como em Portugal, diz-se "papaia" e "papaieira". No Brasil, e em Angola, é "mamão". Veja-se o provérnio crioulo da Guiné-Bissau:

Ami i rasa papaia: N ka ta durmi na bariga di algin (=eu sou como a papaia: não fico parado na barriga de ninguém).

4.  O vocábulo  "ababaye" (ou "ababaya") existe em francês antigo e em alguns dialetos, referindo-se à papaia (Carica papaya). Os franceses, que colonizaram partes das Caraíbas (como a Martinica e a Guadelupe), podem ter adaptado o termo para "ababaye", que depois foi reimportado para o português como "ababaia".A forma "ababaia" em português pode ser um empréstimo ou adaptação desse termo. 

Em Portugal, o termo já não se usa, mas aparece em textos antigos ou em regiões com influência colonial, onde a papaia era cultivada e consumida (regiões tropicais e subtropicais)

Curiosidade linguística: a papaia (Carica papaya) é originária da América Central, mas espalhou-se pelo mundo através dos colonizadores. Os franceses, que também tiveram presença em África e nas Antilhas, podem ter introduzido o o termo "ababaye" em algumas regiões lusófonas, onde depois foi adaptado para "ababaia".

Os caribes são um povo indígena das Caraíbas, conhecidos pela sua resistência à colonização europeias.  É interessante as "voltas" que as palavras dão...

Em Cabo Verde, diz-se "papaia",
é um dos fabulosos frutos tropicais
que as ilhas produzem

5. No mundo lusófono, não há registos conhecidos de "ababaia" como termo corrente para papaia. No entanto, o Dicionário Houaiss regista-o. 

No Brasil, "ababaia" também aparece como gíria ou calão para genitália feminina em português. Mas terá  uma origem mais provável no tupi do que no francês.   (Com esta aceção, o Houaiss não regista o termo, encontrámo-lo noutras fontes).

Segundo a  ferramenta de IA que consultámos  (Le Chat / Mistral AI), "ababaia" aparece em dicionários de tupi antigo (ou tupinambá) como termo relacionado com a vulva ou órgão sexual feminino.

Em tupi, "aba" pode significar "homem" ou "pai", mas também aparece em compostos com sentido erótico ou anatómico. "Baia" (ou "aia") pode estar ligado a "abertura" ou "local", mas, em contexto brejeiro o termo foi adaptado para o calão.

O vocabulo é documentado em obras como o "Vocabulário na Língua Brasílica" (século XVII), de Luís Figueira, onde constam palavras de origem tupi para partes do corpo, incluindo termos tabu.

No português brasileiro, "ababaia" é gíria antiga (e hoje menos comum, omisso na "Bíblia da Língua Portuguesa" que é o Dicionário Houaiss) para designar a genitália feminina, especialmente em contextos de calão ou linguagem pícara, brejeira ou até pornográfica.

Aparece em literatura erótica ou popular, como em modinhas, cordéis ou até em obras de Gregório de Matos (século XVII), que usava termos indígenas em seus poemas satíricos.

"Ababaye" em francês não tem registo como termo para genitália feminina. A hipótese francesa é mais plausível para papaia (fruta), mas não para este sentido anatómico. 

6. A influência tupi no português brasileiro é massiva em gírias, especialmente em termos relacionados com o corpo, sexo ou natureza. Exemplos:

  • "Pindorama" (terra das palmeiras, nome indígena para o Brasil);
  • "Cunhã" (mulher, em tupi);
  • "Perereca" (sapo, mas também gíria para genitália feminina).


Em Portugal, o termo "ababaia", não sendo hoje corrente, pode ter chegado, por influência brasileira, através de marinheiros, comerciantes ou imigrantes que trouxeram a gíria. Ou da literatura e do teatro, em obras que retratavam o Brasil colonial ou a vida nos trópicos.

O uso de termos indígenas para partes íntimas (ou "vergonhosas") reflete: 

(i) tabu e eufemismo: os povos indígenas tinham palavras específicas para o corpo, que foram adotadas  (e ao mesmo tempo "interditas") pelos colonizadores; 

(ii) resistência cultural: mesmo em contextos de opressão, a língua tupi sobreviveu no calão e na gíria, como forma de resistência.

Em português,  a vulva é conhecida por termos da gíra e calão como pipi, pipica (informal, entre crianças e adolescentes); pito, pepeca, ostra, entrefolhos,  nêspera, greta, papaia (informal, entre os adultos).

(Pesquisa: LG +  IA (Le Chat / Mistral AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG).
________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. psiste de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27978: Bom dia. desde Bissau (Patrício Tibeiro) (64): Hoje, Dia do Trabalhador, foi tudo para a praia.. Só cá ficaram os que saíram na 3ª caravela do Vasco da Gama, na passagem para a Índia, como eu...

domingo, 3 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27984: No 25 de Abril eu estava em... (42): De férias, em Alquerubim, já com 17 meses de comissão...E tinha tudo para odiar a terra que me serviu de lar em ambiente de guerra, durante quase dois anos... Mas, não, passei a lá ir todos os anos... (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351, 1972/74)

 


Guiné-Bissau > Bissau > Hotel Coimbra > 31 de março de 2026 > De novo, na Guiné-Bissau, em 2026, o nosso João Melo, aqui à direita, em primeiro plano, com a Inês Allen (ao fundo, de pé) e os "metralhas de Empada"

Escreveu o João Reis Melo, na sua página do Facebook, no passado dia 3 de abril de 2026, 12:41:


"A jovem Inês Allen, filha do nosso camarada e antigo combatente Xico Allen, tem com muito empenho mantido a cooperação iniciada pelo seu pai na Guiné-Bissau, mesmo após a sua ausência com principal incidência em Empada. Quis o acaso, que desta vez nos cruzássemos em solo guineense!
Estão assim todos os "Metralhas de Empada" e os "Tigres de Cumbijã" em uma sintonia perfeita.

Quando gente de bem, de coração aberto e bom se reúne, a vontade de continuar e aumentar estas cooperações evoluem na tentativa de minorar tantas lacunas!

Foi bom conhecê-la – a ela e a toda a equipa que com ela está empenhada.

Fica aqui um registo desse encontro, feito na passada terça-feira, 31 de março no Hotel Coimbra em Bissau. Um bem-haja a todos!"





Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Abril de 2026 > Singela (mas sincera) homenagem das gentes de Cumbijã ao seu "benfeitor", João de Melo.


Fotos (e legendas): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  Postagem do nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo) (ex-1º cabo cripto, CCAV  8351/72,  "Os Tigres do Cumbijã", Cumbijã, 1972/74). na sua página do Facebook, em 26 de abril de 2026, 13:38; natural de Alquerubim, Albergaria-A-Velha, distrito de Aveiro,  profissional de seguros, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha; integra a Tabanca Grande desde 1/3/2009.


O "Meu" 25  de Abril

por  João Reis Melo


Hoje celebramos o dia em que Portugal voltou a respirar. O dia em que um povo inteiro acordou com a notícia que mudaria para sempre o seu destino. O dia em que a coragem falou mais alto do que o medo, e em que a esperança venceu o silêncio: o 25 de Abril de 1974.

A essa data, eu era militar, servia a Pátria na antiga Província da Guiné (atual Guiné-Bissau), no meio de uma guerra longa, dura e cheia de incertezas, e das quais a mais preocupante,  na altura, era a possibilidade de poder não voltar.

Casualmente, estava de férias em Portugal,  já com 17 meses de comissão. E foi aqui, longe do teatro de guerra, mas perto do coração do país, que assisti ao início do fim de um tempo que parecia não ter fim.

Há datas que não pertencem apenas ao calendário,  pertencem à memória, à identidade e ao futuro de um país. O 25 de Abril é uma dessas datas. 

O 25 de Abril trouxe-nos algo que muitos julgavam impossível: entre elas, o fim da guerra do Ultramar e o regresso da esperança.

Mas Abril não foi apenas um acontecimento militar. Foi, acima de tudo, um ato de cidadania coletiva. Foi o povo nas ruas, os cravos nos canos das espingardas, os abraços entre desconhecidos, a alegria que transbordava das janelas e das praças. Foi a certeza de que ninguém pode calar para sempre um país inteiro.

Hoje, passados tantos anos, Abril continua a chamar por nós:

  • Chama-nos a defender a liberdade, porque nenhuma conquista é eterna;
  • Chama-nos a proteger a democracia, porque ela vive do nosso compromisso diário;
  • Chama-nos a combater a desigualdade, porque a liberdade só é plena quando chega a todos;
  • Chama-nos a participar, a questionar, a sonhar, a agir.

Abril, trouxe-nos a liberdade, não só de expressão, mas de futuro. De repente, abriu-se um caminho novo, onde antes só havia desgaste, medo e resignação.

Para quem viveu a guerra, como eu, o significado foi ainda mais profundo. Foi o fim, de uma realidade pesada e o início de uma reconciliação com a vida, com as famílias e com o próprio país. Para quem esteve lá, para quem viveu o conflito por dentro, aquele dia teve um significado impossível de esquecer.

Hoje, mais do que recordar, importa tudo fazer o que esteja ao nosso alcance para que os vindouros não tenham de passar por tudo o que os seus ascendentes foram obrigados a passar.

Celebrar Abril não é repetir slogans,  é assumir responsabilidades. É garantir que nunca mais haverá portugueses impedidos de pensar, de falar, de votar, de ser. É lembrar que a liberdade não é um dado adquirido: é um trabalho permanente.

É também reconhecer aqueles que, antes de nós, arriscaram tudo. Os que foram presos, perseguidos, censurados. Os que lutaram nas sombras para que hoje pudéssemos viver à luz. Os que acreditaram que Portugal podia ser maior do que o medo.

Portugal nunca poderá esquecer os cerca de 10 mil  jovens portugueses que,  quando se despediram das famílias, nunca imaginariam que seria a última vez. Dos mais de 20 mil feridos graves e inválidos.Dos c. 150 mil  jovens que vieram e mantiveram distúrbios e sequelas psicológicas.

Também não devemos esquecer os mais de 45 mil civis e guerrilheiros dos movimentos de libertação, que perderam a vida durante os 13 anos que duraram os conflitos.

A melhor homenagem que lhes podemos prestar é continuar a construir o país que imaginaram: um país mais justo, mais solidário, mais culto, mais livre.

Eu tinha tudo para ter de odiar a terra em que me serviu de lar em ambiente de guerra, durante quase dois anos. Particular e inexplicavelmente, acontece exatamente o contrário: faço hoje, juntamente com a minha esposa Maria do Carmo, visitas quase anuais, de voluntariado junto de umas centenas de alunos das escolas da aldeia de Cumbijã, na Guiné-Bissau, onde estive estacionado a cumprir o serviço militar obrigatório.

Hoje, ainda posso sentir o cheiro daquela terra africana, quente e húmida, com aqueles odores que se entranham na alma, resultado de uma miscelânea de odores, desde as flores da goiaba, do mango e do caju, misturados com o da lenha queimada que serve diariamente de fonte de calor nas suas cozinhas. Cozinhas essas, feitas sobre três pedras poisadas no chão…. 

Hoje, ainda posso recordar aqueles olhares de felicidade e esperança no futuro que guardo desde poucas semanas atrás, dia em que vim de junto deles; é para mim um lenitivo para continuar e, dentro das minhas possibilidades,  manter enquanto a vida me o permitir.

E porque Abril não é passado, é futuro. E o futuro constrói-se todos os dias, com cada gesto, cada escolha, cada voz.

Por tudo isto, neste 25 de Abril, deixo uns apelos simples:

  • Que nunca deixemos de lutar pelos valores que nos trouxeram até aqui;
  • Que nunca deixemos que o medo substitua a esperança;
  • Que nunca deixemos que o silêncio substitua a palavra;
  • Que nunca deixemos que a indiferença substitua a participação.

Porque naquele dia, ganhámos muito mais que o fim de uma guerra. Ganhámos um novo começo. E enquanto houver memória, verdade e coragem no coração de Portugal… o 25 de Abril nunca acabará.

Viva a Liberdade. Viva a Democracia. Viva o 25 de Abril!

Alquerubim, 25 de Abril de 2026

João Reis Melo

(Revisão/ fixação de texto, negritos,  

______________

Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27983: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte III: semana de 17 a 23 de fevereiro: finalmente a caminho de Boebau... de "motor" (motorizada)



Timor Leste > Fevereiro de 2018 > Escola São Francisco de Assis (ESFA), em Boebau, Manati, Liquiçá, inaugurada em 19 de março de 2018. E os difíceis acessos a Boebau (na foto nº 2, o Rui Chamusco teve de se apear da moto, ei-lo em segundo plano, à frente da moto e do condutor). Sáo cerca de 50 km, de Dili até Boebau, na montanha, que podem demorar 4 a 5 horas, na época da monção. Entretanto foi comorada uma viatura com tração âs quatro rodas... E os melhores têm vindo a melhorar...


Foto da página do Facebook da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste (com a devida vénia...)



1. Estamos a publicar excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste (fazem parte de um ficheiro em pdf, de 273 páginas, com todas as suas crónicas de viagem àquele país lusófomo, desde 2016, e que ele disponibilizou aos membros da ASTIL e demais amigos, em 28 de maio de 2025).

Já publicámos excertos das crónicas da I viaggem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).   Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Este ano de 2026, irá por razões de saúde.

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Entendam, caros leitores, a publicação desta série como uma pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016, por solidariedade com o povo timorense e  as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá (um topónimo que tem uma carga emocional muito grande para os timorenses que sofreram a brutakl ocupação inmdonésia, de 1975 a 2002, mas também para os portugueses que lá estavam na II Guerra Mundial) (**)

É também uma forma de a gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós. Ser solidário com quem é solidário é também uma das nossas formas de ser estar dos amigos e camaradas da Guiné, alguns dos quais também são amigos de Timor-Leste.

O Rui é membro da  Tabanca Grande ( nº 886), de 10 de maio de 2024. E preside à ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste. com sede em Coimbra. O João Crisóstomo,  o "nosso régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona, é também membro da ASTIL, fundada por Rui Chamusco, Gaspar Sobral e Glória Sobral.

O Rui tem tido problemas de saúde que o obrigaram a fazer uma intervenção cirúrgica, delicada, no Hospital Curry Cabral. Estava na Lourinhã a recuperar. Mas voltou a sentir-se mal e está de novo internado. O João Crisóstomo acaba de me telefonar de Nova Iorque, visivelmente preocupado. Fazemos votos para que o Rui recupere de novo, e rapidamente, de mais este susto. 


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 17 a 23 de fevereiro

por Rui Chamusco



Rui Chamusco,
Lourinhã (2017)

17.02.2019, domingo  - Do outro lado do mundo

Hoje, domingo, dou comigo a pensar no outro lado do mundo, mais concretamente nos territórios que frequento: Malcata, Sabugal, Lourinhã. A estas horas oiço os sinos a tocar, vejo as pessoas apressadas a caminho da igreja, espreito os homens na Torrinha pondo as conversas em dia. 

Dizem que no Sabugal, o domingo é o dia mais morto da semana, porque lhe falta a maioria da juventude das escolas, mas sei que por lá também os sinos tocam ao domingo e as pessoas são devotas e vão às igrejas.

Já na Lourinhã, ouço o ruído das ondas, vejo o frenesim da gente que enche os
supermercados para se aviar, sinto o prazer de tomar um café na praia e de curtir algum tempo ao sabor do sol e da brisa do mar.

Neste outro lado do mundo, em Ailok Laran-Dili, é um regalo ver quem passa, crianças, jovens e alguns adultos bem anafaiados porque vão à catequese e à missa.

Muita juventude que, crente nos ensinamentos que lhes transmitem, procura nas celebrações religiosas ocasião para manifestar a sua fé, rezando mas sobretudo cantando. E mesmo que a fé que temos não seja mola suficiente para nos levar a esses locais, muitas vezes por comodismo, vale bem a pena aproximarmo-nos para ouvir e saborear os seus cânticos, as suas melodias e harmonias.

E, porque hoje é domingo, estamos em sintonia e em sinfonia, graças à música, com os dois lados do mundo, com o universo...

17.02.2019 - Ai haunek e a malária

Esta tarde aprendi mais uma receita., para combater a malária. Mesmo em frente, de quem olha da varanda da casa (em construção) vê-se uma árvore de grande porte, que por isso mesmo ressalta aos nossos olhos. Quis saber que árvore é aquela. E entao o Eustáquio deu-me uma verdadeira lição sobre a mesma. Chama-se Ai haunek, e produz kerosina. 

Antigamente faziam-se pratos da sua madeira. Os rebentos novos das folhas cozem-se e podem ser acompanhadas com arroz. A casca do tronco é cozida e o chá daí resultante é bebido para combater a malária.

Tantos ensinamentos, a partir de uma boa utilização da natureza. E nós a pensar que já sabíamos tudo! Vai lá, vai...

18.02.2019, segunda feira  - Estes “pequenos heróis”!...

Esta tarde, junto ao Pateo, encontramos algo que aqui em Dili é habitual. Um senhor de pequena estatura, carregando aos ombros creio que dez frutos de kulo, tentando vender a sua mercadoria. Cada fruto pesa no mínimo uns seis quilos, que multiplicado por dez vai aproximadamente para os cinquenta quilos. 

Era impressionante olhar para esta figura franzina com tanto peso às costas. De modo que disse ao Gaspar para lhe comprarmos um fruto a fim de aliviarmos o homem. 

Pediu dez dólares, mas vendeu por cinco. Em curta conversa ficamos a saber de que, este “pequeno herói” veio assim carregado desde Dare, que fica a três-quatro quilómetros daqui, e assim tem passado o dia vergado ao peso deste apreciado fruto que mais parece uma grande pinha.

Despediu-se de nós profundamente reconhecido pelo nosso gesto, com pequenas vénias e palavras onde os seus olhos diziam tudo. Que sacrifícios esta gente passa para poder ter uns dólares no bolso...


Gaspar Sobral,
 Lourinhã (2017)

18.02.2019 - Dia de festa...

Faz hoje 69 anos que o Gaspar veio ao mundo, logo de madrugada, o segundo de sete irmãos desta grande família Sobral. E por morte do irmão mais velho, o José Sobral, Gaspar é neste momento respeitado como o chefe deste clã familiar.

Foi preciso que os outros, eu incluído, se lembrassem desta efeméride, porque o
Gaspar nem se lembrava que fazia anos. Então logo de manhã, ao sair do seu quarto,
lá estava eu a cantar-lhe os parabéns e a dar-lhe um abraço apertado.

 Não sei se durante o dia se lembrou mais alguma vez de que faz anos no dia 18 de Fevereiro. Aparentemente não. Mal sabia ele o que lhe estava preparado logo à noite, após a nossa chegada de Dili. Um bolo de anos personificado, também com as velas 69, com champanhe e tudo, 
e boa parte da família a festejar o homenageado. 

Durante a tarde, eu,  o Eustáquio e a Adobe (sua mulher),  fomos às compras e, mesmo viajando connosco, o Gaspar de nada desconfiou. Por isso nada estranho a sua euforia quando, em direto para Portugal, mostrava à Glória (mulher) e à Bene (filha) o ambiente festivo que aqui se estava a viver.

Pois é meu amigo! Os amigos são para as ocasiões. E fazer 69 anos de vida só acontece uma vez. Muitas felicidades e muitos anos de vida!...

18.02.2019 - a fúria da Ribeira Malôa

Em tempo de inverno, quase todos os dias chove em Timor. Esta tarde foi mais uma das chuvadas habituais. Mas eis que sou alertado para ir ver a ribeira Malôa que passa aqui mesmo ao lado.

Impressionante! Como é que, com mais ou menos uma hora de chuva, se acumulou tanta água no leito desra ribeira, que está quase sempre seca? Mas a prova estava à vista. Dos lados de Dare, vinha correndo com tanta força, aos turbilhões, que ninguém ousava qualquer desafio ou brincadeira. Era perigoso demais. De modo que todos nos limitávamos a ver e a comentar. Por acaso consegui documentar a situação fazendo pequenos videos no meu iphone. 

À noite, vimos a ribeira que atravessa a cidade de Dili, já com o seu caudal mais suave, mas mesmo assim impressionante. E se há males que vêm por bem, esta enxurrada de hoje teve o condão de limpar todo o leito desta ribeira, que normalmente está cheio de porcaria, nomeadamente plásticos e latas.

Claro que todo este lixo teve que ser despejado nalgum lado. E está-se mesmo a ver que esta lixeira foi para o mar. Infelizmente continuamos a entupir os oceanos. Tão mal que tratamos o mar!...

18.02.2019 - Encontro de amigos

Pela segunda vez combinamos encontrar-nos: eu, o Rui Pedro [comandante de fragata Rui Pedro Ferreira, destacado em Timor-Leste, em serviço durante um ano, e que tem ascendentes com origem em Malcata, Sabugal],  o Gaspar, o Eustáquio num pequeno restaurante à beira mar, em jantar (peixe assado, claro está!) e sobretudo em amena conversa que nos une e motiva a nossa presença neste canto do mundo.

Tudo veio à baila: histórias de família, ligações com Malcata, andanças de cada um, sobretudo do Gaspar. Perguntou-lhe o Rui Pedro "como é que foi a ter a Malcata?” E então o Gaspar, que nasceu em Timor, percorreu uma boa parte do mundo para tentar explicar a sua aterragem em Malcata, Sabugal: Lisboa, Angola, Lisboa, Castelo Branco, Fundão, Sabugal, Malcata, Coimbra... Claro que o Gaspar demorou muito mais tempo a explicar.

E para não faltar nada, uma chamada de Portugal para o iphone do Rui Pedro: A
Susana, sua namorada. Tivemos o prazer de nos conhecermos a tantos quilómetros de distância. Desejo-vos todo o bem do mundo porque, pelo que me apercebi, vocês são duas pessoas extraordinárias.

É de salientar, sempre que nos encontramos, a paixão e o entusiasmo com que todos falamos de Timor, das suas gentes, e dos projetos que cada um tem em mãos e tenta pôr em ação. Aprendemos sempre muito uns com os outros. Por isso tenho a certeza de que estes pequenos encontros irão continuar.



19.02.2019, terça feira  - As obras da casa do Vitor

Hoje poderemos dizer que é o princípio da reconstrução da casa do Sr. Vitor, ainda
que os primeiros trabalhos sejam de destruição. Com efeito, depois de uma visita ao local, onde podemos falar com os principais intervenientes, os filhos do Vitor (o
Francisco até é pedreiro), chegou-se à conclusão de que a primeira coisa a fazer seria abater uma árvore, a manga que ocupa boa parte do terreno destinado à reconstrução.

Feito o negócio com um cortador profissional, procedeu-se de imediato ao corte,
A seguir virão as carradas de pedra e de areia que lhes permitirá fazer a base. Então
para que se saiba, o acordo ficou assim: a Astil, através de doações de alguns sócios e outros amigos mais sensabilizados que contribuiram expressamente para esta obra, suportará as despesas dos materiais, e os filhos e amigos da família Vitor oferecem a mão de obra. 

Foi-nos dito pelo filho Francisco que, se os materiais não faltarem, mais ou menos daqui a três meses a casa estará pronta, em condições de ser habitada.

Neste momento uma grande chuvada, com trovoada e tudo, está descarregando aqui, em Ailok Laran. Mas a grande árvore já está no chão, e acredito que a boa vontade dos que estão envolvidos neste caso irá fazer com que a obra avance. De todas as formas, cá estarei eu para impulsionar esta obra solidária e para vos transmitir as notícias relativas à mesma.

20.02.2019, quarta feira  - Notícias matinais

Depois da chuvada torrencial de ontem à tarde ficamos com alguma apreensão do que teria sucedido por este país fora. Logo de manhã, não tardaram algumas notíciasarrasadoras. Na estrada entre Tibar e Liquiçá, um avião bimotor, talvez um taxi do governo pois ostenta na sua cauda a bandeira timorense, está, aparentemente sem consequências trágicas, embatido, notando-se bem os estragos nas suas asas depois de uma aterragem forçada.

Em Comoro, na zona circundante da praia, um bis / bus ( pequeno autocarro que
transporta pessoas e bens para as terras mais distantes) foi arrastada pela corrente da ribeira Maloa, causando o pânico nos seus ocupantes e em todos os que de fora
presenciavam o acontecimento. A preocupação e a curiosidade de todos era saber se tinha havido vítimas e quantas. E perante tanta ansiedade o jornalista que comentava a reportagem informou: “não houve vítimas.” Houve, sim, um grande susto, e possivelmente a perda de alguns bens que, como bem sabemos, são transportados sem o mínimo de condições de segurança.

Pois é! Ninguém brinca com as forças da natureza... E todo o cuidado é pouco...


23.02.2019, sábado - A caminho de Boebau

Sempre que se toma a decisão de ir a Boebau há um certo frenesim e um nervoso
miudinho em preparar as mochilas e o meio de viajar. O mais comum é o “motor”
(motorizada). Mas tudo serve: motor, carreta, anguna... Só de avião ou de barco não se pode lá chegar.

Hoje a partida de Ailok Laran  [o  bairro de Díli onde o Eustáquio e a Adobe, e onde o Rui fica], pelas 16.00 horas, foi em três “motores”  [motorizadas];

Bartolo + Gaspar, Venâncio + Rui, Akesu + Adobe. 

Chegamos às 18.30 horas. Tivemos muita sorte, porque durante a viagem não choveu, coisa que aconteceu cinco minutos depois de arrivarmos. Tudo bem, embora convenhamos que, com setenta e dois anos em cima, esta viagens deixem as suas marcas e mazelas corporais. Vale-nos ao menos a boa vontade, mas vamos lá a ver até quando esta massa corporal suportará estas agruras.


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de 
São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o acesso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar), bem da ASTILMB. Em 2019 ainda não havia a casa dos professores, o que já há.
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


23.02.2019 - Sabores e dissabores

O dia de hoje foi destinado particularmente a inteirar-nos da situação da escola, ouvindo alguns dos seus agentes para podermos tirar algumas conclusões que ajudem a resolver alguns conflitos. 

Não tem sido fácil tomar decisões, pois uma das partes não apareceu na reunião previamente convocada. Temos muitas questões a esclarecer, mas estou convencido que com a boa fé e a vontade de todos tudo se resolverá.

Neste momento, das 75 crianças inscritas só 40 crianças do ensino pré escolar frequentam a escola São Francisco. Todas as outras foram matriculadas na escola de Kilo, que é a escola mais próxima. Há uma certa revolta dos pais destas crianças porque se sentem enganadas. Disseram-lhes que esta escola era para os seus filhos, e afinal têm que frequentar a outra escola. Claro que a solução não está nas nossas mãos, ainda que procuremos junto de instituições e particularmente junto do ministério de educação timorense, ajuda e resolução destes problemas. 

Mas neste momento, a ASTILMB (ASTIL Manati / Boebau,  a ASTIL local) não tem capacidade para motivar e pagar a professores que queiram lecionar em Boebau. Ainda não podemos oferecer condições mínimas de habitabilidade a professores voluntários ou contratados

. A Escola de São Francisco de Assis tem o estatuto de ensino privado / particular. E embora estatutariamente contemple o ensino pré-escolar e o ensino primário (ensino básico), ainda não temos capacidade de resposta para todas as necessidades desta famílias e destes alunos.

Por outro lado, custa-nos a entender alguma ingerência do ensino público, na pessoa da professora Rita, no nosso ensino que é particular / privado. Ainda não percebemos porque aparece esta professora como coordenadora da nossa escola. Vamos tudo fazer por esclarecer esta situação.

Como se vê, há problemas em todo o lado. Compete-nos tudo fazer por resolvê-los... e encontrarmos soluções adequadas.

23.02.2019 - Amanhã é dia de festa...

Esta tarde há alguma azáfema em preparar a receção aos visitantes. Uma visita pré- anunciada e muito esperada: o Padre frei Fernando Alberto, provincial dos missionários capuchinhos em Portugal, o frei Tinoco, da fraternidade dos capuchinhos de Tíbar, e o Rui Pedro, comandante de fragata em serviço em Timor Leste,  vêm cumprir a promessa que me fizeram: visitar a Escola de São Francisco em Manati/ Boebau (ESFAMB).

Do programa consta a celebração da missa dominical, que aqui, por sorte, tem lugar uma vez por ano. Também a igreja abandona os seus fiéis. Porque o acesso é difícil; porque não há padre; porque... Razões esfarrapadas a quererem justificar atitudes comodistas.

Por isso amanhã será dia de festa, e tudo se prepara para que assim seja. Não há igreja, não há sinos a badalar, mas esta gente já espalhou a notícia por todo o ladoUm bom grupo de voluntãrios estão preparando devidamente o local. As canas enormes de bambú e as lonas que as sobrepôem já são visíveis. E amanhã de manhã se fará o resto.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos: LG)

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Notas do editor LG:

(**) Liquiçã, um topónimo doloroso: carrega uma forte carga simbólica e emocional para dois grupos diferentes: para os timorenses, como lugar de violência extrema no final da ocupação indonésia; para os portugueses, como um dos cenários da experiência traumática da ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial.

(i) Para os timorenses (ocupação indonésia, 1975–2002)

Liquiçá (cidade e sede e município) tornou-se um símbolo de sofrimento sobretudo por causa do que aconteceu em 1999, já no fim da ocupação indonésia. A chamada Massacre de Liquiçá ocorreu em abril desse ano, quando milícias pró-indonésias, com apoio ou tolerância de setores das forças de segurança, atacaram civis que se tinham refugiado numa igreja. Houve dezenas de mortos (o número exato continua debatido, há quem fale em duas centenas), e o episódio ficou como um dos mais marcantes da violência que antecedeu o referendo de independência organizado pela ONU.

Esse período insere-se na mais vasta ocupação indonésia de Timor-Leste, que causou enorme destruição, deslocamentos forçados e perda de vidas. Por isso, Liquiçá permanece um lugar de memória dolorosa para muitos timorenses.

(ii) Para os portugueses (II Guerra Mundial, 1942-1945):

Durante a Segunda Guerra Mundial, Timor, terriotório sob administração portuguesa, foi invadido pelo Japão em 1942, apesar da neutralidade de Portugal. Em consequência da ocupação japonesa de Timor, militares portugueses e civis foram capturados e internados.

Liquiçá foi um dos locais onde existiram campos de internamento e onde passaram prisioneiros portugueses (e também outros, incluindo timorenses e aliados). As condições eram duríssimas ( fome, doença e trabalho forçado) e muitos não sobreviveram. Embora não seja o único local associado a esse sofrimento (Aileu é também lembrado pelo massacre de 1/10/1942, perpretado pelas "colunas negras"),

 Liquiçá também faz parte das nossas geografias emocionais.


Guiné 61/74 - P27982: Parabéns a você (2481): Delfim Rodrigues, ex-1.º Cabo Aux. Enfermeiro da CCAV 3366 / BCAV 3846 (Susana e Varela, 1971/73)

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Nota do editor

Último post da série de 1 de Maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27974: Parabéns a você (2480): Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil Cav da CCAV 703 / BCAV 705 (Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66)

sábado, 2 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27981: Os nossos seres, saberes e lazeres (733): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Desta feita vim até à mais conhecida residência real setecentista. Aqui impera o barroco e o rococó, há momentos em que parece que estamos a ver cenários de ópera, a carga decorativa é imensa, basta olhar para as balaustradas, com estátuas, no jardim superior, em frente ao Jardim de Neptuno, o lago perfila-se diante da fachada Robillon. Conhecer a história deste Palácio é entrar na vida de uma corte que a seguir ao terramoto de 1755 se prantou na Real Barraca da Ajuda, e houve sonhos de grandeza, daí a adesão a diferentes estilos, onde não falta a influência neoclássica. Quando se incendiou a Real Barraca, em 1794, Queluz passou a ser residência da Família Raal. As grandes obras de restauro começaram em 1933, houve um terrível incêndio em 1925 que consumiu a Sala dos Embaixadores, coube ao arquiteto Raul Lino dirigir as obras. Vinha com curiosidade de ver os trabalhos de restauro mais recentes, nunca me fora dado a visitar a capela, ainda há trabalhos em curso, mas é um espaço imponente, goste-se ou não dos barrocos ao gosto italiano. E satisfiz a minha gula em porcelanas e cerâmicas, como aqui vos conto.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (115):
No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1


Mário Beja Santos

Pelas minhas contas, o Palácio Nacional de Queluz tem aproximadamente 280 anos, se se tomar como referência a data de arranque das grandes obras iniciadas pelo Infante D. Pedro, em 1747. Partiu-se da residência da família Corte-Real, os seus bens tinham sido confiscados depois da Restauração e integrados no património da Casa do Infantado. O Palácio irá adquirir a dimensão de Palácio Real, as vicissitudes por que passou espelham as últimas décadas do absolutismo, o gosto do final do barroco e a sua exuberância rococó, os ricos investimentos em decoração, pintura, mobiliário, artes decorativas, com realce para a cerâmica. A partir da década de 1750, e até ao falecimento do rei consorte D. Pedro, ocorrida em 1786, seguida da morte prematura do príncipe herdeiro D. José, a Real Quinta de Queluz conhece um primeiro período de habitação real marcada por uma vivência lúdica e festiva. É o que se pode visitar na opulenta Sala do Trono, Sala dos Archeiros até à sala de música, sem me querer esquecer a Sala dos Embaixadores que viveu um incêndio devastador e conheceu a sua reabilitação acompanhada pelo arquiteto Raul Lino. Por aqui andou um dos grandes arquitetos, escultor e gravador do seu tempo, Jean-Baptiste Robillon.

Queluz ganhará o estatuto de residência permanente da Família Real após o incêndio em 1794 da Barraca Real da Ajuda, era habitação real desde que o terramoto de 1755 destruíra, daqui partiu D. Maria I e o regente D. João e mais membros da Família Real para o Brasil, em novembro de 1807. Junot levou daqui uma série de peças, e até sonhou instalar em Queluz o próprio Napoleão. Família Real regressa a Portugal em 1821, houve obras da recuperação do Palácio. Aqui faleceu em 1834 D. Pedro IV. D. Maria II e o seu marido, D. Fernando II, irão preferir Sintra e o Palácio da Pena. O rei consorte até aproveitou a oportunidade para deslocar algum recheio para os jardins do Palácio das Necessidades, Alfeite e Tapada da Ajuda. Só há notícia que D. Luís e D. Maria Pia passaram em Queluz o verão de 1874, e D. Carlos e D. Amélia fizeram visitas esporádicas e obras de beneficiação, caso da Sala de Jantar, Sala do Café e Sala de Fumo. Veio a República, por aqui andou uma escola agrícola e a partir de 1955 passou a ser residência oficial de Altos Dignatários e Chefes de Estado em visita oficial ao nosso país.
Começa a visita pela Sala do Trono, de que guardo as melhores memórias e conto porquê.

Dá gosto ver as benfeitorias, tudo bem dourado e estucado, até os tetos ganharam relevo, dá gosto olhar lá para cima. Tive o privilégio de aqui assistir a concertos memoráveis no âmbito do Festival de Música de Sintra. Vi e ouvi pianistas de grande craveira como Sequeira e Costa, Aldo Ciccolini, Maria João Pires, Andreas Staier, Vladimir Ashkenazy e Ivo Pogorelich. Não resisto a contar histórias destes dois últimos. As cadeiras eram douradinhas e com palhinha, um senhor que era vereador, bem pesado, dispunha desconfortavelmente da sua corpulência na cadeira elegante mas frágil; tocava Ashkenazy, uma conhecida sonata de Beethoven, quando se ouviu um estalo e caiu um dos pés da cadeira, o senhor, com ar muito encavacado, bem tentava manter o equilíbrio; Ashkenazy levantou-se, pôs o pé da cadeira ao pé de si e deu-lhe um lugar que é reservado a quem faz mudanças nas partituras, o vereador só olhava para o chão; fim do concerto e depois de vários extras, Ashkenazy pegou no pé da cadeira e mandou a assistência segui-lo, era hora de todos irmos para a cama.

Com Ivo Pogorelich foi mais dramático. Era uma noite quentíssima, quem financiava o recital era a EDP, vieram as senhoras dos diretores, bem encasacadas, à entrada ofereceram-lhes belos ramalhetes de rosas envolvidos numa película de celofane. Pouco antes de se iniciar o concerto, veio uma menina informar que o senhor que a seguir ia dar o concerto exigia que as portas fossem todas fechadas, não queria palmas, nada de interrupções enquanto ia tocar as suites inglesas de Bach, seguiam-se obras de Rachmaninoff, e depois uma catadupa de Scriabin. O que interessa é que algumas daquelas senhoras ficaram ofegantes dentro da estufa em que se tornou a Sala do Trono, uma delas teve o sacrilégio de começar a remexer no celofane, o genial pianista lançou-lhe um olhar terrível, eu estava em frente e vi como a senhora ficou intimidada, de mansinho pôs as rosas no chão, as senhoras iam fazendo manobras para tirar os casacos impróprios para aquela sauna. Mas estou felicíssimo agora com estes restauros, tudo brunido e luzidio, se por aqui aparecesse Luís XV seguramente ficaria enternecido.

A Sala de Música também teve beneficiações, lá ao fundo D. Maria I olha-nos atentamente, tenho a impressão de quando ela ouvia aqui o cravo bem temperado aqueles dois jarrões não existiam.
É a primeira vez que vejo a Capela Real de Queluz. É um deslumbramento de volumes, formas e conteúdo que não me enche a alma, mas reconheço que é um belíssimo restauro. A Capela foi projetada por Mateus Vicente de Oliveira, por volta de 1752. A cúpula da capela-mor tem uma cobertura exterior em forma de bolbo, revestida de cobre, ao gosto centro europeu. A talha dourada é de inspiração rococó e as paredes e teto são decorados com pintura de fingidos imitando mármore e lápis-lazúli. O retábulo do altar-mor representa Nossa Senhora da Conceição, que é o orago de Queluz e nos altares laterais temos S. Pedro, S. Paulo e S. Francisco de Paula. Leio na legenda que algumas das pinturas do altar-mor são da autoria das infantas, irmãs de D. Maria I.
Pormenor do teto
Saindo da capela-mor entramos numa sala ao gosto do Império, lá ao fundo D. João VI olha-nos com uma certa bonomia e a mesa vitrina está cheia de belos objetos.
Travessa da Dinastia Qing, período Qianlong 1760-1780

Perdi-me na sala das cerâmicas, aqui não faltam peças fabulosas de porcelanas chinesa e europeia e faianças portuguesa e europeia, deixem-me fazer alguns comentários. O acervo da porcelana chinesa destaca peças riquíssimas, as Dinastias Ming e Qing estão representadas por pratos, cabaças, potes, jarras, gomis, há para ali deslumbrantes peças “chocolate” e “família rosa”, não faltam canudos e defumadores e frascos de chá, e, cereja no bolo, um incompleto serviço de jantar, chá, café e chocolate, parei a admirar uma travessa, daí a fotografia abaixo. A porcelana europeia é da mais rica do seu tempo, com destaque para porcelanas de Meissen, belas peças francesas e doutros países; a faiança portuguesa também está altamente representada, há objetos da Real Fábrica do Rato, de inegável qualidade e a puro estético; e temos cerâmicas da Holanda, Inglaterra e Espanha. Para quem gosta de porcelana e cerâmica tem aqui muito para contemplar.
As salas multiplicam-se, dou comigo a pensar como o viajante só tem a ganhar em preparar-se para a imensidade de património que lhe vai desafiar a atenção. Não me detive aqui ao acaso, quem decorou esta sala tem sapiência para decoração e ornamentação. Percorrer todas estas divisões, quartos de dormir, salas e aposentos, por onde andaram artistas portugueses, franceses e italianos, entalhadores, escultores e ourives, e depois de todas as voltas que deu este património encontrar uma solução que realce o bom gosto, tem méritos que apraz realçar.
Aqui se interrompe o passeio, temos aqui um pormenor da chamada escadaria Robillon, não faltam leões, este senhor sabia de arquitetura e de muitas mais coisas, entenda-se esta escadaria como uma ligação entre o jardim superior e aquele que leva a um imenso espaço lúdico à volta da Ribeira do Jamor, lá ao fundo há uma imensa cascata e diversas estufas, olhando esta imagem sinto-me feliz com património conservado, todo este trabalho deve custar uma fortuna, aqui, a curta distância está uma azulejaria riquíssima a pedir conservação, não sei se a degradação que vemos é fruto do céu aberto ou do vandalismo, quem visita o Palácio Nacional de Queluz tem tudo a ganhar em passear-se pelos belíssimos jardins.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 25 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27953: Os nossos seres, saberes e lazeres (732): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (253): No Convento de Chelas, revivendo o passado na Guiné (Mário Beja Santos)