sábado, 21 de outubro de 2017

Guiné 61/74 - P17889: (Ex)citações (325): Os capitães de África, pelo professor Rui Ramos (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Outubro de 2017:

Queridos amigos,
A história das guerras do império, por vagas sucessivas, envereda pelos seguintes domínios: logo a seguir ao 25 de Abril os teóricos à esquerda e extrema-esquerda a desvelar aspetos sombrios do colonialismo, desde a palmatória aos massacres e o teóricos da direita e extrema-direita a apontar para a tragédia da descolonização; o novo fluxo prendeu-se com o sofrimento daqueles que combateram pela presença portuguesa, perseguidos e executados, isto a par da permanente acusação do dedo soviético e da ganância norte-americana à espreita de petróleo e diamantes; seguiu-se a acusação irrestrita de que a descolonização prejudicou por inteiro os descolonizados; no fluxo presente, em que é impressionante o acervo de conhecimentos sobre o que foram as campanhas de África e em que contexto internacional se moveram as decisões de Salazar e Caetano, passa-se banho lustral sobre os fundamentos das lutas de libertação e temos historiadores a falar dos teatros de guerra sem jamais os ter estudado.
Encontra-se no trabalho de Rui Ramos bujardas como a seguinte, a propósito da invasão da Guiné Conacri, em 1970: "O PAIGC acabou por abandonar todos os acampamentos permanentes no interior do território".
Pasma como quebra o silêncio para denunciar a inqualificável besteira.

Um abraço do
Mário


Os capitães de África, pelo professor Rui Ramos

Beja Santos

Em escassas duas semanas, de quatro proveniências diferentes recebi o artigo que o professor Rui Ramos publicou no jornal Independente em 2006 sobre as guerras que travámos em África: http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2017/09/oscapit%C3%A3es-de-%C3%A1frica-por-prof-rui-ramos.html.

O documento é naturalmente polémico, será precisamente por isso que anda nas redes sociais, dá satisfação aos descontentes e azedumentos. À pergunta de que aquela guerra fora o simples resultado da natureza do regime político em 1961 ou da idiossincrasia do seu chefe, o historiador não hesita: “Nenhum governo português poderia ter feito outra coisa em Março de 1961”. E refere as chacinas, os apelos à violência da UPA, incluindo o ideólogo de alguns revolucionários, Frantz Fanon. Na suposição de que o historiador aposta na imparcialidade e na contextualização dos factos, estava sem querer que houvesse algumas palavras abonatórias de que se encetara desde o termo da II Guerra Mundial uma gradual consciencialização anticolonial, que o Estado Novo estava ciente de que vinham problemas do principal anfiteatro planetário, as Nações Unidas, onde as novas nações independentes clamavam pelo fim das colónias. O Estado Novo iludiu a realidade, e depois de umas largas pinceladas sobre a chegada de colonos a Angola e Moçambique, remata que não teria sido fácil em 1961 o abandono de África, ninguém pensara em retirar nem mesmo o PCP e os demais antissalazaristas. Houve portanto guerra aos movimentos de libertação porque era inevitável, ponto final, foi uma História sem antecedentes, um autêntico conto de fadas.

Rui Ramos fala da evolução da guerra e da estratégia salazarista, cita mesmo Marcelo Caetano em Março de 1974: “Não será por falta de dinheiro que nos renderemos”. Dinheiro houvera muito, mas estava tudo a correr mal desde 72, primeiro a crise mundial de alimentos, dispararam os preços, só baixarão no fim da década, a seguir o primeiro choque petrolífero e o castigo árabe a Portugal, pensou-se em racionamento, houve quilómetros de bicha, candonga a gasolina, se o professor Rui Ramos conversar com alguns do seus colegas e que conhecem economia e finanças, ficará surpreendido como a inflação subiu acima dos 30% no fim do primeiro trimestre de 1974. Apregoa os mesmos argumentos de que a guerra se apresentava viável, que os principais movimentos de libertação constituíam um complicado folhetim de desânimos, cisões constantes, ajustes de contas sanguinários e deserções espetaculares. Era bom que o professor Rui Ramos estudasse a fundo o que foi o PAIGC, por exemplo, teve altos e baixos mas foi-se fortalecendo e prestigiando, conseguiu os necessários apoios técnicos, em armamento e equipamento, formou quadros e nos últimos anos da guerra fez reverter para o interior da Guiné uma matéria-prima de grande qualidade, os quadros cabo-verdianos que não tinham condições de estender a guerrilha a Cabo Verde.

Não esclarece muito bem o que mudou de Salazar para Marcello Caetano, deste refere novos argumentos, mais complicados, assentes numa solidariedade humanitária, para justificar as operações militares. “Convenceu-se também de que a estratégia da guerra limitada e de longa duração não podia continuar”. Então, o historiador atira uma régua para cima da mesa, já que era necessário pôr fim à guerra: “Caetano proporcionou aos chefes militares os meios para romperem com a modesta rotina salazarista e tentarem esmagar a guerrilha. O ano 1970 foi marcado por iniciativas dramáticas: a invasão da Guiné Conacri, o grande assalto ao Planalto dos Macondes em Moçambique, e um novo plano de operações no Leste em Angola. Os resultados iniciais não foram maus. Na Guiné, o PAIGC acabou por abandonar todos os acampamentos do território”. Penso que nunca ficaremos a saber se o académico ilude os factos, é ignorante e tacanho ou consultou os dossiês errados. Tivesse ele procurado ler o que foi o ano militar da Guiné de 1970, e mesmo 1971, e descobriria que o PAIGC não abandonou nenhum acampamento, esquece-se que ainda há muita gente viva que por aqui anda e que os arquivos estão cheios dessa documentação. O académico sugestionou-se, sentiu-se livre para dizer umas bujardas.

O que aconteceu depois? Kaúlza e Spínola teriam ficado despeitados por não terem sido candidatos à presidência da República, em 1972 e foi posta a propalar a tese de que o governo não lhe dera os recursos materiais ou as autorizações políticas necessárias. Curiosamente, esta argumentação não bate certo com o que, depois do 25 de Abril escreveram militares como Kaúlza de Arriaga ou Silvino Silveira Marques e mais recentemente um tenente-coronel aviador de escrita alucinada, Brandão Ferreira. O que escreve sobre o desfecho do regime e a ascensão do MFA é pura pirotecnia argumentativa: os capitães entendiam que a democracia portuguesa se iria fazer abrindo estradas, administrando escolas e hospitais, como se fazia em África. O historiador profere estes dislates, tanto quanto sei ninguém lhe foi ao pelo. Será por indiferença? Segue-se, no termo do artigo, a verrina e a destilação de veneno: “Só a mitologia de esquerda podia dar uma boa consciência aos homens do MFA. Só ultimamente se começou a perceber o verdadeiro sentido da retirada portuguesa. Havia mais africanos a combater do lado português do que do lado dos partidos armados. NA Guiné, metade dos confrontos com o PAIGC eram da responsabilidade das milícias locais”. Que ninguém se pasme como se pode ser tão leviano. E nem uma palavra sobre aquele trimestre fatídico para Marcello Caetano, em que mandou negociadores sigilosos falar com o PAIGC, a FRELIMO, o MPLA, a FNLA e a UNITA. Numa entrevista a um jornal brasileiro, Caetano irá com uma certa displicência que era inevitável as independências, era um fenómeno internacional onde já não cabia a argumentação portuguesa em prol de um Portugal de minha Timor.
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Notas do editor:

O link constante no texto não funciona pelo que tive de pesquisar na net uma alternativa. Encontrei este: http://macua.blogs.com/files/os-capit%C3%A3es-da-%C3%A1frica-ii---2004.pdf que permite até carregar o PDF.

Último poste da série de 16 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17867: (Ex)citações (324): os memoriais de Buruntuma (CART 1742, 1967/69) e Ponte Caium (3º Gr Comb, CCAÇ 3546, Piche, 1972/74): Abel Rosa, António Rosinha, Carlos Alexandre e Valdemar Queiroz

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Guiné 61/74 - P17888: Tabanca Grande (450): António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), natural da Vila de Fernando, Elvas, e novo membro da Tabanca Grande, com o nº 757... Faz parte da Associação de Alunos da Universidade Sénior de Vila Franca de Xira.



Guiné > Região do Cacheu > CCAC 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71) > Destacamento de Pete > 9/11/1970 > Visita do General Spinola no dia seguinte ao ataque ao destacamento. À sua direita,. parece-nos ser o o comandante do BCAV 2862 (1969/70), ten cor  Carlos Alves Morgado, nosso conhecido da Op Ostra Amarga.


Foto (e legenda): © Victor Garcia (2009) . Todos os direitos reservados (Edição e legendagem complementar: Luís Graça & Camaradas da Guiné)



1. Mensagem de anteontem do António Ramalho, ex.fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), natural da Vila de Fernando, Elvas, e novo membro da Tabanca Grande, com o nº 757:


Caro Luís Graça,  boa noite. (*)

Hoje li que fui "despromovido",  o  nº 756 foi dado a outro camarada de armas!...(**)

Se bem entendi,  se não dissesse nada manteria, seria?

Não vai mal ao Mundo, a capicua [ 757] também me agrada.

Não tenho a certeza se estarei no próximo sábado, na Casa do Alentejo,  já que uma das minhas filhas vem cá a casa passar o dia (Sábado ou Domingo).alternando-se.

Oportunamente enviarei um texto que inclui numa colectânea de histórias de vida com mais 29 amigos/colegas da Universidade Sénior de Vila Franca de Xira.

É o lado cómico/positivo da minha estadia como sempre a encarei.
Um forte abraço.

António Fernando Rouqueiro Ramalho

2. Comentário do editor:

António, não fostes nada despromovido,  afinal o José Claudino da Silva já estava na calha há mais tempo do que tu, desde 3 de outubro... Mas o nº 757 é mais fácil de fixar... Vou-te já apresentar ao resto da Tabanca Grande, O teu nome passa, desde hoje, a figurar na lista alfabética, de a Z, dos amigos e camaradas da Guiné que compõem a Tabanca Grande, num total de 757, dos quais infelizmente 59 já não estão entre nós, mas não foram para a "vala comum do esquecimento".

Falta-te apenas um,a foto do antigamente...Já pedi ao Victor Garcia, mas ele infelizmente não tem nenhuma contigo, do tempo de Guiné, só dos convívios anuais do pessoal da companhia.

Se não te vir sábado, teremos mais oportunidades...Em abril de 2018, iremos fazer o nosso 12º Encontro Nacional da Tabanca Grande, em Monte Real... Ficas desde já convocado...

Quanto à Universidade Sénior, é bom aprender contigo e com quem sabe como é que a gente pode envelhecer alegre e saudavelmente...

De facto, ficámos a saber que fazes parte da Associação de Alunos da Universidade Sénior de Vila Franca de Xira, fundada em 2007. Aliás, fizeste parte da comissão instaladora e pertences aos atuais órgãs sociais. Quanto à tua CCAV 2639, vais-te juntar, aqui na Tabanca Grande, como já sabes, aos teus camaradas Victor Garcia, ex-1º Cabo Atirador, do 3º Pelotão; e o o Mário [Jorge Figueiredo] Lourenço, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista.

Sê, portanto,  bem vindo, manda fotos e histórias!...Um abração... Luís

3. Resposta. com data de 17 do corrente, do Victor Garcia a um pedido de informação dos nossos editores:

Caro amigo Luis Graça

Como resposta a este teu e-mail, comunico-te que sim, que conheço perfeitamente o ex-furriel António Ramalho e o qual já tive ocasião de observar no poste dele colocado na sua página da Tabanca.

Como é sabido houve um período no nosso tempo na Guiné que a CCav. 2639 esteve separada em três locais distintos mas todos na zona de Bula, por causa do reordenamento das populações. Os locais eram:

Capunga, com a colocação do 3º grupo de combate, “por sinal era o grupo a que eu pertencia”

Pete, com a colocação do 2º e 4º grupos de combate;

Ponta Consolação, com a colocação do 1º grupo de combate.


Ora o Furriel Ramalho embora tenha estado em Ponta Consolação,  como ele o diz, houve um período em que foi desviado para Capunga e portanto estivemos juntos em Capunga.

Perguntas-me se tenho alguma foto dele… Infelizmente do tempo da Guiné não tenho nenhuma com ele ou mesmo onde ele pudesse estar em conjunto com outros.

Tenho sim das nossas confraternizações anuais onde ele costuma comparecer.

Exemplo disso tem na minha página no sector dos convívios as fotos:

(i) Fila de pé, é o segundo a contar da direita com pulôver vermelho nos ombros

http://www.vitor-garcia.com/Imagens/2639Convivios/Grandes/Convivio13.jpg

(ii) Fila do meio, o quarto a contar da esquerda e com barba

http://www.vitor-garcia.com/Imagens/2639Convivios/Grandes/Convivio16.jpg

(iii) Fila de pé, o segundo a contar da esquerda e com polo vermelho

http://www.vitor-garcia.com/Imagens/2639Convivios/Grandes/Convivio33.JPG

(iv) Fila do meio, o Nono a contar da esquerda e com polo laranja
Caro amigo Luis,  foi  tudo o que pude fazer para te ser o mais prestável possível.

Desde já te digo que estás completamente à vontade para,  se assim o entenderes,  fazeres o uso que entenderes dessas fotos “Linkadas” ou mesmo outras que encontres na minha página.

Despeço-me com um abraço amigo.

Victor Garcia
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Notas do editor

(*) Vd. poste de 15 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17864: O nosso livro de visitas (194): António Fernando Rouqueiro Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71)....Será possível saber do paradeiro da menina Helga dos Reis que eu e o cabo enfermeiro do meu pelotão ajudámos a vir ao mundo, em 6 de janeiro de 1971, na tabanca de Ponta Consolação (Nhinte) ? A estar viva, terá hoje 46 anos

Guiné 61/74 - P17887: Notas de leitura (1006): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
Vale a pena, nesta fase da investigação, recordar o ponto de partida da documentação que se está a compulsar. Há referências mínimas a 1915, os relatórios de execução começam efetivamente a partir de 1916. Nada da história do BNU a partir de 1903 aparece nos arquivos. Daí não haver comentários às chamadas campanhas de pacificação, ao derrube das muralhas à volta de Bissau, no tempo do governador Carlos Pereira, já na I República, não encontrei qualquer referência à Liga Guineense que entrará no jogo partidário, toda esta nova era republicana é ajuizada criticamente pela ausência de figuras de gabarito na governação, e pela perpetuação de todos os atrasos, não se vislumbra um plano de desenvolvimento. A situação conhecerá um salto qualitativo com a chegada de Velez Caroço que tentará implantar uma grande seriedade na vida administrativa, resolver o angustiante problema dos cambiais numa altura em que a República pouquíssimo investe na Guiné.
Para a filial de Bolama vai travar-se a luta pela sobrevivência, Bolama definha, o gerente arvora-se em pensador económico, dá sugestões. Mas ninguém o ouve.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (5)

Beja Santos

Despontou a rivalidade entre as agências do BNU da Guiné. No seu relatório do pós-guerra, o gerente de Bolama agarra-se com unhas e dentes à tese de que o futuro da província tem o seu farol naquela capital criada em 1879, dali irradiará irrevogavelmente o desenvolvimento. É da maior pertinência ler a sua argumentação, prevendo um futuro que não aconteceu:
“Se hoje o comércio procura de preferência Bissau, se ali acorre a navegação de longo curso, se se traça a planta de uma grande cidade, tudo isso pode sofrer profundas alterações desde que o porto de Bissau deixe de ter a importância que hoje tem.
Não há razões se não transitórias para que ali hoje se centralize o mais importante comércio da colónia. O seu porto desabrigado, batido no tempo das chuvas por violentos tornados, a violenta corrente do rio Geba que, certamente na opinião dos entendidos, provocaria enormes assoreamentos se se fizessem muralhas e aterros para atracações de grandes navios e para projetadas gares marítimas, e a ideia de ali fazer a testa de um caminho-de-ferro de penetração que teria de atravessar extensas regiões alagadiças, estão em contraposição com o porto de Bolama: abrigado, com fraca corrente, gabado pelos capitães de navios estrangeiros que conhecem um e outro porto e com a circunstância de mesmo em frente de Bolama ficar o continente e onde poderia ser a testa de um caminho-de-ferro que subindo pela margem esquerda do rio Geba pusesse o interior em comunicação com o porto de Bolama.
A realização desse melhoramento derivaria a maior parte do movimento para Bolama. Para saída da província, o próprio canal de Orango, direto a Bolama, daria melhor navegação, no dizer dos náuticos, depois de balizado, que o canal do Geba hoje usado.
Se a proposta que o governo da colónia fez já ao ministro para balizagem daquele canal e para início do estudo do caminho-de-ferro de S. João (em frente a Bolama) fora avante e dela resultara a convicção de que razão têm ou não técnicos, mas conhecedores do terreno, que o traçado natural deve ser de S. João a Bafatá, mais que certo será o declínio de Bissau e consequentemente a transição da importância do comércio de Bissau para Bolama.
Daí resultará também o repovoamento da vasta e rica região do Rio Grande, tendo-se já com esse fim deixado essa área com uma taxa de imposto de palhota menos elevada que a de outras regiões da colónia, tentando ali fazer convergir a população que outrora foi batida e escorraçada para outros pontos pelos Beafadas, hoje sem poderio.
Enquanto porém esse plano e projeto não for realizado e dele resultem consequência benéficas para Bolama, os lucros desta filial serão variáveis”.

E tece considerações sobre a clientela da filial de Bolama, clientes nacionais e internacionais, fala da fusão que se prevê entre a Empresa Agrícola e Comercial dos Bijagós Lda, a Companhia Agrícola e Fabril da Guiné e a Companhia de Fomento Nacional. “Se a fusão das três firmas se der, fica sendo uma importantíssima companhia e decerto tratarão de dar maior desenvolvimento aos seus negócios e à Companhia e Fomento Nacional, em Bafatá”. O gerente de Bolama exprime-se como um futurólogo, falando de Bafatá:  
“No centro do território da colónia é hoje onde se centraliza grande parte do comércio do interior. A sua importância aumentará ainda se for avante a construção do caminho-de-ferro de penetração. Bafatá será um entroncamento das vias que partem quer de Bolama quer de Bissau e quer a linha siga para Farim quer para o território francês para Firdu, quer mais para baixo para Cadé, dali partirão os ramais e a sua importância aumentará. Se ali estabelecermos uma agência ou subagência do nosso banco, os lucros da agência de Bissau e os desta Filial sofrerão decréscimo, mas permitam-nos Vossas Excelências que lhe digamos que mais valerá essa diminuição de lucros para Bissau e para nós do que dar-se a fusão das três companhias indicadas e o Banco Colonial antecipar-se-nos e pôr ali alguma agência”.

O gerente da filial irá ainda exprimir sobre outros assuntos, mas voltará ao seu tema de eleição, as comunicações, dizendo o seguinte: “As vias principais de comunicação para o interior são as navegáveis. Estradas, poucas há e não existe nenhum plano para uma rede geral à qual se subordinassem as que se fazem numa ou noutra circunscrição. Essas estradas, ou melhor caminhos, no tempo das chuvas são intransitáveis. As vias navegáveis não estão convenientemente navegáveis e limpas e daí estarem algumas quase inavegáveis”. E a exposição articula-se com uma petição apresentada pela associação comercial sobre a construção de um caminho-de-ferro de penetração até Bafatá e que seguisse para a colónia francesa. Volta-se novamente ao assunto da imperatividade do censo, saber qual a população da colónia. E escreve: “Ultimamente, soubemos que se arrolaram 200 mil palhotas; calculando-se 3 almas por palhota, sendo certo que na maioria dos casos albergam 5 a 7 indivíduos, teríamos uma população gentílica de 600 mil pessoas, cifra a que teríamos que adicionar a população que não vive em palhotas e as das regiões não arroladas. Julgamos por isso que a colónia deve ter perto de 1 milhão de habitantes”.

Dentro daquela linha que é informar Lisboa sobre acontecimentos de vulto como nomeações e exonerações, em 20 de Abril de 1919 comunica-se para Lisboa: “O Governador, Coronel de Artilharia Josué Duque foi exonerado e mandado seguir para a metrópole. A exoneração foi quase geralmente bem recebida, pois era acusado de nada fazer. Era extraordinário o desrespeito com que a este governador se referiam não só os chefes de serviço mas também o funcionalismo de pequena categoria. Foi nomeado para o substituir o Capitão de Infantaria Henrique Alberto de Sousa Guerra. A nomeação foi desigualmente recebida conforme as simpatias de uns e antipatias de outros. A Associação Comercial prepara uma representação para lhe ser entregue ao tomar posse, e em que são indicadas as necessidades da colónia”.


Outro acontecimento relevante que a filial de Bolama entendeu trazer ao conhecimento de Lisboa foi a prisão do régulo Abdul Indjai. O gerente sintetiza o currículo do régulo do Oio e as acusações que lhe eram feitas. Eram inúmeras as queixas dos comerciantes que temiam que aquele comportamento contagiasse outros régulos, vivia-se uma grande instabilidade na região entre Mansoa, Bissorã e Farim, e o Conselho do Governo mostrou-se dividido sobre a expulsão do antigo braço direito Teixeira Pinto ou a sua entrega aos tribunais. E a notícia termina assim: “Hoje reuniu de novo o Conselho do Governo em sessão deliberativa e talvez porque alguns chefes de serviço reconhecessem o caminho errado que iam seguindo com politiquices contra o governador, acompanharam os vogais eleitos, votando por maioria a expulsão da colónia por 10 anos, máximo período que a Carta Orgânica permite, fixando-lhe para cumprimento do desterro, por proposta do governador, a ilha da Madeira”.

As coisas não se passaram assim, Abdul Indjai foi para Cabo Verde, o seu advogado tudo fez para ter um julgamento em tribunal, adoeceu e morreu no arquipélago.

O repositório de informações para Lisboa tem tanto de vasto como de surpreendente. Houve heróis militares que se fizeram cair em desgraça, com destaque para Marques Geraldes e Graça Falcão. O leitor vai ficar admirado com os dados que Bolama possuía sobre Jaime Augusto de Graça Falcão. Seguir-se-ão dados úteis sobre o que era o mercado guineense em 1920 e o relatório de 1921 voltará a uma linguagem de descasca pessegueiro, vive-se novamente um período áspero que antecede a chegada de Velez Caroço, um grande governador que não deixará de ter inimigos de estimação, que usarão de todo o trotil possível para o deslustrar, em vão.

Jorge Frederico Velez Caroço, um ponto de viragem na governação da Guiné

(Continua)
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Nota do editor

Poste anterior de 13 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17858: Notas de leitura (1003): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (4) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 16 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17865: Notas de leitura (1005): “AVC Recuperação do Guerreiro da Liberdade, Uma vitória no mundo dos silêncios”, por José Saúde, Chiado Editora, 2017 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17886: Lembrete (26): Amanhã, 21, às 15h30: Casa do Alentejo, Lisboa, sessão de apresentação, do livro do nosso camarada José Saúde, "AVC - Recuperação do Guerreiro da Liberdade". Atuação de: (i) Grupo Musical Os Alentejanos, de Serpa; e (ii) Grupo Coral Cantadores do Desassossego, de Beja.. Entrada livre.





Cartaz promocional do evento.  Entreada livre.

Vd, aqui referências ao nosso camarada José Saúde, autor do livro "AVC- Recuperação do Guerreiro da Liberdade" (Lisboa, Chiado Editora, 2017)., ex-fur mil op esp/ranger, CCS / BART 6523, Nova Lamego/Gabu, 1973/74; natural de Vila Nova de São Bento, Serpa, vive em Beja.

Sobre a Casa do Alentejo, no Palácio Alverca, Rua Portas de Santo Antão, 58, Lisboa, ver aqui página no Facebook e sítio na Net (**)


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Vd. também poste de hoje, 20 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17885: Agenda cultural (596):  Até 27 deste mês, exposição SILVA JÚNIOR, Arquitecto de O Magestic Clubc / Casa do Alentejo, Lisboa, R. das Portas de Santo Antão, 58... Visitas comentadas pela dr.ª Helena Pinto, especialista em História de Arte, dias 19 e 26, pelas 18.30h. Entrada livre.

Vd. ainda  postes de:

16 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17865: Notas de leitura (1004): “AVC Recuperação do Guerreiro da Liberdade, Uma vitória no mundo dos silêncios”, por José Saúde, Chiado Editora, 2017 (Mário Beja Santos)

(...) O livro intitula-se “AVC, Recuperação do Guerreiro da Liberdade, Uma vitória no mundo dos silêncios”, por José Saúde, Chiado Editora, 2017. A substância do testemunho é um AVC que deixou aos 55 anos o nosso confrade José Saúde entre a vida e a morte. É uma descrição detalhada, que não escusa o íntimo, desses momentos de descalabro em que não se sabe contabilizar o volume das perdas até à recuperação em que se reganha a dignidade e autonomia, graças a uma resiliência inabalável. (...)

(...) O meu AVC restringiu-me a uma limitadíssima linha de fronteira entre o viver e o morrer. Sobrevivi. Recuperei e cá estou pronto para lançar mais uma obra que narra um mundo de experiências e que partilho com os companheiros deste revés. (...) 

(**) Último poste da série > 10 de setembro de ã, 212017 > Guiné 61/74 - P17753: Lembrete (25): hoje, domingo, dia 10 de setembro, às 17h30, na Chiado Café Concerto, Avenida da Liberdade, nº 180, Lisboa, lançamento do novo livro do nosso camarada José Saúde, "AVC - Recuperação do Guerreiro da Liberdade"

Guiné 61/74 - P17885: Agenda cultural (596): Até 27 deste mês, Exposição SILVA JÚNIOR, Arquitecto do antigo Magestic Club, hoje sede da Casa do Alentejo, Lisboa, R. das Portas de Santo Antão, 58... Visitas comentadas pela dr.ª Helena Pinto, especialista em História de Arte, dias 19 e 26, pelas 18.30h. Entrada livre.



Exposição SILVA JÚNIOR,
Arquitecto de O Magestic Club / Casa do Alentejo 
Visitas comentadas pela Dr.ª Helena Pinto, 
especialista em História de Arte, 
dias 19 e 26, pelas 18.30h

Os alentejanos têm prazer e gosto em dizer que a nossa Associação Regionalista é um espaço esplendoroso. Gostamos de a visitar e mostrá-la aos nossos amigos, até porque sabemos que todos ficam encantados com a sua beleza. Perguntam-nos como e quando foi construído este espaço. A partir de hoje, dia 14 de Outubro (e até dia 27) temos a resposta completa, é inaugurada a Exposição, onde estão recuperadas e expostas as plantas que o autor do Magestic Club, o arquitecto Silva Júnior concebeu para construir o 1º casino de Lisboa. 

Ao entrarmos um pouco na história desta nossa belíssima sede e, recuando ao final do séc. XVII, encontramos na Rua das Portas de Santo Antão um palácio aristocrático, pertencente à família Paes do Amaral, viscondes de Alverca, de quem adoptou o nome de Palácio Paes de Amaral ou Palácio Alverca, propriedade desta família até 1981.

Este solar no princípio do século XX, foi arrendado (com exceção das lojas) a um grupo de empresários que, após obras radicais assinadas pelo eclético arquitecto Silva Júnior, foi reconvertido, (entre 1917-19), num “club” luxuoso, denominado “Majestic Club”, um dos primeiros casinos de Lisboa, onde o jogo e o dinheiro dos ricos empresários criaram e guardaram aqui uma vida dourada, completamente desfasada da realidade portuguesa, quando a guerra e a fome atingiam a maior parte da população. Em 1928, já com alguma decadência, adopta o nome de “Monumental Club”. 

Em 1932, o espaço Magestic Club foi arrendado pelo Grémio Alentejano, cuja fundação remonta a 10 de Junho de 1923, designado, posteriormente, por Casa do Alentejo.  Em 1981, um descendente dos viscondes de Alverca vendeu o palácio à Associação Regionalista Alentejana. Em boa hora, felizmente! 

O visitante, ao entrar na nossa Casa, descobre a frescura do belíssimo pátio árabe, encanta-se e praticamente esquece que entrou na sede da Associação Regionalista do Alentejo. É evidente que esta ambivalência tem aspectos muito positivos, mas acarreta a grande responsabilidade da manutenção, preservação e divulgação de tão rico património edificado. Se a nossa Associação possui, entre as suas congéneres, a mais visitada e admirada sede, há que reconhecer que tem sido graças ao empenho dos alentejanos, à sua identidade, cultura e património que um vetusto palácio da baixa pombalina recebe e guarda uma vivência única e invejável. 

Os alentejanos tornaram-no um edifício público visitado por todos, nacionais e estrangeiros, recebendo, em 2011, a classificação de MIP (Monumento de Interesse Público). 

Há algumas décadas, o espólio do arquitecto Silva Júnior não se sabe bem porquê, foi encontrado num alçapão em condições pouco dignas. As direcções que nos antecederam sempre se preocuparam com este magnífico espólio e bateram a portas de várias instituições para que tal precioso achado fosse, quanto antes, devidamente tratado. A actual direcção teve a sorte de ser levada a bater à porta certa – o Arquivo Histórico Municipal de Cascais, com o qual assinámos uma feliz parceria. Todo o espólio do vanguardista arquitecto foi recuperado, esteve exposto no Arquivo de Cascais e chegou, agora, à sua Casa, a Casa do Alentejo. 

A Direção
Casa do Alentejo
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Nota do editor:

Último poste da série > 19 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17881: Agenda cultural (595): Convite para o lançamento do livro "A Caminho de Viseu", da autoria do nosso camarada Rui Alexandrino Ferreira, a ter lugar no próximo dia 4 de Novembro de 2017, pelas 10,30 horas, nas instalações do RI 14 de Viseu. No final da sessão haverá um almoço de confraternização e debate

Guiné 61/74 - P17884: Parabéns a você (1331): Fernando Súcio, ex-Soldado Condutor Auto do Pel Mort 4275 (Guiné, 1972/74) e Rogério Cardoso, ex-Fur Mil Art da CART 643 (Guiné, 1964/66)


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Nota do editor

Último poste da série de 19 de Outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17878: Parabéns a você (1330): Joaquim Ascenção, ex-Fur Mil AP Inf da CCAÇ 3460 (Guiné, 1971/73)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Guiné 61/74 - P17883: In Memoriam (306): Cadi Candé (c.1927-2017), arquétipo da mãe africana, exemplo de humildade, abnegação e coragem... Homenagem à mãe do nosso amigo e irmãozinho Cherno Baldé (Bissau)


Guiné-Bissau > Bissau >  c. 1995/1997 > Eu e a minha mãe, Cadi  Candé (c. 1927-2017) ... Aqui com c. 70 anos. A foto foi tirada depois do primeiro regresso do Chermo Baldé, de Lisboa, onde frequentou, um mestrado no ISCTE  (1993/95)


Guiné > Região de Bafatá > Fajonquito > 1973 > A mãe Cadi  Candé (c. 1927-2017),  acompanhada da minha irmãzinha,  nos trabalhos da bolanha.  Aqui com c. 46 anos

Fotos (e legendas): © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Pela página do Facebook do Cherno Baldé soubemos da triste notícia, a morte da sua querida mãe, Cadi Candé, com cerca de 90 anos de idade:

17/210/2017

Tudo acaba.

No dia 13 de Outubro faleceu em Bissau a minha querida mãezinha, Cadi Candé (que a sua alma repouse em paz), e no dia seguinte foi enterrada na vila de Fajonquito, onde viveu a maior parte da sua vida.

A todos que nos acompanharam nessa dor, quero manifestar os nossos sentimentos de gratidão. Tudo acaba, mas a vida continua.


2. Seu neto, Braima K. Nhamadjo (, "meu sobrinho, filho da minha irmã que está numa das fotos com a nossa mae na bolanha de Fajonquito, actualmente docente na Universidade Lusófona de Bissau#.), também escreveu na sua págima do Facebook:

17/10/2017

Tudo acaba.

Andar com fé é saber que cada dia é um recomeço. É saber que temos asas invisíveis e fazer pedido para as estrelas, voltando os olhos para o céu. Andar com fé é manter a mão estendida para dar e receber. Andar com fé é usar a força e a coragem que habitam dentro de nós, quando tudo parece acabado. Tudo finda, menos o amor, pois este sempre viverá. O amor a minha falecida avo é eterno...RIP MAMA CADI


3. Excertos do Cherno Baldé, com memórias da sua mãe (*)


(i) Amiga Felismina  (**),

Obrigado por este bonito quadro da vida portuguesa dos anos 60, pleno de doçura e de reconhecimento que me encantou sobremaneira. (...)

A descrição que fazes da tua mãe, salvaguardada a diferença do contexto, claro, corresponderia na perfeição a minha mãezinha, um pouquinho só mais alta (um metro e sessenta) talvez, inteligente e incansável no trabalho.

Ela assumia a sua condição de mulher africana, extremamente dócil e obediente, mas ao mesmo tempo, sabia mostrar os limites da tolerância, quando era necessário.

Uma vez, estalou na família uma discussão sobre se eu devia ou não continuar na escola portuguesa. A minha mãe não vacilou nem um palmo e disse na cara do meu pai:
- O meu filho vai continuar na escola.

 E aí o meu pai ficou completamente confundido: afinal o filho era dela?... desde quando?
- Desde o momento em que ele ainda vivia na minha barriga de mulher, - respondeu ela, sem pestanejar. - Não é agora, depois de tantos anos de trabalho e de pancadas,  é que ele vai abandonar, para ir onde?

A sua decisão prevaleceu diante de todos os Almames e Califas da aldeia.

As características típicas da sociedade africana com que os etnólogos europeus pintaram os africanos, onde o homem é o centro do mundo e decide tudo, não corresponde sempre a realidade destes povos, é tudo muito mais complexo e muito mais difícil de destrinçar e de catalogar.(...)

(iii) (...) Sobre a minha mãe podia dizer muito e não dizer nada, na verdade, ela nunca foi p'ra além daquilo para que tinha sido moldada, isto é, ser uma mulher de casa, camponesa activa, devota e dedicada ao seu marido e à sua família. Cumpriu a sua missão, foi uma autêntica escrava, uma máquina de trabalho, nunca teve tempo para o repouso e muitas vezes comia de pé, a andar, os restos da panela e não sabia o que era o cansaço. Era a última a dormir, quando dormia, e a primeira a por-se de pé, antes das 5 da manhã.

(...) A minha mãe, quando era caso para isso, dizia brincando que, se a cabeça da família era ele, o meu pai, o pescoço era ela e perguntava, rindo:

- Agora, digam-me lá uma coisa, entre estas duas, a cabeça que se encontra em cima, baloiçando, e o pescoço que a suporta, quem é a mais importante?

Mas isto era a brincar e em família. 

(...) Hoje, com mais de 80 anos de idade (disse-me que por volta de 1936/37, quando o pai voltou de Canhabaque, ela teria aproximadamente 9/10 anos de idade), e como se ela soubesse do futuro, é cega e sou eu e a minha esposa que cuidamos dela. A saúde e a boa disposição começam a faltar mas ainda encontra-se fisicamente bem e de sentido bem lúcido, a sua memoria é prodigiosa.  (...) 

Quero agradecer a todos os editores do Blogue da Tabanca Grande por se interessarem por uma pessoa tão simples como é a minha mãe que espero possa representar, mesmo que de forma simbólica,  a mãe africana, em particular, e as mães de todos nós, de forma geral, exemplos de humildade e de abnegação.


4. Poema de Felismina Mealha, de homenagem à sua mãe (*)

Saudade

Há sempre no fundo do meu ser
Uma saudade do passado!
Saudade de uma voz.
De um corpo querido
Que há muito partiu
e nos deixou sós!
Uma voz estridente!
Bem timbrada!
Inteligente!
Forte!
Calma!
Uma voz que me enche a alma
e me acalma…
A voz da minha mãe!..

Felismina Costa
Agualva, 26 de Março de 2006


6. Comentário dos nossos editores:

Cherno, nosso amigo e irmãozinho:

Temos dificuldade em aceitar a morte, mesmo quando somos crentes.  E, pior ainda, a morte daquela por quem viemos ao mundo,  A "mindjer grandi" Cadi Candé chegou ao km 90 da autoestrada da vida, Africana, guineense, mulher, que conhecei a violência da guerra e os tempos difíceis do pós-independência, o seu caminho foi mais o da "picada" do que o da "autoestrada", a avaliar pela evocação, tão realista e tão terna, que fazes dela.

Afinal, a mãe de cada um de nós, na Guiné, em Portugal, ou na China, será sempre, para nós, a melhor mãe do mundo... E quando ela morre, é muito de nós que também morre com ela. Daí a nossa obrigação de evocarmos a sua  memória, de fazer.lhe a devida homenagem e mostrar-lhe a nossa gratidão....

A Candi Candé terá tido grandes alegrias e profundas  tristezas, como todas as nossas mães.  Uma alegria, grande por certo, foi a de saber que o seu filho querido tinha conseguido fazer o seu percurso escolar, com sucesso,  chegando até à universidade, e diplomando-se com um curso superior. Tu e nós todos, os teus amigos,  estamos-lhe gratos por ela (e oo teu pai...) te deixar continuar a estudar na escola dos "tugas"... Isso fez toda a diferença, entre vocês, os irmãos...(Julgo que tens um outro irmão, licenciado pela Universidade de Lisboa, farmacêutico.)

Devia ser uma senhora, a tua mãe, com grande inteligência emocional, mesmo sendo analfabeta. Pelos textos que escrevestes, sobre a tua saga familiar, percebe-se que foi uma figura estruturante na tua vida, e na vida dos teus irmãos. Como tu lembras, e muito bem, se o teu pai era a "cabéça", ela era o "pescoço", se não mesmo a "coluna vertebral" da família.

 Por outro lado, estás de parabéns, tu e a tua família, e em especial a tua esposa,  por cuidares bem da tua mãezinha,  nos últimos anos de vida, na tua casa em Bissau, com tanto amor e carinho.  São valores, esses, que transmites aos teus filhos e  que se estão a perder em todo lado, a começar pela Europa. Os "velhos" hoje são apartados das famílias e  institucionalizados, nos famiegrados "lares de idosos", verdadeiros "terminais da morte", e morrem quase sempre sozinhos, sem alguém, querido,  que lhes segure a mão e lhes feche os olhos, ajudando-os a fazer a derradeira viagem.

Aceita, Cherno,  este pequena homenagem dos teus amigos da Tabanca Grande. Força para ti, para os teus filhos, tua esposa e demais família. (LG/CV/EMR) (***)
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Guiné 61/74 - P17882: Ser solidário (205): notícias da Fundação João XXIII - Casa do Oeste, com sede em Ribamar, Lourinhã: (i) barco-ambulância já está em Quinhamel; (ii) festa convívio de solidarieddae com a Guiné-Bissau, no próximo domingo, 22, em Santo Isidoro, Mafra


Foto nº 1 > Desebarque, no porto de Bissau, do barco-ambuilância > O delegado da Fundação na Guiné, prof. Raul da Silva, reportou a operação nestes termos:

“Vim testemunhar que operação de desembarque do barco correu bem, como planificado. O barco já está no lugar onde deve ficar, provisoriamente, em Quinhamel . Recebemos isenção total dos Portos de Bissau (APGB) e das Alfandegas de Bissau. Só pagámos grua e a escolta a Quinhamel. Graças a Deus... ".


Foto nº 2 > Cartaz do convívio de  solidariedade com a Guiné-Bissau (*) > "Neste momento em que vários meios de comunicação social têm posto em causa a seriedade deste trabalho e divulgado noticias distorcidas, importa reforçar a nossa determinação e aumentar e melhorar a nossa resposta às necessidades imperiosas e aos apelos que nos vêm da Guiné através de muitos e extraordinários animadores/líderes guineenses que confiam e esperam o nossos valioso apoio".



Foto nº 3 > Cartaz da Festa das Colheitas

Fotos (e legenda): © Fundação João XXII - Casa do Oeste  (2017) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem de António Ludovino. membro do conselho de administração da Fundação João XXIII - Casa do Oeste:


Data: 18 de outubro de 2017 às 16:22
Assunto: noticias da Casa do Oeste

Amigos

Tomo a liberdade de vos enviar as últimas noticias da Fundação João XXIII-Casa do Oeste… e CONVIDAR-VOS para as nossas próximas atividades: Convívio Solidariedade com o Povo da Guiné (dia 22 em Santo Isidoro. Mafra) e Festa das Colheitas (dia 29 na Casa do Oeste, em Ribamar. Lourinhã). (**)

Abraço

A. Ludovino

BARCO AMBULÂNCIA JÁ ESTÁ EM BISSAU


O barco-ambulância, projeto que a Fundação João XXIII-Casa do Oeste  tem vindo a trabalhar desde 2011, (angariação de fundos, aquisição, reparação, equipamento, documentação, legalização e transporte) chegou finalmente à Guiné transportado pelo navio Hidrográfico da Marinha Portuguesa.

O barco destina-se a tirar do isolamento a população da ilha de Pechiche [, ou Pecixe,] , uma ilha que tem 6.000 habitantes.

CONVIVIO SOLIDARIEDADE COM O POVO DA  GUINÉ

À semelhança de anos anteriores vamos realizar no próximo domingo, dia 22 de Outubro, um Convívio, em Santo Isidoro, Mafra, para  todos os colaboradores, amigos e familiares que se sintam irmanados nesta obra da Fundação João XXIII-Casa do Oeste de  Solidariedade com o Povo da Guiné… [Vd. programa supra, foto nº 2]

Contamos contigo! Coma tua família e amigos!

Ver mais no blog e no facebook da Casa do Oeste:




Av. 25 de Abril n.º 13 2530-627 Ribamar Lourinhã

Tel. + Fax. 261 422 790 NIPC. 502 683 430

e-mail. casadooeste@sapo.pt
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Guiné 61/74 - P17881: Agenda cultural (595): Convite para o lançamento do livro "A Caminho de Viseu", da autoria do nosso camarada Rui Alexandrino Ferreira, a ter lugar no próximo dia 4 de Novembro de 2017, pelas 10,30 horas, nas instalações do RI 14 de Viseu. No final da sessão haverá um almoço de confraternização e debate


C O N V I T E

"A Caminho de Viseu", da autoria de Rui Alexandrino Ferreira; Palimage Editores, 2017

Vai ser apresentado no próximo dia 4 de Novembro de 2017 (sábado), pelas 10,30 horas, nas instalações do Regimento de Infantaria 14, em Viseu, mais um livro da autoria do nosso camarada Rui Alexandrino Ferreira, este com o título "A Caminho de Viseu". 
A apresentação desta obra estará a cargo do Major General Pezarat Correia.

No final da sessão haverá um almoço de confraternização e debate, sujeito a inscrição prévia através do telemóvel 965 043 313.

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Sobre o autor:

Rui Fernando Alexandrino Ferreira, nasceu em 4 de Agosto de 1943 em Sá da Bandeira (Lubango, Angola). 
Em 1964 integra o curso de oficiais milicianos em Mafra
Em 1965 rende, na Guiné, um desaparecido em combate na Companhia de Caçadores 1420 do Batalhão de Caçadores 1857. 
Como Alferes Mil.º de Infantaria, foi-lhe atribuída, em 1967, a Cruz de Guerra de 1.ª classe.
Em 1970 frequenta o curso para Capitão, em Mafra, seguindo em nova comissão de serviço para a Guiné, onde comandou a Companhia de Caçadores n.º 18. 
Como Capitão, foi-lhe atribuída a Cruz de Guerra 2.ª classe.
Em 1973 regressa a Angola em outra comissão. 
Em 1975 retorna a Portugal. 
Desde 1976 reside em Viseu
É Tenente-Coronel de Infantaria na situação de reforma.
Outras obras do autor: 
"Rumo a Fulacunda"; Palimage Editores, 2003 e "Quebo Nos confins da Guiné"; Palimage 2014
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de Outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17872: Agenda cultural (594): Lançamento do livro "Isabel Minha Mãe", da autoria do nosso camarada Guilherme Costa Ganança, dia 21 de Outubro de 2017, pelas 16,30 horas, no Auditório do Centro Cultural John dos Passos, Ponta do Sol, Ilha da Madeira

Guiné 61/74 - P17880: As memórias revividas com a visita à Guiné-Bissau, que efectuei entre os dias 30 de Março e 7 de Abril de 2017 (10): 8.º e 9.º Dias: Bissau e Regresso a Portugal (António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil)


1. Continuação da publicação das "Memórias Revividas" com a recente visita do nosso camarada António Acílio Azevedo (ex-Cap Mil, CMDT da 1.ª CCAV/BCAV 8320/72, Bula e da CCAÇ 17, Binar, 1973/74) à Guiné-Bissau, trabalho que relata os momentos mais importantes dessa jornada de saudade àquele país irmão.

AS MINHAS MEMÓRIAS, REVIVIDAS COM A VISITA QUE EFECTUEI À GUINÉ-BISSAU ENTRE OS DIAS 30 DE MARÇO E 7 DE ABRIL DE 2017

AS DESLOCAÇÕES PELO INTERIOR DA GUINÉ-BISSAU (10)

8º DIA: DIA 06 DE ABRIL 2017 – CIDADE DE BISSAU 

Depois de um sarau agradável com o grupo das médicas e enfermeira italianas que tínhamos conhecido na Praia Varela e que connosco vieram jantar e conviver no restaurante do Aparthotel Machado, descansámos a que seria a última noite que passaríamos na Guiné-Bissau, já que cerca da meia-noite do dia seguinte, teríamos o embarque que, de regresso, nos traria de volta ao rincão lusitano.

Bem dormidos e com o pequeno-almoço tomado, eis-nos de jeep em direcção ao centro da cidade de Bissau, onde havíamos decidido passar o último dia em terras guineenses.
Conforme havido sido já de véspera preparado, através do nosso colega João Rebola e com a preciosa colaboração dum nosso comum amigo médico da Guiné-Bissau, tivemos pelas onze horas da manhã, um encontro informal com o Senhor Presidente da República da Guiné-Bissau, Dr. José Mário Vaz, que amavelmente acedeu em receber-nos, o que para nós foi uma honra.

Esse médico, de nome João Maria Goudiaby, presta serviço no Hospital Padre Américo, em Penafiel, e é já nosso bem conhecido, pois, sempre que pode, aparece nos almoços/convívios semanais que os antigos militares que combateram na Guiné, entre os anos de 1963 e 1974, realizam todas as quartas-feiras, no Restaurante Milho Rei, em Matosinhos, sendo, nada mais, nada menos, que cunhado do actual Presidente da República da Guiné-Bissau.

O Senhor Presidente teve o gesto amável de nos receber no seu gabinete da Presidência da República na manhã deste dia e que, sabendo, naturalmente pelo cunhado, daquilo que se estava a passar com o contentor, nos prometeu ultrapassar com a maior brevidade possível a desagradável e pouco clara situação do contentor cativo, porque, no mínimo e para o levantarmos era preciso pagar cerca de 2.500,00 € de taxas de armazenagem!!!

Permitam-me salientar que este grupo de antigos colegas militares, unidos por fortes sentimentos ao povo da Guiné-Bissau, com quem conviveram, constituíram, há já alguns anos a “Tabanca Pequena – Tertúlia de Matosinhos”, de onde nasceu a criação de uma ONG que tem apoiado a população guineense, com material diverso, mas maioritariamente direccionado para as áreas da saúde e da educação, sem descurar outras, onde se descubram maiores carências.


Foto 116 - Bissau: Foto obtida no hall de entrada do Palácio Presidencial, na companhia de Sua Ex.ª o Sr. Presidente da República da Guiné-Bissau, Dr. José Mário Vaz, que teve a gentileza de nos receber. Na imagem os colegas: Rodrigo, Cancela, Isidro, Monteiro, Moutinho, Azevedo, Angelino, Barbosa, Vitorino, Leite Rodrigues e Rebola. Foi pena a claridade do local, pois não permitiu que os colegas da parte esquerda da foto ficassem muito visíveis

Foto: Com a devida vénia a CONOSABA.BLOGSPOT.PT


Foto 117 - Bissau: Rua lateral poente ao Palácio da Presidência da República, vendo-se em toda a sua extensão o gradeamento de segurança do espaço presidencial 


Foto 118 - Bissau: Depois do encontro com o Sr. Presidente da República da Guiné-Bissau, os elementos do nosso grupo dirigem-se para junto da Confeitaria Império, onde os nossos jeeps nos esperavam


Foto 119 - Bissau: Os colegas Monteiro, Vitorino, Ferreira e Moutinho, nas instalações da Delegação da TAP Air Portugal, a confirmarem o voo de regresso a Portugal 


Foto 120 - Bissau: Foto da muralha exterior da Fortaleza de S. José da Amura 


Foto 121 - Bissau: Outra foto obtida do exterior da muralha da Fortaleza de S. José da Amura, onde se vêm algumas construções no seu interior, mas que não nos autorizaram a visitar… talvez porque “receassem” que “violássemos” o mausoléu de Amílcar Cabral, que parece lá existir?! Algo inacreditável… 


Foto 122 - Bissau: Visita de cortesia que o colega Vitorino fez à família de um amigo e que eu e o Ferreira acompanhamos 


Foto 123 - Bissau: Almoço do grupo no último dia, no Restaurante Coimbra, localizado ao lado da Catedral 


Foto 124 - Bissau: Sé Catedral, localizada na avenida que do Palácio do Presidente da República nos leva ao Rio Geba 


Foto 125 - Bissau: Um dos talhões do Cemitério da cidade, em cujas campas ficaram sepultados muitos militares portugueses que faleceram na Guiné. Fomos lá prestar-lhes uma sentida homenagem


Foto 126 - Bissau: Um último convívio na sala do restaurante do Aparthotel Machado, antes de nos dirigirmos para o aeroporto, a fim de regressarmos a Portugal


Foto 127 - Bissau: Os colegas Monteiro, Isidro, Vitorino, Barbosa, Rebola e Cancela, já de malas preparadas para deixarmos o Aparthotel Machado e nos dirigirmos ao Aeroporto de Bissau, para o nosso regresso a Portugal


Foto 128 - Bissau: A D. Teresa, esposa do senhor Manuel Machado e a Adelaide, filhita de ambos, ao despedirem-se de nós, quando arrancámos em direcção ao Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, para o nosso regresso 


Foto 129 - Bissau: Uma das últimas fotos de convívio no Restaurante do Aparthotel Machado, de quase todos os colegas que visitaram a Guiné (faltam aqui o Ferreira e o Angelino), acompanhados do guineense Djalló


Foto 130 - Bissau: Já no interior do Aeroporto, e aguardando o embarque, cá estão, o Ferreira, o Vitorino, o Leite Rodrigues, o Rebola, o Isidro, o Azevedo, o Monteiro e o Cancela, numa imagem final 

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9.º DIA - DIA 07 DE ABRIL 2007: O NOSSO REGRESSO A PORTUGAL

Com partida marcada para as 23,55 horas do dia 06 de Abril, e já com as malas preparadas para o regresso ao Continente Europeu, fizemos a última refeição no restaurante do Aparthotel Machado. Cerca das 22,00 horas, e feitas as despedidas do simpático Casal Teresa e Manuel Machado e da sua filhita Adelaide, bem como das 3 empregadas que com eles trabalhavam no Aparthotel, os 10 colegas, Ferreira, Vitorino, Leite Rodrigues, Rebola, Isidro, Azevedo, Monteiro, Cancela, Barbosa e Angelino, que deixavam a Guiné-Bissau, dirigiram-se para os jeeps que aguardava à porta do Aparthotel para os conduzir ao Aeroporto de Bissau, ali bem próximo.

Como curiosidade o facto de, dos 13 colegas que embarcaram comigo para a Guiné-Bissau no dia 30 de Março, ficaram lá mais uma semana o Moutinho, o Rodrigo e o Samouco, aos quais se juntaram outros 9 colegas que viajaram no mesmo avião da “Star Alliance”, que nos trouxe de regresso.

Com um “Adeus Guiné”, viemos talvez “mais ricos”, não só porque cumprimos com êxito a missão a que nos tínhamos proposto levar a efeito, mas sobretudo, porque tudo correu dentro do previsto e em segurança total para todos nós.

A viagem teve a duração de cerca de 4 horas e 15 minutos, feita sempre durante a noite, mas deu perfeitamente para dormir uns bons bocados, pois dos 162 lugares que o avião comportava, três de cada lado do corredor, cerca de 20 vinham vazios na parte traseira do avião, o que permitiu a algumas pessoas poderem “passar pelas brasas”, largos minutos.

Tal como na ida, também feita, grande parte durante a noite, foi-nos servida, cerca das 2 horas da madrugada, uma ligeira refeição.

Após uma viagem perfeitamente calma, aterrámos no Aeroporto de Lisboa, cerca das 5 horas e 15 minutos da madrugada, tomámos pelas 7 horas o pequeno-almoço, após o que nos dirigimos para a sala de embarque, ficando a aguardar a ligação para o Porto, o que aconteceria só cerca das 8 horas e quarenta minutos da manhã, tendo o avião com cerca de 70 lugares, feito uma calma viagem, acabando por aterrar no Aeroporto de Pedras Rubras cerca de 1 hora depois, tendo sobrevoando quase sempre a costa ocidental portuguesa, a baixa altitude e num dia sem nuvens, local onde a Maria Gabriela me esperava para o regresso a casa.

Fotos: © A. Acílio Azevedo, excepto as cujos autores e proveniência foram devidamente indicados

(Continua)
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Nota do editor CV

Último poste da série de 17 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17870: As memórias revividas com a visita à Guiné-Bissau, que efectuei entre os dias 30 de Março e 7 de Abril de 2017 (9): 7.º Dia: Bissau, Safim, Nhacra, Jugudul, Mansoa, Mansabá e Farim (António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil)

Guiné 61//74 - P17879: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (3): Os meus passeios: ilha de de Caió e ilha de Caravela


Foto nº 6


Foto nº 7


Foto nº 8


Foto nº 9


Foto nº 10

Guiné-Bissau > Região de Cacheu > Ilha de Caó > Julho de 2017 >

Fotos (e legenda): © Patrício Ribeiro (2017) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

(Continuação) (*)
Patrício Ribeiro, o patrão...
Ilha de Orango, 2009


1. Patrício Ribeiro, um antigo "filho da Escola" [leia-se: fuzileiro da Marinha Portuguesa], radicado na Guiné-Bissau há 4 décadas, fundador e diretor da empresa Impar Lda, mandou.nos recentemente mais umas fotos das suas andanças, em trabalho, relativas ao passado mês de julho, entre a ilha de Caravela, nos Bijagós, e o ilhéu de Caió, a sudoeste na ilha de Jeta:


Legendas:

Foto nº 6 - Viagem entre a Ilha Caravela, nos Bijagós, e Ilhéu de Caio, a sudoeste da ilha de Jeta, já na região de Cacheu;  7 horas, muito agradável (não é só nas Caraíbas)…

Foto nº 7 - Ilhéu de Caió: entrada das instalações dos Pilotos da Barra. Que de lá, continuam a controlar quem lá vem ao longe, ou vão até lá cumprimentá-los… A varanda é muito fresca, o mar,  ao bater-lhe,  faz muito barulho para se dormir, o chão é rijo por causa do cimento antigo, para quem lá dormiu 4 noites … (**)

Foto nº 8 - Dos” filhos da escola”, que lá dormiram anteriormente.[
[ Antigas instalações da Marinha > Inscrições na pedra com nomes de marinheiros fuzileiros [MAR FZ] e grumetes fuzileiros [ GRT FZ], que terão estado aqui entre 1972 e 1974 > (?) CAIO (?) 25-4-74 > 72 | GRÁFICO DA CIA 2 |.74 > 1º SARG LUÍS ...]

Foto nº 9 - Farol antigo, novo edifício para o radar, torre para antenas, etc., enfim, “as nossas férias” [do pessoal do Impar Lda] (**):

Foto nº 10 - Regresso do Ilhéu de Caió para a ilha Caravela até Betelhe, mais 5 horas, depois de esperar no mar, algumas horas que a “coisa” acalmasse.

Abraço
Patrício Ribeiro

www.imparbissau.com
impar_bissau@hotmail.com
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 17 de outubro de  2017 > Guiné 61//74 - P17873: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (2): Os meus passeios pelos Bijagós: ilha de Caravela

Vd. também  poste de 9  de dezembro de 2016 >

Guiné 63/74 - P16818: Memória dos lugares (352): Ilhéu de Caió, a sudoeste da Ilha de Jeta, região do Cacheu: um local muito bonito onde, para o ano, quero vir passar umas férias (Patrício Ribeiro, Bissau)

(**)  Vd. poste de 9 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16818: Memória dos lugares (352): Ilhéu de Caió, a sudoeste da Ilha de Jeta, região do Cacheu: um local muito bonito onde, para o ano, quero vir passar umas férias (Patrício Ribeiro, Bissau)

(...) Aqui, na ponta de Caió, terá funcionado uma "estação de pilotos" [EP]... Os pilotos, primeiro brancos e depois guineenses, levavam os navios até ao porto de Bissau  (...)

Guiné 61/74 - P17878: Parabéns a você (1330): Joaquim Ascenção, ex-Fur Mil AP Inf da CCAÇ 3460 (Guiné, 1971/73)

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Nota do editor

Último poste da série de 18 de Outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17874: Parabéns a você (1329): Luís Nascimento, ex-1.º Cabo Operador Cripto da CCAÇ 2533 (Guiné, 1969/71)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Guiné 61/74 - P17877: Historiografia da presença portuguesa em África (98): Bissau, em 1947, ao tempo de Sarmento Rodrigues, revisitada por Norberto Lopes, o grande repórter da "terra ardente"





1. Norberto Lopes (Vimioso, 1900-Linda A Velha, Oeiras, 1989) foi um notável jornalista e escritor, tendo estado entre outros ao serviço do "Diário de Lisboa", onde foi chefe de redação, desde 1921, cronista e grande repórter, além de diretor (entre 1956 e 1967). Saiu do "Diário de Lisboa" para cofundar em 1967 o vespertino "A Capital" (que dirigiu até 1970, ano em que se jubilou).

Mestre do jornalismo na época da censura, transmontano de alma e coração,. sempre se bateu pela liberdade de expressão, que considerou a maior conquista do 25 de Abril. Entre a suas obras publicadadas, destaque-se:"Visado pela Censura: A Imprensa, Figuras, Evocações da Ditadura à Democracia "(1975). Aprendeu a lidar com a censura e os censores e a escrever nas entrelinhas, como muitos jornalistas que viveram no tempo do Estado Novo,

Claro, conciso, preciso. objetivo e imparcial... são alguns dos atributos da sua escrita e do seu estilo como repórter da imprensa escrita, um dos maiores do nosso séc. XX português. Foi. além disso, um grande amigo da Guiné e dos guineenses. Tal como nós, também ele bebeu a água do Geba... Visitou aquele território pelo menos duas vezes. Esteve lá em 1927  e em 1947. Das suas crónicas de 1947, publicou o livro "Terra Ardente -Narrativas da Guiné" (Lisboa, Editora Marítimo-Colonial, 1947, 148 pp. + fotos). (*)

2. O trabalho de Norberto Lopes, sobre a Guiné ao tempo do governador geral Sarmento Rodrigues, cuja ação ele apreciava e elogiava publicamente, merece ser conhecido dos nossos camaradas, que fizeram a guerra colonial, entre 1961 e 1974. Quando fomos mobilizados para o CTIG, pouco ou nada sabíamos daquela terra e das suas gentes, da sua história e da sua geografia...

O livro de Norberto Lopes, "Terra Ardente - Narrati vas da Guiné", já não é de fácil acesso, para a generalidade dos nossos leitores (e muito menos para os nossos amigos da Guiné-Bissau) mas em contrapartida as suas reportagens, publicadas no "Diário de Lisboa", podem ainda ser lidas no portal Casa Comum, da Fundação Mário Soares.

Hoje reproduzimos, com a devida vénia, a segunda crónica que ele mandou para o seu jornal, justamente sobre Bissau, então em fase de grande crescimento. Foi publicada em 10/2/1947, há  70 anos, a idade por que rondam muitos dos nossos camaradas.

Apesar do "desenvolvimentismo" do governador-geral  Sarmento Rodrigues, havia já  problemas cuja solução se iria eternizar como, por exemplo, a projetada construção da ponte sobre o rio Mansoa, ligando a ilha de Bissau ao norte e ao sul da colónia... No nosso tempo, por exemplo, lá continuávamos a usar a velha jandaga em João Landim...

Não é indiferente saber que Bissau era uma povoação insalubre e insegura até ao tempo da I República...e que a fortaleza da Amura iria custar, além de 50 contos de réis, mais de um milhar de vidas (!), entre os seus trabalhadores, "vitimados pelo gentio, pelo escorbuto e pela malária"...

Em 1947 aguardava-se a projetada construção do porto de Bissau...Foi o  governador Carlos [de Almeida] Pereira quem, em 1913, deu início ao processo de desenvolvimento urbanístico de Bissau, então vila e depois  cidade (a partir de 1914), derrubando a famigerada muralha (um muro de tijolo de 4 metros de altura, e antes uma tosca paliçada...) que ia de um dos baluartes da fortaleza da Amura até ao cais do Pigiguiti, separando brancos e pretos, neste caso a colonos (europeus e cabo-verdianos) e o "chão de papel"...Era um muralha protetora com valor mais simbólico do que físico...Foi este gesto iconoclasta que acabou por dar origem à moderna Bissau que nós ainda iríamos conhecer.

Considerando que terá sido eventualmente um erro a transferência da capital, em 1941, por ter ferido de morte a histórica cidade de Bolama, o jornalista três décadas e tal depois. da ação decisiva do governador republicano, Carlos Almeida Paredes (outubro de 1910-agosto de 1913), dava  conta de (e descrevia em detalhe) os notáveis progressos de Bissau "onde se rasgaram largas avenidas paralelas ao eixo central formado pela Avenida da República" [, hoje, av Amílcar Cabral]...

3. Enfim, a cidade começava a ter uma "fisionomia europeia" (**)... O clube de ténis é local de encontro das  senhoras,  brancas e cabo-verdianas, tão raras ainda nos anos 20. Para os homens ficava reservada a bola ( e as paixões da bola). O campeonato de futebol da Guiné estava ao rubro: "Vi jogar os Balantas de Mansoa contra o Sport Lisboa e Bolama, em Bissau. Azuis e vermelhos lutaram com a mesma ralé [, garra, raça, vigor...] dos clubes lisboetas"... Enfim, duas boas equipas, constituídas, na curiosa expressão do autor, por "indígenas assimilados à civilização europeia"  (sic)...

E o repórter cita largamente o escritor Fausto Duarte (1904-1953), o autor de "Auá" (1934), de origem cabo-vrediana, funcionário da admimnistração colonial, que foi  testemunha privilegiada dessas mudanças históricas... Para Fausto Duarte, o coração, os pulmões, os braços e as pernas de Bissão estavam no Pigiguiti, nas suas embarações e nos seus estivadores... Onde Norberto Lopes parece ser menos preciso é quando escreve que a construção da primeira ponte-cais de Bissau, a "maior obra de engenharia da colónia",  foi atribuída a uma empresa inglesa.  Tanto quanto sabemos, a construção da ponte-cais do porto de Bissau, em betão armado, foi feita pela empresa Moreira de Sá & Malevez (1910-1913) (segundo informação de Luís Calafate, bisneto de Moreira Sá) (***).

A última crónica (ou "narrativa da Guiné") de Norberto Lopes será a do elogio público da obra e da personalidade do enérgico transmontano Sarmento Rodrigues, futuro ministro das colónias (e depois do Ultramar).  (***) (LG)





























Recorte do "Diário de Lisboa" (diretor: Joaquim Manso), nº 8694, ano 26, segunda  feira, 10 de fevereiro de 1947, pp. 1 e 9.

Cortesia de portal Casa Comum > Fundação Mário Soares > Arquivos > Diário de Lisboa / Ruella Ramos >  05780.044.11045

Citação:

(1947), "Diário de Lisboa", nº 8694, Ano 26, Segunda, 10 de Fevereiro de 1947, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22342 (2017-10-18)

[Seleção, montagem dos recortes, edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do editor

(*) Vd. poste de 21 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17785: Historiografia da presença portuguesa em África (92): quando a Guiné do tempo de Sarmento Rodrigues tinha uma "boa imprensa": Norberto Lopes, o grande repórter da "terra ardente"

(**) Sobre o planeamento e o desenvolvimento urbanístico de Bissau, bem como  da sua arquitectura colonial, vd. entre outros os  postes de:

12 de julho de  2014 > Guiné 63/74 - P13392: Manuscritos(s) (Luís Graça) (36): Revisitar Bissau, cidade da I República, pela mão de Ana Vaz Milheiro, especialista em arquitetura e urbanismo da época colonial (Parte VII): O melhor edifício da cidade, a Associação Comercial, hoje sede do PAIGC, projeto do arquiteto Jorge Chaves, de 1949-1952
20 de junho de 2014 > Guiné 63/74 - P13312: Manuscritos(s) (Luís Graça) (33): Revisitar Bissau, cidade da I República, pela mão de Ana Vaz Milheiro, especialista em arquitetura e urbanismo da época colonial (Parte VI): O novo bairro da Ajuda (1965/68), um "reordenamento" na estrada para o aeroporto...





A ponte de Ensalmá que que veio permitir
a ligação de Bissau a Mansoa
Vd. também os postes de Mário Dias:

9 de Fevereiro de 2006 >  Guiné 63/74 - P495: Memórias do antigamente (Mário Dias) (1): Um cabaço de leite



Bissau, 1908, antiga ponte cais em madeira: desembraque de
tropas
27 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2691: Memórias dos Lugares (6): A Bissau dos anos 50, que eu conheci (Mário Dias)