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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27748: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IX: No BART 1913 (Catió, 1967/69): E "aos costumes disse nada", porque fora educado... na conformação




Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Vila > Álbum fotográfico do Victor Condeço > Foto 4 -  Igreja Paroquial de N. Sª. de Catió.

 

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Vila > Álbum fotográfico do Victor Condeço >Foto 19 >Escola primária oficial na avenida, foto tirada da torre da Igreja.


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Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Álbum fotográfico do Victor Condeço > Catió > Quartel > Foto nº 16 > "Lavadeiras à porta da camarata de sargentos, do lado direito vê-se parte do bar de sargentos".



Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Cerimónia militar em Fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG (Comando Terriorial Independente da Guiné), atribuída em julho de 1967, com a presença das entidades civis e população.


Foto 32  do álbum fotográfico do Victor Condeço (1943-2010) > "Militares, civis da administração, correios e comerciantes. Da esquerda para a direita, [?], de costas o Cap Médico Morais (1), o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso (2), quatro funcionários dos Correios e Administração (3), os comerciantes Srs. José Saad e filha (4), Mota (6), Dantas e filha (5), Barros (7), depois o electricista civil Jerónimo (8), e o alf graduado capelão Horácio  Fernandes (9)".

 "Ao canto superior direito pode ler-se a seguinte inscrição: 'A nossa intervenção em África é resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer' ". (E a propósito, de quem seria o autor da frase ?)

Fotos (e legendas): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)-.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do  nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69), e que faleceu recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos. 
 
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos oito postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de  1959).

(vii) em no início do 2º semester de 1967, é chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(viii) é mobilizado  para a Guiné, em rendição  individual, como capelão militar, sendo colocado em Catió no BCAÇ 1913.


Horácio Fernandes (1935.2025)
Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos,  por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


2. É uma história de vida que merece ser 
conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro 
testemunho de uma época que ainda coincide, 
em parte, com a nossa.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

 

História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IX:  No BART 1913 (Catió, 1967/69): E "aos costumes disse nada", porque fora educado... na conformação

por Horácio Fernandes


Este incidente [ a praxe a que foi sujeito à chegada, em Catió, com exibição de fotos pornográficas](  (*) estragou a recepção planeada, embora o comandante que presidia [à refeição, na messe de oficiais] tentasse mnimizá-lo. 

O capitão levantou-se da mesa, todo ofendido, e foi preciso o patrocínio do médico, para sanar o contencioso aberto. Só passados vários meses me voltou a falar.

Como único padre da vila, fui encarregado da missão católica que os missionários italianos tinham abandonado e das 4 escolas, a cargo dos respectivos professores indígenas.

Aos domingos organizava a catequese e celebrava missa para a tropa e população. Contudo, nunca fui bem recebido pelos professores, talvez por ser militar. Não obstante os meus esforços de aproximação, continuavam mudos e calados, mas a sua raiva contra o colonialismo era evidente. Respeitava este silêncio, porque sabia que tinham familiares a combater do outro lado e eram frequentemante incomodados pela PIDE.

Aos domingos o comandante do batalhão estava sempre muito atento à homilia, mas eu nunca abordava as questões políticas, nem tinha apetência para elas, porque tinha sido educado na conformação Continuava a falar, indistintamente, para brancos e pretos, como Filhos de Deus, indiferente aos problemas politicossociais, tal como na Metrópole.

O quotidiano era feito de vigilâncias à mata, mas com poucos contactos e abastecimento às companhias e pelotões destacados no mato. Quando havia mortos ou feridos, eram logo evacuados de helicóptero para Bissau. 

À medida que a comissão estava a findar e já todos contavam ansiosamente os dias que faltavam. Éramos atacados, duas ou três vezes por semana, com morteiros e canhões sem recuo, geralmente à hora do jantar. Os abrigos eram o meu refúgio e o do médico.

Quase no fim do tempo de comissão, durante um ataque ao quartel, uma granada de morteiro furou a chapa de zinco do barracão e caiu em cima de uma mesa da messe de oficiais, onde também me encontrava. Só por milagre não rebentou: Desencavilharam-na, e ficou como recordação para os que nos renderam, numa redoma de vidro.

Na sede do Batalhão, a minha missão era, para além de prestar assistência religiosa à população e soldados da CCS, deslocar-me, quando tinha avião, barco, ou mais raramente em colunas, às outras Companhias 
[de quadrícula]que defendiam o perímetro militar, à responsabilidade dó Batalhão (**).

Desafiaam-me para ir com as colunas militares, mas nunca arrisquei muito. Em caso de ataque só atrapalhava e,  além disso,  tinha medo das minas.

Nos destacamentos do mato, a minha missão era prestar assistência religiosa aos que a solicitavam. Era muito solicitado por soldados provenientes dos Açores e Madeira e oriundos do norte do país. 

Nunca andava armado e praticamente não sabia dar um tiro. 

Uma das coisas que me fazia mais confusão, era, para além da «compra» das raparigas por soldados e oficiais, a pretexto de lhes lavar a roupa, o modo como o agente da PIDE tratava os suspeitos. Pendurava-os pelas mãos ao teto, com uma corda, como se fossem porcos e mandava um «cipaio», geralmente de outra etnia, dar-lhe porrada, até ele confessar o que queria ouvir.

- 131 -

Casualmente, assisti uma vez a este espectáculo. Mostrei o meu desagrado e não voltei lá mais. 

Mas o mesmo fazaiam as companhias o operacionais, a alguns suspeitos. A única vez que me integrei numa missão de vigilância, por insistência do capitão, apanharam um homenzinho e enfiaram-lhe a cabeça na água choca da «bolanha», para ele confessar quem tinha dado uns tiros de aviso, antes da nossa chegada. 

Protestei, mas continuaram e,  meio morto, trouxeram -no para o quartel. Afinal, disse-me mais tarde o capitão, ele de nada sabia. Aproveitaram-no, depois, para guia.

Igualmente me metia con confusão como os pretos e suas mulheres eram explorados pela "Companhia Ultramarina" [Sociedade Comercial Ultramarina, do grupo BNU, rival da Casa Gouveia] . Vinham carregados do mato, com balaios de arroz à cabeça c pagavam-lhes com alguns garrafões de aguardente de cana. 

Ficavam ali num alpendre da Companhia, perdidos de bêbados, homens,  mulheres e crianças, até esgotarem a aguardente. Depois da ressaca, voltavam às tabancas buscar mais arroz e repetia-se a cena.

- 132 -

(Continua)

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)

1. Ficha de unidade > Batalhão de Artilharia nº 1913

Identificação: BArt 1913
Unidade Mob: RAP 2 - Vila Nova de Gaia
Cmdt: TCor Art Abílio Santiago Cardoso
2.° Crndt: Maj Art Luís Teixeira Fernandes
OInfOp/Adj: Cap Art Ernesto Chaves Alves de Sousa | Cap Art Luís Alfino Castel-Branco Alves de Silva

Cmdts Cornp:
CCS: Cap SGE Rodrigo Botelho da Costa ,
CArt 1687: Cap Mil Art Vicente João Cardoso de Macedo de Menezes
CArt 1688: Cap Art Damasceno Maurício Loureiro Borges
CArt 1689: Cap Art Manuel de Azevedo Moreira Maia | Cap Inf Martinho de Sousa Pereira | Cap Art Rui Manuel Viana de Andrade Cardoso
Divisa: "Por Portugal - um por todos, todos por um"

Partida: Embarque em 26Abr67; desembarque em 01Mai67 | Regresso: Embarque em 02Mar69

Síntese da Actividade Operacional

Em 02Mai67, rendendo o BCaç 1858, assumiu a responsabilidade do Sector
S3, com sede em Catió e abrangendo os subsectores de Bedanda, Cufar, Catió,
Cachil, este extinto em l8Ju168, após evacuação e Cabedú, também extinto em
30Jul68 e integrado no subsector de Catió.

Desenvolveu intensa actividade operacional em ordem a criar insegurança
ao inimigo no sector, garantir a circulação nos itinerários e promover a
recuperação e protecção das populações da área. 

Pelos resultados obtidos e pelos efectivos envolvidos, salientam-se as operações "Penetrante", "Sttela", "Pleno" e "Futuro Próximo" entre outras.

Dentre o material capturado mais significativo salienta-se: 1 lança-granadas
foguete, 2 pistolas-metralhadora, 4 espingardas, 34 minas, 117 granadas de
armas pesadas e 605 cartuchos de armas ligeiras.

Em 17Fev69, foi rendido no sector de Catió pelo BArt 2865 e recolheu
seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CArt 1687 permaneceu sempre integrada no dispositivo e manobra do
seu batalhão, tendo assumido em 02Mai67 a responsabilidade do subsector de
Cachil, onde rendeu a CCaç 1423.

Em 09Ju167, por troca com a CCaç 1621, assumiu a responsabilidade do
subsector de Cufar, onde se manteve até ser rendida pela CArt 2477, em
18Fev69, após o que recolheu a Bissau a fim de efectuar o embarque de
regresso.

***

A Cart 1688, após curta permanência em Bissau, onde substituíu transitoriamente a CCaç 1424 no dispositivo de segurança e protecção das instalações e das populações a cargo do BArt 1904, efectuou simultaneamente uma
instrução de adaptação operacional, sob orientação do BCaç 1876,
na região de Bula, para onde seguiu em 08Mai67. 

Seguidamente tomou parte em operações realizadas nas regiões de Ponate, Choquemone, Manga e Late, entre outras.

Em 31Mai67, iniciou o deslocamento para Biambe, por fracções e em 07Jun67, assumiu a responsabilidade do subsector de Biambe, com um pelotão destacado em Encheia, desde 04Jun67 até 150ut67, onde substituíu a CCav 1485, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1876 e depois do BCav 1915.

Em 19Fev69, foi substituída no subsector de Biambe pela CCaç 2464 e
recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

***

A CArt 1689 seguiu imediatamente para Fá Mandinga, a fim de efectuar o
treino operacional, até 24Mai67 e seguidamente reforçar o dispositivo e manobra
do BCaç 1888, colmatando anterior saída da CCaç 1439 e actuando em
várias operações, patrulhamentos, emboscadas e escoltas realizadas naquele
sector, até 18Ju167, tendo cedido, ainda, um pelotão para reforço da guarnição
de Bambadinca.

Em 19Ju167, em substituição da CCav 1484, foi colocada em Catió, como
força de intervenção e reserva do Comd Agr 1975 e depois do Cmd Agr 2951, a fim de actuar em diversas operações realizadas na zona Sul, nas regiões de Cobumba,
Afiá, Nhai e Cabolol Balanta, entre outras, em reforço do BArt 1913 c na região
de Gubia, em reforço do BArt 1914, de 25Nov67 a 23Dez67. 

Foi deslocada temporariamente para o subsector de Cabedú, de 05 a 11Jan68, a fim de substituir a CArt 1614, até à chegada da CCaç 1788.

De 24Mar68 a 15Mai68, foi atribuída em reforço do BArt 1896, instalando-se
inicialmente em Buba e, a partir de 08Abr68, em Gandembel, em reforço da
guarnição local e da construção do respectivo aquartelamento.

Em 10Jun68, por troca com a CCaç 1788, assumiu a responsabilidade do
subsector de Cabedú, no sector do BArt 1896, onde permaneceu até à sua
extinção em 30Ju168.

Deslocada seguidamente para Canquelifá, assumiu, em 06Ago68, a responsabilidade do respectivo subsector, com um pelotão destacado em Dunane, onde rendeu a CCaç 1623, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 2835.

Em 01Dez68, foi rendida no subsector de Canquelifá pela CArt 2439 e
seguiu, em 05Dez68, para o sector de Bissau, a fim de substituir a CCaç 2436
no dispositivo de segurança e protecção das instalações e das populações da
área, na dependência do BCaç 1911 e onde permaneceu até ao seu embarque de
regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº  80 - 2ª Div/4ª  Sec, do AHM).

A CArt 1688 e 1689 tem História da Unidade (Caixa nº  82 - 2ª  Div/4ª  Sec,
do AHM).

A CArt 1687 tem Resumo de Factos e Feitos mais importantes (Caixa nº 103
- 2ª Div/4ª Sec. do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 215.217.

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Guiné 61/74 - P27747: Historiografia da presença portuguesa em África (517): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1961 (75) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Os volumes que guardam o Boletim Oficial da Guiné estão descaradamente a engordar, e 1961 é a prova provada que o Ministério do Ultramar está afanosamente a apagar o Império e a dar corpo jurídico a um Portugal que vai de Minho a Timor, a legislação governamental está a crescer desmesuradamente, a despeito do Governo da Guiné continuar a definir os preços de compra e venda de arroz com casca e descascado, a alertar para a campanha contra a tuberculose, fruto da transformação do Portugal colonial num Portugal ultramarino e multirracial, ao aparecimento de comissões municipais, ao reforço da Polícia de Segurança Pública com companhias móveis de polícia. É neste quadro que o Ministro do Ultramar (Decreto-Lei n.º 43893) elabora o quadro explicativo para que de um dia para o outro deixe de haver indígenas e passe a haver cidadãos portugueses. Como é evidente, o aparelho do Ministério da Defesa vai-se adaptando às contingências da guerra em África, no Decreto-Lei n.º 43914, o Ministro da Defesa Nacional manda centralizar na Agência Militar todas as operações que impliquem transferências de fundos entre a metrópole e as províncias ultramarinas respeitantes aos serviços militares. No futuro, os familiares de quem combate em África irão à Rua D. Estefânia em Lisboa buscar as pensões dos seus maridos e filhos, isto no caso da região de Lisboa.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1961 (75)


Mário Beja Santos

Os volumes anuais do Boletim Oficial da Guiné são cada vez mais opulentos no peso, grande parte para não dizer toda a legislação que afeta o Ultramar é inscrita ao lado do que se passa na colónia da Guiné. Adivinha-se que há cada vez mais gente na colónia, basta ler as colocações, nomeações, promoções, propostas de financiamentos, gratificações, autorizações de férias, avisos de recenseamentos… surgem até medidas para disciplinar os folguedos carnavalescos e multiplicam-se os concursos públicos para empreitadas; continua também o acompanhamento da política de pesos. Não tanto como os anos seguintes, há já a sombra da subversão, chegam contingentes militares, criam-se policiamentos locais e anunciam-se viagens gratuitas para as mulheres de oficiais; e não param os acórdãos nos altos de recurso e decisões do Conselho Superior de Disciplina Militar. Vejamos a tomada de medidas desde o princípio do ano.

Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 7 de janeiro, por despacho, são mantidos durante o ano os preços de compra e venda de arroz com casca e descascado mecanicamente. O Governador determina que é permitida a aquisição ao produtor indígena de arroz de pilão num conjunto de localidades, o trânsito deste arroz nas áreas onde é permitida a aquisição ao produtor indígena é regulado pela autoridade administrativa local, sendo o arroz obrigatoriamente acompanhado de guias.

No Boletim Oficial n.º 3, de 21 de janeiro, publicam-se normas para o fornecimento de oleaginosas alimentares, a medida é emanada dos Ministérios do Ultramar e da Economia: é fixado um contingente de 40 000 toneladas de mancarra da Guiné para abastecimento da metrópole. Neste mesmo Boletim Oficial é publicada a Portaria n.º 1302 em que se anuncia a campanha contra a tuberculose em que a Fundação Gulbenkian contribui com uma substancial ajuda material e financeira. “É necessário, finda a primeira fase desta campanha contra a tuberculose, caracterizada pelo trabalho intensivo, tendo como finalidade a avaliação da incidência da doença sobre as populações da Guiné, continuar tal trabalho em ritmo possivelmente mais lento, mas dentro das mesmas normas, para tratar dos doentes dispersos entre a população da província foi criado um lugar de tisiologista.”

No Boletim Oficial n.º 24, de 26 de junho, Decreto-Lei dos Ministérios do Interior, das Finanças e do Ultramar, visa o reforço da Polícia de Segurança Pública com companhias móveis de polícia, e explicam-se todos os requisitos.

No Boletim Oficial n.º 32, de 12 de agosto, mexe-se com alguma profundidade na organização administrativa, pelas Portarias n.ºs 1358 e 1359. Pela primeira são criadas Juntas Locais em diferentes postos administrativos; o segundo é de maior complexidade, atenda-se à nota explicativa:
“Os concelhos de Bissorã, Cacheu, Catió, Farim, Mansoa e Gabu, com sedes, respectivamente nas vilas de Bissorã, Teixeira Pinto, Catió, Farim, Mansoa e Nova Lamego, atingiram já o desenvolvimento económico e social previsto na lei, de modo a justificar a criação, nas suas sedes, de comissões municipais, por nas suas áreas existirem povoações com forte aglomeração de população civilizada, actividade mercantil e industrial intensas, e numerosos edifícios com boas condições de aspecto, duração e higiene”.
Por estas razões são criadas comissões municipais.

Vejamos agora o Boletim Oficial n.º 38, de 27 de setembro, Decreto-Lei n.º 43893, tem a ver com o Estatuto do Indigenato, convém ler o que vem no preâmbulo:
“O problema do Estatuto dos Indígenas assume grande relevância na conjuntura política actual e porque tal diploma nem sempre tem sido atingido de modo a fazer-se justiça às razões e intenções que o determinaram, há vantagem nalgumas considerações sobre os motivos que deram origem à já tradicional existência, no Direito português, de um diploma que especialmente se ocupasse da situação jurídica dos chamados indígenas.
Em primeiro lugar deve salientar-se a tradição portuguesa de respeito pelo direito privado das populações que foram incorporadas no Estado a partir do movimento das descobertas e a que demos o quadro nacional e estadual que desconheciam e foi elemento decisivo da sua evolução e valorização no conjunto geral da humanidade. A permanente atitude respeitadora do direito privado corresponde à convicção de que tal direito exprime os valores fundamentais de qualquer comunidade e nunca lhe pusemos os limites que não fossem os derivados dos princípios superiores da moral que mais tarde foram reconhecidos pelas Declarações Universais dos Direitos do Homem (…) Mas foi sobretudo a implantação de conceito de Estado, a que eram alheios os territórios a onde, sem violência, se estendeu a soberania portuguesa, que levou a formular lentamente um conjunto de exposições que depois viriam a ser sistematizadas no Estatuto dos Indígenas. Dispersa a Nação por todos os Continentes, entrando em contacto com as mais variadas gente e culturas, acolhendo a todos com igual fraternidade, foi necessário estabelecer um conjunto de preceitos que traduzissem a ética missionário que nos conduziu em toda a parte com fidelidade à particular maneira portuguesa de estar no Mundo. Os imperativos legais destinados a proteger as populações que entravam no povo português vieram a constituir um todo harmonioso, onde o respeito pela dignidade do homem, expressa nas formas tradicionais da propriedade, da família e das sucessões, se tornou um imperativo para todos os agentes, públicos os privados, da acção ultramarina portuguesa.”


Estou em crer que se trata da mais espantosa forma de ficção de imaginar como foi e como evoluiu o Império, aqui paraninfado como um todo harmonioso; contudo, como a legislação vai prever, havia que revogar o Estatuto dos Indígenas, o mundo era outro e a defesa do Império requeria uma adequação subtil, que o leitor nunca mais se esqueça deste Decreto-Lei n.º 43893 do Gabinete do Ministro do Ultramar. Estávamos em setembro de 1961, as Nações Unidas insistiam que o Governo apresentasse elementos comprovativos de que Portugal não tinha colónias ou territórios administrados, coube a Adriano Moreira ir soterrando as peças comprovativas do Império Colonial Português, este Decreto-Lei é uma peça exemplar de como se dava a cambalhota, como se escreve em determinado ponto:
“Foi da sábia e oportuna conjugação de dois factores – respeito pelos usos e costumes locais e vincado propósito de assimilação – que resultou a harmoniosa sociedade multirracial que se contém nos limites do território português e que, mau grado as fáceis e interessadas críticas dos nossos detractores de hoje, constitui um dos maiores serviços jamais prestados à dignificação do homem. Continuá-lo representa imperativo de consciência a que não sabemos furtar-nos, e daí que, embora naturalmente preocupados com os escolhos e dificuldades que abundantemente se colocam no nosso caminho, persistimos em seguir na mesma linha de rumo.”

E chega-se agora à pirueta que procura dar lógica à revogação do Estatuto dos Indígenas:
“Considerou-se que o condicionalismo político e social das nossas províncias da terra firme da África permite já hoje dispensar muitas das normas que definiam o mecanismo de protecção das populações inteiramente confiadas ao Estado, e que haveria vantagem em generalizar o uso de mais latos meios para a gestão e defesa, dos seus próprios interesses e, também, para a participação na administração dos interesses locais.”
Reza o diploma que a decisão da revogação do Estatuto dos Indígenas se baseia nas conclusões de trabalho e que mereceu o voto unânime do venerando Conselho Ultramarino. E com este passo de mágica deixou de haver indígenas e todos os africanos das nossas colónias passaram a ser portugueses de gema.

1 de junho de 1961, regresso da metrópole do Governador da Guiné, Peixoto Correia, partirá em 1962, ano em que tomará posse como Ministro do Ultramar. Imagem retirada da RTP Arquivos, com a devida vénia
1952, a Rapariga Manjaca do regulado de Tame, idade aproximada 16 a 18 anos, escarificações feitas há cerca de 2 anos.
No “chôro” mancanha
O artista manjaco Sugá Mendes
Mancebos Felupes

Quatro imagens retiradas do Boletim Oficial da Guiné Portuguesa, ano 1961

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 11 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27725: Historiografia da presença portuguesa em África (516): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1960 (74) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27746: Documentos (57): A retirada de Madina do Boé (Hilário Peixeiro, ex-cap mil inf, cmdt, CCAÇ 2403 / BCAÇ 2851, Nova Lamego, Piche, Fá Mandinga, Olossato e Mansabá, 1968/70)


Foto nº 1 > Guiné >  Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > Op Mabecos Bravios > 2 de fevereiro de 1969 >  Concentração das NT em Canjadude, quartel guarnecido pela CCAÇ 5, "Gatos Pretos".


Foto nº 2 > Guiné >  Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > Op Mabecos Bravios > 2  fevereiro de 1969 >  Canjadude foi o local onde as NT se reuniram para o início, propriamente dito, da Operação. À esquerda os pilotos da FAP Cap Pilav José Nico (filmando) [, hoje ten gen pilav ref] [1] e o Sarg mil  Honório [2] e o Cmdt da Operação, Cor Inf Hélio Felgas [, Cmd Agrup 2957, Bafatá, 1968/70][3].

Fotos (e legendas): © Hilário Peixeiro (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Este é o testemunho do cor int ref Hilário Peixeiro, ex-capitão, cmdt da CCAÇ 2403 / BCAÇ 2851, Nova Lamego, Piche, Fá Mandinga, Olossato e Mansabá, 1968/70. Reeditamos o seu relatório da Op Mabecos Bravios, agora na série "Documentos" (*).

 
Natural de Beja, vive atualmente em Elvas. É da colheita de 1941. Deu há dois anos uma extensa entrevista ao jornal "Linhas de Elvas, sobre a sua história de vida, a sua carreira militar e a sua participação no 25 de Abril.  É membro da nossa Tabanca Grande desde 10 de maio de 2011. Tem 18 referências no nosso blogue. Tem página no Facebook. É particante de golfe,.
 
 
A retirada de Madina do Boé  

por Hilário Peixeiro

Durante o mês de Janeiro [de 1969] tiveram lugar os preparativos e reconhecimentos na zona do Boé, com vista à Operação de evacuação de Madina do Boé, denominada “Mabecos Bravios”.

Para além da CCaç 1790, local, comandada pelo Cap inf  [José] Aparício,  participaram na operação outras 6 Companhias [incluindo a CCaç 2405, Destacamento F].

A 2 de Fevereiro [de 1969] a CCaç 2403, com 3 Gr Comb [Destacamento D ], deslocou-se para Canjadude e depois para o Cheche onde chegou já no final do dia, transportada nas viaturas destinadas ao transporte, no regresso, dos materiais da CCaç 1790 e da população de Madina. 

Desta vez todos os Gr Comb eram comandados pelos respectivos alferes.

Juntamente com a CCaç 2405, do Cap Jerónimo [Destacamento F], atravessou o Corubal numa das jangadas, recém-construídas para o efeito, indo cada uma ocupar as colinas que flanqueavam a estrada para Madina, à esquerda e à direita. 

Quando as Companhias se separaram, já noite fechada, o IN lançou 2 granadas de morteiro sobre a estrada, sem consequências, o que, 15/20 minutos antes, poderia ter tido resultados bem diferentes. 

Na manhã seguinte [3 de fevereiro], as Companhias seguiram, apeadas, rumo a Madina, sempre sobrevoadas por 1 T6 ou 1 DO até ao final do dia.

 
Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 3 de fevereiro de 1969 > Progressão da coluna em direção a Madina do Boé, sob a proteção do DO 27 do srgt pil Honório


Foto nº 4 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 3 de fevereiro de 1969 > Progressão da coluna em direção a Madina do Boé, sob a proteção do DO 27 do srgt pil Honório

A meio da manhã [do dia 3 de fevereiro] houve um reabastecimento de água, planeado e, mais à frente, não planeado, um fortíssimo ataque de abelhas à CCaç 2405  [Destacamento F] que deu origem à evacuação de alguns homens no heli do Comandante da Operação, Cor [Hélio]  Felgas, que aterrara entretanto.

Este contratempo provocou grande atraso na coluna e, a certa altura, o efeito do calor e das abelhas fez-se sentir mais acentuadamente sobre a CCaç 2405, tendo a CCaç 2403 [Destacamento D] que ia na retaguarda, passado para a frente com o intuito de pedir a Madina reabastecimento de água para o pessoal mais atrasado que estivesse em dificuldades. 

Quando, cerca de 10 minutos depois, um Gr Comb se preparava para sair do quartel, chegou a outra Companhia [CCAÇ 2405].

Enquanto o pessoal foi instalado,  os Capitães receberam do Comandante a missão para o dia seguinte  [4 de fevereiro] que consistia na ocupação dos morros que se estendiam a sul de Madina entre esta e a República da Guiné.


Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 3 de fevereiro de 1969  > Evacuação de vítimas de ataques de abelhas e insolação, com o helicanhão a sobrevoar a zona.
 

Foto nº 6 > Guiné > 
Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 3 de fevereiro de 1969 > Viaturas das NT (Mercedes), abandonadas em colunas anteriores.


Foto nº 7  > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé  > 3 de fevereiro de 1969 > Viatura das NT abandonada (Berliet)


Foto nº 8  > Guiné > 
Zona Leste >  Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 4/5 de fevereiro de 1969 > Viatura das NT abandonada (Berliet)


Foto nº 9 > Guiné > 
Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios >  Madina do Boé > 5 de fevereiro de 1969 > Reparação de GMC (rebocada) e sem paragem da coluna, de regresso a Cheche.

Quando se fez dia  [em 5 de fevereiro de 1969] o pessoal ficou surpreendido com o cabeço a que Madina estava encostada e os que a rodeavam. Eram autênticas “montanhas” na Guiné, onde tudo era plano. 

As Companhias ocuparam as elevações que lhes foram indicadas e aí permaneceram nesse dia enquanto as viaturas chegaram e no dia seguinte enquanto se procedeu ao seu carregamento com os materiais da guarnição e da população civil que ia ser deslocada para Nova Lamego. 

No dia 6 [de fevereiro], logo que se fez dia, deslocaram-se para a coluna que já se encontrava em movimento a caminho do Cheche, assumindo a segurança dos flancos e retaguarda. 

Antes de atingir o rio Corubal, a coluna ainda foi alvo de mais um feroz ataque de abelhas que só provocou, como vítimas, a morte de dois cães da população.


Foto nº 10 > Guiné >
Zona Leste >  Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios >  6 de fevereiro de 1969 >  Imagem da jangada com a CCaç 2403 a embarcar para a última travessia antes da tragédia, na maregm sul (esquerda) do rio Corubal


Foto nº 11 > Guiné > 
Zona Leste > Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 6 de fevereiro de 1969 >  Imagem da jangada com a CCaç 2403 a embarcar para a última travessia antes da tragédia.


Foto nº 12 > Guiné > 
Zona Leste >   Região de Gabu > Cheche > Op Mabecos Bravios > 6 de fevereiro de 1969 >  Imagem do pessoal da CCaç 2403 a embarcar para a última travessia antes da tragédia.

Fotos (e legendas): © Hilário Peixeiro (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

As viaturas e pessoal foram atravessando o rio até só restarem as 2 Companhias e parte da CCaç 1790 de Madina. Comandava a operação de carregamento da jangada o Cap Aparício [da CCAÇ 1790]. 

Na penúltima travessia foram transportadas a CCaç 2403 e parte da CCaç 2405, tendo a primeira recebido imediatamente ordem do Cor Felgas para montar a segurança do flanco esquerdo da coluna que partiria, logo que pronta, rumo a Canjadude.

Para a última travessia, seria embarcado o pessoal que restava das CCaç 2405 e CCaç 1790, muito menos de 100 homens. 

Enquanto se aguardava a chegada do pessoal que faltava para a coluna se pôr em marcha foram disparadas 1 ou 2 granadas das armas pesadas do Destacamento do Cheche. 

Pouco depois surgiu um soldado a correr em direcção ao rio, a chorar, dizendo que a jangada se havia virado e que muita gente tinha caído à água no meio do rio. 

Através do rádio do Capitão,  foi ouvido o cor Felgas em comunicação com o general Spínola, que não esteve no local, dizendo que havia muitos homens desaparecidos no rio. 

Com grande atraso em relação à hora prevista, a coluna iniciou o deslocamento para Canjadude onde pernoitou.

No dia seguinte [7 de fevereiro] chegou a Nova Lamego, onde o Comandante-Chefe falou às tropas participantes na Operação.

Com a chegada da CCaç 1790 a Nova Lamego, a CCaç 2403 recebeu ordem de marcha para o Olossato com passagem por Fá Mandinga (...) e aí ficou mais de 1 mês, em missão de intervenção do Comando de Agrupamento de Bafatá. (...)

[Revisão / fixação de texto, parêntses retos, negritos: LG]
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Nota do edidtor LG:

(*) Último poste da série > 17 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27741: Documentos (56): A retirada de Madina do Boé (José Jerónimo, ex-cap mil, cmdt, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Galomaro e Dulombi, 1968/70)

Guiné 61/74 – P27745: Agenda cultural (912): Viajando num velho “Cadillac” da vida: lançamento de novo livro (o 12.º), "AVC - Viagem ao Mundo de Sobreviventes", no dia 3 de março de 2026, terça feira, pelas 18h00, na Biblioteca Municipal José Saramago - Beja (José Saúde)



Viajando num velho “Cadillac” da vida...




1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil OpEsp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem. 

Camaradas, 
Divagando por um horizonte já curto por mim visionado, ouso usufruir de uma sumptuosa viagem num velho “Cadillac” da vida e lá vou debitando palavras que entendo como primordiais para uma sociedade aparentemente credora de valores, quiçá culturais, que se lança noutros patamares, mas cujos protagonistas parecem esquecer que o escritor, homem simples e honesto, é tão-só um ser humano cuja narrativa nos conduz a um sumptuoso mundo onde se consumem, por vezes, aquilo que o povo chama “assobiar para o lado”.

Sabeis, porque somos homens já crescidos, que a nossa virtualidade física é agora já uma simples ilusão. Caminhámos outrora por trilhos de uma Guiné onde nos deparámos com os mais diversificados contratempos. Éramos jovens e fazíamos jus à nossa condição física. Aliás, dávamos um “pontapé nas estrelas” e tudo parecia correr contra a infinidade de um tempo que depressa se definhe.

Mas, somos afinal pequenas e simples gotas de orvalho que num breve fechar de olhos se diluem em mantos deveras suturados de plenas incertezas. Conheço o meu corpo, sei o que fui e o que hoje sou. Porém, já nada como dantes. 

Com 55 anos, quando a vida parecia-me correr às mil maravilhas, só que inesperadamente fui surpreendido com um AVC que me deixou entre a vida e a morte. Sobrevivi, recuperei a minha mente, e lancei-me, com maior cuidado, à condição de escritor, muito embora a minha vida fosse pautada por uma eficaz entrega ao mundo do jornalismo ao largo de dezenas de anos. Tenho, ainda, Carteira Profissional de Jornalista, atualizada, e continuo a escrever para órgãos de comunicação social.

Todavia, escrever para deixar memórias sempre me seduziu. No meu 12º livro trago a público um conjunto de realidades que passam, obviamente, pela temática do AVC. Escrevo o que é saber lidar com um AVC, toda a sua estatística, a sua conjetura e um conjunto de opiniões de companheiros que a dada altura das suas vidas se viram constrangidos com a sinistra realidade.

A Colibri, Lisboa, tem sido o palco dos meus diversificados livros. Neste contexto, afirmo-o, com segurança, que no dia 3 de março, terça feira pelas 18h00, 2026, a Biblioteca Municipal de Beja José Saramago, será o local ideal para a apresentação da minha última obra. 

Farei, simultaneamente, uma tarde também musical, onde estará presente o Grupo de Cantadores Desassossego, de Beja, e o cantor Ruben Lameira. 

Abraço camaradas e um até já
Zé Saúde
Fur Mil OpEsp/RANGER da CCS do BART 6523

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27744: Humor de caserna (239): "Cuando sali de Cuba...": alguém se lembra desta canção para "desmoralizar cubanos"? (Alberto Branquinho, contista)


Alberto Branquinho: ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, depois de ter passado por Coimbra como estudante. Um dos grandes contistas da guerra da Guiné


1. O carnaval e a guerra nunca se deram bem... A guerra não fechava para Carnavais, Natais, Páscoas, Domingos, Dias Santos... Lembro-me de uma violentíssima emboscada que apanhámos, a CCAÇ 12, no subsetor do Xime, numa segunda feira de Carnaval, em 9 de fevereiro de 1970.

Mas a guerra até se dava bem com o humor. Ou o humor com a guerra. De um lado e do outro. Do lado de cá, há pelo menos pequenas grandes histórias que não se podem perder. 

Esta se calhar é uma delas. É do nosso Alberto Branquinho, exímio contista que eu ando a ler e reler com gosto. Recorde-se as suas duas principais séries, que o tempo não vai engolir:  "Não venho falar de mim... nem do meu umbigo" e "Contraponto"... 

Para além da sua colaboração na nossa série "Humor de caserna", é autor também de vários livros (em prosa e em verso) que o consagram como escritor da guerra colonial. Guerra que ele viveu e conheceu por dentro como poucos.

Já que, de vez em quando falamos de cubanos (que também fizeram a sua perninha no TO da Guiné, e que eram uns cobóis do caraças), esta estória vem a propósito. Não sei se é uma estória sem agá. Nem importa. Tiro o quico a este capitão que tinha, pelo menos, um grande sentido de humor: quem é que se lembraria de uma coisa destas, para "desmoralizar cubanos" ?(*)
 
"Cuando sali de Cuba…"

por Alberto Branquinho

Falávamos, há alguns dias, num grupo de amigos, da canção “Lily Marleen” [(interpretada por Lale Andersen], as várias versões que a letra teve (para além do original alemão), em inglês - inglês/inglês e inglês/americano (porque não havia entre eles nem há acordo ortográfico…) - e que era, languidamente, ouvida dos dois lados do campo de batalha [durante a II Guerra Mundial].

Falou-se, então, também das emissões radiofónicas, que, já no fim da Segunda Grande Guerra, os americanos faziam para desmoralizar as tropas alemãs, onde incluíam essa canção (acção psicológica sobre o IN…), cantada por outra Marleen – Marlen Dietrich, actriz alemã… ao serviço por Hollywood.

Lembrei-me, então, que, no meu tempo de Guiné, se falava de um capitão que, quando o quartel era atacado, colocava no prato do gira-discos (dentro do abrigo?) uma canção cubana que os amplificadores de som, colocados junto ao arame farpado, difundiam para o exterior:

(…)
“Cuando salí de Cuba,
Dejé mi vida dejé mi amor,
Cuando salí de Cuba,
Dejé enterrado mi corazón.”
(…) (**)

Alguém se recorda e pode confirmar?

Dão-se alvíssaras a quem encontrar onde e quem, porque convinha que fosse verdade para, também, termos a nossa história para a História.


(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, itálicos, nota de rodapé: LG)
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Notas do editor LG:


(**) "Cuando sali de Cuba" (1967), de Luis Aguilé, cantor de origem argentina, muito popular no seu tempo (1936-2009). Naturalizou-se espanhol. 

"Cuando sali de Cuna" tornou-se uma expécie de hino nostálgico dos anticastristas no exílio. De certo modo, é a antítese da famosa Guantanamera

Ambas  as canções  eram populares no anos 1969/71, no CTIG,  sendo cantadas, e acompanhadas à viola, fora de contexto, a 7 mil quilómetros longe de Havana, no bar de sargentos de Bambadinca, a altas horas da noite, por gente noctívaga, que não gostava de "cães grandes"... nem dos "internacionalistas cubanos" que vieram dar um ajudinha ao Amílcar Cabral. A ambiguidade das letras  e a força da música eram como o atestado multiuso:  davam muito jeito...(***)

Sobre a canção do Luis Aguilé (1967):

(...) En la década de los 50 adquirió enorme éxito en la Cuba de Batista, donde logró un disco de oro, pero el estallido de la la revolución castrista le empujó a abandonar la isla. En recuerdo a su partida compuso un éxito mundial, 'Cuando salí de Cuba', que se convirtió en el favorito de los exiliados cubanos.

Dicen que en realidad se la dedicó a una novia secreta que tuvo allí, a la que amó con locura y, paradójicamente, había sido antes amante de Fidel Castro. "Dejé mi vida, dejé mi amor, dejé enterrado mi corazón", decía la letra. Aguilé era cercano políticamente a la derecha.

El artista contaba que, cuando decidió dejar la isla, tuvo un grave problema, pues el gobierno revolucionario promulgó una ley que impedía cambiar dólares y sacar dinero del país. En ese momento se produjo una curiosa anécdota con el mítico Ernesto Che Guevara, con el que coincidió en el ascensor de un hotel ocupado por las tropas castristas y le pidió ayuda. Se reunieron y, sorprendentemente, el Che, admirador de la música de Aguilé, le permitió rescatar su dinero con un considerable descuento ya que de los 16.000 dólares que poseía solo pudo llevarse 1.500, pero el artista lo consideró un buen trato, pues la mayoría huían con lo puesto. (...)

(...) Sus canciones rehuían la política y los temas sociales, solían tratar temas intrascendentes, donde se remarcaba el optimismo y la alegría de vivir. Pero hizo excepciones como la mencionada Cuando salí de Cuba, una bella balada impregnada de nostalgia que se convirtió en el himno del exilio cubano . Asimismo, muy critico con el régimen populista de Hugo Chaves, le dedicó el tema Señor presidente, que fue censurado en Venezuela y algún otro país iberoamericano y se conoció como "La canción prohibida de Aguilé".(...)


(***) A letra, parodiada, da "Guantanamera"  deu origem a um canção de caserna, que também fazia parte do reportório da rapaziada do bar de sargentos de Bambadinca, onde náo havia discriminação de classes: entrava a nobreza, o clero e o povo... 

Foi o GG, o 1º cabo cripto da CCAÇ 12, Gabriel Gonçalves (a quem também chamávamos o "Arcanjo Gabriel", e que tocava viola e cantava divinamente, era  também comnhecido como o "Joselito") quem me deu informação sobre o autor da letra, o Aurélio Pereira:

(...) Henriques: Ainda bem que te lembras da música. O Aurélio Pereira (n. 1947) é um camarada de Leiria do curso de escriturário no RAL 4. Para que conste trata-se do conhecido e conceituado técnico de futebol do SCP, para as camadas jovens, pois passaram por ele nomes como: Figo, Simão, Quaresma, Ronaldo, estes os mais conceituados. Que pena o Aurélio não ser do SLB. Um abraço, GG. (...)

Confesso que não sabia que o autor da letra da canção "Isto é Tão Bera" era um nome glorioso do nosso futebol (dizem até que foi o maior caçador de talentos futebolísticos do mundo (...)

Recorde-se, por outro lado, que a "Guantanamera" é uma canção patriótica cubana com letra do poeta José Martí (1858-1895) (herói da independência de Cuba), com música de Joselíto Fernández (1929).

ISTO É TÃO BERA

(Letra de Aurélio Pereira / música Guantanamera)

I
Eu sou um pobre soldado
E esta farda é o fim,
Andando assim mascarado
Todos se riem de mim.

As minhas moças-meninas
São as malvadas faxinas.

(Refrão)

Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera,
Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera.

II
Logo de manhã cedo
Toca para levantar,
Se não acordas é certo
Logo vais estar a lerpar.

Mais um minuto na cama
Lá vai o fim-de-semana.

(Refrão)


III
Era um rapaz engraçado
E de carinha mimada,
Sempre tão bem penteado
Mas levou a carecada.

Agora está como o fel
Nem quer sair do quartel.

(Refrão)
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Guiné 61/74 - P27743: Blogpoesia (809): "A Fundação da Tabanca Grande", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro


1. Mensagem do nosso camarada Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845, Teixeira Pinto, 1968/70, com data de 16 de Fevereiro de 2026:

Bom dia e boa semana para a Tabanca Grande.
Carlos, cá envio mais este trabalhito que não é nem mais nem menos, A FUNDAÇÂO DA TABANCA GRANDE.

Como sempre, dá-me para estas coisas.
Agora, fico aguardando a reação.

Abraços para toda a malta Tertuliana, em especial para quem me atura: Carlos Vinhal e Luís Graça.
Boa semana.
Bino Silva



A Fundação da Tabanca Grande

Andar pela Tabanca Grande
é muito bom e até
ficamos a saber melhor
do passado na Guiné.

Admiro o Luís Graça
por ser o seu Fundador
também o Carlos Vinhal
ser tão bom Administrador.

Magalhães Ribeiro, Coeditor
Jorge Araújo também é
como o Virgílio Briote
também o Chermo Baldé.

Humberto Reis Cartógrafo
Helder Sousa Provedor
o que fazem aqui na Tabanca
é bem feito e com amor.

Na História Militar
e em todos os seus afins
aqui na nossa Tabanca
cá temos o José Martins.

Na Critica Literária
o Beja Santos cá está
e assim só ele diz
se a escrita é boa ou má.

Malta boa da Tabanca
somos todos boa gente
não esqueço Patrício Ribeiro
a criar bom ambiente.

Houve mais colaboradores,
Mexia Alves e Jorge Cabral,
Matos Dinis, Miguel Pessoa,
Torcato Mendonça era igual.

Depois de escrever esta Tropa
acho que vou continuar
partindo para Aniversários
e deles então vou falar.

No mês de Fevereiro
acho que não vou esquecer
fazem seu Aniversário
estes que vou escrever.

José Belo e José Teixeira,
Miguel Rocha e José Brás,
o António Carvalho também
José Carlos Silva bom rapaz.

Temos o Fernando Chapouto,
José Ferreira em data linda,
Luís Cardoso Moreira,
mas falta mais um ainda.

Este que está faltando
se calhar alguém se esqueceu
que faz anos em Fevereiro
esse alguém então sou eu.

No dia um de Fevereiro
este rapaz assim nasceu
assim também faço anos
e o Bino Silva sou eu.

É sempre com muita vontade
quando a Tabanca venho ver
vejo fotos e boas escritas
que tudo gosto de ler.

Vejo o que cada um diz
Comentários que vão aparecendo
assim vejo quem gosta ou não
aquilo que vou escrevendo.

Tudo o que já escrevi
pois nada tem de maldade
escrevo aquilo que gosto
e o que escrevo é verdade.

Vários temas já escrevi
muitos mais vou escrever
porque sei que aqui na Tabanca
há sempre alguém que vai ler.

Gosto de falar da Tabanca
esta que o Luís Graça fundou
onde tantos ex-Combatentes
A Tabanca assim visitou.

Fundada em dois mil e quatro
o ex-Combatente aderiu
ficando assim a saber
o que na Guiné não se viu.

Já com muitos anos passados
todos nós a visitamos
e de tudo que nela existe
é certo que todos gostamos.

Cá por mim lá vou dizendo
e também a recomendando
digo assim ao ex-Combatante
da Tabanca estou gostando.

Eu vejo aqui na Tabanca
por onde a malta andou
em tantos locais perigosos
e onde a tropa lutou.

Vou continuar a gostar
a Tabanca Grande vou ler
e de tudo que não sabia
na Tabanca aprender.

Amigos Tertulianos
a escrita de hoje é assim
Para todos um grande abraço
O Bino Silva é assim.

Por Bino Silva
01100467

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Nota do editor

Último post da série de 22 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27661: Blogpoesia (808): "Era assim lá no Canchungo" (Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro)