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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28242: Notas de leitura (1948): "Parábola do livro esquecido", retirada, com a devida vénia, do livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho; Partenon, 2026

"Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho. Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, Maio de 2026, 160 pp. (ISBN: 978-989-9198-51-7) (Está à venda em: www.sitiodolivro.pt) (Preço de capa; 12,00 euros)

Sinopse:

"Este livro é um esboço de memórias e, simultaneamente, um inventário-amostra dos livros publicados pelo autor. É, além disso, uma biografia breve de um “baby-boomer” nascido em Portugal, que atravessa grande parte do Salazarismo e do Marcelismo, envolvido, também, na guerra colonial de 1961-1974."


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1. Com a devida vénia ao nosso amigo e camarada Alberto Branquinho, transcrevemos a "Parábola do Livro Esquecido", que se pode ler nas págs. 87 e 88 do seu livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)".

Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Op Especiais da CART 1689 / BART 1913


Parábola do Livro Esquecido

Quando o livro sentiu estar a ser arrumado na estante (foi há tanto tempo!) havia, ainda, bastante espaço entre ele e os que estavam instalados já instalados à sua esquerda e à sua direita. De maneira discreta podia criar espaço entre as suas folhas. Exercitar-se. Mas, com o decorrer do tempo, esse espaço foi encurtando, de tal modo que quase não conseguia respirar. Quase chegou a odiar os vizinhos à sua esquerda e à sua direita. Além disso, não falavam a mesma língua. Não havia comunicação entre eles. A comunicação própria dos livros. Não se entendiam. Os vizinhos deviam sentir o mesmo que ele sentia. Com a sensibilidade própria dos livros.

E assim esteve durante muitos, muitos anos. Nos primeiros tempos desesperou. Depois conformou-se à sua sorte.

Mas... muito recentemente mão amiga retirou-o (com dificuldade) da estante, consultou o índice e colocou-o em cima de uma mesa. Na horizontal. Agora, repetidas vezes, é folheado e elevado à altura de uns óculos que reflectem sobre ele a luz do candeeiro. Sente-se útil. Aquele que o lê deixa, por vezes, um marcador de cartolina entre duas folhas.

O livro está agora feliz com a sua existência. É útil, lido, consultado, talvez citado. Saiu, ao que parece, do anonimato. Ou, se não saiu já, sente que, em breve, será citado, transcritas partes do seu texto.

Assim vale a pena nascer e continuar a ser livro.

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Nota do editor

Último post da série de 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28237: Notas de leitura (1946): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28241: Historiografia da presença portuguesa em África (538): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (6): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Quando o Capitão Henri Brosselard saiu de Bolama em direção ao rio Nuno e daqui a Kandiafara, este itinerário não era inocente, conforme comprova a narrativa do chefe da missão francesa para a delimitação de fronteiras. Ele observa neste seu relato a importância do rio Nuno no contexto dos chamados Rios do Sul, e procurou habilmente sondar Mamadu Paté (que se revela leal à França) sobre a chamada relação de forças no Forreá e quem era quem na Península de Cacine. Era facto assente que a política francesa passava por criar uma barreira de acessos comerciais dos portugueses às rotas dos Futa-Djalon, entretanto havia que sondar as linhas de tráfego do Futa até Cacine. também ficou verificado que as comunicações entre o rio Nuno e o rio Compony eram extremamente difíceis, a acessibilidade só poderia ser garantida por pequenas embarcações. E o capitão Brosselard também deixa claro a luta pelo poder em que os Fulas do Forreá procuravam expulsar os Biafadas e os Nalus, nesta época (1888) já o próspero comércio da região do rio Grande do Bolala estava praticamente dizimado pelas sanguinárias guerras travadas no Forreá.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 6
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Retomando o texto anterior, a coluna do Capitão Henri Brosselard chegou a Kandiafara, na véspera já tinha chegado a esta pequena povoação o Sr. Galibert. Na penúltima etapa deste percurso, Brosselard tinha atingido o rio Compony ou Cogon, aqui desfraldou a bandeira francesa, para ele ficava claro que tinha percorrido regiões completamente desconhecidas, deixadas em branco das cartas geográficas, confirmava-se ter chegado a um dos rios dos chamados Rios do Sul, cuja existência era contestada, negada pelos geógrafos que pensavam que o curso de água atravessado por alguns viajantes nas altas regiões do Futa-Djalon tinha a sua foz no estuário do rio Cacine, reconhecido em 1885 pelo tenente do navio Vallon, agora nau capitânia.

Para determinar a fronteira sul da Guiné, devíamos visitar regiões que não tínhamos assinaladas a não seu por vagas informações, todas erróneas, como pudemos verificar na continuação deste reconhecimento e que nós sabíamos estar num grande estado de desolação provocado pela invasão de hordas Fulas. Antes de começar o nosso trabalho e dar uma direção às operações, incumbia-me uma dupla missão que iria cumprir em Kandiafara: assegurar-me da boa vontade dos chefes do país e recolher informações genéricas sobre a geografia das regiões à volta.

Logo à minha chegada constatei haver uma grande emoção que reinava no país. Corria o rumor que um chefe francês vinha fazer a guerra; os Fulas do Forreá, que muito maltratavam os Nalus, invadindo diariamente o território e destruindo toda e qualquer povoação, não se sentiam sossegados, pois estavam em crer que a França tinha vindo em auxílio dos reis dos Nalus, seu aliado. A povoação Fula de Simbéli, edificada a alguns quilómetros de Kandiafara, fora abandonada pelos seus habitantes, e o rei do Forreá, Mamadu Paté, convocara o seu exército.

O primeiro dia foi consagrado à instalação; os oficiais ficaram numa casa de comércio abandonada e os restantes militares construíram abrigos confortáveis. O Sr. Galibert deu conta da sua navegação pelos braços de rio estreitos e lamacentos que permitem a navegação às pequenas embarcações para passar do rio Nuno para o Compony. Ele partira de Samiah com a maré, na noite de 10 de fevereiro, tinha descido com a embarcação do rei Dinah e uma outra embarcação ligeira no curso do rio Nuno até Victória. Costeando depois a margem direita do rio Nuno, andou em braço de rio até Kassagoua. A sete quilómetros de Boffa deixou Kassagoua e penetrou noutro braço do rio sinuoso que desagua no Compony, perto do Cabo Sin. A 12 chegou a Bassiah, pequena povoação de comerciantes situada na margem esquerda do rio, subiu o Compony com a maré e chegou a 13 a Kandiafara. Os braços de rio de Tankina e de Socotia estabelecem uma outra comunicação entre o rio Nuno e o Compony, mas a navegação só é possível por canoa. Esta região de cursos de rio é muito perigosa e insalubre, mesmo para quem lá vive. Encontram-se aqui alguns Nalus misturados com Bagas e Biafadas que fugiam da invasão Fula e procuravam aqui um refúgio seguro.

A 14 à noite, recebi uma mensagem do rei Mamadu Paté. O rio do Forreá anunciava que estaria no dia seguinte em Simbéli e solicitava uma entrevista com o chefe francês. A 15 fui ao encontro acompanhado de um intérprete, de cinco atiradores e de um certo número de atiradores; instalei-me provisoriamente na povoação, mandei montar uma tenda fora do recinto, num espaço descoberto.

Ao cabo de algumas horas ouviu-se o rumor longínquo dos tambores, acompanhados de cânticos, de gritos, de tiros, anunciando a aproximação do rei e do seu exército. Mamadu Paté apareceu montado num cavalo, precedido pelos griots (cantores e tocadores de Korá) que teciam louvores ao seu senhor. Atrás deste grupo vinha uma longa fila de guerreiros, armados de espingardas e de sabre, vestidos com uma curta túnica presa à cintura na qual pendia um grande corno com pólvora. Muitos deles traziam chapéus de abas lisas, tecidos com caniços tingidos com variadas cores; esta indumentária pitoresca era completada por um grande número de amuletos que pendiam no pescoço ou estavam fixados no vestuário ou nas armas.

Mamadu Paté apeou-se ao pé da tenda que estava destinada às conversações e sentou-se na companhia dos principais chefes que tinham vindo com ele. Os guerreiros sentaram-se no chão à volta da tenda. A reunião não podia ter lugar na povoação de Simbéli: o rei estava em guerra com os Biafadas e enquanto não regressasse dessa campanha os usos e costumes proibiam-no de se abrigar na povoação. Avancei, precedido dos meus atiradores, bem indumentado, tendo a arma na espádua e a baioneta no cano. O rei veio na minha direção e travámos os cumprimentos da praxe.

Já sentados, os carregadores depuseram os presentes que foram oferecidos ao rei. Este, homem prudente, fez saber antes, por um confidente, que precisava de deixar à guarda do chefe de Simbéli a maior parte dos presentes que lhe estavam destinados, com este subterfúgio não precisava de acompanhar os seus acompanhantes. Os presentes ficaram à vista de todos, aos pés do rei, estes estavam destinados a mostrar a sua generosidade.

Começaram as conversações. Exponho as razões que me traziam ao Forreá e Mamadu Paté protesta a sua simpatia pela França e por tudo o que é francês. Peço ao rei para me vender cavalos. Ele não pode satisfazer o meu pedido, só tinha três e em mau estado, Mody-Yaya tinha recentemente levado os que ele possuía. Antes de regressar a Kandiafara, e para satisfazer o pedido do meu hóspede, mostrei-lhe a potência das espingardas dos meus atiradores. Estes dispararam sobre troncos de árvores distantes a 300 metros. Os Fulas não puderam conter a sua surpresa e admiração.

Os Fulas do Forreá, que eu acabara de ver o seu exército quase completo de 600 a 800 homens, são antigos escravos dos Fulas. No seguimento de conflitos com a raça conquistadora, eles obtiveram uma certa autonomia; atualmente eles reconhecem a soberania do rei de Kadé, ele próprio é um dos grandes feudatários do Futa-Djalon.

Os Fula-Cundas, gente pobre e guerreira, só podem assegurar a sua independência conquistando território fora do Futa-Djalon, por isso se lançaram em 1852 sobre o Forreá, que estava nas mãos dos Biafadas, eram conduzidos pelo rei Bacar-Demba e expulsaram-nos para os pântanos da costa e para lá do rio Grande de Bolola; depois, sempre à procura de mais territórios, eles empurraram os Nalus para o Combidiah (será o rio Cumbidjã?). Também têm agora presença no Cogon em Kandiafara, sobre o Cacine na vizinhança das nascentes e sobre o Combidiah. A capital do reino está estabelecida em Bolola, a alguns quilómetros do posto português de Buba.

Inebriado pelos seus sucessos, Bacar-Demba quis tornar-se independente do Futa-Djalon, mas as suas pretensões fizeram sombra aos almamis, para estes o Forreá abre uma das melhores rotas da costa: também Alfa-Ibrahim enviou um exército no país e o rei, bem como o seu irmão Doura e todos os seus filhos foram assassinados por Mody-Yaya, rei de Kadé, que era o executor desta política bárbara. Este príncipe dirigiu-se em seguida para Buba junto dos portugueses e a pedido expresso destes últimos nomeou Mamadu Paté rei do Forreá.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
O mapa mostra a proliferação e rios e rias entre o rio Nuno e o rio Geba
Bacary-Lombi, desenho de P. Langlois segundo uma fotografia
Fulas de Kandenbel, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
O intérprete Ibrahima, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Gravura não identificada, seguramente que não tem base fotográfica

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 29 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28226: Historiografia da presença portuguesa em África (537): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (5): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28240: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça): as alucinações do soldado básico de Bambadinca que, em pânico, jurou ter visto uma manada de efantes junto ao arame farpado











O "básico de Bambadinca" que  viu elefantes junto ao  arame farpado

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Esta é uma das histórias pícaras que trago da Guiné, e mais exatamente de Bambadinca, onde comecei por estar adido ao BCAÇ 2852...O quartel sofreu um ataque em força na noite de 28  de maio 
de 1969, âs 00h25, que ficou na memória dos seus militares (e em especial da CCS - Companhia de Comando e Serviços). 

 Eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, ainda não estávamos lá, estávamos a bordo do T/T Niassa, já no estuário do rio Geba,  à espera de desembarcar no dia seguinte, em Bissau. 

Mas dias depois, em 2 de junho, passaríamos por lá, a caminho do CIM de Contuboel... Ainda "cheirava a pólvora". E o pessoal andava com os "nervos à flor da pele"... 

Em meados de junho tinha havido um falso alarme: em resposta a um alegado novo ataque dos "turras", gastaram-se milhares de munições...

Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs a vista em cima de um elefante, solitário ou em manada, durante a guerra... 

Nem sequer a malta que esteve em Gandembel e Ponte Balana, entre abril de 1968 e janeiro de 1969. A malta da CCAÇ 2317 (Gandembel, Ponte Balana, Buba e Nova Lamego, 1968/69), os "Gandembéis", de que fizeram parte o Idálio Reis, o Joaquim Gomes Soares, o João Barge, o Júlio Madaleno ... 

Eles  bem como outros camaradas de outras subunidades (o Hugo Guerra, o Alberto Branquinho,  o José Ferreira da Silva, o José Teixeira,  o Mário Gaspar, etc.) que, direta ou indiretamente,  foram bravos atores e/ou testemunhas desta   "odisseia", a vida e morte de Gandembel e  Ponte Balana (sem esquecer os páras do BCP 12). 

Mas,  nessa altura,  se ainda havia elefantes na Guiné, que iam e vinham banhar-se no rio Balana, devem ter sido "desalojados" e corridos para a Guiné-Conacri pelas tropas do 'Nino' Vieira  e pelas NT,  que travaram combates violentos no decorrer da  Op Bola de Fogo (8 a 14 de abril de 1968) e depois,  ao longo da ocupação, construção, defesa e abandono do aquartelamento de Gandembel e do destacamento de Ponte Balana, que se saldou por 372 ataques e flagelações do IN, em menos de nove meses (**).

 O elefante, tal como nós, não gosta de tiros. E tem, como nós,  um medo que se pela  das minas e armadilhas... Fugiu da Guiné, fugiu de Angola, fugiu de Moçambique...

Na história não-oficial da guerra da Guiné (1961/74), o único tuga que garantidamente  viu elefantes com "os dois olhos que a terra há de comer" foi...o "básico de Bambadinca", em junho de 1969.

É uma história que não é para rir. Não a ponho na série "Humor de caserna". A mim, inspira-me pena e compaixão. E é nesse sentido que orientei, editorialmente, a BD que encomendei ao meu artista gráfico de serviço.

O "básico de Bambadinca" não pode ser alvo de piada, chacota  ou risota na caserna; já não bastava ele ser gozado por toda a gente, até pelos "djubis", faxinas da cozinha  que o ajudavam nas tarefas mais sujas em troca dos restos do rancho. Não, não é o "bobo" da caserna, é apenas a personagem de uma pequena tragédia. 

Eu próprio comecei por sorrir, na altura,  em junho de 1969, perante a ideia absurda de uma manada de elefantes junto ao arame farpado do quartel de Bambadinca... 

Hoje acabo por reconhecer que aquele meu pobre camarada (cujo nome nunca fixei) estava simplesmente aterrorizado, com os nervos feitos num oito. É aí que reside a força da história (que, de resto, já aqui tinha contado).

O seu nome não fica para a história, mas, tanto quanto me lembro, pertencia à da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), e para mais numa altura em que ainda havia o receio do "turra" voltar a atacar o aquartelamento...

Dele  se contava que,  um dia, quando estava de sentinela, acordou às tantas da noite todo o quartel e as tabancas à volta (Bambadincazinho e Bambadinca), aos tiros de G3 em posição de rajada...

Perante o estremunhado oficial de dia (ou  sargento de dia, a quem competia fazer a ronda pelos postos de sentinela do vasto perímetro do quartel),   jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...

Feito o reconhecimento do local, pela manhã, ninguém encontrou (nem podia encontrar) vestígios da manada de elefantes ao serviço dos "turras"...

Como explicar estas "alucinações"  do pobre do soldado "básico de Bambadinca" ?


2. Sabemos que, em contexto de guerra, mum quartel do mato, às tantas da noite, em África, é possível ter "alucinações" destas.. 

Para mais, tratando-se de um "soldado básico" que , por definição, não era operacional, suponho até quer era um simples ajudante de cozinha... Mas que tinha apanhado um cagaço do caraças aquando do ataque de 28 de maio de 1969...

É um  tema fascinante e complexo, que não tem sido abordado no blogue:  em 
contextos extremos, ou situações-limite, em ambientes de alta tensão, como a guerra, o isolamento, o cansaço, a insolação, a desidratação ou  até a subnutrição, prolongadas, enfim, em situações de  exaustão física e mental, ou de privação sensorial (como a escuridão total do mato à noite),   etc.,  o cérebro humano pode gerar alucinações hipnagógicas (na transição para o sono) ou hipnopômpicas (ao acordar), ou até alucinações sensoriais completas.

Estes fenómenos não teriam sido incomuns no nosso tempo, no CTIG. Estão documentados (e estudados) noutros teatros de operações, sendo comuns, por exemplo, em  soldados envolvidos em missões prolongadas:
 combatentes em guerras (como a do Vietname ou os conflitos modernos no Médio Oriente) relatam casos de alucinações visuais e auditivas, especialmente em ambientes de isolamento, combates prolongados, falta de sono, grande sofrimento físico e psíquico, promiscuidade, desconforto e vulnerabilidade  dos  "bunkers", etc.;

Outra situação comum é a privação sensorial: no mato, à noite, a ausência de estímulos visuais claros pode levar o cérebro a "preencher lacunas" com imagens ou sons imaginários: o som do vento, a trovoada, os relâmpagos, a chuva, o piar de "aves agoirentas", os ruídos provocados por animais noturnos, ou a simples fadiga... podem distorcer a perceção da realidade.

O stress agudo e  o pânico fizeram o resto: o "básico de Bambadinca" (possivelmente castigado com umas noites nos postes de sentinela) estava em estado de hipervigilância. Nessa situação,   qualquer estímulo ambíguo (um ruído, uma sombra) pode ser amplificado pelo cérebro como uma ameaça real; a G3 em rajada sugere uma reação de pânico instintivo, onde a mente, já em alerta máximo, "vê" o que teme (neste caso, elefantes, que na Guiné-Bissau eram nativos e simbolizavam um perigo real, ainda que totalmente improvável naquele contexto, na zona leste, em Bambadinca).

No ambiente estranho e hostil da Guiné, eram frequentes relatos de soldados (nomeadamente metropolitanos) que confundiam sons de animais com movimentos inimigos, ou que viam figuras humanas em sombras. 

Sabe-se que o cérebro "em modo de sobrevivência" dá prioridade, atenção máxima, à deteção de ameaças, mesmo que isso implique... "falsos positivos", falsos alarmes ..

Eu próprio experimentei (eu e todos os demais camaradas que me acompanharam),  durante a Op Tigre Vadio (3 dias, 30/3-1/4/1970, na península de Madina /Belel, regulado do Cuor, no regresso ao Enxalé), uma situação de desidratação extrema, e com ela o conhecido fenómeno (ótico) da "miragem do deserto"  que rapidamente se transformou em alucinação psicológica real...

E porquê o pobre do "básico", pergunta o leitor  ?

O facto de ser um ajudante de cozinha (e não um operacional, e que, para mais, a cumprir um "castigo"
) é revelador: tinha menor preparação (física e psicológica) para lidar com a tensão de uma sentinela, na noite de África; estava menos familiarizado com a G3; não saía para o mato, não estava integrado em nenhum grupo de combate, etc. 

 Recorde- que o soldado básico era o que só tinha feito a recruta , não tirara qualquer especialidade   por falta de aptidões, físicas ou intelectuais ( ou por qualquer outra razão : saúde,  disciplina, etc. ). 

Não servindo para "atirador", era colocado nos "serviços de apoio" de uma subunidade (alimentação, material, etc.)
 
Nestas circunstâncias, o seu cérebro poderia estar mais suscetível a distorções, por falta de interação ou validação da realidade com outros.
 
Recorde-se que, mesmo numa CCS (Companhia de Comandos e Serviços), em quartéis do mato, como Bambadinca, sede de batalhão, os não-operacionais (escriturários, mecânicos, etc.)  estavam escaladas para, regularmente, fazer o serviço de guarda (e os graduados, as respetivas rondas). E havia sempre escassez de efetivos, daí também o recurso aos "básicos".

Elefantes em Bambadinca ? A Guiné-Bissau tinha (e ainda tem) elefantes, embora em números muito  reduzidos , e apenas num corredor transfronteiriço,  na região de Tombali, que hoje faz parte do Complexo Dulombi-Boé-Tchetche. (**)

 Durante a guerra, avistamentos esporádicos destes paquidermes não eram, teoricamente, de todo impossíveis, mas uma manada junto ao arame farpado de um quartel como Bambadinca, na zona leste, seria de todo improvável. 

Esta evidência vem  reforçar a hipótese de alucinação.

A experiência extrassensorial do nosso "básico" também terá a ver com a "expectativa cultural":  tal como muitos outros militares metropolitanos, ele ouviu, desde a escola, contar histórias sobre elefantes, lesões e  outros animais emblemáticos de África. Todavia, e a menos que já tivesse visitado o Jardim Zoológico de Lisboa, nunca tinha vista ao vivo e a cores um elefante, um leão, um leopardo, um jagudi. Nem sequer um macaco!

A G3 em rajada é outro detalhe crucial. É uma resposta automática,  resultante do  treino militar. E a reação a uma ameaça percebida é imediata. Se o "básico" acreditou que via elefantes (ou "turras"), o instinto de disparar para alertar o quartel seria natural.

Por outro lado, sabemos que o pânico é contagioso em grupo ou multidão: o som dos tiros, às tantas da noite, acordava o pessoal todo.

  Já não me recordo dos pormenores da história, mas tudo indica que,  nessa noite, houve quem puxasse da G3 e desatasse aos tiros para o arame farpado...  

Esta história terá acontecido em junho de 1969, em que  ainda se vivia sob o medo  de um novo ataque ao quartel.  Bambadinca nunca seria atacada ou flagelada no meu tempo (julho de 1969 / março de 1971). Mas os ataques e flagelações aos aquartelamentos e destacamentos no sector L1,  num raio de 30 ou mais quilómetros,  eram audíveis (e até visíveis ) à noite.

Também não é preciso recordar que estávamos num conflito armado, onde a tensão se fazia sentir.   
O cansaço, a monotonia e a sensação de isolamento (a Guiné ficava a 4 mil  km de Lisboa) criavam um terreno fértil para a síndrome do combatente, e inclusive para o que hoje chamaríamos de PTSD - Perturbação de Stress Pós-Traumático ( em português ), podendo-se manifestar sob a forma de ansiedade, insónias e alucinações. "Estar apanhado do clima" era a expressão de caserna equivalente...

Na Guiné, havia pouca mobilidade: o nosso soldado "básico" permaneceu quase dois anos no mesmo sítio. Enfim , este é um caso clássico de alucinação induzida pelo stress.

 De qualquer modo, justiça se lhe faça: o "básico de Bambadinca" não mentiu nem inventou,  o seu cérebro, em condições extremas, criou uma perceção falsa, mas para ele, naquele momento, era 100% real.  

Em conclusão, em estado de fadiga e de hipervigilância, o cérebro pode "projetar" os nossos  medos.  O barulho de galhos partidos ou o vento a mover a vegetação, os cães vadios ou até uma simples hiena à cata de comida podiam ser interpretados como o deslocar de animais de grande porte como uma manada de elefantes. (***)
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Notas do editor LG:

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28239: Fauna e flora (33): Um raio de esperança: afinal, há elefantes no Parque Nacional do Cantanhez, no corredor ecológico transfronteiriço de Balana!



Foto nº 1 



Foto nº 2 >

Guiné- Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional de Cantanhez > Dois elefantes fotografados por uma câmara trap (fotoarmadilhagem), no corredor de Balana, por volta das 15h00 do dia 23 de fevereiro de 2026, portanto em plena época seca. Sãos indivíduos da espécie Loxodonta cyclotis. O elefante-da-floresta é uma espécie distinta do elefante-da-savana (Loxodonta africana): (i) é mais pequeno ( geralmente até 2,5 metros de altura no dorso); (ii) as presas (defesas ou dentes) são retas, viradas para baixo e mais estreitas, amareladas ou escuras (facilitando a deslocação na vegetação sem encaracolar ou prender em ramos); (iii) o seu habitat são as florestas tropicais densas); (iv) há também outras diferenças anatómicas (orelhas, dedos/unhas, mandíbula / crânio).


1.  Postagem do Facebook do  IBAP - Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas

9 de maio de 2026 >

Hoje só boas notícias,  desta vez no Parque Nacional de Cantanhez!.

A natureza celebra connosco: mais registos positivos da fauna e sinais claros de que a biodiversidade continua viva e forte.

Dois elefantes registados no Parque Nacional de Cantanhez! 

Uma câmera trap, instalada no corredor ecológico de Balana, captou recentemente dois elefantes no Parque Nacional de Cantanhez (PNC). 

As imagens mostram um dos indivíduos com um dente partido.

O registo, feito durante ações de monitorização da fauna, confirma a presença contínua desta espécie emblemática na região e representa um sinal positivo para a conservação da biodiversidade na Guiné-Bissau.
 
O corredor de Balana mantém-se essencial para a circulação da fauna selvagem, mesmo sob pressão da desflorestação e das atividades humanas. As câmeras trap continuam a ser uma ferramenta importante para o estudo e proteção dos animais no seu habitat natural. 

A direção do Parque reforça o compromisso de proteger a vida selvagem e promover a convivência entre comunidades e natureza.

Por: Américo Sanha, Adjunto conservador do PNC
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2. Nota do editor LG:

É, de facto, um grande notícia para os guineenses que amam a sua terra e para as extraordinárias equipas (jovens, competentes, motivadas) do IBAP e do PNC. E, claro, para os amigos da Guiné-Bissau.

Mais:  é uma notícia extraordinária e de enorme valor histórico e ecológico para a Guiné-Bissau e para a conservação da biodiversidade na África Ocidental!

O registo de elefantes-da-floresta no corredor ecológico transfronteiriço de Balana, no Parque Nacional do Cantanhez (PNC) (Região de Tombali), não se deve a um  mero acaso, é a prova viva e o fruto direto do trabalho persistente do IBAP (Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas), das populações locais e de organizações parceiras. 

Nada disto se consegue sem a participação comunitária!

Para mais, trata-se de um sítio que nos é familiar, para os camaradas que estiveram em Gandembel e Ponte Balana, entre abril de 1968 e janeiro de 1969. Mas também para aqueles, de nós, que em março de 2008, visitaram estes míticos lugares no âmbito do Simpósio Internacional de Guileje (Bissau, 1-7 de março de 2008).

O uso de câmeras  trap (câmaras de foto-armadilhagem) instaladas e mantidas pelas equipas no terreno permitiu documentar o que antes eram apenas vestígios,  indícios ou relatos.

Por sua vez, o IBAP tem-se destacado precisamente pela formação de guardas e técnicos jovens, motivados e profundamente integrados nas comunidades locais.

 A proteção da floresta sagrada de Cantanhez e das vias de migração da fauna exige vigilância constante, sensibilização comunitária e combate à caça ilegal. 

Pormenor interessante: saber que um dos indivíduos tem uma presa/defesa partida é um detalhe morfológico precioso para a identificação individual e acompanhamento da espécie! 

Outro pormenor não menos  digno de registo  e de aplauso, revelador do profissionalismo do pessoal do IBAP: as fotos são de 23/2/2026 e a divulgação pública (redes sociais, rádio, televisão...)  aconteceu quase 3 meses depois (em 9/5/2026). 

A cautela na divulgação da notícia faz todo o sentido: revelar a localização exata de espécimes de Loxodonta cyclotis em tempo real poderia atrair redes de caça ilegal e colocar os animais e as equipas no terreno em risco imediato.  

Guiné 61/74 - P28238: Fauna e flora (31): da enorme biodiversidade à riqueza lexical e linguística da nossa... "Guinesinha" (que é, de facto, uma "África em miniatura"): dari, muntu, tucurtacar, bufre, jagudi ou cacur, sancu, macaco-cão, alma de biafada, peixe-mulher...

Elefante: o nome científico é Loxodonta cyclotis (Matsch). Os fulas chamam-lhe Nhiuá; para o futa.fula é Maubá; em madinga diz-se Samom; em manjaco, Olom; em papel, Oinga; e em saracolé, Turé. 

Fonte: Guia de Identificação dos Animais da Guiné-Bissau. República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP ,https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf


Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs  a vista em cima de um  elefante, solitário ou em manada,  durante a guerra... A não ser o "básico de Bambadinca" que, contava-se, um dia, quando estava de sentinela, acordou todo o quartel e as tabancas à volta, aos tiros de G3 em posição de rajada...

Interpelado pelo graduado que fazia a ronda, jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...  

Há uma réstea de esperança de que o elefante não tenha desaparecido de todo no sudeste da Guiné: nos últimos anos tem sido muito esporadicamente avistado e até fotografado no corredor transfronteiriço constituído pelo  Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (Vd. infografia acima reproduzida).  

Em 1955 estava protegido por lei.   Mas a caça furtiva, o tráfico de marfim (que não foi proibido), a(s) guerra(s), e o abate das árvores de grande porte, a par da explosão demográfica humana (a Guiné passou de meio milhão para mais de 2 milhões de habitantes em menos de meio século) são alguns dos factores apontados pelo IBAP (Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas, da Guiné-Bissau) para o desaparecimento progressivo (e se calhar irreversível) desta espécie animal absolutamente emblemática de toda a África. 

O mesmo aconteceu, desgraçadamente,  em Angola e em Moçambique, palcos de violentos conflitos armados, países nascidos de partos com muito sangue, suor e lagrimas...  

A boa notícia é que o número de elefantes duplicou desde 2018 em Moçambique, passando agora para 22,7 mil indivíduos,

Angola terá passado de mais de 70 mil elefantes em meados dos anos 50 para 3,4 mil no princípio do sec. XXI. Uma hecatombe.





1.   Ainda sobre o Decreto n.º 40040, de 20 de janeiro de 1955, emitido pelo Ministério do Ultramar e assinado pelo ministro Manuel Maria Sarmento Rodrigues (*): é de facto um marco fundador na história do direito ambiental e da conservação da natureza na administração colonial portuguesa. É um extenso e detalhado diploma com preâmbulo e 134 artigos, divididos por 6 capítulos e com 2 anexos.

Preâmbulo 
I (Disposições gerais) (art 1º - art 2º) 
II (Dos órgãos superiores de proteção da natureza) (art 3º - art 9º)
III (Da proteção do solo) (art 10º - art 29º)
IV (Da proteçáo da flora) (art 30º - art 41º)
V  (Da proteção da fauna) (art 42º - art 132º) 
VI (Disposições finais) (art 133º - art 134º)
Anexos I e II


(i) Contexto histórico e internacional
 
Já falámos, no poste anterior (*), da necessidade que o Estado Portuguès sentiu, na década de 1950, de fazer o "upgrade"  da sua legislação  em matéria de "conservação da natureza" nos  territórios ultramarinos, incluindo a regulamentação da caça e da pesca. 

O diploma, que merece uma análise  mais detalhada, resulta de uma visão integrada da "proteçáo da natureza" (solo, flora e fauna). Tem, naturalmente, pontos fortes e fracos, que serão analisados em próximo poste.

Era então ministro do ultramar (1950/55) um dos  mais conceituados políticos do Estado Novo, o oficial superor Sarmento Rodrigues (promovido a capitão-de-mar-e.guerra em 1953), depois de ter sido Governador da Guiné (1945-49).

Sarmento Rodrigues trouxe uma visão pragmática baseada na sua experiência de terreno. O seu mandato será marcado por um discurso de "desenvolvimento"  e "modernização" das colónias (rebatizadas em 1951 como "províncias ultramarinas"), onde a conservação da natureza era vista como parte de um projeto civilizacional (e não apenas ecológico).

O diploma integra orientações e recomendações da Convenção de Londres de 1933, ratificada por Portugal em 1948, bem como da Conferência de Bukavu (outubro de 1953 (pontos 6 e 7 do preâmbulo do Decreto nº 40 040).

O primeiro regulamento de caça da Guiné é só de 1948, mas já tem tinha em linha de conta o espírito e a letra da Convenção de Londres. As últimas atualizações da regulamentação da caça em  Moçambique e Angola remontavam a 1941 e 1942, respetivamente. A de Cabo Verde era de 1928 e a de Timor  1935.

Para a contextualização do diploma, é importante saber que a Convenção de Londres (1933) veio estabelece classes de proteção para espécies (A, B, C), que o decreto adotou no Anexo I. Por exemplo:
  • Classe A (+): Espécies com proteção total (ex.: gorila, elefante de floresta, rinoceronte branco).
  • Classe B (×): Espécies com restrições (ex.: chimpanzé, elefante de savana com presas < 5 kg).
  • Classe C ("): Espécies com proteção parcial (ex.: pangolim, urso-formigueiro).
Por sua vez, a Conferência de Bukavu (1953) (Conferência Interafricana sobre Fauna e Flora, em que participaram a Bélgica, país anfitrião, a França,  Portugal e o Reino Unido) introduziu recomendações adicionais para a conservação, que o decreto incorpora, como a criação de zonas de proteção (parques nacionais, reservas integrais) e a regulamentação da caça utilitária. (Bukavu é una localidade da  na atual República Democrática do Congo, na altura, colónia do Congo Belga).

(ii)  Análise da Lista de Espécies Protegidas na Guiné (Anexo I)

O Anexo I estabelece a lista de animais cuja caça passava a ser estritamente proibida (frequentemente correspondendo às classes de proteção da Convenção de Londres, de 1933).

Na lista que reproduzimos no poste anterior, e no que diz respeito apenas à Guiné,  havia  valiosos pormenores taxonómicos, vernáculos e ecológicos, que merecem ser recordados ou conhecidos Para os mais interessados, e eventual pesquisa de informação adicional, aqui ficam os nomes vernáculos e científicos das espécies dos mamíferos e aves protegidas em 1955. (Poderão observá-los, numa próxima ida ao Jardim Zoológico, com os netos.)
 
  • Pangolim / Papa-formigas de escama (Smutsia, Phataginus, Uromanis)
  • Urso formigueiro / Porco formigueiro (Orycteropus afer)
  • Chimpanzé (Pan troglodytes)
  • Macaco bijagó / Macaco de nariz branco (Cercopithecus nictitans)
  • Macaco fidalgo (Colobus polycomos polycomos)
  • Gato almiscarado / Civeta (Civettictis civetta)
  • Leopardo ou onça (Felis pardus)
  • Elefante de floresta (Loxodonta cyclotis)
  • Manatim ou peixe-mulher / peixe-boi (Trichechus senegalensis)
  • Cabra grande / Muntual (Cephalophus silvicultor)
  • Elande gigante (Taurotragus derbianus)
  • Oribi / Gazela da pedra (Ourebia ourebi quadriscopa)
  • Palanca vermelha / Boca branca / Matagaiça (Hippotragus equinus)
  • Sitatonga / Inhala das lagoas (Limnotragus spekii selousi)
  • Tancon (Alcelaphus buselaphus major) ou alcefe da África Ocidental)
  • Abutres / Jagudis (Gyps, Pseudogyps, Trigonoceps, Neophron, Necrosyrtes)
  • Andorinhas (Hirundo, Petrochelidon, etc.)
  • Calaus / Alma de biafada / Peru do mato (Bucorvus abyssinicus)
  • Cegonhas (Ciconia)
  • Estorninhos (Cinnyricinclus, Lamprocolius, Lamprotornis, etc.)
  • Galinha azul / Galinha de poupa (Guttera edouardi pallasi)
  • Garças brancas / Carraceiras (Bubulcus ibis, Casmerodius, etc.)
  • Marabu (Leptoptilos crumeniferus)
  • Papagaio cinzento (Psittacus erithacus timneh), endémico/característico do arquipélago dos Bijagós
  • Pavão gigante (Corythaeola cristata),  o Turaco-gigante)
  • Pratíncolas / Aves das locustas (Glareola, Galachrysia)




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Desenhados nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento em Iemberém

Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 >  Alguns dos animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Fotos de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guile modje (Bissau, 1-7 de março de 2008).

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

(iii) Observações Histórico-Ecológicas

Nomenclatura vernácula local:  a Guiné-Bissau, apesar de muitos erros do passado e do presente, ainda é uma "Africa em miniatura": a sua riqueza, nomeadamente faunística, vai a par da riqueza lexical e linguística, resultante da existência do português, do crioulo e de dezenas de línguas locais... Tome-se como exemplo o búfalo, que eu nunca vi na natureza (e também nunca fui caçador):
  • nome científico: Syncerus manus planiceros (Bly); 
  • em crioulo, Bufre;  
  • em balanta, Impungde; 
  • em fula, Edá; 
  • e Siô, em mandinga.
O documento acima citada (Decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955)  é muito rico ao registar nomes tradicionais e crioulos da Guiné. Termos que refletem a assimilação e catalogação da fauna pela administração com recurso aos conhecimentos locais. Alguns destes termos, em crioulo, já nos eram familiares na Guiné, com o coloquial "sancu" (macaco):
  • "Jagudi" para abutre (em crioulo, cacur);
  • "Alma de biafada" para calau;
  • "Boca branca" ou "Matagaiça" para a palanca vermelha;
  • "Muntual" ou "Muntu" para a cabra grande;
  • "Fatango" e "Macaco fidalgo" para os colobos;
  • "Onça" para o leopardo;
  • "Peixe.mulher" para o manatim;
  • "Tucurtacar" para o pangolim;
  • "Lobo" para a hiena (nos contos tradicionais guineenses);
  • "Dari" para chimpanzé; 
  • "Sancu" (macaco, em geral; babuino ou "macaco-cão", em especialidade), etc.
Biogeografia  do território: a  inclusão de mamíferos como o manatim (comum nos ecossistemas estuarinos e no arquipélago dos Bijagós), do chimpanzé (florestas do sul) e do elande gigante e tancon (savanas do interior/Leste) demonstra uma visão abrangente da diversidade de biomas guineenses (desde os mangais e florestas costeiras às savanas do interior).

Impacto do regime de caça utilitária e aborígene: o diploma distingue expressamente os direitos de caça dos indígenas (usando "armas gentílicas" para subsistência em terrenos abertos) da caça recreativa ou utilitária praticada por colonos ou turistas mediante licenças pagas.

Legado na conservação: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a criação da rede de parques nacionais e naturais da Guiné-Bissau, no pós-.independência. 

Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini / Google)
(Condenação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28237: Notas de leitura (1946): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É um belo e raro testemunho. Luís Rosa conhece a Guiné em 1964, tudo mudara entretanto na região Sul, o Brigadeiro Arnaldo Schulz tenta reposicionar a situação criando destacamentos na região fronteiriça, a sua última obra será Gandembel, que se revelará um desastre, prontamente desativada por Spínola. Este irá gradualmente abandonando estas posições fronteiriças, Guileje, altamente fortificada, é a derradeira posição na área. Neste testemunho podemos aperceber-nos do que representava Sangonhá numa fase de arranque do PAIGC, melhor armado e com mais minas e abastecimentos para o interior, daí a importância vital que se conferia ao corredor de Guileje. Luís Rosa correlaciona estas posições, e os abastecimentos que dependiam de Gadamael porto. Valeu a pena a releitura, é mais do que recomendável, a despeito de eu considerar o final uma conversa mais do que improvável.

Abraço do
Mário



Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 2

Mário Beja Santos

Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais, de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.

Sangonhá ficava a escassos quilómetros da fronteira da Guiné-Conacri, recebia regularmente a visita de gente que procurava medicamento, cuidados médicos ou farmacêuticos; mas, à sombra da proteção do aquartelamento, veio gente que aqui vivia, e fosse qual fosse a razão, deu sinais de querer voltar. Fizeram-se casas, havia o problema da área a defender, que aumentou, e era mais vulnerável; e outro problema de fundo era a exploração da terra. Tornou-se premente o desafio de afastar o fantasma da fome, não chegavam os carregamentos de arroz vindos de Bissau; fizeram-se canoas de troncos de árvores, pois era abundante a pesca do rio Cacine. Luís Rosa conseguiu sacos de arroz e mancarra de semente, o povo gostou, a terra foi-se desbravando. A guerrilha não molestou. E no momento certo a população toda despejou-se no campo, ceifeiros de um ciclo interrompido há anos começaram de madrugada o trabalho que ao fim do dia haveria de ser transformado em fartura. Vieram informar o alferes que o arroz já está, vinha dos tempos de dominação exigir-se uma tributação, foi a resposta que o alferes lhe deu: “O que vocês cultivaram e colheram é vosso, não há nada a dar a ninguém.”

E o autor conta-nos como Guileje, uma terra pacata no caminho de Aldeia Formosa, que ficava no limite entre o território Fula e o chão Nalu, um dia foi ferozmente atacada, as súplicas que vinham pelo rádio eram dramáticas: “Mandem ajuda! Vão entrar no quartel! Está tudo perdido!”. Com o levantar do dia, ouviu-se o ronco peculiar dos aviões, cessaram os combates. De Sangonhá a Guileje era pouco mais de três quilómetros, foi-se acudir. E o que se via metia dó, Guileje folegava na manhã nascente, os de Sangonhá deixaram o que tinham trazido: mantimentos, munições e ânimo. Ninguém duvidava, tudo estava alterado. Nessa mesma noite Guileje voltou a ser atacada. Os de Sangonhá voltaram na manhã seguinte a Guileje, na véspera até lá tinham deixado uma GMC. “Chegámos. O segundo ataca deixara mais plana a imensa clareira da povoação, como se uma colossal força longínqua quisesse varrer aqueles insetos, tenazmente agarrados ao que acreditavam ser o seu dever de ficar. No meio do imenso anel cercado pela vala, como um grito, como um velho búfalo morrendo na madrugada, fumegando das narinas aquilo que já não é, estava a minha GMC, retorcida, carbonizada, esqueleto de ferros sem nexo, supostamente a olhar-me como se fosse pessoa triste no aspeto, fazendo-me experimentar a mágoa de perder algo que fazia parte do nosso convencimento.”

O alferes, naquele pedaço de fim do mundo, era multifuncional: militar e juiz; confessor e mantedor da ordem; gestor de recursos possíveis e impossíveis, e prestador de serviços para destacamentos próximos, no caso vertente Guileje ou Cacoca, organizando colunas de abastecimento a partir de Gadamael; e fadado para manter patrulhamentos de proximidade, e conforme conta Luís Rosa houve mesmo um dia em que se encontrou na fronteira com a autoridade local do lado de lá, foi uma vez sem exemplo, mas os de lado de lá cortaram o capim e a estrada para além fronteira, era hábito que havia antes da guerra, até havia o cuidado de limpar à volta dos matos fronteiriços. Coisas só podiam acontecer a quem combatia naquela extensa fronteira que bordejava de norte para sul.

O autor socorre-se obviamente à sua memória: a primeira flagelação a Sangonhá; o trabalho que deu ir-se desfazendo o que fora feito pela formiga bagabaga, para ter uma boa pista de aviação; o trabalho exaustivo dos picadores para detetarem minas antipessoal e anticarro, preferiam-se os meios mais antigos porque os modernos, detetores em forma de prato na ponta de um cabo e que produziam um som agudo se estivesse metal próximo eram um quebra-cabeças, acusavam tudo o que fosse metal, levando a paragens e precauções por um prego ou cavilha que estivessem enterrados a dois dedos da superfície – usavam-se uns paus finos, com uma ponta de ferro no extremo. E o autor apresenta-nos o cabo Cancela e o seu ajudante Djaló, há habilidade de rebentar os engenhos.

É um fio de histórias, o que ele nos recorda largamente de Sangonhá, pouca atenção dedicará à permanência em Farim. Há momentos de grande dor como aquele ferido por uma mina antipessoal que irá morrendo aos poucos, o helicóptero chegará exatamente quando o ferido deixou de se agarrar à vida. E a água, a epopeia de percorrer a pulso aquele solo gretado, com o terror que ela faltasse na duríssima época seca. Porque antes da guerra era tudo diferente, as gentes viviam em pequenos povoados, espalhando à sua volta poços pequenos, agora todas aquelas pequenas povoações tinham ficado desertas; e a comida, Santo Deus, conservas e bolachas ressequidas, para já não falar daquela água que mesmo fervida, era sempre desconchavada; feridos graves não faltam e haverá um, barbaramente sinistrado, que lhe gritará: “Meu alferes, nunca mais sou homem!”; aquela fronteira é obsidiante, procura-se o marco fronteiriço, ele tinha acreditado que a fronteira era definida por um poilão, um nativo desenganou-o, pesquisou-se no capim, encontrou-se o marco, metro e meio de altura, em cimento, dizendo de um lado República Portuguesa e do outro República Francesa.

Neste livro de memórias, era inevitável a menção à religiosidade, ao fanado, à condição da mulher. E também se recorda aquela duríssima flagelação em que o alferes foi ferido, e também se recorda a tragédia dos agentes duplos, como Zacarias Mambo, que acabou na leprosaria da Cumura.

O último texto da narrativa é um almoço, talvez no Restaurante João do Grão, estão presentes o alferes de Sangonhá e o comandante do PAIGC local, à época. Conversa artificiosa, o comandante revela-se pedante, dizendo coisas como: “Já aprendi que é mais difícil governar a paz do que fazer a guerra”; fala-se do colonialismo e do pós-colonialismo, dizem-se coisas como: “Há muitas formas de independência. E há muitas formas de dependência. Como há muitas formas de os povos se governarem e muitos modos de se relacionarem.” E despedem-se, o autor pensa eu houve um enorme espaço de tolerância, havia para ali um painel de azulejos em que a superfície era coberta por retângulos de espelho nos quais a antiguidade e a humidade fizera sumir o brilho e os muitos anos os tinham ido quebrando. O autor sentiu que as imagens se projetavam como um puzzle, dizendo para si próprio e para o leitor: “Quebráramos há muito as imagens antigas e achávamos desejável procurar um caminho pragmático de nos reencontrarmos.”

Prefiro não comentar a extravagância deste final.

Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): foi alferes miliciano, CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
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Notas do editor:

Vd. post de 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)