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domingo, 18 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28446: Humor de caserna (298): O inconfundível traço do nosso MigSilva, o grande cartunista e ilustrador Mário Miguéis da Silva, de Esposende, que foi a alma de "O Saltitão", o jornal de caserna da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72), comandada pelo então cap inf Carlos Trindade Clemente (I)



Capa e excertos do primeiro número de "O Saltitão", jornal da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72). O diretor era o cap inf Carlos Trindade Clemente, que assinava os editoriais. O redator-chefe, que fazia também a  ilustração gráfica,  era  o nosso camarado Mário Miguéis  da Silva (que vive hoje em Esposende e nos mandou uma preciosa cópia desta primeira edição e de outras)

Foto (e legenda): © Mário Migueis da Silva (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  "A criação e organização do 'Jornal da Unidade', além de aumentar o espírito de corpo da mesma, é uma iniciativa muito útil e que interessa simultaneamente à maioria dos campos mencionados nas alíneas anteriores [falando-se da 'acção psicossocial sobre as NT' e dos  campos que deve abarcar: literário e cultural; técnico; recreativo e desportivo; e assistencial].

"Estes jornais devem focar temas educativos, instrutivos, psicológicos e recreativos de preferência a temas especulativos." (*)
 
Alguns dos capitães mais novos, sobretudo do QP, perceberam a importância que tinha a feitura e a leitura do "Jornal da unidade". Até como "ocupação dos tempos livres", para além das futeboladas, dos jogos de cartas, das patuscadas, da "psícola" na tabanca, do "dia das lavadeiras" (quando as havia...), do dia da chegada do "bate-estradas", dos relatos radiofónicos dos jogos de futebol da 1ª divisão na metrópole, etc.

Estima-se que não seja mais do que uma meia centena os títulos de "j0rnais de caserna" que terão exitido no CTIG, entre 1963 e 1974.  Muitos de periodicidade irregular e de vida efémera.

Citem-se alguns títulos de "jornais dce caserna", a nível de companhia,  que tinham com o diretores um capitão do quadro, e de que haverá exemplares no Arquivo Histórico-Militar (**):

  • "Dragões de Jabadá" | José Guilherme Paixáo Ferreira Durão (cap Cav, cmdt CCAV 2484, Jabadá, 1969/70);
  • "O Boina Negra" | Henrique de Carvalho Morais (cap cav, cmd CCAV 2472, Fulacunda, 1960/70);
  • "O Alvo" | António J. Pereira da Costa (cap art, cmdt BAA 3434, Cumeré, 1971);
  • "O Falcão" | Manuel José Marques Ribeiro Faria (cap inf, cmdt CCAÇ 3414, Sare Bacar, 1971/73):
  • "O Jagudi" | Rui Manuel Paninho Souto (cap inf, cmdt CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71);
  • "O Saltitão" | Carlos Trindade Clemente (cap inf, cmdt CCAC 2701, Saltinho, 1970/72);
  • "O Santo" | Hernâni Anjos Moas (cap caqv, cmdt CMP 2537, Bissau, 1969/71);
  • "O 6 do Cantanhâs" | Gastão Silva (cap inf, cmdt CCAC 6, Bedanda, 1973);
  • "Os Capicuas" | João Carlos Rodrigues de Oliveira (cap art, CART 2772, Fulacunda, 1970/72);
  • "Os Progressistas" | Salgueiro Maia (capt inf, cmdt CCAV 3420, Bula, 1971/73);
  • "Põe-te a Pau" |   Comandante, Alf Mil Art José Carlos da Rocha ou Cap Art Manuel Alves Serra, CART 2773, Jabadá, 1970/72);
  • "Tabanca" | Mário Tomé (cap cav, cmdt CCAV 2721, Olossato, 1970);
  • "Zoe" | Jorge Golias (cap trns, cmdt Agr Trms da Guiné, Bissau, 1973).
Noutros casos, havia um ou outro cap mil, alferes miliciano ou até alferes graduado capelão, como diretor do jornal da unidade. Excluímos os jornais de batalhão: por norma, o diretor só podia ser o comandante, que era um tenente-coronel.

2. Cite-se, como exemplo, "O Saltitão" que teve a sorte de ter um colaborador com o talento excecional do MigSilva,  Mário Miguéis da Silva, o fur mil rec info, da CCS/QG/CTIG, que esteve destacado em Bambadinca, ainda no meu tempo (CCS/BART 2917) e depois no Saltinho, adido à CCAÇ 2701 (1971/72). Foi convidado pelo capitão.  

Tinha (e tem) um grande talento como cartunista e ilustrador. Vive em Esposende, tendo sido bancário,  E julgamos que foi a alma de "O Saltitão". Iremos repescar alguns números que nos mandou.  Fica aqui uma amostra do humor  (***) que era cultivado no Saltinho, ao tempo da CCAÇ 2701, comandada pelo então cap inf, hoje coronel, Carlos Trindade Clemente (hoje coronel).

A "anedota" do 1º cabo Lourenço, que acima se reproduz, é absolutamente genial... E merece os comentários dos nossos leitores. Vamos dedicar-lhe um poste! É uma obra-prima de humor de caserna!...

3. Já na altura, em 2019, comentámos (**):


Pelo CTIG, de 1961 a 1974, passaram cerca de mil unidades e subunidades.  Por esta amostra (n=47), pode inferir-se que apenas cinco em cada cem, teria um "jornal de caserna", feito a stencil...

Pode perguntar-se porquê : falta de interesse, motivação, competência(s) dos seus comandantes e graduados, a começar pelos capitães alferes milicianos que, em princípio,  tinham mais habilitações literárias do que os  demais  elementos de cada companhia? 

Era pressuposto que o "jornal de caserna" ajudasse a melhorar o "moral da tropa" e cumprisse as instruções superiormente dadas no que respeitava à "acção psicossocial sobre as NT" (*)...

Em todas as secretarias havia um duplicador a stencil... e claro um máquina de dactilografia... E papel!

Eu fiz a história da minha unidade, a CCAÇ 12, a stencil... Dactilografei todas as páginas (meia centena). E tirei umas largas dezenas de exemplares pela malta que regressava a casa,  todos em rendição individual (antigos graduados e especialistas da CCAÇ 2590). 

 Mas, lamentavelmente,  nunca tivemos "jornal de caserna", nem nós nem os batalhões em que estivemos "a(r)didos": o BCAC 2852 (1968/70) e o BART 2917 (1970/72), sedeados em Bambadinca.

Louvo os comandantes dos batalhões e companhias do CTIG que tiveram a iniciativa de criar e apoiar os "jornais de caserna", a começar pelo nosso António J. Pereira da Costa, hoje cor art ref, e outros como o Salgueiro Maia, o Carlos  Trindade Coelho, õ Gastão Silva, o Mário Tomé, o Ribeiro Faria, etc.

Guiné 61/74 - P28445: Documentos (69): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (III)









Guiné > c. 1965 > Estamos a reproduzir os postais de propaganda das NT, dirigidas ao IN e à População. Fazem parte de uma colecção do Joaquim Sequeira (1940-2024), ex-1º cabo canalizador, BENG 447 (Brá, 1965/67), carinhosamente tratado por "Sintra" (ele morava no Mucifal, concelho de Sintra, e era assíduo frequentador da Magnífica Tabanca da Linha).


Trata-se de uma sequência de banda desenhada, sob a forma de um folheto desdobrável com uma meia dúzia de postais, impressos de um lado e do outro. Ccmeça com uma imagem do mapa da Guiné ("Guiné Portuguesa, Guiné Feliz"). À direita está escrito, esferográfica azul: "Do Sintra, 8/65".

No primeiro postal (*) mostra-se um grupo de "homens do mato" (nunca "guerrilheiros"), feridos, esfomeados, esfarrapados, desmoralizados. Os combatentes do PAIGC nunca são tratados como tal, mas simplesmente como "homens do mato" (leia-se: bandidos, foragidos, indivíduos que estão fora da lei e da ordem).

Aliás, no nosso tempo, "ir no mato" era, no falar das gentes da Guiné ( a começar pelos soldados do recrutamento local), juntar-se à guerrilha, fugir das zonas sob administração portuguesa (civil e militar).

Portugal, de resto, nunca reconheceu o PAIGC como inimigo, no sentido militar e legal do termo, nem a luta contra o "terrorismo" (ou a "subversão) como uma situação de guerra, face à Convenção de Genebra.

O título do primeiro postal é : "No mato, há doença, fome e morte", A legenda, por sua vez, acrescenta o seguinte: "O Chefe do Grupo do mato julga que vai morrer. Foi gravemente ferido". Deduz-se que são os sobreviventes de uma ação ofensiva das NT.

No 2º postal (ª*) vemos o mesmo grupo de "homens do mato", desalços, vestiados apenas de tanga ou calções (!), a entregar-se às autoridades militares portuguesas da zona.

Depois do chefe do mato ter ido falar com o "homem grande da tabanca" (o régulo, que veste à maneira fula, o que está longe de ser inocente, já que os fulas eram os nossos grandes aliados), o homem grande intercede por eles junto da tropa. Legenda: "O Homem Grande diz à tropa que estes homens foram enganados, estão arrependidos e fartos da guerra".

No 3º postal (vd. acima), vemos os "homens do mato, arrependidos" serem bem tratados pelas autoridades portuguesas: (i) a começar pelos  enfermeiros da tropa que cuidam dos seus ferimentos, (ii) bebem referigerantes  com os nossos soldados do recrutamento local; (iii) recebem alimentos (pão, arroz, conservas) da tropa.

Recordo-me de ainda terem passado  pelas minhas  mãos, em 1969/71,  alguns desses cartazes (ou parecidos), mas não fiquei com nenhum. Alguns foram deixados atabalh0adamente no terreno, depois de uma violenta emboscada dos "homens do mato", no seubsetor do Xime, no sítio do costume,... Não tive a preocupaçao de guardar nenhum documento desse tipo, de um lado ou do outro. Na altura o que eu queria mesmo era esquecer a Guiné... para sempre.  Hoje tenho tenho...

Foto (e legenda): © Joaquim Sequeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI]

Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (III)

(Excertos: CECA, 2014)


Estamos a reproduzir o primeiro documento de que se tem conhecimento na Guiné, sobre a Ação Psicológica, e que se intitula Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63.

A primeira parte, trata da acção psicossocial com o objectivo de "obter ou manter apoio da população". A segunda parte abarca a "Acção psicossocial sobre as NT", na dupla imponente da acção psicológica e da acção social. A Anexo (A), dão-se instruções, às unidades, para elaborar o relatório periódico de acção psicológica.

(Continuação)

 

Anexo A "Acção Psicossocial - Instruções"

Relatório Periódico de Acção Psicológica n° ....

Período de__/__/____/ a __/__/____/

Referências: .

1. Generalidades

Descrição geral da forma como, durante o período, decorreu:

  • a acção psicológica levada a efeito pela unidade; 
  • aspectos mais salientes dessa acção;
  •  objectivos especialmente visados, formas de acção principalmente usadas, processos e meios mais utilizados;
  • resultados gerais conseguidos; 
  • identidade de pontos de vista ou divergências entre a acção da unidade e a dos órgãos estranhos à unidade e facilidades concedidas reciprocamente.

2. Acção Psicológica conduzida pelo adversário

  • Objectivos, operações realizadas, temas difundidos, formas de acção, técnicas, processos e meios utilizados; 
  • efeitos conseguidos: a. sobre a população: b. sobre o adversário.

3. Acção Psicológica conduzida por órgãos estranhos à Unidade

  • Objectivos, operações realizadas, temas difundidos, formas de acção, técnicas, processos e meios utilizados; 
  • efeitos conseguidos: a. sobre a população. b. sobre o adversário.

4. Acção Psicológica conduzida pela Unidade

a. Sobre a população: Objectivos, operações realizadas, temas difundidos, formas de acção, técnicas, processos e meios utilizados, efeitos conseguidos,

etc., nas formas de acção seguinte:

(1) - Propaganda.

(2) - Contrapropaganda.

(3) - Informação.

b. Sobre o adversário: Objectivos, operações realizadas, temas difundidos, formas de acção, técnicas, processos e meios utilizados, efeitos conseguidos; acções de rendição, acção sobre prisioneiros, efeitos conseguidos.

c. Sobre as nossas tropas

Objectivos a conseguirem nos diversos tipos de militares; acção realizadas para a sua consecução (formação moral e cívica, informação, instrução técnica sobre acção psicológica); efeitos conseguidos.

5. Acção Social

a. Conduzida por órgãos estranhos à unidade (acções realizadas e efeitos conseguidos).

b. Conduzida pela unidade, sob os seguintes aspectos:

(1) - Assistência sanitária

(a) - Na sede da unidade (vacinações, consultas, tratamentos, intervenções, medidas de sanidade, assistência matemo-infantil, etc.).

(b) - Itinerante (equipas médicas constituídas, percursos efectuados, acções realizadas, etc.).

(c) - Resultados psicológicos obtidos.

(2) - Assistência religiosa

(a) - Localidades em que foram realizados actos de culto.

(b) - Sessões de catequese.

(c) - Apoio espiritual.

(d) - Resultados psicológicos obtidos.

(3) - Assistência educativa

(a) - Cultura geral (escolas para crianças, jovens e adultos, sua localização, frequência, pessoal instrutor e monitor, material, etc.).

(b) - Cultura técnica ou de formação profissional (oficinas em actividade, ensino agrícola e pecuário, etc.).

(c) - Cultura física (escolas de ginástica, prática de desportos, competições desportivas, material desportivo).

(d) - Resultados psicológicos obtidos.

(4) - Assistência económica

(a) - Dádivas (alimentos, roupas, utensílios, etc.).

(b) - Empréstimos (financeiros e de utensílios).

(c) - Prestação de serviços (transportes, terraplanagens, construções, etc.).

(d) - Compras.

(e) - Resultados psicológicos obtidos.

6. Conclusões e Propostas

a. Síntese do estado de espírito da população e das forças militares com especificação das razões do seu comportamento e a indicação dos factos que mais tenham concorrido para a elevação ou depressão do seu moral.

b. Estado moral dos adversários e razões desse estado.

c. Evolução provável da situação psicológica.

d. Ligação e entendimento entre a acção conduzida pelas unidades e a conduzida pelos órgãos estranhos à unidade.

e. Propostas sobre medidas a tornar.

(Acusar recepção)

Anexos:_____________________________

Distribuição:__________________________


(Fim)
_________

Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 162/164.


(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poaste de  16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28440: Documentos (67): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (I)


(**) Último poste da série : 17 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28443: Documentos (68): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (II) 

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sábado, 17 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28444: Os nossos seres, saberes e lazeres (755): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275): Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Belíssima iniciativa esta, a de pôr em circulação nacional obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, um conjunto significativo de obras de artistas consagrados e emergentes. Entrando na exposição e começando a ler a brochura, fico com sérias reservas quanto à comunicação utilizada pelos curadores, eu sei que eles sabem da poda, resta saber se o visitante que habita Sines e arredores se entende com as razões do título da exposição e as temáticas nela abordadas. Senão veja-se: "Esta exposição propõe uma leitura sensível e expandida do imaginário associado ao verão, tomando como ponto de partida a experiência da vida balnear e as formas de sociabilidade, lazer e pertença que esta mobiliza." O leitor que vai discorrer pelas imagens que selecionei que se pergunte onde encontra imaginário associado ao verão e até mesmo a experiência da vida balnear. Mais adiante, escrevem os curadores: "O verão surge como um momento de suspensão e expansão, onde as convenções quotidianas cedem lugar a formas intensificadas de relação com o mundo. Longe de uma leitura nostálgica, Chuva de Verão inscreve-se num horizonte de comunhão com a natureza e com o coletivo, explorando territórios instáveis, geometrias afetivas e estados de leveza que redefinem a perceção e a presença."Parece-me muito barulho para palavrório tão altissonante, percorre-se este conjunto de obras e só por milagre há uma relação de causa e efeito entre a apresentação e a explicação do que se vai visitar e a sucessão de telas e obras que o visitante encontrará dentro deste belíssimo espaço que é o Centro de Artes de Sines. Há quem pense que o uso da imaginação da palavra coincide com o impacto estético do que o visitante encontra; no caso vertente, por onde andará a Chuva de Verão?

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275):
Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro


Mário Beja Santos

Estando ali perto de Sines, sendo um entusiasta destas instalações, vim visitar esta Chuva de Verão, uma nova exposição da Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Reza a brochura que me acompanha na visita que esta exposição propõe uma leitura sensível e expandida do imaginário associado ao verão, tomando como ponto de partida a experiência da vida balnear e as formas de sociabilidade, lazer e pertença que esta mobiliza. Confesso que não entendo na vertigem deste palavrório, provavelmente um jargão corporativo de quem ganha a vida no domínio da história de arte e quer fazer um figurão com nomenclaturas impressionantes. O que irei visitar, subordinado a uma certa diversidade, entre o humano e o animal, dizem os curadores que nas chuvas de verão todos os elementos naturais estão reunidos e os corpos aceleram a esse apelo. Os humanos acedem à sua condição animal, explorando os seus instintos ancestrais e contemplando o mundo de modo radicalmente diferente das rotinas do dia-a-dia. Além deste humano e animal há outras temáticas, as geografias imaginárias e os corpos flutuantes. Vim cheio de curiosidade contemplar um tal diálogo entre diferentes práticas artísticas, do verão não vi sinal, rendi-me ao gozo estético que me provocam certas obras, sinto-me impressionado pela representação do belo, outras nada me dizem, mas isso parece ser matéria que tem a ver com as impressões que a arte provoca a cada um, desde o figurativismo mais académico às construções abstratas e às disparidades dos materiais. Deixo aqui um mero registo do que vi e porventura mais me tocou, quem vive em Sines ou nas proximidades está em cima da hora para poder visitar Chuva de Verão.
Inaugurado em 2005, o Centro de Artes de Sines (CAS) está dotado de biblioteca, auditório, galeria de exposições e arquivo histórico. Projeto dos arquitetos Manuel e Francisco Aires Mateus (prémio AICA/MC 2005 e finalista do Prémio Mies van der Rohe 2007)
Joaquim Bravo (1935-1990), La Mer, 1985. Este quadro mostra uma paisagem imaginária que evoca a superfície do mar e é reveladora de uma perspetiva original, revela a duplicidade entre escalas e cores, o vermelho e o azul, o grande e o pequeno, o cimo e o baixo, num jogo constante de contrabalanço.
Eduardo Batarde (1943-2025), da série “Candeeiros, Cubismos, Cães e Colunas”, 1980-81. Dotado de um domínio virtuoso da técnica e de uma atitude crítica e rigorosa perante a prática artística, Eduardo Batarda destacou-se pela coragem e ousadia da sua linguagem, construindo um legado que alia experimentação formal, densidade crítica e uma singular ironia.
Paula Rego (1935-2022), “Sem título”, 1983. A obra de Paula Rego depende, no essencial, da sua experiência portuguesa, de uma infância vivida perto das mulheres que povoaram a sua vida. Basta olhar algumas das suas obras para sentirmos a brutalidade implícita. É um regresso à imagem mais forte desse jogo persistente entre o bem e o mal, a razão das suas figuras, ou o modo insinuante como se questiona a sociedade patriarcal.
Francisca Carvalho, Ashlesha, 2018, tintas naturais sobre lona de algodão. Esta obra reúne referências expressivas da astrologia hindu e da mitologia grega, nomeadamente a Hidra, um corpo complexo com várias cabeças de serpente que surge representado com formas curvilíneas pintadas com pigmentos naturais.
Pedro Casqueiro, “Sem título”, 1984, acrílico sobre tela. Este artista tem desenvolvido um processo de produção criativa no qual vai variando ciclicamente a linguagem formal e os temas que explora nas suas obras. As suas obras mais abstratas envolvem a criação de espaços interiores e espaços arquitetónicos e cenográficos.
João Fonte Santa, Reisen In Brasilien, 2016, acrílico sobre tela. O artista recorre a imagens com origem na grande tradição narrativa do século XIX, introduz-lhes linhas de reflexão que não dispensam uma espécie particular de contemplação estética. De grande escala, estes trabalhos em acrílico estão impregnados de mensagens e metáforas críticas sobre os desequilíbrios da contemporaneidade.
René Bertholo (1935-2005), Nouvelles du Nord, 1966. Artista que não seguia uma gramática única, nem reconhecia as definições estanques em que se encerram as linguagens da figuração e da abstração. Os elementos presentes nas suas telas não possuem uma natureza precisa. E são eles que convivem livremente nos seus quadros, sem estarem dispostos numa relação aparentada à ordem clássica da composição pictórica.
Paula Rego, O mundo às avessas, aguarela sobre papel. Tudo o que diz respeito à condição feminina, em particular a inversão dos seus estereótipos, parece encontrar na pintura de Paula Rego um aliado inevitável e preciso. Entre pinturas a pastel de óleo, gravuras e desenhos, o que particulariza a sua obra é o paradoxo da imagem da mulher, da sua força intrínseca, assim como a ambígua condição imagética da pintura, entre um formalismo académico e clássico e a modernidade inventiva que a alimenta.
Eduardo Batarda, El Cineasta, 1979.
Helena Almeida (1934-2018), Pintura Habitada, 1975. Esta artista desenvolveu uma obra singular em que o corpo se torna simultaneamente sujeito, ferramenta e suporte da produção artística. Em Pintura Habitada, série desenvolvida na década de 1970, ela rompe as fronteiras da pintura, fotografia e performance, usando a imagem fotográfica para registar ações em que o seu próprio corpo, de algum modo, habita a composição.
António Palolo (1946-2000), Sem título, 1971. O corpo de trabalho deste artista oscila entre a abstração, informal e geométrica, e a figuração. Nos anos 1960 e 1970, desenvolve composições onde privilegia a justa composição concêntrica de elementos geométricos, lineares, triangulares, quadrados e cúbicos, tecendo um jogo de grelhas, molduras, de enquadramentos sobre enquadramentos.
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Nota do editor

Último post da série de 10 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28423: Os nossos seres, saberes e lazeres (754): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (274): Assisto a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de regressar à Renânia-Palatinado - 9 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28443: Documentos (68): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (II)








Guiné > c. 1965 > Estamos a reproduzir  os postais de propaganda das NT, dirigidas ao IN e à População. Fazem parte de uma  colecção  do Joaquim Sequeira (1940-2024), ex-1º cabo canlizador, BENG 447 (Brá, 1965/67). carinhosamente tratado  por "Sintra" (ele morava no Mucifal, concelho de Sintra,e era assíduo frequentador da Tabanca da Linha).

Trata-se de uma sequência de banda desenhada, sob a forma de um folheto desdobrável com uma meia dúzia de postais, impressos de um lado e do outro. Ccmeça com uma imagem do mapa da Guiné ("Guiné Portuguesa, Guiné Feliz"). À direita está escrito, esferográfica azul: "Do Sintra, 8/65".

No primeiro  postal  (*) mostra-se um grupo de "homens do mato"  (nunca "guerrilheiros"),  feridos, esfomeados, esfarrapados, desmoralizados. Os combatentes do PAIGC nunca são tratados como tal, mas simplesmente como "homens do mato" (leia-se: bandidos, foragidos, indivíduos que estão fora da lei e da ordem). 

Aliás, no nosso tempo, "ir no mato" era, no falar das gentes da Guiné ( a começar pelos soldados do recrutamento local), juntar-se à guerrilha, fugir das zonas sob administração portuguesa (civil e militar).

 Portugal, de resto, nunca reconheceu o PAIGC como inimigo, no sentido militar e legal do termo,  nem a luta contra o "terrorismo" (ou a "subversão) como uma situação de guerra, face à Convenção de Genebra.  

O título do primeiro postal é : "No mato, há doença, fome e morte", A legenda, por sua vez, acrescenta o  seguinte: "O Chefe do Grupo do mato julga que vai morrer. Foi gravemente ferido".  Deduz-se que são os sobreviventes de uma ação ofensiva das NT.

No postal acima  vemos o mesmo grupo de "homens do mato", desalços, vestiados apenas de tanga ou calções (!),  a entregar-se às autoridades militares portuguesas da zona. 

Depois do chefe do mato ter ido falar com o "homem grande da tabanca" (o régulo, que veste à maneira fula, o que está longe de ser inocente, já que os fulas eram os nossos grandes aliados), o homem grande intercede por eles junto da tropa:

Legenda: "O Homem Grande diz à tropa que estes homens foram enganados, estão arrependidos e fartos da guerra".
 
Foto (e legenda): © Joaquim Sequeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI]


Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (II)
(Excertos: CECA, 2014)
 

Estamos  a reproduzir o  primeiro documento de que se tem conhecimento na Guiné, sobre a Ação Psicológica, e que se intitula Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63.

A primeira parte, trata da acção psicossocial com o objectivo de "obter ou manter apoio da população".  A segunda parte abarca  a "Acção psicossocial sobre as NT",  na dupla  imponente da acção psicológica e da acção social.

(Continuação)

 II. Acção Psicológica


A Acção Psicológica consiste na aplicação dum conjunto de medidas, devidamente coordenadas, destinadas a influenciar as opiniões, os sentimentos, as crenças e, portanto, as atitudes e o comportamento dos meios amigos, neutros e adversos com a finalidade de:

- fortificar a determinação e o espírito combativo dos meios amigos;

- atrair a simpatia activa dos meios neutros;

- esclarecer a opinião de uns e outros e contrariar a influência adversa sobre eles;

-  modificar a actividade dos meios adversos num sentido favorável aos objectivos a alcançar (O Exército na Guerra Subversiva - III Acção Psicológica).

Em primeira urgência a Acção Psicológica a desenvolver incidirá principalmente sobre a população nativa e terá como objectivo "obter ou manter apoio da população".

Para atingir este objectivo, pretende-se:

A - Levar a população a informar a tropa da presença dos rebeldes.

B - Levar a população a atacar os rebeldes e a defender-se com o apoio dos militares.

C - Reagrupar as populações dispersas, proporcionando-lhes condições de vida e autodefesa.

D - Dar a conhecer às populações as nossas intenções e compará-las com as do inimigo.

Temas a desenvolver em relação a cada uma das missões indicadas:

A - Levar a população a informar a tropa da presença dos rebeldes.

  • Necessidade de sabermos quem são os bons para serem compensados e os maus para serem castigados. 
  • A tropa só faz justiça e quer o bem e a paz.

B - Levar a população a atacar os rebeldes e a defender-se com o apoio dos militares:

  • Se o nativo ajudar a tropa é mais fácil haver paz e viverem sossegados nas tabancas. 
  • A tropa protege todos os portugueses qualquer que seja a sua raça e naturalidade.

C - Reagrupar as populações dispersas proporcionando-lhes condições de vida e autodefesa:

  • Vantagens de viverem nas tabancas onde nada falta em relação à vida no mato;
  • A tropa proporciona a defesa das tabancas onde os nativos se instalarem e perdoa-lhes terem ido com os rebeldes.

D - Dar a conhecer às populações as nossas intenções e compará-las com as do inimigo:

  • Lutamos pelo bem estar da população da Guiné e para que vivam todos os povos em paz;
  • Não obrigamos ninguém a ir para o mato nem a dar-nos comida,antes pelo contrário, queremos que venham para as tabancas e damos remédios, abrigo, comida, etc. 
  • Lutamos com os nativos pelos nativos e os terroristas vêm defora para vos fazer mal~;
  • Os meios de comunicação a dar prioridade, serão, por enquanto, os seguintes: conversa orientada; palestras; reuniões populares; processos visuais;
  • Serão rebatidos lógica e oportunamente todos os boatos que nos forem desfavoráveis, demonstrando-se a sua falsidade;
  • Procurar-se-á explorar a nostalgia das populações atingidas pelas actividades terroristas criando-lhes imagens que despertam saudades dos tempos em que viviam sossegadas e sem preocupações nem receios.

Dados Estatísticos e Psicológicos

É importante recolher todos os elementos que possam fornecer dados estatísticos os quais podem ser apresentados sob a forma de quadros ou de gráficos. Entre os diferentes elementos que interessa conhecer, destacam-se os seguintes:

• Assistência Sanitária

- Número de doentes assistidos;

- Valor dos medicamentos distribuídos pelas FM;

-  Valor dos medicamentos fornecidos pelas entidades civis e distribuídos pelas Forças Militares (FM);

- Número de nativos vacinados;

- Número de doentes transportados.


• Assistência Religiosa

- Número e natureza de actos de culto celebrados;

- Número de instruendos da catequese .


• Assistência Educativa

- Número de escolas e de alunos (localidades);

- Número de escolas de artes e ofícios (modalidades e localidades);

- Número de professores e auxiliares;

- Número de espectáculos recreativos e locais em que se realizaram;

- Número de festas gentílicas a que assistiram e locais em que se realizaram; 

- Número de espectáculos desportivos e locais onde se realizam.


• Assistência Económica

- Valor das dádivas distribuídas pelas FM;

- Valor das dádivas feitas por elementos civis e distribuídas pelas FM;

- Número e natureza dos serviços prestados.

- De acordo com o regulamentado, deve ser elaborado e enviado  mensalmente  um relatório cujo modelo se indica em anexo.


2ª PARTE

Acção Psicossocial sobre as NT


I - Acção Psicológica


1. A acção psicológica a exercer sobre as forças militares tem as seguintes finalidades:

- formar, manter e fortalecer o moral do pessoal e imunizá-lo contra os ataques psicológicos adversos.

- preparar o pessoal para colaborar na acção psicológica a exercer junto das populações e sobre o adversário (O Exército na Guerra Subversiva - III Acção Psicossocial).

Terá de ser também orientada de modo a combater a "saturação" e o desgaste psíquico proveniente duma prolongada estadia em más condições de alojamento e do forçado afastamento não só dos meios onde normalmente o pessoal vivia como também, por vezes, das populações civis. Ao planear-se a acção psicológica numa Unidade deve ter-se em atenção as diferenças existentes nos vários escalões a fim de que a mesma se ajuste a cada um deles.

2. Os campos de acção onde os comandos militares podem, principalmente, exercer a sua actividade para obtenção das finalidadesmencionadas são, entre outras, as seguintes:

- moral e cívica;

- informativo;

- da instrução técnica.

2A. Formação Moral e Cívica

a. Toda a actividade do comando neste campo deve basear-se nos regulamentos e ser orientada de molde a:

- desenvolver a crença na justiça da causa que defende.

- aumentar a vontade de combater.

- criar a certeza da vitória.

- valorizar os militares tornando-os mais conscientes dos seus deveres.

b. A formação moral e crvica dos quadros deve merecer especial atenção não só devido à sua pouca experiência como também devido ao facto de serem eles os orientadores directos e os educadores que mais intimamente lidam com as praças que são os que em maior número contactam com as populações nativas.

c. Deve merecer especial cuidado de todos os comandos a Acção Psicológica a exercer sobre as NT quando elas estão prestes a finalizar as suas obrigações militares e a embarcar para a Metrópole. 

Procurar-se-á incutir noespírito dos homens a necessidade de se tornarem, nas suas terras, valores sociais positivos, sempre prontos a baterem-se pela verdade, pelo bem e pela justiça. 

É também muito importante demonstrar-lhes a necessidade de informarem com verdade, principalmente os mais novos àcerca do que é o Exército e a obra que por ele está sendo levada a efeito nas Províncias Ultramarinas.

2B. Informações

a. No aspecto informativo deve constituir preocupação do Comando trazer os seus subordinados convenientemente informados sobre os assuntos e problemas do seu interesse.

Isto é tanto mais importante quanto é certo que a falta de informações correctas e oportunas torna o "terreno" fértil para o lançamento de boatos sempre exploráveispelo inimigo.

 b. Os comandos devem igualmenteinformar os seus subordinados sobre os erros ideológicos do adversário preparando-os assim para não "se deixarem levar", tornando-se "simpatizantes" ou gerando nos seus espíritos dúvidas quanto àjustiça da causa que defendem. Lembra-se a este respeito que um dos objectivos dos insurrectos, neste tipo de luta, é a criação da dúvida no espírito das tropas quanto à legalidade e justiça das causas por que se batem.

c. A fim de manter as tropas tanto quanto possível bem informadas podem utilizar-se os seguintes meios:

- criação do centro informativo da unidade;

- realizar palestras;

- promover discussões dirigidas;

- publicar folhetos ou jornais.

d. É também procedimento aconselhável o que consiste em dar publicidade aos actos heróicos praticados por militares levando-os ao conhecimento das populações da terra da sua naturalidade e posteriormente distribuir, na Unidade, os jornais em que foi dada a notícia.

2C. Instrução técnica

- Todos os elementos das FM tomam parte, permanentemente, nos programas da acção psicossocial, sendo consciente ou inconscientemente um elemento activo da sua execução.

Nestas condições e com o fim de tornar os seus actos conscientes deles obtendo maior rendimento, recomenda-se seja ministrada instrução sobre a matéria constante de "O Exército na Guerra Subversiva - III Acção Psicossocial".

- É sempre de salientar o efeito psicológico que tem sobre as populações nativas as atitudes dos militares, a grande eficiência que demonstram, a maneira como se comportam perante os civis e os militares seus superiores, a segurança e apresentação das instalações que ocupam, etc ..

- Deve igualmente salientar-se que o desejo da maioria dos militares em regressar à Metrópole e a exteriorização das saudades que sentem de suas famílias e suas terras, não significa de modo nenhum revolta contra a missão que lhes foi atribuída ou desejo de entregar ao ln esta ou aquela parcela do território português.

II - Acção Social

3. No aspecto social, a actividade dos comandos exerce-se, entre outros, nos seguintes campos:

- Literário e cultural;

- Técnico;

- Recreativo e desportivo;

- Assistencial.

3A. Campo literário e cultural

- Organização de Escolas Regimentais procurando que no fim das comissões todos os militares saibam, pelo menos, ler, escrever e contar. Entregar diplomas aos que fizerem exames.

- Organização de cursos liceais para os militares que estiverem em condições de os frequentar. Procurar que se habilitem a fazer exames no liceu em Bissau.

- Organização de bibliotecas, as quais tanto interessam ao campo literário como ao recreativo. 

- Organização de exposições com prémios aos que apresentarem melhores trabalhos.

3B. Campo técnico

- Valorizar tecnicamente os homens facilitando a frequência de cursos de condução auto civis, primeiros socorros, etc ..

- Aproveitar as aptidões dos especialistas procurando aperfeiçoá-los pela atribuição de trabalhos da sua arte os quais, sempre que possível, serão recompensados.

- Organizar a exploração agro-pecuária da unidade e entusiasmar os homens no tratamento da mesma ensinandolhes como proceder.

3C. Campo recreativo e desportivo

- Organizar as actividades recreativas da unidade;

- Criar conjuntos artísticos;

- Efectuar espectáculos para distracção do pessoal e distribuir prémios e recompensas aos melhores soldados;

- Estimular a entrada de militares no "ambiente local";

- Efectuar visitas de solidariedade entre as unidades;

- Organizar grupos desportivos e promover a disputa de torneios;

-  Manter e, se possível, melhorar a boa forma física do pessoal, levando-o a praticar educação física, marchas, desportos, etc ..

3D. Campo assistencial

- Efectuar, sempre que possível, visitas de solidariedade aos doentes ou feridos internados levando-lhes pequenas lembranças;

- Sempre que as circunstâncias o aconselhem, enviar mensagens às famílias dos militares e responder a todas as cartas e pedidos de informações que recebam;

- Procurar a colaboração do MNF, Cruz Vermelha Portuguesa, Cáritas, para a resolução dos problemas e prestação da assistência às famílias dos militares que se encontram em comissão no Ultramar;

- Promover a celebração de actos de culto para todos aqueles que desejarem associar-se.

4. A criação e organização do "Jornal da Unidade", além de aumentar o espírito de corpo da mesma, é uma iniciativa muito útil e que interessa simultaneamente à maioria dos campos mencionados nas alíneas anteriores. Estes Jornais devem focar temas educativos, instrutivos, psicológicos e recreativos de preferência a temas especulativos.

(Continua) 

Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 155/162.


(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor LG:


Último poste da série > 16 de outubro de 2026 > 16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28440: Documentos (67): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (I)

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28442: Tabanca Grande (587): Henk Eggens senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 920: nasceu nos Países Baixos (que para nós é sempre a velha Holanda...) e é cidadão do mundo, médico de saúde global; é vizinho de Salazar, vive em Santa Comba Dão

 




Henk Eggens, ontem e hoje. Grão-tabanqueiro nº 920.  Nasceu nos Países Baixos (que para nós é sempre a Holanda...) e é cidadão do mundo, médico de saúde global.  Foi cooperante na Guiné-Bissau (1980/74). É vizinho de Saklazar, vive em Santa Comba Dão.
(Fotos do  álbum do Henk Eggens, restauradas digitalmente com recurso à IA - ChatGPT Open AI, 2026)



1. O nosso amigo Henk Eggens já devia ter sido apresentado à Tabanca Grande há pelo menos dois meses atrás. Estamos em falta com ele. De facto, em mensagem de 29/07/2026, 22:30 (*), ele já tinha aceite formalmente o nosso convite para se sentar à sombra do nosso poilão, o mesmo é dizer, passar a fazer parte formalmente da nossa tertúlia, o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné:

Luís,

Aceito o convite com muito prazer e agradeço-vos a confiança.

Gosto de fazer parte de uma comunidade que valoriza as experiências vividas numa terra estrangeira, em circunstâncias muito difíceis, sem cair na tentação de reduzir um povo à condição de inimigo ou de mero figurante na história de vida de alguém.

É esse respeito que encontro nos artigos publicados no vosso blogue. Por isso, é para mim uma honra passar a fazer parte da Tabanca Grande!



Mantenhas!

2. Ainda não nos conhecemos pessoalmente, ao vivo e a cores. Perdemos uma oportunidade (histórica!) de nos encontrarmo-nos, há dias, em Carregal do Sal, no Museu Aristides Sousa Mendes, eu, ele, o João Crisóstomo e a Vilma. Razão: conflito de agendas...

Seria entretanto delegante, da nossa parte, adiar por mais tempo essa formalização. E  já dissemos o essencial sobre o nosso novo grão-tabanqueiro (**):

(i)  é neerlandês (que é mais do que holandês...), nascido em 1947, no difícil pós-guerra de todos nós, europeus;

(ii) médico especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública);

(iii) cidadão do mundo,  já percorreu os quatro continentes como cooperante em saúde;

(iv) esteve 4 anos na Guiné-Bissau (incluindo dois anos em Fulacunda e outros dois na capital) (1980/84);

(v) antes tinha estado em Cabinda, Angola, já no tempo da 2ª guerra da independência (1976/78); 

(vi) também trabalhou na Indonésia, as  antigas Índias Orientais Holandesas, que se tornaram independentes em 1949, depois de 4 anos de brutal ocupação japonesa (1942/45) e de uma dura guerra de descolonização  (1946/49);

(vii) fala e escreve o português e o crioul0 guineense;

(viii) está "reformado" (que é uma palavra feia, em português);

(ix) é um apaixonado (uma palavra bonita!) por Portugal, a Guiné-Bissau, Angola, Brasil, a lusofonia...

(x) vive em Portugal,  em Santa Comba Dão (sem quaisquer privilégi0s nem complexos por ser vizinho do senhor professor doutor António de Oliveira Salazar);

(xi) a sua companheira é luso-brasileira;  tem duas filhas de um primeiro casamento: a esposa, médica, que esteve com ele na Guiné-Bissau, já faleceu;

(xii)  foi administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês,  muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); e onde tem publicado textos do nosso blogue, com a devida autorização dos autores e editores;

(xiii) tem mais de uma dezena referências no nosso blogue.

 
2. Já há meses que o tínhamos convidado,  para, de pleno direito, passar a integrar a Tabanca Grande, como amigo da Guiné...  Será o primeiro neerlandês a sentar-se ao nosso lado, como igual. No ugar nº 920.

Na brincadeira, tinha-lhe lembrado  (em 29/7/2026):

Henk: e o convite para te juntares à Tabanca Grande, onde há filhos e filhas de muitas mães ? Tugas, das sety partidas, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, mas também alemães, americanos.. Tu serias o primeiro neerlandês... O Roel Coutinho (para mais com ascendência judaico-portuguesa) faz cá falta... mas nunca interagiu connosco e, depois, não fala português...nem deve sentir-se confortável num blogue coletivo como o nosso (...).

Não, ele não foi combatente, em nenhum conflito armado, felizmente para ele, mas dedicou pelo menos seis  anos da sua vida a dois povos lusófonos,  guineense e angolano, e numa época particularmente difícil.  

Por outro lado, o facto de ter sido administrador e editor (e hoje continuar como colaborador) do  Portugal Portal vem reforçar ainda mais a ideia de que ele é um mediador cultural por excelência. Há pessoas que passam por um país, muitas com chorudos vistos Gold, e privilégios; outras criam pontes entre países, as pontes da amizade, da solidariedade, da cooperação, da cultura.

O Henk pertence claramente ao segundo grupo.  Vive, conhece, assimila, traduz, divulga, aproxima culturas e ainda leva textos do nosso blogue a leitores neerlandeses e portugueses emigrados na sua terra. É uma forma discreta, mas muito eficaz, de diplomacia cultural. E sobretudo cultivar e aprofundar a amizade entre povos (Portugal, Países-Baixos, Guiné-Bissau, Angola, mas também a Indonésia e Timor-Leste).

O Henk (não o vou tratar cerimoniosamente por dr. Eggens), merece o nosso apreço pelo que fez e tem feito pela Guiné-Bissau, por Portugal, e pela pela diáspora lusófona nos Países Baixos, que conta com cerca de 135 mil emigrantes (!): mais de metade brasileiros, mas também portugueses (35,6 mil), cabo-verdianos (23,1 mil) e outros PALOP (maioritariamente angolanos, mas também guineenses, etc.) (11,0 mil).

Cidadadão do mundo,  a sua  presença na Tabanca Grande será inteiramente natural e vem enriquecer ainda mais esta comunidade de memória, amizade e afetos. 

 Henk / Henrique, estás em casa!...E conheces as regras da casa. Obrigado pelos links dos teus 4 artigos que me mandaste, e que ainda eu não  li (em neerlandês...) mas prometo lê-los com a ajuda da IA...  

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Guiné 61/74 - P28441: Notas de leitura (1971): Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905 (Mário Beja Santos)

Capa da revista Brasil-Portugal, edição de 16 de novembro de 1905. Aspeto curioso é a publicidade a uma água que foi famosa, Lombadas, tinha a sua nascente na ilha de São Miguel, Açores, quando prestei serviço militar como aspirante a oficial miliciano no Batalhão Independente de Infantaria nº 18, Arrifes, a escassos quilómetros de Ponta Delgada, descobri esta belíssima água de mesa.

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A Biblioteca da Sociedade de Geografia permite por vezes estes tesouros, eles surgem inesperadamente, anda-se à procura de trabalho sobre a cidade de Tomar, tinha havido uma excursão científica ao património tomarense, o Dr. José Vieira Guimarães, conceituado médico e historiador proferira palestra e andara como guia entre a cidade e o Convento de Cristo, e é a folhear os números da revista Brasil-Portugal,, publicação que é da sua existência entre 1899 e 1914, que aparece este trabalho sobre a Guiné, algumas destas imagens eram-me desconhecidas, outras não tanto.Porventura correspondente, o autor não está para vénias nem laudes, diz verdades como punhos, revela o estado da colónia, o domínio total do comércio por franceses e alemães, a permanente incúria num território com potencialidades agrícolas de indiscutível valor, falham estrondosamente os investimentos portugueses.

Um abraço do
Mário



Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905

Mário Beja Santos

Brasil-Portugal era uma revista quinzenal ilustrada, editou-se entre 1899 e 1914. De algum modo concorria com a revista Ocidente, eventos sobre a família real, visitas a lugares com património, noticiário sociopolítico; no caso vertente da Brasil-Portugal havia o foco de procurar sensibilizar os leitores de ambos os países não só para os laços irmãos como mostrar, dito em linguagem de hoje, as potencialidades da cooperação, despertando os interessados também para as possibilidades de investimento.

Ora neste número de novembro de 1905, temos um desassombrado artigo sobre a Guiné, encavalitado com outro da autoria do escritor Zófimo Consiglieri Pedroso, que foi Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, vai explanar sobre a guerra russo-japonesa que debilitou profundamente o regime czarista.

Indo ao que interessa, vejamos o que um autor anónimo, porventura correspondente da revista, veio dizer sobre o estado da Guiné:
“A enorme região da Guiné, tão descurada e quase desconhecida, é uma inesgotável mina de tesouros que ninguém pensou nunca em explorar, levando para ali capitais e elementos do trabalho. A nossa tradicional indolência e o receio do risco em matéria de empresas, tem deixado no abandono aqueles riquíssimos territórios em que há séculos dominamos dormindo. Todos os países coloniais tendem a desenvolver as suas possessões, e os que não as têm vão fixar-se nas alheia, explorando-as comercialmente e estabelecendo carreiras de navegação para os seus produtos que assim valorizam. Nós cruzamos os braços e assistimos impassíveis a essa invasão que pouco a pouco vai sugando o que poderia enriquecer-nos. É o que sucede na Guiné, em que a parte continental e a parte do arquipélago se medem por muitos milhares de quilómetros quadrados.

Hoje pode dizer-se que a Guiné é apenas uma grande feitoria comercial de alemães e de franceses que se limitam a importar mercadorias para a permuta sempre vantajosa com os produtos indígenas, numa luta contante de interesses e de competência. O negócio com os naturais no país está quase exclusivamente nas mãos desses concorrentes que auferem lucros fabulosos em prejuízo dos poucos portugueses que ali moirejam.

Nos séculos XVII e XVIII, Geba, Cacheu, Farim e Buba tiveram grande importância como depósitos de escravos, mas caíram em decadência, e estão reduzidos a pequenos povoados sem vida. Atualmente os verdadeiros centros comerciais são Bolama e Bissau. Na Guiné há comércio apenas, e esse acanhado, sempre o mesmo, sempre assente na troca de produtos e na exploração do trabalho do indígena.

Em agricultura não se pensa. A orientação sobre os modernos processos de plantação é nula. No entanto, os terrenos são feracíssimos, o clima e a humidade dos plainos os mais adaptados para todas as culturas intertropicais, e alguns dos seus portos naturais são amplas enseadas onde poderiam fundear navios das maiores lotações, a sua verdadeira riqueza seria a agricultura, que se mantém rudimentar. Começam a surgir tendências para um impulso agrícola. Mas não bastam esses movimentos isolados. Torna-se necessário que os governos coadjuvem essas iniciativas e que os capitais portugueses afluam corajosamente e concorram para o engrandecimento daquela província, hoje encravada em território francês. Poucos anos de cultura bastariam para se transformar a Guiné que, pela sua situação especial, pela sua flora, pelos seus jazigos mineiros, tem direito a sair da miséria em que se acha, e a deixar de ser, como é, um pedinte morrendo de fome sobre montanhas de ouro (…) A Guiné não tem défice. Vive com os recursos dos direitos aduaneiros e o imposto de palhota. Contém uma grande variedade de raças, sendo as menos atrasadas as dos Fulas e Mandingas, gente belicosa, mas submissa ao Governo e com ótimos marinheiros. Os Papéis, ainda asselvajados, são belos carregadores e os mais aproveitáveis para os trabalhos de campo.”


As gravuras que hoje publicamos foram-nos enviadas pelo nosso correspondente na Guiné e referem-se à viagem que o Governador, Senhor Carlos Pessanha fez há pouco tempo no interior, pelo rio Geba, e onde se reuniram 22 régulos com as suas comitivas compostas de Fulas e Mandingas, formando um grande exército de 20 mil homens a cavalo e a pé, e todos armados de espingardas e de espadas, estas fabricadas por eles próprios. Inesperadamente o texto muda para a guerra russo-japonesa, Zófimo Consiglieri Pedroso tinha a seu cargo a secção de política internacional, ela aparece dentro deste artigo da Guiné Portuguesa, todo o artigo que ele publica sobre o conflito russo-japonês está enxameado de fotografias da referida visita do governador Carlos Pessanha. Para que conste.


Fotografia do novo governador da Guiné (fevereiro de 1905 a agosto de 1906), publicada na Revista Brasil-Portugal, na sua edição de 16 de agosto de 1905
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Nota do editor

Último post da série de 12 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)