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domingo, 10 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28007: Humor de caserna (265): Quando, em 1991, o António Graça de Abreu meteu uma "cunha" ao imortal poeta chinês do séc. VIII, Li Bai, para que fosse desbloqueado, na nossa Secretaria de Estado da Cultura, o "patacão" do Prémio de Tradução que ele ganhara e que só receberia ano e meio depois (eram 500 contos, c. 6 mil euros a preços de hoje, o que dava para os dois beberem uns copos valentes)


Ilustração: representação clássica de Li Bai, poeta chinês do século VIII.


Capa do livro: "Poemas de Li Bai: tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, 2ª ed. Macau: Instituto Cultural de Macau, 1996, 328 pp.  (1º ed., 1990).

Fotos (e legendas) : © António Graça de Abreu (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso amigo e camarada António Graça de Abreu (n. Porto, 1947),  é licenciado em Filologia Germânica e Mestre em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Esteve na Guiné, como alferes miliciano, pertenceu ao CAOP 1 (Teixeira Pinto/Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74). Integra a nossa Tabanca Grande desde 2007, tendo cerca de 390 referências no nosso blogue.

Entre 1977 e 1983 viveu e trabalhou na China, em Pequim e Xangai, tendo sido professor de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Pequim e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.

Tem diversos livros publicados na área da sinologia, da poesia e dos estudos luso-chineses, além da crónica de viagens (é um compulsivo viajante). 

Tem traduzido para português os grandes poetas clássicos chineses, a começar por Li Bai, Han Shan, Su Dongpo, Bai Juyim,  Wang Wei, Du Fu,  e outros.

Professor do ensino secundário, leccionou Sinologia na Universidade Nova de Lisboa e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e, mais recentemente, na Universidade de Aveiro. É casado com uma médica chinesa de Xangai. O casal, que tem dois filhos, vive no concelho de  Cascais.

Publicou há dias um texto que merece honras de figurar na nossa série Humor de Caserna, mesmo que não se refira diretamente à tropa e à guerra.

De facto, ele é um homem de muitos talentos. Em 1991 ganhou um prémio de tradução de 500 mil escudos (equivalente a preços de hoje a pouco mais de 6 mil euros). Mas demorou ano e meio a receber o prémio. Daí esta carta, bem humorada, a meter uma "cunha" ao poeta Li Bai (séc. VIII) que ele traduziu. Os portugueses, que também gostam de meter cunhas a Deus através dos santos (e sobretudo das santas), reveem-se neste texto.  E os nossos camaradas ainda mais

É um texto delicioso,  um "mix" elegante de ironia fina, erudição e humor, com uma pitada de sarcasmo pela nossa proverbial e secular burocracia. 

É um exemplo magnífico de como o humor pode ser usado para criticar, sem azedume, sem amargura, os passos de lesma com que às vezes achamos que o país marcha.  

Fica bem no espírito e  na letra da série "Humor de Caserna". O tom é leve, mas inteligente, e a referência à vida militar (ainda que indireta) está lá, no nosso espírito de resiliência e desdém pelas teias burocráticas, sejam civis ou castrenses.

De resto, a narrativa é envolvente: a  estrutura da carta é cativante,  começando com uma descrição poética do paraíso de Li Bai, passando depois  pela frustração terrena do prémio anunciado mas não pago, e finalizando com um convite a uma viagem etílica por Portugal em com ou sem a "massa" do prémio... 

O prémio acabou por ser pago, tarde e a mais horas, em outubro de 1992, só não sabendo nós como e onde  é que o patacão foi gasto... e se o Li Bai acabou por aceitar vir cá baixo beber uns valentes copos com o António.


2. Facebook > António Graça de Abreu > Quinbta feira, 7 de maio de 2026, 19:56 > A propósito de um Grande Prémio de Tradução

Estes Poemas de Li Bai obtiveram o Grande Prémio de Tradução 1990, da Associação Portuguesa de Tradutores e do Pen Club, tendo o júri sido constituído por Yvette Centeno, Pedro Tamen e Casimiro de Brito.

O prémio, no valor de quinhentos mil escudos — e não mil contos, como inicialmente eu imaginara — foi-me entregue pelo poeta Pedro Támen, em outubro de 1992, em cerimónia na Livraria Buchholz, em Lisboa. 

O atraso na sua entrega deveu-se a dificuldades na obtenção da verba referente ao prémio, resultantes da reestruturação entretanto levada a cabo por Pedro Santana Lopes, então Secretário de Estado da Cultura.

Longe de todos estes problemas, em dezembro de 1991 escrevi uma carta ao poeta Li Bai, que foi publicada no jornal Comércio de Macau em fevereiro de 1992 e no Jornal de Letras em abril do mesmo ano. É essa carta que agora recupero e transcrevo:

Carta aberta ao poeta Li Bai (*)

Meu caríssimo Amigo

Escrevo-te para o Céu, onde vives há muitos milhares de anos. Um grou imaculado levar-te-á a minha carta.

Desculpa incomodar-te com míseras coisas terrenas. Sei que continuas a brincar em mares de névoa púrpura, a subir às nuvens, a humedecer o teu corpo com vapores rosa, a levantar a mão e a tocar a Lua, a passear entre os pontos cardeis, a beber vinho mágico em taças de jade, a voar com o vento e a rodopiar à vontade na imensão do céu. Gostava muito de te poder fazer companhia, mas quem sou eu para merecer tal benção dos deuses?

Foi célere a tua passagem pelo mundo dos homens. Por comportamento menos atilado entre as divindades celestiais, foste condenado a um duro degredo na Terra, entre os anos de 701 e 762. Imortal no exílio, inundaste então a China com a tua grande poesia. Depois, quase todos os homens te consideraram o maior de todos os poetas chineses. No país que habitaste, os meninos de escola — há muitas, muitas gerações —, conhecem bem o teu nome e sabem sempre de cor dois ou três poemas teus.

Eu conheci-te em Pequim e durante oito agitados anos, por Xangai, por Macau, por Lisboa, outra vez por Pequim, fui traduzindo para língua portuguesa alguma da tua poesia. Foi um alvoroço, uma longa aprendizagem, um prazer transmutar, recriar, reinventar os teus gufeng, lushi e jueju em versos na língua de poetas como Camões e Pessoa. Creio que sabes quem são. Talvez já os tenhas encontrado aí pelo Céu, o Camões finalmente feliz, trepando às árvores e amando docemente a sua Dinamene chinesa (?), o Pessoa, sereno e solitário, agora à vontade para ir “buscar ao ópio que consola, um Oriente ao oriente do Oriente.”

Em 1990, o Instituto Cultural de Macau editou os teus (meus) Poemas de Li Bai. A 7 de junho de 1991, recebi um simpático telegrama assinado pela Yvette Centeno, professora, escritora e literata. Um júri, representando a Associação Portuguesa de Tradutores e o Pen Club, havia acabado de decidir, por unanimidade, conceder-me o Grande Prémio de Tradução 1990 pelos teus (meus) Poemas de Li Bai.

Podes imaginar, fiquei naturalmente satisfeito. A tua grande poesia obtinha reconhecimento em Portugal, o meu trabalho merecera uma recompensa. Depois, importante, o prémio era de quinhentos contos, uns largos milhões de sapecas para gastar com a minha mulher chinesa, os meus filhos, livros, vinho e pequenos prazeres.

Há doze séculos, quando da tua passagem por este mundo, não existiam estes prémios literários. Quando muito, o imperador honrava os mais subservientes e medíocres letrados com um lugar na Academia Hanlin, por onde tu também passaste, com a velocidade de uma estrela cadente. Estamos agora no fim do século XX, em Portugal, um pequeno país da Europa, quase há quinhentos anos ligado à China através de Macau.

Apesar de Macau e do Grande Prémio de Tradução, pouca gente conhece o velho poeta Li Bai, beberrão e sábio, há tantos séculos inebriando-se de sol e de luar. No entanto, lá do outro lado do mundo, nas Nascentes Amarelas, o lugar habitado pelos mortais imortais, tu, de vez em quando, repetes com o teu amigo Han Yu (768-824), a ouvidos desatentos e desinteressados, que “o mais perfeito dos sons é a palavra e a poesia é a forma mais perfeita da palavra”.

Escrevo-te esta carta para te pedir um favor: depois de haver sido informado, em junho passado, que os teus (meus) Poemas de Li Bai haviam ganho o Grande Prémio de Tradução, não mais fui contactado por quem quer que seja. O Prémio caiu no absoluto silêncio e esquecimento, e nunca me foi entregue. Creio que o vou receber, algum dia.

Na tua estada neste mundo, nunca tiveste jeito para lidar com os poderosos, mas tenho a certeza de que aí no Céu vivem pessoas influentes, hábeis no trato, no relacionamento com o mundo dos homens, cá em baixo. Essa gente, hoje, respeita-te.

Peço-te, caríssimo Li Bai, que fales com alguém poderoso aí no Céu, sugerindo-lhe que interceda junto de alguém poderoso aqui na terra portuguesa, compondo as coisas de modo a que o Grande Prémio de Tradução me seja entregue.

Eu não estou zangado com ninguém. Conheço o meu país, sei como em Portugal — na tua China também —, decidir, resolver demoram sempre algum tempo. Mas caríssimo Li Bai, este prémio são quinhentos contos, dinheiro suficiente para uma festa de arromba.

Conheço também o teu gosto pelo vinho, pelos prazeres da vida e, mesmo sem prémio, queria-te convidar a descer, pelo alto das montanhas, até à minha aldeia. 

Portugal é bonito, as pessoas são afáveis e o vinho é óptimo. Eu vou-te buscar e viajaremos pela terra fora, pelo Douro, pelo Alentejo, de taberna em taberna, de adega em adega, saboreando, encharcando-nos em preciosos néctares. Lucidamente bêbados, afogaremos em bom vinho as tristezas da existência.

Depois, diante do mar, com o azul a passear nos olhos, iremos buscar uma nuvem branca, aconchegá-la-emos no coração e deslizaremos no espaço.

Saúda-te, com muito respeito e amizade, o
António Graça de Abreu

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, notas, título: LG) (**)
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Notas do editor LG:

(*) Observações:
  • Li Bai (701–762): poeta chinês da dinastia Tang, conhecido como o "Poeta Imortal"; escreveu sobre vinho, lua, montanhas e a efemeridade da vida; o  António traduziu a sua obra para português.
  • Gufeng, lushi e jueju: formas poéticas chinesas que Li Bai dominava.
  • Academia Hanlin: Instituição imperial chinesa onde Li Bai serviu brevemente.
  • 500 mil escudos (e náo mil contos, como pensava inicialmente o premiado): equivalente a cerca de 6 mil euros hoje; o prémio foi entregue apenas em outubro de 1992, um ano e tal depois da decisão do júri.
  • O Grande Prémio Internacional de Tradução Literária é um prémio literário instituído pela Associação Portuguesa de Tradutores. Inicialmente foi organizado em associação com o PEN Clube Português e o patrocínio da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, atualmente realiza-se com o patrocínio da Sociedade Portuguesa de Autores; o prémio é atribuído a traduções publicadas no ano anterior. O valor pecuniário atual é de 3 mil euros.
  • Dois membros do Prémio de 1991 já morreram, Pedro Tamen e Casimiro Brito.

(**) Último poste da série > 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27996: Humor de caserna (264): o 1º cabo corneteiro António Torres (1949-2023), CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852 (Buba, 1971/73), no HM 241, sujeito a uma delicada e embaraçosa operação cirúrgica a um varicocelo (Joaquim Pinto de Carvalho)

Guiné 61/74 - P28006: Parabéns a você (2484): Henrique Matos, ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Enxalé, 1966/68)

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Nota do editor

Último post da série de 8 de Maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27998: Parabéns a você (2483): Arsénio Puim, ex-Alferes Grad Capelão da CCS /BCAÇ 2917 (Bambadinca, 1970/71)

sábado, 9 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28005: Blogpoesia (812): "A Mulher Grande lá do Canchungo", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (2)

1. Mensagem do nosso camarada Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845, Teixeira Pinto, 1968/70, com data de 5 de Maio de 2026:

Boa noite Carlos Vinhal
Como gosto destas coisas, aqui envio para a Tabanca Grande este elogio às mulheres grandes lá do Canchungo.
São verdades estas que escrevo, e como continuo a pensar que ainda ando pela Guiné, não esqueço nem um pouquinho daquilo que por lá vivi. Hoje é pela segunda vez que escrevo sobre a Mulher Grande, referindo-me às Balantas do Canchungo.

Vai um Abraço para toda a Tabanca em Especial para os Régulos
Albino Silva


16

Nas Tabancas por onde andei
fazia meu trabalho bem feito
e fosse Mulher Grande ou Bajuda
as tratava com respeito.

17

A todas eu bem tratava
com respeito e com carinho
e sempre com pena delas
eu lhes dava bom mésinho.

18

Mulher Grande do Canchungo
por tão bem eu as tratar
quantas e quantas vezes
até frangos me vinham dar.

19

Aos domingos quase sempre
Ia à Tabanca sim senhor
e então eu para elas
até já era o doutor.

20

Mulher Grande do Canchungo
Casada, solteira ou mãe
Lavadeiras de nossas fardas
que as lavavam muito bem.

21

Tantas vezes na Enfermaria
da comida que sobrava
eu nunca a deitava fora
e à Mulher Grande eu dava.

22

Até mesmo as crianças
com uma latinha na mão
quantas e quantas vezes
eu lhes dava do meu pão.

23

Ficava junto ao arame farpado
aquela nossa Enfermaria
e se eu fosse à janela
as águas da bolanha eu via.

24

Era o ponto de passagem
para quem fosse pescar
e daquilo que apanhavam
muitas me iam levar.

25

Algumas com os pés cortados
por na bolanha trabalhar
passavam na Enfermaria
para assim eu as curar.

26

Era tudo gente boa
e da pesca que faziam
ao passar na Enfermaria
elas connosco repartiam.

27

Era a Mulher do Canchungo
e só delas falo bem
e como eu er a amigo
elas eram amigas também.

28

A vós Mulheres do Canchungo
De vós eu só digo verdades
Vim embora e hoje digo
Que de vós tenho Saudades.

FIM

Por Bino Silva
011004/67

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Nota do editor

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28002: Blogpoesia (811): "A Mulher Grande lá do Canchungo", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (1)

Guiné 61/74 - P28004: Os nossos seres, saberes e lazeres (734): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (255): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Quero lembrar os meus confrades que pelo menos aos domingos a visita é gratuita para todos e em todos os casos para os ex-combatentes, Palácio e Jardins. Procurei passar em revista os espaços essenciais merecedores de visita, numa amplitude onde procurei inserir o valor arquitetónico, escultórico, as belas artes, não escapando a valiosíssima coleção de cerâmica e porcelana, pondo ênfase nas obras de conservação e restauro da capela real; os jardins, em toda a sua escala, bem como as estufas reais, têm sido primorosamente alvo de conservação e restauro, é evidente que se irá gastar uma fortuna para melhorar a conservação do canal de azulejos, também ele objeto de extremos cuidados, mas o tempo foi inclemente. Dá gosto encontrar tão grande harmonia entre o Palácio Real e os formosos jardins.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254):
No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2


Mário Beja Santos

Continuamos a visita a este Palácio que não pode deixar de nos fascinar pelo que tem de imponência e exuberância nos seus detalhes arquitetónicos – muita majestade para suas majestades. Recordo que o Infante D. Pedro, senhor da Casa do Infantado, futuro Rei D. Pedro III (por casamento com D. Maria I) encarregou o arquiteto Mateus de Vicente de Oliveira de ampliar o que se chamava “Paço Velho”, tudo começara com a Casa de Campo de Queluz, as obras encomendadas por este Infante D. Pedro datam de 1747. Em 1760, com o anúncio do casamento de D. Pedro com a princesa D. Maria com o irmão do rei D. José, iniciam-se obras para transformar este local num espaço de lazer e entretenimento, foi assim que se rechearam sala de aparato como a Sala do Trono ou a Sala dos Embaixadores.

Incendiada a Real Barraca da Ajuda em 1794, o Palácio de Queluz tornou-se residência oficial da rainha D. Maria I, aqui vão também viver os príncipes regentes, D. João (futuro D. João VI) e D. Carlota Joaquina. O Palácio foi habitado em permanência até à partida da Família Real para o Brasil. No seu regresso, a habitação real é intermitente, D. Carlota Joaquina viverá aqui em regime de semiexílio (era declaradamente antiliberal) aqui morrerá D. Pedro IV, no quarto chamado D. Quixote, onde nascera. Recordo igualmente que este Palácio foi classificado Monumento Nacional em 1910 e que a partir de 1957 o pavilhão D. Maria I, ala nascente deste Palácio, passou a ter funções de residência dos Chefes de Estado estrangeiros em visita oficial a Portugal.

A gestão deste monumento pela Parques de Sintra tem sido muito bem sucedida em todos os seus projetos de conservação e restauro, nomeadamente pondo os jardins históricos numa ligação harmoniosa entre a paisagem e a arquitetura palaciana, sente-se perfeitamente essa harmonia passando dos jardins junto dos canais por onde passa a Ribeira do Jamor para o patamar superior, que prima por belos lagos e esculturas.

O Corredor dos Azulejos é também chamado Corredor das Mangas, numa alusão às mangas de vidro que protegiam as velas que se presume terem sido aqui guardadas.
Trata-se de uma sala revestida a azulejos, representando as estações do ano, os continentes, cenas da mitologia clássica, singeries (representações de cenas com macacos), chinoiseries e cenas de caça.

Pormenor da bela Sala dos Embaixadores
Cómoda-papeleira com alçado, Itália, Piemonte, cerca de 1740
Retrato do rei D. Pedro IV representado com o uniforme de Coronel do Batalhão de Caçadores n.º 5, que comandou durante a Guerra Civil Portuguesa.
O Canal de Azulejos, por onde passa a Ribeira do Jamor, tem uma extensão de 115 metros e atravessa os jardins de Queluz, de norte para sul.
Aqui erguia-se outrora a Casa do Lago, também chamada Casa Chinesa ou Casa da Música. Neste pequeno pavilhão tocavam, nas tardes de Verão, os músicos de câmara da Rainha, enquanto a Família Real e a corte se passeavam de barco sobre as águas tranquilas (represadas por um sistema de comportas), apreciando as paisagens fantasiosas dos grandes painéis de azulejos, concebidas a partir de gravuras, representando portos de mar e paisagens variadas.
À noite, ao longo do canal, acendiam-se archotes em forma de cornucópias de talha dourada.

Pormenor do Jardim da Barraca Rica. Esta barraca ficou concluída em 1757, hoje desaparecida, era o elemento central deste jardim, outrora prefusamente decorada com estatuária em chumbo. Construída em madeira, a Barraca Rica compunha-se de sete pequenas divisões revestidas de damasco, com espelhos, tremós e talha dourada. Nesta zona localizam-se hoje três dos mais notáveis grupos escultóricos em chumbo da oficina londrina John Cheere: Caim e Abel, Eneias e Anquises e o Rapto de Perséfone.
Caim e Abel
Esplendor da arquitetura e da escultura, jardinagem formosa, o topo da harmonia
Duas obras-primas do jardim do patamar superior, as esculturas de chumbo de John Cheere foram muito bem restauradas
O Jardim Botânico do Palácio Nacional de Queluz foi construído entre 1769 e 1780, sendo contemporâneo das grandes realizações setecentistas do período barroco-rococó nos Jardins de Queluz. De pequena escala, quando comparado com outros jardins botânicos desta época, Queluz assume uma natureza de entretenimento e recreio. Também designado Jardim das Estufas, este era o espaço onde no reinado de D. Pedro III se plantavam ananases, um dos frutos mais apreciados pela família real. Esta zona estava ornamentada com lagos, bustos e estatuária.
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Nota do editor

Último post da série de 2 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27981: Os nossos seres, saberes e lazeres (733): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28003: Manuscrito(s) (Luís Graça) (288): Horóscopo poético de Arsénio Puim, nascido na ilha de Santa Maria, às 23h00 do dia 8 de maio de 1936, sob o signo Touro


Arsénio Puim (n. 8 de maio de 1936):  ilhéu, açoriano, mariense, ex-sacerdote católico (de 1960 a 1976), ex-capelão militar (1969/71): foi autarca, professor, enfermeiro; é jornalista, escritor,  cidadão do mundo, pai, avô, amigo... Natural de Santa Maria, vive hoje em São Miguel, em Vila Franca do Campo, desde 1982: "nunca pensei chegar aos 90 anos".

Foto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O nosso amigo e camarada Arsénio Chaves Puim nasceu às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, na Calheta, freguesia de Santo Espírito (ilha de Santa Maria, Açores), terra de baleeiros. Teve irmãos ligados à baleação. Ele próprio era um apaixonado pela pesca da baleia. A mãe nunca o deixou ir, não fosse perdê-lo. Seguiu outro rumo: entrou para o seminário e foi ordenado padre (em 1960).

Mais tarde seria mobilizado para a guerra colonial como capelão militar. Integrou o Batalhão de Artilharia 2917, colocado em Bambadinca entre meados de 1970 e meados de 1972. Zona leste, sector L1.

Nunca usou arma, nem temeu minas mem armadilhas, nem emboscadas ou ataques dos "turras", e nomeadamene quando se deslocava em colunas, ou ficava uns dias nos quartéis e destacamentos do BART 2917 (Xime, Missirá, Mansambo, Xitole...). 

Tinha dificuldade em estar inteiramente bem com Deus e com César. Quando recusou a G3, distribuída em Bissau, após o desembarque do BART 2917, o 2º comandante perguntou-lhe cínica ou provocatoriamente se ele era "testemunha de Jeová" (=objetor de consciência), a ele, que era o capelão (católico) do batalhão!

Na igreja, em Bambadinca, pregava a paz em tempo de guerra. E lembrava aos militares de Bambadinca que o lema do seu batalhão era: "Pelas Gentes da Guiné".

Já em outubro de 1970, seis meses depois de chegar, protestara veementemente contra a exibição pública da cabeça de um “inimigo”, cortada por um furriel felupe dos Comandos Africanos, episódio ocorrido poucas semanas antes da Operação Mar Verde, a invasão de Conacri em 22 de novembro de 1970, uma das ações militares mais controversas da guerra na Guiné.

As suas "homilias da paz" eram vigiadas pela PIDE (que tinha informadores em Bambadinca, e agentes em Bafata). Mas ele nunca será preso ou interrogado pela polícia política, em Bambadinca, em Bissau, em Lisboa ou nos Açores, onde retoma o seu modesto lugar de pároco, depois de ter sido expulso da Guiné.

Mas o que verdadeiramente precipitou a sua queda em desgraça foi a denúncia pública, feita na igreja de Bambadinca, da forma como estavam a ser tratados, os prisioneiros provenientes do “mato”, isto é, das zonas controladas pelo PAIGC.

Foi por volta de abril de 1971. Tratava-se sobretudo de mulheres, crianças e velhos, mantidos em condições miseráveis, praticamente “num galinheiro”, sem alimentação condigna.

Veio então ordem de Bissau, do Quartel-General/Comando Territorial Independente da Guiné (QG/CTIG), possivelmente na sequência de informações da PIDE/DGS, para a sua expulsão do Exército e da Província..

O 2.º comandante do batalhão, major de artilharia Anjos de Carvalho, juntamente com o major de operações e informações Barros Basto, vasculharam-lhe o quarto, devassaram-lhe a o seu bloco de notas e confiscaram-na. Rasgaram-lhe, inclusive, uma folha, "comprometedora". Devolvem-lhe, mais tarde, no pós.25 de Abril,  o bloco de notas, mas não a "prova do crime".

Segue para Bissau. Numa DO-27, só com o piloto, sem escolta, sem despedidas, sem testemunhas, sem amigos, sem camaradas, sem lágrimas. Oito dias depois embarca para Lisboa e volta a ser " o pastor do seu humilde rebanho", na sua ilha...

Foi o segundo capelão militar a ser expulso do CTIG, em maio de 1917, depois do padre Mário de Oliveira (ou Mário da Lixa), em março de 1969...

Ironicamente, muitas das denúncias de Arsénio Puim coincidiam com os princípios oficialmente proclamados por António de Spínola em “Por Uma Guiné Melhor”: a preocupação com o tratamento humano das populações civis e dos prisioneiros.

Acrescente-se mais este pormenor biográfico, que também marca a diferença em relação a outros capelães da guerra colonial: ainda foi padre durante vários anos. Ao todo 16.

Quis fazer uam experiência de padre operário. Durante dois anos, em Ponta Delgada, tirou o curso de enfermagem, queria ter uma experiência holística do cuidar, como padre e como enfermeiro. Mas estes dois papéis tornaram-se humanamente incompatíveis, pro serem demasiado absorventes.

Pediu então a saída da sua condição sacerdotal. Fez carreira como enfermeiro em Vila Franca do Campo, no Serviço Regional de Saúde dos Açores, casou, em 1979, com uma jovem enfermeira, a Leonor (Maria Leonor Bicudo).  Tem 2 filhos, rapazes,  3 netos (2 meninas),  uma meia dúzia de livros, tem o seu quintal, é jornalista e escritor. É a memória viva da sua ilha, Santa Maria. E hoje, dia 9, celebra á fe quem mesa os seus 90 anos, com a Leonor, o Pedro, o Miguel, os netos, os amigos.


2. Falei ontem, uma hora, com o nosso aniversariante. Está ótimo. De voz e ouvido. E não se queixa da saúde. Estava feliz: "Nunca pensei chegar aos 90 anos".

Feliz e e com uma notável memória. Relembrámos factos, lugares, datas, gentes... Quem ainda está vivo, quem já morreu, do tempo de Bambadinca...Falámos do Benjamim Durães (de quem não tenho notícias há muito), do cap Gualberto Magno Santos Marques (cmdt da CCS, agora coronel, a viver no Algarve), do Abílio Machado (o "Machadinho"), do "mirandês" Abel Rodrigues (CCAÇ 12), da Helena e do Carlão, também da CCAÇ 12 (já falecido), do Gonçalves, da CCS/BART 2917 (que "andou no seminário")...Bem como do pobre do Victor Marques, cmdt do Xime, da CCAÇ 2715  (já falecido), do David Guimarães, da CCAÇ 2716  ("que cantava o fado e tocava viola", no Xitole), do saudoso "alfero Cabral"  (já falecido)... e de outros camaradas, cujos nomes vieram à baila. Sem esquecer o primeiro Brito, do major Anjos de Carvalho, do major Barros Basto, do ten-cor Polidoro Monteiro (todos do BART 2917), do capitão Brito, da CCAÇ 12 ...(já todos falecidos, se não erro).

Inevitavelmente falámos do triste episódio da sua expulsão, em maio de 1971. Aproveitei para clarificar um ou outro facto, ainda para esclarecer, confirmar e corrigir.

Já tinha recebido e folheado o livro, com a dedicatória, que lhe mandámos (o autor, Padre Bártolo Paiva Pereira, o Virgílio Teixeira e eu). Ficou sensibilizado e vai agradecer. 

Falei-lhe do padre Bártolo, que foi capelão-chefe, no QG/CTIG, de 1965/67, tendo-lhe sucedido, no cargo, o padre Manuel Joaquim da Silva Capitão (1968/7'0) e depois o padre Gamboa (fev 1970/ mar 1972).

Este é que foi o chefe do Puim, que de resto só vai estar no CTIG, um ano (mai 70/mai71).

É no tempo do capelão-chefe Gamboa, major graduado, em meados de 1970, que se realiza em Bissau (com 2 dias em Bolama) um encontro de capelães, onde houve alguma discussão acesa sobre o papel dos capelães naquela guerra. Os capelães foram recebidos pelo gen Spínola que aproveitou para mostrar o seu descontentamento em relação a alguns capelães que "não estavam a cumprir o seu dever" (devia querer fazer referância ao caso, ainda recente e inédito, do Padre Mário de Oliveira, que apenas esteve 4 meses, em Mansoa, até ser expulso do CTIG, em março de 1969, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz). 

O Puim estava longe de imaginar que, dali a meses, em maio de 1971, seria a sua vez de ser expulso do CTIG, desta vez por Spínola, e  regressar a casa, ou seja, à sua paróquia...

Mais uma vez obtive a confirmação do Puim em relação ao que se passou na "homilia da paz", de 1/1/1971: nunca foi preso ou interrogado pela PIDE/DGS, nem no início do ano de 71, nem em maio, em Bambadinca, nem em Bissau, enquanto aguardou embarque, nem em Lisboa, nem nos Açores.

Naturalmente, já tinha ficha na polícia política. (A PIDE/DGS em 25 de Abril de 1974  tinha um arquivo de 5 milhões de fichas, o que diz muito da eficiência do seu trabalho, em Portugal de aquém e de além-mar).
 
Apesar de tudo, e como bom cristão que continua a ser, há muito que o Puim perdou a quem lhe fez mal. Mas não esquece. 

3. Ontem mandeu-lhe os parabéns: 

"Puim, ao km 90 da picada da  vida...Parabéns, parabéns, parabéns, como se diz na tua terra!...E boa continuação da jornada!...

Ainda imaginei há um ano atrás poder estar aí hoje contigo e com os que te amam, na tua casa em Vila Franca do Campo, mas calculei mal as distâncias. Ainda são 1500 km no 'drone da amizade'...,  se quiser ir mais confortável com o meu esqueleto no avião da TAP,  ainda são quase 3 horas de viagem. De forma que utilizo este meio, mais maneirinho (e que sempre é mais rápido que o 'bate-estradas' do nosso tempo), para te desejar um bom dia, um grande dia... Que Deus e os nossos bons irãs te protejam a ti, aos teus (a tua Leonor,o teu Pedro, o teu Miguel, os teus netos, e demais família). E a todos nós. Luís (e Alice)".

O  Arsénio Chaves Puim nasceu sob o signo de Touro, às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, sexta feira,  numa ilha baleeira perdida no Atlântico, Santa Maria, Açores. Mas o seu verdadeiro signo talvez nunca tenha sido o do zodíaco: foi o da inquietação moral e do testemunho cristã.

A título de apreço e homenagem, aqui vai um pequeno ensaio de  horóscopo poético,  dedicado a ele que podia ser o Santo Arsénio, mas não, não é santo de altar, apenas um homem, de corpo inteiro, um bom amigo e camarada da Guiné. A ele que não desertou, foi apenas expulso da tropa. 

Admiro-o porque é um  daqueles raros seres que nunca aceitaram viver pela metade: quis conhecer a dor e o  sofrimento dos outros não apenas pelo exercício do múnus espiritual, mas também pelas mãos, pelo corpo, pela doença, pela dor, pelo quotidiano dos outros.

 Horóscopo poético:  Ao Arsénio Puim, que nunca quis ser santo, mas apenas homem, um bom cristão, e um melhor amigo e camarada


Nasceu numa ilha pequena
onde os homens aprendiam cedo
que o mar tanto dá como leva,
e que a vida tanto põe como tira.

Entre o mar dos Açores e o rio Geba, na Guiné,
nasceria um homem de passo manso
e consciência difícil.

Touro de maio,
feito da matéria antiga das ilhas atlânticas:
basalto, vento, sal, silêncio e... teimosia.

Os astros deram-lhe voz (frágil) de padre,
mas coração (forte) de insubmisso.
Nunca aprendeu a ajoelhar-se diante da força,
mesmo quando, por imposição do bispo,
fora obrigado a vestir a farda camuflada verde-rubra.

Havia nele qualquer coisa de ave marinha insular:
voava baixo sobre o sofrimento dos homens
e reconhecia de longe o cheiro da injustiça.

Recusou a G3,
não por ser "testemunha de Jeová",
mas padre, católico, capelão, 
médico de almas e corpos.
Recusou a G3 
como quem recusa um segundo pecado original.
Pregou a paz
em terra onde a paz ainda era heresia.

Os planetas dizem
que os homens nascidos naquela hora tardia,
a sempre temível, para as parturientes, 23ª hora,
trazem dentro de si uma luta interminável
entre a obediência e a verdade,
entre o pânico e a teimosia,
entre o medo e a coragem.

Por isso o expulsaram.
Porque certos homens perturbam mais pelo exemplo
do que pela rebeldia.

Foi padre durante dezasseis anos.
Disseram-lhe que bastava salvar almas.
Ele desconfiou da missão, que se ficava pela metade.
Quis aprender também
a tratar feridas, febres, fezes, 
pus, vómitos, sangue, 
doença, solidão, loucura.
Fez-se enfermeiro
como quem prolonga o Evangelho 
pelas mãos e a arte de cuidar, que é mais do que curar.

Durante algum tempo
tentou juntar os dois mundos:
o altar e a enfermaria,
a oração e o termómetro,
a absolvição e a mezinha.

Mas os papéis começaram a rasgar-se por dentro.
Havia demasiada vida concreta, telúrica,
para caber apenas na batina de padre 
 (ou na pena de jornalista).

Então desceu à terra comum dos homens.
Casou.
Teve filhos.
Vieram netos, livros, árvores de fruto,
jornalismo, memórias,
a brisa do quintal ao fim da tarde, 
ao pôr do sol sobre o mar de Vila Franca do Campo.

E contudo,
mesmo sem batina,
continuou a ser padre à sua maneira:
escutando, cuidando,
amparando fragilidades,
resgatando memórias,
investigando, escrevendo.
E essa é também uma forma de coragem
para quem não desiste da vida 
(e, para muitos, do seu absurdo).

Hoje, aos 90 anos,
o nosso ex-"padre capilom",
como diziam com graça e ternura 
as gentis lavadeiras de Bambadinca,
continua de sentinela entre Deus e César,
não pertencendo inteiramemte ao céu  ou à terra,
mas ao mundo inteiro.
 
Os astros sorriem-lhe, discretamente:
não prometem nem honra nem glória,
a ele que não glorificou a guerra;
não lhe prometem
nem a tribuna de poder,
nem o nicho de altar,
nem o pedestal de estátua.

Há homens que passam pela vida
como passageiros,
viajando com mais ou menos luxo/lixo.
Outros tornam-se arquivo vivo
de uma terra e de um povo.
O Puim de Santa Maria
é hoje uma dessas raras bibliotecas humanas
que ainda sabem o nome dos ventos, dos moinhos,
das famílias, dos mortos, das almas penadas,
dos topónimos, dos extintos vulcões, 
dos cachalotes que escaparam ao arpão do baleeiro, 
das histórias que não vêm nos livros.

Os astros dizem
que aos noventa anos
um homem começa lentamente
a transformar-se em paisagem fossilizada.

Talvez por isso
a ilha o guarde agora
como se guarda um farol antigo:
com gratidão,
com respeito,
e com medo de um dia o perder.

Alfragide, 8/9 de maio de 2026

O astrólogo-poeta, Luís Graça
(a que se juntam, Arsénio,  os teus/nossos antigos camaradas da Guiné,
mesmo aqueles que nunca mais te viram ou verão,
que ainda te recordam com amizade, saudade, espanto e respeito,
e isso,  aqui e agora, vale mais do que a eternidade).

__________________

Nota do editor LG:

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28002: Blogpoesia (811): "A Mulher Grande lá do Canchungo", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (1)

1. Mensagem do nosso camarada Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845, Teixeira Pinto, 1968/70, com data de 5 de Maio de 2026:

Boa noite Carlos Vinhal
Como gosto destas coisas, aqui envio para a Tabanca Grande este elogio às mulheres grandes lá do Canchungo.
São verdades estas que escrevo, e como continuo a pensar que ainda ando pela Guiné, não esqueço nem um pouquinho daquilo que por lá vivi. Hoje é pela segunda vez que escrevo sobre a Mulher Grande, referindo-me às Balantas do Canchungo.

Vai um Abraço para toda a Tabanca em Especial para os Régulos
Albino Silva



A MULHER GRANDE LÁ DO CANCHUNGO

1

A Mulher Grande do Canchungo
que muito eu admirava
em Tabancas onde passei
Mulher Grande trabalhava.

2

Em sua Tabanca vivia
com filhos para sustentar
e assim aquelas Balantas
andavam sempre a trabalhar.

3

Por entre todas as Tabancas
aquelas onde viviam
limpavam tudo em redor
e todo aquele chão varriam.

4

Mulher Grande do Canchungo
a vianda cultivavam
descalças no meio da lama
o arroz que plantavam.

5

Mulher Grande do Canchungo
pelas matas caminhavam
depois levavam à cabeça
toda a lenha que apanhavam.

6

Como lá havia tropa
elas também procuravam
quem lhes desse suas roupas
que elas tão bem a lavavam.

7

Também tinha lavadeira
que sempre tratei com carinho
todos os meses lhe pagava
e ainda lhe dava mésinho.

8

No Canchungo lá havia
a bolanha com peixe do bom
desde o camarão as ostras
e até mesmo o berbigão.

9

Sempre que havia maré
peixe bom por lá entrava
e então a Mulher Grande
na pesca esse peixe apanhava.

10

Era mesmo na Bolanha
e quando a maré lá dava
Mulher Grande ia ao peixe
e até a bajuda apanhava.

11

Carregavam à cabeça
toda a sua pescaria
e sei lá quantas as vezes
que daquele peixe comia.

12

Admirava aquela gente
Gente humilde sem vaidade
era assim pelas tabancas
sempre longe da cidade.

13

Eu lidei com essa gente
cumpri bem o meu dever
e da Mulher Grande do Canchungo
eu jamais as vou esquecer.

14

Tão simples que elas eram
sem vaidade assim viviam
e quem as tratasse bem
elas tudo nos faziam.

15

Quando eu ia para a Psico
por muitas Tabancas andei
não falo para me gavar
mas muita Mulher curei.

(continua)
_____________

Último post da série de 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27877: Blogpoesia (810): "Dia de enganos", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

I - À guisa de apresentação do ex-combatente

Permitam que me apresente. Toda a minha vida profissional andou à volta do serviço público, nela incluo dois períodos em que tive ligação ao Exército: de abril de 1967 a agosto de 1970, em que me preparei e vivi na então Guiné Portuguesa, comandando tropa africana, caçadores nativos e milícias; no intuito de concluir as minhas habilitações universitárias, fiz um contrato com o Ministério do Exército, voltei a Mafra, à Escola Prática de Infantaria, dei recrutas a soldados cadetes, muitos deles partiram como oficiais para os teatros de operações da Guiné, Angola e Moçambique, colocado em Lisboa, tive condições de fazer o bacharelato e a licenciatura.

A minha vida profissional parecia destinada ao ensino, fui mesmo colocado num liceu para dar História de Arte, acabei no Ministério de Economia e passei quase quatro décadas ligado à política dos consumidores, por essa via fui autor e apresentador de programas televisivos e radiofónicos, tive uma prolongada participação cívica e associativa e pude colaborar na política a favor dos consumidores tanto em Portugal como a nível europeu.


Um acaso, um reencontro com um antigo camarada da Guiné, que tinha criado um blog, hoje sem qualquer dúvida o mais influente blog constituído por antigos combatentes da Guiné (Luís Graça & Camaradas da Guiné) levou-me e ainda em plena vida ativa a começar a escrever sobre a minha experiência, depois a investigar tanto a História da Guiné Portuguesa como a História da Guiné-Bissau. Em 2008, publiquei os dois volumes do meu diário, nunca mais parei, no ano passado publiquei o tomo I de Guiné, Bilhete de Identidade, tudo somado são mais de dez livros, uma imensa vontade de continuar, já tenho projetos de entrar em domínios que carecem ser desbravados, caso do Boletim Oficial da Guiné e começar a inventariar os olhares estrangeiros, sobretudo a partir do último quartel do século XIX até meados do século XX (diga-se em abono da verdade que há já um bom levantamento dos olhares estrangeiros sobre a Guiné nos tempos de luta armada, no que toca à investigação portuguesa continua a faltar um trabalho em profundidade sobre o período da governação do General Arnaldo Schulz (1964-1968). Direi mesmo que continua para mim a ser um mistério a falta de estudos sobre alguns intervenientes da guerra colonial, recordo, a título meramente exemplificativo, que não há nenhuma investigação sobre o relacionamento diplomático entre Portugal e Cuba, nos tempos da guerra colonial, Cuba tinha embaixada em Portugal enquanto dava apoio técnico-militar à Guiné e a Angola; o mesmo poderei dizer da cooperação entre Portugal e Israel, este país foi nosso fornecedor de armas e durante anos foi discreto apoiante da política externa do Estado Novo.

Estando feita a minha apresentação, passo para a guerra que vivi, depois ainda tenho algumas coisas a dizer sobre os meus retornos à Guiné, então já República da Guiné-Bissau, e pretendo dar-vos conta dos trabalhos de investigação e livros publicados aproximadamente há duas décadas.


II - Foi assim que cheguei ao Cuor

Cheguei à Guiné em 29 de julho de 1968, aqui vivi até aos inícios de agosto de 1970, fui colocado no início de agosto de 1968 no regulado do Cuor, no Centro-Leste do território, com responsabilidades em dois destacamentos: Finete, uma povoação com Mandingas e Balantas, vivendo a cerca de 4Km da margem direita do rio Geba, dispondo de uma fértil bolanha e bons terrenos agrícolas, encontrei um aquartelamento com escassa segurança e armamento diminuto, a força militar era o Pelotão de Milícias n.º 102, cerca de 40 homens, predominantemente Fulas e Mandingas; Missirá, a sensivelmente 16Km de Finete, com Mandingas e Fulas, residência do régulo, igualmente um aquartelamento com muitas vulnerabilidades, armamento inapropriado, com um largo histórico de flagelações, emboscadas e minas anticarro, a força militar era o Pelotão de Caçadores Nativos n.º 52, homens que tinham feito a sua instrução em Bolama em 1966, muitos deles provenientes de forças de milícias, e o Pelotão de Milícias n.º 101, a que se juntavam alguns elementos provenientes da Companhia de Comandos e Serviços do Batalhão de Artilharia 1904, em vésperas de partida, virá a ser substituído pelo Batalhão de Caçadores n.º 2852, chegará em setembro desse ano. Tenho que me deter sobre a minha chegada a locais onde viviam misturados militares e civis, rodeados de arame farpado, cultivando à volta a sua sobrevivência.

O embate foi terrível, a adaptação custosa, a iniciação para conhecer a envolvente foi-me facilitada por um furriel experiente, Zacarias Saiegh, que colaborará comigo alguns meses, irá pertencer à 1.ª Companhia de Comandos Africana, que se formou perto do meu território, em Fá. Logo me apercebi que havia obras inevitáveis a implementar, para as quais eu não tinha a mínima preparação, e também me fizeram sentir que faltavam os materiais necessários: rolos de arame farpado, estacas, tesouras corta-arame, isto no tocante à segurança básica da tropa ali instalada e da população civil; os abrigos estavam envelhecidos, o madeirame apodrecido e sem a devida cobertura de cimento; o balneário não possuía os requisitos para uma boa higiene, não havia sanitários, só umas valas para defecar e urinar; a chamada messe era um casinhoto em tijolo com uma simples cobertura de chapa ondulada, uma mesa e uns bancos mal amanhados, tendo ao lado uma cozinha, tudo num completo desconforto; conversando com os meus colaboradores, apurei que a criançada não dispunha de uma escola, ia-se ao médico ou à enfermaria de Bambadinca só em situações de força maior e não havia tradição da visita de médico, Missirá e Finete dispunham de um cabo maqueiro em cada uma das localidades.

Em Bambadinca, na véspera de eu partir para Missirá, portanto em 3 de agosto, o oficial de operações do batalhão deu-me nota dos aspetos primordiais da minha missão: acima de tudo, e com a regularidade necessária, devia montar segurança num local chamado Mato de Cão, a sensivelmente 12,5Km de Missirá, para garantir a navegabilidade no rio Geba, já que tinha deixado de ter uso o itinerário por terra Jugudul – Porto Gole – Enxalé – Cancumba/Missirá – Gambiel – Bafatá (também no norte não havia circulação por terra entre Mansabá e Bafatá); se não fosse mantida a circulação pelo rio Geba toda a região do Leste ficaria gravemente afetada. Eu ainda não tinha conhecimento do planeamento de uma instalação portuária na localidade de Xime, que passou a ser operacional a partir de outubro de 1969, e que veio permitir a todas as unidades de Leste circularem entre Bafatá e Xime em termos de abastecimento de víveres, equipamentos e armamentos, materiais de construção civil, transporte de militares e civis, etc.

Este era o trabalho irrecusável, não obstante eu devia não só patrulhar regularmente todo o território à minha guarda e procurar manter os guerrilheiros em respeito; em nenhuma circunstância me foi sugerido que demarcasse a área ocupada pelo destacamento militar da povoação civil. No entanto, virei a ser bastante criticado pelo então Brigadeiro Spínola que quando visitou Missirá, achou que eu já devia ter iniciado a área do destacamento militar da área civil (fiz orelhas moucas, considerei sempre inaceitável, ainda por cima vivendo com soldados africanos e suas famílias, e com acesso limitadíssimo a materiais de construção, entrar numa operação de demarcação onde não via qualquer tipo de utilidade, sabendo de antemão que não haveria compreensão nem de militares nem de civis, seria sempre entendida como uma operação de discriminação).


Sendo as idas a Mato de Cão o aspeto primordial da minha missão, procurei aperceber-me como viajar sempre a pé e acautelando emboscadas e minas antipessoal. Demorou meses a pôr em prática a seleção de sete itinerários diferentes, numa lógica de corta-mato, o que me compensou não termos tido baixas nem emboscadas, pedi mesmo aos elementos guineenses que divulgassem no mercado de Bambadinca (onde circulavam informadores do PAIGC) que as nossas idas a Mato de Cão tinham itinerários imprevisíveis, quer a partir de Missirá quer a partir de Finete.

Logo no dia seguinte à minha chegada comecei a fazer o reconhecimento do terreno, dois meses depois conhecia o essencial do regulado do Cuor à exceção dos acampamentos do PAIGC sitos em dois pontos no termo no regulado, Madina e Belel, destes dois pontos só lá fui em operações com o reforço de duas companhias, uma vez um desastre completo, outra vez com o resultado da destruição do acampamento de Belel.

Referi acima que houve choque no confronto de um terreno para o qual eu não possuía nenhuma informação, uma boa parte do meu efetivo militar ou só falava crioulo ou um português mascavado, cheguei mesmo a ter necessidade de me socorrer de um intérprete em todas as situações em que era crucial perceber o que pretendia o chefe da tabanca, cabos ou soldados que me vinham fazer pedidos da mais diferente índole, mas acima de tudo adiantamentos da soldada. Conversando com os meus colaboradores diretos, concluí que se devia fazer um documento expondo a situação da segurança militar, a necessidade de ter apoios em engenharia para melhorar ou mesmo criar de raiz abrigos para proteger militares e civis.

Foi nesse contexto que o cabo quarteleiro de Missirá me chamou a atenção que o material que tinha a carga havia faltas clamorosas, tinham desaparecido camas de ferro, colchões de espuma, capacetes, e muito mais, impunha-se fazer um auto de abate e entregá-lo na sede do batalhão. Quando quis tratar do assunto com o então comandante da companhia, ele informou-me que contava comigo para incorporar nas minhas faltas as dele, entretanto iria obsequiar-me com material em excesso, bom jeito nos deu meter nas canoas com que atravessávamos o Geba cadeiras, pratos, talheres e copos. Estava a descobrir o desenrascanço.


O PAIGC brindou-me com uma flagelação em 6 de setembro, perto da meia-noite. Houve resposta rápida, enérgica, incendiaram-se duas moranças e um soldado milícia acidentou-se com um tiro no pé. Entre Finete e Missirá, Madina e Belel, é uma terra de ninguém; uma terra de ninguém, em cenário de guerrilha e contraguerrilha, significa que ninguém possui o domínio do território, e se houver um encontro é para abater o outro, o chamado inimigo; quando ainda hoje leio e vejo escrito que o PAIGC dominava uma parte importantíssima do território, eram as terras libertadas, a propaganda dizia umas vezes que se tratava de metade outras vezes de dois terços do território, posso perceber o peso da mentira, para a guerrilha era fácil chegar a estes dois quartéis, iluminados à noite, eu entretanto podia percorrer cerca de quatro quintos do regulado com 25-30 homens, quanto muito ouvia tiros longínquos, em poucos meses tive o entendimento que guerrilheiros e civis do PAIGC cambavam (atravessavam) o rio Geba em duas direções, para se abastecerem, possivelmente colher informações, aproveitavam sobretudo a noite para transferir gente de um acampamento para o outro, na margem esquerda do Geba, acima do Xime, o PAIGC estava fortemente implantado, tinha um domínio que direi quase total no curso principal do rio Corubal, até à região do Xitole.

Chegou o novo batalhão, senti-me à vontade para apresentar com mais tempo e critério as exigências de apoio médico, professor, de material de engenharia, de minas e armadilhas, um morteiro 81, uma viatura, um barco a motor que me salvaguardasse o abastecimento na época das chuvas, estava informado do alagamento seja da bolanha de Finete seja de um percurso de cerca de 6Km a partir de Canturé até à região de Sansão, já perto de Missirá, o percurso ficava praticamente intransitável. Fui pedinchando, ganhei uma manhã para levar os doentes à consulta médica, apareceu dinheiro para pagar a um professor, pedi dois, não podia ter só um professor em Missirá e não ter em Finete, lá apareceu dinheiro para o segundo professor; um de cada vez, os cozinheiros de Missirá foram estagiar na messe de Bambadinca, o resultado foi positivo, o rancho melhorou, mesmo sendo monótono: arroz, esparguete, carne enlatada, uma completa ausência de frutas e legumes, embora pudéssemos comer fruta enlatada, o resto podiam ser as compras locais, gazela, porco do mato, papaias, galinhas e ovos.

Muitas vezes aproveitava as boleias dos barcos que navegavam em direção a Bambadinca para ir fazer as minhas reivindicações ou abastecimentos. Em outubro, o novo oficial de operações adverte-me que me devo apresentar no dia tal às tantas horas pois irei participar numa operação. E nesse dia tal vou encontrar-me com outros oficiais, entramos numa sala de operações e vamos saber para onde vamos e o que se pretende. A intenção é chegarmos a uma base do PAIGC que terá dois pequenos acampamentos, Baio e Burontoni, a uma distância do Xime, eles também distantes de uma zona chave do PAIGC chamada Poidom, nessa altura as forças portuguesas já tinham abandonado um destacamento chamado Ponta do Inglês, ou seja, o regulado do Xime era mais outra terra de ninguém, mas aqui o dispositivo da guerrilha era incontestavelmente superior àquele com que eu me confrontava. Pouco há a dizer desta operação, andámos praticamente um dia inteiro às voltas dentro de matas, houve que fazer um alto noturno com todos os ruídos que a mata oferece, incluindo a surpresa seja da passagem de um porco do mato ou as ferroadas das formigas. Lembro-me perfeitamente que o regresso que fizemos do Xime para Bambadinca pensei seriamente que havia muita displicência na preparação destas operações, com resultados moralmente devastadores e desmobilizadores.


(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28000: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte IV: Bissau velha renascida, "by air": descendo da Paraça dos Heróis Nacionais até à Catedral



Vídeo (1' 55'') > Guiné-Bissau > Bissau > Masrço de 2026 > Terceiro e último vídeo aéreo de parte da cidade de Bissau, mais propriamente o trajeto  que vai da antiga Praça do Império (atual Praça dos Heróis Nacionais ) até à Sé Catedral, que fica a meio da Av Amílcar Cabral (antiga Av da República, que ia dar ao cais do Pijiguiti).


Vídeo (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1, O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) começou a visitar a Guiné-Bissau. regularmente, desde 2017, com uma puasa no tempo da pandemia. Vai sempre acompanhada da esposa Maria do Carmo e, às vezes, de outros camaradas. Este ano, por exemplo, com o Armando Oliveira.

Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha. O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local.  

Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra. O João Melo é também um grande conhecedor e divulgador da música da Guiné-Bissau.

2. Os vídeos que o nosso camarada João Melo tem realizado nas suas visitas à Guiné-Bissau, ao longo dos últimos anos (também com o propõsito de nos ajudar a “matar saudades”) mostram que a cidade de Bissau atravessa, desde cerca de 2022, um processo visível de renovação e reabilitação urbana.

O objetivo anunciado pelas autoridades passa pela modernização das infraestruturas e pela melhoria das condições de vida da população. Mal ou bem, parece ter-se salvado uma parte importante da velha Bissau colonial, cujo conjunto arquitetónico e urbanístico há muito mereceria, pelo menos, uma séria candidatura a património da UNESCO.

Continuam em curso obras de reabilitação de estradas, com destaque para a via que liga o Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira ao centro da cidade, abrangendo igualmente a zona portuária e o eixo Quelelé–Bor.

A cidade voltou a ter semáforos funcionais em 2023, situação que aparentemente se manteve em 2024 — um pequeno sinal de normalização urbana que, para quem conheceu Bissau noutras épocas, não deixa de ter significado simbólico.

A Avenida Amílcar Cabral foi requalificada e voltou a afirmar-se como espaço de encontro e convivência dos habitantes da capital. Alguns edifícios públicos e governamentais receberam igualmente obras de recuperação, ainda que por vezes limitadas às fachadas.

Existem também projetos de construção de novas vias rodoviárias, incluindo uma estrada moderna de ligação entre o aeroporto e Safim, executados ou financiados, em parte, por empresas chinesas. Estas intervenções procuram facilitar o escoamento de mercadorias, melhorar a circulação urbana e atrair investimento externo.

Nem todas as obras, contudo, têm sido consensuais. O abate de árvores antigas em algumas avenidas suscitou críticas de urbanistas, ambientalistas e cidadãos, devido à alegada ausência de estudos de impacto ambiental e ao receio de agravamento das temperaturas e da perda de sombra numa cidade já muito exposta ao calor tropical.

Em rigor, continua pouco claro quais são, em detalhe, as fontes de financiamento e os encargos futuros associados a esta renovação urbana, havendo quem tema que parte das intervenções tenha sobretudo um alcance cosmético ou de representação política.

Gostávamos de receber o "feedback" dos nossos amigos de Bissau, e em especial do Cherno Baldé, do Patrício Ribeiro e outros.

Guiné 61/74 - P27999: (De) Caras (249): Duas referências na história da capelania militar no CTIG: Bártolo Pereira (QG/CTIG, Bissau, 1965/67) e Arsénio Puim (CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/71)


Dedicatória do autor: "Ao amigo Puim, ex-companheiro das terras da Guiné, com simpatia e amizade, oferece o Pe. Bártolo"


Capa do livro do padre Bártolo  Pereira, edição de autor (Vila do Conde, 2025, 120 pp.). A capa é de Joaquim António Salgado de Almeida. Depósito legal nº 548769/25. Não tem ISBN. Impressão: Gráfica São João, Fajozes, Vila do Conde. (*)


(n. 1935). Vive em Vila do Conde.
Foto: Virgínio Teixeira (2025)



Arsénio Puim (n. 1936):  ilhéu, açoriano de Santa Maria,  ex- sacerdote católico, ex-capelão militar,  foi autarca, enfermeiro do SRS dos Açores, e jornalista; é  escritor,  pai, avô, amigo, cidadão do mundo. Foto: Gualberto Passos Marques (2009) (**)


1. Em conversa, por email, com o Virgílio Teixeira, e tendo em conta que o nosso grão-tabanqueiro Arsénio Puim ia comemorar os seus 90 anos (!) em 8/5/2026, sugeri que o livro do Pe. Bártolo Paiva Pereira sobre os capelães militares na guerra colonial (*), poderia ser uma bela (e merecida) prenda de aniversário.

O Virgílio, que é seu vizinho, falou com o autor que, amavelmente, se prontificou a oferecer ao Puim um exemplar com dedicatória. 

Recebi cópia da dedicatória em 18/1/2026, e o livro foi entretanto posto há uma semana e tal no correio, pelo Virgílio Teixeira, e já deve ter chegado, a esta hora, a Vila Franca do Campo, São Miguel, Açores, onde vive o nosso camarada e amigo Puim, natural de Santa Maria e que, entretanto, depois de abandonar o sacerdócio, fez carreira como enfermeir0 no Serviço Regional de Saúde dos Açores (SRSA).

Os dois antigos capelães não se conhecem pessoalmente, mas são da mesma geração (o Puim ligeiramente mais novo, meia dúzia de meses), e passaram ambos pelo TO da Guiné, embora em épocas diferentes e no desempennho de papéis diferentes:
  • o padre Bártolo Pereira como capelão-chefe do serviço religioso do CTIG, graduado em capitão, entre dezembro de 1965 e fevereiro de 1968, ao tempo do governador e com-chefe gen Arnaldo Schulz;
  • o Arsénio Puim como alferes graduado capelão (BART 2917, Bambadinca, mai 1970 / mai 1971), ao tempo do governador e com-chefe, gen António Spínola. 
Apreciei o gesto do Pe. Bártolo (que, de resto, ainda não é membro da Tabanca Grande, mas volto a reiterar o convite que já lhe fiz, através do Virgílio Teixeira, a quem também estou grato pela sua "intermediação"). 

O Arsénio Puim e o Bártolo Pereira são duas referências na história da capelania militar (**). Podem não ter exatamente a mesma visão da experiência dos nossos capelães neste período conturbado da nossa história (mas também da Igreja Católica Poertuguesa). Mas são homens,  cristãos e portugueses que se respeitam.

Depois de dar, pessoalmente, daqui umas horas, os parabéns ao Arsénio Puim, vou-lhe pedir para escrever duas palavrinhas ao Bártolo Pereira e ao Virgílio Teixeira.

 O nosso blogue cumpre assim a sua missão de ser ponte entre todos os camaradas e amigos da Guiné. E oxalá os três ainda possam vir a conhecer-se pessoalmente. E eu, no meu caso, conhecer o Pe. Bártolo, hoje major  graduado capelão do Exército portuguès, na situação de reforma. 

Para todos, saúde e boa continuação da caminhada pela picada da vida.
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Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 8 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26778: Diálogos com a IA (Inteligência Artificial) (2): camarada Arsénio Chaves Puim, o que o "Big Brother" sabe sobre ti!... Nada, entretanto, que gente não soubesse já... Afinal, a tua vida é um livro aberto (Luís Graça, Abílio Machado e Gemini IA/Google)

(**) Último poste da série > 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27906: (De) Caras (248): Jorge Moisir Pires, ex-alf mil mec auto, CCS / BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) (Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP, Bissau, 1970/1971)