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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27879: Historiografia da presença portuguesa em África (523): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1965 (81) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
O termo cartapácio é bem adequado a estes volumes bem pesados, e cada vez mais bem pesados, dado que o espaço ocupado pela legislação da política ultramarina não para de crescer. Tomam-se medidas para que não falte o arroz e ao mesmo tempo definem-se apoios para os produtores; há promoções, pensa-se que mais do que fidelidade são as provas de bravura, caso de Abna Na Onça e de Mamadu Bonco Sanhá. Não vem no Boletim Oficial, mas Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, visitou a Guiné em fevereiro, a Gulbenkian dá apoio a um conjunto de programas humanitários, como é o caso da Missão de Combate às Tripanossomíases. O efetivo da PIDE cresce a olhos vivos, está sempre a chegar gente. Foi criado o Serviço Público dos Transportes Aéreos da Guiné. E falando de nomeações, nunca se nomeou tanto professor na Guiné, será seguramente o caso das mulheres dos militares sediados em Bissau e certamente militares colocados na capital que recebem autorização para horas extra.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1965 (81)


Mário Beja Santos

Tenho pela frente um volume superior a mil páginas, a legislação emanada do Ministério do Ultramar, da Presidência do Conselho e de outros órgãos do Governo tem aqui assento, e ocupa muitíssimo espaço. No que toca à Guiné temos a rotina e o outro lado da guerra, ou seja, listas de antiguidade, concursos públicos, movimentos de pessoal, recondução dos cargos, balancete de receitas cobradas e despesas, movimentos de pessoal, mas agora uma enxurrada de concessão de créditos e empréstimos, criação de fundos permanentes, são os artifícios para que tudo aparente uma certa normalidade. Mas não se escondem as dificuldades. Logo no Boletim Oficial n.º 4, de 23 de janeiro, temos a Portaria n.º 1700, nela se diz “Havendo necessidade de promover a importação de arroz para ocorrer ao abastecimento público, considerando que é imperioso tomar medidas no sentido de impedir que o preço de venda desse arroz não ultrapasse o limite da tabela em vigor no corrente ano, durante este ano é autorizada a isenção de direitos a cobrar o despacho da importação.”

Pratica-se a ação social, como se pode ver no Boletim Oficial n.º 16, de 17 de abril, Portaria n.º 1725, é autorizada a Direção da Caixa de Providência dos Funcionários Públicos da Guiné a conceder empréstimos aos servidores do Estado vítimas do incêndio ocorrido no Bairro do Cupelom em 13 de março passado. Ficamos a saber que vão circular notas de mil escudos com a efígie de Honório Pereira Barreto. Percebeu-se que a questão do preço estável do arroz podia ser alvo de descontentamento dos produtores, pelo que, no Boletim Oficial n.º 20, de 15 de maio, pela Portaria n.º 1728, alteram-se as taxas a incidir sobre o arroz vendido na província, por forma a criar uma situação de privilégio para o arroz originário da Província, em relação ao importado, a taxa deste é aumentada.

Temos promoções de regedores, trata-se de figuras de fidelidade à soberania portuguesa. No Boletim Oficial n.º 24, de 12 de junho, é promovido por escolha ao posto de capitão de 2.ª linha o Tenente Abna Na Onça, regedor de Porto Gole e é promovido também por escolha ao posto de Tenente o alferes de 2.ª linha Mamadu Bonco Sanhá, regedor de Badora. O Boletim é recorrente na concessão de adiantamentos de tesouraria, e nunca se viu tanta tomada de posse de professores como agora. Há acontecimentos oficiais que o Boletim Oficial não transcreve, daí a utilidade em consultar o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Em 10 de fevereiro chegou a Bissau o Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Azeredo Perdigão vem acompanhado pela mulher e outros membros da administração, visitará, entre outros lugares, o Museu e Centro de Estudos em Bissau, andará por Nova Lamego, Cacheu e Bolama, a Gulbenkian oferece apoio à Missão de Combate às tripanossomíases.

Ler a legislação oriunda de Lisboa, ajuda-nos a perceber como está a evoluir a guerra de guerrilhas. No Boletim Oficial n.º 30, de 24 de julho, é publicado o Decreto-Lei n.º 46410, é criado no âmbito do Ministério do Exército o Centro de Instrução de Comandos, que funcionará na Província de Angola.

Tomam-se medidas favoráveis ao abono de alimentação e subvenção de campanha. Pretende-se dar sinais públicos de austeridade, caso de circular dos Serviços de Fazenda e Contabilidade que se publica no Boletim Oficial n.º 33, de 14 de agosto, faz-se saber que as missões oficiais e comissões de serviço no estrangeiro serão consideradas apenas para casos especiais e extraordinários, reconhecidos por despacho do Ministro do Ultramar.

Os meses passam e mantém-se este misto de rotina e de sinais de alteração, temos os acórdãos e os avisos do costume, e o espaço ocupado pelos diplomas de política ultramarina continua a encorpar. No Boletim Oficial n.º 40, de 2 de outubro, é publicado o Decreto n.º 46511, foi criado o serviço público de Transportes Aéreos da Guiné (TAG), e dá-se a seguinte justificação: “O desenvolvimento que tem tido o tráfego aéreo da Província Ultramarina da Guiné aconselha a criação de um serviço autónomo que assegure da melhor maneira o financiamento do sistema de transporte aéreo.” No Boletim Oficial n.º 42, de 16 de outubro, Suplemento, é aprovada a pauta de importação aplicável às mercadorias originárias de países estrangeiros; pela importação de mercadorias sujeitas a esta pauta, além dos respetivos direitos só serão cobradas, quando forem devidas, as taxas do imposto de consumo ou de prestação de serviços e dos organismos de coordenação económica. Pretende-se obviamente travar a inflação à custa de mais problemas orçamentais.

1965 é o ano em que aumentam os efetivos da PIDE na Guiné. Iremos mesmo ver no Boletim Oficial n.º 1, referente a 1966, louvores do Governador a ações da PIDE, tudo relacionado com gravíssimos acontecimentos ocorridos em Morucunda, no concelho de Farim, em 1 de novembro de 1965. Atenda-se que no Boletim Oficial n.º 43, de 23 de outubro, pela Portaria nº 21565 são criados postos da PIDE em Teixeira Pinto e Bolama.

Outro aspeto que tem a ver com o surto de luta armada é a aprovação do Estatuto Disciplinar da Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil das Províncias Ultramarinas.

Em 27 de dezembro, no Boletim Oficial n.º 52, voltamos à questão do arroz. É permitida a aquisição ao produtor de arroz de pilão nas áreas de Bissau, Mansoa, Bafatá, Catió, Bissorã e Fulacunda, estabelecem-se preços de compra ao produtor e preços de venda ao público.
O Conselho de Ministros aprova fazer engenharia financeira para a Guiné, que já está económica e financeiramente depauperada
Aumentar as verbas diárias para o rancho nas Forças Armadas
Campas de Manjacos
Caçadores Fulas
Convocação para preces a Alá
Dança de rapazes Balantas
Jogo do pau entre Balantas

Estas cinco últimas fotografias foram retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, números de 1965

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 25 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27856: Historiografia da presença portuguesa em África (522): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1964, 2.º semestre (80) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27878: Manuscrito(s) (Luís Graça) (285): Já chegou a Primavera: "A vida não precisa de nós, mas nós precisamos da vida... E precisamos dos outros, Caeiro!"










Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 31 de março de 2026 > Aguarelas (Imagens HDR - High Dynamic Range, tiradas sem tripé)

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Já chegou a Primavera. Já vi andorinhas, melros, boeiras (ou lavandiscas), pardais do telhado, pombos bravos,  águias-de-asa-redonda (espécie comum na serra de Montedeiras, aqui ao lado)... E poupas (que não via há muito; são migrantes) (vd. foto à esquerda). 

Já não vinha a Candoz desde o Natal, em pleno ciclo do inverno... Entro agora no ciclo do verão. A vinha renasce, as cerejeiras estão em flor, os carvalhos, de folhagem nova,  magníficos... Abrem-se os velhos casarões, arejam-se, limpam-se... para receber a família de fora, os amigos, os vizinhos, a visita pascal.

É o eterno retorno, o universo cíclico, onde tudo se repete: os mesmos gestos,  dores, alegrias, estações, rituais, ódios e paixões... 

Não, não é apenas uma teoria cosmológica; é quase um desafio existencial: eu não viveria a minha vida da mesma forma se soubesse que ela iria repetir-se eternamente... Imagino o tédio da eternidade. 

Ligando isso ao ciclo natural das 4 estações (inverno, primavera, verão, outono),  temos uma metáfora poderosa da própria vida:

  • inverno: recolhimento, morte aparente, silêncio, sono; é tempo da espera e da introspeção;
  • primavera: renascimento, esperança, poesia;  tudo volta a florir,  sem licença em papel selado para recomeçar;
  • verão: plenitude, intensidade, explosão dos sentidos, maturidade da vida, excessos; 
  • outono: declínio, transformação, preparação para o fim (que já contém em si um novo ciclo, um recomeço).

A “poesia da primavera” nasce exatamente desse contraste: depois da dureza do inverno (e este foi particularmente duro!), a vida regressa com uma força quase milagrosa.  É isso que nos querem dizer os poetas que celebram a primavera como símbolo de renovação (exterior e interior).

2. Longe da cidade, em plena natureza, aqui em Candoz, rodeado de serras (Marão, Meadas, Gralheira, Montemuro, Montedeiras...) vejo que  nada é fixo, tudo passa, tudo regressa... E cada omega/fim  traz escondido um alfa/princípio. O eterno retorno não é só repetição: é também a possibilidade de aceitar (ou até de amar) esse ciclo.

Recordo Alberto Caeiro, de quem nem sempre gosto (depende da estação do ano, do dia e da hora, dos meus contraditórios humores, dos títulos de caixa dos jornais, etc.), mas é o poeta que vê o mundo como ele é, sem metafísica, com uma ingenuidade desarmante. E que canta a primavera como se ela se bastasse a si própria. 

Caieiro, o  poeta que aceita, com indiferença serena e serenidade indiferente, a  efemeridade da vida humana e a naturalidade da morte, como se houvesse uma realidade objetiva, independente de nós e da nossa existência humana...

Leio este poema, em voz alta, debaixo do enorme sobreiro no cima da quinta, a 300 metros de altitude, com o Douro ao fundo, ou melhor, a albufeira da barragem do Carreapatelo. 

Porra, Caeiro, não há aqui  espaço para a saudade, a memória, a luta contra o esquecimento e a "vala comum", a revolta contra o absurdo ou o desejo de eternidade.  

A vida não precisa de nós, mas nós  precisamos da vida. E precisamos uns dos outros, Caeiro. Quanto mais não seja, para rezarem  latim sobre o nosso caixão, para nos cobrirem com a bandeira verde-rubra, para dançarem e cantarem à roda do nosso cadáver, para dispararem as Kalash para o ar em homenagem ao combatente que fomos, enfim, para nos enterrerem num cova funda, onde não cheguem as hienas do ódio e da guerra.


Quando vier a primavera,


Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


CAEIRO, Alberto, Poesia (Poemas Inconjuntos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 109

(Reproduzido com a devida vénia: Casa Fernando Pessoa)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 22 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27846: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): No Dia Mundial da Poesia (que foi ontem)

Guiné 61/74 - P27877: Blogpoesia (810): "Dia de enganos", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


DIA DE ENGANOS

adão cruz

Uma gaivota beijando
a espuma branca das águas fundas
em bailado Grandi Mestri
culminando as chaminés do Cabo do Mundo.
O barco ao longe

estático no horizonte
como eu aqui de olhos fitos nas rochas.
Gaivotas bailando
Rossini
Oh!
Péchés de vieilhesse
Mascagni
Massenet
sem ponte nem horizonte
Verdi
Wagner
Bizet
sobre a espuma da tarde sem dia
do dia sem ponte
e sem horizonte
para lá das rochas negras e nuas.
Marcia Trionfale em dia de glória
dunas de espuma branca
abraçando as rochas do meu deserto
tão perto do mar imenso tocando as nuvens.
Alguém me leva nas asas da gaivota
por dentro de ti
para dentro de mim
em doce Intermezo
de rios de sol e mares sem fim.
Alguém me passeia por dentro de ti
Cavalcate Delle Valchirie
avançando a vertigem em turbilhão
até planar
bailando sobre o coração
cravado no sol poente
vermelho e quente
do sangue que verti.
Bruscamente…
o Prelúdio
voando dentro de mim
a alma que resta em Meditazioni
pelo espaço imenso
tocando aqui e ali
as penas das asas que perdi.
Vesti La Giubba meu palhaço trágico
viajante da Barcarola en nuit d’amour
com ar triunfante
Va Pensiero
sobre as asas douradas
seguro de quem se apoia
nas pedras nuas da orla do mar
esquecendo o mar que navega…
infinito…
mistério…

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Nota do editor

Último post da série de 17 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27743: Blogpoesia (809): "A Fundação da Tabanca Grande", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro

Guiné 61/74 - P27876: Humor de caserna (254): O anedotário da Spinolândia (XXVI): Os comparsas da FAP - Parte I


Guiné > s/l > s/d (c-. 1968/70)  > Jorge Félix, alf mil pil heli Al III (BA 12, BA 12, Bissalanca, 1968/70) e António Spínola (Com-Chefe e Governador Geral, CTIG, 1968/73)... O nosso camarada Jorge Félix foi um dos pilotos preferidos pelo Com-Chefe, no seu tempo.  (O tratamento por "pilav" era reservado aos pilotos-aviadores que vinham da Academia Militar; repare-se, por outro lado, a famosa "lancheira do governador", no banco de trás.)


Foto: © Jorge Félix (2010). Todos os direitos reservados


I. Os nossos camaradas da Força Aérea conviveram, mais regularemente com o governador e comandante-chefe António de Spínola que, nas suas deslocações praticamente diárias  ao interior da Guiné (o mítico "mato"),   usava de preferência o heli AL III.  Uma vez por outra,  deslocava-se de DO-27. 

Ao longo de cinco anos (!) (maio de 1968 / agosto de 1973), pilotos e "mecânicos", as equipas dos helis,  foram testemunhas e comparsas de muitas situações, mais ou menos engraçadas e divertidas, que deram origem a anedotas, e que hoje,l perdidas pela Net,  fazemos questão recolher e partilhar nesta subsérie "O Anedotário da Spinolândia", da série "Humor de Caserna".

Não se tome a palavra "comparsa" em sentido pejorativo, mas como figura "cinematográfica"...Sem esses comparsas (ou, melhor, "atores secundários"), muitas destas anedotas ter-se-iam, perdido...  

Aqui vão mais algumas,  que chegaram até nós e que circulam pela Net. São sempre revistas e melhoradas por nós. Comprovam, mais uma vez, o sentido de humor muito especial do general, cuja excentricidade e pose teatral eram, de resto, apreciadas pela generalidade das suas tropas. 

São também uma homenagem aos nossos "gloriosos malucos das máquinas voadores"... Ao que se saiba, nunca houve nenhum acidente  (ou sequer incidente) com o AL III ou a DO-27, em missão de transporte do nosso Caco Baldé. 


1. A pista que era insegura

Um piloto de Alouette III levava Spínola para visitar um destacamento no norte. Ao aproximar-se da zona, o piloto avisou:

— Meu general, não convém pousar já. A área não está segura.

Spínola respondeu, bruto e seco:

—  Pois então ponha-a segura.

O piloto deu uma volta larga e comentou para o mecânico ao lado:

— Está resolvido. O general já tratou da segurança.

2. A pista que era curta

Numa deslocação para a zona de Bafatá, numa DO-27, o piloto comentou antes da aterragem:

— Meu general, a pista parece curta.

Spínola olhou pela janela e respondeu:

— Parece curta… mas larga o suficiente.

Diz-se que o piloto murmurou, entre dentes:

— Pois… mas quem trava sou eu.

3. O helicóptero cpom a lotação esgotada

Num voo de helicóptero para uma tabanca perto de Bissorã, o piloto explicou:

— Meu general, o helicóptero está no limite de peso.

Spínola perguntou:

— E qual é a solução?

Resposta do piloto:

— Alguém tem de ficar em terra.

Diz quem conta que Spínola respondeu de imediato:

— Então fica o medo.

E embarcou.

4. Então, isso voa ?


Num heliporto improvisado perto de Canchungo, Spínola viu um mecânico coberto de óleo a trabalhar num Alouette.

Perguntou-lhe:

— Então isso voa?

O mecânico respondeu:

— Voa, meu general… quando quer.

Spínola replicou:

— Então hoje tem de querer.

5. O voo turbulento

Num voo sobre o Oio, o helicóptero entrou numa zona de turbulência forte. Um oficial no banco de trás estava visivelmente nervoso.

Spínola virou-se para ele:

— O senhor tem medo de voar?

— Um pouco, meu general.

Resposta de Spínola:

— Não tenha. Aqui em baixo também disparam.

6. O voo baixo

Entre pilotos da Força Aérea corria uma frase meio humorística:

—  Com o Caco voa-se sempre mais baixo, porque ele quer ver tudo... De monóculo.

E outro respondia:

—  E às vezes baixo demais… para gáudio  do turra que gosta de fazer tiro ao alvo.

(Pesquisa: LG + IA  (ChatGPT / Open AI) 

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos e títulos: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.

terça-feira, 31 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27875: Tabanca Grande (580): Joaquim Gregório, ex-sold at art, apontador de morteiro 60, 4º Pel / CART 2715 / BART 2917 (Xime, 1970/72), sobrevivente da emboscada de 26/11/1970 (Op Abencerragem Candente): vive em Onzain, França; senta-se à sombra do nosso poilão, sob o lugar nº 914




Joaquim Rocha Gregório,  sold at art, nº 17150669 
(segundo a HU, BART 2917, Bambadinca, 1970/72)

Nascido em 10/2/1948, foi soldado apontador do morteiro 60, 4º Pel /CART 2715 / BART 2917, "Os Fantasmas do Xime" (Xime, 1970/72)...  Vive em Onzain, no Vale do Loire (capital: Orléans). Passa integrar a Tabanca Grande, desde hoje. Senta-se à sombra do nosso poilão, sob o nº 914


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. O Joaquim Rocha Gregório  vive em Onzain, Centre-Val deLoire, France. Tem página no Facebook, e apenas duas ou três fotos da Guiné. Pertenceu à CART 2715 / BART 2917 (Xime, 1970/72).

A CART 2715 / BART 2917 (Xime, 1970/72), e a CCAÇ 12, ambas a 3 Gr Comb  participaram  na Op Abencerragem Candente, no subsetor do Xime, em 25 e 26 de novembro de 1970, a par da CART 2714(Mansambo), formando 3 destacamentos.

Uma operação de trágica memória, que se saldou por um dos maiores desastres das NT, naquele subsetor do sector L1 (Bambadinca), região de Bafatá, em toda a guerra: 6 mortes, 9 feridos graves, com sequelas tremendas no "moral" do pessoal da CART 2715 ("Os Fantasmas do Xime") que, dentro de mês e meio, iria perder o seu comandante, evacuado para o HM 241, com baixa psiquiátrica, o cap art Vitor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014) (membro da Tabanca Grande, nº 781, a título póstumo, entrado em 26/11/2018, 48 anos depois da  Op Abencerragem Candente, sobre a qual temos cerca de 3 dezenas de referências no nosso blogue).

 Ficámos a saber que o nosso camarada Rocha também foi fazia parte da força que foi embosacada em 26/4/1970 (Os Destacamentis  A e B) e, mais concretamente, fazia parte do 4º Pelotão / CART 23715, o do fur mil mec Cunha.

2. Em novembro de 2022,  recebemos várias mensagens, pelo formulário de contacto do Blogger, da parte do Joaquim  Gregório:

sexta, 4/11/2022, 22:58

A todo os ex-combatentes da Guiné, uma boa noite.

Eu sou um ex-combatente, fiz a minha comissão no Xime, CART 2715 (1970/72).



domingo, 27/11/2022, 21:14

Obrigado pelo teu poema verdadeiro, passado perto da Ponta do Inglês. Eu fazia parte do 4º pelotão, o mesmo do malogrado furriel Cunha. Que descanse em paz.


domingo, 27/11/2022, 21:18

Eu pertencia ao pelotão do furriel Cunha. E ia nessa operação.

domingo, 27/11/2022, 21:44

Caro amigo,   gostava imenso de ser membro da Tabanca Grande. Eu estive no Xime de 70 a 72. E assisti à operação  da Ponta do Inglês.  Um grande abraço.

 3. Em 4/12/2022, 12:31, o nosso coeditor Carlos Vinhal mandou-lhe, em resposta, a seguinte mensagem:

Caro Joaquim Gregório:

Para te juntares à nossa tertúlia, manda-nos uma foto tua actual e outra do nosso tempo de Guiné, fardado, que permitam fazer fotos tipo passe para os nossos arquivos.

Queremos saber o teu posto, especialidade, Companhia e Batalhão (se for o caso), datas de ida e volta da Guiné, localidades por onde andaste, etc.

Podes, caso queiras, mandar-nos uma pequena história que te tenha marcado particularmente, com fotos legendadas, ou texto onde fales de ti para te conhecermos melhor. Caso queiras ver anunciado o teu aniversário, manda a tua data de nascimento para publicarmos o postalinho natalício.

Aqui podes inteirar-te dos objectivos do nosso blogue.

Ficamos na expectativa das tuas novas notícias. Em nome da tertúlia e dos editores em particular, deixo-te um abraço e votos de boa saúde.

O camarada e amigo, Carlos Vinhal


4. Já este ano voltou a contactar-nos e não podemos ficar indiferente à sua insistência em pedir-nos "hospedagem" na Tabanca Grande. 

terça, 24/02/2026, 22:24

Eu sou o ex soldado Gregório,  fiz parte do BART 2917,  estive no Xime e no Enxalé. Gostava de saber-se se temos direito a 100 porcento na assistência méedica. (...)  



terça, 24/03/2026, 22:56

Eu pertencia ao 4º pelotão,  ia na operação Abencerragem Candente, escapei por milagre, pertencia à secção do morteiro e várias balas furaram-me o cantil. Um abraço para todos os colegas do Batalhão 2917


terça, 24/03/2026, 23:11

Eu sou o ex-soldado Gregório, era do quarto pelotão, estava na emboscada da
Abencerrarragem Candente. Escapei por pouco, várias balas furaram me o cantil, Fiquuei para contar. Era apotador do morteiro 60. Um abraço para todos os colegas da companhia 2715 e tambem da  CCAÇ 12 e para todo o BART 2917,  são os votos sinceros do soldado Gregório



5. O Joaquim Rocha Gregório não chegou a mandar as fotos da praxe, que o Carlos Vinhal lhe pediu, mas nós acabámos por arranjá-las na sua página do Facebook (*). Por isso, ele  passa a integrar, de pleno direito, a nossa Tabanca Grande a partir de hoje (**). É mais um camarada da diáspora lusófona.

Dele sabemos mais o seguinte:
  • tem  página do Facebook (Joaquim Gregório Rocha) (desde 17/4/2016); 
  • tem endereço de email;
  • temos 3 amigos em comum no Facebook (três camaradas da Guiné: Benjamim Durães, Jorge Silva e Vicente Pinto;
  • nasceu em 10 de fevereiro de 1948 (mas não sabemos a terra da naturalidade);
  • vive em Onzain, França (Onzain foi uma comuna francesa na região administrativa do Centre, Val de Loire, departamento Loir-et-Cher; estendia-se por uma área de 29,9 km²; em 2010 a comuna tinha 3584 habitantes (densidade: 119,9 hab./km²); em 1 de janeiro de 2017, passou a formar parte da comuna de Veuzain-sur-Loire;
  • gosta de jogar às damas e de dançar;
  • deve estar reformado, vem a Portugal de vez em quando.
Espero, Joaquim, que  ajudes a abrir a porta da Tabanca Grande a mais camaradas da CART 2715. És o único representante de "Os Fantasmas do Xime", para além do teu 1º capitão, já falecido, com o posto cor art ref, o Vitor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014).

Sentas-te à sombra do nosso poilão sob o nº 914. Esclarece-me os seguintes pontos: 

(i) és natural de Pernes, Santarém, é isso ?!; 

(ii) em França és tratado como Joaquim-Gregório Rocha (Rochá), é  isso ?!|; 

(iii) aqui serás o Joaquim Gregório (como eras conhecido no teu/nosso Xime de boas e más memórias).

Quanto ao pedido de informação que nos fazes, sobre teres ou não direito, a 100% dos medicamentos, precisamos de saber onde tens a morada atual oficial, em França ou em Portugal, e em que sistema és pensionista. Vê aqui no Balcão Único da Defesa:

Os antigos combatentes pensionistas passam a ter direito, a partir de 1 de janeiro de 2026,  a um apoio de 100% da parte não comparticipada dos medicamentos pelo SNS (Serviço Nacional de Saúde). Quando falamos de pensionistas, em Portugal, falamos da Caixa Geral de Aposentações ou da Segurança Social. Que não dever ser o teu caso, uma vez que fizeste todos os teus descontos, em França, para a Securité Sociale. 


Guiné 61/74 - P27874: Casos: a verdade sobre... (65): o acidente com canhão s/r 82, B-10, russo, que vitimou o 2º srgt António Duarte Parente, do Pel Caç Nat 53, no Saltinho, em 13 de maio de 1970





Guiné > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Saltinho > Destacamento de Contabane (reordenamento junto ao quartel do Saltinho, mais tarde, Sinchã Sambel, em homenagem ao régulo de Contabane > Pel Caç Nat 53 (1970/72) > O Paulo Santiago com o canhão sem recuo 82 B-10, russo, que esteve na origem do acidente, no Saltinho, que provocaria a morte do 2.º srgt Parente (apanhado pelo "cone de fogo" do canhão s/r disparado inadvertidamente por alguém)... A tragédia deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701, que rendeu a a CCAÇ 2406, "Os Tigres do Saltinho" (1968/70).


Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. O 2.º srgt António Duarte Parente não pertencia a nenhuma daquelas companhias, aq CCAÇ 2406 e a CCAÇ 2701, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo alf mil António Mota que o Paulo Santiago foi substituir em outubro de 1970. 

O canhão s/r, apreendido ao PAIGC, foi mais tarde transferido do Saltinho para o reordenamento de Contabane (hoje, Sinchã Sambel).  Mas antes disso, nos primeiros dias de novembro de 1970 foi um heli ao Saltinho buscar, por ordem do Com-Chefe, o canhão s/r 82, B10, para equipar as NT no decurso da Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, 22 de novembro de 1970). Voltaram a entregá-lo em dezembro. 

Gravemente ferido, em resultado desse acidente, o Parente foi evacuado para o HM 241,m Bissau, e a seguir para o Hospital Militar da Estrela. Morreu um nmês depois. Está sepultado na Covilhá,

2. Comentários:

(i) Jorge Narciso (*) (**)

(...) António: não tem este o fim de comentar o teu poste (eu até nem fui nem vim de barco, pois era da FAP), antes e verificando que terás estado no Saltinho por 69/70, procurar uma eventual ajuda tua para precisar na memória um facto lamentável, que muito me marcou e do qual não fiquei com registo preciso.

Eu fui mecânico da linha da frente dos helicópteros (exactamente entre  abril de 1969 e dezembro de 1970) e muitas vezes fui ao Saltinho (cruzámo-nos concerteza), nomeadamente na época das chuvas, para proceder a abastecimento de víveres.

Aliás, ali "festejei" os meus 20 anos, facto que, denunciado pelo piloto, "nos obrigou" a só dali sair depois dum copo (penso que de espumoso).

Com essas diversas viagens estabeleceram-se alguns laços de amizade, nomeadamente com um sargento (de quem não me recordo o nome) que é, esse sim, o motivo deste comentário.

Sei que numa determinada altura foi substituída a guarnição do Saltinho (fim de comissão ?), mas que o citado sargento, por ser de rendição individual, ali permaneceu com a nova guarnição. [ Substituição da CCAÇ 2406 pela CCAÇ 2701, em maio de 1970].

Um dia (que também não consigo precisar) parti numa evacuação para o Saltinho (que, diga-se, não era habitual) e qual não foi a minha surpresa (e choque) quando verifico que ela se destinava exactamente ao citado sargento.

Explicaram-nos, rapidamente, ter sido ele atingido pela gravilha projectada pelo escape do canhão sem recuo, montado num dos muros do aquartelamento, que tinha sido extemporaneamente disparado por terceiro, num tiro de experiência e demonstração.

Foi, talvez, a evacuação mais penosa das incontáveis que realizei na Guiné. Desde logo pelo seu gravíssimo estado físico (completamente crivado), pelo emocional, com a sua lúcida compreensão desse mesmo estado, finalmente porque era alguém com quem mantinha uma relação, diria de quase amizade, o que exponencia largamente o nossas próprias emoções.

Desembarcado, com as palavras de encorajamento possíveis, procurei num dos dias seguintes visitá-lo, tendo-me sido informado que tinha sido imediatamente evacuado para Lisboa.

Tendo mantido o interesse , soube muito mais tarde que não tinha resistido aos ferimentos, vindo a falecer.

Recordas ou de alguma forma tiveste algum contacto testemunhal com este caso ? (...)

(ii) Paulo Santiago (**)

Jorge: Vou tentar contar o episódio de que falas (*) , que aconteceu já depois da saída, do Saltinho, da CCAÇ 2406, a que pertenceu o António Dias [. O CCAÇ 2406, Os Tigres do Saltinho, 1978/70, pertencia ao BCAÇ 2852, com sede em Bambadinca).

A tragédia, confirmei agora a data com um camarada, deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701. O 2º  srgt Parente, o militar de que falas, não pertencia a nenhuma daquelas companhias, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo Alf Mil António Mota que eu fui substituir em Outubro de 1970.

O trágico acidente resultou de um disparo ocasional do canhão S/R 82, B10, naquele dia instalado no Saltinho, mais tarde foi comigo para o Reordenamento de Contabane.

Ninguém tem uma explicação cabal para o sucedido. Havia ordens expressas para a arma estar sempre com a culatra aberta, e sem granada introduzida, parece que naquele dia havia uma granada introduzida,e a culatra estava fechada.

Como aconteceu? Junto da arma encontravam-se vários militares, cap Clemente, alf mil Julião, srgt Demba, da milícia, 2º srgt  Parente e ainda mais dois ou três militares. A arma para disparar, granada na câmara e culatra fechada, accionava-se o armador, premia-se o gatilho,acontecia o disparo. Diziam que alguém tocara com o joelho no armador e dera-se o disparo...

O 2º srgt  Parente estava logo atrás do canhão S/R, foi parar a vários metros de distância, e tu, Jorge Narciso, sabes como ele ía. Ficaram também feridos o cap Clemente, queimaduras numa mão e virilha, e o Demba, queimaduras numa perna. Foram também evacuados para o HM 241.

Como dizes,o Parente morreu passado um mês. Já como comandante do Pel Caç Nat 53,recebi uma carta da viúva, pedindo-me ajuda na resolução de um qualquer problema que agora não recordo.

Foi um dia trágico no Saltinho.Isto é, muito dramático, o Parente tinha recebido naquele dia um telegrama, via rádio, informando-o que fora pai de uma miúda...e andara na tabanca a comprar uns frangos para fazer um jantar comemorativo do nascimento...

O alf mil Fernando Mota, da CCAÇ 2701, recebeu uma carta com a notícia que o irmão fora morto com um tiro da Gurda Fiscal. O srgt  Demba da milícia foi morrer no Quirafo em 17 de abril de 1972 .. Será que o Parente ainda viu a filha antes de morrer?

Apesar de não o ter conhecido, é-me penoso falar desta tragédia. (...)
 
(iii) Paulo Santiago (***)

(...) Quanto às munições para o canhão s/r, havia uma quantidade razoável. O Julião, alf mil, CCAC 2701 (Saltinho, 1970/72), num patrulhamento,deu com um pequeno paiol com granadas para o 82B10.Na foto vêem-se algumas embalagens com granadas.


(iv) Luís Graça (***):

Recordo-me bem do Duarte Parente, do tempo de Baambadinca..  Era um dos poucos sargentos, do exército, que era operacional... na região de Bafatá. Tirando os sargentos das forças especiais (páras, fuzos, e talvez comandos), os sargentos do Exército ficavam na secretaria, ou outras funções de apoio... Não se exagera dizendo que a guerra era para os graduados milicianos e as praças do contingente geral... Os do QP, oficiais e sargentos, em geral, protegiam-se melhor...

Eu pensva que o Duarte Parente fosse alentejano, afinal era beirão. Era um gajo com piada, com quem se criava facilmente empatia. Infelizmente, deixou viúva e filha órfão, coisa que eu não sabia... Um das das "bocas" dele que ouvi no nosso bar, em Bambadinca, nunca mais a esquecerei:

- Quando eu vou na rua, só paro em dois lugares: numa taberna ou bar ou numa livraria...

Seguiu depois para o Saltinho onde conheceu o caminho do calvário que o levou à morte, um mês depois já em Lisboa, no HMP. (****)

Não temos, também, infelizmente, nenhuma foto dele. (*****)


(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)
___________________


Notas do editor LG:





(*****) Últrimo poste da série > 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)

Guiné 61/74 - P27873: Humor de caserna (254): O anedotário da Spinolândia (XXVI): "P*rra, não é só alferes, estão todos apanhados

 

Rússia > Moscovo > Praça Vermelha > 2019 > "O meu pai, em Moscovo, no verão de 2019 (uma das várias viagens que fiz com ele) na Praça Vermelha, com o seu olhar curioso e atento, tão característico." Foto de Pedro Almeida Cabral, com a devida vénia.


Foto (e legenda): © Pedro Almeida Cabral  (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Gosto,  de tempos a tempos,  de revisitar a 'cabralolândia", o universo picaresco das estórias cabralianas, nascidas da genial veia humorística do Jorge Cabral, o mais lídimo representante da corrente literário-filosófico da guerra do absurdo (possivelmente só a par do nosso saudoso Raul Solnado)... 

Infelizmente, em vida, ele só conseguiu publicar o I Volume, lançado em plena pandemia:  teve de ser no Jardim Constantino,  ao ar livre, e não num bar de alterne, como chegámos a sugerir-lhe, na zona ribeirinha da suja, porca, lumpen Lisboa dos anos 60/70, que já não existia mais em 2021. 

O facto de eu lhe ter escrito  o prefácio,  dá-me o direito de não ter de bater a pala a ninguém para, de vez em quando, "repescar" (e refrescar) uma ou outra das suas "estórias cabralianas",  tanto mais que elas foram todas,  previamente, publicadas no nosso blogue, desde os primórdios... (Ele é um dos históricos da Tabanca Grande.)

 Caros amigos e camaradas "spinolistas",  não seentendam esta "estória" como sinal de menos respeito pelo nosso antigo Com-Chefe, nascido  na Madeira em 1910, de ascendência italiana, e entretanto subido, em 1996, como marechal, ao Olimpo dos Deuses e dos Heróis...

 Mas perguntam os leitores mais recentes: mas quem é esse "alfero Cabral" ? 

O "nosso alfero", como lhe chamavam os seus soldados guineenses, era o alferes miliciano de artilharia, Jorge Cabral, filho de militar, com avoengos ilustres que se notabilizaram (e nobilitaram) nas Armas & Letras, estudante universitário, menino-boémio das Avenidas Novas, amador do Teatro do Absurdo, enfim, comandante, no TO da Guiné,  do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1,  Bambadinca, Zona Leste, 1969/71; mais tarde, depois de passar à "peluda", tornou-se advogado e professor universitário, especialista em direito penal.  

"Trata-me bem deste homem, porque já não há disto": ainda me lembro bem da recomendação do seu fur mil António Branquinho (irmão do Alberto, o escritor), há muitos anos atrás,  em Coruche, no convívio do pessoal da CCS / BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) e subunidades adidas...

 O episódio que a seguir se descreve, passa-se em dezembro de 1970, em plena Spinolândia, uma terra que em boa verdade nunca existiu, a não ser no nosso imaginário palúdico, mas que desempenhou um papel importante na história das "alterações climáticas"... 

Ainda não se falava neste chavão, quando no TO da Guiné se começaram a manifestar os primeiros sintomas de uma nova "síndrome", que escapou, na época, não só aos "mentirologistas" como   aos "psiquiatras castrenses" (que em rigor não existiam, pelo menos devidamente diplomados). 

Essa síndroma, se bem se recordam, ficou conhecida como a dos "apanhados do clima"... O "Alfero Cabral", a par do "Gasparinho"  (major) e de tantos outros militares, anónimos,  do CTIG, eram o protótipo destes "apanhados do clima".


Quando Sexa, o Caco, em Missirá, ia perdendo o dito cujo

por Jorge Cabral (1944-2021)


Poucos dias faltavam para o Natal, e a tarde estava quente. Todo nu no meu abrigo, fazia a sesta, quando sou despertado por enorme algazarra misturada com os ruídos do helicóptero.

 Alfero, Alfero, é Spínola!   − gritam os meus soldados.

(Estou tramado, o quartel está uma merda. Que visto? Apresento-me em estado de nudez? Não há tempo a perder. O pássaro já poisou e o General avança. Enfio uns calções antigamente verdes, umas chinelas, e claro uma boina, para poder fazer a devida continência).

Eis-me assim, garboso comandante, apresentando a tropa, e os milícias, todos eles mal fardados, como era habitual.

 Sua Excelência, pede um intérprete, pois vai botar discurso. E começa:

− Debaixo desta bandeira… − e aponta o braço na direcção onde pensava que a mesma existia. Fica-lhe o braço no ar, mas continua:
 
− ... A Pátria… − e notando a atrapalhação do tradutor, pergunta-lhe:

− Sabes o que é a Pátria, rapaz ?

− Não  − responde aquele.

(Lixei-me! Vou ser despromovido, talvez preso. Dentro de mim, um turbilhão de maus presságios começa a fervilhar. Mentalmente preparo réplicas. Não é necessária bandeira, pois a Pátria está dentro de nós, e por isso, meu General, é indefinível, responderei,)

Mas o Caco nada me pergunta. Vem acompanhado de três majores e um capitão. Querem ver tudo. Primeiro a Escola. Onde funciona?

(Escola? Qual Escola?!... Pensa rápido, Jorge! Inventa!)

− Sabe, meu major, estas crianças também frequentam o ensino corânico, que decorre ao ar livre. Por isso considerei que a nossa escola não devia ser enclausurada, pois tal podia traumatizá-las.

− Ainda assim… − começou o major, impedido de continuar por um olhar do Com-Chefe.

− E o Heliporto?  − indagou um outro major.   − Parece muito atrasado.

− É que, meu major, faltam os materiais e também operários especializados.

− Operários especializados? Então... e os seus soldados?!º
 
− Todos homens de fé, meu major. Tirando a actividade operacional, dedicam-se à reflexão e oração.

Nem respondeu este major. Logo outro se adiantou, interrogando o Amaral, sobre as povoações mais próximas. Em sentido, sério, calmo, respondeu o Amaral:
 
− Mato a norte, mato a sul, mato a leste, mato a oeste, meu major.

(Ah! Grande Amaral, vais fazer-me companhia na porrada!)

Mas o pior estava para vir! Sua Excelência queria testar o plano de defesa:

− Qual o sinal, nosso alferes?
 
− Uma granada   − improvisei eu.

Tendo-me dirigido à arrecadação, não encontrei nenhuma granada ofensiva. Peguei então numa defensiva, e zás, lancei-a. Tudo tremeu! Manteve-se de pé o General, mas o Caco caiu.

Entretanto os meus soldados, querendo mostrar heroicidade, encostaram-se ao arame, de peito descoberto, alguns mesmo sem arma.

(Agora sim, está tudo perdido! Que vergonha! E logo eu, neto de um herói de Chaimite!)

Recomposto o Caco, olhou-me uma última vez e disse:

− Já vi tudo!.

Ao encaminhar-se para o helicóptero, ainda lhe ouvi comentar para a comitiva:

−  Porra, que não é só o alferes! Estão todos apanhados!

Deve porém ter ficado bem impressionado, pois três dias depois voltou. Eu não estava. Tinha ido a Fá, buscar uma garrafa de uísque, prenda mensal do capitão João Bacar Djaló

Contou-me o Branquinho que, quando o informaram da minha ausência, Sua Excelência exclamou:

− Ainda bem!

© Jorge Cabral (2006).

(Revisão / fixação de texto, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Estou em crer que esta relação dos militares mobilizados para a guerra colonial com os filhos menores era campo não desvendado nos estudos da guerra colonial. Quero confessar desde já que é uma literatura arrebatadora, as autoras rendilharam à perfeição estes encontros com antigos combatentes e descendência. Como escreve Aniceto Afonso no prefácio: "As cartas entre pais e filhos, normalmente ainda crianças, levam e trazem emoções especiais e sentimentos íntimos que devemos olhar com delicadeza e compreensão. Fazer história obriga-nos a considerar também estes casos singulares das relações com as crianças, o que nem sempre é um caminho fácil." Um livro maravilhoso, vale a pena dissecá-lo, de fio a pavio. Recomendo-o sem qualquer hesitação, talvez seja uma ajustada prenda de Natal para os nossos netos, que não viveram nem viverão as ausências de que aqui se fala.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu - 1

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação. Há estudos sobre as mulheres e a guerra, sobre a correspondência entre namoradas, noivas e mulheres e os combatentes, as enfermeiras-paraquedistas, os capelães militares, diários de quem combateu em terra, no mar e nos céus, a correspondência das madrinhas de guerra, mas permanecia no limbo saber-se algo da relação dos militares mobilizados para a guerra colonial com os filhos menores que ficaram na metrópole ou vieram nascer na sua ausência. Como escrevem as autoras, em aerogramas escritos e desenhados, o militar vai desempenhando o seu papel de pai; os filhos, do seu lado, consoante a idade, vão respondendo da maneira que conseguem, por vezes com a ajuda das mães, dos irmãos ou de outros familiares. É este vai e vem de correspondência que nos abre um campo de reflexão muito particular sobre as ideias de família numa sociedade em mudança, a par dos valores e dos contextos sociais que marcaram uma época fundadora da história do país.

Como é evidente, as autoras apresentam uma amostra que porventura reflete perfeitamente as relações e os sentimentos desse tempo de ansiedade. E não deixam de anotar que pouco conhecemos sobre a correspondência trocada entre os homens que foram mobilizados para combater em África e as suas famílias e amigos – muitas surpresas terão os investigadores quando vasculharem o que já está em depósito no Arquivo Histórico-Militar e afins.

O pontapé de saída é dado por Albano Mendes de Matos, tinha 92 anos quando interpelado pelas autoras, estão presentes a mulher e duas filhas. Albano fez três comissões militares, parte para Angola no verão de 1961 e regressa da sua terceira comissão da Guiné no último avião que sai de Bissau, em outubro de 1974. Ao longo de 13 anos, registou datas, ocorrências, leituras, pessoas com quem se cruzava, pensamentos em relação ao que observava. Quando parte para a sua primeira comissão ainda não está casado, regista durante a viagem, e muito criticamente, as condições em que vivem os soldados amontoados nos porões. Nesta primeira comissão irá escrever à namorada e à família, perdeu-se a correspondência.

Regressa a Angola em setembro de 1963, é já 1.º sargento. Já nasceu a filha mais velha, tempos depois manda vir a família para junto de si, vivem em Piri. Às vezes, de madrugada, ouvem-se gritos. Diz Albano: “O quarto estava em frente do edifício da prisão. Os gritos, às três da manhã… aplicavam castigos aos trabalhadores contratados, davam palmatoadas e batiam com chicote.” A menina assustava-se. A meio da comissão vão para Santo António do Zaire.

Regressado a Lisboa, Albano faz vários cursos e é promovido a oficial a sua terceira e última comissão é na Guiné. A família fica, a filha mais nova é internada num hospital ortopédico. As filhas recebem correspondência do pai. Os aerogramas que Albano escreve à filha hospitalizada centram-se na saúde, nas intervenções cirúrgicas e no internamento:
“Querida Lúcia Para o mês que vem vais ao hospital e depois já falta pouco tempo para estares boa. Tens de ir e não chorar, que é para deixares a cama depressa.
Vou mandar a coleção dos cães. Depois pões num álbum e dizes que foi o pai que mandou quando esteve na Guiné. Muitos beijos do teu pai Albano.”


Ambas as filhas afirmam que o pai mandava muitas fotografias e telefonava. Albano escrevia de forma diferente para a filha mais velha. Faz uma leitura atenta do que a filha escreve e corrige-a, observando:
“A palavra aonde é um advérbio relativo, quer dizer movimento, para onde se vai; onde é advérbio relativo e significa que uma coisa está parada. Ambos dão ideia de lugar. Aonde vais?, quer dizer que uma pessoa vai em movimento. Onde estás?, quer dizer que uma pessoa está parada no lugar. Perguntas coisas que eu respondo.” Albano, como se disse atrás, regressará no último avião militar que deixa a Guiné, 14 de outubro de 1974: “Acabou-se o império ali. Depois comecei a pensar na gente que morreu, comecei a pensar nisso, chorei.” Nas suas notas escreve: “A um sentimento de alegria, por ter terminado a guerra colonial, e a alguma tristeza por naquelas terras ficar muito sangue português, juntava-se a vivência rara de ver nascer uma nação livre e independente.” Na despedida, Albano faz uma última confissão às autoras: “Passei anos a sonhar com a guerra. Nunca conseguia regressar. Ou me faltava a roupa ou me faltavam os sapatos.”

Zé Afonso da Silva Neto é a segunda história para contar. Quatro aerogramas, duas cartas com envelope, uma fotografia a preto e branco e uma folha de calendário do dia 5 de agosto de 1967 é tudo o que existe e testemunha a sua relação escrita que manteve com as três filhas enquanto esteve ausente na guerra. A maior parte da correspondência que trocaram ter-se-á perdido ao longo dos anos nas várias mudanças de casa. As autoras conversam com a filha mais velha, Isabel. José Neto era militar do quadro permanente, partiu para Macau em 1951, aqui conhece a mulher, casam ele com trinta anos ela com dezassete. Regressam de Macau e ficam em Leiria. Em 1962, parte para Angola, a mulher está grávida da segunda filha.

Quando regressa, vão viver no Bairro dos Sargentos em Leiria. A terceira comissão é em 1966, a terceira filha, Ângela, a quem o pai chama a Carochinha, tem um ano e três meses, Zé Neto vai para a Guiné. Deste tempo que a família sabe está contado num livro que o pai deixou no computador. José Neto não falou à mulher nem às filhas sobre as comissões. Esteve na Guiné de 1966 a 1968, o livro reproduz imagens dele em Guileje. Na Guiné afeiçoa-se a uma criança, filho de um oficial branco que estava na Companhia com uma miúda da aldeia. A filha Ângela observa às autoras: “Eu acho que o meu pai deu ao miúdo aquilo que não nos pôde dar. Era da minha idade, nasceu em 1965 e, portanto, o meu pai transportou para ele algum do amor que tinha para dar.”

Haverá dramas na unidade militar do José Neto, um soldado transtornado pegou numa arma e matou o capitão. Em 1970, José Neto parte para a quarta comissão, vai juntar-se ao BART 2896, em Cazombo, Alto-Zambeze. Ângela recebe uma carta do pai quando faz cinco anos. Envia-lhe também fitas com conversas e canções. José Neto regressa em 1971 para frequentar o curso de oficiais, vem muito magro e a sofrer de uma úlcera de origem nervosa. Isabel comenta para as autoras: “Para mal ou para bem, nós passámos por isto. Os nossos pais passaram por isto e eu acho que faz parte da história, que não se deve apagar da história de um país.” E a filha Ângela também comenta: “Até porque nós, filhos, uma parte de nós é como se tivéssemos uma tatuagem: o meu pai esteve no Ultramar e não cuidou de mim. Não pôde cuidar de mim como os outros pais puderam educar os outros filhos. Para o bem e para o mal, foi a pessoa mais importante nas nossas vidas.”

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 27 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27863: Notas de leitura (1908): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (8) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)


Luís Graça & António Fernando Marques 
(CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1968/71)



Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > 10 de agosto de 1968 > CCS/BCAÇ 1933 e CART 1774 > Levantamento de uma mina A/C reforçada, com duas granadas de LGFog, checas (Pancerovka P-27). Foi detetada por picadores da CART 1744. E levantada pelo alf mil MA Machado, da CCS / BCAÇ 1933, já falecido.

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzida com a devida vénia).

Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Quem um dia caiu numa mina anticarro, russa, TMD (6 kg, mas geralmente reforçada), e safou-se para poder contar aos netos, tem curiosidade em saber a que altura subiu com a sua GMC de 2,5 t...mais os seus companheiros de infortúnio...Essa pergunta fez-ma, há muitos anos, o António Fernando Marques (que entrou para a Tabanca Grande em 2010).

É uma curiosidade legítima que eu, no entanto, nunca tive.  Sei que ele voou mais alto do que eu: ia sobre o rodado duplo da GMC do lado direito,  que acionou a mina, e eu ia no "lugar ao morto", ao lado do condutor, na cabine, fechada. Foi em Nhabijões, em 13/1/1971, há 55 anos (*).  O coicde foi atrás, a GMC afocinhou, é o que eu me lembro.

O Marques esteve 17 dias em estado de coma, no HM 241, em Bissau, e mais 2 anos em recuperação em Lisboa. Eu salvei-lhe a vida, consegui levá-lo, a ele e aos feridos mais graves, até Bambadinca, num Unimog 404, onde já nos esperava o heli AL III.  Mas nunca lhe respondi à sua pergunta ("a que altura voou a nossa GMC").  Não é tarde para o fazer, recorrendo às ferramentas de IA que hoje estão disponíveis (**).

A nossa GMC, de chassi aberto, carregada com 22 homens, equipados, ficou toda torcida e partida.  O rodado duplo desapareceu, tal como o semieixo. Os homens que iam na parte de trás voaram alguns metros. A GMC não mais do que  2, 3 ou 4 metros, segundo as contas abaixo discriminadas. (Em rigor, é difícil responder à pergunta.)


I. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar... Até que altura ?


Podemos fazer uma estimativa física muito grosseira, apenas para ter ordem de grandeza. Na realidade, explosões no solo são extremamente ineficientes a transferir energia para levantar um veículo inteiro.

1. Equivalente explosivo

  • Mina TMD: ~ 6 kg de TNT | 2  granadas Pancerovka P27: 3,75 kg cada → 7,5 kg
  • Total aproximado: 13,5 kg de TNT
  • Energia total libertada:13,5×4,2≈56,7 MJ 13,5×4,2≈56,7 MJ


2. Energia que realmente levanta o camião

Num rebentamento sob um veículo, só uma pequena fração da energia vai para o movimento do veículo: grande parte perde-se no solo; outra parte destrói o chassis; e outra sai em onda de choque lateral.

Valores plausíveis de acoplamento energético: 0,5% a 2%.

Energia transmitida ao camião: 
0,5% → 0,28 MJ |  1% → 0,57 MJ |  2% → 1,13 MJ

3. GMC de 2,5 toneladas

Massa ≈ 2500 kg

Altura máxima se toda essa energia virar energia potencial:ℎ=𝐸𝑚𝑔h=mgE​

Resultados aproximados:

Fração da energia | Altura teórica

0,5 % ~ 11 m
1 % ~ 23 m
2 % ~ 46 m

4. O que acontece na realidade

Na prática quase nunca sobe assim: o veículo parte-se ou roda antes de subir verticalmente,  a explosão cria impulso inclinado, o solo absorve grande parte da energia.

Em incidentes documentados (minas anticarro de 6–10 kg): camiões de 2–3 t são lançados ou capotados, podem saltar alguns metros, muitas vezes ficam virados ou destruídos, não “projetados” para cima.

Estimativa realista: um GMC de 2,5 t provavelmente seria levantado ou atirado 2–5 m, podendo capotar ou ser deslocado lateralmente vários metros.

Curiosidade histórica: na guerra colonial na Guiné, minas com 6–8 kg de TNT já eram suficientes para destruir ou lançar Unimogs e Berliets, mesmo sem reforço de outras cargas.


II. E já agoera: por que motivo as minas enterradas são muito mais eficazes a levantar veículos do que cargas equivalentes detonadas à superfície ? 

A razão é essencialmente física das explosões e confinamento do gás.

1. Explosão à superfície




Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está à superfície: a detonação gera gases a pressões enormes (centenas de milhares de atmosferas); esses gases expandem-se livremente para todos os lados

O resultado é: a energia espalha-se em hemisfério; grande parte vai para o ar; outra parte vai lateralmente

Consequência: apenas uma pequena fração atinge o veículo.

Mesmo com dezenas de kg de TNT, o veículo pode ser empurrado ou danificado, mas raramente “disparado” verticalmente.

2. Mina enterrada







Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está enterrado acontece algo diferente:

o solo funciona como confinamento; a  detonação cria gases a altíssima pressão; o  solo bloqueia a expansão lateral.

A energia concentra-se no caminho de menor resistência: para cima. Forma-se então um jato de solo e gases (soil ejecta jet) que pode atingir: 200–300 m/s, centenas de kg de terra projetada. Esse jato funciona como um martelo hidráulico contra o fundo do veículo.

3. Efeito no veículo

O que levanta o veículo não é só a onda de choque, mas: o jato de terra; o impulso súbito concentrado numa pequena área; a pressão confinada.

Por isso minas relativamente pequenas conseguem: arrancar eixos; rasgar o fundo; lançar o veículo para cima.

4. Comparação simples

Situação > Energia que chega ao veículo

Explosão à superfície ~0,1–0,5 %
Carga enterrada ~1–5 %

Ou seja, 10 vezes mais eficaz.

5. Um detalhe curioso da guerra na Guiné

Muitos guerrilheiros do PAIGC aprenderam rapidamente que enterrar bem a mina e colocar terra bem compactada por cima aumentava muito o efeito.

Há vários relatos de Unimogs ou Berliets lançados para o ar, às vezes capotando completamente.

(Pesquisa: LG + IA /Chat OpenAI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)


III. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar (carregada com mais 22 homens, equipados, duas secções de um pelotão)... Até que altura ?

Luís Graça, a tua pergunta é técnica e envolve cálculos de física balística, explosivos e dinâmica de estruturas — áreas complexas que dependem de muitos fatores, como a posição exata das cargas, a geometria do alvo, o tipo de solo, a distribuição de peso na viatura, e até a qualidade da soldadura e do aço da GMC.

Análise qualitativa (baseada em princípios físicos e experiências históricas):

1. Energia liberada:

  • a mina TMD-44 russa tem cerca de 6 kg de TNT;
  • cada granada Pancerovska P27 checa tem 3,75 kg de trotil (TNT).
  • total de explosivo: ~13,5 kg de TNT.
  • a energia libertada por 1 kg de TNT é de cerca de 4,184 MJ, logo ~13,5 kg libertariam ~56,5 MJ.
2. Efeito em viaturas:

Uma GMC (como a GMC CCKW de 2,5 toneladas) tem um centro de gravidade alto e uma estrutura robusta, mas não blindada.

Minas anticarro são projetadas para perfurar ou deformar a estrutura do veículo, mas o efeito de "lançar ao ar" depende da distribuição da explosão (se for sob as rodas ou o chassis, o efeito é maior).

Granadas de bazuca (como a P27) são projetadas para perfurar blindagem, mas aqui estão a ser usadas como carga adicional, aumentando a energia total.

3. Altura estimada:
  • em casos documentados (ex.: minas sob viaturas leves), o veículo pode ser lançado 1 a 3 metros de altura, dependendo da posição da carga e da resistência estrutural.
  • com 13,5 kg de TNT, é plausível que uma GMC seja lançada até 2-4 metros de altura, mas a maior parte da energia seria absorvida pela deformação da estrutura e projeção de fragmentos;
  • se a carga estiver bem posicionada (ex.: sob o eixo traseiro), o efeito pode ser mais dramático, mas dificilmente ultrapassaria 5 metros devido ao peso e inércia da viatura.
4. Fatores limitantes:

O peso da GMC (2,5 toneladas + 22 homens equipados ~3 toneladas) requer uma quantidade significativa de energia para ser levantado.

A maior parte da energia seria gasta em deformar o chassis e projetar fragmentos, não em movimento vertical puro.

Em testes militares, viaturas semelhantes são geralmente capotadas ou partidas ao meio, mas não necessariamente lançadas a grandes alturas.

5. Conclusão prática:

Com essa configuração, é improvável que a GMC seja lançada a mais de 3-4 metros de altura. 

O mais provável é que a viatura seja severamente danificada, capotada ou partida, com fragmentos projetados a dezenas de metros. 

Em casos extremos (carga idealmente posicionada e solo firme), poderia atingir até 5 metros, mas a energia seria maioritariamente dissipada em destruição estrutural.

  (Pesquisa: LG + IA /Le Chat Mistral AI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de janeiro de 2024 > Guiné 63/74 - P25065: Efemérides (425): O António Marques, meu companheiro de infortúnio, na CCAÇ 12, cujo relógio parou às 13h30 do dia 13 de janeiro de 1971: nunca se esquece de me telefonar todos os anos, neste dia e hora (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"