terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19302: (Ex)citações (348): O 'cinema Paraíso'... de Fajonquito e de Nova Lamego.. Recordações de nhô Manel Djoquim, o homem do cinema ambulante (Cherno Baldé / Vital Sauane)


Guiné > s/l> s/d> c. 1943/73> O caçador e empresário de cinema ambulante Manuel Joaquim dos Prazeres.

Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Bafatá > Contuboel > 1969 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > O Valdemar Queiroz a ver os cartazes, espetados numa árvore, do filme da semana : Riffi em Paris, película francesa, de 1966, dirigida por Denys de La Patellière e com Jean Gabin no principal papel... Filme de gangsters, popular na época... Chegava à Guiné três anos depois...Melhor do que nada... Hoje os guineenses não têm uma única sala de cinema..  Uma ternura (e uma preciosidade), esta foto!... A "fábrica de sonhos", ambulante,  era a da nhô Manel Joquim. Com ele, a "sétima arte" chegava a sítios recônditos de África...

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz  (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Cartaz do filme "Cinema Paraíso", de
Guiseppe Tornatore (1988), um daqueles
filmes que a gente não se cansa ver e rever...
Estreou em Portugal em 1990.
Fonte: Wikipedia
1. A história do nho Manel Djoquim, caçador, fotógrafo, homem dos sete ofícios, empresário de cinema ambulante em Cabo Verde (1929/1943) e depois na Guiné (1943/73), agora posta em biografia (ficcionada) pela sua filha Lucinda Aranha Antunes (*) , dava um belo filme como o inesquecível "Cinema Paraíso" (1988), escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore, com música de Ennio Morricone. Aliás, Cabo Verde e a Guiné desse tempo têm matéria-prima para grandes filmes...

Visto do séc. XXI, o Manuel Joaquim dos Prazeres só pode ser um descendente direto dos "lançados", dos grandes aventureiros de Quinhentos, do tuga que ama a Áfria e os grandes espaços, e as suas gentes... E que sabe fazer a ponte entre a natureza e a cultura, a geografia e a história, o real e o imaginário, os bichos e os homens...

Eu vi, por certo, algum filme dele, projetado na parede ds instalações do comando ou no refeitório das praças, em Bambadinca (entre julho de 1969 e março de 1971) e, antes, em Contuboel, em junho e julho de 1969... Aliás, vários de nós têm ainda uma vaga lembrança dele...

Mas deixemos antes aqui, recuperados, os depoimentos (emocionados) de dois guineenses, que eram crianças nesse tempo do cinema ambulate de nhô Manel Djoquim: o nosso Cherno Baldé, gestor de projetos, e o empresário Vital Sauane, curiosamente dois guineenses que completaram a sua formação académica, pós-graduada, na "minha" escola, o ISCTE-IUL. 


(i) Comentário de Cherno Baldé (, natural de Fajonquito, gestor de projetos, nosso colaborador permanente)  ao poste P13022 (**), de 23 de abril de 2014:

O Manel Djoquim (Manuel Joaquim), o Homem do cinema ambulante:

“Nestas suas andanças lá ia com a sua velha Ford, gerador, projector, ecrã, filmes os mais inócuos possíveis (capa e espada, cowboys, musicais, comédias, dramas), os seus ajudantes nativos (...)  cinco pesos e leva cadeira...”...

Era conhecido em toda a Guiné e em todas as aldeias, naturalmente, pelas pessoas daquele tempo, isto é,  pessoas com idade igual ou superior a 50 anos.

Eu conheci o Sr. Manuel Joaquim desde os meus 8/9 anos de idade em Fajonquito. Ele vinha à nossa aldeia, pelo menos, uma vez, em cada 2/3 meses, no seu velho camião carregado da sua máquina de sonhos para nos alegrar, e foi graças a ele que fomos descobrindo grande parte da cultura ocidental estilizada em gestos ousados, olhares atrevidos, carícias públicas e mil pedacos de um universo que entrava pouco a pouco dentro da nossa forma de ser e estar na vida.

Pessoalmente, para o resto da minha vida estaria marcado pela postura e coragem dos actores (Cowboys e Índios indomáveis), o que, no fundo, era muito parecido com aquilo que nos tentavam inculcar nas nossas cerimónias iniciáticas designadas de Fanado tradicional.

Dele ainda recordo-me dos seus enormes calções, meias esticadas até aos tornozelos e chapéu de abas largas, tipo Cipaio. A certa altura, um dos seus ajudantes era o Camões (zarolho) e por isso acreditavámos que com esta limitação visual podiamos sempre aproveitar para entrarmos sem que ele nos visse. Normalmente eramos apanhados e soltos de seguida dentro do recinto fechado para a projeção do filme.

Naquela idade não precisávamos de cadeiras, e quando a projeção se iniciava, pouco a pouco, enchíamos o recinto, acabando por nos sentarmos mesmo por baixo do pano das imagens, importante mesmo era entrar e assim poder participar, no dia seguinte, de mais um episóio marcante, uma história de vida que só voltaria a acontecer passados 2 ou 3 meses.

Quem não ficava contente com a chegada do Manel Djoquim eram as nossas pobres mães, pois sabiam que ele vinha, por certo, roubar, através dos seus filhos as pequenas economias conseguidas durante semanas ou meses com muito suor e canseira. (...)


Convite para a apresentação do livro de poesia "Mundo di Bambaram",  de Vital Sauane, empresário de futebol, descobridor de talentos do futebol guineense... Lisboa, 28 de dezembro de 2018, pelas 18h00, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Lisboa, Campo Grande.


(ii) Comentário de Vital Sauane [ natural de Nova Lamegio, mestre em Sociologia pelo ISCTE (2011/13), poeta, empresário de futebol, dono da Academia Vitalaise, em Bissau,] ao poste P12991, de 15 de abril de 2014 (***)

Cara Lucinda Aranha, é com grande satisfação que encontro este Blog, hoje é o dia em que regressei à minha terra natal por vários motivos, em primeiro lugar recordei da minha querida mãe que me deu tudo e mais alguma coisa, mas de repente veio à mente um senhor que fazia filmes na época colonial chamado Manuel Joaquim (Manel Djoquim, para todos os Guineenses).

Venho por este meio agradecer ao seu pai, porque eu adorava cinema, era muito novo, estava perto de completar os 5 anos aproximadamente, lembro-me sempre de pedir dinheiro a minha mãe para ir ver os filmes, na maioria das vezes não pagava porque os guardas da Casa Gouveia conheciam-me porque levava leite de vaca para os donos da Casa Gouveia [, em NovaLamego].

Os filmes eram projectados no quintal da Casa Gouveia, eu não queria ir à escola porque não era tradição na minha família alguém ir para escola, mas estava sempre a perguntar o que se passava nos filmes e como as pessoas estavam muito concentrados para ler a legenda não dava para me explicarem sempre o que se passava, um dia disse para a minha mãe que gostaria de perceber o que se passava nos filmes porque ninguém me explicava nada, ela disse me então chegou altura de pensares seriamente em ir para a escola, aceitei de imediato porque percebi de que sem a escola não poderia interpretar os filmes.

Comecei a ter explicação numa senhora portuguesa que era professora primária, morava ao pé da minha casa, nunca mais abandonei a escola, não sou ninguém mas pelo menos sou aquilo sou graças ao seu pai, talvez se o senhor Manel Djoquim nunca tivesse chegado a Nova Lamego eu seria uma outra pessoa, até poderia ido à escola mas não seria da forma que aceitei e gostei da escola.

Hoje passado todo este tempo recordo-me dos bons tempos da minha cidade, e como o seu pai nos ajudou a ver o mundo, nem rádio tínhamos em casa, de repente a começar a ver filmes, Tarzan, Sandokan,  o Tigre da Malásia, Pierre Brice  & Les Barker, como nos ensinou a ver outro lado do mundo através dos filmes, o seu pai era um homem bom, nunca ralhava com as crianças, sempre que notava que as crianças estava a furar a barreira fazia de conta que não estava a ver, ele amava a sua profissão, gostava do povo, sentia o povo, com os seus calções que ficaram eternizados mesmo depois da sua partida, calções de Manel Djoquim. 

Ficámos órfãos de tudo, a Guiné tem hoje mais Tarzans do que a própria selva, em cada esquina encontra-se Far West, o país está em autêntico declínio, Salteadores da Arca Perdida dentro do próprio Estado, a guerra dentro da cidade destruiu a capital por completo, fome e miséria por toda a parte, se há coisa que tenho saudades é dos bons tempos dos filmes de nhõ Manel Djoquim, que a sua alma descanse em paz, mais uma vez muito obrigado por partilharem estes momentos, obrigado aos donos do Blog, quem sabe um dia venho com mais historias de Nova Lamego onde tenho orgulho de ter nascido (...) . (****)

Vd. também postes de 

17 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19300: Notas de leitura (1132): “O Homem do Cinema, A la Manel Djoquim i na bim”, por Lucinda Aranha Antunes; edição da Alfarroba, 2018 (1) (Mário Beja Santos)


19 de junho de 2014 > Guiné 63/74 - P13307: Notas de leitura (602): "Onde se fala de Bissau", do princípio dos anos 50, da UDIB... Um excerto do próximo livro de Lucinda Aranha dedicado a seu pai Manuel Joaquim, empresário e caçador em Cabo Verde e Guiné (Lucinda Aranha)




(****) Último poste da série > 11 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19279: (Ex)citações (347): Os problemas do PAIGC na logística de saúde em 1965, na frente norte, tempo em que a CCAÇ 675 ali se encontrava em quadrícula (José Eduardo Oliveira)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19301: Estou vivo, camaradas, e desejo-vos festas felizes de Natal e Ano Novo (3): Jorge Araújo, ex-fur mil op esp / ranger, CART 3494 (Xime, Pte R Udunduma e Mansambo, 1972/74)



Guiné > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Xime > CART 3494 (1972/74) > Dezembro  de 1973 > Destacamento da Ponte do Rio Udunduma > "Rotunda da ponte", com o único monumento erigido à companhia, em todo o CTIG.

Foto (e legenda): © Jorge Araújo (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil Op Esp /RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974); coeditor do nosso blogue.

- BOM NATAL E UM ANO DE 2019 PLENO DE FELICIDADE -
Na presente quadra festiva, onde se inclui o NATAL e a entrada no NOVO ANO, aproveito para enviar a todos os camaradas da tertúlia, e suas famílias, uma MENSAGEM DE BOAS FESTAS, bem como a todos os leitores do nosso blogue, de todas as gerações.
- CURIOSIDADE
Para memória futura, aqui vos deixo mais uma pequena história da História colectiva da CART 3494.

A imagem do postal de "BOAS FESTAS" corresponde ao Destacamento da Ponte do Rio Udunduma, situado a quatro kms de Bambadinca (para leste), na estrada que ligava esta localidade (sede do BART 3873) e o cais do Xime, a sete kms (para oeste). Foi aí que, durante nove meses, esteve instalada a CART 3494, com metade de um GrComb, no período entre Junho'1973 e Fevereiro'1974.

No interior do círculo a vermelho da foto acima foi erigido o único monumento (símbolo) que a CART 3494 deixou no CTIG, durante a sua comissão de serviço ultramarina. Foi inaugurado durante o mês de Dezembro de 1973, fez quarenta e cinco anos, tendo sido baptizado como "ROTUNDA DA PONTE", uma vez que à sua volta o terreno foi preparado - capinado e alisado - para funcionar como rotunda onde se deveria observar as regras de trânsito, com circulação obrigatória em seu redor.
QUE TENHAM UM BOM NATAL
E UM ANO DE 2019 COM MUITA SAÚDE
Com um forte abraço de amizade,
Jorge Araújo.
17DEZ2018

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Guiné 61/74 - P19300: Notas de leitura (1132): “O Homem do Cinema, A la Manel Djoquim i na bim”, por Lucinda Aranha Antunes; edição da Alfarroba, 2018 (1) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Dezembro de 2018:

Queridos amigos,

A cena passou-se em Bambadinca, era um amplo terreiro, não muito longe do porto, descíamos a rampa do quartel, no baixio entrávamos num recinto, um jovem cobrava a entrada, quando lá cheguei para ver o filme "A Operação V2", com a Sofia Loren, o recinto estava praticamente repleto, fiquei perto de uma máquina, uma barulheira ensurdecedora, o ar empestado pelo escape.

Muitos anos depois, conversando com o nosso camarada Vacas de Carvalho, ele recordou-me outros filmes, como "Hércules contra o Ciclope", com o atlético Steve Reeves. Era assim o cinema do Manuel Joaquim para mitigar o mundo de abandono social em que vivíamos, aquele cinema era uma bênção de entretenimento.

É este o meu agradecimento a título póstumo.

Um abraço do
Mário


Com o Manuel Joaquim, o cinema chegou a toda a Guiné (1)

Beja Santos

É possível questionar se a obra “O Homem do Cinema, A la Manel Djoquim i na bim”, por Lucinda Aranha Antunes, edição da Alfarroba, 2018, é um romance, um relato memorial ou uma investigação de caráter biográfico. Um homem dos sete ofícios, apaixonado pela mecânica, parte da Europa para Cabo Verde e daqui para a Guiné, já com família constituída. A narrativa de Lucinda Aranha Antunes começa num quase presente e num quase presente desagua, num tumulto de revelações e mágoas. É um texto intercultural, o crioulo está sempre presente, Manuel Joaquim e Julinha, a sua amada esposa, pontificam, com filharada, criadagem, amigos certos e desertores nas horas incertas.

Manuel Joaquim é seguramente uma figura com contornos de lenda. Começou em Bolama, com sessões de cinema na Associação dos Bombeiros da cidade, eram exibidos documentários de guerra e atualidades, porque em guerra se vivia.

Manuel Joaquim dos Prazeres chega a África em 1928, vem trabalhar na instalação da Central Eléctrica e da Rádio Marconi na Cidade da Praia, Ilha de Santiago. Para angariar mais uns cobres, fez-se sócio de uma oficina-garagem, mas a atração para a projeção de filmes é muito forte.

De vez em quando vem até Lisboa e no Capitólio, em cinema ao ar livre, viu “O Gigante”, onde triunfavam James Dean, Rock Hudson, Elisabeth Taylor e Carroll Baker. E a autora dá explicações para esta aventura cinematográfica:

“Alugava os documentários de atualidades e as fitas na Tobis, na J. Castello Lopes, na Pathé, na SPAC. Acautelado pela ação da PVDE sobre o Eden-Park, o cinema do Mindelo, em 1930, escolhia filmes que lhe evitassem confrontos e trabalhos e garantissem audiências. Primeiro, mudos como os do Charlot, muitas vezes censurados, do Buster Keaton, do Douglas Fairbanks e, mais tarde, sonoros. Foram grandes êxitos o “Drácula” com Bela Lugosi, o “Frankenstein” com Boris Karlof, o “King Kong”, “O Feiticeiro de Oz”, os irmãos Marx, as coboiadas, a Carmen Miranda, os filmes românticos, de capa e espada, de gangsters, e de uma maneira geral, as comédias portuguesas cheias de cançonetas".


Temos um bom enquadramento da vida na Cidade da Praia nas décadas de 1920 e 1930, as fomes, as secas, as amizades, o trabalho de Manuel Joaquim, a vida social e cultural e até referências a controvérsias maiores, caso da conferência em que o Dr. Luís Chaves, Conservador do Museu Etnológico, defendeu que os mestiços eram seres inferiores, degenerados, incapazes de produzir obra literária, caiu-lhe o Carmo e a Trindade, vieram a terreiro vários intelectuais contestar a monstruosidade.

Depois aconteceu a paixão pela Julinha, que parecia sufocar naquela ilha com água por todos os lados, dirá mais tarde que a Guiné lhe surgiu como uma libertação de pesadelos. O fervilhar desta vida cabo-verdiana é um monumento literário, até etnológico.

E depois Bolama, a Bolama onde havia aeroporto que recebia quinzenalmente o Clipper da Pan American. Manuel Joaquim decide no final da guerra que a família deve regressar à Metrópole, ele está entregue à mecânica e à caça e à paixão pela fotografia, está ofuscado pelo cinema:  

“Comprou uma carrinha Ford modelo A, que modificou, reforçando-a com eixos e pneus grossos, sobrelevando-a e adaptando o motor para ter mais força, de modo a potenciar o sistema de locomoção. Nela transportava toda a parafernália de que precisava para o dia-a-dia mato a dentro. Levava a máquina de projetar, o ecrã, o gerador próprio de escape livre, bem barulhento, máquinas de ferramentas, uma tenda, uma cama de campanha, um mosquiteiro, latas de 20 litros de combustível, que depois de esvaziadas também lhe serviam para o duche apetecido. Soldava-se-lhes um ralo, enchiam-se de água fervida, penduravam-se numa mangueira e era de sentir a água cair pelo corpo. Com ele viajavam também mudas de roupa, produtos de higiene, conservas e chocolates Cadbury de que era muito guloso (…) 

"O Manuel Joaquim andava sempre armado, possuindo uma Flaubert, uma carabina para atirar ao alvo e uma caçadeira calibre 12, automática, que funcionava com um carregador de cinco cartuchos. Estes eram os apetrechos de que se servia para a caça a crocodilos, onças, jibóias, zebus, cabras do mato, a um ou outro hipopótamo e até a pequenos tubarões, os caúdos. Caçava-os quando do macaréu do Rio Geba ao encontrar-se com o Corubal, que sedava quando a maré subia até trinta metros, enrolando as águas num enorme estrondo”.

Mas havia mais: uma laica completa, com lentes de todos os campos focais. Dormia na sua carrinha, a sua casa em solo guineense, durante a época seca, recusava todo e qualquer convite para pernoitar nas casas dos amigos do mato. Era o homem errante, levava o cinema ao ponto mais remoto do mato. Tornou-se um exímio caçador e vendedor de peles, como a autora observa:

“Conservava as peles com sal, em barris de cem litros, que despachava para a Amram & Filhos, e, mais tarde, para o David Kit, quando chegava a Bissau".

Beneficiou da melhoria das estradas, um dos trunfos da política do Governador Sarmento Rodrigues. O que ele mais temia não eram as estradas do mato mas a viagem Bissau-Bolama.

“O barco regulava-se pelo horário das marés e fazia-o perder horas até ao piloto ter o mar cheio para poder navegar, embora o motor Else, comprado em 1943, tivesse facilitado, sem resolver o problema das comunicações entre as duas cidades”.

Era muito exigente com os seus colaboradores e estava permanentemente atento às golpadas que se pudessem tentar nas bilheteiras. Habituou-se ao mato, por vezes limitava-se à autossubsistência, caju, mangas, cocos. Como era um mecânico exímio, estava permanentemente a ser solicitado para reparar motores e geradores.

“Quando os administradores e os chefes de posto se viam em apertos punham-se em contacto uns com os outros via rádio para avisarem o homem do cinema que estavam sem eletricidade, e lá ia ele, nem que estivesse a 100 ou mais quilómetros, e só saia da povoação quando os motores estavam reparados”.

(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19291: Notas de leitura (1131): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (64) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19299: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (110): "Estou muito feliz com a minha nota e foi graças a vocês" (Adelise Azevedo, de 14 anos, a viver no norte de França, junto à fronteira com a Bélgica, em Wattrelos; neta do nosso camarada José Alves Pereira, CCAÇ 727, Bissau, Nova Lamego, Canquelifá, Piche, 1964/66)





1. Mensagem de Adelise Azevedo, de 14 anos,  luso-francesa, filha de Isabel Pereira, neta de José Alves Pereira, ex-militar da CCAÇ 727, família que vive no norte de França, junto à fronteira com a Bélgica, em Wattrelos:

Bom dia Senhor Luis Graça,

após a entrega dos diplomas e boletins de notas em novembro, eu queria agradecer a vocês todos de me ter ajudado no meu projeto. (*)

Eu tive 90/100, os membros do júri apreciaram minha escolha de projeto. Era uma professora de História/Geografia e uma professora de Francês. A professora de Francês conhecia as obras do Senhor Mário Beja Santos, as duas ficaram emocionadas com a história dos combatentes da Guinée e a história de meu Avô.

Estou muito feliz com a minha nota e foi graças a vocês.

Aproveito para lhe desejar boas festas de fim de ano.

Beijinhos para todos.

Adelise

2. Comentário do nosso editor LG:

Querida Adelise, mamã Isabel e vôvô Pereira:

Mas que bela prenda de Natal!...A Adelise não pára de nos surpreender... E vemos que tem por detrás um grande família que é farol e porto de abrigo... 

Ficamos felizes por saber que o TPC ("Trabalho Para Casa") (sobre a guerra da Guiné, de 1961 a 1974) está feito e  a Adelise teve uma excelente nota. E vem agora mostrar a sua gratidão pela nossa modesta ajuda

A gratidão é um dos mais nobres sentimentos humanos. Ficamos sensibilizados pelo gesto da nossa amiguinha.  Aqui fica também o agradecimento dos editores do blogue aos nossos vários camaradas (Mário Beja Santos, José Martins, Manuel Luís Lomba, Virgílio Teixeira, António J. Pereira da Costa, Carlos Vinhal...) que responderam ao gentil pedido de ajuda da nossa "neta" Adelise... (Ela entende o português, mas escreve com a ajuda da mãe, Isabel Pereira.)

Deste nosso feliz encontro, fica uma marca (sob a forma de postes publicados). Mas gostaríamos também que o nosso camarada José Alves Pereira, avô da Adelise, que pertenceu à CCAÇ 727, ficasse mais tempo connosco, integrando formalmente a nossa Tabanca Grande... Bastaria, para tanto,  que a filha Isabel ou a neta Adelise nos mandasse duas fotos dele, uma do tempo da Guiné e outra atual, com uma pequena apresentação da sua pessoa... Sabemos que felizmente está vivo e já se tem encontrado, em Portugal, com os seus antigos camaradas de armas. 

Vou pedir também ao Manuel Luís Lomba, de Barcelos, que nos ajude no "acolhimento" deste nosso camarada. O Manuel Luís Lomba foi fur mil da CCAV 703/BCAV 705 (Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66), é da mesma altura do avô da Adelise, e também passou pelo Leste.

Sabemos que a CCAÇ 727 (Bissau, Nova Lamego, Canquelifá, Piche, 1964/66), só teve um comandante, o já falecido cap inf Joaquim Evónio Rodrigues Vasconcelos, e sofreu 18 mortos na guerra... Infelizmente não temos aqui ninguém que a represente.  Com a entrada do avô da Adelise, os bravos da CCAÇ 727 ficarão mais perto do coração de todos nós. (**)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 8 de março de 2018 > Guiné 61/74 - P18392: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (49): Adelise Azevedo, de 14 anos, a viver em Wattrelos, no norte da França, neta do ex-combatente José Alves Pereira (CCAÇ 727, Bissau, Nova Lamego, Canquelifá, Piche, 1964/66) pede-nos bibliografia e outra documentação para um trabalho escolar, "Passeurs de Mémoires", sobre a guerra colonial na Guiné

(...) Bon dia, Senhor Luis Graça,

Meu nome é Adelise Azevedo, sou a neta do Senhor José Alves Pereira (CCAÇ 727). Tenho 14 anos e estou no Colégio "Saint Joseph La Salle" em Wattrelos, no norte da França, perto da fronteira belga.

Eu tenho que preparar um exame chamado "Passeurs de Mémoires" ("Passadores de Memórias") para o mês de maio de 2018. Eu escolhi de falar sobre a guerrilha na Guiné de 1963 a 1974.

Tenho sorte de ter o testemunho do meu avô, mas você poderia, por favor, me enviar documentos, fotos ... deste período da história da Guiné e de Portugal e me comunicar títulos de livros, documentários ...

Com antecedência, agradeço sua ajuda.

Atenciosamente, delise Azevedo (...)



Vd. também postes de:

15 de março de  2018 > Guiné 61/74 - P18420: Consultório militar do José Martins (35): elementos para a história da CAÇ 727 (Nova Lamego, Canquelifá, Piche, 1964/66), que teve 18 mortos em campanha, incluindo o alf mil inf António Angelino Teixeira Xavier, natural de Carrazeda de Montenegro, Valpaços

Guiné 61/74 - P19298: Parabéns a vocês (1542): Francisco Henriques da Silva, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2402 (Guiné, 1968/70)

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Nota do editor

Último poste da série de 16 de Dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19295: Parabéns a vocês (1541): António Paiva, ex-Soldado Condutor do HM 241 (Guiné, 1968/70)

domingo, 16 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19297: Blogpoesia (599): "Esquecidos no mundo", "Escuro de breu..." e "Nevoeiro de Lisboa", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) estes belíssimos poemas, da sua autoria, enviados entre outros, durante a semana, ao nosso blogue, que publicamos com prazer:


Esquecidos no mundo

Não vivemos sozinhos, esquecidos no mundo.
Quando Deus nos criou, o mundo já existia há muito.
Não foi por acaso, mas para uma missão, que nascemos.
Foi inscrita em nós. Só há que segui-la.
Uma voz interior no la dita, a cada passo ou momento.
Estejamos atentos. Não ouçamos o mundo.
Temos a força. Temos a luz.
A vontade depende de nós.
O sabor da vida está no saber viver.
Vivamos unidos. A união esclarece e reforça.
O caminho suaviza. Parece mais curto.
Temos diferenças. Fazemos conjunto.
Cada um tem seu tom.
Deles depende a beleza final.
Um quadro harmónico.
Obra de todos.
Sucesso geral.

Ouvindo JS BACH - AIR ON THE G STRING - WHITWORTH HALL ORGAN - THE UNIVERSITY OF MANCHESTER - JONATHAN SCOTT
Berlim, 9 de Dezembro de 2018
7h58m
JLMG

********************

Escuro de breu...

Está escuro de breu, a poucos minutos de amanhecer.
O tempo em roda viva vem e vai.
Nos leva na sua órbita.
Espaço sideral.vivos de grandeza.
A caminho da infinita eternidade.
Saboreemos a viagem.
Tiremos dela o proveito do privilégio de ter nascido.
Deixemos gravada a nossa história em traços vivos de grandeza.
Sejamos nós na opulência da humildade.
Entrelacemos nossas forças para que o mundo seja e fique melhor do que estava na hora de nascer.
Saboreemos a abundância da mesa posta pelo nosso Criador.
Alcancemos a felicidade com gestos de paz e de harmonia, no local onde caminhamos.
Não sejamos nunca pesos mortos...

Berlim, 10 de Dezembro de 2018
7h23m
JLMG

********************

Nevoeiro de Lisboa

Lisboa ensonada acordou sob uma manta espessa de nevoeiro.
Reclinada sobre o Tejo ficou triste por não poder enxergar a distância de além.
Nem os cacilheiros aflitos, tacteando, passo a passo, as lonjuras do rio Tejo,
de Cacilhas para Lisboa.
Nem o Cristo salvador, nem a torre eremita de Belém.
As muralhas do castelo, lá no alto, furibundas, receando a invasão da mouraria.
A Estrela, com seu zimbório naufragado, pedia o sol libertador.
Nem as faíscas irritantes dos faróis conseguem esgaçar tão densa manta de nevoeiro.
Só o sol...

Ouvindo Carlos Paredes
Berlim, 13 de Dezembro de 2018
7h44m
JLMG
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Nota do editor

Último poste da série de 9 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19269: Blogpoesia (598): "Montanha verde da saudade", "Não sei para onde ir..." e "Nunca é tarde...", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P19296: (D)o outro lado do combate (40): A ambulância UAZ-452, de fabrico soviético, capturada ao PAIGC na região de Copá, junto à fronteira do Senegal, em fevereiro de 1974 (Jorge Araújo)


Foto nº 1 > PAIGC > s/d >  c. 1963-1973 > Uma das várias oficinas mecânicas exsitentes no exterior do território da Guiné, nomeadamente na região Norte (Senegal) e no Sul (Guiné-Conacri). Ao centro, mecânicos reparando um jipe. Ao fumdo, duas ambulâncias  UAZ-452.

Citação: (1963-1973), "Mecânicos reparando um jipe", CasaComum.org, Disponível: HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43356 (2018-12-13).

Fonte: CasaComum, Fundação Mário Soares. Pasta: 05222.000.305. Título: Mecânicos reparando um jipe. Assunto: Mecânicos reparando um jipe, Guiné-Bissau. Data: 1963-1973. Fundo: DAC – Documentos Amílcar Cabral. Tipo Documental: Fotografias.



Foto nº 2 > A ambulância soviética  "UAZ-452".

Fonte:   Blogue de Patrick Jarwoski, em português, Veículos e Armamentos Militares > 12 de junho de 2018 > UAZ-452 (com a devida vénia...)


Foto nº 3 > A ambulância soviética  "UAZ-452"...Um modelo mais recente.

 Fonte:   Blogue de Patrick Jarwoski, em português, Veículos e Armamentos Militares > 12 de junho de 2018 > UAZ-452 (com a devida vénia...)



Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil Op Esp / RANGER, 
CART 3494 (Xime-Mansambo, 1972/1974); coeditor do blogue


AINDA A AMBULÂNCIA "UAZ-452" DE FABRICO RUSSO CAPTURADA AO PAIGC, NA FRENTE LESTE, EM FEV'1974- CURIOSIDADES


1. INTRODUÇÃO

Como complemento ao conteúdo do P19286 (*), sobre a captura de uma ambulância ao PAIGC, durante a Op Gato Zangado, realizada em Fevereiro de 1974 na região Leste da Guiné, entre Copá e a fronteira do Senegal, tomei a iniciativa de partilhar convosco algumas curiosidades: operacionais e técnicas.

2. CURIOSIDADES

A ambulância em referência trata-se de um veículo modelo «UAZ-452», de fabrico russo, incluída nos apoios militares prestados ao PAIGC durante a guerra, onde constam mais algumas unidades iguais àquela, bem como de outros veículos com diferentes características e funções.

Considerando a sequência de fotos publicadas, e uma vez que o PAIGC possuía várias oficinas mecânicas no exterior do território da Guiné, nomeadamente na região Norte (Senegal) e no Sul (Guiné-Conacri), é aceitável considerar que a imagem acima [Foto nº 1],   de uma oficina de mecânica, poderia, bem ser, a da dita ambulância capturada, ou de outra semelhante.


CARACTERÍSTICAS DA AMBULÂNCIA "UAZ-452"



Eis algumas características da ambulância UAZ-452 (de acordo com Patrick Jarwoski):

(i) A produção do "UAZ-452" (vd. foto nº2, acima]  começou em 1965;

(ii) O "UAZ-452" foi produzido em grande número para fins  civis e militares;

(iii) Foi exportado para os antigos países do Pacto de Varsóvia e para outros países onde a influência soviética se espalhou.

Em 1985, vinte anos depois, o "UAZ-452" foi actualizado e a designação dos modelos foi alterada. O "UAZ-452" e suas sucessivas variantes estão em uso na Rússia e em vários países do mundo. "Apesar da sua idade e aparência estranha, este veículo ainda continua a ser produzido para clientes militares e civis", diz Patrick Jarwoski, especialista em veículos e armamento militar (, e que nos parece ser cidadão brasileiro).

Uma linha de base da "UAZ-452" tem duas portas dianteiras, uma porta lateral e as portas traseiras. Pode transportar motorista e até 8 passageiros, ou até 800 kg de carga. Dentro da viatura há bancos para os passageiros. O veículo pode rebocar reboques ou peças de artilharia com um peso máximo de 850 kgs. 

O "UAZ-452" foi "tipicamente usado como ambulância, oficina de luz e como veículo de comando".

O "UAZ-452", original, tem um motor a gasolina de 2.4 litros, desenvolvendo 72 cv. Era um motor de carro padrão, também usado em outros veículos soviéticos. É acoplado a uma transmissão manual de 4 velocidades. As carrinhas da "UAZ" produzidas desde 1985 foram equipadas com novo motor, desenvolvendo 99 cv. (…)

O "UAZ-452" foi produzido em várias variantes [modelos] para atender a funções específicas. Os modelos mais comuns s são descritos abaixo [vd. fotos nºs 2 e 3, acima]

Modelos:

-  A ambulância "UAZ-452A pode transportar 4 macas ou 6 pacientes sentados com um apoio médico:

- Versão de passageiro "UAZ-452V", com uma cabine envidraçada, pode transportar motorista e até 10 passageiros.

- Pickup "UAZ-452D", com cabine para duas pessoas e área de carga aberta na traseira. A área de carga tem lados de queda e solta porta traseira.[Foto nº 3]

As fostos nºs 2 e 3 e a descrição das características da ambulância UAZ-452 foram retiradas, com a devida vénia do blogue, editado por Patrick Jarwoski, em português, Veículos e Armamentos Militares > 12 de junho de 2018 > UAZ-452, que se publica desde 2016 e tem já mais de 3 mil postes.

Termino, agradecendo a atenção dispensada.

Com um forte abraço de amizade e votos de BOAS FESTAS.

Jorge Araújo.

13DEZ2018.

PS - Vd. também a entrada na Wikipedia, em inglês, sobre o UAZ-452.
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Guiné 61/74 - P19295: Parabéns a vocês (1541): António Paiva, ex-Soldado Condutor do HM 241 (Guiné, 1968/70)

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Notas do editor:

As últimas notícias que tivemos do nosso amigo António [Duarte] Paiva davam conta de que ele estava muito doente. Chegou a ir à Tabanca da Linha e a outros convívios.  Vivia muito só.  Telefonou em tempos ao nosso editor a pedir ajuda. Agradecemos desde já a quem nos possa actualizar o seu estado de saúde uma vez que não é possível aceder ao seu telemóvel. Talvez o Manuel Freitas, de Espinho, que organiza o convívio anual do pessoal do HM 241 (Bissau), nos possa dar alguma pista. Oxalá tenhamos hoje boas notícias do Paiva, mas o Juvenal Amado diz-nos que o nº de telemóvel que nós tínhamos até 2016, não está atribuído, o que é mau sinal.

Último poste da série de 15 de Dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19292: Parabéns a vocês (1539): Francisco Santos, ex-1.º Cabo TRMS da CCAÇ 557 (Guiné, 1963/65) e Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3493 (Guiné, 1971/74)

sábado, 15 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19294: Os nossos seres, saberes e lazeres (298): Viagem à Holanda acima das águas (3) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Setembro de 2018:

Queridos amigos,
Não muito longe de Arnhem, em Apeldoorn, situa-se um museu extraordinário, é a segunda casa de Van Gogh, os colecionadores Helena e Anton Kroller-Muller adquiriram 90 quadros e 180 desenhos, é obra. Mas o museu comporta outros aliciantes, estão aqui algumas obras-primas de artistas contemporâneos como Monet, Picasso ou Mondriaan, os jardins têm esculturas de grande beleza, enfim, um paraíso para amadores de arte.
Na pausa entre o fim da manhã e o regresso à coleção, o viandante foi ao encontro do pavilhão Rietveld que guarda obras da sua escultora preferida, Barbara Hepworth.
Se a manhã foi de enlevo, o encontro maciço com um Van Gogh da fase experimental à maturidade, foi esmagador.
Como se irá contar.

Um abraço do
Mário


Viagem à Holanda acima das águas (3)

Beja Santos

O segundo dia de férias neerlandesas é reservado à visita da coleção de Helene e Anton Kröller-Müller, há uma razão especial, aqui se alberga a segunda maior coleção de Van Gogh, qualquer coisa como 91 quadros e 180 trabalhos em papel. Mas há mais. O assombro de uma combinação única de arte, natureza e arquitetura, momentos há em que nos julgamos situados no espaço Gulbenkian. Os jardins são fabulosos, e há mais arte que a de Van Gogh, aqui se pode visitar Monet, Seurat, Picasso e Mondriaan, mais antigos e mais modernos, outros, em grande quantidade. Entre 1907 e 1922, Helene e o marido adquiriram quase 11.500 obras de arte, em suma, uma das maiores coleções privadas do século XX. A colecionadora sonhou com um lugar que fosse uma casa-museu, assim nasceu o museu em 1938, sucessivamente ampliado, rodeado de 25 hectares com jardins cheios de esculturas, digamos que um cenário natural de arte onde encontramos obras de Maillol ou Jean Dubuffet, como aqui se mostra. Esta área liga com um parque nacional impressionante pelo seu acervo em fauna.




Mas também há escultura dentro da área do museu, são variadíssimas salas, o viandante não resistiu a este contraluz de uma escultura de Marino Marini intitulada Cavalo e Cavaleiro.




Antes de mergulhar nesta portentosa coleção de Van Gogh, o viandante tomou a decisão de fazer a primeira abordagem da exposição atual de obras-primas de outros grandes mestres. Eles aqui se exibem, deixemos os comentários para mais tarde, para depois do festim de Van Gogh e do almoço, e de um passeio pelo parque, aqui se voltará para saudar estes clássicos excecionais, qualquer deles seria bem acolhido pelos melhores museus do mundo.





O viandante fez uma paragem mais demorada diante destes quadros, só aquele Renoir de cena mundana, a intensidade dos azuis, o génio de criar numa tela de dimensões médias uma cena cheia de profundidade, merece horas de contemplação; mas o Seurat não fica atrás, é outra dimensão do génio, o pontilhismo em todo o seu esplendor, a nave encaminha-se cheia de luz, e há o embaraço da escolha, o dia nasce ou entardece? Fiquemos por aqui, antes de refrescar ideias o viandante vai saudar Van Gogh, a sua família, o seu mundo aldeão, o tratamento arrasador que ele dá à solidão, ao isolamento, ao sofrimento que não se pode esconder. Bom, faça-se uma pausa, o viandante volta já.



(Continua)
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Notas do editor:

Poste anterior de 8 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19266: Os nossos seres, saberes e lazeres (296): Viagem à Holanda acima das águas (2) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 10 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19277: Os nossos seres, saberes e lazeres (297): Ir a Monte Real, ao almoço de Natal da Tabanca do Centro, e ser abalroado por um camião na A8 a caminho de Aveiro (António Graça de Abreu)

Guiné 61/74 - P19293: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LVI: E tudo o vento levou... O furacão de 20 de agosto de 1968, em São Domingos


Foto nº 1


Foto nº 3


Foto nº 6


Foto nº 4


Foto nº 5


Foto nº 2

Guiné > Região de Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > Efeitos do furação (ciclone tropical) em São Domingos, 20 de agosto de 1968.

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) (*)

CTIG - Guiné 1967/69 - Álbum de Temas:


T026 – CICLONE em S. Domingos

I - Anotações e Introdução ao tema:


1 – NOTAS:

Vem agora a propósito sobre as surpresas da mãe ‘natureza’ e tenho umas fotos e comentários de um furacão ou ciclone que assolou S. Domingos em Agosto de 68. Como já escrevi antes sobre isto, limito-me a passar o que escrevi há alguns anos atrás.

No corolário desta desgraça, vem a seguir a maior flagelação que apanhamos no tempo em que estivemos no sector O1B de São Domingos. Não há fotografias disponíveis. E depois disso a minha deslocação a Susana para efeitos de arranjar alimentos, missão feita num barco Sintex, com uma tripulação de 4 homens, não operacionais.

Este assunto está contado noutros temas.

Texto inicial,

Em, 30-04-2018 - Virgílio Teixeira


O grande ciclone ou furacão que se abate sobre São Domingos:

Na noite de 20 de Agosto de 1968, entre as 22 e 24 horas mais ou menos, caiu sobre aquela zona um ciclone brutal, uma violência de ventos e chuva torrencial, a sua velocidade devia ser tal ordem que levou tudo pelos ares, todos os telhados de zinco, que cobriam a maioria de todas as instalações simplesmente voaram a centenas de metros de distância.

Penso que se uma folha daquelas a voar a alta velocidade se apanhava alguém cortava-o a meio, mas não aconteceu isso. Várias estruturas de cimento e terra também se abateram, mas não vi que as construções feitas pela tropa com base em troncos de palmeira, bidões cheios de casca de ostra e cimento, nada disso foi afectado, também eram feitos para protegerem os militares contra os bombardeamentos do IN, esses sim bem mais agressivos.

Mas o ciclone não poupa nada, as destruições são grandes, por isso terão de ser refeitas mais tarde com mais tempo. Nunca tinha visto semelhante força da natureza, aquilo aparece sem ninguém dar conta nem se aperceba disso. É só tempo de abrigar-nos e esperar que passe o temporal, foi pelo menos umas longas duas horas.

Depois fui buscar a minha lanterna, a minha companheira das saídas à noite, e ver os estragos provocados. Peguei na máquina fotográfica e ainda fiz algumas fotografias, mas de noite não ficam muito boas, mas pode ver-se ainda alguma coisa que aconteceu nessa noite entre 20 e 21 de Agosto de 1968.

O problema maior veio depois, com os armazéns sem tectos, a chuva inundou tudo, e destruiu a maioria dos nossos mantimentos, ficou tudo estragado, com excepção daquilo que estava embalado em latas, garrafas, bidões, mas era muito pouco.

Nessa época de chuvas os barcos de reabastecimentos falharam a sua rotina, e ficamos à mercê do pouco que ia sobrando, foi um período conturbado, faltava quase de tudo, as DO-27 e os Dakota traziam algumas coisas, mas não eram suficientes. 

Foi neste período que posso dizer que tive algumas sensações de ‘fome’. Muitos dias só se comia refeições com massa de estrelinhas, quer como prato principal e de sopa, o pão era insuficiente pois não havia farinha, foi uma altura em que me fui safando com os meus amigos condutores que sempre arranjavam por fora alguns animais e fazíamos as nossas petiscadas. Bebidas nunca faltaram, nem sequer água.

Na sequência desta fase critica, o nosso comandante nomeou-me para comandar mais uma expedição até outra zona comandada pelo meu batalhão, em Susana, onde estava a CCAÇ 1684, fomos então 4 homens num pequeno barco da Engenharia, chamado ‘Sintex’,  era em fibra, e rio São Domingos abaixo lá fomos para Susana para trazer alguns mantimentos para a sede do Batalhão.

Já tinha lá estado antes numa outra deslocação com fins idênticos, o que motivou um acontecimento que não estava previsto, este foi para o lado positivo.

Depois acabamos por ficar lá mais uns dois dias, o que deu para fazer uma aventura inolvidável, ir até Varela, depois até Cabo Roxo na fronteira com o Senegal na foz do Rio Casamansa.

Mas nesta segunda viagem as coisas foram novamente surpreendidas com um acontecimento inolvidável. Isto tem uma história com capítulo próprio, mas resumindo pois no regresso acabamos por nos perder nos imensos braços de rio, e fomos parar a uma aldeia de Felupes no ‘cu de judas’, nem sei como se chamava a aldeia. Depois porque foi notada a nossa falta, e no dia seguinte aparece um Heli que nos encontrou e nos encaminhou para a saída daquele ambiente de tantos rios e riachos que já estava a ficar desagradável, e nem sequer pensava nos turras.

II - Legendas das fotos:

F01 – Efeitos do ciclone nos armazéns de víveres perecíveis, as chapas dos telhados voaram e a água inundou tudo. São Domingos, 20Ago68.

F02 – Efeitos do ciclone nas estruturas dos edifícios do comando e telecomunicações, com derrube de antenas e outras infra-estruturas. SD, 20AGO68.

F03 – Efeitos do ciclone nos edifícios das messes de Sargentos e armazéns de víveres, com toda a estrutura de telhados destruída. SD, 20AGO68.

F04 – Efeitos do ciclone, em estruturas militar não devidamente identificadas, com a desolação de todos os militares presentes. SD, 20AGO68.

F05 – Efeitos do ciclone. Chapas de zinco encontradas a dezenas ou centenas de metros de distância dos edifícios que cobriam então. SD, 20AGO68.

F06 – Efeitos do ciclone. Hora de salvar aquilo que não foi destruído pelas chuvas e destruição do tufão ou ciclone. SD, 20AGO68.

«Propriedade, Autoria, Reserva e Direitos, de Virgílio Teixeira, Ex-alferes Miliciano SAM – Chefe do Conselho Administrativo do BCAÇ1933/RI15/Tomar, Guiné 67/69, Nova Lamego, Bissau e São Domingos, de 21SET67 a 04AGO69».

NOTA FINAL DO AUTOR:

# As legendas das fotos em cada um dos Temas dos meus álbuns, não são factos cientificamente históricos, por isso podem conter inexactidões, omissões e erros, até grosseiros. Podem ocorrer datas não coincidentes com cada foto, motivos descritos não exactos, locais indicados diferentes do real, acontecimentos e factos não totalmente certos, e outros lapsos não premeditados. Os relatos estão a ser feitos, 50 anos depois dos acontecimentos, com material esquecido no baú das memórias passadas, e o autor baseia-se essencialmente na sua ainda razoável capacidade de memória, em especial a memória visual, mas também com recurso a outras ajudas como a História da Unidade do seu Batalhão, e demais documentos escritos em seu poder. Estas fotos são legendadas de acordo com aquilo que sei, ou julgo que sei, daquilo que presenciei com os meus olhos, e as minhas opiniões, longe de serem ‘Juízos de Valor’ são o meu olhar sobre os acontecimentos, e a forma peculiar de me exprimir. Nada mais. #

Acabadas de Re-legendar, hoje, com as devidas alterações

Em, 2018-12-06

Virgílio Teixeira
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Guiné 61/74 - P19292: Parabéns a vocês (1539): Francisco Santos, ex-1.º Cabo TRMS da CCAÇ 557 (Guiné, 1963/65) e Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3493 (Guiné, 1971/74)


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Nota do editor

Último poste da série de 14  de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19288: Parabéns a você (1538): José Vargues, ex-1.º Cabo Escriturário do BART 733 (Guiné, 1964/66)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Guiné 61/74 - P19291: Notas de leitura (1131): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (64) (Mário Beja Santos)

Edifício de habitação na esquina da Rua Teófilo Braga com a Rua de Cascais
Fotografia de Francisco Nogueira, retirada do livro “Bijagós Património Arquitetónico”, Edições Tinta-da-China, 2016, com a devida vénia.


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Abril de 2018:

Queridos amigos,
Durante anos, a historiografia oficial, a portuguesa e a do PAIGC, dava como ponto de arrancada da luta armada a flagelação a Tite, em 23 de  janeiro de 1963, era apresentado como ato primigénio, não tinha passado. Há anos que se sabe que não foi exatamente assim, houvera assaltos e atos vandálicos praticados pelo Movimento de Libertação da Guiné, a partir do Senegal, ainda continuados em 1963, mas no segundo semestre de 1962 fora profundamente alterada a ordem na região Sul, isto a despeito do gerente do BNU de Bissau que falara numa quase perfeita normalidade. Se assim fosse, se a luta armada tivesse caído quase de paraquedas, ele não iria descrever o precioso legado de informações, em grande continuidade, logo a partir de fevereiro, não é difícil concluir que o Sul rapidamente foi avassalado por um caos militar, económico, social e político.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (64)

Beja Santos

A subversão está em marcha, manifesta-se ao longo do segundo semestre de 1962. Logo em 26 de junho, o gerente do BNU em Bissau informa Lisboa:

“ É nosso dever levar ao conhecimento de V. Ex.ª que por volta das três da madrugada de ontem, pequenos grupos de indivíduos, que se supõe pertencerem ao PAIGC, atacaram a tiros de pistola em Catió a Administração do Concelho, a Central Eléctrica, o posto da PIDE e os CTT, cortando os fios telefónicos e atravessando árvores na estrada.

Incendiaram também a jangada e três pequenos barcos que fazem a ligação de Bedanda para Catió.
Entre Buba, Empada e Fulacunda, foram cortadas as comunicações telefónicas e destruídos alguns pontões feitos de paus de cibe.

O ataque foi prontamente repelido, tendo-se deslocado para o local alguns efectivos militares, como medida de segurança.

Não foram feitas capturas, sendo desconhecido o número dos assaltantes. Não houve feridos. O assalto, pela sua curta duração e reduzido número de tiros disparados, é interpretado como o início de uma campanha de pânico a estabelecer pelo PAIGC.

Devemos, contudo, dizer a V. Ex.ª que o ataque não teve qualquer reflexo sobre a população”.

Nova mensagem em 18 de dezembro:

“Segundo nos foi hoje revelado, vindo de fonte fidedigna, foi obtida a informação que na noite de 11 de Dezembro, vindos da vizinha República da Guiné, entraram no nosso território pelo local denominado Gam Dembel, na área de Fulacunda, munidos de espingardas e pistolas-metralhadoras, infiltrando-se nas matas de Forreá e Cantanhez, que cobrem uma extensa área na parte sul da Província.

No dia imediato, essa informação foi confirmada, desconhecendo-se, contudo, o número dos componentes desses bandos.

Apenas se sabe que as tropas fixadas na parte sul da Província já pegaram no rasto, e estão seguindo esses grupos para uma operação de limpeza. É a primeira vez que bandos de terroristas se apresentam armados de espingardas e metralhadoras. A entrada fez-se por um sítio isolado, distante 12 km da fronteira, e as condições atmosféricas locais não têm permitido que a aviação, em sucessivos voos de reconhecimento, consiga determinar o local onde se acobertaram.

A informação está rodeada do maior sigilo, pois receia-se que o pânico substitua o optimismo e confiança que predominam, nesta época de início da campanha da mancarra.

A divulgação da notícia traria o risco de uma paralisação de negócios no interior da Província”.

O gerente de Bissau volta a dar notícias em 21 de janeiro de 1963:

“Em aditamento à nossa carta-extra de 18 de Dezembro passado, cumpre-nos levar ao conhecimento de V. Exas. que foram nulas as pesquisas realizadas pela tropa para a descoberta dos grupos de terroristas entrados no território na noite de 11 de Dezembro.

Duas hipóteses se formulam quanto ao desaparecimento dos referidos grupos:
- Uma rápida infiltração, facilmente proporcionada pela extensa e pantanosa área em que teve lugar, coberta pela densa vegetação que forma as matas de Cantanhez e Foreá, ou - O regresso ao vizinho território da República da Guiné em grupos dispersos que não foram referenciados.

O certo é que se sumiram todos os vestígios da sua passagem pelo local da infiltração, o que levou a tropa a abandonar o prosseguimento das buscas, depois de porfiadas diligências.

Os acontecimentos que tiveram lugar no decorrer desta semana, que nos foram hoje revelados pelo inspector da PIDE, fazem-nos admitir relativo êxito da infiltração, pois notou-se certa actividade da parte dos elementos perturbadores da ordem.

Assim, no norte da Província, a ponte de Campada, a 16 km de S. Domingos, foi parcialmente danificada; registou-se o ataque a uma serração situada a 8 km da mesma povoação, levado a efeito por um grupo constituído por cerca de 20 indivíduos munidos de pistolas, que se refugiaram no Senegal logo se aperceberam da aproximação da tropa; em Ganjandim, também próximo de S. Domingos, foi atacado um jipe militar com tiros de zagalote disparados por uma arma caçadeira; e a estrada que liga S. Domingos a Susana, a 8 km da primeira, foi cortada pela abertura de uma vala.
Não se registaram feridos.

Quanto à parte sul da Província, na vasta área de Fulacunda, foram referenciados 50 indivíduos armados de pistolas-metralhadoras, sobre os quais a tropa prontamente agiu.

Na mesma área, efectuou-se uma surtida a determinada tabanca já referenciada pelas autoridades, tendo sido abatido um indivíduo, ferido vários e capturados outros.

Foram apanhadas granadas de mão de fabrico italiano, alguns pacotes de explosivos de origem russa e americana, e ainda pequenos pacotes contendo explosivos de matéria plástica. A captura revelou que já dispõem de algumas dezenas de pistolas-metralhadoras, além de outro material.
Todos estes acontecimentos não têm perturbado as actividades, que continuam a processar-se normalmente”.

Mas dois dias depois dava-se a notícia do primeiro ataque a um quartel:

“Em complemento à nossa carta-extra de 21 do corrente, cumpre-nos informar V. Exas. que, segundo nos acaba de ser revelado, à 1,45 horas de hoje, um grupo de terroristas munidos de pistolas-metralhadoras, atacaram o Quartel de Tite, sede do Batalhão que faz a cobertura da área de Fulacunda.

Uma bomba de regular potência foi lançada, causando a morte de um soldado, e ferindo outros sem gravidade. A tropa prontamente respondeu ao ataque, fazendo numerosas baixas entre os terroristas.
O audacioso ataque à própria sede do Batalhão, confirma ter sido bem-sucedida a infiltração levada a cabo na noite de 11 de Novembro.”

Em 30 de janeiro, o gerente de Bissau complementa a notícia da flagelação a Tite com mais informações:

“O ataque perpetrado visou o paiol das munições e, não tendo sido bem-sucedido na primeira tentativa, de novo foi atacado às 4 horas do mesmo dia, decorridas portanto, cerca de 2 horas da primeira investida.

As numerosas baixas sofridas pelos terroristas, levou-os à desistência de renovarem os ataques ao aquartelamento de Tite.

No dia imediato, uma viatura militar que seguia escoltada por um jipão, do Enxudé para Fulacunda, foi alvejada por tiros de zagalote, sendo atingido um pneu da viatura, despistando-a.

Nenhum dos ocupantes do jipe estava armado, tornando-se fácil aos terroristas alvejá-los à vontade, pondo-se em fuga logo que se aproximou o jipão que servia de escolta que, em marcha mais moderada, vinha ainda bastante distanciado.

Do ataque, resultou a morte de um soldado e ferimentos em mais dois.

No dia 26, uma patrulha do exército, do sector de Buba, numa acção de repressão, caiu numa emboscada, morrendo um sargento, um cabo, dois soldados e dois guias indígenas, e sendo feridos um alferes e dois soldados.

Foram muitas as baixas sofridas pelos atacantes.

No dia 28, pelas 20 horas, fomos procurados pelo gerente da Sociedade Comercial Ultramarina que nos comunicou ter recebido a informação de ter sido assaltada a propriedade do Banco denominada ‘Brandão’, arrendada aquela Sociedade.

Do assalto não eram conhecidos pormenores.

No dia imediato fomos informados pelo oficial que chefia os Serviços Secretos do Exército, que o assalto incidira apenas sobre algumas moranças de indígenas Fulas, suspeitos de colaborarem connosco, sendo poupadas as tabancas dos indígenas da raça Beafada, que sempre foram hostis à nossa colonização.

Quanto ao edifício onde está instalado o estabelecimento da Sociedade, segundo as informações que possuía, nada lhe tinha sucedido.

Como o estabelecimento estava encerrado por ausência do respectivo encarregado que se deslocara a Bolama, não se sabe, por enquanto, se foi roubado.

Segundo nos declarou o gerente da Sociedade, no estabelecimento existia dinheiro, mercadorias e produtos da actual colheita, tudo no valor de cerca de 240 contos.

A notícia divulgada pela Emissora Nacional na sua emissão de hoje não corresponde à verdade, quando diz ter sido incendiado o edifício.

Sabemos que o Comando Militar chamou a atenção de alguns correspondentes de jornais, pela forma precipitada como as notícias são prestadas, fazendo supor o pior.

Achamos conveniente incluir nesta carta a tragédia ontem ocorrida com o navio da Sociedade, ‘Coruche’.

Fazemo-lo no sentido de esclarecer V. Exas. que o sinistro não tem qualquer correlação com os acontecimentos insurrecionais vindos a registar-se.

Atracou ontem, cerca das 17 horas, ao cais de Bissau, com um carregamento de combustível destinado à Aviação Militar o navio motor ‘Coruche’.

Quando se procedia à descarga de bidons, soltou-se um de uma lingada, provocando pela fricção uma chama que originou a inflamação do carburante que transportava.

O incidente ocorreu precisamente pelas 18,45 horas, tendo comparecido, além do pessoal da Casa Gouveia, agentes da Sociedade Geral, material da cooperação dos bombeiros locais. O fogo foi dado por extinto pelas 19 horas para, decorrido pouco tempo, voltar a deflagrar com toda a intensidade. Seriam 21 horas quando o Senhor Governador, segundo nos informaram, ter mandado retirar o barco da ponte de cais, pelo perigo de uma explosão. O navio anda à deriva, subindo e descendo o rio, consoante o sentido das correntes e das marés. Admite-se que os prejuízos sejam totais. Sentimos a necessidade de incluir o incidente neste relato, receando que ao mesmo fosse atribuído um sentido diferente.

Com excepção do ataque à serração de S. Domingos, relatado a V. Ex.ª em 21 do corrente, e em que não houve prejuízos a registar, os incidentes têm visado sempre objectivos militares.

O extraordinário de todos os acontecimentos, que não queremos deixar de evidenciar, é continuar a processar-se, com toda a normalidade, a vida económica da Província”.

Mas o tom otimista desta carta será contrariado pelo que irá escrever em 13 de fevereiro seguinte:
“Toda a parte sul da Província, se encontra infestada de grupos armados de terroristas, que à luz do dia circulam com a maior das liberdades, sem depararem com a oposição.”
E vai relatar que começaram os ataques às infraestruturas económicas, o Sul entrou inexoravelmente num profundo desequilíbrio.


Imagem retirada do livro 'Portugal no Ultramar', 1954, Edições Sotramel - Sociedade de Comércio e Propaganda, Lda com o apoio na cedência de fotos da Agência Geral do Ultramar.


Subúrbios da cidade de Bissau, anos 20
Mapa pertencente ao acervo do Arquivo Histórico do BNU, a quem se agradece a reprodução.

(Continua)
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Notas do editor

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Último poste da série de 13 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19285: Notas de leitura (1130): "Sótão, Rés-do-Chão e Outras Vidas", por Alberto Branquinho; Edições Partenon, 2018 (Carlos Vinhal)