Pesquisar neste blogue

domingo, 16 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28263: Contos mural ao fundo (Luís Graça) (46): Muita hontra e pouca glória...

















Prompt
original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Muita honra e pouca glória...

por Luís Graça


A pátria fora-lhe ingrata. Falava dela como se fosse uma mãe. Que abria o regaço. Que acolhia "filhos e enteados" . No meio da confusão. Dos tiros, dos golpes de Estado, das greves, das revoluções, das guerras.  Uma mãe nem sempre atenta, serena, lúcida, justa. Metendo por vezes todos no mesmo saco, "os bons e os maus". 

E continuava o seu solilóquio: mãe que retribuía com amor, com bonomia, com "benesses e tabefes", os sacrifícios que faziam por ela. Incluindo o supremo sacrifício da vida. Até à última gota de sangue.

 Sim, jurara perante  a "nossa bandeira verde-rubra", mesmo sendo "monárquico" ... Rituais que hoje se perderam, já não havia serviço militar obrigatório,  juramento de bandeira... Nem verdadeiro patriotismo.  Podiam julgá-lo antiquado mas ele ainda dava valor a esses símbolos. E  "à palavra dada".

Fora educado por professores e capelães, desde o Colégio Militar à Escola do Exército,  segunda a velha máxima: "É doce morrer pela pátria!"...

Doce ?!... Diziam  que sim mas era coisa que a  "alegre mocidade"  do seu tempo não levava muito a sério.  Aos 10, 15,  20 anos ninguém pensava na morte.

−  "Dulce et decorum est pro patria mori"... É a divisa do brasão de armas da Academia Militar que sucedeu á Escola do Exército...

− Ah!,  sim, doce e honroso  −  repetiu o coronel com um sorriso amargo. 

−  Teríamos  que saber o que pensam os mortos de todas as guerras.

−  Não pensam nada, meu caro.

E quis mostrar este ponto de vista com a sua experiência,  justamente de antigo combatente da "guerra de África".

A... , oitenta e tal  anos. Feitas as contas por alto   devia ter nascido por volta de 1933 ou 32. "Monárquico mas liberal",  por tradição familiar. Alentejano do Alto Alentejo (fazia questão de frisar).  Descendente do Visconde de V...

Coronel de cavalaria, tirocinado,  na situação da reforma. Cruz de guerra de terceira classe por feitos em combate no teatro de operações da Guiné. Viúvo, pai de um filho,  avô de dois  netos (que ele mal conhecia) . 

− O primeiro soldado que vi morrer na Guiné, e logo  nos meus braços,  só me balbuciou entre golfadas de sangue: 'Ai, meu ca...pi...tão, ... qu' eu... es...tou  fo...di...do! '

Hoje, concluia o coronel, havia várias formas de morte para um antigo combatente.  Tudo menos doce e honroso. A sua (e da sua geração) era  também a da amargura,  da ingratidão,  do abandono e do esquecimento. 

Falava de si e dos seus homens que "morreram para nada"  e que iam morrendo todos os dias,  um pouco por toda a parte, em Portugal, na diáspora lusófona, na Guiné, em Angola,  em Moçambique e por aí fora.

- Sinto-me  órfão da Pátria!... Sofro de  claustrofobia... Afinal fui criado no Portugal do Minho a Tiimor.

 O seu filho (o único que tinha) nunca o compreendera nem aceitara a sua opção de vida,  a carreira militar. Pouco conviveu com ele.  Fizera-lhe falta o pai nos anos mais decisivos da formação da sua personalidade. 

Quando o filho nasceu, em 1958, estava o pai  em Goa na sua primeira comissão de serviço no Ultramar.  Como alferes. Faria mais três comissões, duas como capitão  e outra como  como major.

E quando o filho  arranjou uma bolsa de estudo em 1976 para  ir frequentar uma  universidade nos EUA, o pai tinha acabado de regressar de  Moçambique, uns meses antes. (Fora um dos "últimos soldados do império", fez questão de lembrar, já com o posto de major, desempenhando funções de oficial de informações e operações, num batalhão,  cargo em que já não saía para o mato.)

O filho acabou por ficar lá, nos EUA. "Até hoje" .  E lá casara "com uma americana, rica,  de origem nipónica" . 

Tinha um grande desgosto: os seus netos não falavam português. Tinham  vindo a Portugal todos juntos uma única vez,  por ocasião da morte da mãe, sogra e avó. 

− Eu era um estranho para eles... E, como  pai,  fiquei com a certeza de que tinha perdido o meu único filho para sempre. 

De facto, não voltaria a visitar o pai  em  Portugal. Foi ele que os foi visitar à Califórnia. Os netos nada sabiam sobre Portugal, um pequeno país que  ficava completamente fora do seu radar, dos seus interesses e das suas  preocupações. 

E confirmava o seu pessimismo com o facto de,  a partir de 1975,  "termos ficado reduzidos à geografia do início do século XV, antes da conquista de Ceuta em 1415".

 Agora o que mais lhe gostava era sobretudo a solidão da viuvez e da velhice. Uma vez por ano juntava-se aos "seus rapazes",  com quem lutara na Guiné durante mais de 2 anos (contando com o tempo  inicial de formação da companhia, em Estremoz).

Adorava a sua "família militar"  com  quase  o mesmo amor que tinha pela sua família biológica. 

−  Juntos chorámos os nossos mortos e cuidámos  dos nossos feridos.

Faziam um encontro anual todos os anos desde o início de 90 mas, duas décadas depois, faltava-lhe já o ânimo e as pernas começavam a claudicar, obrigando-o a arranjar desculpas de mau pagador para não comparecer. Invocava a saúde ou a falta dela, "cada vez mais remendada".

Confidenciou-te que, sobretudo, não queria perder o seu orgulho, a sua dignidade,  a sua pose de "oficial e cavalheiro"  que sempre cultivara. Já não se gostava de se ver ao espelho. E muito menos fardado. LP

 Não me leve  a mal  se lhe disser que sempre tive sorte com as mulheres... 

−  Não de todo, coronel. Como se costuma dizer, a sorte dá muito trabalho.

Mas o contrário não era  verdadeiro : as mulheres nunca terão tido sorte com ele .  Casou tarde, não teve um casamento feliz e enviuvou cedo.

Gabava-se de nesse tempo de nunca ter dado uma "porrada"  em nenhum dos seus homens. Soubera sempre resolver os conflitos,  mesmo os mais graves,  do foro disciplinar, com frontalidade e bom senso,  contrariamente à tradição da sua arma, a cavalaria. Tinha camaradas que ainda usavam, na Guiné, o "murro da ordem" para prevenir males maiores.

  Mais valia um bom  murro nos queixos do que uma nódoa na caderneta, achavam eles. E se calhar, pensando bem, hoje, até teriam  razão.

E lembrava-se de uma situação, grave, em que, passados mais de quarenta anos, reconhecia  que agira mal. Um dos seus cabos fora acusado de violar a sobrinha do régulo e comandante do pelotão de milícias.  Era a rapariga mais linda da tabanca. 

O então capitão fez tudo o que sabia e podia para que a "bronca" não chegasse aos ouvidos do general Spínola, o "Homem Grande de Bissau". O cabo era um dos seus melhores homens como operacional e inclusive tinha chegado a ser proposto como candidato ao Prémio Governador da Guiné.   

− Tive uma conversa séria com ele... Comecei por lhe enumerar as virtudes , acabando nos defeitos e na "borrada" que lhe ia estragar o resto da vida.... Acabou por  dar-se como culpado, com a desculpa esfarrapada de que "ela era linda de morrer" e que "um homem não era de pau"...Além disso, era a sua lavadeira e teria havido livre consentimento...  Encostei-o à parede: "Põe-te no teu lugar: e se ela fosse tua irmã ?"... Não tugiu nem mugiu...

O então capitão castigou o cabo,  obrigando-o a pagar uma reparação à família da bajuda, uma vaca que lhe custou um mês de pré. E retirou-lhe, obviamente,  a candidatura ao Prémio Governador da Guiné... 

Ao régulo calou-lhe a boca com a oferta, por parte da companhia, de uns valentes sacos de arroz para  o pelotão de milícias. Fora-lhe sempre leal. Soube mais tarde que também ele fora, infelizmente, fuzilado pelo PAIGC. 

- Quanto ao cabo, ficámos amigos para a vida.

 Na sua  casa em Oeiras, aonde ele te convidara um dia para te mostrar o seu  "velho  álbum das glórias", ficarás a conhecer um pouco melhor a sua história de vida e a sua origem sociofamíliar.

Sim,  fora preparado para defender a pátria numa época em que o patriotismo ainda estava na ordem do dia. Tinha treze anos quando a II Guerra mundial  acabara. "Lá em casa eram todos anglófilos" . Depois veio a Guerra Fria,  passaram todos  a ser anticomunistas. 

Era da geração do "Deus, Pátria e Família". A "Santissima Trindade" do Estado Novo. Nunca fora homem (nem miliitar) de ligar à política.  Nem nunca questionara o beco sem saída da guerra em África. 

- Infelizmente, só sabia obedecer aos meus superiores hierárquicos...

Por outro lado, a sua família sempre fora de proprietários e militares, que serviram três regimes (Monarquia constitucional, República e Estado Novo).  

No passado tinham chegado a ser grandes produtores de trigo e cortiça.  Mas  eram sempre mais os filhos e as filhas  do que as mães. Para os descendentes do Visconde de V... , a solução de vida terá sido "Coimbra, o seminário e a carreira de armas".

Gostava de falar do passado da família paterna, mas havia ali uma relação de amor-ódio ancestral   que tu não te achavas no direito de  esmiuçar, nas conversas que mantiveras com ele antes da pandemia. Uma das ocupações do coronel  era então a da reconstituição da árvore genealógica da família.

Tinha especial prazer em falar do "passado de luz e sombra" (sic)  do Visconde de V..., o patriarca da família, onde começava a "primeira geração": dali  para trás não se sabia mais nada, havia o "silêncio dos arquivos" , restava apenas uma fita de seda azul, "sinal de exposto" na Misericórdia de Lisboa. 

Mas tivera sorte, esse enjeitado, para viver e sobreviver numa época  tão conturbada como a das invasões francesas, a da fuga da corte para o Brasil,  a do fim da sociedade senhorial, e a das guerras civis liberais.

Na casa oitocentista  de Paço d' Arcos, de piso térreo, ainda estava dependurado da parede, um mau quadro, a  óleo,  com o retrato do futuro Visconde. Daqueles que ainda se encomendavam a pintores académicos antes da  chegada do "daguerreótipo". Ostentava já alguns sinais de riqueza, os  botões dos punhos de renda e o relógio de bolso, com um grosso cordão, tudo em ouro de lei.

Havia enriquecido o seu património com a compra em leilão de "bens de mão morta" . Ninguém sabia como, ainda jovem,  conseguira arranjar os "cabedais, para poder licitar uma tão vasta propriedade no Alto Alentejo. Foi dos primeiros a modernizar um latifúndio que até então só dava "caça e sobro".  

Sabe-se que fora um bravo soldado de Dom Pedro IV e correligionário de Dona Maria II. Ter-se-á afastado da política com a Patuleia, onde foi um feroz opositor dos Cabrais. Foi nobilitado já no tempo de Dom Luís. Filantropo, abriu uma escola na sede do concelho, no Alto Alentejo,  ainda antes das escolas do Conde Ferreira.  

 O coronel falava com mais conhecimento de causa da 4ª geração, do seu avô , que era bisneto do Visconde, e que terá sido um dos que mais ajudaram a delapidar o património familiar, com o vício do jogo, das amantes e dos cavalos.

− O meu pai, nascido uns anos antes  da República, não teve outro remédio se não seguir a tropa. E eu, idem, aspas...

Fez questão de ir buscar uma garrafa de uísque velho, uma preciosidade ainda do tempo da Guiné. Agora raramente bebia. Era para abrir na festa dos  90 anos. Com o seu filho e netos. Se lá chegasse... Mas já não tinha qualquer esperança de que eles se quisessem associar a essa efeméride, e ter a maçada de vir de propósito, de tão longe, da Califórnia.

− O que vale um herói da Pátria aos 90 anos ?!... Se nem sequer a família mais próxima se lembra dele ?!

Fizeste um "tchim-tchim" com o dono da casa, cada um longe de imaginar que aquele seria o seu último encontro. Umas semanas depois veio a pandemia e o confinamento... E o coronel  A...,  morreria uns meses depois. Ia fazer 87 anos. Ainda se falaram ao telefone. Recordas as suas últimas palavras:

− Fui de cavalaria mas nunca gostei de cavalos... Fui spinolista, na Guiné,   por conveniência mas também  por convicção... Fui partidário da sua política "Por uma Guiné Melhor"... O senhor marechal, que eu conheci em Angola, já coronel, fez o favor de ser meu amigo, deu-me apoio a nível moral,  operacional e logístico. Visitou-me duas vezes, na Guiné. Não esqueço esses favores.  Como não esqueço o seu papel no 25 de Abril.

Como não esquecera a cena, caricata, do general Spínola escangalhado a rir (o que era raro nele), e a chamar-lhe  "grande nabo" quando ele, ingenuamente, lhe contou que tivera uma queda desastrada e desastrosa  de cavalo na escola prática de Santarém. 

 Sou coronel tirocinado mas  fiquei às portas do generalato.  Desconheço as razões. Mas considero-me injustiçado. Nunca fui militar político. 

E esclareceu-te que no 25 de Abril ("notícia completamente inesperada", recebida no norte de Moçambique) estivera "de bico calado", à espera que a ordem regressasse aos quartéis, depois de restituída a liberdade aos portugueses.

 Como regressa sempre. O meu pai esteve envolvido  no 28 de maio de 1926. Ainda  era um jovem cadete imberbe. E arrependeu-se. Não beneficiou nada com isso. O golpe de Estado acabou por ir contras as suas ideias de monárquico liberal. Mas eu sempre me considerei um simples servidor da Pátria, como o Salgueiro Maia, a quem cheguei a dar instrução, e a quem não posso deixar de bater a pala, mesmo que eu não tenha aderido ao Movimento.... Pela sua coragem (e que eu não tive) e pelo seu papel na História.  E a minha vida resume-se a isso, tal como a dele, que também foi mal tratado: Muita honra e pouca glória!...

Luís Graça, 2026

_____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando

sábado, 15 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28262: Os nossos seres, saberes e lazeres (745): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (266): Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
Parti com o maior entusiasmo, mesmo diminuído pela hérnia inguinal bilateral, que será operada a 19 de outubro, não esperava aquela caloraça totalmente inusitada na Alemanha, ia cheio de sonhos, conhecer Trier, a segunda grande cidade do Império Romano, Koblenz, a sede do reino merovíngio e os seus monumentos espetaculares e as vistas esplendentes do Mosela, que corresponderam na totalidade às expetativas que levava. Seja como for, como direi no regresso da viagem, não desgostei de percorrer o Luxemburgo, país que não me deslumbra talvez porque eu esteja sempre a invocar o que já vi na França, na Bélgica e na Holanda. O curioso de toda esta história é que recebi o convite para ir a dois concertos no Festival de Música do Reno, ambos me deslumbraram, e não menos me deslumbrou ter comprado um bilhete Lisboa-Luxemburgo-Lisboa por 75€, acho que tive sorte com a ucharia.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (266):
Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 1


Mário Beja Santos

Chegara-me o convite de gente muito amiga para assistir a dois concertos do Festival de Música do Reno, enviaram mesmo cópias dos bilhetes já adquiridos, que eu não recusasse, seria com muita alegria recebido com cama e mesa e roupa lavada. Disse que sim, pronta e afetuosamente, e comecei a desenhar a viagem. A primeira grande surpresa foi descobrir um Lisboa-Luxemburgo-Lisboa por 75€, para mim impensável, partindo em fins de julho e regressando naquele período de agosto em que metade dos europeus viajam de um lado para o outro. A segunda grande surpresa foi descobrir que havia um bilhete ferroviário com o preço de 20€, podia andar pela Alemanha toda. O desenho começou a esclarecer-se. Chegar ao Luxemburgo com noite escura, apanhar comboio até Trier, aqui, por táxi, ficar numa casa particular, coisa rara anunciava-se na informação do aluguer que se punha o cliente no dia seguinte na estação, o que aconteceu, deu para ir percorrendo por algum do mais imponente património da presença romana, dos tempos medievais e de quando Trier tinha Príncipe Eleitor da Renânia-Palatinado. Com bilhete ferroviário previamente adquirido, começou uma espantosa viagem à volta do rio Mosela, com os seus frondosos campos vinhateiros em declive, são muitíssimo belos, mas tenho cá para mim a preferência pelo Alto Douro vinhateiro.

Não falo da viagem pelo Luxemburgo nessa noite, terei a oportunidade de falar do país no regresso, a minha relação com o Luxemburgo não é exultante, estou sempre a fazer comparações com campos franceses e belgas e não encontro nenhuma singularidade nas suas riquezas patrimoniais, há para ali uma arquitetura que lembra outra da região do Benelux.

Que fique claro ao leitor que uma parte das imagens foram catrapiscadas de vários sítios, as fotos que tirei em Bullay ficaram desfocadas ou manhosas, adorei passear em Traben-Trarbach bem como em Cochem. Sentado à janela, com o boné a proteger-me do sol viajei até Coblença, vinha com sonhos de visitar aquele ponto onde o Mosela conflui com o Reno, é um território cheio de História, aqui os Francos puseram as legiões romanas em debandada, aqui houve corte merovíngia, viveu sempre em prosperidade até que foram inquietados pela Revolução Francesa. Em 1815, com Napoleão na ilha de Santa Helena, o Congresso de Viana atribuiu Coblença à Prússia. A Segunda Guerra Mundial infligiu danos à cidade, destruiu 85% do seu património. Não atinei com nenhum posto informativo, vi passar autocarros, ninguém me esclareceu rigorosamente como lá chegava e como regressava, por mera prudência decidi andar no interior da cidade, visitei a Igreja de Nossa Senhora, que começou a ser construída em 1200, passeei pelas praças e vi por fora a Igreja de São Castor, uma basílica românica de quatro torres com ápside redonda característica. Fora um intenso dia quando cheguei a Wiesbaden, onde fui recebido de braços abertos. Seguir-se-ão dias também intensos e muito belos, como procurarei contar.


Cidade do Luxemburgo, vista do Palácio do Grã-Ducado, visto da ponte ferroviária
Fachada da Porta Nigra, o principal monumento romano em Trier, a cidade mais antiga da Alemanha e a mais esplendorosa do Império Romano, depois de Roma
Um pormenor do interior da Porta Nigra
Vista aérea do rio Mosela entre Trier e Koblenz
Cochem, um dos lugares de idílio no Mosela, muita floresta e região vitivinícola
O intuito era fazer por comboio uma visita a lugares belíssimos que circundam o Mosela, até Koblenz. Saiu-se de Trier até Bullay e daqui até uma curta viagem num outro comboio a Traben-Trarbach, uma vista fascinante, um número impressionante de embarcações e imensos parques com caravanas e tendas de campismo.
O calor era demolidor, a estação praticamente vazia, tinha começado o percurso para cirandar por Mosela
Uma das vistas mais apreciadas em Koblenz (em português, Coblença), neste ponto encontram-se o Mosela com o Reno
Aspeto da fachada da Igreja de Nossa Senhora em Coblença, estilo românico-gótico
Confesso que o que mais me impressionou no interior desta igreja, manifestamente de gótico tardio é a imagem do Cristo, nunca tinha visto nada de parecido, mas li que se trata do estilo renano, que vigorou na Idade Média
Gostei muito deste retábulo num altar lateral e do rendilhado da peça que o encima, um baldaquino de pedra lavrada
Indo a caminho da estação para apanhar o comboio com destino a Wiesbaden, eis que numa das ruas encontrei um cruzamento com quatro casas que parecem dialogar umas com as outras, talvez sejam edificações, réplicas, de velhas casas medievais, mas há para aqui bom gosto e um elevado sentido de memória na paisagem urbana, na falta de ter encontrado transporte àquele ponto onde o Mosela se encontra com o Reno, e com aquela temperatura superior a 30ºC, com humidade sufocante, dei-me por feliz deste registo da curta passagem por Coblença.
Igreja de São Castor, quem não sabe é como quem não vê, não muito longe daqui, mesmo que me custasse os olhos da cara com aquela caloraça, estava à minha espera o tal ponto que se chama Das Deutsches Eck, onde confluem o Reno e o Mosela. Fica para a próxima.

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 8 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28249: Os nossos seres, saberes e lazeres (744): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (265): Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral, uma réplica do teatro Alla Scala, de Milão (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!







Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. É proibido o ódio no nosso blogue... O discurso do ódio...

Os editores reservam-se, naturalmente, o direito de não publicar textos e fotos (ou de  eliminar, "a posteriori", comentários) que violem as normas legais do nosso servidor (Blogger/Google), bem como as nossas regras de bom senso e bom gosto que devem vigorar numa comunidade de amigos e camaradas da Guiné... E mais concretamente mensagens com:

(i) conteúdo racista, xenófobo, sexista, supremacista,  homofóbico, etc.;

(ii) sexo explícito, material pornográfico (que é diferente de erótico), nu integral, etc.

(ii) carácter difamatório;

(iii) tom intimidatório, provocatório, insultuoso; 

(iv) acusações de natureza criminal ou violação segredos judiciais;

(v) violência, física e/ou verbal (apelo/incitação, uso);

(vi) assédio sexual e moral ("ciberbullying");

(vi) linguagem desbragada,  inapropriada, etc. (mas o bom humor é bem-vindo);

(vii) publicidade comercial ou propaganda claramente político-ideológica (ou "partidária");

(viii) informações/dados  do foro privado, sem autorização de uma das partes (nome completo, filiação, naturalidade, morada, nº de cidadão, nº de telemóvel, etc.);

(x) spam sob a forma de repetição em série de um mesmo comentário em diversos postes...


2. Mas, afinal, o que é o ódio, camaradas ?

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné,  é proibido o ódio. O discurso do ódio. Tudo bem.

Mas também não temos que nos amar uns aos outros (combatentes e desertores, "tugas" e "turras",  colonialistas e anticolonialistas, benfiquistas, sportinguistas e portistas, ateus, crentes e agnósticos, brancos, azuis, verdes, vermelhos, amarelos...). 

Talvez por isso tenhamos chegado aos 22 anos de existência na Net. E aos 22 milhões de visualizações de páginas. 

Devemos desconfiar destes números. Sim, como manda a dúvida metódica de Descartes. Visualizações não são "visitas" ou "visitantes" Quem visita, pode visualizar mais do que uma página num dado momento (por exemplo  a esta hora em que eu estou a editar este poste).

Mas é do ódio que importa falar... Sim,  há muito ódio nas redes sociais. No blogue, acho que não tanto, estamos "vacinados"... Temos controlado os "outliers", os extremismos...  

Mas ódio,  ódio, sempre o houve, desde que o homem é homem, um animal mamífero, de sangue quente, territorial, social, omnívoro, predador...(nome científico: "Homo sapiens"; espécie classificada pelos zoólogos na Ordem dos Primatas, tal como o chimpanzé, o gorila, o  orangotanho...mas também o macaco-cão).

Mesmo não havendo  "redes sociais, digitais",  no passado,  sempre houve razões para nos odiarmos uns aos outros e, "in limine" nos matarmos uns aos outros, invocando até (ou quase sempre)  o "sagrado": Deus, Pátria, Família, as nossas crenças, os nossos valores, o nosso solo sagrado...

 Desde o princípio de todas as coisas. Sempre houve "violência" (física e verbal). 

3. A minha dúvida existencial, que levei para a Guiné: posso lutar numa guerra sem ódio ? Sem sentir ódio pelo inimigo, que nem sequer conheço nem sequer vejo muitas vejas ? Tenho mais chances de sobreviver se "odiar"  ou se "não odiar" ? 

O contrário de "amar", não é "odiar",  mas "não-amar", dizem os puristas da língua...

Em suma:  na guerra, tenho que sentir raiva  e ódio ? Ou posso também sentir piedade, compaixão ? Tenho que odiar quem me quer matar ? Quem me aponta uma RPG-7 à cabeça, emboscado, escondido atrás do "bagabaga" ou do grosso tronco do bissilão ? Ou antes, tenho que odiar quem me mandou para a guerra ? 

A "padeira de Aljubarrota" que há 641 anos atrás,  em 14 de de agosto de 1385,  matou (diz a lenda) sete castelhanos (ainda não eram espanhóis...) que se esconderam no seu forno..., só podia matar... por ódio. Os 6 mil e tal portugueses e ingleses que enfrentaram mais de 30 mil castelhanos nesse dia, mês e ano, não poderiam ter vencido essa batalha sem ter experimentado, nessa tarde,  um ódio intenso ao "invasor"... Ou seria "loucura" ? Talvez venha daí a expressão que os "nuestros hermanos" (sic) ainda hoje usam: "Portugueses, pocos pero locos" ("Portugueses, poucos mas loucos")...É verdade, sempre fomos poucos mas...loucos.

Tenho estado a refletir sobre o binómio amor-ódio (interpessoal, intragrupal, intergrupal, a nível nacional e internacional) (*)...  E até intrapessoal: há sempre uma parte de nós que odiamos..., do tamanho do penis ao nariz adunco....

Se não fora assim, os consultórios dos psiquiatras estariam às moscas... Os psiquiatras e demais "psis", os psicólogos, os psicoterapeutas, os médicos, os padres, os feiticeiros,  as bruxas, os astrólogos...

Também desconfio do "Amor com amor se paga"... Altruísmo 'versus' egoísmo ? A sociobiologia também é muito redutora e primária... 

Dei aulas de etologia e sociobiologia, em 1994, a alunos de licenciatura em sociologia,qu se estavam borrifando para o Hawkins, o Wilson, o Lorenzo, etc. Li muito e escrevi muito nesse ano sobre esses temas, incluindo a "pulsão da violènca" que nos leva a matar... 

Mas o que sei eu hoje sobre este campo tão controverso ? Sei que a minha pergunta toca em temas centrais da condição humana: o ódio, o amor, a guerra, a sobrevivência, a moral e até a biologia. 

(i) Afinal, o que é o ódio?

Diz o dicionário:

ódio
(ó-di-o)

substantivo masculino

(a) Sentimento de intensa animosidade relativamente a algo ou a alguém, geralmente motivado por antipatia, ofebsa, ressentimentro ou raiuva= Aversão, repulsa, ≠ Amizade, amor

(b) Objeto desse sentimento.

Etimologia: do latim otium, -ii (ódio, aversão, ressentimento, má vontade, animosidade, irritação, desagrado, insolência).

"ódio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-br/%C3%B3dio.

O ódio é uma emoção intensa de aversão, hostilidade ou repulsa em relação a uma pessoa, grupo, etnia, classe social, nação, ideia, crença, objeto ou coisa (ex.: odeio o fulano de tal, os ciganos, os balantas, a Guiné, o populismo, os milionários, os comunas, os fascistas, os nazis, as claques de futebol, os "emigras"... mas também a bola, a lampreia, a IA, os tuk-tuk).

Não é apenas uma emoção individual: é também um fenómeno social, muitas vezes alimentado pelo medo, pelo desconhecimento, pela desumanização do outro, pela competição por recursos escassos,  ou pela necessidade de pertencer a um grupo (identidade vs. alteridade).

No contexto das redes sociais (e na guerra), o ódio amplifica-se, devido a a uma série de fatores, como, por exemplo:

  • o anonimato, a impunidade,  o grupo que reduz a responsabilidade individual; na guerra (e nas redes sociais), o "menino de coro" pode transformar-se num "monstro";

  • os algoritmos, que premeiam o conteúdo emocional (incluindo o ódio), pois gera mais interação, mais acessos,  mais visualizações; 
  • as câmaras de eco que  reforçam crenças extremas e demonizam o "outro" (o chamado fenómeno da polarização).

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné, o facto de moderarmos os comentários (incluindo o "discurso de ódio") não é um acaso: é uma escolha ativa de preservar um espaço de diálogo, de tolerância, de convivilidade, de responsabilidade, de partilha ... Não é um espaço de censura, mas de abertura.

Os 22 anos e 22 milhões de visualizações são um sinal de que a ausência de ódio atrai mais do que repele. 

Afinal, não é caso para desconfiar desses números: são a prova de que a qualidade do debate,  dos conteúdos, a partilha de memórias (e emoções), a credibilidade, a transparência (toda a gente dá a cara, ninguém se esconde por detrás do "bagabaga" ou do "poilão")  pode ser um "valor de mercado", dá dividendos...

 
(ii) Posso lutar numa guerra sem ódio?

Em teoria, e por vivência pessoal, direi  que sim, é possível. A história está cheia de exemplos de soldados que lutaram por dever, por lealdade, por ideais (liberdade, justiça, proteção de civis, amor à pátria, etc. ) sem ter que odiar o inimigo. 

O ódio não é um pré-requisito para a guerra, mas é um catalisador que facilita a desumanização do outro, e o comportamento sobre-humano a que chamamos heroísmo. E isso, sim, aumenta a crueldade e a eficácia na destruição.

Estatisticamente, sabemos que o ódio pode aumentar a coesão do grupo e a disposição para matar, mas também faz aumentar o risco de trauma: soldados que odiavam o inimigo tinham mais dificuldade em reintegrar-se na família, na comnunidade, na sociedade depois da "peluda"... Além disso, reduz a resiliência (o ódio consome muita energia emocional).

O ódio é uma patologia. A longo prazo, o ódio acaba por esgotar e limitar a estratégia do indivíduo ou do grupo: o ódio oblitera o julgamento; a guerra é também um jogo de xadrez; o ódio faz-me jogar sem eu ver o tabuleiro todo. 

Conclusão: sobrevivo melhor sem ódio. A frieza, o profissionalismo, a inteligência emocional ou até a compaixão (sim, até na guerra, pode haver compaixão, que não é a mesma coisa que empatia, e muito menos amor) podem ser vantagens. 

O ódio é um luxo que muitos não podem pagar. Fiz prisioneiros (eu e a minha companhia, a CCAÇ 12); nunca odiei nenhum prisioneiro nem o torturei (mas outros fizeram-no por mim, em meu nome, em nome do grupo)...


(iii) Amor vs. ódio: altruísmo vs. egoísmo

A sociobiologia explica o altruísmo como uma estratégia evolutiva: cooperamos com quem partilha os nossos genes ou os nossos interesses. Mas isso é redutor. O ser humano é muito mais do que instintos, genoma, ADN, sexo, testosterona.. É mais do que o nosso gene egoísta que se quer reproduzir â viva força.

Sim, o amor pode ser um ato de resistência. Em contextos de guerra ou opressão, o amor (pela família, pela pátria, por um ideal, pela liberdade, pela justiça) é muitas vezes o que mantém as pessoas de pé.

"Amor com amor se paga": não é uma lei universal, mas é um contrato social. Se todos agirem com egoísmo puro, a sociedade colapsa. O altruísmo não é ingénuo: é racional a longo prazo. Também é,pois,  "interesseiro".
 
O ódio também é uma  ferramenta de manipulação e mobilização: o ódio pode ser útil para mobilizar massas (viu-se isso durante as guerras civis liberais, em 1828/34, na guerra colonial de 1961/74, no "verão quente de 1975", na ocupação indonésia de Timor Leste e na resistência dos timorenses aos ocupantes, etc.) mas é insustentável a longo prazo. 

Amílcar Cabral pregou o ódio ao colonialismo mas distinguiu os colonialistas e o povo português. Claro que o colonialismo não é uma coisa abstracta...

 As sociedades que duram são aquelas que conseguem gerir o ódio, não as que o celebram (como a Alemanha nazi). 

Dicas práticas para o meu dilema existencial, quando eu tiver/nós tivermos  que me/nos  envolver numa nova guerra (cruzes canhoto!... mas nunca se sabe nem onde nem quando podemos ser apanhados de novo por um conflito armado, nós, os nossos filhos, os nossos netos):
  • o ódio é uma escolha, não uma fatalidade: podes reconhecer a raiva, a injustiça, a dor, sem te deixares consumir por elas;
  • a guerra (metafórica ou real) ganha-se com inteligência, não com ódio;
  • o ódio cega; a estratégia, a empatia (até com o inimigo) e a resiliência são armas mais poderosas do que o ódio;
  • e se tivessemos conseguido  juntar,  numa mesma "seleção nacional",  Sarmento Rodrigues, Adriano Moreira,  Spínola, a "Cilinha" mas também... Amílcar Cabral e a "Maria Turra"?;
  • o altruísmo não é fraqueza;
  • a história mostra que as sociedades mais cooperativas são as mais resilientes; 
  • o egoísmo puro é um beco sem saída;
  • desconfiar dos extremismos (e de quem os defende) é um bom princípio; 
  • tanto o ódio cego como o amor ingénuo são perigosos ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo", diz o provérbio);
  • o equilíbrio (dinâmico) está na difícil lucidez;
  • o ódio é fácil;
  • o amor é difícil;
  • ...mas  é o único que constrói algo que dura nas nossas relações (intragrupais, intergrupais, comunitárias, nacionais, internacionais).
(Continua) (**)
_________________

Notas do editor LG:

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A obra de Howard W. French é algo mais de que uma mera revisitação da Era das Descobertas e do papel central da Europa no desencravamento do mundo. A singularidade passa por colocar o continente africano e os seus povos no centro das atenções: a despeito da infâmia da escravatura e dos milhões de seres humanos encaminhado para as Américas e para povos do Mediterrâneo, sobretudo, os africanos foram essenciais na construção da modernidade, impulsionaram culturas, foram determinantes nas riquezas criadas nas Américas. Este trabalho Origem:África leva-nos para uma nova visão das nossas origens; a guerra civil norte-americana, provocada pela questão da escravatura gerou direitos dos cidadãos e fundou um novo conceito de liberdades cívicas. Uma revisão do olhar que este investigador alarga à história do mundo Atlântico, procurando pôr África no seu lugar.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 1

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro "Origem: África", o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

Alguns desses produtos do trabalho escravo, como é o caso do algodão, ajudaram a lançar a industrialização. Para o autor, esta sua investigação procura abrir vários caminhos e avivar historiografia antiga: as disputas europeias pelo controlo da riqueza africana, a sucessão de batalhas navais na África ocidental no acesso ao ouro; uma quase guerra mundial no século XVII, para o controlo do comércio das mais ricas fontes de escravos em África, hoje Congo e Angola, alternando entre eles; e temos o açúcar brasileiro, as lutas de Inglaterra e Espanha pelo controlo das Caraíbas, enfim, o esclavagismo foi a catapulta da criação de riqueza no Atlântico norte, mas a sua presença modificou a estrutura das Caraíbas e do Brasil.

Este volumoso estudo abre com a “descoberta” de África, desde a Antiguidade, e a partir do Mediterrâneo Oriental, basta recordar os negócios fenícios no norte de África, igualmente no norte de África a presença do Império romano e depois, com a presença muçulmana a aceleração do comércio transariano no ouro; os manuais que há muito que dão conta de impérios africanos como o Gana, conhecido em toda a África do Norte como o país do ouro; o Império Mali, o mais famoso dos impérios sudaneses, que sucedeu ao Gana no século XIII, que deixou registo de uma figura lendária, o imperador Mansa Musa que na sua viagem para Meca, passando pelo Cairo, deu brado pela ostentação da sua riqueza; no seu auge, o império controlava o enclave de três dos mais importantes vales fluviais da África Ocidental: o Senegal, a Gambia e, acima de tudo, o Níger.

Atenda-se a esta observação do autor:
“Enquanto o Gana dependia principalmente dos campos de ouro num lugar chamado Bambuk, que estava ligado através de rotas de caravanas ocidentais conducentes a Marrocos, o Mali diversificou as suas fontes de ouro e conseguiram aumentar consideravelmente a produção, estendendo as suas redes de comércio ainda mais para sudoeste, explorando a produção de áreas controladas pelos grupos étnicos acãs (grupos étnicos e linguísticos situados no Gana e na Costa de Marfim) do atual Gana, nome adotado pela antiga colónia britânica que se chamava Costa do Ouro aquando da independência. Além do ouro, cada um dos três grandes impérios sudaneses que se sucederam no controlo dos mais importantes vales fluviais e da savana ao sul do Sara – Gana, Mali e Songai, perseguiram agressivamente o comércio de escravos.”

E, mais à frente:
“Entre 1500 e 1800, aproximadamente três milhões de escravos negros foram traficados através do deserto do Sara, ou por rotas distintas da África Oriental, para as regiões do mar vermelho e do Oceano Indico. Mais de um milhão foram enviados para as Américas a partir das áreas da Senegâmbia e das costas da Alta Guiné, ambas constituindo zonas nucleares de influência dos grandes estados do Sahel medieval.”

Adstrito a este contexto, a Europa conheceu tempos de tumulto, de refazimento de Estados, sofreu a Peste Negra, teve péssimos anos agrícolas e sentiu a falta do ouro; num quadro de relações científicas onde também pontificaram os conhecimentos muçulmanos e judaicos, deu-se o afã, a curiosidade, a apetência de riquezas, a cobiça do ouro, o ideal de cruzada, teimava-se em fazer recuar os muçulmanos do norte de África para o ponto de origem.

O conhecimento científico exigia atualizações na cosmografia. Os mapas e os livros que circulavam em meados do século XIV procuravam dar informações sobre África, acompanhavam-se as viagens que os muçulmanos faziam no Sudão, os mapas introduziam o rio Senegal que era imaginado como o ramo ocidental do Nilo. Apareceu em 1375 o Atlas Catalão, um mapa-múndi. Vale a pena falar dele.

Este mapa maiorquino continha elementos de astrologia, mito e superstição, é o mais antigo mapa sobrevivente da Idade Média europeia, nele se tentava estabelecer uma geografia científica do mundo real. O mais extraordinário elemento deste mapa é África: lá, não só se encontra um grande número de zonas costeiras identificadas, como é próprio de um portulano, mas também uma quantidade impressionante de detalhes sobre o interior do continente. Pela primeira vez na cartografia surge uma referência aos negros da Guiné.

French foca seguidamente o desempenho da nova dinastia de Avis e recorda o papel científico determinante dos judeus, a importância da conquista de Ceuta, as expedições em torno da Costa Ocidental africana, o diferendo de Portugal e Castela sobre as Canárias, as primeiras trocas comerciais com as chefaturas africanas, a importância do contrato celebrado por D. Afonso V com Fernão Gomes, a construção da fortaleza da Mina, finalmente o acesso ao ouro, a substituição de contactos hostis com as populações nativas pela diplomacia do diálogo e negociação. Vamos ver seguidamente a importância que deve ser conferida aos negócios da Mina e a edificação do tráfico negreiro/escravatura.


Professor Howard W. French

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 10 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)