
Fonte: Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 06822.172.27196 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18752 | Ano: 55 | Data: Quarta, 30 de Abril de 1975 | Directores: Director: António Ruella Ramos; Director Adjunto: José Cardoso Pires | Edição: 2ª edição | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa
Vietname > Saigão> 29 de abril de 1975 > Um membro da CIA ajuda um grupo de evacuados civis, a subir uma escada para um helicóptero da Força Aérea Norte-Amerivcana, no telhado do número 22 da rua Gia Long, pouco antes da queda iminente de Saigão às mãos das tropas norte-vietnamitas. Foto histórica do fotojornalista neerlandês Hubert van Es (1941-2009). Imagem do domínio público. Cortesia de Wikimedia Commons.
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Luís Gonçalves Vaz |
2. A retirada portuguesa da Guiné-Bissau em 15 de outubro de 1974 e a evacuação americana de Saigão em 29/30 de abril de abril de 1975 podem ser apresentadas como dois exemplos, diferentes, se não mesmo opostos, do fim de uma guerra prolongada e de uma presença militar "além-mar".
Ao analisamos, porém os detalhes, constatamos que s diferenças são tão importantes quanto as semelhanças.
O texto do Luís Gonçalves Vaz (**) descreve a retirada portuguesa como uma operação cuidadosamente planeada, e melhor executada, baseada na Ordem de Operações n.º 1/74, na sequência do acordo político entre Portugal e o PAIGC.
Cerca de 2.500 militares metropolitanos (os últimos de um exército que totalizava dez vezes mais, sem contar com cerca de 15 mil homens em armas, do recrutamento local, incluindo milicias), f oram retirados por via marítima, sob forte coordenação naval, mantendo-se dispositivos de segurança até ao último momento.
E tudo aconteceu com dignidade, segurança, ordem, disciplina, com respeito, até essa data, no que foi assinado nos acordos de paz entre as NT e o PAIGG. ( O que se passou depois é outra história, a "caça" aos "cães dos colonialistas"...)
O que têm em comum as duas retiradas, separadas no tempo apenas por seis meses? Os portugueses estavam a 4 mil km de casa, os norte-americanos a 13 mil (***).
(i) O fim de uma guerra sem vitória militar clara
Em ambos os casos, os exércitos retiravam-se sem terem sido derrotados numa batalha decisiva nos dias finais.
- Portugal abandonava a Guiné após o 25 de Abril e o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, em 10 de setembro de 1974, aceitando retirar as últimas tropas até 15 de outubro de 1974;
- Os EUA abandonavam o Vietname do Sul após anos de guerra (1965/73) e depois dos Acordos de Paris de 1973.
Em ambos os casos, a decisão foi sobretudo política.
(ii) Forte componente logística
Tanto em Bissau como em Saigão, o desafio principal foi retirar pessoal, equipamento e documentação.
No caso português, o texto do Luís Gonçalves Vaz destaca o papel dos navios T/T Uíge e Niassa e da fragata NRP Comandante Roberto Ivens como núcleo da operação, além das LFG Lira e Orion.
Em Saigão, os americanos recorreram a uma gigantesca ponte aérea por helicópteros a partir da embaixada e de navios da 7.ª Frota; foram evacuados 6500 militares e civis, incluindo diplomatas.
(iii) O simbolismo das imagens
As imagens do arriar da bandeira portuguesa em Bissau e das multidões junto à embaixada americana em Saigão tornaram-se símbolos do fim de uma época.
As diferenças fundamentais;
- A retirada portuguesa foi negociada; a de Saigão foi uma evacuação de emergência
Esta é provavelmente a maior diferença. Na Guiné, existia o Acordo de Argel (26 de agosto de 1974); o PAIGC cooperou na transição; a retirada foi planeada com datas, meios e responsabilidades relativamente bem definidas.
Em Saigão, o exército norte-vietnamita e o Vietcongue avançavam rapidamente; a capital estava prestes a cair; a evacuação foi feita sob enorme pressão temporal, para não dizer pânico.
- Não houve colapso militar português
O texto da autoria do Luís Gonçalves Vaz (que tinha 14 anos em 1974, quando deixou Bissau, antes do pa, que foi dos últimos militares a sair, por avião), insiste numa ideia importante: o sucesso consistiu precisamente em não haver violência armada porque as forças portuguesas mantiveram capacidade de combate até ao último momento. Ou seja, as NT não depuseram as armas.
Em Saigão aconteceu o contrário: o exército sul-vietnamita desintegrou-se em muitas zonas; houve pânico entre civis e militares; a evacuação tornou-se caótica; foi uma retirada humilhante e traumatizante para quem a viveu.
- O ambiente psicológico foi diferente
Em Bissau, foi mantida a disciplina militar (de um lado e do outro); a cadeia de comando manteve-se intacta; foi feita a transferência formal de soberania; não houve praticamente civis a evacuar.
Em Saigão, pelo contrário, houve pânico generalizado, milhares de pessoas (mais próximas no núcleo duro do regime do Vietname do Sul e dos seus aliados) tentavam desesperadamente embarcar nos helicópteros; verificou-se o colapso administrativo do Estado sul-vietnamita.
As famosas imagens dos helicópteros sobre os telhados (vd,. foto acima) refletem isso.
Onde é que a comparação é válida?
Historicamente, pode dizer-se que ambos os acontecimentos representam o fim de projetos coloniais ou de influência geopolítica; a aceitação de que a solução militar deixara de ser sustentável; mas também momentos de enorme impacto psicológico para as respetivas sociedades.
Para muitos militares portugueses que serviram na Guiné, Angola ou Moçambique, o 15 outubro de 1974, em Bissau, terá tido um peso emocional semelhante ao que o 29/30 de abril de 1975 teve para muitos veteranos americanos do Vietname. (Salvaguardadas as devidas distâncias...)
Onde é que as duas retiradas não são comparáveis ? Se estivermos a falar da execução militar da retirada, a comparação torna-se mais fraca.
Segundo os elementos do documento que partilhámos no blogue (**), a retirada da Guiné aproxima-se mais de uma extração militar organizada e negociada, enfim, uma retirada planeada sob paz armada; enquanto que, no caso de Saigão (29/30 de abril de 1975), foi uma evacuação de emergência perante o colapso de um regime aliado dos EUA (o Vietname do Sul).
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| ~ Manuel Beleza Ferraz |
E até terá passado despercebida da maior parte dos antigos combatentes portugueses..... De facto, não houve imagens de pânico, não houve combates finais (nem sequer escaramuças), nem multidões a tentar fugir.
De resto, os portugueses em Portugal (mas também em Angola e Moçambique, as duas verdadeiras "joias da Coroa"), seis meses depois do 25 de Abril, tinham mais do que se preocupar do que com o fim da "guerra da Guiné"...
De qualquer modo, do ponto de vista militar, o que fica para a história é que o planeamento logístico cumpriu o seu objetivo, como diz o nosso Luís Gonçalves Vaz (**). Os 2500 militares, os últimos soldados do império no território da Guiné (a partir de então Guiné -Bissau),Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 5 de maio de 2025 Guiné 61/74: P26766: Efemérides (454): O fim da guerra do Vietname foi há 50 anos ("Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975)(***) Vd., poste de 11 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28089: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (6): quando a cultura reforça a desigualdade de género e a violência (física, psicológica, simbólica) sobre as mulheres: neste caso o barlaque em Timor-Leste ou o alambamento em Angola ou o "pidi noiva" na Guiné-Bissau





































