Não é que ele lhe batesse ou resmungasse sequer, quando chegava meio avermelhado, mas gastava sempre algum tempo e alguns tostões que lhes fariam falta para outras precisões.
Por esses anos austeros, as vendas eram os estabelecimentos onde os que não tinham terra se obrigavam a mercar quase tudo e os que a tinham compravam apenas o que ela lhes não dava.
Mas eram também locais de encontro, por onde passavam, no fim da jornada, mineiros e gente de outros ofícios, juntando-se, em inférteis tagarelices, a velhos gastos e tossegosos, antes da última etapa que os levava a casa, a direito ou aos esses.
Distinguiam-se os mineiros dos outros fregueses da venda cuja porta ficava a meia dúzia de metros das cancelinhas da igreja, pela roupa enegrecida de farruscas, que envergavam dentro e fora da mina.
Alguns não cuidavam sequer de lavar a cara, depois da jornada de trabalho, como se se sentissem orgulhosos das marcas do seu penoso e insalubre labor, debaixo do chão, sempre sujeitos a perder a vida numa imprevisível derrocada ou explosão de grisu.
Algumas vezes, quando a hora de saída do turno lhes permitia alcançar a carreira que partia de Rio Bom e passava por Emendadas, lá vinham eles empoleirados, como passageiros de segunda categoria, na cobertura da ronceira camionete pintada de azul e amarelo, bem agarrados ao gradeamento que bordejava todo o tejadilho, de pernas penduradas sobre as vidraças das janelas.
Assim empoeirados de carvão, não lhes era permitido sujar os assentos lustrosos do autocarro, pelo que se sujeitavam a viajar naquelas condições desconfortáveis e pouco seguras, não obstante pagarem, por inteiro, o bilhete.
Quando chegavam à paragem da tal venda de Emendadas, desciam aqueles dez ou mais enfarruscados, pela
mesma escada por onde tinham subido, apensa à traseira da camionete.
Alguns deles apressavam-se a caminho de casa, onde os esperavam tarefas que a força das mulheres não tinha sido capaz de realizar, ou que fosse mesmo,como então se dizia, trabalho de homem. Mas outros faziam da venda uma paragem intermédia, de retempero de energia e animação da alma, antes de se encaminharem para os sítios onde moravam.
Nesse estabelecimento, onde se vendia de tudo, havia um balcão separando o espaço dos fregueses da área onde se arrumavam, em prateleiras, gavetas e gavetões, os diferentes produtos alimentícios, tecidos, ferramentas e outras coisas precisas.
Neste espaço do interior do balcão, de uso reservado ao vendeiro, havia ainda uma pipa de vinho verde tinto, por vezes emparelhada com outra de verde branco, de onde ele enchia, com indisfarçada satisfação, por uma chiante torneira de madeira, canecas de vinho, ao ritmo da sede e do vício dos clientes.
Pendentes sob o teto, um perfeito expositor, havia, pendurados em pregos, toda a sorte de ferramentas, vasilhas de alumínio ou de folha zincada e todos os
apetrechos de utilidade doméstica, alguns já enferrujados pelo tempo.
Era sobre esse balcão, onde a pequenada se pendurava furtivamente para ver o que estava para além dele, que o vendeiro, avezado aos gostos e aos bolsos dos
fregueses, dispunha, sobre uma folha de papel mata borrão, um pedaço de broa, uma talhada de toucinho salgado, um punhado de azeitonas, um chouriço que os clientes cortavam com um canivete que traziam no bolso, ou até um cibo de bacalhau seco.
Essas lambarices vinham sempre acompanhadas de uma caneca de verde onde todos pousavam os beiços, não se podendo assim contar a quantidade que cada um bebia. Era por isso que, algumas vezes, chegavam a casa, cambaleantes.
Havia sempre três ou quatro homens que se constituíam clientes mais assíduos e ficavam por lá horas seguidas, em poiso certo, numa lambança pegada, fazendo daquele sítio movimentado o centro de dia dos tempos atuais. Eram quase sempre idosos de pouco poderem fazer, padecentes de silicose ou de qualquer outro mal sem cura, que ali se acoitavam.
Afeitos àquele recanto de convívio, sentavam-se sobre o tampo de uma grande caixa de milho, defronte do balcão que fazia de mesa, levantando-se intermitentemente, cada um, para mais um gole de verde tinto da caneca de cerâmica, até a escorripichar consolado deixando-a repousar sobre a boca, de fundo para o ar.
Noutras ocasiões, em perfeita comunhão, beberricavam, um a um, por um enorme copo de vidro de meia canada, no qual misturavam vinho, gasosa e açúcar, num gesto que se repetiria em sucessivas rodadas entremeadas por palavrório emaranhado que se ouvia cada vez mais longe. As mãos serviam de guardanapo que passavam pela boca e logo limpavam nas calças de cor já pouco decifrável.
As mulheres também ali entravam, mas pelo tempo estrito de se proverem da despesa para uma semana, que havia de caber numa pequena giga tecida de tiras de madeira de salgueiro que mãos habilidosas de um gigueiro do lugar teciam.
Cabisbaixas, encostavam-se ao balcão, mas no extremo oposto ao dos homens, fazendo de conta não os ouvirem, pedindo artigo por artigo, baixinho, como se quisessem evitar que se soubesse o que levavam, mesmo que quase todas comprassem o mesmo.
A vendeira, enquanto o marido aturava mais os homens, ia enchendo, em cartuchos de papel mata-borrão, um quilo de açúcar, um quarto de café de mistura, um quarto de azeitonas e dois ou três quilos de arroz… acomodados numa saca feita de diferentes pedaços de tecido que as mulheres emendavam pacientemente nas suas horas de sesta.
Havia ainda que encher uma garrafa de azeite para alegrar as batatas cozidas com couves galegas e bacalhau, e outra de petróleo para as candeias, que a freguesa trazia vazias, de casa.
Não podia faltar, naquele artístico cesto de duas asas, um bacalhau, um quilo de carboneto para o gasómetro e uma barra de sabão para lavar a roupa e ensaboar, sobretudo ao domingo, antes da missa, senão o corpo, pelo menos as partes dele que andassem à mostra.
Algumas mulheres tinham que levar, também, tabaco e palhetes para o marido, que chegassem para o mês todo. Essas podiam até discordar do vício dispendioso dos seus homes, mas acediam a comprar-lhes os cigarros, porque eles sempre eram homens ou, pior, porque temiam desobedecer-lhes.
Esporadicamente compravam também, na venda onde havia de tudo, um par de socos, dois metros de ganga e uma foucinha de segar erva.
Só pagavam no fim do mês, quando o marido arrecebia do patrão, confirmando então se os valores parcelares anotados no livro mestre da venda correspondiam aos apontados no seu pequenino livro de capa preta que traziam sempre no bolso de asseado avental escolhido para aquela ocasião. (...)