Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante.
Foto (e legenda): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Quando António Spínola assumiu o comando da Guiné, em meados de 1968, ainda brigadeiro, com "carta branca" de Salazar para inverter o curso das coisas, ter-se-á criado entre os militares um ambiente muito próprio a volta da sua figura: uma auréola de heroísmo (alimentada pela sua atuação em Angola, como lendário comandante do BCAV 345, 1961/64; um mistura de disciplina rígida (que alguns temiam que descambasse para o militarismo típico da arma de cavalaria); a par da teatralidade política e da multiplicação de episódios quase caricatos.
Nas nossas casernas, entre oficiais, sargentos e praças começaram então a circular muito rapidamente muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândia.
O termo tem um sentido tanto negativo (de crítica, ironia e sarcasmo) como positivo, associado a um estilo completamente novo de fazer a guerra e governar um território ultramarino, à beira do colapso em termos económicos, sociais, militares e políticos.
Spinolândia é, antes de mais, uma expressão de cunho satírico e político que surgiu para descrever o estilo de governação e a intensa campanha de propaganda levada a cabo pelo general António de Spínola enquanto Governador e Comandante-Chefe da Guiné Portuguesa, o "consulado" (1968-1973), como diziam alguns de nós.
A expressão era utilizada, frequentemente, com ironia por opositores ou observadores críticos, para designar o território da Guiné como um "laboratório" psicossocial e político-militar muito próprio do Spínola e dos spinolistas (um conjunto brilhante de oficiais que ele congregou à sua volta). O termo pode remeter para ideias como:
- personalismo / populismo/ culto da personalidade: a ideia de que a Guiné se havia tornado um feudo pessoal onde a imagem do general (com o seu icónico monóculo e pingalim) era omnipresente, para mais reunindo os dois papéis de liderança, o de político (como governador) e o de militar (como comandante-chefe);
- "Guiné Melhor": o slogan do General que prometia desenvolvimento social e económico para conquistar as populações ("conquistar corações e mentes"), tentando contrariar a influência do PAIGC e, decididamente, subtraí-las ao seu controlo;
- a africanização do exército (criando a "nova força africana", incluindo companhias de base étnica, o batalhão de comandos, os destacamentos de fuzileiros especiais);
- propaganda intensiva / mediatização do conflito: uma gestão de imagem sem precedentes na história do Estado Novo, que transformou a Guiné na montra de uma "nova política" ultramarina, completamente distinta do imobilismo da elite caquética do regime.
É difícil de dizer quando surgiu o termo Spinolândia, mas tudo indica que se consolidou no início da década de 1970, coincidindo com o auge da visibilidade mediática de Spínola.
No início do seu "consulado", entre meados de 1968 e a Op Mar Verde (22 de novembro de 1970), o general apostou fortemente na comunicação social, nacional e estrangeira. O termo começou a circular nos corredores políticos de Lisboa e entre os militares para descrever a autonomia quase absoluta com que ele governava, à margem das diretrizes rígidas do ministro do ultramar, Silva Cunha, que ele de resto desprezava por ser um "paisano", "provinciano", que não percebia nada de tropa, de guerra e de África.
A consagração crítica vai de 1971 até meados de 1973: foi nesta fase que a expressão ganhou mais força, especialmente entre os setores que criticavam o custo astronómico das reformas de Spínola e o seu crescente protagonismo político, que muitos viam como uma ameaça ao regime de Marcello Caetano. (Aliás, no final do seu mandato acabou mesmo em ruptura com o chefe do Governo, o qual, para salvar as jóias da coroa do império, Angola e Moçambique, estava disposto a aceitar o sacrifício da Guiné.)
Curiosamente, enquanto que, para os seus detratores, a o termo Spinolândia era uma crítica ao egocentrismo do general, para os seus apoiantes, os spinolistas, representava a esperança de uma solução reformista, federalista, com uma dupla componente política e militar, para o beco sem saída da guerra do ultramar, que culminaria mais tarde, já em 1974, na publicação de "Portugal e o Futuro".
Deste tempo há muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândia, algumas recolhidas em memórias, outras transmitidas oralmente.
Seria uma pena perderem-se. Temos feito um esforço, no blogue, para as recolher e partilhar. Como em todo o anedotário associado a figuras lendárias, carismáticas e controversas como o general Spínola, torna-se difícil, senão impossível, identificar a sua autoria, origem, contexto, e muito menos ainda a sua veracidade factual.
Temos feito uma recolha das anedotas que circulam na Net, através das ferramentas de IA. Estamos a selecionar algumas das melhores e das mais verosímeis. Algumas das versões que lemos, podem ser variantes de anedotas já conhecidas, contadas e recontadas.
Infelizmente esta é uma faceta do nosso Com-chefe (não falamos dele como político no pós-25 de Abril, mas apenas como protagonista maior da guerra em que também participámos), menos bem tratada (para não dizer mal tratada) pelo seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues. ( Que, de resto, não deve ter posto sequer os pés na Guiné.)
Era conhecido por diversas alcunhas, o "Velho" (já desde Angola), o "Caco", o "Caco Baldé", o "Aponta Bruno", o "Bispo", o "Homem Grande de Bissau", o "Com-Chefe", o Governador", o "Maior deste", o "Nosso General"
O estilo pessoal de Spínola - monóculo, luvas, farda impecável, ar teatral e presença muito física e viril nas visitas ao terreno, na cidade ou no mato - marcou profundamente quem serviu no CTIG. Isso gerou um verdadeiro folclore de anedotas de caserna, muitas nascidas no próprio QG ou em messes de oficiais em Bissau, em Bissalanca e no mato...
2. Há anedotas para todos os gostos e oriundas das mais diversas fontes (desde os simples soldados até aos pilotos e mecânicos da FAP e aos colaboradores mais próximos do general e do governador).
Era sabido, por exemplo, que ele não suportava o ar condicionado, o que era um suplício para quem tinha que participar nos briefings, no QG/CCFAG ou no palácio do governador. (Isso tem-me sido testemunhado pelo cor inf ref Mário Arada Pinheiro, que foi colaborador íntimo do nosso Com-chefe, em 1972/73.)As ferramentas de IA, que temos consultado, confirmam que "essa história do ar condicionado aparece muitas vezes nas memórias de quem trabalhou perto de António de Spínola no quartel-general de Bissau"...
Na realidade, "ele tinha fama de não suportar ar condicionado, o que na Guiné era quase uma forma de tortura para quem ficava horas nos briefings"...
Entre oficiais do estado-maior e pessoal da Força Aérea circulavam várias anedotas “mais picantes” ou "pícaras" (no sentido militar do termo: mais atrevidas e sarcásticas). Aqui vão algumas:
(i) O suplício do briefing tropical
Num briefing longo no QG, com o calor e a humidade típicos de Bissau, um major (que não sabia da aversão do general) aproximou-se discretamente do aparelho de ar condicionado e ligou-o.
Spínola interrompeu a exposição, levantou a cabeça e interpelou a assistência:
- Quem foi o criminoso que ligou isso?
O pobre do major confessou a ousadia. Resposta de Spínola:
- Nosso major, na Guiné há duas coisas que matam oficiais: o ar condicionado… e o inimigo. O segundo ao menos é mais honesto.
Claro que o aparelho voltou a ficar desligado e a reunião continuou com os oficiais a suar em bica.
(ii) O mapa colado à mesa
Outra que corria no estado-maior: num briefing, em dia particularmente de calor de estufa, o suor de um capitão começou literalmente a pingar sobre o mapa operacional.
Spínola observou a cena e comentou:
- Capitão, não molhe o mapa… que depois a guerra escorre.
O capitão respondeu:
- Meu general, isto não é água… é a estratégia a evaporar-se.
A sala rebentou a rir.
(iii) A toalha no pescoço
Há quem conte que num outro briefing, em pleno mês de maio, um oficial apareceu com uma pequena toalha branca ao pescoço.
Spínola perguntou-lhe:
- Isso é parte do novo uniforme?
Resposta:
- Não, meu general… é equipamento de sobrevivência.
(iv) A vingança da Força Aérea
Entre pilotos e mecânicos da Força Aérea havia outra pequena maldade humorística.
Dizia-se que, quando Spínola visitava uma unidade no mato, e depois regressava ao QG, os pilotos comentavam:
— O nosso general não gosta de ar condicionado… por isso voamos sempre com as portas abertas.
E os mecânicos respondiam:
— Assim ele tem sempre ar.... natural!.
(v) A frase mais repetidaA frase que muitos veteranos dizem ter ouvido (ou ouvido contar) em reuniões longas no QG era:
— Senhores, se têm calor é porque estão vivos. Os mortos não transpiram.
(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / OpenAI, Le Chat /Mistral AI) | Condensação, introdução, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor LG: