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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27705: E as nossas palmas vão para... (35): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte VI

Foto nº 47 >  Mais uma mesa, com alguns "veteranos" da Tabanca da Linha (e pelo menos dois da Tabanca Grande)


Foto nº 48 > Julgo que se trata de um "periquito"... Espero a ajuda do régulo (e fotógrafo) para o identificar corretamente


Foto nº 49 > O António Varanda, à direita.


Foto nº 50> António Casquilho Alves (Lisboa) e João Pereira da Costa.(Lisboa): sempre de óculos escuros, desde que foi operado às cataratas...(João Pereira da Costa, ex-fur mil Pel Rec Info / BART 2857, Piche, 1968/70,  fundador e administrador do blogue do BART 2857 (Piche, 1968/70), é membro da nossa Tabanca Grande, nº  736, desde 20/2/2017). 

Quanto ao António Alves,  não precisa de convite para se juntar à Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas.


Foto n reº 51 > O primeiro camarada à esquerda, está por identificar; o do meio é o superintendente chefe da PSP, reformado, Presidente do Núcleo de Oeiras-Cascais da Liga dos Combatentes, Isaías Fernando Ferreira Teles: oficial do exército, da arma de infantaria, Isaías Teles nasceu em Bragança em 1946, passou pelos TO de Guiné (onde esteve como alferes na região de Tombali), Angola e Moçambique; em 1985 transitou para os quadros da PSP onde chegou ao posto de superintendente chefe; gostávamos que se sentasse connosco à sombra do poilão da Tabanca Grande: também não precisa de convite formal.

À direita, o cor inf ref Fernando José Estrela Soares (ex-comandante da CCAÇ 2445, Cacine, Cameconde e Có, julho de 1968 / dezembro de 1970) (o  F. J. Estrela Soares é membro nº 786 da Tabanca Grande, desde 10/4/2019),



Foto onº 52 > O único camarada que reconheço, de outros convívios, é o da direita, o António Varanda (Lisboa); falta-me o nome dos outros dois; o Maneul Resende ira mandar-me o resto da legenda.

Magnífica Tabanca da Linha > Restaurante Caravela d' Ouro > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >

Fotos (e lege4ndas) © Manuel Resende (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.


1. Continuação da fotorreportagem do último almoço-convívio da Tabanca da Linha, Algés, 16 de janeiro de 2026, em que participaram 73 "magníficos" dos 76 inscritos. Fotos do Manuel Resende, régulo da Tabanca da Linha. 

(Continua)

Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)



EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo,   na Parada alusiva ao Dia de Portugal,  em Mineola, NY, 10 de junho de 2018: 



1. Mensagem do nosso John Crisóstomo, o luso-americano régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona   (*) 

João Crisóstomo, membro da nossa Tabanca Grande, com 290  referências no blogue, a viver em Queens, Nova Iorque, ativista social, ex-alf mil inf, CCAÇ CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).


Data - 4 fev 2026 08:17
Assunto - Comentário ao poste P 27695 (**)

Pus-me a escrever um comentário ao poste 27695 e depois ficou tão grande que não tive coragem de o publicar

Permito-me uma “confissão", uma conversa com os meus camaradas, pois que, como irmãos que somos pelo que todos experimentámos, sei que a maioria vai compreender e aceitar este meu “desabafo", que talvez seja coisa que suceda com outros também. 

Creio que um dos muitos benefícios que este blogue tem proporcionado a muita gente, é exactamente o de uma "catarse" terapêutica (do grego kátharsis, "purificação"). A mim, pelo menos, tem-me ajudado.

É que tenho vindo a seguir, mais ou menos, os postes relacionados com o saudoso Horácio Fermandes (1935-2025) e sei que devia fazer uns comentários ao muito que se tem escrito. E não o tenho feito. "Desculpas de mau pagador" nunca são boas, por melhores que elas sejam e por mais voltas que se lhe deem; e portanto não mereço desculpas.

Não sei se virei “bipolar”, pois de vez em quando tenho momentos de muita energia para logo voltar ao mesmo marasmo. Explicarei apenas que,  de há bastante tempo,  já me sinto muito em baixo e é sempre com esforço que faço algo.

Mas este poste de ontem (**) menciona o nome dum quarto Maçarico, desconhecido  até aqui,  e que eu conheço bem. 

Como o Luís Graça descreve, o João Maria Maçarico era de Ribamar e a casa dele era mesmo junto da casa do Horácio. Eu conhecia-o bem assim como o pai (mas não me lembro da mãe ) e o irmão, o Veríssimo, que emigrou para o Canadá. 

Por instruções do Padre António Alves Sabino, que era meu primo direito e que era na altura subprefeito do colégio de Montariol, o João Maria Maçarico veio-me buscar a minha casa e levou-me pela mão, literalmente, que para que os meus pais ficassem descansados. Foi no dia 7 de setembro de 1954. Eu era muito novo.

O facto do meu aniversário de nascimento ser em fins de junho levou a que eu fosse sempre muito jovem em relação aos meus colegas de cursos. Isso sucedeu até na minha entrada para a tropa onde entrei muito novo em comparação com os outros que entraram nesse dia. É que,  ao sair do seminário de Leiria,  logo verifiquei que não conseguia arranjar qualquer trabalho. Meus pais tinham dificuldades e eu queria trabalhar imediatamente mas não conseguia nada. 



João Maria Maçarico (*):  nascido em 1937, também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico

Foto: cortesia de : Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002.


Recordo-me que entre outros lugares onde fui pedir emprego, foi ao gerente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Torres Vedras. A resposta foi a mesma que me davam em toda a parte: "faça a tropa primeiro” e depois venha falar comigo. E por isso informei-me como devia fazer para cumprir o serviço militar logo que pudesse. Fui a Santarém e aceitaram-me logo, dando-me as devidas instruções para o fazer. Entrei em Mafra,  em janeiro de 1964,  aos 19 anos! Fiz 20 anos em junho desse ano.

Ainda sobre o João Maria Maçarico: ele veio a minha casa para me acompanhar nessa primeira e longa viagem de comboio de Torres Vedras a Braga. E da estação do comboio de Braga até ao colégio de Montariol onde chegãmos à noite desse mesmo dia e me “entregou" ao meu primo.

Devo dizer que pouco ou muito pouco me valeu o facto de eu ser primo do subprefeito: vivi e sofri física e mentalmente o mesmo que o Horácio viveu e descreve no seu livro “Francisco Caboz : a construção e desconstrução de um padre”.

Eu e o João Maçarico estivemos juntos dois anos em Montariol. Depois disso,  porque ele andava sempre três anos à minha frente,  eu apenas sabia notícias dele pela família. Só o vim a reencontrar anos mais tarde,  quando soube que ele trabalhava em Lisboa na companhia de telefones (TLP, mais tarde Portugal Telecom).

E depois outra vez em 2018 ou 2019: eu soube que havia um encontro de antigos alunos em Ourém e eu quis lá ir. Convidei o Rui Chamusco e fomos. Quando lá chegámos, foi-nos dito que o encontro era apenas por vídeo, embora fossemos bem-vindos se quisessemos participar nesses encontro. E quando através dos écrãs se fizeram as apresentações e eu ouvi o nome do João Maria Maçarico,  eu interrompi para perguntar se este era o João Maria Maçarico, de  Ribamar, Lourinhã. 

Depois ficámos em contacto,  soube que ele tinha feito o serviço militar em Moçambique em 1966/67, como alferes miliciano. Mas um encontro pessoal como eu queria,  nunca foi possível e acabei por perder o contacto pois ele deixou de atender o telefone. 

Este ano, já depois do Ano Novo, quando estive em Portugal soube pela Carmitas, irmã mais nova do Horácio,  que ele está internado num lar na zona do Oeste, na Marquiteira, não longe da casa onde nasceu. Mas foi tudo o que me soube dizer.

PS1 - Estou quase a acabar de ler o livro “Os Có Boys” do Luís da Cruz Ferreira, que comprei no encontro da Magnífica Tabanca da Linha, em 14 de janeiro deste ano,  Não vou fazer comentários sobre ele pois nunca saberei fazer pertinentes comentários como os muitos que foram feitos nos postes dedicados a este livro.

Entre estes,  o teu comentário "as suas observações críticas (mesmo que 'anedóticas') sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte” resume tudo o que se pode dizer. Acrescentarei da minha parte que o Luís Ferreira tem a minha muita admiração.
 
PS2 - Li também algures (agora não encontro onde!) um comentário/resposta a um outro do António Graça de Abreu e sua esposa em que sugeres ou pões a ideia de virem um dia "à casa do João e da Vilma" … Mas que grande ideia!

Quanto a vocês… nós e a nossa casa estamos à vossa espera desde o primeiro dia em que os encontrámos. E,  quanto a eles, eu convidei-os logo no primeiro encontro que tive com eles, se me não engano foi em Algés na primeira vez que lá fui. Se o facto de eles vierem,  ajuda a que tu e a Alice venham finalmente … Abençoados sejam todos, vai ser mesmo “manga de ronco” …

Um grande abraço nosso,
João e Vilma

(Revisão / fixação de texto: LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 12 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27310: Tabanca da Diáspora Lusófona (38): Parabéns, João & Vilma, acabados de se unir com a benção de Deus, na igreja eslovena de São Ciro, Nova Iorque...Hoje, âs 10h30 locais, 15h30, em Lisboa.

(**) Vd. poste de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

Guiné 61/74 - P27703: Foi há... (6): 68 anos... Em 1958 realizaram-se as últimas eleições presidenciais por voto direto e universal: votou menos de um milhão de portugueses, numa população de c. 8,9 milhóes; a grande maioria dos que irão fazer a "guerra do utramar" só irão votar em 25 de abril de 1975 (eleições para a Assembleia Constituinte)


´
Cortesia de Panteão Nacional

1. A memória dos povos é curta. Já ninguém se lembrava do ciclone de 15 de fevereiro de 1941 (*). 

Muito menos da invasão e ocupação de Timor em 20 de fevereiro de 1942 (**).

Nem das grandes cheias de 26/27 de novembro de 1967 que mataram mais de 700 portugueses (***) (A censura não deixou que se falassem em mais de 200 mortes...). 

A memória dos portugueses é curta... A memórias dos povos, em geral, é curta.  Quem ainda se lembra da invasão e ocupação da Índia Portuguesa em 18 de dezembro de 1961 ? (****). 

Ou do início do "terrorismo" (sic) em Angola, em 4 de fevereiro também desse ano, um "annus horribilis" para Salazar e para todos nós. 

Já ninguém se lembra dos massacres do Norte de Angola, do assalto ao "Santa Maria" (Op Dulcineia, por dois antigas  salazaristas e defensores do colonialismo, Henrique Galvão e Humberto Delgado)... e por aí fora.

Nem da morte de Salazar. Na cama de um hospital. Nem até já do 25 de Abril de 1974... Quem ainda se lembra? Memória coletiva? É coisa que não existe... A nossa memória coletiva? É como a cebola, tem muitas camadas. 

A memória coletiva que me inculcaram na catequese e na escola primária, de 1954 a 1958, já não é a mesma que eu tenho ou partilho hoje.  Uma certa representação do que fomos, do que somos, do que imaginamos ser, do que projetamos ser  no futuro enquanto povo, grei, nação.

E recuando a esse tempo: por que razão nos haveríamos de lembrar das eleições de 1958?... Eu lembro-me, porque, nos bancos da catequese e da escola, me mandaram "ter medo"... E o diácono, à beira de ser ordenado padre, Horácio Fernandes, ainda se lembrava, trinta anos depois, porque o seu patrono, o São Francisco de Assis (ou o seu representante em Portugal) mandou-o duas vezes votar, uma de manhã e outra de tarde na mesma junta de freguesia, de Carnide, onde se situava o convento. 

2. Rebobinando o filme do tempo da nossa infância e adolescência, foram as últimas eleições em que o Presidente da República Portuguesa foi eleito através do chamado sufrágio direto (pelo menos no papel, dentro das restrições da época): havia portugueses de 1ª classe e 2ª classe...

Numa população total (Portugal Continental e Ilhas) que se estimavam em c. 8,9 milhões de habitantes, os eleitores (inscritos nos cadernos eleitorais) não chegavam aos 1,3 milhões (15%!). E terão votado menos de um milhão.

Após o "terramoto político" causado pela candidatura de Humberto Delgado, Salazar mudou as regras do jogo para garantir que o susto (para ele, o regime do Estado Novo e a sua restrita elite) nunca mais se repetisse.

O número de recenseados era extremamente baixo (15%) porque o recenseamento não era automático nem obrigatório, dependendo de inscrição ativa nas juntas de freguesia. Os filtros eram muitos- O direito de voto era restrito a cidadãos alfabetizados, chefes de família ou contribuintes, maioritariamente homens, excluindo uma grande parte da população adulta.

A eleição foi "disputada" com regras viciadas entre Américo Tomás (regime) e Humberto Delgado (oposição), tendo este último obtido uma votação expressiva, apesar do controlo dos cadernos eleitorais pelo regime e da  generalizada fraude eleitoral.

A abstenção oficial foi de cerca de 20,7%. Segundo os dados do regime (logo  contestados pela oposição devido a relatos de fraude generalizada), Américo Thomaz venceu com cerca de 76% dos votos, enquanto Humberto Delgado obteve 24% (em Angola e em Moçambique, 31,7% e 38,7% dos votos, respetivamente;  nula ou inexpressiva, nos outros territórios ultramarinos: Cabo Verde, 2,3%; Guiné, 20,9%; São Tomé e Prímcipe, Macau e Timor, 0,0%).

Recorde-se alguns pontos (e contrapontos) do que se passou nas eleições (já esquecidas) desse ano longínquo em quer ainda éramos, a maior parte de nós, crianças ou adololescentes:


(i) O fenómeno Humberto Delgado

Até 1958, a oposição ao Estado Novo era frequentemente fragmentada e sobretudo frustrante. A oposiçãpo era o "reviralho"... No entanto, o general da força aérea Humberto Delgado, o "General Sem Medo" (que veio da extrema-direita, convertendo-se à democracia liberal apenas no após-guerra, depois de uma prolongada missão militar nos EUA, enquanto representante português na NATO, entre 1952 e 1957 ), conseguiu  abanar o regime e galvanizar um país narcotizado (pela propaganda do "Deus, Pátria e Família, e pela generalizada pobreza e analfabetismo). 

O Humberto Delgado apresentou-se como "candidato independente", apoiado por uma coligação de oposição (a "Oposição Democrática"), com apoio (relutante) de última hora do partido comunista, clandestino. 

A sua candidatura terá representado, no plano político e eleitoral, a primeira contestação séria ao regime desde a instauração do Estado Novo.

A sua famosa (e inconveniente) frase sobre Salazar ("Obviamente, demito-o!") galvanizou os portugueses que queriam mudar a "situação". Não era por acaso, que a PIDE chamava "antissituacionistas" a todos os opositores de Salazar.

Apesar da censura e da violência policial, Delgado conseguiu mobilizar multidões em comícios por todo o país, algo inédito até então. O regime reagiu com forte repressão, prisões, intimidação e manipulação dos resultados.
 
Apesar da fraude eleitoral massiva que deu a vitória ao candidato do regime, o Almirante Américo Thomaz (3/4 dos votos), a mobilização popular foi tão intensa que Salazar percebeu que o voto direto era um risco demasiado alto para a sobrevivência da ditadura.


(ii) Revisão constitucional de 1959

Como reação direta ao desafio de Delgado, o regime promoveu uma alteração da Constituição de 1933. O objetivo era "blindar" a Presidência e evitar o golpe de Estado constitucional: com o fim do voto direto, a eleição do Presidente deixou de ser feita pelos cidadãos, passou a passou a ser "cozinhada" num  "colégio eleitoral", restrito, composto por deputados da Assembleia Nacional e membros da Câmara Corporativa, todos, na prática, controlados por (ou alinhados com) o regime.


(iii) O mito do "sufrágio universal"

É importante acrescentar um detalhe técnico: embora se use o termo "direto", o sufrágio não era verdadeiramente universal, bem longe disso:
  • as mulheres tinham restrições severas para votar (baseadas no nível de escolaridade ou pagamento de impostos), a menos que fossem "chefes de família";
  • muitos opositores, os do "reviralho", ou os "antissituacionistas", referenciados pela polícia política, pela Legião Portuguesa, pelos presidentes dos municípios, etc., eram impedidos de se recensear;
  • era preciso saber ler e escrever e ser contribuinte; 
  • o analfabetismo e misogenia foram usados como barreira para excluir a grande maioria da população portuguesa (masculina e feminina).
1958 foi o "canto do cisne" da participação direta (mesmo que reduzida e condicionada) nas presidenciais do Estado Novo.  

Salazar "meteu o povo na gaveta". Deu-lhe jeito, o povo, depois da II Guerra Mundial, e da derrota das potências do Eixo, para mostrar aos seus aliados da NATO que Portugal era um "democracia orgânica" e um "baluarte contra o comunismo".

Salazar, que esperava uma vitória esmagadora e tranquila nas eleições de 1958, viu-se obrigado a reagir: aumentou a repressão, mas também iniciou algumas reformas cosméticas para tentar acalmar a opinião pública e os reformistas. Nem a ala dura (Santos Costa) nem a ala reformista (Marcello Caetano, Craveiro Lopes, Botelho Moniz). 

Por outro lado, o regime teve que recorrer deliberadamente à intimação, à repressão, ao terror e à fraude para derrotar Humberto Delgado e suster as ondas de choque pós-eleitorais. São os primeiros sinais das ditaduras quando começam a ter medo... 

Salazar preferiu retirar o povo da equação a ter de enfrentar a ameaça de ser corrido do poder por um candidato carismático (e populista, na época não se usava o termo).

É hoje pacífico, entre os historiadores portugueses e estrangeiros, que as eleições presidenciais de 1958 em Portugal não foram livres nem democrátricas... Mas o regime de Salazar, que era uma ditadura, apanhou um susto e começou aí o seu fim...
  
Salazar viu a sua "base de apoio" (e "legitimidade") abalada e posta em causa: pela primeira vez, o regime era forçado a reconhecer (mesmo que de forma distorcida) que existia uma oposição real, popular, organizada...

Humberto Delgado, como se sabe, acabou por ser assassinado pela PIDE em 1965, num episódio que marcou definitivamente a violência, a amoralidade e o desespero do regime.

 
2. Já estamos esquecidos... Ou nem sequer soubemos disso... As denúncias de fraude nas eleições presidenciais de 1958 em Portugal foram um dos aspectos mais marcantes e controversos daquele processo eleitoral. A campanha de Humberto Delgado e a oposição democrática acusaram o regime de Salazar de manipular os resultados de várias formas, tanto antes como durante e depois da votação. 

A título de exemplo, eis aqui algumas das muitas das denúncias e das irregularidades (documentadas, são hoje factos históricos).

(i) Manipulação do recenseamento eleitoral

Exclusão de eleitores: muitos cidadãos foram arbitrariamente excluídos dos cadernos eleitorais, especialmente em zonas rurais e urbanas e entre a população mais pobre e operária,  onde o apoio a Delgado poderia ser mais forte.

Recenseamento enviesado: o regime controlava o processo de recenseamento, o que permitia a exclusão de potenciais eleitores oposicionistas e a inclusão de apoiantes do regime, mesmo que não cumprissem os requisitos legais.

(ii) Censura e controle da informação / silenciamento da oposição 

A campanha de Delgado foi alvo de censura nos meios de comunicação social (os principais jornais diários, a rádio, a televisão que acabava de nascer, etc.), e que estavam sob controle do regime. Além disso, o  regime usou os recursos do Estado para promover o candidato oficial, incluindo a distribuição de panfletos e cartazes pagos com dinheiro público.

(iii)  Intimidação e violência / pressão sobre eleitores

Há relatos de pressões diretas sobre eleitores, especialmente funcionários públicos e trabalhadores de empresas estatais, mas também de empresas privadas, que foram ameaçados de despedimento ou represálias se votassem em Delgado. Por outro lado, durante os comícios de Delgado, a polícia política e as forças de segurança intervinham com violência, dispersando manifestantes e prendendo apoiantes.

(iv) Fraude no dia da votação / urnas controladas

Muitas mesas de voto eram controladas por apoiantes do regime, que manipulavam as urnas ou impediam a fiscalização por parte da oposição. Votos em branco e nulos: testemunhos da época indicam que votos em Delgado eram frequentemente anulados ou contabilizados como votos em branco ou nulos. Transporte de urnas: houve denúncias de que urnas foram transportadas para locais secretos, onde os votos eram alterados antes da contagem oficial.

(v) Resultados inverosímeis / disparidades regionais

Em algumas zonas, como no Alentejo, no Ribatejo, no Porto, e em Lisboa, onde o apoio a Delgado era conhecido, os resultados oficiais mostraram, em muitos concelhos,  vitórias esmagadoras de Américo Tomás, o que foi considerado sociológica e estatisticamente improvável. Vários observadores independentes e até alguns membros de mesas eleitorais admitiram, anos mais tarde, que os resultados foram manipulados para garantir a vitória do candidato do regime.

(vii) Reação internacional / críticas da imprensa estrangeira

Jornais europeus, norte-amerticanos e brasileiros denunciaram a falta de transparência e as irregularidades do processo eleitoral. Algumas organizações de direitos humanos e observadores internacionais questionaram a legitimidade das eleições, embora o regime tenha pura e simplesmente ignorado essas críticas.

Após as eleições, o regime intensificou a repressão, com a  perseguição aos apoiantes de Delgado, prisões, demissões e exílios forçados, etc. Delgado foi demitido de todos os cargos e teve de se refugiar na embaixada do Brasil em janeiro de 1959.

As eleições de 1958 (as "eleições de Humberto Delgado", como ainda hoje se diz) deixaram uma marca profunda na sociedade portuguesa, alimentando o descontentamento que viria a explodir em 25 de Abril de 1974... 

Mas haveria ainda um longo período de 16 anos (!) marcado pela guerra colonial (que em rigor já tinha começado, "surda e muda", na joia da coroa que era a Índia Portuguesa...).

Mas a guerra colonial irá ter um duplo efeito, contraditório: por um lado, afastada a hierarquia reformista das Forças Armadas (vd. Botelho Moniz e a "Abrilada de 1961"...), reposto o controlo político de Salazar sobre os militares, o regime ganha um segundo e derradeiro fôlego; mas, a prazo, sem um solução política à vista para um conflito que nunca poderia uma solução imposta pelas armas, acaba por ditar o fim da ditadura, não obstante o tardio e inconsequente ensaio de liberalização protagonizado pelo Marcello Caetano,

 (Pesquisa: LG + Bibliografia +  Internet)

(Condensação, revisão/ fixação de texto, negritos: LG)
________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

(**) Vd. poste de 26 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25778: Timor-Leste: passado e presente (14): Notas de leitura do livro do médico José dos Santos Carvalho, "Vida e Morte em Timor durante a Segunda Guerra Mundial" (1972, 208 pp.) - Parte VI: Díli, 20 de fevereiro de 1942: a invasão e a ocupação japonesas

(***) Vd. poste de 20 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14905: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (10): Não, nunca percebi para que serviam os CTT no CTIG... Notícias de Alhandra, da minha família, por ocasião da tragédia, as grandes inundações, de 25 para 26 de novembro de 1967, que atingiram a Grande Lisboa, recebi-as através de telegrama militar... (Mário Gaspar, ex-fur mil at art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)

(****) Vd. poste de 28 de outubro de 2018 > Guiné 61/74 - P19142: Manuscrito(s) (Luís Graça) 147): Tinha 14 anos em 1961, o "annus horribilis" de Salazar e da Nação... Depois do desastre da Índia, em 18-19 de dezembro de 1961 e de cinco meses de cativeiro, o general Vassalo e Silva e outros oficiais foram expulsos das Forças Armadas, em 22 de março de 1963... Era um aviso sério para os que combatiam em África.

(*****) Úlltimo poste da série > 4 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27700: Foi há... (5): 65 anos: duas "negas" aos americanos, Fidel Castro e António de Oliveira Salazar (António Rosinha, que tinha então 22 anos, e vivia feliz em Angola)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27702: Os nossos capelães (20): José Júlio Antunes (1939 - 2025), ex-alf grad capelão, BART 6523/73 (Nova Lamego, 1973/74): pertencia à diocese da Guarda (Ricardo Figueiredo)




Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Cabuca > 2ª CART /BART 6523/73 (1973/74) > c. 1973 >  Missa campal, rezada pelo alf grad capelão José Júlio Antunes. A assitsir ao ato religioso, estaria ao todo uma meia centena de militares. 

Não sabemos o mês, mas deve ser do início da comissão. O Carlos Boto ainda estava lá.   O BArt 6523173 rendeu em 8/9/73 o BCav 3854, assumiu a responsabilidade
do sector L3 com sede em Nova Lamego. lª Comp: Madina
Mandinga; 2ª Comp: Cabuca; e 3ª  Comp: Nova Lamego.


S/l > S/d> Convívio da 3ª CART / BART 6523/73 (Cabuca, 1973/74) > O Ricardo Figueiredo (à esquerda) e o padre José Júlio Andrade, à entrada do restaurante. Terá sido a último vez ques e encontraram. De acordo com o blogue "Abustres de Cabuca", a malta 2ª Companhia só ao fim de 34 anos é que se encontrou, uns tantos elementos, almoço da 3ª Companhia, 6.9.2008 em Vilar do Pinheiro. Nesse encontro apareceu tanto antigo comandante,ex-cap mil Franquelim Vaz.


Fotos ( e legendas)o: © Ricardo Figueiredo (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Padre José Júlio Andrade (1939 - 2025). 
Foi alf grad capelão no CTIG, de 9/3/73 a 18/9/74. 
Esteve em Nova Lamego, com  o BART 6523/73 (1973/74)


1. A notícia é da Agência Ecclesia, a que só agora tivemnso acesso:


Guarda: Faleceu o Padre José Júlio Antunes
6 Novembro, 2025 11:06

Guarda, 06 nov 2025 (Ecclesia) – A Diocese da Guarda comunica o falecimento do padre José Júlio Antunes, nascido a 25 de maio de 1939, natural do Casal de Cinza, naquela cidade

Filho de António Joaquim Antunes Morgado e Maria Justina, o padre José Júlio frequentou os Seminários Diocesanos do Fundão e da Guarda entre 1951 e 1963, onde se formou para o sacerdócio.

Foi ordenado diácono a 19 de dezembro de 1962, na capela do Seminário da Guarda, e presbítero a 28 de julho de 1963, na Sé Catedral, por D. Policarpo da Costa Vaz.

O seu ministério sacerdotal foi marcado por dedicação pastoral e espírito de serviço. Logo após a ordenação, foi nomeado coadjutor da Sé e de São Vicente (Guarda). Em 1965, tornou-se pároco de Algodres, Vilar de Amargo e Vale de Afonsinho.

Em 1972, iniciou o serviço como capelão militar, primeiro na Academia Militar e no Hospital Militar da Estrela, em Lisboa, e, entre 1973 e 1974, na Guiné, ao serviço das Forças Armadas Portuguesas.

Regressado à diocese, foi capelão do Quartel da Guarda (1974-1975) e, a partir de 1976, pároco de Pínzio e Safurdão, acumulando depois o cuidado pastoral de Gagos. 

Em 1987, foi nomeado pároco de Atalaia e Carvalhal, permanecendo depois responsável por Pínzio, Safurdão e Carvalhal até 2004.

A partir desta data, enquanto a saúde lhe permitiu, colaborou com colegas sacerdotes em diversos serviços paroquiais.

O Padre José Júlio Antunes deixa a memória de um sacerdote simples, próximo das comunidades e fiel à sua vocação. As cerimónias fúnebres acontecem dia 07 de novembro, pelas 15h00, na Igreja Matriz de Casal de Cinza.

LFS


2. Mensagem do Ricardo Figueiredo (ex-fur mil at inf, 2ª CART / BART 6523, Cabuca, 1973/74)



Data - 02/02/2026, 15:58 
Assunto - Capelão José Júlio Antunes

Olá,  Luís,

Não sabia do falecimento recente do nosso Capelão. Que descanse em paz.

Da Guiné, que seja do meu conhecimento, não me lembro de qualquer facto importante de que ele tivesse sido protagonista.  De resto, a passagem dele por Cabuca foi pontual, dois ou três dias, tendo sido um deles ocupado pela Missa campal.

Já cá, e num almoço da 3ª Companhia em que participaram três ou quatro elementos da 2ª Companhia, sendo um deles, eu próprio, e em que também esteve presente o Capelão José Júlio, tivemos oportunidade de ficarmos na mesma mesa e a meu lado o também já saudoso José António Sousa, da CCav 3404 e,  salvo erro,  também o 1º cabo cripto da nossa Companhia, o Victor Machado.

O almoço, caríssimo para a época,foi muito mal servido e as sobremesas miseráveis. O Padre José Júlio, que era um bom garfo, também ele manifestou o seu desagrado como de resto a maioria dos convivas.

Porém, junto à nossa mesa, encontrava-se um expositor de bolos. Lancei um desafio ao Padre José Júlio:

- Se eu desviar uns bolitos para a nossa mesa, absolve -me ?!

A resposta não se fez esperar:

-  Absolvidissimo !

E lá desviei dois bolitos ,que souberam que nem ginja !

Anexo :

(i) a fotografia da Missa Campal, celebrada pelo Capelão José Júlio, em Cabuca;

(ii) a última fotografia que tirámos, antes da entrada para o restaurante, num almoço da 3ª Companhia,  em que fomos três ou quatro elementos da 2ª.

Um Alfabravo com amizade,
Ricardo

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Guiné 61/74 - P27701: Historiografia da presença portuguesa em África (515): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1959 (73) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
O cartapácio do Boletim Oficial de 1959 é ilustrativo do crescimento da nossa presença na Guiné: reforçam-se verbas, abrem-se créditos e também concursos para admissões, alargam-se quadros, entra em funções a Santa Casa da Misericórdia da Guiné, regulamenta-se a prestação dos serviços dos cipaios que estão ao serviço das circunscrições e concelhos, é um ano de comemorações pois passam cem anos sobre a data da morte de Honório Pereira Barreto, haverá mesmo estátua para alguém que comprou à sua custa muito território, na República da Guiné Bissau, poderão não o tratar como pai fundador mas devem-lhe os guineenses o figurino do território tal qual ele foi definindo; o Museu da Guiné Portuguesa passa a ter arquivista e segundo-oficial; o Governo define os preços de compra do coconote e óleo de palma, é criada a povoação de Mejo, ficará ali bem perto de Guileje e do chamado Corredor da Morte, isto em termos da guerra desencadeada em 1963; tenta-se a melhoria dos transportes, aparece um ferryboat entre Bissau e Enxudé; Aristides Maria Pereira, o futuro n.º 2 do PAIGC, radiotelegrafista de 3.ª classe, tem uma promoção por substituição; altera-se a política da habitação na cidade de Bissau, os funcionários públicos poderão vir a adquirir casa própria; a Escola Técnica de Bissau passa a ser Industrial e Comercial; foi aprovado o Regulamento da alimentação, alojamento e assistência médica aos trabalhadores indígenas, em matéria de grande significado; e foi também criada uma escola de prendizagem do Posto Agrícola de Pessubé. Escuso de dizer que não há qualquer menção ao que se passou em 3 de agosto na região do Pidjiquiti - assunto que passará à História por outros meios.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1959 (73)


Mário Beja Santos

A governação do Oficial da Armada Peixoto Correia em 1959 foi vivida numa grande normalidade em que não faltou o reforço de verbas, a abertura de créditos, concursos para admissões do funcionalismo, avisos e declarações de repartições, conservatórias, editais autárquicos, avisos de juízes de Direito, comunicação de serviços dos CTT e muitíssimo mais. Procurou-se extrair o que de significativo viveu a Província. É o primeiro ano da Santa Casa da Misericórdia da Guiné, foi nomeada uma comissão para reunir os fundos e receber os bens atribuídos, consta no Boletim Oficial n.º 3, de 17 de janeiro.

No Boletim Oficial n.º 11, de 14 de março, toma-se uma disposição de política colonial, é a Portaria n.º 1086, assinada pelo Governador António Augusto Peixoto Correia, Capitão-tenente:
“A prática tem demonstrado que a longa permanência dos cipaios administrativos nas mesmas áreas administrativas onde foram inicialmente colocados é prejudicial e contraproducente, assim como a sua colocação em áreas onde predominem os grupos étnicos a que pertenciam antes do recrutamento.
Com efeito, os cipaios que prestam serviço nas áreas onde têm afinidades rácicas com os habitantes não dão garantias de fidelidade, isenção, lealdade e prontidão no cumprimento dos seus deveres e na execução das determinações superiores.
O mesmo sucede com aqueles que, devido a uma longa permanência na mesma região, acabam por criar interesses de ordem material ou adquirir hábitos de indolência que os inibem de cumprir oficialmente os seus deveres.”


E fica determinado que os cipaios recrutados para o serviço das circunscrições e concelhos passarão a servir, por via de regra, por um período de seis anos em cada divisão administrativa e, dentro desta, por períodos nunca superiores a dois anos em cada posto administrativo; completados os seis anos de serviço na área de uma circunscrição ou concelho será transferido para outra divisão administrativa.

Vamos agora mudar de assunto, vai haver homenagem a Honório Pereira Barreto, consta do Boletim Oficial n.º 16, de 20 de abril, iam-se completar cem anos sobre a data da morte do grande português guineense, havia que reavivar a sua memória em atos solenes, cerimónias cívicas e atividades culturais. O Governo da Província encarregava o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa de elaborar um programa de comemorações. “Estas deverão ter a maior projeção dentro e fora da Província, em terras portuguesas e no país irmão – o Brasil – herdeiro das gloriosas tradições do Portugal Navegador e Missionário.” A apoteose será o descerramento da sua estátua no centro de Bissau. Por esta data, pela Portaria 1103 são definidos os preços de compra de coconote e óleo de palma.

No Boletim Oficial n.º 21, de 23 de maio, criam-se as condições para fundar a povoação de Mejo. Fizera-se o levantamento do terreno na área do Posto de Bedanda, da circunscrição de Catió, Mejo teria uma superfície de vinte hectares, e o seu centro estará no cruzamento da estrada de Bedanda-Cacine com o ramal para Quebo, é o que consta do Boletim Oficial n.º 21, de 23 de maio. No Boletim Oficial n.º 22, de 30 de maio, fica-se a saber da existência de um ferryboat para a ligação Bissau-Enxudé, iam-se custear as despesas para a construção de um telheiro e muito mais coisas. Ficamos a saber no Boletim Oficial n.º 22, de 30 de maio, que Aristides Pereira, o futuro n.º 2 do PAIGC, radiotelegrafista de 3.ª classe, fora designado para exercer, por substituição, as funções de segundo-oficial do quadro de exploração dos mesmos Serviços.

O Governador defrontava-se com o grave problema da habitação, e daí o Diploma Legislativo n.º 1715, publicado no Boletim Oficial n.º 29, de 18 de julho:
“No intuito de contribuir para a solução do grave problema da habitação da cidade de Bissau, tem o Governo da Província vindo a despender verbas consideráveis na construção da residência para funcionários. O número de residências já construídas é grande e importante a sua contribuição para a solução daquele problema. A solução adoptada, de construir casas por conta do Estado, traz como consequência o problema da sua conservação, que passa a exigir anualmente o dispêndio de verbas importantes. É já difícil ao Governo assegurar a conservação das habitações que atualmente possui em Bissau. Há necessidade de edificar mais casas e, a manter-se o sistema até agora seguido, mais aumentarão ainda os encargos de conservação, em desfavor da construção. Vantajoso de atribuir ao funcionário a propriedade da casa que lhe é distribuída, promovendo também a fixação do funcionário e seus descendentes.”
E para a concretização desta medida o Governo decidiu criar um Fundo de construção de casas para funcionários. São entregues ao Fundo todas as casas pertencentes ao Estado, as casas serão distribuídas a funcionários dos quadros privativos da Província e definem-se as receitas do Fundo.

No Boletim Oficial n.º 33, de 17 de agosto, consta o Decreto n.º 42 433 do Ministério do Ultramar, prende-se com a criação da Escola Técnica na cidade de Bissau em Escola Industrial e Comercial, com os seguintes cursos: Ciclo preparatório; industriais: Formação de Serralheiro, Carpinteiro-marceneiro e Montador-eletricista; Geral do Comércio e Formação Feminina.

Não se pode deixar de reconhecer o importante significado do Regulamento da alimentação, alojamento e assistência médica aos trabalhadores indígenas, é matéria que vem no Boletim Oficial n.º 37, de 14 de setembro, Portaria nº. 1147. Reconhecia-se a necessidade de estabelecer normas quanto ao abono de alimentação destes trabalhadores indígenas, havia igualmente de providenciar um sistema de alojamento quando o trabalhador se ausenta do seu meio natural para prestar serviços de longa duração. E daí ter-se aprovado o Regulamento da Alimentação, Alojamento, Vestuário e Assistência Médica, aos trabalhadores indígenas da Província da Guiné. É fixada a importância de 5 escudos diários para a alimentação deste trabalhador, a alimentação constará de, pelo menos, duas refeições diárias, a primeira entre as 11 e as 13 horas e a segunda depois de largar o trabalho. Há mesmo uma tabela para a constituição das rações alimentares destes trabalhadores em cereais, tubérculos, complementos de proteína vegetais, carne e peixe, óleo de amendoim, óleo de palma e frutos de palmeira de azeite; discrimina-se a composição do alojamento, a natureza do vestuário, a assistência médica obrigatória, a onde não falta a vacinação antivariólica e antiamarílica e discrimina-se a prevenção dos acidentes de trabalho.

Finalmente, no Boletim Oficial n.º 50, de 14 de dezembro, publica-se a Portaria 1183, era criada no Posto Agrícola de Pessubé uma escola de aprendizagem agrícola com o nome Dr. Silva Tavares. A escola terá por fim ministrar aos indígenas o ensino prático elementar agrícola, é uma escola de frequência voluntária e funciona em regime de internato. O ensino visa a: preparar profissionalmente os indígenas para as fainas agrícolas, através de instruções no campo e oficinas; aperfeiçoar, disciplinar e elevar o trabalho rural. O diploma estabelece a constituição dos cursos, o regime escolar e os períodos de frequência, os programas de ensino, a direção e pessoal docente, a admissão dos alunos, etc. etc.


Cap-Ten António Augusto Peixoto Correia, Governador da Província da Guiné
Intervenção do Estado no preço da mancarra
Cumprimentos do Novo Ano a Sua Excelência o Presidente da República
Régulo Felupe com a sua mulher
Sacerdote muçulmano de Cambor
Mandinga a descansar na rede
Cherno Alfa Alio e a sua família

Imagens retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1959

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 28 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27680: Historiografia da presença portuguesa em África (514): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1958 (72) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27700: Foi há... (5): 65 anos: duas "negas" aos americanos, Fidel Castro e António de Oliveira Salazar (António Rosinha, que tinha então 22 anos, e vivia feliz em Angola)

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1. Mensagem de António Rosinha, ex-colon, ex-retornado de Angola, ex-emigrante no "Brasiu", ex-cooperante na Guiné-Bissau do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, beirão,  portuguès dos sete costados, grão-tabanqueiro de pedra e cal (com  162 referências no blogue)... Mesmo tendo sido expulso do paraíso em 1974, não perde o bom humor... mas também não se esquece..

Data - 3 fev 2026 00:26
Assunto :- 1961: duas negas aos amaricanos


Já fui à inteligência artificial e podia transcrever o que ela diz sobre o assunto, mas prefiro usar a minha linguagem e a minha memória dos meus 22/23 anos.

Nunca pensei aos 22 anos que, passados 65 anos, ver os mesmos senhores do mundo com os mesmos propósitos de continuarem a fazerem "obedecer" o mundo aos seus caprichos.

Vamos às duas "negas", em 1961, sendo que as duas, simultâneas no tempo, eram distantes geopoliticamente.

Quem foram os "heróis" que em 1961 disseram Não ao presidente americano Kennedy?

Muita gente ainda se lembra dos barbudos de Fidel Castro e da Baía dos Porcos onde a CIA bateu com a cara na porta, e a Coca-Cola foi buscar açúcar a outra colónia.

Em 1961, e durante muitos anos, não só Cuba funcionava como pura colónia norte-americana, como praticamente toda a América Latina.

E o herói Fidel Castro, embora caísse na boca de outro lobo, Khrushchev,  disse "bye bye" a Kennedy! Até hoje! "Embora a luta continue", para azar dos cubanos, mas que Fidel foi único na América Latina, é inegável.

E o segundo herói que neste ano, 1961, disse um redondo Não ao presidente Kennedy foi o português António de Oliveira Salazar.

Mais ou menos, muito perto no tempo da Baia dos Porcos em Cuba, Kennedy propôs a Portugal "ajuda" para resolver o problema colonial que se tinha desenvolvido no Norte de Angola com os ataques terroristas pela UPA no "Congo Português".

Para quem não sabe, esse movimento, a UPA, já era conhecido da CIA e das missões religiosas americanas, onde havia muito disso, que já andavam por ali à muitos anos a dilatar a fé e o império.

E o chefe da UPA, que era cunhado de Mobutu, (em África quando se fala em cunhado quer-se dizer que é da mesma tribo) não iniciou a guerra de libertação de Angola, mas exclusivamente daquela região tribal, que era o Congo Português, irmão dos Congos francês e belga.

Ora os americanos já estavam com a CIA e as Missões religiosas, a financiar e fomentar a luta não só anticolonial, como anticomunista, e já tinham liquidado em janeiro, o Lumumba, tudo dentro da política Kennedy.

Como tinham liquidado o sueco Secretário Geral da ONU que, como sempre, ontem e hoje, um organismo-fantoche, e esse senhor andava a levar por maus caminhos os africanos.

Claro que Salazar só podia dar uma "nega" a esse homem que deixou um nome mítico no mundo mas não passava de um  coboi como todos os outros americanos, a lei era o gatilho.

A ajuda norte-americana, só a um povo "perdido" e desesperado e incaracterístico e despersonalizado, talvez para onde hoje a Europa se esteja encaminhando arrastando todos, só assim se deva entregar tal ajuda.

Angola e Moçambique jamais seriam aquilo que conhecemos, não sabemos se angolanos e moçambicanos gostam daquilo que com unhas e dentes Portugal resguardou.

A América conseguiu a paz na Europa, na II Grande Guerra, ajudou o Vietnam, o Chile a Coreia a Somália, agora ajuda a Ucrânia, ajuda sempre quem precisa.

Houve um momento da nossa geração em que na realidade Portugal teve voz própria, com muito sacrifício, foi com um ditador, mas paciência, historicamente o nosso ditador disse Não ao presidente americano que um tiro matou.

Também foi azar, o tiro poderia ter ferido apenas.

Fico por aqui.

Faz agora anos que se diz que seria o MPLA, iniciou a primeira sarrafusca na cidade de Luanda, em 4 de fevereiro de 1961.

Cumprimentos

Antº Rosinha

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Nota do editor LG:

Ultimo poste da série : 28 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

Guiné 61/74 - P27699: Parabéns a você (2456): Cap Inf Ref José Belo, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2381 (Os Maiorais) (Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70)

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Nota do editor

Último post da série de 29 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27681: Parabéns a você (2455): Luís Graça, Fundador e Editor deste Blogue, ex-Fur Mil AP Inf da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e Virgílio Teixeira, ex-Alf Mil SAM da CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27698: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (20): E se tivesse havido um referendo em 1975 ? (Adriano Miranda Lima, cor inf ref, mindelense, que bebeu a água do Madeiral, a viver na diáspora desde 1963, e atualmente em Tomar)


 

Adriano (Miranda) Lima: mindelense da diáspora, nascido em 1943, é cor inf ref, vive em Tomar desde 1963. Serviu muitos anos no RI 15. Nao passou, na guerra de África, pela Guiné, mas sim por Angolas e Moçambique. Escritor, tem-se interessado pela história, património e cultura da sua terra. É igualmenet assíduo colaborador de jornais e blogues de (ou com referência a) Cabo Verde. É membro da nossa Tabanca Grande desde 2012. 

Tem cerca de duas dezenas e meia de referências no nosso blogue. É autor, nomeadamente. dos livros " "Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial" e "Dr. José Baptista de Sousa – O Homem, o Médico e o Militar". Ambos, edição de autor, publicados em 2020.


1. Mensagem do Adriano Lima, comentando o poste P27669 (*)


Data - 3 fev 2025 02:49
Assunto - E se... ? Invasão do Mindelo em 1942


Amigo Luís, boa noite.

Só reajo agora porque, infelizmente, problemas familiares forçaram-me a fazer uma pausa na minha rotina habitual.

 Agradeço este interessantíssimo trabalho, que li com imenso gosto e muito gozo. 

As meninas da IA fizeram o que delas era de esperar, reproduzindo fielmente a história do que realmente aonteceu. O que, noutra circunstância, poderia ter acontecido está bem reproduzido nas imagens aos quadradinhos e comentado com refinado humor pelo editor do blogue. 

Olha que quem lê até é levado a pensar que és um mindelense de gema, ou seja, que bebeste a água do Madeiral, expressão que antigamente se usava para caracterizar o natural da ilha que melhor se identifica com os seus usos e costumes (a água que abastecia a ilha vinha de uma nascente no lugar com esse nome, Madeiral). 

Na idiossincrasia mindelense cabe um humor típico e que não tem paralelo no resto do arquipélago. Parece que isso se deveu à influência da comunidade inglesa, que em grande parte impulsionou o desenvolvimento da cidade e do porto. O crioulo de S. Vicente incorpora no seu léxico termos ingleses com mais ou menos adulteração.

Quanto à independência do território, se se realizasse hoje um referendo, acredito que a maior parte da população a rejeitaria e optaria por uma autonomia semelhante à dos Açores e Madeira. 

Aliás, isso só não aconteceu muito por influência da célula do MFA local. Os cabo-verdianos pensavam que iam fruir das mesmas liberdades cívicas dos metropolitanos em Portugal e por isso criaram 2 ou 3 partidos que defendiam essa opção ou algo nessa linha. Os seus líderes foram presos e encarcerados no campo de Tarrafal, e é importante frisar que tudo aconteceu durante o período de transição, por obra e graça da célula do MFA local, que se identificava, com grande activismo revolucionário, com a ala mais esquerdista do Movimento. 

Enfim, a mágoa de muitos cabo-verdianos é que saíram da ditadura do antigo regime para serem entregues a outra ditadura, a do PAIGC, que recebeu de mão beijada o poder.

Um abraço amigo
Adriano


2. Sobre o Madeiral: segundo a Wikipedia, é uma aldeia no centro-sul da ilha de São Vicente, Cabo Verde, junto à estrada entre a cidade do Mindelo e a aldeia do Calhau. A montanha a sul da aldeia, com o mesmo nome, atinge os 675 m de altitude.

Sobre o abastecimenmto de água à cidade do Midnelo, encontrei este apontamento (que faz sentido partilhar):

Blogue Esquina do Tempo > Nôs Terra, Nôs Gente” – Água do Madeiral e da Vascónia em São Vicente

Brito-Semedo, 19 out 22

(...) A 27 de maio de 1886, a Empresa de Águas do Madeiral fez chegar as águas das nascentes do Madeiral à cidade do Mindelo.

Essa água era armazenada em depósitos: um no Lombo Tanque, outro no alto do Matadouro Velho e um terceiro na Morada, situado entre o Tribunal e a traseira da Igreja Católica. Essa era a água para toda a serventia da casa, vendida a dois tostões a lata de vinte litros.

Ah, havia ainda a água dos fontenários existentes à volta da Morada, Canalona, em Chã de Alecrim, onde as mulheres iam lavar a roupa; Fonte Doutor; Fonte Cónego; Fonte Filipe; Fonte Inês; Fonte Francês; Fonte do Cutú; Fonte de Meio; Fonte Nova; etc.

Por essa mesma altura, a Empresa Ferro & Companhia possuía uma pequena frota de navios-tanques, os “vaporins d’ága”, que transportavam água potável das nascentes do Tarrafal de Monte Trigo, em Santo Antão, para abastecimento aos barcos que escalavam o Porto Grande e que tinha o seu depósito no quintalão da Vascónia, situada frente ao edifício da capitania e ao Pelourinho de Peixe. Também vendia água a 4 tostões a lata, porque era de melhor qualidade e usada para beber, normalmente guardada em pote de barro da Boa Vista para se manter sempre fresca.

A água dessalinizada, ou a água da JAIDA (**), só viria a surgir em 1971.

Manuel Brito-Semedo (...)

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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 25 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27669: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (19): E se o Porto Grande e o Mindelo tivessem sido invadidos e ocupados pelos Aliados, em 1942?... Uma brincadeira da História Contrafactual...


(**) JAIDA = Junta Autónoma das Instalações de Dessalinização de água.

Guiné 61/74 - P27697: Humor de caserna (238): Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! (Alberto Branquinho, "Cambança", 2009. pp. 26-29)



Capa do livro de contos de Alberto Branquinho, "Cambança: Guiné. morte e vida em maré baixa", 2ª ed.. Lisboa: setecaminhos, 2009, 99 pp. (ISBN: 978-989-602-164-1)



1. Mais uma história de "cambança(s)"(*)  do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, depois de ter passado por Coimbra como estudante).

"Cambança", para ele, é mais do que  "passagem para o outro lado" do rio. É uma metáfora: "por vezes uma fuga ou uma mudança. Pode ser uma partida ou um regresso. Quase sempre com a vida em maré baixa" (pág. 6).

Qualquer semelhança com a realidade da Guiné é pura coincidência, avisa o autor. Mas quem não conheceu o cabo Tomé ? E que nunca apanhou uma "cardina" ?


Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! 

por Alberto Branquinho



− Eh,  pá! Deu a “maluca” ao Tomé. Ele vem aí.

− Qual “maluca”… Ele está é com uma “cardina” que nem se endireita.

O cabo Tomé aproximava-se daquele espaço chamado “bar”, feito de tábuas e de chapas de zinco. Vinha em tronco nu, debaixo de uma chuva contínua e miudinha, que há um mês caía sem parar. Trazia um guarda-chuva aberto, quase sem pano, na mão esquerda e uma garrafa de cerveja na mão direita. Tinha as divisas de cabo penduradas das orelhas. E berrava:

−  Cá o filho da Marianinha é o maior. Não há pai p'ra ele.

Repetia e repetia o discurso. E cantava:

O cabo festejava, assim, os vinte e três anos.

Não entrou no bar e atravessava a parada, em chinelos, calções e tronco nu, pisando água e lama. Sentia-se grande, agigantado pelo álcool, com a água a correr por ele abaixo. Sentia a cabeça do tamanho do rebentamento de uma granada de obus, a ferver, a ferver e a pôr-lhe à frente dos olhos pataniscas de bichas-de-rabear.

Era um entardecer cor de chumbo, com pequenas pinceladas de amarelo-rosa no horizonte, por cima da cobertura de zinco da caserna.

−  "Ó rosa, ó linda rosa, ó rosa"… Anda uma mãe a criar um filho… p’ra… p’ra…

Tropeçou e caiu de joelhos na lama, apoiado no cotovelo direito. Tentou levantar-se, mas o pé direito fugiu-lhe muito lá para trás. Até pareceu que o pé lhe ia fugir do corpo. Agarrou o pé com a mão direita e fugiu a garrafa. Puxou o pé, puxou, puxou, perdeu o equilíbrio, caiu sobre o lado direito e, depois, ficou deitado de costas. Ouviram-se gargalhadas do pessoal que, em volta e debaixo dos telheiros, observava a cena.

O Tomé atirou o guarda-chuva. Tentou abrir a braguilha, não conseguiu e rebolou sobre si mesmo, rindo, rindo. Cheio de lama, voltou a tentar abrir a braguilha, mas não conseguia.

 
−  Quero mijar. Eh, pá, abram-me aqui isto, qu’eu quero mijar.

Dois ou três tentaram levantá-lo.

 
−  Eh,  pá, eu só quero mijar.

Com a ajuda conseguiu levantar-se. Os que o ajudaram,  correram para debaixo dos telheiros. Conseguiu abrir a braguilha e, com a mão direita, procurava, procurava dentro dos calções, em dificuldades de equilíbrio.

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha.

Ajoelhou-se e desatou a chorar:

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha. Ai, minha mãezinha…

Levantou-se, escorregou na lama e caiu de novo.

 
−  Sou um desgraçado! O filho da Marianinha… Mãe, mãe, cortaram-me a gaita!

Chorava, chorava. As lágrimas corriam pela cara, misturadas com chuva e ranho. Tossia, tossia, engasgou-se e desatou a vomitar. Acudiram-lhe de novo.

Vomitava aos arrancos e estremecia-lhe todo o corpo. Levaram-no, amparado pelos sovacos.

Colocaram-no debaixo da água do “chuveiro” que corria dos bidões, ao lado da caserna. Deitaram-no na cama, ainda molhado. Chorava,  abraçado aos mais próximos, entre risos de uns e críticas de outros.

 
−  Este gajo é sempre a mesma merda.

−  Sou uma merda. É, sou uma merda… Mas não vou mais p’ró mato. Nã é, Zé? A gente nã vai mais p’ró mato, nã é,  Zé?

O Zé abanou a cabeça, concordando. O Tomé agarrou-o pelo pescoço, puxou e deu-lhe um beijo na cara.

−  A gente nã vai mais p’ró mato. Que vá o capitão, que leve o comandante e os oficiais todos. Que se fodam. P’ra que é a guerra? P’ra ganhar a taça? Que se foda a taça. Andamos aos tiros p’rás árvores. Os cabrões dos turras pintam-se de verde. Nã é,  Zé? A gente nem os vê. Deixa vir o alferes:  “Ó Tomé, tu hoje levas a bazuca.” ... “Leve-a você”!

−  Vá pá, tem calma. Vou-te buscar uma Pérrier.

−  Água?! Arranja-me uma cerveja.

 
−  Não. Tu já bebeste muito.

−  Apetece-me apanhar chuva.

 −  Não, tens que dormir. Faz-te bem.

−  Dormir? Ah.  Zé, a gente nã vai mais p’ró mato. Que se fodam. Um gajo quase na “peluda” e ir p’rá Metrópole num sobretudo de pau.

Teve um vómito e sujou a almofada.

−  Deixa lá. Está na hora do jantar. Queres que te traga alguma coisa?

−  Nã. Não.

Ficava mais calmo. Adormecia. O outro foi jantar.

No telheiro grande, coberto de zinco, que servia de refeitório, amontoavam-se para o jantar, apupando o cozinheiro.

−  Ide-vos foder! 'Ó tempo que não há frescos…

No meio do barulho das conversas ouviram-se, lá longe, para norte o som das “saídas” de granadas de morteiro pesado e de canhão.

Num instante era uma barafunda. Corriam aos magotes em várias direções, para as armas pesadas, para os abrigos, em busca das G-3 e cartucheiras.  As primeiras granadas começaram a assobiar por cima das cabeças, seguidas dos rebentamentos e dos ruídos que parecem loiça a partir-se.

Gritos, ordens, cheiro intenso, excitante a explosivos, pó, fumo, mais rebentamentos, gritos e mais gritos. Duas ou três granadas caíram dentro do quartel, voaram coberturas de zinco em placas retorcidas, pedaços de tijolo e cimento, vidros partidos. Um barracão começou a arder.

Dois grupos saíram a correr, pelas portas norte e leste, para cortarem caminhos de acesso. Parecia que o pandemónio nunca mais parava.

Começou a diminuir o fogo. Só pequenas rajadas de arma ligeira e vozes que interpelavam ou berravam ordens. Vultos apagavam o fogo com baldes de água. A serenidade voltou aos poucos. Havia movimentações para o posto de socorros. Alguns comeram como puderam o que, frio, ficara a aguardar nos pratos. Outros não saíram tão depressa dos postos ou dos abrigos.

Quando os primeiros voltaram à caserna, viram o cabo Tomé mesmo à entrada, nu, deitado de costas, de olhos espantados, como que olhando o teto de zinco, retorcido, enquanto um fio de sangue lhe escorria do lado esquerdo da boca, passava pelo pescoço e fazia uma poça de sangue debaixo da cabeça.

(Revisão / fixação de texto, links, título: CV / LG)


2. Comentário do editor LG:


Com a devia vénia, ao meu amigo e camarada Alberto Branquinho, bem como ao Carlos Vinhal,  achei que  "Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha!" é um título mais forte:  daqueles que não deixam ninguém indiferente: tem a força do calão, a dor do Tomé e a ironia trágica que só a guerra sabe criar.

"Humor de caserna" ?, perguntarãoo alguns dos nossos leitores, eventialmente chocados Sim, é um dos melhores contos da guerra colonial, que eu já li, uma narrativa  portentosa de  humor trágico: mistura o grotesco, a desolação e a ironia amarga da guerra da Guiné, que eu, o Alberto e muitos de nós conhecemos. 

A "cardina" do cabo Tomé, no dia em que fazia 23 anos, é, entre o patético e o cómico, um espelho da desumanização e do absurdo que a guerra  nos impunha, a nós, seus protagonistas. 

O final, abrupto e brutal, em três linhas e meia, é um murro no estômago: reforça a tragédia por trás do riso até então forçado. 

Não, não é só para a gente passar o tempo. É também para a gente pensar. E nos ajudar a indignarmo-nos quando vemos a nossa bandeira e o nosso fato camuflado serem usados indevidamente, na praça pública, em ambientes comicieiros, por quem não tem nada a ver com este filme e, no fundo,só pensa no seu umbigo (o mesmo é dizer, no seu ego de todo o tamanho).

3. Zé Teixeira,  Mário Fitas e Luís Graça comentaram em devido tempo:

(...) Porra! Se eu não tivesse o azar de ter passado pela Guiné, diria este tipo está a "mangar" comigo.

Depois de começar a ler, revi-me no cabo Tomé, até ao ponto da reviravolta, quando eles, os nossos "amigos" entraram na festa e fiquei arrepiado.

Veio-me à memória o Conceição Caixeiro: era de Lisboa, não bebia em demasia, era pacato e pachorrento, mas passava o tempo a cantar e a cantar morreu... Sabes aonde ? Na cagadeira, simplesmente porque estava a cagar, cantando como sempre e não ouviu a saída da granada que o vinha matar, nem o grito de vários colegas - Aí estão eles!

Ficou-se, com a nuca desfeita de encontro à parede da rectaguarda e só meia hora depois, quando à porta da enfermaria eu gritava de contente "Filhos da puta ! Cabrões ! Não há feridos", aparece  o Pedro, que faleceu há dias, e me disse: "Teixeira, vem comigo" e eu fui, para ficarmos os dois agarrados um ao outro a chorar, de desespero.

Ainda bem que escreveste. quanto me ajudaste ! (...) 


(...)  São momentos destes, que fazem esta Tabanca muito Grande. São estes os momentos em que nos tresmalhamos, nos escorregadios carreiros e nas neblinas cobrindo as bolhanhas.

Regredi! 21h00 a Companhia estava formada, o Meco (da Nazaré) segredou-me: "O  furriel  G... acabou de foder a prisioneira maneta."

A Companhia saíu. Madruga dia seguinte 05h00: o furriel  G... , o único a usar capacete, ficou com a cabeça em duas e o capacete com dois furos.

Maldita mata de Cabolol! Estavam à nossa espera!

Escreve!... Escreve, Alberto Branquinho,  mostra aos incrédulos o que foi chafurdar na lama, no álcool e na morte.

Sempre do tamanho do Cumbijã, o velho abraço.

Mário Fitas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009 às 23:44:00 WET 


(...) São estes momentos, Alberto, Zé, Mário, que nenhuma televisão do mundo (muito menos a nossa RTP) conseguiu filmar... É um quadro portentoso sobre as nossas misérias e grandezas. 

Obrigado, Alberto, pelo teu talento, delicadeza, ternura e compaixão com que falas, não de ti, mas de todos nós, camaradas da Guiné. E viva a nossa Tabanca Grande, que nunca será nem poderá ser política, social e literariamente correcta... Nem nunca precisará de pôr um bolinha vermelha ao canto superior direito... Que o nosso quotidiano também era feito de merda, umbigos, cus, caralhos, tomates, nervos, fel, coração, massa encefálica, medos e coragens, alegria e tristeza, vida e morte... E acima de tudo, camaradagem, o cimento que nos unia, para lá de todas as nossas diferenças, reais e imaginárias... Luís