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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Tenho consciência de estar a deglutir uma continuidade de capítulos, pontuando questões que seguramente todos nós já ouvimos falar nos bancos da escola sobre a história da expansão marítima e como África e os seus povos se colocaram no centro das atenções. Há uma efetiva singularidades nas observações deste investigador que é a de querer ver o reverso do espelho, o que para além dos feitos históricos da exploração marítima, dos avanços científicos e tecnológicos com contributos até de muçulmanos e judeus, o que ele põe em relevo é o desempenho dos africanos na ascensão económica da Europa e como o desenvolvimento político e a concretização dos ideais do Iluminismo se construíram à custa do continente negro e de uma mão-de-obra escravizada que foi determinante para mudar o curso da História, como ia acontecer no século XIX com a Revolução Haitiana e a explosão dos direitos humanos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 2

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro "Origem: África", o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

No contexto das expedições henriquinas, em dado momento a Coroa passou a ter acesso regular a grandes quantidades de ouro, o que nos remete para a fortaleza da Mina.

Não estávamos sozinhos na busca do ambicionado ouro, também os Reis Católicos encorajavam a esta região chamada Elmina mediante expedições privadas. D. João II, em 1481, ordenou a construção de um forte ao longo da costa do Gana para proteger o crescente fornecimento de ouro a Portugal de rivais e piratas, construção que ficou a cargo de Diogo da Azambuja. A maior parte do comércio de ouro português tinha estado concentrada em redor de Shama, considerada um porto inadequado, daí a escolha ter recaído em Elmina. Correram bem as negociações com as chefaturas locais. Nascia uma experiência nova, a construção de uma guarnição permanente e fortificada nos trópicos africanos. Este acontecimento decorre em simultâneo com o tráfico de escravos no Atlântico. São Jorge da Mina tornou-se no primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos, ao longo da costa do Gana dos tempos modernos.

“São Jorge da Mina tornou-se o primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos ao longo da costa do Gana dos tempos modernos, nos três séculos que se seguiram, por um conjunto diversificado de nações europeias. A primeira vaga de construção de postos avançados tinha como objetivo a obtenção de ouro. Só muito mais tarde, a partir da década de 1640, é que esta região se tornou uma importante fonte de escravos, muito depois de outras regiões como a Alta Guiné, o Congo e Luanda. No século XXI, o Castelo de Elmina, como é hoje chamado o Forte de São Jorge da Mina, é tão sólido e bem construído como parece, visto à distância do cume da colina a que escalei para admirá-lo.
Hoje em dia, multidões de visitantes acorrem ao castelo para visitas guiadas aos andares do topo, que abrigavam o governador e os seus oficiais superiores, às masmorras, situadas mesmo ao lado do pátio, por baixo, e à famosa Porta sem Retorno, por onde os escravos saiam para os barcos em direção às Caraíbas, ao Brasil e, mais tarde, às colónias britânicas na América do Norte. O metal foi o motor da história que conduziu os portugueses até aqui. E assim se desencadearam os eventos que se seguiram, desde as descobertas espanholas do Novo Mundo até ao lançamento das economias de plantação que, quase literalmente, ‘aspiravam’ os africanos cativos para as longínquas costas do Atlântico.”


Portanto o ouro foi o motor. Como observa o autor, desde a conclusão do forte em Elmina até meados do século XVI, a caravela portuguesa vai e vem até à Costa do Ouro, com uma média de 46 a 57kg de metal precioso por mês. O tesouro do reino, anteriormente conhecido como Casa da Guiné, foi renomeado Casa da Mina e transferido para o próprio edifício do Palácio Real. Por si só, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos vinte anos do século XV.

Em 1506, o ouro da região de Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa. A Costa do Ouro gerava cerca de 680Kg de ouro para Portugal ou, estima-se cerca de 1/10 de toda a oferta mundial de ouro naquela época. Esta enxurrada de metal precioso impulsionou uma complexa integração económica baseada no comércio a longa distância. Para adquirir ouro africano ofereciam-se manilhas e armas de fogo. Tendo descoberto que a lã e linho eram pesados impróprios para os trópicos, os portugueses começaram a usar algum do seu ouro de origem africana para comprar algodões indianos.

Esta quantidade de ouro era tão estimada que a alardeada busca de uma rota para a Ásia ficou suspensa, deu-se prioridade a continuar a identificação de outras jazidas de ouro em África. Os portugueses enviaram embaixadas a Tombuctu, tinham a expetativa de monopolizar o mercado de ouro a partir do Sahel. Empreendeu-se uma grande embaixada ao reino no Congo, em 1491, um projeto repleto de padres e artesãos. Portugal durante anos não deu continuidade ao progresso alcançado por Bartolomeu Dias no Oceano índico, o país estava demasiado ocupado em África.

Howard French observa que há uma outra perspetiva completamente distinta sobre o impacto histórico do ouro proveniente da África Ocidental. Este ouro teria contribuído para o financiamento de novas frotas e missões de exploração em várias latitudes, mas primeiro prosseguiu-se a Costa Africana a partir de 1497. Ele diz mesmo que o gigantesco ouro da Mina proporcionou à Coroa o desejo de descobrir ainda mais ouro em África; bem como, tronou possível a Portugal acompanhar o ritmo da Espanha no seu percurso acelerado de exploração oceânica. E recorda o encontro entre Colombo e D. João II. Estava em curso o Tratado de Tordesilhas de 1494, os dois países ibéricos tinham dividido as terras recém-descobertas fora de Portugal. Porventura, depois de conversar com Colombo, o rei português ficara esclarecido que a rota asiática não estava em perigo.

Veremos seguidamente como se instalou o tráfico negreiro e os seus circuitos.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post da série de 14 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28277: Agenda cultural (899): Feira do Livro do Porto 2026: apresentação do romance do António Carvalho, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp.), sábado, dia 29 de agosto, às 16h00, nos Jardins do Palácio de Cristal, Lago dos Cavalinhos

 



Ilustração: © Feira do Livro do Porto 2026 (com a devida vénia...)

 
1. O nosso camarada António Carvalho vai fazer a apresentação do seu romance "3 x 44:  Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. ) na Feira do Livro do Porto 2026, evento cultural que começa hoje, 21 de agosto e termina em 6 de setembro de 2026.

É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands,  entre editoras, livreiros e alfarrabistas.

O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar.

Local, data e hora:


Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes. 

Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica).

Capa do livro, publicado pela editora Vida Económica, com apoio da Fundação Hermínia Vilar  Ribeiro. 


O António Carvalho, e a esposa, Maria de Fãtima, na sessão de lançamento do seu livro, no passado dia 11 de julho, na quinta  da Fundação Hernínia Vilar Rodrigues, em Medas, Gondomar, que teve mais de 8 dezenas de presenças. 

Foto: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00) (com a devida vénia...)

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Nota do editor LG:

Último pposte da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28276: Agenda cultural (898): "Ilha de Santa Maria: Recortes da História de um Povo", novo livro de Arsénio Puim (Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2026, 135 pp.)

Guiné 61/74 - P28276: Agenda cultural (898): "Ilha de Santa Maria: Recortes da História de um Povo", novo livro de Arsénio Puim (Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2026, 135 pp.)


 

Capa do livro "Ilha de Santa Maria Recortes da História de Um Povo, de Arsénio Chaves Puim (Ponta Delgada: Letras Lavadas, 135 pp.)


Sinopse: "Ilha de Santa Maria – Recortes da História de Um Povo!

Fruto de seis décadas de dedicação à salvaguarda da memória mariense, este livro é uma obra de cariz histórico-etnográfico que resgata e humaniza a História da ilha de Santa Maria entre o século XVII e meados do século XX. Composta em forma de “recortes”, Arsénio Puim reúne acontecimentos, práticas e testemunhos que atravessam do século XVII a meados do século XX, revelando aspetos do património humano e material muitas vezes esquecidos ou silenciados.

Através de uma criteriosa seleção de “recortes” históricos, acontecimentos e aspetos do património humano e material — muitos deles olvidados ou silenciados —, o autor combina rigor científico com fontes primárias, secundárias e uma vivência pessoal profunda.

O resultado é uma obra que humaniza o passado, ilumina fenómenos sociais e relações comunitárias, e reforça o contributo de Santa Maria para a história mais ampla dos Açores.Este livro é, acima de tudo, um legado: a transmissão de uma vida dedicada à preservação da memória coletiva e ao aprofundamento da identidade açoriana.

Ficha técnica: 

Peso > 0,267 kg
Dimensões  > (C x L x A) 21 × 14,8 × 1,4 cm
ISBN  > 9789897356964
Encadernação > Capa mole
Páginas > 135
Edição > Agosto de 2026
Idioma  > Português
Editora > Letras Lavadas
Preço de capa > 12,00 €

Sobre o autor > Arsénio Chaves Puim

(i) nasceu em 1936, na ilha de Santa Maria, no termo da Calheta, Santo Espírito;

(ii) concluiu o ensino primário na sua freguesia natal de Santo Espírito e prosseguiu estudos em Teologia no Seminário de Angra do Heroísmo;

(iii) exerceu funções sacerdotais até 1976;

(iv) nesse mesmo ano, obteve o diploma de enfermagem na Escola de Enfermagem de Ponta Delgada e trabalhou como profissional desta área até 1995;

(v). em Santa Maria, foi também professor de Português e História no Externato e desempenhou vários cargos públicos, incluindo Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Vila do Porto;

(vi) foi cofundador do Museu Etnográfico de Santa Maria e dos jornais “Pico Alto” e “O Baluarte de Santa Maria”, dos quais foi o primeiro diretor;

(vii) desde 1982, Arsénio Puim reside em Vila Franca do Campo, na Ilha de São Miguel, onde casou, tem dois filhos e três netos;

(viii) este concelho, foi membro de vários órgãos de freguesia e municipais, mesário da Santa Casa da Misericórdia e, entre 2000 e 2018, redator principal do jornal “A Crença”;

(ix) Arsénio Puim foi também um importante ativista contra o Estado Novo e contra a Guerra Colonial, tendo sido membro do Movimento Democrático Português (MDP) antes e depois do 25 de Abril;

(x) em 2009, foi distinguido com a Medalha de Cidadão Honorário e Mérito Municipal pela Câmara Municipal de Vila Franca do Campo;

(xi) desde 2001, publicou cinco livros sobre história e etnografia açoriana, com especial enfoque em Santa Maria.

Fonte: adapt de Letras Lavadas (Ponta Delgada, São Miguel, Açores)


2. Comentrário do editor LG:

Segundo o portal da CM de Vila do Porto, o lançamento do livro  "Ilha de Santa Maria – Recortes da História de Um Povo" foi realizado  no passado do 9 de agosto, às 18 horas, na Biblioteca Municipal de Vila de Porto, juntamente com o livro e “Echoes of Azorean Life: A Cultural and Linguistic Portrait of the Island of Santa Maria", respetivamente o sexto e o sétimo livros do autor, ambos em edição da Letras Lavadas.

Tratou.se de um evento culltural inttegrado nas festas de 15 de agosto.

(...) "O primeiro livro, de cariz histórico-etnográfico, incide sobre uma seleção de acontecimentos e aspetos do património humano e material da Ilha de Santa Maria, situados entre o século XVII e meados do século XX. São abordados temas como os expostos na Roda da Câmara, os alevantes populares, a lepra (“mal de Lázaros”), as incursões dos Mouros e outros aspetos de grande interesse na história e vivência populares"

 O livro é prefaciado por Pilar Damião de Medeiros, professora de Sociologia na Universidade dos Açores, que fez também a sua apresentação.

(...) "O segundo título – 'Echoes of Azorean Life: A Cultural and Linguistic Portrait of the Island of Santa Maria' – corresponde a uma edição em inglês do livro 'Povo de Santa Maria - Seu Falar e Suas Vivências', publicado em 2021". 

Esta edição foi traduzida para inglês e anotada por Giuseppe Formato, investigador associado no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (ISCTE), que também apresentou  o livro. 

(...) "A obra, prefaciada por Onésimo Teotónio Almeida, reúne uma extensa investigação etnográfica relativa à Ilha de Santa Maria, em especial em torno da linguagem e vivência popular no período anterior a meados do século XX" (...)

A sessão de apresentação dos livros, com moderação de António Monteiro, contou com a participação da Presidente da Câmara Municipal de Vila do Porto, Bárbara Chaves, e da editora Letras Lavadas.

 Fonte: CM de Vila do Porto



Guiné 61/74 - P28275: O Nosso Livro de Visitas (231): Arsénio Puim, antigo alferes graduado capelão, CCS/BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), acaba de lançar um novo livro sobre o povo da sua ilha, e vem "partir mantenhas"


Arsénio Puim (n. 8 de maio de 1936):  ilhéu, açoriano, mariense, ex-sacerdote católico (de 1960 a 1976), ex-capelão militar (1969/71): foi autarca, professor, enfermeiro; é jornalista, escritor,  cidadão do mundo, pai, avô, amigo... Natural de Santa Maria, vive hoje em São Miguel, em Vila Franca do Campo, desde 1982. Membro da Tabanca Grande desde 12 de junho de 2009; tem 86 referências no blogue. 

Foto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

1. Mensagem do Arsénio Puim

Data - 19/08/2026, 17:44

Assunto - Cumprimentos

Caro amigo Luís

Obrigado pelos emails, mensagens, textos e informações que tens tido a delicadeza de me enviar, assim como o livro «O Capelão Militar na Guerra Colonial», do Padre Bártolo. 

 Um livro com interesse, que agradeço. Não pretendo, porém, fazer uma análise do mesmo. Mas não posso deixar de manifestar a minha estranheza e profunda discordância relativamente à afirmação do autor que considera "suja" a minha visão sobre a presença do capelão militarizado na guerra colonial. Julgo que quem escreve e quem critica o que quer que seja que foi escrito deve usar linguagem limpa.

Cheguei ontem de Santa Maria, onde passei uma linda semana com toda a minha família nuclear. Neste entretanto fiz na minha terra o lançamento de um novo livro, que se intitula «Ilha de Santa Maria - Recortes de um Povo», editado por Letras Lavadas (agosto de 2026, 135 pp.) (imagem da capa à esquerda). 

Vou enviar ao meu amigo Luís um exemplar, com todo o gosto.

De resto, cá vamos andando, com os meus 90 anos. Não obstante os meus achaques, considero que «para a idade não está mal», e sinto-me muito grato.

Melhores cumprimentos para Alice e família. 

Um grande abraço,

Arsénio Puim

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28245: O nosso livro de visitas (230): Emília da Silva Balula procura informações sobre o seu tio, sold at cav Francisco da Silva Oliveira, CCAV 2540 / BCAV 2876 (Ingoré, 1969/71), falecido em 24/2/1971, na sequência de acidente de viação

Guiné 61/74 - P28274: Verso & reverso (2): Muita honra e pouca glória: a história de Portugal Colonial resumida em três palavras-chave (Cherno Baldé, nosso colaboraor permanente, Bissau)


















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Cherno Baldé (2026)
Imagens: Arquivo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários (*) de Cherno Baldé, nosso colaborador permanente, natural de Fajonquito,  a viver em Bissau (deppois de ter vivido estudado também em Bafaftá, Bissau, Moldávia, Ucrânia, antigos territórios da URSS, Lisboa;  é hoje consultor independente na área da economia e gestão; tem página no Facebook.


(i) "Muita Honra e Pouca Glória" ou a história de Portugal colonial resumida em 3 palavras- chave.  Gostaria de acrescentar que ttambém os valentes perdem as guerras.

Na Guiné, o soldado português foi bom e firme, enquanto pôde, enquanto os meios à sua disposição o permitiram. Eu testemunhei a firmeza, a bravura desses soldados por mais de 10 anos, em fases e companhias diferentes e,  desses,  poucos eram profissionais ou do quadro permanente, e a partir de 70 quase todos eram milicianos, uma categoria ligeiramente um pouco acima das nossas milicias, voluntárias da sua própria desgraça.

Mas os valentes também perdem as guerras. Eu testemunhei o paradoxo de uma guerra perdida por homens valentes, transformada em vitória efémera a fim de permitir, no máximo,  gossi-gossi,  o regresso a casa, com medalhas, muita honra e pouca glória. (...)


(ii) Na Guiné do pós-25A74, poucos sabem dessa verdade histórica pós-colonial, pois o PAIGC encarregou-se, brilhantemente, de reescrever a história em cujos cenários eles eram os únicos e verdadeiros "Cabras-Machos",  e que a tropa "Tuga" não passava de espantalhos para inglês ver. 

Eu, pessoalmente, sabia que não era a verdadeira história, fazendo despertar em mim os primeiros sinais de desconfiança em relação a um Partido-Estado que se tinha apoderado de tudo e todos, prometendo mel e maná do céu ao povo e às suas ovelhas obedientes.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026 às 14:41:00 WEST 
 

(iii) Eu assisti (Cambaju, 1965/66) ao regresso dos homens do alferes Maia (CCAÇ 674), de fardas encharcadas,  depois de 5 dias de emboscadas e nomadizacão na fronteira com o Senegal, entre Solucocum e Cuntima (Colina do Norte).

Estava em Fajonquito aquando do ataque devastador a Cantacunda em 1968 e o sequestro dos 11 soldados do pelotão de metropolitanos da companhia sediada em Geba (CART 1690, 1967/69) e assistimos à pronta reação da companhia de Fajonquito do capitão Alcino de Jesus Raiano (CCAÇ 1685, 1967/69), com o envio de tropas às regiões abandonadas de Caresse e Cola, na tentativa de uma intercessão dos guerrilheiros, o que seria em vão.´

Eu convivi na minha terra com o soldado ("comando") Almeida que, quando havia um ataque numa localidade próxima,  não esperava por ordens ou colunas e corria a pé para não perder a festa do chumbo e da pólvora. 

Eu conheci os intrépidos Capitães do quadro permanente, o Carvalho (CCAÇ 2435) e o Patrocínio (CCAÇ 3549) (**), todos eles grandes homens e soldados que honraram o nome de Portugal em África.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026 às 15:21:00 WEST 
 
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos,links,  título: LG) (***)
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Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 3 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4136: As Unidades que passaram por Fajonquito (José Martins)


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28273: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (74): Adeus, Bijante, Bubaque, Bijagós, que eu vou para o "Puto" para fugir das chuvas...e sentar-me debaixo da parreira na quinta do Vouga, Águeda





Foto nº 1A e  1



Foto nº 2A e 2 


Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijante > 1 de agosto de 2026 >   Sistema de a abastecimento de água para a tabanca de Bijante. Obra da Impar Lda. 


Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Comentário do Patrício Ribeiro ao último poste da sua série, "Bom Dia, desde Bissau" (*):

(...) Eu agora, fugi da chuvas.

Espero debaixo da minha parreira nas margens do Vouga, Águeda,  pela vossa visita.
Abraço
2. Última mensagem que nos mandou da ilha de Bubaque, Bijagós, antes de viajara para o "Puto", onde vai passar férias nai sua quinta em Águeda.


Data - sábado, 1/08/2026, 20:52
Assunto - Sistema de a abastecimento de água para a tabanca Bijante.

Luís,

Não me quero substituir aos fotógrafos famosos do nosso blogue...Cada um faz o que pode, com a realidade que tem...Mesmo com muita chuva nas costas, de mais uns dias na ilha de Bubaque.

Desta Guiné, pela qual muitos nós nos apaixonámos e que outros detestaram.

Abraço
Patrício Ribeiro
Impar Lda
________________
 
Nota do  edittor LG:


Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: António Tavares (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 1.   É uma daquelas histórias de caserna que, à primeira vista, parecem quase anedóticas. Mas talvez não o sejam. 

O caso já aqui foi contado, pelo nosso estimado camarada António Tavares, ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72), que vive na Foz do Douro, Porto.

É a história de um soldado básico que terá chegado (?) a integrar o BCAÇ 2912, em formação, a decorrer no Campo Militar  de Santa Margarida (CMSM), entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970, e que era médico (ou licenciado em medicina) (*)

O caso merece ser de novo trazido à baila (**). 

António Tavares  contou-a no blogue em 2010, quarenta anos depois dos acontecimentos. Um licenciado, médico, alegadamente por razões políticas, foi incorporado como simples soldado básico. Um “Senhor Doutor” sem galões de aspirante a oficial miliciano médico, que os camaradas (e nomeadamente as praças e os 1ºs cabos milicianos do BCAÇ 2912) procuravam quando precisavam dos seus conhecimentos.

Vale a pena recuperar esta memória,  não apenas pela personagem, cuja identidade foi preservada mas também porque ela nos obriga a olhar para uma realidade pouco conhecida da tropa no tempo do Estado Novo: a distância que podia existir entre a formação, a competência profissional e o lugar que o aparelho militar atribuía a cada homem.

Quanto aos pormenores, alguns poderão exigir confirmação documental. Mas a história, no essencial, é perfeitamente plausível. 

E tem uma ironia que salta à vista: um médico transformado em “soldado básico” pelos homens que mandavam; e reconhecido como médico pelos homens que com ele conviviam, os seus camaradaplls. E que, contrariamente aos outros soldados básicos, era tratado com deferência, respeito e cumplicidade  como "senhor doutor", comendo  na messe de sargentos e dormindo com os 1º cabos milicianos...


O soldado básico que era médico no Campo Militar de Santa Margarida

 por António Tavares

Na lista dos nossos Marcadores/Descritores (badana do lado esquerdo do blogue), no tag ”Os Nossos Médicos”, li o nome de um médico, nosso camarada durante a formação do Batalhão, de que por razões óbvias omito o nome, mas recordo com saudade.

Na formação do BCAÇ 2912, iniciada a 23 de fevereiro de 1970, no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), tivemos um soldado básico que era licenciado em... medicina!

Era soldado básico por motivos políticos,  com o único mal de ter ideias diferentes daqueles que nos mandavam ir matar e morrer… a bem da riqueza de alguns!

Tinha estado no Presídio Militar de Penamacor onde passou dificuldades de vária ordem e até económicas.

Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos com a sua mala triangular, estetoscópio, antipiréticos, anti-inflamatórios, ligaduras, etc. … Um autêntico João Semana!

Sentia-se útil em ajudar e os milicianos agradeciam a sua cooperação que era muito solicitada naquela frigidíssima terra do CMSM.

O frio era tanto que os camaradas roubavam mantas uns aos outros para não dormirem gelados na caserna!

Eu fui uma das vítimas, mas confesso que também roubei uma! Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… Logo, fui perdoado. Se o não fui, a penitência foi cumprida logo a seguir no teatro de guerra: Guiné!

No fim da IAO, em Santa Margarida, não faltou nenhuma manta!

Sem o conhecimento da hierraquia militar,  o soldado básico, médico  (ou, pelo menos, licenciado em medicina), dormia na caserna dos cabos milicianos e comia na messe dos sargentos!

O BCAÇ 2912 partiu, em 24 de abril de 1970, da gare marítima de Alcântara, no T/T Carvalho de Araújo, rumo ao CTI da Guiné, com os alf mil médicos Vítor Veloso,  José Alberto Martins Faria e Eduardo Teixeira Sousa.

O Dr. Vítor Veloso, em 1971,  foi para Bafatá como Delegado de Saúde, sendo substituído pelo alf mil médico José Guedes, ex-Otorrino no Hospital Geral de Santo António do Porto.

O médico, já com C
édula Profissional, soldado básico na tropa, esse, continuou no CMSM. Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia já como alf mil médico.

Os seus bons serviços e competência técnica foram precisos naquela macabra guerra de guerrilha, onde se matava para não morrer!

Quarenta anos passados é o que recordo do "Senhor Doutor" ... Assim era conhecido e tratado pelos milicianos!

Os ex-combatentes conhecem bem histórias de repressão política, com intervenções da PIDE, nos anos de 1961 a 1974,  contra  vários cidadãos de pensamento contrário ao regime vigente de então.

A juventude do após 25 de Abril de 1974,  por muito que leia, veja e ouça,
 não tem felizmente a noção e a vivência de uma guerra de  guerrilha que visava a conquista das populações nativas segundo a propaganda da época.


Com um abraço do 

António Tavares

Ex-Fur Mil SAM, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72)

Foz do Douro, 23-02-2010

(Revisão / fixação de texto, título: LG)


2. Comentátrio do editor LG:

É pena é que o nosso camarada António Tavares tenha omitido o nome do "senhor doutor" do Campo Militar de Santa Margarida (ou, pelo menos, não o tenha partilhado com os editores do blogue).

É uma história perfeitamente verosímil no essencial, mas há nela alguns pontos que importa separar: (i) o que é historicamente plausível; (ii) o que precisa de confirmação documental; e (iii) aquilo que provavelmente resulta de memórias com 4 dezenas de anos.

O que há de verdade nesta história ?

Bem, a figura do soldado básico licenciado em Medicina não deveria ser vulgar, antes pelo contrário. Em princípio, as NT não podiam dar-se ao luxo de perder um médico, com tanta falta deles (quer na metrópole, quer no ultramar). 

Mesmo que o médico não estivesse alinhado política e ideologicamente com o regime que sustentava a guerra. Guerra que, afinal, foi feita por tantos "desalinhados", nomeadamente milicianos, médicos e não médicos, obrigados a cumprir o serviço militar como qualquer um de nós. 

Havia uma enorme penúria de médicos, no início da década de 1960, quando "rebentou a guerra de Angola"... Em contrapartida, não  faltava "carne para canhão", como se costuma dizer...

Hoje (dados de 2025), temos mais de 65 mil médicos, dez vezes mais do que em 1960, sendo quase 60% mulheres. Em 1960, o número de médicos era da ordem dos 6,7 mil (com uma taxa de feminização muito baixa, c. 3% a 5%). Dez anos, no início de 1970, o total de médicos, não ultrapassava os 8,2 mil (taxa de feminização: 15%). 

Era de todo impossível ter 3 ou 4 médicos por batalhão, 1 por companhia!... ( O BCAÇ 2912 teria sido mais a exceção do que a regra.)

 Durante a guerra colonial (1961/74),  só o Exército mobilizou cerca de 1.100 médicos milicianos. 

Portanto, era dramaticamente escasso o número de médicos em Portugal. Com o início da guerra colonial, as Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea) tiveram que competir com a sociedade civil e o sistema de saúde (público e privado) por este recurso escasso. (Ainda não havia o Serviço Nacional de Saúde, criado apenas em 1979.)

 Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, o deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação (nomeadamente no Arquivo Histórico-Militar) que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  alegadamente "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

O pomo da discórdia pode ser este: 

 (i) ser licenciado em medicina não chegava para se ser médico, era preciso estar inscrito em (reconhecido por) a Ordem dos Médicos; 

e, por outro lado, (ii) nada obrigava o Exército a que o indivíduo, médico,  fosse incorporado como aspirante ou alferes miliciano médico.

Um médico convocado para o serviço militar podia, por razões administrativas, disciplinares ou políticas, não ser aproveitado como médico militar, por ter, por exemplo, chumbado no COM (Curso de Oficiais Milicianos).

A explicação dada pelo António Tavares (“soldado básico por motivos políticos”) é elucidativa.

Não havia a categoria de furriéis milicianos médicos nem soldados médicos, muito menos soldados básicos médicos. (Em contrapartida, havia furriéis milicianos enfermeiros, 1ºs cabos auxiliares de enfermeiro e soldados maqueiros.)

O que provavelmente aconteceu, pelo menos neste caso relatado acima, é que  um cidadão português,  apesar de ter uma licenciatura em medicina e ter cédula profissional emitida pela Ordem dos Médicos, foi  incorporado como "soldado básico"...

A passagem pelo Presídio Militar de Penamacor é o elemento que gostaríamos de poder confirmar documentalmente. 

Se esse nosso camarada esteve efectivamente preso por razões políticas (em Peniche, Caxias ou até Tarrafal, para os ultramarinos) ou disciplinares (em Penamacor ou em Elvas) e depois foi colocado como soldado básico no CMSM,  a narrativa ganha uma coerência muito forte.

E há um pormenor delicioso: “Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos…”

Isto é exactamente o tipo de coisa que acontece numa organização militar: (i) a instituição podia não o reconhecer formalmente como médico; (ii) os camaradas, pelo menos no CSMS, reconheciam-no imediatamente como tal.

Ele tinha conhecimentos médicos, sabia diagnosticar, tinha provavelmente a sua maleta de médico, e as praças e os milicianos recorriam naturalmente a ele. Daí a expressão, cerimoniosa e respeitadora, “Senhor Doutor".

Todavia, a referência à “maleta triangular” merece alguma cautela:  a descrição de uma maleta / estojo médico (com estetoscópio, ligaduras, antipiréticos, anti-inflamatórios etc.) é perfeitamente plausível; mas não se deve tomar esse objeto como prova de que ele tinha oficialmente equipamento médico militar; pode ter sido material pessoal ou obtido informalmente.

 A parte mais saborosa da história (mas que deve ser tratada com cautela ou prudência) é o facto de o "senhor doutor" dormir com os cabos milicianos e comer na Messe de Sargentos. 

E mais: à revelia da hierarquia militar:  “Sem o conhecimento dos Comandos Militares"...

É perfeitamente possível como arranjo informal tolerado localmente.  Até porque o Campo Militar de Santa Margarida não era/é um simples quartel, era/é uma base gigantesca (hoje uma das maiores instalações militares da Europa, a maior instalação militar portuguesa em termos de guarnição e a segunda maior em termos de área ocupada, com 6,7 mil hectares de área ocupada, sendo 350 ha de área da zona de aquartelamentos!).

De qualquer modo, a  expressão “sem o conhecimento dos Comandos Militares” deve ser uma ficção ou uma memória truncada  do narrador. 

É difícil imaginar que ninguém na cadeia de comando, no CMSM,  soubesse que um homem estava a dormir e a comer fora do lugar que formalmente lhe correspondia. (Pelo menos, o comando do batalhão em formação, o BCAÇ 2912.)

O ponto que merece mesmo confirmação: quando ele reaparece como alferes médico no CTIG. Diz o Tavares: “Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia como Alf Mil Médico".

Isto escritio em 2010, tem de ser lido com reservas. O Tavares podia ter sido atraiçoado pela memória. Bastaria haver aqui uma confusão de identidade, de posto ou de função.

A ser verdade, teríamos uma transformação extraordinariamente interessante: licenciado em Medicina / médico com cédula profisisonal da OM  → soldado básico  (no CMSM)→ médico informal dos camaradas na caserna → finalmente alferes miliciano médico (no CTIG).

E isso levanta uma pergunta histórica muito interessante: o que é que aconteceu entretanto? Foi reintegrado? Voltou  a fazer o COM ? Mudou a sua situação militar? Foi reconhecida a sua  licenciatura? Foi simplesmente mobilizado posteriormente como médico?
 
A história deve ser recuperada não apenas como uma "anedota de caserna" ou uma simples "fait-divers" da história de vida de  um médico,  durante a guerra colonial,  que, hoje, a estar vivo (como esperamos), será octogenário e estará seguramente  reformado.

Ela diz muito sobre a extraordinária capacidade da tropa para criar soluções informais. De facto, o protagonista era "formalmente" um soldado básico, mas na realidade as praças do contngente geral e os milicianos tratavam-no como médico ( “Senhor Doutor").

A instituição militar podia desqualificá-lo ou subalternizá-lo; os homens à sua volta faziam exactamente o contrário: reconheciam-lhe a competência e recorriam a ela.

 E há ainda uma segunda história dentro desta história: descobrir quem era o médico. Não para necessariamente revelar o seu nome mas para tentar reconstruir documentalmente, a partir dos arquivos.  como é que um licenciado em medicina acabou como soldado básico em no Campo Militar de Santa Margarida e, eventualmente, como alferes miliciano médico na Guiné. (**).

Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, a deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

Todavia, temos  de ser cautelosos: esta não devia (nem podia) ser uma prática corrente. Temos evidência de um caso. Não temos ainda evidência de uma prática generalizada por parte do Exército.

Recordo-me de, também há muitos anos, ter lido uma história parecida: haveria um soldado, que julgo que seria básico, que esteve em Bambadinca, nos primeiros anos de guerra, e que era médico, ou estudante de medicina... Será que alguém se recorda também desde caso ?

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28271: Historiografia da presença portuguesa em África (540): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (8): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Devo uma explicação ao leitor, estou a fazer uma tradução livre da narrativa do capitão Brosselard, um belo francês do século XIX, tenho três dicionários de francês à frente e nem sempre tenho sucesso com a escolha das palavras mais adequadas e fico sempre com a noção de que a fluidez destas descrições não é das melhores, isto somente para pedir a benevolência do leitor, sou um tradutor improvisado. Temos aqui a viagem do tenente Clerc que anda a explorar o Cacine e descobriu que não é um rio é um braço de rio. De facto a Guiné só tem dois rios se entendermos que um rio tem de ter nascente e foz, são o Geba e o Corubal. O fascinante desta digressão é a descrição dos meandros e confluência de riachos à volta do Cacine, os cenários estão diferentes na maré-alta e maré-baixa. Outro membro da comissão francesa, o Sr. Galibert, tentou explorar o ponto alto do rio Cogon, encontrou obstáculos intransponíveis, mas vai premiar com uma cena espantosa de caçada ao hipopótamo.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 8
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que o Capitão Henri Brosselard determinou ao Tenente Clerc que fosse explorar as proximidades do rio Cacine, deu-se a particularidade de quando este e a sua comitiva chegaram a Ahmadu-Boubou, onde pernoitaram, passaram por povoações que nunca tinham visto um branco. No dia seguinte à pernoite no entreposto de Ahmadu-Boubou a pequena coluna transpôs com a baixa-mar os braços do rio de Kakondum e com muitas dificuldades por causa do lodo que se estende pelo outro lado do leito, numa extensão de duzentos metros; este lodo é tão mole que nele nos afundamos até aos joelhos.

Após esta peripécia, era preciso seguir na direção de Cacine através de um caminho atravessado por pântanos e era muitas vezes necessário caminhar neste leito lodoso por causa da vegetação muito cerrada que bordeja as margens. De resto este caminho só é praticável na maré-baixa porque na maré-alta a água sobe um metro nos pântanos.

Este rio tem um aspeto imponente porque as suas águas são límpidas e correm sobre uma areia dura; o rio banha uma das regiões mais selvagens, onde o homem parece pouco conhecido e pouco temido pelos animais, porque todos, aves aquáticas, macacos, serpentes, caimões e crocodilos, ficam ao alcance de tiros de espingarda e parecem olhar os viajantes com espanto. O guia assegurou que, apesar da maré estar a subir, era possível passar a vau. Os atiradores e os homens da escolta, inteiramente nus, colocaram à cabeça tudo quanto levavam e apesar dos buracos em que se podia cair a qualquer instante, atravessaram o rio com água até ao queixo.

O guia voltou à outra margem para buscar os pertences do tenente, mas a enchente e a profundidade do rio tinham aumentado, ele perdeu o pé no regresso e deixou cair a sua carga. Apesar da ajuda dos seus companheiros que se lançaram à água e mergulharam, dando o seu melhor, tudo se perdeu.

Tomou-se o caminho que conduzia à aldeia de Ahmadu-Boubou. O chefe da localidade, ou melhor dito, o proprietário, estava ausente; mas a sua mulher, uma negra muito bela, ofereceu ao tenente, em nome do seu senhor, uma generosa hospitalidade. Ahmadu-Boubou, disse ela, gosta muito dos franceses; ele foi educado na Gorée e ele fala fluentemente a vossa língua: ele ficará muito satisfeito por um branco de França ter dormido sob o seu teto!

A casa de Ahmadu-Boubou era em terra batida, estava coberta de colmo e lembrava precisamente as casas rurais que se encontram na Baixa-Normandia. O interior era composto de quatro grandes divisões; uma delas, a mais confortável, servia de quarto do proprietário; nela ficou instalado o Tenente Clerc. O mobiliário, relativamente luxuoso, compunha-se de uma cama de ferro revestida com um mosquiteiro, lençóis muito brancos e com uma coberta acolchoada; diante da cama, uma espécie de baú em carvalho, e sobre o pano que o cobre havia cadernos e livros, entre os quais uma história em França do padre Gaultier e uma gramática francesa de Noël et Chapsal.

O Tenente Clerc chegou à tardinha a Cantaguiès, residência de Toly-Bey e no regresso prometeu uma recompensa aos negros que encontrassem a sua bagagem que ficara no rio. A notícia espalhou-se na povoação de Ahmadu e até em Cantaguiès, e à noite, pelo luar, mais de vinte negros mergulharam para obter a recompensa anunciada. Após muitas horas de esforços penosos, as suas pesquisas foram coroadas de sucesso.

No dia seguinte o tenente regressou ao Cacine numa piroga. A oito quilómetros do vale que se tinha atravessado na véspera, a maré deixara de se sentir e o rio recuara bruscamente. Não era mais do que um riacho pantanoso e arborizado.

O Cacine, por conseguinte, pode ser considerado como um braço de mar, mais do que um rio. O tenente tornou a descer o Cacine até à confluência com o braço de rio de Kakondum, neste sítio o rio atinge uma largura de 400 metros; as margens são arborizadas, o aspeto é do mais selvagem possível. Ele subiu então ao braço do rio de Kakondum, o qual tem uma largura de 100 metros, mas que recua rapidamente e então não tem mais de 10 metros na parte superior do seu curso.

O explorador das fontes do Cacine regressou a Ahmadu-Boubou com a sua pequena coluna, tomou depois a direção de Compony para fazer o reconhecimento da região de Tchiermo até Kandenbel e regressou a Kandiafara a 21. Enquanto o Tenente Clerc explorava o Cacine, o Sr. Galibert dirigiu-se para o braço do rio de Nalouel, com três estivadores, num barco à vela. Atingiu duas escalas usadas pelos comerciantes, situadas nas margens opostas deste braço do rio, a sete metros da confluência do Cogon. Estas duas escalar têm o nome de Nalouel e de Gadamael e dão o seu nome ao rio. A maré faz-se sentir até à altura destas duas povoações. A montante, a vegetação cobre o rio e torna-se impossível toda e qualquer tentativa de navegação.

Convidado a tentar explorar o alto Cogon, o Sr. Galibert não pôde, devido à sua fraca embarcação mais do que saber a alguma distância acima da barreira de Kandiafara, a cerca de 7 mil metros acima deste ponto. Chegado a esta distância, o rio separa-se em dois braços, um corre debaixo das árvores entrelaçadas e o outro estreita imediatamente. Rio cheio de pedras, mas a água é muito clara e profunda. Acostou num baixio, marcado por vestígios de hipopótamo, debaixo de um caramanchão de verdura. Perto havia uma planície de ervas secas muito altas; deitou-se fogo, enquanto alguns homens foram caçar e em menos de 20 minutos trouxeram um antílope e uma corça. Há muitos hipopótamos no Cogon; em Kandiafara vê-se a toda a hora as suas grossas narinas à superfície da água e ouvem-se permanentemente as suas poderosas fungadelas. Estes grandes paquidermes são perigosos para a povoação.

Segue-se uma espantosa descrição da caça ao hipopótamo, será tema de substância no próximo texto.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta da Guiné em 1897, proveniente do Arquivo Histórico Ultramarino, houve depois alteração de fronteiras
Esta carta das populações da Senegâmbia e do Alto Níger é muito mais do que uma curiosidade, permite-nos observar o posicionamento no que vai ser a Guiné Portuguesa, veja-se a importância dos Soninqués, dos Nalus, Mandingas e Fulas
Postal antigo da Guiné Francesa, fala-se aqui de povoações por onde andou o capitão Henri Brosselard
Postal antigo da Guiné Francesa, cerimónia religiosa dirigida por um Almami

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 12 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28257: Historiografia da presença portuguesa em África (539): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (7): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)