
Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:
Queridos amigos,
Cheguei prevenido a Gjirokastër, era tudo menos uma aventura desportiva, mas que impõe atividade física a um octogenário, impõe, não há avenidas retilíneas, o casario sobre e desce em cascata, todo o cuidado é pouco para evitar quedas, nesta cidade de charme onde pontificam o branco e o cinzento. Os guias recomendam que se visite a casa natal do mais influente escritor albanês do século XX Ismail Kadaré, que não é fácil de encontrar neste dédalo vertical. A casa Skenduli, a tal que é dotada de 9 chaminés, 4 portas e 64 janelas exige alguma forma física, mas acaba por resgatar a energia despendida com as panorâmicas esplêndidas que dela se desfrutam. Aqui deixo as últimas imagens, não hesito em dizer que quero voltar, já apanhei o furgão para Sarandë, junto do Mar Jónico, tenho mais belezas deslumbrantes à minha espera, que convosco vou partilhar.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7
Mário Beja Santos
Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade. Foi uma visita de dois dias, bem arrependido fiquei por aqui ter estacionado tão pouco tempo. Mais uma razão de fundo para aqui voltar e ver o que já foi visto com os mesmos olhos deslumbrados.
Este livro intitulado Indignidade da Albanesa Lea Ypi, investigadora e professora universitária, foi uma das minhas companhias preferidas, assegurou-me que na Albânia atual é possível ter acesso aos arquivos dos serviços secretos dos tempos ditatoriais, e acompanhar a pesquisa que a autora faz de familiares seus perseguidos pelo regime de Enver Hoxha. Mergulhamos na vida de um pedaço da península balcânica desde a atmosfera do império otomano, da Grécia e da Albânia libertadas, vamos ler os relatórios das pessoas encarregadas de vigiar diariamente os avós da autora, assistiremos à detenção e prisão do avô e ao trabalho servil da avó, tratados um como traidor outra como hostil à República Popular Socialista. Leio este feito literário denso e comovente ao mesmo tempo que me vou deparando com as marcas da paranoia desse regime, as suas obras de realismo dito socialista e a vida da Albânia de hoje que procura desenfreadamente entrar na União Europeia cometendo todas as asneiras do turismo de massas, deslumbrados que estão pela corrida de investimentos a esta nova pérola do Mediterrâneo. Felizmente que o povo se começa a mobilizar contra a ganância destes investidores sem escrúpulos, que contam com a complacência política interna.
Percorro os últimos andares da Casa Zekate, construída em 1811, é o expoente máximo das casas-torre em Gjirokastër. Destaca-se pela sua fachada imponente com torres gémeas, tetos de madeira esculpida e uma vista deslumbrante sobre o Vale do rio Drino. Irei depois visitar a casa Skenduli, uma mansão do século XVIII com 64 portas, 44 janelas e 9 lareiras. Não deixo de me deslumbrar com esta cidade de pedra que, curiosamente, nada tem de uniforme nem de monótona, talvez por se dispor numa quase escadaria, num amplo anfiteatro, rodeada de vegetação, salpicada de branco e cinzento.
Um pormenor do quarto onde não falta chaminé, uma janela de vidros coloridos para induzir tranquilidade e até a cama de um bebé.
Outro quarto de família, prima pelo conforto e pela ausência de adornos.
Aqui sim, prima o luxo, dispõe de uma atmosfera requintada, nele se podem fazer casamentos, acolher as visitas, é uma decoração tipicamente otomana.Outra lembrança do realismo dito socialista, uma exaltação aos libertadores que em 1944 fizeram a vida negra aos exércitos alemães em retirada, no fim desse ano Enver Hoxha e o seu partido comunista encetaram caminho para o controlo absoluto da Albânia, um regime que levou ao isolamento total, cortando primeiro as relações com os jugoslavos, que tinham ajudado o partido comunista albanês durante as lutas de libertação, cortaram relações com os soviéticos e mais adiante com os chineses, era tudo gente revisionista, inimigos da pátria albanesa. Foi assim até 1991, depois, como mostram os filmes, o regime caiu e deixou pouquíssimas saudades.
Há sempre um ângulo novo para explorar nesta Gjirokastër feiticeira. Numa rua a meio da colina pude captar a ligação entre a Gjirokastër medieval e a Gjirokastër que começou a sobressair desde o regime comunista, é indiscutível que esta ligação não é patrimonialmente ostensiva. Mas, francamente, o que mais me enche a alma é esta cercadura de montanhas e o verde vicejante por toda a parte, um diálogo permanente entre o património natural e o edificado.
No piso do alojamento em que me encontro, apanho de frente a entrada da mesquita que escapou às destruições decretadas depois de 1967, quando o regime decretou que a Albânia era uma sociedade ateia. A mesquita teve muitas operações, até foi escola de circo e de artes performativas. Visitei o seu interior, fizeram-se obras ganhou dignidade, é um templo em funções.
Volto-me para o outro lado neste mesmo piso em que fotografei a mesquita, agora é a vez de mostrar a rua principal do grande bazar, povoada de tapetes Kilim, nítida influência turco-otomana, muitas recordações para turistas, diferentes restaurantes para diferentes bolsas, ao fundo o castelo com a torre do relógio e uma proeminente montanha.
Imagem de um outro ângulo da cidade, à esquerda está a casa Skenduli, temos um denso povoamento até ao cume da montanha.
Visita ao museu etnográfico, antes houve aqui a casa em que nasceu em Enver Hoxha. Podemos ver o berço que lhe é atribuído.
Apresentações de indumentárias albanesas típicas.
A casa Skenduli, que visitei na companhia do seu proprietário. Confesso que o pormenor que mais me fascinou é esta impressionante fachada de uma casa fortaleza, povoada de compartimentos desde a cave ao último andar.Duas imagens só para fazer alusão ao itinerário que se segue, Serandë e Butrint, esta última Património da Humanidade, aqui vos mostro um anfiteatro romano e as ruínas da casa de Esculápio, o médico mais famoso da antiguidade. É bem verdade que vim emocionado de Gjirokastër, um tanto frustrado por não ter visitado as ruínas de Adrianópolis, que foi grega e depois refundada pelo imperador Adriano, como igualmente não visitei o bunker reservado às altas figuras do partido comunista, na previsão de um ataque nuclear. Mais uma razão para voltar. Já estou na penúltima etapa desta viagem que há tanto ambicionava fazer, como sempre viajei de furgão de Gjirokastër até Sarandë. Pois tenho muito para vos contar.
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28172: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)
















































