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Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) em abril de 1972. Foto: Luís Dias (2011) |
Desarmada, toda a delegação portuguesa foi chacinada sem dó nem piedade, quando a direção do PAIGC em Conacri tomou conhecimento das negociações interpretadas como tentativa de deserção ou rendição... Um crime, de resto, inqualificável, cobarde. vil, gratuito, cuja autoria moral continua a manchar a memória de Amílcar Cabral, passado mais de meio século.
O que teria acontecido se ele fosse preso ou pura e simplesmente chacinado, como aconteceu a toda a equipa (os 3 majores, Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva ,
É uma trágica efeméride: já lá vão 56 anos...
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Cristina Allen ( |
2. Escreveu Cristina Allen:
(...) Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”
Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.
Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.
E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.
Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...)
3. Recorde-se o que disse Luís Cabral, no seu triste exílio de Lisboa, a José Manuel Barroso (em enytreviosta publicada no "Diário de Notícias" de 11 de Setembro de 2000), sobre a leitura política destes trágicos acontecimentos feita pela cúpula do PAIGC:
"[ ... ] Essa ação dos majores visava a rendição das nossas tropas ... Nós controlámo-la desde o princípio, desde os primeiros contactos. O objetivo era prender Spínola. Se o prendermos, a guerra acaba na Guiné, dizíamos. Mas ele não apareceu no dia em que devia assistir à rendição
das nossas tropas. Foi uma operação montada com o conhecimento da direção máxima do partido e com o controlo dos responsáveis da área.
[... ] O problema era prender os majores naquela área de movimentação extremamente difícil e retirá-los de uma zona minada [... ]. Uma decisão política [... ] Eu lamentei-o sempre, porque no quadro da nossa conceção das coisas, e particularmente da do Amílcar, se tivessemos tido meios para prender os homens, tinha tido um efeito muito grande. Mas o sucesso seria de facto ter o General. Sem ele o risco era muito grande." (...)
4. A pergunta "O que teria acontecido se..." entra no domínio da história contrafactual, interessante, mas sempre especulativa. Ainda assim, dá para explorar cenários plausíveis com base no contexto de 1970.
Primeiro, o contexto: em abril de 1970, António de Spínola era simultaneamente governador e comandante-chefe na Guiné, uma figura central na tentativa de combinar ação militar com abertura política. que abrisse o caminho para o fim da guetrra. O episódio de Pelundo (o chamado “massacre dos três majores"), teve um impacto forte porque atingiu precisamente essa estratégia de contactos e negociações locais para aliciar combatentes do PAIGC a "desertar" e a integrar-se nas Forças Armadas Portuguesas.
Se o gen Spínola tivesse ido a esse encontrpo fatídico e sido morto ou capturado pelo PAIGC, há três níveis de consequências a considerar:
(i) No plano imediato (Guiné, 1970)
A perda de Spínola teria sido um choque enorme para o dispositivo português, tanto entre as tropas metropolitanas como entre as do recrutamento local. Haveria uma tremenda perda de liderança militar. O moral das tropas, já de si fragilizado, seria ainda mais enfraquecido.
Spínola era o "homem forte" e carismático da Guiné, o rosto de uma linha de ação que tentava sair do impasse militar clássico, uma figura central na estratégia portuguesa. Era o "homem grande de Bissau". A sua morte ou captura teria sido um golpe moral e estratégico devastador para as forças portuguesas, precipitando outros acontecimentos, tão ou mais dramáticos, como um possível golpe de Estado, da extrema direita do regime, derrubando o Marcelo Caetano,
(ii) Reação do regime
O Estado Novo, já sob pressão interna e sobretudo internacional, teria de lidar com a perda do seu general mais mediático. A prisão ou a morte de Spínola poderia ter levado a uma escalada de violência ou, pelo contrário, a uma revisão mais rápida (e talvez atabalhoada e precipitada) da política colonial.
A guerra não iria acabar, contrariamente ao desejo do PAIGC. O mais provável seria um endurecimento rápido do conflito: menos abertura a contactos, mais operações de retaliação, e um regresso a uma lógica puramente militar. Isso poderia ter agravado ainda mais a violência no terreno.
Mas seria pouco provável que tivesse sido planeada e executada a Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, em 22 de novembro de 1970). E o Amilcar Cabral não teria sido assassinado...
(iii) No plano político em Portugal
Aqui é que o efeito poderia ter sido decisivo. Spínola viria a ganhar projeção nacional sobretudo após publicar o livro "Portugal e o Futuro" (em fevereiro de 1974), onde questiona a viabilidade da guerra. Mas ele já tinha visibilidade internacional (podendo até dizer-se que tinha alguma "boa imprensa").
Sem ele, esse “choque intelectual” dentro do regime teria sido mais fraco ou mais tardio. Outros militares pensavam de forma semelhante, mas poucos tinham o mesmo peso simbólico e político-militar, com exceção talvez de Kaulza de Arriaga.
Spínola estava a implementar, com sucesso e apreensão de Amílcar Cabral, a política de "Por uma Guiné melhor", focada em operações especiais e na conquista de "corações e mentes". Um em cada três combatentes já era guineense.
Com o desaparecimento de Spínola, o PAIGC (çleia-se: Amílcar Cabaral) deixaria de ter um um rival à altura, acelerando o reconhecimento internacional da independência da Guiné-Bissau talvez um ano ou uns meses mais cedo. E Amílcar Cabral teria assistido pessoalmente a esse momento histórico que o consagria como o "pai-fundador" da Pátria. Quanto ao futuro da unidade Guiné e Cabo Verde, seria difícil avançar com cenários. O "ajuste de contas" far-se-ia mais tarde...
(iv) No caminho para o 25 de Abril
Se Spínola tivesse morrido em 1970, o Movimento das Forças Armadas (MFA) teria que saber procurar e encontrar outro general com o oseu estatuto, tarefa que não era fácil dadpo seu protagionismo na Guiné, e o seu prestígio, essencial para aceitar a rendição (incondicional) do regime de Marcello Caetano.
Com o Spínola preso ou morto, o próprio desfecho do Revolução dos Cravos poderia ter sido diferente: não necessariamente inexistente, mas com outra configuração. Ele acabou por ser uma figura de compromisso no momento inicial (rosto da Junta de Salvação Nacional, Presidente da República após o golpe).
Não sendo sequer do MFA (Movimento das Forças Armadas), tendo apenas emprestado ao movimento dos capitães o seu pretsígio, o seu rosto, a sua voz, os seus galões, ninguém pode negar que Spínola teve um papel importante no próprio dia 25 de Abril de 1974.
Este é o ponto mais crítico. Spínola não era apenas um general com prestígio ganho no campo de batalha; tornou-se ele próprio um intérpretes de uma das "soluções políticas" para a guerra.
(v) Impacto na descolonização e efeito dominó
A presença ou ausência de Spínola poderia ter alterado o curso das negociações com o PAIGC. Se tivesse sido preso ou morto, o PAIGC poderia ter ganho mais força, sobretudo moral e até militar, acelerando a independência (unilateral) do território e o seu reconhecimento nas instâncias internacionais (ONU, OUA, países não-alinhados, países comunistas e até nalguns países ocidentais, com os Norte da Europa).
De qualquer modo, não podemos empolar o papel do indivíduo na História: a guerra colonial (nomeadamente na Guiné) estava num impasse estrutural, com grande desgaste militar, económico, humano e moral. Mesmo sem Spínola, dificilmente o regime escaparia a uma crise profunda. A história não dependia só dele.
- um PAIGC ainda mais duro, triunfalista, arrogante, mais intransigente e menos permeável a negociações;
- um regime em Lisboa sem uma voz interna, heterodoxa, tão visível a defender a necessidade de mudança;
- um 25 de Abril possivelmente diferente noo conteúdo e na forma, mas inevitável em qualquer dos casos.
O facto de Spínola não ter estado presente no Pelundo na sangrenta segunda feira, é um daqueles "acidentes" históricos que mudam tudo. É a chamada "ironia da História".
A história é feita de pequenos momentos e decisões que, em retrospectiva, parecem quase inevitáveis. Mas, na altura, são apenas escolhas, acasos, encontros e desencontros. Impossível saber se a história teria encontrado outro caminho. O "não ir" ao Pelundo, à última da hora (por pressão do secretário geral da Porvíncia) foi, sem dúvida, um dos acasos mais decisivos do século XX português.
Sem ele, o 25 de abril de 1974 poderia ter ocorrido na mesma, nessa data ou noutra, mas a Junta de Salvação Nacional (ou o seu equivalente) teria tido um rosto e uma orientação político.ideológica possivelmente diferentes.
E há um último ponto, mais próximo do texto da Cristina: a dimensão trágica que ela lhe atribui talvez ficasse ainda mais “fechada”: Spínola morreria como "mártir da Pátria", quiçá como "herói" (nunca como "vilão"), impoluto, nunca como figura contraditória entre a guerra e a tentativa de saída política. Foi essa ambiguidade que o tornou tão “inquietante” (quanto "fascinante") na memória de quem o observou de perto, como a Cristina e aqueles de nós que serviram sob o seu comando.
(Pesquisa: LG + CECA + Bibliografia + IA (ChatGPT / OPenAI | Le Chat Mistral AI)
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Nota do editor LG:
/*) Vd. poste de 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)

















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