1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:Queridos amigos,
A laboriosa pesquisa feita por este investigador norte-americano introduz um olhar diferente sobre o papel do continente africano na história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial. O que Howard French procura consolidar como historicamente demonstrado, mas praticamente ausente ou até mesmo minimizado, é o papel fulcral desempenhado pela mão de obra escravizada nas plantações de açúcar de São Tomé, do Brasil, de toda a agricultura de plantação das Caraíbas e dos estados sulistas do que virá a ser os EUA, pois foi esta mão de obra escravizada que serviu de alavanca para a ascensão económica da Europa, para o seu desenvolvimento político, naturalmente uma trajetória que se inicia com os países ibéricos e que chegará à Revolução Haitiana e pelo adiante à evolução do conceito de Direitos Humanos e às modificações drásticas que tinham sido impostas pelos preconceitos raciais. É um convite para que os historiadores globais revejam as abastadas civilizações da África medieval e como o comércio negreiro configurou o papel do negro na História. Por isso vale a pena continuar a ler este livro com elementar cuidado.
Um abraço
do Mário
África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 3
Mário Beja Santos
Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.
É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”
Chegou o momento de o autor abordar frontalmente a essência da escravatura. Primeiro, sempre houve escravatura, há testemunhos delas em todas as civilizações. A escravatura que vai partir de África, nomeadamente do século XVI em diante é nela que assentam as raízes do racismo moderno. Mas que escravatura havia em África, antes da chegada dos portugueses e de outros povos? O autor responde:
“A escravatura nesta parte de África (como noutras regiões subsarianas do continente) eram a prática antiga, embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar, de mãos dadas com o florescimento do imperialismo ocidental. Para os acãs (importante grupo étnico do Gana e da Costa do Marfim), os escravos eram tradicionalmente adquiridos no decurso de disputas múltiplas, bem como durante as campanhas expansionistas contra grupos externos. Os cativos nestes conflitos eram por vezes expostos a trabalhar na agricultura, na construção de estradas, e até mesmo como soldados, mas, tal como os otomanos, em geral era dada prioridade à sua assimilação na sociedade o mais rapidamente possível.
Os acãs, que controlavam as mais ricas fontes de ouro, tinham recentemente estabelecido laços comerciais lucrativos com os impérios do Sahel ocidental, como o Mali e Songhai, utilizando-os para escoamento dos seus metais preciosos. Vendiam-nos em troca de mercadorias provenientes do Norte de África e até da Europa. O valor na proposta de contacto e a despesa ou incómodo para casa lado, portugueses e acãs, assentava tanto num volume maior como mais regular. Mas até que os cobiçados panos da Índia se tornassem disponíveis, os bens portugueses não eram considerados suficientemente desejáveis para os acãs de modo a justificar o desvio em grande escala da sua própria mão de obra indígena para a produção de ouro.”
Havia manifestamente relutância em vender os seus semelhantes étnicos ou mesmo os prisioneiros de guerra, uma das principais medidas de riqueza e poder nos reinos africanos era o número de súbitos. Ora esta relutância deixou de se verificar com a proliferação do comércio europeu, eles traziam armas e outros bens que eram preciosos para os africanos, tudo conjugado contribuiu para o surgimento de um novo mercado de escravos. Ainda em termos mitigados, os navios portugueses que exploravam o extremo oriental do delta do rio Níger encontraram em 1486 cinco canais serpenteantes que passaram a ser conhecidos por Rios Escravos. Os portugueses chegaram ao Benim e imediatamente reconheceram o grande potencial comercial de um pimento que se tornou largamente apreciado nos mercados da Flandres. Mas nada se igualava aos escravos, e os portugueses ficaram satisfeitos por descobrir uma oferta de escravos com raízes nas guerras do Benim com os povos vizinhos. A cultura do Benim impressionou os portugueses. Os beninenses queriam negociar manilhas de cobre e bronze, a arte beninense ganhou imediatamente fama.
Howard French muda agora para São Tomé, formalmente decretada como uma colónia em 1485, irá ser muito importante na produção de açúcar, também daqui partiram escravos para o Benim, e havia escravos enviados do Congo via São Tomé para o Novo Mundo. Estamos, pois, a assistir à organização de circuitos do tráfico negreiro. O autor dissecará em profundidade a importância da plantação esclavagista de São Tomé e como o complexo de plantação deu um salto de São Tomé para as Américas. Teremos depois um histórico sobre Barbados. Outra condicionante histórica relevante que o autor destaca é o nascimento do crioulo, a formação de comunidades crioulas em lugares tão diferentes como Cartagena, Havana, Cidade do México e São Salvador, nestas comunidades era frequente encontrar os escravos a falar pidgins e línguas crioulas fortemente ligadas ao português.
Mudando de assunto, o autor vai observar a competição europeia por África, os grandes conflitos que vão envolver a cobiça e os interesses das grandes potências europeias.
Dirá, a título introdutório:
“A história moderna de África como uma massa terrestre geopoliticamente disputada, cheia de parcelas de território que foram cortadas por forasteiros ávidos, começou formalmente na Alemanha em 1884, num famoso evento conhecido como Conferência de Berlim. Na altura, os europeus mal controlavam 10 por cento do continente, na sua maioria nas extremidades norte e sul. Por volta de 1914, em consequência das decisões tomadas em Berlim, monarcas e outros governantes do Velho Continente dominavam mais de 90 por cento de África. As fronteiras que estes líderes europeus estabeleceram entre si continuam a ser as fronteiras em vigor atualmente na maior parte do continente.
À medida que assumiam o controlo do continente, os europeus quase não tinham em conta a história africana, o legado dos impérios indígenas ou os Estados africanos preexistentes. Ignoraram considerações envolvendo o mosaico de línguas que prevaleciam à medida que eles definiam e depois subdividiam regiões. Prestavam pouca atenção aos padrões de identidade local de longa data, ao comércio local ou mesmo às rivalidades e animosidades étnicas. Nem os próprios africanos foram consultados.”
Vamos seguidamente ver mais pormenores sobre esta corrida a África.
(continua)
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Notas do editor
Vd. post de 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)


















































