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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27939: Humor de caserna (259): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXI: fui o fiel depositário do "caco" (o monóculo) quando o general foi ao dentista (Mário Bravo, cirurgião, ex-alf mil médico, CCAÇ 6, Bedanda, CCS/BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, HM 241, 1971/73)


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72> O alf mil médico Mário Bravo, à direita, de perfil, entre os furriéis da companhia... Boa disposição, boa música, bom uísque (a garrafa mais pequena era de Old Parr, uísque velho)... Os nomes dos furriéis já se varreram da memória do nosso médico...

O Mário Bravo não esteve mais do que 4 meses em Bedanda (entre dezembro de 1971 e março de 1972, com algumas saídas, pelo meio, até Guileje, Gadamael e Cacine)...mas guarda boas recordações dos bedandenses. A CCAÇ 6 era então comandada pelo jovem cap cav Carlos Ayala Botto, futuro ajudante de campo do gen Spínola, e membro da Tabanca Grande.

Depois de Bedanda, o Mário Bravo passou por Teixeira Pinto, ficando o resto da comissão no HM 241, em Bissau.

Foto (e legenda): © Mário Bravo (2013). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 (1972/73) >  Ao centro, o Mário Bravo, ladeado pelo alf mil Figueiral (à sua direita) e o alf mil Pinto Carvalho (à sua esquerda) (hoje nosso colaborador permanente para a área jurídica)...

Foto (e legenda): © Pinto Carvalho  (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto (ou Canchungo) > CCS/BCAÇ 3863 (1971/73) > >13 de janeiro de 1973 > Visita do gen  Costa Gomes, Chefe do Estado Maior das Forças Armadas.  O alf mil médico Mário Bravo é o primeior a contar da direita, de óculos,  no meio de um grupo de oficiais (pormenor); por sua vez, o António Graça de Abreu, alf mil do CAOP1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74) é o primeiro da esquerda.

Foto (e legenda): © Mário Bravo (2013). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Hoje cirurgião, ortopedista, reformado,  o Mário Bravo vive no Porto e já nos apareceu uma vez em Monte Real num dos Encontros Nacionais da Tabanca Grande.  

Já agora,  acrescente-se que, depois de sair de Bedanda, em março de 1972, passou por Teixeira Pinto,  até ser colocado  no Serviço de Estomatologia do HM 241, em Bissau, onde aprendeu a tratar da dentuça do Zé Tuga. Imaginem quem foi, num belo dia, sentar-se na cadeira do serviço de estomatologista ? Nem mais nem menos, o com-chefe e governador,  o gen Spínola (*)...

 
Fiel depositário do "caco" quando o senhor general foi ao dentista 

por Mário Bravo 


Gen Spínola, "Caco" ou "Caco Baldé"


Reatando a descrição da minha estadia na Guiné [, aonde cheguei em 20 novembro de 1971, tendo ficado cerca de 15 dias em Bissau], lá vão mais umas notícias e informações que poderão servir para encontrar algum camarigo esquecido ou perdido neste País.

Após saída de Bedanda [,na CCAÇ 6,  onde estive entre dezembro de 1971 e março de 1972, com visitas a Guileje, Gadamael e Cacine ], fui colocado em Bissau, [ no HM 241,] no serviço de Estomatologia (Medicina Dentária), para aprender a tirar dentes, pois era essa a nossa função. 

Nesse estágio, que foi orientado por um colega, médico, de Coimbra,  Negrão,  com o posto de capitão miliciano
 [, Luís Negrão, hoje neurologista] . O outro colega nesse estágio, também de Coimbra, chama-se João Barata Isaac  [, em 2000, era chefe de serviço de anestesiologia do Centro Hospitalar de Coimbra ]

Aproveito para contar um episódio ocorrido com o marechal Spínola [, na altura general]. Como todos sabemos, o marechal usava de modo constante um monóculo que era a sua imagem de marca. Um dia teve necessidade de consulta de estomatologia e lá foi ao Hospital Militar. Era sempre um momento de alguma confusão e eu lá estava a tentar aprender a tirar dentes.

É evidente que quem o tratou foi o Chefe, mas havia necessidade que alguém tomasse conta do monóculo [, o "caco",]   e logo me tocou a mim. É engraçado que senti aquele receio de ser o fiel depositário de tão solene objecto. Mas consegui não o deixar cair !!!

O Hospital Militar de Bissau era na época um exemplo fantástico de modernidade e eficácia.

Vou enumerar alguns médicos, colegas com quem convivi nesse período de tempo e até pode acontecer que algum venha a terreiro.

Começo por recordar com saudade um já falecido, o [prof Henrique] Bicha Castelo [ 1943-2025] , cirurgião de Lisbo
a [, precursor da cirurgia laparoscópica no Hospital de Santa Maria ] , e que operou o escritor António Lobo Antunes [, irmão do prof João Lobo Antunes,  escritor que lhe dedicou o seu livro "O Meu Nome É Legião", 2007].

Na Cirurgia estavam o Dr. Rodrigues Gomes (hoje fazendo parte da Fundação Gulbenkian), bem como o Dr. Calheiros Lobo, do Porto, e também falecido.

Na Ortopedia estava o Dr. Asdrúbal Mendes, do Porto e com quem trabalhei mais tarde nessa área. 

Muitos outros conheci, mas já não me recordo dos seus nomes.

Para ilustrar minha passagem por Bissau, junto umas poucas fotos, referidas a essa terra, de luxo, pois aí havia a possibilidade de viver um pouco mais sossegado e com algum conforto, inexistente no mato.

Quem é que não recorda aquelas deliciosas ostras do Café Bento - a chamada 5ª. REP - , bem regadas com umas bazucas !

As fotos vão em separado. (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)


Guiné > Bissau > 1972 > A "Casa dos Médicos"

Foto (e legenda): © Mário Bravo (2011).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do  editor LG.:

(*) Último poste da série > 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)

(**) Vd. poste de 30 de janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7697: O Spínola que eu conheci (23): No serviço de estomatologia, no HM 241, e eu a segurar-lhe o monóculo (Mário Bravo)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)


Cristina Allen (1943-2021).
Foto: LG (2009)

1. O único retrato, impiedoso, do gen Spínola, que já aqui publicámos, foi feita por uma mulher, a nossa saudosa amiga Maria Cristina Robalo Allen Revez (1943 - 2021), a Cristina Allena ex-esposa de Mário Beja Santos, foto à direita, 2009, autora da série "Os meus 53 dias de brasa em Bissau"

A Cristina  casou com o Mário na Catedral de Bissau no dia 16 de abril de 1970. Tiveram duas filhas, a Maria da Glórian (1976-2009),  e a Joana, mãe da Benedita.

Cristina Allen, membro da Tabanca Grande desde novembro de 2008,  tem cerca de 2 dezenas de referências no nosso Blogue, incluindo  um dos postes dedicado à sua filha Maria da Glória (Locas) após o seu prematuro desaparecimento.

Era natural de Aljustrel e foi professora de liceu. 
 Os seus 12 últimos anos de vida  foram assombrados pelo pesadelo e desgosto de perder a filha mais velha, e depois pela sua doença crónica degenerativa. Era uma mulher dotada de grande inteligência, perspicácia, cultura e sentido de humor mordaz.
 
Já aqui disse, na devida altura, em 9/1/2009, que o texto que se segue, era/é  um "pedaço de prosa de antologia" (*). Aconselhei "o próximo biógrafo de Spínola" a não o ignorar.  Não teve tempo ou muito simplesmente  não li o nosso blogue. Mas foi uma pena, o modo como a Cristina, em duas pinceladas, fez um soberbo retrato-robô do nosso Com-Chefe, merece voltar a aqui a ser destacado, a agora nesta série "Humor de caserba".(**)

Ela chegou a Bissau a 15 de abril de 1970 e casou a 16... (E regressaria a Lisboa a 8 de junho.)

E também  ainda sobre ela, uma das "nossas grandes mulheres", escrevi em 9/1/2009:

(...) Sentiu-se útil e acarinhada por todos nós, ao apreciarmos o seu gesto (generoso e corajoso) de facultar ao seu ex-marido as cartas e aerogramas que ele lhe escreveu durante dois anos de comissão militar na Guiné. E não foram poucas: algumas centenas...

Quem já leu os dois volumes do "Diário da Guiné", do nosso camarada e amigo Beja Santos, sabe quão preciosas foram, para ele (e nós, seus leitores em primeira mão), essas cartas e aerogramas, como fonte de informação minuciosa sobre a actividade diária, operacional e não operacional, primeiro em Missirá e depois em Bambadinca, à frente do Pel Caç Nat 52, entre meados de 1968 e meados de 1970. (...)

Dançando o tango com o Caco Baldé 

por Cristina Allen (1943-2021)



Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) 
 em abril de 1972.
Foto: Luís Dias (2011)

(...) No dia seguinte, e de acordo com o que fora anteriormente combinado, o meu marido vadio ingressaria na ala de Neuropsiquiatria do Hospital Militar. Durante dois dias, eu não poderia vê-lo, já que o David Payne iria tentar pô-lo a dormir. Discretamente, o David passou-me para as mãos um frasco hospitalar de “Vesparax” (quem não dormia era eu…).

Apressava-me, na saída, não fosse encontrar Spínola, que, diariamente, visitava os seus doentes. Atrasei-me três vezes e três vezes me aconteceu encontrá-lo à porta de armas (chamava-se assim?) do hospital. Andávamos, ao que parecia, cronometrados…

Havia um toque (a  recolher? Por causa dele? Nunca perguntei).Mas via aquele homem passar para a mão esquerda o pingalim, encostá-lo firmemente à perna, pôr-se em sentido, crescer, enchendo o peito de ar, o ventre liso, o braço direito, o cotovelo, a mão, na mais perfeita continência que jamais vi. Ficava desmesuradamente imenso, desmesuradamente rígido, só o monóculo coruscava.

Estarrecida, não sabia que fazer dos pés, das mãos, da mala, da minissaia, parava, cruzava as mãos, endireitava-me (postura por postura, não baixaria a cabeça, olhava-o nos olhos, ou, melhor dizendo, no olho e no monóculo). 

Acudiam-me ideias bizarras – que o meu avô materno fora lanceiro e, certamente, teria sabido fazer aquilo mesmo; que ele, Spínola, escorregara em Missirá, numas cascas de batata e fora ao chão, pose, pingalim, monóculo e tudo, soltando palavrões… que aquele homem era o… “Caco Baldé”! Apertava os lábios para não 
me rir: "este é o Caco, Caco Baldé"…

Mas este era apenas o primeiro acto desta farsa. O segundo, começava com a questão “Passas tu ou passo eu?”. No terceiro, resolvia eu recuar, só então ele passava e, perfeito cavalheiro, punha-se de lado e cumprimentava: “Muito boas tardes, minha senhora”. E eu respondia-lhe: “Muito boas tardes, Senhor Governador”. 

Afinal de contas, era fácil dançar o tango com Spínola. Dobrado contra singelo, diria que, em seus tempos, o teria dançado na perfeição, sem pisar os pés do par…

Deixemos, por ora, o Mário na sua cama, entre dois outros perturbados, que, continuamente, discutiam…

Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”

Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.

Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio /***) e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.

E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.

Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...) (*)

(Seleção, revisão / fixação de  texto, título: LG)
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(***) Referência ao "massacre do chão manjaco", no Pelundo, 20 de abril de 1970, fez agora 56 anos,  em que foram assassinados 3 majores do CAOP1 e seus acompanhantes (1 alferes miliciano e 3 guinenses,  civis - 1 intérprete e 2 guias):

  • Major Passos Ramos
  • Major Osório
  • Major Pereira da Silva
  • Alferes João Mosca
  • Mamadu Lamine
  • Aliú Sissé
  • Patrão da Costa

Guiné 61/74 - P27937: Lembrete (55): Cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos,: hoje, 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Campo Grande


Capa do livro (Lisboa, Edições Húmus, 2026)




Sinopse do livro

A mais indefinível possessão portuguesa ganhou finalmente nome: Guiné.

Admitindo que navegadores portugueses aqui arribaram em finais da primeira metade do século XV, este espaço conheceu uma enormidade de nomes, desde Etiópia Menor, Guiné do Cabo Verde, Grande e Pequena Senegâmbia e muitos mais. Até que, em 1886, passou a chamar-se Guiné Portuguesa, e com menção constitucional. O livro aborda a história desta possessão de meados do século XIX e meados do século XX, um território que tinha praças e presídios, dependente de Cabo Verde; todas as companhias comerciais se tinham malogrado; foi preciso a comoção de um desastre militar num local chamado Bolor para, em 1879, se ter determinado a sua separação de Cabo Verde; estabeleceu-se uma capital em Bolama, mas a presença portuguesa manteve-se ténue, junto dos rios e rias. No final do século XIX, chegou a admitir-se a entrega da colónia a uma companhia majestática.





MÁRIO BEJA SANTOS


Biografia

Toda a sua vida profissional, entre 1974 e 2012, esteve orientada para a política dos consumidores. Ao nível da sua participação cívica e associativa, mantém-se ligado à problemática dos direitos dos doentes e da literacia em saúde, domínio onde já escreveu algumas obras orientadas para o diálogo dos utentes de saúde com os respetivos profissionais, a saber: Quem mexeu no meu comprimido?, 2009, e Tens bom remédio, 2013. Doente mas Previdente, dá continuidade a esta esfera de preocupações sobre a informação em saúde, capacitação do doente, o diálogo entre os profissionais de saúde, os utentes e os doentes.


(Com a devida vénia a Bertrand Livreiros)
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Nota de Mário Beja Santos:

A cerimónia de apresentação do livro será abrilhantada com uma actuação de Braima Galissá




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Notas do editor:

Vd. post de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27911: Agenda Cultural (888): Convite para a cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, a levar a efeito no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra será apresentada por António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias

Último post da série de 17 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27434: Lembrete (54): Cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do fim da Guerra do Ultramar, que se realiza amanhã, dia 18 de novembro, pelas 10h00, no Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa. Durante a cerimónia o nosso Editor Luís Graça será agraciado com a Medalha de Honra ao Mérito, grau Ouro, da Liga dos Combatentes

Guiné 61/74 - P27936: Casos: a verdade sobre... (71): Kalashnikovomania - Parte VI: A AK-47 "made in China", que matou camaradas nossos (António Graça de Abreu, sinólogo)

Excerto do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu)


Mais uns excertos do "diário chinês, secreto", ainda inédito, do nosso camarada António [José] Graça de Abreu

Recorde-se que ele viveu na China, em Pequim e en Xangai, entre 1977 e 1983; foi professor de Português em Pequim (Beijing) e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.  

Na altura, ainda era, segundo sabemos, simpatisante ou militante do Partido Comunista de Portugal  (marxista-leninista), o PC de P (m-l), facção Vilar (Eduíno Gomes, mais conhecido por Eduino 'Vilar, n- Ervidel, 1944),   alegadamente o único partido comunista marxista-leninista reconhecido na época pela República Popular da China. Não havia outra maneira de ir entrar na China a não ser com o cartão deste minúsculo partido.

Ex-alf mil, CAOP 1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74), o António Graça de Abreu é membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com cerca de 390 referências. 

Compulsivo  viajante, tem "morança"  em Cascais. É um cidadão do mundo, poeta, escritor, tradutor e reputado sinólogo. Nasceu no Porto em 30 de março de 1947. É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos, João e Pedro, e um neto (deste seu último casamento). 

(...) Pequim, 20 de Maio de 1981

Agora veio à China uma delegação da Frelimo, encabeçada pelo moçambicano Marcelino dos Santos, ministro da Economia. Li Shunbao, o intérprete desta delegação, trabalha comigo na secção portuguesa das Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras e contou-me, com algum desgosto, a visita dos camaradas de Moçambique ao Armazém da Amizade, a maior loja de Pequim reservada apenas a estrangeiros. (...).


Pequim, 22 de Agosto de 1981

Mas quando é que eu ganho juízo? Hoje descubro outra mulher chinesa, quase a beldade perfeita, no lugar certo, passeando-se pelo Vale das Cerejeiras, por detrás do Wo Fo Si 卧佛寺, o templo do Buda Deitado, na Colina Perfumada, arredores oeste de Pequim. Dela, pouco mais fiquei a saber do que o seu nome, Liu Xiaochun, sendo Liu刘 o apelido de família e Xiaochun 小春, o nome próprio que significa "pequena Primavera, ou Primavera Breve."  (...)


Pequim, 30 de Agosto de 1981

Dia de, no Yuanmingyuan 圆明园, o Jardim da Perfeição e da Luz, antigo Palácio de Verão que data dos séculos XVIII e XIX, encontrar uma chinesinha que pega na minha mão, a pousa sobre o seu joelho bonito -- a palma da mão voltada para cima --, e que me lê a sina. Um portento, a mulher, Wu Mei 吴美 de seu nome, nascida em Nanquim, 23 anos, aluna do Instituto de Cinema de Xangai. Bruxa. Com toda a aprendizagem e tiques de actriz, mais a percepção do essencial das coisas da vida. (...)


Pequim, 18 de Novembro de 1981

Esta manhã chego à embaixada da União Soviética e o tovarich de serviço na Intertourist recebe-me com as seguintes palavras:

"Good morning, do you have American dollars?" (...)



Amadora, 15 de Abril de 1982


Comia sossegadamente o meu bife à hora do almoço quando vi, no pequeno écrã  da TV, um general chinês, de visita a Portugal, a depositar um ramo de flores no monumento aos soldados Comando mortos em combate em África, aqui ao lado no Regimento de Comandos da Amadora, o antigo RI 1 que tão bem conheci há dez anos atrás.

As voltas que o mundo dá, ou simplesmente o doce-amargo do fluir dos dias….

Quando em 1972 parti deste quartel para a guerra na Guiné levava o desgosto de, pequeno alferes miliciano, ir combater por uma causa em que não acreditava. Iria encontrar guerrilheiros que, melhor ou pior, lutavam pela independência das suas terras. 

Depois, em Teixeira Pinto e em Mansoa, no meu Comando de Operações, estive com as 35ª. e 38ª. Companhias de Comandos, impressionantes tropas de combate com quem fiz amigos e com quem cheguei a sair para o mato.[1].  Unidos, camaradas, lutávamos pela sobrevivência, pela vida.

Na Guiné-Bissau, em Mansoa, em Junho de 1973, após uma missão da 38ª. Companhia de Comandos, na estrada Jugudul-Bambadinca, vi-os chegar com quatro espingardas Kalashnikov capturadas aos guerrilheiros mortos numa emboscada, duas delas ainda com sangue fresco. 

Tomei uma das armas na mão, culatra atrás, bala na câmara e apontei para o céu. Eram quatro Kalashs fabricadas na República Popular da China, oferecidas pelos comunistas de Mao Zedong para matar tropas portuguesas

Dez anos depois, um general chinês coloca uma coroa de flores no monumento aos militares Comandos, homenageando os portugueses mortos, muito deles caídos diante das balas disparadas por estas armas, made in China. (...)
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(1) Ver o meu Diário da Guiné, 72-74, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2007, pags. 51 a 53.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27932: Casos: a verdade sobre... (70): Kalashnikovomania - Parte V. eram ambas excelentes armas, a AK-47 e a G-3, ,mas a primeira foi a arma mais difundida a nível mundial... (Luís Dias, o nosso especialista em armamento)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Continuamos na companhia de militares e da sua correspondência endereçada a filhos menores durante a guerra colonial. Temos, primeiro, Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, aqui relevado pela originalidade de ter enviado um conjunto de contos em pequenas bobines, assim deliciava crianças e adultos. Carlos fez o curso da Escola Naval, teve uma comissão em Moçambique entre 1968 e 1970. Os filhos recordam o camarote do pai e a sua mesa de trabalho, foi nessa cabine que o pai iria escrever e ler as centenas de cartas que trocou com a família e gravar as bobines com os contos e as conversas que enviou para os filhos. Carlos não escondia situações de apuros vividas durante a comissão militar. Terá vindo muito debilitado de Moçambique, morreu com 53 anos. Pedro João dos Santos Reis era oficial da arma de infantaria, fez quatro comissões. A primeira comissão em Moçambique, e depois Timor, experiência inesquecível para os filhos, Pedro deixou a filha mais nova ao cuidado dos avós. A terceira comissão foi na Guiné, leva parte da família, irão os três filhos mais novos, os mais velhos em instituições militares. Pedro fará a sua última comissão em Angola, aqui viverá o 25 de abril, será um dos últimos militares a regressar. Um dos filhos comenta: "Ele adorava aquela cidade (Luanda). O pouco que ele contava do que se passou depois era uma coisa horrível."

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 4

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Começamos hoje por falar de Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, estou seguro de que ele vai prender a atenção do leitor. Escreveu um livro de contos aos filhos durante os dois anos que esteve em Moçambique, com o título Lá de Longe, Edições Culturais da Marinha, é um conjunto de contos que Carlos Lemos escreveu, gravou e enviou em pequenas bobines de som que os filhos ouviam, acompanhados pela mãe, pela avó e por Alice, a empregada que esteve sempre com a família. O encontro entre as autoras e o filho de nome Miguel realizou-se no Museu da Marinha, ouviu-se a voz do pai a contar uma história, lá de longe, com a música de efundo a condizer. Carlos Lemos tinha 42 anos quando partiu para Moçambique como oficial imediato da Fragata D. Francisco de Almeida. Deixa rastilhos: Guida, com 7 anos, e Miguel, com 6. Para além das bobines, havia a correspondência, as perguntas sobre o dia-a-dia dos filhos. Entretanto nasceu mais uma menina, a Sara. O pai mandou a notícia por carta: “Parece que Jesus nos vai mandar um irmão ou uma irmã para ti e para o Miguel […] é preciso não arreliar a mãe para não fazer mal ao bebé que está a crescer. Depois, quando ele nascer, tens de ajudar a criar. Não é muito difícil.” O correio dos dois filhos mais velhos é dar notícias da recém-nascida.

Carlos Lemos é mais aberto à escrita, conta mesmo operações em que intervinham fuzileiros, e descreve situações muito enrascadas. Ouve-se a voz do pai numa gravação: “Havia guerra entre pretos e brancos. A guerra era por causa dos brancos que queriam ficar a mandar nos pretos, e por causa dos pretos que não estavam satisfeitos com o procedimento dos brancos. Tanto pretos como brancos mandavam outros pretos e outros brancos, que não eles, pegarem armas para se matarem uns aos outros. Poucos sabiam porque é que haviam de lutar e pouquíssimos gostavam realmente de pegar em armas.”

Para os filhos não há dúvidas, Carlos Lemos escrevia para ele. O pai entende que não deve esconder aos filhos o dia-a-dia: “Ontem o navio parecia uma autêntica arca de Noé. Vinham atestados até mais não poder. Trazia mais de duzentos homens, coitados, dormem ao relento pelo chão e por onde calha. Deus teve pena deles e não mandou chuva.”

Falando com as autoras Guida diz que o pai veio diferente, triste e debilitado. Carlos morreu com 53 anos, doente.

Vejamos agora a trajetória de Pedro João dos Santos Reis. A conversa decorre à volta de uma mesa, estão cinco irmãos de uma família de sete filhos. Trouxeram fotografias, aerogramas e cartas que consultam, trocam entre si, e sobre as quais contam histórias, desafiando-se uns aos outros sobre memórias dos seus tempos de infância e da adolescência. Pedro fez a academia militar e foi mobilizado para quatro comissões, tendo, entre elas, concluído o curso de Estado-Maior que graduava oficiais superiores. A primeira comissão foi em Moçambique. Aqui nasceram dois filhos, a Paula e a Leny. Regressam e a família fica quatro anos em Lisboa e, entretanto, nascem mais três filhos, Zé Pedro, Ana e Maria João, entre 1956 e 1960. O pai é mobilizado para Timor, ele e a mulher levam quatro filhos, o bebé fica com os avós. Contam-se histórias como um convite feito a um padre para almoçar lá em casa, e o criado estava a servir à mesa quando viu aquela pessoa que fugiu. A mãe quis apurar a verdade, ainda por cima ia buscar os criados saídos da vida prisional. O criado confessou que tinha matado um padre que era o seu patrão. Ficou tudo em segredo de família.

Nasce mais um filho em Timor, a família regressa em 1963, o pai vai fazer o curso do Estado-Maior. Em Lisboa nasce mais uma filha, a Patrícia. O pai parte para nova comissão, vai para a Guiné e ficará em Bissau, com ele vai uma parte da família, a mãe e os três filhos mais novos. Conversando com as autoras, os filhos vão dando conta, uns recebendo a correspondência dos pais, outros a viver em Bissau, da atividade do pai, oficial perto de Spínola. As viagens que fizeram para a Guiné tornaram-se inesquecíveis. O pai é um dos últimos oficiais a deixar a Guiné, regressou em setembro de 1974. Há também lembranças do instituto de Odivelas, como recorda a filha Paula: “Havia órfãs, caso da nossa colega, também de nome Paula. Havia uma ideia de que o pai tinha sido morto na guerra, mas não se falava disso. Era um assunto sobre o qual não se falava. Na minha turma, havia duas que os pais ficaram malucos. Era tudo dito em surdina. Havia uma espécie de vergonha das famílias, porque eles não tinham sido mortos em combate, honradamente. Havia muita vergonha e eram sempre as pessoas mais próximas delas que faziam este sussurro entre nós.”

Deixa-se para o próximo texto a itinerância de João Corte-Real de Araújo Pereira, era capitão quando embarcou para Timor em setembro de 1959 e fez a sua última comissão na Guiné, para onde partiu em dezembro de 1962. Mais família com vida no quartel, mais filhos internados em instituições militares; e também Rogério Pereira, furriel miliciano enfermeiro em Angola entre 1969 e 1971. Nascido em 1945 casou em 1966 e quando parte a mulher fica com duas filhas. Durante dois anos, Rogério escreve quase todos os dias para casa. Parte significativa da correspondência é feita no verso de fotografias que envia à mulher e às filhas. Quando se dirige à filha mais velha escreve com letras muito grandes na expetativa de que ela talvez começasse a entendê-las. O Rogério falará com as autoras a quem dirá que a guerra o humanizara muito. “Por imperativos que eu não gostaria de ter tido, relacionei-me com outra forma de ser, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã, eu tinha filas à porta do posto de socorros… e isso deu-me, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência e aquela forma de estar e viver, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 13 de abril de 2026 >Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27934: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte I: semana de 31/1 a 9/2: santa paciência e ajudas...divinas



Lourinhã > Praia da Areia Branca > 2 de dezembro de 2017 > Almoço de um grupo de amigos de Timor-Leste, no restaurante Foz: em primeiro plano, Rui Chamusco e Gaspar Sobral, cofundadores e líderes da ASTIL 

O Rui Chamusco começou por ser membro da Tabanca de Porto Dinheiro: natural de Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã há 3 décadas, sendo  professor reformado de Educação Musical no ensino oficial,   e de Português, Filosofia e Latim no ensino Particular. 

Desde há mais de uma década, que ele passou a ser um grande amigo do povo Timor-Leste, liderando um projeto  (luso-timorense),  já concretizado, em 2017, de construção de uma escola, privada, nas montanhas de Timor Lorosae, e de apadrinhamento de crianças em idade escolar.

A partir de  10 de maio de 2024, tornou-se novo membro da Tabanca Grande ( nº 886). Foi-me apresentado pelo nosso saudoso Eduardo Jorge Ferreira. Eu, por minha vez, apresentei o João Crisóstomo ao Eduardo, que era o régulo da Tabanca de Porto Dinheiro. E o Eduardo apresentou o Rui ao João, que passpu a ser logo o um apoiante entusiasta do projeto da ASTIL.


Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de 
São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o ace4sso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar)
 


Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Foi há dias, com a Alice, visitar o Rui Chamusco ao Hospital Curry Cabral, onde esteve internado no serviço de cirurgia, depois de submetido a uma delicada intervenção.

A operação correu bem, o prognóstico parece ser favorável e a recuperação está a correr bem. Teve alta este fim de semana.  De resto,  no passado dia 12 do corrente, dominmgo, achámo-lo com "boa cara", bem disposto. Falamos com o João  Crisóstomo, que  está em Nova Iorque com a sua Vilma. (É na casa do Rui, na Lourinhã, que o casal costuma passar parte do tempo quando vem a Portugal.)

 Para já não se põe a hipótese de tão cedo o Rui voltar a Timor Leste. Mas com a fibra dele, à  sua beira, nunca ninguém diga "nunca... mais". (Nem muito menos de se estrear, aos 80 anos,  na Capeia Arraiana, a pegar o forcão, na próxima festa de agosto, lá na terra, o Sabugal.)

Desde 2016,  o Rui já foi, pago do seu bolso, seis vezes a Timor-Leste, onde geralmente fica o tempo que lhe é legalmnte autorizado, enquanto "malae" (estrangeiro), e que são três meses. Dessas viagens e estadias há crónicas que ele escreve a  pensar nos sócios da ASTIL e demais amigos da Escola de São Francisco. Já publicámos excertos das crónicas  da I vaigem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Começamos a publicar as da III viagem (2019). Depois mete-se a pandemia, e  só voltou  a Timor Leste em 2023 (IV  viagem) , 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Entendam, caros leitores, a publicaçãp desta série como um pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016,  por solidariedade com o povo timorense e as as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá . 

É também uma forma de a  gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós.


 Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019)

por Rui Chamusco

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral



Olá amigos do Projeto de Solidariedade e estimados sócios da Astil.

Depois de retemperadas as energias despendidas nesta longa viagem e de vencermos a fadiga provocada pelo stress das mudanças e horários, aqui estou como vos prometi para, nas minhas III Crónicas vos dar conta dos factos e acontecimentos mais relevantes relacionados com o nosso projeto de solidariedade.

De antemão, peço desde já desculpa por qualquer incómodo que possa causar a alguém nas minhas descrições, mantendo sempre o propósito da transparência e fidelidade nesta condição de pobre escritor, cujo objetivo é simplesmente manter informados todos os amigos.

Assim e sem mais demora, passo a descrever:

Os dias de viagem - 31 de janeiro (quinta feira) - 01 (sexta feira) ,02 (sábado) de fevereiro  2019 

Diz-se que “o melhor da festa é esperar por ela”. Assim sendo ou não, os dias de preparação desta viagem foram bastante agitados, correndo de uns lados para os outros, sempre com a preocupação de que nada faltasse para que esta viagem e estadia seja bem sucedida. Destaco a preciosa ajuda do amigo Dr. Ascenso que tudo fez para que nenhum papel ou documento faltasse para os efeitos pretendidos. Obrigado, amigo!

Depois, são as horas que tardam em passar, dentro ou fora do avião; são as comunicações e as mudanças nos aeroportos; são os vários chekins em cada aeroporto, alguns exigindo que se tirem os sapatos e outros quase nos deixam despidos; são os cuidados excessivos com as bagagens de mão para que nada se perca ou extravie. 

Claro que também dá para apreciar paisagens, pessoas, culturas, e quantas coisas mais... E embora o cansaço se vá apoderando de nós, nada que uma boa comida ou uma boa bebida não resolva.

Ás 14.45 horas locais pisamos de novo solo timorense, com um calor húmido bempesado. Alguns rostos conhecidos fomos encontrando no caminho para o controle dedocumentos e bagagens, e uma certa ansiedade se apoderou de nós no local de levantamento da bagagem de porão. 

Será que não há duas sem três como se costuma dizer? É que de todas as outras vezes, em 2016 e 2018 nunca a minha bagagem chegou a tempo e em forma. Enquanto estávamos assim cogitando à espera do tapete rolante que trazia as malas, em tom de brincadeira disse para o Gaspar: 

E se a minha mala fosse a primeira a aparecer? 

Pois assim foi mesmo, a primeira mala que se avistou era a minha. E fiquei tão contente que não a quis pegar logo. Deixei que desse a volta de honra a que tinha direito, e só depois, triunfante, a retirei. Tudo o resto foi fácil e agradável. O Eustáquio e a Adobe lá estavam à nossa espera para nos abraçar e beijar.

Já em Ailok Laran apareceram as crianças e os adultos que nos esperavam. Depois foi distribuir beijos e abraços sem conta, até que a tarde e a noite se foram aproximando.

Sem grande esforço o “João Pestana” apoderou-se dos nossos corpos e mentes. E, apesar da música intensa que se fez ouvir toda a noite (celebrava-se o “desluto” da professora que tinha falecido há um ano, cuja descrição de rituais consta nas minhas segundas crónicas) a noite foi “sossegada” e bem aproveitada por um sono retemperante.

Claro que antes da deita dei uns passos a olhar para as estrelas, tentando descobrir nocéu pontos de observação que nos unem em qualquer parte do mundo: a úrsula maior e a úrsula menor (com incidência na estrela polar); a “santíssima Trindade”; o “sete estrelo”; etc.., etc...

E com o ”boa noiti” familiar nos despedimos até ao dia seguinte.

03.02.2019, domimgo - O encontro ansiosamente esperado

Se há acontecimentos desejados, o encontro com o sr. comandante de fragata Rui Pedro Ferreira está na lista muito bem posicionado. Então passo a explicar:

O Rui Pedro Ferreira é filho de uma prima com ascendência em Malcata, a Ti Rosa Nita e o Ti Zé Feliz, ambos primos direitos da minha mãe Laurentina. Por motivos profissionais o Rui Pedro foi destacado durante um ano para serviços em Timor Leste, e que começou em Setembro do ano passado.

Sabendo os seus pais Maria de Deus e Carlos Ferreira que nós estamos a desenvolver um projeto de solidariedade em Timor Leste e que viajamos de vez em quando para este país, procuraram de imediato que estabelecêssemos relações, neste caso através do facebook, o que não foi difícil, e assim nos mantivemos até este dia.

Assim, à hora marcada para o nosso primeiro encontro (foi a primeira vez que nos abraçámos) e por coincidência, o estacionamento dos carros foi á beira um do outro, pois o Rui Pedro mesmo ainda sem parar chamou pelo meu nome. Depois de um forte e afetivo abraço cada um de nós apresentou os seus companheiros, no meu caso o Gaspar e o Eustáquio Sobral), e dirigimo-nos para o Hotel Timor, onde amavelmente o Rui Pedro nos ofereceu o almoço. 

Claro que eu fui portador dos “miminhos da mamã”, e tive um enorme prazer de lhe entregar esta preciosa encomenda, que tão bem sabe a quase 25.000 quilómetros de distância. Foram momentos únicos e muito apreciados de parte a parte, pois a comitiva do Rui Pedro é gente de muito valor e que vale bem a pena ouvir. Ficou a promessa de nos voltarmos a encontrar para vivermos as grandes surpresas que este país nos oferece, sem esquecer claro está asimpressionantes paisagens e as sorridentes crianças que nos cativam pelos seussorrisos e necessidades.

Caro amigo Rui, caro primo: um enorme obrigado pela tua simpatia e atenção para com todos nós, e particularmente para com este Rui que já é katuas. Enquanto por aqui estivermos não nos iremos esquecer nem separar.

03.02.2019 - Rosas com espinhos

Há notícias que nos abalam. Agora mesmo passou em frente ao pátio da casa que nos alberga o Valente, filho do falecido Vitor, e que o ano passado foi personagem muito descrito nas minhas crónicas. 

Lembram-se de toda a sua história e reintegração escolar que em Fevereiro do ano passado aconteceu? Pois bem. O Valente passou, foi interpelado pelos presentes para que nos viesse cumprimentar, mas ele com ar altivo e surdo seguiu o seu caminho em direção de não sei que destino. Explicaram-me então que o protegido Valente, rapaz de 15 anos, abandonou a escola, e que neste momento é um jovem “vadio” que sai de casa (barraca) e só regressa às tantas da noite. Pobre mãe que já não tem mão nos filhos que tem! Que falta faz o pai senhor Vitor.!... Mas até nisto a vida é madrasta para alguns.

E agora, que podemos nós fazer?... Confesso que, após trinta e tal anos de docência, me sinto incapaz de resolver este problema. Não é por mim que o digo, mas lembrei-me imediatamente do ditado popular “não há rosas sem espinhos”. E bem me parece que neste caso, os espinhos abafaram a rosa e são agressivos para quem a queiraproteger.

Ai Valente, Valente! Que Deus te proteja e faça de ti um Homem, com o H grandecomo era o teu pai.

04.02.2019, segunda feira  - Tanta coisa para fazer!...

Hoje, sob um calor abafado e muito húmido, passamos a manhã a tratar de papeis. O Gaspar na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste) foi apresentar-se, com a credencial na mão, para entregar na reitoria. Segundo ele tudo correu bem, e está à spera que lhe comuniquem o horário e as disciplinas que vai lecionar. O Eustáquio e eu nas paróquias de Balide e Motael procurando a autentificação de certidões para documentos oficiais. Voltaremos amanhã porque não conseguimos despachar-nos hoje.

De tarde eu e o Eustáquio fizemos uma revisão da contabilidade e programamos os próximos passos a dar quanto ao programa de apadrinhamento, à funcionalidade da escola de São Francisco em Boebau, à reconstrução da “casa” de família do senhor Vitor.

Vamos tudo fazer para que a obra avance, pois as necessidades são evidentes. Oacordo está feito: nós (ASTIL) forneceremos os materiais de construção e os filhos, família e amigos darão a mão de obra. Como sinal de aceitação e agradecimento, a senhora Julieta, esposa do falecido senhor Vitor, expressou um enorme sorriso, que é a melhor paga do nosso empenhamento por esta obra social.

05.02.2019, terça feira  - Tolerância

Hoje é feriado em Timor Leste. Tal como em Portugal, há gente que, por ignorância, e pergunta porquê? Pois aqui está a explicação: começa hoje, o calendário chinês, que este ano 2019 é dominado pelo porco.

E aqui está a razão deste pequeno relato. Ao longo destes vinte anos de independência, os sucessivos governos deste país têm sido exemplares no respeito pelas diferentes religiões e povos que aqui residem. Cristãos (católicos, protestantes), muçulmanos; chineses, portugueses, indonésios, australianos, japoneses, etc.. Todos são tratados em igualdade de circunstâncias, ou seja: respeito com deveres e direitos.

Por isso em dias como hoje, escolas, serviços públicos sobretudo têm tolerância de ponto, e por isso estão fechados. E ainda que a igreja católica seja dominante no contexto das religiões, todos sabem que o respeito mútuo é um dos melhores bens que este povo tem. Graças a Deus que assim é... E já agora, que o ano chinês do porco traga prosperidade a esta gente.

06.02.2019, quarta feira  - Tão longe e tão perto...

O amigo João Crisóstomo não descansa, sempre e no intuito de ajudar. Como já sesabe, o João vive em New Yort/USA, a muitos quilómetros e muitas horas de viagemdaqui. Na impossibilidade de estar aqui connosco no desenvolvimento do nosso projeto de solidariedade, quase todos os dias entra en contacto, dando ideias, promovendo encontros, facilitando contactos através dos seus muitos conhecimentos e boas relações com gente importante deste país. O João é um homem de ação: ou vaiou racha! Quem o conhece sabe bem a paixão e a energia que ele põe nestas causas.

Por isso, imaginem o seu sofrimento de não poder estar onde ele quer. Tão longe e tãoperto... Ausente, mas presente... Não te inquietes João, porque a tua ausência físicanestá bem compensada com a tua presença e apoio constante. Onde nós estivermos, tuestarás também. És uma pessoa fundamental no nosso projeto.

07.02.2019, quinta feira - Santa paciência!...

Se alguma virtude (ou defeito) tem muita expressão em Timor Leste, é a paciência para a qual são preparados todos os timorenses, em virtude de a isso serem obrigados.

 Então não é que já fomos três vezes à igreja de Motael para que o párocon assinasse uma certidão de batismo e ainda o não conseguimos!... Se é de manhã, dizem-nos para vir à tarde; se é de tarde, dizem-nos para vir de amanhã. Santa paciência! 

Até nisto o povo continua a sofrer. As razões são sempre as mesmas: o senhor padre não está; o senhor padre está doente... Mas não haverá competência para suprir tamanha ausência? Saber esperar, mesmo que seja uma virtude, também cansa.

E convenhamos que estar à espera sob um calor húmido e abafador custa um bocado, a  nós adultos já bem treinados pelas dificuldades da vida, mas sobretudo às mães com crianças a cargo, crianças ao colo. E embora haja gente inconformada, a verdade é que não existe livro de reclamações em nenhum lado. “Ó Cristo, vem cá abaixo ver isto.” Que Deus nos valha!...

08.02.2019, sexat feira - Rua da Amargura

Destas ruas há em toda a parte, em todo o mundo. Até Cristo Jesus, a caminho do calvário, teve de passar por elas. E caiu três vezes segundo os relatos evangélicos.

Pois aqui nos arredores de Dili, mesmo em contexto de capital, existe a rua de AilokLaran em que, se Cristo por cá passasse, carregado com a cru, z teria caído com certeza mais de meia dúzia de vezes. Com tanto trânsito e tamanha confusão, que só é de estranhar que os acidentes não sejam em cadeia devido ao trânsito de peões e veículos motorizados. Dizem que já por cá passaram ministros e outras pessoas importantes.

Mas então não se deram conta da miséria em que está este piso? Há quem diga que é uma vingança devido aos estatuto revolucionário de que o Bairro Pité tem fama.

Receio que, se não houver uma intervenção rápida nesta rua, ferros, chapas, ossos etripas serão aos molhos. Mais a mais esta é uma rua de mercado. Imaginem pois asmercadorias. Há que ter um estômago bem forte para ver e deixar passar o que aqui sepassa...

08.02.2019 - Buah Naga / fruta dragão

Nem tudo o que luz é ouro.. Ou então quem vê caras não vê corações. Isto vem a propósito de uma fruta que hoje encontramos no Jaco, superfície comercial, bastante bonita e atraente mas que só abrindo-a e saboreando se tem a verdadeira noção do que estamos falando. Pelo sim e pelo não, comprou-se uma metade, por sinal nada barato, a que depois em casa lhe testamos o sabor. Pois é! As aparências iludem, e de que maneira. 

A Buah Naga (fruta dragão por o seu exterior ser parecido com a pele de dragão), embora atraente por dentro e por fora, é uma fruta desensabida a saber anada, que não justifica qualquer investimento, a não ser a curiosidade.

08.02.2019 - Até que enfim!...

Até que enfim o orçamento geral do estado 2019 foi aprovado. 

Um parto difícil mas muito desejado. Já lá vão passados quase nove meses, e era realmente o tempo de dar à luz. Até eu que teoricamente nada tenho a lucrar com esta aprovação, tenho sentido a ansiedade que este atraso tem provocado. Sempre a mesma explicação a qualquer solicitação: “não há dinheiro porque ainda não foi aprovado o orçamento”. 

O espectro de ter de enfrentar a vida em regime de pagamento de duodécimos aflige todos os sectores, sobretudo as gentes mais necessitadas, porque quem ganha bem tem reservas que lhe permitam qualquer oscilação económica. Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. Por isso penso em todos os pobres deste país, os mais carentes e necessitados, que precisam do pão para a boca como do ar para respirar.

Oxalá que este orçamento seja benéfico para toda a gente, Que os governantes tenhama sensibilidade e a coragem de, com ou sem protocolos, acudir às necessidadesbásicas de cada povo, de cada pessoa. E estou a pensar na canção do Sérgio Godinho: “a paz, o pão, saúde e habitação...”

08.02.2019 - Sicut Magister

O amigo Gaspar começou hoje as suas aulas de direito na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste). 

Com o grau de mestre e a preparar o doutoramento, esta é uma das etapas necessárias: trabalho de campo que o Gaspar, com orientação da universidade de Coimbra, decidiu que fosse na sua terra natal, aqui em Timor. Assim poderá ser útil ao seu país, enquanto que esta experiência enriquecerá também o seu currículo.

Com alunos do terceiro e quarto anos, com salas cheias, o novo professor debita palavras e palavras que vão dando formação e engenho a estes jovens ouvintes. Já se queixa que a voz lhe falha, que as cordas vocais se esforçaram demais, que assim vai perder a voz. Ossos do ofício meu amigo! Eu bem lhe digo que compre rebuçados "Bayard”... Que trate do que é seu, porque “rouxinol sem bico não pode cantar”.

Tenho a certeza de que ele vai cumprir fielmente a sua missão...

09.02.2019, sábado - Tão perto e tão longe

Uma das prioridades da nossa ação em Timor Leste é a Escola de São Francisco em Boebau, que dista mais ou menos a oito quilómetros de Liquiçá, e que se demora à volta de duas horas para percorrer este caminho.

É sempre nossa intenção irmos a Boebau o mais rápido possível, o que desta vez ainda não aconteceu. Informaram-nos que, devido às chuvadas de que este tempo é fértil, os caminhos estão intransitáveis, andando os populares a deitar terra para que se possa passar. 

Aguardamos melhores notícias para que logo que possível, possamos rumar para as montanhas de Liquiçá, com destino a Manati / Boebau.

09.02.2019 - Ajudas divinas

Quem diria que o programa de apadrinhamento de crianças e jovens necessitados, começado em princípios de Maio de 2016 , tivesse o alcance até agora demonstrado?

Neste momento há quarenta e dois “apadrinhamentos”, e mais alguns que estão àespera de serem concretizados. Graças a este programa algumas crianças voltaram à escola e alguns jovens conseguiram entrar ou continuar na universidade. 

Cada padrinho / madrinha tenta apoiar o seu afilhado(a) da forma que achar mais conveniente, embora saibamos que o apoio económico é dos mais desejados. Oobjetivo deste programa é claro: criar laços, relações afetivas e culturais; dar apoio noincremento e divulgação da língua portuguesa.

Hoje mesmo tivemos a alegre notícia de um apadrinhamento vindo de uma família venezuelana, a viver em Portugal. Graças também a este apoio a Eza (Zinomia), uma jovem linda e muito inteligente, vai regressar à universidade para continuar os seus estudos. Mas há mais que esperam ansiosamente por estas “ajudas divinas”.

E quanto a nós só temos de nos congratular e agradecer a Deus ter posto a Adobe no meu caminho, e ter dado origem a este ato solidário de se poder ajudar quem mais precisa.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


Timor-Leste > Liquiçá / Manati / Boebau > 22 de março de 2025 > Visita do 1º ministro Xanana  Gusmão à Escola de São Francisco de Assis

A foto e a legenda é da página do Facebook do Nunes José Nunes Martins, com data de 27 de março ·

"Imagem com história verdadeira:  Primeiro Ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, visita surpresa e celebra com a comunidade o 7ºaniversário da Escola São Francisco de Assis "Paz e Bem". Rui Chamusco sorri ao ver Xanana com tanto interesse na concertina aos ombros da menina que alegremente o recebe.

A imagem vale por mil palavras! (Nota: trata-se uma das  imagens oficiais do Governo de Timor!)

Guiné 61/74 - P27933: Em bom português nos entendemos (30): Kalashnikovomania, mania da Ak-47, culto da Kalash



AK-47 (ou simplesmente AK ou Kalash), objeto de culto pelos "rambos" de muitas guerras... Pode-se falar em "mania da AK-47" (ou kalashnikovomania) ?



1. Em bom português nos entendemos... É verdade ? Kalashnikovmania... ou kalashnikovomania ?

Segundo as ferramentas deIA que consultámioos, a últimagrafia é a mais aceitável (e é aquela que passamos a adotar)

A forma mais correta em português, seguindo critérios de adaptação ortográfica e clareza, seria “kalashnikovomania”.

Aqui vai o raciocínio:

“Kalashnikov” é um nome próprio russo (de Mikhail Kalashnikov, 1919-2013), e costuma manter essa grafia internacional em contextos técnicos ou culturais.

O sufixo “-mania” é produtivo em português (como em “bibliomania”, “tecnomania”, "cleptomania"), indicando obsessão ou atração intensa.

Avaliando as opções:
  • Kalashnikovmania → compreensível, mas menos natural na ligação (soa “colado” sem adaptação).
  • Kalashnikovomania → mais fluida, segue o padrão de ligação com “-o-” (como em “cinemania” vs. “cinemomania”, embora este último seja raro).
  • Kalachnicovomania → tenta “aportuguesar” demais e perde reconhecimento; não é uma forma usada.
Conclusão; a A grafia mais internacional / reconhecível mas também a mais natural dentro do português culto-formal é   kalashnikovomania (*).

2 Mas pode haver outras alternativas mais "eleganates" ou já usadas pelos falantes da língua portuguesa..

Se quisermos evitar um neologismo “pesado” como kalashnikovomania (8 sílabas!), há várias alternativas mais naturais em português:

  • mais neutras e descritivas:  fascínio pela AK-47, nteresse pela AK-47, atração pela AK-47, obsessão perla AK-47
  • mais formais / analíticas: apreço por armamento do tipo Kalashnikov, interesse por armas da família Kalashnikov, fetichização de armamento Kalashnikov;
  • mais expressivas (ou literárias): fixação pela AK-47, idolatria da AK-47, culto da Kalash, 
  • mais coloquiais ou informais: tara da Kalash, mania da AK-47.

Se quisermos manter o “espírito” de “mania”, podemos acrescentar o adjetivo "kalashnokoviano (que soa bem em português, como "kafkiano") (*):  obsessão kalashnikoviana, paixão kalashnikoviana, fixação kalashnikoviana

Em português, muitas vezes soa mais natural transformar o nome próprio em adjetivo (kalashnikoviano/a) do que colar “-mania” no fim. O melhor termo muda bastante com o contexto (relatório académico ou técnico, jornalismo, blogue, tertúlia, conversa de café, etc.).

Em resumo, criar um adjetivo (kalashnikoviano) às vezesa é preferível do que criar neologismos,  inventando palavras longas  como kalashnikovomania, que acabam por parecer artificiais.

 (Pesquisa: LG + IA (ChatGPT , Le Chat Mistral)

(**) kafkiano

(kaf·ki·a·no)

adjetivo


1. [Literatura] Relativo a Franz Kafka (1883-1924), escritor de língua alemã nascido em Praga, à sua obra ou ao seu estilo (ex.: universo kafkiano; angústia kafkiana). = KAFKAESCO, KAFKESCO

2. [Por extensão] Que é confuso, ilógico ou absurdo ou lembra o ambiente da obra de Kafka (ex.: situação kafkiana). = KAFKAESCO, KAFKESCO


adjetivo e substantivo masculino


3. [Literatura] Estudioso ou admirador de Kafka ou da sua obra.


origem:[Franz] Kafka, antropónimo + -iano.

"kafkiano", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/kafkiano.