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sábado, 18 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27930: Os nossos seres, saberes e lazeres (731): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (252): Imprevistos em dó maior, a empatia dos ambientes, felicidade é ter algo que amar (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Março de 2026:

Queridos amigos,
São mesmo imprevistos, entrar num auditório de música e ficar embevecido com aquele espetáculo de 3D, como se o piano navegasse na floresta; os painéis azulejares da estação ferroviária do Bombarral (coitadinha, aguarda há anos as obras de Santa Engrácia na linha do Oeste) que falam de um passado porventura glorioso da vitivinicultura, quando hoje as potencialidades agrícolas estão canalizadas para peras e maçãs; alguém envia uma imagem impressionante de uma escultura românica, vai-se à procura do sítio e aparece o tímpano de uma Igreja que nos enche as medidas... até aqui aparece aquele lustre encomendado pelo Czar russo a uma fábrica de Murano, terá desistido ou esqueceu-se da encomenda, passou por lá D. Fernando II e comprou aquela maravilha de artes decorativas que ilumina com todo o fulgor a sala dos embaixadores do Palácio de Belém. São imprevistos, nada mais.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (252):
Imprevistos em dó maior, a empatia dos ambientes, felicidade é ter algo que amar


Mário Beja Santos

No âmbito da Rising Stars, uma esplendida iniciativa da Fundação Gulbenkian para nos mostrar jovens talentos que têm a sua carreira em ascensão, fui ouvir o pianista georgiano Giorgi Gigashvili, trouxe um repertório que permitiu todas as pirotecnias específicas, de compositores barrocos a contemporâneos. A envolvente do palco é de uma beleza deslumbrante, esteja aqui uma orquestra, um coro, um grupo de música de câmara, um solista, há uma particular comunhão entre a sala e o palco, parece um espetáculo em 3D. o jovem pianista georgiano foi muito aplaudido, agradeceu e deu-nos a saber que levava consigo a mais espetacular sala de concertos que lhe fora dado a conhecer.
Esta tapeçaria é de José de Almada Negreiros (1893-1970), foi feita em Portalegre e intitula-se Artista e Modelo, data de 1953, está patente na ampla sala que dá acesso ao grande auditório, há ali espaço para comes e bebes e pode desfrutar-se dos encantos do jardim. Fica-se pregado a ver a genialidade modernista de Almada, a contorção dos corpos, o enigmático cavalete, o espetador não tem nada que saber o que é que está a ser pintado, se acaso já começou o trabalho do artista, o chão serve de parede, há uma luz impossível por baixo da mesa e aquele sóbrio biombo que parece um harmónio delimita o espaço da composição quem escolheu aquela parede no fundo da sala e aqui mandou afixar a tapeçaria de Almada não pode imaginar o consolo que dá a quem por aqui ciranda.
Andava a tirar fotografias no portal sul da Igreja do Convento de Cristo, em Tomar, trabalho de João de Castilho, um dos génios da arquitetura que privilegiaram a arte em Portugal, é uma porta cheia de tardo-gótico e de alvores renascentistas, bem própria da época temos a figura monstruosa devoradora, fica-se sem saber qual a mensagem que o genial arquiteto queria dar a quem entrasse por esta porta, será ganância, a cupidez, a natureza do mal? Resposta não tenho, mas não desmereço do impressionante aporte escultórico.
Abadia Sainte-Foy, Conques (Aveyron), França

Não conheço esta abadia, para ela fui despertado quando alguém me mandou esta imagem, aquele rosto dissimulado discretamente colocado no tímpano de uma porta. Eram assim os artistas românicos, introduziam pormenores aparentemente incompreensíveis ou intrigantes na cantaria, trata-se de uma assinatura de artista, alguém que partiu para os céus ou entrou em redenção? Para cada um a sua explicação. Como não conhece esta região nem, portanto, a abadia, fui à procura de pormenores e fiquei sem fala quando vi o deslumbramento do tímpano da porta principal, como aqui se mostra.
Tímpano da abadia de Sainte-Foy de Conques, França, construída entre 1041 e 1135, representando o Juízo Final. 
O que aqui se mostra, meu caro leitor, são os belos painéis azulejares da estação ferroviária do Bombarral. Eu tinha saído no terminal rodoviário, queria depois boleia para ir para o meu casebre no Reguengo Grande, mas tomei a decisão de descer a Alameda que leva à estação ferroviária, alguém me referira que os azulejos tinham sido restaurados e eram mais que dignos de serem vistos. Havia naqueles anos de 1930 uma intenção decorativa das estações ferroviárias de certa importância, é por isso que encontramos bela azulejaria em Vila Franca de Xira, na Ribeira de Santarém ou em Aveiro. O ponto que me parece curioso é que aqui se mostram fainas agrícolas, mas ainda não se fala das riquezas frutícolas que referenciam hoje o Bombarral, os peros e as maçãs, naquele tempo Bombarral aparecia referenciado pelo vinho. Enquanto via estes painéis, pensava na pera-rocha, conto resumidamente a história. Coordenava em Portugal uma iniciativa chamada Concurso Europeu do Jovem Consumidor, naquele ano de 1991 a Comissão Europeia propusera o tema da promoção de um produto alimentar são. A escola do Bombarral candidatou-se com o tema da pera-rocha, trazia bastante originalidade com as danças dos jovens e temas musicais de Vivaldi. Conversei com a professora para ajustarmos a comunicação, e havia imagens destes painéis azulejares na apresentação. Tive a grande alegria de ver esta escola do Bombarral ser premiada com o segundo lugar, depois da sua cativante apresentação no Heysel, em Bruxelas.
Entrei no histórico estabelecimento que dá pelo nome de Casa Havaneza, no Chiado, para pedir uma informação, fiquei embasbacado com este belo painel assinado por aquele que eu considero ter sido o mais importante gravador português do século XX, Bartolomeu Cid dos Santos, era uma lembrança daquela Havaneza do século XIX, que foi conhecendo alterações até ao presente.
A imagem da Sala dos Embaixadores do Palácio de Belém. O guia da visita lembrou que aquele lustre de Murano fora inicialmente uma encomenda do Czar russo, basta ver a caminho do teto a águia bicéfala, o rei D. Fernando II passou pela fábrica onde a encomenda fora esquecida e comprou o lustre, é imponente, parece mesmo que foi feito para engrandecer o fausto desta sala onde até o belo tapete foi renovado.
De vez em quando entro no Museu do Bombarral só para ver uma peça, desta vez escolhi um quadro de Josefa d’Óbidos, representa Santa Justina e Santa Rufina, a talentosa pintora que nos legou impressionantes naturezas-mortas também tinha pendor para temas religiosos, o que mais aprecio nesta composição não é o barroquismo dos vestidos ou a perfeição dos corpos, é o enquadramento espacial das duas santas, não é preciso mais um sentido para a esquerda ou para a direita, e destaco igualmente a luminosidade que vem do fundo e que parece que acende o quadro, dando-lhe fulgor.
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Nota do editor

Último post da série de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27913: Os nossos seres, saberes e lazeres (730): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (251): Uma sonata para a primavera, imagens para canonizar a terra úbere e um marionetista genial (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27929: Humor de caserna (257): O anedotário da Spinolândia - Parte XXix Ainda a origem das alcunhas "Caco Baldé" (grafada pelos fulas...) e "Aponta, Bruno" (fixada pelos "tugas") (António J. Pereira da Costa / Cherno Baldé)

1. "Aponta, Bruno!"... era outra das alcunhas do general Spínola, na Guiné Portuguesa, no tempo em que foi governador e comandante-chefe (1968/73) (*)... Embora fosse mais conhecido, dentro e fora da  caserna, por  "Caco Baldé" ou simplesmente "Caco". (Os oficiais do QP  chamavam-lhe o "Velho", o seu nome de guerra era o "Bispo").

Bruno foi o seu primeiro ajudante de campo, o capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno (1935-2022) (morreu como general reformado).

António Spínola (1910-1996) quando foi para a Guiné em meados de 1968, escolheu a dedo os elementos da sua equipa, diz o seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues ("Spínola: biografia", Lisboa:  A Esfera dos livros, 2010, 
 pág. 106).

Uns vieram de unidades e subunidades de cavalaria com provas dadas em Angola: 

  • como Almeida Bruno (que foi cap cav, of inf op / adj, BCAV 745 , Angola, jan 1965/ fev 1967); 
  • ou  como Henrique Bernardino Godinho (cap cav, of op / inf ( adj), e Rui Mamede Monteiro Pereira (cap cav, cmdt da CCAV 295) oficiais que pertenceram ao célebre BCAV 345, que o Spínola comandou em Angola, como tenente-coronel e depois coronel, entre dezembro de 1961 e fevereiro de 1964.

Além de pertencerem à arma de cavalaria, outro critério era terem sido alunos do Colégio Militar, como ele (que foi o nº 33, no período de 1920 a 1928).

Independentemente da arma de origem e/ou da passagem pelo Colégio Militar, pesava muito a  "competência técnico-militar", que ele reconheceu em militares como Firmino Miguel, Belchior Vieira, Lemos Pires, Pereira da Costa, Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Carlos Fabião.

A alcunha "Aponta, Bruno!”, associada ao António de Spínola, faz parte da Spinolândia, aquele universo meio mítico, meio pícaro, de humor caserna, que se criou à volta da sua figura (e da sua "entourage") durante a guerra colonial na Guiné,  e mais exatamente no período em que foi governador e comandante-chefe (maio de 1968 / agosto de 1973).

A expressão ficou célebre porque, segundo relatos de militares da época, Spínola tinha o hábito de mandar , ao seu ajudante de campo, o capitão Bruno, “apontar” (registar, tomar nota, ou até preparar algo com rapidez), muitas vezes em tom perentório. 

A frase acabou por se transformar em refrão ou bordão de caserna.

Quanto às anedotas, elas circulam sobretudo na tradição oral e variam bastante, mas seguem quase sempre o mesmo padrão: brincar com a autoridade do general e a prontidão do Bruno.

A expressão nasce, pois,  da presença constante, quase obsessiva,  do seu primeiro ajudante de campo (1968/69), o então capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno:  andava sempre próximo dele, quase como uma extensão operacional.

Os outros dois ajudantes de campo, que sucederam ao Almeida Bruno,  também eram de cavalaria:

  • Cap cav Lourenço Fernandes Tomás (1969/72) ;
  • Cap Cav Carlos Domingos de Oliveira Ayala Botto (1972/73) (nosso grão-tabanqueiro).

2. A imagem que ficou (muito alimentada pelo humor de caserna e pelas memórias de antigos combantentes, além da documentação fotográfica) era a de um Spínola teatral, de monóculo, pingalim, luvas e postura aristocrática, de “cavaleiro”, sempre impecável no seu uniforme, e que apontava alvos, reais ou figurados, com determinação e dramatismo. O Almeida Bruno não lhe ficava atrás na pose.


(i) A anedota típica (em várias versões): circulavam versões diferentes, mas o núcleo era mais ou menos este:

Spínola, em visita a uma posição no mato, observa o horizonte com o monóculo e diz, com ar solene:

— Inimigo à vista!...

Pausa teatral.

— Aponta, Bruno!

O Bruno, sempre pronto, apontava…

E alguém murmurava atrás, meio a sério, meio na galhofa:

— Já está apontado, meu general… agora só falta aparecer o inimigo…


(ii) Ou noutra variante mais mordaz:


— Aponta, Bruno!

— P'ra onde, meu general?

— P'ra qualquer lado, homem! O importante é manter a iniciativa!


(iii) A solução para tudo

Entre soldados, qualquer problema,  desde a merda da comida até à falta de material, era resolvido com a frase milagrosa:

— Não te preocupes, caga nisso… aponta, Bruno!

Ou seja, tornou-se também sinónimo de “deixa andar” ou “alguém há de tratar disso”.


(iv)  A pontaria na carreira de tiro:

Noutra versão mais caricatural, durante a IAO ou na carreira de tiro, se alguém falhava um alvo, um outro gritava:

— Ó pá, isso não é nada!... Aponta, Bruno!

Como se o Bruno resolvesse até as falhas da pontaria dos "tugas".


(v) O apontar… tudo!

Dizia-se que o Bruno levava a ordem tão à letra que, se o general comentasse algo banal tipo “uff!, que calor”, ele pegava logo no famoso  bloco 
“Aponta, Bruno!”...  e lá ficava registado o desafo do comandante-chefe como se fosse uma ordem operacional. 

A piada acabou por evoluir para qualquer coisa como : “Põe-te a pau com o que dizes perto deles, as tuas bocas ainda vão parar ao QG.”


(vi) O milagre  impossível

Numa versão mais absurda, Spínola teria pedido algo completamente irrealista (tipo ter determinado material de engenharia  “para amanhã de manhã” ).

Resposta típica da tropa:

— Não há problema… aponta, Bruno, que há de aparecer, a tempo e horas!”

Era uma forma de gozar com  ordens impossíveis ou absurdas "vindas de cima".


(vii) A cunha:

Entre oficiais mais novos (onde Spínola, de resto, era popular), dizia-se:

— Queres subir na carreira? Não te chateies, não estudes… Aponta, Bruno!

Ou seja, bastava estar perto de quem mandava e cair nas suas boas graças, e ir dizendo ámen (isto é, “sim, meu general”).


(viii) A versão mais atrevida, pícara, brejeira  se não mesmo pornográfica:

Em linguagem de calão, quando alguém se gabava demais,  dava ordens sem sentido ou "se armava em carapau de corrida" (sic), corria o risco de  ouvir:

— Olha,  este!… Pensa que é o Aponta, Bruno, mas vê lá para onde é que apontas! — e virava o traseiro.

Aqui o humor já descambava para o duplo sentido, como era comum na caserna.


(x)  Omnipotência:

Havia ainda a ideia de que o Bruno resolvia tudo:

—  Falta cerveja ?!

— Aponta, Bruno!

— Faltam granadas de obus ?!

— Aponta, Bruno!

— Não há gajas?!

— Aponta, Bruno!

— Porra, nunca mais chega a peluda ?!

— Eh,  pá… essa já nem o Bruno aponta!


3. O que está por trás da graça ?

A piada joga com três traços atribuídos , mal ou bem, a Spínola:

  • encenação e estilo pessoal: ele cultivava uma imagem muito forte, quase cinematográfica (embora, curiosamente, não costumasse andar com fotógrafos atrás, até por que o heli AL III tinha limitações de espaço);
  • comando muito próximo da frente: visitava posições das NT, aparecia de helicóptero quando menos se esperava,  marcava presença no mato junto dos seus soldados;
  • dependência funcional e simbólica do ajudante de campo:  o “Bruno” transformou-se numa personagem, quase como um escudeiro, um verdadeiro "cromo" (secretário, que tomava notas, mas também era guarda-costas, andando sempre armado).

Este tipo de piadas funcionava quase sempre4 como uma válvula de escape. Num contexto duro como a guerra da Guiné, brincar com figuras de autoridade, mesmo que de forma exagerada, caricatural  ou irreverente, ajudava a aliviar a tensão ou de sublimar a revolta.


António de Spínola, governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, à direita, durante o discurso de um líder guineense, à esquerda (c. 1968/69).  Spínola promoveu o diálogo sob o lema: «Por uma Guiné melhor». O deputado ou futuro deputado James Pinto Bull (1913-1970) é visível, em segundo plano, entre o lider guineense que discurs e o Spínola. Possivelmente a foto, de autor desconhecida, foi tirada durante a campanha para as elieções legislativas (para a Assembelia Nacional) de 26 de outubro de 1969. Pinto Bull era o único candidato para o círculo eleitoral da Guiné, proposto pela União Nacional.

Fonte: Adapt de Museu da Presidência da República (com a devida vénia...)


4. Origem da alcunha "Caco Baldé”


A outra alcunha,"Caco" ou  "Caco Baldé, é diferente, mas a sua origem é mais controversa: mas, dizem,  viria  sobretudo do contacto com o meio guineense (os "guinéus") e da forma como os africanos reinterpretavam nomes e figuras portuguesas, muitas vezes com humor muito próprio. Caco seria o monóculo; Baldé, um apelido fula vulgar (como o nosso Silva)... 

Ficamos sem saber se a alcunha lhe foi dada pelos "guinéus", se pelos "tugas". O "Aponta, Bruno" é claramente castrense... Já o "Caco Baldé" teria sido uma expressão grafada pelos fulas, segundo a intuição do Cherno Baldé,

Também aí há histórias, mas são mais difusas e menos padronizadas do que o “Aponta, Bruno!”


António J. Pereira da Costa: 
nosso grão-tabanqueiro desde 12/12/2007, coronel art ref 

 (i) ex-alf art, CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; (ii) ex-cap art, cmdt da Btr AAA 3434, Bissau;  (iii) cmdr CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo;  (iv) cmdt CART 3567, Mansabá, 1972/74.








4.1. O António J. Pereira da Costa fez uma leitura interessante sobre esta alcunha, mais recorrente e popular, o "Caco Baldé" (**)

(...) O Caco Baldé acaba por ser um nome carinhoso para materializar a popularidade o prestígio de um chefe. 

Sabemos bem que essa alcunha casa o monóculo (Caco) com um apelido frequente na Guiné (um espécie de Silva ou Oliveira) e nada mais. 

Creio que ele realizou uma aprendizagem e aproximação lúcida à vida do seu tempo. O seu modo de pensar terá evoluído desde o BCAV 345, em Angola (1961/64)  até à Guiné 73 que só poderia desembocar no 25Abril74.

Tenho para mim que era um dos melhores generais dos exércitos europeus. Ele tinha mais de 30.000 homens sob o seu comando e mais de meio milhão de civis à sua responsabilidade. 

Se tomarmos como referência os países da NATO não vejo nenhum que tivesse algo para lhe ensinar, na prática (bem entendido). Exceptuando os americanos que, riquíssimos em meios, perdiam a guerra do Vietname e os franceses que também não ganharam a da Argélia, todos andavam a "brincar aos soldados" em cenários hipotéticos em que o "insidioso, ardiloso e mauzinho In" vinha de Leste a correr pela Europa fora com uma foice numa mão, um martelo na outra e uma estrelinha no alto da cabeça.

Enquanto que ele tinha operações todos os dias (de todos os tipos e formas); logística (má e insuficiente) todos os dias; gestão de pessoal (insuficiente) todos os dias e todo o resto... e era tudo par ter efeitos ontem, porque amanhã já era outro dia com novos problemas. 

Depois veio o período mais conturbado que nenhum dos estrangeiros atravessou, mesmo os que poderiam ter tido intervenção na condução da política dos seus países. Andou mal. Poderia ter andado melhor. Talvez, mas os homens que não fazem asneiras normalmente também não fazem mais nada.

Um Ab.
António J. P. Costa


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013 às 18:14:00 WET


4.2. Não menos original  (e seguramente mais surpreendente e etnocêntrica)  é a leitura que faz o nosso amigo Cherno Baldé [foto à direita] (***), que se orgulha da sua origem fula:


(...) Caco Baldé tem origens no meio e língua fulas, é uma alcunha bem conseguida e duplamente interessante.

 Caco, khaco ou haco, originalmente, quer dizer cor castanha (a cor das folhas secas), na língua fula, e servia inicialmente para designar a cor da farda das autoridades administrativas e/ou da tropa colonial.

Mais tarde, para simplificar, este termo seria simplesmente utilizado para designar, de forma disfarçada e caricatural, as autoridades coloniais ou seus representantes.

O apelido Baldé seria lindamente encaixado em acréscimo, certamente, seguindo a lógica da brincadeira muito habitual entre grupos que se consideram primos por afinidade (sanguínea ou territorial), a  “sanencuia”.

Por exemplo, os Djaló são primos dos Baldé por afinidade sanguínea, da mesma forma que o grupo fula, na sua generalidade, é primo do grupo etnolinguístico mandinga que abrange Saracolés, Soninqués, Bambaras etc., por afinidade territorial.

Também é bastante lógico se tivermos em conta que a maior parte dos chefes tradicionais fulas (régulos) e colaboradores das autoridades coloniais, no chão fula, ou pertenciam a esta linhagem ou tinham este apelido, de modo que é uma homenagem e, ao mesmo tempo, uma caricatura dirigida a linhagem dos Baldé, na minha opinião bem conseguida, por um primo, resultante da brincadeira entre grupos de afinidade, usando a figura da maior autoridade portuguesa, de então, no território da Guiné.

Não tenho a certeza e trata-se de uma conjectura da minha parte como pista para uma pesquisa mais aprofundada. (...)

(Revisão / fixação de texto, títulos: LG)

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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27928: Convívios (1060): Segunda chamada para o 111.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 24 de Abril de 2026, na Quinta do Paul, Ortigosa

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Nota do editor

Último post da série de 17 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27924: Convívios (1059): Magnífica Tabanca da Linha, Algés: 64º almoço-convívio, 5ª feira, 16 de abril de 2026: vamos ser 83 e fazer uma pequena homenagem ao nosso régulo Manuel Resende, o mais magnífico dos Magníficos (Jorge Ferreira / Mário Fitas / Luís Graça)

Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Enfronhado na leitura de Portugal em África depois de 1851, do Marquês do Lavradio, ensaio injustamente esquecido, pode compreender-se por se apresentar como extremamente incómodo às teses do Estado Novo perante todo o processo da descolonização desencadeado após a II Guerra Mundial, vasculhando nos escritor no fim do século XIX, dei com o texto desta conferência do Conde de Penha Garcia que vem trazer munição ao encontro do que escreve o Marquês do Lavradio. Dividi o texto em duas partes, o quadro geral do que precede a Conferência de Berlim, o seu conteúdo e consequências constituirá a segunda parte. Deste resumo que agora apresento ao leitor acho muito estranho não haver menção às expedições e viagens entre o norte e o centro de África em todo o período medieval, a islamização não apareceu por geração espontânea e há relatos preciosos de viajantes árabes que foram, por exemplo, até Tombuctu. Creio tratar-se de um preconceito ignorar essas fontes de conhecimento. E reconheço o grande mérito deste Conferência do Conde de Penha Garcia que trata minuciosamente o conjunto de viagens da costa à contracosta e no interior africano, sem consequências para a presença portuguesa, não tínhamos nem recursos humanos nem financeiros para estar num espaço de dimensões gigantescas.

Um abraço do
Mário



A partilha de África segundo o Conde de Penha Garcia - 1

Mário Beja Santos

Muito antes de estar na presidência da Sociedade de Geografia de Lisboa, o Conde de Penha Garcia, José Capelo Franco Frazão, que recebeu o título nobiliárquico no reinado de D. Carlos, várias vezes deputado na monarquia, Ministro da Fazenda, adepto de João Franco, com duelo travado com Afonso Costa, licenciado em Direito, tendo vivido em exílio no advento da República, regressado a Portugal com o 28 de maio, presidiu à Escola Superior Colonial, desportista na esgrima e no tiro, colaborador na Exposição Internacional de Paris para a qual escreveu o livro sobre as colónias portuguesas, em 1931, proferiu uma conferência na Sociedade de Geografia em 1896, brochura publicada em Lisboa em 1901.

É um texto de inegável interesse, penso que poderá funcionar como elemento complementar a uma obra que classifico como muito importante sobre a presença portuguesa em África, da autoria do Marquês do Lavradio, recensão que também pus à disposição dos meus confrades. Vejamos a argumentação expendida por este monárquico conservador, um indiscutível investigador colonial.

Começa por nos dizer que um determinado número de nações europeias, cujos interesses se achavam mais ou menos vinculados ao continente africano, partilharam entre si o continente africano com a mesma simplicidade com que uns camponeses partilham entre si umas jeiras de terreno. Portugal, ligado ao continente africano por interesses de quase 500 anos, não podia assistir indiferente às múltiplas transformações que se estavam a viver em África. Em seu entender, seria esta a missão portuguesa: “Explorar e melhorar as terras africanas onde tremula o glorioso pendão das quinas; abrir ao mundo culto as regiões ubérrimas aonde chega a nossa influência; fixar e civilizar as raças indígenas sob a nossa proteção; povoar as regiões habitáveis pelo europeu, oferecendo um novo campo de expansão à nossa raça.”

Para tal desiderato, era indispensável a instrução e educação da opinião pública, pois será esta, instruída e elucidada, que se encarregará de manter a orientação da nossa política mundial. E comenta que a Sociedade de Geografia de Lisboa tem nesse domínio cometido uma ação perseverante. Seguidamente, traçou na sua exposição um esboço da vida política africana desde os tempos antigos até ao presente (1890), acentuando a nossa ação na história do continente africano; analisou depois a situação criada pela Conferência de Berlim, historiando a partilha de África; a sua conferência terminará com a dedução de alguns princípios gerais que, no seu entender, devem orientar a nossa política cultural africana.

Começando pela dissertação histórica de África, dirá que dos povos aborígenes apenas os Egípcios e os Abexins fundaram civilizações estáveis e que quanto às raças do centro e do sul do continente elas não têm história. A tradição conserva-nos a memórias de algumas migrações efetuadas para Este ou para Sul. Assim, no Congo, aos Ambundos veio sobrepor-se pela invasão dos Manicongos, vindos do centro; e depois da nossa entrada em África a dos Jaggas, originários do Quilimanjaro. O Congo, o Monomotapa, o Wolof e vários Estados centrais que ainda hoje existem, possuíram uma civilização rudimentar. Pode dizer-se que a história política de África tão antiga como o mundo reduz-se, de facto, à história da invasão e domínio das raças invasoras.

O conferencista analisa os acontecimentos históricos do norte de África, elenca os gregos, os romanos, os fenícios, os vândalos, o império romano do oriente, por fim os árabes. E comenta: “A civilização árabe marca um grande progresso sobre o estado das raças negras fetichistas; no entanto, dado que a sua ação religiosa constitui um elemento perturbador, nocivo em geral à marcha progressiva dos europeus, há que a conter.” Segue-se uma narrativa sobre o ciclo dos descobrimentos portugueses, desde as expedições henriquinas até à chegada ao Extremo Oriente, referindo as exposições através de África. Não se esquece de dizer que nos séculos XVII e XVIII se interrompeu por longos períodos a obra de penetração e exploração, não deixando de elencar um conjunto de expedições onde não falta a viagem à contracosta de Serpa Pinto e Capelo e Ivens.

E tece a consideração de que a regra que presidiu à nossa política colonial era o exclusivismo, o monopólio. Só em 1642 é que aos nacionais se franqueou o comércio da Índia, com exceção da canela. E não deixa de comentar que uma causa viciou a nossa política africana, a sinistra trilogia de ouro, escravos e marfim. O tráfico dos escravos foi pernicioso para a nossa política ultramarina, como Acúrsio das Neves fez notar, dizendo que este tráfico negreiro era a fonte mais segura dos rendimentos da Coroa. Só em 1836 abolimos o tráfico negreiro e só em 1869 se extinguiu a escravidão.

Estamos agora no quadro explicativo do que precede a Conferência de Berlim. A concorrência estrangeira em África acentua-se a partir da segunda metade do século XVI. No começo do século XIX apenas a Turquia, Portugal, a Inglaterra e a França possuíam colónias ou suseranias de uma certa importância do continente negro. Até aos primeiros anos do último quartel do século XIX a luta comercial não tomou um carácter excessivamente agudo; mas a Inglaterra ia avançando lentamente para o interior das suas colónias do Cabo, a França conquistara a Argélia e avançava pelo alto Senegal, pretendendo abrir caminho para o Sudão e estendeu a sua influência sobre Madagáscar; Lesseps abriu o canal do Suez. A expedição de Bonaparte ao Egipto inaugurou uma nova época de explorações científicas e comerciais. África passou a ser cruzada em todas as direções.

Paulatinamente, o continente africano foi ganhando um novo olhar sociopolítico e económico: a supressão do tráfico da escravatura, o excesso de produção das indústrias europeias, as novas descobertas mecânicas, a expansão da população na maioria dos países europeus, a necessidade de matérias-primas, deu a África um novo valor. Espanha, França e a Alemanha procuraram estabelecer o seu domínio em vários pontos da costa africana. Começou a falar-se repetidamente numa política de ocupação. A Conferência de Bruxelas de 1876 veio desencadear uma inusitada concorrência que veio conduzir à partilha de África.

A Conferência tem na sua génese a criação da Associação Internacional Africana, com sede em Bruxelas, a sua finalidade principal era a de abrir ao mundo culto os caminhos dos sertões africanos (em boa verdade, era o pretexto oficial apresentado pelo rei Leopoldo que cobiçava toda a região do Congo). Estamos numa época de expedições no centro e no sul de África. A travessia de Stanley deu origem a novos projetos e criou-se a Comissão de Estudos do Alto Congo, estava preparada a munição para que a Associação Internacional Africana entrasse diretamente em colisão com os interesses portugueses. Será esta questão do Congo o bom pretexto para que Bismarck prepare uma conferência em Berlim para tratar da partilha de África, que decorreu de 1884 e se prolongou até fevereiro de 1885.

Retrato pertencente à Coleção da Sociedade de Geografia de Lisboa
Obra do Conde de Penha Garcia, 1931
Imagem da Conferência de Berlim, o chanceler alemão cumprimenta um dos delegados, a delegação turca está à direita

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 13 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27926: Esposas de militares no mato (8): Nem tudo foi "amor e uma cabana": vivi com a minha mulher em Bissau (entre set 71 e jun 72) e depois em Mansabá (entre set 72 e mar 73), até ela ser "corrida" do mato pelo cor pqdt Rafael Durão... O caso de outras foi bem mais dramático: a Romy, mulher do Ramos, ia perdendo o seu bebé de 3 meses numa ataque ao aquartelamento; a Júlia perdeu o marido o Costa, numa emboscada, a 2 km de Cutia, em 10/12/1973

 
José Fernando de Jesus Costa, natural de Pinha, Sabacheira, Tomar; era fur mil at art, CART 3567 (Mansabá, 1972/74)

Fonte: Adapt de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 8.º volume: mortos em campanha. Tomo II: Guiné: livor 2.  Lisboa: 2001, pãg. 234




António José Pereira da Costa 

Nosso grão-tabanqueiro desde 12/12/2007, coronel art ref, natural da Amadora, vive no concelho de Sintra; conhecido por TZ (Tó Zé, pelos amigos; PK, pelos camaradas da Academia Militar do seu tempo):

 (i) ex-alf art, CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69;

 (ii) ex-cap art, cmdt da Btr AAA 3434, Bissau; 

(iii) cmdr CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo; 

(iv) cmdt CART 3567, Mansabá, 1972/74.

É autor da série e do livro com o mesmo n0me, "A Minha Guerra a Petróleo" (Lisboa, Chiado Books, 2019, 192 pp. ); tem cerca de 210 referências no blogue. Foi diretor da Biblioteca do Exército (até finais de 2011); tem-se dedicado à investigação no domínio da História Militar.

CART 3567
Mansabá (1972/74)

1.  Mensagem enviada, através do Formulário de Contacto do Blogger, pelo nosso camarada António J. Pereira da Costa, cor art ref, 


Data - sábado, 4/04/2026, 19:32


Olá,  Camaradas Tenho reparado que no blog vão aparecendo referências à presença de jovens esposas de militares na guerra (*).Resolvi, por isso dar notícias sobre o tema.

Assim quero dizer que a minha mulher também esteve comigo na Guiné. Inicialmente em Bissau, enquanto comandava a Btr AA 3434.

Eu estava aquartelado no Gr Art.ª n.º 7 que acabou por ser incumbido da defesa da BA 12. Morávamos na Av. Arnaldo Schulz n.º 15 e lá vivemos entre set1971 e jun1972. quando eu fui para o Xime e ela recolheu a casa dos meus sogros.

Obviamente que as coisas correram bem, havendo a registar as "aventuras" do maj Gaspar que já contei noutro local.

Em set72 ela voltou à Guiné e ficámos juntos em Mansabá até mar73. O quartel era bastante cómodo e espaçoso como já sabemos pelas descrições que vão surgindo. Foi assim até o cor Rafael Durão dar por ela e obrigar-me a fazê-la regressar a Lisboa.

Entretanto dois furriéis mandaram vir as respectivas esposas: a Romy (Rosa), esposa do Ramos das M/A e que trabalhava comigo. Tinham um bebé como pouco mais de 3 meses e que ia desaparecendo no dia em que fomos atacados e em que foram queimadas  21 moranças.

Foi um susto grande, mas tudo se resolveu porque um soldado  recolheu o bebé 
e o entregou à mãe.

A esposa do [fur mil at art José Fernando de Jesus]  Costa que vivia numa morança que encontraram,  teve a infelicidade de o perder numa vez em que ambos foram a Bissau e, quando ele regressou a Mansabá,  foi assassinado numa emboscada montada a uma unidade de comandos recém-formada  [ a 2 km de Cutia; morreu no HM 241, Bissau, em 10/12/1973].

Não tenho elementos sobre a sobrevivência, em Bissau, da pobre Júlia [Maria Júlia de Jesus Siulva Costa, de seu nome completo],  mas imagino. Sei que voltou a casar com outro combatente da Guiné, mas nunca mais a revimos.

Vou procurar fotos para completar estes factos.
Cumprimentos, António José Pereira da Costa.

(Revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)

2. Comentário do editor LG:

No livro da CECA sobre a actividade operacional (1971/74) lê-se:

(...) Acção - 10Dez  [1973] 

Pelas 07h40, na região de Momboncó (próximo de Mansabá), sector 04, numeroso
grupo inimigo emboscou uma subunidade do BCmds que executava
uma missão de escolta a uma coluna-auto no itinerário Mansoa--Mansabá.

As NT sofreram 8 mortos, 8 feridos graves e 20 feridos ligeiros.

Foram destruídas 2 viaturas e 5 ficaram danificadas.

O inimigo sofreu 3 mortos e foi-lhe capturado 1 lgfog "RPG", 1 granada de lgfog "RPG-2" e 1 granada de mão. (...)

Fonte: Adapt de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 6º volume: aspectos da actividade operacional. Tomo II: Guiné: livro 3.  Lisboa: 2015, pág. 347.

Morreram nesta emboscada, na estrada Mansoa - Cutia - Mansabá, de triste memória, para além do fur mil at art José Fernando de Jesus Costa, mais os seguintes militares das NT:

  • António Gonçalves Amaral, 1º cabo, Cart 3567, natural de Cinfães, solteiro;
  • Bacar Sissé, fur grad 'cmd', 1ª CCmds Africana / Batalhão de Comandos do CTIG, natural de Bolama, casado (2 esposas):
  • Carlos Manuel Matos Faustino, sold cond auto, CTransp 9040/72, solteiro, natural de Queluz, Sintra;
  • José Manuel Neves T0jo, fur serv transp rodo, CTransp 9040/72, solteiro, natural de Portel;
  • Sabana Fonhá, sold 'cmd', 1ª CCmds Africana / Batalhão de Comandos do CTIG, natural de Bafatá, solteiro;
  • Sori Baldé,  sold 'cmd', 1ª CCmds Africana / Batalhão de Comandos do CTIG, natural de Bafatá, casado.
Todos foram dados como mortos no HM 241, Bissau, em 10/12/1973, segundo o livro da CECA (2001), acima citado.

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Nota do editor LG:

(*) Últrimo poste da série > 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27893: Esposas de militares no mato (7): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte III

Guiné 61/74 - P27925: Agenda Cultural (889): Apreciação de Philip Havik ao livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que será apresentado no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Na impossibilidade de estar presente do próximo dia 21 de Abril, na FLUL, na cerimónia de apresentação do II Tomo de "Guiné - Bilhete de Identidade", da autoria do nosso confrade Mário Beja Santos, Philip Havik, doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Leiden - Países Baixos, distinto investigador, há muito ligado a Portugal, com ênfase na medicina tropical e em estudos orientados para a Guiné colonial, quis deixar a sua apreciação a esta obra de antologia para ser publicada no nosso Blogue.  


O mais recente opus de Mário Beja Santos, ‘Guiné - Bilhete de Identidade T. II: da Pequena Senegâmbia Guiné Portuguesa’ contem novamente uma antologia de textos cuidadosa selecionados em seis atos. Cobrindo um período de cem anos, dos meados do séc. XIX para o séc. XX, os textos amplamente citados e comentados, de autoria portuguesa e alguns franceses, levam o leitor numa viagem por este território que permite formar uma ideia da trajetória acidentada deste cantinho do dito império luso.

Principalmente servindo como um depósito de degredados e entreposto de exportação de escravos para as Américas, enfrentou grandes mudanças políticas nos séculos XIX e XX. Largamente esquecida até o Ultimato Britânico, o autor acompanha o despertar dos governos portugueses para não só revindicar, mas também de efetivamente ocupar parcelas do continente ‘distribuídos’ entre participantes da Conferência de Berlim. Nas 467 páginas o autor demonstra como os esforços diplomáticos vindo de dentro e fora da Guiné foram insuficientes para segurar a ‘Pequena Senegâmbia’ que o Honório Pereira Barreto ambicionava, esbatendo nas movimentações francesas na Casamance, ocupando pontos estratégicos, colocando as autoridades lusas perante um fait accompli.
O tratado luso-francês de 1886 que fixou pela primeira vez as fronteiras, foi encarado como uma derrota, por assinalar ‘a presença portuguesa […] ténue’ (p. 49) no terreno, que até aí se tinha limitado a uns presídios dispersos de uns meros centenas de metros quadrados. Quatro anos antes, o primeiro governador da ‘Guiné-Portuguesa’ ainda revindicava a zona da ‘Senegâmbia portuguesa do Sul do Rio Gâmbia até o Rio Nuno’ (p. 44/5).


Quando a partir de 1879 a ilha de Bolama alberga a capital da ‘Guiné Portuguesa’, os textos demonstram bem o facto que este território - governado durante séculos a partir de Cabo Verde - foi uma ficção do imaginário luso. Tal como o René Pélissier documentou na sua obra Naissance de la Guiné sobre as intermináveis guerras pelo domínio da Guiné, os relatos de oficiais e viajantes portugueses incluídos no livro lamentam e criticam duramente a falta de ambição e de êxito de sucessivos governadores e governantes na metrópole. Este abandono político contrasta com as pontas de cultivo de amendoim que começam a crescer na zona costeira da Guiné a partir dos anos 40 do século XIX, que por sua vez constituíram os primeiros passos para a colonização da terra africana, geridos por caboverdianos e ‘guinéus’. Foram eles próprios, nomeadamente as linhagens comerciais ou gan - cujo mais famoso exponente foi o Honório Pereira Barreto - que asseguraram a ‘herança’ Luso-Africana na zona, e conduziram a transição do tráfico de escravos trans-Atlântico para o chamado ‘comércio legítimo’, exportando as suas colheitas para o porto francês de Marseille… As fontes escritas tal como os relatórios dos governadores e relatos de viagem nos anos 80 e 90 do séc. XIX citados no livro lamentam amplamente a decadência destas feitorias e ainda sonham com ‘um futuro comercial brilhante’ mediante que a sua tão almejada ocupação ‘por todos os meios incluído a força’ (p. 133/4) se concretizasse.

Como os documentos do século XX perscrutados bem ilustram, a ocupação pela força em 1915 após campanhas muito sangrentas e devastadoras contra os povos costeiros conduzido com ‘quase só com irregulares’ (p. 360) numa terra ‘empapada de […] sangue’ (p. 229), afinal não transformou este futuro risonho em realidade. Após décadas de o comércio (de borracha e noz de palma) ter sido explorado por casas comerciais francesas e alemães, e companhias de capitais principalmente francêses terem adquiridos terrenos, a ocupação administrativa deste quinhão do império ‘insalubre’, mas repleto de riquezas naturais, não trouxe o fomento desejado pela 1.ª República. A ocupação da terra onde recém-chegados da metrópole eram recebidos com ‘as febres do paíz’ nos presídios cercados de pântanos, só trouxe diminutos capitais da metrópole, enquanto empresas como a CUF e a Casa Gouveia – além do Banco Ultramarino que tal com os primeiros deteve vastas explorações agrícolas - exerceram o quase monopólio do comercio de exportação, principalmente de amendoim não descascado. Sujeitando a ‘população indígena’ a novos estatutos fortemente discriminatórios e os régulos a nova ordem administrativa, os governos conduzem uma ‘politica indígena’ para impor a ‘pax lusitana’. Numa colónia onde se falava crioulo nos meios da função pública e do comércio, a obra de nacionalização podia, pensou-se, finalmente começar, como perspetivava um governador nos anos 20. Este mesmo deixou muito claro como se ia desenvolver o território: ‘Se o indígena não quer trabalhar, seja compelido a fazê-lo’ (p 238).

Virava-se assim, aparentemente, uma nova página na história desta Guiné, de curta duração, até que em 1963 estala o conflito armado. Passamos por descrições da rica flora e fauna guineense e do seu mosaico étnico complexo através de inquéritos etnográficos administrativos – não profissionais – que fazem distinções entre os dois extremos ‘dos atrasos de civilização’ dos Bijagós (p. 266) e ‘os racialmente superiores’ Futa-Fulas (p. 320), e as potencialidades da agricultura e o comércio, além de descrições da organização administrativa e seus serviços, sujeita a Reforma Administrativa Ultramarina nos anos 30 pelo Estado Novo (p. 351). Este último começa também por promover uma nova versão da então muito incipiente historiografia da Guiné, dos ‘descobrimentos’ até as ‘campanhas de pacificação’, após investidas anteriores de Cristiano José de Senna Barcellos (1899-1915), o geógrafo Ernesto Vasconcellos (1903) e de Carlos Pereira (1914), um antigo governador do território.

O Teixeira da Mota, oficial da Marinha, acaba por ‘atenuar’ e em parte ‘corrigir’ estas epístolas, quando publica os dois volumes da Guiné Portuguesa em 1954. Além de impulsionar uma série monografias administrativas baseado no inquérito etnográfico de 1946 que coordenou, ele também fundou o Centro de Estado da Guiné Portuguesa que publicou o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa até 1973 (p. 374). Com as missões da Junta Científicas de Investigações do Ultramar (JCIU), forma o início de uma tentativa de documentar e investigar o território sob a batuta do governador Sarmento Rodrigues com o qual o livro fecha. Apelidado pelo autor como ‘o definidor da colónia guineense’ (p. 397), o Sarmento Rodrigues se afirma logo como um governante imbuído de um espírito reformista, que pretende desenvolver e modernizar o território.


Enquanto esperamos pelo terceiro tomo desta série, podemos já antecipar que este otimismo será de curta duração, e novamente posto em causa com o eclodir da guerra/luta em 1963. Parece que a história se repete… Para quem esteve no terreno da guerra nos fins dos anos 60, o autor encontrou neste segundo volume a inspiração e a oportunidade de partilhar com os leitores o seu conhecimento do terreno. Aliás, se nota nas páginas do livro que o conhecimento pessoal do autor dos vários cantos do território para construir uma antologia ‘passeada e comentada’, que é sem dúvida uma grande vantagem quando se comenta os muitos documentos que compõem este livro.

A sua paciência de consultar documentos e reservados poeirentos nas bibliotecas na capital, ilustra bem o seu comprometimento com a história deste pequeno talhão, a que se dedicou desde 2006, e que em 20 anos resultou numa ‘saga’ contínua de mais de dez livros publicados. Tal como disse, e cito: ‘Quando tudo leva a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso …’ (p. 10) que, entretanto, resultou em dois volumes da Guiné-BI, deixando antever mais surpresas. A sua paixão não se limitou, como no caso de outros camaradas que lá combateram e descreveram as suas experiências no terreno – o que alias já fez em ‘dois volumes diarísticos’ (p. 9) – mas de ir mais a fundo sobre o passado e presente da Guiné-Bissau e as suas gentes, que hoje, ficaram, infelizmente, largamente esquecidas pela comunidade científica e o público em geral.


Philip J. Havik, abril 2026
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Nota do editor

Vd. post de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27911: Agenda Cultural (888): Convite para a cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, a levar a feito no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra será apresentada por António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias.