Luís Graça & Camaradas da Guiné
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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terça-feira, 15 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28347: Parabéns a você (2526): Manuel J. Ribeiro Agostinho, ex-Soldado Radiotelegrafista da CCS/QG/CTIG (Bissau, 1968/70)
Nota do editor
Último post da série de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28338: Parabéns a você (2525): Adolfo Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2796 (Gadamael e Quinhamel, 1970/72)
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28346: Notas de leitura (1960): "O Imenso, Sereno e Doce Rio", de Rui de Azevedo Teixeira; Guerra e Paz Editores, 2023 (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2026:Queridos amigos,
A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o labor de Rui de Azevedo Teixeira, ele organizou congressos internacionais sobre a guerra colonial e a sua literatura, publicou livros como A Guerra Colonial e o Romance Português, é autor de uma biografia de Jaime Neves, oficial dos Comandos que teve um papel preponderante no 25 de novembro de 1975 e como romancista escreveu uma trilogia, aqui se apresenta uma síntese da sua última obra intitulada o Imenso, Sereno e Doce Rio, apresenta-se como o termo de um itinerário que começou na guerra de Angola, Angola a que ele voltará no segundo romance, está agora na meia idade e vai viver uma vibrante paixão com uma militante do PCP, viverão entre os jardins do Éden e os do Inferno, ambos sentiam no outro o fascínio pelo melhor inimigo. O escritor questiona se não se viveu neste romance o triângulo dramático de Circe, Ulisses e Penélope.
Um abraço do
Mário
Oficial dos Comandos em Angola, professor universitário, e agora uma violenta paixão
Mário Beja Santos
A literatura da guerra colonial tem uma dívida impagável com o Rui de Azevedo Teixeira, na foto à direita. Este Doutor em Literatura Portuguesa Contemporânea organizou os dois primeiros congressos internacionais sobre a Guerra de África, bem como os respetivos livros; deve-se-lhe um indispensável estudo sobre a guerra colonial e o romance português, escreveu sobre a guerra em Angola e, mais recentemente, no estatuto de romancista, publicou O Elogio da Dureza, O Longo Braço do Passado e em 2023 O Imenso, Sereno e Doce Rio, Guerra e Paz Editores.
Vamos acreditar que se trata de uma trilogia, em O Elogio da Dureza temos uma mocidade com muitas leituras, uma vida familiar cruenta, sentiu-se impelido pelo fascínio da força, iremos ler o que era a preparação de um Comando, tudo entremeado com passagens daquilo que o autor chama Diário Incerto; fará a guerra em Angola que será um palco revisitado no seu romance O Longo Braço do Passado (não esquecer que o autor foi professor em Angola nos tempos dramáticos da guerra civil). Acabada a guerra lançou-se nos estudos universitários e após a licenciatura ensinou na ilha da Madeira, aqui conhece Iza, haverá casamento “sublime, sólido, sagrado”. E afastamento relacional com os seus pais. No segundo romance, portanto, em Angola, haverá uma paixão que terá triste fim porque Iza é o pilar da vida de Paulo de Trava Lobo.
Estamos agora no terceiro romance, já morreram os pais de Paulo, ele e Iza caminham para a meia-idade, vivem no Porto, ele gosta de estadear umas temporadas na Toca do Lobo, lugar onde passou a sua infância e juventude, continua a dedicar bastante atenção ao seu Diário Incerto, sente-se envelhecer muito devagar, o casal passa férias em antigas colónias e depois recebe convite para vir lecionar em Lisboa. Aqui volta a encontrar Ana Roriz, sua colega e militante comunista no tempo em que ele fora assistente universitário no Porto. Paulo instalou-se perto do Campo Pequeno, a mulher ajudou-o a retocar o ambiente, só que Iza foi convidada a dar aulas em Zurique. Está criada a atmosfera para uma segunda infidelidade, a inevitável tentação e a dita Ana Roriz. Vai agora tecer-se uma tapeçaria em torno de uma relação que se poderia tornar à partida improvável entre uma mulher filiada do PCP e um académico de boa cepa conservadora.
Começam por almoçar juntos, depois passeiam do Saldanha ao Rossio, depois descobrem o Alentejo juntos, vão até Marvão. Muita conversa com muitas tiradas literárias. Iza aparece nos sonhos de Paulo. No seu Diário Incerto, ele apresenta Ana Maria de Jesus Almeida Roriz:
“Licenciada em Clássicas, professora do ensino secundário, requisitada pela universidade para assessorar a vice-reitora. Depois do primeiro divórcio, a senhora dra. Ana Roriz desligou-se um tanto da militância. Regressou em força anos mais tarde. Tão em força que chegou a ser controleira. Os seus dois ex-maridos eram militantes comunistas e o homem com quem vive, um tal João Gomes, também da militância.”
Paulo desabafa, tem uma longa história relacional com os comunistas, como estudante em Coimbra, diz ter apanhado o comunismo nas matas de Angola, apanhou o comunismo no PREC e, sob o comando de Jaime Mendes, tiraram a tosse aos comunas, voltou a apanhar com o comunismo em Angola, considerava-se definitivamente vacinado, não podia deixar de apreciar o idealismo ingénuo de Ana Roriz. Há, contudo, ambivalências e paradoxos comportamentais em Paulo: “O comunismo era um inimigo pelo qual, sem deixar de sentir um ódio consistente, Paulo sentia também curiosidade e, em relação a alguns comunistas mais velhos, respeito e até admiração.” Paulo e Ana personificavam o defeito perfeito.
Em determinados momentos, Paulo via Ana como um robô, engessada na criminosa ideologia marxista-leninista. Têm arrufos momentâneos, há roturas curtas, logo a seguir vibra a paixão, há toques permanentes no telemóvel, separam-se e reconciliam-se. Paulo recorda o seu caso com Diana Sotirova, assunto tratado no segundo romance desta trilogia. Quando a paixão vibra mais forte, evitam-se as discussões políticas. Paula entende que deve dar um quadro da sua formação, ele que foi alferes dos Comandos, “nessa guerra em que uma esmagadora maioria de homens bons lutou por uma ideia, mais do que errada, romântica, fora do tempo”, recorda que o professor da escola primária metia na cabeça dos miúdos a fervente ideia do Império, e fala concretamente de si: “O alferes, o rapaz de vinte anos que, comandando outros rapazes, tinha de se desenrascar mandando matar e matando ele próprio. Um posto bem pior do que o do soldado.” Ana ouve todas estas declarações e já fala em casamento simbólico.
Procuram ter uma habitação para viverem juntos, a solução encontrada foi dececionante, uma autêntica alfurja em Cascais. Paulo viaja até Zurique, regressa e temos novamente os arroubos da paixão. Os meses passam, Paulo já vai dormir a casa de Ana, o tal Gomes vai ficando arredado, um dia será mesmo mandado embora. Temos cenas de ciúmes, aparecem cartas anónimas. Paulo é convidado pela Universidade de Colónia para dar um cursinho sobre temas literários, antes de ele partir viveram a desesperada paixão física, Iza aparece vinda de Zurique, no regresso a Lisboa, Paulo desanca no Diário Incerto a ideologia comunista, não obstante retoma-se o idílio, vivem juntos, aquilo que Paulo chama uma conjugalidade adúltera, há um ciclo de conferências na universidade, Ana tem funções de secretariado, Iza aparece inesperadamente.
O ambiente na universidade não é favorável aos dois, Paulo parte para a Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, já se sente em rotura final com Ana. Paulo organiza com Iza quinze dias de férias na África do Sul, o comboio é assaltado por elementos da RENAMO, consegue escapar são e salvo. Em Lisboa, Paulo vê Ana à distância, encontra-se com outros elementos dos Comandos, temos aqui um outro quadro ideológico, falando da situação mesquinha e sem grandeza nenhuma em que vive o país, eles consideram-se os leopardos, os leões, a seguir a eles vieram os chacais, as hienas, tipos que tiraram licenciaturas trafulhadas e pedófilos e condecorações para ladrões. E depois destas jaculatórias de exaltação nacionalista vão pelos bares, como o Procópio e o Hipopótamo.
Paulo acusa os sinais de envelhecimento, passou a viver sob a ditadura das análises clínicas, amolecia com a idade, passou a estar muito mais atento ao sofrimento dos velhos e dos pobres. Iza e Paulo voltam para o Porto, aparece Ana desvairada a querer apunhalar Paulo, o casal Iza e Paulo sai reforçado desta horrível contenda, é um casal que constitui a unidade de contrários, dois rios de vida que, após se terem colado na paixão formaram um imenso rio único. E aqui finda a terceira e porventura última obra deste ciclo romanesco, Paulo de Trava Lobo e Iza Maria Possolo d’Ornellas de Trava Lobo parecem ter pela frente uma velhice pacata, sem sombra de novas infidelidades.
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Nota do editor
Último post da série de 11 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)
Faremos depois uma analíse mais detalhada, na série "Nomadizações de um marginal-secante", deste excerto o livro que andamos agora a reler, em Candoz, em plena época das vindimas. Em homenagem ao autor, nosso querido amigo e e camarada António Carvalho, elaborámos , com a ajuda da IA, a ilustração acima publicada.
Por esses anos austeros, as vendas eram os estabelecimentos onde os que não tinham terra se obrigavam a mercar quase tudo e os que a tinham compravam apenas o que ela lhes não dava.
mesma escada por onde tinham subido, apensa à traseira da camionete.
apetrechos de utilidade doméstica, alguns já enferrujados pelo tempo.
fregueses, dispunha, sobre uma folha de papel mata borrão, um pedaço de broa, uma talhada de toucinho salgado, um punhado de azeitonas, um chouriço que os clientes cortavam com um canivete que traziam no bolso, ou até um cibo de bacalhau seco.
As mulheres também ali entravam, mas pelo tempo estrito de se proverem da despesa para uma semana, que havia de caber numa pequena giga tecida de tiras de madeira de salgueiro que mãos habilidosas de um gigueiro do lugar teciam.
Esporadicamente compravam também, na venda onde havia de tudo, um par de socos, dois metros de ganga e uma foucinha de segar erva.
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Último poste da série > 3 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27788: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar, nos bailes do Greco, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)
domingo, 13 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28344: 66º Almoço-convívio, dia 24/9/2026, quinta feira, no Resturante Caravela de Ouro, Algés: há já 31 inscritos (Manuel Resende)
1. Vai realizar-se no dia 24 de setembro, 5ª feira, o 66º almoço-convívio da Magnífica Tabanca ds Linha. Pormenores a seguir;
Grupo · Membros de A MAGNIFICA TABANCA DA LINHA
12h30 – entradas;
13h00-15h00 - almoço
I N S C R I Ç õ E S :
Até 21 de Setembro de 2026
para:
Manuel Resende - Tel. 919 458 210
manuel.resende8@gmail.com
magnificatabancadalinha2@gmail.com
dizendo "vou" no Facebook ou WhatsApp
PREÇO POR PESSOA ... 30 €
(Crianças dos 5 aos 10 anos pagam metade)
+ + + + + + + + E M E N T A + + + + + + + +
APERITIVOS DIVERSOS
Bolinhos de bacalhau | Croquetes de vitela | Rissóis de camarão | Tapas de queijo e presunto
Martini tinto e branco | Porto seco | Moscatel.
SOPAS
Canja de galinha - Creme de marisco
PRATO PRINCIPAL
Nacos à Nortenha com grelos e batata a murro
SOBREMESA
Salada de fruta ou Pudim - Café
BEBIDAS INCLUIDAS
Vinho branco e tinto “Ladeiras de Santa Comba" ou outro
Águas - Sumos – Cerveja
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Nota do editor LG:
Último poste da série >
Último poste da série > 9 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28334: Convívios (1074): 114.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 25 de Setembro de 2026, com concentração, às 12 horas, na Quinta do Paul, OrtigosaGuiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)
Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes
No princípio da década de 90 começaram a ter lugar os primeiros convívios de Antigos Combatentes pertencentes à mesma companhia e/ou ao mesmo batalhão. Esta iniciativa partia sempre da boa vontade de alguns antigos combatentes. Por meados da década de 90, quando os convívios já eram moda, apareceu uma nova modalidade, mas sempre com os mesmos objectivos.
Esta nova modalidade consistia de um convívio entre todos os naturais de uma mesma freguesia, que tivessem participado na guerra do ultramar. Convívios desta natureza reuniam sempre um número de presenças muito elevado, porque eram abertos a residentes e não residentes. Na freguesia de Campia, com 182 antigos combatentes, as presenças eram sempre superiores à centena. Muitas foram as freguesias que aderiram a esta modalidade, havendo mesmo casos de algumas onde à falta de iniciativa por parte de antigos combatente era a própria junta da freguesia a tomar a seu cargo a organização de um convívio, como era o caso da Freguesia de Cacia no Concelho de Aveiro.
Muitas associações de antigos combatentes como é o caso da “Tabanca Grande” tiveram e muitas ainda tem, os seus convívios anuais.
O número de convívios atingiu no ano de 2014 o valor 360, publicitados, estando esse valor reduzido para o ano 2026 a 70 convívios aproximadamente. Tudo terá um fim no dia em que todos os antigos combatentes façam parte das hostes celestes da Paz e do Amor.
O nosso camarada da Tabanca Grande, Victor Barata, alfacinha, nascido na cidade de Lisboa foi encontrar noiva na aldeia onde eu nasci. Casou com uma filha da Amélia da Laja e do padeiro de Caveirós, neta materna da Senhora Dália Campos, segunda prima direita da minha avó.
A encosta norte da serra do Caramulo é riquíssima em granitos de alta qualidade. Só para o pavimento do IP5 foram destruídos milhares de toneladas de granito azul transformadas em gravilha, sem que alguém gritasse, não destruam o património.
A Victor Barata procedeu à instalação de uma fábrica de serração de granitos e não de mármores como aparece num comentário do blogue. Só não está sepultado no cemitério de Campia por ter sido cremado na cidade de Viseu.
Nunca consegui que o camarada Victor Barata participasse nos convívios dos combatentes da freguesia de Campia. Uma divergência entre o Victor Barata e um dos quatro elementos da Comissão Organizadora de primeiro convívio realizado em Campia, Mário dos Santos Ferreira, Furriel de Transmissões da Companhia que estava sediada em Ingoré no ano de 1965.
O Mário dos Santos Ferreira, meu companheiro de carteira da primeira, dois anos, até à quarta classe não era pessoa fácil.
A divergência teve origem na aquisição de duas placas em granito, com a inscrição, “Ditosa Pátria que tais filhos tem” para serem colocadas nas campas dos dois mortos em combate, que estão sepultados no cemitério de Campia. Sendo amigo dos dois, tentei por mais que uma vez, sempre que me cabia a organização do próximo convívio, a reconciliação, mas sem resultados.
Sinto cada vez mais dificuldade em aceitar que amizades com mais de 30, 40, 50 anos, possam desaparecer por uma pequena quezília que não vale umas míseras cascas de alhos.
Como consequência destes convívios surgiu também a iniciativa do levantamento de Marcos Históricos aos antigos combatentes. Estes pequenos monumentos foram erguidos a nível de freguesia, como é o caso Campia, a nível de concelho e também a nível nacional como é o caso do Bom Sucesso em Lisboa. Também estes monumentos foram patrocinados pelos antigos combatentes como é o caso de Campia, por Autarquias Locais e também por outras entidades.
Este Monumento aos Antigos Combatentes, naturais da freguesia de Campia foi custeado pelos próprios Combatentes. A Junta de Freguesia de Campia cedeu o terreno e a Câmara Municipal de Vouzela honrou-nos com uma presença no dia da inauguração (13-11-1999).
Quase ao virar da esquina como nos indica a gíria popular, já no ano de 2025 surge uma iniciativa de um antigo combatente, Alferes Miliciano em Angola, natural de Macieira-a-Velha, freguesia de Macieira de Cambra do concelho de Vale de Cambra, de seu nome Martinho Tavares de Almeida, Professor de Educação Física Aposentado. A cidade de Vale Cambra faz parte da Área Metropolitana do Porto.
Com a colaboração de um Grupo de patrocinadores encabeçado pela Câmara Municipal de Vale de Cambra, este antigo combatente decidiu levar a cabo a seguinte tarefa:
Fazer uma recolha ao nível do Concelho de Vale Cambra de dados relativos a todos os naturais que tivessem participado na Guerra do Ultramar. Para além dos dados pessoais também foram recolhidos dados relativos ao Posto e à frente de combate onde teve lugar a sua participação.
À semelhança do que é pedido na adesão à Tabanca Grande também aqui foi usado o mesmo critério em relação à entrega de fotos.
A partir da recolha efectuada, foi feita a edição de um livro em formato A4 com uma primeira tiragem de 1500 exemplares, com 512 páginas e um peso superior a 2 quilos.
Cada um dos Antigos Combatentes ainda vivos, recebeu um exemplar de forma gratuita. Todos os familiares dos Antigos Combatentes já falecidos, que colaboraram com a iniciativa receberam do mesmo modo um exemplar de forma gratuita como é o meu caso.
As duas imagens a seguir mostram a frente e o verso da obra que foi feita a partir desta brilhante iniciativa.
A todos os antigos combatentes a quem foi concedido o privilégio de regressar à sua origem sem ser dentro de um caixote, lutaram para serem os melhores, para terem o reconhecimento daquilo por que passaram em defesa dos ideais da época.
De nada lhes valeu, cada vez valem menos e a cada vez que aparece algo de benesse para antigos combatentes logo aparecem as discórdias a gritarem que os antigos combatentes não são pessoas de bem.
É público de que os antigos combatentes não pagam medicamentos. Não é verdade porque apesar de existir na Constituição um Artigo 13.º que diz que somos todos iguais. Há a possibilidade de serem produzidos medicamentos para pobres e para ricos. O antigo combatente não paga medicamentos se apenas usar os medicamentos para pobres. Em caso contrário paga como pagam os outros.[1]
O livro faz referência a todas as figuras do Estado Novo que durante 13 anos conduziram a Guerra, às grandes operações, tais como a tomada da Pedra Verde e a Operação Mar Verde, às grandes catástrofes como afundamento de uma jangada que vitimou mais de uma centena[2], e a tragédia do Chão Manjaco. É de igual modo feita uma referência a todos os intervenientes do lado oposto.
Tenho muita pena que não exista em todos os restantes concelhos deste país um Alferes Martinho Tavares de Almeida com capacidade para levar a bom porto uma nau com tanta carga. Até à página 225 este livro é de uma enorme riqueza para quem gosta de História.
Nas primeiras 225 páginas há espaço para:
- 1. O Império Ultramarino e o Estado Novo
- 2. Factos que antecederam o Conflito Armado
- 3. Período anterior ao início do Conflito Armado
- 4. Início do Conflito Armado em Angola
- 5. Principais protagonistas
- 6. Teatros de operações
- 7. Movimentos independentistas
- 8. Grandes operações
- 9. Meios terrestres aéreos e navais
- 10. Quarteis e aquartelamentos
- 11. Armas de combate. Perfeita elencagem de todas as armas com ilustração de todas as armas usadas de ambos os lados.
- 12. Minas. A chamada guerra subterrânea
- 13. Alguns números da Guerra do Ultramar
- 14. As grandes tragédias
- 15. As nossas Enfermeiras na Guerra do Ultramar
- 16. A missão do movimento nacional feminino
- 17. O papel da Igreja no conflito
- 18. Factos relevantes
- 19. Personalidades que exerceram funções de chefia e comando envolvidas na guerra do ultramar
- Da página 226 até à página 463 foram colocadas todas as fotos acompanhadas de um pequeno perfil de todos os antigos combatentes do concelho de Vale de Cambra.
- Da página 464 em diante estão transcritos os louvores atribuídos a todos antigos combatentes naturais de Vale de Cambra.
- Uma lista de todos os falecidos.
- Lista de feridos graves acompanhada de alguns depoimentos.
- Notícias publicadas em alguns jornais da época.
Para terminar deixar um grande abraço com elevado reconhecimento ao Autor
Os meus mais sinceros parabéns Dr. Martinho Almeida.
Artur Conceição
SPM 2578
[1] - Peço desculpa ao amigo Artur Conceição, mas por uma questão de justiça, venho afirmar que é incorrecto dizer-se que os Antigos Combatentes só têm direito a medicamentos para pobres. Em Portugal não há medicamentos para pobres e para ricos. Uma vez que há muita falta de informação e desinformação a mais, esclareço, a título pessoal, que o Estado comparticipa os Antigos Combatentes a 100% o preço de referência de todos e quaisquer medicamentos receitados e comparticipados pelo SNS, genéricos ou de marca.
Os utentes do SNS, em geral, não saberão, nem se aperceberão, de que há medicamentos cujo PVP (preço de venda ao público) é superior ao PR (preço de referência). O SNS, nestes medicamentos, só comparticipa o PR, ficando a diferença a cargo do utente. Nunca dei conta de ver no balcão da farmácia alguém perguntar porque está a pagar aquela importância e não menos.
Com os Antigos Combatentes passa-se o mesmo, às vezes pagamos uns cêntimos por causa da tal diferença, mas porque se intuiu que nos comparticipam (sempre) 100% do preço dos medicamentos, reclamamos por falta de conhecimento.
Um exemplo prático: o reumatologista receitou-me Lepicortinolo (um medicamento de marca, não genérico), cujo preço de venda ao público é 3,82€ e o preço de referência é 2,80€. Perante isso, paguei a diferença, 1,02€, sendo comparticipado a 100% do preço de referência.
Também não é justo dizer-se que os Medicamentos Genéricos têm uma eficácia inferior aos de marca. Está provado cientificamente que é mentira. Eu sou um dos que opta sempre pelos genéricos. O SNS não nada em dinheiro, cabendo a cada um de nós zelar pela sua sobrevivência.
Aconselho a leitura atenta do nosso Poste de 6 de Janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26354: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (109): Portaria n.º 372-C/2024/1, de 31 de Dezembro que estabelece as condições de acesso dos Antigos Combatentes a uma percentagem adicional de comparticipação sobre a parcela não comparticipada dos medicamentos pelo SNS
[2] - Aqui não sei se o nosso amigo Artur se se está a referir ao desastre da jangada durante a travessia do rio Corubal. Se sim, e se considerarmos vítimas os camaradas falecidos, foram 43.
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Nota do editor
Último post da série de 8 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28250: (In)citações (289): Hoje estou triste, embora seja grato por cada nascer do sol... (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto)
sábado, 12 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28342: Os nossos seres, saberes e lazeres (749): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (270): O dia passado em Wiesbaden, amanhã viaja-se para Heidelberg - 5 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Agosto de 2026:
Queridos amigos,
Estivera em Wiesbaden para ir a uma récita da ópera A Flauta Mágica, vi pela noitinha pormenores de uma cidade com opulência, ditada pela sua notoriedade e fama de local muito aprazível onde se fazem congressos, múltiplos eventos e há uma grande afluência termal; mas agora tive a oportunidade de a visitar com mais detalhe, o lastimável era o calor sufocante daqueles primeiros dias de agosto, mas deu para ver a cidade de uma bela colina, visitar um templo ortodoxo russo, uma homenagem à primeira mulher do Grão-Duque, uma princesa russa que morreu com 18 anos; ainda houve a tentação de nos metermos no museu, mas preferiu-se andarilhar até ao limite, o que aqui se regista são meros pormenores, a arquitetura civil da cidade é deslumbrante, tudo farei para regressar com uma temperatura mais amena.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (270):
O dia passado em Wiesbaden, amanhã viaja-se para Heidelberg - 5
Mário Beja Santos
O dia de hoje é reservado a Wiesbaden, outrora capital do Ducado de Nassau, mais tarde sede da província prussiana de Hesse-Nassau, atualmente capital do Land de Hesse. Vindo de carro logo me apercebi nas imediações da prosperidade destas gentes, belas vivendas que se conjugam muito bem com os terraços das montanhas florestadas do Taunus. A cidade goza de uma reputação mundial, devido aos seus festivais, congressos, tratamentos termais. Tem um opulento museu onde não faltam cerâmicas romanas, tapeçarias, esculturas medievais, peças etnográficas de grande valor, uma rica galeria de pintura. Os meus anfitriões levaram-me em primeiro lugar a Neroberg, uma colina bem florestada, não faltam magníficos jardins, piscinas termais e não termais, o passeio destinava-se a ir visitar a igreja ortodoxa russa que também é conhecida por capela grega, mas de facto é russa, serve de mausoléu à primeira mulher do Duque Adolfo de Nassau, ela chamava-se Elisabeth, era filha do Grão-Duque Miguel da Rússia, pertencia à família Romanov. A Grã-Duquesa morreu de parto, tinha 18 anos, repousa agora num túmulo de mármore ornado de 16 figuras dos apóstolos e das virtudes teologais. É proibido tirar fotografias no interior, tive de ir surripiar uma imagem, o iconóstase e o altar-mor são muito belos. A construção terminou em 1855.
Após uma refeição ligeira, descida para a cidade, o calor é sufocante, aproveitam-se todas as sombras, retiram-se as imagens possíveis, todos concordam em regressar a casa, fizemos bem amanhã vou cumprir um sonho da juventude, conhecer Heidelberg e o seu esplendor, por isso me despeço mostrando um pórtico de um castelo que já foi faustoso e ficou bem derruído naquelas guerras em que entraram exércitos de várias nações, tudo questões de família – o castelo de Heidelberg, entretanto, renasce em primorosas obras de conservação e restauro, como irei mostrar.
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 5 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28324: Os nossos seres, saberes e lazeres (748): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (269): Ainda em Frankfurt, depois Wiesbaden, mas volto atrás, a Mainz - 4 (Mário Beja Santos)
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28341: Notas de leitura (1959): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (5) (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:Queridos amigos,
O comércio negreiro despertou uma grande apetência a um conjunto de países como a Espanha, a França, a Inglaterra e a Holanda. Ver-se-á neste texto como tais países procuraram implantar-se pelas Américas, a importância que irão adquirir Barbados, o sonho holandês de criar a Companhia das Índias Ocidentais para construir um sistema comercial monopolista no hemisfério ocidental, um tanto à imagem do que já tinha conseguido alcançar na Ásia; temos a América britânica que formou a Companhia de Aventureiros Reais em África, o ponto de partida foi encontrar uma forma de se impor no comércio do ouro na África Ocidental, seguiu-se o objetivo de fornecer escravos a Barbados. O autor dá-nos um quadro das lutas entre estas potências e enfatiza o enfraquecimento das posições portuguesas nos tempos da União Ibérica; e seguidamente vamos assistir a novas disputas, já não é só o comércio açucareiro o grande objetivo, surgiram o algodão e os metais preciosos.
Um abraço do
Mário
África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 5
Mário Beja Santos
Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Já se falou da importância da fortaleza de S. Jorge da Mina, era um posto avançado de onde chegavam muitos quilos de ouro. O tesouro do reino era conhecido nos primeiros tempos como Casa da Guiné, título que foi substituído por Casa da Mina. Como escreve o autor, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos 20 anos do século XV. Em 1506, Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa, traduziram-se num dos sinais da modernidade e de um outro relacionamento entre Portugal e a demais Europa e a multiplicidade de contactos com povos africanos. A importância de Elmina irá desviar-se a favor do tráfico negreiro.
Como escreve Howard French, a escravatura era uma prática antiga embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar. Aproveitando os bons contactos, os portugueses encontraram uma ótima recensão do Benim. Um escravo vendido aos portugueses em 1500 teria rendido entre 12 e 15 manilhas; a arte beninense irá projetar a imagem de um português com os seus longos cabelos e barbas e narizes exageradamente pontiagudos. Em Elmina clamava-se por mais escravos, a coroa portuguesa enviou mais navios; mas por volta de 1514, o Benim começou a restringir o comércio de escravos, teve que se fechar aa feitoria e procurar novos circuitos. Escreve o autor:
“Usando uma plataforma de lançamento como Cabo Verde, Portugal percebeu que se poderia operar um comércio lucrativo de escravos nas zonas costeiras próximas do continente. Dentro deste novo circuito, São Tomé ganhou importância na produção de açúcar. Começou-se a olhar para o Congo com outros olhos, os líderes do Congo queriam cooperar politicamente com os portugueses – estava aberta uma nova rota que podia passar por São Tomé, Elmina e Atlântico sul".
Ao nível da produção de açúcar, São Tomé ganhou a liderança da produção, substituindo a ilha da Madeira, tornou-se uma colónia de escravos, depois foi ultrapassada pelo Brasil açucareiro. Nas Caraíbas foi crescendo a agricultura esclavagista, caso de Barbados. A América do Norte recebeu os seus primeiros negros na Carolina do Sul. E o autor dá-nos uma interpretação para o nascimento do crioulo. Esta língua constituiu-se como um compósito do que era falado pelos europeus e africanos, primeiramente nas feitorias onde se negociavam escravos. Formou-se o crioulo em Cabo Verde, tal como no Senegal ou em São Tomé. O crioulo vai também ser a língua veicular inicialmente no Novo Mundo entre os escravos. “Mais do que qualquer outra coisa, foram estes contactos e a consequente fusão, ou mistura, cultural, racial, social, económica, através de deslocações, uniões e trauma, que fizeram das Américas um verdadeiro Novo Mundo.” Obviamente que todos estes acentos se irão diluindo com a hegemonia das línguas predominantes, o inglês e o espanhol.
Todo o novo circuito comercial esclavagista vai ser um poderoso combate entre potências em todo o Atlântico Sul, chegando às Caraíbas, vão entrar em cena ingleses, franceses, holandeses e espanhóis, todos querem plantar cana-de-açúcar, mais tarde algodão, cada Governo estabelece a tua estratégia para se apoderar no território. O autor dá-nos o quadro das lutas entre os portugueses e os holandeses no Brasil e em África; os holandeses sonham em ter um predomínio tanto nas Índias Ocidentais e Orientais. A seguir à Restauração, a Coroa portuguesa deu importância primordial à recuperação de São Tomé e Luanda, era fundamental o escravo angolano para que o Brasil fosse uma potência açucareira.
Há que ter em atenção o que acontecera em termos demográficos no Brasil. Novamente a palavra ao autor: “A chegada dos caçadores de fortunas, soldados, comerciantes e colonos da Península ibérica desencadeou um período de morte maciça entre os povos nativos do Brasil. Para os portugueses, a população indígena tinha inicialmente parecido quase que inesgotável. Contudo, as doenças transmitidas pelos recém-chegados europeus causaram uma rotação espantosamente elevada nas plantações de açúcar devido ao aumento das taxas de mortalidade entre os escravos indígenas e os trabalhadores assalariados.” Foram epidemias devastadoras, uma longa lista de doenças que incluíam varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, cólera, escarlatina e gripe; até a constipação, recém-chegada à América do Sul abordo dos países europeus, era mortal.
Em suma, registou-se um declínio dramático da população nativa, houve que a substituir por escravos. Esta decisão política foi crucial: Portugal calculou que um Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. O período filipino em Portugal (1580-1640), como já foi sublinhado, foi tremendamente ruinoso para o Império Português: Portugal perdeu Elmina e Luanda; no Oriente perdeu Malaca, Colombo, portos essenciais na Índia no comércio das especiarias. Seguir-se-ão com a Restauração tremendas guerras no Brasil e Angola, no Oriente não foi nada parecido, perderam-se irremediavelmente posições outrora estratégicas.
Na continuação, o autor dá-nos o quadro do comércio negreiro em territórios conquistados pela Espanha. “No século XVI aproximadamente 277.000 africanos foram levados acorrentados através do Atlântico, sendo que quase 90 porcento deles foram para os territórios americanos recentemente conquistados por Espanha, liderados por Cartagena, Nova Espanha e Vera Cruz. Ao longo do seu extenso percurso, este tráfico humano traria cerca de 2,07 milhões de pessoas para as Américas Espanholas, quer por embarque direto através do Atlântico, quer através de um comércio interamericano intenso, traficado a partir de lugares como a Curaçau holandesa ou a Jamaica inglesa. Isto fez das Américas Espanholas a segunda zona mais importante de migração africana permanente e forçada, depois do Brasil.”
Vamos dar continuidade ao trabalho de Howard W. French falando da corrida aos escravos.
(continua)
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Notas do editor
Vd. post anterior de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 7 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28329: Notas de leitura (1958): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (3) (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P28340: Em bom português nos entendemos (34): Camaradas. aqui sejamos..."betacistas", troquemos os "Vês" pelos "Bês" à (b)(v)ontade...

O betacismo é, muito simplesmente, quando o som que normalmente associamos ao V(ê) passa a ser pronunciado como B(ê). Ou então quando a distinção entre os dois sons se dilui ou se perde.
Por exemplo, em vez de: vaca → /vaca/, a pessoa pode dizer algo mais próximo de: baca → /baca/.
Porque não é simplesmente uma questão de "falar mal". É uma característica histórica e regional de certas variedades do português (e não apenas do português, mas também de outras línguas, a começar pelas latinas).
No português europeu, a pronúncia-padrão distingue claramente:
- B(ê) → uma consoante produzida fechando os lábios: bala, beber, cabo;
- V(ê) → uma consoante produzida com os dentes de cima contra o lábio inferior: vala, viver, cavalo, vinho.
Ou seja: bala ≠ vala | bela ≠ vela | basta ≠ vasta.
Mas há regiões do país e variedades do português, incluindo tradicionalmente algumas áreas do Norte, onde essa oposição pode ser neutralizada, fazendo B e V soarem iguais ou muito semelhantes.
Além disso, betacismo pode significar coisas ligeiramente diferentes conforme estamos a falar de história da língua, de fonética ou da descrição de um dialeto.
2, E para quem não faz a distinção entre o Bê e o Vê, a resposta perfeitamente legítima é: "Mas qual é o problema, ó meu? Eu cá sei exatamente o que estou a dizer."
Em resumo:
- Betacismo = B e V deixam de ser distinguidos na pronúncia (ou aproximam-se muito), de modo que palavras como "baca/vaca" podem soar iguais;
- é um fenómeno dialetal/fonético, não simplesmente um erro de português;
- em Portugal tem uma dimensão regional e social que ajuda a explicar por que razão o assunto desperta paixões (e discussões, às vezes acaloradas);
- na tropa, na recruta, no sul, os instrutores (sulistas) gozavam com os recrutas (nortenhos, não se dizia, nem ainda hoje se diz, nortista, só no Brasil...) que trocavam os "vês" pelos "bês";
- ora, ninguém gosta(va) de ser gozado por causa da língua que aprendeu com o leite materno, ou do sítio onde nasceu, e muito menos de ser chamado por nomes ofensivos, depreciativas, gozões, seja "nortenho", "galego", "tripeiro" (referindo-se aos do Norte, incluindo o Porto), seja "beiroco (os das Beiras), seja "mouro", "marroquino", "alfacinha", "saloio", "marafado" (os de Lisboa, e do Sul);
- felizmente que nesse tempo hão havia o termo "betacista" (adjetivo e nome).
Último poste da série > 26 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28213: Em bom português nos entendemos (33)_ a palavra "mafé", usada na culinária da Guiné-Bissau (crioulo, que vem do mandinga "mafen"): o velho pescador sai na sua canoa "à procura de mafé" (=acompanhamento da bianda, que pode ser peixe,marisco ou carne)


















































