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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28410: Ser solidário (299): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (23): O Arquipélago dos Bijagós (Renato Brito)

1. Mensagem do nosso amigo Renato Brito, voluntário, que na Guiné-Bissau integra um projecto de construção de uma escola na aldeia de Sincha Alfa, com data de 1 de Outubro de 2026:

Boa noite Carlos Vinhal,
Espero tudo bem consigo.

Partilho a “cartolina” de mais um evento da campanha de angariação de fundos para construir uma escola na Guiné-Bissau. Divulga a apresentação do projeto que vamos fazer em breve na Eslovénia e fala das ilhas Bijagós enquanto santuário de vida selvagem.


Nesta página a recente classificação de Património da Humanidade: https://whc.unesco.org/en/list/1431

Aqui um livrinho ilustrado desta Reserva da Biosfera: https://www.africa-princess.com/_files/ugd/cf2709_cf101cc21c4946928567aef9319ef9f7.pdf

Guiné 61/74 - P28409: Retalhos da vida militar (12): Os que ficaram e viveram as partidas (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)


1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:

Boa tarde meu caro Carlos Vinhal,
Mais um pequeno texto que escrevi.
As cartas a Garcia ainda aguardam a sua vez?

Um grande Abraço com votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Os que ficaram e viveram as partidas

A frente da retaguarda

O tema partidas e chegadas não tem sido muito utilizado pelos muitos que enviam as suas vivências para o Blogue.

Cheguei a Lisboa no dia 6 de agosto de 1959 e fiquei a morar no bairro da Ajuda. A freguesia da Ajuda era e ainda é uma zona de muitos quartéis. Lá existe a Rua dos Quartéis, e a Travessa de Cima dos Quartéis. A partir do ano de 1961 esta zona passou a ser uma zona abundantemente frequentada por militares cujo destino era Angola. Para apoio a estas unidades militares foi adicionado o espaço da antiga cordoaria na Rua Junqueira de onde partiram os primeiros Batalhões com destino a Angola. Os embarques tinham lugar em Alcântara e na Rocha do Conde de Óbidos. Eram momentos muito emocionantes e dramáticos para os envolvidos.

Foi neste espaço de tempo que surgiu a célebre frase do Dr. Oliveira Salazar. Para Angola Já…! E em força...!

O último batalhão que terá passado pela Cordoaria terá deixado o espaço inabitável com a sua manifestação de protesto. Pelas ruas ouvia-se o sussurro de “Angola é nossa…”, “Angola é nossa...”.

Um amigo da minha aldeia veio ter comigo a Lisboa a pedir para o levar ao Quartel de Infantaria 1 para onde tinha sido recrutado, ao tempo localizado na Amadora. Quando ao fim de um mês o fui procurar, já o amigo João estava em Angola a defender a Fazenda Tentativa.

O objectivo primeiro de mais este pequeno retalho é deixar uma homenagem a todos aqueles, em especial às mães, que tanto sofreram, que não pegaram em armas para defender os ideais da Pátria, mas que na retaguarda sofreram bem mais do que nós. Éramos jovens, tínhamos uma maneira diferente de encarar a realidade que se nos deparava, alternamos momentos de sofrimento com bons momentos que ainda hoje recordamos com saudade. Somos pais, alguns são avós e isso leva-nos facilmente a compreender esse sofrimento de ansiedade permanente. Aqueles que nos viram partir e que carinhosamente nos receberam, merecem que nos curvamos em sua memória.

Sou pai de uma filha e avô de um neto a caminho dos 19 anos. Não consigo imaginar-me a assistir a uma despedida do meu neto a caminho de uma Guerra como foi a Guerra do Ultramar pela qual todos nós passámos.

Aconteceram situações de tal maneira chocantes que marcaram muitas pessoas para o resto da sua vida.

Permitam-me que recorde apenas duas que também me marcaram.

Uma esposa faz uma viagem de Lisboa a Bissau, para ir ao encontro do seu marido. Uma vez na Guiné, faz mais uma viagem até Farim. O seu marido estava a comandar a Companhia que estava sediada no chamado K3 que ficava a três quilómetros de Farim, mas bem dentro da mata do Oio. Para chegar mais depressa à margem esquerda do Rio Cacheu o marido, ansioso para abraçar a sua esposa, pede ao condutor para ser ele a conduzir. A meio do percurso uma mina anticarro atira pelos ares os ocupantes da viatura.

Esta ocorrência vitimou o marido que vinha ao encontro da sua esposa. O condutor teve ferimentos ligeiros. Ninguém foge ao seu destino.

Esta enorme tragédia que terá deixado de luto duas famílias, teve lugar num espaço que eu percorri sozinho para me encontrar com um conterrâneo que estava na Companhia que estava a construir o acampamento do K3.

Uma segunda situação muito menos marcante, mas de algum modo chocante e relacionada com as mães que tanto sofreram.

No dia 5 de janeiro do ano de 1996, uma colega de trabalho comunica-me telefonicamente de que não iria comparecer ao serviço porque tinha falecido a sua tia, mãe do seu primo falecido em Angola. O seu primo era o Alferes Manuel Luís Kágado, natural de Évora.

Fui consultar a minha lista dos mortos na Guerra, e verifico que esta mãe faleceu no mesmo dia em que o seu filho tinha sido morto. O Alferes Kágado foi morto em combate em Angola no dia 5 de janeiro, igualmente numa sexta-feira, do ano de 1968.

Assiste-se a algumas queixas de falta de reconhecimento por parte dos Governos presentes depois de terminada a Guerra. Convém não esquecer de que a atitude dos Governos tem estado na mesma linha do reconhecimento dos antigos combatentes para com os seus antepassados.

Foi anunciado, faz poucos dias, uma homenagem às mães, que irá ter lugar na Escola Secundária de Sacavém no dia 17 de outubro. Concordo plenamente com a iniciativa, embora a considere bastante tardia. Como se diz em bom português, “Vale mais tarde que nunca”.

Os militares mobilizados tinham direito a 10 dias de férias para se irem despedir do pai, da mãe, dos irmãos, da namorada, alguns da esposa e restante família que muitos deles não voltariam a ver.

Recorde-se um altar que fica do lado direito da porta de entrada para a Capela dos Ossos no Convento de São Francisco na cidade de Évora, onde não havia espaço para mais fotos de militares que ao tempo se encontravam em cenários de guerra.

A compreensão para com determinadas situações nem sempre era a mais recomendada. Na CART 730 estava um soldado natural de Peniche que era pescador na vida civil. Não tinha grandes habilitações literárias, mas era detentor de muita cultura. Era corajoso e destemido o que não agradava muito ao comandante da Companhia. Era casado e foi pai já depois de estar na Guiné. Como tinha direito a Abono de Família mandou ir a certidão de nascimento do filho que não conhecia. Quando se dirigiu à Secretaria para entregar a Certidão de Nascimento ouviu uma frase que não me atrevo sequer a transcrever.

O amigo Peniche que não era de temperamento fácil perdeu o seu poder de encaixe, fez asneira e acabou por ser punido com pena de prisão disciplinar.

No contexto de partidas e chegadas o Artur foi um sortudo. Estava em Lisboa quando foi mobilizado e para a família estar em Lisboa ou na Guiné não era uma diferença significativa. Namorada também não tinha.

Embarquei no cais de Alcântara subindo sozinho a escadaria do Timor com uma enorme carga de anginas e um frio de rachar. Ia de tal maneira maltratado que quando cheguei ao cimo da escada houve um Oficial que me disse: - Vais para a guerra nesse estado… Vai, mas é para casa.

A bordo do Timor seguiu também as Companhias 763 e 762, onde ia integrado o nosso camarada Furriel Mário Fitas. Eram as primeiras companhias a partir com farda camuflada. Por essa razão recebem a designação de Periquitos.

Depois de estar na Guiné também tive direito a algumas Madrinhas de Guerra. Uma delas era Governanta em casa de uma Alta Individualidade. Era a senhora D. Amélia, que já não era propriamente uma teenager, mas que me enviou vários livros. Recebi, enviados por ela toda a coleção do Padre alemão Tihamer Toth, para além de muitos outros.

Como tive de ficar mais seis meses na Guiné, mandei por um amigo da terra, uma mala cheia de livros.

Durante todo o tempo de Serviço Militar fui ouvindo sempre os queixumes dos camaradas de armas muitos dos quais não se me aplicavam, mas nem por isso deixava de os sentir, mas de uma maneira bastante diferente.

Assisti muito recentemente, durante um almoço de antigos combatentes da Guiné, em que um dos presentes na mesma mesa, já com 83 anos, não conteve as lágrimas ao recordar a presença dos seus pais durante a sua partida para a Guiné.

A perda de familiares durante a ausência, era bastante dolorosa, mas não havia nada que permitisse ultrapassar a situação.

Quando em 9 de fevereiro de 1967 entrei no Uíge, encontrei logo um velho colega de trabalho e amigo que fazia parte da tripulação. Era o cozinheiro da Messe dos Oficiais Maquinistas do Barco. Durante toda a viagem de regresso nunca compareci no refeitório.

O desembarque teve lugar no cais de Alcântara no dia 14 de fevereiro, dia dos namorados. Tal como na partida também à chegada não estava ninguém à minha espera que eu desse por isso.

Apenas uma nota final: durante o meu tempo de Serviço Militar, nasceram os meus três irmãos mais novos. A produção era excelente.

Artur António da Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 29 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28387: Retalhos da vida militar (11): Levar a carta a Garcia (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Guiné 61/74 - P28408: Para bom observador, meia palavra basta (10): Gadamael, 2 de junho de 1973, CCP 122/ BCP 12: Usar ou não usar o capacete, eis a questão... (António Dâmaso / Carmo Vicente / Bernardino Sena)

 








Foto nº 1A , 1B, 1C, 1

Guiné > Região de Tombali  > Gadamael > CCP 123 / BCP 12 > 2 de junho de 1973 > Op Dinossauro Preto > Desembarque em LDM

Foto original, a preto e branco (Fonte: História do BCP 12 + Página do Facebook "Paraquedistas Não São Arreamchos,. 8 de outubro de 2025) + "A Última Missão, de José Moura Calheiros (Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pp. 512/513 e 531) (Com a devida vénia...) 

 Restauro, melhoria técnica e colorização digital: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI) (2026)




Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Op Dissaurso Negro > CCP 122 / BCP 12 >  2 de junho de 1973  >  Desembaeque

Fotos original, a preto e branco,  de baixa resolução, publicada pelo António Dâmaso,oriunda da Hstória do BCP 12.  Disponível também no livro "A Última Missão, de José Moura Calheiros (Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pág. 525) 


Restauro, melhoria técnica e colorização digital: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google) (2026). 


1.  Sabemos que os páras levaram capacetes de aço para Gadamael, no âmbito da Op Dinossauro Negro (2 de junho - 17 de julho de 1973). E que os usavam, nas valas e abrigos que tiveram de escavar, por sua conta e risco.  Os paraquedistas detestavam o capacete. Pelas imagens que temos, do desembarque de alguns Gr Comb da CCP 122  / BCP 12, muitos preferiram levar o "quico", a "boina" ou o "chapéu de pano" (que era usado desde 1972).

Segundo José Moura Calheiros, na altura 2ª cmdt e oficial de operações do BCP 12, a ordem, aparentemente absurda, foi dada, logo à saída de Bissau, pelo comdt da CCP 122, o então cap pqdt Terras Marques. Foi por todos considerada "disparatada, mesmo desumana". Não era normal usar-se o capacete no CTIG, era "incómodo e pesado!"... Nem pelos páras, comandos e fuzas, nem por ninguém dos "infantes" e demais tropa do "arremacho" ou "tropa-macaca!.

"Ao chegar a Gadamael deu instruções para ninguém, em nenhuma circunstância, o tirar". Gadamael estva a ferro e fogo e sujeito a ataques cerrados e certeiros da artilharia pesada do PAIGC. Ele próprio deu o exemplo. "Ao fim do dia já podia ostentar , a quem o visse, uma enorme amolgadela  no capacete, provocada pelo estilhaço de uma granada que vitimou mortalmenteo homem que estava a seu lado"... Entretanto, ao fim de alguns dias, a malta da CCP 122 substitui o capacete pelo 'quico' ou pelo 'chapéu de pano' (vd. "A Última Missão, op. cit,, 2010, pp. 526/527).

Não é preciso ser um "bom observador" (*), para verificar, pelas fotos acima, que muitos paraquedistas não cumpriram a ordem do seu comandante, na hora do desembarque. (Mesmo sabendo que as cópias originais tinham fraca resolução, e o  restauro digitakl feita por recurso ``a IA pode distorcer pormenores, e nomeadamenmte feições.)

2. Vejamos publicar alguns excertos de relatos dos acontecimentos desse tempo, que corresponde à  conhecida Batalha dos 3 G (Guidage, Guileje e Gadamael) e que se estendeu peloes meses de maio, junho e julho de 1973. Pelo volume de efetivos e quantidade de armamento usados pelos dois lados, NT e PAIGC, bem como pelo número de baixas, terá a sido a maior batalha da guerra colonial / guerra do ultramar no CTIG. Mas, na realidade, foi mais curta: José Moura Calheiros aponta a data de 23 de junho de 1973 como data da vitória, definitva e inequívoca,  das NT  sobre o PAIGC (op. cit., pág. 540).

Como sempre há detalhes, nas narrativas dos antigos combatentes, que não coincidem de todo. É o caso do uso dos capacetes e também do meio de  transporte usado de Cacine para Gadamael: LDG, LDM, LFG, zebros...

Fica o leitor convidado (ou desafiado...) para comentar (*).


(i) António Dâmaso  (1940 - 2026) (1º srgt pqdt, CCP 121 /BCP12, 1972/74 ; natural de Odemira 
 

(...) No dia 2jun73, chegou a Gadamael Porto a CCP 122, depois a CCP 123 a 4jun73 e a minha Companhia, a CCP 121, ainda não completamente refeita dos acontecimentos de Guidage, embarcou no dia 11jun73 pelas 23h30, no cais de Bissau, na LDG Bombarda, rumo a Cacine aonde chegámos no dia 12 de madrugada. Fomos transferidos para um Navio Patrulha (LFG) que nos levou até perto de Gadamael Porto.

Fizemos transbordo para botes de borracha e sintex em virtude da maré estar baixa e da zona do cais estar a ser atacada. 

Fomos deixados na margem mas dentro de água num braço do rio oposto ao cais, choviam granadas que entravam na água à nossa frente mandando um repuxo de água pelos ares.  Primeiro “rebentavam”,  depois ouvia-se o silvo da trajectória e só mais tarde a saída. 

Chamávamos-lhe "supersónicas" , era um tipo de granadas a que não estávamos habituados, mais tarde vim a saber que se tratava dum canhão 130. Não houve estragos por se enterrarem no lodo, fez-me lembrar cenas do filme “ O dia mais longo”, a uma escala muito reduzida (...) (**)

(...) Nós,  nos intervalos quando não estávamos no mato, procuravámos passar o tempo jogando às cartas, loto ou qualquer outro entretenimento. Ele naquele dia queria loto, eu olhei para a altura do Sol e depois para o relógio, disse-lhe que não porque estava na hora do ”lanche”. Uns chamavam-lhe "lanche",  outros chamavam-lhe “o chá das 5”. 


Fui buscar o capacete e a arma e dirigi-me à vala, o pessoal do Pelotão lá estava. (...) (***)


(ii) Carmo Vicente (1º srgt pqdt, CCP 122/BCP 12,  CTIG, 1972/74, DFA, escritor, natural de Arganil, vive em Almada) (****)


(...) Eram aproximadamente dez horas da manhã quando saímos de Cacine com rumo a Gadamael. Desta vez o transporte foi feito em LDM (lancha de desembarque médio), que por serem mais pequenas eram mais facilmente manobráveis no rio que ia estreitando à medida que penetrava em terra. Conforme nos aproximávamos ia-se também acentuando o nosso nervosismo que, em alguns de nós, era já perfeitamente visível. Levaríamos connosco, o equipamento necessário para dois dias. Tudo o resto ficou nas LDM.

A quatro ou cinco quilómetros de Gadamael Porto, passamos ordenadamente das LDM para os Zebros (botes de borracha com motor fora de borda) dos fuzileiros. A partir dali, era extremamente perigoso continuar nas lanchas. Os Zebros, muito mais pequenos e de fácil manobra, permitiam-nos um desembarque rápido debaixo de fogo.

Pela primeira vez, desde há muitos anos, foi ordenado o uso do capacete, que apenas tinha sido usado nos primeiros meses da guerra em Angola. Fiquei irritado com esta ordem. O capacete é, neste estilo de luta, um apêndice que não se justifica de modo nenhum e que não compensa o esforço que o combatente despende para o aguentar. 

Pensei, com uma certa dose de humor negro, que a ordem para usar capacete mais não servia senão para nos dar um aspecto mais viril e mais guerreiro, frente aos militares que em Gadamael, perfeitamente desorganizados, corriam em todas as direcções e tentavam meter-se à força nos barcos que nos levavam a nós.(...)


(iii) Bernardino Sena (natural de Portimão, esteve 4 anos na Marinha, 1970/74); antigo tripulante da LFG Argos, junho de 1973):

(...) Tenho esta imagem na minha memória desde junho de 1973.

A LDM, na foto, esteve abordada à LFG, NRP Argos, navio onde eu fazia parte da guarnição, na altura fundeada no rio Cacine, frente a Gadamael Porto.

Após eu ter feito o quarto à máquina das 4 às 8, fui descansar um pouco, até antes da hora de almoço, ao vir ao convés por essas horas, deparo-me com essa lancha de desembarque abordada por estibordo e dentro do poço vejo um pelotão de militares, formados na posição de "à vontade", com equipamento de combate e capacete de aço na cabeça.

Ainda meio confundido com o que via, pois até aquele momento nunca tinha presenciado nada semelhante, levei algum tempo a recuperar tentando identificar que "tropa era aquela".

Trocando conversa com camaradas de serviço ao convés, fiquei então a saber que faziam parte do Batalhão de Paraquedistas, os mesmos heróis que já tinham dado o seu melhor, no norte da Guiné, onde, infelizmente, tinham perdido alguns camaradas na zona de Guidage/Binta/Bigene, onde nós também andámos envolvidos a partir do rio Cacheu dando apoio aos destacamentos de fuzileiros que também por lá combatiam.

Que tristes dias aqueles de Maio, Junho e Julho de 1973. (...)


(Seleção, revisão / fixação de texto, links, negritos, título: LG)

Guiné 61/74 - P28407: In memoriam (591): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VI: Recordações amargas de Gadamael (3)







Foto nº 1, 1A, 1B, 1C

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Maio / junho de 1973 > BCP 12 > Aquartelamento > O estado em que ficou uma "morança",  após mais um ataque do PAIGC, cuja base de fogos se situava para lá da fronteira, já na Guiné-Conacri. As estruras edificadas eram, em geral, frágeis, construídad com tigolos de adobe e cobertura de chapa de zinco.
 








Doto bto nº 2, 2A, 2B

Guiné > s/l  (Bissalanca, BA 12 ?) > Gadamael > 1973 > BCP 12 >  Rampa de lançamento de foguetões de 122mm, capturada pela CCP 122 / BCP 12  em 1 de janeiro de 1973 durante a acção “Tumarú” (Foto:  História do BCP12).

 Fotos originais, a preto e branco, publicados pelo António Dâmaso, a nº 1, do seu arquivo pessoal, a 2ª oriundas da Hstória do BCP 12.

Restauro, melhoria técnica e coloerização: LG + IA (ChaGPT / Opem AI) (2026)

1. Em 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do seu 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus  homens no Cufeu, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). 

Ele escreveu , na primeira pessoa, como viveu e sobreviveu à batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo doente.   

Este texto, que se segue, foi inicialmente publicado no Blogue Especialistas da Base Aérea 12,
Guiné 65/74 > segunda-feira, 11 de abril de 2011 > Voo 2244: Gadamael Porto (3).
Subtítulo: Pontualidade.

Nesses longos 45 dias que durou a batalha de Gadamael, também houve lugar a momentos de descontração e de bom humor...Afinal, a morte coabita sempre com a vida. E a vida, afinal, é um jogo de sorte e azar. Como o loto.

 É agora republicado o texto, com melhoria das imagens (que o acompanhavam, a preto e branco), em homenagem a este camarada do BCP 12 que há dias se depediu da Terra da Alegria e que em vida nos honrou com a sua presença, ativa e produtiva, na Tabanca Grande.  É também a nossa forma de mostrar o respeito e o apreço  que  nos merecem todos os nossos camaradas que participaram na Batalha dos 3 G (Guidaje, Guileje e Gadamael) (maio-julho de 1973).



1º srgt pqdt António Dâmaso
Recordações amargas de Gadamael (3)

por António Dâmaso 

(1940-2026)


Ao longo da minha vida sempre tenho procurado ser pontual. Estávamos no “inferno” de Gadamael Porto onde diariamente éramos brindados com várias flagelações de armas pesadas diversas. Os ataques eram tantos que já estava habituado aos seus horários. No entanto,  em virtude da sua precisão, todas as granadas caiam dentro do aquartelamento, se não queríamos lá ficar, tínhamos de ter muito cuidado.

O meu amigo e camarada Jota tinha chegado à Província quando eu estava no outro inferno chamado Guidage, tinha feito uma comissão em Moçambique em 1966/68, pelo que não estava familiarizado com o chamado ”Vietname Português”. O  Jota tinha sido Condutor Auto 
tal como eu, era do meu Curso de Primeiros Socorros, de Cabos, de Furriel, lançamento de Pessoal e Material, de Mecânica, de Técnicas de Instrução e foi parar ao meu Pelotão (3º / CCAÇ 121 / BCP 12.

Estava no seu primeiro destacamento, não tinha ainda avaliado a dimensão daquela guerra. Um dia à tarde eram perto das 17 horas, ele entre a morança de adobo com telhado de zinco que nos abrigava da chuva e a vala, tinha o pano de tenda estendido e chamou-me:

 
− Tóino, anda para aqui jogar ao loto.

Nós,  nos intervalos quando não estávamos no mato, procuravámos passar o tempo jogando às cartas, loto ou qualquer outro entretenimento. Ele naquele dia queria loto, eu olhei para a altura do Sol e depois para o relógio, disse-lhe que não porque estava na hora do ”lanche”. Uns chamavam-lhe "lanche",  outros chamavam-lhe “o chá das 5”. 

Fui buscar o capacete e a arma e dirigi-me à vala, o pessoal do Pelotão lá estava.

Ele ainda insistiu mas eu disse-lhe que não porque elas (as granadas) tinham olhos. O bom do Jota, contrariado,  acabou por seguir o meu exemplo mas não tão depressa como devia. Foi buscar o capacete e, quando se dirigia para a vala,  foi projectado para a mesma, ajudado pelo sopro provocado pelo rebentamento de uma granada de foguetão 122mm que caiu pouco mais de um metro à frente do pano de tenda,

.
Quando acabou o ataque o Jota foi ver os estragos, não me recordo se o pano de tenda estava estendido no enfiamento da morança, se esta sofreu danos, mas duma coisa tenho a certeza, do pano de tenda e do equipamento pouco restou. 

O Jota,  a chorar de raiva,  começou aos pontapés ao que restava do seu equipamento, dizendo:

− Olha o que eles me fizeram ao equipamento!

Eu, a gozar com ele,  disse-lhe:

−  Com que então querias loto?!

Afinal às vezes respeitar a pontualidade pode salvar vidas. Se tivesse ido na conversa dele tínhamos lá ficado os dois. Mais uma vez não tinha de ser. A partir dali o camarada Jota passou a respeitar o horário imposto pelos guerrilheiros do PAIGC e teve de se mentalizar que aquela guerra era a sério.

Quando encontro o Jota pergunto-lhe se vai um joguinho de loto... Ele responde:

− Tás parvo, ou quê ?!

Saudações Aeronáuticas
A. Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28406: Em busca de... (336): Camaradas de Júlio Lopes Santos, ex-Soldado Atirador da Companhia de Artilharia n.º 6552/72 (Cameconde, Cabedú e Cufar, 1973/74)


Foto do nosso camarada Júlio Lopes Santos, Soldado Atirador do 3.º Pelotão/3.ªSecção da CART 6552/72
Foto de antigamente de Júlio Lopes Santos
Foto actual de Júlio Lopes Santos

Fotos ©: editadas e legendadas por CV.


Júlio Lopes Santos está vivo e gostaria muito de reencontrar antigos camaradas e fotografias – CART 6552/72 – Cameconde


1. Mensagem de Lúcia Abel Varelas, enviada ao nosso Blogue em 3 de Outubro de 2026:

Exmo. Sr. Luís Graça,

Chamo-me Lúcia (namorada de David, um dos filhos de Júlio Lopes Santos) e estou a tentar reconstruir o percurso militar de Júlio Lopes Santos que é o pai de David, Manuel e Bruno, que esteve na Guiné durante a Guerra Colonial e pertenceu, segundo as informações que possuímos, à CART 6552/72 – “Honra e Dever”, no 3.º Pelotão, 3.ª Secção.

Júlio Lopes Santos nasceu a 27 de agosto de 1951, em Friões, concelho de Valpaços. É filho de Manuel dos Santos e Maria Silveira Lopes.

O seu número de identificação militar é 12445972. Foi incorporado no RI 13, em Vila Real, no dia 23 de outubro de 1972, tendo posteriormente seguido para a Guiné.

Ao pesquisar a história da CART 6552/72, descobri o vosso blogue e, em particular, os testemunhos e fotografias de Cameconde, incluindo os contributos de antigos militares desta companhia. Foi muito emocionante encontrar imagens dos locais onde Júlio terá vivido durante aquele período.

Gostaria muito de saber se algum antigo camarada da CART 6552/72, particularmente do 3.º Pelotão / 3.ª Secção, se recorda de Júlio Lopes Santos ou se possui fotografias, histórias ou outras informações sobre ele.

Junto a esta mensagem envio quatro fotografias de Júlio: uma fotografia militar da época, que consta do seu documento militar, outras fotografias quando era mais novo e uma fotografia atual. Autorizo a publicação destas quatros fotografias no blogue, caso considerem que isso possa ajudar a identificá-lo e a encontrar antigos camaradas.

Seria muito especial para nós conseguir encontrar fotografias de Júlio na Guiné, sobretudo em Cameconde, e eventualmente entrar em contacto com alguém que tenha servido com ele e ainda se recorde daqueles tempos.

Se possível, agradecia também muito a ajuda do Manuel Domingos Ribeiro, antigo camarada da CART 6552/72, que vi referido várias vezes no blogue e que parece possuir muitas memórias e fotografias da companhia.

Muito obrigada por todo o trabalho de preservação da memória dos antigos combatentes da Guiné e por qualquer ajuda que nos possam dar.

Com os melhores cumprimentos,
ABEL VARELAS Lúcia


2. Comentário do editor CV:

A CART 6552/72 tem só 8 entradas no nosso Blogue e um único confrade, o Ex-Fur Mil At Art MA, Manuel Domingos Ribeiro,[1] a quem vamos dar conhecimento da petição do camarada Júlio Santos.

Esperemos que apareçam mais camaradas da 6552/72, gente ainda relativamente nova, para iniciarem contactos e relembar memórias.

Quanto aos camaradas, Manuel Ribeiro e Júlio Santos, "guerreiros do fim do império", desejamos saúde e longa vida. Se encontrarem outros camaradas, tragam-nos até nós porque estamos sedentos de novas estórias.

Guiné 61/74 - P28405: FAP (127): O elogio dos sargentos do quadro do BCP 12 (Manuel Peredo, ex-fur mil pqdt, CCP 122/BCP 12, CTIG, 1972/74)

 


Foto nº 1, 1A, 1B 


Guiné > CCP 122 / BCP 12 >  s/l  > s /d > Da esquerda, para a direita, o fur mil pqdt  Fernandes, cabo-verdiano; ao centro, o 1º srgt pqdt Carmo Vicente ; à direita, o Manuel Peredo, fur mil---Os três sargentos do 4º Pelotão do CCP 122 estão equipados com armamento do PIAGC...O Manuel Peredo ostenta o RPG-2, o temível LGFog usado pelos guerrilheiros do PAIGC, a par do RPG-7. 

O que será feito dos restantes camaradas ? O Fernandes, o Carmo Vicente ?... Com este último ainda falei há muitos anos atrás, ao telefone, mas nunca conseguimos juntarmo-nos, para "partir mantenhas" e almoçar, na ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, que ele frequentava. Era meu vizinho, no Lumiar, quando eu trabalhava na Escola Nacional de Saúde Pública / Universidade NOVA de Lisboa. (LG).


Foto (e legenda): ©  Manuel Peredo (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google AI)]


1.  A integração do Regimento de Caçadores Paraquedistas no exército foi um duro golpe na sua autoimagem...Estamos a falar de 1994...1 de janeiro de 1994. Claro que estes continuam a ser uma "trepa de elite", como sempre foram...E quem serviu nos "páras" continua a ter muito orgulho nessa pertença. (*)


Os "BoinasVredes" sempre pertenceram à FAP (Força Aérea Portuguesa) dersde a sua criação, em 23 de maio de 1956, e foi sob este ranmo das Forças Armadas que  combateram galhardamente na guerra colonial.

A  transição definitiva e irreversível foi anunciada no início dos anos 90 e concretizada no primeiro dia de 1994, mantendo-se no Exército até aos dias de hoje. Atualmente, a principal unidade herdeira deste legado é a Regimento de Paraquedistas integrado na Brigada de Reação Rápida,

O Manuel Peredo, ex-fur mil pqdt (CCP 122 / BCP 12, Brá, Bissalanca, 1972/74), vive em França e deixou aqui, em tempos, um justo elogio aos sargentos do quadro do BCP 12 (*), da época da guerra colonial / guerra do ultramar (**).. Homens já esquecidos com o António Dâmaso, o Carmo Vicente, o Manuel Rebocho, e muitos outros.

(...) Se eu tivesse um décimo do talento literário de alguns bloguistas,teria uma participação mais activa. Desde que descobri o blogue, não consigo deixar passar um dia sem o consultar,o que não é muito do agrado da minha mulher e devem imaginar porquê.

Tudo o que aqui se diz sobre Gadamael me toca profundamente porque também eu vivi esses dias terríveis, mas aqueles que vieram de Guileje para Gadamael deviam ter ficado afetados psicologicamente para toda a vida.

O que o João Seabra, José Casimiro Carvalho, Manuel Reis e outros dizem sobre os paraquedistas do BCP 12 deixa-me imensamente orgulhoso de ter pertencido a essa tropa especial. O João Seabra diz que não compreende porque é que nenhum pára foi condecorado pelos serviços prestados em Gadamael. Se calhar ninguém se destacou em especial. Se o José Casimiro Carvalho não teve direito a nada, eu e outros também não merecíamos ser louvados ou condecorados.

O João Seabra faz bem em enaltecer o trabalho dos sargentos paraquedistas que pertenciam ao quadro. Todos eles já tinham uma, duas ou mais comissões no ultramar. Mesmo os oficiais e furrieis milicianos aprendiam muito com eles.

Faço aqui um reparo. Eles não eram promovidos por mérito, salvo talvez em raras exceções. Todos eles começaram como simples soldados e os melhores eram convidados a seguir a carreira militar. Os que aceitavam, tiravam o curso de sargentos, findo o qual passavam a cabos aprovados e depois iam subindo de posto em função dos anos de serviço,o mesmo acontecendo com os milicianos (que ingressavam no quadro).

O 
 Carmo Vicente  foi meu colega no quarto pelotão da CCP 122 / BCP 12 e acho que chegou a ser comandante do mesmo pelotão durante algum tempo. Quando havia falta de alferes milicianos (ou tenenets do quadro), os pelotões eram comandados pelos sargentos mais antigos,mas apenas por um tempo limitado. Raramente um sargento era operacional 24 meses.

Acalento a esperança de ainda um dia poder participar num encontro nacional para poder trocar opiniões, em especial com o João Seabra, José Casimiro Carvalho, Manuel Rebocho, Victor Tavares e outros. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 2 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24361: FAP (126): A que altura (quantos pés) voava a DO-27 quando fazia de PCV (Posto de Comando Volante)? (Fernando de Sousa Ribeiro)

(**) Vd. poste de  26 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4251: FAP (26): Em louvor dos sargentos pára-quedistas do BCP 12 (Manuel Peredo, ex-Fur Mil CCP 122, 1972/74)


Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Foi bom revisitar esta obra pioneira da literatura da guerra colonial. Dos autores escolhidos, alguns irão figurar como figuras proeminentes da literatura contemporânea, caso de António Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz, Lídia Jorge, Álvaro Guerra ou João de Melo. Este último, o organizador da antologia, deu também voz a escritores nacionalistas que se iriam impor como nomes sonantes, caso de Luandino Vieira ou Pepetela. Ninguém ignora que de 1988 à atualidade este subgénero literário cresceu desmesuradamente, falta-nos um João de Melo para nos dar uma panorâmica atualizada da evolução desta literatura, na multiplicidade das suas vozes. Porque é indispensável ir acompanhando tudo quanto se escreveu em Angola, Guiné e Moçambique, e se os diferentes candidatos a organizadores não se sentirem com traquejo de se meterem na empreitada a uma só voz, então que façam a organização a três vozes. Precisamos de, como de pão para a boca, de tal iniciativa.

Um abraço do
Mário


Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial – 2

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€, tanto a edição do Círculo de Leitores como a de Publicações Dom Quixote.

Este segundo volume abre uma apresentação histórica da guerra em Moçambique feita por Joaquim Vieira, e desse teatro de operações vamos retirar um texto assinado por Carlos Vale Ferraz, que está inserido na obra-prima deste escritor intitulada Nó Cego, primeira edição em 1972; muda-se de direção e Joaquim Vieira contextualiza os acontecimentos da Guiné, há belas páginas de Álvaro Guerra, como também de José Martins Garcia, autor de uma obra de referência, Lugar de Massacre; de novo Joaquim Vieira apresenta uma exposição sobre as forças armadas portuguesas, irão intervir escritores como Lobo Antunes, Lídia Jorge ou João de Melo.

Carlos Vale Ferraz recenseou admiravelmente o modo como terá sido apresentada a operação Nó Górdio, parecia ser a solução mágica para acabar com a guerra de guerrilhas em Moçambique:
“Meus senhores, hoje é um dia histórico! – assim começou o general antes de prosseguir:
- Vamos dar início ao planeamento final da operação que desequilibrará decisivamente a situação sociomilitar em Cabo Delgado a nosso favor. Vamos dar a estocada de morte no coração do inimigo no planalto dos Macondes. – Sorriu a observar o efeito das palavras na assistência e continuou:
- Nome de código: Nó Cego, classificação de segurança: muito secreto. Com esta operação inauguraremos a época da guerra de grandes meios em ordem ao aniquilamento total do IN. Vamos concentrar o nosso esforço aqui!

Quando o general pronunciou ‘aqui!’, um coronel atarracado, de barba cerrada numa queixada tetraédrica a fechar uma cabeçorra demasiado grande em relação ao corpo, apontou com uma lapiseira extensível três círculos desenhados a cores sobre a mica que cobria os mapas que ele próprio destapara anteriormente, com gesto de contrarregra a correr a cortina do palco.

- Graças aos esforços conjugados das repartições de informações militares e da DGS é agora possível saber a localização exata das três grandes bases IN no planalto dos Macondes: a Gungunhana, a Moçambique e a Nampula. Graças às essenciais modificações em comandos, com a vinda do senhor brigadeiro para o setor de operações e do senhor tenente-coronel para o Batalhão de M., a situação alterou-se profundamente para melhor. – O General fez uma pausa, que o coronel aproveitou para colocar novos mapas, e prosseguiu:
- O conceito da operação é o seguinte: cerca-se esta zona – o coronel apontou -, aproveitando as estradas existentes e construindo com a engenharia as que faltam, para fechar um quadrado de cerco que será guarnecido com emboscadas permanentes realizadas por tropas normais e patrulhamentos regulares com esquadrões de reconhecimento. Quando a ratoeira estiver montada, quando ninguém puder entrar ou sair, lançaremos ao assalto das bases as nossas companhias de tropas especiais, os comandos para a base Alfa, nome de código de Gungunhana, os paraquedistas para a Bravo, a Moçambique e os fuzileiros, em segunda fase, para a Charlie, a Nampula. – Os oficiais do Estado-Maior e os civis das informações abanavam a cabeça de aprovação. – Há dúvidas? - Perguntou o general sem as esperar, continuando:
- Dentro deste quadrado tudo o que mexer é inimigo, será a guerra total! Nesta guerra, meus senhores, não existe a clássica divisão estabelecida entre povos civilizados de cultura cristã ocidental, que distingue combatentes e civis não beligerantes, nesta guerra as próprias populações, de acordo com a estratégia marxista, são o sustentáculo de subversão. Assim, todo o ser vivo encontrado é um inimigo a abater. Esta é uma luta de vida ou morte!”


Recorda-se ao leitor que João de Melo entendeu fazer esta antologia a quatro mãos, ou seja, introduziu alguns textos de escritores africanos ligados às chamadas lutas de libertação nacional.

Antes das suas publicações em livros, Álvaro Guerra publicou um conto intitulado “O Tempo Em Uane” em Antologia do Conto Ultramarino, organização de Amândio César, em 1972 e, anteriormente, em Histórias Breves de Escritores Ribatejanos, Antologia organizada por António Borga, Lisboa 1968. A obra consta neste volume de Os Anos da Guerra, mas preferi escolher um texto de um dos seus primeiros livros, intitulado O Disfarce, que teve a sua primeira edição em 1978:
“Sugeriram-lhe que deitasse fogo à aldeia antes de se irem embora e ele recusou porque a sua guerra não era a mesma em que se estava a bater, a sua ainda não tinha começado, seria uma guerra de ganhar ou perder e não aquela, se bem que duvidasse que essa outra guerra alguma vez chegasse. O mais rapidamente que puderam iniciaram a corrida desigual através das picadas traiçoeiras, corrida contra a surpresa que estaria montada algures no seu caminho (…) Foi logo a seguir. Caiu em cima deles a surpresa, uma chuva de ferro, estampidos e silvos de ar vergastado e quedas e ramos partidos e pragas e explosões e o gargalhar fantasmagórico das rajadas matadoras e o homem ao lado dele com o sangue no ventre e nas mãos que disse ‘Ai, mãe!’ e morreu.

Atrás da sua árvore levou a mão ao bolso e tirou-a, a reluzente granada com quem os seus dedos andavam calhados de amor e vício, puxou a argola amarela num repente de furor e ficou um momento a mirá-la, a cavilha apenas presa pelos dedos brancos de força enquanto, desfocado, o cadáver do ventre sangrento o olhava fixa e friamente; jogou-se para a luz, para lá do escudo eleito, e atirou-a para de onde vinha a morte sonora e invisível que semeava surpresas de sangue. Por um momento foi a rainha da metralha e da luz ondulante de calor e do inacessível outro lado da estrada e foi esperança também, soturna esperança subindo numa nuvem de pó castanho após deflagrar e se desfazer como um velho astro em meteoritos escaldantes. Mas já não estava sobre o coração, nem à cintura, nem no bolso, e ele ficou terrivelmente tranquilo, monstruosamente tranquilo e sozinho, a pensar na mulher de quem gostava, na adolescência provinciana e em certos lugares seus preferidos e em como eles seriam se e quando lá voltassem, enquanto, tranquilamente, disparava a metralhadora. Tudo estava aviado, até o esquecimento.”


Outro autor que se impôs nas décadas de 1970 e 1980 foi um ex-oficial que teve comissão na Guiné, José Martins Garcia, irá ter obra extensa e variada, mas houve um livro que então ganhou notoriedade e ainda hoje é motivo de estudo académico, intitulado Lugar de Massacre, com primeira edição em 1975, distingue-se por uma inteira rebeldia, quadros de regabofe, com tiradas delirantes, atmosferas surreais, fica aqui uma amostra dessa trama que oscila entre a sátira e o truculento:
“Eram sete, na camarata, todos por conta da Neuropsiquiatria, no Hospital Militar de Bissau, no mês de maio de 1968, gozando os benefícios do ar condicionado e da desintegração psíquica. O maior falador chamava-se Barnabé e fora enlouquecido por problemas alimentares. Contava as suas desventuras várias vezes por dia, amaldiçoando o ex-comandante do batalhão, um diabético insuportável, cujo ódio aos saudáveis atingira a demência, a ponto de punir com alguns dias de prisão todo aquele que ousasse levar para a mesa qualquer iguaria além da ementa.

- Estou vingado! – rematava o Barnabé.

Vingado pelo novo Governador, de quem já circulavam notícias contraditórias: para alguns tratava-se de mais um louco; para outros, de um justiceiro. Chegara ao batalhão do comandante diabético, vira o descalabro da unidade e prevenira: ‘Faça as malas’. Dez dias de prisão. Justiça.
- Há um mês que estou aqui, nos malucos – disse Barnabé. – Ao fim ao cabo, não se está mal. Vais ver como te habituas…

Desciam para a consulta, empijamados. Mostravam-se atulhados os corredores do hospital. Desde as pernas partidas às chagas repugnantes, desde as bochechas inchadas por abcessos dentários até às vítimas trémulas do paludismo. E havia os que, de muletas, entravam para a grande lista das vítimas das minas, sem pés, às vezes sem pernas. Um bafio monstruoso, agora acentuado pela chuva (…) – Não tenho nada contra o seu riso – disse o psiquiatra. – O riso liberta. Mas, quando puder, fale.

Voltou à camarata, ao entardecer, e reconheceu que os helicópteros eram reais. Foi até à varanda e pôde certificar-se da existência de um grande inseto acionado por hélices. Do bojo eram retirados os feridos envoltos em ligaduras. Depunham esses montes de carne humana em macas de cabos luzidios de tanto serem percorridos por mãos suadas de maqueiros. O hospital absorvia toneladas de carne esfacelada, múmias recentes, arrobas de membros partidos, porque a estação das chuvas trazia o aumento dos desastres bélicos.

Mas quem não perdia uma só de tais cenas ensanguentadas era o alferes Jardim, um novato que, antecipando-se à sorte, chegara à Guiné já absolutamente desequilibrado. Tinha amado a tal ponto os estudos de Engenharia que não lhe escapava manivela, maquineta, alavanca ou válvula sem verificação das possibilidades funcionais. Adorava a eficiência do helicóptero. Mal lhe ouvia o rumor, corria para a varanda, envergando o pijama mais porco de todo o hospital, porque a paixão pela técnica o levava a oleosos sítios, onde chafurdava, feliz, em porcaria de toda a sorte, limpando em seguida mãos sumárias ao pijama já de cor indefinida. Ficava fascinado pela máquina. Assistia, soprando entusiasticamente, à descolagem. Seguia com olhos piscos até à confusão da máquina com a bruma. E suspirava, saudoso, na despedida, todo entregue à esperança da próxima carnificina.”


Assim se põe termo a uma importante obra que se revisita com prazer, obra pioneira, com enquadramento histórico de Joaquim Vieira e uma antologia variegada de onde emergiram vultos literários como João de Melo, Álvaro Guerra, Carlos Vale Ferraz ou José Martins Garcia.

João de Melo
Carlos Vale Ferraz (1946-2025)
José Martins Garcia (1941-2002)
Álvaro Guerra (1936-2002), imagem dos Arquivos da RTP, com a devida vénia
Duas imagens retiradas do livro "Os Anos da Guerra", organização de João de Melo
Capa da edição de Os Anos da Guerra, Publicações Dom Quixote
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Notas do editor:

Vd. poste de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28403: In memoriam (590): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte V: Recordações amargas de Gadamael (2)




Foto nº 1A, 1B, 1




Foto nº 1, 1A




Foto nº 3A, 3B, 3


Legendas: 

Foto nº 1 > Gadamael Porto no tempo dos BCP 12, junho/julho de 1973,
Foto nº 2 > Vista parcial, desoladora,  do quartel de Gadamael Porto: em primeiro plano o Obus 14; o fundo, o reordenamento.
Foto nº 3 > Gadamael Material capturado pela CCP 121 / NCP 12  na acção “Cobra Ondulante” em 23 de junho de 1973
 
Guiné > Região de Tombali > Gadamael > junho / julho de 1973 > BCP 12 >
Fotos originais, a preto e branco, publicados pelo António Dâmaso, oriundas da Hstória do BCP 12 (que julgamos não ser de livre acesso na Net)

Restauro, melhoria técnica e colorização: LG + IA (Gemini / Google) (2026)



1. Em 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus homens no Cufeu, de má memória, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). A CCP 121 chegou a Gadamael, pelo rio, em em LFG e depois em LDM, a 12 de junho de 1973. Foi juntar-se às restantes subuniddaes do BCP 12: CCP 122 e CCP 123.

Ele escreveu, na primeira pessoa do singular, como viveu e sobreviveu à dura batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo doente. (À mesma CCP 121/BCP, 2º Gr Comb, pertenceu o nosso amigo e camarada Victor Tavares. ex-1º cabo pqdt,  do 2º Gr Comb, apontador de MG42, natural de Águeda.)  

Este segundo texto, sobre as recordações amargas de Gadamael, foi inicialmente publicado no Bogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > sábado, 12 de março de 2011 Voo 2197: Gadamael Porto (2)

É agora republicado, com melhoria das imagens (que o acompanhavam, a preto e branco), em homenagem a este camarada do BCP 12 que em vida nos honrou com a sua presença, ativa e produtiva, na Tabanca Grande, bem como em homenagem a todos os nossos camaradas que participaram na Batalha dos 3 G (Guidaje, Guileje e Gadamael) (maio-julho de 1973). Foram, sem dúvida,  os melhores soldados de Portugal durante toda a guerra colonial / guerra do Ultramar. Infelizmente, eram poucos, um batalhão em cada TO. No presente caso, foram eles que aguentaram e salvaram Gadamael, em maio, junho de julho de 1973.

Dâmaso, herói de Guidaje (pela sua atuação sob intenso fogo IN, na emboscada à CCP 121, no Cufeu, em 23 de maio de 1973) rompeu, em vida, 40 anos depois, uma cultura de silêncio, pudor ou  reserva que parecia impedir que certos comportamentos internos dos paraquedistas chegassem ao conhecimento público. E fê-lo sem transformar o seu testemunho numa denúncia genérica dos paraquedistas: fala de situações concretas, de pessoas e sobretudo de uma experiência pessoal  numa situação-limite.

Este excerto é particularmente importante porque não é uma acusação feita hoje por terceiros: é o testemunho, na primeira pessoa, de António Dâmaso, publicado em 2011, sobre acontecimentos que viveu em Gadamael em 1973 (entre 12 de junho e 17 de julho). Não é um testemunho contra os paraquedistas, é, precisamente, o testemunho de um paraquedista.

 Não queremos fazer uma acusão gratuita aos nossos camaradas paraquedistas do BCP 12, e muito menis um "provocação",  falando ostensivamente em  “pacto de silêncio”: nunca ouvimos, vimos  ou lemos um  paraquedista utilizar essa expressão. O que o testemunho do Dâmaso permite constatar é que  ele  quebrou o silêncio sobre aspetos negativos (ou menos positivos) da vida operacional e disciplinar do BCP 12 (problemas disciplinares, conflitos, fragilidades do comando, recusas em ir para o mato, doença, stress físico e psicológico, tratamento das praças, situações de privilégio ou outrasque pudes sem atingir a imagem de coesão e de eficácia do Corpo de Tropas Paraquedistas).

Teremos ocasião de voltar a este tema sempre delicado, mas que náo pdoe ser tabu: afinak, a guerra j+a acabou há mais de meio-século e quem a fez está a desaparecer lenta mas inexoravelmente.


1º srgt pqdt António Dâmaso, CCP 121 / BCP 12, CTIG, 1973

Recordações amargas de Gadamael (2)

por António Dâmaso (1940-2026)


Depois de municiados foi dada ordem à minha Companhia, CCP 121, de preparar para sair. O meu pelotão estava completo de graduados pelo que eu não fazia falta. Sabia que mais um homem,  ainda que debilitado, poderia ser uma mais-valia, mas tinha consciência que a minha capacidade estava muito diminuída e que em vez de mais-valia podia tornar-me num empecilho. 

Devido ao meu estado de saúde, pedi ao Comandante de pelotão para me dispensar, para ir ao médico. Disse que não era com ele,  que era com o comandante de Companhia. Este apontou para o segundo Comandante do batalhão, este por sua vez mandou-me para o primeiro Comandante. 

Aquilo caiu-me mal, até ali tinha dado tudo o que tinha, passei-me e,  numa folha de bloco de carta, fiz um requerimento a pedir para ser submetido a uma junta médica, uma vez que me queriam obrigar a ir para o mato sem estar em condições de saúde para o fazer. Não queria que os homens,  que sabe Deus como se arrastavam, tivessem de andar comigo às costas. 

Enquanto andava nestas andanças,a Companhia saiu sem mim.

Não saí e assumi a responsabilidade. Mais tarde fui chamado ao segundo Comandante para me devolver o requerimento que eu tinha entregado a pedir a junta médica. 

Fiquei à espera e só me deixaram ir ao médico no dia em que a Companhia foi descansar em Cacine. Nessa altura já o meu estado de saúde se tinha agravado mais.  Enquanto estive à espera,  fui-me aguentando como pude. Levavam-me comida que já era difícil de tragar para quem tinha saúde e apetite. 

Como não dispunha dos dois,  fui bebendo umas cervejas bem “quentinhas”,  duma caixa que tinha comprado quando lá cheguei. Cerveja mesmo quente já era um luxo, mas o instinto de sobrevivência lá me ia dando forças para me deslocar para a vala,  sempre que haviam flagelações. 

Neste espaço de tempo em que estive sem assistência, tive conhecimento de dois alferes e de um ou dois furriéis que se negaram a ir para o mato, mas não por motivos de saúde.

Algumas praças de outra Companhia,  por estarem muito debilitadas, ao não acompanharem os seus pelotões na saída para o mato, foram selvaticamente agredidas pelo Comandante de Companhia, que gostava de sovar praças indefesas e “turras” com as mãos atadas atrás das costas.
 
No Quadro do Batalhão havia um médico, mas este ficou no Posto de Socorros de Bissalanca. 
Havia um médico do Exército em Cacine, um alferes miliciano.  Só fui presente ao médico em Cacine no dia 19 de junho de 1973, puseram-me a soro e lá fiquei enquanto o soro corria. Estive a ouvir as queixas dos militares da minha Companhia, pareciam tiradas a papel químico: “Cansaço, falta de apetite, insónias, dores de cabeça, os nervos arrasados, etc.” 

De repente chegou uma catrefada de feridos da CCP 122, uns mais outros menos grave. tinham caído numa emboscada, os ferimentos era quase todos por estilhaços de granadas RPG 2. Lembro-me que um deles era sargento e ficou incapacitado. Com a chegada dos feridos as consultas foram interrompidas até fazer as evacuações para Bissau e tratar dos mais ligeiros, Depois fui medicado e fiquei em convalescença até 27 de junho de 1973.

Entretanto a Companhia acabou o curto período de descanso e regressou novamente a Gadamael Porto, eu ainda estava de convalescença, mesmo assim gostavam tanto de mim que queriam que fosse com eles. Só não fui porque o Comandante da Companhia não me encontrou, mas fui quando esta acabou.

Saudações Aeronáuticas

A. Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG

Último poste da série > 1 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28393: In memoriam (589): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte IV: Recordações amargas de Gadamael (1)