quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16532: (In)citações (102): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte IV): "Viva Médicas e Médicos Portugueses. Viva Portugal com os Negros Unidos" (sic) (carta de 15 de novembro de 2000)


Foto: © Fernando Andrade Sousa (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Torres Vedras > Barro > O Fernando Andrade Sousa, ex- 1º cabo aux enf da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71), em véspera de ir passar umas férias à Tunísia, mais o Umaru Baldé, já doente, no Hospital do Barro, nas imediações de Torres Vedras, em agosto de 2000 (e não de 2007, como erradamente foi indicado no poste P16382) (*). Foi a última vez que o Fernando (com a esposa) esteve com ele.

O Hospital do Barro (, instalado num antigo convento do séc. XVI), hoje desativado, fazia parte do Centro Hospitalar Oeste - Unidade de Torres Vedras. O Fernando lembrar-se de ele, Umaru,  ter desaconselhado, ao casal,  a viagem à Tunísia. Durante 24 anos, de 1975 a 1999,  o Umaru Baldé andou em bolandas pela África subsariana e pelo norte de África,  tentando chegar a Portugal, o que só conseguiu em 15/4/1999.

Esteve internado no Hospital do Barro em 2000 e, ao que parece, terá voltado para lá para morrer (no final do ano de 2004, segundo informação do António Fernando Marques, que foi ao seu funeral;: está sepultado do cemitério do Lumiar em Lisboa, no talhão dos muçulmanos) (**).









1. Carta do Umaru Baldé, "ex-1º Cabo [da] Força Armada Porttuguesa", datada de 15 de novembro de 2000, de agradecimento a quem o apoiou no momento difícil da sua doença (**):

(i) "obrigado minha médica [do] HJMAJ, TV - Hospital [dr.] José Maria Antunes Júnior, de Torres Vedras, ou Hospital do Barro, hoje desativado (, pertencia ao Centro Hospitalar do Oeste), a pneumologista dra. Paula Raimundo;

(ii) os drs. Júlio e Félix,  do Hospital Pulido Valente, Lisboa (onde o Umaru foi operado em 11/10/2000);

(iii)) antigos camaradas portugueses na Guiné, ex-alf mil Mário Pina Cabral (CART 11, 1969/70), ex-fur mil [António Fernando] Marques e ex-sold radiotelegrafista João Ramos [CCAÇ 12,  1969/71) (com quem trabalhou na Somague, durante 8 meses);

(iv) e ainda povo da freguesia  de Ventosa, Torres Vedras;

A carta,  escrita no dia em que teve alta do Hospital  Pulido Valente, termina com dois vivas;

"Viva Médicas e Médicos Portugueses";
"Viva Portugal com os Negros Unidos" (sic).

O Umaru Baldé diz explicitamente que teve "10 meses" internado nos hospitais portugueses, entre o Hospital Curry Cabral (, especializado em doenças infetocontagiosas) e o Hospital do Barro. de retaguarda (onde funcionava um serviço de pneumologia). O Umaru Baldé não esconde a gravidade da sua doença: a dra. Paula Raimundo, do Centro Hospitalar Oeste,  tratou-o durante 9 meses da doença pulmonar de que sofria, já estava "curado" há 2 meses dos pulmões, quando surgiu outra "doença muito grave", tendo sido referenciado para o Hospital Pulido Valente.

Na carta o Umaru Baldé diz que, desde que chegou a Portugal, em 15/4/1999,  esteve 12 meses sem trabalhar, sem tendo sequer título de residência.

Mais diz que, ao ao fim no seu exílio de 24 anos (desde que saíra da sua terra natal. em finais de dezembro de 1974),  nunca tivera confiança em hospitais que não fossem portugueses...

Tratado em Portugal, acabou por sobreviver mais alguns anos: não sabemos exatamente a data da sua morte, mas pensávamos que teria ocorrido em finais de 2004 (e não em 2007/2008, como indicado erradamente em postes anteriores).

Não temos a certeza se morreu no antigo Hospital do Barro onde, ironicamente, haveria de morrer, anos mais tarde,    Luís Cabral (1931-2009), também ele vítima de doença prolongada... O Umaru esteve no Hospital do Barro seguramente em 2000, falta confirmar se lá voltou depois do seu regresso da Guiné-Bissau (c. 2003/2004).

Não se encontraram, mas poderiam hipoteticamente ter-se encontrado (e essa seria uma ironia da História!), no "terminal da morte" que era então o Hospital de Barro, a "vítima" (Umaru Baldé) e o "carrasco" (Luís Cabral)...

Foi sob o regime de Luís Cabral que se assistiu à perseguição, prisão, tortura  e, em muitos casos, execução brutal, sumária, de antigos militares guineenses que integraram as nossas NT (incluindo milícias e polícia administrativa). Estes crimes /qualquer que seja a sua tipicação: crimes de guerra, crimes contra a humanidade, etc.) não podem prescrever... Pelo menos na nossa memória e no nosso blogue, não prescrevem... (LG)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 12 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16382: Álbum fotográfico de Fernando Andrade Sousa (ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 12, 1969/71) - Parte III: Lembrando, com saudade, o "puto" Umaru Baldé

 (**) Vd. postes anteriores:

27 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16530: (In)citações (101): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte III): E a propósito...o Umaru Baldé e o Luís Cabral que eu conheci... Eventualmente por uma diferença de alguns anos não se encontraram, no "terminal da morte" que era então o Hospital do Barro, em Torres Vedras, a vítima (Umaru Baldé, c. 1963-2005) e o carrasco (Luís Cabral, 1931-2009) (Abílio Duarte, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70)

27 de setembro 2016 > Guiné 63/74 - P16527: (In)citações (100): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte II): "Portugal, os portugueses e os políticos que querem esquecer os passados" (sic)... Ou a Pátria portuguesa que lhe foi madrasta...

26 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16525: (In)citações (99): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte I): "Filho único e menino, minha mãe chorou quando, em 12 de março de 1969, alferes me foi buscar a Dembataco para defender a pátria portuguesa"

Guiné 63/74 - P16531: Os nossos seres, saberes e lazeres (176): Uma viagem em diagonal pelos países dos eslavos do Sul (2) (Mário Beja Santos

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2016:

Queridos amigos,
Havia muito para ver em Belgrado e não resisti a dedicar-lhe estes dois episódios.
Como disse, há uma ideia feita que Belgrado não é assim um destino por aí além. As marcas de sucessivas destruições são bem visíveis. É uma cidade milenar com belos recantos, mas a nova Belgrado suplantou-a. E a Sérvia, com a sua história e seu orgulho, vive um tanto à deriva, a guerra de 1991 deixou marcas indeléveis, as outras repúblicas viraram-lhe as costas, a Sérvia está como a Hungria ou a Áustria, não tem acesso ao mar. É preciso andar nas ruas para perceber como eles são exímios e campeões no basquetebol, vólei e andebol, são altos e desengonçados. E prestáveis, o alfabeto cirílico não é para brincadeiras.
Fiquei com vontade de regressar, não conheço sentimento mais entusiasmante para quem viaja.

Um abraço do
Mário


Uma viagem em diagonal pelos países dos eslavos do Sul (2)[1]

Beja Santos

Confesso a minha sedução pelos ofícios religiosos ortodoxos, é a palavra cantada e a majestade do coro que lhe responde, os oficiantes de pé, frente à vastidão de um altar que se prolonga para o interior. Tudo começou em 1977, na minha primeira viagem a Bruxelas. Já nessa altura estava interessado em visitar a Feira da Ladra local, passei por um templo de onde emanava uma melopeia litúrgica imponente. Entrei e gostei. E sempre que posso repito, o Deus em que acredito é gémeo do Deus em que acreditam todos os ortodoxos.



Estou na Igreja de S. Marcos, o templo não é esplendoroso mas é muito acolhedor. Tem colunas em pórfiro, gigantescas, encimadas por capitéis coríntios, belas imagens, há sempre esta presença bizantina, os ícones e as belas alfaias religiosas. Li as apreciações de alguns viajantes no Trip Advisor, considero-as injustas. Explico porquê.



Assim como o nosso Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra acolhe o túmulo do Fundador da nossa nacionalidade, este é o túmulo do Czar Dushan, O Poderoso. Trata-se de Stefan Urosh IV Dushan Nermanjre, casado com a Princesa Helena, irmã do Imperador Búlgaro. Foi um reinado de muitas peripécias, ao princípio tudo correu bem. Conquistou uma parte importante do território bizantino, coroou-se em Skopje. Foi czar e autocrata nos sérvios, gregos e albaneses. Foi sol de pouca dura, o império desfez-se rapidamente. Mas percebe-se como os sérvios têm no coração este seu czar.


Aqui há uns anos ofereceram-me um livro sobre as igrejas da Sérvia e do Montenegro. O que mais me impressionou é o permanente vínculo bizantino, desde a Idade Média à atualidade. Esta é a fachada da Igreja de S. Marcos, possui uma enorme harmonia, a loggia à italiana é muito equilibrada em torno da porta principal. E sigo daqui para a Catedral de S. Sava, um templo que tem uma história parecida com a nossa Igreja de Santa Engrácia.




Não quero cansar o leitor quanto às inumeráveis peripécias da vida acidentada deste templo, o maior de toda a cristandade ortodoxa. No templo anterior, houve quartéis e armazém, depois tomou-se a decisão para esta empreitada monumental, o exterior parece acabado, o interior vai precisar ainda de muito tempo até se concluir, imagino os milhões necessários para forrar estas paredes com mármore, pôr alfaias religiosas adequadas. O visitante entra e assiste ao espetáculo das obras. O mais significante é mesmo este S. Sava que assiste impávido ao escarcéu das máquinas, é alvo da veneração dos devotos e isso comove-nos muito.


Ao lado da catedral em construção temos uma igrejinha também dedicada a S. Sava, é uma concentração de beleza, uma incontestável casa de oração, ainda bem que há cadeiras para que o viajante septuagenário se sente e possa olhar demoradamente este espantoso entorno. Aqui fica uma amostra, o vigilante andava fora de portas, pude andar freneticamente a disparar o flash.




Finda a peregrinação religiosa, impunha-se subir à fortaleza de Belgrado. Visitei demoradamente uma exposição sobre a ocupação austro-húngara na I Guerra Mundial, imagens eloquentes da devastação dos canhões, nem o Palácio Real escapou, que enorme desolação. É da fortaleza que se avista a junção dos dois rios, mais uma vez se confirma que o Danúbio é caudaloso mas não é azul. Felizmente que os dias são maiores neste mês de Abril de chuvas intermitentes. Passeio-me pela baixa de Belgrado, o comércio está em grande azáfama, o que me acicata é mesmo a arquitetura, como se mostra. E agora vou procurar um jantar compatível, depois descansar os pés de tão bela caminhada, tenho que justificar o carrego de livros, e depois dormir bem, amanhã é a tal viagem de cerca de 500 km, 254 túneis e 435 pontes até chegar ao fundo do Montenegro. Não quero antecipar a espetacularidade que me espera.

(Continua)
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Notas do editor:

[1] Vd. poste anterior de 21 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16508: Os nossos seres, saberes e lazeres (174): Uma viagem em diagonal pelos países dos eslavos do Sul (1) (Mário Beja Santos

Último poste da série de 25 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16523: Os nossos seres, saberes e lazeres (175): Vou à Guiné-Bissau, quase todo os anos, desde 2005... Tenho um lugar, na próxima viagem, por terra, em VW Tiguam, de 30 a 35 dias, com partida a 13 de novembro... Se houver alguém interessado, que me contacte (José Carlos Carlos, telemóvel 934 148 787)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16530: (In)citações (101): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte III): E a propósito...o Umaru Baldé e o Luís Cabral que eu conheci... Eventualmente por uma diferença de alguns anos não se encontraram, no "terminal da morte" que era então o Hospital do Barro, em Torres Vedras, a vítima (Umaru Baldé, c. 1963-2004) e o carrasco (Luís Cabral, 1931-2009) (Abílio Duarte, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70)

1. Comentário de Abílio Duarte ao poste P16525 (*)


[Foto à direita; Abílio Duarte , ex-fur mil, CART 2479, mais tarde CART 11 e, finalmente, já depois do regresso à metrópole do Duarte, CCAÇ 11, a famosa Companhia de “Os Lacraus de Paunca” (Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70); est+a reformado como banc+ario do BNU - Banco Nacional Ultramarino]:


Olá,  Luís,

Num almoço,  aqui uns anos atrás, realizado em Coimbra, pelo nosso canarada Aurélio Duarte, o Umaru Baldé esteve presente, não sei quem o levou, mas quem o trouxe para a Amadora fui eu.

Tenho algumas fotos em que ele está, mas não consegui encontrá-las, mas continuarei a procurar, caso o Valdemar tenha ou outro camarada nosso, principalmente o alf  [Mário] Pina Cabral ou o [1º cabo] cripto Leonel.

Vem este meu comentário, porque ao ler acima as tuas questões (*), veio-me á lembrança, a grande conversa que tivemos, os dois,  desde Coimbra.

Contou-me todas essas aventuras, que já estão relatadas, e das dezenas de vezes que tentou entrar em Portugal, segundo me disse que quando veio para Portugal, veio da Líbia, onde conheceu alguém que o levou a trabalhar para a construção civil, e que trabalhou para a SOMEC. aquando da EXPO 98.

Pela primeira vez ouvi relatos do que aconteceu aos antigos nossos camaradas de armas, especialmente Fulas, e o assassínio de vários militares em armazéns de Bambadinca.

Penso que o alferes a que ele se refere é o alf [Mário]  Pina Cabral, que foi o seu comandante, durante a instrução em Contuboel [, no CIMC - Centro de Instrução Militar de Contuboel], e a quem , pelo que ele me contou, escreveu muitas cartas. Foi com uma Carta de Recomendação, daquele Camarada, que ele veio para Portugal [, em 15/4/1999].

Naquela altura em que foi este almoço, ele já não trabalhava, estava doente e em casa, aqui na Amadora. Na altura deixou o seu NIB bancário para que o pudessem ajudar, o que felizmente alguns de nós fizeram.

Quando encontrar as fotos enviarei.

Agora um aparte, sobre uma conversa que tive com o ex-presidente Luís Cabral, quando este foi corrido pelo 'Nino', e veio, como outros, para Portugal!!!

Ele e o Vitor Saúde Maria e mais alguns, ficaram como exilados politicos numa casa que aqui há na Amadora, para o efeito.

Um dia deu-me na tampa. O Luís Cabral era cliente do BNU - Banco Nacional Ultramarino, na Amadora, eu estava lá colocado, e cada vez que via o dito, dizia para mim, "Porra, este gajo anda sempre bem disposto e a rir, parece que a ele não aconteceu nada". Então ele veio ter comigo, que estava a espera de uma transferência, referente a comissões de um negócio qualquer, tratei-me de informar e disse-lhe  o que havia... Ao despedir-se, pedi-lhe para me dar um minuto de atenção, e perguntei-lhe se achava bem o acolhimento que o Governo Português, lhe estava a dar, comparado com aquilo qque o PAIGC fez aos soldados africanos PORTUGUESES, na Guiné.

A resposta foi:  pegou-me na mão, olho-me com aquela cara de sorriso eternamente satisfeito, e afirmou: "A vida e a politica dá muitas voltas". E assim foi na sua paz de alma.

E nós a aguentar isto, depois dele foi o 'Nino' que foi corrido [do poder], e também veio para Portugal.

Só os nossos camaradas que juraram a nossa Bandeira, é que ficaram indefesos, nas mãos destes criminosos.

Por hoje um abraço.

Abílio Duarte´


Lourinhã, Vimeiro_> 25º Convívio da CART 2479 / CART 11, "Os Lacraus" (Contuboel, Nova Lamego, Piche, 1969/70) > 30 de maio de 2015 > Da direita para a esquerda, o Pinheiro e o Pina Cabral.

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz & Renato Monteiro (2015). Todos os direitos rservados (Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

2. Comentário do editor:

O nosso "puto" Umaru Baldé, como eu lhe chamava, levou 24 anos (!)  a chegar a Portugal [desde que, perseguido, foi forçado a sair  da sua terra natal, em 31/12/1974, governada então por Luís Cabral (1931-2009)]...

Depois da última (?) estação do calvário, a Líbia, conseguiu por fim um visto para entrar na "Pátria Portuguesa" que ele tanto amava, .... Chegou doente a Portugal... Esteve internado cerca de 10 meses, ao longo do ano 2000, nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, mesmo sem título de residência, segundo ele conta numa das suas cartas.  Acabou por sobreviver mais cinco anos,  tendo morrido, ao que sabemos, em finais de 2004 (, segundo o nosso amigo, camarada e grã-tabanqueiro, António Fernando Marques, ex-fur mil at inf, CCAÇ 12, Contuboel e Bambabinca, 1969/71. que deu em vida todo o apoio possível ao Umaru Baldé e que foi ao seu funeral).

Sabemos que o Umaru voltou à Guiné-Bissau, em 2003,  e regressou, cada vez mais doente,  a Portugal, para morrer no antigo Hospital do Barro (ou no Hospital Curry Cabral ?), onde, ironicamente, haveria também de morrer,  cinco anos mais tarde, em 30/5/2009, o antigo presidente da Guiné-Bissau,    igualmente vítima de doença prolongada, como o Umaru Baldé...

Hipoteticamente, poder-se-iam ter encontrado, no "terminal da morte" que era então o Hospital de Barro (hoje desativado), a "vítima" (Umaru Baldé) e o "carrasco" (Luís Cabral)... Há um forte simbolismo nesta eventual coincidência... De qualquermkodo, os dois passaram pelo Hospital do Barro, "terminal da morte", memso que em épocas diferentes, o Umaru Baldé, pelo menos em 2000, e o Luís Cabral, em 2008...

Não é preciso recordar  que foi no tempo de Luís Cabral.  que se assistiu à perseguição, prisão, tortura  e, em muitos casos, execução brutal, sumária, pública ou clandestina, de antigos militares guineenses que integraram as nossas NT (incluindo milícias e polícia administrativa).

Não é preciso recordar que Luís Cabral, o primeiro presidente da Guiné-Bissau independente, foi derrubado por um golpe de Estado de 14 de novembro de 1980, levado a cabo pelo seu camarada  'Nino' Vieira (1939-2009).

Aberta a "caixa de Pandora" da violência revolucionária, os guerrilheiros no poder começaram, eles próprios, a matar-se uns aos outros. 'Nino' ´é cruelmente assassinado em 2/3/2009, dois meses antes da morte "natural" de Luís Cabral, exilado em Portugal e que o nosso camarada Abílio Duarte conheceu como "simples cliente" da agência do BNU na Amadora....

Enfim, ironias da História!... De resto, eu acredito mais na justiça dos homens (leia-se, da História) do que na justiça divina...  Se há um "juízo final", é o da História,  é a História que nos vai julgar a todos... (LG)

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Nota do editor:

Postes anteriores da série:

27 de setembro 2016 > Guiné 63/74 - P16527: (In)citações (100): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte II): "Portugal, os portugueses e os políticos que querem esquecer os passados" (sic)... Ou a Pátria portuguesa que lhe foi madrasta...

26 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16525: (In)citações (99): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte I): "Filho único e menino, minha mãe chorou quando, em 12 de março de 1969, alferes me foi buscar a Dembataco para defender a pátria portuguesa"

Guiné 63/74 - P16529: Efemérides (236): No passado dia 25 de Abril de 2016 foi inaugurado um Monumento, mandado erigir pelo Município de Armamar, homenageando os Combatentes da Guerra do Ultramar (José Firmino)

Monumento de Armamar que homenageia os Combatentes da Guerra do Ultramar


1. Mensagem do nosso camarada José Firmino (ex-Soldado Atirador da CCAÇ 2585/BCAÇ 2884, Jolmete, 1969/71) com data de 13 de Setembro de 2016:

O concelho de Armamar não esqueceu os seus filhos, muitos deles que foram empurrados para uma guerra que não queriam.

Para que conste, fica a foto do Monumento mandado edificar pelo Exmo. Presidente do Município de Armamar, Dr. João Paulo Carvalho Pereira da Fonseca.

Um obrigado de todos os Combatentes a todo Executivo.
José Firmino
Ex-Soldado At
CCAÇ 2585/BCAÇ 2884
Guiné, 1969/71

PS - Treze filhos de Armamar morreram na guerra do ultramar, sendo dois na Guiné.

Inauguração do Monumento a cargo do Presidente da Câmara Municipal de Armamar, Dr. João Paulo Soares Carvalho Pereira da Fonseca e Presidente do Núcleo de Lamego da Liga dos Combatentes, Artur Pombinho Lucena

Deposição de coroa de flores

Ramiro Fernandes da Silva e esposa Deolinda Firmino interpretam o Hino da Liga dos Combatentes

José Rodrigues Firmino em conversa com o Presidente da Câmara de Armamar.

O Presidente do Núcleo de Lamego da LC, Artur Pombinho Lucena, em conversa com Ramiro Silva.

Os cunhados Ramiro Fernandes Silva e José Firmino.

Fotos editadas e legendadas pelo editor
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Notas do editor:

- Este Monumento foi inaugurado durante as comemorações do dia 25 de Abril deste ano.
- O camarada José Firmino enviou ao Blogue apenas a última foto, mas pesquisando na net, mais exactamente no sítio da Câmara Municipal de Armamar, encontrámos uma vasta reportagem fotográfica do evento, da qual retirámos, com a devida vénia, as fotos aqui publicadas.
- O José Firmino, a sua irmã Deolinda Firmino e o Ramiro Silva, moram no Grande Porto, sendo os dois últimos sócios do Núcleo de Matosinhos da LC, fazendo parte do Grupo Coral do mesmo Núcleo.

Último poste da série de 13 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16483: Efemérides (235): Nos 90 anos do "Major Elétrico", 2.º Comandante do BCAÇ 2852, festejados no passado dia 30 de Julho de 2016 (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P16528: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (8): O Tanque

1. Mais uma memória do nosso camarada Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, (Canquelifá e Bigene, 1966/68).


MEMÓRIAS DE UM MÉDICO EM CAMPANHA

8 - O Tanque

(Mais um conto – verdadeiro – da Guiné)

O Alferes Almeida foi meu companheiro de quarto em Bigene, no norte da Guiné, se é que podemos chamar quarto ao alpendre onde dormíamos. Cerca de oito anos mais novo do que eu, o Almeidinha fez-se meu amigo de verdade. Amigo desde o acampamento da Fonte da Telha, do quartel de Porto Brandão e da Amadora.

Embarcámos para a Guiné no velho Uíge, empurrados pelo magnífico patriotismo de Salazar, entalados entre o belo gesto das senhoras do Movimento Nacional Feminino e o malabarístico safanço dos filhos dos ricos e patriotas da situação. Embalados pelas ondas do mar da Mauritânia, e sossegados pelas ricas ementas flamejantes do cozinheiro de bordo, demos à costa da Guiné no dia 13 de Maio de 1966.

O Almeida e eu pertencíamos à mesma Companhia. Eu como médico e ele como atirador, comandante de pelotão. Nos primeiros tempos da nossa comissão na guerra da Guiné, estivemos separados. Eu fui destacado para Canquelifá, perto da fronteira da Guiné-Conakry e ele esteve de intervenção durante algum tempo. Quando a Companhia se fixou em Bigene, já eu lá me encontrava.

Um avião fora buscar-me a Canquelifá para vir prestar assistência à última Companhia de farda branca que em breve regressaria à metrópole, sendo substituída por aquela em que estávamos integrados. De novo juntos, o Alferes Almeida e eu, programámos o nosso futuro no sentido de transformar os dias quentes (em sentido térmico e bélico) e incertos que se anteviam, nos melhores dias da nossa vida. Outra coisa não era de esperar do seu espírito folgazão e irrequieto, da sua grande alma de vinte anos.

E vivemos juntos acontecimentos fabulosos. Ele era todo patriota, à sua maneira. Cascava nos colonos, a cuja família pertencia, e gramava bestialmente os pretos. Mas soberania era soberania, e por isso alia estava para a defender. Ele lia, na altura, Morreram Pela Pátria de Mikail Cholokov. Eu lia Os Condenados da Terra de Frantz Fanon, que ele dizia ser a minha bíblia de anticolonialista subversivo. Penso, no entanto, que poucas pessoas gostaram tanto de mim como aquele moço.

Ajudou-me, quase sem querer, a conhecer as gentes e os costumes da Guiné, e contribuiu de forma sublime, ainda que um tanto inconsciente, para o maravilhoso entendimento do internacionalismo, do anti-racismo e da solidariedade entre os povos. Julgo que, se ele tivesse vivido até ao fim da comissão, deixaria de chamar turras aos guerrilheiros que o mataram.

Foi num dia em que eu me sentia muito triste. Talvez pelo falecimento da Sónia, na África do Sul, uma lindíssima amiguinha de vinte anos, que conheci em férias em Lisboa, e que me escrevia com muita ternura. O Almeida procurou animar-me, lembrando-me o chuveiro que havíamos improvisado a partir de um bidon e de um ralo de regador, e que borrifava sobre nós os mais belos minutos do dia.

Linhares de Almeida [foto à esquerda], quando ainda estudante do Liceu Honório Barreto, em finais de 1959, princípios de 1960; terá nascido em 1942, em Bissau; aparece numa foto de grupo (14 elementos) do Liceu, identificado com o n.º 2 como sendo o "Juca" - Carlos Linhares de Almeida (irmão do 'Banana')!... 

A foto, sem data, é da autoria de Armindo do Grego Ferreira, Jr. 
Cortesia do blogue NhaGente, de Amaro Ligeiro (**)

Desta vez era um tanque, que construímos com uns restos de cimento encontrados numa arrecadação, e que iria proporcionar-nos, apesar da sua estreiteza de três metros por um, algumas deliciosas banhocas. A inauguração estava marcada para esse dia, e o Almeida, atrevido, imprudente como sempre e um tanto irresponsável, já se tinha deslocado sozinho a Barro, a fim de arranjar uma galinha que servisse de manjar no festejo. Barro era uma pequena aldeia nativa a onze quilómetros de distância, onde a Companhia mantinha um pelotão. Toda a estradeca estava minada e as emboscadas eram constantes. Mas o que é certo é que a galinha já estava do lado de cá.

A meio da madrugada o Almeida acordou-me:
- Já que não vens comigo fazer a patrulha, meu cobardesito de merda, fazes um bom xabéu com essa galinha para mereceres o mergulho no tanque.

Eu respondi-lhe:
- Tem mas é juizinho nessa bola, não te armes em herói, senão nem a galinha provas.
- Cobarde, um cobardesito é o que tu és, retorquiu ele sorridente, com um aceno amigo que nunca mais haveria de fazer.

Eram dez horas da manhã quando a nossa velha GMC irrompeu pela cerca de arame farpado, em correria demasiada para o seu velho e gasto motor, como se ela própria sentisse a tragédia que transportava no bojo: o corpo do Alferes Almeida crivado de balas dos pés à cabeça.
Puxei de um cigarro mas não consegui segurá-lo entre os dedos. E nunca tomei banho no tanque.

A única recordação dele, que hoje ainda mantenho, é o livro que tinha na mesinha de cabeceira: Morreram pela pátria.


2. Comentário do editor:

Pelos nossos registos, o Alferes Almeida desta história (verídica) é/era Carlos Manuel Sousa Linhares de Almeida, morto em combate em 1/4/67, em Bigene. Faz parte dos 75 alferes mortos no CTIG.

Vd. postes de:

e
26 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13946: In Memoriam (208): Carlos Manuel Sousa Linhares de Almeida (Bissau, 1942 - Bigene, 1967), alf mil da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Fá Mandinga, Nova Lamego, Bula, Bigene, 1966/68), Juca para os amigos do Liceu Honório Barreto (Manuel Amante da Rosa / António Estácio)

Guiné 63/74 - P16527: (In)citações (100): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte II): "Portugal, os portugueses e os políticos que querem esquecer os passados" (sic)... Ou a Pátria portuguesa que lhe foi madrasta...



Guiné > Setor de Bafatá > Centro de Instrução Militar de Contuboel > Março de 1969 > Umaru Baldé, fula, natural de Demba Taco, regulado de Badora, da incorporação de 1969 soldado recruta nº mec 82115869










1. Continuação da publicação das cartas do Umaru Baldé, que nos chegaram por mensagem, de 17 do corrente, do nosso grã-tabanqueiro Valdemar Queiroz [ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70; instrutor do CMI Contuboel] [, foto à esquerda]

Esta segunda carta que publicamos não tem data, mas deve ser posterior  a 2000 (ano em que o Umaru Baldé foi internado no Hospital Curry Cabral e operado a um pulmão). Durante um ano e meio (talvez 2001/2002) trabalhou num estaleiro de construção civil, da empresa Edificadora Luz & Alves Lda  num posto de trabalho "melhorado", compatível com as limitações de saúde. Creio que foi um antigo camarada da CCAÇ 12, o ex-Sold radiotelegrafista João Gonçalves Ramos, residente na Quinta do Conde / Barreiro, que o ajudou muito nesta fase. Disseram-me, há tempos atrás, que ele foi "um pai para o puto Umaru Baldé". Depois perdeu o emprego, conseguiu voltar à sua terra natal, acabando por voltar a Portugal, para morrer em 2007/2008... (Entretanto, a Edificadora Luz & Alves, com sede na av 5 de Outubro, Lisboa, foi à flência em 2011, como muitas outras grandes empresas de construção civil).

O "puto" Umaru Baldé, em Bambadinca, 1970.
Talvez por ser o "menino de sua  mãe" era
acarinhado  por toda a malta da CCAÇ 12
Foto de Benjamim Durães
Nesta carta, dirigida a Portugal, aos portugueses e aos políticos portugueses que querem "esquecer os passados" (sic), o Umaru Baldé continua a reivindicar, com orgulho, a sua antiga condição de militar português ao serviço do exército de Portugal na Guiné (de 1969 a 1974), e defender os seus direitos.

Relata que foi alvo de perseguições na Guiné-Bissau, a seguir à independência, o que o obrigou a fugir para o Senegal, no final do ano de 1974...

Já vimos, na carta anterior (*), alguns dos países subsarianos por onde ele andou, refugiado..., Ficamos a saber que a sua longa diáspora incluiu também a Líbia e o Níger.

Através do antigo ex-alf mil da CART 2479 / CART 11, Mário Pina Cabral, que foi seu instrutor no CIM de Contuboel, tal como o fur mil Valdemar Queiroz, consegue obter um visto para entrar em Portugal (, o que ocorre finalmente em 15/4/1999, vinte e cinco anos depois do início do seu calvário...).

Não sabemos como sobreviveu estes anos, e para mais doente. Em Portugal, conheceu a miséria, a solidão e o agravamento da doença.  tendo sido ajudado por antigos camaradas e tratado no Serviço Nacional de Saúde.

Mas, no essencial, que era o seu reconhecimento como antigo combatente, a Pátria Portuguesa, que ele tanto amava, foi-lhe  madrasta. (LG)



Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Nova Lamego > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > O Valdemar Queiroz ao lado do alf mil Pina Cabral e o 4º.Pelotão... Os soldados guineenses desta subunidade fizeram a recruta no CMI de Contuboel na mesma altura que o Umaru Baldé (que foi para a CCAÇ 12).


Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Castro Daire > Freguesia de Monteiras > Zona Industrial da Ouvida > Restaurante P/P > 30 de Maio de 2009 > 15º Convívio do pessoal de Bambadinca, 1968/71, CCS do BCAÇ 2852, CCAÇ 12 e outras subunidades adidas >  O ex-sold radiotelegrafista João Gonçalves Ramos, residente na Quinta do Conde / Barreiro, que, segundo me disseram, foi um pai para o puto Umaru Baldé, que veio morrer a Portugal, de Sida e de Tuberculose, no antigo Hospital do Barro, Torres Vedras...

Foto (e legenda): © Luis Graça (2009). Todos os direitos reservados



Portugal > Resende > 1999 > Num dos convívios do pessoal de Bambadinca, de 1968/71, o Umaru Baldé. já com 46 anos, e acabado de chegar há poucas semanas (em 13/4/1999) parece ter mais de um metro e noventa de altura... Ao centro o Fernando Andrade Sousa e outro camarada da CCAÇ 12 que não é possível identificar. Em 1969, com 16 anos, chamávamos-lhe o "puto Umaru"...

Foto (e legenga): © Fernando Andrade Sousa (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16526: Notas de leitura (883): “Vozes de Abril na Descolonização”, a organização é de Ana Mouta Faria e Jorge Martins, edição do CEHC – Centro de Estudos de História Contemporânea do Instituto Universitário de Lisboa, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Setembro de 2016:

Queridos amigos,
Desconhecia inteiramente esta edição, e li de um só fôlego o testemunho do Coronel Carlos de Matos Gomes, o escritor Carlos Vale Ferraz, considero o seu romance "Nó Cego", a maior jóia da literatura da guerra colonial.
O escritor embarcou num projeto universitário que pretendia clarificar a emergência dos núcleos ultramarinos que derrubou o Estado Novo. Numa posição privilegiada, fazendo parte do núcleo fundador do MFA da Guiné, vai recebendo e passando as informações pertinentes sobre a contestação, pondo a nu a situação da Guiné onde a ausência de solução política estava em vias de comprometer a tão debilitada organização das Forças Armadas na colónia. Conta meticulosamente e vamos depois ouvi-lo sobre a situação político militar e as primeiras negociações com o PAIGC.

Um abraço do
Mário


A descolonização da Guiné: testemunho de Carlos de Matos Gomes (1)

Beja Santos

A obra intitula-se “Vozes de Abril na Descolonização”, a organização é de Ana Mouta Faria e Jorge Martins e os entrevistados dos três teatros de operações foram Carlos de Matos Gomes, José Villalobos Filipe e Nuno Lousada, edição do CEHC – Centro de Estudos de História Contemporânea do Instituto Universitário de Lisboa, 2014. O objetivo da obra é de contribuir para o conhecimento sobre a descolonização portuguesa na sua fase final, e resulta de um projeto de investigação sobre a participação dos militares portugueses na descolonização. De forma preambular, os dois organizadores abordam a génese do MFA nas colónias portuguesas de África, pretendiam-se iluminar a emergência dos núcleos ultramarinos do MFA, conhecer-lhes as suas convicções e valores, a forma como sentiam a pressão político-militar dos movimentos de libertação. Historiam a sequência dominante de factos que incendiaram a consciencialização dos militares: o anúncio da realização do Congresso dos Combatentes, que se realizou em 1973, evento que não escondia a necessidade de continuar a legitimar a continuação da guerra; a contestação desencadeada em torno dos Decretos Leis 353/73, de 13 de Julho e 409/73, de 20 de Julho, destinados a suprir a carência de oficiais profissionais, através do acesso a uma rápida carreira proporcionada a milicianos com serviço de guerra; a rede do Movimento dos Capitães estava organizada em final de 1973; e a situação particular do MFA da Guiné que tinha inclusivamente montado um esquema revolucionário, caso falhasse o golpe militar na metrópole; segue-se o processo da institucionalização do MFA, a partir de 1974, que não cabe aqui analisar.

Primeiro a estatura militar do entrevistado. Fez uma primeira comissão no Norte de Moçambique, no Niassa, era alferes e tinha 20 anos; fez o curso de Comandos como Adjunto na 21ª Companhia de Comandos, Companhia que foi transferida de Angola para Moçambique, combateu na área do Cabo Delgado-Mueda; ofereceu-se como voluntário para os Comandos Africanos da Guiné; faz parte do núcleo fundador do MFA da Guiné e aí vive as primícias da descolonização. Reflete sobre o projeto político de Spínola, a preparação recebida na Academia Militar, o seu grau de preparação política, declara ter pertencido à esquerda da esquerda do COPCON, com o 25 de Novembro acabou aí a sua atividade política.

Segundo, Carlos de Matos Gomes descreve as impressões da Guiné à chegada e durante a sua comissão. Impressionou-o a manta de retalhos étnica, a ausência de coerência entre etnias, quando ali chegou a guerra tinha evoluído de tal modo que se sabia ter de encontrar com caráter de urgência uma resposta política na ausência de um dispositivo militar à altura das novas estratégias do PAIGC, designadamente as grandes operações destinadas a desarticular a quadrícula e reduzir o moral das tropas a fanicos. Fala das Operações onde interveio, realça a Ametista Real e Neve Gelada, para tirar Canquelifá do sufoco. E comenta:
“A partir dessa altura, quando o Batalhão de Comandos intervinha já era em situações de tal forma críticas, que normalmente levávamos o batalhão inteiro, e fazíamos como se faz por normal nestas situações, utilizávamos duas unidades em primeira linha, mantínhamos uma em reserva, e depois íamos manobrando estas três unidades. Isto representava, claramente, o agravamento da situação militar em dois anos, e passarmos de operações com 50 homens para operações com 400, 500”.

Terceiro, pronuncia-se sobre a génese e estruturação do MFA. A partir de um grupo de amigos como Jorge Golias, José Manuel Barroso, Jorge Alves e Duran Clemente pôde ter-se um desempenho importante na contestação ao Congresso dos Combatentes. Spínola e o seu círculo restrito criticaram profundamente a iniciativa do congresso, o Governador procurava estabelecer algum tipo de negociação com Amílcar Cabral, depois de uma iniciativa Marcello Caetano determinou o fim de quaisquer conversações com o chefe da guerrilha. É o período em que as relações entre Spínola e Marcello Caetano se azedam, impedido de negociar, Spínola pede o fim da sua comissão e regressa com praticamente todo o seu staff. Tudo isto coincide com a contestação da legislação que favorecia a chegada de milicianos ao posto de capitães, a contestação que se está a formar na Guiné já não conta com os spinolistas. O grupo expande-se, continua a reunir em lugares militares como a biblioteca do CTIG ou no Agrupamento de Transmissões. O grupo fazia uma leitura pessimista da situação militar:
“As unidades que estavam a chegar à Guiné eram cada vez piores. Havia uma degradação clara do potencial militar. Unidades pior treinadas, pior comandadas, desmoralizadas. Houve unidades que chegaram lá, foram colocadas nas suas zonas de ação e tiveram de ser retiradas para ser reinstruídas e reenquadradas, comandantes de batalhão a quem teve de ser retirado o comando. Nós sabíamos que o aparelho militar português estava a esboroar-se e não tinha capacidade de resposta”.
Nesta fase dá-se uma ligação natural entre o movimento da Guiné e o movimento de Portugal. Chegou a ser equacionado, na Guiné, a possibilidade de lançar um golpe mais cedo do que veio a acontecer, com a tomada dos aviões do aeroporto:
“Havia um dia – que era a quarta-feira – em que iam a Bissau o Boeing da TAP e o da Força Aérea e equacionámos que se um dia a situação se agravasse a tal ponto que nós não tivéssemos controlo, tínhamos aí o poder para evacuar os nossos, as mulheres e os mais frágeis, para Cabo Verde e depois a seguir iríamos negociar. Isto esteve montado numa reunião em casa do 2.º Comandante do Batalhão de Paraquedistas, o Major Mensurado”.
Dá conta da trama montada nos contactos com a metrópole, Angola e Moçambique, trocam-se informações e envolve-se cada vez mais gente. E assim se chega aos acontecimentos do 26 de Abril em Bissau, estão prontos para intervir o Batalhão de Comandos Africanos, o Batalhão de Paraquedistas, o conjunto de pilotos (havia um piloto de helicóptero que estava destinado a evacuar o Governador) e a Companhia da Polícia Militar. “Controlávamos todas as informações e todas as comunicações através do Agrupamento de Transmissões e controlávamos, também, uma rede muito importante de contacto através da rede de ligação da artilharia, porque a artilharia na Guiné estava espalhada pelo território. Nós tínhamos o aparelho militar na mão”.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 23 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16517: Notas de leitura (882): “Cabo Verde e Guiné-Bissau, As Relações entre a Sociedade Civil e o Estado”, por Ricardino Jacinto Dumas Teixeira, Editora UFPE, Recife, 2015 (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P16525: (In)citações (99): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte I): "Filho único e menino, minha mãe chorou quando, em 12 de março de 1969, alferes me foi buscar a Dembataco para defender a pátria portuguesa"

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Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Contuboel > 1969 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > > O Valdemar Queiroz, com os recrutas Cherno, Sori e Umarau (que irão depois para a CCAÇ 2590 / CCAÇ 12). Estes mancebos aparentavam ter 16 ou menos anos de idade. Eram do recrutamento local.

Foto: © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados





Envelope da carta enviada pelo Umaru Baldé ao José Valdemar Queiroz Silva (foi deliberadamente rasurado o nome da rua do destinário)







Fotos: © Valdemar Queiroz (2016). Todos os direitos reservados


Transcrição, revisão  e fixação de texto  (LG):

[Carta sem data nem local, tem a sua foto ao canto superior esquerdo] 

AMOR NUNCA ACABA

Amor nunca acaba,
ninguém esquece dos passados ceja [seja] bem ou de mal,
eu me lembro de dia 12 de março de [19]69,quando foi [fui]
chamado para [a] vida militare [militar] Portugues[a]. na
verdade eu tinha pouco[s] anos de idade e eu era 
único filho deo meu pai, e na verade minha Mamãe
revoltou[-se].disse que eu não tenho [tinha] idade para ir na guerra,
mas a pena [é que] Alferes que tinha vindo para nos levar, não podia
ouvir esta revolta, Alferes disse-nos todos somos Portugueses,
saímos [de] muito longe para defender [a] Pátria  Portuguesa, antão [então],
para povo saber que [em] Portugal não há raça ben [gente] de cores, todos [todo]
cidadadão tem que ir cumprir serviço militar português.

Minha mamãe chorou, disse ai, meu Deus, ten ho meu filho único
que vai me deixar para ir morrer na guerra. Esta data era[foi] dia 
de tristeza i [e] lágrimas para [o] povo de Demba Taco e Taibatá, na 
verdade ficámos até às 4 horas das tarde [até] entramos no [bas] viaturas militares
para Bambadinca.

Eu com a pouca idade que eu tinha, o que podia fazer ? Todo como
homem, que sou, quando foi [fui] na recruta [em Contuboel], foi [fui] o melhor apontador de morteiro 60 1115mm [?]. Depois na especialidade foi [fui] levado para mesmo na primeira companhia [que] foi na CCAÇ 2590 [/] CCAÇ 12] onde nunca esqueço [o] sufrimento [sofrimento] que sofri para [pela]
Minha Pátria Portuguesa, na Guiné Portuguesa.

Na verdade, [em] dois anos e alguns meses que fez [fiz] como operacional,
fez [fiz] 78 operações no mato do Xime, [na] zona do Xitole e até [em] Medina [Madina] do Boé, ao lado de Ganjadude [Canjadude]. Na minha companhia, 
durante  dois anos só sofremos 5 soldados [mortos], 4 pretos e um vranco [branco].
Depois fui transferido para Bissau como primeiro cabo, onde fui colgado [colocado]
no comando das transmissões [, quartel de Santa Luzia,]
até ao fim de[da] guerra em 1974.

A pena [Apesar de] todosos portugueses era para [terem de] sair, eu com toda a vontade e [como ]sou [era] militar português, fui  entre [foi-me entregue] um documento que disse [dizia que]  tenho [tinha] licneça não limitada, até 31 de dezembro [de] [19]74, para [me a]presentar
em qualquer parte [em] que encontrar [enciontrasse]  serviço português militar
ou civil.  Na verdade já não podia estar na Guiné-Bissau
porque [o] partido que venceu [, o PAIGC],  não quer [queria] ver nenhum soldado que era [fosse]  português. Depois eu  fui morar na República do Senegal
onde teve [estive] 11 anos [, até cerca de 1985]. Não tenho [tinha] meio[s] para ir para Portugal.

Depois de[do] Senegal, fui para a República do Mali onde teve [estive] um ano,
[também] não podia ira para Portugal, depois fou [fui] para [a] Costa do Marfim onde teve [estive] dois anos, [de seguida] fui para [o] Gana, 2 meses, fui para Burkina-Faso, onde fez [fiz] sete meses, fui oara [o] Togo, duas semanas,
fui para [o] Benin, [d]donde regressei-me para [a] Guiné-Conacri, 
porque eu era [estava] já doente da perna direita.

Na verdade não podia voltar na [à] Guiné-Bissau
porque eu sabia muito bem que o ódio não acabou [acabara ainda] na governante [no Governo], é por isso [ e por essa razão eu] não tinha coragem de entrar nos hospitais de [dos] antigos inimigos. [Assim], curei-me [tratei-me] no estrangeiro [e] quando teve [tive] saúde,  procurei-me caminho para a [voltei à] Guiné-Bissau.
Desde que regressei na [à] Guiné-Bissau já é [há] 6 anos,
na verdade ainda não temos democracia no País, é por isso [que]
hoje vou procurar   onde está [estão]  Portugueses no mundo, 
dico [digo] bem alto Adeus, Guiné-Bissau, sou Umaru Baldé, antigo militar Português na Guiné. [Assinado U Baldé, presumindo-se que a carta seja datada de 1999, ano em que finalmente conseguiu um visto e chegou a Portugal]


1. Mensagem, de 17 do corrente, de Valdemar Queiroz [ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70] [, foto à direita]


Anexo umas cartas  que me foram enviadas, nos finais dos anos 90 e princípio dos anos 2000, pelo Umaru Baldé que estava a residir na Amadora.[São quatro cartas, só duas das quais datadas, uma de 2000 e outra de 2003].

O Umaru Baldé foi aquele menino soldado da CArt 11 e da CCaç 12 que já foi por nós muito falado. [Foto à esquerda, Bambadinca, 1970, foto de Bemjamim Durão]

Estas cartas que julgava desaparecidas, foram por ele ditadas a alguém com máquina de escrever ou computador e até por ele escritas.

Faz a narrativa, muito interessante, de como foi para a tropa  [, recrutado em 12 de março de 1969, em Demba Taco, regulado de Badora] e como passou as passas do Algarve, neste caso a mancarra, depois da independência da Guiné,  quando atravessou quase metade de África para chegar a Portugal [, em 15 de abril de 1999, tendo vivido ou sobrevido no Senegal (11 anos), Mali (1 ano ), Costa do Marfim (2 anos), Gana (2 meses), Burkina Faso (7 meses). etc, passando por Benin, Guiné-Conacri, de novo Guiné-Bissau, etc.  e, por fim, Portugal].

Por cá também não teve grande sorte, quer por não arranjar trabalho [estável], quer por já estar muito doente [, em 2000 esteve interno no Hospital Curry Cabral, emLisboa]. Por cá andou uns anos, voltou a ver camaradas do tempo da guerra [João Ramos, António Fernando Marques, Pina Cabral...] e sempre a tentar arranjar forma de ser reconhecido como militar do Exército Português.

Por fim e, depois, de passar por várias internamentos hospitalares tentou arranjar dinheiro para regressar à Guiné e à sua Demba Taco em Bambadinca.

Sempre concretizou o seu desejo, mas pouco tempo depois veio a morrer da grave doença que o apoquentava.aonde viria a morrer em Portugal [no  antigo Hospital do Barro, em Torres Vedras, por volta de 2007/2008, com cerca de 55 anos].

As cartas estão com as letras um pouco sumidas, pelo que para serem lidas terão de ser um pouco aumentadas para melhor leitura.

Valdemar Queiroz

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