1. Confesso que já tinha saudades de reler esta prosa oral, seca, cúmplice, com as suas elipses, típica das “estórias cabralianas", que são sempre microcontos...
E esta, que se reproduz a seguir, é mesmo uma “estória cabraliana”: (i) começa como uma anedota de caserna, com um soldado básico, o "Espanhol", um tigre de Antequera e uma “Borboleta” (travestida de "madrinha de paz") (ii) dá uma volta inesperada pela Lisboa da Praça do Chile e das suas clandestinas "casas das mariquinhas" (“Casas de Pouca Permanência”, uma subliteza do autor que nunca diz asneiras nem é ordinário...); e que (iii) acaba, uns 40 anos depois, num encontro quase cinematográfico na avenida Almirante Reis, junto à incontornável igreja dos Anjos.
O que é espantoso é que, nas "estórias cabrialianas" (estão publicadas quase um centena, no nosso blogue) o humor nunca destrói a ternura.
O "Espanhol" desta história é apresentado como uma figura pícara mas no fim percebemos que por baixo da caricatura está um homem com uma vida triste, agarrado ainda ao sonho de ganhar o euromilhões e de encontrar a mãe na Argentina.
E o "alfero Cabral", em vez de explorar isso de maneira piegas ou sentimental ou de carregar no traço da caricatura, resolve a história com a promessa de uma rua cor de rosa de Buenos Aires e da "Borboleta" a dançar o tango.
É um final que é um achado e que toca o leitor: a "Borboleta", "madrinha de paz" (e não de "guerra"), que nasceu numa carta lida há décadas numa mesa suja do rancho do destacamento de Missirá, reaparece no fim como promessa romântica de um tango em Buenos Aires.
Há ainda três achados que são tipicamente fruto do génio do "alfero Cabral":
- “Nem a falta dos dedos o safou...” ( uma frase seca que diz muito, ou tudo, sobre a crescente falta de "carne para canhão", e em que um mancebo, mesmo sem très dedos do pé, era apurado para os serviços auxiliares, como soldado básico):
- “Meu Alferes, carta da Borboleta!” (excelente esta "boca" de caserna);
- "É o alferes Cabral, não é?!... Ou devo chamar-lhe alferes Sá de Miranda?! (aqui o leitor percebe a cumplicidade entre os dois, sem ser preciso explicar absolutamente nada).
E o título original, “O Espanhol, o Alferes Sá de Miranda e a Borboleta”, está muito bem escolhido: parece anunciar três personagens diferentes, mas são afinal três fios condutores da mesma história.
Enfim, é mais uma história de encontros e desencontros, nas margens do rio da vida...
Ninguém como o "alfero Cabral", na nossa Tabanca Grande, sabia evocar, com delicadeza, compaixão e empatia, estas figuras de gente humilde que eram os nossos camaradas, ditos "soldados básicos", remetidos quase sempre para funções de "faxineiros" ou auxiliares de cozinheiro, e cujos nomes se nos varreram da memória...
Todas as companhias tinham um ou mais "soldados básicos"... Muitos deles já levavam, para o CTIG uma cruz às costas: ou "nasceram tortos", ou a curta vida de 20 anos já lhes era madrasta...
Tenho a imagem de um, que foi comigo no T/T Niassa; "ia a ferros", preso, no fundo do porão, por ser desertor, segundo se dizia...
Recorde-se que o Jorge Cabral (1943-2021) foi alf mil art, Pel Caç Nat 63, Guiné, zona leste, setor L1 (Bambadinca), tendo comandado destacamentos como Fá Mandinga e Missirá, 1969/71; especialista em direito penal , professor do ensino superior universitário, reformado, é autor da série, "estórias cabralianas" (que ainda conseguiu em vida reunir em livro, e publicar um primeiro volume).
Tem mais de 260 referências no nosso blogue.
Era uma vez um soldado básico (o " Espanhol), um alferes ("Sá de Miranda") e uma madrinha de paz (a "Borboleta")
por Jorge Cabral (1943-2021)
Em Missirá, jantávamos cedo. Éramos apenas onze brancos e rapidamente despachávamos o pé de porco com arroz ou a cavala com batatas.
Depois ficávamos à mesa conversando. Alguns, mais resistentes, permaneciam noite dentro. Um deles era o novo cozinheiro, o "Espanhol", soldado básico, que mancava.
Segundo ele, fora um tigre que lhe comera três dedos do pé esquerdo, num circo de Antequera [ município de Espanha, província de Málaga, comunidade autónoma da Andaluzia].Contava que a mãe fugira de Lisboa com um palhaço e o levara ainda bebé, mas que quando fizera dezoito anos regressara para procurar o pai, o qual nunca chegara a encontrar.
Incorporado, nem a falta dos dedos o safou... Na altura tinha uma correspondente, que se intitulava "Madrinha de Paz".
Escrevia bem e às vezes naqueles serões eu citava pequenos trechos das cartas. Uma noite li, que ela escrevera:
”Hoje sonhei que era Borboleta. Mas não serei eu uma Borboleta que está a sonhar que é rapariga?”
– A gaja é maluca! – foi a opinião unânime.
A partir de então, quem ía buscar o correio, vinha logo ter comigo, satisfeito:
– Meu Alferes, carta da "Borboleta"!.
A comissão acabou. Voltei e nunca mais me lembrei nem do "Espanhol" nem da "Borboleta"... Porém há muitos anos, frequentei com alguma assiduidade uma “Casa de Pouca Permanência”, hoje Hostel, ali para os lados da Praça do Chile.
Tudo lá era discreto, quase secreto. Tocava-se à campainha, subia-se e as portas da casa e do quarto já estavam abertas.
Ninguém via a dama, mas o cavalheiro tinha que dar a cara, junto da recepcionista, uma velhota que não pedia qualquer identificação. Pagava-se e escrevia-se o nome num caderno já gasto.
Por mim fui Gil Vicente, Bernardim Ribeiro e até Luiz Vaz de Camões...
Ora uma vez, para minha surpresa, a recepcionista fora substituída. E adivinhem, por quem? Pelo "Espanhol". Eu reconheci-o e senti que ele também me reconheceu. Mas não dissemos nada. Paguei e assinei. Desta vez... Sá de Miranda.
Ainda lá voltei mas a velha senhora retomara o seu posto. Foi há um mês, descia a Almirante Reis, quando, mesmo em frente à Igreja dos Anjos, deparei com o "Espanhol":
– É o alferes Cabral, não é?!... Ou devo chamar-lhe alferes Sá de Miranda?!
– Malandro... vamos almoçar!
À mesa, diante de um arroz de tomate com joaquinzinhos, conversámos. Lembrava-se bem de Missirá e perguntou logo:
– Então, e a "Borboleta"?
Foi no entanto parco em informações sobre como lhe correra a vida. Todas as vidas têm altos e baixos, mas deu para entender que a do "Espanhol", só teve baixos.
Regressado da Guiné, ainda foi a Antequera, mas o palhaço morrera e a mãe emigrara para a Argentina. Durante estes mais de quarenta anos, sonhou ir visitá–la. E ainda sonha...
–Ah! Alferes Cabral, se eu ganhasse o euromilhões...
Adeus, "Espanhol", mas olha não há duas sem três. Vais ver que o nosso próximo encontro será em Buenos Aires. E até vou levar uma "Borboleta", a fingir de rapariga, para dançar o tango.
Jorge Cabral
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, parênteses retos, título: LG)
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Notas do editor LG:(*) Vd, poste de 18 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14761: Estórias cabralianas (87): O Espanhol, o alferes Sá de Miranda e a Borboleta que sonhava que era rapariga (Jorge Cabral)











































