
Ainda não o visionámos na totalidade. É uma reportagem completa do cruzeiro, de Dois meses, com imagens e informação muito "interessantes", do ponto de vista da historiografia da presença portuguesa nas quatro "colónias" da África Ocidental visitadas, além de pormenores da partida de Lisboa, da chegada aos vários portos (Mindelo, Praia, Bissau, Bolama, Luanda, Lobito, etc.) bem como da vida a bordo. (*)
Um documentário, raro, com 90 anos, que diz muito (até pelo que omite, por defeito, conveniência, autocensura ou opção) sobre o "império colonial", expressão que se usava na época sem complexos, e até com orgulho. O filme (feito em 35 mm, ainda sem som) tem algumas erros de montagem (cenas trocadas ou repetidas), e muitas imperfeições de imagem na cópia digitalizada. Mesmo assim, estamos gratos á Cinemateca Nacional por retirá-lo do pó dos arquivos, restaurá-lo e pô-la á disposição do público lusófono, em geral, dos antigos combatentes, em particular
2. Recorde-se que o realizador é San Payo, nome artístico de Manuel Alves San Payo (Melgaço, 1890-Lisboa, 1974), que contou com a colaboração de Artur Costa Macedo, um conhecido operador e diretor de fotografia (S. Tomé, 1894 - Lisboa, 1966).
O mostra a viagem do paquete "Moçambique" a Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e Angola entre agosto e outubro de 1935. O cruzeiro coincidiu com as férias escolares. O navio, a vapor, "Moçambique", pertencia à CNN, será abatido, quatro anos depois, em 1939, e substituido por um novo "Moçambique", a motor, maior e melhor.
Um dos mentores do projeto foi Marcelo Caetano, então com 29 anos, e já brilhante professor de direito administrativo na Faculdade de Direito de Lisboa, e intelectual orgânico do regime. Seria também ele o "diretor cultural" do cruzeiro. O objetivo desta iniciativa era didático e propagandístico: cativar as jovens elites do país para a questão colonial, num altura em que outras potências coloniais deitavam o olho a alguns territórios do império colonial português.
Resumo análitico do filme:
- até 8' > Lisboa (despedida e partida do navio); viagem até Cabo Verde;
- 8' - 23' > Cabo Verde (Mindelo, Praia, interior);
- 23' - 37' > Guiné (Bissau e Bolama);
- 37' - 46' > São Tomé e Príncipe (incluindo em São Tomé, visita às roças Água Izé, Monte Café, e Rio do Ouro; no Príncipe, roça não identificada):
- 46' - 91' > Angola (Luanda, rio Dande, Catete, Dalatando, Casengo, Porto Amboim, Gabela, fazenda de café, Lobito, caminho de ferro de Benguela, empresa de Cassequel, Catumbela, Ganda, Moçamedes, foz do rio Bero, regersso a Luanda, minumento aos mortos da Grande Guerra, batuques, desfile) (incluindo visita à fazenda Tentativa, à granja S. Luiz e outras fazendas não especificadas, além da Estação Zootécnica e missão na Huíla).
3. Registe-se que só as visitas a Luanda, Lobito e Moçâmedes duraram mais do que um dia, nos restantes locais, os "excursionistas" ficaram apenas algumas horas.
Em 1935, a organização do cruzeiro teve de enfrentar muitos problemas logísticos (falta de viaturas automóveis, péssima rede viária e hoteleira, etc.), problemas esses agravados num território como a Guiné, ainda não totalmente "pacificado" (daí que a visita se tenha limitado se a duas cidades costeiras, com cais acostável, Bissau e a capital, Bolama).
Recorde-se que só entre 1925 e 1936 é que foram "pacificados" os últimos povos animistas, no noroeste do território ("chão felupe") e nos Bijagós, tendo a última campanha sido na ilha de Canhabaque, cujos habitantes eram acusados de praticar a pirataria.Nota do editor LG:
3 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27381: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte II
13 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27416: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (12): o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente: Mindelo, agosto de 1935 - II ( e última) Parte



































