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sábado, 11 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27913: Os nossos seres, saberes e lazeres (730): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (251): Uma sonata para a primavera, imagens para canonizar a terra úbere e um marionetista genial (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Março de 2026:

Queridos amigos,
A primavera irrompeu entre horas de chuvisco, um céu de chumbo ou acinzentado e aquelas nesgas de luz que confiámos que iriam perdurar. Importava ver o estado do casebre do Reguengo, para o qual há já uma perspetiva de conservação e restauro, e não resisti a ir ver o jardim, cheguei pachorrento e sem nenhuma vontade de, no mínimo, arrancar ervas ou limpar bolores. Quem diria que me esperava um festival de cor? E até as árvores de fruto resistiram aos temporais, é isso que se mostra em primeiro lugar. Andava há meses para ir visitar a exposição de um marionetista nascido no Bombarral e com obra consagrada, José Carlos Barros, nome sonante nesta dimensão teatral. E não escondo que, de forma subliminar, vos convido a visitar este deslumbrante Museu do Bombarral.

Abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (251):
Uma sonata para a primavera, imagens para canonizar a terra úbere e um marionetista genial


Mário Beja Santos

Voltei ao meu casebre no Reguengo Grande, impunha-se a avaliação dos estragos e desgastes maiores, incidências do temporal. Haverá a revisão dos telhados, há alguns bolores pelas paredes, cheguei em hora ensolarada, escancarei janelas, vou deixar para mais tarde a avaliação inadiável, mais tarde ou mais cedo tenho de pôr janelas e portas novas, enfim, despesas que não se compadecem com as guerras em curso e as que mais virão. Vou até ao muro contemplar o estado do vale, e não resisto a maravilhar-me com um dos pessegueiros dos meus vizinhos de baixo, começou a cantilena da explosão primaveril. Açodado pelo presente que a Natureza trouxe, desço até ao jardim pedregoso, respiro de alívio porque a glicínia já tem algumas folhas, os jarros estão imaculados, as frísias andam desvairadas, crescem anarquicamente, as laranjeiras estão murchas, tudo se perdeu com os temporais, mas também não regateiam surpresas, há sinais de nova vida. Pois bem, partilho convosco um jardim que não é de Éden, tem laborioso historial, é mais do que certo e seguro que os ancestrais do meu vizinho Henrique removeram muita pedra para que aqui houvesse coisas de alimento doméstico. E lá vou lampeiro, concelebrar a chegada da primavera, pelo calendário começa amanhã, aqui anunciou-se mais cedo.
Pessegueiro em flor, ao fundo um vale que promete um opíparo batatal
O que deu a estas frísias tresloucadas para ter nascido onde ninguém pensou plantá-las?
Há alecrim espigado, este é rastejante, não me passou pela cabeça metido entre duas pedras possantes irromper-se tão pujante e assim florido
Estas sim, frísias disciplinadas, hastes levantadas, parecem um contingente militar
O que estão a ver é uma infestante, é um deslumbramento de cor, nunca morri de amores pelos tons lilases e roxos, mas este conjunto de uma planta que tem um nome estranhíssimo, massaroco, é um regalo para os olhos, lamentavelmente terá vida curta
É o fim do dia, quando dou com estas negas de luz, promissoras de um radioso dia seguinte, dou comigo a pensar numa situação que vivi nos finais da década de 1990, num bairro de Bruxelas, chamado Ixelles, vinha de uma reunião, um tanto apressado, avião de regresso pelas nove e meia da noite e queria ainda fazer compras, nisto paro em frente a uma casa de antiguidades que anunciava liquidação, deu-me para ficar pasmado com uma peça de loiça alemã, Meissen, a proprietária veio cá fora, em preço de liquidação eram 2.500€, agradeci muito, a senhora convidou-me a entrar, para não entrar em pormenores saí dali ajoujado com uma aguarela metida numa bela moldura, o tema é de uma paisagem eriçada tendo ao fundo uma casinha com uma luz acesa numa janela, escusado é dizer que o valor metafórico que mesmo nos piores momentos a esperança nunca morre. O fundamental é que entrei num avião da TAP empunhando uma moldura de respeitoso tamanho, um saco com víveres e uma maleta com as coisas próprias de quem anda uns dias fora de casa. Quem não gostou da brincadeira foi uma hospedeira que me disse à saída do avião que jamais esqueceria as vezes sem conta que tinha andado com aquele quadro em bolandas para servir o catering. O que interessa é que às vezes ando com o juízo toldado e tudo se altera quando me ponho diante deste quadro que tenho à entrada de casa e que comprei impulsivamente numa loja em liquidação na rua Dublin, um companheiro para toda a vida, tal como aquela luz que eu avisto do casebre do Reguengo Grande.
O cavalo de Troia
Fui ao Museu do Bombarral visitar uma exposição intitulada Marionetas Fora de Cena, de José Carlos Barros, pode ser visitada até 7 de junho deste ano. É uma amostra que reúne um conjunto de marionetas concebidas por este consagrado artista bombarralense. Entre metais como zinco, cobre ou latão e materiais mais delicados como papel e cola, assombra imediatamente a imaginação deste artista multifacetado. José Carlos Barros iniciou o seu percurso na década de 1970, trabalhando como cenógrafo, aderecista, figurinista e marionetista. Foi um dos fundadores do Grupo de Fantoches de Perna de Pau, em 1985 criou a Associação Marionetas de Lisboa. No seu contributo para o teatro português estende-se ainda ao Teatro Nacional D. Maria II, onde foi chefe do setor de adereços, e à direção do Teatro da Trindade, além da docência como professor coordenador do curso de Design de Cena da Escola Superior de Teatro e Cinema. É indiscutivelmente um dos mais originais criadores de marionetas, e foi um revitalizador desta dimensão teatral. A exposição permite-nos descobrir várias das suas marionetas, o seu particular detalhe e expressões, pois cada um dos exemplares foi ajustado para cada espetáculo e as suas expressões adaptadas a cada personagem adaptada.
Peitoral e Máscara. Materiais: fibra de vidro, ferro, latão, plástico, têxteis e madeira, fez parte do espetáculo Desgraças de 2008, foi exibido no Festival Internacional de Títeres, Segóvia, 2008.
Grande sala onde se expõe uma gama de marionetas onde não faltam fabulosas figuras de bestiário
Imagens de marionetas usadas no Auto da Barca do Inferno
Não é a primeira vez que aqui refiro a excelência do Museu do Bombarral. Sempre que visito, é inescapável demorar-me numa sala denominada Formas, estão aí obras de arte de artistas bombarralenses que cultivaram o neorrealismo, houve mesmo uma fábrica de cerâmica e nela trabalhou um dos grandes nomes da arte contemporânea portuguesa, Júlio Pomar, ele foi atraído pela arte da cerâmica, deixou peças luminosas, como aquelas que estão expostas no Museu. Nesta sala se recorda Jorge de Almeida Monteiro (1908-1983), ele fundou em 1944 a fábrica de Cerâmica Bombarralense Limitada, nesta empresa criou-se uma linha criativa que atraiu para o Bombarral artistas neorrealistas, foi o caso de Álvaro Perdigão, Júlio Pomar ou Alice Jorge. Foi graças a esta colaboração que a Cerâmica Bombarralense surgiu em várias Exposições Gerais de Artes Plásticas. Prometo a quem visitar o Museu do Bombarral que todo este acervo jamais se esquecerá além de que o Museu é museograficamente de uma grande beleza.

Visitei esta exposição no dealbar da primavera, é por isso que a ponho em consonância com a surpresa que o meu jardim zen me dera na véspera.

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Nota do editor

Último post da série de 4 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27889: Os nossos seres, saberes e lazeres (729): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250): Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais (Mário Beja Santos)

sábado, 4 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27889: Os nossos seres, saberes e lazeres (729): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250): Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Sim, é de facto o menos conhecido de todos os antigos palácios reais. Há, contudo, uma razão de ser. Foi, ao longo de quase duzentos anos, uma quinta de veraneio, lugar de reis e princesas. Marca-o a singularidade de ter sido o único palácio a resistir intacto ao terramoto, facto que não lhe alterou a discrição. Aqui viveram D. Carlos e D. Amélia enquanto foi rei D. Luís. Com a República, instalou-se aqui a presidência, foi escolhido para a residência oficial do Chefe de Estado. Mas continuou fora dos circuitos de visita, incluindo o Estado Novo. Foi na presidência do General Ramalho Eanes que o Palácio de Belém abriu as suas portas ao público. Com Mário Soares e Jorge Sampaio a utilizar o Palácio de Belém exclusivamente como local de trabalho, houve uma vontade de aproximação aos cidadãos, mais tarde com substanciado na criação do Museu da Presidência da República. Está belissimamente conservado e pode muito bem acontecer que na visita guiada onde estiver o leitor apareça ali de rompante o novo inquilino, quando os visitantes estiverem no gabinete de trabalho do Presidente, frente à mesa onde ele às terças-feiras recebe o Primeiro-ministro.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250):
Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais

Mário Beja Santos

Era uma visita guiada, não quis perder a oportunidade de conhecer o Palácio depois de visitar o Museu da Presidência; os antigos combatentes têm visita gratuita. O Palácio é monumento nacional desde 2007 e desde 1910 é sede da instituição presidencial. Na livraria do Museu deu-me para comprar um livro sobre os azulejos, estuques e tetos do Palácio de Belém. Foi aqui que fiquei a saber que é o único Palácio que resistiu intacto ao terramoto de 1855. Dá-se a explicação que o Palácio tinha uma importância inconstante no conjunto dos restantes palácios reais, os constrangimentos continuaram pelo facto de ser a residência oficial do Chefe de Estado. Esteve até recentemente fora dos circuitos de visita. Foi no segundo mandato do General Ramalho Eanes que o Palácio abriu as suas portas ao público. Mário Soares e Jorge Sampaio passaram a utilizar o Palácio de Belém exclusivamente como local de trabalho. A abertura do Museu e a inclusão do Palácio nos circuitos de visita motivaram um crescente interesse em estudar todo o património e daí as monografias sobre todo o seu acervo, caso desta dedicada aos azulejos, estuques e tetos.

O Museu da Presidência detém milhares de peças, entre objetos pessoais, retratos, presentes de Estado e condecorações. O seu Arquivo integra milhares de documentos que testemunham a vida publica e familiar da maioria dos Presidentes da República. Este Museu também tem a seu cargo a valorização do Palácio da Cidadela de Cascais, bem como uma significativa coleção de carros que serviram os Presidentes da República, a coleção está exposta no Porto, no Museu de Alfandega.

A visita permite conhecer a galeria dos retratos oficiais, os símbolos nacionais associados à República, os presentes de Estado, as Ordens Honoríficas e o acervo dos trabalhos de Paula Rego para os quadros que estão expostos na capela do Palácio.

Posta a visita ao Museu da Presidência segui para o Palácio de Belém, começou-se pelo Jardim do Buxo e pela varanda, obviamente que se entrou pela Sala das Bicas.

As galerias com os retratos dos Presidentes da República. Na altura da minha visita ainda não tinha sido colocado o retrato do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa feito por Vhils, rompendo com a tradição de quadros com pinturas a óleo, desta feita elaborado com troços de jornais.
Jardim do Buxo, vendo-se ao fundo, antes da estátua de Afonso de Albuquerque, o Tejo
Na varanda do Palácio de Belém estão patentes uma série de painéis, os maiores representam dois dos doze episódios dos trabalhos de Hércules, são dos últimos anos do século XVII, com restauros dos séculos XVIII e XX. Neste painel temos Hércules lutando com uma das aves de rapina do lago de Estinfália, na Arcádia, episódio relativo ao sexto trabalho. O herói recebeu ordens para expulsar do lago as terríveis aves com o bico de bronze. Neste painel azulejar ele é representado em pé armado da habitual clava com a qual tenta suprimir o animal.
Este painel evoca o segundo trabalho do herói, de pé, enfrenta e mata a hidra de Lerna, serpente aquática de sete cabeças. Ele veste a pele de leão e levanta a clava em direção à serpente.
Neste painel temos Hércules e a égua de Diomedes, ilustração do oitavo trabalho do herói que tem como missão eliminar as éguas do rei Diomedes, animais selvagens que se alimentavam de carne humana, o herói é representado de pé tentado dominar o equídeo. Na mão direita, ele segura a clava e na esquerda segura a corrente com a qual prende a égua pelo bridão. Hércules veste já a pele do leão de Nemeia, foi o seu primeiro trabalho.

A publicação que eu adquiri sobre azulejos estuques e tetos do Palácio de Belém refere que no século XIX houve um notório desinteresse pelos azulejos. Tanto a varanda como a Sala das Bicas são referidas sem se abordar o azulejo. Foi necessário chegar ao adiantado século XX para se ouvirem comentários altamente elogiosos, como o do arquiteto e historiador de arte Aires de Carvalho que, a propósito dos azulejos da fachada que terão sido colocados em 1778, conclui: “Esses belíssimos painéis de azulejos que felizmente ainda perduram e são inspirados em gravuras seiscentistas com assuntos mitológicos, se não conhecêssemos as contas e que foram pintados expressamente para aplicar nos espaços entre portas e janelas, poderíamos pensar que seriam originais e do século XVII.” Os azulejos da fachada estão dispostos em 14 painéis de grandes dimensões. Cada apinel representa em tamanho natural, uma figura mitológica. Este conjunto tem sido descrito, erradamente, como uma ilustração de Hércules, porque Hércules é, com efeito, a figura que mais se destaca e que é representada em vários painéis.

Confesso que me emocionei profundamente com esta capela do Palácio que alberga oito obras de Paula Rego denominadas O Ciclo de Vida da Virgem Maria. O Presidente Jorge Sampaio não apreciava grandemente esta capela vazia e numa visita a Londres, em 2002, convidou a artista a tal desempenho, ela aceitou prontamente, no Museu da Presidência podemos ver o acervo dos esboços, mas é na capela que podemos testemunhar a genialidade destas oito pinturas a pastel.
Quem vai ser recebido pelo Presidente da República entra no Palácio pela Sala das Bicas, é aquela que vemos mais frequentemente na televisão. Chama-se assim por ter ao fundo duas bicas que deitam água para umas bacias de pedra. A Sala das Bicas também dá acesso à Arrábida, isto é, a zona reservada à vida privada do dia-a-dia do Presidente da República, ele tem direito de morar aqui com a sua família ou sozinho.
A Sala Dourada precede as Salas Império e dos Embaixadores. É uma sala sumptuosa, com mobília encomendada para o casamento do Príncipe D. Carlos, em 1886. Num quadro da escola de Rubens, Cristo triunfando sobre a morte.
No Jardim da Cascata temos os viveiros que D. Maria I mandou construir para os seus pássaros exóticos. Por baixo deste jardim encontram-se as jaulas onde antigamente viviam leões e outros animais ferozes.
O Palácio de Belém conserva nos salões nobres um diversificado conjunto de tetos decorados que incluem um belíssimo exemplar ornamental barroco, que aqui se mostra, está na Sala das Bicas, mas há igualmente teto com pintura mitológica na Sala Dourada, teto com revestimento neoclássico na Sala Império, isto é só uma lembrança para que quando for visitar o Palácio de Belém não se esqueça de olhar para cima.
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Nota do editor

Último post da série de 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27866: Os nossos seres, saberes e lazeres (728): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2 (Mário Beja Santos)

sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27866: Os nossos seres, saberes e lazeres (728): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não posso dizer que coro de vergonha pelo facto de não ter publicado em tempo oportuno este relato de visita a uma importantíssima exposição sobre a obra neorrealista de Rogério Ribeiro. Do itinerário do artista, do seu experimentalismo permanente em que deixou a obra no desenho gráfico, na cerâmica e na faiança, no mural, na tinta-da-china, na linogravura e na gravura, na água forte, na litografia, no guache e na aguada, e fiquemos por aqui, se deixou notícia no texto anterior chamando a atenção para a organização da exposição que abre com um módulo de Mar e Sargaço, o seguinte intitulado de Terra e Campesinato, e hoje aqui se dá o destaque aos módulos sobre o Operariado e outras Fainas, a Família e o Quotidiano, o Corpo e Rosto e, finalmente, Ecos do Realismo, em que se pode apreciar que o artista evoluiu, mas nunca deixou de revelar o valor da dignidade humana, nunca escondeu a sua frustração, num mundo que oprime os mais desfavorecidos. E convido os interessados a adquirir o catálogo de referência da exposição, para além de nos mostrar o extraordinário talento de Rogério Ribeiro, traça o que de mais importante e significativo foi o fenómeno cultural que deu pelo nome de neorrealismo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2

Mário Beja Santos

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência.

Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

A homenagem que o Museu do Neorrealismo prestou a Rogério Ribeiro é, a todos os títulos, tocante. O magnífico catálogo, é uma obra de referência. O curador e diretor científico da casa disserta sobre este fenómeno artístico assente no amor ao povo, no mostrar a dignidade do trabalhador como mensagens indutoras à alegoria à transformação do mundo. Todos estes artistas plásticos, pode hoje ponderar-se à distância, acompanhavam um cânone, mas possuíam uma sintaxe específica, e Rogério Ribeiro revelou desde muito novo um olhar distinto, quer quando ele trabalhou a obra plástica sobre a recolha do sargaço, a monda do arroz ou a ceifa; o trabalhador, fosse a mulher arranjando peixe ou mondadeira, o homem como feirante, cosendo redes, ou ambos em duros trabalhos, o que há peculiar neste artista são cores, traços, ajuntamento de gentes que nos falam do real do quotidiano.

A exposição organizava-se em módulos, logo no primeiro intitulado Mar e Sargaço, logo destaque para a figura feminina, na recolha das algas, mas não faltam pescadores, a simbologia de que a união faz a força, e fica bem claro e o artista plástico vê com previsão um conjunto de formas que o que lhe dará no futuro, caso dos quadros com representação de barcos. Segue-se o módulo de Terra e Campesinato, aparece a máquina, a debulhadora, cores por vezes ciclâmicas em contraponto com linogravuras a preto e branco, mondadeiras trabalhando numa atmosfera quase tropical. É muito vasto o campo de observação de Rogério Ribeiro, experimentando formas com que possa mostrar o trabalho das mulheres nos arrozais, camponeses embiocados, sentados em tendas, estudou à minúcia as posições de homens e mulheres acocorados, em grupos ou isolados.

Outro módulo é dedicado ao Operariado e outras Fainas, aqui se pode ver, se dúvidas subsistem, que o valor do realismo social é uma constante do seu traço desde a década de 1950 até à viragem do século, é como se houvesse uma ética inabalável na atenção aos homens e mulheres sobretudo no exercício das mais duras posições. Rogério Ribeiro nunca escondeu que era um artista político, e nunca cedeu a uma liberdade criativa que fazia parte do seu engajamento, expressões do seu sonho de libertação social.

O módulo Família e Quotidiano é um tópico sempre presente na obra de Rogério Ribeiro, claramente associado a um sentimento de comunidade e solidariedade: a figuração da maternidade, a manifestação de afetos, a apresentação do pai como figura protetora e o núcleo familiar como expoente da coesão, o último reduto da confiança e do amor. Era um dos vetores da ficção neorrealista, a família inspira e sustenta uma ideia de progresso, um mundo melhor, não disfarçando o trabalho político, mostrando um quotidiano humilde, marcado por pequenos trabalhos domésticos, mas onde o lazer e a esperança constituem valores que definem um horizonte a alcançar.

Estamos agora no penúltimo módulo intitulado Corpo e Rosto. Escreve-se no texto da exposição:
“Desde os seus tempos de iniciação artística que o retrato e a representação dos corpos constituem na obra de Rogério Ribeiro eixos decisivos de perceção sobre o real, numa consciência de observação que o conduzirá à expressão do social. Os retratos produzidos por Rogério Ribeiro confirmam, como em todo o neorrealismo, uma realidade social que não abdica da esperança da sua transformação. Porém, esse vínculo humanista não inviabiliza, antes exige, soluções estéticas alimentadas pela arte moderna. Na sua diversidade estética, é possível identificar nestes retratos valores que vão do realismo ao expressionismo.”

O último módulo intitula-se Ecos do Realismo, assim identificada no texto de apresentação da exposição:
“Mesmo nos trabalhos que ecoam já uma memória do realismo original, a obra do Rogério Ribeiro prioriza o reconhecimento sobre o valor da dignidade humana e a sua frustração por um mundo que oprime os mais desfavorecidos. Determinada por um vínculo de compromisso e firmeza, uma tensão formal, baseada numa crescente gestualidade, percorre o trabalho do artista neste período.”

Porventura trabalho de mondadeiras, a tinta-da-china e guache sobre papel
Pastores, linogravura sobre papel, 1954
Porventura mulher em trabalho de recolha, tinta-da-china e aguada sobre papel, 1953
Alentejo, tapeçaria mural decorativa, 2011
Rogério Ribeiro no seu ateliê na Póvoa de Varzim, 1951
Rendilheiras, 1958, linogravura
Homens laborando provavelmente com uma debulhadora, tinta-da-china, aguada e grafite sobre papel
Trabalho de mulheres, não se sabe se é uma lota ou trabalho de conserveiras, aguada e grafite e lápis litográfico sobre papel
Família, óleo sobre platex, 1951
Sem título, tinta-da-china, aguada e anilina sobre papel, 1961
Sem título, óleo sobre tela, 1959
Pastel sobre papel, 1959
UCP – Unidade Coletiva de Produção, óleo sobre tela, 1976
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Nota do editor

Último post da série de 21 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

sábado, 21 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27843: Os nossos seres, saberes e lazeres (727): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não sei que preguiça me deu para não ter oportunamente dado uma notícia útil sobre este acontecimento cultural de gabarito que foi a exposição dedicada a Rogério Ribeiro e o neorrealismo intitulada Fazer Crescer a Vida, que estava patente no Museu de Vila Franca de junho a outubro do ano passado. Mais absurdo ainda é o meu comportamento por ter voltado mais duas vezes para desfrutar da arte do mestre que tanto venero. O Museu contou com o património em poder dos herdeiros de Rogério Ribeiro onde está este labor de sua juventude e que comprovam que o artista plástico só tinha por cânone as representações de um povo. O seu ativismo social assim se exprimiu, ele é um companheiro de ideias neste período de comunistas e homens sem partido que agitavam a bandeira do realismo social. Vendo estes trabalhos, sente-se já a sua grande abertura a experiências, tudo o que se irá metamorfosear na cerâmica, na litografia e linogravura, nas artes da gravura, no desenho de ilustração, algo culminará num projeto maravilhoso que ele dirigiu no Almada velho, a Casa da Cerca.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (248):
Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 1


Mário Beja Santos

Tenho uma profunda admiração por todo o legado artístico e poder criador de Rogério Ribeiro (1930-2008). Quando era responsável por uma página inteira do Jornal de Notícias, nos tempos do grande formato, havia uma secção dedicada a eventos artísticos e culturais a quem eu reconhecia confluência para os arquétipos da sociedade de consumo de massas; entrevistei então Rogério Ribeiro que dirigia a Casa da Cerca, hoje um património cultural de onde se tem, a partir do Almada velho, a mais bela vista de Lisboa fora de Lisboa. Mestre Rogério Ribeiro distinguia-se pela construção de um património artístico, onde primava uma importantíssima coleção de desenho contemporâneo, a realização de exposições envolvendo grandes figuras da arquitetura e das artes plásticas, isto num ambiente envolvido pelo chão das artes, isto é, uma natureza viva onde está implantada alguma da matéria-prima com que os artistas plásticos trabalham, enfim, uma originalidade na articulação da natureza com a arte feita pelo homem.

Decorreu no Museu do Neorrealismo uma exposição intitulada Fazer Crescer a Vida, Rogério Ribeiro e o neorrealismo, aconteceu entre finais de maio e outubro do ano passado. A tudo assisti na inauguração, uma apaixonante apresentação feita por David Santos, o diretor científico da casa, lá voltei duas vezes, e sabe-se lá por que negligência ou inércia fui demorando a intenção de pôr por escrito a chamada de atenção para este acontecimento cultural de gabarito, ainda por cima acompanhado de um catálogo de referência. Penitencio-me da minha falta, o que se segue não passa de uma tentativa de redenção.

Naqueles anos de 1950, eram múltiplas e divergentes as vanguardas artísticas, os princípios ideológicos primavam ou eram contestados. Houvera a rotura com o figurativismo graças ao cubismo, ao futurismo, ao construtivismo, ao expressionismo e o abstracionismo; entrar em cena uma estética figurativa assente num outro modo de ver o realismo, aí assentaram artistas do comunismo e do socialismo, ou não comprometidos explicitamente, mas companheiros de ideias. Um realismo social que conheceu debate interno, aconteceu em Portugal no fim da década com a chamada polémica interna do neorrealismo, isto numa altura em que também se impunham novas correntes estéticas, caso do surrealismo e as expressões abstratas. Rogério Ribeiro era então um jovem artista que irá abraçar o real, será tocado do trabalho dos sargaceiros e das sargaceiras.

Como se escreve no catálogo, ele cumpre em 1951 e em 1952 serviço na Administração Militar da Póvoa de Varzim. Nas praias da região observa a recolha do sargaço, trabalho duro que do mar recupera algas e limos para fertilizar as terras agrícolas. Tais atividades irão preencher um dos módulos da exposição intitulado Mar e Sargaço. A imagem da capa do catálogo é exatamente uma sargaceira, olha-nos de frente, como se tivesse interrompido o trabalho árduo, exibe umas mãos quase másculas, excessivas, o que nos remete para a dimensão dos volumes físicos desproporcionados, caso de O Gadanheiro, pintura de Júlio Pomar.

O que podemos apreciar é que o artista não está confinado a um só cânone, o conteúdo, a grande mensagem é o trabalho e em que condições, ele não se limitará ao óleo ou ao desenho, espraia-se pela cerâmica, pelas ilustrações, será um grande animador da gravura, um apaixonado pela linogravura e litografia, um eterno experimentador da ilustração. O conteúdo é sempre o povo, acrescenta-se aos gestos quotidianos do trabalho o lazer, há uma linha poética constante, entre a vitalidade desses trabalhos duros, como ele revela com as debulhadoras, os construtores de naus, a apanha da azeitona. Pois bem vamos entrar num território de mar e sargaço.

Texto sobre o módulo Mar e Sargaço
Temos pescadores, mulheres cosendo redes, sargaço e sargaceiras, naus, e falando de naus veja-se a agilidade das formas, é uma plasticidade que nos remete para um traço que torce e retorce e distorce, mas que não nos deixa olhar hesitante, são mesmo barcos.
Falando sobre o seu pai, e quanto ao período de 1947-1953, a filha, Ana Isabel Ribeiro, revela documentos do pai sobre este período. Retenho só um parágrafo:
“A convicção da possibilidade de a pintura poder, em determinados momentos, como os revolucionários, ser portador de um sentido aglutinador e mobilizador de vontades, foi algo que o meu pai jamais esqueceu. Foram dezenas os murais que pintou com outros artistas, um pouco por todo o país, após a revolução do 25 de abril. Lembro-me bem dos baldes de água que lhes levava para poderem lavar os pincéis, ou de quando perguntava ao meu pai o que podia fazer, e ele me passava uma trincha para as mãos e dizia: ‘Enche isso aí de azul!’.” Retive este parágrafo porque acho que há qualquer coisa de muralista nas debulhadoras acima, como iremos depois ver em pastores e podadores e mondadeiras, é uma verdadeira épica pastoril onde não se esconde a apologética do social.

Texto que abre a secção Terra e Campesinato

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27821: Os nossos seres, saberes e lazeres (726): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247): A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer: Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão (Mário Beja Santos)