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sábado, 22 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26605: Os nossos seres, saberes e lazeres (674): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (197): Bruscamente, no Natal passado, uma viagem relâmpago a Ponta Delgada – 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Deembro de 2024:

Queridos amigos,
Nem me passava pela cabeça, já numa certa efervescência da quadra de Natal, aterrar em Ponta Delgada para me integrar nas comemorações de uma associação de consumidores que ajudei a impulsionar e tenho acompanhado a florescência, com a ternura de ver tal filhote já na maioridade, e tratado com respeito pelo trabalho desenvolvido; pois assim aconteceu, tinha que vir lesto e pronto a perorar, o que para mim não tem problema, reformado vai para 12 anos continuo a estudar o que se passa na política de consumidores um pouco por toda a parte, o que me facilitou a vida quando a Fundação Francisco Manuel dos Santos me convidou para escrever um livro sobre a sociedade de consumo e os consumidores em Portugal. Foram 48 horas, mas deu para o deslumbramento, tudo acabou em apoteose quando, era a última etapa da minha intervenção, fui à RDP Açores, quem me entrevistou foi o jornalista Sidónio Bettencourt que conheci nos estúdios da antiga Emissora Nacional (na rua de São Marçal, não muito longe do Palácio de S. Bento), era ele estagiário, gravou um programa da minha responsabilidade, trabalho que eu gabei, vim a sugerir que ficasse como funcionário naquela estação emissora, ele quis voltar à sua terra, e passadas estas décadas foi a grande alegria do reencontro.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (197):
Bruscamente, no Natal passado, uma viagem relâmpago a Ponta Delgada – 1


Mário Beja Santos

Recebo um telefonema do meu amigo Mário Reis, secretário-geral da ACRA – Associação dos Consumidores da Região dos Açores, invoca a nossa estima recíproca de longa data para vir a S. Miguel às comemorações dos 35 anos desta associação que ajudei a fundar, e que com tanto carinho acompanho. Por razões orçamentais, alega, tem de ser quase já, marca-me datas, sinto-me compelido a não poder recusar, enquanto falamos lembro-me daquela tarde em que estive na conferência inaugural, corria o ano de 1989, para minha surpresa, o então Presidente do Governo Regional, Dr. Mota Amaral, proferiu uma alocução de impressionante abrangência, qualidade e sentido premonitório. Outro motivo que me impelia a não recusar é que finalmente entrara em funcionamento o Centro de Arbitragem de Mediação de Conflitos de Consumo dos Açores, a ACRA via-se agora na obrigação de mudar os azimutes, queria ouvir opiniões. Fiz a mala, onde meti umas dezenas de livros de consumidores e pus-me ao caminho. Entrara-se na quadra de Natal. O Mário vai-me buscar ao aeroporto, despeja-me à porta de um hotel, tenho o anoitecer e o resto do dia por minha conta. É um espaço que me é muito familiar aquele que vou agora percorrer pelos meus próprios pés, rever tudo, estou certo e seguro, é uma lavagem para a alma. E assim vai começar a primeira deambulação, o anoitecer está mesmo próximo.
Quando aqui cheguei, em outubro de 1967, este espaço da avenida já existia, o panorama ao fundo nas colinas verdejantes é quase o mesmo, salvo o crescimento do casario. O molhe do porto era um semicírculo, ainda estou a avistar a sua ponta em direção àquele cruzeiro gigante, dizia-se que este porto era obra dos alemães, 1937, talvez na previsão de que esta região atlântica ficaria sob custódia germânica. Indo por aqui fora, aí quilómetro e meio à frente, é uma zona de recreio, chamemos-lhe as docas, em 1967 esta Avenida Infante D. Henrique parava perto da Igreja de S. Roque, havia uma piscina e nada mais. Aqui me detenho a rememorar o encantamento que este passeio marítimo me ofereceu e continua a oferecer.
Ao som da música alusiva à quadra de Natal, avanço em direção ao largo da Câmara Municipal onde descubro este presépio iluminado, onde não faltam as Portas da Cidade, o ex-libris de Ponta Delgada.
Aqui estão as Portas da Cidade, o mar chegava mais próximo como se pode ver num quadro célebre de Domingos Rebelo alusivo aos emigrantes, ali no fim do lado esquerdo desembarcou a família real na sua visita oficial em 1901.
Chama-se Jardim Sena de Freitas, nasceu em Ponta Delgada este historiador e polemista considerado uma das figuras mais importantes do catolicismo na monarquia constitucional. É um espaço frondoso e florido que tem ao fundo o Palácio da Conceição, já foi convento, residência do governador civil e é hoje a residência do Presidente do Governo Regional dos Açores (mantém o seu escritório no Palácio de Santana), aqui se realizam as reuniões do Governo.
Pus-me defronte do Palácio da Conceição, tinha entrada aberta àquela hora tardia, entrei e disseram-me que podia visitar a exposição alusiva à autonomia açoriana, fazer uma visita guiada ao interior do palácio e visitar ainda na sala do coro baixo uma exposição dedicada a Mota Amaral. A curiosidade foi mais forte, entrei todo pimpão, dei por muito bem passado o tempo que aqui estive e o que pude conhecer. Não conhecia este cartaz dedicado aos expedicionários para aqui enviados durante um bom período da Segunda Guerra Mundial, o quartel onde dei duas recrutas, nos Arrifes, a cerca de 7 km de Ponta Delgada, foi inicialmente previsto para ser hospital de guerra, felizmente nunca chegou a funcionar nessa vertente, transformou-se no Batalhão Independente de Infantaria n.º 18.
A bandeira que é o símbolo da região
Uma das surpresas da visita guiada foi constatar que nas obras mais recentes ao palácio descobriu-se a existência de dois grandes tanques no que terão sido os jardins do claustro conventual, há mesmo um fontanário e sinais da existência de canais, havia água que vinha das terras e que inclusivamente contribuía para o abastecimento da população local. Está tudo desentulhado, bem iluminado, é um espaço surpreendente
Não vos vou falar da exposição dedicada a Mota Amaral, tocou-me este elemento expositivo, o recorte de uma fotografia que tem na sua base um aglomerado de lava com nove porções, o conjunto arquipelágico, ele foi o primeiro Presidente do Governo Regional (1976-1995), foi deputado da Assembleia Constituinte, deputado da Assembleia Nacional e Presidente da Assembleia da República. Acho esta simbologia do aglomerado de lava sob os olhos do político uma marca de talento artístico.
É uma das portas laterais da igreja matriz, um belo tardo-gótico, fui surpreendido pela iluminação, viera até aqui para ficar a olhar para um primeiro andar onde o meu saudoso amigo, o médico oftalmologista José Luís Bettencourt Botelho de Melo, tinha consultório, não foram poucas as vezes que ali combinámos o nosso encontro para depois ir jantar e matar saudades da Guiné.
Estou agora no largo de S. Francisco, o mesmo onde há um convento onde se guarda a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, num dos bancos ali Antero de Quental pôs termo à vida. Muitas vezes descia a rua de Lisboa, onde tinha o meu quarto e passava diante deste lugar que era o hospital, o hospital mudou de lugar (antes fora convento), está agora transformado num belo hotel.
Neste banco pôs termo à vida um dos mais influentes poetas românticos portugueses, Antero de Quental, é desse tempo aquela âncora com a palavra esperança, que torna esse tremendo desfecho tão mais chocante.
Aproxima-se o Natal, vê-se à direita outra porta lateral em estilo tardo-gótico da igreja matriz, é impressionante o bulício, as diversões para os mais jovens, a atmosfera musical, caí agora no tropel das compras ou dos passeios dos curiosos, sinto agora uma fraqueza de quem andou a comer sandes e precisa de uma sopa quente. Até já!

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 15 de Março de 1971 > Guiné 61/74 - P26587: Os nossos seres, saberes e lazeres (673): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (196): From Southeast to the North of England; and back to London (14) (Mário Beja Santos)

sábado, 1 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26540: Os nossos seres, saberes e lazeres (671): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (194): From Southeast to the North of England; and back to London (13) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Outubro de 2024:

Queridos amigos,
Vejo-me forçado a dar o dito por não dito, fizera uma visita apressada ao acervo fotográfico do que fora a visita à Galeria Courtauld, afinal ficara por mostrar um bom punhado de imagens de obras-primas da pintura europeia. A despedida de Londres fica para a semana, ainda restam algumas imagens do que vi na Galeria Courtauld e o mínimo que posso dizer é que esta galeria é um precioso tesouro. Há visitas gratuitas em Londres ao British Museum, à Tate Gallery, à National Gallery, à National Portrait Gallery, ao Museu Vitória e Alberto, santuários de visita obrigatória; a Courtauld pode custar entre 10 a 12 libras, importância aproximada para visitar o acervo da Royal Academy of Arts. Londres tem aquele tempero das amplas superfícies, da multiplicidade de lugares de oferta completa para qualquer ângulo do lazer, desde uma famosa feira da ladra em Portobello ao Museu Imperial da Guerra, a área dos teatros, a sumptuosidade do Tamisa, a zona residencial das docas, etc. etc. Estou pronto para regressar, haja proventos e saúde.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (194):
From Southeast to the North of England; and back to London – 13


Mário Beja Santos

O homem põe e a câmara fotográfica do smartphone dispõe. Isto de começar a extrair imagens do arquivo e dizer que estava feita a visita à Galeria Courtauld, era uma tirada fora da realidade. Como visitante bem-comportado, e ainda com carga energética, andei por todos os andares e procurei contemplar as obras mais significativas, de acordo com uma leitura prévia que fizera ao conteúdo da galeria. Penitencio-me, por um lado, de dar o dito por não dito, ainda vão sobrar algumas imagens antes de me pôr a andarilhar pelas margens do Tamisa até ao Parlamento, por outro considero que ofereço ao leitor a recordação de um lote de obras-primas que enformam a nossa civilização e cultura, são peças genuinamente representativas. Vamos à visita e deixamos para a semana a despedida de Londres.
Entrada da Courtauld Gallery no edifício da Somerset House
Autorretrato com a orelha cortada, Van Gogh, 1889.
O genial pintor fez este seu autorretrato em janeiro de 1889, uma semana após ter deixado o hospital, fora acometido por uma crise que o levou a cortar uma boa parte da sua orelha esquerda (aqui mostra-se o penso na orelha direita porque ele pintou-se a olhar ao espelho, tivera uma grande crise de desespero depois de uma discussão com o pintor Paul Gauguin. O que assoma frontalmente é a sua vontade de viver e o seu entusiasmo em voltar à pintura.
Ponte de Courbevoie, por Georges Seurat, cerca de 1886-87.
Seurat tinha recentemente desenvolvido a técnica do pontilhismo que registou esta vista do rio Sena, ponto a ponto cria-se uma imagem com uma mistura de cores na paleta. Tinham surgido novas teorias óticas que sugeriam que esta técnica tornava a pintura mais vibrante. Ora o resultado é de uma melancolia e repouso, e ganhou ênfase com as árvores verticais e os mastros dos barcos. A indústria química lá ao fundo é um alerta de que Courbevoie se estava rapidamente a transformar num subúrbio industrial de Paris.
Pintura de Cecily Brown (1969) intitulada Desorientada pela sua reflexão, 2021.
Cecily fez este trabalho num painel curvo no topo da histórica escadaria de Courtauld. Quando o edifício abriu ao público em 1780, o painel continha uma pintura a deusa Minerva e as musas da arte. O trabalho da artista abarca envolve o espetador numa visão sonhadora da pintura trabalhada entre a abstração e a figuração. Alusões a trabalhos artísticos que ela particularmente admira vêm à superfície. Por exemplo, a figura do banhista à direita da parte central faz uma alusão ao quadro Le Déjeneur sur l’herbe de Édouard Manetl. Há em toda a pintura uma flutuação entre o passado e o presente.
A Trindade com Dona Maria Madalena e João Baptista, por Sandro Botticelli, à volta de 1491-94.
Esta peça de altar é uma das pinturas mais importantes de Botticelli no Reino Unido. A visão da Trindade domina a obra: Deus Pai sustenta a cruz com o sacrifício do seu filho enquanto a pomba do Espírito Santo paira entre eles.
Cristo e a Adultera, por Pieter Bruegel o Velho, 1565.
Nos degraus do Templo de Jerusalém, Cristo para a execução da mulher condenada à morte por apedrejamento devido ao adultério. Então que Cristo escreve na areia que quem estiver sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe a pedra. É um trabalho invulgar de Bruegel que usou unicamente cinzentos sombreados, uma técnica conhecida por “grisaille”. De forma genial, Bruegel criou uma multidão, deixando os tons claros exclusivamente para o primeiro plano.
Paisagem com a Fuga para o Egito, por Pieter Bruegel o Velho, 1563.
Trata-se de um recorrente tema presente na pintura medieval e renascentista, Maria, José e Jesus fogem para o Egito devido à perseguição de Herodes. A soberba e dramática paisagem nada tem a ver com a Flandres, talvez Bruegel tenha guardado a sua recordação da travessia dos Alpes, e o que há de muito admirável neste pequeno quadro é a profunda extensão da paisagem, deixando para o primeiro plano a cena da atribulação da viagem.
Adão e Eva, por Lucas Cranach o Velho, 1526.
Cranach pintou o momento fatal da desobediência a Deus, Eva trinca a maçã da árvore da sabedoria, a única árvore proibida no Jardim do Éden. Adão, depois de hesitar, toma o fruto e o casal é banido em castigo. O pintor pretende dar-nos a imagem de animais em paz, uma serenidade que em breve se perderá. Cranach terá feito cerca de 50 versões deste assunto, este é um dos seus maiores quadros e porventura o mais belo.
Retrato de Francisco de Saavedra, por Goya, 1798.
O que há de mais singular na execução desta obra é o contraste entre a falta de pormenores e a sumptuosidade e solenidade habituais dos retratos do tempo. Francisco de Saavedra está centrado numa figura sentada com um braço encostado a uma mesa. Saavedra era o ministro das Finanças da Corte de Espanha, a pintura foi encomendada por um amigo de Saavedra, o ministro da Justiça Gaspar de Jovellanos.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 22 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26519: Os nossos seres, saberes e lazeres (670): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (193): From Southeast to the North of England; and back to London (12) (Mário Beja Santos)

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26519: Os nossos seres, saberes e lazeres (670): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (193): From Southeast to the North of England; and back to London (12) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Outubro de 2024:

Queridos amigos,
A Galeria Courtauld tem cerca de 33 mil objetos de arte, mas tudo quanto se exibe neste discreto edifício está exposto com um belo aparato museográfico e museológico, desde o período medieval, o renascimento e o barroco, e daqui para as correntes do romantismo, chega-se ao ponto alto da coleção, impressionistas e os pós-impressionistas, e grandes artistas com alvo de pequenas mas bem expressivas exposições como aquela que é dedicada a desenhos de Henry Moore à volta da Segunda Guerra Mundial e a fotografia do aclamado Roger Mayne, um aclamado artista que tem aqui uma exposição sobre os jovens nas décadas de 1950 e 1960, isto para já não falar de uma mostra de recentes aquisições de desenhos e gravuras que vão desde o século XVII à atualidade. Deixa-se no texto referências de consulta para quem queira conhecer melhor no computador os extraordinários tesouros da Galeria Courtauld.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (193):
From Southeast to the North of England; and back to London – 12

Mário Beja Santos

Tudo começou com um grande colecionador que se revelou um entusiasta pelos movimentos impressionista e pós-impressionista. O seu legado é a constituição de um instituto de arte a que se associaram outros amantes das artes plásticas. Hoje em dia, a coleção da galeria Courtauld abrange cerca de 33 mil objetos que vão do período medieval até ao presente século, pinturas, desenhos, cerâmica e escultura de todos os géneros e é possível fazer a exploração deste tesouro grátis através de uma plataforma digital com imagens de alta-definição. Sugerimos a quem quer saber mais o site: http://gallerycollections.courtauld.ac.uk ou ver a bela apresentação que o ator Bill Nighy faz da coleção em: https://www.youtube.com/watch?v=_MFrNueRZqU.
A galeria tem muitas exposições, apresentação de aquisições recentes, conferências, tive a sorte de visitar a exposição do genial escultor Henry Moore com os seus desenhos que elaborou durante a Segunda Guerra Mundial. Por ordem cronológica vamos subindo no tempo, pela galeria medieval no 1.º andar, o renascimento e o barroco no 2.º, o impressionismo e os modernos no 3.º. Como gostos não se discutem, procurei ir diretamente para um conjunto de obras-primas de referência.

O aparatoso pátio de Somerset House
Estudo para ‘Le Déjeuner sur l’herbe’, Édouard Manet, cerca de 1863.
Trata-se de um trabalho preparatório para um dos quadros mais famosos do século XIX, provocou escândalo na época pintar duas mulheres nuas e dois homens vestidos. Manet rejeitou soluções do tipo renascentista e deu maior atenção aos pormenores ambientais, como as árvores
Bailarina olhando a planta do seu pé direito, bronze de Edgar Degas, 1919-20.
Nas suas esculturas de bronze Degas aspirava captar o corpo em movimento ou em difíceis posições baléticas
Mulher com chapéu de sol, Edgar Degas, cerca de 1870
Montanha de Santa Vitória com pinheiro alto, Paul Cézanne, cerca de 1887.
A Montanha de Santa Vitória domina toda esta região de Aix-en-Provence, Cézanne vivia aqui e pintou numerosas vezes paisagens da montanha do povo da região, em diferentes perspetivas. A sua ousadia passa pelas cores, a importância dada à árvore em primeiro plano, a extensão dos campos e o cuidado na conjugação das cores entre o azul, o verde e os cinzentos acastanhados.
Os jogadores de cartas, por Paul Cézanne, cerca de 1892-96.
Cézanne passou muitos anos a desenhar e a pintar trabalhadores rurais quando viveu em Aix-en-Provence. Esta obra é uma das cinco pinturas que ele elaborou com homens a jogar às cartas. Supõe-se que o pintor da esquerda é um autorretrato. Ele esboçou figuras alongadas, desproporcionadas, tudo com uma pincelada muito viva e variada. Os dois homens estão absorvidos e concentrados no seu jogo. Ao contrário da pintura anterior em que os trabalhadores apareciam nas tabernas a jogar às cartas entre vinho e cerveja, Cézanne revela aqui uma visão diferente, são figuras monumentais e dignificadas, como duas estátuas que sofreram o desgaste do tempo.
Georges Seurat, Estudo para um quadro de dançarinos a dançar o Cancan, cerca de 1889.
O Cancan era muito popular nos nightclubs parisienses no final do século XIX. Seurat foi um dos consagrados pintores pontilhistas, conseguindo obter uma composição cheia de divertimento e alegria.
Georges Seurat, Praia de Gravelines, 1890
O que aprecio profundamente nesta obra é o velado anúncio da arte abstrata, o mestre usou contidamente poucas cores, separa a água e o céu com o traço ténue, e regista na perfeição uma atmosfera de nevoeiro, típica do Norte de França. Olhamos para estes grãos de areia e fica-nos na imaginação que o pintor tudo elaborou junto a uma janela.
Paul Gaugin, Nevermore, 1897
Gauguin pintou este quadro quando viveu no Taiti, uma ilha no Sul do Pacífico colonizada pela França. A imagem do nu reclinado tem uma longa tradição artística, o que há aqui de singular é o exotismo, a jovem não está propriamente em repouso, está ansiosa e atenta a duas figuras atrás dela. Sabe-se que o modelo era a companheira de Gauguin, Pahura, uma jovem de 15 anos.
Henri de Toulouse-Lautrec, Jane Avril a entrar no Moulin Rouge, cerca de 1892.
Jane Avril era uma dançarina estrela num dos mais célebres cabarés parisienses, o Moulin Rouge. Toulouse-Lautrec desenhou-a em conhecidos pósteres, aqui dá-se a particularidade de ela não aparecer em espetáculo ou no camarim mas à entrada do local de trabalho, bem indumentada. Não era usual Toulouse-Lautrec pintar quadros tão estreitos como este.
Édouard Manet, Um bar nos Folies-Bergère, 1882.
Os Folies-Bergère era um outro muito popular local de diversão noturna parisiense. Podemos ver a enorme variedade de bebidas e o que há de verdadeiramente espantoso nesta obra-prima é vermos a animação ao fundo, é um reflexo de um enorme espelho que projeta o interior. A barmaid chamava-se Suzon, é o centro da atenção de Manet, as suas costas estão refletidas no quadro, tem uma expressão enigmática. Trata-se de um trabalho complexo pela composição absorvente e os críticos consideram-nos uma das pinturas icónicas onde se projeta a vida moderna.

Está na hora de preparar o regresso, em vez de ir pelo Strand propriamente, caminha-se à beira do Tamisa em direção ao Parlamento. Foram essas imagens que reservamos para a despedida de uma viagem que começou no condado de Oxford, seguir para o norte, e veio por aí abaixo até Londres e manda que se diga a verdade, dentro de horas regressa-se a Lisboa com uma grande carga de nostalgia, ficava-se aqui sem qualquer problema não sei quantos mais dias.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 15 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26498: Os nossos seres, saberes e lazeres (669): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (192): From Southeast to the North of England; and back to London (11) (Mário Beja Santos)

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26498: Os nossos seres, saberes e lazeres (669): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (192): From Southeast to the North of England; and back to London (11) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Setembro de 2024:

Queridos amigos,
A sugestão de um passeio pela City prevaleceu, bem sonhei ir ver os trastes no mercado de Portobello e passear no Mall, ou olhar embasbacado a entrada do Covent Garden, fiz propostas mirabolantes como a visita da Royal Academy of Arts e até passeio em Hyde Park, vingou a prudência de fazer tudo a direito desde Blackfriars, cirandar pela City, beber um café e morder algo antes de entrar num impressionante museu onde nunca estive, junto de Somerset House. Dele falaremos a seguir, ainda haverá um passeio junto do Tamisa, regressa-se a Richmond, e depois do almoço há o solene adeus e aquele miraculoso metro que nos larga em Heathrow, agora são uns bons quilómetros a pé dentro de um dos maiores aeroportos do mundo.

Um abraço do
Mário


Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (192):
From Southeast to the North of England; and back to London – 11


Mário Beja Santos

É a minha última manhã de andarilho em Londres, metro de Richmond diretamente para Blackfriars, é o início de uma manhã amena num local que dá pelo nome de City, também conhecida por “milha quadrada”, correspondente à Londinium romana. Ficou praticamente destruída no grande incêndio de 1666, foi brutalmente sacrificada pelos bombardeamentos alemães de 1940, é uma área onde o turista é convidado a visitar a Catedral de S. Paulo, Fleet Street (foi outrora a sede da maioria dos jornais britânicos), Barbican Complex, o Museu de Londres, a Torre de Londres, descendo um pouco mais é a região das docas. Na véspera, procurando acertar agulhas sobre um programa que iniciasse às 9 horas e acabasse às 14, com pesar, desisti do mercado de Portobello, a mais luxuriante feira da ladra do mundo que eu conheço, pensei igualmente no Mall, passar pelo almirantado e visitar o gabinete de trabalho de Winston Churchill, um verdadeiro bunker, venceu a tese de que devíamos andar num terreno plano, começar pela Catedral de S. Paulo e visitar as prodigiosas Courtauld Galleries, com o seu impressionante acervo de obras impressionistas e expressionistas. Foi esta a sugestão que vingou, a minha esperança é um dia aqui regressar com muito mais tempo, poder voltar à região do Westminster, Covent Garden, enfim, umas lambuzadelas também para o Norte, Sul e Sudeste, e meter-me num transporte público para rever Windsor e Hampton Court Palace. Faço figas para este regresso.

Blackfriars Bridge
De Blackfriars caminha-se para S. Paulo, uma fachada de grande ostentação com duas torres barrocas coroadas por uma cúpula de 111 metros de altura (a segunda maior a seguir à da Basílica de S. Pedro em Roma). É obra do maior arquiteto do seu tempo, Christopher Wren. Há já fila à porta, o turista quer entrar e ver lá dentro a impressionante cúpula com os frescos sobre a vida de S. Paulo. Como em Westminster, há estátuas, uma delas prende-se com a nossa história, o duque de Wellington.
Desconhecia inteiramente que a atual Catedral de S. Paulo é a quinta a situar-se neste local, um dos dois pontos mais altos da City. Não querendo aborrecer o leitor contando a história das catedrais anteriores, depois da guerra civil, tempo em que as tropas de Cromwell usaram a nave para guardar os cavalos, e que se vandalizaram a janelas em talhes e efígies, até à demolição do palácio do bispo, pediu-se a Christopher Wren em 1663 que supervisionasse a catedral em ruínas e delineasse um programa para as reparações. Depois de muita discussão, demoliu-se o existente e fez-se a reconstrução. É a obra-prima de Wren, um triunfo da arte, ciência e organização, Wren combinava talentos estéticos, de engenharia e administrativos num grau fora do vulgar. A catedral de Wren foi, e continua a ser, a única catedral inglesa construída durante o tempo de vida do seu arquiteto. Vieram depois os pormenores, o maravilhoso trabalho decorativo em ferro, os sinos. S. Paulo é também um Panteão, ali estão sepultados Nelson, Wellington e Kitchner; há homens de Letras homenageados na Catedral, como caso de Blake, pintores como John Singer Sargeant, o coronel Lawrence, conhecido como Lawrence da Arábia.
Com o tempo contado, dei por mim a homenagear a resistência britânica durante a Segunda Guerra Mundial. Mais de 65 hectares em volta da Catedral foram desfeitos, a Catedral sofreu danos, as cicatrizes estão à vista.

Os bombardeamentos alemães destruíram muito, mas não deixa de emocionar esta curiosa associação entre a arquitetura antiga e a moderna
Não resisti ao espetáculo das hortênsias no jardim de S. Paulo, só há pouco é que percebi que entrara na fotografia
Agora muda-se de agulha, estamos no Strand que liga Trafalgar Square a Fleet Street, no século XIX era o centro do teatro londrino. Há por aqui relíquias do passado e património de luxo: o Adelphi Theatre, construído em 1806 e remodelado em 1930, e o Savoy Hotel, um dos mais destacados de Londres.
Imagem de um edifício que albergou um conjunto de jornais de que só resta a memória, é assim em Fleet Street
É um imponente tribunal de Londres, no costumado neogótico do século XIX
Somerset House é mais um imponente edifício com um aparatoso pátio central. Construído em 1786 no local do palácio dos condes de Somerset, foi o primeiro edifício importante projetado para escritórios. Uma das alas, originariamente construída para a Royal Academy of Arts, alberga agora as Courtauld Galleries, onde se encontra uma das melhores coleções do país de quadros do impressionismo e do pós-impressionismo. É para onde vou agora, conversar com gente como Modigliani, Renoir ou Gaugin.
Curioso anúncio do museu, mostrando o célebre quadro de Van Gogh, autorretrato com a orelha ligada

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26474: Os nossos seres, saberes e lazeres (668): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (191): From Southeast to the North of England; and back to London (10) (Mário Beja Santos)