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sábado, 1 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28233: Os nossos seres, saberes e lazeres (743): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (264): Os jardins cada vez mais admiráveis da Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, Oeiras (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Visitei na década de 1960 nas instalações do palácio dos Marqueses de Pombal, então adquirido, bem como o espaço envolvente, pela Fundação Calouste Gulbenkian, uma mostra do enorme acervo das coleções de arte de Calouste Gulbenkian, era a primeira vez que se mostrava a público o que hoje é patente no museu situado no Parque de Santa Gertrudes. Nada que se comparasse no ajardinamento e mesmo no estado do palácio que se pode ver hoje, ainda só do exterior, o palácio está fechado, seguramente para benfeitorias. A atual proprietária, a autarquia de Oeiras, deu diferentes usos aos jardins, no dia em que os visitei andavam para lá uns senhores a afinar música para um concerto e tenho visto notícias quanto a espetáculos de ópera. São uns bons hectares, posso imaginar o dispêndio para os trabalhos de conservação e restauro. A monografia que me despertara o apetite para esta visita era data de 1987, o autor apresentava queixas sobre aspetos urbanísticos na envolvente, os vários organismos oficiais imiscuídos na resolução dos problemas não tinham travado a desagregação do traçado e geometrismo nas áreas recreativas. Fui ver a diferença, está tudo francamente melhor, deixo aqui o link que mostra os jardins, é o modo de apelar à vossa visita.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (264):
Os jardins cada vez mais admiráveis da Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, Oeiras


Mário Beja Santos

Tinha encontrado na Feira da Ladra um livro sobre a chamada Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, em Oeiras. Admirador que sou daquele espaço e dos trabalhos de requalificação que nele se têm operado, aproveitei uma ida à Galeria Municipal Verney para visitar a exposição Retratos de Guerra, um engenhoso trabalho de Cristina Sampaio sobre tintas-da-china do pintor Neves e Sousa, pus-me ao caminho, já sabedor que o Palácio continua fechado, e fui admirar os jardins criados no século XVIII, tendo como envolvente a estrutura palatina a área agrícola, os jardins com elementos recreativos, caso de fontes, mirantes, cascata, noras, aquedutos e casas de fresco; primava a lógica de aproveitar os recantos do jardim e estar a contemplar ruas arborizadas, ou ouvir o som da água em movimento. O que mais me empolgava nesta visita era levar o livro de Rodrigo Dias comigo, ver como era a quinta em meados da década de 1980 e como se tinha vindo a cuidar de um património que conhecera uma franca decadência nos séculos XIX e XX.

O autor desta monografia chama a atenção para o facto da quinta da família Pombal ter conhecido sucessivas incorporações ao primitivo morgadio e ter beneficiado, nesses acrescentos, de uma amplitude espetacular, em que se aproveita a Ribeira das Lages que atravessa o Jardim, o visitante rapidamente ganha a noção, quando desce do patamar do Palácio e atravessa uma ponte sobre a dita ribeira de que há muito para ver. Para trás, fica a casa dos coches, que é hoje o edifício principal da Câmara Municipal de Oeiras. Desce-se o terraço das araucárias tem-se a perceção dos diferentes níveis, lá em cima fica o Palácio, sente-se que há uma propriedade murada, avista-se mesmo o Instituto Gulbenkian de Ciência (a Fundação Gulbenkian foi proprietária de todo este enorme espaço, aqui apresentou pela primeira vez uma amostra do acervo patrimonial do milionário Arménio, depois vendeu à autarquia o Palácio e os Jardins, importa ainda dizer que na área do palácio funcionou um organismo que teve muito prestigio, o Instituto Nacional de Administração, a autarquia não tem descurado a reabilitação de todo este património, no fundo vim bisbilhotar como o espaço está cuidado, beneficia de ocupação para várias modalidades de lazer, caso dos concertos musicais.

Aprecio imenso os painéis azulejares das escadarias, daí mostrá-los com enorme satisfação. Depois atravesso a ponte e caminho para a Cascata dos Poetas, há para lá trabalho escultórico de Machado de Castro. Como observa o autor da monografia, o traçado dos jardins do Palácio tem um eixo principal: a Rua dos Loureiros, um eixo agregador das duas quintas, a quinta de cima e a quinta de baixo, estão separadas pela estrada real; na quinta de baixo funciona a Estação Agronómica Nacional.

Com o mero intuito de estimular o leitor a visitar este portentoso conjunto paisagístico deixo aqui o link do Guia dos Jardins, há muito para ver para além desta Cascata dos Poetas, irei depois visitar a Fonte das Quatro Estações, mas há muito mais para ver, como a Casa da Pesca, a Cascata da Fonte do Ouro, passeando à volta da adega onde há o dragoeiro, faias, freixo, araucárias e palmeiras.

Um ponto da pequena história era a crítica acerada dos opositores do Marquês de Pombal que diziam que ele se tinha locupletado com dinheiros do horário público para se ter abalançado em tal empreendimento, o Marquês respondia que pagara as despesas com os dinheiros do pão, do vinho e das frutas. E está na hora de partir para a visita lembrando que os jardins estão magníficos, que vale aa pena andar pela estrada real e visitar dentro da Estação Agronómica Nacional o aqueduto e aquela esplêndida alameda. Recomenda-se que ande à volta do palácio, obra de Carlos Mardel, arquiteto e engenheiro militar, era profundo conhecedor daa influência do jardim francês na Europa.

Quando Rodrigo Dias escreveu esta monografia fazemos referência, o autor deplorava a evolução urbana envolvente, os projetos de ocupação agressivos para o conjunto dos jardins e quinta e ia mencionando ponto por ponto as matérias que deviam merecer a maior atenção dos então diferentes intervenientes nesta superestrutura, não esquecendo os elementos decorativos e recreativos dos jardins, a revitalização do sistema hidráulico, o combate à poluição das águas da ribeira, concluindo que ao tempo a monumentalidade do conjunto se perdia e diluía nos pavimentos, no estacionamento maciço, nas cores dissonantes. “A sua desagregação por vários organismos sociais, compromete o traçado e o geometrismo das áreas recreativas”, assim era o seu apelo a uma melhor compreensão e recuperação da Quinta do Recreio integrada na arte paisagista do século XVIII. Felizmente que o seu apelo foi correspondido, basta confrontar as imagens de quatro décadas atrás depois de hoje.

Fachada do palácio. Pátio de acesso.
Belíssimos conjuntos azulejares que decoram as escadarias de acesso ao jardim.
Aspeto da intervenção quer no palácio que no ajardinamento e é visível no lado direito as benfeitorias introduzidas no horto.
Pormenor da Cascata dos Poetas.
Fonte das Quatro Estações, há algo de estranho no enferrujamento da pedra.
Contraste entre o ajardinamento atual e o seu estado anterior, os jardins, no verão, estão cheios de cor e os arruamentos parecem cumprir o traçado inicial.
Uma vista geral do Palácio e Jardim dos Marqueses de Pombal, o leitor interessado encontrará aqui um Guia dos Jardins.
Duas araucárias parecem tutelar o palácio e os jardins.
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Nota do editor

Último post da série de 25 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28212: Os nossos seres, saberes e lazeres (742): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8 (Mário Beja Santos)

sábado, 25 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28212: Os nossos seres, saberes e lazeres (742): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se põe termo a uma inesquecível estadia na Albânia, visitei relíquias da ditadura, prodígios da nova arquitetura, lagos deslumbrantes, a permanência das florestas declivadas dos ermos das montanhas, impressionantes mesquitas e igrejas, num país que prima pela tolerância religiosa; falando da arquitetura, guardo a imagem das residências otomanas de Gjirokastër, as esculturas do realismo socialista. E pude igualmente aperceber-me que este país até há tão pouco tempo quase inacessível, está agora na mira dos potentados da promoção turística hoteleira, a Albânia corre o risco de se encher de Torremolinos e Las Palmas, sacrificando lagunas, praias selvagens, ambientes aprazíveis, florestas impressionantes. Quero voltar, os Alpes dos albaneses são uma tentação. Resta saber se ainda tenho pernas para tanta caminhada.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava-me uma maravilhosa igreja ortodoxa, como aqui se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade. Foi uma visita de dois dias, bem arrependido fiquei por aqui ter estacionado tão pouco tempo. Mais uma razão de fundo para aqui voltar e ver o que já foi visto com os mesmos olhos deslumbrados.

Segue-se a penúltima viagem, Sarandë, mas com os olhos postos no Parque Nacional de Butrint, no seu interior há ruínas fortificadas de tal importância que levaram a UNESCO a consagrá-la como Património da Humanidade. De facto, este local, de acordo com os vestígios e documentos conhecidos, foi ocupado desde 50.000 a.C., por aqui passaram gregos, romanos, bizantinos, venezianos e otomanos, encontramos indícios da sua presença nestas ruínas, caso do bem conservado anfiteatro grego, os banhos romanos, as igrejas bizantinas e as torres venezianas, isto para já não falar das poderosas muralhas helenísticas ou no teatro românico de Esculápio, santuário de peregrinação. Butrint teve um aqueduto feito pelos gregos, abandonado no princípio da Idade Média e reconstruído pelos bizantinos aí por 800 d.C. há também vestígios da adição otomana, uma fortaleza junto do antigo canal, obra do início do século XIX. Ou seja, escolheu-se Sarandë pelos magníficos panoramas que oferece na sua citação no mar Jónico, ali perto há uma praia famosa, Ksamil, situada entre Sarandë e Butrint, mas eram as ruínas de Butrint que me tinham trazido ao extremo sul da Albânia.

Entrada da área de devoções a Esculápio, o famosíssimo médico da Antiguidade
Júlio César mandou construir uma colónia em Butrint no século I a.C., introduziu-se mudanças radicais nas infraestruturas. Construiu-se um fórum onde no passado os gregos tinham a sua praça de comércio, a norte do fórum foram construídos três santuários. As ruínas do Fórum foram descobertas em 2005, o destaque vaia para o pavimento admirável que mede 20x52 metros e é datado de 2000 a.C.
O Batistério de Butrint é um dos mais importantes monumentos bizantinos do Mediterrâneo central. A sua complexa estrutura coloca-o ao lado dos grandes batistérios independentes da Itália da Antiguidade Tardia e da Idade Média, e o seu extraordinário pavimento em mosaico é o mais bem preservado e, de longe, o mais elaborado de todos eles. O desenho do pavimento é constituído por sete faixas que circundam a pia batismal central, num total de oito, o número cristão que representa a salvação e a eternidade. A salvação é um dos principais temas do mosaico, expressa como a água do batismo e a água da vida. Os mosaicos bizantinos estão cobertos por medida de segurança, não podem ser sujeitos a agressões ambientais.
Ruínas da Igreja cristã
Duas imagens da zona fortificada, as muralhas são impressionantes, aquele touro esculpido na parte superior da entrada não escapou à câmara de todos os turistas
Pormenor da Fonte de Junia Rufina, uma fonte romana do século I/II d.C. dedicada às ninfas, virá mais tarde a ser capela
Um aspeto de Sarandë e a sua marginal. É desmesurado o efeito da carga urbanística na orla marítima, são muralhas de edifícios uns atrás dos outros, ao arrepio das medidas de sustentabilidade. Aliás, os noticiários falam de grandes manifestações de protesto a construções que irão deformar a paisagem, a fauna e as áreas protegidas. Quando os grandes investidores descobriram esta nova pérola do Mediterrâneo, logo se fascinaram pela possibilidade de açabarcarem áreas protegidas, extremamente belas e selvagens, finalmente as populações estão a reagir. Só que a explosão turística é um dos motores do desenvolvimento albanês, uma nação que pretende a todo o custo entrar na União Europeia. Não será por acaso que todos os edifícios ministeriais ostentam a bandeira do país e a da União Europeia.
Não acreditei no que estava a ver, um hotel, restaurante e bar implantado sobre o rochedo, e este cheio de vida, erguendo vegetação para os céus, isto em Sarandë.
Numa das ruas da cidade encontrei o museu arqueológico, pequeno, mas com a singularidade de nos mostrar partes significativas de um mosaico bizantino.
Turista é turista, a marginal de Sarandë está cheia de convites como este, convidando a passeios a grutas, praias secretas, baías recônditas, deslumbramentos da água turquesa. Lá fui ao passeio, de facto tudo é fascinante, mas para meu gosto nada supera a vegetação que cresce e que cresce e cobre aquelas montanhas de pedra batidas pela água do mar.
Encantado por aquele rochedo quase escultórico, despeço-me de Sarandë e viajo para Tirana. Agora só penso em voltar, haja saúde e viajarei para o norte, para ver os altos albaneses, uma decoração selvagem preservada por torrentes tumultuosas de florestas espessas. Espero que venha a acontecer. Até à próxima, Albânia.
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Nota do editor

Último post da série de 18 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28193: Os nossos seres, saberes e lazeres (741): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7 (Mário Beja Santos)

sábado, 18 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28193: Os nossos seres, saberes e lazeres (741): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Cheguei prevenido a Gjirokastër, era tudo menos uma aventura desportiva, mas que impõe atividade física a um octogenário, impõe, não há avenidas retilíneas, o casario sobre e desce em cascata, todo o cuidado é pouco para evitar quedas, nesta cidade de charme onde pontificam o branco e o cinzento. Os guias recomendam que se visite a casa natal do mais influente escritor albanês do século XX Ismail Kadaré, que não é fácil de encontrar neste dédalo vertical. A casa Skenduli, a tal que é dotada de 9 chaminés, 4 portas e 64 janelas exige alguma forma física, mas acaba por resgatar a energia despendida com as panorâmicas esplêndidas que dela se desfrutam. Aqui deixo as últimas imagens, não hesito em dizer que quero voltar, já apanhei o furgão para Sarandë, junto do Mar Jónico, tenho mais belezas deslumbrantes à minha espera, que convosco vou partilhar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7


Mário Beja Santos

Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade. Foi uma visita de dois dias, bem arrependido fiquei por aqui ter estacionado tão pouco tempo. Mais uma razão de fundo para aqui voltar e ver o que já foi visto com os mesmos olhos deslumbrados.

Este livro intitulado Indignidade da Albanesa Lea Ypi, investigadora e professora universitária, foi uma das minhas companhias preferidas, assegurou-me que na Albânia atual é possível ter acesso aos arquivos dos serviços secretos dos tempos ditatoriais, e acompanhar a pesquisa que a autora faz de familiares seus perseguidos pelo regime de Enver Hoxha. Mergulhamos na vida de um pedaço da península balcânica desde a atmosfera do império otomano, da Grécia e da Albânia libertadas, vamos ler os relatórios das pessoas encarregadas de vigiar diariamente os avós da autora, assistiremos à detenção e prisão do avô e ao trabalho servil da avó, tratados um como traidor outra como hostil à República Popular Socialista. Leio este feito literário denso e comovente ao mesmo tempo que me vou deparando com as marcas da paranoia desse regime, as suas obras de realismo dito socialista e a vida da Albânia de hoje que procura desenfreadamente entrar na União Europeia cometendo todas as asneiras do turismo de massas, deslumbrados que estão pela corrida de investimentos a esta nova pérola do Mediterrâneo. Felizmente que o povo se começa a mobilizar contra a ganância destes investidores sem escrúpulos, que contam com a complacência política interna.
Percorro os últimos andares da Casa Zekate, construída em 1811, é o expoente máximo das casas-torre em Gjirokastër. Destaca-se pela sua fachada imponente com torres gémeas, tetos de madeira esculpida e uma vista deslumbrante sobre o Vale do rio Drino. Irei depois visitar a casa Skenduli, uma mansão do século XVIII com 64 portas, 44 janelas e 9 lareiras. Não deixo de me deslumbrar com esta cidade de pedra que, curiosamente, nada tem de uniforme nem de monótona, talvez por se dispor numa quase escadaria, num amplo anfiteatro, rodeada de vegetação, salpicada de branco e cinzento.
Um pormenor do quarto onde não falta chaminé, uma janela de vidros coloridos para induzir tranquilidade e até a cama de um bebé.
Outro quarto de família, prima pelo conforto e pela ausência de adornos.
Aqui sim, prima o luxo, dispõe de uma atmosfera requintada, nele se podem fazer casamentos, acolher as visitas, é uma decoração tipicamente otomana.
Outra lembrança do realismo dito socialista, uma exaltação aos libertadores que em 1944 fizeram a vida negra aos exércitos alemães em retirada, no fim desse ano Enver Hoxha e o seu partido comunista encetaram caminho para o controlo absoluto da Albânia, um regime que levou ao isolamento total, cortando primeiro as relações com os jugoslavos, que tinham ajudado o partido comunista albanês durante as lutas de libertação, cortaram relações com os soviéticos e mais adiante com os chineses, era tudo gente revisionista, inimigos da pátria albanesa. Foi assim até 1991, depois, como mostram os filmes, o regime caiu e deixou pouquíssimas saudades.
Há sempre um ângulo novo para explorar nesta Gjirokastër feiticeira. Numa rua a meio da colina pude captar a ligação entre a Gjirokastër medieval e a Gjirokastër que começou a sobressair desde o regime comunista, é indiscutível que esta ligação não é patrimonialmente ostensiva. Mas, francamente, o que mais me enche a alma é esta cercadura de montanhas e o verde vicejante por toda a parte, um diálogo permanente entre o património natural e o edificado.
No piso do alojamento em que me encontro, apanho de frente a entrada da mesquita que escapou às destruições decretadas depois de 1967, quando o regime decretou que a Albânia era uma sociedade ateia. A mesquita teve muitas operações, até foi escola de circo e de artes performativas. Visitei o seu interior, fizeram-se obras ganhou dignidade, é um templo em funções.
Volto-me para o outro lado neste mesmo piso em que fotografei a mesquita, agora é a vez de mostrar a rua principal do grande bazar, povoada de tapetes Kilim, nítida influência turco-otomana, muitas recordações para turistas, diferentes restaurantes para diferentes bolsas, ao fundo o castelo com a torre do relógio e uma proeminente montanha.
Imagem de um outro ângulo da cidade, à esquerda está a casa Skenduli, temos um denso povoamento até ao cume da montanha.
Visita ao museu etnográfico, antes houve aqui a casa em que nasceu em Enver Hoxha. Podemos ver o berço que lhe é atribuído.
Apresentações de indumentárias albanesas típicas.
A casa Skenduli, que visitei na companhia do seu proprietário. Confesso que o pormenor que mais me fascinou é esta impressionante fachada de uma casa fortaleza, povoada de compartimentos desde a cave ao último andar.
Duas imagens só para fazer alusão ao itinerário que se segue, Serandë e Butrint, esta última Património da Humanidade, aqui vos mostro um anfiteatro romano e as ruínas da casa de Esculápio, o médico mais famoso da antiguidade. É bem verdade que vim emocionado de Gjirokastër, um tanto frustrado por não ter visitado as ruínas de Adrianópolis, que foi grega e depois refundada pelo imperador Adriano, como igualmente não visitei o bunker reservado às altas figuras do partido comunista, na previsão de um ataque nuclear. Mais uma razão para voltar. Já estou na penúltima etapa desta viagem que há tanto ambicionava fazer, como sempre viajei de furgão de Gjirokastër até Sarandë. Pois tenho muito para vos contar.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28172: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)

sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28172: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Iniciei a visita à cidade museu de Gjirokastër, Património da Humanidade, possui uma das fortalezas mais imponentes de toda a península balcânica, casas de arquitetura otomana que cortam a respiração, tudo em pedra, um singelo museu etnográfico onde até se guarda o berço do ditador Enver Hoxha, nasceu neste local, Gjirokastër é também a terra natal do maior escritor albanês do século XX, Ismail Kadaré, preferi andar um tanto à solta a contemplar a cidade em pedra, possui uma mesquita bem curiosa que quando o regime de Enver Hoxha decidiu que a Albânia era um país ateu, em 1967, foi transformada em escola de artes circenses. Ainda houve a tentação de ir visitar o parque arqueológico de Adrianópolis, fundada pelo imperador Adriano, mas o deslumbramento de toda aquela pedra pesou mais alto, ainda tenho imagens para vos mostrar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6


Mário Beja Santos

Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade.

Chega-se à cidade e lembra o que me aconteceu quando se chega a Bérgamo, a parte de baixo é igual a todas as outras, toma-se um táxi e em dado momento ganha-se a perceção que entrámos num mundo antigo, ruas de Bazar engalanadas com tapetes Kilim, a grande mesquita, poupada aos acontecimentos de 1967, quando o regime de Enver Hoxha decretou que a Albânia era um país ateu, destruíram-se templos ou converteram-se em ginásios, escolas de circo e muito mais coisas. É em povoações como Gjirokastër que sentimos uma Albânia que tem um dos povos mais antigos da Europa. Aqui subsistem vestígios de uma fortaleza imponente do século XIII, não deixa de nos assombrar que em torno desta cidadela se expande uma cidade singularíssima em pedra, que se iniciou nos primeiros anos do século XIV. Com a ocupação otomana, tornou-se um centro administrativo, aqui residia o Paxá. A cidade começou a crescer no século XVII e teve o seu desenvolvimento final no século XIX, tal como a conhecemos hoje.

A vista não se cansa de olhar para esta urbanização, possui bairros próprios, mas a unidade urbana salta à vista. Casas em pedra, ruas em pedra. Obviamente que o edifício de maior grandeza é a cidadela, teve benfeitorias até à década de 1810, ao tempo de um senhor feudal que deixou marca, Ali Paxá de Tepelena. O mercado coberto foi no passado um dos conjuntos arquitetónicos mais importantes da cidade, veio depois aa ser reconstruído em finais do século XIX no local onde hoje o encontramos, o grande bazar. É evidente que o visitante vem condicionado pelo que vem escrito nos guias, dão destaque ao património otomano, casas de vários andares, construídas em terreno rochoso, com características na distribuição interna, o ponto máximo do refinamento é o quarto de acolhimento dos hóspedes, o interior das outras divisões é de grande sobriedade. Preferi andar um tanto à deriva, tive a sorte de ficar num lugar perto do grande bazar e comecei a incursão pela fortaleza que possui dois museus, preferi cirandar e viver a atmosfera nesta cidade museu. O andar à deriva fez-me perder a visita a um dos bunkers que o regime mandou fazer na década de 1970, quando se supunha, que dentro daquela paranoia das invasões e de guerra termonuclear, que era determinante salvar a vida aos quadros comunistas. Sobre este assunto, limito-me a reproduzir fotografias do interior dessa construção da Guerra Fria.

Castelo de Gjirokastër, imagem retirada do site Tripadvisor, com a devida vénia. O castelo serviu de prisão durante o regime comunista, hoje a então área prisional foi transformada no museu dos armamentos.
Tanque italiano Fiat L6/40, de 1940, a generalidade destes tanques foi destruída em batalha, este exemplar foi encontrado na costa sul da Albânia, é uma peça de museu. Imagem retirada na visita ao museu dos armamentos.
Imagem da parte histórica de Gijirokastër, e, lá em baixo, coberto pela nuvem, a parte nova da cidade. A imagem é tirada do castelo, um dos mais velhos da Península Balcânica, parece um navio, como se procura mostrar noutra imagem, tem poderosas muralhas, uma área museológica, no seu interior realiza-se de cinco em cinco anos um altamente prestigiado Festival Mundial do Folclore, dado que a cidade é um centro de canto tradicional polifónico.
Vista aérea do Castelo de Gjirokastër
A torre do relógio do Castelo, a omnipresente envolvência das montanhas
Realiza-se neste local um dos mais importantes festivais de folclore de todo o mundo, de 5 em 5 anos
A Casa Zekate é uma das preciosidades do património otomano, construída entre 1811 e 1812, a casa pertencia a um dos servidores do Paxá. Na sua imensidade, dispunha de divisões para guardar os alimentos, entre a cave e o rés-de-chão, estábulos, o andar para os servidores e um amplo espaço para os proprietários. Impressiona com o seu aspeto de casa fortaleza.
Quarto dos proprietários
Quarto dos hóspedes
Na impossibilidade de aqui se mostrar o interior de todas as divisões, nomeadamente dos terceiro e quarto andares, divisões com muitíssimo interesse pela lógica de ocupação do espaço, pois há casas de banho com banhos turcos, salas de estar, espaços de convívio, etc. veja-se uma cama no terceiro andar, por baixo da escada.
Vista do quarto andar que permite ver a lógica de uma urbanização um tanto uniforme, transita-se sempre por chão empedrado.
Museu etnográfico de Gjirokastër, um pormenor
Duas imagens do bunker da Guerra Fria em Gjirokastër

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)