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sábado, 16 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28025: Os nossos seres, saberes e lazeres (735): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (256): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A língua albanesa é indo européia mas desconhece-se a sua origem, pensa-se que houve povos nativos que foram influenciados pelos Ilírios; foi um ponto de encruzilhada na península balcânica, por aqui andaram gregos, romanos, temos mostras evidentes do período helenistico e da arte bizantina, muita gente aqui bateu à porta, até a República de Veneza, não contando com os mais de quatro séculos da presença de turcos otomanos. Daí a riqueza patrimonial, natural e edificada, ainda com muitos sinais de uma ditadura que começou em 1944 e se estendeu até 1992, um ditador bem singular, fechou hermeticamente o país, decidiu em 1967 que o país seria ateu, tornou-se marxista-leninista-estalinista, cortou relações com a URSS, odiava mortalmente o Marechal Tito, recebeu calorosamente a China e despediu-a quando esta ingressou no seu modelo de comunismo com a economia de mercado. São todas as particularidades que geram um fascínio entre o lugar e a História.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (256):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 1


Mário Beja Santos

Há muito que sonhava visitar a Albânia, tinha apreciado o passeio que dera na Sérvia, Montenegro, Croácia, e daqui o Trieste e Veneza; comecei por arquitetar uma digressão que incluísse a Macedónia do Norte, o Kosovo, a Bósnia e depois a Albânia, cedo reconsiderei o tremendo disparate, andar a saltitar com passagens praticamente epidérmicas de lugares que merecem o devido desfrute. Centrei-me então na Albânia, escolhi a região da capital do sul, um plano de doze dias; nada de excursões organizadas, para mim têm mais contras que prós. Não há voos diretos, depois de várias tentativas na linha do low cost, conseguiu-se um voo de Lisboa até Bérgamo, daqui um comboio até Milão e por fim um voo para Tirana. Muitas surpresas nas buscas digitais de apartamentos, preços módicos para dormir, então marcaram-se dois dias em Tirana e depois viagens em pequenos furgões até Pogradec, só para ver o lago Ohrid, nova viagem até Korçë, local maravilhoso, novo furgão até Përmet, depois Gjirokastër e depois Saranda/Butrint. No antepenúltimo dia um estirão de cinco horas de Saranda até Tirana, havia ainda muita coisa para ver na capital, tinha curiosidade em tomar um autocarro até Porcelane e visitar um dos projetos mais megalómanos de Enver Hoxa, o abrigo antinuclear, estamos a falar de um país onde o então regime ditatorial espalhou pelo território cerca de 175 mil bunkers.

Guardo as mais belas recordações desta viagem, o país tem belezas inacreditáveis, quase cerca de 70% do seu território é montanhoso, quando se viaja no furgão contemplam-se montanhas algumas delas com neves eternas, sempre panoramas diversificados; Tirana lembra a aventura arquitetónica de Berlim (claro, ressalvadas as grandes distâncias) a cidade lembra um estaleiro de arquitetura arrojada, certamente discutível, não entendi como foi possível construir edifícios altíssimos na Praça Skanderbeg, possuía uma harmonia própria, tinha a ver com os anos eufóricos da independência, logo nos inícios do século XIX; ali perto desta Praça estão os quarteirões ministeriais, todos embandeiram o país e a União Europeia, a Albânia faz parte dos pretendentes balcânicos.

Devo dar ao leitor uma explicação sobre este conjunto de imagens. No regresso de Tirana, no aeroporto de Barajas, tive a fatalidade de deixar o meu telemóvel no segundo check-in, vinha de um país fora da União Europeia, tive que sair e entrar novamente, estava exausto dos quilómetros percorridos a pé dentro daquela estrutura medonha, felizmente que a segurança entregou o telemóvel no serviço de objetos extraviados, conto voltar a ter telemóvel em breve, nele estão muitas imagens que captei ao longo da viagem.

Mas tive a dita de enviar algumas dessas imagens para dentro do meu computador, são essas as que agora mostro e espero ter oportunidade de detalhar os dez dias úteis do passeio. O que aqui mostro é um pormenor da belíssima parte alta da cidade de Bérgamo, tirei imagens da Piazza Vechia, da Basílica de Santa Maria Maior e da Catedral. Entrei numa igreja onde está sepultado Bartolomeu Colleoni, uma das figuras mais importantes de Bérgamo, mas não me deixaram tirar qualquer imagem. Daqui segui para Tirana, mostro a Praça Skanderbeg, onde está a estátua do herói nacionalista, visitei a Grande Mesquita, opulenta e recentíssima, como mais tarde mostrarei a catedral ortodoxa albanesa denominada de Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Enfim, há duas imagens do bunker antinuclear e há algumas outras que fui tirando ao longo do percurso. O que aqui se mostra é um mero aperitivo de um país que é hoje apresentado como a nova pérola do mediterrâneo, não só graças aos seus panoramas naturais como também a turística Riviera que tem o seu polo no mar Jónico entre Saranda e Ksamil. Espero que desfrutem.


Bérgamo, um pormenor da Piazza Vechia
Bérgamo, fachada da Capela Colleoni, aqui está sepultado o condottiero veneziano Bartolomeu Colleoni
Pormenor da Praça Skanderbeg, Tirana
Pormenor da Grande Mesquita de Tirana
Entrada do bunker antinuclear, obra do regime de Enver Hoxa, Tirana
Pormenor do quarto destinado ao ditador no bunker antinuclear, Tirana
Pogradec, pormenor do lago Ohrid, ao fundo uma montanha da Macedónia do Norte, uma das fronteiras da Albânia
Dois pormenores da belíssima igreja ortodoxa denominada de Sexta-Feira Santa, em Përmet
Skënduli House em Gjirokastër, Património da Humanidade, uma esplendorosa casa Otomana
Zekate House em Gjirokastër, Património da Humanidade, pormenor do quarto dos hóspedes
Pormenor da Grande Basílica ou residências episcopais do século V, Butrint, Património da Humanidade
Pormenor da fachada do Santuário de Esculápio, o Deus da Medicina, século IV a.C., estilo helenístico, Butrint, Património da Humanidade
Pavimento bizantino, Museu Arqueológico de Saranda, sul da Albânia, século VI d.C.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28004: Os nossos seres, saberes e lazeres (734): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (255): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2 (Mário Beja Santos)

sábado, 9 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28004: Os nossos seres, saberes e lazeres (734): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (255): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Quero lembrar os meus confrades que pelo menos aos domingos a visita é gratuita para todos e em todos os casos para os ex-combatentes, Palácio e Jardins. Procurei passar em revista os espaços essenciais merecedores de visita, numa amplitude onde procurei inserir o valor arquitetónico, escultórico, as belas artes, não escapando a valiosíssima coleção de cerâmica e porcelana, pondo ênfase nas obras de conservação e restauro da capela real; os jardins, em toda a sua escala, bem como as estufas reais, têm sido primorosamente alvo de conservação e restauro, é evidente que se irá gastar uma fortuna para melhorar a conservação do canal de azulejos, também ele objeto de extremos cuidados, mas o tempo foi inclemente. Dá gosto encontrar tão grande harmonia entre o Palácio Real e os formosos jardins.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254):
No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2


Mário Beja Santos

Continuamos a visita a este Palácio que não pode deixar de nos fascinar pelo que tem de imponência e exuberância nos seus detalhes arquitetónicos – muita majestade para suas majestades. Recordo que o Infante D. Pedro, senhor da Casa do Infantado, futuro Rei D. Pedro III (por casamento com D. Maria I) encarregou o arquiteto Mateus de Vicente de Oliveira de ampliar o que se chamava “Paço Velho”, tudo começara com a Casa de Campo de Queluz, as obras encomendadas por este Infante D. Pedro datam de 1747. Em 1760, com o anúncio do casamento de D. Pedro com a princesa D. Maria com o irmão do rei D. José, iniciam-se obras para transformar este local num espaço de lazer e entretenimento, foi assim que se rechearam sala de aparato como a Sala do Trono ou a Sala dos Embaixadores.

Incendiada a Real Barraca da Ajuda em 1794, o Palácio de Queluz tornou-se residência oficial da rainha D. Maria I, aqui vão também viver os príncipes regentes, D. João (futuro D. João VI) e D. Carlota Joaquina. O Palácio foi habitado em permanência até à partida da Família Real para o Brasil. No seu regresso, a habitação real é intermitente, D. Carlota Joaquina viverá aqui em regime de semiexílio (era declaradamente antiliberal) aqui morrerá D. Pedro IV, no quarto chamado D. Quixote, onde nascera. Recordo igualmente que este Palácio foi classificado Monumento Nacional em 1910 e que a partir de 1957 o pavilhão D. Maria I, ala nascente deste Palácio, passou a ter funções de residência dos Chefes de Estado estrangeiros em visita oficial a Portugal.

A gestão deste monumento pela Parques de Sintra tem sido muito bem sucedida em todos os seus projetos de conservação e restauro, nomeadamente pondo os jardins históricos numa ligação harmoniosa entre a paisagem e a arquitetura palaciana, sente-se perfeitamente essa harmonia passando dos jardins junto dos canais por onde passa a Ribeira do Jamor para o patamar superior, que prima por belos lagos e esculturas.

O Corredor dos Azulejos é também chamado Corredor das Mangas, numa alusão às mangas de vidro que protegiam as velas que se presume terem sido aqui guardadas.
Trata-se de uma sala revestida a azulejos, representando as estações do ano, os continentes, cenas da mitologia clássica, singeries (representações de cenas com macacos), chinoiseries e cenas de caça.

Pormenor da bela Sala dos Embaixadores
Cómoda-papeleira com alçado, Itália, Piemonte, cerca de 1740
Retrato do rei D. Pedro IV representado com o uniforme de Coronel do Batalhão de Caçadores n.º 5, que comandou durante a Guerra Civil Portuguesa.
O Canal de Azulejos, por onde passa a Ribeira do Jamor, tem uma extensão de 115 metros e atravessa os jardins de Queluz, de norte para sul.
Aqui erguia-se outrora a Casa do Lago, também chamada Casa Chinesa ou Casa da Música. Neste pequeno pavilhão tocavam, nas tardes de Verão, os músicos de câmara da Rainha, enquanto a Família Real e a corte se passeavam de barco sobre as águas tranquilas (represadas por um sistema de comportas), apreciando as paisagens fantasiosas dos grandes painéis de azulejos, concebidas a partir de gravuras, representando portos de mar e paisagens variadas.
À noite, ao longo do canal, acendiam-se archotes em forma de cornucópias de talha dourada.

Pormenor do Jardim da Barraca Rica. Esta barraca ficou concluída em 1757, hoje desaparecida, era o elemento central deste jardim, outrora prefusamente decorada com estatuária em chumbo. Construída em madeira, a Barraca Rica compunha-se de sete pequenas divisões revestidas de damasco, com espelhos, tremós e talha dourada. Nesta zona localizam-se hoje três dos mais notáveis grupos escultóricos em chumbo da oficina londrina John Cheere: Caim e Abel, Eneias e Anquises e o Rapto de Perséfone.
Caim e Abel
Esplendor da arquitetura e da escultura, jardinagem formosa, o topo da harmonia
Duas obras-primas do jardim do patamar superior, as esculturas de chumbo de John Cheere foram muito bem restauradas
O Jardim Botânico do Palácio Nacional de Queluz foi construído entre 1769 e 1780, sendo contemporâneo das grandes realizações setecentistas do período barroco-rococó nos Jardins de Queluz. De pequena escala, quando comparado com outros jardins botânicos desta época, Queluz assume uma natureza de entretenimento e recreio. Também designado Jardim das Estufas, este era o espaço onde no reinado de D. Pedro III se plantavam ananases, um dos frutos mais apreciados pela família real. Esta zona estava ornamentada com lagos, bustos e estatuária.
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Nota do editor

Último post da série de 2 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27981: Os nossos seres, saberes e lazeres (733): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1 (Mário Beja Santos)

sábado, 2 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27981: Os nossos seres, saberes e lazeres (733): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Desta feita vim até à mais conhecida residência real setecentista. Aqui impera o barroco e o rococó, há momentos em que parece que estamos a ver cenários de ópera, a carga decorativa é imensa, basta olhar para as balaustradas, com estátuas, no jardim superior, em frente ao Jardim de Neptuno, o lago perfila-se diante da fachada Robillon. Conhecer a história deste Palácio é entrar na vida de uma corte que a seguir ao terramoto de 1755 se prantou na Real Barraca da Ajuda, e houve sonhos de grandeza, daí a adesão a diferentes estilos, onde não falta a influência neoclássica. Quando se incendiou a Real Barraca, em 1794, Queluz passou a ser residência da Família Raal. As grandes obras de restauro começaram em 1933, houve um terrível incêndio em 1925 que consumiu a Sala dos Embaixadores, coube ao arquiteto Raul Lino dirigir as obras. Vinha com curiosidade de ver os trabalhos de restauro mais recentes, nunca me fora dado a visitar a capela, ainda há trabalhos em curso, mas é um espaço imponente, goste-se ou não dos barrocos ao gosto italiano. E satisfiz a minha gula em porcelanas e cerâmicas, como aqui vos conto.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254):
No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1


Mário Beja Santos

Pelas minhas contas, o Palácio Nacional de Queluz tem aproximadamente 280 anos, se se tomar como referência a data de arranque das grandes obras iniciadas pelo Infante D. Pedro, em 1747. Partiu-se da residência da família Corte-Real, os seus bens tinham sido confiscados depois da Restauração e integrados no património da Casa do Infantado. O Palácio irá adquirir a dimensão de Palácio Real, as vicissitudes por que passou espelham as últimas décadas do absolutismo, o gosto do final do barroco e a sua exuberância rococó, os ricos investimentos em decoração, pintura, mobiliário, artes decorativas, com realce para a cerâmica. A partir da década de 1750, e até ao falecimento do rei consorte D. Pedro, ocorrida em 1786, seguida da morte prematura do príncipe herdeiro D. José, a Real Quinta de Queluz conhece um primeiro período de habitação real marcada por uma vivência lúdica e festiva. É o que se pode visitar na opulenta Sala do Trono, Sala dos Archeiros até à sala de música, sem me querer esquecer a Sala dos Embaixadores que viveu um incêndio devastador e conheceu a sua reabilitação acompanhada pelo arquiteto Raul Lino. Por aqui andou um dos grandes arquitetos, escultor e gravador do seu tempo, Jean-Baptiste Robillon.

Queluz ganhará o estatuto de residência permanente da Família Real após o incêndio em 1794 da Barraca Real da Ajuda, era habitação real desde que o terramoto de 1755 destruíra, daqui partiu D. Maria I e o regente D. João e mais membros da Família Real para o Brasil, em novembro de 1807. Junot levou daqui uma série de peças, e até sonhou instalar em Queluz o próprio Napoleão. Família Real regressa a Portugal em 1821, houve obras da recuperação do Palácio. Aqui faleceu em 1834 D. Pedro IV. D. Maria II e o seu marido, D. Fernando II, irão preferir Sintra e o Palácio da Pena. O rei consorte até aproveitou a oportunidade para deslocar algum recheio para os jardins do Palácio das Necessidades, Alfeite e Tapada da Ajuda. Só há notícia que D. Luís e D. Maria Pia passaram em Queluz o verão de 1874, e D. Carlos e D. Amélia fizeram visitas esporádicas e obras de beneficiação, caso da Sala de Jantar, Sala do Café e Sala de Fumo. Veio a República, por aqui andou uma escola agrícola e a partir de 1955 passou a ser residência oficial de Altos Dignatários e Chefes de Estado em visita oficial ao nosso país.
Começa a visita pela Sala do Trono, de que guardo as melhores memórias e conto porquê.

Dá gosto ver as benfeitorias, tudo bem dourado e estucado, até os tetos ganharam relevo, dá gosto olhar lá para cima. Tive o privilégio de aqui assistir a concertos memoráveis no âmbito do Festival de Música de Sintra. Vi e ouvi pianistas de grande craveira como Sequeira e Costa, Aldo Ciccolini, Maria João Pires, Andreas Staier, Vladimir Ashkenazy e Ivo Pogorelich. Não resisto a contar histórias destes dois últimos. As cadeiras eram douradinhas e com palhinha, um senhor que era vereador, bem pesado, dispunha desconfortavelmente da sua corpulência na cadeira elegante mas frágil; tocava Ashkenazy, uma conhecida sonata de Beethoven, quando se ouviu um estalo e caiu um dos pés da cadeira, o senhor, com ar muito encavacado, bem tentava manter o equilíbrio; Ashkenazy levantou-se, pôs o pé da cadeira ao pé de si e deu-lhe um lugar que é reservado a quem faz mudanças nas partituras, o vereador só olhava para o chão; fim do concerto e depois de vários extras, Ashkenazy pegou no pé da cadeira e mandou a assistência segui-lo, era hora de todos irmos para a cama.

Com Ivo Pogorelich foi mais dramático. Era uma noite quentíssima, quem financiava o recital era a EDP, vieram as senhoras dos diretores, bem encasacadas, à entrada ofereceram-lhes belos ramalhetes de rosas envolvidos numa película de celofane. Pouco antes de se iniciar o concerto, veio uma menina informar que o senhor que a seguir ia dar o concerto exigia que as portas fossem todas fechadas, não queria palmas, nada de interrupções enquanto ia tocar as suites inglesas de Bach, seguiam-se obras de Rachmaninoff, e depois uma catadupa de Scriabin. O que interessa é que algumas daquelas senhoras ficaram ofegantes dentro da estufa em que se tornou a Sala do Trono, uma delas teve o sacrilégio de começar a remexer no celofane, o genial pianista lançou-lhe um olhar terrível, eu estava em frente e vi como a senhora ficou intimidada, de mansinho pôs as rosas no chão, as senhoras iam fazendo manobras para tirar os casacos impróprios para aquela sauna. Mas estou felicíssimo agora com estes restauros, tudo brunido e luzidio, se por aqui aparecesse Luís XV seguramente ficaria enternecido.

A Sala de Música também teve beneficiações, lá ao fundo D. Maria I olha-nos atentamente, tenho a impressão de quando ela ouvia aqui o cravo bem temperado aqueles dois jarrões não existiam.
É a primeira vez que vejo a Capela Real de Queluz. É um deslumbramento de volumes, formas e conteúdo que não me enche a alma, mas reconheço que é um belíssimo restauro. A Capela foi projetada por Mateus Vicente de Oliveira, por volta de 1752. A cúpula da capela-mor tem uma cobertura exterior em forma de bolbo, revestida de cobre, ao gosto centro europeu. A talha dourada é de inspiração rococó e as paredes e teto são decorados com pintura de fingidos imitando mármore e lápis-lazúli. O retábulo do altar-mor representa Nossa Senhora da Conceição, que é o orago de Queluz e nos altares laterais temos S. Pedro, S. Paulo e S. Francisco de Paula. Leio na legenda que algumas das pinturas do altar-mor são da autoria das infantas, irmãs de D. Maria I.
Pormenor do teto
Saindo da capela-mor entramos numa sala ao gosto do Império, lá ao fundo D. João VI olha-nos com uma certa bonomia e a mesa vitrina está cheia de belos objetos.
Travessa da Dinastia Qing, período Qianlong 1760-1780

Perdi-me na sala das cerâmicas, aqui não faltam peças fabulosas de porcelanas chinesa e europeia e faianças portuguesa e europeia, deixem-me fazer alguns comentários. O acervo da porcelana chinesa destaca peças riquíssimas, as Dinastias Ming e Qing estão representadas por pratos, cabaças, potes, jarras, gomis, há para ali deslumbrantes peças “chocolate” e “família rosa”, não faltam canudos e defumadores e frascos de chá, e, cereja no bolo, um incompleto serviço de jantar, chá, café e chocolate, parei a admirar uma travessa, daí a fotografia abaixo. A porcelana europeia é da mais rica do seu tempo, com destaque para porcelanas de Meissen, belas peças francesas e doutros países; a faiança portuguesa também está altamente representada, há objetos da Real Fábrica do Rato, de inegável qualidade e a puro estético; e temos cerâmicas da Holanda, Inglaterra e Espanha. Para quem gosta de porcelana e cerâmica tem aqui muito para contemplar.
As salas multiplicam-se, dou comigo a pensar como o viajante só tem a ganhar em preparar-se para a imensidade de património que lhe vai desafiar a atenção. Não me detive aqui ao acaso, quem decorou esta sala tem sapiência para decoração e ornamentação. Percorrer todas estas divisões, quartos de dormir, salas e aposentos, por onde andaram artistas portugueses, franceses e italianos, entalhadores, escultores e ourives, e depois de todas as voltas que deu este património encontrar uma solução que realce o bom gosto, tem méritos que apraz realçar.
Aqui se interrompe o passeio, temos aqui um pormenor da chamada escadaria Robillon, não faltam leões, este senhor sabia de arquitetura e de muitas mais coisas, entenda-se esta escadaria como uma ligação entre o jardim superior e aquele que leva a um imenso espaço lúdico à volta da Ribeira do Jamor, lá ao fundo há uma imensa cascata e diversas estufas, olhando esta imagem sinto-me feliz com património conservado, todo este trabalho deve custar uma fortuna, aqui, a curta distância está uma azulejaria riquíssima a pedir conservação, não sei se a degradação que vemos é fruto do céu aberto ou do vandalismo, quem visita o Palácio Nacional de Queluz tem tudo a ganhar em passear-se pelos belíssimos jardins.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 25 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27953: Os nossos seres, saberes e lazeres (732): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (253): No Convento de Chelas, revivendo o passado na Guiné (Mário Beja Santos)

sábado, 25 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27953: Os nossos seres, saberes e lazeres (732): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (253): No Convento de Chelas, revivendo o passado na Guiné (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se conta como se respondeu ao convite feito pelo senhor Diretor do Arquivo Geral do Exército para conhecer a instituição e o seu património histórico. Andava eu à cata de dados biográficos do Tenente Médico João Vicente Santana Barreto, de quem escrevi uma monografia, enviei vários emails, não obtive resposta até que chegou um telefonema do seu principal responsável dando-me a saber que nada havia ali sobre o tenente médico, mas gostava muito de me convidar, talvez houvesse surpresas. E muitas tive, aquele Arquivo tem uma fabulosa riqueza de dados, é incompreensível que os historiadores não batam aqui à porta. Do que me coube como grande surpresa foi encontrar um auto de declarações de que perdera completamente a memória, tudo relacionado com uma famigerada operação onde não faltou miséria humana, essa sim, guardo-a na memória, como uma das situações mais tenebrosas que me foi dado a viver. E nada mais direi, é segredo que se leva para a tumba.

Abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (253):
No Convento de Chelas, revivendo o passado na Guiné


Mário Beja Santos

Há muitos anos aqui cheguei para pedir fotocópia de documento que me desse gratuitidade de propinas na vida académica, a mim e às minhas filhas, trata-se de uma legislação que atribui a quem teve condecorações ou louvores de generais prefeitos em guerra essa compensação. Mais recentemente, enviei emails insistentes ao Arquivo Geral do Exército, aqui instalado, pedindo informações sobre um médico natural de Goa, tenente, que trabalhou na Guiné de 1919 a 1931, a quem dediquei uma monografia, João Vicente Sant'Ana Barreto, para além de médico de doenças tropicais é o único autor de uma História da Guiné. Dirigi-me aqui como ao Arquivo Histórico Ultramarino, Arquivo Histórico Militar, Arquivo Nacional da Torre do Tombo e Biblioteca Nacional. Não obtive resposta desta diligência, e eis que estou na fila de entrada para um avião que me leva para Frankfurt e recebo um telefonema, contactava-me o senhor Tenente-Coronel Simões de Oliveira, Diretor do Arquivo Geral do Exército, dizendo-me que não havia nenhum processo referente a esse tenente médico, mas gostava muito que eu visitasse a instituição. Prontamente disse que sim, até porque lhe queria pedir o favor de ver se eu podia encontrar os contactos de três camaradas que comigo conviveram em Missirá e Bambadinca.

Largos meses depois, proporcionou-se o encontro, tinha ido à RTP África falar sobre o meu livro Guiné, Bilhete de Identidade Tomo II, tomei um autocarro, foi fácil de chegar aqui, ao Convento de Chelas. É mais uma história assombrosa do nosso património, este Convento de S. Félix, uma das instituições religiosas mais antigas da cidade, aqui se encontraram vestígios romanos e visigóticos que podem ser vistos no Museu Arqueológico do Carmo, sofreu profunda remodelação a partir de 1604, acolheu as Freiras de S. Agostinho, aqui viveu na juventude D. Leonor de Almeida Portugal, a Marquesa de Alorna e futura poetisa Alcipe, a família fora perseguida no Processo dos Távoras, por decisão do Marquês de Pombal; com a extinção das ordens religiosas, veio a degradação, instalou-se aqui uma fábrica da pólvora, mais tarde o Arquivo Geral do Exército e também por aqui andou o Batalhão de Serviço de Transportes. A galilé e o Portal de Igreja estão classificados como monumento nacional desde 1930, é o vestígio manuelino que antecede as transformações do início do século XVII, a austera arquitetura maneirista.

O senhor Tenente-Coronel recebe-me com a maior das afabilidades, visitamos estruturas azulejares já sujeitas a conservação e restauro, foi me dado a apreciar a delicada volumetria do claustro, cometeram-se para aqui no passado algumas barbaridades, arrancaram-se as oliveiras substituindo-as por palmeiras, no centro do claustro a fonte e a estrutura azulejar reclamam obras profundas. Neste acolhimento, sou convidado a ver o meu processo, sento-me e dou subitamente, enquanto folheava a documentação nele existente com um auto de declarações datado de março de 1969, tratava-se da famigerada Operação Anda Cá, que decorreu nos dias 21 e 22 de fevereiro desse ano, o Comandante do Agrupamento do Bafatá, o então Coronel Hélio Felgas, mandara instalar o inquérito, a evolução da operação cheirara-lhe a esturro, percebia-se à légua, até pelas alegações feitas após operações de vários oficiais, se tinham tomado deliberações que conduziram ao abandono da operação.

Reli todo o texto das minhas declarações neste processo, voltei a sentir a profunda mágoa por ter calado a verdade de tudo o que tinha acontecido a partir do momento em que um soldado de uma das companhias que faziam parte do efetivo da operação em que eu e os meus soldados já estávamos a ouvir vozes no acampamento de Madina, nos fundos do regulado do Cuor, pisou um fornilho, ficou completamente destroçado e mutilado ficou um dos meus sargentos de milícia, Fodé Dahaba, felizmente ainda vivo, acompanhou-me em 2010 na visita que fiz para me despedir dos meus soldados.

Prosseguiu a visita aos ficheiros, há para ali cerca de 15 milhões de fichas de gente que fez recenseamento militar desde meados do século XIX à atualidade, é impressionante, deve ser um dos mais lautos pitéus que se pode dar a sociólogos, peritos em estatística, entre outros, poder ver estes mancebos em altura, peso, medições cranianas, habilitações, profissões, e muitos mais dados.

Eu vinha também com alguns pedidos, antes de partir para a constelação de Oríon, gostava muito de abraçar camaradas muito queridos com quem vivi a seu lado a plenitude da solidariedade militar, o António Fernando Ribeiro Teixeira, o António Silva Queirós e o Alcino Barbosa. Vários computadores são postos a trabalhar, a primeira investigação anda à volta de saber se o militar recebe aquele complemento de cerca de 100€ em outubro ou novembro. Encontrou-se o Teixeira, já escrevi para o Lugar do Calvário, em Felgueiras; apareceram as fichas do Queirós e do Barbosa por outras vias, o senhor tenente-coronel assegurou-me que irá à cata destes processos por outras vias.

Saio de Chelas feliz por esta visita ao passado, viajo de autocarro com a memória aos turbilhões, lembrando estes meus camaradas que tanto gostava de rever, o Teixeira e o seu elevado profissionalismo como cabo das transmissões, o muito que trabalhou como trolha na reconstrução de Missirá, o Queirós, o responsável pelo nosso armazém de víveres, conhecido por 81, era com ele que eu punha a funcionar o morteiro 81 nos momentos que tivemos de flagelações, e guardo a muita mágoa de nada ter sabido do Alcino Barbosa, evacuado depois da mina anticarro de 15 de outubro de 1969, com fratura do calcâneo, a única coisa que sei é que ele voltou para a sua terra, perto de Amarante.

Estou em ânsias em saber por onde param estes meus inesquecíveis camaradas.
António da Silva Queirós, de olhar banzado diante da ruína do Unimog 404, vitimou mortalmente o Manuel Guerreiro Jorge, houve igualmente sete feridos
Não se pode dizer que o Convento de S. Félix não tinha uma boa extensão
A ligação do Convento com a Igreja, entrada pela porta à esquerda
Galilé e Portal Manuelino, monumento nacional desde 1930
Enquanto visitava estes corredores de ficheiros onde se guardam referência a mais de 15 milhões de mancebos desde meados do século XIX, só me lembrava daquela conservatória inventada por José Saramago para o seu romance Todos os Nomes, ficheiros que levavam até aos abismos da escuridão, pensando na riqueza de elementos que a historiografia portuguesa tem aqui ao seu dispor.
Confesso que tinha esquecido completamente este auto de declarações, tudo isto se passou em 19 de março de 1969, tinha saído do Hospital Militar 241 onde fizera uma operação a uma exostose no joelho direito, mal sabia eu que nesse dia com o anoitecer Missirá ficou num pasto de chamas, ia começar a maior aventura da minha vida, recuperar tudo o que fosse possível, lutando contra o tempo, a época da chuva estava à porta.
Cada vez que eu vejo esta fotografia recordo aquele boné que estava completamente sebento, penso que passou pela cabeça de toda a gente
A aprazível fonte do Convento de Chelas, foi sujeita a alterações e está a pedir muitas obras
Imagem de uma parede que foi totalmente recuperada
Pormenor do claustro do Convento de Chelas
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Nota do editor

Último post da série de 18 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27930: Os nossos seres, saberes e lazeres (731): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (252): Imprevistos em dó maior, a empatia dos ambientes, felicidade é ter algo que amar (Mário Beja Santos)