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quinta-feira, 26 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27859: Fichas de unidades (40): BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74), CCAÇ 3489 (Cancolim), CCAÇ 3490 (Saltinho), CCAÇ 3491 (Dulombo e Galomaro): Divisa: "O inimigo vos dirá quem somos"


Guião do BCAÇ 3872 (Galomaro, Sector L5, 1971/74)... Temos vários camaradas, na Tabanca Grande, que pertenceram a este batalháo:    Carlos Filipe Coelho (1950 - 2017), Juvenal Amado, Manuel Carvalho Passos, Rui Vieira Coelho  (CCS, Galomaro)  | Rui Baptista  (1949-2023), José António de Almeida Rodrigues (1950-2016) (CCAÇ 3489, Cancolim) | Joaquim Guimarães, António da Silva Batista (1950-2016) (CCAÇ 3490, Saltinho) | Luís Dias (CCAÇ 3491, Dulombi),  




1. A esta unidade, o BCAÇ 3872, pertenceram dois camaradas nossos que estiveram prisioneiros nas masmorras do PAIGC (Conacri, Boé e Boké), o António da Silva e o José Antóno de Almeida Rodrigues, espantosamente morreram os dois no mesmo dia, 23/3/2016, com a mesma idade (66 anos). 

O Batista, natural da Maia, pertenceu à CCAÇ 3490, que estava no Saltinho. Foi feito prisioneiro na sequència da emboscada no Quirafo, em 17 de abril de 1972.  Foi dado como morto, por erro na identificação dos cadáveres. Foi libertado em 14 de setembro de 1974.

O José António Almeida Rodrigues (1950-2016),natural da Régua,  conseguiu fugir do "campo de detenção" do Boé, do PAIGC, junto à margem esquerda do Rio Corubal, na parte ocidental da região do Boé, situado algures entre Gobige, Guileje e Madina do Boé, junto à fronteira, segundo as nossas estimativas.

O "campo de detenção", pelas descrições do Batista e do Rodrigues, só podia ser na região de Tombali, junto ao rio Corubal e à fronteira (sul) com a Guiné-Conacri (por razões de segurança e logísticas), ou seja, em zona considerada "libertada", segundo a terminologia do PAIGC, mas sujeita aos bombardeamentos da aviação portuguesa.

Depois da fuga do Rodrigues, em 7 de março de 1974, os prisioneiros foram levados para o outro lado da fronteira, já na República da Guiné, segundo o depoimento do Duarte Dias Fortunato, em 2000. Foi aí que receberam a notícia do 25 de abril de 1974.

A tragédia do Quirafo (um grande revés para as NT) mereceu, desta vez, uma menção em 7 linhas no livro da CECA sobre a atividade operacional na Guiné (1971/74):

(....)  Acção - 17Abr72: Nas proximidades de Contabane/Quirafo, L5, uma força constituída
por 1 GComb/CCaç 3490 e 1 Pel Mil (-), numa acção de patrulhamento, foi emboscada durante 15 minutos por uma força inimiga. As NT sofreram 10 mortos, 1 desaparecido e 2 mortos e 3 feridos da população. Foram ainda destruídos 1 viat "GMC" e 1 EIR "TR-28". Foram também danificados 1 viat "Unimog" e 1 E/R "AVP-l". (...)

Em honra dos nossos camaradas, falecidos há 10 anos (*),  e do seu batalhãpo, recordamos aqui o essencial da ficha da sua unidade (**)


Batalhão de Caçadores nº  3872

Identificação BCaç 3872

Unidade Mob: RI 2 - Abrantes

Cmdt: TCor Inf José de Castro e Lemos | 2.° Cmdt: Maj Inf José Carlos Moreira de Campos | OInfOp/Adj: Maj Inf Amélio Ventura Martins Pamplona

Cmdts Comp:

  • CCS: Cap SGE Jorge Araújo Mateus | Cap QEO Carlos Alberto de Araújo Rolin e Duarte | Ten SGE Mário da Encarnação Raposo
  • CCaç 3489: Cap Mil Inf Manuel António da Silva Guarda | Cap Mil Inf José Francisco Rosa
  • CCaç 3490: Cap Mil Inf Dário Manuel de Jesus Lourenço
  • CCaç 3491: Cap Mil Art Fernando de Jesus Pires

Divisa: "O inimigo vos dirá quem somos"

Partida: Embarque em 11Dez71; desembarque em 24Dez71 | Regresso: Embarque em 25Mar74

Síntese da Actividade Operacional

Após realização da IAO, de 27Dez71 a 22Jan72, no CMl, em Cumeré, seguiu em 23Jan72, com as suas subunidades, para o sector de Galomaro, a fim de efectuar o treino operacional e sobreposição com o BCaç 2912.

Em 11Mar72 , assumiu a responsabilidade do referido Sector L5, com sede em Galomaro e abrangendo os subsectores de Cancolim, Dulombi, Saltinho e Galomaro. 

Em 09Mar73, o subsector de Dulombi foi extinto e a sua área integrada no subsector de Galomaro. As suas subunidades mantiveram-se sempre integradas no dispositivo e manobra do batalhão.

Desenvolveu intensa actividade operacional com vista à intercepção de grupos inimigos em direcção ao Boé através do rio Corubal, efectuando reconhecimentos ao longo das suas margens e patrulhamentos intensivos nos prováveis locais de instalação e zonas de refúgio do inimigo, sendo de destacar as reacções a ataques a Dulombi, Campata e Bangacia, que provocaram pesadas baixas e perdas de armamentos e outro material. 

A par disso, continuou a desenvolver acções de assistência sanitária e de contacto com as populações, promovendo o seu desenvolvimento sócioeconómico e dos trabalhos dos reordenamentos, nomeadamente em Contabane e Afiá.

Dentre o material capturado mais significativo, salienta-se: 1 pistola-metralhadora, 2 espingardas, 2 lança-granadas foguete e 42 granadas de armas pesadas.

Em 09Mar74, foi rendido no Sector L5 pelo BCaç 4518/73 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

***

A CCaç 3489, após o treino operacional e sobreposição com a CCaç 2699, desde 24Jan72, assumiu a responsabilidade do subsector de Cancolim, em 11Mar72, com um pelotão destacado em Anambé até 22Set71.

Em 08Mar74, foi rendida no subsector pela 2ª Comp/BCaç 4518/73 e recolheu a Bissau para embarque.

***

A CCaç 3490, após o treino operacional e sobreposição com a CCaç 2701, desde 24Jan72, assumiu a responsabilidade do subsector de Saltinho em 11Mar72, tendo deslocado um pelotão para guarnecer o destacamento de Cansamba, este no subsector de Galomaro.

Em 07Mar74, foi rendida pela 3ª Comp/BCaç 4518/73 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CCaç 3491, após o treino operacional e sobreposição com a CCaç 2700 desde 24Jan72, assumiu a responsabilidade do subsector de Dulombi em 08Mar72, tendo deslocado um pelotão para reforço da guarnição de Cancolim até 22Set72.

Em 09Mar73, por extinção do subsector de Dulombi e sua integração no subsector de Galomaro, foi transferida para esta localidade, tendo assumido a responsabilidade do respectivo subsector, então atribuído à CCS do batalhão. 

Entretanto, desde 04Mai73, cedeu um pelotão para reforço da guarnição de Piche, no sectordo BCaç 3883, o qual foi deslocado, a partir de finais de Ago73, para Nova Lamego, ficando então em reforço do BCav 3854 e depois do BArt 6523/73.

Em 08Mar74, foi rendida pela 1ª Comp/BCaç 4518/73 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nª  95 - 2ª Div/4ª  Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 159 -160

_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 24 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27852: Efemérides (384): Foi há 10 anos que morreu (de verdade) o nosso querido "morto-vivo", o António da Silva Batista (1950-2016), ex-sold at inf da CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972), natural da Maia

(**) Último poste da série >  4 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27490: Fichas de unidades (39): CART 6250/73 (Cumeré, Caboxanque e Ilondé, mai/out 1974)

terça-feira, 24 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27852: Efemérides (384): Foi há 10 anos que morreu (de verdade) o nosso querido "morto-vivo", o António da Silva Batista (1950-2016), ex-sold at inf da CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972), natural da Maia

António da Silva Baptista (1950-2016)

Foto: © João Santiago ( 2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto reproduzida por Beja Santos no seu poste P14454, de 10 de abril de 2015. A fonte provável é o artigo "Desaparecido em combate", de Duarte Dias Fortunato, publicado na revista da GNR, "Pela lei e pela grei", nº de abril de 2000 (*) 

[Na altura, o Fortunato era soldado de infantaria da GNR e prestava serviço no Posto Territorial de Quiaios, na Figueira de Foz; o António da Silva Batista é o último a contar da direita, de bigode, e o Fortunato o terceiro.]


Maia > Moreira > Cemitério local > Foto do Jornal de Notícias, edição de 18 de setembro de 1974, mostrando o soldado António da Silva Batista, a visitar a sua própria campa, depois do regresso do cativeiro. O título da notícia do jornal era: "Morto-vivo depôs flores na sua campa". Na lápide pode ler-se: "À memória de António da Silva Batista. Faleceu em combate na província da Guiné em 17-4-1972".

A foto, de má qualidade, foi feita pelo nosso camarada Álvaro Basto, com o seu telemóvel, na Biblioteca Pública Municipal do Porto, e remetida ao Paulo Santiago. O Álvaro Basto, ex-fur mil enf da CART 3492 (Xitole, 1971/734), mora em Leça do Balio, Matosinhos.

Foto: © Álvaro Basto (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Cópia da 2.ª via da caderneta militar do António da Silva Baptista (1950-2016)... Documento emitido a 4 de Junho de 1987 (!), treze anos depois do seu regresso a casa, vindo do cativeiro...


Maia > 21 de Julho de 2007 > O encontro com o António da Silva Batista (ao centro); à esquerda, o Álvaro Basto, ex-fur mil enf da CART 3492 (Xitole, 1971/74) ; à direita, o Paulo Santiago (ex-alf mil, cmdt do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72). Foto do João Santiago, filho do Paulo.

Foto: © João Santiago ( 2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Fez ontem  dez anos que morreu, pela segunda (e derradeira) vez, o António da Silva Baptista, o nosso querido "morto-vivo" (1950-2016). Era natural de Crestins, Moreira da Maia. (*)

Recorde-se que o António da Silva Batista, ex-sold at inf da CCAÇ 3490, Saltinho, 1972, foi dado como morto na terrível emboscada do dia 17 de abril de 1972, em Quirafo, junto ao Corubal... Viria a ser libertado pelo PAIGC em 14 de setembro de 1974, em Aldeia Formosa, ele mais 6 camaradas por troca com 35 guerrilheiros do PAIGC (**).

A sua história teve alguma triste notoriedade, até mediática, pelo insólito. A RTP, por ex., no seu programa "Memórias da Revolução", chamou-lhe o "soldado morto-vivo" (alcunha que foi dada pelos jornais do Nporte), e associou-o às efemérides de setembro de 1974 (mès do seu regresso do cativeiro):

(...) O soldado António Silva Baptista, combatente na Guiné-Bissau durante a Guerra Colonial, no seguimento de um ataque do Partido Africano para a Independência da Guiné Bissau (PAIGC) a tropas portuguesas, foi dado morto pelas autoridades portuguesas, tendo a sua família realizado um funeral em sua memória.

 Em boa verdade, António Silva Baptista foi prisioneiro do PAIGC, tendo sido libertado em setembro de 1974. Esta história, devido à sua natureza caricata, alcançou bastante notoriedade em Portugal. (...)

Temos uma meia centena de dezenas referências  ao nosso camarada que nos deixou em 2016.

O nosso pobre camarada morreu, de facto, duas vezes, tendo sido "vítima de um processo kafkiano": 

(i) primeiro, morreu, não fisicamente, mas militar e socialmente; 

(ii) depois, roubaram-lhe a memória, roubaram-lhe os dias e as noites que passou no cativeiro!

(iii) o exército ao fim de vários "ressustcitou-o" e deu-lhe um novo BI...mas levou tempo a pagar-lhe as pensões a que tinha direito!

 
De facto, a vida do António da Silva Baptista é um daqueles relatos que transcendem o individual e se tornam parte da memória coletiva, especialmente num período tão conturbado como o pós-Guerra Colonial e o "verão quente de 1975".

A forma como a sua história foi apropriada pela literatura de cordel, vendida nas feiras e romarias, mostra como o drama humano se transforma em lenda, misturando dor, resiliência e até um certo "humor trágico-marítimo", tão ao nosso gosto... E para mais ao som festivaleiro de um acordeão (*).

É fascinante (e comovente) pensar que, enquanto era dado como morto e até enterrado, numa cova funda do cemitério da sua terra, na Maia, ele estava vivo, incomunicável, prisioneiro do PAIGC, em Conacri e depois no Boé, acabando em setembro de 1974 por regressar para visitar a sua própria campa. Macabro, insólito, miserável!

Essa dualidade entre a morte simbólica e a vida real é um tema poderoso (quase shakespeariano, se quisermos armar ao pingarelho, citando uma referência erudita!) e reflete bem as contradições da guerra e do pós-guerra.

2. Dez anos passaram sobre a morte definitiva (!) de António da Silva Baptista, mas a sua história continua a ecoar como uma das mais singulares, e também mais inquietantes, da guerra na Guiné. 

De facto, não é apenas a história de um homem que sobreviveu ao doloroso cativeiro: é a história de alguém a quem a própria sociedade declarou morto antes do tempo, e a quem o exército "escamoteou" a identidade (e o "patacão" que lhe era devido).

Na emboscada de 17 de abril de 1972, em Quirafo, junto ao Corubal, perdeu-se o rasto de um jovem soldado da CCAÇ 3490. Para o exército, para a burocracia militar, para a comunidade e para a família que aguardava notícias, a conclusão foi rápida: morto em combate. Houve luto, houve funeral (por troca com os restos mortais do António Ferreira!), houve uma campa aberta na sua terra, Moreira, Maia.

Assim terminou oficialmente a vida de António da Silva Baptista, pelo menos no papel.

Mas, enquanto o seu nome era inscrito na lista dos mortos, ele continuava vivo. Prisioneiro do PAIGC, primeiro em Conacri e depois no Boé (e depois novamente para lá fronteira), viveu dois anos e tal de silêncio, dor e invisibilidade. Esse hiato, esses dias e noites apagados da cronologia oficial, são talvez a parte mais dramática da sua história: não apenas o sofrimento do cativeiro, mas o facto de ter sido apagado da vida civil e militar, como se tivesse deixado de existir.

Graças ao nosso blogue (e sobretudo à persistência e às diligências de camaradas nosso como o Álvaro Basto, o Paulo Santiago, outros como a malta da Tabanca de Matosinhos),  foi possível ajudar a recuperar a dignidade e a honra de um camarada nosso que conheceu o inferno na terra (a emboscada do Quirafo, o massacre dos camaradas, os tiros de misericórida na nuca, a morte anunciada, a prisão, o pelotão de fuzilamento, a libertação, o regresso ao outro mundo, a visita à sua própria campa, o pesadelo kafkiano da peluda, a recuperação do BI, a atribuição das pensões, etc....).

Quando regressou, em setembro de 1974, já depois do 25 de Abril, trouxe consigo um paradoxo quase literário, próprio de um "romance do absurdo": o homem que regressou para visitar a própria campa (!). 

Poucas imagens dizem tanto sobre a guerra colonial e sobre o caos do tempo que se seguiu. A realidade, por vezes, escreve histórias que parecem saídas de um romance de Kafka ou de uma peça de  Shakespeare... 

O Batista foi um homem vivo que teve de provar que não estava morto!

Talvez por isso a sua história tenha corrido feiras e romarias, transformada em literatura de cordel e cantada ao som de acordeão. O povo tem esse modo peculiar de lidar com o drama: mistura a tragédia com o espanto, a dor com uma ponta de humor trágico. Assim foi perpetuada  a figura do “morto-vivo” (como os jornais do Norte o chamaram, a que a própria televisão retomaria mais tarde).

Mas por detrás do "faits-divers", da "anedota popular" que deu dinheiro a ganhar a feirantes,  havia um homem real, um camarada que carregou o peso de uma vida interrompida duas vezes: primeiro quando o deram como morto; depois quando, regressado, teve de reconstruir a sua identidade e a sua memória.

Recordá-lo hoje é mais do que recordar um episódio insólito. É lembrar um dos muitos destinos improváveis que a guerra produziu: vidas suspensas, histórias mal contadas, homens que ficaram presos entre a história oficial e a memória vivida (e sofrida).

E talvez seja por isso que a história de António da Silva Baptista continua a tocar-nos e é hoje tema desta efeméride (***): porque nos lembra que, às vezes, a guerra não mata apenas os corpos, também pode matar, ou tentar matar, a própria existência de um homem, naquilo que ele tem de mais precioso: a "alma", a identidade, a memória...

_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de março de 201 > Guiné 63/74 - P15894: In Memoriam (247): António da Silva Batista (1950-2016)... A segunda morte (esta definitiva!) de um camarada a quem carinhosamente chamávamos o "morto-vivo do Quirafo". O funeral é amanhã, às 15h45, na igreja de Santa Cruz do Bispo, Matosinhos

(**) Vd. postes de:

29 de março de 2016 > Guiné 63/74 - P15911: (Ex)citações (306): A propósito da última troca de prisioneiros, em Aldeia Formosa, no dia 14 de setembro de 1974....Prisioneiros, não, "retidos pelo IN"...

11 de dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9181: Troca dos últimos prisioneiros: 35 guerrilheiros do PAIGC e 7 militares portugueses (III Parte) (Luís Gonçalves Vaz)

22 de julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1983: Prisioneiro do PAIGC: António da Silva Batista, ex-Sold At Inf, CCAÇ 3490 / BCAÇ 3872 (1) (Álvaro Basto / João e Paulo Santiago)



(***) Último poste da série > 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

segunda-feira, 9 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27806: Humor de caserna (243): uma história de partir o coco a rir, a de uma "amizade improvável": o piloto de AL III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané (Rui Felício, 1944-2026)


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > Algures sob os céus da Guiné, aos comandos de um AL III, o nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil, AL III, Esq 122, BA 12, Bissalanca, 1968/70; frequentou o 1º curso de pilotos de helicóptero, em Tancos, em 1967, aberto a milicianos... Entre os colegas de curso,  estava o Duarte Nuno de Bragança.


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante.


A caderneta de voo do Jorge Félix, onde consta a operação em que foi capturado o prisioneiro a que se refere esta história (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)

Fotos (e legendas): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa de  Galomaro, onde ocorreu a história  do  Malan Mané, capturado pelos páras (BCP 12)  (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)... O PAIGC tinha uma "barraca" na mata próxima da bolanha do Rio Biesse (a vermelho).  O Jorge Félix sinalizou duas povoações,  a azul: Dulo Gengéle e Sinchã Lomá, a sudoeste de Galomaro.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Mansambo > 
CART 2339 (1968/69) > "Interrogatório" (que mais parece um exame oral da 3ª classe no Posto Escolar Militar...)  ao prisioneiro, Malan Mané (sentado, à esquerda). Quem preside ao ato é o nosso saudoso alf mil at art Torcato Mendonça (1944-2021) (à direita), visivelmente bem disposto tal como o militar guineense que faz de intérprete (de pé, ao centro). 

Assistem à cena 3 "viriatos" da CART 2339... O seu olhar é de espanto,  curiosidade e desconfiança... A  foto foi tirada pelo alf mil Cardoso, e chegou-nos à mão através do ex-fur mil Carlos Marques dos Santos, de Coimbra (1943-2019). "Pela disposição dos presentes é fácil imaginar a brutalidade do interrogatório. O militar das patilhas sou eu, na escrita, Torcato Mendonça"

Foto (e legenda): © Carlos Marques dos Santos (2006) 
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Recuperamos e reeditamos uma mensagem e uma história do Rui Felício (1944-2026) (*), ex- alf mil at inf,  CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), autor da série "Estórias de Dulombi", e recentemente falecido:

Data - 12 de março de 2008:

Meu Caro Amigo Luís Graça,

Depois de vários anos sem notícias do Jorge Félix (**), tive a felicidade de o reencontrar há dias através de e-mail que ele me enviou.

Soube do meu endereço, por meio do nosso blogue,  que ele  tem lido...

Relembrou-me uma história curiosa que se passou em Galomaro numa operação militar em que ele esteve envolvido e da qual resultou um prisioneiro do PAIGC que pernoitou na sede da CCAÇ 2405.

É essa história que, no seguimento de outras anteriores te tenho enviado, que agora te peço que tenhas o incómodo de ler e decidir se lhe achas interesse para publicação no blogue.

Além da história propriamente dita, juntei-lhe algumas fotos cedidas pelo Jorge Felix, cuja publicação autorizou, bem como do endereço de um filme do YouTube.

Aceita os meus melhores cumprimentos, depois de tão longa ausência e os parabéns renovados pelo esforço que tens dedicado ao blogue que de muita utilidade tem sido para tantos de nós.


2. Série Humor de Caserna


O Piloto de Al III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané  

por Rui Felício (1944-2026)

(i) Preâmbulo

Durante cerca de 3 semanas estacionou na sede da nossa CCAÇ 2405, em Galomaro / COP 7, uma companhia de paraquedistas (aliás, duas, CCP 122 e 123 / BCP 12), para fazer limpeza de alguns objectivos do PAIGC, que as informações militares detectaram nas imediações da zona operacional da CCAÇ 2405.

No apoio a essa Companhia de paraquedistas, incluía-se o helicóptero pilotado pelo meu grande amigo alferes mil piloto Jorge Félix.

O episódio que vou contar poderia ter resultado em catástrofe, como mais adiante se compreenderá, mas o que permanece na memória, é de facto a situação picaresca que, passado o perigo, a seguir se desenvolveu.

Antes do relato dos factos, é importante dar a conhecer a personalidade do Jorge Félix. Sem ela, esta história não teria o sal e a pimenta que a maneira de ser dele lhe conferem.

(ii) A personalidade do Jorge Félix

O Jorge Félix, a quem ainda hoje me ligam laços de grande amizade, foi piloto de helicópteros da Força Aérea em Bissalanca, BA 12,  nos anos de 1968 a 1970.

Para além do seu elevado profissionalismo, capacidade técnica e conhecimento do território, que o tornaram, na opinião generalizada, como um dos melhores, senão o melhor piloto de helicópteros que terão passado pela guerra da Guiné, reunia e ainda reúne, invulgares qualidades difíceis de encontrar todas concentradas numa mesma pessoa.

Aquelas que mais apreciei foram e ainda são, apesar dos anos passados;
  • um apurado sentido de humor;
  • uma jovial e permanente boa disposição que alastrava a quantos o rodeavam;
  • um permanente lenço de seda colorido em volta do pescoço que era a sua imagem de marca;
  • e uma aptidão especial para rapidamente aprender a dominar as técnicas das mais variadas especialidades.
Refiro-me ao domínio da fotografia e da imagem, da música e, sobretudo, dos corações femininos! Dizem que destroçou vários na sua passagem por Bissau, Bafatá, Galomaro e sei lá quantas mais terras da Guiné...

(iii) A Op Nada Consta (18 de agosto de 1969: destruir um acampamento nas matas do Rio Biesse)

Mas vamos à história de cuja parte final fui testemunha.

A parte inicial foi-me descrita pelo próprio Jorge Felix e confirmada pelos paraquedistas intervenientes.

Em 18 de agosto de 1969, às 09h30, o Jorge Félix transportou no seu helicóptero um grupo de paraquedistas que iam fazer um assalto, a uma base do PAIGC, identificada pelos serviços de informações militares da Guiné, como estando localizada na região de Galomaro.

Ao procurar local para a aterragem perto do objectivo, em plena mata, o Jorge Felix foi descendo o helicóptero e, a uns 5 metros do chão, a deslocação de ar provocada pelo movimento das pás do aparelho, afastou uma série de ramos de arbustos deixando a descoberto um guerrilheiro do PAIGC que ali se havia emboscado.

O homem estava armado com um RPG7, e a granada colocada, apontando para o helicóptero, o que naturalmente deixou em pânico o piloto e os tripulantes.

Na verdade, se o gatilho tivesse sido premido, era o destruição do helicóptero e de algumas vidas, senão todas, daqueles que o tripulavam.

O Jorge Félix que foi quem primeiro avistou o guerrilheiro, gritou aos paraquedistas que de imediato saltaram do heli e aprisionaram o homem sem necessidade de dispararem um único tiro, desarmando-o acto contínuo.

Pelos vistos, o susto e a surpresa dele foram tão grandes, ao avistar inesperadamente o helicóptero sobre a sua cabeça, que lhe devem ter paralisado os movimentos e o raciocínio... para sorte dos militares que enchiam o aparelho...

(iv) O regresso a Galomaro

E a partir daqui já fui testemunha ocular...

Regressados a Galomaro, o prisioneiro (4) foi fechado numa sala da casa onde funcionava a secretaria da CCAÇ 2405, aguardando ali que lhe fosse dado o destino que os altos comandos de Bissau lhe determinassem.

Como nunca antes na CCAÇ 2405 tivéssemos feito prisioneiros, aquele homem mais parecia uma ave rara enjaulada em jardim zoológico em dia de grande afluência de visitantes.

Todos queriam vê-lo e o seu aspecto era o de um animal acossado e aterrorizado, certamente porque a propaganda que lhe tinham enfiado no cérebro, lhe fixara a ideia de que os soldados colonialistas haviam de o torturar até à morte...

A verdade é que ninguém lhe fez mal... Pelo contrário, vendo-o assim aterrorizado, procurámos tranquilizá-lo e dar-lhe de comer, o que foi sempre recusando, possivelmente porque pensava que a comida estaria envenenada.

Assisti a dada altura, a um diálogo que jamais esquecerei e que não resisto a tentar reproduzir tanto quanto a memória mo permita, passados já tantos anos.

(v) A conversa do Jorge Félix com o prisioneiro

O Jorge Felix entrou na sala, onde eu me encontrava com o prisioneiro e com mais um ou dois soldados, com o lenço de seda esvoaçando, o habitual ar sorridente e descontraído, e dirigiu-se cordatamente ao prisioneiro:

 Então como vai, meu amigo? Está tudo bem consigo?

O prisioneiro, consciente de que aquele piloto tinha todas as razões do mundo para se sentir revoltado pelo sucedido uma ou duas horas antes, encolheu-se receoso e ficou, tenso e em silêncio, esperando a vingança...

O Jorge Félix, insistiu:

− O senhor é casado?

O homem fez um sinal de assentimento com a cabeça, e o Jorge Felix prosseguiu:

− Pois é, a sua esposa lá em casa a remendar-lhe as peúgas, coitada, e o senhor anda para aqui a brincar às guerras... E tem filhos?

Mais um movimento afirmativo do prisioneiro incentivou o Jorge Felix a prosseguir:

− Sabe, o senhor parece ser uma pessoa de bem, por isso devia estar em casa a ajudar a sua esposa, a acompanhar os estudos dos seus filhos... Em lugar disso, anda por aí com uma arma daquelas nas mãos, sujeito a que ela se dispare sem querer e ainda vir a magoar alguém, ou magoar-se a si próprio... Já viu em que situação a sua família ficaria se o senhor viesse a sofrer algum acidente? Quem iria depois cuidar deles? Já pensou nisso?

O homem cada vez entendia menos daquela conversa mansa, daqueles conselhos simpáticos vindos de um oficial português que se habituara a considerar como seres desumanos e cruéis.

Quanto mais o Félix falava, mais ele se encolhia, sentado a um canto contra a parede, se calhar a pensar em que momento lhe iriam fazer mal...

O Félix não desistia da sua prelecção, tentando que o prisioneiro se descontraísse e estabelecesse com ele algum diálogo.

− Ora diga-me lá, o senhor estava com aquela perigosa arma nas mãos, para quê? Se era para disparar uma bazucada contra nós, porque não o fez?

Finalmente o prisioneiro sentiu-se na obrigação de responder:

− Porqui tem medo! Helicóptero é suma mosca... quando olha a gente nunca mais despega di nós...

O Jorge Felix ripostou de imediato:

− Isso é verdade! Mas nunca faríamos mal a uma pessoa como o senhor, que tem família constituída, que aparenta ser uma pessoa de bem... E porque é que não quer comer?... Sabe que tem que se alimentar para poder dar assistência aos seus filhos... A menos que não lhe agrade a comida... Realmente esse esparquete que lhe deram, não tem grande aspecto... E os olhos também comem, não é? Quer vir jantar fora comigo? Um frango de churrasco e umas cervejolas? Eu pago!

Brincando ou não, a verdade é que com toda esta conversa o Félix conseguiu que a tensão do prisioneiro se distendesse e, inacreditavelmente, este aceitou o convite!

O Felix, saiu para pedir autorização aos paraquedistas para levar o homem a comer um franguinho no restaurante do Regala, o único aliás que existia em Galomaro. Estes autorizaram desde que o prisioneiro fosse acompanhado por um soldado, para se garantir que não fugiria...

E foi assim que o Jorge Felix, à falta de melhor companhia, saiu para a night de Galomaro com o novo amigo conquistado às hostes do PAIGC que poucas horas antes podia tê-lo mandado para os anjinhos...

E jantaram juntos... E trocaram confidências que só o Felix poderá revelar...

O Jorge Félix pagou o jantar, como prometera! Com exclusivo recurso aos seus capitais próprios.

É uma divida que, segundo me disse, gostaria de lhe cobrar se o homem ainda estiver vivo e se lhe for possível reencontrá-lo.

Anexo três fotos que o Félix me enviou.

Rui Felício
Ex-alf mil inf, CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)

Lisboa, 11 de Março de 2008

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

3. Comentário do editor LG:

Meus amigos e camaradas:

É uma história a ler e reler. Uma daquelas de partir o coco a rir... Não me canso de a revisitar (***). E o mérito é tanto do narrador como do Jorge Félix e, de algum modo, do pobre Malan Mané que, três semanas depois, ia morrendo ao meu lado, um jovem a quem deram uma bandeira, um hino, um RPG 2, enfim, uma causa para lutar, viver e morrer. (Era biafada, da região de Quínara, tal como o seu comandante, o Mamadu Indjai, futuro carrasco de Amílcar Cabral, e que morrerá a seguir, em 1973, fuzilado sem honra nem glória, no ajuste de contas entre "cavalos" e "cavaleiros" do PAIGC).

O Malan Mané era apontador de RPG 2 (e não 7), se bem me lembro. Foi, de facto, capturado pelos paraquedistas do BCP 12, em operação conjunta do Sector L1 (BCAÇ 28252, Bambadinca, 1968/70) e COP 7 (Bafatá) (Op Nada Consta, 18 de Agoso de 1969) (em que também participei, tal como o Torcato Mendonça e o Carlos Marques dos Santos) (****) ...

As forças paraquedistas eram a CCP 123, a 2 Gr Comb, e a CCP 122, a 1 Gr Comb. Ambas as unidades estavam aquarteladas temporariamente em Galomaro. O Malan Mané, depois de Galomaro, foi levado para Bambadinca, para interrogatórios. Também esteve em Mansambo. Estava ao meu lado, no 2º Gr Comb, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, que gravemente ferido (Op Pato Rufia, no Xime, a 7 de Setembro de 1969, o "meu batismo de fogo").

Esta história, "escrita" a quatro mãos" (Rui Felício e Jorge Félix), é um tesouro de humanidade, sensibilidade, inteligência emocional e humor pícaro no meio daquela merda de guerra. Bem merecia mais comentários dos nossos leitores, cada vez mais cansados e distraídos. 

É uma história que nos honra e nos delicia, e que diz muito sobre a nossa maneira de ser e de estar, como portugueses, mesmo em situações-limite como a guerra... Voltaremos a ela num próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante".
_______________

Notas do editor LG:

(*) O Rui Felício (1944-2026), juntamente com o Paulo Raposo, o Victor David (1944-2024) e o Jorge Rijo (de quem não sabemos nada há muito), fazia parte dos famosos baixinhos de Dulombi, os quatro alferes milicianos da CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), reunidos sob o poilão da Tabanca Grande...

Vd. poste de 8 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1352: Estórias de Dulombi (7): Perigos vários, a divisa dos Baixinhos de Dulombi (Rui Felício)

(**) Vd. postes de:

28 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2592: Voando sob os céus de Bambadinca, na Op Lança Afiada, em Março de 1969 (Jorge Félix, ex-Alf Pil Av Al III)

12 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2627: Vídeos da Guerra (8): Nha Bolanha (Jorge Félix, ex-Alf Mil Piloto Aviador, 1968/70)

18 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2660: Notas de leitura (10): Jorge Félix, o nosso piloto aviador, fala do livro do Beja Santos e evoca o Alf Mil Brandão (CCAÇ 2403)

(***) Último poste da série : 4 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)

(****) Vd. postes de:

25 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P906: CART 2339 e Malan Mané, duas estórias para duas fotos (Torcato Mendonça)
23 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16519: Manuscrito(s) (Luís Graça) (97): O 'prisioneiro' Malan Mané... a quem cedo, talvez demasiado cedo, deram um arma e uma bandeira e um hino

quarta-feira, 4 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)



(i)  ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; 

(ii) advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, outrora capital de um império macrocéfalo;

(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante;

(iv) é um dos grandes contistas da guerra da Guiné, a da nossa guerra (que não foi pior nem melhor do que as guerras dos outras, foi a "nossa guerra", e bastou, esperemos);

(v) é autor, entre outros,  dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz",  

(v) tem mais de 160 referências no nosso blogue.

(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue,  ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós".
 

1. O escritor (que continua a ser nosso camarada) Alberto Branquinho tem aceite, com pundonor & pudor, ser "pirateado" e metido, avulso, nesta série, "humor de caserna". 

Há dias comentou: "Obrigado por apreciares o que venho escrevendo. Estou a acabar mais um livro (que, talvez, seja o último)". (...) quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 às 16:43:00 WET). 

Eu interpretei o cumprimento e a (in)confidência como sendo "luz amarela" para, de vez em quando, eu poder lá ir, aos seus livros, roubar-lhev mais um "contito" (não, não é uma nota de mil escudos,  uma fortuna no nosso tempo de meninos e moços), um história do nosso quotidiano de guerra, para a malta  ler com tempo e vagar... 

É, afinal,  como os ovos da avó, a quem a gente assaltava o "galinheiro" (que era o seu "mealheiro"), e ela fingia que não via nada nem sabia de nada...

Hoje escolhi este microconto: há tempos tinha-lhe dado 4 estrelas (apontamento, a lápis, ao alto na página 77)...Hoje acrescento-lhe mais meia estrela, ao relê-lo. 

Lembrei-me, assim de repente,  do "bico-de-obra" que era, para uma companhia de intervenção (como a minha CCAÇ 12, composta por praças do recrutamento local, e meia dúzia de graduados "tugas) ir para o "mato" e "fazer prisioneiros"... Não era nenhum "ronco", era uma "manga de chatice"...

Sabíamos, no regresso ao quartel, que um prisioneira era sempre o "cabo dos trabalhos"... Passados dois ou três dias, o prisioneiro passava à condição de prisioneiro-guia... E lá continuava o nosso calvário...

A partir daí, ele deixava de nos pertencer. E sabíamos que, depois de "cumprida a missão", tínhamos que o entregar, "vivo e inteiro", aos "donos da Spinolândia"... 

Os nossos soldados, fulas, estavam sempre desejantes que ele, mesmo preso por uma corda, tentasse a fuga, para ter um bom pretexto  para lhe "dar cabo do canastro" ( já não me lembro como se diz em fula)...

Eles acreditavam piamente que "um balanta a menos era um turra a menos"... E não eram capazes de se  imaginar  em situação semelhante, "presos dos turras",  em que aí, o Zé Turra, balanta, também rosnaria, entre dentes,  que "um fula a menos era um cão dos colonialistas a menos"!...

O autor faz, como convém, para evitar qualquer suscetibidade, a sua declaração de interesse (e eu corroboro): "“Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”.


Capa do livro de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa,Vírgula,  2013, 224 pp. 







Fonte: Excerto de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa, Vírgula,  2013, pp. 77-79  

___________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27756: Humor de caserna (241): O mistério do peixe mole, capturado num afluente do rio Mansoa, perto da Ponta Augusto Barros (Vargas Cardoso, 1935-2023, ex-cap inf, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27694: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (14): ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, leste de Angola


Guiné > Região do Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Um "suspeito" do PAIGC... "Turra" não era "prisioneiro de guerra", à luz do entendimento das autoridades político-militares do território...

Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;

(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iii) tem  já 130 de referências, no nosso blogue; 
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(iv) é professor de educação física, reformado;

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(viii) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (14):   ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, no Leste de Angola

por Jaime Silva

 
Mensagem do Jaime Silva:

Data - 27 jan 26  , 12:51
Assunto - Léua, interrogatório do PIDE e o mutismo do guerrilheiro

Caro Luís, a propósito do meu testemunho e da tua experiência de guerra na Guiné, escreves que “ Se calhar há mais pormenores que omitiste neste texto. (*)

Não omiti nada, desta vez, e foi assim que se passou:

Nota importante:
 
Ao nível da informação, tudo se passou entre o meu comandante, o comando da FA (Força Aérea) e o comando de Operações do Região Militar Leste (RML) , sediado no  Luso  – eu não pertencia a este patamar de decisão– , só vi, ouvi e participei no contexto operacional que já relatei:

Sintetizando:

(i)  o Comandante da  1ª CCP / BCP 21 recebeu, em Léua, um rádio do comando da RML ordenando para destacar um grupo de combate para fazer um heliassalto, na sequência da informação de um guerrilheiro que tinha sido capturado (como e onde, não sei);

(ii) para o efeito foi destacado o meu pelotão;

(iii) entre esta informação e a chegada dos helis, só houve  tempo de preparar o pessoal e deslocar o pelotão para a zona de embarque;

(iv) logo que aterraram, saíram dos helis, o Pide, o guerrilheiro e o comandante da FA;

(v) este solicitou um espaço reservado para que o Pide pudesse  interrogar o guerrilheiro, sendo-lhe indicado o quintal que ficava nas traseiras da casa que servia de messe aos oficiais paraquedistas;

(vi) desconheço se entre os dois comandantes houve alguma reunião confidencial ou se eles tinham mais informações sobre a situação, nomeadamente, por que razão o Pide teve de vir, ainda para Léua, interrogar o prisioneiro e o não fez no Luso.

Depois, e como relatei:

(vii) o Pide  não se despachava, o tempo escasseava para que os helis pudessem  realizar a operação e, por isso,  sou incumbido de interrogar e alertar o Pide para esse  facto;

(viii) em resultado da incompetência do Pide e da coragem do guerrilheiro desmontou-se a tenda: o meu pelotão foi desmobilizado, os helicópteros com o Pide e o guerrilheiro regressaram ao Luso.

O que aconteceu ao guerrilheiro? Não faço a mínima ideia.

O que fazia eu quando capturávamos algum guerrilheiro ou elementos população?

Não tenho a tua experiência, mas a minha rotina, nesta circunstância era:

a) após o final da operação entregava-o  ao comandante da operação e este despachava-o para o Comando da respetiva Região Militar que, seguramente, o entregava à PIDE/DGS – quase sempre presente em cada operação;

b) o meu pelotão capturou, pelo menos, três ou quatro uerrilheiros; capturámos, ainda, por duas vezes, algumas mulheres.

O procedimento foi sempre o mesmo.

Tenho a consciência descansada, quanto a isto: nunca matámos ou tratámos mal, nem homens ou mulheres.

Caro Luís,

Foram estes os acontecimentos vividos e, nesta circunstância particular em Léua, relato-os com todo o rigor e verdade. 

Eu não esqueci! 

Abraço
Jaime

Lourinhã, Seixal, 27.01. 2026  


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Jaime. Como sempre, lúcido e corajoso.  Temos, todos (as tropas especiais incluídas: páras, fuzileiros, comandos) um certo pudor em  falar  do "back office", das "traseiras", dos "quintais" da guerra, dos prisioneiros, dos interrogatórios, da colaboração com os Pides, etc. Há o lado "sujo" e "animal",  e o lado "nobre" e "heróico" da guerra...

O "pudor" (ou a cultura do silêncio castrense) faz parte do 'habitus' do combatente: podíamos aprender uns com os outros (o que correu bem? o que correu mal?), mas, não, regressávamos à base ou ao aquartelmento, tomávamos um banho, bebíamos uma cerveja ou um uísque com gelo, descansávamos o corpo, jogávamos ao king ou à lerpa, e preparávamo-nos para a próxima (operação)...

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26260: Humor de caserna (86): O ”turra” e a boina verde da enfermeira paraquedista (Maria Arminda, ex-ten graduada enfermeira paraquedista, FAP, 1961/70)




Tancos > RCP (Regimento de Caçadores Paraquedistas) > 8 de Agosto de 1961 > Da esquerda para a direita: Maria do Céu, Maria Ivone
 (†)  , Maria de Lurdes (Lurdinhas), Maria Zulmira (†)  , Maria Arminda e o capitão pqdt Fausto Marques (Director Instrutor). Nota: Para completar o grupo das "Seis Marias", falta(va) a Maria da Nazaré  (†)  que torceu um pé no 4.º salto e só viria a acabar o curso alguns dias depois.


Foto (e legenda): © Maria Arminda (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. A Maria Arminda Santos (tenente graduada enfermeira parquedista, 1961-1970) pertence ao grupo das Seis Marias, nome pelo qual ficou conhecido o 1.º curso de Enfermeiras Paraquedistas portuguesas feito em 1961.  Arminda Santos (n. 1937), nossa grã-tabanqueira nº 500 (desde 23 de maio de 2011), é agora a decana ou a matriarca das antigas enfermeiras paraquedistas: tem uma "memória de elefante" , é à sua "base de dados" que recorro sempre que tenho uma dúvida ou uma pergunta sem resposta sobre o "curriculum vitae" das suas colegas).

Passou por todos os TO, e nomeadamnte Guiné (1962 / jan 63) e depois  1965/67, e 1969 (vários períodos no CTIG, nterrompidos, por outras missões), até passar à disponibilidade em finais de 1970 (*)

A história que se segue, julgamos que se passa em Cufar, na região de Tombali, em meados de 1965, por volta do de junho, e no decurso da Op Saturno (fiando-nos na memória do Mário Fitas, ex-fur mil, da CCAÇ 763, os "Lassas!, Cufar, 1965/66) (**)


2. É também uma excente contadora de histórias, como se pode ver a seguir (***). Tem 60 referências no nosso blogue. Vive em Setúbal.


O ”turra” e a boina verde 

da enfermeira paraquedista


por Maria Arminda


(…) Quase sempre, ao aproximar-me do DO-27 ou do AL III, para iniciar uma missão, ao chegar junto dele, instintivamente, dava-lhes duas palmadas na fuselagem, em jeito de saudação. Era assim como que a dizer-lhe: “Aqui estou eu! Leva-me em segurança”.

O incidente que passo a relatar, ocorreu  num DO-27. Eu tinha sido destacada para uma base de operações, em Cufar, em alerta para evacuação urgente de feridos. A operação desenrolava-se no Cantanhez, conhecida pelo “Reino do Nino”. (**)

Surgiu então uma missão de evacuação (…).

Havia três feridos para evacuar, todos africanos, supostamente do recrutamente local, todos metidos dentro do DO-27. Eu fiquei próxima do único que considerava estar em estado grave, a fim de melhor o poder socorrer durante o percurso. (O que aquele avião nos permitia fazer!)

Daqueles três feridos, o mais grave, e que ia junto a mim, era combatente do inimigo, um “turra” (…).  Mesmo que não me tivessem previamente informado desse facto ainda em terra,  eu facilmente chegaria a essa conclusão pela forma pouco amistosa com que os restantes  dois feridos o encaravam e, por vezes,  se lhe dirigiam, verbalmente.

O voo decorria  com normalidade e eu ia, evidentemente,  dispensando mais cuidados ao ferido “turra” por ser o único grave. Mss era bem visível que esta minha atitude não agradava aos outros, embora eu não entendesse bem o que eles diziam entre si.

Aí a meio da viagem, o sol começou a incidir sobre a cabeça  do guerrilheiro e, não tendo eu mais nada para o proteger do sol, coloquei a minha boina verde de paraquedista na cabeça dele.

Aí os outros não aguentaram mais! E foi a revolta! Houve quase um motim a bordo!

Indignados, gritavam para mim que ele, o guerrilheiro, era um “bandido”, e que não merecia  um bom tratamento. E muito menos que lhe pusesse na cabeça a minha boina militar!

Lá os acalmei como pude, gritando um pouco também, e consegui sossegá-los. Já me não recordo de que forma,  e como o consegui, mas foi com alguma dificuldade,  chegando mesmo a recear que eles agredissem o guerrilheiro.

O final do motim ainda me deu tempo, até aterrarmos em Bissalanca, para meditar sobre a importância que aqueles africanos  davam à boina de um militar. Tão grande, que era indecoroso  ser colocada na cabeça de um guerrilheiro.

Consegui acalmá-los com dificuldade,  dizendo-lhes a verdade: que para as enfermeiras paraquedistas, aquele guerrilheiro era apenas mais um ferido,  a necessitar de todo o meu saber e empenhamento. E que, como era entre todos eles o mais grave,  era  a ele que tinha de dispensar mais cuidados.

Mas a eles pouco ou mesmo nada lhes interessavam estas teorias!


Fonte: Excertos de Ivone - "Aspetos humanos da nossa atividade:  O 'bandido' e a boina verde". In: "Nós, enfermeiras paraquedistas", 2ª ed., org. Rosa Serra, prefácio do Prof. Adriano Moreira (Porto: Fronteira do Caos, 2014), pp. 323 / 324  (com a devida vénia) (Imagem à direita, a seguir: Capa do livro)


(Seleção, revisão / fixação de texto, título, introdução: LG) (**)


Coautoras (das 30 da lista, com a Rosa Serra, editora literária, 18 são Marias...):


Maria Arminda Pereira | Maria Zulmira André (†) |  Maria do Céu Policarpo | Maria Ivone Reis (†) | Maria de Lourdes Rodrigues | Maria Celeste Guerra | Eugénia Espírito Santo | Ercília Silva | Maria do Céu Pedro (†) | Maria Bernardo Teixeira | Júlia Almeida | Maria Emília Rebocho | Maria Rosa Exposto | Maria do Céu Chaves | Maria de Lourdes Cobra | Maria de La Salette Silva | Maria Cristina Silva | Mariana Gomes | Dulce Murteira | Aura Teles | Ana Maria Bermudes | Ana Gertrudes Ramalho | Maria de Lurdes Gomes | Octávia Santos | Maria Natércia Pais | Giselda Antunes (Pessoa) | Maria Natália Santos | Francis Matias | Maria de Lurdes Costa.


______________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 23 de maio de 2011 > Guiné 63/74 - P8314: Tabanca Grande (286): Maria Arminda Lopes Pereira dos Santos, ex-Ten Grad Enf.ª Pára-quedista, 1961-1970

(**) Vd. poste de 29 de maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6487: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-quedistas (14): As primeiras mulheres portuguesas equiparadas a militares (2): Maria Arminda (Rosa Serra)

sábado, 7 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26241: Humor de caserna (85): "Ai, não caia, senhora, não caia!"...(responde um guerrilheiro do PAIGC, capturado, ferido, quando ela lhe perguntou o que lhe fariam os seus camaradas se o avião caisse e ela fosse apanhada à unha...): uma história de (†) Maria Ivone Reis, enfermeira paraquedista, maj ref graduada


Angola > Base de Negage > Agosto de 1961 > As enfermeiras paraquedistas Maria Arminda e Maria Ivone, em missão de apoio no âmbito de uma operação na Serra da Canda

Foto: Cortesia de um nosso leitor, devidamente identificado, mas que prefere o anonimato (trata-se de antigo oficial paraquedista do BCP 12 e BCP 12).



Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763 (1965/66) > Uma enfermeira paraquedista no meio dos "Lassas"... Muito oportunamente o nosso camarada Jorge Félix, ex-Alf Mil Pil Heli AL III (1968/70), identificou-a como sendo a Maria Ivone Reis (Em 1968 era graduada em tenente, reformou-se com o posto de posto de major)


Foto (e legenda): © Mário Fitas (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. A Maria Ivone Reis pertence ao grupo das 6 Marias, nome pelo qual ficou conhecido o 1.º curso de Enfermeiras Paraquedistas portuguesas feito em 1961, curso esse que é também o da Maria Arminda Santos (n. 1937), nossa grã-tabanqueira, e agora a matriarca das antigas enfermeiras paraquedistas (é à sua "base de dados" que recorro sempre que tenho uma dúvida ou uma pergunta sem resposta sobre o "curriculum vitae" das suas colegas).(*)

As outras quatro Marias eram a Céu (Policarpo), a Lourdes ("Lurdinhas"), a Nazaré (†) e a Zulmira (†). Sobre a Maria Ivone Reis temos 33 referências no nosso blogue:

(i) conclui em 1958 o Curso de Enfermagem Geral na Escola das Franciscanas Missionárias de Maria;

(ii) começou a trabalhar em 1959, no hospital da CUF;

(iii) fez o curso de enfermeira paraquedista em Tancos, em junho-agosto de 1961;

(iv) na Força Aérea, nos paraquedistas, já havia mulheres, civis, na parte administrativa,  informa-nos ela;

(v)  a relação com os paraquedistas foi sempre  muito cordial;

(vi) partiu para Angola, em 23 de agosto de 1961, com a Maria Arminda;

(vii) esteve 3 vezes na Guiné: em 1963, 65 e 69;

(viii) o seu maior desgosto foi o de ter sido saneada em  17 de abril de 1975, no Hospital da Força Aérea onde trabalhava (e onde voltou mais tarde, depois de reintegrada).

Mas voltemos à sua experiência como enfermeira paraquedista:

(...) "No quartel nós podíamos sair do avião, mas na zona de combate nós não devíamos sair do avião ou do helicóptero. Era uma circunstância de muito risco. Se houvesse ataque do inimigo o helicóptero teria de levantar voo imediatamente ficando a enfermeira em terra em grande risco, sem meios nem ambiente para tratar dos feridos. Eventualmente fizemos isso em situações muito excecionais, bem medidas, porque podia tornar-se um altruísmo muito arriscado para a vida dos outros. 

"Nesse aspeto é muito importante a questão do medo, porque ajuda ao raciocínio e ao controlo. O importante é perceber como controlar o medo, para termos oportunidade de perceber a razão do medo e para que possamos ultrapassá-lo." (...)

A história que se segue é sobre isso mesmo: como lidar com o medo e a consciência do risco... Em todas as profissões de risco ou de maior risco, o profissional tem que criar mecanismos de defesa contra a ansiedade, a angústia, o medo de falhar, de cometer,  de ter um acidente, de ser capturado, de morrer, etc. As enfermeiras paraquedistas estão nessa lista das profissões de risco. 

A história merece figurar na série "Humor de caserna"... A autora não pondera a hipótese de o avião cair e ela morrer, mas sim, a de ser capturada pelo inimigo... E racionaliza, e muito bem: "Sou enfermeira, mas também sou mulher: não me vão fazer mal, posso ser muito útil para tratar os seus feridos...". 

Mas depois é confrontada com a opinião de um guerrilheiro (nunca lhe chama "turra", como era corrente na Guiné; curioso o nome, Armand, devia ser do outro lado, da Guiné-Conacri ou do Senegal, é um nome francófono)...


Humor de caserna (85): "Ai, não caia, senhora, não caia!"...

por Maria Ivone Reis (1929 - 2022)



A então ten enf pqdt Ivone Reis,
em Cacine, 12/12/1968.
Foto: António J. Pereira
da Costa
 (2013)



Sempre estive bem consciente de que o trabalho que executava quando fazíamos evacuações sanitárias, tinha alguns riscos. Estes eram elevados e bem patentes quando elas eram feitas desde os locais de combate. Mas, mesmo nos outros casos, o simples facto de sobrevoarmos zonas por vezes controladas pelo inimigo, incutia em nós alguma sensação de insegurança.

 Naqueles momentos, e enquanto olhava para a paisagem que lá em baixo ia passando sobre os  meus olhos, pensava em muitas coisas... 

Uma, recorrrente, era: "O que me fariam os guerrilheiros, se o avião fosse abatido, e nós  feitos prisioneiros ?".

Pensava muito na minha condição de mulher, que talvez agravasse a situação. Mas, por outro lado, tinha esperança de que, pelo facto de ser enfermeira e os guerrilheiros saberem que nós também tratávamos dos seus feridos, me não fariam qualquer mal.

Por conveniência ou não, quanto mais pensava nisto mais me convencia de que eu beneficiaria dessa proteção pelo simples facto de ser enfermeira!

Até que um dia as minhas dúvidas se  desfizeram!

Uma vez, na Guiné, quando socorria um guerrilheiro que estava ferido e que tinha sido capturado, perguntei-lhe se, por acaso um dia o meu avião caísse no meio do mato com enfermeiras a bordo, se eles nos fariam mal. Eu tinha a ilusão  de que ele diria que nenhum mal nos aconteceria.

Então o Armand   – era assim que ele se chamava   abriu muito os olhos e respondeu-me:

– Não caia, senhora, não caia!

E ali acabaram as minhas ilusões sobre tal assunto!


Fonte: Excertos de Ivone - "Aspetos humanos da nossa atividade: Não caia, senhora...". In: "Nós, enfermeiras paraquedistas", 2ª ed., org. Rosa Serra, prefácio do Prof. Adriano Moreira (Porto: Fronteira do Caos, 2014), pág.333  (com a devida vénia) (Imagem à direita, a seguir: Capa do livro)

(Seleção, revisão / fixação de texto, título, introdução: LG) (**)


Coautoras (das 30 da lista, com a Rosa Serra,  editora literária,  18 são Marias...): 

Maria Arminda Pereira | Maria Zulmira André (†) | Maria da Nazaré Andrade (†) | Maria do Céu Policarpo | Maria Ivone Reis (†) | Maria de Lourdes Rodrigues | Maria Celeste Guerra | Eugénia Espírito Santo | Ercília Silva | Maria do Céu Pedro (†) | Maria Bernardo Teixeira | Júlia Almeida | Maria Emília Rebocho | Maria Rosa Exposto | Maria do Céu Chaves | Maria de Lourdes Cobra | Maria de La Salette Silva | Maria Cristina Silva | Mariana Gomes | Dulce Murteira | Aura Teles | Ana Maria Bermudes | Ana Gertrudes Ramalho | Maria de Lurdes Gomes | Octávia Santos | Maria Natércia Pais | Giselda Antunes (Pessoa) | Maria Natália Santos | Francis Matias | Maria de Lurdes Costa.

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Notas do editor:

(*) Vd., postes de:^

18 de maio de 2022 > Guiné 61/74 - P23275: (In)citações (206): Maria Ivone Reis (1929-2022), a primeira enfermeira paraquedista que eu conheci, em 1967, no Porto (Rosa Serra)

16 de maio de 2022 > Guiné 61/74 - P23267: In Memoriam (435): Maria Ivone Reis, Major Enfermeira Paraquedista Reformada (1929-2022), falecida no dia 15 de Maio de 2022

13 de janeiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21764: (De)Caras (168): Maria Ivone Reis, major enfermeira paraquedista reformada, faz hoje 92 anos e é uma referência para outras outras mulheres e para nós, seus camaradas: excertos de um seu depoimento, publicado em 2004 na Revista Crítica de Ciências Sociais - Parte I

13 de janeiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21766: (De)Caras (169): Maria Ivone Reis, major enfermeira paraquedista reformada, faz hoje 92 anos e é uma referência para outras outras mulheres e para nós, seus camaradas: excertos de um seu depoimento, publicado em 2004 na Revista Crítica de Ciências Sociais - Parte II (e última)

5 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8998: As nossas queridas enfermeiras pára-quedistas (28): Comemoração dos 50 anos dos cursos de 1961 das Tropas Pára-quedistas (Rosa Serra / Maria Arminda)

26 de agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6900: As nossas queridas enfermeiras pára-quedistas (20): Uma foto histórica: as Alferes Arminda e Ivone, em Angola, Negage, Agosto de 1961

5 de junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6535: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-quedistas (18): As primeiras mulheres portuguesas equiparadas a militares (5): Maria Ivone Reis (Rosa Serra)

11 de maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4318: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-quedistas (10): Ivone Reis, Anjo da Guarda na Guiné, Angola e Moçambique (António Brandão)

20 de fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3914: As nossas queridas enfermeiras pára-quedistas (1): Uma brincadeira (machista...) em terra dos Lassas (Mário Fitas)