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sábado, 17 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27641: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esquec i... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro


Capa do livro de John P- Cann, "Os Flechas: os caçadores guerreiros do Leste de Angola, 1965-1974, tr-. do ingl. Carnaxide, Oeiras: Tribuna da História, 2018, 128 pp. 



Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;

(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iii) tem  já 130 de referências, no nosso blogue; 
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(iv) é professor de educação física, reformado;

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(viii) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (12):   o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro

por Jaime Silva



Não, não esqueci o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro (*).

Este acontecimento passou-se em Léua, no Leste de Angola. Decorria o mês de abril de 1972. A meio da tarde aterraram, no nosso destacamento, quatro helicópteros, donde, de um deles saiu um agente da PIDE e um guerrilheiro capturado.

A chegada dos Hélis tinha como objetivo transportar um grupo de combate para assaltar uma base guerrilheira. Segundo o pide, o guerrilheiro iria confessar e dizer onde a mesma se situava.

Para esse assalto foi destacado o meu pelotão. Esperámos… esperámos… mas do pide não havia novidades. 

A determinada altura, o comandante da esquadra de Helicópteros chama a atenção ao comandante de companhia para o adiantado da hora, e da dificuldade de teto e luz do dia para efetuar o percurso de ida e volta. Por isso, o meu comandante ordenou-me que fosse perguntar ao agente se demorava muito o interrogatório.

Chego ao local e transmito a mensagem ao pide que, face ao silêncio absoluto do guerrilheiro, não tinha conseguido “sacar-lhe” nenhuma informação. E incomodado pelo seu fracasso, julguei, diz-me:

 – Espere aí, sr. alferes, ele vai, já, bufar tudo. 

De seguida, pergunta-lhe:

   Como te chamas?

Um silêncio absoluto por parte do guerrilheiro e, ato contínuo, o agente rapa de um pau –  tipo taco de basebol – e acerta-lhe com força no nariz e pergunta novamente:

 
– Como te chamas? 

Depois, face ao repetido silêncio daquele homem, repete o mesmo golpe nos joelhos, nas canelas e nos tornozelos

E eu, perplexo saio dali, imediatamente.

Felizmente para o guerrilheiro, homem de grande coragem, que não traiu os seus camaradas.

E, felizmente, também para o meu grupo de combate, pois a operação foi abortada, o que significou “menos uma no pelo”!


Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp- 93-94

 (Revisão / fixação de texto, título: LG)

________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste anterior da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27604: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (11): o guerrilheiro do MPLA, morto a norte do rio Cassai, no leste de Angola, que era também alfabetizador

(**) Possivelmente capturado pelos Flechas

Sobre os Flechas, há um çlivro  do historiógrafio militar norte-americano, John P. Cann, Ver aqui excerto Diário de Notícias > Redação DN > 25 de abril de 2018 > "MPLA chacinou um quarto dos "Flechas"após fim da guerra colonial em Angola" (...)

(...) Cerca de 25% dos mais de 2.000 Flechas angolanos, que lutaram ao lado de Portugal, foram "chacinados" pelo MPLA nos primeiros sete meses após o fim da guerra colonial portuguesa em Angola, indicou hoje um historiador norte-americano.
 
John P. Cann, entrevistado pela agência Lusa a propósito do seu mais recente livro "Os Flechas – Os Caçadores Guerreiros do Leste de Angola – 1965/74", publicado pela editora Tribuna da História, indicou que só numa operação, realizada em Mavinga, na província de Cuando-Cubango (sudeste), as forças do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) abateram 130 bosquímanos.

Os Flechas, inicialmente conhecidos por Corpo Auxiliar, foram uma força especial indígena criada em 1966 em resposta a uma necessidade da Polícia Internacional de Defesa do Estado 
– Direção Geral de Segurança (PIDE/DGS) para a recolha de informações de interesse político-militar português no Leste de Angola.

No início, a força criada pelo antigo inspetor da polícia política portuguesa António Fragoso Allas, com os "tentáculos" das ações desestabilizadoras portuguesas a estenderem-se também ao Congo, Namíbia, Zaire (atual R D Congo) e Zâmbia, contava com apenas oito homens, mas, até 1974, ultrapassaram os 2.000.

Os bosquímanos, recrutados entre a milenar população de caçadores coletores que residem nas planícies e savanas do leste de Angola, Namíbia e deserto do Karoo (região semidesértica na Africa do Sul), têm uma pequena estatura e rosto de aparência asiática, sendo especialistas em operações de reconhecimento.

Segundo John Cann, que se reformou dos "Marines" em 1992, tendo, então, feito um doutoramento em Estudos de Guerra no Kings College, na Universidade de Londres, os Flechas revelaram "grande competência" em operações conjuntas com forças terrestres regulares, respondendo à PIDE/DGS, que os integrou como organização paramilitar, e também ao comandante local do Exército português.

"Quando a guerra acabou, ficou rapidamente claro que os Flechas eram um grupo em perigo. Famílias atrás de famílias foram assassinadas numa série de massacres. Num só caso, cerca de 130 bosquímanos foram mortos a tiro num genocídio sangrento nos arredores de Mavinga", referiu o antigo Marine norte-americano.(...)

Parece haver aqui um erro ou lapso nos números ou na redação do texto:


(i)  "cerca de 25% dos mais de 2.000 Flechas angolanos [que eram bosquímanos], que lutaram ao lado de Portugal, foram "chacinados" pelo MPLA nos primeiros sete meses após o fim da guerra colonial portuguesa em Angola"; 

ou (ii) "25% do total do bosquímanos do Leste de Angola foram mortos" ?

Continunando:

(...) "Mais tarde, foi estimado que cerca de 25% dos bosquímanos angolanos foram mortos nos primeiros sete meses de poder do MPLA. Como consequência, muitos fugiram para a África do Sul, onde se juntaram às Forças Armadas Sul-Africanas para formar o Grupo de Combate Alfa, que se tornaria, depois, o Batalhão 31", acrescentou.

Questionado sobre se há dados relativamente às baixas entre os Flechas durante o período do conflito em Angola (1961/74), John Cann disse não ter encontrado, ao longo das investigações feitas, quaisquer estatísticas.

"Devem existir em algum lugar. Mas, inicialmente, os Flechas eram utilizados em missões de espionagem, de recolha de informações, uma vez que eram claramente uma força passiva. No entanto, após alguns encontros desafortunados com forças inimigas, ficou claro que o arco e flecha não conseguiriam bater o armamento moderno", afirmou.

John Cann lembrou que as coisas mudaram a partir do momento em que uma pequena patrulha de bosquímanos foi capturada e torturada.

"A partir daí, os Flechas foram armados com uma espingarda automática ligeira. A sua filosofia de combate passava por evitar o confronto direto, o que permitiu manter reduzidas as baixas. Se tivesse de fazer uma estimativa, diria que o número de baixas em combate estará no intervalo entre 1% e 2%, ou seja, entre 20 a 40 mortes", disse.

Hoje em dia, realçou o capitão de mar e guerra aposentado da Marinha dos Estados Unidos, os bosquímanos residem maioritariamente na África do Sul, onde grande parte de se integrou nas forças de segurança locais. (...)

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