1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:Queridos amigos,
Muito se tem falado sobre esta I Exposição Colonial, acabou por funcionar como o ensaio geral da Exposição do Mundo Português, pelo meio ainda se fez uma exposição no Parque Eduardo VII, nova exibição de matérias-primas e de atração aos investimentos e convocação de mão-de-obra. O evento constituiu uma declaração ideológica, Portugal assumia a sua missão civilizadora , tocava a rebate para mobilizar as almas, exaltava-se o espírito missionário, a propaganda tudo fez para mostrar que "Portugal não era um país pequeno". Ponto curioso, a presença guineense mereceu primeiro destaque, faziam-se excursões para ir ver as Bijagós em tronco nu, todo aquele exotismo encantava gente de todas as idades. O régulo Mamadu Sissé mereceu todas as honras, na pintura, na fotografia de Domingos Alvão, nos desenhos de Eduardo Malta, era a dimensão da pose de um soberano, destemido e profundamente fiel à bandeira portuguesa.
Um abraço do
Mário
Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português
Mário Beja Santos
A I Exposição Colonial, que se realizou no Porto, em 1934, põe em prática os princípios ideológicos e programáticos do Acto Colonial de 1930, promulgado ainda durante a Ditadura Nacional, e que consagrou doutrina aceite na Monarquia Constitucional e I República, isto é, alterada a nossa presença em três continentes depois da Revolução de 1640 e com a separação do Brasil, o poder político manteve uma ideia imperial e um espírito de missão. Acresce que as decisões tomadas na Conferência de Berlim implicaram o envio de tropas, a procura de subordinação das chefaturas africanas, a atração de investimentos; a I República arrepiou caminho quanto aos critérios de missionação e ensaiou a descentralização política com a criação de altos-comissários. Salazar pôs a sua assinatura no Acto Colonial, ficou claro a subordinação das colónias aos interesses da metrópole, definiu-se a nação no desempenho da função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas; apagou-se a autonomia financeira e administrativa das colónias, estabelecendo-se critérios de rigor financeiro; com as devidas cautelas, as companhias privadas, muitas delas internacionais, perderam poderes soberanos, irá sendo a sua presença gradualmente vigiada, e no caso da Guiné serão substituídas por empresas que interessavam ao Estado fornecer matérias-primas à metrópole, será assim com a Casa Gouveia (dependente da CUF) e a Sociedade Comercial Ultramarina (associada ao Banco Nacional Ultramarino).
Em termos históricos, a Exposição Colonial do Porto deixa transparecer a renovação ideológica preconizada pelo Estado Novo. Nesta obra aqui referida, há um texto altamente sugestivo assinado por Francisco Vieira Machado, então do Governo, e mais tarde a figura de proa do Banco Nacional Ultramarino. O texto que ele deixa publicado intitula-se No Rumo do III Império:
“Há através da história de Portugal uma Ideia, ou antes, um ideal, que decerto enraíza na própria essência da alma e do carácter dos portugueses, tal é o rigor que se forma e a persistência com que renasce: o ideal da formação dos Impérios.
Esboçado e vago na organização do Infante, mais preciso sob a preciosa vontade de D. João II, ganha a primeira expressão real e perfeitamente enformada com Afonso de Albuquerque. E o primeiro esforço imperial da parte portuguesa despende-se no sonho de formação de um grande Império Asiático com guardas vigilantes em Áden, Ormuz e Malaca. Desfeito com a morte do grande político e guerreiro o plano tão audaz e inteligentemente iniciado, logo outro grande português – e esse tão desconhecido, tão caluniado, tão incompreendido por mais de três séculos de História: D. João III! – nos lança para a formação do Império Sul Africano. E do novo sonho, do novo rumo que o Ideal português procura, nasce esse portentoso Brasil, descoberto, colonizado, povoado e engrandecido por gente portuguesa.
Num vale escuro da História, invadidos nas organizações políticas e nas almas, pela ideologia de 1789, alheados do sentido da nossa grandeza e da nossa missão pelo falso esplendor de novas ideias, perdemos o Brasil e o rumo imperial da nossa nação nas Colónias.
Passam-se longas dezenas de anos – quase um século.
Uma geração de escol, que em si guardava as mais ricas virtudes de Portugal, levanta de novo a ideia colonial, lança-se para África, ocupa, pacifica e refaz e fixa as novas fronteiras imperiais.
Depois deles outros seguiram o seu esforço heroico.
E novamente o sonho do Império – desta vez o Império africano – ganha forma e encontra o velho Ideal português.
Estamos novamente no caminho do Império.”
Henrique Galvão foi mais do que o organizador da I Exposição Colonial, coube-lhe a ação de sensibilização da elite portuense para tirar partido de se ter escolhido o Porto para mostrar as gentes e as riquezas do Império. Dirá no decurso da sua exposição a estas elites que “Portugal é a quarta potência colonial do mundo, com um passado cheio de tradições, de aventura, arrojo e abnegação. Detém ainda, sob a sua soberania, vastos territórios de um património colossal.” Chama a atenção que embora em redor da Exposição Colonial tenha sido feita uma campanha de propaganda intensa, ao longo de dez meses, procurando esclarecer e despertar atenções, havia muito ainda para revelar: o que se pretendia com o certame, sabendo de antemão que a maioria das pessoas que o iriam visitar, vinham acicatados pela curiosidade, impunha-se aproveitar a oportunidade para fazer conferências, mostrar as riquezas coloniais, atrair gentes para irem até às colónias.
A Agência-Geral das Colónias, por seu turno, iria produzir documentação sobre os bravos militares, episódios da história da colonização, falar da nossa presença em todas as colónias. O objetivo primordial era formar as elites do regime e tendencialmente os investidores.
A Exposição foi um êxito e, ponto curioso, mais do que marcar presença, o que se mostrou da Guiné foi o que mais se guardou na memória e na imagem.
Henrique Galvão explica à elite comercial portuense os objetivos da I Exposição Colonial
Régulo Mamadu Sissé, um dos operacionais do Capitão Teixeira Pinto, fotografia de Domingos Alvão
Indígenas Bijagós numa das suas pirogas. Fotografia de Domingos Alvão
Um áspeto da aldeia lacustre dos Bijagós, fotografia de Domingos Alvão
_____________Nota do editor
Último post da série de 12 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27630: Notas de leitura (1885): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VIII: um quartel no coração chão mancanha (Luís Graça)







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