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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Tenho consciência de estar a deglutir uma continuidade de capítulos, pontuando questões que seguramente todos nós já ouvimos falar nos bancos da escola sobre a história da expansão marítima e como África e os seus povos se colocaram no centro das atenções. Há uma efetiva singularidades nas observações deste investigador que é a de querer ver o reverso do espelho, o que para além dos feitos históricos da exploração marítima, dos avanços científicos e tecnológicos com contributos até de muçulmanos e judeus, o que ele põe em relevo é o desempenho dos africanos na ascensão económica da Europa e como o desenvolvimento político e a concretização dos ideais do Iluminismo se construíram à custa do continente negro e de uma mão-de-obra escravizada que foi determinante para mudar o curso da História, como ia acontecer no século XIX com a Revolução Haitiana e a explosão dos direitos humanos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 2

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro "Origem: África", o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

No contexto das expedições henriquinas, em dado momento a Coroa passou a ter acesso regular a grandes quantidades de ouro, o que nos remete para a fortaleza da Mina.

Não estávamos sozinhos na busca do ambicionado ouro, também os Reis Católicos encorajavam a esta região chamada Elmina mediante expedições privadas. D. João II, em 1481, ordenou a construção de um forte ao longo da costa do Gana para proteger o crescente fornecimento de ouro a Portugal de rivais e piratas, construção que ficou a cargo de Diogo da Azambuja. A maior parte do comércio de ouro português tinha estado concentrada em redor de Shama, considerada um porto inadequado, daí a escolha ter recaído em Elmina. Correram bem as negociações com as chefaturas locais. Nascia uma experiência nova, a construção de uma guarnição permanente e fortificada nos trópicos africanos. Este acontecimento decorre em simultâneo com o tráfico de escravos no Atlântico. São Jorge da Mina tornou-se no primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos, ao longo da costa do Gana dos tempos modernos.

“São Jorge da Mina tornou-se o primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos ao longo da costa do Gana dos tempos modernos, nos três séculos que se seguiram, por um conjunto diversificado de nações europeias. A primeira vaga de construção de postos avançados tinha como objetivo a obtenção de ouro. Só muito mais tarde, a partir da década de 1640, é que esta região se tornou uma importante fonte de escravos, muito depois de outras regiões como a Alta Guiné, o Congo e Luanda. No século XXI, o Castelo de Elmina, como é hoje chamado o Forte de São Jorge da Mina, é tão sólido e bem construído como parece, visto à distância do cume da colina a que escalei para admirá-lo.
Hoje em dia, multidões de visitantes acorrem ao castelo para visitas guiadas aos andares do topo, que abrigavam o governador e os seus oficiais superiores, às masmorras, situadas mesmo ao lado do pátio, por baixo, e à famosa Porta sem Retorno, por onde os escravos saiam para os barcos em direção às Caraíbas, ao Brasil e, mais tarde, às colónias britânicas na América do Norte. O metal foi o motor da história que conduziu os portugueses até aqui. E assim se desencadearam os eventos que se seguiram, desde as descobertas espanholas do Novo Mundo até ao lançamento das economias de plantação que, quase literalmente, ‘aspiravam’ os africanos cativos para as longínquas costas do Atlântico.”


Portanto o ouro foi o motor. Como observa o autor, desde a conclusão do forte em Elmina até meados do século XVI, a caravela portuguesa vai e vem até à Costa do Ouro, com uma média de 46 a 57kg de metal precioso por mês. O tesouro do reino, anteriormente conhecido como Casa da Guiné, foi renomeado Casa da Mina e transferido para o próprio edifício do Palácio Real. Por si só, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos vinte anos do século XV.

Em 1506, o ouro da região de Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa. A Costa do Ouro gerava cerca de 680Kg de ouro para Portugal ou, estima-se cerca de 1/10 de toda a oferta mundial de ouro naquela época. Esta enxurrada de metal precioso impulsionou uma complexa integração económica baseada no comércio a longa distância. Para adquirir ouro africano ofereciam-se manilhas e armas de fogo. Tendo descoberto que a lã e linho eram pesados impróprios para os trópicos, os portugueses começaram a usar algum do seu ouro de origem africana para comprar algodões indianos.

Esta quantidade de ouro era tão estimada que a alardeada busca de uma rota para a Ásia ficou suspensa, deu-se prioridade a continuar a identificação de outras jazidas de ouro em África. Os portugueses enviaram embaixadas a Tombuctu, tinham a expetativa de monopolizar o mercado de ouro a partir do Sahel. Empreendeu-se uma grande embaixada ao reino no Congo, em 1491, um projeto repleto de padres e artesãos. Portugal durante anos não deu continuidade ao progresso alcançado por Bartolomeu Dias no Oceano índico, o país estava demasiado ocupado em África.

Howard French observa que há uma outra perspetiva completamente distinta sobre o impacto histórico do ouro proveniente da África Ocidental. Este ouro teria contribuído para o financiamento de novas frotas e missões de exploração em várias latitudes, mas primeiro prosseguiu-se a Costa Africana a partir de 1497. Ele diz mesmo que o gigantesco ouro da Mina proporcionou à Coroa o desejo de descobrir ainda mais ouro em África; bem como, tronou possível a Portugal acompanhar o ritmo da Espanha no seu percurso acelerado de exploração oceânica. E recorda o encontro entre Colombo e D. João II. Estava em curso o Tratado de Tordesilhas de 1494, os dois países ibéricos tinham dividido as terras recém-descobertas fora de Portugal. Porventura, depois de conversar com Colombo, o rei português ficara esclarecido que a rota asiática não estava em perigo.

Veremos seguidamente como se instalou o tráfico negreiro e os seus circuitos.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post da série de 14 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)

sábado, 15 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28262: Os nossos seres, saberes e lazeres (745): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (266): Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
Parti com o maior entusiasmo, mesmo diminuído pela hérnia inguinal bilateral, que será operada a 19 de outubro, não esperava aquela caloraça totalmente inusitada na Alemanha, ia cheio de sonhos, conhecer Trier, a segunda grande cidade do Império Romano, Koblenz, a sede do reino merovíngio e os seus monumentos espetaculares e as vistas esplendentes do Mosela, que corresponderam na totalidade às expetativas que levava. Seja como for, como direi no regresso da viagem, não desgostei de percorrer o Luxemburgo, país que não me deslumbra talvez porque eu esteja sempre a invocar o que já vi na França, na Bélgica e na Holanda. O curioso de toda esta história é que recebi o convite para ir a dois concertos no Festival de Música do Reno, ambos me deslumbraram, e não menos me deslumbrou ter comprado um bilhete Lisboa-Luxemburgo-Lisboa por 75€, acho que tive sorte com a ucharia.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (266):
Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 1


Mário Beja Santos

Chegara-me o convite de gente muito amiga para assistir a dois concertos do Festival de Música do Reno, enviaram mesmo cópias dos bilhetes já adquiridos, que eu não recusasse, seria com muita alegria recebido com cama e mesa e roupa lavada. Disse que sim, pronta e afetuosamente, e comecei a desenhar a viagem. A primeira grande surpresa foi descobrir um Lisboa-Luxemburgo-Lisboa por 75€, para mim impensável, partindo em fins de julho e regressando naquele período de agosto em que metade dos europeus viajam de um lado para o outro. A segunda grande surpresa foi descobrir que havia um bilhete ferroviário com o preço de 20€, podia andar pela Alemanha toda. O desenho começou a esclarecer-se. Chegar ao Luxemburgo com noite escura, apanhar comboio até Trier, aqui, por táxi, ficar numa casa particular, coisa rara anunciava-se na informação do aluguer que se punha o cliente no dia seguinte na estação, o que aconteceu, deu para ir percorrendo por algum do mais imponente património da presença romana, dos tempos medievais e de quando Trier tinha Príncipe Eleitor da Renânia-Palatinado. Com bilhete ferroviário previamente adquirido, começou uma espantosa viagem à volta do rio Mosela, com os seus frondosos campos vinhateiros em declive, são muitíssimo belos, mas tenho cá para mim a preferência pelo Alto Douro vinhateiro.

Não falo da viagem pelo Luxemburgo nessa noite, terei a oportunidade de falar do país no regresso, a minha relação com o Luxemburgo não é exultante, estou sempre a fazer comparações com campos franceses e belgas e não encontro nenhuma singularidade nas suas riquezas patrimoniais, há para ali uma arquitetura que lembra outra da região do Benelux.

Que fique claro ao leitor que uma parte das imagens foram catrapiscadas de vários sítios, as fotos que tirei em Bullay ficaram desfocadas ou manhosas, adorei passear em Traben-Trarbach bem como em Cochem. Sentado à janela, com o boné a proteger-me do sol viajei até Coblença, vinha com sonhos de visitar aquele ponto onde o Mosela conflui com o Reno, é um território cheio de História, aqui os Francos puseram as legiões romanas em debandada, aqui houve corte merovíngia, viveu sempre em prosperidade até que foram inquietados pela Revolução Francesa. Em 1815, com Napoleão na ilha de Santa Helena, o Congresso de Viana atribuiu Coblença à Prússia. A Segunda Guerra Mundial infligiu danos à cidade, destruiu 85% do seu património. Não atinei com nenhum posto informativo, vi passar autocarros, ninguém me esclareceu rigorosamente como lá chegava e como regressava, por mera prudência decidi andar no interior da cidade, visitei a Igreja de Nossa Senhora, que começou a ser construída em 1200, passeei pelas praças e vi por fora a Igreja de São Castor, uma basílica românica de quatro torres com ápside redonda característica. Fora um intenso dia quando cheguei a Wiesbaden, onde fui recebido de braços abertos. Seguir-se-ão dias também intensos e muito belos, como procurarei contar.


Cidade do Luxemburgo, vista do Palácio do Grã-Ducado, visto da ponte ferroviária
Fachada da Porta Nigra, o principal monumento romano em Trier, a cidade mais antiga da Alemanha e a mais esplendorosa do Império Romano, depois de Roma
Um pormenor do interior da Porta Nigra
Vista aérea do rio Mosela entre Trier e Koblenz
Cochem, um dos lugares de idílio no Mosela, muita floresta e região vitivinícola
O intuito era fazer por comboio uma visita a lugares belíssimos que circundam o Mosela, até Koblenz. Saiu-se de Trier até Bullay e daqui até uma curta viagem num outro comboio a Traben-Trarbach, uma vista fascinante, um número impressionante de embarcações e imensos parques com caravanas e tendas de campismo.
O calor era demolidor, a estação praticamente vazia, tinha começado o percurso para cirandar por Mosela
Uma das vistas mais apreciadas em Koblenz (em português, Coblença), neste ponto encontram-se o Mosela com o Reno
Aspeto da fachada da Igreja de Nossa Senhora em Coblença, estilo românico-gótico
Confesso que o que mais me impressionou no interior desta igreja, manifestamente de gótico tardio é a imagem do Cristo, nunca tinha visto nada de parecido, mas li que se trata do estilo renano, que vigorou na Idade Média
Gostei muito deste retábulo num altar lateral e do rendilhado da peça que o encima, um baldaquino de pedra lavrada
Indo a caminho da estação para apanhar o comboio com destino a Wiesbaden, eis que numa das ruas encontrei um cruzamento com quatro casas que parecem dialogar umas com as outras, talvez sejam edificações, réplicas, de velhas casas medievais, mas há para aqui bom gosto e um elevado sentido de memória na paisagem urbana, na falta de ter encontrado transporte àquele ponto onde o Mosela se encontra com o Reno, e com aquela temperatura superior a 30ºC, com humidade sufocante, dei-me por feliz deste registo da curta passagem por Coblença.
Igreja de São Castor, quem não sabe é como quem não vê, não muito longe daqui, mesmo que me custasse os olhos da cara com aquela caloraça, estava à minha espera o tal ponto que se chama Das Deutsches Eck, onde confluem o Reno e o Mosela. Fica para a próxima.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 8 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28249: Os nossos seres, saberes e lazeres (744): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (265): Teatro Eduardo Brazão, no Bombarral, uma réplica do teatro Alla Scala, de Milão (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A obra de Howard W. French é algo mais de que uma mera revisitação da Era das Descobertas e do papel central da Europa no desencravamento do mundo. A singularidade passa por colocar o continente africano e os seus povos no centro das atenções: a despeito da infâmia da escravatura e dos milhões de seres humanos encaminhado para as Américas e para povos do Mediterrâneo, sobretudo, os africanos foram essenciais na construção da modernidade, impulsionaram culturas, foram determinantes nas riquezas criadas nas Américas. Este trabalho Origem:África leva-nos para uma nova visão das nossas origens; a guerra civil norte-americana, provocada pela questão da escravatura gerou direitos dos cidadãos e fundou um novo conceito de liberdades cívicas. Uma revisão do olhar que este investigador alarga à história do mundo Atlântico, procurando pôr África no seu lugar.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 1

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro "Origem: África", o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

Alguns desses produtos do trabalho escravo, como é o caso do algodão, ajudaram a lançar a industrialização. Para o autor, esta sua investigação procura abrir vários caminhos e avivar historiografia antiga: as disputas europeias pelo controlo da riqueza africana, a sucessão de batalhas navais na África ocidental no acesso ao ouro; uma quase guerra mundial no século XVII, para o controlo do comércio das mais ricas fontes de escravos em África, hoje Congo e Angola, alternando entre eles; e temos o açúcar brasileiro, as lutas de Inglaterra e Espanha pelo controlo das Caraíbas, enfim, o esclavagismo foi a catapulta da criação de riqueza no Atlântico norte, mas a sua presença modificou a estrutura das Caraíbas e do Brasil.

Este volumoso estudo abre com a “descoberta” de África, desde a Antiguidade, e a partir do Mediterrâneo Oriental, basta recordar os negócios fenícios no norte de África, igualmente no norte de África a presença do Império romano e depois, com a presença muçulmana a aceleração do comércio transariano no ouro; os manuais que há muito que dão conta de impérios africanos como o Gana, conhecido em toda a África do Norte como o país do ouro; o Império Mali, o mais famoso dos impérios sudaneses, que sucedeu ao Gana no século XIII, que deixou registo de uma figura lendária, o imperador Mansa Musa que na sua viagem para Meca, passando pelo Cairo, deu brado pela ostentação da sua riqueza; no seu auge, o império controlava o enclave de três dos mais importantes vales fluviais da África Ocidental: o Senegal, a Gambia e, acima de tudo, o Níger.

Atenda-se a esta observação do autor:
“Enquanto o Gana dependia principalmente dos campos de ouro num lugar chamado Bambuk, que estava ligado através de rotas de caravanas ocidentais conducentes a Marrocos, o Mali diversificou as suas fontes de ouro e conseguiram aumentar consideravelmente a produção, estendendo as suas redes de comércio ainda mais para sudoeste, explorando a produção de áreas controladas pelos grupos étnicos acãs (grupos étnicos e linguísticos situados no Gana e na Costa de Marfim) do atual Gana, nome adotado pela antiga colónia britânica que se chamava Costa do Ouro aquando da independência. Além do ouro, cada um dos três grandes impérios sudaneses que se sucederam no controlo dos mais importantes vales fluviais e da savana ao sul do Sara – Gana, Mali e Songai, perseguiram agressivamente o comércio de escravos.”

E, mais à frente:
“Entre 1500 e 1800, aproximadamente três milhões de escravos negros foram traficados através do deserto do Sara, ou por rotas distintas da África Oriental, para as regiões do mar vermelho e do Oceano Indico. Mais de um milhão foram enviados para as Américas a partir das áreas da Senegâmbia e das costas da Alta Guiné, ambas constituindo zonas nucleares de influência dos grandes estados do Sahel medieval.”

Adstrito a este contexto, a Europa conheceu tempos de tumulto, de refazimento de Estados, sofreu a Peste Negra, teve péssimos anos agrícolas e sentiu a falta do ouro; num quadro de relações científicas onde também pontificaram os conhecimentos muçulmanos e judaicos, deu-se o afã, a curiosidade, a apetência de riquezas, a cobiça do ouro, o ideal de cruzada, teimava-se em fazer recuar os muçulmanos do norte de África para o ponto de origem.

O conhecimento científico exigia atualizações na cosmografia. Os mapas e os livros que circulavam em meados do século XIV procuravam dar informações sobre África, acompanhavam-se as viagens que os muçulmanos faziam no Sudão, os mapas introduziam o rio Senegal que era imaginado como o ramo ocidental do Nilo. Apareceu em 1375 o Atlas Catalão, um mapa-múndi. Vale a pena falar dele.

Este mapa maiorquino continha elementos de astrologia, mito e superstição, é o mais antigo mapa sobrevivente da Idade Média europeia, nele se tentava estabelecer uma geografia científica do mundo real. O mais extraordinário elemento deste mapa é África: lá, não só se encontra um grande número de zonas costeiras identificadas, como é próprio de um portulano, mas também uma quantidade impressionante de detalhes sobre o interior do continente. Pela primeira vez na cartografia surge uma referência aos negros da Guiné.

French foca seguidamente o desempenho da nova dinastia de Avis e recorda o papel científico determinante dos judeus, a importância da conquista de Ceuta, as expedições em torno da Costa Ocidental africana, o diferendo de Portugal e Castela sobre as Canárias, as primeiras trocas comerciais com as chefaturas africanas, a importância do contrato celebrado por D. Afonso V com Fernão Gomes, a construção da fortaleza da Mina, finalmente o acesso ao ouro, a substituição de contactos hostis com as populações nativas pela diplomacia do diálogo e negociação. Vamos ver seguidamente a importância que deve ser conferida aos negócios da Mina e a edificação do tráfico negreiro/escravatura.


Professor Howard W. French

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 10 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)

domingo, 26 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

 








Fonte: Excerto da 1ª página do "Diário de Lisboa" | Número: 8409 | Ano: 26 | Data: Quinta, 25 de Abril de 1946 | Directores: Director: Joaquim Manso

(1946), "Diário de Lisboa", nº 8409, Ano 26, Quinta, 25 de Abril de 1946, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22887 (2026-4-26)



1. Portugal, "graças a Salazar e a Nossa Senhora de Fátima", dizia-se na minha terra, quando eu era menino e moço, na catequese e na escola primária, escapara aos horrores da II Guerra Mundial... 

Só muito mais tarde é que vim a saber da imensa tragédia que se abateu sobre Timor-Leste nesse período hediondo da história da humanidade.

 Também ainda  sou do tempo em que Portugal ia do Minho...  a Timor. (Timor-Leste tem 155 referências no nosso blogue.)

O impacto da ocupação japonesa em Timor durante a II Guerra Mundial foi devastador, e infelizmente é ainda  pouco conhecido dos portugueses,  fora da historiografia especializada. (De resto, os portugueses não gostam de história.)

Recorde-se que durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Timor (então dividida em duas partes, o Timor Português e o Timor Holandês) foi invadido pelo Império do Japão em no início de 1942. 

Curiosamente, antes disso, forças australianas e holandesas tinham desembarcado em Timor português, em finais de 1941, sem autorização formal de Portugal, temendo uma invasão japonesa, o que acabou por precipitar o ataque nipónico, dois meses depois,

Após a invasão, comandos australianos (a chamada “Sparrow Force”) conduziram uma guerra de guerrilha nas montanhas, com forte apoio dos timorenses. Essa colaboração teve consequências terríveis:
  • os japoneses retaliaram brutalmente contra a população civil;
  • armaram e protegeram as "famigeradas colunas negras";
  • aldeias inteiras foram destruídas;
  • houve execuções, trabalhos forçados e deslocações em massa;
  • Dili  (e o resto do território) ficou sem comunicações com Lisboa até ao fim da guerra.
As estimativas variam, mas são geralmente aceites números muito elevados: entre 40.000 e 70.000 timorenses morreram, numa população relativamente pequena. Isso representava  algo como 10% a 15% da população da época.

As causas principais estão, direta ou indiretamente, relacionadas com a invasão e ocupação japonesas: v
iolência direta (massacres e execuções); fome (colapso da agricultura e pecuária e requisições forçadas); doenças (e falta de cuidados médicos, agravada pela guerra).

A população timorense teve um papel ativo na luta contra o ocupante: muitos serviram como guias, carregadores e combatentes auxiliares; e esse apoio foi crucial para a resistência australiana, mas custou-lhes caro.

Após a rendição do Japão em 1945, no seguimento dos bombardeamentos atómicos (Hiroshima e Nagasaqui) e da derrota total do Japão,  Timor voltou ao controlo português.  

No entanto, as infraestruturas estavam devastadas; a cidade de Díli destruída; a  economia rural em colapso; a população profundamente traumatizada.

2. Memória histórica:  este episódio é hoje reconhecido como um dos maiores sacrifícios da população timorense; na Austrália, há um reconhecimento crescente da “dívida de sangue” para com Timor; em Timor-Leste, a memória da ocupação japonesa é parte integrante da identidade histórica nacional; em Portugal, houve quem acusasse o regime de Salazar de abandono dos portugueses e timorenses que lá ficaram, indefesos e incomunicáveis. E até de um "silenciamento cínico".

Haveria, porém,  uma exceção: o  caso de Dom Aleixo Corte-Real, um dos episódios mais marcantes e também mais complexos dessa época. Foi glorificado pelo Estado Novo.



Timor Leste > s/d (c. 1936/40) > O "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), régulo de Ainaro e Suro, um dos heróis luso-timorenses da resistência contra os ocupantes japoneses na II Guerra Mundial.

Fotos do Arquivo de História Social > Álbum Fontoura. Imagens do domínio público, de acordo coma Wikimedia Commons.


2.1. Quem foi Dom Aleixo?

Dom Aleixo, de quem já aqui temos falado,  era liurai (régulo, chefe tradicional) de Ainaro, em Timor-Leste. O "Diário de Lisboa" chama-lhe "príncipe".

 Quando os japoneses invadiram o território durante a Segunda Guerra Mundial, ele tornou-se um dos principais líderes locais da resistência: apoiou as forças australianas na guerrilha contra o Império do Japão; mobilizou combatentes timorenses; recusou colaborar com os ocupantes.
 
Em 1943, após campanhas de repressão japonesa, Dom Aleixo foi capturado e foi executado,  de forma brutal. Grande parte da sua família também foi morta.

Este tipo de represália não era incomum: os japoneses visavam destruir redes locais de apoio à resistência. Sem dó nem piedade.

O regime português transformou Dom Aleixo numa figura heróica...  O Estado Novo apropriou-se da sua história para exaltar a lealdade dos “indígenas” ao império português, reforçar a ideia de unidade imperial, criar uma narrativa de fidelidade a Portugal.

Ou seja, ele foi apresentado como um chefe tradicional que morreu fiel à bandeira portuguesa. O que só em parte era verdade.

2.2. O outro lado da história

A historiografia mais recente tende a ver Dom Aleixo de forma mais autónoma: lutava contra uma ocupação estrangeira violenta, e não apenas “por Portugal"; a  sua liderança baseava-se em estruturas locais timorenses; a  resistência tinha motivações próprias (defesa da terra, da comunidade, da autonomia).

 O mesmo se passou, aliás, noutros territórios, já na guerra colonial:  caso dos fulas, dos manjacos, dos felupes e outros, na Guiné.

Além disso, sabe-se que muitos timorenses resistiram sem qualquer ligação direta ao poder colonial. Outros foram forçados a colaborar com os japoneses... Portan
to,  a realidade era muito mais complexa do que a narrativa oficial. 

Hoje, Dom Aleixo é lembrado como herói nacional em Timor-Leste, mas com um significado diferente: símbolo de resistência timorense; mártir da luta contra a ocupação estrangeira;  figura da identidade nacional, não apenas colonial. 
 
Não é errado dizer que houve uma  “transformação em herói” por parte do Estado Novo... mas isso foi uma reinterpretação política de uma figura cuja importância histórica é real e anterior a essa propaganda.

3. A ideia de um “silenciamento cínico” não é totalmente descabida, mas convém enquadrá-la com algum cuidado histórico.

Durante o regime do Estado Novo, a informação era fortemente controlada e a narrativa oficial sobre o império tendia a ser seletiva. No caso de Timor, houve de facto pouca visibilidade pública do que aconteceu entre 1942 e 1945.

Há várias razões, mais pragmáticas do que necessariamente conspirativas:

(i) neutralidade portuguesa na guerra:  Portugal manteve-se, como é sabido,  oficialmente neutro na Segunda Guerra Mundial, pelo que dar demasiado destaque à invasão japonesa de território português, e à presença prévia de tropas australianas sem autorização poderia expor fragilidades dessa neutralidade, e fazer perigar outras posições territoriais na Ásia (como Macau);

(ii) dois pesos, duas medidas:  Salazar é muito mais comedido na denúncia e protesto contra o ataque japonês do que contra a a invasão de holandeses e australianos;

(iii) embaraço político e militar: a  ocupação mostrou que Portugal não tinha, de facto, capacidade real de defender Timor (que ficava a 20 mil km de distância de Lisboa)  e que perdeu totalmente o controlo do território durante esses anos (1942-1945), incluindo as telecomunicações; ora, isso colidia com a imagem de um “império forte e indivisível” que a propaganda do  regime promovia;

(iv) narrativa colonial: o Estado Novo evitava dar protagonismo excessivo às populações coloniais e aos seus líderes tradicionais como agentes históricos; ora, em Timor os timorenses foram decisivos na resistência contra o ocupante nipónico, mas pagaram caro o seu amor à sua terra, á liberdade e à sua identidade; reconhecer isso plenamente implicaria admitir dependência e vulnerabilidade e... "pôr em risco a neutralidade";

(v) ce
nsura e prioridades internas; a  imprensa portuguesa era fortemente censurada, e o foco estava sobretudo na Europa e nas ilhas atlântica s; Timor era um território, remoto e periférico;   para a opinião pública metropolitana era apenas um local de desterro...

Não se pode, todavia,  falar em "silêncio total": houve relatórios oficiais, correspondência e algum reconhecimento interno. Após a guerra, Portugal retomou a administração e fez esforços (limitados, embora) de reconstrução.

Mas não houve uma grande narrativa pública ou memorialização proporcional à dimensão da tragédia.
 
Hoje, muitos historiadores consideram que houve subvalorização e apagamento relativo da tragédia de Timor, mais por conveniência política e ideológicos de do regime do que por um plano deliberado de negar os factos.

Durante décadas, o sacrifício timorense ficou pouco conhecido em Portugal até ao 25 de Abril de 1974.

4. Qual o destino dos  dois menores, órfãos, Benjamim Corte-Real e José Corte-Real, netos do Dom Aleixo Corte-Real, que  vieram para Portugal, no navio Quanza, desembarcaram em Lisboa em 25/4/1946, e foram entregues à Casa Pia ?  

O destino posterior dos dois netos de Dom Aleixo Corte-Real é muito menos claro e mal documentado. Não há um registo público amplamente divulgado ou consensual sobre o percurso completo das suas vidas adultas. Algumas investigações e relatos indicam que terão sido educados em Portugal continental,  podendo ter sido integrados na sociedade portuguesa ou regressado à sua terra natal, quando atingiram a maioridade.

Mas os detalhes (profissões, regresso ou não a Timor, descendência, etc.) não estão bem estabelecidos na historiografia acessível.

Por que é tão difícil saber mais? Há várias razões:

(i) arquivos dispersos ou pouco estudados: registos da Casa Pia de Lisboa e da administração colonial nem sempre estão totalmente investigados ou cruzados;

(ii) invisibilidade social: ao contrário da figura de Dom Aleixo, os netos não foram figuras públicas, não entraram na narrativa oficial com o mesmo destaque, embora tivessem nomes portugueses;

(iii) descontinuidade histórica: o próprio passado colonial de Portugal só começou a ser mais profundamente estudado após o 25 de Abril, e muitos casos individuais ficaram por reconstruir.

PS - Há um linguista, professor doutor Benjamim de Araújo e Corte-Real (mais conhecido como Benjamim Corte-Real),  nascido em 1961, que pode ser desta família. Mas não temos mais informação, a não ser a que vem na sua entrada na Wikipedia. Foi o primeiro reitor, eleito em 2001, da UNTL - Universidade Nacional de Timor Lorosa'e.

Embora tenha feito os estudos superiores na Austrália (mestradoo e doutoramento), tem-se empenhado na "prossecução de uma política linguística que salvaguarde a cultura e identidade nacional timorense, através da promoção das duas línguas oficiais, português e tétum, contra correntes alienantes incentivadas por interesses estrangeiros".

(Investigação: LG + ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27698: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (20): E se tivesse havido um referendo em 1975 ? (Adriano Miranda Lima, cor inf ref, mindelense, que bebeu a água do Madeiral, a viver na diáspora desde 1963, e atualmente em Tomar)


 

Adriano (Miranda) Lima: mindelense da diáspora, nascido em 1943, é cor inf ref, vive em Tomar desde 1963. Serviu muitos anos no RI 15. Nao passou, na guerra de África, pela Guiné, mas sim por Angolas e Moçambique. Escritor, tem-se interessado pela história, património e cultura da sua terra. É igualmenet assíduo colaborador de jornais e blogues de (ou com referência a) Cabo Verde. É membro da nossa Tabanca Grande desde 2012. 

Tem cerca de duas dezenas e meia de referências no nosso blogue. É autor, nomeadamente. dos livros " "Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial" e "Dr. José Baptista de Sousa – O Homem, o Médico e o Militar". Ambos, edição de autor, publicados em 2020.


1. Mensagem do Adriano Lima, comentando o poste P27669 (*)


Data - 3 fev 2025 02:49
Assunto - E se... ? Invasão do Mindelo em 1942


Amigo Luís, boa noite.

Só reajo agora porque, infelizmente, problemas familiares forçaram-me a fazer uma pausa na minha rotina habitual.

 Agradeço este interessantíssimo trabalho, que li com imenso gosto e muito gozo. 

As meninas da IA fizeram o que delas era de esperar, reproduzindo fielmente a história do que realmente aonteceu. O que, noutra circunstância, poderia ter acontecido está bem reproduzido nas imagens aos quadradinhos e comentado com refinado humor pelo editor do blogue. 

Olha que quem lê até é levado a pensar que és um mindelense de gema, ou seja, que bebeste a água do Madeiral, expressão que antigamente se usava para caracterizar o natural da ilha que melhor se identifica com os seus usos e costumes (a água que abastecia a ilha vinha de uma nascente no lugar com esse nome, Madeiral). 

Na idiossincrasia mindelense cabe um humor típico e que não tem paralelo no resto do arquipélago. Parece que isso se deveu à influência da comunidade inglesa, que em grande parte impulsionou o desenvolvimento da cidade e do porto. O crioulo de S. Vicente incorpora no seu léxico termos ingleses com mais ou menos adulteração.

Quanto à independência do território, se se realizasse hoje um referendo, acredito que a maior parte da população a rejeitaria e optaria por uma autonomia semelhante à dos Açores e Madeira. 

Aliás, isso só não aconteceu muito por influência da célula do MFA local. Os cabo-verdianos pensavam que iam fruir das mesmas liberdades cívicas dos metropolitanos em Portugal e por isso criaram 2 ou 3 partidos que defendiam essa opção ou algo nessa linha. Os seus líderes foram presos e encarcerados no campo de Tarrafal, e é importante frisar que tudo aconteceu durante o período de transição, por obra e graça da célula do MFA local, que se identificava, com grande activismo revolucionário, com a ala mais esquerdista do Movimento. 

Enfim, a mágoa de muitos cabo-verdianos é que saíram da ditadura do antigo regime para serem entregues a outra ditadura, a do PAIGC, que recebeu de mão beijada o poder.

Um abraço amigo
Adriano


2. Sobre o Madeiral: segundo a Wikipedia, é uma aldeia no centro-sul da ilha de São Vicente, Cabo Verde, junto à estrada entre a cidade do Mindelo e a aldeia do Calhau. A montanha a sul da aldeia, com o mesmo nome, atinge os 675 m de altitude.

Sobre o abastecimenmto de água à cidade do Midnelo, encontrei este apontamento (que faz sentido partilhar):

Blogue Esquina do Tempo > Nôs Terra, Nôs Gente” – Água do Madeiral e da Vascónia em São Vicente

Brito-Semedo, 19 out 22

(...) A 27 de maio de 1886, a Empresa de Águas do Madeiral fez chegar as águas das nascentes do Madeiral à cidade do Mindelo.

Essa água era armazenada em depósitos: um no Lombo Tanque, outro no alto do Matadouro Velho e um terceiro na Morada, situado entre o Tribunal e a traseira da Igreja Católica. Essa era a água para toda a serventia da casa, vendida a dois tostões a lata de vinte litros.

Ah, havia ainda a água dos fontenários existentes à volta da Morada, Canalona, em Chã de Alecrim, onde as mulheres iam lavar a roupa; Fonte Doutor; Fonte Cónego; Fonte Filipe; Fonte Inês; Fonte Francês; Fonte do Cutú; Fonte de Meio; Fonte Nova; etc.

Por essa mesma altura, a Empresa Ferro & Companhia possuía uma pequena frota de navios-tanques, os “vaporins d’ága”, que transportavam água potável das nascentes do Tarrafal de Monte Trigo, em Santo Antão, para abastecimento aos barcos que escalavam o Porto Grande e que tinha o seu depósito no quintalão da Vascónia, situada frente ao edifício da capitania e ao Pelourinho de Peixe. Também vendia água a 4 tostões a lata, porque era de melhor qualidade e usada para beber, normalmente guardada em pote de barro da Boa Vista para se manter sempre fresca.

A água dessalinizada, ou a água da JAIDA (**), só viria a surgir em 1971.

Manuel Brito-Semedo (...)

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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 25 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27669: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (19): E se o Porto Grande e o Mindelo tivessem sido invadidos e ocupados pelos Aliados, em 1942?... Uma brincadeira da História Contrafactual...


(**) JAIDA = Junta Autónoma das Instalações de Dessalinização de água.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

















Fonte: Ilustração Portuguesa, nº 980, 6 de março de 1941. Cortesia de Hemeroteca Digital de Lisboa / CM Lisboa
 

1.  O ciclone de 1941 ficou na memória dos nossos pais. Tal como na nossa memória coletiva. As grandes catástrofes (naturais ou não), têm sempre um  efeito traumático: durante séculos, comparavam-se as mortandades à peste de Lisboa de 1569, ao tempo do rei Dom Sebastião, que terá matado c. de 60 mil, um 1/3 da população: "Não matou mais a Grande Peste de Lisboa".

Eu ainda não era nascido, o meu pai estava na tropa, no RI 5 (Caldas da Rainha) e seria mobilizado em junho para Cabo Verde. Mas falava-me, quando eu era puto,  das árvores de grande porte todas arrancadas pela raiz na estrada Lourinhã-Praia da Areia Branca  - Peniche, árvores que só conheci em postais antigos.

Salazar livrou-nos da guerra (um dos "mitos" criados e alimentados pela propaganda  do Estado Novo) mas não do ciclone de 15 de fevereiro de 1941, que fez mais de uma centena (quiçá, centenas) de vítimas mortais, provocou a queda de centenas de milhares de árvores, destelhou milhares e milhares de casas,  arrasou cais, pontes, pontões, portos, estaleiros, fábricas, casas, casebres, destruiu inúmeras embarcações ao longo da costa (uma tragédia em Setúbal), enfim, o Governo  pôs o recém-criado Subsecretariado de Estado da Assistência Social, que pertencia ao Ministério do Interior (!),  a presidir à Comissão Nacional de Socorros às Vítimas do Ciclone (criada por portaria de 5 de março desse ano).

Os prejuízos foram estimados em 1 milhão de contos, metade do ormento de Estado desse ano!

2. O ciclone de 15 de fevereiro de 1941 foi um dos fenómenos meteorológicos mais violentos e destrutivos da história recente de Portugal, talvez até dos últimos dois séculos, o séc. XIX e o séc. XX  (a par das cheias no distrito de Lisboa, na noite de 25 para 26 de novembro de 1967, que provocaram 700 vítimas mortais, uma tragédia que, em vão, Salazar quis esconder).

Dizem os especialistas que, diferente de um furacão tropical clássico, tratou-se de uma tempestade extratropical ("ciclogénese explosiva") que se formou no Atlântico: uma depressão intensificou-se rapidamente, gerando ventos extraordinariamente fortes em várias regiões do país, e varrendo o país de sudoeste para nordeste com ventos furiosos, chuva, marés de tempestade e queda dramática da pressão atmosférica.

Registos da época indicam ventos máximos de 127 km/h em Lisboa, até 150 km/h em Portimão,  e rajadas muito violentas noutras áreas. A pressão atmosférica chegou aos níveis mais baixos já medidos em Portugal na época (cerca de 962–975 hPa).

(i) Vitímas mortais

Estimam-se em cerca de 130 pessoas (há quem fale em muito mais, na ausência de um relatório oficial da tragédia que ficou por fazer), em diferentes circunstâncias: quedas de árvores, chaminés e outras estruturas, projeção de destroços, afogamentos em zonas ribeirinhas e marítimas, etc.. Houve mortes em transportes, estradas cortadas, pontes caídas, etc.
 
Houve ainda muitas centenas de feridos, e milhares de desalojados, segundo os jornais da época: veja-se, por exemplo, o Diário de Lisboa desses dias.


(ii) Danos materiais e em infraestruturas

Os efeitos materiais foram generalizados por todo o território continental, desde o Algarve até ao Minho, incluindo cidades (Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra, Aveiro, Braga, etc.), vilas e áreas rurais e costeiras (como Abrantes, Almada, Sesimbra, Sines).

Em zonas urbanas, caíram telhados, chaminés, muros, árvores e postes, afectando habitações, fábricas, instalações públicas e infraestruturas essenciais como caminhos-de-ferro, estradas e comunicações.

Nos sectores marítimos e piscatórios, partes dos portos e embarcações foram destruídas ou seriamente danificadas. Houve ainda naufrágios costeiros e inundação de zonas junto ao mar ou ao estuário do Sado.

A área florestal (incluindo parques e jardins) sofreu enormes perdas, com centenas de milhares de árvores derrubadas por todo o país (mais de 300 mil pinheiros só no Pinhal de Leiria).

As comunicações telegráficas e telefónicas foram interrompidas por dias em muitas zonas devido à queda de postes. A economia nacional foi seriamente afetada.

O ciclone não só interrompeu comunicações durante dias, como afetou a produção agrícola e a pesca, e deixou populações inteiras sem abrigo. 

A destruição de embarcações e infraestruturas portuárias teve um impacto duradouro nas comunidades costeiras,  especialmente nas regiões menos habituadas a fenómenos desta magnitude, como o sul do país (Alentejo e Algarve). A cpomunidade piscatória de Sesimbra foi particularmente afetada.

(iii) Custos financeiros

Cálculos contemporâneos estimaram os prejuízos totais em cerca de 1 milhão de contos em 1941, o que representava aproximadamente metade do orçamento de Estado dessa época.

Utilizando métodos de comparação económica e ajuste temporal, esse valor corresponderia (a preços de 2009) a cerca de 5 mil milhões de euros em prejuízos — uma quantia colossal para um único desastre natural naquele contexto. 

Há estimativas detalhadas, por exemplo: Lisboa sofreu mais de 200 000 contos de danos; Madeira cerca de 80 000 contos; Algarve 30 000 contos e o Porto 25 000 contos.

(iv) Contexto histórico e social

O ciclone ocorreu em plena Segunda Guerra Mundial, quando Portugal era um país neutro  (e corria o risco de ser invadido pelo Eixo ou até pelos Aliados), o que complicou tanto a recolha de informações como  a mobilização de ajuda externa.

 A população praticamente não teve aviso prévio, devido à intensidade dos ventos e â falta de um moderno  sistema de previsão metereológica. Por outro lado, há 85 anos a rede de comunicações ainbda era precária e não havia um verdadeiro serviço integrado de proteção civil.

Face aos brutais custos provocados pelo ciclone (económicos, sociais e humanos), a resposta do regime foi coordenada pelo Subsecretariado de Estado da Assistência Social, que presidiu à Comissão Nacional de Socorros às Vítimas do Ciclone. 

Esta comissão foi criada por iniciativa governamental com o objetivo de acudir às necessidades básicas das famílias sinistradas e às micro e pequenas empresas arruinadas pela catástrofe, especialmente no que dizia respeito à alimentação, de à recuperação de habitações e instrumentos de trabalho.

Para angariar fundos, o regime do Estado Novo lançou uma campanha de propaganda através da Emissora Nacional e de jornais como o Diário de Notícias.

 Esta foi uma das primeiras ações do então recém-criado Subsecretariado de Estado da Assistência Social como coordenador da política social do regime, marcando a sua atuação na gestão de crises e na assistência às populações afetadas. Era então Subsecretário de Estado o Trigo de Negreiros (um nome que está ligado à história da saúde em Portugal, com a reforma sanitária de 1945).

A resposta do Estado foi centralizada, com forte componente propagandística, e visou principalmente a mitigação dos efeitos humanos, familiares, sociais e económicos mais urgentes, refletindo a lógica assistencialista e corporativo-caritativa do regime da época. Os subsídios e pensões temporárias eram distribuídas pela  rede, decadente, de misericórdias locais.

Foram também tomadas medidas para controlar preços de materiais de reconstrução, indicando uma grande pressão económica sobre recursos escassos.

A ação do Estado foi mais focada na socorro imediato do que em medidas de longo prazo, estruturadas,  para prevenir ou minimizar futuros desastres semelhantes. Os danos foram  tão avultados que a recuperação total terá demorado meses, senão mesmo anos,  em algumas regiões. 

Por outro lado, o país estava a fazer um brutal esforço financeiro na modernização das suas forças armadas e no treino e mobilização de homens  para defesa dos territórios metropolitano e ultramarino.

Pesquisa: LG + Diversas fontes "on line" + ChatGPT/Open AI, Le Chat / Mistral, 

Condensação, revisão / fixação de texto: LG

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Nota do editor LG:

Último poste da série >  27 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27575: Foi há... (3): 100 anos: Natal de 1925 e a moda (francesa), na capa e contracapa de "O Domingo Ilustrado", um semanário "inócuo" que, cinco meses depois, estava a dar vivas aos carrascos da I República

domingo, 25 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27669: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (19: E se o Porto Grande e o Mindelo tivessem sido invadidos e ocupados pelos Aliados, em 1942?... Uma brincadeira da História Contrafactual...


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG, que forneceu à "artista" várias fotos... Trata-se de um mau exemplo do que é a História Contrafactual...

1. Agora que se passaram 50 anos da independência de Cabo Verde... Que ninguém contesta, embora o processo pudesse ter sido mais "maneirinho", "amigável", com mais "morabeza", com fado, morna, coladera, grogue e vinho verde à mistura... Uns anos antes.

Que pena termos perdido, na devida altura, essa oportunidade histórica de dar ou reconhecer aos cabo-verdianos o direito à autodeterminação.  

Enfim, a história nos julgará, a todos, aos "mandrongos" e aos filhos da terra, ou "patrícios"... onde temos muitos e bons amigos.

Bom, valha-nos ao menos a consolação de hoje sermos países democráticos, "irmãos" e "amigos", falando a mesma língua, sem contencioso... Que as "pedrinhas nos sapatos" que ficaram na memória dos bons e maus momentos da nossa convivência passada, não nos impeça hoje de continuar a celebrar os 50 anos da independência do arquipélago (1975-2025), terra da morna, da coladera, da morabeza, do doce crioulo, do sol, do sal, do sul do nosso imaginário... Terra do Travadinha,  do Bana, da Cize... De grandes poetas e músicos.

Pessoalmente, tenho orgulho em Cabo Verde, onde o meu pai foi, por dever patriótico, expedicionário, em 1941/43. O meu pai e o pai dos nossos amigos e camaradas Hélder Sousa, Luís Dias, Augusto Silva Santos, Nelson Herbert... 

E há tanto ainda para saber e contar... Da nossa história comum 

Claro, já estou a ouvir ao longe os mais críticos e radicais (de ambos os extremos do espetro político): "pedrinhas"... ou "pedregulhos" ? 

Não, nos compete, a nós, antigos combatentes, portugueses, cabo-verdianos, guineenses, entrar nesse jogo de "ajustes de contas"...  Os regimes políticos passam, os povos ficam. De pé, como as árvores, com as suas fundas raízes, os seus ramos, as  suas flores, os seus frutos... Ramos que também têm de ser podados.

Lembrei-me , isso, sim, de apresentar à "menina IA" (aliás, a duas, uma "americana" e outra "europeia, francesa"), mais uma questão do domínio do  "sexo dos anjos", neste caso da "história contrafactual":  "E se...?"

E se... Cabo Verde tivesse sido invadido ?

Não foi, felizmente, nem foi invadido nem ocupado nem atacado  por nenhum dos beligerantes durante a II Guerra Mundial. Os que morreram lá (6 dezenas de "expedicionários", "nossos pais, nossos velhos, nossos camaradas"), foi por doença, acidente, desgosto, saudade, tristeza, fome, sede,  paixão, morabeza... 

E ainda bem que não foi atacado, invadido e ocupado (falo por mim, que tinha lá o meu futuro progenitor, entre 1941 e 1943; se o 1o. cabo  Luís Henriques tivesse morrido ou sido aprisionado, talvez eu não tivesse nascido, em 1947, nem muito menos conhecido a "cova do lagarto", que era Bambadinca, na antiga Guiné portuguesa...).

Mas se fosse, ou tivesse sido.... atacado, invadido, ocupado durante a II Guerra Mundial ? Poderia, sim,  forma condicional do verbo poder. Felizmente não o foi. Mas,  pelo menos, essa possibilidade foi seriamente ponderada tanto pelos Aliados como pelo Eixo, sobretudo devido ao valor estratégico das ilhas de São Vicente e Sal. 

Bom, o resto do arquipélago poderia ser vendido em leilão aos ratos da especulação imobiliária, com exceção talvez de Santo Antão que tinha água e milho, e Santiago, onde já havia um campo de concentração, no Tarrafal, coisa que dava sempre jeito aos novos senhorios...

O que é  que as meninas da  IA (ChatGPT/OpenAI e Le Chat/Mistral) dizem sobre isto ?

Aqui vai uma "condensação" do que apurei da minha amena  conversa com elas, as "meninas  da IA" (a americana, e a francesa)... Sobre a Gronelândia, não sei o que pensam (se é que elas "pensam mesmo")...Mas sobre a hipótese pouco provável de uma invasão duas ilhas em causa (São Vicente e Sal), elas parece que estão de acordo. 

Muito doutoralmente, dizem-me  o que eu já sabia:  que "há vários factores políticos, militares e geoestratégicos" (sic) que fizeram com que "isso nunca se concretizasse". 

E a acontecer, seria mais provável que a iniciativa pudesse vir do lado... dos Aliados. Imaginem!...Logo os "democratas". (Agora, percebo por que é que o Salazar, que era bimbo, e pouco ou nada,  republicano, e muito menos laico,  não gostasse mesmo nada dos americanos, protestantes, capitalistas e demoliberais!)... 

Mas vamos por pontos.


(i) Valor estratégico (relativo) de Cabo Verde

Cabo Verde ocupava (e ocupa ainda) uma posição crítica no Atlântico médio, particularmente relevante durante a guerra naval e aérea (e, nomeadamente, durante a II Guerra Mundial, em plena Batalha do Atlântico, quando ainda não havia misseis balísticos hipersónicos, intercontinentais..com ogivas nucleares.

  • São Vicente (leia-se: Porto Grande – Mindelo): um dos melhores portos naturais do Atlântico; importante ponto de reabastecimento de carvão, desde meados do séc. XIX, com a navegação a vapor, mais tarde, com combustíveis líquidos, como a nafta e o fuelóleo; nó de cabos telegráficos submarinos, vitais para comunicações internacionais, e nomeadamente de ligação entre a Europa, a África e o Novo Mundo;

  • Ilha do Sal: uma ilha plana, sem montes,  mas também sem água doce, excelente para a aviação de longo curso; potencial base aérea para controlo de rotas entre a Europa e a África, e a Europa e a América do Sul; valor acrescentado com a evolução da guerra aérea, e já dotada de um aeródromo construído antes da guerra pelos italianos, em tempo recorde;
  • está bem, amigos e manos mindelenses,  o Porto Grande não era assim tão grande, visto pelos olhos dos beligerantes,  era um porto importante, sim, mas a sua ocupação não traria vantagens decisivas para nenhuma das partes; as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o seu interesse estratégico; enfim,  eram "peanuts";
  • e depois as ilhas eram, naquele tempo, pobrezinhas, nem uma couve nem uma alface, enfim, ausência de recursos críticos: ao contrário de outras colónias (com "pitróleo", no Norte de África, sem falar das matérias-primas do Congo Belga, . Seetc.); a vossa santa terrinha não possuía recursos naturais que justificassem uma invasão de grande envergadura; e já bastava a fome de criar bicho, que lá se passava em anos de seca, desgraça e mortandade como foram os de 1942/43;
Mesmo assim,  Cabo Verde estava "debaixo de olho" dos beligerantes, ou seja,  no radar estratégico de Alemanha, Itália, Reino Unido e EUA. Porque quando um gajo começa uma guerra, não gosta de perder (nem que seja a feijões!)


(ii) Interesse das potências do Eixo

  • Alemanha nazi: a Kriegsmarine e a Luftwaffe viam Cabo Verde como uma possível base de apoio aos U-boots (submarinos), a famigerada alcateia  dos "lobos cinzentos" mais temidos da história; ponto de interdição / interceção das rotas marítimas dos Aliadas; enfim, parece terem existido estudos preliminares (no papel) sobre ocupações de ilhas atlânticas (os alemães, nazis,  não brincavam em serviço, e eram duros de roer);
  • Itália fascista: interesse mais teórico e dependente do apoio do poderoso aliado alemão; ao Mussolini garganta, bravata, fanfarronada,  blá-blá, não lhe faltava, mas a "Grande Itália" também era um império de papel, de opereta,  como o de Salazar,   sem capacidade naval e muito menos aérea para uma operação autónoma tão distante (de Roma ao Mindelo eram mais de 5 mil quilómetros, hoje é tudo ao virar da esquina com o GPS, o Google Earth, a IA);
  • limitações decisivas do Eixo: falta de superioridade naval no Atlântico; ausência de bases próximas (África Ocidental); dificuldade extrema em manter linhas de abastecimento; risco de resposta imediata britânica; a Kriegsmarine estava já sobrecarregada com a Batalha do Atlântico e a Regia Aeronautica italiana tinha limitações operacionais fora do Mediterrâneo, o "Mare Nostrum" dos romanos.
Na prática, uma invasão do Eixo era altamente improvável, embora fosse temida (em Lisboa e em Londres) (Afinal, "quem tem cu, tem medo".)

(iii) Interesse dos Aliados (Reino Unido e EUA)

Paradoxalmente, o maior risco para a soberania portuguesa em Cabo Verde vinha dos... Aliados, não do Eixo.

  • Reino Unido: tinha "planos de contingência" para ocupar "preventivamente" Cabo Verde, evitando que caísse nas mãos do megalómano do Hitler que queria construir o "Reich dos Mil anos" e de quem de resto o Salazar não gostava muito, por não ir à missa nem se confessar na Quaresma, aliás achava que era uma bárbaro,  identificando-se muitio mais com o Mussolini, embora este fosse demasiado histriónico, espalhafatoso e  demagógico para o seu gosto (e estragava a sagrada tríade, Deus, Pátria e Família: tinha uma  amante);
  • era uma estratégia, a britânica,  semelhante portanto à da ocupação, em 1940, da Islândia e das ilhas Faroé; 
  • os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte), de maior valor estratégico que Cabo Verde (que não tinha vacas leiteiras); uma invasão deste arquipélago, de resto disperso, poderia comprometer essa relação, mesmo que fosse "paternalista" e "enviesada" (para invocar quando desse jeito aos "bifes");
  • Estados Unidos: após 1941, os EUA consideraram Cabo Verde (e mais ainda os Açores) crucial para a protecção de comboios; patrulhamento anti-submarino; enfim, havia planos (não executados) para ocupação caso Portugal não cooperasse com os Aliados, e sobretudo com os EUA;
  • os americanos (ainda o Trump não era nascido...) exerceram pressão diplomática sobre Salazar para que Portugal não cedesse bases aos "boches"; em troca, prometiam apoio económico e militar, o que, garantem as meninas da IA,  desincentivou qualquer eventual movimento do Eixo sobre Cabo Verde (e os Açores);
  • medo de uma reação em cadeia: uma invasão de Cabo Verde poderia levar a uma escalada indesejada, com Portugal a alinhar-se formalmente com o Eixo ou a permitir a utilização de outras bases (como as de Angola ou Moçambique, riscos em sais minerais, desculpem, em diamantes, minérios, petróleo, gás natural);
  • mas havia outras prioridades (tal como no caso de Timor): os EUA e o Reino Unido focaram-se em teatros de operação mais críticos, como o Norte de África, a invasão da Itália e a preparação para o Dia D; uma operação em Cabo Verde seria um desvio de recursos sem um ganho estratégico claro, significativo; "o quê, ir fazer uma operação anfíbia no Porto Grande, só para beber um grogue e ouvir a Césaria Évora cantar uma morna ?!... Ah, I'm sorry, pensava que a Cize já tinha nascido nessa época...Desculpem, nasceu em 27 de agosto de 1941, vou tomar boa nota", diz a menina da ChatGPT.
(iv) Porque é que, afinal,  Cabo Verde nunca foi ocupado? Ou pelo menos Mindelo e o seu "Porto Grande" ?

  • Neutralidade portuguesa: Salazar, que não era "saloio" mas beirão,  manteve uma "neutralidade pragmática"; essa neutralidade era mais favorável aos Aliados, mas cuidadosamente equilibrada.
  • Aliança Luso-Britânica: a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor (Tratado de Windsor, 1373) funcionou como forte travão político a uma ocupação aliada directa: uma invasão de território português poderia arrastar Portugal para o conflito, cenário que nem os Aliados nem o Eixo afinal desejavam;
  • a Alemanha e a Itália não tinham interesse em violar essa neutralidade, o que levaria a uma reação britânica ou mesmo à entrada de Portugal na guerra do lado dos Aliados, complicando ainda mais o raio do "tabuleiro de xadrez"  da II Guerra Mundial;
  • os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte); para quê estragar uma relação que até nem funcionava mal de todo (tirando a "magna questão do volfrâmio", vendido aos alemães para fabricar bombas!);
  • diplomacia: Portugal acabou por permitir o uso de bases nos Açores (em agosto de 1943, com efeitoa a partir de outubro,  quando o Salazar, que não era parvo, viu que a sorte das armas estava traçada), e isso reduziu drasticamente a necessidade de ocupar Cabo Verde; permitiu aos Aliados controlar as rotas do Atlântico Norte e monitorizar os movimentos da Kriegsmarine (marinha alemã);
  • custos militares: a ocupação das ilhas atlânticas portuguesas violaria a neutralidade portuguesa, criaria problemas diplomáticos desnecessários, exigiria forças que os Aliados (ou as potências do Eixo) preferiram empregar noutros teatros, teria custos militares e humanos acrescidos, enfim, era mais uma "chatice";
  • lealdade das populações: a população local era leal a Portugal, garante a menina da IA francesa, apesar de a Pátria portuguesa ser mais "madrasta" do que "mãe" para os cabo-verdianos;  e, além disso, havia uma força militar, não negligenciável de 6 mil e tal homens (mal equipada, é verdade, mas sempre era um regimento, com porta-estandarte, corneteiro e tudo!), que ofereceriam alguma resistência a uma eventual invasão, implicando sempre um acréscimo de custos humanos e logísticos para qualquer potência invasora;
  • falta de infraestruturas: embora Mindelo fosse um porto natural relevante, as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o interesse estratégico; a engenharia militar teria que trabalhar no duro, a fazer horas extraordinárias, sem  cerveja, só "grogue", mornas e coladeras...

(v) Conclusão

Sim, teoricamente, Cabo Verde podia ter sido invadido ou ocupado durante a II Guerra Mundial, especialmente São Vicente e e até o Sal (sem falar em Santo Antão, que era a "horta" do Mindelo). Houve planos no papel e receios reais, sobretudo por parte dos Aliados. Mas o Eixo não tinha capacidade real para o fazer, embora não se importasse nada de "abocanhar" tanto os Açores como Cabo Verde.  A diplomacia (portuguesa, britânica, americana...) foi decisiva para evitar esse cenário.

Cabo Verde era, afinal, uma alternativa menos crítica: embora fosse importante para a navegação e a aviação, a sua localização mais a sul do Atlântico tornava-a menos prioritária do que os Açores para o controle das rotas entre a Europa e a América do Norte. 

Cabo Verde acabou por ser um exemplo clássico de território estratégico, protegido mais pela diplomacia do que pela força militar. 

Concluindo o nosso TPC (que deu um trabalho do caraças): meninos e meninas do Mindelo, a não-invasão de Cabo Verde pode ser explicada  por um conjunto de factores:  

  • neutralidade portuguesa e o respeito por essa neutralidade (que o respeitinho naquele tempo ainda era muito bonito); 
  •  prioridades estratégicas dos Aliados e do Eixo noutros teatros de operação (a tropa deles tinha mais que fazer); 
  • limitações logísticas e militares; 
  • diplomacia e negociações que evitaram a escalada do conflito; 
  • valor estratégico relativo das ilhas face a outros territórios.

Cabo Verde acabou por ser um "ponto cego" estratégico (gosto desta metáfora!), onde nenhuma das partes viu vantagem suficiente para justificar uma invasão.  

Desculpem lá, se dececionamos os "mandrongos" e os "patrícios"...

Pesquisa: LG + ChatGPT / OpenAI | Le Chat / Mistral

Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG
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Nota do editor LG:

Último  poste ds série > 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27665: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (18): Quando Hitler e Churchill cobiçaram o Porto Grande, Mindelo, São Vicente, que Salazar mandou transformar em fortaleza do Atlântico Médio (Texto: Memórias d'Mindel, página do Facebook de Luís Leite Monteiro) - Parte II