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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28392: Foi há... (13): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultramar - Parte II: Sobretudo os Açores (mas também a Madeira e Portugal continental) foram a "moeda de troca" de Salazar para entrar na NATO... que no entanto nãp connegiu salvaguardar o império coloniall

 



Foto (e legenda): "5. Desembarque de um Batalhão de Infantaria em Ponta Delgada - II Guerra Mundial. Col. R. Soares; Rezendes, 2019."


Fonte: Sérgio Rezendes: Receios, Privações e Misérias num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores. Portal de Defesa Nacional, 2023 (com a devida vénia...). cd,. artigo oroiginal: Rezendes, Sérgio – Receios, Privações e Miséria Num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores​. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Portugal no Contexto da Segunda Guerra Mundial, 1939-1945. [Em linha] Ano III, nº 4 (2023).[Consultado em 30 de setembro de 2026.], https://doi.or​g/10.56092/FWBM1414​

Restauro, melhoria técnica e colorização: IA (ChatGPT/OpenAI), sob prompting e orientação editorial de LG.

Foto original a sépia, do famoso N/T Serpa Pinto (1914-1955), Construído em 1914 na Irlanda , foi adquirtida pela CCN - Companhia Colonial de Navegação em 1940. A duas hélices, tinha c. 142 metros de comprimento, e c. 8,27 mil toneladas de arqueação bruta. Capacidade: 160 tripulantes,m e 600 passageiros. Comhecido como o "Navio da Amizade" devido ao seu papel crucial durante a Segunda Guerra Mundial, com inúmeras viagens transatlânticas transportando milhares de refugiados de guerra, incluindo uma grande quantidade de judeus que fugiam do nazismo rumo às Américas. O seu casco exibia orgulhosamente o nome e a bandeira de Portugal em letras garrafais para evitar ataques de submarinos. Mas chegou a estar, em na noite de 26 de maio de 1944, ao largo das Bermudas, a caminho de Filadélfia, na mira de um U-boat para ser afundado, valeu-lhe o veredicto final do almirante Karl Dönitz (1891 - 1980), em Berlim.



Madeira > Funchal > Parque de Santa Catarina > Monumento aos gibraltinos (excerto da lápide, em português e em inglês) (Fonte: adapt de Tripadvisor)

Durante a 2ª Guerra Mundial, cerca de 2000 gibraltinos, na sua maioria mulheres e crianças, foram evacuados para o Funchal, ficando instalados em hotéis, pensões e casas particulares até ao fim do conflito. Muitos deles criaram raízes na Madeira, contribuindo para que a respetiva comunidade tenha, até hoje, uma estreita relação com a cidade.  Cerca de 7 dezenas também morreram durante esse período (1940-1945), a maioria devida a surto de tifo.

O pequeno monumento em mármore foi oferecido à RAM pela comunidade de Gibraltar e  inaugurado em 2008. A cidade do Funchal tem, desde 2009, um acordo de geminação com Gibraltar.

 

1. A II Guerra Mundial e o seu fim (1945) foram vividos de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos diferentes territórios (ilhas adjacentes e colónias)   e as consequências humanitárias, demográficas, sociais e económicas 

Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época, disponíveis em acesso livre:

Ilhas Adjacentes: Açores e Madeira


A importância das Ilhas Adjacentes (Açores e Madeira) no contexto da Segunda Guerra Mundial e no xadrez diplomático da "neutralidade colaborativa" de Salazar é um dos capítulos  da nossa história contemporânea que os portugueses não conhecem ou conhececm mal.

Falemos primeiro dos Açores. O arquipélago  teve um papel estratégico crucial na guerra, especialmente a partir de 1943, quando Portugal cedeu bases aos Aliados sob pressão britânica e americana.

Recorde-se que pelo Acordo de 17 de agosto de 1943, Salazar autorizou os britânicos a usar os portos de Horta (Faial) e Ponta Delgada (São Miguel), bem como os aeródromos de Campo das Lajes (Terceira) e Campo de Santana (São Miguel).

A 8 de outubro de 1943, os britânicos desembarcaram em Angra do Heroísmo e construíram a Base Aérea das Lajes, que se tornaria um ponto de viragem na Batalha do Atlântico.

Em 1942, os Aliados tinham perdido 5,48 milhões de toneladas de mercadorias no Atlântico Norte. No último trimestre de 1943, com as operações a partir das Lajes, as perdas caíram para apenas 146.000 toneladas. 53 submarinos alemães (U-Boats) foram afundados graças às operações dos Açores  

Em 1944, oss americanos construíram uma base em Santa Maria e, em 1945, uma nova base na Terceira (a atual Base das Lajes).

  • Açores: a Operação Alacrity e a mudança de rumo na Batalha do Atlântico

O papel dos Açores no conflito transcorreu entre a diplomacia cautelosa  e o realismo militar do Governo Português, mas também dos dois lados do conflito que nunca esconderam a importância do arquipélago.

Antes da cedência formal das instalações em 1943, os Açores estiveram sob ameaça constante de ocupação por ambos os blocos. Ou seja, viveu-se sob o fantasma da invasão (1940–1942).

Os britânicos planearam a Operação Stimson (e mais tarde a Operação Alacrity) para tomar o arquipélago "manu militari" se Portugal caísse sob influência do Eixo. Por seu turno, o Alto Comando alemão equacionou a Operação Félix e a ocupação dos Açores para fechar o Atlântico aos Aliados.

Face ao risco iminente de invasão estrangeira e da perceção de que o continente não conseguiria defender as ilhas à distância (são cerca de 1450 km a distância que separa Lisboa de Ponta Delgada), o governo reforçou massivamente as defesas insulares. 

Entre 1941 e 1943, cerca de 30 mil expedicionários portugueses (do Exército e da Armada) foram enviados para o arquipélago, transformando o quotidiano de ilhas pacatas como a Terceira, São Miguel e Faial. Teve grande impacto demográfico na altura (sxegundo o censo de 1940, os Açores contavan com 287 mil habitantes!). Por outro lado, esta expedição foi um desastre do ponto de vista do planeamento, do financiamento, da logística e da execução, segundo o  historiador açoriano Sérgio Rezendes (op. cit., 2023(.
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Até meados de 1943, existia uma vasta zona no centro do Atlântico Norte fora do alcance da cobertura aérea baseada em terra. Era o chamado "Buraco do Atlântico" (Mid-Atlantic Gap). Era ali que os U-Boote, os submarions alemães,  atacavam os comboios de abastecimento com quase total  impunidade. A abertura da Base das Lajes fechou essa lacuna operacional, permitindo patrulhas antisubmarinas contínuas com aviões de longo alcance (como os B-24 Liberator).
 
Embora as facilidades tenham sido inicialmente concedidas à Grã-Bretanha, no âmbito da velha Aliança Luso-Britânica de 1373, a entrada em cena dos Estados Unidos (através da construção do aeródromo de Santa Maria pela US Army Air Forces em 1944) redefiniu a importância geopolítica dos Açores para o pós-guerra, inserindo Portugal na esfera de segurança atlântica das potências ocidentais.

 A presença militar trouxe dinamismo económico, mas também tensões com a população local, que via a ocupação estrangeira como uma violação da neutralidade.

A Base Aérea N.º 4, sediada na Ilha Terceira, nos Açores, celebrou,  no passado dai 12 de junho de 2021, oito décadas de existência

A importância geoestratégica do arquipélago dos Açores só por si justificou a necessidade de existir uma grande infraestrutura aeronáutica, sobretudo porque garantia uma superioridade aérea sobre a naval. Tal fator foi determinante para a chegada de meios aéreos aos Açores pela primeira vez.

Face à evolução da II Guerra Mundial, em 1941 o Governo Português destacou para os Açores um Corpo Expedicionário, formado por duas Esquadrilhas de Caça: a Esquadrilha n.º 1 com destino à Ilha de São Miguel e a n.º 2 para a Ilha Terceira.

Aquando da chegada da Esquadrilha da Caça n.º 2, a construção da pista nas Lajes já se encontrava quase concluída, tendo sido declarada como apta para operações em 11 de julho de 1941.

A presença das forças da aeronáutica nos Açores conduziu em 4 de agosto de 1942 à criação da Base Aérea n.º 4, na Ilha de S. Miguel, e da Base Aérea n.º 5, no Aeródromo das Lages, na Terceira.

  • Madeira: evacuação de Gibraltar e crise social

Embora a Madeira não tenha acolhido bases aéreas militares estrangeiras, desempenhou um papel importrante, no plano humanitário, logístico e estratégico:

(i) Operação de evacuação de Gibraltar (1940):  dada a sua proximidade com o Rochedo de Gibraltar (sob controlo dos britânicos), a Madeira serviu como ponto de apoio para os Aliados, especialmente após a evacuação de Gibraltar em 1940.

Antecipando potenciais ataques alemães ou espanhóis à fortaleza de Gibraltar, o Reino Unido evacuou a sua população civil. A Madeira acolheu cerca de 2 000 gibraltinos (sobretudo mulheres, crianças e idosos), que permaneceram na ilha até ao final do conflito. Estabeleceu-se uma forte ligação afetiva entre os evacuados e os madeirenses, mobilizando hotéis e quintas no Funchal para os alojar.

A ilha recebeu também outros refugiados (incluindo judeus e outros europeus em fuga do nazismo), embora em menor escala do que Macau ou Lisboa.

(ii) Guarnição militar: a Madeira contou com um contingente reforçado de cerca de 1 000 a 1 500 expedicionários continentais, encarregados da defesa da ilha, do controlo das comunicações por cabo submarino e da vigilância das rotas navais; a ilha não tinha um 
aeródromo.

(iii) Operação Ripper: foi o nome de código de uma operação militar que os britànicos planearam para capturar a Madeira, acção ponderada entre fevereiro de 1942 e meados de 1943.

(iv) Privações económicas e mercado negro: o bloqueio naval e a escassez de combustível paralisaram o comércio tradicional do vinho da Madeira e do bordado, além de dizimarem o turismo. A ilha viveu anos de  escassez de alimentos, inflação, racionamento severo, racionamento de eletricidade, surtos de fome pontuais e o florescimento da especulação e do mercado negro.  A população madeirense teve de enfrentar privações semelhantes ou até maiores do que as do continente

  • Reações insulares ao fim do conflito (maio–agosto de 1945)

A notícia da rendição da Alemanha (Maio de 1945 - Dia V-E) e do Japão (Agosto de 1945 - Dia V-J) provocou reações distintas, mas intensas, em ambos os arquipélagos

(i) Alívio social e desmobilização: a primeira reação da população e das tropas foi de enorme alívio; o fim do conflito significava o regresso progressivo dos milhares de jovens expedicionários ao continente e o restabelecimento das rotas marítimas civis e do abastecimento de bens essenciais;

(ii) Manifestações públicas e tensões políticas: nos Açores e na Madeira, o fim da guerra levou multidões às ruas em celebração da vitória dos Aliados; em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e no Funchal, os desfiles de celebração pró-Aliados transformaram-se por vezes em manifestações de aspiração democrática; setores da oposição ao Estado Novo viam a vitória das democracias ocidentais como o prenúncio da queda das ditaduras ibéricas; o governo de Salazar acompanhou atentamente estas celebrações, limitando ajuntamentos que pudessem derivar em contestação política ao regime;

(iii) O legado das infraestruturas: o fim da guerra deixou um património transformador, sobretudo nos Açores: as pistas, instalações e redes telefónicas construídas em Santa Maria e na Terceira converteram os Açores num nó central da aviação comercial transatlântica no pós-guerra.

A centralidade estratégica demonstrada pelas Ilhas Adjacentes (e sobretudo dos Aççores) durante o conflito foi a principal "moeda de troca diplomática que permitiu a uma ditadura como a de Salazar figurar como membro fundador da NATO em 1949.

Essa é uma das grandes contradições históricas da fundação da NATO / OTAN. . Portugal entrou na NATO em 4 de abril de 1949 como um dos 12 membros fundadores, apesar de o Estado Novo de Salazar ser um regime autoritário e não democrático (partido único "de facto", censura, polícia política, ausência de vredadeirias eleições livres, repressão da oposição). 

Como explicar ? O Tratado dizia, no preâmbulo, que os membros estavam determinados a defender uma civilização fundada na democracia, liberdades individuais e Estado de direito.

Mas o artigo 10.º, que regulava a entrada de novos membros, era muito mais pragmático: permitia convidar, por unanimidade, qualquer Estado europeu, independentemente do seu regime político,  capaz de contribuir para a segurança do Atlântico Norte e promover os princípios do Tratado.  

E a  azão fundamental era bipolarização do mundo no pós-guerra e o início da Guerra Fria.

Os Estados Unidos e o Reino Unido olhavam sobretudo para a geografia militar. A questão do carácter ditatorial do regime de Salazar foi metida debaixo do tapete. Portugal era então extraordinariamente importante:

  • Açores: posição a meio do Atlântico, fundamental para a ligação aérea e naval entre a América do Norte e a Europa;
  • Portugal continental: posição atlântica e controlo das aproximações marítimas;
  • Madeira: completava, juntamente com o continente e os Açores, o chamado triângulo estratégico português.

Salazar, político hábil,  percebeu perfeitamente o valor dos Açores, o porta-aviões "natural" do Atlântico Norte... Mas Salazar não deu os Açores e recebeu a NATO. Foi uma troca diplomático-estratégica muito mais complexa: Portugal oferecia uma posição atlântica de enorme valor militar e Salazar obtinha reconhecimento internacional e legitimidade para o seu regime.

Mas há aqui uma ironia histórica, que importa sublinhar:  Portugal tentou aproveitar a negociação para, "à boleia",  obter outras vantagens, nomeadamente a inclusão das colónias portuguesas na área do Tratado (que só abrangia o Atlàntico Norte)  e a entrada da Espanha franquista. Os aliados recusaram ambas as pretensões. Portugal entrou, mas não conseguiu transformar a NATO numa garantia da manutenção do império colonial.

 A própria história oficial da NATO hoje reconhece explicitamente que Portugal era, em 1949, uma ditadura sob Salazar,  e que a sua importância estratégica ajudou a ultrapassar essa questão.  Mais: a NATO  não ajudou a “democratizar” Portugal, como alguns esperavam (incluindo alguns setores da oposição democrática) em 1949. Pelo contrário: o regime de Salazar iria permanecer no poder durante mais 25 anos ! 

Mas a NATO também foi uma escola de valores e competências para muitos militares portugueses (de Humberto Delgado a Costa Gomes) que, direta ou indiretamente, acabaram por contribuir para a restauração da democracia e o fim da guerra colonial.

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Revista Minerva + Diário de Notícias  (Funchal) + NATO +  Defesa Nacional + IA)

(Condensação, revisão / fixação detexto, negritos; LG)
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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)












Reconstituição da Venda de Medas, Gondomar, 1944

Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.

Texto: António Carvalho (2026) 

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Amigos e camaradas, é um pedaço de prosa que vale ouro. É uma autêntica pepita de ouro, esta descrição de duas páginas e meio do nosso escritor António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá" (ex-fur mil enf, CART 6250, 1970/72, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. )




Capa do livro, publicado pela editora Vida Económica, com apoio da Fundação Hermínia Vilar  Ribeiro. Preço de capa (em papel): 16,20 euros (promoção até final do ano).




A "Venda" (misto de taberna, mercearia, pensão, loja, local de encontro e convívio...) teve o seu papel na economia, geografia e história de Portugal. Havia uma Venda em todas as aldeias. E ao longo dos eixos rodoviários. E às vezes em pontos isolados. Deu inclusive nome a diversas povoações: Venda das Raparigas, Venda da Gaita, Venda do Pinheiro, Venda da Porca, Vendas Novas...  

A "Venda" faz parte das nossas geografias emocionais. Remete para um tempo que nasceram e cresceram os nossos pais... E ainda muitos de nós.  É, sem dúvida,  uma das instituições mais fascinantes do património socioantropológico e da geografia humana de Portugal. Antes do aparecimento das redes de distribuição modernas, dos supermercados e dos postos de abastecimento, a venda era o verdadeiro «nó de rede» do mundo rural e do eixos viários de um país, como o nosso,  acidentado (sobretudo a Norte), entrecortado por rios, com uma economia até à II Guerra Mundial, de base agrícola e em grande parte de autosubsistência. 

A "Venda" era uma espaço multifuncional:  operava como entreposto comercial ponto de apoio para o viajante e sobretudo como espaço de sociabilidade,  sobretudo dos homens. Era à "Venda" em muitas terras, de Norte a Sul do país, que chegavam as notícias (o jornal, a rádio), mas também o correio, os boatos, as anedotas...

Na série "Coisas & loisas do nosso tempo de meninos", merece o devido destaque este excerto do livro do António Carvalho, a quem bem podíamos chamar o "etnógrafo de Medas" ("Emendadas", no romance, e que é a história, verídica, de um "brasileiro de torna-viagem", que em pela II Guerra Mundial, depois de 15 anos de vida numa fazendo de café no Estado de São Paulo, regressa à terra, Medas/Emendadas, e torna-se  um bem-sucedido negociante de madeira, carqueja e carvão de choça;  de nome Abel, é assassinado em 1944, a caminho de Avintes, sendo o móbil do crime não apenas os 20 contos que trazia consigo, mas a inveja, a vingança, enfim, um crime em que está envolvido, Caim, outro nome de ressonância bíblica; em 1942, Abel está viúvo, a arranja um vizinha, Micas, mulher de mineiro, como ama de leite dos seus  dois filhos pequenos)... 

Nesta reconstitituição da "Venda da igreja" (e que o autor nos autoriza a reproduzir), o que  nos fascinou, numa primeira leitura, foi   ela aparecer como uma verdadeira instituição social da aldeia.

 Faremos depois uma analíse mais detalhada, na série "Nomadizações de um marginal-secante", deste excerto o livro que andamos agora a reler, em Candoz, em plena época das vindimas. Em homenagem ao autor, nosso querido amigo e e camarada António Carvalho, elaborámos , com a ajuda da IA, a ilustração acima publicada.

Uma nota explicativa rápida: em 1944, ainda não tinha chegado a iluminação pública a Medas. Mas havia a gente a trabalhar, como toupeiras, nas minas do Pejão, cuho início de exploraçáo remomnta a 1884 (do outro do rio Douro: a distância de Medas era de c. 4 quilómetros, que os mineiros da aldeia faziam em geral a pé; quando recebiam o salário, vinham no tejadilho da camioneta, e gastavam mais alguns tostões na "Venda"; era dura e perigosa a vida destes homens, alguns terão morrido de acidentes e de silicose).

A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas"

por António Carvalho 

(...) Micas não gostava nada que o seu homem, antes de chegar da mina do Pejão, se deixasse ficar na venda da igreja, a dar à língua e a beberricar por copo ou caneca, como se não tivesse pressa de entrar em casa. 

Não é que ele lhe batesse ou resmungasse sequer, quando chegava meio avermelhado, mas gastava sempre algum tempo e alguns tostões que lhes fariam falta para outras precisões.

Por esses anos austeros, as vendas eram os estabelecimentos onde os que não tinham terra se obrigavam a mercar quase tudo e os que a tinham compravam apenas o que ela lhes não dava. 

Mas eram também locais de encontro, por onde passavam, no fim da jornada, mineiros e gente de outros ofícios, juntando-se, em inférteis tagarelices, a velhos gastos e tossegosos, antes da última etapa que os levava a casa, a direito ou aos esses. 

Distinguiam-se os mineiros dos outros fregueses da venda cuja porta ficava a meia dúzia de metros das cancelinhas da igreja, pela roupa enegrecida de farruscas, que envergavam dentro e fora da mina. 

Alguns não cuidavam sequer de lavar a cara, depois da jornada de trabalho, como se se sentissem orgulhosos das marcas do seu penoso e insalubre labor, debaixo do chão, sempre sujeitos a perder a vida numa imprevisível derrocada ou explosão de grisu. 

Algumas vezes, quando a hora de saída do turno lhes permitia alcançar a carreira que partia de Rio Bom e passava por Emendadas, lá vinham eles empoleirados, como passageiros de segunda categoria, na cobertura da ronceira camionete pintada de azul e amarelo, bem agarrados ao gradeamento que bordejava todo o tejadilho, de pernas penduradas sobre as vidraças das janelas. 

Assim empoeirados de carvão, não lhes era permitido sujar os assentos lustrosos do autocarro, pelo que se sujeitavam a viajar naquelas condições desconfortáveis e pouco seguras, não obstante pagarem, por inteiro, o bilhete. 

Quando chegavam à paragem da tal venda de Emendadas, desciam aqueles dez ou mais enfarruscados, pela
mesma escada por onde tinham subido, apensa à traseira da camionete. 

Alguns deles apressavam-se a caminho de casa, onde os esperavam tarefas que a força das mulheres não tinha sido capaz de realizar, ou que fosse mesmo,como então se dizia, trabalho de homem. Mas outros faziam da venda uma paragem intermédia, de retempero de energia e animação da alma, antes de se encaminharem para os sítios onde moravam. 

Nesse estabelecimento, onde se vendia de tudo, havia um balcão separando o espaço dos fregueses da área onde se arrumavam, em prateleiras, gavetas e gavetões, os diferentes produtos alimentícios, tecidos, ferramentas e outras coisas precisas. 

Neste espaço do interior do balcão, de uso reservado ao vendeiro, havia ainda uma pipa de vinho verde tinto, por vezes emparelhada com outra de verde branco, de onde ele enchia, com indisfarçada satisfação, por uma chiante torneira de madeira, canecas de vinho, ao ritmo da sede e do vício dos clientes. 

Pendentes sob o teto, um perfeito expositor, havia, pendurados em pregos, toda a sorte de ferramentas, vasilhas de alumínio ou de folha zincada e todos os
apetrechos de utilidade doméstica
, alguns já enferrujados pelo tempo. 

Era sobre esse balcão, onde a pequenada se pendurava furtivamente para ver o que estava para além dele, que o vendeiro, avezado aos gostos e aos bolsos dos
fregueses, dispunha, sobre uma folha de papel mata borrão, um pedaço de broa, uma talhada de toucinho salgado, um punhado de azeitonas, um chouriço que os clientes cortavam com um canivete que traziam no bolso, ou até um cibo de bacalhau seco. 

Essas lambarices vinham sempre acompanhadas de uma caneca de verde onde todos pousavam os beiços, não se podendo assim contar a quantidade que cada um bebia. Era por isso que, algumas vezes, chegavam a casa, cambaleantes. 

Havia sempre três ou quatro homens que se constituíam clientes mais assíduos e ficavam por lá horas seguidas, em poiso certo, numa lambança pegada, fazendo daquele sítio movimentado o centro de dia dos tempos atuais. Eram quase sempre idosos de pouco poderem fazer, padecentes de silicose ou de qualquer outro mal sem cura, que ali se acoitavam. 

Afeitos àquele recanto de convívio, sentavam-se sobre o tampo de uma grande caixa de milho, defronte do balcão que fazia de mesa, levantando-se intermitentemente, cada um, para mais um gole de verde tinto da caneca de cerâmica, até a escorripichar consolado deixando-a repousar sobre a boca, de fundo para o ar. 

Noutras ocasiões, em perfeita comunhão, beberricavam, um a um, por um enorme copo de vidro de meia canada, no qual misturavam vinho, gasosa e açúcar, num gesto que se repetiria em sucessivas rodadas entremeadas por palavrório emaranhado que se ouvia cada vez mais longe. As mãos serviam de guardanapo que passavam pela boca e logo limpavam nas calças de cor já pouco decifrável.

As mulheres também ali entravam, mas pelo tempo estrito de se proverem da despesa para uma semana, que havia de caber numa pequena giga tecida de tiras de madeira de salgueiro que mãos habilidosas de um gigueiro do lugar teciam. 

Cabisbaixas, encostavam-se ao balcão, mas no extremo oposto ao dos homens, fazendo de conta não os ouvirem, pedindo artigo por artigo, baixinho, como se quisessem evitar que se soubesse o que levavam, mesmo que quase todas comprassem o mesmo. 

A vendeira, enquanto o marido aturava mais os homens, ia enchendo, em cartuchos de papel mata-borrão, um quilo de açúcar, um quarto de café de mistura, um quarto de azeitonas e dois ou três quilos de arroz… acomodados numa saca feita de diferentes pedaços de tecido que as mulheres emendavam pacientemente nas suas horas de sesta. 

Havia ainda que encher uma garrafa de azeite para alegrar as batatas cozidas com couves galegas e bacalhau, e outra de petróleo para as candeias, que a freguesa trazia vazias, de casa. 

Não podia faltar, naquele artístico cesto de duas asas, um bacalhau, um quilo de carboneto para o gasómetro e uma barra de sabão para lavar a roupa e ensaboar, sobretudo ao domingo, antes da missa, senão o corpo, pelo menos as partes dele que andassem à mostra. 

Algumas mulheres tinham que levar, também, tabaco e palhetes para o marido, que chegassem para o mês todo. Essas podiam até discordar do vício dispendioso dos seus homes, mas acediam a comprar-lhes os cigarros, porque eles sempre eram homens ou, pior, porque temiam desobedecer-lhes.

Esporadicamente compravam também, na venda onde havia de tudo, um par de socos, dois metros de ganga e uma foucinha de segar erva. 

Só pagavam no fim do mês, quando o marido arrecebia do patrão, confirmando então se os valores parcelares anotados no livro mestre da venda correspondiam aos apontados no seu pequenino livro de capa preta que traziam sempre no bolso de asseado avental escolhido para aquela ocasião. (...)

O pão que [Micas] cozia todas as semanasm era todo do milho que o marido  levantava na cantina damina do Pejãom com as senhas de racionamento a que tinha direito. Sob rava-lhe assim, para vender, a bom preço, o milho que semeava, num campo lenteiro, perto da porta, regado com água da mina. (...) (pp. 33/37)


Fonte: Adapt. de António Carvalho "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026), pp. 33/37. (Com a devida vénia...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28336 Foi há... (12): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultarmar - Parte I: O mundo não seria mais como dantes...



Capa da "Vida Mundial Ilustrada, Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, preço avulso, 1$80...A imagem da capa não era das multidões a festejar o fim da guerra e a vitória dos Aiados ("Nações Unidas"), mas a visita... de Salazar ao embaixador de Inglaterra:

"O sr. Presidente do Conselho, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, esteve na Embaixada da Inglaterra, para exprimir ao sr. Embaixador, 'Sir' Campbell, o quanto satisfazia ao seu Governo e aos portugueses a vitória das Nações Unidas"...



1. Salazar e a censura tinham horror às multidões... Jornais do "reviralho" (oposição) como o "Diário de Lisboa" ou a "República" não puderam publicar fotos como estas a seguir, que aparecem no interior da "Vida Mundial Ilustrada" ou do "Mundo Gráfico", com a população de Lisboa a vitoriar os Aliados... Por razões técnicas, mas também devido à censura. 

Os diários tinham 8 páginas, os semanários ilustrados, 24. E o momento político era a visita de Salazar ao embaixador de Inglaterra bem como o seu discurso na Asembleia Nacional (veja-se aqui a primeira página da 3ª edição do "Diário de Lisboa" desse dia histórico).


O 8 de maio de 1945 marca o Dia da Vitória na Europa (V-E Day), data oficial da rendição incondicional da Alemanha Nazi e o fim da Segunda Guerra Mundial no continente europeu. (Alguns de nós estávamos a nascer, e outros já mamavam ou até gatinhavam.)

No Pacífico, o conflito só terminaria formalmente a 2 de setembro de 1945, após a rendição do Japão na sequência do trágico lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima (6 de agosto) e depois Nagasaki (9 de agosto). 

A partir daqui o mundo não seria mais como dantes.

Entretanto, só a 15 de setembro seria restaurada a soberania portuguesa sobre Timor-Leste, ocupada pelos japoneses desde 19 de fevereiro de 1942.



Lisboa > Na  Conde Redondo...


Lisboa > Na Av da Liberdade, junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra... (pág, 15)



Lisboa > s/d > Foto tirada na Conde Beirão ...Excerto da legenda:

(...) "Portugal vibrou de entusiasmo, Lisboa marchou à frente dos mais entusiastas para exprimiro seu júbilo pela vitória dos Aliados na Europa. Por toda a parte a multidão, disciplinada, gritoua  sua alegria. No Conde Redomndo, por exemplo, a certa altura,  o entusiasmo atingiu oi auge que a foto presente revela. Diante das embaixadas, diante das legações, pelas ruas da Baixa, a cidade de todas as condições sociais espalhava-se e comprimia-se porque todas as ruas pareciam pequenas para exprimir o seu entusiasmo" (Fonte: "Vida Mundial Ilustrada", Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, pág. 24). 

 (Com a devida vénia...)


Cauteloso, anónimo,  e com "pinças", o jornalista da "Vida Mundial Ilustrada" remetia o júbilo do povo para uma página interior (pág. 15) que só podia ler quem tivesse comprado o semanário por 1$80 (com a carestia do papel, tinha aumentado 80% desde a data do seu lançamento em meados de 1941) (*)...

Escrevia-se assim naquela época, em estilo gongórico e cheio de subentendidos:

"Acabou a guerra! Todo o mundo aguardava ansioamente esta notícia que devia chegar de um momento para o outro.

"E porque era assim esperada e era certo o fim da guerra, ninguém sonhava que chegasse tão longe a ordeira alegria do povo português, dia-a-dia vivendo a dureza de um conflito que, nem por estar longe, podia ficar estranho à nossa consciência de homens e de europeus.

"Pode-se dizer que não houve ninguém que não empunhasse uma bandeira, que não gritasse a sua alegria, e não dissese como Salazar no seu discurso: 'Ainda bem que acabou a guerra! Ainda bem que sairam vitoriosas as Nações Unidas' " (pág. 15)...


E se tivessem ganho as "potências do Eixo" ? Parte da elite portuguesa da época, política, militar, e até económica e financeira, era germanófila, apesar da "neutralidade" do país... Spínola, com 35 anos, e ainda capitão, era germanófilo, como toda a arma de cavalaria... 

Salazar, por seu turno,  era um político pragmático, mais próximo política e ideologicamente do fascismo de Mussolini do que do nazismo do Hitler... Destestava os americanos e o regime capitalista e demoliberal, leia-se, parlamentar...

2. O fim da Segunda Guerra Mundial (1945) foi vivido de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos territórios ultramarinos e as consequências humanitárias e económicas da guerra. Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época:

Portugal, sob o regime do Estado Novo e a liderança de António de Oliveira Salazar, manteve uma neutralidade oficial durante a guerra, mas com uma postura pragmática que beneficiou economicamente o país.

Salazar justificou a neutralidade como uma defesa do "interesse nacional", afastando-se de alinhamentos ideológicos com o Eixo ou os Aliados ( incluindo a velha aliada Grã-Bretanha).

No entanto, o país vendeu volfrâmio (tungsténio, um mineral estratégico para a indústria bélica) a ambos os lados), gerando lucros recordes no comércio externo, apesar da pobreza (e em muitos casos,  miséria)  da população (mais de metade da população ativa vivia no setor primário).

Um dos mitos que a propaganda do Estado Novo criou foi o da "criação de riqueza", apesar da guerra... Veja o que se diz aqui, sobre esse período, de acordo peritos da Fundaão Manuel dos Santos

1939-1945 Guerra, volfrâmio, más colheitas e duas recessões

(...) "Em 1939 o mundo mergulhava num dos mais amplos e dramáticos conflitos da história da Humanidade. Com as operações militares sobretudo centradas no solo europeu e nos mares do Pacífico, a Segunda Guerra Mundial teve um impacto económico global.

Portugal manteve, desde o início, a neutralidade militar, o que contribuiu para um aparente paradoxo: o país cresceu fortemente durante a Segunda Guerra, com uma expansão do PIB real entre 19% e 30% entre 1940 e 1944, em parte impulsionada pelas exportações de volfrâmio para as potências beligerantes de ambos os lados. A venda deste metal ao exterior permitiu um excedente comercial histórico em 1942.

Mais tarde, em 1944, esta fonte de crescimento económico viria a esgotar-se com o fim das exportações deste minério, imposto ao país por uma forte pressão internacional.

 Este facto coincidiu com a mais longa seca de que há registo em Portugal continental, entre 1943 e 1946. 

É essencialmente do efeito conjugado destes dois choques que nasce a recessão de 1944-45.

O país continuava com uma matriz setorial de forte peso agrícola, sendo as colheitas determinantes para o ciclo económico. (...)


A 8 de maio de 1945, o fim da guerra na Europa foi assinalado na Assembleia Nacional (arremedo de parlamento) e nas ruas. Salazar proferiu um discurso histórico na sessão extraordinária, transmitido por alto-falantes para a multidão em frente ao edifício de São Bento.

O fim da guerra acelerou a contestação ao regime em Portugal. Muitos portugueses interpretaram a vitória aliada como um sinal de que era chegada a hora de acabar com os regimes autoritários na Europa. Surgiram movimentos de oposição como o  Movimento de Unidade Democrática (MUD), formado em outubro de 1945 por republicanos, socialistas e democratas para concorrer às eleições legislativas. 

No entanto, o MUD desistiu de participar nas eleições (novembro de 1945) devido à repressão e à falta de garantias de liberdade, e o regime manteve-se de pé..

3. As celebrações pelo fim da guerra em Portugal e no Ultramar foram ambivalentes. Houve manifestações espontâneas em várias regiões (Algarve, Trás-os-Montes, Lisboa) que misturaram alegria pela paz com protestos contra o regime.

A censura e a polícia política (que vai mudar de nome em 1945)  tentaram reprimir as manifestações. Houve detenções, mas muitos protestos escaparam ao controlo das autoridades.

Há, todavia,  uma distinção importante em relação ao que se passou em Portugal continental e nas colónias. O fim da guerra foi vivido no Ultramar português como uma mistura de alívio, festa, esperança e, sobretudo, expectativas políticas muito diferentes consoante a colónia e os grupos sociais.

Para a Metrópole,  era a vitória dos Aliados e o fim da ameaça militar; para sectores africanos politizados, a derrota do nazismo e do fascismo podia significar outra coisa: a promessa de um novo mundo em que o princípio da autodeterminação também deveria aplicar-se aos povos colonizados.

E há uma ironia histórica extraordinária: Portugal saiu da guerra formalmente neutro e com o império intacto (apesar da tragédia de Timor), mas o mundo que nascia em 1945 era precisamente o mundo que começava a pôr em causa os impérios coloniais. Recorde-se alguns dos primeiros territórios a tornar-se independentes, no pós-guerra (1945-1948):

  • Líbano (22 de novembro de 1943):
  • Indonésia (17 de agosto de 1945);
  • Vietname (2 de setembro de 1945);
  • Síria (17 de abril de 1946);
  • Jordânia (25 de maio de 1946);
  • Filipinas (4 de julho de 1946);
  • Índia e Paquistão (14-15de agosto de 1947);
  • Birmãnia (hoje, Mianmar) (4 de janeiro de 1948);
  • Ceilão (atual Shri Lanka) (4 de fevereiro de 1948).


Há, de facto, uma diferença essencial: o 8 de maio não significava exactamente o mesmo em todo o Ultramar. Nas colónias africanas portuguesas (com exceção de Timor), a guerra tinha sido sobretudo uma guerra à distância: não eram teatros de grandes operações militares, mas sofreram mobilização, restrições económicas, falta de bens, inflação, perturbações comerciais e a presença de tropas expedicionárias. 

Cabo Verde, pela sua posição estratégica, teve ainda uma experiência muito particular, a par dos Açores.

Pesquisa: LG

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28308: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIII: semana de 28 de abril a 1 de maio









Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 31 de agosto de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].





Andorinha: marca de azeites portruugueses, desde 1927, com forte implantação no mercado ultramarino (e em especialo Brasil), também conhecida em Timor. Desde 2004, é uma marca da Sovena
Fonte: loja Portugal Nosso (com a devida vénia... )


1. Continuação das crónicas de 2019 (III Viagem a Timor-Leste) do nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã. Vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22). Ele é um exemplo vivo de amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL). 

Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné. E, a propósito, vão fazer 81 anos, em 11 de setembro, que o Japão do miligtarismo imperial  se rendeu formalmente, em Timor-Leste, aos Aliados, depois de uma dolorosa ocupação do território desde a madrugada de 19 de fevereiro de 1942 (que terá custado muiti mais de 40 mil vidas, de timorenses, portugueses, australianos,  holandeses e outros)


 III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIII: semana de 28 de abril a 1 de maio


29.04.2019, segunda feira - O azeite que vem da andorinha...

Nada acontece por acaso. Nesta manhã de domingo em que alguns até já foram à missa, cada um está entretido como lhe convém. Uns trabalhando na construção civil, outros preparando o almoço, e outros, os “doutores”, com referência ao Gaspar Sobral e a mim, trabalhando nos computadores.

Esta manhã já por três vezes falhou a corrente elétrica. E, como se diz “não há dua sem três”, à terceira foi de vez. Não prevendo o seu restabelecimento, aproveitamospara, juntos, pormos a conversa em dia.

Foi então que eu disse: 

 −  Acabo de publicar uma notícia no facebook sobre a oliveira mais antiga de Portugal. Tem três mil e quinhentos anos e situa-se em Mouriscas, perto de Abrantes. 

O anúncio causou muita admiração e alguns comentários. Mais ainda quando souberam que esta oliveira ainda dá azeitonas, o precioso fruto do qual se extrai o saboroso azeite de que os portuguese tanto gostam.

O Aquino, um jovem entre os vinte e os trinta anos, que estava acompanhando a conversa, teve uma reação surpreendente quando ouviu dizer que das azeitonas se extrai o azeite, e disse: 

 − Ãh?!... O azeite vem das azeitonas? Mas aqui em Timor pensávamos que vem das andorinhas!...” 

E conta até que, quando era mais jovem andava pelo arvoredo à procura de andorinhas, pois eram elas que davam o azeite.

Isto tem a sua graça e alguma piada. Ainda hoje podemos encontrar aqui em Dili latas com azeite da marca “Andorinha”.

Uma história ingénua, inocente, mas que nos faz orgulhosos por em Portugal termos tantas oliveiras e tantas andorinhas. E viva o azeite nacional!...

30.04.2019,terça feira  - Uhau!... Que coragem!...

Há momentos que passou por aqui, acontece com frequência, a irmã do Tobias, uma senhora de quarenta e seis anos, com boa aparência, casou com um senhor indonésio e geraram doze filhos: dois faleceram e os outros dez estão a viver na Indonésia.

Perante a minha admiração de uma senhora daquela idade ter dado à luz doze filhos, a Aurora prontamente rematou e disse:

 −  A Romana, filha mais velha do Amari, irmão do Gaspar, tem uma madrinha que teve 18 filhos. Estão todos vivos e habitam em Vilaverde, aqui bem perto de nós.”

Claro que esta notícia tem sido objeto de muitas conversas. Se fosse em Portugal daria logo parangona para o "Correio da Manhã" ou outros jornais do género. Aqui em Timor é normal as famílias serem numerosas. Outrora não havia planeamento familiar, as pessoas casavam cedo e não havia os entretimentos de agora. Por isso compreende-se que perante tantas horas de lazer, o amor e a paixão desembocassem em relações amorosas muito produtivas. Hoje a situação está mais controlada.

E quando eu comento a baixa natalidade nos países de Europa, e particularmente em Portugal, depressa alguém me sugere para levar casais timorenses para repôr o número de habitantes que nos faz falta. Estes timorenses são mesmo “garanhões!...”

Pois é! Fazer filhos pouco custa. O mais difícil é criá-los e educá-los. Ou então, fazer como o Catorze, assim chamado pelo número de filhos que fez que, em terras de França (arredores de Paris) não precisava de trabalhar porque a segurança social superentendia todos os gastos, mais o abono dos filhos. Fazer filhos pode ser uma profissão para alguns. Com uma boa dose de amor, tudo é possível...

30.04.2019 - Galinhas que voam...

Galinhas e galos são os seres vivis que aqui mais abundam, exceptuando as pessoas.

De manhã à noite a sua presença é notória no cacarejar e no piar destas aves. Há rituais diários que elas observam: o despertar matinal, o cantar quando a galinha põe o ovo, as horas da refeição (normalmente ao final da tarde), o empoleirar quando a luz do dia se esvai.

E foi aqui que constatei a perícia destes galos e galinhas que, em vôo direto, arrancavam do chão até qualquer ramo de uma árvore vizinha ou até qualquer telhado de zinco, de mais ou menos de três a quatro metros de altura. Acontece que algumas acabam por não conseguiram superar esta prova diária. Pois é! Têm a sentença traçada: vão ser mortas e depenadas para serem depois cozinhadas. E aí vem uma canjinha de galinha para nosso proveito e regalo.

Os galos mais fortes são para venda, para a luta de galos, onde se fazem grandes apostas e se fazem algumas fortunas. O galo mais bonito cá da casa até já tem comprador. O Carlitos, um vizinho aqui ao lado, já ofereceu cinquenta dólares, preço que o Eustáquio, dono do bicho, considera bom negóciol

É assim. Os grandes e fortes safam-se; os mais pequenos e mais frágeis eliminam-se.

Onde é que eu já ouvi isto?...

01.05.2019, quarta feira  - “Vinte ou trinta dólares... e tudo se resolve.”

Temos que ouvir e ver para podermos acreditar.. O Amali, perante a eminência de amanhã termos de viajar em mikrolete, saiu-se comesta: 

 −  Se o Tiu quer, eu levo a carreta”. 

E perguntei-lhe: 

 −  Mas tu tens carta de condução?” 

 −  Não −  respondeu ele.

  −  Então como queres conduzir?

 −  Eu sei   −  retorquiu, confiante.

  −  E se a polícia te apanha?!

 −   Não faz mal! Uma nota de 20 dólares resolve o problema.

Cada vez mais atónito, ouvia os seus comentários. 

 −  Aqui em Timor funciona assim.Havendo dinheiro tudo é possível. Se quer carta de carro dá cem; se quer carta decarro grande (camião) dá duzentos; se... 

E continuou com os “se”, coisa que ´já não me é muito estranha. Aqui, como no México onde um polícia depois de me conceder o favor de passar onde estava proibido, me sussurou “não dá propina?”... e lá foram uns euros para o seu bolso..  Muita coisa funciona à base de moeda “ossan”. 

Que uma criança te peça uma moeda é compreensível. Mas instalar-se este sistema em serviços de favores que vão até não sabemos onde, é muito grave. Pagam-se os favores e nãoos serviços. E nunca sabemos até aonde poderá chegar esta espiral de negociação.

Possivelmente estamos a caminho da corrupção, este bicho de sete cabeças tão procurado em todo o mundo.

 −  Não Amali. É preferível irmos de mikrolete!...

01.05.2019 - Maio... maduro Maio!

O mês de Maio chegou como sempre, alegre e contente, cheios de flores, projetos, coisas boas, porque este é o tempo que mais nos agrada, que mais nos convém. É o ciclo do ano a atingir a maioridade, a tomar conta de si próprio.

Em todo o mundo se fala do dia do Trabalhador, do dia da mãe, de festas e romarias.

É o “Maio das Cantigas”. Por todo o lado há manifestações, como que a indicar a esperança de vida nova que gurgita das reinvindicações que os movimentos sociais, políticos e religiosas organizam.

Maio...maduro Maio. Tal e qual como nós, o ano tem o seu percurso, desde o seu nascimento até ao fim. E de certeza que tem algum orgulho neste mês onde tantas coisas acontecem. Como um filho bem amado, que num agregado familiar de doze irmãos se vão sucedendo ao logo dos dias, das horas, dos minutos e dos segundos.

Que tenhas muitos anos de vida!...

01.05.2019 - Estadia ... e regresso

Hoje, dia 2 de Maio, termina o visto de de permanência turística em Timor. Isto tem sido uma baralhada de todo o tamanho. Nós a pensar que a declaração da embaixadora de Timor leste em Lisboa onde está escrito “o cidadão Rui Manuel Fernandes Chamusco viaja para Timor por tempo indeterminado, afim de apoiar edesenvolver os projetos de solidariedade iniciados em 2016, etc, etc...) era legalmentesuficiente para garantir a permanência, e afinal de pouco ou nada serve. De porta em porta, de serviço em serviço, de pessoa em pessoa... e ninguém assume aresponsabilidade de qualquer decisão favorável. O Gaspar bem se tem esforçado parafazer valer os direitos de tal declaração, mas por falta de entendimento ou de coragemninguém assume nada. 

Reconheço o incómodo desta situação, e até tenho pena de alguns funcionários que se desfazem em atenções perante este problema. Só que,como eles dizem, têm medo de tomar uma decisão que depois venha a ser contestada pelos superiores. O que eu vos digo, é que já me cansam estas andanças de um lado para o outro.

E, como não se via solução para este imbróglio, não houve outro remédio senão pedir o prolongamento de estadia por mais um mês. Ainda que contrariado, lá tive de pagar trinta e cinco euros. O Gaspar diz que é tempo suficiente para reinvindicar a nossa (minha) posição. Sinceramente, não acredito que se consiga o reconhecimento da declaração da embaixada de Lisboa.

Problemas de estadia e de regresso... Quem puder entender que entenda...

01.05.2019 - Microlete...o transporte do povo

A viagem de hoje a Dili foi em microlete, o transporte do povo. Motores (motorizadas), microletes, táxis, angunas, bis (pequenos autocarros), carretas, carros e aviões são os veículos que, num frenesim constante, circulam pelas estradas, ruas e caminhos deste país, e particularmente de Dili, a capital.

Pela primeira vez durante esta estadia, eu e o Amali viajamos em microlete até ao Serviço de Fronteiras, no Ministério do Interior. Nada de estranhar, pois durante as outras duas estadias bastantes vezes assim eu viajei. Simplesmente quero acentuar que esta carrinha, equivalente em Portugal a uma carrinha de nove lugares, mais parece uma lata de sardinhas, não havendo lotação de lugares. Há sempre lugar; aperta-se até caber. Resultado evidente são os encostos forçados, (alguns até são agradáveis), os suores escorrendo dos rostos, os saltos e ressaltos que as ruas cheias de buracos proporcionam. 

O Amali até comentava comigo: 

 −  O Ti Rui tem sorte!

 Só porque eu ia encostado a duas moças, uma de cada lado. Esta malta nova não sabe que eu já sou um katuas com 72 anos já bem feitos?!

No fim da viagem de ida e volta, senti-me com o dever cumprido, que é: viajar como a gente mais pobre viaja, partilhar o calor sufocante e o suor, cruzar sorrisos, viver como eles vivem. Isto é encarnar o seus modos de viver. É difícil mas é possível.

(Seleção, revisão/fixcaçáo de texto, negritos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último posted a série > 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28294: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XII : Que futuro para os jovens que, dizem, são o futuro ?!

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Tenho consciência de estar a deglutir uma continuidade de capítulos, pontuando questões que seguramente todos nós já ouvimos falar nos bancos da escola sobre a história da expansão marítima e como África e os seus povos se colocaram no centro das atenções. Há uma efetiva singularidades nas observações deste investigador que é a de querer ver o reverso do espelho, o que para além dos feitos históricos da exploração marítima, dos avanços científicos e tecnológicos com contributos até de muçulmanos e judeus, o que ele põe em relevo é o desempenho dos africanos na ascensão económica da Europa e como o desenvolvimento político e a concretização dos ideais do Iluminismo se construíram à custa do continente negro e de uma mão-de-obra escravizada que foi determinante para mudar o curso da História, como ia acontecer no século XIX com a Revolução Haitiana e a explosão dos direitos humanos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 2

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro "Origem: África", o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

No contexto das expedições henriquinas, em dado momento a Coroa passou a ter acesso regular a grandes quantidades de ouro, o que nos remete para a fortaleza da Mina.

Não estávamos sozinhos na busca do ambicionado ouro, também os Reis Católicos encorajavam a esta região chamada Elmina mediante expedições privadas. D. João II, em 1481, ordenou a construção de um forte ao longo da costa do Gana para proteger o crescente fornecimento de ouro a Portugal de rivais e piratas, construção que ficou a cargo de Diogo da Azambuja. A maior parte do comércio de ouro português tinha estado concentrada em redor de Shama, considerada um porto inadequado, daí a escolha ter recaído em Elmina. Correram bem as negociações com as chefaturas locais. Nascia uma experiência nova, a construção de uma guarnição permanente e fortificada nos trópicos africanos. Este acontecimento decorre em simultâneo com o tráfico de escravos no Atlântico. São Jorge da Mina tornou-se no primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos, ao longo da costa do Gana dos tempos modernos.

“São Jorge da Mina tornou-se o primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos ao longo da costa do Gana dos tempos modernos, nos três séculos que se seguiram, por um conjunto diversificado de nações europeias. A primeira vaga de construção de postos avançados tinha como objetivo a obtenção de ouro. Só muito mais tarde, a partir da década de 1640, é que esta região se tornou uma importante fonte de escravos, muito depois de outras regiões como a Alta Guiné, o Congo e Luanda. No século XXI, o Castelo de Elmina, como é hoje chamado o Forte de São Jorge da Mina, é tão sólido e bem construído como parece, visto à distância do cume da colina a que escalei para admirá-lo.
Hoje em dia, multidões de visitantes acorrem ao castelo para visitas guiadas aos andares do topo, que abrigavam o governador e os seus oficiais superiores, às masmorras, situadas mesmo ao lado do pátio, por baixo, e à famosa Porta sem Retorno, por onde os escravos saiam para os barcos em direção às Caraíbas, ao Brasil e, mais tarde, às colónias britânicas na América do Norte. O metal foi o motor da história que conduziu os portugueses até aqui. E assim se desencadearam os eventos que se seguiram, desde as descobertas espanholas do Novo Mundo até ao lançamento das economias de plantação que, quase literalmente, ‘aspiravam’ os africanos cativos para as longínquas costas do Atlântico.”


Portanto o ouro foi o motor. Como observa o autor, desde a conclusão do forte em Elmina até meados do século XVI, a caravela portuguesa vai e vem até à Costa do Ouro, com uma média de 46 a 57kg de metal precioso por mês. O tesouro do reino, anteriormente conhecido como Casa da Guiné, foi renomeado Casa da Mina e transferido para o próprio edifício do Palácio Real. Por si só, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos vinte anos do século XV.

Em 1506, o ouro da região de Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa. A Costa do Ouro gerava cerca de 680Kg de ouro para Portugal ou, estima-se cerca de 1/10 de toda a oferta mundial de ouro naquela época. Esta enxurrada de metal precioso impulsionou uma complexa integração económica baseada no comércio a longa distância. Para adquirir ouro africano ofereciam-se manilhas e armas de fogo. Tendo descoberto que a lã e linho eram pesados impróprios para os trópicos, os portugueses começaram a usar algum do seu ouro de origem africana para comprar algodões indianos.

Esta quantidade de ouro era tão estimada que a alardeada busca de uma rota para a Ásia ficou suspensa, deu-se prioridade a continuar a identificação de outras jazidas de ouro em África. Os portugueses enviaram embaixadas a Tombuctu, tinham a expetativa de monopolizar o mercado de ouro a partir do Sahel. Empreendeu-se uma grande embaixada ao reino no Congo, em 1491, um projeto repleto de padres e artesãos. Portugal durante anos não deu continuidade ao progresso alcançado por Bartolomeu Dias no Oceano índico, o país estava demasiado ocupado em África.

Howard French observa que há uma outra perspetiva completamente distinta sobre o impacto histórico do ouro proveniente da África Ocidental. Este ouro teria contribuído para o financiamento de novas frotas e missões de exploração em várias latitudes, mas primeiro prosseguiu-se a Costa Africana a partir de 1497. Ele diz mesmo que o gigantesco ouro da Mina proporcionou à Coroa o desejo de descobrir ainda mais ouro em África; bem como, tronou possível a Portugal acompanhar o ritmo da Espanha no seu percurso acelerado de exploração oceânica. E recorda o encontro entre Colombo e D. João II. Estava em curso o Tratado de Tordesilhas de 1494, os dois países ibéricos tinham dividido as terras recém-descobertas fora de Portugal. Porventura, depois de conversar com Colombo, o rei português ficara esclarecido que a rota asiática não estava em perigo.

Veremos seguidamente como se instalou o tráfico negreiro e os seus circuitos.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post da série de 14 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)