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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27698: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (20): E se tivesse havido um referendo em 1975 ? (Adriano Miranda Lima, cor inf ref, mindelense, que bebeu a água do Madeiral, a viver na diáspora desde 1963, e atualmente em Tomar)


 

Adriano (Miranda) Lima: mindelense da diáspora, nascido em 1943, é cor inf ref, vive em Tomar desde 1963. Serviu muitos anos no RI 15. Nao passou, na guerra de África, pela Guiné, mas sim por Angolas e Moçambique. Escritor, tem-se interessado pela história, património e cultura da sua terra. É igualmenet assíduo colaborador de jornais e blogues de (ou com referência a) Cabo Verde. É membro da nossa Tabanca Grande desde 2012. 

Tem cerca de duas dezenas e meia de referências no nosso blogue. É autor, nomeadamente. dos livros " "Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial" e "Dr. José Baptista de Sousa – O Homem, o Médico e o Militar". Ambos, edição de autor, publicados em 2020.


1. Mensagem do Adriano Lima, comentando o poste P27669 (*)


Data - 3 fev 2025 02:49
Assunto - E se... ? Invasão do Mindelo em 1942


Amigo Luís, boa noite.

Só reajo agora porque, infelizmente, problemas familiares forçaram-me a fazer uma pausa na minha rotina habitual.

 Agradeço este interessantíssimo trabalho, que li com imenso gosto e muito gozo. 

As meninas da IA fizeram o que delas era de esperar, reproduzindo fielmente a história do que realmente aonteceu. O que, noutra circunstância, poderia ter acontecido está bem reproduzido nas imagens aos quadradinhos e comentado com refinado humor pelo editor do blogue. 

Olha que quem lê até é levado a pensar que és um mindelense de gema, ou seja, que bebeste a água do Madeiral, expressão que antigamente se usava para caracterizar o natural da ilha que melhor se identifica com os seus usos e costumes (a água que abastecia a ilha vinha de uma nascente no lugar com esse nome, Madeiral). 

Na idiossincrasia mindelense cabe um humor típico e que não tem paralelo no resto do arquipélago. Parece que isso se deveu à influência da comunidade inglesa, que em grande parte impulsionou o desenvolvimento da cidade e do porto. O crioulo de S. Vicente incorpora no seu léxico termos ingleses com mais ou menos adulteração.

Quanto à independência do território, se se realizasse hoje um referendo, acredito que a maior parte da população a rejeitaria e optaria por uma autonomia semelhante à dos Açores e Madeira. 

Aliás, isso só não aconteceu muito por influência da célula do MFA local. Os cabo-verdianos pensavam que iam fruir das mesmas liberdades cívicas dos metropolitanos em Portugal e por isso criaram 2 ou 3 partidos que defendiam essa opção ou algo nessa linha. Os seus líderes foram presos e encarcerados no campo de Tarrafal, e é importante frisar que tudo aconteceu durante o período de transição, por obra e graça da célula do MFA local, que se identificava, com grande activismo revolucionário, com a ala mais esquerdista do Movimento. 

Enfim, a mágoa de muitos cabo-verdianos é que saíram da ditadura do antigo regime para serem entregues a outra ditadura, a do PAIGC, que recebeu de mão beijada o poder.

Um abraço amigo
Adriano


2. Sobre o Madeiral: segundo a Wikipedia, é uma aldeia no centro-sul da ilha de São Vicente, Cabo Verde, junto à estrada entre a cidade do Mindelo e a aldeia do Calhau. A montanha a sul da aldeia, com o mesmo nome, atinge os 675 m de altitude.

Sobre o abastecimenmto de água à cidade do Midnelo, encontrei este apontamento (que faz sentido partilhar):

Blogue Esquina do Tempo > Nôs Terra, Nôs Gente” – Água do Madeiral e da Vascónia em São Vicente

Brito-Semedo, 19 out 22

(...) A 27 de maio de 1886, a Empresa de Águas do Madeiral fez chegar as águas das nascentes do Madeiral à cidade do Mindelo.

Essa água era armazenada em depósitos: um no Lombo Tanque, outro no alto do Matadouro Velho e um terceiro na Morada, situado entre o Tribunal e a traseira da Igreja Católica. Essa era a água para toda a serventia da casa, vendida a dois tostões a lata de vinte litros.

Ah, havia ainda a água dos fontenários existentes à volta da Morada, Canalona, em Chã de Alecrim, onde as mulheres iam lavar a roupa; Fonte Doutor; Fonte Cónego; Fonte Filipe; Fonte Inês; Fonte Francês; Fonte do Cutú; Fonte de Meio; Fonte Nova; etc.

Por essa mesma altura, a Empresa Ferro & Companhia possuía uma pequena frota de navios-tanques, os “vaporins d’ága”, que transportavam água potável das nascentes do Tarrafal de Monte Trigo, em Santo Antão, para abastecimento aos barcos que escalavam o Porto Grande e que tinha o seu depósito no quintalão da Vascónia, situada frente ao edifício da capitania e ao Pelourinho de Peixe. Também vendia água a 4 tostões a lata, porque era de melhor qualidade e usada para beber, normalmente guardada em pote de barro da Boa Vista para se manter sempre fresca.

A água dessalinizada, ou a água da JAIDA (**), só viria a surgir em 1971.

Manuel Brito-Semedo (...)

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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 25 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27669: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (19): E se o Porto Grande e o Mindelo tivessem sido invadidos e ocupados pelos Aliados, em 1942?... Uma brincadeira da História Contrafactual...


(**) JAIDA = Junta Autónoma das Instalações de Dessalinização de água.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

















Fonte: Ilustração Portuguesa, nº 980, 6 de março de 1941. Cortesia de Hemeroteca Digital de Lisboa / CM Lisboa
 

1.  O ciclone de 1941 ficou na memória dos nossos pais. Tal como na nossa memória coletiva. As grandes catástrofes (naturais ou não), têm sempre um  efeito traumático: durante séculos, comparavam-se as mortandades à peste de Lisboa de 1569, ao tempo do rei Dom Sebastião, que terá matado c. de 60 mil, um 1/3 da população: "Não matou mais a Grande Peste de Lisboa".

Eu ainda não era nascido, o meu pai estava na tropa, no RI 5 (Caldas da Rainha) e seria mobilizado em junho para Cabo Verde. Mas falava-me, quando eu era puto,  das árvores de grande porte todas arrancadas pela raiz na estrada Lourinhã-Praia da Areia Branca  - Peniche, árvores que só conheci em postais antigos.

Salazar livrou-nos da guerra (um dos "mitos" criados e alimentados pela propaganda  do Estado Novo) mas não do ciclone de 15 de fevereiro de 1941, que fez mais de uma centena (quiçá, centenas) de vítimas mortais, provocou a queda de centenas de milhares de árvores, destelhou milhares e milhares de casas,  arrasou cais, pontes, pontões, portos, estaleiros, fábricas, casas, casebres, destruiu inúmeras embarcações ao longo da costa (uma tragédia em Setúbal), enfim, o Governo  pôs o recém-criado Subsecretariado de Estado da Assistência Social, que pertencia ao Ministério do Interior (!),  a presidir à Comissão Nacional de Socorros às Vítimas do Ciclone (criada por portaria de 5 de março desse ano).

Os prejuízos foram estimados em 1 milhão de contos, metade do ormento de Estado desse ano!

2. O ciclone de 15 de fevereiro de 1941 foi um dos fenómenos meteorológicos mais violentos e destrutivos da história recente de Portugal, talvez até dos últimos dois séculos, o séc. XIX e o séc. XX  (a par das cheias no distrito de Lisboa, na noite de 25 para 26 de novembro de 1967, que provocaram 700 vítimas mortais, uma tragédia que, em vão, Salazar quis esconder).

Dizem os especialistas que, diferente de um furacão tropical clássico, tratou-se de uma tempestade extratropical ("ciclogénese explosiva") que se formou no Atlântico: uma depressão intensificou-se rapidamente, gerando ventos extraordinariamente fortes em várias regiões do país, e varrendo o país de sudoeste para nordeste com ventos furiosos, chuva, marés de tempestade e queda dramática da pressão atmosférica.

Registos da época indicam ventos máximos de 127 km/h em Lisboa, até 150 km/h em Portimão,  e rajadas muito violentas noutras áreas. A pressão atmosférica chegou aos níveis mais baixos já medidos em Portugal na época (cerca de 962–975 hPa).

(i) Vitímas mortais

Estimam-se em cerca de 130 pessoas (há quem fale em muito mais, na ausência de um relatório oficial da tragédia que ficou por fazer), em diferentes circunstâncias: quedas de árvores, chaminés e outras estruturas, projeção de destroços, afogamentos em zonas ribeirinhas e marítimas, etc.. Houve mortes em transportes, estradas cortadas, pontes caídas, etc.
 
Houve ainda muitas centenas de feridos, e milhares de desalojados, segundo os jornais da época: veja-se, por exemplo, o Diário de Lisboa desses dias.


(ii) Danos materiais e em infraestruturas

Os efeitos materiais foram generalizados por todo o território continental, desde o Algarve até ao Minho, incluindo cidades (Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra, Aveiro, Braga, etc.), vilas e áreas rurais e costeiras (como Abrantes, Almada, Sesimbra, Sines).

Em zonas urbanas, caíram telhados, chaminés, muros, árvores e postes, afectando habitações, fábricas, instalações públicas e infraestruturas essenciais como caminhos-de-ferro, estradas e comunicações.

Nos sectores marítimos e piscatórios, partes dos portos e embarcações foram destruídas ou seriamente danificadas. Houve ainda naufrágios costeiros e inundação de zonas junto ao mar ou ao estuário do Sado.

A área florestal (incluindo parques e jardins) sofreu enormes perdas, com centenas de milhares de árvores derrubadas por todo o país (mais de 300 mil pinheiros só no Pinhal de Leiria).

As comunicações telegráficas e telefónicas foram interrompidas por dias em muitas zonas devido à queda de postes. A economia nacional foi seriamente afetada.

O ciclone não só interrompeu comunicações durante dias, como afetou a produção agrícola e a pesca, e deixou populações inteiras sem abrigo. 

A destruição de embarcações e infraestruturas portuárias teve um impacto duradouro nas comunidades costeiras,  especialmente nas regiões menos habituadas a fenómenos desta magnitude, como o sul do país (Alentejo e Algarve). A cpomunidade piscatória de Sesimbra foi particularmente afetada.

(iii) Custos financeiros

Cálculos contemporâneos estimaram os prejuízos totais em cerca de 1 milhão de contos em 1941, o que representava aproximadamente metade do orçamento de Estado dessa época.

Utilizando métodos de comparação económica e ajuste temporal, esse valor corresponderia (a preços de 2009) a cerca de 5 mil milhões de euros em prejuízos — uma quantia colossal para um único desastre natural naquele contexto. 

Há estimativas detalhadas, por exemplo: Lisboa sofreu mais de 200 000 contos de danos; Madeira cerca de 80 000 contos; Algarve 30 000 contos e o Porto 25 000 contos.

(iv) Contexto histórico e social

O ciclone ocorreu em plena Segunda Guerra Mundial, quando Portugal era um país neutro  (e corria o risco de ser invadido pelo Eixo ou até pelos Aliados), o que complicou tanto a recolha de informações como  a mobilização de ajuda externa.

 A população praticamente não teve aviso prévio, devido à intensidade dos ventos e â falta de um moderno  sistema de previsão metereológica. Por outro lado, há 85 anos a rede de comunicações ainbda era precária e não havia um verdadeiro serviço integrado de proteção civil.

Face aos brutais custos provocados pelo ciclone (económicos, sociais e humanos), a resposta do regime foi coordenada pelo Subsecretariado de Estado da Assistência Social, que presidiu à Comissão Nacional de Socorros às Vítimas do Ciclone. 

Esta comissão foi criada por iniciativa governamental com o objetivo de acudir às necessidades básicas das famílias sinistradas e às micro e pequenas empresas arruinadas pela catástrofe, especialmente no que dizia respeito à alimentação, de à recuperação de habitações e instrumentos de trabalho.

Para angariar fundos, o regime do Estado Novo lançou uma campanha de propaganda através da Emissora Nacional e de jornais como o Diário de Notícias.

 Esta foi uma das primeiras ações do então recém-criado Subsecretariado de Estado da Assistência Social como coordenador da política social do regime, marcando a sua atuação na gestão de crises e na assistência às populações afetadas. Era então Subsecretário de Estado o Trigo de Negreiros (um nome que está ligado à história da saúde em Portugal, com a reforma sanitária de 1945).

A resposta do Estado foi centralizada, com forte componente propagandística, e visou principalmente a mitigação dos efeitos humanos, familiares, sociais e económicos mais urgentes, refletindo a lógica assistencialista e corporativo-caritativa do regime da época. Os subsídios e pensões temporárias eram distribuídas pela  rede, decadente, de misericórdias locais.

Foram também tomadas medidas para controlar preços de materiais de reconstrução, indicando uma grande pressão económica sobre recursos escassos.

A ação do Estado foi mais focada na socorro imediato do que em medidas de longo prazo, estruturadas,  para prevenir ou minimizar futuros desastres semelhantes. Os danos foram  tão avultados que a recuperação total terá demorado meses, senão mesmo anos,  em algumas regiões. 

Por outro lado, o país estava a fazer um brutal esforço financeiro na modernização das suas forças armadas e no treino e mobilização de homens  para defesa dos territórios metropolitano e ultramarino.

Pesquisa: LG + Diversas fontes "on line" + ChatGPT/Open AI, Le Chat / Mistral, 

Condensação, revisão / fixação de texto: LG

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Nota do editor LG:

Último poste da série >  27 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27575: Foi há... (3): 100 anos: Natal de 1925 e a moda (francesa), na capa e contracapa de "O Domingo Ilustrado", um semanário "inócuo" que, cinco meses depois, estava a dar vivas aos carrascos da I República

domingo, 25 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27669: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (19: E se o Porto Grande e o Mindelo tivessem sido invadidos e ocupados pelos Aliados, em 1942?... Uma brincadeira da História Contrafactual...


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG, que forneceu à "artista" várias fotos... Trata-se de um mau exemplo do que é a História Contrafactual...

1. Agora que se passaram 50 anos da independência de Cabo Verde... Que ninguém contesta, embora o processo pudesse ter sido mais "maneirinho", "amigável", com mais "morabeza", com fado, morna, coladera, grogue e vinho verde à mistura... Uns anos antes.

Que pena termos perdido, na devida altura, essa oportunidade histórica de dar ou reconhecer aos cabo-verdianos o direito à autodeterminação.  

Enfim, a história nos julgará, a todos, aos "mandrongos" e aos filhos da terra, ou "patrícios"... onde temos muitos e bons amigos.

Bom, valha-nos ao menos a consolação de hoje sermos países democráticos, "irmãos" e "amigos", falando a mesma língua, sem contencioso... Que as "pedrinhas nos sapatos" que ficaram na memória dos bons e maus momentos da nossa convivência passada, não nos impeça hoje de continuar a celebrar os 50 anos da independência do arquipélago (1975-2025), terra da morna, da coladera, da morabeza, do doce crioulo, do sol, do sal, do sul do nosso imaginário... Terra do Travadinha,  do Bana, da Cize... De grandes poetas e músicos.

Pessoalmente, tenho orgulho em Cabo Verde, onde o meu pai foi, por dever patriótico, expedicionário, em 1941/43. O meu pai e o pai dos nossos amigos e camaradas Hélder Sousa, Luís Dias, Augusto Silva Santos, Nelson Herbert... 

E há tanto ainda para saber e contar... Da nossa história comum 

Claro, já estou a ouvir ao longe os mais críticos e radicais (de ambos os extremos do espetro político): "pedrinhas"... ou "pedregulhos" ? 

Não, nos compete, a nós, antigos combatentes, portugueses, cabo-verdianos, guineenses, entrar nesse jogo de "ajustes de contas"...  Os regimes políticos passam, os povos ficam. De pé, como as árvores, com as suas fundas raízes, os seus ramos, as  suas flores, os seus frutos... Ramos que também têm de ser podados.

Lembrei-me , isso, sim, de apresentar à "menina IA" (aliás, a duas, uma "americana" e outra "europeia, francesa"), mais uma questão do domínio do  "sexo dos anjos", neste caso da "história contrafactual":  "E se...?"

E se... Cabo Verde tivesse sido invadido ?

Não foi, felizmente, nem foi invadido nem ocupado nem atacado  por nenhum dos beligerantes durante a II Guerra Mundial. Os que morreram lá (6 dezenas de "expedicionários", "nossos pais, nossos velhos, nossos camaradas"), foi por doença, acidente, desgosto, saudade, tristeza, fome, sede,  paixão, morabeza... 

E ainda bem que não foi atacado, invadido e ocupado (falo por mim, que tinha lá o meu futuro progenitor, entre 1941 e 1943; se o 1o. cabo  Luís Henriques tivesse morrido ou sido aprisionado, talvez eu não tivesse nascido, em 1947, nem muito menos conhecido a "cova do lagarto", que era Bambadinca, na antiga Guiné portuguesa...).

Mas se fosse, ou tivesse sido.... atacado, invadido, ocupado durante a II Guerra Mundial ? Poderia, sim,  forma condicional do verbo poder. Felizmente não o foi. Mas,  pelo menos, essa possibilidade foi seriamente ponderada tanto pelos Aliados como pelo Eixo, sobretudo devido ao valor estratégico das ilhas de São Vicente e Sal. 

Bom, o resto do arquipélago poderia ser vendido em leilão aos ratos da especulação imobiliária, com exceção talvez de Santo Antão que tinha água e milho, e Santiago, onde já havia um campo de concentração, no Tarrafal, coisa que dava sempre jeito aos novos senhorios...

O que é  que as meninas da  IA (ChatGPT/OpenAI e Le Chat/Mistral) dizem sobre isto ?

Aqui vai uma "condensação" do que apurei da minha amena  conversa com elas, as "meninas  da IA" (a americana, e a francesa)... Sobre a Gronelândia, não sei o que pensam (se é que elas "pensam mesmo")...Mas sobre a hipótese pouco provável de uma invasão duas ilhas em causa (São Vicente e Sal), elas parece que estão de acordo. 

Muito doutoralmente, dizem-me  o que eu já sabia:  que "há vários factores políticos, militares e geoestratégicos" (sic) que fizeram com que "isso nunca se concretizasse". 

E a acontecer, seria mais provável que a iniciativa pudesse vir do lado... dos Aliados. Imaginem!...Logo os "democratas". (Agora, percebo por que é que o Salazar, que era bimbo, e pouco ou nada,  republicano, e muito menos laico,  não gostasse mesmo nada dos americanos, protestantes, capitalistas e demoliberais!)... 

Mas vamos por pontos.


(i) Valor estratégico (relativo) de Cabo Verde

Cabo Verde ocupava (e ocupa ainda) uma posição crítica no Atlântico médio, particularmente relevante durante a guerra naval e aérea (e, nomeadamente, durante a II Guerra Mundial, em plena Batalha do Atlântico, quando ainda não havia misseis balísticos hipersónicos, intercontinentais..com ogivas nucleares.

  • São Vicente (leia-se: Porto Grande – Mindelo): um dos melhores portos naturais do Atlântico; importante ponto de reabastecimento de carvão, desde meados do séc. XIX, com a navegação a vapor, mais tarde, com combustíveis líquidos, como a nafta e o fuelóleo; nó de cabos telegráficos submarinos, vitais para comunicações internacionais, e nomeadamente de ligação entre a Europa, a África e o Novo Mundo;

  • Ilha do Sal: uma ilha plana, sem montes,  mas também sem água doce, excelente para a aviação de longo curso; potencial base aérea para controlo de rotas entre a Europa e a África, e a Europa e a América do Sul; valor acrescentado com a evolução da guerra aérea, e já dotada de um aeródromo construído antes da guerra pelos italianos, em tempo recorde;
  • está bem, amigos e manos mindelenses,  o Porto Grande não era assim tão grande, visto pelos olhos dos beligerantes,  era um porto importante, sim, mas a sua ocupação não traria vantagens decisivas para nenhuma das partes; as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o seu interesse estratégico; enfim,  eram "peanuts";
  • e depois as ilhas eram, naquele tempo, pobrezinhas, nem uma couve nem uma alface, enfim, ausência de recursos críticos: ao contrário de outras colónias (com "pitróleo", no Norte de África, sem falar das matérias-primas do Congo Belga, . Seetc.); a vossa santa terrinha não possuía recursos naturais que justificassem uma invasão de grande envergadura; e já bastava a fome de criar bicho, que lá se passava em anos de seca, desgraça e mortandade como foram os de 1942/43;
Mesmo assim,  Cabo Verde estava "debaixo de olho" dos beligerantes, ou seja,  no radar estratégico de Alemanha, Itália, Reino Unido e EUA. Porque quando um gajo começa uma guerra, não gosta de perder (nem que seja a feijões!)


(ii) Interesse das potências do Eixo

  • Alemanha nazi: a Kriegsmarine e a Luftwaffe viam Cabo Verde como uma possível base de apoio aos U-boots (submarinos), a famigerada alcateia  dos "lobos cinzentos" mais temidos da história; ponto de interdição / interceção das rotas marítimas dos Aliadas; enfim, parece terem existido estudos preliminares (no papel) sobre ocupações de ilhas atlânticas (os alemães, nazis,  não brincavam em serviço, e eram duros de roer);
  • Itália fascista: interesse mais teórico e dependente do apoio do poderoso aliado alemão; ao Mussolini garganta, bravata, fanfarronada,  blá-blá, não lhe faltava, mas a "Grande Itália" também era um império de papel, de opereta,  como o de Salazar,   sem capacidade naval e muito menos aérea para uma operação autónoma tão distante (de Roma ao Mindelo eram mais de 5 mil quilómetros, hoje é tudo ao virar da esquina com o GPS, o Google Earth, a IA);
  • limitações decisivas do Eixo: falta de superioridade naval no Atlântico; ausência de bases próximas (África Ocidental); dificuldade extrema em manter linhas de abastecimento; risco de resposta imediata britânica; a Kriegsmarine estava já sobrecarregada com a Batalha do Atlântico e a Regia Aeronautica italiana tinha limitações operacionais fora do Mediterrâneo, o "Mare Nostrum" dos romanos.
Na prática, uma invasão do Eixo era altamente improvável, embora fosse temida (em Lisboa e em Londres) (Afinal, "quem tem cu, tem medo".)

(iii) Interesse dos Aliados (Reino Unido e EUA)

Paradoxalmente, o maior risco para a soberania portuguesa em Cabo Verde vinha dos... Aliados, não do Eixo.

  • Reino Unido: tinha "planos de contingência" para ocupar "preventivamente" Cabo Verde, evitando que caísse nas mãos do megalómano do Hitler que queria construir o "Reich dos Mil anos" e de quem de resto o Salazar não gostava muito, por não ir à missa nem se confessar na Quaresma, aliás achava que era uma bárbaro,  identificando-se muitio mais com o Mussolini, embora este fosse demasiado histriónico, espalhafatoso e  demagógico para o seu gosto (e estragava a sagrada tríade, Deus, Pátria e Família: tinha uma  amante);
  • era uma estratégia, a britânica,  semelhante portanto à da ocupação, em 1940, da Islândia e das ilhas Faroé; 
  • os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte), de maior valor estratégico que Cabo Verde (que não tinha vacas leiteiras); uma invasão deste arquipélago, de resto disperso, poderia comprometer essa relação, mesmo que fosse "paternalista" e "enviesada" (para invocar quando desse jeito aos "bifes");
  • Estados Unidos: após 1941, os EUA consideraram Cabo Verde (e mais ainda os Açores) crucial para a protecção de comboios; patrulhamento anti-submarino; enfim, havia planos (não executados) para ocupação caso Portugal não cooperasse com os Aliados, e sobretudo com os EUA;
  • os americanos (ainda o Trump não era nascido...) exerceram pressão diplomática sobre Salazar para que Portugal não cedesse bases aos "boches"; em troca, prometiam apoio económico e militar, o que, garantem as meninas da IA,  desincentivou qualquer eventual movimento do Eixo sobre Cabo Verde (e os Açores);
  • medo de uma reação em cadeia: uma invasão de Cabo Verde poderia levar a uma escalada indesejada, com Portugal a alinhar-se formalmente com o Eixo ou a permitir a utilização de outras bases (como as de Angola ou Moçambique, riscos em sais minerais, desculpem, em diamantes, minérios, petróleo, gás natural);
  • mas havia outras prioridades (tal como no caso de Timor): os EUA e o Reino Unido focaram-se em teatros de operação mais críticos, como o Norte de África, a invasão da Itália e a preparação para o Dia D; uma operação em Cabo Verde seria um desvio de recursos sem um ganho estratégico claro, significativo; "o quê, ir fazer uma operação anfíbia no Porto Grande, só para beber um grogue e ouvir a Césaria Évora cantar uma morna ?!... Ah, I'm sorry, pensava que a Cize já tinha nascido nessa época...Desculpem, nasceu em 27 de agosto de 1941, vou tomar boa nota", diz a menina da ChatGPT.
(iv) Porque é que, afinal,  Cabo Verde nunca foi ocupado? Ou pelo menos Mindelo e o seu "Porto Grande" ?

  • Neutralidade portuguesa: Salazar, que não era "saloio" mas beirão,  manteve uma "neutralidade pragmática"; essa neutralidade era mais favorável aos Aliados, mas cuidadosamente equilibrada.
  • Aliança Luso-Britânica: a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor (Tratado de Windsor, 1373) funcionou como forte travão político a uma ocupação aliada directa: uma invasão de território português poderia arrastar Portugal para o conflito, cenário que nem os Aliados nem o Eixo afinal desejavam;
  • a Alemanha e a Itália não tinham interesse em violar essa neutralidade, o que levaria a uma reação britânica ou mesmo à entrada de Portugal na guerra do lado dos Aliados, complicando ainda mais o raio do "tabuleiro de xadrez"  da II Guerra Mundial;
  • os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte); para quê estragar uma relação que até nem funcionava mal de todo (tirando a "magna questão do volfrâmio", vendido aos alemães para fabricar bombas!);
  • diplomacia: Portugal acabou por permitir o uso de bases nos Açores (em agosto de 1943, com efeitoa a partir de outubro,  quando o Salazar, que não era parvo, viu que a sorte das armas estava traçada), e isso reduziu drasticamente a necessidade de ocupar Cabo Verde; permitiu aos Aliados controlar as rotas do Atlântico Norte e monitorizar os movimentos da Kriegsmarine (marinha alemã);
  • custos militares: a ocupação das ilhas atlânticas portuguesas violaria a neutralidade portuguesa, criaria problemas diplomáticos desnecessários, exigiria forças que os Aliados (ou as potências do Eixo) preferiram empregar noutros teatros, teria custos militares e humanos acrescidos, enfim, era mais uma "chatice";
  • lealdade das populações: a população local era leal a Portugal, garante a menina da IA francesa, apesar de a Pátria portuguesa ser mais "madrasta" do que "mãe" para os cabo-verdianos;  e, além disso, havia uma força militar, não negligenciável de 6 mil e tal homens (mal equipada, é verdade, mas sempre era um regimento, com porta-estandarte, corneteiro e tudo!), que ofereceriam alguma resistência a uma eventual invasão, implicando sempre um acréscimo de custos humanos e logísticos para qualquer potência invasora;
  • falta de infraestruturas: embora Mindelo fosse um porto natural relevante, as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o interesse estratégico; a engenharia militar teria que trabalhar no duro, a fazer horas extraordinárias, sem  cerveja, só "grogue", mornas e coladeras...

(v) Conclusão

Sim, teoricamente, Cabo Verde podia ter sido invadido ou ocupado durante a II Guerra Mundial, especialmente São Vicente e e até o Sal (sem falar em Santo Antão, que era a "horta" do Mindelo). Houve planos no papel e receios reais, sobretudo por parte dos Aliados. Mas o Eixo não tinha capacidade real para o fazer, embora não se importasse nada de "abocanhar" tanto os Açores como Cabo Verde.  A diplomacia (portuguesa, britânica, americana...) foi decisiva para evitar esse cenário.

Cabo Verde era, afinal, uma alternativa menos crítica: embora fosse importante para a navegação e a aviação, a sua localização mais a sul do Atlântico tornava-a menos prioritária do que os Açores para o controle das rotas entre a Europa e a América do Norte. 

Cabo Verde acabou por ser um exemplo clássico de território estratégico, protegido mais pela diplomacia do que pela força militar. 

Concluindo o nosso TPC (que deu um trabalho do caraças): meninos e meninas do Mindelo, a não-invasão de Cabo Verde pode ser explicada  por um conjunto de factores:  

  • neutralidade portuguesa e o respeito por essa neutralidade (que o respeitinho naquele tempo ainda era muito bonito); 
  •  prioridades estratégicas dos Aliados e do Eixo noutros teatros de operação (a tropa deles tinha mais que fazer); 
  • limitações logísticas e militares; 
  • diplomacia e negociações que evitaram a escalada do conflito; 
  • valor estratégico relativo das ilhas face a outros territórios.

Cabo Verde acabou por ser um "ponto cego" estratégico (gosto desta metáfora!), onde nenhuma das partes viu vantagem suficiente para justificar uma invasão.  

Desculpem lá, se dececionamos os "mandrongos" e os "patrícios"...

Pesquisa: LG + ChatGPT / OpenAI | Le Chat / Mistral

Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG
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Nota do editor LG:

Último  poste ds série > 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27665: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (18): Quando Hitler e Churchill cobiçaram o Porto Grande, Mindelo, São Vicente, que Salazar mandou transformar em fortaleza do Atlântico Médio (Texto: Memórias d'Mindel, página do Facebook de Luís Leite Monteiro) - Parte II

sábado, 24 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27665: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (18): Quando Hitler e Churchill cobiçaram o Porto Grande, Mindelo, São Vicente, que Salazar mandou transformar em fortaleza do Atlântico Médio (Texto: Memórias d'Mindel, página do Facebook de Luís Leite Monteiro) - Parte II


Cabo Verde > Ilha de Santo Antão> Tarrafal de Monte Trigo > 2006



Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo Cemitério Municipal > 2025 > Lápide de 23 de outubro de 2002, homenagem da Liga dos Combatente aos Militares da Força Expedicionária Portuguesa em Cabo Verde, 1939-1945.

Foto: © Nelson Herbert (2025). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Com a devida vénia, transcreve-se a postagem do Facebook Memórias d'Mindelo > 21 de janeiro de 2026, 00h16, 

O autor do blogue é Lucas Leite Monteiro (LLM), "alfacinha" por nascimento, "mindelense" por paixão, também conhecido como jovem empresário agrícola (Projeto Ecofarm Cabo Verde, em Ribeira Grande de Santo Antão, onde os seus avós tinham propriedades, e onde faz agora produção orgânica de frutas e legumes).



MEMÓRIAS BÉLICAS II

​O Porto Grande na Mira do Mundo: Mindelo e a Segunda Guerra (1939-1945) – 2ª parte (*)


​Houve um tempo em que o pulsar do Mindelo ditava o ritmo do Atlântico Médio. Entre 1939 e 1945, o nosso Porto Grande despiu a sua farda de cais comercial para envergar a armadura de sentinela estratégica do mundo.

Eram os anos do "blackout": as janelas da cidade cobriam-se de negro para que o brilho da nossa importância geopolítica não servisse de guia aos "lobos cinzentos" que espreitavam sob as ondas.

​A Fortaleza de "Soncente" e os seus 3.000 heróis

​Em maio de 1941, o Mindelo transformou-se. Cerca de 3.000 soldados expedicionários portugueses desembarcaram no cais, juntando-se a 400 recrutas locais, formando uma barreira de defesa sem precedentes. As encostas da Ponta João Ribeiro e do Morro Branco ganharam "dentes" de aço com baterias de artilharia anti-aérea.

​Mas a guarnição não trouxe apenas o rigor da caserna. Entre as fileiras, vinham figuras que marcariam a nossa cultura: o escritor Manuel Ferreira e o músico Chico da Concertina, cujo fole amansava a distância. 

Nas noites de boémia, a música era o escape: entre um copo de pontche e uma serenata, a alma mindelense resistia à "crise" de 41-43, fundindo o fado e a morna num abraço de sobrevivência.

Enquanto a música ecoava nas tabernas do Mindelo, no silêncio do abismo, a nossa ilha "ouvia" os segredos do conflito através da The Western Telegraph Company. Os cabos submarinos (estudados por autores como A.S. Gomes) garantiam que as mensagens das frotas aliadas chegassem aos seus destinos.

Sem este nó central de comunicações, o controlo do Atlântico Sul estaria às escuras. Mas a guerra não vinha apenas por telegrama; ela rugia nas águas vizinhas.

​𝐀 "𝐁atalha de Tarrafal de Monte Trigo": O Duelo de Titãs

​Enquanto a música ecoava nas tabernas de Soncente, no silêncio do abismo, o destino das ilhas era jogado com códigos secretos. 

Na noite de 27 para 28 de setembro de 1941, a baía do Tarrafal de Monte Trigo, em Santo Antão, foi palco de uma das maiores e mais dramáticas batalhas navais em mares de Cabo Verde.

​Três submarinos alemães — o U-67 (Müller-Stöckheim), o U-68 (K.F. Merten) e o U-111 (W.K. Kleinschmidt) — escolheram aquela baía escondida para um encontro clandestino de reabastecimento e assistência médica. 

O que os alemães não sabiam era que o seu segredo fora traído: os Aliados haviam decifrado o código Enigma.

O submarino britânico HMS Clyde, sob o comando do tenente D.C. Ingram, foi enviado para a emboscada. Sozinho contra três, Ingram aproveitou a escuridão e a configuração da baía para semear o caos. 

No meio da confusão, o Clyde desferiu um "audaz golpe de raspão" contra o U-67, retorcendo a sua proa. A proa alemã sofreu o impacto, mas, miraculosamente, a profundidade e a agilidade das manobras evitaram o afundamento imediato dos colossos.

​O fim dos 'Lobos Cinzentos'

​Embora nenhum submarino tenha sido afundado naquela noite, o destino foi implacável. O encontro no Tarrafal foi apenas o prelúdio do fim para a "alcateia alemã":

  • U-111 foi torpedeado e afundado escassos dias depois, a 4 de outubro, a sudoeste de Tenerife, levando consigo 44 marinheiros, incluindo o comandante Kleinschmidt;
  • U-67 sucumbiria no Mar de Sargaços a 28 de março de 1943;
  •  ​U-68 encontraria o seu túmulo a nordeste da Madeira, a 10 de abril de 1944;

A paz voltaria à baía de Monte Trigo, mas a história guardará para sempre o eco daquela noite em que Mindelo e as suas águas vizinhas foram o epicentro de um xadrez mundial onde o heroísmo e a tecnologia se cruzaram no horizonte de Cabo Verde.

Este incidente de proximidade trouxe a tensão máxima da Batalha do Atlântico para a nossa vizinhança, provando que nem o Tarrafal mais isolado estava imune ao xadrez de Hitler e Churchill.
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Fotos: Cabo Verde Postcard e (erenow.org / uboat.net/men/commanders)

Texto/Pesquisa: Memórias d'Mindel (LLM)

Fontes Académicas e Historiográficas:

•A. S. Gomes (António Sebastião Gomes): Citado frequentemente como a autoridade central no estudo da defesa militar e infraestruturas de Cabo Verde durante as Grandes Guerras.

•Daniel A. Pereira: Historiador cabo-verdiano que aborda a importância geopolítica de Cabo Verde em contextos globais.

•Arquivo da Cable & Wireless: A sucessora da The Western Telegraph Company mantém registos históricos sobre as estações de Mindelo e a manutenção dos cabos transatlânticos

•PKT (Porthcurno Telegraph Museum): Este museu no Reino Unido detém o maior arquivo do mundo sobre as companhias de telégrafo submarino, documentando a rede que passava por São Vicente.

•Relatórios das "Cape Verde Islands Patrols": Diários de bordo e relatórios da Marinha Real Britânica e da Marinha dos EUA que operavam no triângulo de comunicações Freetown-Mindelo-Açores

(Revisão / fixação de texto, links, negritos: LG)


2. Comentário do editor LG:

Recorde-se que,  durante a II Guerra Mundial, à semelhança dos Açores (cuja guarnição militar foi reforçada com 30 mil homens, bem como da Madeira, com 1000 homens), para a defesa de Cabo Verde, e sobretudo das duas ilhas com maior importância geoestratégica, a ilha de São Vicente e a ilha do Sal, foram mobilizados 6358 militares, entre 1941 e 1944, assim distribuídos por 3 ilhas (i) 3361 (São Vicente): (ii) 753 (Santo Antão); e (iii) 2244 (Sal).

Mais de 2/3 dos efetivos estavam afetos à defesa do Mindelo (ou seja, do porto atlântico, Porto Grande, ligando a Europa com a América Latina, a par dos cabos submarinos).

Os portugueses (e os cabo-verdianos),  hoje, desconhecem ou conhecem mal o enorme esforço militar que Portugal fez, na II Guerra Mundial, para garantir a defesa das ilhas atlânticas e dos territórios ultramarinos. Cerca de 180 mil homens foram mobilizados nessa época.


Vd. aqui também o livro do nosso grão-tabanqueiro, o cor inf ref  Adriano Miranda Lima, mindelense que vive em Tomar,  "Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial" (Mindelo, São Vicente, 2020, ed. de autor): morreram em São Vicente, entre 1941 e 1946, 40 militares das forças expedicionários (pág. 172) e 28 na ilha do Sal (pág, 173). Por doença, acidente, suicídio.

O Cemitério Municipal do Mindelo, no Talhão da Liga (Portuguesa) dos Combatentes, continha, em 2018, 68 campas de militares portugueses, expedicionários durante a II Guerra Mundial (1939-1945) 
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Nota do editor LG:

Vd. postes anteriores da série: 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27659: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (17): o sold aux enf Porfírio Dias (1919-1988), meu pai, que me contou a história do submarino alemão que atracou no Mindelo e só se foi embora quando lhe apeteceu (Luís Dias, ex-alf mil, CCAÇ 3491, Dulombi, 1971/74)


Foto nº 1 > Porfírio Dias (1919-1988) > Ainda na metrópole, sold aux enf (1940)


Foto nº 2 > Porfírio Dias: foto tirada em Cabo Verde, depois do acidente que o obrigou a usar óculos para sempre... Foi mais uma vítima da habitual falta de material para cumprir com o necessário cuidado as tarefas de que era incumbido, como soldado auxiliar enfermagem: ao usar umas  luvas já deterioradas numa intervenção cirúrgica, em que apoiavas o médico, depois de tocar  com os dedos num dos olhos, arranjou o problema de saúde que o  obrigou a usar óculos desde então.


Foto nº 3 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >Mindelo > c. 1941/44 >  Porfírio Dias,  com a braçadeira de enfermagem e com pistola à cintura. A  viatura parece ser uma GMC.


Foto nº 4   > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >Mindelo > c. 1941/44 > À porta da enfermaria, no  com outros camaradas enfermeiros e com o alferes médico (o que não tem bata branca).


Foto nº 5 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente >Mindelo > c. 1941/44 > O sold aux enf, Porfírio Dias,  de bata branca. com outros camaradas. 

Recebeu em fevereiro de 1943, no Mindelo, Cabo Verde, do Comandante de Batalhão, o louvor militar seguinte: "Louvo pelo muito zelo com que tem desempenhado as suas funções no Posto de Socorros na Enfermaria do Batalhão, muitas vezes com o prejuízo da sua própria saúde, dando com a sua actividade, excelente exemplo de dedicação pelo serviço e pela saúde dos seus camaradas e manifestando-se assim um óptimo auxiliar do senhor oficial médico".

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > RI 23 >  c. 1941/44 > O sold aux enf, Porfírio Dias (1919-1988), 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5, que partiu para Cabo Verde no T/T Mouzinho em 18/7/1941, juntamente com o Luís Henriques, pai do nosso editor LG  (ambos eram do mesmo regimento e batalhão). Esteve lá dois anos anos e dez meses (até 7/5/1944)..

Fotos (e legendas): © Luís Dias (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Luís Dias, alf mil, CCAÇ 3491,
Dulombi, 1971/74
1.  Escreveu o  Luís Días, membro da nossa Tabanca Grande, ex.alf mil inf, CCAÇ 3491, Dulombi, 1071/74, em comentário ao poste P27656 (*)

(...) Uma das aventuras que o meu querido pai me contou, foi que em determinada altura atracou no Mindelo um submarino, ostentando o pavilhão da Alemanha nazi.

O comandante da força portuguesa terá ordenado que uma pequena força militar fosse junto do mesmo exigindo que partissem imediatamente do local.

Do contacto havido e tendo sido dito a quem comandava o submarino que devia deixar de imediato as nossas águas, o mesmo terá encolhido os ombros e só largaram muito tempo depois, quando acharam que deviam partir.

Abraço e um bem hajam por mostrarem que houve gente em Cabo Verde, que passou um mau bocado, em especial em termos de comida e de apoios e lembrar que, no caso do meu pai, oriundo do Bairro da Graçam Lisboa, e amante do fado, veio de lá com problemas de saúde, mas a gostar do povo que ali habitava e a amar as "mornas", que lhe faziam lembrar o nosso "fado", do qual era um fã, em especial da Amália e do Fernando Maurício. (...)


2. Recorde-se que o nosso camarada Luís Dias integrou, desde 1975,  a carreira de  investigadores da Polícia Judiciária, tendo sido nomeado, 25 anos mais tarde,  Director do Departamento de Armamento e Segurança, pelo Ministro da Justiça. Hoje está reformado. No nosso blogue, é o nosso especialista em armamento.

Escreveu ele,  em carta, póstuma ao pai, em 19 de março de 2009, no Dia do Pai;

(...) Beste dia queria lembrar que também tu foste mobilizado e enviado para Cabo Verde, no tempo da 2ª Guerra Mundial, que cumpriste também um dever que te foi imposto pelo teu/nosso país. Sei que a tua comissão não teve os riscos de combate, de guerra, como eu tive na Guiné, embora se falasse da possibilidade de um ataque alemão ou mesmo inglês, conforme o governo de Salazar se fosse inclinando para um lado ou para o outro, mas houve outros perigos: muita fome, doenças e as desgraças que assististe por força da tua especialidade.

 (...) Aqueles tempos de 18/7/941 a 7/5/44 (2 anos e 10 meses!!!!), em terras de Cabo Verde, não terão sido pera doce e lembro-me da história que tu contaste do submarino alemão (...). (**)

Pai, estou a invocar-te aqui no blogue da minha companhia, porque tu também foste um mobilizado para África. Um, entre os muitos milhares que a Pátria foi lançando para as terras bravas e quentes daquele Continente. Foste um soldado português, como nós fomos. O país, como aos combatentes da 1ª Grande Guerra, onde o meu avô também esteve, aos do teu tempo, aos da Índia e a nós combatentes da guerra colonial, nunca nos agradeceu, porque é ingrato ou, se calhar, também não mereceu tanta brava gente. (...)

(Revisão / fixaçãode texto, itálicos, negritos: LG)

(**) Vd. poste de 25 de março de 2012 > Guiné 63/74 - P9657: Meu pai, meu velho, meu camarada (26): Porfírio Dias (1919-1988), ex-sold aux enf, Cabo Verde, São Vicente, Mindelo (de 18 de julho de 1941 a 7 de maio de 1944) (Luís Dias)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27655: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (16): Quando Hitler e Churchill cobiçaram o Porto Grande, Mindelo, São Vicente, que Salazar mandou transformar em fortaleza do Atlântico Médio (Texto: Memórias d'Mindel, página do Facebook de Luís Leite Monteiro) - Parte I






Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo  c. 1941/45 > A defesa do Porto Grande
 

1. O nosso amigo Nelson Herbert, jornalista reformado da VOA - Voice of America, nascido em Bissau, de pais cabo-verdianos, membro da nossa Tabanca Grande, sabe do grande amor que temos por Cabo Verde, em geral, e pelo Mindelo, em particular. Acabou de nos dar ontem, às 21h30, a informação sobre esta publicação, que interessa aos nossos leitores e a alguns de nós, mais em particular. 

Ele sabe bem porquê: o pai dele, o Armando Lopes (1920-2018);  o pai do Hélder Sousa, o Ângelo Ferreira de Sousa (1921-2001); o pai do Luís Dias, o Porfírio Dias (1919-1988); o pai do Augusto Silva Santos, o Feliciano Delfim Santos (1922-1989); o meu pai,  Luís Henriques  (1920-2012) eram todos veteranos da II Guerra Mundial, expedicionários em Cabo Verde, a quem neste blogue tratamos com a ternura da expressão “Meu pai, meu velho, meu camarada”… 

São apenas cinco dos seis e mil tal homens que poderiam ter todos morrido ou sido aprisionados, se o arquipélago  (Sal e São Vicente, não era preciso mais...) tivesse sido invadido. Hitler e Mussolini, de um lado, e os Aliados, do outro, sabiam do valor estratégico do Sal e de São Vicente. 

Mas não foi apenas o arquipélago de Cabo Verde (São Vicente, Santo Antão e Sal) onde estiveram expedicionários... As ilhas atlânticas (Madeira, Açores e Cabo Verde) tiveram (e continuam a ter) uma posição privilegiada nas "autoestradas do  Atlântico". 

Para além dos 6500 para Cabo Verde, Salazar mandou mais 30 mil homens para os Açores e mil para a Madeira. Portugal fez na altura um brutal esforço de guerra (em homens, material, meios logísticos e financeiros), que é desconhecido ou mal conhecido de todos nós (portugueses e cabo-verdianos).

2. Com a devida vénia, transcreve-se então a postagem do Facebook Memórias d'Mindelo > 20 de janeiro de 2026, 16h56, de resto ilustrada com fotos também do nosso blogue (as três primeiras que reproduzimos acima, agora reeditadas por nós). 

O autor do blogue é Lucas Leite Monteiro (LLM), "alfacinha" por nascimento,   "mindelense" por paixão, também conhecido como jovem empresário agrícola (Projeto Ecofarm Cabo Verde, em Ribeira Grande de Santo Antão, onde os seus avós tinham propriedades, e onde faz agora produção orgânica de frutas e legumes).

A sua página Memórias d'Mindel tem 9 mil seguidores, e está a caminho de um milhão de visualizações:

(...) Chegamos a um marco que nos enche de orgulho. Mais do que um número, estes 9000 seguidores representam 9000 guardiões da nossa memória coletiva.
Através de cada fotografia antiga, cada história partilhada e cada recordação de infância, mantemos viva a chama da "Morabeza" e a elegância histórica da nossa cidade do Monte Cara.

​A nossa página cresce porque o amor por São Vicente não tem limites. É um privilégio ver como estas imagens unem gerações, desde os que viram estas ruas crescer até aos mais novos que hoje as descobrem através da "Memórias d'Mindel"

Ao unir gerações, garante que o "sentir" mindelense não se perde no tempo, transformando a saudade de uns na herança de outros.

 (...) O que este marco representa:
  • Ponte geracional: o diálogo entre os mais velhos (os guardiões da memória) e os novos (os continuadores da história).
  • Alcance global: a diáspora cabo-verdiana, espalhada pelo mundo, encontra na nossa página um "regresso a casa" diário.
  • Preservação viva: a história de Mindelo deixa de estar apenas no imaginário e passa a estar na palma da mão de todos.(...)

3.  Facebook Memórias d' Mindelo > 20 de janeiro de 2026, 16h56, 

MEMÓRIAS BÉLICAS II

O Porto Grande na Mira do Mundo: Mindelo e a Segunda Guerra (1939-1945) - 1ª Parte
Houve um tempo em que o destino do mundo, jogado entre mapas de generais e gabinetes de guerra em Londres e Berlim, passava obrigatoriamente pelas águas azuis da nossa baía.

Entre 1939 e 1945, o Mindelo não era apenas a cidade-porto; era a sentinela do Atlântico Médio, um "porta-aviões" de pedra que tanto Aliados como o Eixo desejavam controlar a todo o custo.

​A fortaleza de São Vicente

​Enquanto a Europa ardia, Mindelo militarizava-se. Portugal, sob a neutralidade vigilante de Salazar, sabia que o Porto Grande era o seu bem mais precioso e, simultaneamente, o mais perigoso. Para desencorajar invasões, a ilha transformou-se: a sede militar mudou-se da Praia para o Mindelo e as nossas encostas ganharam "dentes" de aço.

​Quem hoje sobe à Ponta João Ribeiro ou ao Morro Branco ainda encontra as cicatrizes dessa época. Ali foram instaladas baterias de artilharia pesada (peças de 150mm) prontas para fustigar qualquer navio que ousasse entrar no canal sem autorização. 

No Lazareto, as metralhadoras antiaéreas apontavam ao céu, temendo que os aviões da Luftwaffe ou da Royal Navy transformassem o nosso porto num cenário de bombardeamento.

​Entre a "Alacrity" e a "Felix"

​O que poucos sabiam na altura, é que estivemos por um fio. O Mindelo esteve na mira de dois planos secretos de invasão:

• ​A Operação Alacrity: 

Os ingleses, liderados por Churchill, tinham planos prontos para ocupar o Porto Grande à força se sentissem que a neutralidade portuguesa vacilava.

• ​A Operação Félix: 

O plano de Hitler que previa tomar Cabo Verde para fechar as rotas de abastecimento que vinham do Sul.

​O Mindelo viveu esses anos num estado de "blackout" constante, com as luzes da cidade apagadas à noite para não servir de guia aos submarinos ("U-Boats") que rondavam as nossas águas, caçando comboios de mantimentos.

​O Pão e a Espada

​Para a memória coletiva do povo de Soncente, porém, a guerra não trouxe apenas canhões; trouxe a "Crise". 

Enquanto o Porto Grande fervilhava de navios de guerra e batalhões expedicionários vindos da Metrópole, a população enfrentava a fome severa de 41-43. O contraste era cruel: o porto estava cheio de importância estratégica, mas os estômagos estavam vazios pelo bloqueio das rotas comerciais.

​Os soldados expedicionários, que enchiam as ruas do Mindelo, trouxeram novas dinâmicas, amores de guerra e histórias de além-mar, mas também partilharam a escassez de um tempo em que o horizonte, em vez de trazer o pão, trazia o medo do perscópio de um submarino.

O quotidiano militar no Mindelo

​A chegada de milhares de soldados de Portugal continental (os "expedicionários") alterou completamente a dinâmica da cidade:
  • ​Mão de obra: os soldados ajudaram em infraestruturas, mas também pressionaram o já escasso stock de alimentos;
  • ​Vigilância: o Porto Grande passou a ter patrulhas constantes e o uso de luzes na cidade era estritamente controlado para evitar ser um alvo fácil à noite ("blackout").

​Um legado de silêncio

​Hoje, as ruínas das baterias militares são monumentos ao silêncio. Lembram-nos de que o Mindelo já foi o centro de um xadrez global.

Lembrar a Segunda Guerra no Mindelo é honrar a resiliência de um povo que, isolado no meio do oceano, viu o mundo passar pela sua baía e sobreviveu para contar a história.

Fotos: Cabo Verde Postcard/ Luís Graça & Camaradas da Guiné 61/74

Texto/Pesquisa: Memórias d'Mindel (LLM)

​As principais referências bibliográficas para estas informações são:

António Leão Correia e Silva: Um dos maiores historiadores de Cabo Verde, obra - Nos Tempos do Porto Grande.

Daniel A. Pereira: Pelos seus estudos sobre a história política e diplomática de Cabo Verde.

Arquivos Militares de Portugal: Relatos sobre o envio das Forças Expedicionárias (1941-1945) para São Vicente.

Planos de Guerra (Aliados e Eixo): Documentos desclassificados sobre a Operação Alacrity (Inglaterra/EUA) e a Operação Felix (Alemanha), que comprovam o interesse estratégico no Porto Grande.

(Seleção, revisão/fixação de texto: LG, com a devida vénia, e os parabéns ao autor)
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Nota editor LG: 

17 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27433: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (15): recordações do meu tempo de menino e moço (Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense, CefInt / QG / CTIG, Bissau, 1973/74)