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sábado, 22 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27452: Os nossos seres, saberes e lazeres (710): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Há uma nota curiosa de visita de amigos estrangeiros, tudo quanto se passa em Lisboa trazem completamente listado, desde o elétrico 28, os comes e bebes, os passeios pela Baixa Chiado e Bairro Alto, os miradouros. Uns vêm com o Michelin, outros trazem livros focados na arte, uns querem ver os azulejos, em visita anterior houve alguém que me pediu para ver algo que até então nunca ninguém pedira, a Basílica da Estrela, e não foi por causa dos presépios do Machado Castro. Desta feita, o casal alemão, que não é a 1.ª nem a 2.ª vez que visita Portugal, falou explicitamente em Tomar, Óbidos e Alcobaça. Procurei satisfazer os seus intentos, aqui fica uma síntese desse dia, esta itinerância continuará, pedem-me para no dia seguinte irmos visitar o Museu Nacional dos Coches, custa-lhes a acreditar que Portugal tenha o maior património de viaturas de aparato, como é que é possível um país tão periférico da Europa? Viram e confirmaram, não escondiam o entusiasmo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231):
Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente – 3


Mário Beja Santos

Passeios inusitados ou programados a Tomar, Óbidos e Alcobaça, para mostrar belezas a amigos estrangeiros que me vieram visitar, deram-se a agradável oportunidade de captar imagens com forte apelo cultural, até pretextos houve para tirar fotografias a estes amigos, que depois as colocam nas redes sociais. Vejamos o que resta de três passeios, todos eles me encheram a alma, volto lá se necessário for, há para ali, na arquitetura, na escultura e na pintura dedadas da nossa identidade, ali se exibem as nossas maneiras de ser, tratando carinhosamente algum património, desdenhando de outro.

Vamos começar por uma peça magnífica que nunca foi concluída, a Casa do Capítulo de Tomar, onde, no primeiro andar e no terraço subsequente se aclamou Filipe II de Espanha como Filipe I de Portugal. É obra de João de Castilho, um mestre de obras e arquiteto hispano-português, homem com formação gótica que irá ter um papel determinante no estilo renascentista em Portugal e nos seus últimos anos de vida pendeu para o classicismo sob a forma maneirista. Ele encontra-se ligado a cinco monumentos históricos classificados pela UNESCO como Património Mundial: o Mosteiro dos Jerónimos, o Convento de Cristo, o Mosteiro de Alcobaça e a construção da Fortaleza de Mazagão. Trabalhou duas vezes em Tomar (provavelmente entre 1516 e 1530) e um segundo período que decorre na década de 1930, em que trabalhou no Claustro Grande, vários claustros interiores, como o da Hospedaria, Corvos e Micha, concedeu esta Casa Capitular em mistério a desvendar as razões que impediram a sua conclusão.

O que o leitor vê são as paredes robustas, a fotografia que foi tirada da zona do arco triunfal e do altar, vê-se a antecâmera por onde entravam os frades. Caiu completamente o piso que separava a sala dos frades da sala dos cavaleiros. Aquela porta que se vê na torre dos cavaleiros estava prevista para ser a porta de acesso a esses cavaleiros; ao fundo vemos o topo da Charola e uma nesga da Igreja.

Casa Capitular a requerer com urgência trabalhos de conservação e restauro.
Sempre que acompanho amigos a Óbidos, falo-lhes de uma extremosa pintora de origem espanhola e filha de um artista que deixou obra em Portugal, Josefa de Óbidos, ela tem obra num altar lateral da Igreja Matriz e está também representada no Museu Municipal de Óbidos. Noto que os visitantes vão ali também admirar um túmulo e o impressionante forro azulejar da igreja, a mim cativa-me aquele Santo António bonacheirão e o Menino de braços abertos, gosto particularmente daquele teto pintado com tanta simplicidade, é como o emaranhado de uma renda que faz suspender Nossa Senhora guardada pelos anjos.
Este é um pormenor da pintura do teto do nártex da igreja.
Eram as últimas horas de sol, consultados os visitantes, houve acordo em visitar a igreja do Mosteiro de Alcobaça, deixamos para a próxima visita o precioso Museu. Mesmo habituados a este gigantismo das paredes do gótico-alemão que se pode encontrar desde o mar Báltico até perto de França, o casal alemão estava boquiaberto com a sobriedade da igreja, a solução dos pilares estarem reforçados por botaréus, tomaram nota que as riquezas vieram depois. D. Pedro I tomou esta igreja como seu mausoléu, tratou de igual maneira a sua apaixonada, Inês de Castro, túmulos de uma enorme beleza, marcados pelo vandalismo das invasões francesas.
No altar-mor atraiu-me prontamente esta Virgem de manto barroquizado, parece que pedala, tem umas linhas muito elegantes, gabo-lhe a Majestade e o panejamento em movimento.
Com as limitações da minha câmara foi esta a imagem que consegui da dimensão entre o nártex e o altar-mor.
Túmulo de Dona Inês de Castro, deste lado os danos são menos evidentes.
Conjunto escultórico que dá pelo nome Retábulo da Morte de São Bernardo, é todo em terracota policromada, obra de monges barristas do mosteiro, finais do século XVII.
Túmulo de D. Pedro, aqui o vandalismo é mais do que evidente.
Trata-se do sarcófago de Dona Urraca, mulher de D. Afonso II, está depositado no Panteão Régio, obra concluída em 1782 e atribuída ao engenheiro William Elsden, foi a primeira obra neogótica em Portugal. O panteão primitivo localizava-se na galilé que existiu à entrada da igreja. Posteriormente os túmulos foram transferidos para o transepto sul onde permaneceram até ao final do século XVIII.

Aqui se dá por terminada esta itinerância, segue-se outra que nos fará viajar até ao Museu Nacional dos Coches.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 15 de Novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27423: Os nossos seres, saberes e lazeres (709): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (230): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 2 (Mário Beja Santos)

sábado, 8 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27400: Os nossos seres, saberes e lazeres (708): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (229): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Vamos guardando uma imensidão de imagens no nosso telemóvel, há momentos em que apetece recordar o impulso ou o ímpeto com que se captou o nascer ou o fim do dia, aquele edifício de quem guardamos terna memória, aquelas horas de confraternização, o deslumbramento de uma peça de museu como, no caso presente, em que fui visitar o Museu Nacional de Arte Antiga, de que fiz relatório para o blogue, e quis guardar, veja-se só, como um quase relicário a restaurada Custódia de Belém que nunca a vi tão esplendente como agora. Deve ser fruto da idade, não me desembaraço das minhas recordações de ânimo leve, mas não quero ter a memória amordaçada pelo passado, é por isso que guardo imagens que me lançam pisca-pisca para obras de ficção, bem gostaria, antes de partir para as estrelinhas, de escrever dois livros a jeito de romances.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (229):
Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 1


Mário Beja Santos

Explicado ou por explicar, há uma circunstância, um ímpeto irresistível, quiçá uma assombração, que nos põe a câmara na mão para captar a irradiação da luz, registar uma caleidoscópica atmosfera, é assim que assumimos que temos o direito a um arquivo pessoal, aquelas imagens vão ficar para todo o sempre, imaginamos nós, para regalo dos olhos. E em dado momento todo aquele fulgor dos registos deixa de ser visto como um cofre-forte de rememorações, como antigamente se faziam álbuns de viagens ou de família. Ora acontece que quem capta essas imagens sente vontade de as repartir, e num blogue, nestas rubricas que destinamos ao aprazimento dos nossos lazeres, tem todo o sentido de as revelar, dando alguma explicação da circunstância em que a imagem foi fixada. É o que se passa a pôr em palavras
Adoro este local onde há alguns anos adquiri dois casebres situados a meia encosta, estamos na freguesia de Reguengo Grande, concelho da Lourinhã, no extremo do distrito de Lisboa, a dois quilómetros está uma placa a dizer “Bem-vindos ao concelho do Bombarral”. Aqui tenho remanso, ponho Bach, Telemann ou Albinoni no leitor CDs, disfruto da vida no vale, oiço vozes nas colinas em frente, gente que visita o miradouro, e espero ansiosamente pelo pôr-do-sol, é como que uma liturgia a favor da vida, a luz vai se apagar, virá pelo amanhecer, como não estamos longe do mar há manhãs de neblina, aí pelo meio-dia o sol irrompe, triunfal.
Há mais de dez anos que colaboro semanalmente no jornal O Templário, de Tomar. Tenho ensaiado passeios pelo rio Nabão, mostrado as fachadas das casas, bisbilhotado pelos museus, documentando-me, acima de tudo, pelo precioso Património da Humanidade, centrado no Castelo e no Convento de Cristo, ali sucedem-se os movimentos artísticos desde o românico, é o caso da Charola, o gótico, marcado pela presença do Infante D. Henrique e dois claustros que mandou fazer, temos depois o tardo-gótico na dimensão do manuelino, segue-se o maneirismo e as manifestações do Renascimento até se chegar ao barroco. Há, neste monumental conjunto, casos intrigantes de monumentos mal conservados ou que possam ameaçar derrocada. É o caso da Casa do Capítulo, um grande edifício que está à frente da Igreja do Convento e da Charola, nunca foi concluído, caiu fragorosamente o primeiro andar, que era destinado aos Cavaleiros da Ordem de Cristo, foi naquele espaço e no terreiro em frente que se celebraram as Cortes de Tomar, em 1581, Filipe II de Espanha passou a ser Filipe I de Portugal. Por aqui andei a preparar reportagens para o dito jornal, e dei com esta escultura, que de algum modo lembra os trabalhos de João Cutileiro, disse-me o técnico do Convento de Cristo que me acompanhava que está destinado a outro local, falta ainda algum acabamento, para o protegerem dos rigores do tempo meteram-no na antecâmera que tinha sido destinada aos clérigos do Convento. Achei o contraste belíssimo, guardei estas duas imagens.
A Santíssima Trindade, autor desconhecido, séculos XV-XVI, pedra calcária policromada, proveniência da Igreja de S. Pedro da Beberriqueira, esta escultura está na atual receção do Convento de Cristo. A imagem não permite ver com facilidade a Pomba do Espírito Santo que se impõe sobre a cabeça de Cristo
Pintor Sam Abercromby, fotografia tirada no decurso da exposição no Convento de Cristo, em Tomar, intitulada "Sebastianismo Revisitado"
Agarrado às engrenagens e maquinaria do seu pequeno esquife, Sebastião lembra-se da vida no palácio, pré-batalha e pré-exílio onde irá aterrar o barco, quem irá encontrar? Quando lhe será permitido regressar?... tudo isto dentre deste momento… enquanto uma gaivota rouba o seu crucifixo. Quando a óleo de Sam Abercromby exposto na referida exposição.
Sebastião com o cão, quadro a óleo do ciclo Memórias e Premonições do Quarto Azul, por Sam Abercromby. Fiz uma reportagem da exposição, cerca de cento e trinta telas enormes dispostas em belos espaços conventuais logo na Nova Sacristia, indo por aí fora até aos espaços onde viveu o Conde de Tomar e onde estudaram os alunos do Colégio dos Missionários. Não me deixa de surpreender a preocupação deste artista que vive há quarenta anos perto de Tomar pelo fenómeno do Sebastianismo, andamos sempre à espera do homem providencial que nos subtraia da pequenez, da modorra, da inveja corporativa, um homem providencial que nos deu sonho e fumos de grandeza
Eduardo Viana, A pequena, 1916. Não sei há quanto tempo fui ver uma exposição no Centro Cultural de Belém que se prendia com o diálogo interatlântico das artes, naquele momento em que em Paris do Impressionismo se partia para uma ebulição de correntes estéticas, entrecruzavam-se o expressionismo, o cubismo, os resquícios do simbolismo, o construtivismo, o modernismo, em suma. Sacralizamos Almada Negreiros e Amadeo Souza-Cardoso, e pomos um tanto à margem o genial Eduardo Viana que pintou corpos femininos voluptuosos na sua carnalidade, mas que tudo experimentou entre as correntes de vanguarda, ele que pôde conviver algum tempo com Robert e Sonia Delaunay, que tanto o marcaram.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 1 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27373: Os nossos seres, saberes e lazeres (707): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (228): Um aspeto da exposição, com uma museografia excecional, mostrando no centro e ao fundo uma imagem de Henry Moore (Mário Beja Santos)

sábado, 24 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25876: Os nossos seres, saberes e lazeres (642): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (167): Uma romagem de saudades pelo Pinhal Interior - 6 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Maio de 2024:

Queridos amigos,
Pus-me ao caminho, regresso de Figueiró dos Vinhos em direção a Tomar, primeiro pelo IC8, aproveito as boleias que dá à autoestrada, vou até Alvaiázere, e depois Tomar, são tudo territórios da interioridade, a romagem a que me propus culmina da visita à Charola do Convento de Cristo que teve limpeza no exterior e brilha ao Sol. É dessa viagem que perguntas sem resposta, sobraçando um livro de Paulo Pereira sobre o Convento de Cristo que ali estive sentado a extasiar-me com a Charola e o Portal Sul, pois cativa-me estar diante de uma das mais intrincadas peças da arquitetura peninsular, aqui há estilos que vão do românico ao gótico, do gótico ao manuelino e deste ao primeiro renascimento e ao maneirismo do tempo dos reis Filipes, tenho dúvidas que exista outro monumento com tal caligrafia de estilos em sequência diacrónica. A romagem está feita, impõe-se o desejo de voltar, enquanto houver forças, há sempre o ir e o voltar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (167):
Uma romagem de saudades pelo Pinhal Interior – 6


Mário Beja Santos

Quando ia para Casal dos Matos, na viragem do século, bordejava a cidade de Tomar, seguia pelo IC3 até apanhar o IC8, e daqui, entre Figueiró dos Vinhos e a vila de Pedrógão Grande, infletia no Outeiro do Nodeirinho, Figueira, e chegava àquela casinha toda reabilitada de que guardo imensa saudade. Já nessa altura dava para perceber onde estava a fronteira da interioridade, pelo IC3 viam-se as casas abandonadas, os campos expetantes, a evidência dos sinais do abandono; a confirmação chegava quando se andava por aquelas pequenas estradas com portões datados dos anos 1950 e anos 1960, do modo geral as casas em ruína. Há para ali uma autoestrada agora com SCUTs, são raros os carros que por ali circulam, mas é uma viagem que nos elucida sobre os tais abandonos que parecem irreversível e os sinais de quem recuperou o casario, mas a interioridade é indisfarçável.

É a pensar no que mudou neste quarto de século que vou a caminho da última etapa desta romagem de saudade, já que tive casa bem perto de Tomar, que troquei com a de Casal de Matos, gosto imenso do aprazimento de Tomar, da escala contida dos edifícios e do seu impressionante património, aqui faço escala para ver um dos mais belos edifícios do património português, a Charola, que está de cara lavada.

Entro no Castelo e continuo com dúvidas por resolver, aquele Castelo possui a melhor tecnologia do seu tempo, imaginaram aquele alambor que impede a escalada das muralhas, a fortificação é sólida em todos os seus lados, lá dentro está a Charola templária, tudo em estilo românico, bem perto da Charola os pequenos claustros góticos do tempo do Infante D. Henrique, como só vejo os claustros questiono onde vivia o Navegador, não consigo obter resposta, sei que houve um paço, das janelas do claustros só vejo pedras no chão, todas aquelas muralhas rasgadas de janelas levam ao pressentimento de que houve para ali habitação, consta que o Infante aqui viveu e num ponto mais ermo a rainha viúva de D. João III, D. Catarina de Áustria, mas aonde?

Rendo-me ao facto de ter diante dos olhos o mais rico depoimento arquitetónico português, o românico, o gótico, o manuelino, o primeiro renascimento, o maneirismo, tudo em sequência, em paredes meias. Por aqui andou D. Afonso Henriques que se dava bem com o Grão-Mestre templário, Gualdim Pais, era a Reconquista Cristã, os guerreiros monges defendiam toda esta linha do Tejo, como atesta o Castelo de Almourol. Diz a historiografia que foi D. Gualdim, que andou uns bons anos em Cuzada lá para Jerusalém, que escolheu este ponto, a Charola iniciou-se por volta de 1160 e concluiu-se em 1250. É um dos monumentos mais importantes de planta centrada de tradição templária.

É o que hoje me trouxe a este ponto alto de Tomar, a Charola, com a sua estrutura cilíndrica e aquele assombroso interior liturgicamente configurado por uma planta circular, octogonal pelo interior (o tambor central possui oito faces) e no exterior possui panos reforçados por sólidos contrafortes, as imagens tiradas permitem ver que foram eliminados dois desses contrafortes para construir aquele fabuloso Portal Sul, construção manuelina.

Há muita especulação sobre o mítico e o místico da Charola. Que se terá pretendido reproduzir a imagem, o desenho do Santo Sepulcro de Jerusalém, edifício de planta circular; que possuiu uma retórica figurativa que guarda os seus códigos secretos; e há quem especule de igual modo quanto aos códigos manuelinos e já não falo das mil e uma interpretações dos elementos constitutivos da mais bela janela que há em Portugal, a Janela do Capítulo.

Sinto-me feliz por aqui acabar esta romagem, empolga-me a Charola, admiro-a sem mística nem mito, é um empreendimento religioso que fez o seu tempo, D. Manuel tornou o seu interior num empolgante espetáculo cromático, não se pode entrar e admirar o interior da Charola sem ficar esmagado com tal e tanto esplendor. Passo em revista algumas dessas imagens da minha permanente admiração, sempre a perguntar-me onde viveu o Infante D. Henrique e a tal rainha viúva, aquelas pedras no chão não em dão resposta… Vamos então aos pormenores ligados ao fecho da romagem de saudade a sítios que tanto me tocam ao coração.
Arruma-se o carro e fica-se especado diante de muralhas tão imponentes, dá para perceber imediatamente que já não há habitação, fica por saber como desapareceram e porquê tais construções, o que resta é mesmo a imponência da pedra e o vazio do seu interior à mostra.
A porta de entrada no Castelo de Tomar, lá no alto o silêncio do paço régio desmoronado
Propositadamente vim atrás para que se possa ver um detalhe do alambor e a torre da velha igreja que também desapareceu
Sim, a Charola beneficia da alvura de toda a sua pedra, quem a contempla também se questiona sobre aquele cubo lá ao fundo à direita, goste-se ou não, não traz qualquer benefício estético à Charola, aliás há aqui outros pormenores para os quais não se tem resposta, elevou-se a escadaria, é graciosa, contudo há aquele muro quase colado à torre sineira que subtrai um olhar desafogado sobre tão bela construção, e faz pena.
Dá perfeitamente para ver que houve dois momentos da construção, como escreve o historiador Paulo Pereira: “O aparelho dos muros é alvenaria miúda até ao primeiro andar, sendo daí para cima em silharia aparelhada, o que assinala dois momentos de construção: o primeiro do último quarto do século XII até cerca de 1190, altura em que as obras terão sido interrompidas quando se verificaram graves escaramuças entre portugueses e Almóadas; o segundo corresponderá à finalização do templo, por volta de 1250.”
Vê-se nitidamente como o rei D. Manuel quis associar o seu projeto religioso à antiga Charola. Olhando todo este Portal Sul vê-se à vista desarmada que o monarca tinha o seu projeto imperial. O historiador Paulo Pereira fala na identificação mítica do rei D. Manuel com os reis magos com o Emmanuel das escrituras, com David e Salomão, admite uma conotação salomónica da Charola e da igreja do Convento de Cristo. O que nós vemos neste Portal Sul é o deslumbramento religioso, a Virgem com o Menino, uma série de figuras instaladas em mísulas, figuras do Novo e do Velho Testamento, pensamos nos Jerónimos, mas aqui o que é de mais tocante é esta igreja estar diretamente ligada a uma construção que evoca Jerusalém, e temos em frente uma casa do Capítulo que nunca foi acabada e foi neste espaço que Filipe II, em 1581, foi aclamado como rei de Portugal.
Despeço-me do leitor com esta imagem que recorda os dois claustros góticos do tempo do Infante D. Henrique, o do Cemitério e o das Lavagens, houve depois uns restauros no século XX, mas a pergunta continua sem resposta, onde era o paço do Infante D. Henrique, o Navegador não tinha acomodações? E com esta pergunta sem resposta findo uma romagem de saudade que me lavou a alma.

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Nota do editor

Último post da série de 17 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25850: Os nossos seres, saberes e lazeres (641): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (166): Uma romagem de saudades pelo Pinhal Interior - 5 (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Guiné 61/74 - P24600: Álbum fotográfico do António Alves da Cruz, ex-fur mil at inf, 1ª C/BCAÇ 4513/72 (Buba, 1973/74) (2): O percurso de muitos de nós: Tavira (CISMI), Elvas (BC 8), Tomar (RI 15), T/T Uíge...


Foto nº 6 > Tavira > CISMI > Recruta > 2º turno 1972 Ao centro o Machado; o camarada da esquerda não recordo o nome; eu, à direita, de óculos.




Foto nº 7 > Tavira > CISMI > 1972 > Quando acabei a especialidade (atirador).



Foto nº 8 > Elvas > BC 8 > A dar recruta 4º turno 1972 [os pelotões eram numerosos, contam-se aqui quase meia centena de homens; o Cruz é o oitavo da fila de pé, a contar da direita]



Foto nº 9 > Tomar > RI 15 > 1973 : A formar o BCAÇ 4513/72 mobilizado para a Guiné: eu e o Victor Domingues com o nosso aspirante Jorge, no meio, de blusão, a formar o 3º pelotão da 1ª companhia.



Foto nº 10> T/T Uíge > Março de 1973, rumo à Guiné: da esquerda para a direita, Raposo, Cruz, Victor Domingues e Félix.



Foto nº 11 > T/T Uíge > Março de 1973, rumo à Guiné: O pessoal a dar ao dente a bordo do Uíge: da esquerda para a direita, Loução, Félix, Baeta e o outro camarada não recordo o nome.


Foto nº 12 > T/T Uíge > Março de 1973, rumo à Guiné: à minha direita, o Félix e à esquerda o Victor Domingues.



Foto nº 13 T/T Uíge > Março de 1973, rumo à Guiné: - No Uíge com o Félix

Fotos (e legendas): © António Alves da Cruz (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação de uma seleção de fotos do álbum do António Alves da Cruz (*).  Já em 2014 tínhamos descoberto a sua página do Facebbok, e publicámos dois postes. Já  na altura fizemos o convite, formal, para se juntar ao nosso blogue,  o que veio acontecer agora: é o novo membro, nº 880 da Tabanca Grande (**).

Ele fez o percurso de muitos de nós: Tavira (CISMI), Elvas (BC 8), Tomar (RI 15), T/T Uíge, conforme documenta as fotos acima publicadas... E depois Bolama (CIM),  de acodo com o próximo poste.

sábado, 18 de março de 2023

Guiné 61/74 - P24152: Os nossos seres, saberes e lazeres (561): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (94): Da bela Tavira a uma exposição sobre a Ordem de Cristo em Castro Marim, com José Cutileiro em pano de fundo (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Março de 2023:

Queridos amigos,
Devido a uma colaboração permanente que levo no jornal "O Templário", de Tomar, procuro inteirar-me da história da Ordem de Cristo, sucessora da do Templo. D. Dinis foi de uma grande habilidade diplomática, estabeleceu acordos com os outros Estados ibéricos no sentido de não permitir quaisquer desvios dos bens patrimoniais templários. Alegou a Roma que necessitava de uma Ordem de guerreiros monges destinados a travar, a fazer recuar e mesmo a erradicar inimigos da Cristandade, justificando os permanentes assédios sarracenos e magrebinos nas costas algarvias, e a existência do Reino de Granada, marcadamente hostil. A nova ordem foi aprovada e sediou-se por mais de três décadas em Castro Marim, em meados do século já estava implantada em Tomar, será aqui, na Administração do Infante D. Henrique, que a Ordem e os seus bens terão um papel chave na primeira etapa dos Descobrimentos. Como veremos adiante, Castro Marim tem muito para contar sobre o seu primeiro período da existência, como esta interessantíssima exposição revela.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (94):
Da bela Tavira a uma exposição sobre a Ordem de Cristo em Castro Marim, com José Cutileiro em pano de fundo (1)


Mário Beja Santos

É bom ter amigos em Tavira e que nos acolhem admiravelmente, sempre solícitos a mostrar as mudanças, algumas que nos enternecem muito, há para ali intervenções patrimoniais que nos merecem muito respeito, outras não tanto, derrubou-se o velho cinema e alterando completamente a escala está a erguer-se mais um daqueles centros culturais para encher o olho, cirandando à volta das muralhas (Tavira vista do jardim do castelo é um desafogo panorâmico, por ali se pode ver o ADN de um lugar por onde se cruzaram tais e tantas civilizações) fiquei de boca aberta a ver junto a um belo pano de muralha um calhamaço que seguramente vai ser hotel ou apartamento luxuoso, continuo a não entender os maltratos à volta de monumentos nacionais, é-me inexplicável esta ganância, este gosto pela ostentação, roubando aos munícipes e aos visitantes vistas de alto valor histórico – e chamam a isto progresso.
É bom caminhar por estas ruas antigas, indo conversando com amigos quanto aos propósitos desta visita que incluem Castro Marim, lá no castelo, dentro de um templo religioso, que já deixou de o ser, consta uma exposição sobre a história da Ordem de Cristo naquele ponto no então Reino do Algarve, lá iremos seguidamente, primeiro matar saudades de Tavira, visitar inclusivamente aquelas lojas de ajuda humanitária a que se entregam sobretudo os ingleses, metem para ali objetos que nas suas casas perderam préstimo, quem compra, compra barato, e as receitas do mealheiro são para ajudar quem precisa, dali saio alegre e feliz com um bom número de discos de música clássica comprado à pataco.
Pois bem, vamos subir ao jardim do castelo, é um dos pontos mais aprazíveis para ver o que se passa em Tavira e arredores.

Um dos aspetos que mais me atraem é esta circunvizinhança habitacional, paredes meias com o castelo, não sei se os historiadores se arrepiam com esta vista, sinto-me bem com este edificado, estes telhados de quatro águas, esta intimidade que não consigo ver como intrusão, embora admita que nos dias de hoje que por razão de tal plano levaria à queda de uma idealidade…
É inverno, mas há para aqui uma planta a enfeitar a pérgola, ninguém me disse exatamente o seu nome, facto é que quem anda por este jardim se delicia com a vista de tal florescência em tempos de flora adormecida. Que encanto para os olhos!
Uma vista de Tavira e logo nos ocorre a civilização árabe, o olhar espraia-se até ao fundo, ali espreita o oceano e bem perto podemo-nos encantar com o que oferece a Ria Formosa.
Há um hotel em Tavira que tem no subterrâneo vestígios de um bairro almóada, imagine-se, tudo agora bem preservado, pede-se licença na receção e lá ingressamos no mundo árabe, ou suas reminiscências (há aqui vestígios de trocas comerciais posteriores), o que há para ver é frugal, mas está altamente preservado. Aqui está a memória do trabalho arqueológico, depois de concluído deu-se vida ao hotel.
O que temos aqui são os achados arqueológicos e a organização do espaço, o que resta de um lugar que foi habitado por gente almóada, sabe-se lá o que depois aconteceu, ficaram estas estruturas e algumas lembranças daquilo a que nós pomposamente chamamos a civilização árabe e o que depois dela sobreviveu.
De Castro Marim olhando as salinas e a agricultura na orla do barrocal
Era um dia claro, temperatura amena, mas, de súbito, apareceram nuvens encasteladas no horizonte, a luz perdeu um certo brilho, mas aquele céu um tanto atemorizante prendeu a atenção de quem o fotografou… e o produto final não o desiludiu.
O Forte de S. Sebastião (ponto culminante da vigilância contra eventuais intrusões espanholas, na Guerra da Restauração) e um pormenor do centro da vila de Castro Marim, imagem tirada do castelo.
Uma vitrina do Núcleo Arqueológico do Castelo de Castro Marim
Outro pormenor das salinas entre o castelo e a garridice das cores do casario à sua beira
Já estou no Castelo de Castro Marim, é um ponto alto de uma colina que é sobranceira ao Guadiana, aqui em 1319 houve sede da Ordem de Cristo, graças aos esforços diplomáticos de D. Dinis, socorreu-se de alianças ibéricas para não deixar de sair o rico património da Ordem do Templo, depois daquele miserável processo movido aos monges guerreiros que tinham fortunas, que emprestavam dinheiro a reis e que pagaram bem caro o serviço que prestaram à Cristandade no seu tempo. O monarca justificou a razão de ser desta Ordem aqui em Castro Marim dando razões compreensíveis, o Reino de Granada na vizinhança e a pirataria magrebina a encher de pânico a costa algarvia. Foi sede durante décadas (até 1356), depois seguiu para Tomar. Frente a este castelo está o Forte de S. Sebastião, desempenhou o seu papel na Guerra da Restauração. Diga-se em abono da verdade que Castro Marim merece uma cuidada visita, está cercada de belíssimo de património cultural, faz parte da Rede Nacional das Áreas Protegidas e a Rede Natura 2000, permite passeios pedestres muito belos, os amantes da natureza têm ali ao seu dispor belos troços da Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, os amantes da praia também não se sentem desiludidos e convém recordar que as salinas ocupam mais de 580 hectares da Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António.
Vamos visitar a exposição e andar por aí, já pedi a quem me acompanha para ir ver a estátua do Marquês de Pombal, de José Cutileiro, em Vila Real de Santo António.

(continua)

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Nota do editor

Último poste da série de > Guiné 61/74 - P24136: Os nossos seres, saberes e lazeres (560): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (93): Regresso à Academia Militar, ao Palácio da Bemposta (2) (Mário Beja Santos)