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domingo, 27 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P27380: Verso & reversos (6): A "fêmea", o "anjo mau", a "Eva", a graça Macute, do conto de Artur Augusto Silva (1912-1983), "O Cativeiro do Bichos" (escrito na Prisão de Caxias, 1966)...



Excerto da BD "O Cativeiro dos Bichos" (*)


1. Comentários so poste P22953 (**):

(i) Tabanca Grande Luís Graça

É interessante verificar que neste conto ou fábula da literatura oral fula, o "anjo mau" que introduziu o pecado, o mal, o conflito, a guerra no mundo seja também uma "Eva", uma "fêmea", a garça Macute (**)..

"Misoginia" das sociedades patriarcais, gerontráticas,  teocráticas, bíblicas ? Afinal da nossa comum cultura judaico-cristã ? ... Misoginia: o grego miseó ("ódio") e gyné ("mulher").

Por outro lado, o rei da selva não é o leão mas o elefante... 

Talvez o Cherno Baldé possa acrescentar algo mais ou contestar a minha "leitura". 

De resto este conto ou fábula, como toda a literatura oral tradicional,  não tem uma leitura "única"...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022 às 10:11:00 WET 

Cherno Baldé,
Kiev, 1989

(ii) Cherno Baldé 

Caro Luis Graça, a tradição africana e fula em particular não menospreza a mulher nem a segrega como alguns estudiosos ocidentais apresentam em seus estudos. 

Os africanos, sobretudo, nas comunidades de cultura ou roupagem isláâmica, onde eu cresci e fui educado, protegem a mulher, poupando-a de muitos trabalhos físicos e da exposição exagerada ao público, ao mesmo tempo que fazem tudo para se proteger da inteligência superior e argúcia das mulheres. 

Mais tarde, ao ler a Bíblia (antigo testamento, livros poéticos e sapienciais) nos capítulos dos Salmos, provérbios, Eclesiástico, Cântico dos Cânticos, e sabedoria do Salomão, percebi a ligação com o fundo da cultura judio-cristã e asiática em geral.

No fanado (ritual de iniciação a vida adulta entre os africanos da região ocidental) a ferramenta mais importante consiste em dotar aos jovens rapazes a técnica de descobrir os malefícios e artimanhas inerentes ao sexo feminino e de capacidades de reconhecer as sementes da discórdia que as mulheres são capazes de semeiar entre irmãos da mesma familia. 

Diziam-nos (em letras musicais): 

"Se as fronteiras que nos dividem aparentam ser normais, são as mulheres que nos dividem, posto que, se todas as portas (da morança) são idênticas, cada uma limpa a porta da sua casa e cria a sua fronteira". 

Desta forma, a sociedade patriarcal tentava proteger-se da divisão, cada vez mais, em unidades menores das famílias extensas, que era um dos desafios maiores que as sociedade rurais africanas enfrentavam no limiar dos séculos XIX/XX, com recursos muito escassos do ponto do vista económico e com várias ameaças à coesão social a partir do exterior das comunidades.

A garça Macute do conto, com a ambição de se coroar em rainha da espécie,  representa a mulher pretensiosa que é uma ameaça à ordem estabelecida e à coesão familiar e  que alimenta a semente da discórdia e da divisão.

Em muitas comunidades e famílias africanas existem práticas e crenças, fundadas ou não, que atestam a "diabolização" da mulher, ligando-a a forças ocultas e/ou ao azar, má sorte para o homem em viagem ou que parte para a guerra.

Lembro-me que na nossa familia as mulheres se escondiam quando os homens partiam para uma viagem difícil ou para a guerra e ai de quem se atrevesse a cruzar-se de frente com o "bravo" à saida da morança e mesmo da aldeia, porque era um mau augúrio.

Infelizmente, por força destas vivências, mesmo não o impondo a ninguém, sou perseguido por estas crenças e não raras vezes sou confrontado com a opção difícil de acreditar ou não acreditar, de recuar ou avançar.  

A verdade é que, tenho constatado, o encontro com a mulher, em muitas ocasiões, sempre me deu azar, infelizmente. 

A minha "kontrada", pelos vistos, como dizem os guineenses,  é homem. Faz parte das pancadas ou taras que carreguei desde a infância. (***)

Quanto ao rei dos animais, de facto, é o elefante e não o leão.
É incrível como os contos encerram realidades vividas no passado. O elefante era sempre dotado de paciência, sabedoria e de capacidades extraordinárias de sobrevivência entre os animais em situações extremas de penúria e seca. 

Mais tarde, através de filmes, documentáros ocidentais, constatei a veracidade daquelas palavras dos antepassados, vendo como os elefantes conseguiam detectar a presença d'água e de a fazer aparecer à superfície salvando a manada e restantes animais de uma morte mais que certa.

Com um abraço amigo,

PS - Queria responder desde ontem, mas fui interrompido pelos acontecimentos lamentáveis que todos já sabem. (Alegada tentativa de golpe de Estado contra o Presidente Umaro Seco Embaló.)  



Vd. poste de 31 de janeiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22951: Antologia (83): O Cativeiro dos Bichos, conto de Artur Augusto Silva (Cabo Verde, 1912 - Guiné-Bissau, 1983), escrito na Prisão de Caxias, em 1966, e que era uma fabulosa fábula que tinha também uma contundente crítica, implícita, à hipócrita política colonial do Governo Português da época

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"



"Os animais mais fortes podem ser vencidos
pela audácia, coragem, inteligência e cooperação dos mais fracos" (Sabedoria da literatura oral africana)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Artur Augusto Silva (2006)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Trata-se uma "fabulosa fábula" (se nos é permitido o pleonasmo) do tempo em que os animais falavam. E é uma homenagem à literatura oral africana. E mais: é uma pequena obra-prima do conto guineense.

Recorde-se que na cultura dos mais diversos povos as fábulas (e demais contos populares) são também uma forma, indireta, de denunciar e criticar os abusos do poder dos mais fortes, incluindo as várias  formas de violência sobre os mais fracos.

Muitas destas narrativas incluindo as fábulas guineenses, encerram também lições segundo as quais os animais mais fortes, como o leão ou o "lobo" (hiena), podem ser vencidos pela "audácia", "coragem", "inteligência" e "cooperação" dos mais fracos.

Este conto foi escrito pelo advogado, defensor de presos políticos em Bissau, no início da década de 1960, Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, Cabo Verde, 1912- Bissau, 1983), pai do nosso querido e saudoso amigo luso-guineense Pepito (Carlos Schwarz da Silva, Bissau, 1949- Lisboa, 2012) e marido da não menos querida e saudosa Clara Schwarz (Lisboa, 1915 - Oeiras, 2016), de origem judaica (pai polaco, e mãe russa, de Odessa) que consta de um livro de contos, escrito em 1966, na Prisão de Caxias, e editado a título póstumo pelos seus três filhos ("O Cativeiro dos Bichos", edição de autor, Bissau, 2006).

Era também uma contundente crítica, implícita, ao sistema colonial, à sua política, à sua justiça e à guerra. Mas quiçá, também, ao princípio da "luta armada de libertação", iniciada pelo PAIGC em 23 de janeiro de 1963. Artur Augusto Silva, tal como a esposa,  era um intelectual, anticolonialista, amigo do Amílcar Cabral. Podia ser um simpatizante do PAIGG, mas não um militante, nem necessariamente um defensor da "guerra justa", um partidário da "violência revolucionária" que degenerou em tragédia para aquela terra e aquele povo que ele tanto amava.

Recorde-se que na época era governador (e comandante-chefe) da Guiné o General Arnaldo Schulz, o mesmo que expulsou o autor da sua tão amada terra de adopção (onde vivia desde 1949), e que o mandou prender, à chegada ao aeroporto de  Lisboa,  em 26/8/1966,  através do longo braço armado da PIDE, "por  exercer atividade contra a segurança do Estado" (sic). (De resto, já era vigiado pela polícia política desde 1938.)  


O autor quando jovem,
em Lisboa...
Arnaldo Schulz  opôr-se-ia, depois,  ao seu regresso à Guiné: em ofício da subdelegação da PIDE de Bissau, de 19/12/1966, é transmitida ao Diretor-Geral da PIDE, em Lisboa,  a opinião do Governador de que "aquele Senhor não deve voltar à Guiné, pelo menos enquanto se mantiver o terrorismo" (sic).

Cidadão empenhado, africano nacionalista, jurista corajoso, jornalista e escritor de talento, cofundador do colégio-liceu de Bissau (em 1949),  membro do Centro de Estudos da Guiné, vogal do Conselho do Governo da Guiné (em 1964, já com o brigadeiro Arnaldo Schulz, como governador), amigo pessoal de Amílcar Cabral,  fez questão de defender presos políticos guineenses, muitos deles seus amigos "ou que passaram a sê-lo, acusados de sedição pela potência colonial"; mais concretamente, "foi defensor em 61 julgamentos, um deles com 23 réus, tendo tido apenas duas condenações".

Esteve preso 4 meses, em Caxia, às ordens da PIDE,  sem culpa formada. Em 23/12/1966, "por intervenção de Marcelo Caetano e de outros responsáveis políticos, que embora discordassem das suas ideias políticas,  o admiravam como homem de carácter, foi libertado". 

Proibido de regressar à Guiné, foi-lhe  fixada residência em Lisboa. (Pena que entretanto he será levantada, por decisão do Conselho de Ministros, em janeiro de 1970.)

Em 1967, Marcelo Caetano, seu professor, convidou-o para ir trabalhar "como advogado na Companhia de Seguros Bonança". 

Também Adriano Moreira o convidou para leccionar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU) (herdeiro da Escola Colonial, criada em 1906), "o que ele recusou, fazendo ver ao portador do convite a incoerência de o terem prendido pelas suas ideias sobre o colonialismo português e depois o convidarem para leccionar matérias relacionadas com Africa".

Em 1977, de visita à nova República da Guiné-Bissau, foi convidado pelo então Presidente Luís Cabral para trabalhar como juiz no Supremo Tribunal de Justiça. Foi professor de Direito Consuetudinário na Escola de Direito de Bissau. Faleceu em Bissau em 1983, com 70 anos. (Para saber mais, clicar aqui...)

2. Sessenta anos depois, é mais do que justo republicar (*), no nosso blogue,  este conto,“O Cativeiro dos Bichos” que não é apenas   uma sábia fábula africana tradicional, é também uma finíssima sátira política, uma deliciosa paródia judicial e uma subtil alegoria do colonialismo... Podemos ainda ver nele, subliminarmente,  uma espécie de autobiografia cifrada do próprio autor.  

Não tendo  sido publicado em vida (segundo julgamos), mas já a título póstumo (em 2006),  este (e outros  contos) tem  a singularidade de ter sido escrito há sessenta anos, na prisão política de Caxias, entre  setembro e dezembro de 1966, por um homem que conhecia muito bem a Guiné, a advocacia, a repressão política e o aparelho colonial.

É essa circunstância histórica, além do mérito literário, que dá a esta  fábula uma dimensão documental e política extraordinária. É um conto que descreve, ao fim e ao cabo, uma dupla prisão: a dos bichos presos pelo “bicho homem” e a do próprio autor que é "desterrado" para a metrópole pelo governador da Guiné, como "personna non grata"... (**)

Julgamos que esta dimensão escapou a muitos leitores, numa primeira leitura, há 20 anos... O poste P775 (publicado ainda no velho "Blogue-Fora-Nada") teve menos de 200 visualizações e nem um único comentário (*).

A IA fez, a nossa pedido, a sua leitura própria deste conto, ilustrando-o com um bela banda desenhada.



Portugal > Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > Casa do Cruzeiro > c. 1957 > O pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), com os filhos, da esquerda para a direita, João, Iko (Henrique, já falecido) e Pepito (Carlos) (1949-2012). Cortesia de João Schwarz da Silva, que nos diz que a data deve ser "provavelmente 1957"... Teria então o Pepito (nascido em Bissau, em 1949) os seus oito anos... Esta casa será durante alguns anos, até à morte do Pepito, a sede da saudosa Tabanca de São Martinho do Porto...

Foto (e legenda): © João Schwarz da Silva (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné-Bissau > Bissau > Capa  do livro de contos, de Artur Augusto Silva, "O Cativeiro dos Bichos"  (edição de autor, Bissau, 2006 ). Na realidade, tratou-se de uma edição dos três filhos do autor, Henrique, João e Carlos Schwarz, em homenagem à memória, ao talento e ao exemplo cívico do seu pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), que viveu na Guiné-Bissau, de 1949 a 1966, e depois, de 1976 até à data da sua morte. Trata-se de uma antologia. Um dos contos que estáo livros é justamente este, "O cativeiro dos bichos" (pp, 


Conto "O Cativeiro dos Bichos"

por Artur Augusto Silva 

(Ilha da Brava, Cabo Verde, 
1912- Bissau, 1983)



A história que ides ler foi-me contada na tabanca de Quebo, no sertão da terra dos fulas, por um homem chamado Umarú Só, velho para além de toda a idade e que por ser velho e sábio conhecia os segredos do mundo e as suas maravilhas.

Vou narrá-la por palavras minhas, porque sei que não me perdoariam o uso daquele estilo floreado, exuberante, por vezes difuso mas sempre poético, que os fulas usam para contar uma história.

Houve um tempo em que todos os seres viviam na mais foi perfeita harmonia e a paz reinava por toda a parte. Isto passou-se antes de ter nascido uma garça chamada Macute e que ficará para sempre como o anjo mau que perverteu o mundo.

Foi o caso que numa manhã de sol, quando as manadas de búfalos pastavam nas lalas verdejantes de Bambadinca, uma garça ainda nova e inexperiente, ao esburgar com o bico as carraças de um búfalo, picou-o profundamente, o que o levou a dar um sacão com a cauda, sacão que apanhou a garça e a fez cair !

As coisas teriam ficado por aqui se não fora a garça Macute que, de longe, presenciou o caso e,  porque queria tornar-se raínha das aves, logo engendrou um plano que a conduzisse à satisfação dos seus desejos.

Andou de terra em terra convocando uma grande reunião de todos os bichos que voam,  para tomarem conhecimento da maior afronta que jamais fora praticada sobre um ser vivente.

Chegado o dia da reunião, ali se encontrou toda a bicharada que povoa os ares, desde a águia-real, de peito branco e palavra e bico adunco, até ao colibri que é mais pequeno que a pequena flor.

Vieram os papagaios vestidos de cinzento e peitilho vermelho, vieram todos os patos, desde o marreco ao ferrão, vieram as galinhas, incluindo as perdizes e as galinhas da Guiné,  todas louçãs na sua vestimenta preta de bolas brancas, vieram os mergulhões de longo bico,  plumagem verde, azul, preta e branca, veio toda a casta de pardalada que enxameia os céus, vieram as abetardas no seu voo lento e majestoso e, por fim, chegaram as borboletas no seu voo saltitante e colorido.

Reunidos todos, a garça Macute declarou que era necessário escolher um presidente que dirigisse os trabalhos mas, quando esperava ser investida no cargo, teve a desilusão de ver que optavam pela águia-real.

A águia-real soltou três assobios e declarou aberta a assembleia. Logo a garça Macute levantou uma questão prévia:

– Vejo aqui as nossas boas amigas, as avestruzes, mas afigura-se-me que elas não são aves. Com efeito, desde que que o mundo é mundo, não há notícia de que uma avestruz tenha voado. Elas fazem parte dos bichos que andam e, por isso, não devem tomar parte da nossa reunião.

Todas as garças grasnaram em sinal de assentimento e estabeleceu-se um certo burburinho, prontamente reprimido pelo presidente que declarou ir pôr po caso à votação. 
A coruja, sábia reconhecida por todos, pediu a palavra e disse:

– O problema posto pela nossa companheira, a garça, não é novo e muitas têm sido as opiniões ventiladas sem que se chegue a qualquer conclusão. Se é verdade que a avestruz tem asas, não é menos certo que nunca se serve delas para voar. Em minha opinião, devem ser classificadas entre os bichos que andam e não entre os que voam.

Como, após tão sábio resumo, ninguém quisesse usar da palavra, a águia pôs o caso à votação, e por maioria esmagadora foi decidido que as avestruzes não eram aves, mas sim bichos que andam.

Então a águia convidou a garça a dizer do motivo da reunião, e Macute começou:

– As aves são neste mundo em que vivemos, os animais mais nobres e mais valentes. Nunca uma de nós sofreu qualquer vexame ou insulto sem que imediatamente respondesse. Ora, devo dizer-vos que é com o coração oprimido de indignação e raiva que vos vou contar que há dias, na bolanha de Bambadinca, uma de nós, precisamente uma garça, foi vítima de agressão por parte de um búfalo. Devo acrescentar que o caso não pode ficar assim e por isso proponho que se declare guerra sem quartel a todos os bichos que andam.

Uma vozearia infernal atroou os ares e os abutres eram, de entre todas as aves, quem mais grita fazia, apoiando tão dignos sentimentos.

Um pardalito que estava presente, voltou-se para um jagudi que deu mostras de grande contentamento e ainda disse:

– O que vocês querem é que haja guerra para poderem comer a carne dos que morrem.

Logo o jagudi, gritando traidor, deu-lhe uma sapatada em três tempos o engoliu.

– Calma! Calma! – gritava a águia-real, receosa de não ter mão na assembleia.

Serenados um pouco os espíritos, a águia deu a palavra ao primeiro orador inscrito, o periquito. Este começou por dizer que a afronta fora grave mas, em seu entender, deveria averiguar-se primeiro se as coisas se tinham passado conforme o relato da garça, porque não via razão para que um búfalo magoasse uma garça, sem qualquer razão. Propunha, pois, uma comissão de inquérito.

O papagaio, segundo orador, citou alguns precedentes em que o comportamento dos bichos que andavam, para com os bichos que voam, demonstrava crueldade e propôs que o caso fosse levado ao conhecimento do bicho homem que possui discernimento mais do que suficiente para resolver o conflito.

As corujas apoiaram e depois de muitos oradores terem falado, foi resolvido levar o caso ao bicho homem. Formada a comissão que se avistaria com o bicho homem, dissolveu-se a assembleia, no meio de grande excitação.

O papagaio, como falador de grandes conhecimentos, presidia à comissão de queixa, a qual se dirigiu ao bicho homem para fazer as suas lamúrias.

Ouviu o bicho homem as mágoas da passarada e ali jurou que iria investigar, para que se fizesse inteira e completa justiça. Voltassem daí a sete dias, para ouvir a sua resolução.

A passarada retirou-se em boa ordem e o bicho homem ficou a esfregar as mãos de contente porque em sua cabeça surgira um plano. Mandou o bicho homem chamar o rei dos bichos que andam e que é, contra o que se pensa, o elefante.

Veio este acompanhado de numeroso séquito do qual fazia parte o seu melhor conselheiro, o macaco. 
Exposto o motivo da convocação, logo ali declarou o elefante que as intenções da bicharada que anda,  eram pacíficas e que nunca, até aquele momento, qualquer dos seus súbditos fizera mal a outrem, facto que devia ser do conhecimento do bicho homem que tudo sabe.

– Na verdade, na verdade – retorquiu o homem. – Mas há uma queixa e é necessário saber quem tem razão. Parece-me que seria melhor que os bichos que andam, nomeassem um delegado e os que voam, outro, para trazerem a minha presença, as alegações de cada parte e as provas a produzir...

Todos concordaram e ficou estabelecido que daí a sete dias e se realizaria o julgamento do caso.

Sete dias passados e à hora marcada, reuniu-se a grande assembleia e o bicho homem, dizendo que ambas as partes lhe mereciam o maior respeito e consideração e que, assim, não podia dar a direita a um e a esquerda a outro, propôs que o representantre de cada parte ocupasse a direita durante meia hora e que a primeira posição fosse tirada à sorte.

Constituído o Tribunal, entraram o macaco como advogado, dos bichos que andam e mais vinte e sete testemunhas, logo seguido pelo papagaio, representante dos bichos que voam, com vinte e cinco testemunhas.

Historiou o homem o diferendo em poucas palavras e pediu ao papagaio, como advogado da parte acusadora, que dissesse da sua justiça.

Falou o papagaio com perfeita dicção e clareza, citando vários confrades seus e algumas palavras que ouvira aos homens, o que lhe valeu aplausos até dos bichos que andam.

Empertigou-se o macaco, abriu os braços como já vira em comícios do bicho homem e analisou, um por um, os argumentos do papagaio e a sua queixa. Falou no amor, na justiça, na piedade, em todos os sentimentos nobres e a tal ponto comoveu a bicharada que voa, fez chorar um pardal estouvado e brincalhão como todos os pardais.

Exposta a questão, iniciou o bicho homem a audição das testemunhas e quer as de acusação, quer as de defesa, declararam nada saber do assunto.

Concedida novamente a palavra aos advogados, estes excederam-se em citações: foram épicos, heróicos, patéticos, fizeram chorar a assembleia e, logo a seguir fizeram-na rir desabridamente e foi numa das suas tiradas mais sublimes que o macaco, demonstrando rara intuição científica, classificou o homem de seu primo. O chimpanzé que estava seguindo a peroração nos menores detalhes, comentou em à parte: primo, mas degenerado.

Depois desta afirmação solene do macaco, os jornais e revistas que o bicho homem publica, começaram-na citando obstinadamente, pelo que hoje é ponto assente a existência de tal parentesco.

O bicho homem suspendeu a sessão por uma hora, ao cabo da qual reentrou para ler a sentença. Era uma longa peça de considerandos e que começava por afirmar que "em virtude de se não ter provado a queixa dos bichos que voam, mas convindo fazer justiça, profiro a seguinte sentença: 

– Julgo a acusação improcedente mas, tendo em atenção que a paz é um dever indeclinável de todos os espíritos sãos, e para poder reservá-la, determino que me sejam entregues como reféns e para garantia da paz futura, um animal de cada uma das espécies que voam que e andam.

Eliminava magnanimamente custas, dada e manifesta pobreza das partes.

Todos animais, tanto os que voam como os que andam, aplaudiram delirantemente tão sagaz decisão e só o macaco, fiado no parentesco com o bicho homem, quis recorrer da decisão, alegando que "começara a escravatura".

Ninguém o quis ouvir, a decisão ficou sem recurso (recurso para quem? perguntava o papagaio) e o bicho homem começou encaminhando a bicharada para currais e capoeiras previamente instalados por sua indústria.

A verdade é que com o correr dos anos as palavras do macaco tiveram plena comprovação, pois o bicho homem nunca mais soltou nenhum dos reféns e porque estes se reproduziam e o bicho homem não tinha com que alimentá-los, passou a comer deles cada vez com mais apetite.

Se acontecia alguém perguntar ao homem a razão de tão prolongado cativeiro, respondia: 

– Como querem que eu os liberte se ainda ontem vi um milhafre pilhar um rato e comê-lo em três tempos? É com sacrifício, com muito grande sacrifício,  que dou de comer à bicharada, mas mesmo com sacrifício devo manter a minha palavra honrada e a minha justiça proverbial.

E prosseguindo:

– É certo que ensinei os bois a trabalhar para mim; é certo que como a carne dos bichos e uso das suas penas e da sua pele em utensílios que fabrico, mas não é menos verdade que todos devem conhecer a minha isenção. Estou esperando que os bichos consigam uma promoção social que os habilite a entrar no concerto dos seres civilizados para, então, lhes dar a liberdade que eu desejo mais do que eles.

Se a história é verdadeira, não posso assegurá-lo pois que os factos passaram-se há muitos anos e não conheci o bicho homem que fez tal justiça; mas, porque Umarú Só é pessoa séria, incapaz de inventar, estou em crer que eles se verificaram conforme a narrativa.

(Prisão de Caxias, 1966)

(Revisão / fixação de texto, notas: LG)
___________________________

Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de  20 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - P775: Antologia (38): O cativeiro dos 

bichos de Artur Augusto Silva (Luís Graça)


(**) Último poste da série : 26 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)






In:  O Mundo Portuguès, nº 28, abril de 1936, pp. 185-187




Artur Augusto Silva
(1912-1983)
2. O João Schwarz da Silva, nosso grão-tabanqueiro, irmão mais velho do Pepito (1949-2012), tem sido o guardião das memórias da sua família, do lado paterno (Artur Augusto Silva, 1912-1983) como do lado materno (Clara Schwarz, 1915-2016).

Veja-se o seu blogue:

https://des-gens-interessants.blogspot.com

Foi daqui se tomámos a liberdade de "recuperar" e divulgar  um interessante conto de caça.  Diz o filho João que terá sido provavelmente o seu primeiro conto.

Em abril de 1936 Artur publica na revista “O Mundo Português” o que foi provavelmente o seu primeiro conto, "Abdulai, o Caçador”, "no qual revela um pouco da sua infância em Farim"...


São memórias de há mais de 100 anos, época em que ainda apareciam, no norte da Guiné,
elefantes solitários, que causavam estragos nas plantações dos mandingas.

A antiga página do João continua aqui disponível, em arquivo morto, no Arquivo.pt:



3. Quanto à revista "O Mundo Portuguès", acrescente-se o seguinte:

(i)  foi um importante órgão de propaganda colonial e cultural do Estado Novo em Portugal;

(ii)  fundada por Augusto Cunha em 1934 e publicada até 1947;

(iii) sendo veículo da ideologia imperial do regime e do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN);

(iv) dirigida por Cunha até 1947, promovia a "Política do Espírito" e a importância das colónias;

(v) contou  com textos de figuras como António Ferro, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa:

(...) Escritor e jornalista português, Augusto Cunha (1894-1947) iniciou a sua vida literária com António Ferro, com quem escreveu o livro de versos Missal de Trovas, publicado em 1914. Dedicou-se também à prosa humorística e ao teatro, e colaborou em vários jornais e revistas, como o Domingo Ilustrado, a Ilustração Portuguesa, o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, o Sempre Fixe, entre muitos outros.

Amigo de António Ferro e de Mário de Sá-Carneiro desde jovem, integrou a Geração de Orpheu, da qual também fariam parte Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Alfredo Guisado. Em 1934, Augusto Cunha fundou a revista O Mundo Português, um dos mais importantes órgãos de propaganda colonial do Estado Novo, que dirigiu até 1947. Após a sua morte, só seriam publicados mais dois números.

A edição, lançada no ano da Exposição Colonial Portuguesa do Porto, traduziu a política colonial do Estado Novo, assumindo-se como veículo de difusão da ideologia imperial do regime e da sua «Política do Espírito», conduzida pelo SPN de António Ferro.(...)

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27588: Historiografia da presença portuguesa em África (510): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1954 (68) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Junho de 2025:

Queridos amigos,
Sem margem para dúvidas, D. Diogo de Melo e Alvim, o novo governador, mais do que entrar com o pé direito tem a vida bastante facilitada por toda esta normalidade administrativa, há regulamentos para tudo, Amílcar Cabral é membro residente do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, o Farol do Ilhéu dos Pássaros passou a funcionar com luz vermelha, há nova definição de indígena e definem-se uns atributos da passagem de indígena a cidadão e ameaçam-se os chefes gentílicos de prisão de se cobrarem impostos a seu proveito ou saírem da área da sua circunscrição sem prévia licença da autoridade administrativa, medidas de uma ironia extrema; acresce que se definem estradas nacionais e locais e dá-se a respetiva relação. D. Diogo de Melo e Alvim vai percorrendo a província. Nada transpira, como é evidente no Boletim Oficial, do que acontece à volta, nas colónias francesas, será no ano seguinte que o administrador do BNU Castro Fernandes publicará um relatório sigiloso sobre a Guiné, documento constante do meu livro "Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba", deixa claro que têm que ser tomadas medidas urgentes, e aponta os vetores do desenvolvimento. Resta saber se Castro Fernandes deu conta do seu relatório a Melo e Alvim.

Um abraço do
Mário



A Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1954 (68)


Mário Beja Santos

O Governador Melo e Alvim chegou à Guiné em janeiro de 1954 e vai conhecer um ano de doce acalmia, não irão faltar reforços de verbas, nomeações e reconduções, ficamos a saber que o Farol do Ilhéu dos Pássaros passou a funcionar com luz vermelha, o Boletim Oficial publica o balancete do BNU, multiplicam-se os avisos e anúncios dos oficiais, há referências variadas aos serviços de aeronáutica civil, ao corpo de Polícia de Segurança Pública, ao serviço meteorológico, muitas menções a vendas em hasta pública, noticia-se o Concurso de Literatura Ultramarina.

Tenha-se em atenção o Boletim Oficial n.º 36, de 9 de setembro, republica-se o Decreto-Lei n.º 39666, que se prende com situações especiais do Acto Colonial e que se aplica à Guiné, Angola e Moçambique: “Consideram-se indígenas os indivíduos de raça negra ou seus descendentes que não possuem ainda a ilustração e os hábitos individuais e sociais pressupostos para a integral aplicação do direito público.” E, mais adiante: “É proibido aos chefes gentílicos sob pena de prisão ou de trabalhos públicos de 15 dias a 10 meses: cobrar impostos em seu proveito, aplicar multas, sair da área da sua circunscrição sem prévia licença da autoridade administrativa competente”; e aclara-se como se passa de indígena a cidadão: “Pode perder a condição de indígena e adquirir a cidadania os indivíduos que provem satisfazer os seguintes requisitos: falar correctamente a língua portuguesa, exercer profissão, arte ou ofício de que aufira rendimento necessário para o seu sustento e família.”

No Boletim Oficial n.º 20, de 20 de maio, através do diploma legislativo n.º 1:591, procede-se à classificação das vias de comunicações públicas rodoviárias na província. Iremos passar a ter estradas nacionais de 1.ª e 2.ª classe e estradas regionais. As estradas nacionais de 1.ª classe são as que estabelecem a ligação da capital da província com a fronteira e as que servem centros de turismo importantes, mas também as que ligam duas ou mais sedes de circunscrição com a capital da província. Fica-se a saber que a construção e grandes reparações de obras de arte definitivas serão sempre executadas por intermédio dos Serviços de Obras Públicas e Minas, salvo determinação em contrário do governador. O diploma traz o mapa de classificação das estradas nacionais, a EN 101, vai de Bissau a Varela, é servida por jangadas motorizadas nos rios Mansoa e Cacheu; a EN 102 liga com Buruntuma; e a EN 103 liga Enxudé a Catió.

No Boletim Oficial nº. 25, de 25 de junho, publica-se o regulamento da Caixa de Previdência dos Funcionários Públicos da Guiné, que substitui a Caixa de Aposentações e Pensões às famílias dos funcionários públicos da Guiné. Como é da praxe divide-se em capítulos, refere a denominação sede e fins, os deveres e direitos dos sócios, a tabela das pensões, a atribuição de pensões de sobrevivência, subsídio de luto, etc.

No Boletim Oficial n.º 25, de 24 de junho, mais uma surpresa envolvendo o nome de Amílcar Lopes Cabral. Tinha sido exonerada a Comissão Executiva do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, é nomeada nova comissão, o presidente passa a ser o Intendente Augusto de Jesus Santos Lima, os vogais são António Carreira, Carlos Lehmann de Almeida, Artur Augusto da Silva e Amílcar Lopes Cabral; o secretário que também exerce funções de conservador do museu é Joaquim Augusto Areal. E o governador da Guiné manda que seja nomeado como membro resistente do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa o engenheiro agrónomo Amílcar Lopes Cabral, dos Serviços Agrícolas da Guiné. Vamos passar agora para o ano de 1955.


Boletim Oficial de 28 de abril de 1955, Amílcar Lopes Cabral regressa a Lisboa conforme opinião da junta de saúde da província, assim se põe termo à lenda de que fora expulso
Criança branca e criança mandinga. Foto: INEP/Casa Comum
Alberto Barbosa e filhos. Foto: INEP/Casa Comum
Carta Étnica da Guiné Portuguesa, por Mendes Correia, em Raças do Império. Portucalense Editora, Porto, 1943

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 24 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27571: Historiografia da presença portuguesa em África (509): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1953 (67) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Guiné 16/74 - P27542: Conto de Natal (26): o "tubabo" (branco), não-crente, mas africanista" (Artur Augusto Silva, 1912-1983) e o sábio muçulmano, o Cherno Rachide (1906-1993)


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG

Um conto de Natal

por Artur Augusto Silva (Ilha Brava, 
Cabo Verde, 1912 - Bissau, 1983)


Noite luarenta de Dezembro …

Na povoação de Quebo, perdida no sertão da terra dos Fulas, o Tubabo conversa com o seu velho amigo, Tcherno Rachid, enquanto as pessoas graves da morança, sentadas em volta, ouvem as sábias palavras do Homem de Deus.

Esse Homem de Deus é um Fula, nascido na região, mas cujos antepassados remotos vieram, há talvez três mil anos, das margens do Nilo.

Mestre da Lei Corânica e filósofo, Tcherno Rachid ligou-se de amizade profunda com o Tubabo, o  branco, vai para quinze anos, quando este chegou à sua povoação e se lhe dirigiu em fula.

O Tubabo é também um filósofo que veio procurar em África aquela paz de consciência que o mundo europeu lhe não podia dar.

Fora, noutros tempos, um crítico de arte e um poeta, um paladino das ideias novas, e porque proclamara em concorrida assembleia de jovens que um automóvel lançado a cem quilómetros à hora era mais belo do que a Victória de Samotrácia, firmara seus créditos de «pensador profundo».

Se alguém perguntasse ao branco porque razão se encontrava ali, no coração de África, naquela noite de Natal, talvez obtivesse como resposta um simples encolher de ombros ou, talvez, ouvisse que o seu espírito necessitava daquelas palavras simples que consolam a alma dos justos e acendem uma luz no peito dos homens .

Tcherno Rachid acabara, nesse momento, de repetir as palavras do Profeta: «Nenhum homem é superior a outro senão pela sua piedade».

— Irmão — retorquiu o Tubabo — então o crente não é superior ao infiel?

— São ambos filhos de Deus  — respondeu o Tcherno  — e aos homens não compete julgar a obra do seu Criador.

Aquele que só ama os que pensam como ele, não ama os outros, antes se ama a si próprio. Só quem ama os que pensam diversamente, venera Deus, que é pai comum de todos.

Assim como tu podes adorar Deus em diversas línguas, assim podes entrar numa igreja, numa mesquita, ou numa sinagoga.

Quando vais pelo mato e admiras o grande porte de uma árvore, as penas vistosas de um pássaro, a força do elefante ou a destreza da gazela, tu murmuras uma oração que agrada a Deus, Criador de tudo o que existe, mais do que agradam as orações que só os lábios pronunciam e o coração não sente.

  — Irmão Tcherno, e aquele que não acredita em Deus, esse merece a tua estima?

Rachid semi-cerrou os olhos, alongou a mão descarnada para a lua cheia, então nascente, e disse:

 — Ouvirás a muitos que esse não merece o olhar dos homens: mas eu penso que o descrente merece mais o nosso amor do que o crente. É um companheiro de caminho que se perdeu. Devemos procurá-lo, ajudá-lo, e até levá-lo para nossa casa, a fim de repousar. É um filho de Deus como tu, como eu … como todos nós.

A lua, antes de ter em si tanta luz como a que tem hoje, esteve sete dias obscura, sem ser vista de ninguém, se não de Deus.

Ouve, irmão: quem julga que não crê em Deus, é porque acredita em si próprio e, crendo em si, já crê em Deus, porque o homem foi iluminado com o sopro Divino e é, assim, uma sua imagem.

A lua ia subindo nos céus, lenta, majestosa, iluminando a povoação e a floresta, os rios e os mares…

Os homens graves, de autoridade e conselho, aprovavam as palavras do Tcherno, e o branco, oprimido pela ideia de que lá longe, a muitos milhares de quilómetros, reunidos em volta de uma mesa de consoada, seus avós, pais e irmãos, celebravam uma festa antiquíssima e lembravam, por certo, o «filho pródigo», deixou nascer uma lágrima que se avolumou e correu pela face tisnada pelo ardente sol dos trópicos.

Artur Augusto Silva, 1962

(Revisão / fixação de texto: LG)

Nota do editor: 

Foi uma "prenda de Natal", que o meu/nosso amigo Pepito (Bissau, 1949-Lisboa, 2012) me/nos mandou há 19 anos. Um"conto de Natal", inédito, do seu pai, que amava a Guiné como poucos. 

O texto nunca foi publicado em vida. Nem sei se a censura férrea mas idiota dos coronéis o deixaria passar em 1962. Sinto que é meu dever voltar a publicá-lo. Há textos de antologia no nosso blogue. Este é um deles.  E o Pepito é, de resto, um dos históricos da Tabanca Grande, ajudou-nos a construir pontes com o seu país (ele, aliás, tinha a dupla nacionalidade). O Pepito "cá mori".
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1. Análise literário do conto

Artur Augusto Silva
(1912-1983)


(i) Contexto e enquadramento

“Um conto de Natal” foi escrito em plena época colonial portuguesa e publicado em 1962, numa altura  em que a Guiné Portuguesa já vivia tensões políticas profundas. E já havia "guerra": surda, suja, "subversão  e contrassubversão".   O PAI/PAIGC já havia perdido até a essa altura dois "generais", um da ala política, Rafael Barbosa (preso em 1962, e depois levado para oTarrafal) e outro da ala militar, o Vitorino Costa (morto uns meses depois, em meados de 1962, pela tropa do cap Curto).

 O Artur Augusto Silva, advogado, intelectual e opositor do regime, defensor de "presos políticos",  escreve a partir de uma posição humanista e crítica, cruzando experiência pessoal, reflexão filosófica e observação etnográfica.

O Natal surge não como episódio cristão ritualizado, mas como pretexto simbólico para, em pleno Forreá, o “sertão da terra dos Fulas”,  fazer uma meditação universal sobre fé, fraternidade,  tolerância, paz,  convivência entre os povos. Em 1962, ele já estava na Guiné há cerca de 15 anos.

(ii) Estrutura narrativa

O conto apresenta uma estrutura simples e contemplativa, quase estática:

a) abertura descritiva:  a noite luarenta, o espaço africano, a assembleia na morança;

b) diálogo filosófico: entre o Tubabo (o branco) e o Tcherno Rachid (conhecido no nosso tempo como Cherno Rachide ou Rachid);

c) culminação simbólica: a reflexão sobre o descrente e a metáfora da lua;

d) fecho emocional; a lágrima do branco, ligada à memória familiar, a noite de consoada ( na sua ilha da Brava Cabo Verde)  e ao “filho pródigo”;

e) não há propriamente ação dramática: o centro do conto é o discurso, o diálogo entre dois homens (que pertencem a mundos diferentes, apesar da amizade), o pensamento e a emoção interior.

(iii) Personagens e simbolismo

Tcherno Rachid: 

figura de sábio muçulmano, “Homem de Deus”, mestre da Lei Corânica; representa a sabedoria ancestral africana, mas também um universalismo espiritual; as suas palavras traduzem uma ética da compaixão, humildade e inclusão; apesar de muçulmano, o Tcherno transcende qualquer dogma religioso estrito, aproximando-se de um humanismo místico e ecuménico.

 Tubabo (o branco);

Intelectual europeu desencantado, mas nascido em África, Cabo Verde; antigo crítico de arte, poeta, “pensador profundo”, amigo de Fernando Pessoa, que se autoexilou na África continental profunda, símbolo da crise espiritual do Ocidente moderno, que procura nos trópicos uma paz perdida e um espaço de liberdade (que não encontrava no Portugal europeu ao tempo do Estado Novo); vive entre dois mundos: culturalmente europeu, de origem cabo-verdiana,  existencialmente desenraizado; a lágrima final revela a sua condição de exilado moral e afetivo.

(iv)  Temas centrais

a) Universalismo religioso: o conto defende a ideia de que nenhum homem é superior por crença; Deus é uno, mas os caminhos são múltiplos; a verdadeira oração nasce do sentimento, não do ritual vazio: “Assim como tu podes adorar Deus em diversas línguas, assim podes entrar numa igreja, numa mesquita, ou numa sinagoga.”

Este discurso é notavelmente antidogmático e ecuménico (o Concílio Vaticano II começaria nesse ano de 1962) e algo até particularmente ousado no contexto colonial e confessional do Estado Novo, já em plena guerra colonial (Angola, Índia, mas também guerra "surda" na Guiné, com repressão do nacionalismo emergente; o autor é defensor de presos políticos, acusados de serem militantes ou simpatizantes do PAIGC).

 b) A valorização do “outro”: Artur Augusto Silva inverte hierarquias coloniais: o africano é o sábio; o europeu é o aprendiz; a  África não é espaço de atraso, mas de revelação espiritual, e berço de civilizações e figuras sábias.

Este gesto literário funciona como uma crítica subtil, implícita,  ao colonialismo, sem ser panfletária nem entrar no confronto aberto e direto ou na rutura como fizeram outros africanistas ( Norton de Matos, Henrique Galvão, etc ).

c) O descrente como figura ética; uma das ideias mais fortes do conto é a defesa do descrente (ou não-crente): “O descrente merece mais o nosso amor do que o crente.”

Aqui, o autor propõe uma ética da solidariedade radical, onde a fé não é critério de exclusão, mas ponto de encontro.

d) O Natal como símbolo: o Natal não é celebrado com presépio,  missa do galo, consoada, mas com diálogo, luz, reconciliação interior; o  “filho pródigo” evocado no final sugere que o verdadeiro Natal acontece no retorno interior, não no espaço geográfico.

(v) Linguagem e estilo: prosa lírica, pausada, de grande serenidade; uso simbólico da lua: luz progressiva, paciência, revelação; léxico simples, mas carregado de densidade moral; diálogo com tom quase parabólico, aproximando o texto de uma narrativa sapiencial.

A oralidade africana e o pensamento filosófico europeu fundem-se num discurso híbrido, reflexo da própria identidade do autor.

(vi) Sentido ideológico e legado: “Um conto de Natal” é um manifesto humanista disfarçado de narrativa; uma defesa da dignidade humana universal; um exemplo claro da literatura luso-africana que questiona o olhar colonial sem romper com a língua e a idiossincrasia portuguesas.

O conto antecipa valores que hoje associamos ao diálogo intercultural, à convivência religiosa, à crítica do eurocentrismo, à denúncia do racismo e do supremacismo ("Aquele que só ama os que pensam como ele, não ama os outros, antes se ama a si próprio.") 

(vii) Conclusão

Este conto confirma Artur Augusto Silva  (infelizmente falecido há muito) como um escritor de consciência ética profunda, que utiliza a literatura não para impor verdades, mas para escutar, ouvir e conhecer o outro, meditar e reconciliar.

O Natal, aqui, acontece sob a lua africana, e a sua mensagem é clara: a fé verdadeira manifesta-se no respeito pelo outro e na humildade perante a diversidade (humana, cultural, espiritual) do mundo.  

 (Pesquisa: LG + IA/ ChatGPT)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG) 
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Notas de L.G.


(**) 15 de junho de 2005 > Guiné 63/74 - P57: O Cherno Rachide, de Aldeia Formosa (aliás, Quebo) (Luís Graça)

É um apontamento do meu diário sobre esta figura "controversa", o Cherno Rachid(e), que visitou Bambadinca, já estava lá eu há menos de 6 meses...Há algumas imprecisóes minhas,., fruto da minha igniorància na época: 

(i) é  "a autoridade máxima do Islão na Guiné";

(ii) é "o chefe ideológico (e não apenas religioso e espiritual) da casta feudal que se aliou ao colonialismo português contra o movimento nacionalista de libertação. (...)

O Cherno Baldé desmente-me: afinal, o islamismo na Guiné era multricéfalo.

(...) E, ao contrário do que muitos militares portugueses da época pensavam, ele nunca foi um agente duplo, era sim um prestigiado sábio muçulmano, versado em letras corânicas, entre outros conhecimentos esotéricos.

 Assim como não era o chefe hierárquico de nenhuma comunidade de religiosos, como acontece em outras confissões religiosas, pois nesta religião existe uma reconhecida descentralização que faz de cada comunidade e de cada mesquita uma entidade quase autónoma, sendo que é a força da sua dinâmica em movimento em permanência, assim como é a sua grande fraqueza enquanto entidade que deveria ser unida e coesa no seu todo, o que não acontece no seu caso, dai a diversidade e pluralidade nas tomadas de decisões que muitas vezes a afetam e dividem, contrariamente a muitas outras confissões monoteístas.

Dizem que o Cherno Rachide morreu em 1973 para não assistir ao advento da independência com o PAIGC como poder dominante no país. Sorte foi a sua que teve essa visão reservada só aos sábios e visionários, também eu, se tivesse dom e essa capacidade, preferiria morrer a assistir a essa "heresia" que, na Guiné-Bissau, chamaram de libertação nacional.

Liberdade teve o grande Cherno Rachide que preferiu partir desta para melhor para não ter que aturar com a brutalidade do partido "libertador". E foi um bom amigo do General Spinola, embora a sua familia fosse originária do Futa-Djalon. (...)

 6 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26891: S(C)em Comentários (71): Liberdade teve o grande Cherno Rachide que preferiu partir desta para melhor para não ter que aturar com a brutalidade do partido "libertador" (Cherno Baldé, Bissau)