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Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) em abril de 1972. Foto: Luís Dias (2011) |
1. Cristina Allen, que vivia em Lisboa, onde era professora, viajou para Bissau em 15/4/1970 para se casar. A elebração, católica, foi no dia seguinte, na catedral de Bissau, numa cerimónia simples, mas os seus amigos e familiares em Lisboa estariam longe de imaginar que sua "lua de mel" seria passada a visitar o noivo, Mário Beja Santos, no hospital... aonde Spínola ia também todos os dias de manhã inteirar-se do estado de saúde dos militares internados (*)...
Quatro dias depois, a 20/4/1970, dá-se no Pelundo, no coração do chão manjaco, o chamado "massacre dos três majores". Spínola perde 3 dos seus melhores oficiais superiores (referência aos "três majores" do CAOP1, com sede em Teixeira Pinto) que estavam a negociar a rendição de forças do PAIGC na região, diretamente com o cmdt do PAIGC, André Gomes... Dizem que Spínola chorou, pela segunda vez, no CTIG: a primeira terá sido em 6/2/1969, em Cheche, na tragédia do Corubal.
Desarmada, toda a delegação portuguesa foi chacinada sem dó nem piedade, quando a direção do PAIGC em Conacri tomou conhecimento das negociações interpretadas como tentativa de deserção ou rendição... Um crime, de resto, inqualificável, cobarde. vil, gratuito, cuja autoria moral continua a manchar a memória de Amílcar Cabral, passado mais de meio século.
Desarmada, toda a delegação portuguesa foi chacinada sem dó nem piedade, quando a direção do PAIGC em Conacri tomou conhecimento das negociações interpretadas como tentativa de deserção ou rendição... Um crime, de resto, inqualificável, cobarde. vil, gratuito, cuja autoria moral continua a manchar a memória de Amílcar Cabral, passado mais de meio século.
"Amílcar Cbaral: (...) Este acto foi um acto de grande consciência política e um acto de independência. Foi um acto de grande acção e de capacidade dos nossos camaradas do Norte. É a primeira vez que numa luta de libertação
nacional se mata assim três majores, três oficiais
superiores que, nas condições da nossa luta,
equivale à morte de generais. (...).
Citação: (1970-1970), "Acta informal das reuniões do Conselho de Guerra em Conakry", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_34125 (2026-5-14)
Spínola, cuja presença chegou a estar prevista (a par do 'cmdt' da guerrilha na região de Canchungo, o André Pedro Gomes), foi, à última hora, desaconselhado a comparecer, pelo ten-cor CEM Pedro Alexandre Gomes Cardoso, Secretário-Geral da Província, diz o seu biógrafo.
O que teria acontecido se ele fosse preso ou pura e simplesmente chacinado, como aconteceu a toda a equipa (os 3 majores, Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva ,
O que teria acontecido se ele fosse preso ou pura e simplesmente chacinado, como aconteceu a toda a equipa (os 3 majores, Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva ,
o alferes João Mosca, e mais dois 2 guineenses, guias) ?
É uma trágica efeméride: já lá vão 56 anos...
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Cristina Allen ( |
2. Escreveu Cristina Allen:
(...) Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”
Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.
Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.
E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.
Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...)
3. Recorde-se o que disse Luís Cabral, no seu triste exílio de Lisboa, a José Manuel Barroso (em enytreviosta publicada no "Diário de Notícias" de 11 de Setembro de 2000), sobre a leitura política destes trágicos acontecimentos feita pela cúpula do PAIGC:
"[ ... ] Essa ação dos majores visava a rendição das nossas tropas ... Nós controlámo-la desde o princípio, desde os primeiros contactos. O objetivo era prender Spínola. Se o prendermos, a guerra acaba na Guiné, dizíamos. Mas ele não apareceu no dia em que devia assistir à rendição
das nossas tropas. Foi uma operação montada com o conhecimento da direção máxima do partido e com o controlo dos responsáveis da área.
[... ] O problema era prender os majores naquela área de movimentação extremamente difícil e retirá-los de uma zona minada [... ]. Uma decisão política [... ] Eu lamentei-o sempre, porque no quadro da nossa conceção das coisas, e particularmente da do Amílcar, se tivessemos tido meios para prender os homens, tinha tido um efeito muito grande. Mas o sucesso seria de facto ter o General. Sem ele o risco era muito grande." (...)
4. A pergunta "O que teria acontecido se..." entra no domínio da história contrafactual, interessante, mas sempre especulativa. Ainda assim, dá para explorar cenários plausíveis com base no contexto de 1970.
Primeiro, o contexto: em abril de 1970, António de Spínola era simultaneamente governador e comandante-chefe na Guiné, uma figura central na tentativa de combinar ação militar com abertura política. que abrisse o caminho para o fim da guetrra. O episódio de Pelundo (o chamado “massacre dos três majores"), teve um impacto forte porque atingiu precisamente essa estratégia de contactos e negociações locais para aliciar combatentes do PAIGC a "desertar" e a integrar-se nas Forças Armadas Portuguesas.
Se o gen Spínola tivesse ido a esse encontrpo fatídico e sido morto ou capturado pelo PAIGC, há três níveis de consequências a considerar:
(i) No plano imediato (Guiné, 1970)
A perda de Spínola teria sido um choque enorme para o dispositivo português, tanto entre as tropas metropolitanas como entre as do recrutamento local. Haveria uma tremenda perda de liderança militar. O moral das tropas, já de si fragilizado, seria ainda mais enfraquecido.
Spínola era o "homem forte" e carismático da Guiné, o rosto de uma linha de ação que tentava sair do impasse militar clássico, uma figura central na estratégia portuguesa. Era o "homem grande de Bissau". A sua morte ou captura teria sido um golpe moral e estratégico devastador para as forças portuguesas, precipitando outros acontecimentos, tão ou mais dramáticos, como um possível golpe de Estado, da extrema direita do regime, derrubando o Marcelo Caetano,
(ii) Reação do regime
O Estado Novo, já sob pressão interna e sobretudo internacional, teria de lidar com a perda do seu general mais mediático. A prisão ou a morte de Spínola poderia ter levado a uma escalada de violência ou, pelo contrário, a uma revisão mais rápida (e talvez atabalhoada e precipitada) da política colonial.
A guerra não iria acabar, contrariamente ao desejo do PAIGC. O mais provável seria um endurecimento rápido do conflito: menos abertura a contactos, mais operações de retaliação, e um regresso a uma lógica puramente militar. Isso poderia ter agravado ainda mais a violência no terreno.
Mas seria pouco provável que tivesse sido planeada e executada a Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, em 22 de novembro de 1970). E o Amilcar Cabral não teria sido assassinado...
(iii) No plano político em Portugal
Aqui é que o efeito poderia ter sido decisivo. Spínola viria a ganhar projeção nacional sobretudo após publicar o livro "Portugal e o Futuro" (em fevereiro de 1974), onde questiona a viabilidade da guerra. Mas ele já tinha visibilidade internacional (podendo até dizer-se que tinha alguma "boa imprensa").
Sem ele, esse “choque intelectual” dentro do regime teria sido mais fraco ou mais tardio. Outros militares pensavam de forma semelhante, mas poucos tinham o mesmo peso simbólico e político-militar, com exceção talvez de Kaulza de Arriaga.
Spínola estava a implementar, com sucesso e apreensão de Amílcar Cabral, a política de "Por uma Guiné melhor", focada em operações especiais e na conquista de "corações e mentes". Um em cada três combatentes já era guineense.
A sua morte teria provavelmente levado a um comando mais ortodoxo e ineficaz, facilitando o avanço do PAIGC, como aconteceu com Bettencourt Rodrigues (set 1973/ abr 1974), que veio para a Guiné apenas com a missão de "aguentar a situação", coincidindo com a proclamação unilateral da indepência em 24 de setembro de 1973, a maior cartada de génio diplomático arquitetada ainda em vida pelo Amílcar Cabral.
Com o desaparecimento de Spínola, o PAIGC (çleia-se: Amílcar Cabaral) deixaria de ter um um rival à altura, acelerando o reconhecimento internacional da independência da Guiné-Bissau talvez um ano ou uns meses mais cedo. E Amílcar Cabral teria assistido pessoalmente a esse momento histórico que o consagria como o "pai-fundador" da Pátria. Quanto ao futuro da unidade Guiné e Cabo Verde, seria difícil avançar com cenários. O "ajuste de contas" far-se-ia mais tarde...
Com o desaparecimento de Spínola, o PAIGC (çleia-se: Amílcar Cabaral) deixaria de ter um um rival à altura, acelerando o reconhecimento internacional da independência da Guiné-Bissau talvez um ano ou uns meses mais cedo. E Amílcar Cabral teria assistido pessoalmente a esse momento histórico que o consagria como o "pai-fundador" da Pátria. Quanto ao futuro da unidade Guiné e Cabo Verde, seria difícil avançar com cenários. O "ajuste de contas" far-se-ia mais tarde...
(iv) No caminho para o 25 de Abril
Spínola era uma figura controversa, mas também um símbolo de resistência e um actor-chave de um possível (e desejável) mudança dentro do regime. A sua morte poderia ter radicalizado posições, tanto entre os militares como na sociedade civil.
Se Spínola tivesse morrido em 1970, o Movimento das Forças Armadas (MFA) teria que saber procurar e encontrar outro general com o oseu estatuto, tarefa que não era fácil dadpo seu protagionismo na Guiné, e o seu prestígio, essencial para aceitar a rendição (incondicional) do regime de Marcello Caetano.
Com o Spínola preso ou morto, o próprio desfecho do Revolução dos Cravos poderia ter sido diferente: não necessariamente inexistente, mas com outra configuração. Ele acabou por ser uma figura de compromisso no momento inicial (rosto da Junta de Salvação Nacional, Presidente da República após o golpe).
Não sendo sequer do MFA (Movimento das Forças Armadas), tendo apenas emprestado ao movimento dos capitães o seu pretsígio, o seu rosto, a sua voz, os seus galões, ninguém pode negar que Spínola teve um papel importante no próprio dia 25 de Abril de 1974.
Sem ele, o processo de descolonização e a própria revolução poderiam ter tomado rumos muito diferentes, possivelmente mais violentos, mais moderados ou mais lentos. Sem essa figura, o processo poderia ter sido mais fechado e exclusivamente conduzido por jovens capitães, comandantes operacionais, ou, pelo contrário, mais turbulento, por falta de uma “ponte” com outros setores político-militares do regime.
Este é o ponto mais crítico. Spínola não era apenas um general com prestígio ganho no campo de batalha; tornou-se ele próprio um intérpretes de uma das "soluções políticas" para a guerra.
(v) Impacto na descolonização e efeito dominó
A presença ou ausência de Spínola poderia ter alterado o curso das negociações com o PAIGC. Se tivesse sido preso ou morto, o PAIGC poderia ter ganho mais força, sobretudo moral e até militar, acelerando a independência (unilateral) do território e o seu reconhecimento nas instâncias internacionais (ONU, OUA, países não-alinhados, países comunistas e até nalguns países ocidentais, com os Norte da Europa).
Se Spínola tivesse morrido ou sido preso em 20 abril de 1970, a descolonização de Angola e Moçambique poderia ter sido ainda mais caótica e sangrenta. Spínola defendia uma transição lenta e faseada para a independência, o que o colocou em conflito com o MFA após o 25 de Abril. Sem ele, é possível que a descolonização tivesse sido entregue a forças políticas mais radicais ainda mais cedo, possivelmente resultando num processo diferente.
De qualquer modo, a recusa em prosseguir a guerra estava cada vez arreigada entre os jovens. A "guerra do ultramar" era impopular. O slogan "Nem mais um soldado para as colónias" teve um efeito preverso do próprio processo de descolonização e de transição pacífica dos vários territórios ultramarios para a independência.
Conclusão: A ironia da História (o "Efeito Borboleta")
De qualquer modo, não podemos empolar o papel do indivíduo na História: a guerra colonial (nomeadamente na Guiné) estava num impasse estrutural, com grande desgaste militar, económico, humano e moral. Mesmo sem Spínola, dificilmente o regime escaparia a uma crise profunda. A história não dependia só dele.
Se tivesse sido morto no Pelundo em 20/4/1970, provavelmente teríamos:
O facto de Spínola não ter estado presente no Pelundo na sangrenta segunda feira, é um daqueles "acidentes" históricos que mudam tudo. É a chamada "ironia da História".
- um PAIGC ainda mais duro, triunfalista, arrogante, mais intransigente e menos permeável a negociações;
- um regime em Lisboa sem uma voz interna, heterodoxa, tão visível a defender a necessidade de mudança;
- um 25 de Abril possivelmente diferente noo conteúdo e na forma, mas inevitável em qualquer dos casos.
O facto de Spínola não ter estado presente no Pelundo na sangrenta segunda feira, é um daqueles "acidentes" históricos que mudam tudo. É a chamada "ironia da História".
A sua sobrevivência permitiu que, anos mais tarde, tivesse um papel também de relevo (mesmo que controverso) na transição democrática portuguesa e na descolonização. Se tivesse morrido, a história de Portugal, da Guiné-Bissau e de toda a África lusófona poderia ter sido radicalmente diferente.
A história é feita de pequenos momentos e decisões que, em retrospectiva, parecem quase inevitáveis. Mas, na altura, são apenas escolhas, acasos, encontros e desencontros. Impossível saber se a história teria encontrado outro caminho. O "não ir" ao Pelundo, à última da hora (por pressão do secretário geral da Porvíncia) foi, sem dúvida, um dos acasos mais decisivos do século XX português.
A história é feita de pequenos momentos e decisões que, em retrospectiva, parecem quase inevitáveis. Mas, na altura, são apenas escolhas, acasos, encontros e desencontros. Impossível saber se a história teria encontrado outro caminho. O "não ir" ao Pelundo, à última da hora (por pressão do secretário geral da Porvíncia) foi, sem dúvida, um dos acasos mais decisivos do século XX português.
Sem ele, o 25 de abril de 1974 poderia ter ocorrido na mesma, nessa data ou noutra, mas a Junta de Salvação Nacional (ou o seu equivalente) teria tido um rosto e uma orientação político.ideológica possivelmente diferentes.
A sobrevivência de Spínola permitiu que ele se tornasse o general (e chegasse depois a marechal), juntamente com Costa Gomes, que esteve no 25 de Abril, mesmo discordando de partes do Programa do MFA. Ironicamente, o massacre do Pelundo, ao matar outros oficiais intelectualmente brilhantes, e poupá-lo, a ele, fê-lo perceber que a guerra era inviável, e isso deve tê-lo levado (a ele e aos seus "indefectíveis") a aprofundar a procura de uma solução política que acabaria por culminar no 16 de março e depois no 25 de abril, ou seja, no derrube do regime que ele servia.
E há um último ponto, mais próximo do texto da Cristina: a dimensão trágica que ela lhe atribui talvez ficasse ainda mais “fechada”: Spínola morreria como "mártir da Pátria", quiçá como "herói" (nunca como "vilão"), impoluto, nunca como figura contraditória entre a guerra e a tentativa de saída política. Foi essa ambiguidade que o tornou tão “inquietante” (quanto "fascinante") na memória de quem o observou de perto, como a Cristina e aqueles de nós que serviram sob o seu comando.
(Pesquisa: LG + CECA + Bibliografia + IA (ChatGPT / OPenAI | Le Chat Mistral AI)
E há um último ponto, mais próximo do texto da Cristina: a dimensão trágica que ela lhe atribui talvez ficasse ainda mais “fechada”: Spínola morreria como "mártir da Pátria", quiçá como "herói" (nunca como "vilão"), impoluto, nunca como figura contraditória entre a guerra e a tentativa de saída política. Foi essa ambiguidade que o tornou tão “inquietante” (quanto "fascinante") na memória de quem o observou de perto, como a Cristina e aqueles de nós que serviram sob o seu comando.
(Pesquisa: LG + CECA + Bibliografia + IA (ChatGPT / OPenAI | Le Chat Mistral AI)
(Condensação, revisão/fixação de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:
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Nota do editor LG:
/*) Vd. poste de 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)
Último poste da série > 8de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27805: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (3): O beijo, tardio, da Pátria: para o António Lobo Antunes que ontem se despediu da Terra da Alegria...

