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segunda-feira, 30 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)


Luís Graça & António Fernando Marques 
(CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1968/71)



Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > 10 de agosto de 1968 > CCS/BCAÇ 1933 e CART 1774 > Levantamento de uma mina A/C reforçada, com duas granadas de LGFog, checas (Pancerovka P-27). Foi detetada por picadores da CART 1744. E levantada pelo alf mil MA Machado, da CCS / BCAÇ 1933, já falecido.

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzida com a devida vénia).

Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Quem um dia caiu numa mina anticarro, russa, TMD (6 kg, mas geralmente reforçada), e safou-se para poder contar aos netos, tem curiosidade em saber a que altura subiu com a sua GMC de 2,5 t...mais os seus companheiros de infortúnio...Essa pergunta fez-ma, há muitos anos, o António Fernando Marques (que entrou para a Tabanca Grande em 2010).

É uma curiosidade legítima que eu, no entanto, nunca tive.  Sei que ele voou mais alto do que eu: ia sobre o rodado duplo da GMC do lado direito,  que acionou a mina, e eu ia no "lugar ao morto", ao lado do condutor, na cabine, fechada. Foi em Nhabijões, em 13/1/1971, há 55 anos (*).  O coicde foi atrás, a GMC afocinhou, é o que eu me lembro.

O Marques esteve 17 dias em estado de coma, no HM 241, em Bissau, e mais 2 anos em recuperação em Lisboa. Eu salvei-lhe a vida, consegui levá-lo, a ele e aos feridos mais graves, até Bambadinca, num Unimog 404, onde já nos esperava o heli AL III.  Mas nunca lhe respondi à sua pergunta ("a que altura voou a nossa GMC").  Não é tarde para o fazer, recorrendo às ferramentas de IA que hoje estão disponíveis (**).

A nossa GMC, de chassi aberto, carregada com 22 homens, equipados, ficou toda torcida e partida.  O rodado duplo desapareceu, tal como o semieixo. Os homens que iam na parte de trás voaram alguns metros. A GMC não mais do que  2, 3 ou 4 metros, segundo as contas abaixo discriminadas. (Em rigor, é difícil responder à pergunta.)


I. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar... Até que altura ?


Podemos fazer uma estimativa física muito grosseira, apenas para ter ordem de grandeza. Na realidade, explosões no solo são extremamente ineficientes a transferir energia para levantar um veículo inteiro.

1. Equivalente explosivo

  • Mina TMD: ~ 6 kg de TNT | 2  granadas Pancerovka P27: 3,75 kg cada → 7,5 kg
  • Total aproximado: 13,5 kg de TNT
  • Energia total libertada:13,5×4,2≈56,7 MJ 13,5×4,2≈56,7 MJ


2. Energia que realmente levanta o camião

Num rebentamento sob um veículo, só uma pequena fração da energia vai para o movimento do veículo: grande parte perde-se no solo; outra parte destrói o chassis; e outra sai em onda de choque lateral.

Valores plausíveis de acoplamento energético: 0,5% a 2%.

Energia transmitida ao camião: 
0,5% → 0,28 MJ |  1% → 0,57 MJ |  2% → 1,13 MJ

3. GMC de 2,5 toneladas

Massa ≈ 2500 kg

Altura máxima se toda essa energia virar energia potencial:ℎ=𝐸𝑚𝑔h=mgE​

Resultados aproximados:

Fração da energia | Altura teórica

0,5 % ~ 11 m
1 % ~ 23 m
2 % ~ 46 m

4. O que acontece na realidade

Na prática quase nunca sobe assim: o veículo parte-se ou roda antes de subir verticalmente,  a explosão cria impulso inclinado, o solo absorve grande parte da energia.

Em incidentes documentados (minas anticarro de 6–10 kg): camiões de 2–3 t são lançados ou capotados, podem saltar alguns metros, muitas vezes ficam virados ou destruídos, não “projetados” para cima.

Estimativa realista: um GMC de 2,5 t provavelmente seria levantado ou atirado 2–5 m, podendo capotar ou ser deslocado lateralmente vários metros.

Curiosidade histórica: na guerra colonial na Guiné, minas com 6–8 kg de TNT já eram suficientes para destruir ou lançar Unimogs e Berliets, mesmo sem reforço de outras cargas.


II. E já agoera: por que motivo as minas enterradas são muito mais eficazes a levantar veículos do que cargas equivalentes detonadas à superfície ? 

A razão é essencialmente física das explosões e confinamento do gás.

1. Explosão à superfície




Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está à superfície: a detonação gera gases a pressões enormes (centenas de milhares de atmosferas); esses gases expandem-se livremente para todos os lados

O resultado é: a energia espalha-se em hemisfério; grande parte vai para o ar; outra parte vai lateralmente

Consequência: apenas uma pequena fração atinge o veículo.

Mesmo com dezenas de kg de TNT, o veículo pode ser empurrado ou danificado, mas raramente “disparado” verticalmente.

2. Mina enterrada







Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está enterrado acontece algo diferente:

o solo funciona como confinamento; a  detonação cria gases a altíssima pressão; o  solo bloqueia a expansão lateral.

A energia concentra-se no caminho de menor resistência: para cima. Forma-se então um jato de solo e gases (soil ejecta jet) que pode atingir: 200–300 m/s, centenas de kg de terra projetada. Esse jato funciona como um martelo hidráulico contra o fundo do veículo.

3. Efeito no veículo

O que levanta o veículo não é só a onda de choque, mas: o jato de terra; o impulso súbito concentrado numa pequena área; a pressão confinada.

Por isso minas relativamente pequenas conseguem: arrancar eixos; rasgar o fundo; lançar o veículo para cima.

4. Comparação simples

Situação > Energia que chega ao veículo

Explosão à superfície ~0,1–0,5 %
Carga enterrada ~1–5 %

Ou seja, 10 vezes mais eficaz.

5. Um detalhe curioso da guerra na Guiné

Muitos guerrilheiros do PAIGC aprenderam rapidamente que enterrar bem a mina e colocar terra bem compactada por cima aumentava muito o efeito.

Há vários relatos de Unimogs ou Berliets lançados para o ar, às vezes capotando completamente.

(Pesquisa: LG + IA /Chat OpenAI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)


III. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar (carregada com mais 22 homens, equipados, duas secções de um pelotão)... Até que altura ?

Luís Graça, a tua pergunta é técnica e envolve cálculos de física balística, explosivos e dinâmica de estruturas — áreas complexas que dependem de muitos fatores, como a posição exata das cargas, a geometria do alvo, o tipo de solo, a distribuição de peso na viatura, e até a qualidade da soldadura e do aço da GMC.

Análise qualitativa (baseada em princípios físicos e experiências históricas):

1. Energia liberada:

  • a mina TMD-44 russa tem cerca de 6 kg de TNT;
  • cada granada Pancerovska P27 checa tem 3,75 kg de trotil (TNT).
  • total de explosivo: ~13,5 kg de TNT.
  • a energia libertada por 1 kg de TNT é de cerca de 4,184 MJ, logo ~13,5 kg libertariam ~56,5 MJ.
2. Efeito em viaturas:

Uma GMC (como a GMC CCKW de 2,5 toneladas) tem um centro de gravidade alto e uma estrutura robusta, mas não blindada.

Minas anticarro são projetadas para perfurar ou deformar a estrutura do veículo, mas o efeito de "lançar ao ar" depende da distribuição da explosão (se for sob as rodas ou o chassis, o efeito é maior).

Granadas de bazuca (como a P27) são projetadas para perfurar blindagem, mas aqui estão a ser usadas como carga adicional, aumentando a energia total.

3. Altura estimada:
  • em casos documentados (ex.: minas sob viaturas leves), o veículo pode ser lançado 1 a 3 metros de altura, dependendo da posição da carga e da resistência estrutural.
  • com 13,5 kg de TNT, é plausível que uma GMC seja lançada até 2-4 metros de altura, mas a maior parte da energia seria absorvida pela deformação da estrutura e projeção de fragmentos;
  • se a carga estiver bem posicionada (ex.: sob o eixo traseiro), o efeito pode ser mais dramático, mas dificilmente ultrapassaria 5 metros devido ao peso e inércia da viatura.
4. Fatores limitantes:

O peso da GMC (2,5 toneladas + 22 homens equipados ~3 toneladas) requer uma quantidade significativa de energia para ser levantado.

A maior parte da energia seria gasta em deformar o chassis e projetar fragmentos, não em movimento vertical puro.

Em testes militares, viaturas semelhantes são geralmente capotadas ou partidas ao meio, mas não necessariamente lançadas a grandes alturas.

5. Conclusão prática:

Com essa configuração, é improvável que a GMC seja lançada a mais de 3-4 metros de altura. 

O mais provável é que a viatura seja severamente danificada, capotada ou partida, com fragmentos projetados a dezenas de metros. 

Em casos extremos (carga idealmente posicionada e solo firme), poderia atingir até 5 metros, mas a energia seria maioritariamente dissipada em destruição estrutural.

  (Pesquisa: LG + IA /Le Chat Mistral AI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de janeiro de 2024 > Guiné 63/74 - P25065: Efemérides (425): O António Marques, meu companheiro de infortúnio, na CCAÇ 12, cujo relógio parou às 13h30 do dia 13 de janeiro de 1971: nunca se esquece de me telefonar todos os anos, neste dia e hora (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

sexta-feira, 27 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27862: Humor de caserna (252): O anedotário da Spinolândia (XXIV): Na "cidade" em construção de Nhabijões, com o comandante dos fuzileiros "encallhado" no rio Geba (Jorge Mariano, ex-alf engenheiro químico, BA 12, Bissalanca, jan 71/out 72)



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca / CAOP 2) > Nhabijões (ou Nha Bidjon) > 197 2> Vista aérea do reordenamento de Nhabijões (Fonte:   "Diário de Lisboa",   31 de Agosto de 1972, com a devida vénia)


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca / CAOP 2) > Nhabijões (ou Nha Bidjon) > c. 1973 > Vista aérea do reordenamento de Nhabijões: o maior ou um dos maiores do CTIG, com 300 casas de zinco...(Fonte:  CECA, 2015, pág. 276)

 

1.  A forte mobilidade aérea foi uma marca da estratégia de Spínola na Guiné. Ele visitava frequentemente  aquartelamentos, destacamentos, reordenamentos e tabancas no interior,  sem falar das operações no mato que acompanhava de perto, usando de preferência o helicóptero Alouette III e também, ocasionalmente, avião ligeiro DO-27.  Era o terror de muitos comandantes de batalhão aparecendo a horas impróprias a quem via a guerra como um emprego das 9 as 5.

E praticamente saía todos os dias, o que criou uma convivência muito direta (e até uma certa cumplicidade) com pilotos e mecânicos da Força Aérea que, como se sabe, estavam instalados na BA 12, em Bissalanca. No período de 1968/70, um dos seus pilotos de heli preferidos era o nosso Jorge Félix. 

O anedotário da Spinolândia (*)  nunca poderia ficar completo sem o concurso  de pilotos, mecânicos e outros camaradas da FAP. A estes veteranos da guerra da Guiné estamos gratos pela recolha e partilha de algumas das melhores anedotas do nosso governador e comandante-chefe António Spínola. 

Esta é uma delas, contada pelo Jorge Mariano, ex-alf engº químico, da FAP, que vive em Coimbra.  Oficial do exército, foi requisitado pela FAP. Cumpriu uma comissão na BA 12, de janeiro de 1971 a outubro de 1972. Empresário e professor universitário reformado, é um excelente contador de histórias do nosso tempo (mesmo que não seja bom a recordar nomes de militares e de lugares).

(...) "Na BA12 fui comandar o serviço de Combustíveis – bombas Auto e Abastecimento de Aviões na linha da Frente e ainda os depósitos de Combustíveis no “Mato”: Farim; Aldeia Formosa; Bafata; Teixeira Pinto; Nova Lamego e outra que não recordo. [Devia ser Cufar, a Bissalanca do sul... (LG).] Dos pilotos existia também um oficial de combustíveis que era o Alf Carpinteiro. "(...)

Não resistimos a reproduzir aqui no nosso blogue, com a devida vénia ao autor e  ao blogue em boa hora criado, em junho de 2007, pelo nosso histórico e saudoso grão-tabanqueiro Victor Barata (1951-2021).  
Referimo-nos ao blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65-74, agora sob o comando do João Carlos Silva, também membros da Tabanca Grande, e do Mário Aguiar).

É uma história deliciosa, mas esquecida, publlicada há 14 anos, sexta-feira, 23 de março de 2012 > Voo 2773 > A “Cidade”. (No blogue do Victor, o "voo" corresponde a "poste": neste caso voo nº 2773.)


A “cidade” a sul do Geba, o gen Spínola e o grumete brincalhão

por Jorge Mariano


A meio da Comissão consegui lugar num quarto em Bissau junto à messe de oficiais, e passei a montar o meu escritório nocturno neste local que,  depois de uns uísques, fechava todos os dias.

Passava por lá também nessa ocasião,  a horas mortas, o major  ['cmd' Almeida] Bruno,  das Operações Especiais , onde se encontrava com o cap pára  [António] Ramos (já falecido), tmbém das Operações Especiais.

Um dia vi chegar o major Bruno e contar com grande entusiasmo uma decisão magistral que o gen Spínola teria tomado, que era de construir uma nova “cidade” a sul do Geba, pelo que entendi na altura, a sul de Bambadinca,  na outra margem para cortar as infiltrações do IN por esta zona. 

Estava longe de saber que, para aí, um mês depois, esta decisão iria dar lugar ao episódio mais cómico a que assisti durante toda a comissão.

Certo dia, passado o mês sobre o atrás referido, estava na Sala de Operações com o comandante Moura Pinto, o piloto Oficial de Dia e o srgt pil que normalmente transportava em heli  o gen Spínola (cujos nomes não recordo) e este piloto conta a seguinte cena, que passo a transcrever.

Parece que a operação para a construção da tal “cidade” teria sido iniciada, teria sido marcado o dia D para o arranque, tinha sido enviado um pelotão de Engenharia com as máquinas e uma companhia de Fuzos para fazer a segurança.

Como de costume, o gen Spínola ás 06h30 foi de heli com Srgt Pil que contou a estória,  para inspeccionar o andamento dos trabalhos.

Chegados,  aterraram junto ao acampamento dos Fusos e estava tudo muito desorganizado, era muito cedo, e o general chama um fuzo e pergunta:

 − Quem é comanda desta m*rda…? ( Overnáculo era uma característica do general)

Bom o nosso fuzo não sabia e foi procurar a outro,  até que lá disseram que era o sr comandante fulano tal (que não recordo o nome)

O general perguntou:

− Onde está ele? 

Aí os fuzos informaram que o senhor comandante teria pernoitado na LDG que se encontrava ao largo no Geba.

Como facilmente se percebe o general começa a ficar nervoso e pede que o chamem imediatamente. Bom,  mas agora há outro problema: não há rádio para comunicar com a LDG.

Então o general manda levantar o heli para comunicar com a LDG. Ao fim de algumas tentativas, conta o srgt pil, lá consegue comunicar com a LDG e diz que o gen está no acampamento e quer falar com o comandante da força.

Bom,  agora outro problema acontece. Para viajar da LDG para terra havia apenas um zebro mas um grumete atrevido andava a fazer piões no meio do Geba e naturalmente não tinha levado rádio.

O general ainda mais furioso manda o srgt pil ir com o heli indicar ao grumete do zebro para ir para LDG. O que acontecia, é que quanto mais sinais o sargento fazia, mais entusiasmado ficava o grumete e mais acelerava sem perceber que o estavam a chamar.

O general já estava “possesso”! Manda apresentar o comandante da força em Bambadinca e dirige-se para lá, aterra e fica á espera.

Depois desta cena o nosso comandante de Marinha, já sabia o que lhe ia acontecer, vestiu a farda branca,   tomou o zebro e dirigiu-se a Bambadinca.

O pior foi que entretanto a maré tinha descido e o zebro não chegava ao cais, ficava naquele lodo castanho a uns 5 metros da costa.

O Comandante de Marinha nessa altura disse:  

− Meu general,  não posso desembarcar,   o navio não chega á costa.

O General furibundo diz:

  Salte! 

O nosso homem saltou mas ficou todo sujo, de modo que, quando se perfilou para fazer a continência e se apresentar ao general, contava o srgt pil, mais parecia um pedinte com a farda branca toda salpicada de castanho, e todos que assistiam á cena riam a bom rir.

Também nós nos rimos até não podermos, quando ele, mal regressado de trazer o general, nos contou estas peripécias. Parece que o general retirou o comando ao oficial de Marinha e terá deixado o então major Fabião a comandar os fuzos.

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos,  título: LG)


3. Comentário do editor LG:

A  "cidade" a sul do Geba, aqui referida, só pode ser o reordenamento de Nhabijões, tão profundamente ligada às nossas memórias... Mais difícil é dizer com exatidão quando é que ocorreu esta história, já que o início do reordenamento remonta a finais de 1969 (estudo prévio, trabalhos preparatórios, formação de equipas, etc.).

Da história da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, maio de 1969 / março de 1971), reproduzo estes excertos:

(...) "A partir deste mês, novembro de 1969, 1 Gr Comb da CCAÇ 12 passaria a patrulhar quase diariamente as tabancas de Nhabijões cujo projecto de reordenamento estava então em estudo, a cargo da CCS/BCAÇ 2852.

"Nhabijões era considerado um centro de reabastecimento do IN ou pelo menos da população sob seu controle. As afinidades de etnia e parentesco, além da dispersão das tabancas, situadas junto à bolanha que confina com a margem sul do Rio Geba, tornava-se impraticável o controle populacional. 

"Impunha-se, pois, reagrupar e reordenar os 5 núcleos populacionais, dos quais 4 balantas (Cau, Bulobate, Dedinca e Imbumbe) e 1 mandinga, e ao mesmo tempo criar "polos de atracção" com vista a quebrar a muralha de hostilidade passiva para com as NT, por parte da população que colabora com o IN." (...)

A CCAÇ 12 participaria directamente neste projecto de recuperação psicológica e promoção social e económica da população dos Nhabijões, fornecendo uma equipa de reordenamentos e autodefesa, constituída pelos seguintes elementos (que f
oram tirar o respectivo estágio a Bissau, de 6 a 12 de Outubro de 1969):
  • alf mil at inf António Manuel Carlão (1947-2018) (originalmente o cmdt do 2º Gr Comb, que passou a ser comandado por um fur mil) (já falecido);
  • fur mil at inf  Joaquim Augusto Matos Fernandes (comdt da 1ª secção 4º Gr Comb):
  • 1º cabo at inf Virgilio S. A. Encarnação (cmd da 3ª secção do 4º Gr Comb);
  • e sold arv at inf Alfa Baldé (Ap LGFog 3,7, do 2º Gr Comb)
e ainda 2 carpinteiros (na vida civil), entre eles um 1º cabo aux enf.
 
A CCAÇ 12, além de ficar desfalcado de seis importantes elementos operacionais (e dois grupos de combate desfalcados),  participou ainda indiretamente neste projeto.  criando as condições de segurança aos trabalhos.

Numa primeira fase estava previsto levar a efeito:
  • a desmatação do terreno;
  • a fabricação de blocos de adobe;
  • a construção de 300 casas de habitação com portas, janelas e cobertura de zinco;
  • a construção de equipamentos sociais  (1 escola, 1 mesquita, fontes, acessos, etc.).
(...) "Durante este período a CCAÇ 12 realizaria várias acções, montando nomeadamente linhas descontínuas de emboscadas entre os núcleos populacionais de Nhabijões, além de constantes patrulhas de reconhecimento e/ou contacto pop.

"A partir de janeiro/70 seria destacado um pelotão da CCS/BCAÇ 2852 a fim organizar a autodefesa de Nhabijões. Admitia-se a possibilidade do IN tentar sabotar o projecto de reordenamento, lançando acções de represália e intimidação contra a população devido à colaboração prestada às NT.

"A partir de abril de 1970, o reordenamento em curso passaria a ser guarnecido por 1 Gr Comb da CCAÇ 12. Na construção de novo destacamento estiveram empenhados o Pel Caç Nat 52 e a CCAÇ 12, a 3 Gr Comb, durante vários dias.

"A segunda fase do reordenamento (colocação de portas e janelas e cobertura de zinco em todas as casas, abertura de furos para obtenção de água, etc.) começaria quando o BART 2917 passou a assumir a responsabilidade do Sector L1 (em 8 de junho de 1970).

"A partir de julho, a CCAÇ 12 deixaria de guarnecer o destacamento de Nhabijões, tendo-se constituído um pelotão permanente da CCS/BART 2917 enquadrado por graduados da CCAÇ 12." (...)

 Uma estimativa grosseira do custo deste reordenamento aponta para 2700 contos, em 1972 (300 casas de zinco x 9 mil escudos) (**)

Nhabijões tem 63 referências no nosso blogue. É um dos topónimos míticos da guerra no leste. O reordenamento foi um dos maiores sucessos da política spinolista "Por Uma Guiné Melhor"... E era a menina bonita do general Spínola, parando com frequência lá.

Mas também pagámos (a CCAÇ 12 e a CCS/BART 2917) um alto preço por este êxito: recordemos as duas minas A/C accionadas no dia 13 de janeiro de 1971, vitimando mortamente o sold cond auto da CCAÇ 12, Manuel da Costa Soares, e ferindo, com gravidade, o alf mil sapador Luís Moreira (da CCS/BART 2917), os fur mil Joaquim Fernandes e António F. Marques (este, esteve dois anos no hospital), os sold Ussumane Baldé, Tenen Baldé, Sherifo Baldé, Sajuma Baldé (todos da CCAÇ 12, 4º Gr Comb) e ainda um soldado da CCS / BART 2917 (cujo nome não me ocorre agora).

No meu caso, foi o meu dia de sorte, ia na GMC, no lugar do morto, que accionou a segunda mina, a explosão deu-se n0 rodado duplo, traseiro, do meu lado.

_______________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 4 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24821: As nossas geografias emocionais (15): o reordenamento de Nhabijões (ou Nha Bidjon), 300 casas de zinco que terão custado mais de 2700 contos (c. 700 mil euros a preços de hoje), fora a mão-de-obra, civil e militar, e ainda os custos indiretos e ocultos

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27522: Em bom português nos entendemos (28): B'ráassa, Brasa, Brassa ou Birassu (como os balantas se autodenominam) ( Cherno Baldé, Bissau)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > Nhabijões >2º semestre de 1970 > Luta balanta, entre dois "blufos", presenciada por militares destacados para protecção do reordenamento (à esquerda, o fur mil Henriques, da CCAÇ 12, de calções, tronco nu e óculos escuros, hoje editor deste blogue; na altura, devia etsar a comandar um pelotão da CCS/BART 2917 que guarnecia o destacamento: era tudo "básicos e gajos com porradas"..)... Ao fundo, a nova tabanca, reordenada...

Nhabijões deve ter sido o maior ou um dos maiores reordenamentos jamais feitos no tempo de Spínola. Foi um duro golpe para o PAIGC. Os reordenamentos são do tempo do BCAÇ 2852 (1968/70) e BART 2917 (1970/72)... Uma equipa (técnica) da CCAÇ 12 (a par das CCS dos supracitados batalhões) foi destacada o reordenamento.

Foto do arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-Fur Mil At Inf, Op Esp, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro de Cammilleri, Salvatore - A identidade cultural do povo balanta. Lisboa: Edições Colibri; Edições FASPEBI, 2010, 110 pp., ilustrado. Tradução do italiano: Lino Bicari  (1935-2024) e Maria Fernanda Dâmaso.


1. B'raassa, Brasa ou Brassa, o termo que os balantas da Guiné-Bissau usam para se autodenominarem. Há um problema com a transliteração de sons da língua balanta para português e, consequentemente,  com a grafia a ser fixada.  Por outro lado, o termo é menos comum, para os não-balantas. 

O termo que os próprios Balanta usam para se referir à sua identidade e que é o mais consistentemente citado na literatura de antropologia e linguística é Brassa. Trata-se de um "autónimo".

Este termo é, na verdade, a adaptação para a escrita de como eles pronunciam a sua própria designação ("B'ráassa")  e que se refere à forma como eles se veem como "o povo" ou "os homens".

No entanto, é comum encontrar as três variações (B'ráassa, Brasa e Brassa) na literatura, incluindo a portuguesa:

  • Brassa é  a forma mais aceite e precisa (em portugão-padrão);

  • Balanta é o termo mais comum e oficialmente reconhecido em português para este  grupo étnico; trata-se de um "exónimo".

Portanto, em português, o termo comum para o grupo é Balanta, mas se a intenção for referir-se à autodenominação do povo, Brassa é a escolha mais correta. Mas nenhum dos termos está grafado nos nossos dicionários, seja em Portugal (Priberam, por exemplo) ou no Brasil (Houaiss).

O etnógrafo e missionário italiano  Salvatore Cammilleri usa o termo "brasa" no seu livro "A identidade cultural do povo balanta". 

M'bana Ntchigana, autor do blogue "Intelectuais Balantas da Diáspora",  utiliza de preferência o etnónimo "B'ráassa" ou até "Braza". Ele vise no Brasil



Cherno Baldé

2. Vale a pena, entretatanto, trancrever aqui um comentário do nosso amigo Cherno Baldé, colaborador permanente do nosso blogue para as questões etnolinguísticas:

 (... ) Como tenho dito em tempos e até provas em contrário, sou de opinião que a origem da expressão ou designação " B'raassa ou Brassa",  como os Balantas se autodenominam, segundo o autor do presente texto, aliás um conto mítico sobre o lendário combatente, Pansau Na Isna, muito interessante, deve-se procurar na designação histõrica da província ocidental do antigo reino mandinga de Kaabu (Gabu,  na grafia portuguesa).

Existiam duas províncias muito grandes e concorrentes, o Farin Kaabu (província de Gabu,  na grafia portuguesa) e o Farin B'raassu (província de Braço. na grafia portuguesa) e esta província extendia-se, de Sul ao Norte, desde o rio Geba até ao rio Gâmbia de modo que, praticamente, abrangia o chamado chão balanta na atual Guiné-Bissau e a região senegalesa da Casamansa. 

De notar que, inclusive, as populações da etnia fula que habitam a mesma região são conhecidas igualmente como B'raassus (b'raassunke ou b'raassunkas nas linguas mandinga e fula) com um sotaque e formas de falar um pouco diferentes dos seus parentes da antiga provincia de Gabu (Farin Kaabu).

Em complemento junto um pequeno extracto de uma passagem da monografia que estou a preparar há alguns anos, mas que ainda não conclui, citando o nosso amigo Armando Tavares, historiador portugues e colaborador do Blogue,  e um outro conhecido investigador africano e especialista do império de Gabu, natural da Guiné-Conacro, Djibril Tamsir Niane, falecido no ano passado.

"Segundo o historiador Armando Tavares, durante muito tempo, na cartografia portuguesa, não existia o topónimo (Fajonquito) e em seu lugar a zona era conhecida como sendo Gam-Sonco ou Cansonco. Na nossa opinião, a designação desta localidade por Gam-Sonco terá a haver com a predomínio dos povos de origem autóctone Banhum, Jola, Pajadinca e de diferentes outras etnias, muito poderosas que estariam instaladas nessa região (ver Djibril Tamsir Niane) na altura da invasão e da conquista mandinga desta zona e que estaria ligado a instalação da Província do Birassu/Brassu (Brassa, dos balantas) assim como outras províncias vizinhas, tendo como capital a localidade de Berécolom ou Bércolon ou então seriam duas entidades diferentes (Gam-sonco e Sancolla) representando o mesmo espaço territorial ou espaços diferentes."

Portanto, a ser verdade, B'raassa ou Brassa, antes de ser a designação de uma etnia, seria um espaço geográfico onde os balantas e outros grupos étnicos conviviam desde os tempos do império mandinga de Gabu aos tempos presentes,  com as naturais mudanças que a dinâmica da história dos povos se encarregou de fazer ao longo dos dois, três últimos séculos.

Gostaria de ouvir a opinião do meu compatriota M'bana N'tchigna sobre este assunto em especial e que, eventualmente, poderia desvendar outros mistérios menos conhecidos sobre os povos da Guiné no período anterior à colonização europeia em geral e portuguesa em particular. (**)



3. Já há tempos, em 2018, o Cherno Baldé, se tinha pronunciado sobre esta questão da origem dos Balantas / Brassa:

(...) Segundo as fontes orais a que tivemos acesso, o termo ou etnónimo Brassa vem do termo mandinga Birassu, Brassu, Buraçu ou Braçu, conforme as fontes em Mandinga ou Fula, Portugués ou Francês, que era a provincia ocidental do reino mandinga de Gabu (ou Kaabu) e que viria a tomar várias formas nas diferentes línguas dos povos que ai viviam antes e após o fim do imperio, na sua grande maioria mandingas, fulas, balantas, djolas, etc.

Assim, toda a zona norte da Guiné e parte da região de Casamança, no Senegal, se encontravam dentro desta antiga província, com epicentro no corredor de Farim/Mansoa que seria a capital provincial e donde os Brassas/Balantas sairam para depois se expandirem mais ao sul do pa~is, até às regiões de Quínara e Tombali.

Partindo deste ponto de vista analítico, na Guiné, os Balantas não seriam os únicos "Birassu" ou "Brassa", pois também entre os fulas existem grupos, pouco conhecidos ou estudados, mas que seriam desta origem histórica, os chamados fulas Birassunka Braçunka (em mandinga: Fulas de Biraçu), com especificidades próprias da língua e cultura ainda hoje existentes, aliás muito parecidas com as dos seus históricos vizinhos mandingas e balantas do norte.

Em resumo, quando um Balanta ou Djola ou Fula se identifica a si mesmo como "Brassa" ou "Birassu", isto queria dizer que se identificava com as suas raízes ou origens geográficas, em estreita ligação ao território/reino com o qual, para todos os efeitos, se identifica em relação aos outros.

Não esquecer que em África, os processos de formação das identidades com base em determinados territórios ou estados-nação, iniciados no periodo pré-colonial, foram interrompidos e violentamente substituídos por relações comerciais e outras, baseadas no tráfico de armas e de seres humanos impostas de fora para dentro ou vice-versa, e que nenhum povo africano, para poder sobreviver, podia ignorar ou dispensar em entre meados do séc. XV e fins do séc. XIX.

19 de outubro de 2018 às 11:55 (***)

(Revisão / fixação de texto: LG)
__________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série  18 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26814: Em bom português nos entendemos (27): "Caputo" e "chicoronho", aplicados aos habitantes brancos do sul de Angola, antes da independência (António Rosinha / Luía Graça)

(**) Vd. poste de  9 de dezembro de 2025 > Guiné 761/74 - P27508: (D)o outro lado do combate (69): O "herói do Como", o Pansau Na Isna (1938-1970), em registo de "conto popular africano"“: tuga ka pudi anda na lama (M'bana N'tchigna)

(***) Vd. poste de 20 de outubro de 2018 > Guiné 61/74 - P19120: (De)Caras (121): O ex-padre italiano LIno Bicari foi meu professor em Bafatá, depois da independência, e casou com uma prima minha, Francisca Ulé Baldé, filha do antigo régulo de Sancorlã, Sambel Koio Baldé, fuzilado pelo PAIGC (Cherno Baldé, Bissau)

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26816: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (40): Quem não arrisca, não petisca

Guiné > Zona leste > Região de Bafatá  O Rio Geba... Estreito (do Xime para montante),  c. 1970, no tempo seco... O rio era navegável de Bissau até Bafatá!... Mas normalmente, as embarcações (civis, os " barcos- turras") iam até Bambadinca... As LDG ficavam pelo Xime, mas chegavam a Bambadinca, pelo menos até a 1968... Dois pontos vulneráveis do percurso eram a Ponta Varela (na margem esquerda do Rio, entre a Foz do Corubal/Ponta do Inglês e o Xime), e o Mato Cão (entre o Xime e Bambadinca, no troço serpenteante do Geba Estreito).

Guiné > Zona leste > Região de  Bafatá > Bambadinca >  Tasca do Zé Maria > Um dos nossos poucos luxos no mato... Os famosos lagostins do Rio Geba Estreito... Da direita para a esquerda, três camaradas da CCAÇ 12 (1969/71) : o Humberto Reis, o Tony Levezinho e o José António G. Rodrigues (já falecido).  A foto terá sido tirada por mim (LG).

Fotos do álbum do Humberto Reis, ex-fur mil op esp (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Fotos: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Contos com mural ao fundo >  Quem não arrisca,  não petisca

por Luís Graça

No teu tempo de Guiné era raro comer-se peixe nas messes e ranchos da tropa. A não ser em conservas (cavala, atum, sardinha...). A indústria conserveira sempre se deu bem com as guerras. Depois da indústria de guerra, claro...

Peixe fresco ?!... Nem vê-lo. Peixe ?!...  Só se fosse alguma pescada congelada, chegada na véspera ou no próprio dia, vinda de Bissau, na avioneta, a DO-27.

 A maldita pescada marmota rançosa! ... A saber a fénico.

Sim, de vez em quando, recordavas tu, os "caixeiros" (como tu chamavas aos "intendentes", os homens da Intendência) lembravam-se dos desgraçados que passavam fome no mato, mandavam-lhes algumas caixas de "frescos" (ovos, legumes, fruta, congelados...). Nunca ou  raramente carne, a não ser frango de aviário. E muito menos peixe, com tanto mar e rio ali à volta de Bissau!...(E se havia peixe naqueles grandes rios ou braços de mar, do Cacheu ao Cacine, do rio Corubal ao rio Grande de Buba, sem esquecer o ubérrimo estuário do Geba, o rio Mansoa, e até o rio Undunduma, cujo destacamento era vital para a defesa da estrada Xime-Bambadinca!).

 Porca miséria!

Nunca ninguém se revoltava. Isso é que era surpreendente. Era mais fácil haver um levantamento de rancho num quartel da metrópole do que algures no mato, na Guiné. 

O soldado português aceitava estóica e resignadamente, não a "fome" (o que podia ser mal interpretado pela hierarquia militar, como um ato de indisciplina ou insubordinação e, para mais,  em tempo de guerra,  passível até de ser um crime de lesa-pátria) mas a pobreza franciscana das ementas dos vagomestres, tão coitados e pobres como nós.

− Fome, camarada ?!

− Sim, vais-me dizer que não!?

Nunca passaste fome, não senhor. Fome propriamente dita, não, graças a Deus. No rancho, havia sempre pão e vinho sobre a mesa... E mais a sopa e algum conduto, como na casa pobrezinha mas honrada dos teus pais.  

Nunca passaste fome, não, senhor,  desde que  houvesse pão e vinho e latas de conserva, salpicão  ou chouriços enviados de casa pelo correio,o SPM, o Serviço Postal Militar. Vinho ? De preferência,  cerveja... Mesmo que gastasses o "patacão" todo do mês em  "bazucas", a garrafa de cerveja de 0,6l.

Na mesma avioneta vinha o correio, que era tão ou mais sagrado que "o pão nosso de cada dia". Claro, que não faltassem a farinha e o fermento para o padeiro fazer o milagre da multiplicação do "casqueiro"...

 Não sei o que seria de nós sem casqueiro nem correio!

O pão e as notícias, molhadas e  quentes, da longínqua terra natal (estamos a falar de 4 mil km de distância, cinco dias de viagem de barco, 3 horas e tal de avião), ajudavam a suportar melhor o pesadelo daqueles dias e noites sem fim.

− Pesadelo ?!...

− Podes crer!... Prisão, desterro, sem culpa formada. 

 Culpa ?!... Só se fosse por seres filho de pais portugueses...

Ao fim daqueles meses todos em que se reforçaram os laços de camaradagem,  havia já um certo espírito de corpo que te impedia de seres do "contra"...

− Do contra ?! 

− Pior: dissolvente!... Mais do que subversivo...

O pide de Bafatá adorava o termo. Subversivo era o turra, dissolvente era  a tropa que o não combatia e aniquilava, que acampava no mato, que não acreditava na vitória...  Deixava depois  no ar a insinuação de que o Spínola e a sua "entourage"  (o pide era filho de "imigras" e fluente em francês ) estavam a criar um clima "dissolvente" no seio das Forças Armadas e da população da província, suscetível de criar brechas na muralha da coesão do "todo nacional". Sobretudo com essa mania da "psico"...

 Qual psico, qual carapuça! ... Então um tipo,  investido de autoridade, um cipaio, um chefe de posto, um administrador de circunscrição, um agente da Polícia Internacional e Defesa do Estado, como eu, já não podia dar um tabefe num preto, "turra",  sem que o gajo ou um primo dele  não fosse logo a correr a Bissau fazer queixinhas ao Caco Baldé ?!...

Pois claro, "para uma Guiné melhor"!... Que para pior já bastava assim!... 

Encontraste-o ocasionalmente no café do Teófilo... Duas vezes ou três vezes,  se tanto...Não parecia ter sentido de humor... E, se o tivesse, nunca poderia ter sido pide...De qualquer modo, confessas, não lhe deste grande troco, e detestavas ver alguns dos teus amigos a "acamaradar" com ele...  Intrigava-te vê-lo ali, no café de um homem que se dizia ter sido desterrado no final dos 20 por atentar contra a segurança do Estado...

A primeira vez que o viste, tinha levado porrada num rusga noturna, lá no bairro da Rocha, em Bafatá...Mas ficaste sem saber por que é que um gajo (que ele disse que era "turra" ou "suspeito") lhe dera uma valente dentada no nariz ou numa orelha...

Mas voltando ao "casqueiro nosso de cada dia"..

− Os gajos do PAIGC − ironizava o "ranger" − podiam combater de barriga vazia (ou com um punhado de arroz cozido no bucho)... Mas não o Zé Soldado, o  "tuga", que antes de sair para o mato,  aí às três ou quatro da madrugada, já levava no bucho meio "casqueiro",  a sair, quente,  do forno,  com  marmelada,  e uma meia de leite (em pó) ou uma caneca de café de chicória.

E lançavas tu mais lenha para a fogueira:

− ...Marmelada que fazia uma sede do caraças!... Claro que, ao fim da manhã, já tinha despejado os dois cantis de água que levava à cintura... E num deles já tinha mijado... Era o cantil SOS...Mais valia, numa aflição, o próprio mijo com desinfetante do que a água preta da bolanha (sabe-se lá até se não estaria envenenada!)... 

O "ranger" era um dos teus companheiros de mesa. Acabaras de o conhecer, num dos almoços-convívios da Tabanca da Linha. Associava-se, assim, à conversa que tu e a malta à tua volta haviam  entabulado sobre o sempre presente e momentoso problema dos comes e bebes da tropa no TO da Guiné.

Não gostaste da maneira, um bocado desabrida e sobretudo despropositada,  como se referia à "tropa-macaca" que estaria mal preparada para "vencer e convencer" naquele difícil teatro de operações... Mas tinhas que lhe dar razão: aquela guerra deveria ter sido feita pela "elite da tropa,  rangers, comandos e parafusos" ( sic).

Este encontro deve ter ocorrido por volta de 2014, ainda o saudoso "régulo" Jorge Rosales era vivo... Confessou-te, o "ranger", que tinha sido um dos primeiros do curso de operações especiais em Lamego. Mas de nada lhe valera a alta classificação que tirara: acabou por ir  "parar com os cornos" (sic) à "maldita Guiné das bolanhas, dos mosquitos, do Cabral e da Maria Turra"...

Devia usar a mesma linguagem desbragada de há 40 e tal anos atrás. Tu e ele não se conheceram lá,   ele era "mais antigo, o que na tropa era um posto". Do tempo do Schulz.  Mas ambos, tu e ele,  tinham passado pelo Leste. 

O "ranger" era de uma companhia açoriana ou madeirense (não fixaste esse pormenor),  com alguns graduados continentais, como ele. E também eram pau para toda a obra, aqueles desgraçados dos ilhéus. Madeirenses e  açorianos sempre foram maltratados pelos senhores da guerra, que eram continentais...

O "petisco", nessa quinta feira, ao almoço, nesse já longínquo ano de 2014,  era magnífico, um regalo para os olhos, o palato e até o olfato: um divinal arroz de marisco, com generosa presença de lavagante... E tudo, vinho e sobremesa incluídos, pela módica quantia de 15 euros... Estava-se ainda em tempo de crise, mas ela, como sempre,  não era para todos. Como acontece, afinal,  em todas as crises.  

Ainda te lembravas do  nome do restaurante (e casa de chá!), "Oitavos", ali na estrada do Guincho, com uma vista privilegiada sobre o Atlântico. Na altura, só abria para grupos e em ocasiões especiais. O "régulo" Rosales, antigo salesiano, "menino da Linha", tinha um bom capital de relações sociais... E lá descobria estes "retiros fora de portas"... Aliás, como ele amava a vida e prezava a camaradagem, o Rosales!

À boa maneira portuguesa, tu, o "ranger" e os demais convivas, à volta da mesa, continuaram a comer e a falar de comida. Na tropa, na Guiné. E da fome e da sede, mais do que da guerra propriamente dita. 

Infelizmente não havia no grupo nenhum antigo vagomestre que pudesse falar, com melhor conhecimento de causa, dos problemas de abastecimento e de alimentação durante a guerra. 

Mas vieram ao de cima algumas recordações, "umas boas, outras más", desse tempo e dos lugares de que tu e ele  ainda se lembravam.  

  Eh, pá, o peixe que havia era da bolanha!  − gritou alguém do outro lado da mesa. − A gente chamava-lhe o peixe nharro. E até nem era mau.

Lembravas-te, sim, de algum peixe que os teus soldados apanhavam (muitas vezes com granadas deso, ofensivas) e que eram parecidos com o bardo, de pele escamuda, verde-escura, e que achavas repulsivos, habituado à sardinha, ao chicharro, ao robalo do mar do Cerro, a sul das Berlengas.  

E, no início, confessas,  nem sabias distinguir bem onde começava e acabava uma bolanhas  (também nunca tinhas visto  um campo de arroz na tua terra, só searas de trigo!), tal o emaranhado de rios, rias, riachos, braços de mar, tarrafos, mangais, palmeirais,  trilhos, picadas...

Achavas que conhecias bem o rio Geba, Estreito, o Xaianga, entre o Xime e e Bafatá, em especial na zona de Bambadinca, onde havia um porto fluvial. Mas não conhecias. Patrulhaste as duas margens lodosas, e de contornos indefinidos. Montaste segurança à navegação fluvial e emboscadas aos "turras" na margem direita, perto do Mato Cão. Às horas mais desencontradas...que as marés eram quem regulava  o trânsito fluvial.

No tempo das chuvas, o Geba e os seus afluentes eram uma massa pastosa, barrenta,  outrora infestada de crocodilos (garantiam-te os teus soldados fulas, os mais velhos, o que em África queria dizer  mais sábios e respeitados).

Quando "cambavas" o rio, eles não se viam, os "alfaiates". Mas tu tinhas muito respeitinho  por  aquelas águas onde quem lá caísse, nunca mais voltava à superfície, jurava o barqueiro da canoa comprida  que levava dez homens armados, uma secção, de cada vez para a bolanha de Finete. Mas ai deles  se fossem apanhados pelo macaréu... 

O macaréu fazia-se anunciar ao longe,   pelo ruído, o tropel de uma manada de cavalos, e sobretudo pela forma, a de uma onda com o aspecto de rolo compressor... Era como um pequeno tsunami. 

Já no caso do "barco-turra",  que tinha "as quotas em dia pagas no cais do Pijiguiti ao Partido", sempre achaste  estranho que o "patrão" mandasse apitar três vezes no regresso a Bissau, em noite clara de luar e em plena maré cheia... Claro que era um sinal de código.  Mas às vezes o "barco- turra" lá calhava ser atacado, por engano ou não, na Ponta Varela ou no Mato Cão...  Dizia a voz do povo que, afinal,  "não tinha as quotas em dia"... Ou então era o comandante de bigrupo,  emboscado numa das margens, que estava bêbado....

Não eras, tens de reconhecer, um grande aventureiro, nunca darias á  Pátria um bom explorador  como o Serpa Pinto ou o Roberto Ivens. Muito menos um bom soldado como o Mouzinho de Albuquerque. E seguramente não querias ser um herói... Menos ainda um herói morto. Aquela guerra, a Guiné, a Casa Gouveia, o BNU, não, não valiam o teu cadáver.

− Devias ter passado por Penude... Uma escola de virtudes!... 

− Penude ?!...

− Centro de Operações Especiais, nos arredores de Lamego!...Mas aquilo era só para gajos de barba rija!...

Aparte as provocações do "ranger", também pensavas que sim, nem tu nem ninguém da "tropa-macaca" vinha bem preparado para aquele terreno, aquele clima, aquela guerra... E muito menos para passar fome e sede.

E foste buscar o exemplo de Nhabijões onde estiveste destacado quinze dias. Paradigmático. A população, sem ser abertamente hostil à nossa tropa, tinha  "parentes no mato".  E recebia-os em casa, como tu receberias o teu pai, a tua mãe, os teus irmãos, os teus tios e primos, se estivesses no lugar deles... Mesmo correndo riscos... 

Foi construído um grande reordenamento com 300 moranças,  cercada de arame farpado. Um dos maiores, senão o maior da Guiné. Com  escola, posto sanitário, lavadouros, fontanário, mercado, mesquita ... No Vietname, chamavam-lhe, em 1962,  "aldeias estratégicas"... Falharam. Na Spinolândia, foram um sucesso!... E um desaire para o PAIGC, tens de concordar.

Todavia, era  completamente impossível, técnica, humana e militarmente falando, controlar aqueles milhares de almas,  vigiar as saídas e as entradas da população que ia trabalhar na bolanhas, ou caçar ou pescar ou apanhar  lenha. 

Os idiotas do batalhão, lá nos mapas deles, puseram um pionés de cabeça  cor de rosa, querendo dizer que era "população (pop) sob duplo controlo"... O Zé Soldado não entendia patavina  daquela conversa do "mandjor":

− Quer-se então dizer que de dia a pop é nossa, e à noite é deles ?!...

O "tuga" podia ser básico mas não era estúpido:

− Olhavas para um balanta, e depois ?! Eram todos turras!...

− ... E tresandavam a vinho de palma ainda a fermentar no garrafão!... Só o cheiro dava logo volta às tripas de um gajo!− sentenciava o "ranger",  categórico.

− Não sejas tão primário,  para não dizer racista... Havia balantas entre as nossas tropas e alguns, coitados, pagaram bem caro, com a vida, a sua colaboração com os "tugas"!

− Pois é, apostaram no cavalo errado, a guerra é uma lotaria...

− Estás a ser cruel!...

− Além disso, andavas fardado e armado, como eu, éramos todos iguais, tropa do exército português... Quem vê fardas, não vê corações...

− ... exército colonial-fascista, ainda por cima!

− Fica sabendo que nunca ouvi isso da boca daquela gente... Só da sacana da "Maria Turra"!...De qualquer modo, nunca conheci esse tal reordenamento de Nhabijões 
− esclareceu o "ranger" (que, segundo te disse, tinha sido promotor imobiliário no Algarve, depois da tropa).

Tu, no escasso tempo em lá estiveste, em Nhabijões, nunca conseguiste ganhar a confiança daqueles balantas e alguns mandingas para poder observá-los, acompanhá-los no seu quotidiano, aprender alguns termos da sua língua...

−  Quais tempos livres ?! Estavas vinte e quatro  horas de serviço, sete dias por semana!.. Não havia folgas no destacamento...

E depois aquilo era um depósito de básicos,  "cacimbados", malucos, convalescentes,  "desenfiados", aleijados ou de gajos com porradas que ninguém queria ter nos seus pelotões. 

Era a escória  do batalhão que te mandavam de reforço ao teu grupo de combate,  já de si desfalcadíssimo. O alferes ia dormir em cama fofa em Bambadinca, tu aguentava os cavalos.  

 O que farias com aquela maltosa toda, que mal sabia manejar uma arma, em caso de ataque ?!

Era uma força  simbólica que estava ali a guardar a bandeira nacional! ... Guardar ?!...

O major, que temia  a ira do Spínola (e Nhabijões era uma das suas "meninas bonitas"), resumia a questão da soberania nacional à bandeira verde-rubra das quinas a flutuar por cima da cabeça dura dos balantas... E daqueles pobres diabos,  que defendiam o "fortim'" (como outrora defenderiam o "quadrado"...), à entrada do reordenamento, e que só pensavam no panelão que lhes traziam  nesse dia, para o almoço:

− Será esparguete com cavala... ou cavala com esparguete ?

 − De resto, podíamos ser todos apanhados a mão, essa é que é essa!... 

Dormiam nos postos de sentinela ou então desatavam aos berros às tantas da noite porque tinham visto turras no arame farpado... 

Não havia luz elétrica... E o vento fazia  tilintar as garrafas de cerveja atadas em cachos no arame farpado... Ou às vezes eram os animais selvagens ou até os próprios cães da população que pregavam cagaços ao pessoal... Por razões de segurança também não havia campos de minas nos reordenamentos. Por isso era fácil os "gajos" entrarem por ali adentro, sorrateiros, armados...

 − Os "gajos"...?!

 − Sim, quem havia de ser ?!... Os "turras"!

 Obviamente que isso nunca aconteceria,  um ataque direto ao destacamento  que, de resto, mais parecia um daqueles fortes dos filmes do faroeste,  feitos com troncos de árvores que as buldózeres haviam arrancado nas terraplanagens... Enfim, o PAIGC não estava interessado  em que a população sofresse retaliações por parte das NT nem muito menos alienar o  indispensável apoio dos "seus balantas"...

− Nunca se atreveram, no meu tempo, a atacar ou flagelar o destacamento (que, de resto, era um alvo fácil)... Nem no dia de Natal nem no Ano Novo (estávamos de prevenção)...

Sim, é verdade, mas no dia 13 de janeiro de 1971, puseram-te duas valentes minas anticarro à saída do destacamento,  sabendo, pelas rotinas da malta,  que às 11h00, religiosamente,  iria lá passar o Unimog (o "burrinho") para  buscar a comida do almoço a Bambadinca!...

Dois presentes envenenados, um morto, uma porrada de feridos graves, duas viaturas destruídas, o piquete destroçado...

− Um ano e tal depois, o meu antigo  grupo de combate limpou o sebo ao Mário Mendes, um dos gajos que pôs as minas.

− Também era o nosso lema, "Cá se fazem, cá se pagam!" − arrematou o "ranger".

... A Guiné, vistas de cima, de avião, parecia um paraíso... Quando foste uma vez a Bissau, de avioneta,  ficaste deslumbrado, com todos aqueles braços de mar, rios, rias, canais, lalas, bolanhas, água, ouriques, florestas cerradas... Mas, não,  aquela não era a tua terra. Nem o verde dos teus pinhais, nem a areia branca das tuas praias.... E havia demasiadas armas espalhadas ao redor. E, seguramente, nenhuma delas estava em boas mãos.

Hoje tens pena de não podido circular livremente por Nhabijões e  e outras tabancas balantas em redor (como Mero, Santa Helena, Fá Balanta...) até à grande e bela bolanha de Samba Silate,  um símbolo trágico daquela guerra... Toda aquela população, que escapara ao cerco da tropa, acabará por fugir para o mato, nos anos de chumbo de 1963, diziam-te os teus soldados...

Do rio Geba, só te lembras de comer lagostins... Nunca te tinha passado pelo "estreito", o lagostim do rio, embora na tua terra houvesse bom marisco (lagosta, lavagante, santola, sapateira, navalheira,..., mesmo que a lagosta já fosse a 7$50, diretamente do pescador, no cais acostável de Paimogo ou do Porto das Barcas, e o tamboril se deitasse fora, por não ter valor comercial!)...

Era, em Bambadinca, na tasca do Zé Maria, um branco, comerciante, que cultivava algum mistério. O "alfero Cabral" gostava dele e dava-lhe corda. Passava sempre por lá para beber o último copo, e ganhar balanço  até Fá Mandinga...

Dizia-se que o Zé Maria "estava feito com os turras!"... Era a habitual suspeita dos militares em relação aos poucos comerciantes brancos que restavam no mato, e que precisavam, para sobreviver, tanto dos favores da tropa como do PAIGC.  

Nunca conseguiste ( nem sequer procurasse ) ganhar a confiança dele, mesmo sendo cliente da tasca, mistura de loja e bar com ar decadente, junto ao porto fluvial de Bambadinca. Claro que o tipo fazia-se pagar bem pelo petisco, 50 pesos o quilo o lagostim cozido (com muito piripiri), fora a cerveja. Nunca soubeste quem era a cozinheira ou o cozinheiro.  E muito menos quantos pesos pagava ele ao mariscador...

A população do mato  "cambava" o rio Geba, quase nas barbas da tropa,   e ia ao Zé Maria abastecer-se : tabaco, redes mosquiteiras, panos, petróleo, fósforos, sal, cachaça... 

Também vendia vacas, ao que parece... À tropa. 

Mais acima,  a meia encosta, perto do morro onde ficava o quartel e posto administrativo de Bambadinca (a escola, a capela, o depósito de água, a missão católica, etc.) havia a loja do Rendeiro que era, soubeste mais tarde, cinquenta anos depois, "informador da Pide". 

Tinha a cabeça a prémio, por traição ao PAIGC. Fizera-se passar, no início da guerra, em setembro de 1963, por simpatizante do partido de Amílcar Cabral... E escrevera uma carta ao "senhor engenheiro" a jurar fidelidade e lealdade... Afinal, era casado com uma guineense. E a sua terra era a dos seus filhos... Escolhas difíceis, quando se é apanhado por uma guerra.

 Quiseram-no levar a Conacri para o "beija-mão"... Acabou por fintá-los, em Dacar... E dar preciosas informações à tropa, no regresso, m Bissau... Nunca lhe perdoaram o embuste de se fazer passar por simpatizante do Partido, só para salvar a pele... Teve que trocar Porto Gole por Bambadinca, por razões de segurança... Tê-lo-iam fuzilado, sem apelo nem agravo, se o voltassem a agarrar...

Era casado com uma mandinga, a Auá,  e tinha um rancho de filhos.

Em suma, ambos jogavam com um pau de dois bicos, tanto o Zé Maria como o Rendeiro. Havia ainda um terceiro branco, ou cabo-verdiano, que pertencia à Casa Gouveia... Ia à missa, e irá escutar e anotar, mais tarde, as famigeradas homilías do capelão Puim... 

Aqueles homens estavam entalados, não tinham grande margem de manobra e sabiam que nunca teriam futuro com o fim da guerra...

Em todas as guerras, os comerciantes procuram tirar o melhor partido da situação-limite que é a guerra... Afinal, a tropa precisa de comer...

Não te lembras de ter comido peixe na casa do Rendeiro. A galinha ou o caldo de chabéu era, invariavelmnete, o melhor petisco  que ele podia oferecer a alguns dos seus convidados, os "milicianos" de Bambadinca...

Não sabes se alguma vez convidou o comando do Batalhão  de Bambadinca, o tenente-coronel e os dois majores, além dos capitães... É muito pouco ou nada provável. Sentia-se mais à vontade com "os senhores alferes e furriéis" da companhia africana, que a si próprios se intitulavam "nharros de 1ª classe" (sendo os seus soldados,  guineenses, de 2ª classe)... E era a companhia  que podia defender Bambadinca em caso de ataque. E salvar a sua casa e a sua família. Isto, se não andasse na "porrada", no mato.  

No intervalo, entre as frequentes saídas para o mato, os soldados viviam nas tabancas em redor, com as suas famílias, a de cima e a de baixo, a G3 e as cartucheiras e as granadas de mão sempre à mão de semear... Os graduados dormiam (às vezes) no quartel, sobranceiro á  grande bolanha de Bambadinca (em mandinga, a "cova do lagarto").

O Rendeiro tinha uma ampla morança, com telhado de chapa de zinco, logradouro e estaleiro de materiais, mesmo junto ao arame farpado. Não estava  livre de ser surpreendido à noite pelos "turras", em caso de ataque.  A mãe dos seus filhos (e também a belíssima cozinheira do caldo de chabéu) nunca te fora apresentada.  Nem a ti nem a ninguém.

Era um homem nervoso, seco de carnes, magro de cara e corpo, marcado pela malária, e "cafrealizado", que se enterrara naquelas terra palúdicas  muito jovem, com 17 anos, fugindo da miséria da sua terra, ali para as bandas da ria de Aveiro... Tinha uma camioneta a cair aos bocados que era alugada  de vez em quando à tropa  para fazer colunas logísticas a Mansambo, Xitole, Saltinho, Galomaro... Ele e os demais comerciantes da região viviam também destes "biscates" da tropa... Sempre entrava em casa mais algum patacão.

Dizem que terá tido "manga de problemas" a seguir ao 25 de Abril, e que inclusive teria estado  na iminência de ser linchado... Terá sido a tropa que o salvou... 

− Quem não arrisca, não petisca... − comentou o "ranger",  já no final da  conversa.

Como querendo dizer: a vida não é de quem a perde, é de quem  arrisca,  ou sabe arriscar, pondo-a em jogo... Como na lerpa. E "quem não arrisca, menino, não petisca"... 

Como o pobre armador da tua terra, que foi nove vezes à Mauritânia pescar goraz... Fez uma fortuna... Levava batatas para os sarauís da Frente Polisário. Havia um acordo tácito. Em troca, deixavam-no pescar mesmo junto à costa... Na 10ª viagem, quis encher o barco até ao teto, era "uma pescaria só para os camaradas da companha", "iam ficar todos ricos, com o melhor goraz do mundo". E depois, arrumava as botas e vendia o barco...

Arriscou, pela 10ª vez... Uma "roquetada" atingiu a casa das máquinas, houve uma morto (o motorista) e vários feridos... Teve de cortar as redes e zarpar com a máxima velocidade... Conseguiu chegar a Peniche, depois de socorrido no Algarve. Nunca mais foi pescador nem armador,  muito menos homem. Um dia contou-te a sua história, trágica... Estava bêbedo que nem um cacho... Uma ruina humana.

E tu lembravas-te, também,  de outros armadores, da tua terra, ribeirinha, fronteira ao Mar do Cerro, e que noutros mares, os do Norte de África,  trocaram o peixe pela droga... E desgraçaram-se. A eles, aos seus filhos, à sua comunidade. 

E lembravas-te, ainda, do sacana do  "Vermelhinha", que na Guiné esfolava os "incautos", no dia de "São Patacão", com  a lenga-lenga do "ganha esta, perda esta, ganha esta"...  E a malta ficava com os olhos em bico e sem... "patacão". Também esteve à beira de levar um enxerto de porrada, quando alguém descobriu que ele fazia batota com as cartas...

− Quem não arrisca, não petisca... − voltou  a dizer-te o "ranger", no último aceno de despedida, já à saída, à porta do restaurante.

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Nota do editor:

Úlltimo poste da série > 17 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26696: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (39): a Páscoa de antigamente