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domingo, 3 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27983: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte III: semana de 17 a 23 de fevereiro: finalmente a caminho de Boebau... de "motor" (motorizada)


Timor Leste > Fevereiro de 2018 > Escola São Francisco de Assis (ESFA), em Boebau, Manati, Liquiçá, inaugurada em 19 de março de 2018. E os difíceis acessos a Boebau (na foto nº 2, o Rui Chamusco teve de se apear da moto, ei-lo em segundo plano, à frente da moto e do condutor). Sáo cerca de 50 km, de Dili até Boebau, na montanha, que podem demorar 4 a 5 horas, na época da monção. Entretanto foi comorada uma viatura com tração âs quatro rodas... E os melhores têm vindo a melhorar...

Foto da página do Facebook da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste (com a devida vénia...)


1. Estamos a publicar excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste (fazem parte de um ficheiro em pdf, de 273 páginas, com todas as suas crónicas de viagem àquele país lusófomo, desde 2016, e que ele disponibilizou aos membros da ASTIL e demais amigos, em 28 de maio de 2025).

Já publicámos excertos das crónicas da I viaggem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).   Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Este ano de 2026, irá por razões de saúde.

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Entendam, caros leitores, a publicação desta série como uma pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016, por solidariedade com o povo timorense e  as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá (um topónimo que tem uma carga emocional muito grande para os timorenses que sofreram a brutakl ocupação inmdonésia, de 1975 a 2002, mas também para os portugueses que lá estavam na II Guerra Mundial) (**)

É também uma forma de a gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós. Ser solidário com quem é solidário é também uma das nossas formas de ser estar dos amigos e camaradas da Guiné, alguns dos quais também são amigos de Timor-Leste.

O Rui é membro da  Tabanca Grande ( nº 886), de 10 de maio de 2024. E preside à ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste. com sede em Coimbra. O João Crisóstomo,  o "nosso régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona, é também membro da ASTIL, fundada por Rui Chamusco, Gaspar Sobral e Glória Sobral.

O Rui tem tido problemas de saúde que o obrigaram a fazer uma intervenção cirúrgica, delicada, no Hospital Curry Cabral. Estava na Lourinhã a recuperar. Mas voltou a sentir-se mal e está de novo internado. O João Crisóstomo acaba de me telefonar de Nova Iorque, visivelmente preocupado. Fazemos votos para que o Rui recupere de novo, e rapidamente, de mais este susto. 


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 17 a 23 de fevereiro

por Rui Chamusco


Rui Chamusco,
Lourinhã (2017)

17.02.2019, domingo  - Do outro lado do mundo

Hoje, domingo, dou comigo a pensar no outro lado do mundo, mais concretamente nos territórios que frequento: Malcata, Sabugal, Lourinhã. A estas horas oiço os sinos a tocar, vejo as pessoas apressadas a caminho da igreja, espreito os homens na Torrinha pondo as conversas em dia. 

Dizem que no Sabugal, o domingo é o dia mais morto da semana, porque lhe falta a maioria da juventude das escolas, mas sei que por lá também os sinos tocam ao domingo e as pessoas são devotas e vão às igrejas.

Já na Lourinhã, ouço o ruído das ondas, vejo o frenesim da gente que enche os
supermercados para se aviar, sinto o prazer de tomar um café na praia e de curtir algum tempo ao sabor do sol e da brisa do mar.

Neste outro lado do mundo, em Ailok Laran-Dili, é um regalo ver quem passa, crianças, jovens e alguns adultos bem anafaiados porque vão à catequese e à missa.

Muita juventude que, crente nos ensinamentos que lhes transmitem, procura nas celebrações religiosas ocasião para manifestar a sua fé, rezando mas sobretudo cantando. E mesmo que a fé que temos não seja mola suficiente para nos levar a esses locais, muitas vezes por comodismo, vale bem a pena aproximarmo-nos para ouvir e saborear os seus cânticos, as suas melodias e harmonias.

E, porque hoje é domingo, estamos em sintonia e em sinfonia, graças à música, com os dois lados do mundo, com o universo...

17.02.2019 - Ai haunek e a malária

Esta tarde aprendi mais uma receita., para combater a malária. Mesmo em frente, de quem olha da varanda da casa (em construção) vê-se uma árvore de grande porte, que por isso mesmo ressalta aos nossos olhos. Quis saber que árvore é aquela. E entao o Eustáquio deu-me uma verdadeira lição sobre a mesma. Chama-se Ai haunek, e produz kerosina. 

Antigamente faziam-se pratos da sua madeira. Os rebentos novos das folhas cozem-se e podem ser acompanhadas com arroz. A casca do tronco é cozida e o chá daí resultante é bebido para combater a malária.

Tantos ensinamentos, a partir de uma boa utilização da natureza. E nós a pensar que já sabíamos tudo! Vai lá, vai...

18.02.2019, segunda feira  - Estes “pequenos heróis”!...

Esta tarde, junto ao Pateo, encontramos algo que aqui em Dili é habitual. Um senhor de pequena estatura, carregando aos ombros creio que dez frutos de kulo, tentando vender a sua mercadoria. Cada fruto pesa no mínimo uns seis quilos, que multiplicado por dez vai aproximadamente para os cinquenta quilos. 

Era impressionante olhar para esta figura franzina com tanto peso às costas. De modo que disse ao Gaspar para lhe comprarmos um fruto a fim de aliviarmos o homem. 

Pediu dez dólares, mas vendeu por cinco. Em curta conversa ficamos a saber de que, este “pequeno herói” veio assim carregado desde Dare, que fica a três-quatro quilómetros daqui, e assim tem passado o dia vergado ao peso deste apreciado fruto que mais parece uma grande pinha.

Despediu-se de nós profundamente reconhecido pelo nosso gesto, com pequenas vénias e palavras onde os seus olhos diziam tudo. Que sacrifícios esta gente passa para poder ter uns dólares no bolso...


Gaspar Sobral,
 Lourinhã (2017)

18.02.2019 - Dia de festa...

Faz hoje 69 anos que o Gaspar veio ao mundo, logo de madrugada, o segundo de sete irmãos desta grande família Sobral. E por morte do irmão mais velho, o José Sobral, Gaspar é neste momento respeitado como o chefe deste clã familiar.

Foi preciso que os outros, eu incluído, se lembrassem desta efeméride, porque o
Gaspar nem se lembrava que fazia anos. Então logo de manhã, ao sair do seu quarto,
lá estava eu a cantar-lhe os parabéns e a dar-lhe um abraço apertado.

 Não sei se durante o dia se lembrou mais alguma vez de que faz anos no dia 18 de Fevereiro. Aparentemente não. Mal sabia ele o que lhe estava preparado logo à noite, após a nossa chegada de Dili. Um bolo de anos personificado, também com as velas 69, com champanhe e tudo, 
e boa parte da família a festejar o homenageado. 

Durante a tarde, eu,  o Eustáquio e a Adobe (sua mulher),  fomos às compras e, mesmo viajando connosco, o Gaspar de nada desconfiou. Por isso nada estranho a sua euforia quando, em direto para Portugal, mostrava à Glória (mulher) e à Bene (filha) o ambiente festivo que aqui se estava a viver.

Pois é meu amigo! Os amigos são para as ocasiões. E fazer 69 anos de vida só acontece uma vez. Muitas felicidades e muitos anos de vida!...

18.02.2019 - a fúria da Ribeira Malôa

Em tempo de inverno, quase todos os dias chove em Timor. Esta tarde foi mais uma das chuvadas habituais. Mas eis que sou alertado para ir ver a ribeira Malôa que passa aqui mesmo ao lado.

Impressionante! Como é que, com mais ou menos uma hora de chuva, se acumulou tanta água no leito desra ribeira, que está quase sempre seca? Mas a prova estava à vista. Dos lados de Dare, vinha correndo com tanta força, aos turbilhões, que ninguém ousava qualquer desafio ou brincadeira. Era perigoso demais. De modo que todos nos limitávamos a ver e a comentar. Por acaso consegui documentar a situação fazendo pequenos videos no meu iphone. 

À noite, vimos a ribeira que atravessa a cidade de Dili, já com o seu caudal mais suave, mas mesmo assim impressionante. E se há males que vêm por bem, esta enxurrada de hoje teve o condão de limpar todo o leito desta ribeira, que normalmente está cheio de porcaria, nomeadamente plásticos e latas.

Claro que todo este lixo teve que ser despejado nalgum lado. E está-se mesmo a ver que esta lixeira foi para o mar. Infelizmente continuamos a entupir os oceanos. Tão mal que tratamos o mar!...

18.02.2019 - Encontro de amigos

Pela segunda vez combinamos encontrar-nos: eu, o Rui Pedro [comandante de fragata Rui Pedro Ferreira, destacado em Timor-Leste, em serviço durante um ano, e que tem ascendentes com origem em Malcata, Sabugal],  o Gaspar, o Eustáquio num pequeno restaurante à beira mar, em jantar (peixe assado, claro está!) e sobretudo em amena conversa que nos une e motiva a nossa presença neste canto do mundo.

Tudo veio à baila: histórias de família, ligações com Malcata, andanças de cada um, sobretudo do Gaspar. Perguntou-lhe o Rui Pedro "como é que foi a ter a Malcata?” E então o Gaspar, que nasceu em Timor, percorreu uma boa parte do mundo para tentar explicar a sua aterragem em Malcata, Sabugal: Lisboa, Angola, Lisboa, Castelo Branco, Fundão, Sabugal, Malcata, Coimbra... Claro que o Gaspar demorou muito mais tempo a explicar.

E para não faltar nada, uma chamada de Portugal para o iphone do Rui Pedro: A
Susana, sua namorada. Tivemos o prazer de nos conhecermos a tantos quilómetros de distância. Desejo-vos todo o bem do mundo porque, pelo que me apercebi, vocês são duas pessoas extraordinárias.

É de salientar, sempre que nos encontramos, a paixão e o entusiasmo com que todos falamos de Timor, das suas gentes, e dos projetos que cada um tem em mãos e tenta pôr em ação. Aprendemos sempre muito uns com os outros. Por isso tenho a certeza de que estes pequenos encontros irão continuar.



19.02.2019, terça feira  - As obras da casa do Vitor

Hoje poderemos dizer que é o princípio da reconstrução da casa do Sr. Vitor, ainda
que os primeiros trabalhos sejam de destruição. Com efeito, depois de uma visita ao local, onde podemos falar com os principais intervenientes, os filhos do Vitor (o
Francisco até é pedreiro), chegou-se à conclusão de que a primeira coisa a fazer seria abater uma árvore, a manga que ocupa boa parte do terreno destinado à reconstrução.

Feito o negócio com um cortador profissional, procedeu-se de imediato ao corte,
A seguir virão as carradas de pedra e de areia que lhes permitirá fazer a base. Então
para que se saiba, o acordo ficou assim: a Astil, através de doações de alguns sócios e outros amigos mais sensabilizados que contribuiram expressamente para esta obra, suportará as despesas dos materiais, e os filhos e amigos da família Vitor oferecem a mão de obra. 

Foi-nos dito pelo filho Francisco que, se os materiais não faltarem, mais ou menos daqui a três meses a casa estará pronta, em condições de ser habitada.

Neste momento uma grande chuvada, com trovoada e tudo, está descarregando aqui, em Ailok Laran. Mas a grande árvore já está no chão, e acredito que a boa vontade dos que estão envolvidos neste caso irá fazer com que a obra avance. De todas as formas, cá estarei eu para impulsionar esta obra solidária e para vos transmitir as notícias relativas à mesma.

20.02.2019, quarta feira  - Notícias matinais

Depois da chuvada torrencial de ontem à tarde ficamos com alguma apreensão do que teria sucedido por este país fora. Logo de manhã, não tardaram algumas notíciasarrasadoras. Na estrada entre Tibar e Liquiçá, um avião bimotor, talvez um taxi do governo pois ostenta na sua cauda a bandeira timorense, está, aparentemente sem consequências trágicas, embatido, notando-se bem os estragos nas suas asas depois de uma aterragem forçada.

Em Comoro, na zona circundante da praia, um bis / bus ( pequeno autocarro que
transporta pessoas e bens para as terras mais distantes) foi arrastada pela corrente da ribeira Maloa, causando o pânico nos seus ocupantes e em todos os que de fora
presenciavam o acontecimento. A preocupação e a curiosidade de todos era saber se tinha havido vítimas e quantas. E perante tanta ansiedade o jornalista que comentava a reportagem informou: “não houve vítimas.” Houve, sim, um grande susto, e possivelmente a perda de alguns bens que, como bem sabemos, são transportados sem o mínimo de condições de segurança.

Pois é! Ninguém brinca com as forças da natureza... E todo o cuidado é pouco...


23.02.2019, sábado - A caminho de Boebau

Sempre que se toma a decisão de ir a Boebau há um certo frenesim e um nervoso
miudinho em preparar as mochilas e o meio de viajar. O mais comum é o “motor”
(motorizada). Mas tudo serve: motor, carreta, anguna... Só de avião ou de barco não se pode lá chegar.

Hoje a partida de Ailok Laran  [o  bairro de Díli onde o Eustáquio e a Adobe, e onde o Rui fica], pelas 16.00 horas, foi em três “motores”  [motorizadas];

Bartolo + Gaspar, Venâncio + Rui, Akesu + Adobe. 

Chegamos às 18.30 horas. Tivemos muita sorte, porque durante a viagem não choveu, coisa que aconteceu cinco minutos depois de arrivarmos. Tudo bem, embora convenhamos que, com setenta e dois anos em cima, esta viagens deixem as suas marcas e mazelas corporais. Vale-nos ao menos a boa vontade, mas vamos lá a ver até quando esta massa corporal suportará estas agruras.


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o acesso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar), bem da ASTILMB. Em 2019 ainda não havia a casa dos professores, o que já há.
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


23.02.2019 - Sabores e dissabores

O dia de hoje foi destinado particularmente a inteirar-nos da situação da escola, ouvindo alguns dos seus agentes para podermos tirar algumas conclusões que ajudem a resolver alguns conflitos. 

Não tem sido fácil tomar decisões, pois uma das partes não apareceu na reunião previamente convocada. Temos muitas questões a esclarecer, mas estou convencido que com a boa fé e a vontade de todos tudo se resolverá.

Neste momento, das 75 crianças inscritas só 40 crianças do ensino pré escolar frequentam a escola São Francisco. Todas as outras foram matriculadas na escola de Kilo, que é a escola mais próxima. Há uma certa revolta dos pais destas crianças porque se sentem enganadas. Disseram-lhes que esta escola era para os seus filhos, e afinal têm que frequentar a outra escola. Claro que a solução não está nas nossas mãos, ainda que procuremos junto de instituições e particularmente junto do ministério de educação timorense, ajuda e resolução destes problemas. 

Mas neste momento, a ASTILMB (ASTIL Manati / Boebau,  a ASTIL local) não tem capacidade para motivar e pagar a professores que queiram lecionar em Boebau. Ainda não podemos oferecer condições mínimas de habitabilidade a professores voluntários ou contratados

. A Escola de São Francisco de Assis tem o estatuto de ensino privado / particular. E embora estatutariamente contemple o ensino pré-escolar e o ensino primário (ensino básico), ainda não temos capacidade de resposta para todas as necessidades desta famílias e destes alunos.

Por outro lado, custa-nos a entender alguma ingerência do ensino público, na pessoa da professora Rita, no nosso ensino que é particular / privado. Ainda não percebemos porque aparece esta professora como coordenadora da nossa escola. Vamos tudo fazer por esclarecer esta situação.

Como se vê, há problemas em todo o lado. Compete-nos tudo fazer por resolvê-los... e encontrarmos soluções adequadas.

23.02.2019 - Amanhã é dia de festa...

Esta tarde há alguma azáfema em preparar a receção aos visitantes. Uma visita pré- anunciada e muito esperada: o Padre frei Fernando Alberto, provincial dos missionários capuchinhos em Portugal, o frei Tinoco, da fraternidade dos capuchinhos de Tíbar, e o Rui Pedro, comandante de fragata em serviço em Timor Leste,  vêm cumprir a promessa que me fizeram: visitar a Escola de São Francisco em Manati/ Boebau (ESFAMB).

Do programa consta a celebração da missa dominical, que aqui, por sorte, tem lugar uma vez por ano. Também a igreja abandona os seus fiéis. Porque o acesso é difícil; porque não há padre; porque... Razões esfarrapadas a quererem justificar atitudes comodistas.

Por isso amanhã será dia de festa, e tudo se prepara para que assim seja. Não há igreja, não há sinos a badalar, mas esta gente já espalhou a notícia por todo o ladoUm bom grupo de voluntãrios estão preparando devidamente o local. As canas enormes de bambú e as lonas que as sobrepôem já são visíveis. E amanhã de manhã se fará o resto.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos: LG)
______________

Notas do editor LG:

(**) Liquiçã, um topónimo doloroso: carrega uma forte carga simbólica e emocional para dois grupos diferentes: para os timorenses, como lugar de violência extrema no final da ocupação indonésia; para os portugueses, como um dos cenários da experiência traumática da ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial.

(i) Para os timorenses (ocupação indonésia, 1975–2002)

Liquiçá (cidade e sede e município) tornou-se um símbolo de sofrimento sobretudo por causa do que aconteceu em 1999, já no fim da ocupação indonésia. A chamada Massacre de Liquiçá ocorreu em abril desse ano, quando milícias pró-indonésias, com apoio ou tolerância de setores das forças de segurança, atacaram civis que se tinham refugiado numa igreja. Houve dezenas de mortos (o número exato continua debatido, há quem fale em duas centenas), e o episódio ficou como um dos mais marcantes da violência que antecedeu o referendo de independência organizado pela ONU.

Esse período insere-se na mais vasta ocupação indonésia de Timor-Leste, que causou enorme destruição, deslocamentos forçados e perda de vidas. Por isso, Liquiçá permanece um lugar de memória dolorosa para muitos timorenses.

(ii) Para os portugueses (II Guerra Mundial, 1942-1945):

Durante a Segunda Guerra Mundial, Timor, terriotório sob administração portuguesa, foi invadido pelo Japão em 1942, apesar da neutralidade de Portugal. Em consequência da ocupação japonesa de Timor, militares portugueses e civis foram capturados e internados.

Liquiçá foi um dos locais onde existiram campos de internamento e onde passaram prisioneiros portugueses (e também outros, incluindo timorenses e aliados). As condições eram duríssimas ( fome, doença e trabalho forçado) e muitos não sobreviveram. Embora não seja o único local associado a esse sofrimento (Aileu é também lembrado pelo massacre de 1/10/1942, perpretado pelas "colunas negras"),

 Liquiçá também faz parte das nossas geografias emocionais.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27957: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte II: semana de 10 a 16 de fevereiro: a promiscuidade do... jardim do Éden


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de 
São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o ace4sso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar)
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Lourinhã > Praia da Areia Branca > 2 de dezembro de 2017 >  Rui Chamusco e Gaspar Sobral, cofundadores e líderes da ASTIL 

O Rui Chamusco começou por ser membro da Tabanca de Porto Dinheiro: natural de Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã há 3 décadas, sendo  professor reformado de Educação Musical no ensino oficial,   e de Português, Filosofia e Latim no ensino Particular. 

Desde há mais de uma década, que ele passou a ser um grande amigo do povo Timor-Leste, liderando um projeto  (luso-timorense),  já concretizado, em 2017, de construção de uma escola, privada, nas montanhas de Timor Lorosa'e, a par do  apadrinhamento de crianças em idade escolar.

A partir de  10 de maio de 2024, tornou-se novo membro da Tabanca Grande ( nº 886). Foi-me apresentado pelo nosso saudoso Eduardo Jorge Ferreira. Eu, por minha vez, apresentei o João Crisóstomo ao Eduardo, que era o régulo da Tabanca de Porto Dinheiro. E o Eduardo apresentou o Rui ao João, que passou a ser logo  um apoiante entusiasta do projeto da ASTIL.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso amigo Rui Chamusco já foi a Timor-Leste seis vezes,  desde 2016, em missão de cooperação  e solidariedade. Sempre pagando  do seu bolso, este "malae" (estrangeiro) tem autorização para ficar lá  três meses

Dessas viagens e estadias há crónicas que ele escreve a pensar nos sócios da ASTIL e demais amigos da Escola de São Francisco e de Timor-Leste.

 Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem  (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Começamos há dias  a publicar as da III viagem (2019). (Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023/IV viagem), 2024 /V viagem) e 2025 /VI viagem.)

Costuma viajar com o seu amigo, luso-timorense, Gaspar Sobral, mentor do projeto. A sua família (mãe e irmãos mais novos, incluindo o Eustáquio, ainda adolescente)  resistiram, espantosamente (!),  durante 3 anos (!) nas montanhas de Liquiçá, a seguir à invasão e ocupação dos indonésios (em 1975). Uma verdadeira odisseia. Inimaginável para os nossos filhos, que por enquanto ainda não sabem o que é a guerra á porta de casa.

Este projeto (a construção da Escola São Francisco de Assis, ESFA,  em Boebau, Manati, Liquiçá, Timor Leste),   nasceu de um conversa entre dois amigos, em 2015: Gaspar Sobral (timorense residente em Portugal, topógrafo, retornado de Angola, em 1975) e o Rui Chamusco. 

O Gaspar "manifestou-me o seu grande desejo de construir uma escola na terra dos seus ascendentes, em Boebau, pois na visita que lhes fizera em 2000 verificara que havia muitas crianças sem escolaridade. De imediato, eu como professor aposentado e livre de obrigações, anui ao seu desejo, respondendo prontamente: 'conta comigo'  "(...)

Em fevereiro de 2016, o Rui e o Gaspar foram  a Timor Leste visitar a localidade de Boebau (município de Liquiçá) e avaliar as necessidades no terreno: 

"O Chefe de Suco informou-nos, através dos cadernos de registo, do número de crianças que aí viviam. Mais ou menos 400, das quais só 111 iam às escolas mais próximas. Por consulta presencial, o povo pediu que fosse construída uma escola. E assim fizemos."

A construção Escola São Francisco de Assis – Paz e Bem foi inteiramente financiada por fundos recolhidos pela ASTIL. A organização e o funcionamento da ESFA continuam a ser assegurados pela ASTIL.  
Foi inaugurada em 19 de março de 2018. Mas a sua oficialização ainda está por conseguir.


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019) - Parte II: semana de 10 a 16 de fevereiro

por Rui Chamusco

10.02.2019, domingo - Bendita promiscuidade!...

Será que o jardim do Eden era assim?...Passo a descrever o que me rodeia enquanto escrevo: pardais, galinhas, pintaínhos e galos, cães, porcos (javalis), peixes, teques e toquês, papaeiras, bananeiras, coqueiros, palapeiras, goiabeiras, árvores que dão mangas, inhames (talas), casas em blocos, telhados de zinco, pessoas, crianças,etc...

Tudo isto tendo como banda sonora o cantar dos galos ao desafio, o piar dos pintaínhos, e uma luz solar que dá cor e brilho a tanta criatura. 

Não fora alguns maus odores provenientes de infraestruturas debéis ou quase inexistentes e de lixos acumulados,  diríamos que estávamos no paraíso. A natureza no seu melhor e o progresso no seu pior com este maldito império dos plásticos e outras porcarias que infestam o ambiente. É assim a ação humana: ao querer arranjar muitas vezes estraga.

São as consequências nefastas da civilização e do progresso.

10.02.2019 - Carga d’água

Mais uma demonstração de força da natureza.. Talvez a maior chuvada que eu já vi em Timor. Pelas dezassete horas, um ruído crescente vindo de longe, se foi aproximando. Era a chuva que, batendo nas folhas das árvores e nos telhados de zinco, anunciava a sua chegada. E choveu tanto, tanto, tanto que não ficou um palmo de terreno seco. Uma benção, dizem uns: uma desgraça dizem outros. Imagino como terá ficado o caminho de acesso a Boebau...

Aqui, em Ailok Laran, Dili, cada vez que chove, mesmo que seja muito, é uma festa. Todos saem à rua gritando e brincando com a água. Com roupa ou quase sem ela, todos encharcados até ao tutano ósseo, divertem-se com brincadeiras de criança que a todos nos fazem inveja. Então o Gaspar, prevendo já o que vai acontecer sempre que estas cargas de água nos visitam, vai apressado buscar a máquina de filmar para registar estes felizes acontecimentos.

“E a chuva ouviu e calou seu segredo à cidade. E eis que ela bate no vidro, trazendo a saudade”.

11.02.2019, segunda feira  - Deus nos dê paciência!...

Isto é que vai uma crise!..É já a quinta vez que o Eustáquio e eu vamos à paróquia de Motael para que um registo de Batismo seja assinado pelo pároco. E ainda não foi desta. Enchem-se de razões para justificarem o padre: “o amo (padre) está doente”, “o amo está em reunião”, o “amo está a dormir a sesta”, patati-patatá, patati-patata. 

que é certo é que a certidão de Batismo ainda não está assinada. E depois de assinada ainda tem que se ir à chancelaria diocesana para carimbar. Será que o processo é o mesmo? Por quanto tempo temos de esperar?

Custa-me ver como estes serviços ligados à igreja (a certidão de batismo consta como registo oficial da certidão de nascimento) não têm uma resolução mais célere e mais eficaz.

Sei que os timorenses são um poço de paciência, mas quanto tempo não se ganharia com um serviço mais pronto e eficaz. Deus nos dê paciência!

11.02.2019 - Um encontro franciscano-capuchinho

Já não é a primeira vez que por aqui nos encontramos. O frei Fernando, superior provincial dos franciscanos-capuchinhos em Portugal, veio de visita canónica às fraternidades de Tibar e Laleia.

 O frei Miguel, que conheci pela primeira vez, é o superior e pároco da comunidade de Laleia. À hora marcada e connosco já esperando no Páteo, apareceram trajados com o hábito dos capuchinhos, dando assim testemunho da sua condição de frades menores. Gostei da imagem simples com que apareceram.

A mesa completou-se assim: o frei Fernando e o frei Miguel, o Eustáquio e o Gaspar Sobral, e eu próprio. Enquanto saboreávamos um café à portuguesa, pusemos a conversa em dia, particularmente eu e o Fernando, pois muitas coisas nos unem desde os tempos da sua adolescência (fui diretor dele no seminário).

Serviu também este encontro para combinarmos uma visita à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Com certeza que todo aquele povo e especialmente as crianças vão gostar de ver o São Francisco de Assis, hoje em carne e osso, e irão cantar com toda a alma “ São Francisco lá na glória / Lá nesse formoso céu / Protege a nossa escola / Protege este povo teu “ (letra do hino da escola). 

Como sempre o Fernando desfaz-se em atenções para comigo, o que muito lhe agradeço. Mas ele sabe bem que estamos em sintonia, no mesmo barco, em projetos de solidariedade de “Paz e Bem”.

11.02.2019 - Farwest made in Ailok Laran

Quem diria do que esta gente se lembra?!... Durante a tarde, sob uma grande chuvada, ouvimos um enorme alarido de bandos de pessoas que corriam numa determinada direção. O que é?... O que não é?... E todos aguçavam a sua curiosidade. 

Soubemos que um jovem agrediu outro, e que as claques se juntavam e incitavam o seu protegido. E até já sabíamos o nomes dos protogonistas desta batalha. Diziam até que já lá estava a polícia.

Foi então que o Chefe da aldeia Bartolomeu Pinto passou por aqui e nos explicou o que verdadeiramente se passava. Trata-se de cenas montadas previamente de lutas para serem gravadas e publicitadas no youtube. Por cada visualização esses jovens irão receber a sua recompensa em dinheiro, fazendo desta atividade uma forma de ganharem a vida.

Não sei não, mas se a moda pega vai haver uma grande batatada!...

13.02.2019, quarta feira - filosofia oriental

Estamos sempre a aprender com esta gente. Então não é que o Eustáquio, constatando que eu e o Gaspar andamos meio adoentados com forte tosse e expetoração profunda, nos dá uma lição de vida!

 Segundo ele e os entendidos deste canto do mundo, somosnós que criamos as nossas próprias enfermidades. Tal e qual! E explica: “se tem qualquer coisa na cabeça, sobretudo maus pensamentos, tem que deitar fora, falar. (...)  Não pensar nem guardar só para si. É o que guardamos dentro que nos faz mal, e provoca a dores no nosso corpo. Não precisa de médico...” 

Isto dito assim até nem parece errado. Aliás é o fundamento de todas as técnicas de psicoterapia. Mas será que chega? Não será melhor atacar logo com um produto farmacêutico recorrer a terapias disponíveis e a processos mais rápidos e eficazes?

Pelo sim e pelo não esta tarde vou consultar um médico. E pode ser que, com culturas e conhecimentos orientais, possam curar este corpo ocidental.

E de repente vem me à ideia o título do livro de Roger Garaudy “Parole d’homme -Ocident ou Acident?”,  onde se pode concluir que a salvação vem do oriente.

Estejamos portanto muito atentos...

13.02.2019 - Cobardia!...

Falo de mosquitos, de melgas... Então não é que mordem a gente à traição, pois estamos a dormir, enchem a barriga do nosso sangue e depois abandonam o local do crime.

Depois de verificar o estrago que me fizeram, busquei furioso a raquete assassina para me vingar destes dráculas. Querem lá saber... Nem um sequer apanhei! E por aqui andamos nós ao sabor desta bicharada que teima em dar cabo de nós â ferroada.

Cobardes, cobardes, cobardes!... Eles que se deixem apanhar para verem os que lhes acontece. Nem os ossos se lhes vão aproveitar!...

14.02.2019, quinta feira  - Rumo a Liquiçá

Com várias tarefas em mente, mas sobretudo o encontro com o diretor distrital de educação dr. Zito (?), a fim de nos esclarecer em pormenor o apoio que estão a dar à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Muito bem recebidos pelo senhor diretor e por um seu colega, depressa mos deram conta da situação. 

Ficamos então a saber que a escola de São Francisco de Assis está registada no ministério de educação timorense com o número 36 do distrito de Liquiçá, e que irá usufruir dos apoioslogísticos ao dispor. Este ano letivo conta com duas salas de ensino pré-escolar, e é frequentada por 40 crianças. O professor Luís, no cargo de inspetor do ensino pré-escolar, garantiu-nos que todas as ações de formação destinadas a este ensino, promovidas por esta direção escolar seriam comunicadas a tempo de modo a poderem ser frequentadas pelas trabalhadoras da nossa escola. O resto: apoios económicos, destacamentos e outras coisas mais explicaram que dependiam do que o ministério da educação lhes afetasse.

Por fim, e em jeito de remate, ouvimos da parte do senhor diretor o mais importante desta nossa visita de cordialidade: “Com a vossa colaboração e o nosso apoio a Escola de São Francisco vai fazer o seu caminho, a pouco e pouco; vai funcionar para bem de todas as crianças que a frequentam”.

14.02.2019 - Enxurrada inesperada

Estamos de volta. Na estrada Liquiçá-Dili, constantemente em obras, e que mais parece solo lunar devido ao pó e às crateras, um pouco antes do cruzamento para Tibar acontece o inesperado. Uma grande enxurrada corre precipitadamente edesemboca mais ou menos a dez metros do mar. Cada um safa-se como pode.

Motores e karretas procuram o melhor sítio para passar.

Também o Eustáquio deu o seu melhor para que o carro em que viajávamos chegasse são e salvo ao outro lado. Azar!... O motor parou e , de tentativa em tentativa, negava-sde sempre a pegar. Uma confusão danada. Apita daqui, apita dali. Uma microlete ainda parou para tentar ajudar, mas ninguém tinha corda para atrelar. O Gaspar bem tentou telefonar ao Quino para que fosse ao nosso encontro munido da cordanecessária, mas nada conseguiu.

E no meio desta ansiedade onde até já se rezava, um sinal de esperança surgiu, A mais uma tentativa de ver se pega, o motor arrancou e com muita dificuldade lá foi andando devagarinho, ganhando ânimo e acelerando, apreensivos até ao fim. Só em casa ficamos descansados. Está claro que o êxito desta expedição deve-se inteiramente ao Eustáquio, homem persistente e desenrascado. E à proteção divina.

14.022019 - O amor anda no ar

Anunciado e festejado em todo o mundo (o amor é universal), o dia de São Valentim tem o condão de avivar sentimentos, de despertar paixões, de combinar arranjos, de suscitar gestos, mensagens, telefonemas, cartas... e tudo o mais que seja preciso para que o mundo pule e avance “ como bola colorida nas mãos de uma criança”. 

Há quem tente esquivar-se deste dia, tentando dar a entender que tudo isto é uma fantochada. Mas Cupido, com a sua flecha amorosa, a todos atinge, queiramos ou não. Porque, “o amor anda no ar”. Basta abrir os olhos para o ver, abrir as narinas para sentir o seu odor, abrir os ouvidos para escutar os seus segredos. E, como diz a letra de uma canção espanhola, “Cinco sentidos tenemos / De todos necessitamos / Pero los cinco perdemos / Quando nos enamoramos”.

Hoje mesmo, aqui em Ailok Laran, pude compreender que este dia pode ser importante para alguém. O namorado da Eza, cumprindo o ritual de São Valentim, veio namorar à noitinha. E mais uma vez associei a letra da canção do rio Douro “conta a lenda / Que a namorar à noitinha / Foram encontradas as ninfas / com o rio Douro ao luar!”

Sim, a força do amor (que não só o amor físico) move montanhas. “Sapete perché il mondo va? Perché in torno al mondo gira l’amore...” E, embora com um dia especial,  14 de Fevereiro - que São Valentim seja todos os dias.

16.02.2019, sábado - ADHAN: o chamado para a oração

Aqui, em Timor, a religião mulçumana tem uma grande adesão, ainda que não comparável com a religião cristã, com destaque para a religião católica. 

Cada religião desenvolveu uma maneira de chamar os seus fiéis para o momento do culto: os judeus utilizavam uma corneta, os budistas uma trombeta, os cristãos os sinos das suas igrejas...

Já não é a primeira vez que, entre as cinco e cinco e meia da manhã, oiço o uma voz que percorre este ambiente. No princípio algo estranho, mas depois facilmente compreensível. Trata-se da chamada para a oração mulçumana - o Adhan - que é pronunciado em tom melodioso pelo Muazzin, do alto dos minaretes das mesquitas de todo o mundo.

Não percebendo nada do que se dizia cantando, fiz uma pesquisa na net sobre o conteúdo deste anúncio. E então deparei com o original e a sua tradução, que transcrevo:

Allahu Akbar | Deus é Maior !

Ach hadu an la ilaha ill- Allah | Testemunho de que não há outra divindade além de Deus.

Haiyá alas-salat |! Vinde para a Oração

Haiyá alal-falah Vinde para a salvação

Allahu AkbarDeus é o Maior !

Lá ilaha ill Allah | Não há outra divindade além de Deus !

Somente na oração da alvorada o Muezzin deve pronunciar depois de
Haiya alal-falah o seguinte 2 vezes:

 As-salatu Kairun minan-naumA oração é melhor do que o sono.

Quando houver terminado o Adhan, devemos suplicar à Deus as suas
Bênçãos ao profeta Muhammad (que a Paz e a Bênção de Deus
estejam sobre ele):

Allahuma rabba hadh-hid da' wa-tam mati

was-sálatil qai-mati muhammad anil wasilata wal fadi lata wad-
darajatar-rafi' ata


wab' ath-hu maqam-mahmuda-nil ladhi wa' at-tahu

 war zuqna sha fá' tahu yaum-al-qiyamah in naka la-tukh liful
mia'd. | Ó Deus, Senhor deste chamado perfeito e desta oração, ora anunciada,
dá a Muhammad meios para se aproximar de Ti, assim como a distinção
no bem, e fá-lo ressuscitar no lugar louvável que lhe prometeste.

Concede-nos a sua intercessão; Tu jamais faltas às Tuas promessas".

Nota: Esta é a minha homenagem à religião mulçumana e a todos os fiéis que a professam.

(Revisão / transcrição de texto, título, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série >  20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27934: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte I: semana de 31/1 a 9/2: santa paciência e ajudas...divinas

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27934: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte I: semana de 31/1 a 9/2: santa paciência e ajudas...divinas



Lourinhã > Praia da Areia Branca > 2 de dezembro de 2017 > Almoço de um grupo de amigos de Timor-Leste, no restaurante Foz: em primeiro plano, Rui Chamusco e Gaspar Sobral, cofundadores e líderes da ASTIL 

O Rui Chamusco começou por ser membro da Tabanca de Porto Dinheiro: natural de Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã há 3 décadas, sendo  professor reformado de Educação Musical no ensino oficial,   e de Português, Filosofia e Latim no ensino Particular. 

Desde há mais de uma década, que ele passou a ser um grande amigo do povo Timor-Leste, liderando um projeto  (luso-timorense),  já concretizado, em 2017, de construção de uma escola, privada, nas montanhas de Timor Lorosae, e de apadrinhamento de crianças em idade escolar.

A partir de  10 de maio de 2024, tornou-se novo membro da Tabanca Grande ( nº 886). Foi-me apresentado pelo nosso saudoso Eduardo Jorge Ferreira. Eu, por minha vez, apresentei o João Crisóstomo ao Eduardo, que era o régulo da Tabanca de Porto Dinheiro. E o Eduardo apresentou o Rui ao João, que passpu a ser logo o um apoiante entusiasta do projeto da ASTIL.


Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de 
São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o ace4sso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar)
 


Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Foi há dias, com a Alice, visitar o Rui Chamusco ao Hospital Curry Cabral, onde esteve internado no serviço de cirurgia, depois de submetido a uma delicada intervenção.

A operação correu bem, o prognóstico parece ser favorável e a recuperação está a correr bem. Teve alta este fim de semana.  De resto,  no passado dia 12 do corrente, dominmgo, achámo-lo com "boa cara", bem disposto. Falamos com o João  Crisóstomo, que  está em Nova Iorque com a sua Vilma. (É na casa do Rui, na Lourinhã, que o casal costuma passar parte do tempo quando vem a Portugal.)

 Para já não se põe a hipótese de tão cedo o Rui voltar a Timor Leste. Mas com a fibra dele, à  sua beira, nunca ninguém diga "nunca... mais". (Nem muito menos de se estrear, aos 80 anos,  na Capeia Arraiana, a pegar o forcão, na próxima festa de agosto, lá na terra, o Sabugal.)

Desde 2016,  o Rui já foi, pago do seu bolso, seis vezes a Timor-Leste, onde geralmente fica o tempo que lhe é legalmnte autorizado, enquanto "malae" (estrangeiro), e que são três meses. Dessas viagens e estadias há crónicas que ele escreve a  pensar nos sócios da ASTIL e demais amigos da Escola de São Francisco. Já publicámos excertos das crónicas  da I vaigem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Começamos a publicar as da III viagem (2019). Depois mete-se a pandemia, e  só voltou  a Timor Leste em 2023 (IV  viagem) , 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Entendam, caros leitores, a publicaçãp desta série como um pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016,  por solidariedade com o povo timorense e as as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá . 

É também uma forma de a  gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós.


 Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019)

por Rui Chamusco

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral



Olá amigos do Projeto de Solidariedade e estimados sócios da Astil.

Depois de retemperadas as energias despendidas nesta longa viagem e de vencermos a fadiga provocada pelo stress das mudanças e horários, aqui estou como vos prometi para, nas minhas III Crónicas vos dar conta dos factos e acontecimentos mais relevantes relacionados com o nosso projeto de solidariedade.

De antemão, peço desde já desculpa por qualquer incómodo que possa causar a alguém nas minhas descrições, mantendo sempre o propósito da transparência e fidelidade nesta condição de pobre escritor, cujo objetivo é simplesmente manter informados todos os amigos.

Assim e sem mais demora, passo a descrever:

Os dias de viagem - 31 de janeiro (quinta feira) - 01 (sexta feira) ,02 (sábado) de fevereiro  2019 

Diz-se que “o melhor da festa é esperar por ela”. Assim sendo ou não, os dias de preparação desta viagem foram bastante agitados, correndo de uns lados para os outros, sempre com a preocupação de que nada faltasse para que esta viagem e estadia seja bem sucedida. Destaco a preciosa ajuda do amigo Dr. Ascenso que tudo fez para que nenhum papel ou documento faltasse para os efeitos pretendidos. Obrigado, amigo!

Depois, são as horas que tardam em passar, dentro ou fora do avião; são as comunicações e as mudanças nos aeroportos; são os vários chekins em cada aeroporto, alguns exigindo que se tirem os sapatos e outros quase nos deixam despidos; são os cuidados excessivos com as bagagens de mão para que nada se perca ou extravie. 

Claro que também dá para apreciar paisagens, pessoas, culturas, e quantas coisas mais... E embora o cansaço se vá apoderando de nós, nada que uma boa comida ou uma boa bebida não resolva.

Ás 14.45 horas locais pisamos de novo solo timorense, com um calor húmido bempesado. Alguns rostos conhecidos fomos encontrando no caminho para o controle dedocumentos e bagagens, e uma certa ansiedade se apoderou de nós no local de levantamento da bagagem de porão. 

Será que não há duas sem três como se costuma dizer? É que de todas as outras vezes, em 2016 e 2018 nunca a minha bagagem chegou a tempo e em forma. Enquanto estávamos assim cogitando à espera do tapete rolante que trazia as malas, em tom de brincadeira disse para o Gaspar: 

E se a minha mala fosse a primeira a aparecer? 

Pois assim foi mesmo, a primeira mala que se avistou era a minha. E fiquei tão contente que não a quis pegar logo. Deixei que desse a volta de honra a que tinha direito, e só depois, triunfante, a retirei. Tudo o resto foi fácil e agradável. O Eustáquio e a Adobe lá estavam à nossa espera para nos abraçar e beijar.

Já em Ailok Laran apareceram as crianças e os adultos que nos esperavam. Depois foi distribuir beijos e abraços sem conta, até que a tarde e a noite se foram aproximando.

Sem grande esforço o “João Pestana” apoderou-se dos nossos corpos e mentes. E, apesar da música intensa que se fez ouvir toda a noite (celebrava-se o “desluto” da professora que tinha falecido há um ano, cuja descrição de rituais consta nas minhas segundas crónicas) a noite foi “sossegada” e bem aproveitada por um sono retemperante.

Claro que antes da deita dei uns passos a olhar para as estrelas, tentando descobrir nocéu pontos de observação que nos unem em qualquer parte do mundo: a úrsula maior e a úrsula menor (com incidência na estrela polar); a “santíssima Trindade”; o “sete estrelo”; etc.., etc...

E com o ”boa noiti” familiar nos despedimos até ao dia seguinte.

03.02.2019, domimgo - O encontro ansiosamente esperado

Se há acontecimentos desejados, o encontro com o sr. comandante de fragata Rui Pedro Ferreira está na lista muito bem posicionado. Então passo a explicar:

O Rui Pedro Ferreira é filho de uma prima com ascendência em Malcata, a Ti Rosa Nita e o Ti Zé Feliz, ambos primos direitos da minha mãe Laurentina. Por motivos profissionais o Rui Pedro foi destacado durante um ano para serviços em Timor Leste, e que começou em Setembro do ano passado.

Sabendo os seus pais Maria de Deus e Carlos Ferreira que nós estamos a desenvolver um projeto de solidariedade em Timor Leste e que viajamos de vez em quando para este país, procuraram de imediato que estabelecêssemos relações, neste caso através do facebook, o que não foi difícil, e assim nos mantivemos até este dia.

Assim, à hora marcada para o nosso primeiro encontro (foi a primeira vez que nos abraçámos) e por coincidência, o estacionamento dos carros foi á beira um do outro, pois o Rui Pedro mesmo ainda sem parar chamou pelo meu nome. Depois de um forte e afetivo abraço cada um de nós apresentou os seus companheiros, no meu caso o Gaspar e o Eustáquio Sobral), e dirigimo-nos para o Hotel Timor, onde amavelmente o Rui Pedro nos ofereceu o almoço. 

Claro que eu fui portador dos “miminhos da mamã”, e tive um enorme prazer de lhe entregar esta preciosa encomenda, que tão bem sabe a quase 25.000 quilómetros de distância. Foram momentos únicos e muito apreciados de parte a parte, pois a comitiva do Rui Pedro é gente de muito valor e que vale bem a pena ouvir. Ficou a promessa de nos voltarmos a encontrar para vivermos as grandes surpresas que este país nos oferece, sem esquecer claro está asimpressionantes paisagens e as sorridentes crianças que nos cativam pelos seussorrisos e necessidades.

Caro amigo Rui, caro primo: um enorme obrigado pela tua simpatia e atenção para com todos nós, e particularmente para com este Rui que já é katuas. Enquanto por aqui estivermos não nos iremos esquecer nem separar.

03.02.2019 - Rosas com espinhos

Há notícias que nos abalam. Agora mesmo passou em frente ao pátio da casa que nos alberga o Valente, filho do falecido Vitor, e que o ano passado foi personagem muito descrito nas minhas crónicas. 

Lembram-se de toda a sua história e reintegração escolar que em Fevereiro do ano passado aconteceu? Pois bem. O Valente passou, foi interpelado pelos presentes para que nos viesse cumprimentar, mas ele com ar altivo e surdo seguiu o seu caminho em direção de não sei que destino. Explicaram-me então que o protegido Valente, rapaz de 15 anos, abandonou a escola, e que neste momento é um jovem “vadio” que sai de casa (barraca) e só regressa às tantas da noite. Pobre mãe que já não tem mão nos filhos que tem! Que falta faz o pai senhor Vitor.!... Mas até nisto a vida é madrasta para alguns.

E agora, que podemos nós fazer?... Confesso que, após trinta e tal anos de docência, me sinto incapaz de resolver este problema. Não é por mim que o digo, mas lembrei-me imediatamente do ditado popular “não há rosas sem espinhos”. E bem me parece que neste caso, os espinhos abafaram a rosa e são agressivos para quem a queiraproteger.

Ai Valente, Valente! Que Deus te proteja e faça de ti um Homem, com o H grandecomo era o teu pai.

04.02.2019, segunda feira  - Tanta coisa para fazer!...

Hoje, sob um calor abafado e muito húmido, passamos a manhã a tratar de papeis. O Gaspar na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste) foi apresentar-se, com a credencial na mão, para entregar na reitoria. Segundo ele tudo correu bem, e está à spera que lhe comuniquem o horário e as disciplinas que vai lecionar. O Eustáquio e eu nas paróquias de Balide e Motael procurando a autentificação de certidões para documentos oficiais. Voltaremos amanhã porque não conseguimos despachar-nos hoje.

De tarde eu e o Eustáquio fizemos uma revisão da contabilidade e programamos os próximos passos a dar quanto ao programa de apadrinhamento, à funcionalidade da escola de São Francisco em Boebau, à reconstrução da “casa” de família do senhor Vitor.

Vamos tudo fazer para que a obra avance, pois as necessidades são evidentes. Oacordo está feito: nós (ASTIL) forneceremos os materiais de construção e os filhos, família e amigos darão a mão de obra. Como sinal de aceitação e agradecimento, a senhora Julieta, esposa do falecido senhor Vitor, expressou um enorme sorriso, que é a melhor paga do nosso empenhamento por esta obra social.

05.02.2019, terça feira  - Tolerância

Hoje é feriado em Timor Leste. Tal como em Portugal, há gente que, por ignorância, e pergunta porquê? Pois aqui está a explicação: começa hoje, o calendário chinês, que este ano 2019 é dominado pelo porco.

E aqui está a razão deste pequeno relato. Ao longo destes vinte anos de independência, os sucessivos governos deste país têm sido exemplares no respeito pelas diferentes religiões e povos que aqui residem. Cristãos (católicos, protestantes), muçulmanos; chineses, portugueses, indonésios, australianos, japoneses, etc.. Todos são tratados em igualdade de circunstâncias, ou seja: respeito com deveres e direitos.

Por isso em dias como hoje, escolas, serviços públicos sobretudo têm tolerância de ponto, e por isso estão fechados. E ainda que a igreja católica seja dominante no contexto das religiões, todos sabem que o respeito mútuo é um dos melhores bens que este povo tem. Graças a Deus que assim é... E já agora, que o ano chinês do porco traga prosperidade a esta gente.

06.02.2019, quarta feira  - Tão longe e tão perto...

O amigo João Crisóstomo não descansa, sempre e no intuito de ajudar. Como já sesabe, o João vive em New Yort/USA, a muitos quilómetros e muitas horas de viagemdaqui. Na impossibilidade de estar aqui connosco no desenvolvimento do nosso projeto de solidariedade, quase todos os dias entra en contacto, dando ideias, promovendo encontros, facilitando contactos através dos seus muitos conhecimentos e boas relações com gente importante deste país. O João é um homem de ação: ou vaiou racha! Quem o conhece sabe bem a paixão e a energia que ele põe nestas causas.

Por isso, imaginem o seu sofrimento de não poder estar onde ele quer. Tão longe e tãoperto... Ausente, mas presente... Não te inquietes João, porque a tua ausência físicanestá bem compensada com a tua presença e apoio constante. Onde nós estivermos, tuestarás também. És uma pessoa fundamental no nosso projeto.

07.02.2019, quinta feira - Santa paciência!...

Se alguma virtude (ou defeito) tem muita expressão em Timor Leste, é a paciência para a qual são preparados todos os timorenses, em virtude de a isso serem obrigados.

 Então não é que já fomos três vezes à igreja de Motael para que o párocon assinasse uma certidão de batismo e ainda o não conseguimos!... Se é de manhã, dizem-nos para vir à tarde; se é de tarde, dizem-nos para vir de amanhã. Santa paciência! 

Até nisto o povo continua a sofrer. As razões são sempre as mesmas: o senhor padre não está; o senhor padre está doente... Mas não haverá competência para suprir tamanha ausência? Saber esperar, mesmo que seja uma virtude, também cansa.

E convenhamos que estar à espera sob um calor húmido e abafador custa um bocado, a  nós adultos já bem treinados pelas dificuldades da vida, mas sobretudo às mães com crianças a cargo, crianças ao colo. E embora haja gente inconformada, a verdade é que não existe livro de reclamações em nenhum lado. “Ó Cristo, vem cá abaixo ver isto.” Que Deus nos valha!...

08.02.2019, sexat feira - Rua da Amargura

Destas ruas há em toda a parte, em todo o mundo. Até Cristo Jesus, a caminho do calvário, teve de passar por elas. E caiu três vezes segundo os relatos evangélicos.

Pois aqui nos arredores de Dili, mesmo em contexto de capital, existe a rua de AilokLaran em que, se Cristo por cá passasse, carregado com a cru, z teria caído com certeza mais de meia dúzia de vezes. Com tanto trânsito e tamanha confusão, que só é de estranhar que os acidentes não sejam em cadeia devido ao trânsito de peões e veículos motorizados. Dizem que já por cá passaram ministros e outras pessoas importantes.

Mas então não se deram conta da miséria em que está este piso? Há quem diga que é uma vingança devido aos estatuto revolucionário de que o Bairro Pité tem fama.

Receio que, se não houver uma intervenção rápida nesta rua, ferros, chapas, ossos etripas serão aos molhos. Mais a mais esta é uma rua de mercado. Imaginem pois asmercadorias. Há que ter um estômago bem forte para ver e deixar passar o que aqui sepassa...

08.02.2019 - Buah Naga / fruta dragão

Nem tudo o que luz é ouro.. Ou então quem vê caras não vê corações. Isto vem a propósito de uma fruta que hoje encontramos no Jaco, superfície comercial, bastante bonita e atraente mas que só abrindo-a e saboreando se tem a verdadeira noção do que estamos falando. Pelo sim e pelo não, comprou-se uma metade, por sinal nada barato, a que depois em casa lhe testamos o sabor. Pois é! As aparências iludem, e de que maneira. 

A Buah Naga (fruta dragão por o seu exterior ser parecido com a pele de dragão), embora atraente por dentro e por fora, é uma fruta desensabida a saber anada, que não justifica qualquer investimento, a não ser a curiosidade.

08.02.2019 - Até que enfim!...

Até que enfim o orçamento geral do estado 2019 foi aprovado. 

Um parto difícil mas muito desejado. Já lá vão passados quase nove meses, e era realmente o tempo de dar à luz. Até eu que teoricamente nada tenho a lucrar com esta aprovação, tenho sentido a ansiedade que este atraso tem provocado. Sempre a mesma explicação a qualquer solicitação: “não há dinheiro porque ainda não foi aprovado o orçamento”. 

O espectro de ter de enfrentar a vida em regime de pagamento de duodécimos aflige todos os sectores, sobretudo as gentes mais necessitadas, porque quem ganha bem tem reservas que lhe permitam qualquer oscilação económica. Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão. Por isso penso em todos os pobres deste país, os mais carentes e necessitados, que precisam do pão para a boca como do ar para respirar.

Oxalá que este orçamento seja benéfico para toda a gente, Que os governantes tenhama sensibilidade e a coragem de, com ou sem protocolos, acudir às necessidadesbásicas de cada povo, de cada pessoa. E estou a pensar na canção do Sérgio Godinho: “a paz, o pão, saúde e habitação...”

08.02.2019 - Sicut Magister

O amigo Gaspar começou hoje as suas aulas de direito na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste). 

Com o grau de mestre e a preparar o doutoramento, esta é uma das etapas necessárias: trabalho de campo que o Gaspar, com orientação da universidade de Coimbra, decidiu que fosse na sua terra natal, aqui em Timor. Assim poderá ser útil ao seu país, enquanto que esta experiência enriquecerá também o seu currículo.

Com alunos do terceiro e quarto anos, com salas cheias, o novo professor debita palavras e palavras que vão dando formação e engenho a estes jovens ouvintes. Já se queixa que a voz lhe falha, que as cordas vocais se esforçaram demais, que assim vai perder a voz. Ossos do ofício meu amigo! Eu bem lhe digo que compre rebuçados "Bayard”... Que trate do que é seu, porque “rouxinol sem bico não pode cantar”.

Tenho a certeza de que ele vai cumprir fielmente a sua missão...

09.02.2019, sábado - Tão perto e tão longe

Uma das prioridades da nossa ação em Timor Leste é a Escola de São Francisco em Boebau, que dista mais ou menos a oito quilómetros de Liquiçá, e que se demora à volta de duas horas para percorrer este caminho.

É sempre nossa intenção irmos a Boebau o mais rápido possível, o que desta vez ainda não aconteceu. Informaram-nos que, devido às chuvadas de que este tempo é fértil, os caminhos estão intransitáveis, andando os populares a deitar terra para que se possa passar. 

Aguardamos melhores notícias para que logo que possível, possamos rumar para as montanhas de Liquiçá, com destino a Manati / Boebau.

09.02.2019 - Ajudas divinas

Quem diria que o programa de apadrinhamento de crianças e jovens necessitados, começado em princípios de Maio de 2016 , tivesse o alcance até agora demonstrado?

Neste momento há quarenta e dois “apadrinhamentos”, e mais alguns que estão àespera de serem concretizados. Graças a este programa algumas crianças voltaram à escola e alguns jovens conseguiram entrar ou continuar na universidade. 

Cada padrinho / madrinha tenta apoiar o seu afilhado(a) da forma que achar mais conveniente, embora saibamos que o apoio económico é dos mais desejados. Oobjetivo deste programa é claro: criar laços, relações afetivas e culturais; dar apoio noincremento e divulgação da língua portuguesa.

Hoje mesmo tivemos a alegre notícia de um apadrinhamento vindo de uma família venezuelana, a viver em Portugal. Graças também a este apoio a Eza (Zinomia), uma jovem linda e muito inteligente, vai regressar à universidade para continuar os seus estudos. Mas há mais que esperam ansiosamente por estas “ajudas divinas”.

E quanto a nós só temos de nos congratular e agradecer a Deus ter posto a Adobe no meu caminho, e ter dado origem a este ato solidário de se poder ajudar quem mais precisa.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


Timor-Leste > Liquiçá / Manati / Boebau > 22 de março de 2025 > Visita do 1º ministro Xanana  Gusmão à Escola de São Francisco de Assis

A foto e a legenda é da página do Facebook do Nunes José Nunes Martins, com data de 27 de março ·

"Imagem com história verdadeira:  Primeiro Ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, visita surpresa e celebra com a comunidade o 7ºaniversário da Escola São Francisco de Assis "Paz e Bem". Rui Chamusco sorri ao ver Xanana com tanto interesse na concertina aos ombros da menina que alegremente o recebe.

A imagem vale por mil palavras! (Nota: trata-se uma das  imagens oficiais do Governo de Timor!)