Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Tony7 Borié. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tony7 Borié. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28101: Mi querido blog, por qué no te callas?! (13): o país virou a página da guerra mas não leu o capitulo, diz (por outras palavras) o Tony Boré.. Não sei se não seria melhor fechar o blogue durante o mês e tal em que o futebol já está a entrar pelas nossas casas dentro "ad nauseam".

 


Fonte:
Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Textos: TB / LG
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 15 de junho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



1. O Tony Borié (António Rés Borié)  é o nosso grão-tabanqueiro nº 564, desde 4/7/2023. Foi 1º cabo cripto, do Cmd Agr nº 16 (Mansoa, 1964/66). 

Como muitos outros camaradas que regressaram da guerra, não foi recebido de braços abertos pela Pátria. Nem muito menos com bandeirinhas e foguetes. Tirou o passaporte e emigrou (em 1972, pelas nossas contas) para a América, onde vive há mais de meio século. 

Passou por Ironbound, o histórico bairro português de Newark, New Jersey, onde descreve uma vida de muito trabalho, horas extraordinárias e sacrifícios comuns à primeira geração de emigrantes portugueses. Bem sucedido profissionalmente e reformado, instalou-se na Florida onde, dizem, o verão nunca acaba. E terá sido aqui, com tempo e vagar, que  começou a escrever sobre as suas memórias, a guerra, a emigração, a vida quotidiana. E a viajar, de autocaravana,  pelasgrandes estradas da grande América .  

Tem 273 referências no nosso blogue, sendo autor de 4 séries (e colaboração noutras):

  • Do Ninho d' Águia até África (de julho 2012 a março 2013 (60 postes)
  • Bom ou Mau tempo na Bolanha (abril 2013 / janeiro 2015) (84 postes)
  • Libertando-me (janeiro 2015 / janeiro 2016 ) (50 postes)
  • Atlanticando-me (janeiro 2016 / outubro 2016) (14 postes)

Ele tem sido o nosso cicerone da América, e um dos cronistas da diáspora lusófona.  Mas também da Mansoa,  região do Oio, Guiné,  de há 60 anos atrás, nos primeiros anos de guerra.

(...) "A minha estadia na guerra da Guiné deu-me experiência e força anímica, para me adaptar a um país como os Estados Unidos, onde a princípio é difícil superar todas as anomalias que nos surgem, como a língua e os costumes. Quando aqui cheguei,  com trinta anos, com responsabilidade de família, fui para a escola como uma criança de seis anos, frequentei a escola, até  tirar classes na universidade, para me graduar profissionalmente, lavei carros, e tive os trabalhos mais pesados e sujos que havia. 

Os meus filhos têm cursos superiores. Foi difícil para qualquer pessoa, mas eu tinha sobrevivido à guerra da Guiné!. Portanto,  estava preparado". (...)

2.  Voltámos a ter notícias suas, através do Carlos Vinhal (*). Vale a pena comentar:

É um sentimento "esquisito", contraditório: a comunidade lusófona na América, que emigrou para a aquele país, depois de ter pago do "imposto de sangue", como o Tony Borié, regressado da Guiné em 1966...

Pertencem a dois mundos, os nossos luso-americanos. O texto, irónico, do Tony Borié toca num ponto profundamente humano e doloroso: a desvalorização do nosso sacrifício como antigos combatentes em nome de um símbolo (uma pátria, uma bandeira que, depois, não reconheceu quem lutou por ela). 

Já o padre António Vieira, em meados do séc. XVII, glosava o tema da do "patriotismo" e "ingratidão da Pátria":

"Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma"! (in: Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma, 1669).

É uma ferida aberta para muitos de nós, antigos combatentes, tanto em Portugal como na diáspora lusófona...


A bandeira é o mesmo símbolo, não mudou de cores, mas o contexto é radicalmente diferente, quando o Tony põe em comparação a seleção de futebol, que chega a Palm Beach, Florida, para disputar o Campeonato Mundial de Futebol (11 de junho -19 de julho de 2026): 

(...) "O avião que trazia a seleção de futebol de Portugal, já aterrou próximo do local onde vivemos e…, nós quando ainda jovens, também oriundos da Europa, com uma educação de aldeia, onde os princípios honestos de família vinham de há séculos, vendo todo este cenário de jovens milionários vestidos a rigor com o emblema da bandeira nacional, carregando luxuosas malas, desembarcando sorridentes, alguns até faziam “caretas” e acenavam querendo talvez “pôr faladura”, fez-nos mais uma vez compreender que todos os sacrifícios que passamos defendendo esta mesma bandeira mas em cenário de guerra, infelizmente, foram em vão". (...)

Ou visto o filme em termos simplistas e redutores;

(i) de um lado, "eles" (os jogadores da seleção nacional), desembarcando na sala VIP como heróis temporários, celebrados, com o país a vibrar por antecipação com as suas esperadas vitórias; o seu "imposto" é o suor, a disciplina, a pressão mas também a glória efémera (... e  os milhões);

(ii) do outro lado, nós, os antigos combatentes, desembarcados  há mais de 50 anos  em África com o peso da responsabilidade, da morte à espreita, e regressados com o estigma do silêncio; o nosso "imposto" foi o sangue, o medo, a incerteza de um futuro que nunca chegou a ser promissor e que nos levou, a muitos de nós (como o Tony) aos duros caminhos da emigração. 

E, pior, com a sensação de que a Mãe-Pátria  nos tratou não como filhos, mas como enteados... E nos virou as costas.

E tudo isto, porquê ? Para quê ? Não há respostas simples para perguntas complexas...

A guerra foi sempre tabu, antes e depois do 25 de Abril...  Foi um trauma mal resolvido; o 25 de Abril trouxe os 3 DDD, a democracia, o desenvolvimento, a descolonização. Pior ou melhor. Mas não trouxe (ou só mais  tarde, ou só muito mais tarde para a grande maioria) o reconhecimento aos que lutaram (800 mil, portugueses da metrópole, e africanos, muitos dos quais se consideravam portugueses).  

O país preferiu virar a página da guerra sem nunca abrir e ler... o capítulo.. Somos os heróis anónimos ( e incómodos ) de uma história que ninguém quer ler (ou sabe ler).

Não sei se não seria melhor fechar o blogue durante o mês e tal em que o futebol já está a entrar pelas nossas casas dentro "ad nauseam" (**).

É a nova versão do "pão e circo" que nos vem dos nossos colonizadores romanos, os do império dos mil anos. Escravizaram-nos, aos antepassados lusitanos, roubaram-lhes a alma, o corpo, a língua (ninguém sabe sequer qual era a língua que falavam, o nosso português é um produto do colonialismo romano).

A bandeira tem sido utilizada como fetiche, talismã... A bandeira é fácil de agitar nos estádios, nas festas, nas paradas, nas comemorações,  etc., mas é incómoda quando associada à guerra (e à morte). É mais cómodo celebrar o futebol do que enfrentar o passado, a história, o lado mais sombrio do passado, da história.

Somos  uma geração sacrificada que pagou o preço de um império em colapso, sem ter tido voz na decisão. E, quando passámos por baixo da ponte sobre o Tejo, a Pária já olhava para nordeste,   ou fingia que olhava, de cu virado para o Atlântico,  os olhos postos nos Pirinéus, em Bruxelas, na Europa... Encerrava-se um ciclo de 500 ou 600 anos...

O Tony Borié tem razão: não havia futuro para nós. Nem uma mísera medalha de cortiça. Aliás, nada nos prometeram em troca. E agora, na América ou em Portugal, somos  uma ponte entre dois mundos: o passado, a Guiné, a guerra, a juventude perdida, os camaradas que não regressaram; o presente, um país que nos ignora, uma diáspora que tentou reconstruir a vida, longe da Pátria, mas com a sombra da desilusão.

Mas há uma coisa que o Borié não diz explicitamenmte, mas deixa antever:   a nossa história não foi em vão. Não pela bandeira, não pela Pátria, não pelo Estado, mas por todos nós. Pelos que sobreviveram, pelos que contam as histórias, pelos que transformam as memórias doridas em palavras,  em  imagens, em livros, em blogues, em sítios na Net...
 
Fica, por fim,  o apelo, o desafio do Tony, lúcido e fraterno, nos lança: "Por favor, protejam-se"...É um aviso mas também um mimo. É como se dissesse: "Não esperemos que o mundo nos faça justiça. Cuidemos uns dos outros, porque ninguém mais o fará.  Sejamos nós as contar as nossas histórias antes que apareçam os vendedores da banha da cobra a contá-las por nós".

E, no entanto, a bandeira continua a ser a mesma... Com  as mesmas cores, os mesmos símbolos...