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terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27789: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG (Comando Terriorial Independente da Guiné), atribuída em julho de 1967, com a presença das entidades civis e população.

Foto do álbum do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) > "Militares, civis da administração, correios e comerciantes. Da esquerda para a direita, [?], de costas, o Cap Médico Morais (1), o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso (2), quatro funcionários dos Correios e Administração (3), os comerciantes srs. José Saad e filha (4), Mota (6), Dantas e filha (5), Barros (7), depois o electricista civil Jerónimo (8), e o alf grad capelão Horácio  Fernandes (9)".

Ao canto superior direito pode ler-se a seguinte inscrição: "A nossa intervenção em África é resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer' ".  

Foto (e legenda): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Chegámos ao fim desta série, baseada na reprodução de  excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, nascido em Ribamar, Lourinhã, em 1935, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG (BART 1913, Catió,  1967/69), e que faleceu no passado mês de novembro de 2025,  aos 90 anos.



Horácio Fernandes
(1935-2025)
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constituiu família, passando a viver no Porto.

Nos dez  postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram:  
o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno,  o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara;

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra natal), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passou a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras, já ao pé de casa);

(vi) seguiu-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela);

(vii) e depois de Coristado de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de 1959).

(viii) no início do 2º semestere de 1967, foi chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(ix)  foi mobilizado para a Guiné, em rendição individual, como capelão militar, sendo colocado no BART 1913 (Catió, 1967/69);

(x) a sua vocação sacerdotal começou a ser  abalada com a sua passagem pelo sul da Guiné.

Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos, por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas. 


2. Achámos que era uma história de vida que merecia ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

Considerámos tratar-se de um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Imagem acima, do lado direito: capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão 

por Horácio Fernandes

6. - A desconstrução do habitus. O Trânsfuga.

De novo, e no fim deste desenvolvimento autobiográfico, se coloca a questão de saber qual a relevância científica da descrição fenomonológica de uma vida.

Defendemos (vd. cap 3° da dissertação de mestrado) que a individualidade, não só  não  esgota as explicações estruturais - Francisco é produto de uma construção social em contexto salazarista - como estas podem ser enriquecidas pela análise daquela.

Francisco não se deixou dilacerar, como porventura conviria a uma autobiografia mais épica (mas menos real), prioritariamente por dilemas políticos, ou por dilemas teológicos. 

O trânsfuga, em que o tornaram e em que se tornou, era constituído por uma contradição que não lhe parecia insuperável, mas que as normas institucionais tornaram insuperáveis, entre a busca da sua identidade pessoal e a sua identidade profissional. Contradição essa, constituída prioritariamente por um cadinho de sensibilidades e afectos que ele, por excesso, não conseguia conter, dentro do «ego» que pensou ser o seu, durante 26 anos.

Nos últimos tempos de Capelão Militar, Francisco andava em grande perturbação. Por um lado o habitus (**) predispunha-o e quase o obrigava a regressar à instituição. Por outro, achava que após a experência de uma vida diferente, a força das suas representações esmorecera e já não iria assumir a sua missão, apaixonadamente. 

Abandonar, para ele, também era um terrível obstáculo, pois uma terrível frase não só o matraqueava, como se entranhara nele: tu es sacerdos in aeternum (tu és sacerdote para sempre).

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O habitus,  como dupla personalidade que é, resiste sempre a qualquer reconstrução que contra si se faça. A reconstrução de Francisco não foi fácil.

Lançado em pleno mundo que aprendera a anatematizar, Francisco vê-se, com raras excepções, mal amado como padre e apenas tolerado, como companheiro de viagem.

As representações que tinham sustentado e alimentado o seu longo percurso de domesticação começaram a desvanecer-se: 

  • foi o sonho de ser missionário que ficou desfeito, depois de observar in loco a irracionalidade da Guerra Colonial, a exploração do homem preto pelo branco e a aversão dos professores mais evoluidos a tudo o que fosse vestígio do colonialismo;
  • foi a excelência simbólica da missão de administrador do sagrado, que afinal não era reconhecida pela maior parte dos homens com quem vivera;
  • era a sacralidade da própria instituição divina, a Igreja, tão permeável às «cunhas» e compadrios, e indiferente às injustiças praticadas, na Guerra que apadrinhava.

Estes dilemas não o dilaceravam, nem foram ocasião próxima de tomar uma atitude épica de rompimento. Mentiria, se o empolasse agora. Os dilemas políticos não foram a causa próxima do seu rompimento com a instiuição. Contudo, ajudaram-no a descrer.

Francisco precisava de estar apaixonado por alguma coisa, ou por alguém. Fragilizadas as suas representações, abriu-se um vazio que precisava de ser preenchido A instituição, mergulhada como toda a Igreja, no aggiornamento (vd. cap 2º da dissertação) dos anos 60, debatia-se numa crise de identidade e as deserções multiplicavam-se.

- 134 -

Francisco era um apaixonado e estava a viver os seus 15 anos. As suas irmãs e demais pessoas, que o conheceram na altura da Missa Nova, descreviam-no como um místico, que quando se ordenou vivia o sagrado intensamente em todos os seus gestos. Quando tomou a peito que os alunos fizessem boa figura no liceu, levou até ao sacrifício esse objectivo. Quando se propôs ajudar a sua família, custeando os estudos de suas irmãs, não se poupou a esforços e fê-lo.

Agora, estava numa encruzilhada. Na sua penúltima viagem no «Niassa», carregado de tropas para a Guiné, teve ocasião de conversar com um angélico, não trânsfuga, que lhe contou o seguinte:

Em 1969, quando acabou a Comissão Militar, Francisco confídenciou-lhe que estava desamorado daquilo em que se empenhara e acreditara e se estava a inclinar para outra paixão. Confidenciara-lhe que era um poço de afecto e que se apaixonava com toda a facilidade, faceta que até aí nunca experimentara. Agora, queria viver a vida que não o deixaram viver durante 13 anos e queria vivê-la intensamente. 

Confessou-lhe, então, que mais cedo ou mais tarde preencheria esse vazio. Ainda não individualizara esse afecto, mas quando se apaixonasse, não hesitava em pedir a redução ao estado laical. Sentia-se bem entre as raparigas, embora as suas reacções fossem como os de um jovem imaturo de 15 anos. Por um lado, o 'habitus' a inibi-lo e a lembrar-lhe que o seu compromisso com o sagrado era eterno. Por outro, um instinto quase irresistível para amar.

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Tal como na construção da sua vocação, entra então em cena uma terceira personagem: o seu Prior. É com a sua intervenção que é possível estabelecer negociações entre o 'habitus', a dupla personalidade incutida durante 13 anos pelo Seminário e o agora Francisco de 36 anos, há já quase quatro anos, praticamente fora da instituição. E, novamente, a questão da influência das pessoas singulares na vida das pessoas, se coloca com toda a pertinência (cap. 2º).

Na boa lógica do filho pródigo, as hierarquias tentam reconvertê-lo à causa, e prometem-lhe mesmo, não uma grande festa, com a matança de um carneiro, mas uma parcela do poder, cujo significado ainda é maior. Como persiste em recusar regressar, arrependido, à casa paterna, consideram-no Trânsfuga.

É a lógica do ensino confessional, no tempo do regime salazarista, cuja estrutura organicista permanecia intacta. Se fosse fiel à domesticação, seria bem-aventurado; se não se subordinasse, seria amaldiçoado. A ordem discursiva, essa, serpenteia ao sabor das circunstâncias políticas: ora pede perdão, ora se autolegitima para esconjurar o demónio da racionalidade.

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CONCLUSÃO

Um dos propósitos centrais deste trabalho foi o de explorar a hipótese de saber se é possível ou não penetrar sociologicamente as experiências de vida de alguém, a partir dessas próprias experiências e não apenas, como a sociologia tradicional procede, a partir das estruturas macro-sociais, enquanto instância explicativa.

No final deste percurso de investigação queremos haver construído uma resposta à pergunta que na "Introdução" (da dissertação) formulámos:

«Como penetrar sociologicamente as experiências de Francisco Caboz que cresceu e foi enformado pelo sistema do ensino salazarista, pelo subsistema do ensino confessional, foi domesticado e interiorizou o 'habitus sacerdotal', foi ungido na sua 'missão' simbólica, e se transformou em 'trânsfuga' e regressou ao quotidiano profano?».

Resposta porventura não definitiva, primeiro porque as próprias vidas também não o são, depois porque não há olhar, científico ou não, que esgote totalmente o seu objecto.

Admitimos que outros olhares, outra metodologia teria feito falar a história de Francisco Caboz de outro modo. Todavia, acreditamos ser esta, de todas elas, uma forma de o fazer que menos exaure a própria história de Francisco de possíveis significações e resultados.

Num tempo de mudança de paradigma de cientificidade, em que as distinções entre as Ciências da Natureza e as Ciências Sociais e Humanas são postas em causa (cfr. Sousa Santos, "Para uma Ciência Pós-Moderna", 1979), num tempo em que o modelo positivista da cientificidade, mais do que criticado, tende a ser suplantado por modelos em que a própria cientificidade se intromete substancialmente na própria objectividade científica; finalmente, num tempo em que a literatura e a arte em geral se vê desafiada num potencial de nova cientificidade, ou cientificidade diferente, optamos por um método que possuindo a marca da História e dos seus cuidados metodológicos, possui uma espessura ficcional clara. (Nisbet, 1976: 16). Isto no que concerne à questão da pertinência sociológica da História de Vida de Francisco.

Quanto à segunda interrogação: «quais os processos de domesticação/interiorização do habitus no ensino confessional e sua articulação com os vectores educativos do sistema salazarista?», esses processos, no Seminário tradicional, pretendiam plasmar uma representação de homem em que se miscegenavam as visões febris dos anacoretas do deserto africano, a dualidade maniqueísta medieval e os arroubos simbólicos reinventados pelos hagiógrafos (cf. Rodrigues, 1933).

Centravam-se no aniquilamento do «homem velho», reconstrução do «homem novo» e inteira subjugação do self ao colectivo institucional. Consistiam na ritualização de todos os momentos e a subordinação destes ao Regulamento, num sistema panóptico, sem permitir que a racionalidade profana questionasse a sacralidade dos processos. 

- 137 - 

Obtinha-se, assim,uma dupla personalidade que obedecia cegamente ao rito inculcado e interiorizado. Tudo em nome dos valores simbólicos que constrangiam as subjectividades com dupla violência (Bourdieu, 1978).

Relativamente à articulação com o ensino salazarista, se todo o ensino reflecte a matriz social do regime (Bourdieu, 1978), o ensino confessional exercia funções de complementariedade e articulação, em relação ao sistema de ensino público salazarista:

  • Complementariedade, na medida em que, subsidiado em grande parte pela clientela eclesiástica e «benfeitores», supria as lacunas do ensino público salazarista para os meios rurais, seleccionava os melhores, os vocacionados, na mesma lógica do sistema, incutindo-lhes o habitus para reproduzir a permanência irracional do mesmo constructum simbólico;
  • Articulação, porque embora tutelado pelas instâncias internacionais da Igreja mas não certificado, através de diploma, reproduzia os administradores do sagrado para difundir em todo o Império a Trilogia simbólica que constituía a essencialidade do regime e a subordinação do Outro.

Mais do que orientado pela lógica das conjunturas político-económicas internacionais, a Ditadura autolegitimou-se simbolicamente e enformou a Nação pela matriz sistémica do ensino confessional de que o Ditador fora quer reprodutor, quer paladino. 

As hierarquias eclesiásticas foram cúmplices desta ditadura por terem ofertado o ditador, alimentado-a ideologicamente e à sombra dela se instalarem, à excepção de algumas vozes individuais discordantes, sobretudo da política social (D. António, Bispo do Porto, 1958). As hierarquias perderam a voz, depositando-a nas mãos do regime, em troca dos favores temporais.

Nos anos 60, factores endógenos e exógenos põem em causa o funcionamento pedagógico dos Seminários. O número de vocacionados regride com a certificação liceal imposta, a representação social do padre diminui e as mudanças inerentes ao aggiornamento da Igreja abalam as estruturas panópticas do Seminário tradicional. A crise estende-se à própria classe eclesiástica que começa a pôr em causa não só os processos de inculcação do 'habitus', como a legitimidade do próprio 'habitus' sacerdotal. As deserções multiplicam-se e os grandes Seminários esvaziam-se, procurando novos paradigmas pedagógicos.

Finalmente a História de Vida de Francisco Caboz revela que o micro pode dialectizar com o macro, mas não se esgota nele. Enformado pelas práticas rituais, e conformado por elas, até à «missão», vê-se depois confrontado com o seu self, quando, ultrapassadas as barreiras panópticas «deixa de ser profissional a tempo inteiro do rito» (Saud, 1975). Paulatinamente, vai sendo destruturado o 'habitus' interiorizado, até à libertação dos «instrumentos de censura, e auto-controlo que produziam, sem exame crítico, explícito, mensagens conforme a ortodoxia» (Ibidem).

Em termos de ganhos sociológicos, adiantamos que ao partir da não hipóstase do social e do político, ao substancializá-los em sistemas de agência humana, pretendemos quer completar os «buracos negros» que a sociologia de teor estruturalista sempre deixa em aberto, enquanto formação discursiva quer sublinhar a não reificação das estruturas sociais.

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Com a história de Francisco Caboz pretendemos haver mostrado que o salazarismo não criou apenas salazaristas, que as determinações estruturais deixam margem de acção suficiente para a agência humana se instalar e que o próprio salazarismo, enquanto Weltanchaung [visão do mundo, em alemão], não pode ser reduzido a um mimo do fascismo italiano ou nazismo alemão. Aí, uma outra, muito peculiar, história de vida, teria de se contar, a do próprio Salazar, a do Prefeito do Colégio da Via Sacra. Mas isto seria uma outra Dissertação (cf. 1º capítulo).

Efectivamente, o próprio salazarismo, acreditamos nisso, poderia ver alguns dos seus «buracos negros» preenchidos - histórica e sociologicamente - se com as análises macro se cruzassem as análises micro. O nosso contributo, para a compreensão sociológica do salazarismo, parece concentrar-se aí, por uma dupla via: a via do salazarismo, esclarecido pelo seminarismo de Salazar e a via de uma criança que se fez homem e trânsfuga num Seminário e ambiente de tipo salazarista.

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 133-139 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27763: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X: A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios da marinha mercante (T/T Niassa e petroleiros)

(**) Habitus: conceito central da teoria sociológica do francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Em termos sucintos, efere-se a um sistema de disposições duradouras ( esquemas de perceção, pensamento, ação e avaliação ) que são incorporadas pelos indivíduos através da socialização (família, escola, grupo social, etc.) e que orientam as suas práticas e escolhas de forma inconsciente e adaptativa. Ou por outra palavras,m é a interiorização da estrutura social que molda a forma como agimos, pensamos e sentimos, reproduzindo (ou transformando) as desigualdades e hierarquias do campo social onde nos inserimos.

Pierre Bourdieu esteve na Argélia durante a guerra colonail  como parte do serviço militar obrigatório. Recusou ir como oficial miliciano,  prestou serviço como simples soldado na área administrativa. Depois da desmobilização, tornou-se professor e investigador na Universidade de Argel (1958–1960). Foi durante este período que realizou trabalho de campo etnológico entre os cabilas, um subgrupo do  povo bérbere,  experiência que fundamentou a sua obra "Sociologie de l’Algérie" (1958) e que marcou  a sua transição da filosofia para a sociologia e antropologia.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27702: Os nossos capelães (20): José Júlio Antunes (1939 - 2025), ex-alf grad capelão, BART 6523/73 (Nova Lamego, 1973/74): pertencia à diocese da Guarda (Ricardo Figueiredo)




Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Cabuca > 2ª CART /BART 6523/73 (1973/74) > c. 1973 >  Missa campal, rezada pelo alf grad capelão José Júlio Antunes. A assitsir ao ato religioso, estaria ao todo uma meia centena de militares. 

Não sabemos o mês, mas deve ser do início da comissão. O Carlos Boto ainda estava lá.   O BArt 6523173 rendeu em 8/9/73 o BCav 3854, assumiu a responsabilidade
do sector L3 com sede em Nova Lamego. lª Comp: Madina
Mandinga; 2ª Comp: Cabuca; e 3ª  Comp: Nova Lamego.


S/l > S/d> Convívio da 3ª CART / BART 6523/73 (Cabuca, 1973/74) > O Ricardo Figueiredo (à esquerda) e o padre José Júlio Andrade, à entrada do restaurante. Terá sido a último vez ques e encontraram. De acordo com o blogue "Abustres de Cabuca", a malta 2ª Companhia só ao fim de 34 anos é que se encontrou, uns tantos elementos, almoço da 3ª Companhia, 6.9.2008 em Vilar do Pinheiro. Nesse encontro apareceu tanto antigo comandante,ex-cap mil Franquelim Vaz.


Fotos ( e legendas)o: © Ricardo Figueiredo (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Padre José Júlio Andrade (1939 - 2025). 
Foi alf grad capelão no CTIG, de 9/3/73 a 18/9/74. 
Esteve em Nova Lamego, com  o BART 6523/73 (1973/74)


1. A notícia é da Agência Ecclesia, a que só agora tivemnso acesso:


Guarda: Faleceu o Padre José Júlio Antunes
6 Novembro, 2025 11:06

Guarda, 06 nov 2025 (Ecclesia) – A Diocese da Guarda comunica o falecimento do padre José Júlio Antunes, nascido a 25 de maio de 1939, natural do Casal de Cinza, naquela cidade

Filho de António Joaquim Antunes Morgado e Maria Justina, o padre José Júlio frequentou os Seminários Diocesanos do Fundão e da Guarda entre 1951 e 1963, onde se formou para o sacerdócio.

Foi ordenado diácono a 19 de dezembro de 1962, na capela do Seminário da Guarda, e presbítero a 28 de julho de 1963, na Sé Catedral, por D. Policarpo da Costa Vaz.

O seu ministério sacerdotal foi marcado por dedicação pastoral e espírito de serviço. Logo após a ordenação, foi nomeado coadjutor da Sé e de São Vicente (Guarda). Em 1965, tornou-se pároco de Algodres, Vilar de Amargo e Vale de Afonsinho.

Em 1972, iniciou o serviço como capelão militar, primeiro na Academia Militar e no Hospital Militar da Estrela, em Lisboa, e, entre 1973 e 1974, na Guiné, ao serviço das Forças Armadas Portuguesas.

Regressado à diocese, foi capelão do Quartel da Guarda (1974-1975) e, a partir de 1976, pároco de Pínzio e Safurdão, acumulando depois o cuidado pastoral de Gagos. 

Em 1987, foi nomeado pároco de Atalaia e Carvalhal, permanecendo depois responsável por Pínzio, Safurdão e Carvalhal até 2004.

A partir desta data, enquanto a saúde lhe permitiu, colaborou com colegas sacerdotes em diversos serviços paroquiais.

O Padre José Júlio Antunes deixa a memória de um sacerdote simples, próximo das comunidades e fiel à sua vocação. As cerimónias fúnebres acontecem dia 07 de novembro, pelas 15h00, na Igreja Matriz de Casal de Cinza.

LFS


2. Mensagem do Ricardo Figueiredo (ex-fur mil at inf, 2ª CART / BART 6523, Cabuca, 1973/74)



Data - 02/02/2026, 15:58 
Assunto - Capelão José Júlio Antunes

Olá,  Luís,

Não sabia do falecimento recente do nosso Capelão. Que descanse em paz.

Da Guiné, que seja do meu conhecimento, não me lembro de qualquer facto importante de que ele tivesse sido protagonista.  De resto, a passagem dele por Cabuca foi pontual, dois ou três dias, tendo sido um deles ocupado pela Missa campal.

Já cá, e num almoço da 3ª Companhia em que participaram três ou quatro elementos da 2ª Companhia, sendo um deles, eu próprio, e em que também esteve presente o Capelão José Júlio, tivemos oportunidade de ficarmos na mesma mesa e a meu lado o também já saudoso José António Sousa, da CCav 3404 e,  salvo erro,  também o 1º cabo cripto da nossa Companhia, o Victor Machado.

O almoço, caríssimo para a época,foi muito mal servido e as sobremesas miseráveis. O Padre José Júlio, que era um bom garfo, também ele manifestou o seu desagrado como de resto a maioria dos convivas.

Porém, junto à nossa mesa, encontrava-se um expositor de bolos. Lancei um desafio ao Padre José Júlio:

- Se eu desviar uns bolitos para a nossa mesa, absolve -me ?!

A resposta não se fez esperar:

-  Absolvidissimo !

E lá desviei dois bolitos ,que souberam que nem ginja !

Anexo :

(i) a fotografia da Missa Campal, celebrada pelo Capelão José Júlio, em Cabuca;

(ii) a última fotografia que tirámos, antes da entrada para o restaurante, num almoço da 3ª Companhia,  em que fomos três ou quatro elementos da 2ª.

Um Alfabravo com amizade,
Ricardo

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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971


Abel Matias (n. 1937, Póvoa do Varzim)


1. Abel Matias, OSB (sigla latina de Ordo Sancti Benedicti, Ordem de São Bento), não foi apenas um capelão de retaguarda, a viver no relativo conforto e segurança de uma CCS de um batalhão durante a guerra colonial. Ele integrou-se totalmente na unidade de elite onde serviu, os "Comandos", na sua segunda comissão, em Angola, de 1969 a 1971.

É, ao que parece, é o único dos capelães portugueses que serviram a Igreja e o Exército durante a guerra colonial (1961/74) a frequentar, com sucesso, o Curso de Comandos, ganhando o direito de usar o mítico crachá e a boina vermelha.  Aliás, o nosso grão-tabanqueiro cor art ref Morais da Silva, que de resto também é de Lamego, confirmou-me que foi seu instrutor. 


O padre Abel Matias é apontado como uma figura singular e marcante da história contemporânea portuguesa por personificar uma intersecção invulgar entre: (i) a vida monástica; (ii) a mística militar; e (iii) a assistência espiritual em cenário de guerra.

O capelão-chefe graduado em major, Bártolo Paiva Pereira, no seu último livro, "O capelão militar na guerra colonial" (edição de autor, Vila do Conde, 2025, 120 pp)(*), elege-0 como os dos "12 mais" que teriam alcançado notoriedade num universo de cerca de mil capelães mobilizados para os 3 teatros de guerra (Angola, c. 500; Moçambique, c.400; Guiné, 113)... (Como o autor faz questão de escrever, "a publicação dos nomes não serve para elogiar ou esquecer alguém", pág. 53). 

Nesta lista há ainda "dois capelães paraquedistas de peso", os padres Martins e Pinho. Capelães da FAP., fizeram questão de tirar o brevê (pág. 58).




Capa do livro, de Bártolo Paiva Pereira




(In: Bártolo Paiva Pereira, " O capelão militar na guerra colonial", ed. autor, 
Vila do Conde, 2025, pág. 56)


2. Chamaram-lhe o "monge-guerreiro", uma figura algo anacrónica no Portugal do séc. XX, quando já não havia, desde meados do séc. XIII, guerras de "reconquista"... Eis aqui os pontos principais sobre o seu percurso de vida, que recolhemos da Net:


Abel Matias (Moreira da Silva), contrariamente ao que diz a IA sobre ele , não é natural da Panajóia, Lamego, mas sim de São Pedro de Rates,Póvoa de Varzim, onde nasceu em 19 de setembro de 1937 (irá para o ano fazer os 90). Se fosse de Lamego, era muito natural que conhecesse o CIOE (Centro de Instruções Especiais), aquartelado em Penude e criado em 1960.

Em todo o caso, viveu mais de 4 décadas em Lamego, será diretor do famoso Colégio de Lamego, além de capelão do CIOE, uma vez terminada a guerra. Teve também um irmão padre, Justino Matias Moreira da Silva (1936-1999). Era(é, ainda está vivo) uma figura muito popular em Lamego, ligado também ao desporto.

Diz "A Voz de Trás os Montes" que, após a escola primária, ingressou na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, em 1950. Seis anos depois, tornou-se monge. Foi ordenado sacerdote, na Sé do Porto, em 1963.

É licenciado em Histórico-Filosóficas pela Universidade do Porto (tese de dissertação da licenciatura, hoje equivalente a mestrado: "Marxismo e Doutrina Social da Igreja"). Tem também um bacharelato em Filologia Românica.

Serviu, em Angola, como capelão militar, voluntário, primeiro no BCAÇ 1855 (set65/dez67), e depois no CIC (Centro de Instrução de Comandos) (set69/nov71).

Ficou conhecido por acompanhar (presume-se que de vez em quando, que  os seus 32/33 anos, no final da década de 1960, já pesavam) os militares em operações no mato, saltando de helicópteros e partilhando os mesmos perigos que os soldados, o que lhe terá conferido uma auréola de "monge-guerreiro" e sobretudo um grande respeito entre os comandos. 

Capelão militar, passou à disponibilidade como major. No Colégio de Lamego, foi professor de Filosofia e Psicologia e seu diretor. Após aposentar-se, regressou em 2014 ao Mosteiro de Singeverga.

A sua formação de base, beneditina (focada no lema Ora et Labora, reza e trabalha), terá marcado profundamemnte a sua personaliddae e a sua disciplina pessoal e espiritual.

É autor, entre outros dos livros:

"Angola, paz só com Muxima" (1989);
"Como eram duros os caminhos da guerra" (2019).

3. No portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar pode ler-se, a seu respeito:

(... ) No teatro de operações de Angola, cumpriu duas comissões de serviço voluntário:

- desde 26Set65 até 11Dez67, alferes graduado capelão da CCS/BCac1855;

- desde 07Set69 até Nov71, como tenente (capitão graduado) 'comando', Capelão do CIC-RMA.

Louvores (transcrição):

  • Tenente graduado capelão (CCS/BCAÇ 1855, 1965/67):

(...) "Louvo o Tenente Graduado Capelão, Abel Moreira da Silva, do BCaç 1855, pela forma como desempenhou as suas funções durante mais de 28 meses, sendo quinze na zona de Nambuangongo onde se processa intensa actividade operacional.


"A sua presença constante nas Subunidades destacadas, que nunca abrandou, embora várias vezes tivesse sido sujeito a emboscadas... Conselheiro e amigo de todos, muito contribuiu para o bom espírito de corpo criado no Batalhão. A forma esclarecida como procurou orientar a sua actividade, não impondo ideias, mas criando as condições mais propícias à sua receptividade natural, permitiu que produzisse trabalho rendoso digno de salientar» (...)

  • Capitão graduado capelão do CIC (1969/71);

(...) "Louvo o Capitão graduado Capelão n.º 51145411, Abel Moreira da Silva, do CIC, porque, desempenhando durante a sua comissão, as muito difíceis funções de capelão do Centro de Instrução de Comandos, de uma forma muito meritória e altamente eficiente, sempre evidenciou acentuada dedicação e esclarecido discernimento na dupla missão de militar e padre.

"Com humanidade, inteligência, perspicácia e superior clarividência deu provas de desassombro e coragem moral sempre que se lhe deparou a defesa de causas ou princípios que se impusessem pela sua justiça.

"Evidenciando acentuado dinamismo e optimismo, sempre se encontrava onde a sua presença se impusesse quer se tratasse de Quarteis ou Zonas de Intervenção, o que o levou a acompanhar as forças destacadas em operações e por largos períodos, não se furtando ao perigo, antes, serenamente, a todos dando o seu permanente apoio e conforto moral, a que não faltou a intensa mentalização para o dever a cumprir.

"Pelas provas de carácter, dignidade e isenção de procedimentos evidenciados, tomou-se o capitão P. Abel merecedor de muita estima e respeito, muito se dignificando e prestigiando o serviço que com tanta dedicação e mérito próprio serviu, creditando-se como precioso auxiliar do Comando, o que muito me apraz, publicamente, apontam! (...)


4. Falta-nos, naturalmente, o "contraditório"...


O Abel Matias não era um combatente, mas um capelão, a sua presença visava levar conforto espiritual em situações-limite, em que se matava e morria. Acreditava que a sua missão era estar onde o sofrimento e o risco de morte eram maiores.

Foi uma figura carismática: após o fim da guerra e a transição para a democracia, manteve-se ligado à memória histórica do conflito e à comunidade de veteranos. É frequentemente recordado em convívios da Associação de Comandos.

Mas também terá sido um capelão controverso: para alguns, a figura de um "monge-guerreiro" não a compaginável com a visão do clero no pós-Vaticano II; para os militares que serviram com ele, era visto como um símbolo de coragem e "humanidade no inferno".

Contrariamente ao que a IA diz a seu respeito, o padre Abel Matias não faleceu em 2008, nem nunca esteve na Guiné; está vivo, recolhido no mosteiro de Singeverga, isolado do mundo.

Para os interessados numa curta estadia: o mosteiro tem uma hospedaria onde recebe hóspedes, apenas homens, e por períodos não superiores a 8 dias; "a hospedaria monástica de Singeverga não firma preços de estadia. As despesas são comparticipadas com donativos."

(...) "Pela hospedaria passam gentes de todas as proveniências sociais, de quase todas as faixas etárias, e mesmo de diferentes crenças religiosas, incluindo agnósticos e descrentes. Há artistas, escritores, padres, médicos, seminaristas, personalidades conhecidas e gente anónima que também decidem passar um tempo em Singeverga, cada um atraído pela liturgia sóbria, ou pelo canto ou pela tranquilidade do lugar.

"Como a hospedaria está dentro do espaço da clausura, só é possível receber homens, e, por norma, o tempo de estadia não poderá ultrapassar os oito dias. (...)".

Contactos:

Mosteiro de São Bento de Singeverga
Rua Mosteiro de Singeverga, 200
4795-309 RORIZ STS
Telefone: 252 941 176; fax: 282 872 947
E-mail: mosteiro@mosteirodesingeverga.com

(Pesquisa na Net, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:




terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre


Lisboa > Carnide > Seminário Franciscano da Luz > "O Seminário de Nossa Senhora da Conceição da Luz, vulgarmente conhecido como Seminário da Luz, ou Seminário Franciscano, ocupa um antigo palácio neoclássico, mandado construir em 1878 por Jacinto José de Oliveira. Os frades da Ordem Franciscana adquiriram o palácio em 1939 e, no ano seguinte, iniciaram obras de ampliação e adaptação às novas funções. A fachada principal, virada a ocidente, aberta sobre o Largo da Luz, é densamente decorada"




Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).

Horácio Fernandes,  falecido no passado mês de novembro, foi capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 


No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz,  seu "alter ego".  Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas,  cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer  37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  cinco  postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv)   os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia  (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela)  e depois de  Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution".

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4a. classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 
.
Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

O nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.

 
Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós,  paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

Recorde.se que, além do Horácio Neto Fernandes (nº 42,  de uma lista de 113 capelães militares) houve mais seis da Ordem dos Frades Menores (OFM), que estiveram no CTIG (de 1961 a 1974). Eis os nomes, por ordem alfabética:

  • José António Correia Pereira (nº 84): de 26/3/1972 a 21/3/1974;
  • José de Sousa Brandão (nº 79): de 25/9/1871 a 22/12/1973;
  • José Marques Henriques (nº 97): de 28/4/1974 a 9/10/1974):
  • Manuel Gonçalves (nº 58): de 19/7/1969 a 30/6/1971;
  • Manuel Maria F. da Silva Estrela (nº 11): de 27/9/1963 a 14/8/1965;
  • Manuel Pereira Gonçalves (nº 91): de 28/5/1968 a 29/6/1974)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI:  Corista de filosofia e teologia e depois  padre 

por Horácio Fernandes


4.3. - Corista de Filosofia

A minha transição do Noviciado para o Coristado foi aos 17 anos [em Leiria, no Convento da Portela ou de Sáo Francisco ].

Na minha qualidade de professo de votos simples, tinha uma cela mais moderna, com uma varanda colectiva, era assíduo ao coro, três vezes por dia, participava nas festas litúrgicas e tinha a obrigação do estudo. 

Embora continuasse a acompanhar os padres em algumas funções religiosas, já era permitido ir a Fátima, a pé, nos dias treze, onde por vezes me encontrava com a família e conterrâneos.

O tempo de lazer também se alterou: às quintas feiras deslocava-me ao campo de futebol, ou a uma quinta próxima e jogava futebol, ou tomava banho no rio. 

- 120 - 

Quanto a férias grandes, no primeiro ano fui 15 dias para o santuário dos Remédios, em Peniche. Era proibido tomar banho individualmente no mar e não podíamos tirar o hábito na povoação, nem falar com pessoas estranhas.

Como alguns não resistissem à tentação de falar com pessoas estranhas e tomar banho às escondidas, fomos daí a pouco proibidos de continuar.

Destes três anos, recordo, sobretudo, o segundo e o terceiro. No segundo fomos todos castigados a passar as férias grandes no Colégio Angélico, bem guardados por um ex-Prefeito, porque no primeiro ano em que fomos passar férias aos Remédios, Peniche,  não cumprimos as determinações superiores, no que respeita ao contacto com estranhos. Alguns falaram, sobretudo com um grupo de enfermeiras católicas que ali perto passava férias. 

Também era proibido tirar o hábito e alguns andavam sem hábito e com calças. Igualmente faltavam ao Coro' que, embora simplificado, não era dispensado.

Foi baseados nestes argumentos que os superiores, no ano seguinte, nos obrigaram a passar as férias grandes no Colégio Angélico [em Montariol, Braga ], o que foi interpretado como um castigo.

Com o Colégio deserto, dávamos longos passeios a pé, e cumpridas as obrigações do Coro jogávamos a bola e líamos. 

Podíamos utilizar a biblioteca dos padres, mas tínhamos que registar o livro. Aconteceu que alguns deram com o armário dos livros proibidos, aberto,  e leram freneticamente os livros que nunca tinham lido, mas só ouvido falar. 

Durante uns dias, até darem por isso, foi um corropio para a biblioteca, buscar os romances de Camilo, Eça, Alexandre Dumas e outros .

Os Coristas começaram a faltar ao Coro e a deitarem-se muito tarde. De manhã, ou não apareciam, ou apareciam cheios de sono. 

Eu também fui dos que aproveitei. Agarrei-me ao «Crime do Padre Amaro» e devorei-o numa noite. Seguiram-se outros do mesmo autor. 

Cheio de remorsos, fui-me confessar a um padre velhinho, que me aconselhou a ir embora, face aos maus pensamentos que não me largavam. Porque estava agarrado aquilo, fui então a outro que me aconselhou a esperar até ver se os maus pensamentos abalavam.

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Entretanto; alguém deu o alarme e  os que registaram os livros, conforme as ordens que tinham recebido, foram severamente castigados e proibidos de gozar férias no ano seguinte.

Eu não cheguei a cumprir o castigo, porque entretanto   adoeci. Estive oito meses de cama, sempre na minha cela, com uma pneumonia e depois com uma osteamilite  , sem poder deslocar-me à portaria, nem poder receber  visita da família.

 Apenas o Director Espiritual me visitava  a miúdo, para me tentar convencer que era uma provação   passageira de Deus, para me purificar. Além dele, só podiam   entrar na minha cela o irmão enfermeiro e esporadicamente   um médico, amigo do Seminário.

Os colegas apenas espreitavam à porta, pois era expressamente proibido entrar nas celas alheias. O meu colega de lado, a quem por vezes incomodava para ir chamar o irmão enfermeiro,  se demorasse mais algum tempo, ouvia o ralhete do Mestre:

- Vossa Caridade não sabe que é proibido entrar nas celas uns dos outros?

Com temperaturas altas e sem poder dessedentar-me por imposição médica, dava largas à imaginação, sonhando com missões e missionários. Vivia angustiado, sobretudo pelo perigo de não poder continuar ou perder o ano. Contudo, acreditava que,  se fora escolhido por Deus, ele me havia de curar, sem deixar sequelas.

Agarrado como estava ao sonho de ser missionário, para mim esse era o maior drama. Afinal consegui passar o ano, embora de muletas, sendo operado à perna esquerda, já no ano  de Teologia, em 1956.

- 122 - 

4.3. Os três anos de Filosofia foram passados já num convento de linhas arquitectónicas mais modernas e panopticamente menos rigoroso.

 Tratava-se de inculcação dos saberes da Filosofia tradicional católica, como fundamento dos estudos de Teologia, a ciência por excelência: Philosophia ancila Theologiae [a Filosofia serva da Teologia, LG ].

Embora as chamadas Ordenações Peculiares continuassem em vigor e se cumprisse as normas de disciplinação e as disciplinas, notou-se uma maior flexibilização. 

O corpo docente, do qual alguns dos quais tiraram a Filosofia nas universidades católicas estrangeiras, estava mais aberto ao exterior. Embora conservando a matriz doutrinária ortodoxa, estavam mais preocupados em esgrimir argumentos contra as posições tomistas e inculcar as especificidades escotistas. Os mais novos faziam gala das suas intervenções no meio intelectual e os mais velhos remoíam sebentas repetitivas.

O sistema panóptico, reforçado no Noviciado, começou a dar mostras de algum abrandamento na Filosofia. Já éramos clérigos professos e de votos simples, feitos por 3 anos. Este facto dava-nos algum status, diante dos irmãos leigos e donatos.

A situação geográfica do convento também favorecia mais os contactos com o exterior. Os pregadores e missionários faziam da casa ponto de passagem obrigatória para o santuário de Fátima.

Esta relativa abertura não nos impedia de viver alheados da situação sócio-política nacional ou internacional. 

Sem acesso aos meios de comunicação, uma das grandes lutas a nível interno era contra a proibição de usar calças, por debaixo do hábito. Os mais «modernos» achavam um costume medieval, desadequado. Argumentavam que a tradução em espanhol da Regra falava em 'panetones' e não tinha tradução directa em português. Por isso, alguns interpretavam como calças e os mais observantes como cuecas ou ceroulas. O mesmo acontecia com a túnica que os mais modernos substituíam por camisa.

Esta luta transbordava nas conversas e nas aulas. Acendia-se, quando algum corista mais atrevido era apanhado pelo Mestre com um par de calças arregaçadas  debaixo do hábito, ou quando passavam pelo   Coristado missionários em férias ou pregadores, que, geralmente, eram menos observantes e mais liberais no trajar. 

Embora  os Mestres evitassem o contacto dos Coristas  com eles, era inevitável, o que me fazia   questionar porque para uns havia uma Regra  e para outros outra. Resposta não a encontrava, mas estas e outras interrogações   não abalavam a confiança na instituição. O  'habitus' estava bem arreigado.

- 120 -

4.4. Corista de Teologia e Padre

Acometido pela doença, aos 20 anos, novamente o  estatuto de devedor de benefícios me acompanhou.

 Primeiro  aos superiores, por me terem tratado durante a longa doença,  aos professores por me deixarem fazer exame em Setembro  e novamente aos superiores, quando sofri a intervenção cirúrgica   ao fémur, já em Lisboa. 

- 122 - 

Apenas no  2º no de Teologia a minha vida de corista seguiu o seu ritmo de estudo normal, quando recebi a Prima Tonsura (8).

No primeiro ano de Teologia, quase não  saí do Seminário, porque andava amparado em muletas. Por isso,  ocupava todo o tempo no estudo e nas aulas. 

Olhando à distância, recordo algumas impressões deixadas por  professores e Mestres de Coristas. 

Havia o professor de História da Igreja que, sob uma máscara de dignidade, debitava sempre as mesmas anedotas sobre os jesuítas, para Corista rir. Era o professor de Direito Canónico,  que, no seu palmo e meio, não conseguia encarar os alunos de frente. Era o professor de Moral que mandava fechar as janelas e persianas e às escuras, apressadamente, explicava os pecados contra o Matrimónio e as respectivas sanções canónicas.

A partir do 2º ano de Teologia e já quase totalmente recuperado, substituía o passeio semanal pela catequese nas escolas primárias dos bairros sociais próximos. 

Para mais facilmente  captar a atenção das crianças, utilizava projector e diapositivos alusivos aos temas do catecismo a que eles chamavam cinema. Era um trabalho novo e, cheio  entusiasmo como estava, entregava-me a ele com alma e coração.  

O contacto com as crianças das escolas primárias era  uma novidade. Às quintas e sábados, lá ia carregado de pagelas, distribuindo «santinhos» pelos bairros pobres.

A preparação para as ordens menores (9), ordens maiores (10) e votos solenes (11) era concomitante com o estudo  aturado das Disciplinas Teológicas.  

Empenhado nestas tarefas,  vivia as notícias da terra que falavam do entusiasmo de todos os conterrâneos, na minha próxima Missa Nova.

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4.4.  A última etapa da Teologia foi um gradativo caminhar para o sacerdócio (13).

 Não obstante o Curso Teológico ser ministrado em Lisboa, estava completamente arredado da problemática política ou social.  

O rádio só podia funcionar na sala dos padres, a que não tínhamos acesso e,  mesmo  ali, só depois do jantar e da ceia. Terminado o recreio,  era fechada sem contemplações e só se podia abrir com licença expressa do superior 'toties quoties' (Ordenações Peculiares, 1943: 12).(**)

Circunscritos ao microcosmo do Seminário, a mundividência dos Coristas não ultrapassava os altos muros da quinta. 

Acesso aos meios de comunicação social não tinha, e as notícias chegavam-me filtradas pela tripla censura: política, eclesiástica e do próprio 'habitus'.  

Em contrapartida, este Seminário de Teologia tinha padres muito importantes que tinham um estatuto à parte e quase só apareciam na comunidade, nas festas. 

Os mais «respeitáveis» eram geralmente os mais próximos de famílias importantes da finança, política ou da cultura, e, que, por intermédio deles, eram«benfeitores» do Seminário. 

Estes «benfeitores» tinham direito a missa particular nas suas quintas, não fossem os serviçais cometer o  pecado de faltarem ao preceito dominical, ouvindo as homilias de domesticação.

Geograficamente bem situado, o Seminário era um interposto espiritual entre o poder terrestre e o celestial, para muitas famílias   ricas do regime que ali iam procurar o passaporte para o anti-quotidiano.

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 Talvez por  isso estive, quase completamente, alheado do momento quente   das eleições de 1959 (***).

 Lembro-me,  apenas, que me mandaram  e fui votar duas vezes: uma de manhã e outra de tarde na Junta de Freguesia, porque estava em causa o derrube de Salazar pelos «comunistas».

Igualmente me lembro de ter ido de hábito, como era do Regulamento, à Baixa Lisboeta, ver o cortejo, durante a visita da Rainha da Inglaterra a Portugal. Foi das poucas vezes em que não fomos acompanhados pelo Mestre.

Outra recordação que conservo viva,  foi o castigo aplicado pelo Mestre de Coristas, algum tempo antes do retiro para a ordenação sacerdotal, no convento onde tinha feito o Noviciado. 

Admoestado, por estar com um colega a falar nas escadas, em tempo de silêncio, retorqui-lhe que ele estava a espiar-nos debaixo das escadas. Ele não gostou e só fomos fazer o retiro obrigatório para a Ordenação, dois dias depois,  o  que nos nos obrigou  a acabá-lo depois dos outros três colegas.

Felizmente, este percalço não atrasou à Ordenação, pois estava tudo a ser ultimado na minha terra para a Missa Nova (12).

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Notas do autor:

(7) Reza colectiva do Breviário, seis vezes por dia e que tinha a seguinte designação: Matinas, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas.

(8) Ordem menor que consistia em cortar uma madeixa de cabelo no alto da cabeça, vulgarmente chamada coroa: «Feito o exame do 1º ano de Teologia, devem os alunos requerer a Prima- Tonsura, as ordens menores durante o 2°  ano e o Subdiaconado ao sair do 3º ano, se lho permitir a idade, por forma que possam receber o Presbiterado no fim do 4º ano, tanto quanto deles dependa. (Regulamento do Processo de Ordenação e programa do exame do Cânone 996).

(9) Assim chamadas por não implicarem a incardinação à Ordem, Congregação Religiosa ou Diocese.

(10) Assim chamadas pela excelência das funções, a que dão acesso. São o Subdiaconado, Diaconado e Presbiterado ou Sacerdócio. 

Nenhum ordenando podia receber o Subdiaconado sem ter o chamado título canónico, que era um património suficiente para a sua sustentação. Esta suficiência era aferida pelo correspondente «ao ordenado dum professor de instrução primária, quando provido definitivamente» (Parágrafo 2o do Cânone 479 do cap. Ill das Constituições Sinodais da Diocese de Lamego, 1954).

(11) Os votos solenes era o juramento que os candidatos ao sacerdócio das Ordens e Congregações Religiosas faziam e através dos quais eram recebidos a título definitivo na instituição.

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação. Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado.

(13) Vd. nota (10).


(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 120-124 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, negritos,  itálicos, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores: 



17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

(**) A exressão latina "toties quoties" quer dizer em português  "tantas vezes quantas" ou "tantas indulgências plenárias quantos os terços (ou orações) que rezar".

É uma locução usada principalmente no contexto litúrgico católico para indicar uma indulgência plenária /ou um benefício) que pode ser ganha repetidamente ("tantas vezes quantas" se cumprir a condição).

(***) Lapso do autor,  que trocou o ano; queria referir-se às eleições presidenciais de 1958, a 8 de junho, em que o regime de Salazar foi posto à prova:  num escasso milhão de votos (cerca de 70% dos recenseados), Américo Tomás foi eleito  com 75%, contra Humberto Delgado (23%), graças também à fraude (como o próprio Horácio Fernandes, de resto,  aqui candidamente exemplifica : votou duas vezes, uma de manhã e outra tarde).

Os franciscanos, vítimas do anticlericalismo primário da ( e expulsos pela) República em 1910, eram naturalmente gratos e afetos ao Estado Novo.