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sábado, 10 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27622: S(C)em Comentários (86): "Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelão, livremente participei. Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder cai atingido e logo morreu" (Bártolo Paiva Pereira, ex-alf grad capelão, BCAÇ 321, 1961/64)


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / Open AI),
composição orientada pelo editor LG


O alferes graduado capelão Bártolo Paiva Pereira, no norte de Cabinda, 
na floresta de Maiombe, c. 1962


 1º cabo Hélder Tavares Amaral CCAÇ 323 / BCAÇ 321 (Angola, 1961/64). Morto em combate em 27/5/1962.  Os seus restos mortais foram inumados em Sanda Massala, norte de Cabinda, Angola, a 8 mil km da sua terra natal, Vila Cortês da Serra, Gouveia 





Fonte: Excertos de Bártolo Paiva Pereira - "O capelão militar na guerra colonial". Edição de autor, Vila do Conde, 2025, pp. 13-18.


1. Depoimento do capelão Bártolo Paiva Pereira:

(...) Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelã0, livremente participei.

Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder, cai atingido e logo morreu. (...) (pág, 17)

São talvez as duas páginas, as 17 e 18, mais pessoais, mais sentidas, do autor do livro "O capelão militar na guerra colonial" (2025): com 26 anos, minhoto, solteiro, sacerdote católico, acabado de ordenar (há ano e meio), "soldado sem instrução" (sic), oferece-se para o serviço religioso do exército em 1961, já em plena guerra de Angola,

Graduado em alferes capelão, segue com o BCAÇ 321 para Angola já no último trimestre de 1961. Descobre uma nova "família", a sua terceira (depois da família biológica e do seminário). E descobre que a sua Pátria é o Hélder...

No dia 27 de maio de 1962, sete meses depois de chegar a Angola, participava voluntariamente numa operação, em Cabinda. O Hélder, que ia à sua morreu, morreu, de um tiro do inimigo.

Como se fora um epitáfio, escreveu: "A minha Pátria é o Hélder" (pp. 17/18).


2. Comentário do editor LG:

Quem disse que os capelães militares não iam à guerra ? Isto é, não podiam "sair para o mato", integrados  ("embebbed") em grupos de combate ? 

 Não era muito frequente, não era normal, nem sequer era desejável... Na verdade, eram recursos raros, escassos, preciosos. Havia, em geral, 1 capelão e 1 médico por batalhão (=600 homens).

Mas foi ali, nesse dia, que o padre Bártolo, natural de Santo Tirso,  descobriu verdadeiramente o que era a Pátria. Não, não é uma figura de retórica, a Pátria são as pessoas, as pessoas que têm uma identidade, um rosto, uma história de vida: a Pátria são os nossos camaradas, antes de mais.

(...) "A minha Pátria andava mal definida no coração (...). O meu patriotismo nunca me levou às terras carismáticas do mundo e dos homens. Nem aos Lugares Santos. Nunca visitei o cemitério de Vimieiro. Nem me sai da cabeça a cova, onde enterrámos o Hélder" (...) (pág. 17).

(...) A cova onde enterrámos o Hélder foi logo ali, após o inimigo nos deixar. O seu corpo, mais tarde, foi recuperado por camaradas, que cumpriram um dever militar" (...) (pág. 18).

 
Foi o único morto do batalhão... Comenta o antigo capelão,citando o filósofo alemão Peter Sloterdijk: 

"A ossatura simboliza o fim que cada ser vivo traz já consigo". 

E acrescenta, agora da sua lavra: "Em teatro de operações, deixar 'essa ossatura' brada aos céus. Aconteceu, infelizmente, com muitos cadáveres, no início da guerra, onde tudo era mais precipitado que arrumado" (pág. 19).
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(**) Último poste da série > 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27600: S(C)em Comentários (85): O que é que o PAIGC entendia por "zonas libertadas"? (Zeca Macedo, ten DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74, a viver nos EUA desde 1977)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27619: Humor de caserna (231): "Filhos da p*ta, m*rda, car*lho!... Quem me acode?!... Os filhos da p*ta... matam-me!": debaixo de fogo, até um padre diz asneiras: o capelão militar, madeirense, Adelino Apolinário Silva Gouveia, que o saudoso Alcídio Marinho (1940-2021), do Porto, Miragaia, evoca e homenageia aqui




Alcídio [José Gonçalves] Marinho (1940-2021), ex-fur mil inf, CCAÇ 412 (Bafatá, 1963/65); membro da nossa Tabanca Grande desde 23/9/2011, vivia no Porto, era de Miragaia; ei-lo aqui em Monte Real, no Palace Hotel, 4 de Junho de 2011, no VI Encontro Nacional da Tabanca Grande,  empunhando  o estandarte da CCAÇ 412, "Capacetes Verdes"; era um dos nossos "veteraníssimos", conheceu os duros anos do início da guerra no CTIG, foi Prémio Governador da Guiné, em 1964.

Foto: © Manuel Resende (2011). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 



1. Esta história pícara, contada pelo nosso 
saudoso  Alcídio Marinho   (1940-2021), merece ser reproduzida (e comentada) aqui na série "Humor de caserna". 

É uma dupla homenagem, ao autor e  aos nossos capelães no tempo em que alguns deles acompanhavam as NT em operações no mato, com os riscos inerentes, nos primeiros anos da guerra.



Humor de caserna (231) >  "Filhos da p*ta, m*rda, car*lho! Quem me acode? Os filhos da p*ta... matam-me!": debaixo de fogo, até um padre diz asneiras: o capelão militar, madeirense, Adelino Apolinário Silva Gouveia

por Alcídio Marinho  (1940-1921)


Na lista dos 20 primeiros capelães militares que serviram no CTIG, de 1961 a 1974,  está o padre Adelino Apolinário da Silva Gouveia (*), que eu conheci: pertenceu ao BCAÇ 506.

Acompanhou o pessoal da CCAÇ 412 em muitas operações e deslocava-se aos vários destacamentos no mato, para rezar missa e dar apoio religioso e psicológico a todo  o pessoal. 

Era como um irmão nosso. Tive algumas conversas com ele. Era madeirense. Mais tarde, saiu de padre e casou, morava em Lisboa. [ Foi nomeado, por concurso , assessor principal do INIA - Instituto Nacional de Investigação Agrária, em 2002; conhecio-o pessoalmente, quando a Alice Carneiro trabalhava no Ministério da Agricultura e e Pescas. (LG)] 

O episódio mais caricato a que assisti, passado com ele, foi o seguinte:

A 27 de fevereiro de 1964 foi lançada a "Operação Marte" à Ponta de Inglês [, subsetor do Xime], onde a nossa companhia sofreu três emboscadas. 

Na primeira ficou ferido um soldado da minha secção, com um tiro de pistola, pelas costas. Ele que seguia pelo interior do mato, deu a correr para a estrada [Xime-Ponta do Inglês], apesar de lhe ter recomendado que,  em caso de ataque, enfrentasse o mesmo, que eu iria socorrê-lo. Quando olho para o lado, está ele deitado, dizendo:

– Marinho, estou ferido.

Verifiquei onde estava ferido e sosseguei-o, dizendo:

– Ó pá,  isso não é nada, tem calma, eu vou chamar o enfermeiro.

Tinha levado um tiro de pistola. Só se via nas costa do seu lado esquerdo, na direcção do baço, uma pequena roseta, por onde tinha entrado o projéctil e veio alojar-se na frente, onde se via uma pequena mancha escura. Nunca foi retirada e ainda, actualmente, se apalpa o projéctil, na sua barriga.

Na segunda emboscada eles atacaram mesmo junto á estrada, e um dos turras viu o capelão Apolinário Gouveia meter-se atrás da roda traseira dum Unimogue e toca de fazer fogo com uma PPSH ("costureirinha").

Então só se ouvia uma voz que gritava:

–  Filhos da pu...ta, mer...da, cara..lho! Quem me acode? Os filhos da puta... matam-me!

Começamos a atacar o local donde vinha o fogo, afastando o perigo do Unimogue. Eis, quando vimos sair,  debaixo do Unimogue, o Padre Apolinário Gouveia, branco como a cal da parede, com a pistola Walther na mão, tremendo todo como varas verdes. Começámo-nos todos a rir.

Diz ele:

– Se alguém disser o que ouviu e viu, eu juro, a pés juntos, que é tudo calúnias e participo do engraçadinho.

A malta ainda mais se riu. Continuámos a marcha, e sofremos a terceira emboscada. Fomos atacados por enxames de abelhas.

Naquele pedaço de estrada, nas árvores das bermas, tinham colocado, lá no alto, uma espécie de cortiços, pareciam melões, feitos de barro, onde estavam as abelhas. 

Quando começou a emboscada, atacaram-nos e, ao mesmo tempo, atiraram aos cortiços, que caíram e partiram, destruindo o habitat das abelhas.

Estas, furiosas, atacavam tudo e todos. Um motorista, o Cândido, caiu e as abelhas atacaram-no e, coitado, acabou por falecer. Tinha em cima dele mais de um palmo de abelhas.

Tirei do meu bornal um volume de tabaco , que distribui pelo pessoal, indicando que metessem nos lábios três ou quatro cigarros e os acendessem e soprassem para fora, fazendo fumo. Também cortámos capim e toca a fazer archotes para fazer fumo e afastar as abelhas, pois elas eram aos milhares.

Fui picado por uma abelha, na orelha direita que,  passado pouco tempo, ficou dura como uma tábua e do tamanho duma mão.

Entretanto, na refrega da emboscada, ouvimos e vimos o capitão Braga, descalço, tinha tirado as botas e tentava despir-se, parecia um louco e berrava muito.

Os pés já estavam todos queimados, eram duas horas e meia da tarde, o sol queimava e as areias da estrada torravam, de quentes que estavam (52º,  ao sol).

O furriel enfermeiro Silva teve que sedar o capitão. Aí acabou a operação. Toca a voltar para Xime e Bambadinca. 

Alcídio Marinho
CCaç 412

[Revisão / fixação de texto: LG]

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Lista dos capelães militares que serviram no CTIG, de 1961 a 1974 (excerto): são os primeiros vinte nomes da lista (de 1961 a 1966), de um total de 102 (Exército) (a Força Aérea e a Armada tiveram 7 e 4, capelões militares, no CTIG, respetivamente) (*).

Até à realização do 1º Curso de Formação de Capelães Militares (Academia Militar,  21 de agosto - 17 de setembro de 1967), eram todos voluntários, em princípio. E o seu número não ultrapassava a centena e meio. No 1º curso foram formados 58, incluindo os nossos grão-tabanqueiros Horácio Fernandes, Libório Tavares e Mário Oliveira, já falecidos.

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 25 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16636: Os nossos capelães (5): Relação, até à sua independência, dos Capelães Militares que prestaram serviço no Comando Territorial Independente da Guiné desde 1961 até 1974 (Mário Beja Santos)
 

Guiné 61/74 - P27618: Os nossos capelães (19): Relembrando o 1 º Curso de Formação de Capelães Militares (Academia Militar, 23 de agosto - 17 de setembro de 1967)


Lisboa > Academia Militar > 23 de outubro de 2017 > Comemoração  dos 50 anos do 1º curso de formação de capelães militares. 

Foto: Agência Ecclesia (reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia...)







1º Curso de Formação de Capelães Militares, realizado na Academia Militar, de 23 de agosto a 17 de setembro de 1967. Lista  dos sacerdotes, graduados em aspirante a oficial, que o frequentaram, por ramos das Forças Armadas (Marinha, Força Aérea e Exército).

Fonte: Ordinariato Castrense  (sítio da Diocese das Forças Armadas e das Forças de Segurança)

  
I.  Os participantes (n=58) foram, pela primeira vez, nomeados pela hierarquia religiosa. (Náo sabemos se havia alguns voluuntários.) 

O critério nem sempre era transparente. Houve quem contestasse. Até então, e desde o início da guerra em Angola, os capelães eram voluntários, coo padre Bártolo Paiva Pereira, que chegou a capelão- chefe, com o posto de major graduado.Mas não tinham  formação específica (que passou a ser prevista no art. 10º do decreto-lei nº 47188, de 8 de setembro de 1966, entretanto já revogado).

O número de capelães, até meados de 1966, e quando a guerra já ia em velocidade de cruzeiro, não ultrapassava a centena e meia, conforme se pode ler nº 7 do preâmbulo do dipoma legal que veio promulgar a estruturação da assistência religiosa nas forças armadas:

(...) 7. Conforme acordo entre o Governo Português e a Santa Sé, para instauração do Ordinariato ou Vicariato Castrense, pode-se agora dar conveniente organização à assistência religiosa nas forças armadas no momento em que o número de sacerdotes ao serviço como capelães militares atinge, por força das necessidades de defesa do ultramar, cerca de centena e meia de indivíduos. (...)

Na prática foi instituido um "serviço militar obrigatório" para os padres católicos, de que eles até então estavam isentos:


(...) Art. 8.º - 1. No cumprimento da obrigação do serviço militar que lhes incumbe, conforme as disposições legais vigentes, os sacerdotes são chamados ao serviço efectivo, em número suficiente para ocorrer às necessidades de cada um dos ramos das forças armadas.

2. Tendo em atenção o menor prejuízo possível para a cura de almas, conforme o preceituado no artigo XIV da Concordata, bem como, por outro lado, o grau de saúde e as qualidades que revelarem para o género de actividades a que se destinam, a escolha dos sacerdotes a chamar ao serviço efectivo será feita pelo Ordinário Castrense, por entendimento com os respectivos superiores eclesiásticos:

a) Como regra, entre os sacerdotes, com mais de 28 anos de idade e menos de 35, que, em regime de voluntariado, forem apresentados pelos seus superiores;

b) Não havendo voluntários em número suficiente, entre os sacerdotes que perfizerem 30 anos de idade no ano civil em curso, principiando pelos mais novos e de acordo com as quotas periòdicamente fixadas para cada diocese, ordem ou congregação religiosa, na proporção do seu clero." (...)


(...) Art. 10.º - 1. Após a incorporação, os sacerdotes frequentam um curso destinado a ministrar-lhes os necessários conhecimentos de natureza militar e pastoral. Este curso será regulamentado por portaria conjunta do Ministro da Defesa Nacional e dos Ministros e Secretário de Estado de cada um dos departamentos das forças armadas.

2. Os sacerdotes que terminarem o curso com aproveitamento são considerados capelães militares e vão prestar serviço como eventuais no ramo das forças armadas a que pertencem.

3. Os capelães militares que excederem as necessidades imediatas do serviço regressam às suas dioceses, ordens ou congregações religiosas, podendo ser ulteriormente convocados até aos 35 anos.

4. Os sacerdotes que não obtiverem aproveitamento no curso são abatidos ao serviço, sem prejuízo do procedimento disciplinar que porventura deva ser adoptado quando se verifique negligência ou falta de aplicação.(..)


II. Não consta que ninguém (a começar pelo Mário de Oliveira)  tenha chumbado, logo no 1º Curso, de 1967, mas houve logo questões que foram levantadas e não terão sido respondidas. De qualquer modo, no contexto político da época, não seria previsível nenhum contestação ao decreto-lei nº 487188, de 8 de setembro de 1966.

Entre as matérias dadas, neste curso acelerado, de menos de um mês,  destaque-se (entre parênteses, o nome e posto do formador): 

(i) assuntos ultramarinos (ten cor inf Hélio Felgas);

(ii) educação física (cap inf Barroso Capela e cap inf Fonseca Cabrinha);

(iii) topografia (cap inf Correia Hormigo);

(iv) educação militar (cap cav Lopes Saraiva);

(v) armamento e material (ten inf Monteiro de Azevedo):

(vi) vicariato castrense e serviço de assistência religiosa no Exército (ten cor graduado capelão Alves Cachadinha);

(vii) deontologia (Dom António dos Reis Rodrigues, bispo de Madarsuma);

(viii) serviço de assistência religiosa na Armada  (capitão de fragata graduado capelão José Bernardino Correia de Sá):

(ix) pastoral castrense  e serviço de assistência religiosa na Força Aérea (ten cor graduado capelão João Ferreira);

(x) espiritualidade do capelão militar (cap grad capelão José Martins da Veiga);

(xi)  psicologia militar (cap grad Eduardo José Gomes de Almeida);

(xii) organização e missão da Força Aérea (cor pilav Eduardo Augusto Ferreira);

(xiii) cartas aeronáuticas e navegação aérea ( ten cor pilav António Caritas Silvestre);

(xiv) material aéreo e apoio logístico (major engenheiro da FA, António Pedro da Silva Gonçalves);

(xv) princípios de aerodinâmica (major engenheiro da FA, Cândido Manuel Passos Morgado).

O Horácio Fernandes, que foi chamado aos 32 anos para substituir um colega que tinha perdido a mãe, diz ficou reprovado na "prova física", mas acacou por passar "como todos os outros". Também refere que havia cunhas: os lugares mais desejados eram, obviamente, na Forçla Aérea e na Armada. Ele irá parar a um batalhão de artilharia, que já tinha 8 meses de comissão, e estava colocado no sul da Guin+e, em Catió (BART 1913).

III. Destaque para alguns capelães deste curso que foram mobilizados para a Guiné (ou outros TO)  e de quem já aqui falámos em postes anteriores:
  • Horácio Neto Fernandes (1935- 2025) (*)
  • Mário Pais de Oliveira (1937-2022) (*);
  • Libório Tavares (1933-2000) (*):
  • Delmar Barreiros (Armada);
  • Carlos Manuel de Sousa Dias;
  • José Rabaça Gaspar (Joraga) (Moçambique) (divulgou, em 2002, na Net, o "Cancioneiro do Niassa");
  • António Francisco Gonçalves Simões;
  • José dos Santos Tourais Pereira.
(*) Membros da Tabanca Grande

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Nota do editor:

Útimo poste da série > 22 de maio de 2023 > Guiné 61/74 - P24333: os nossos capelães (18): Ainda o caso do Arsénio Puim, CCS/BART 2917 (Bambadinca, maio de 1970/maio de 1971): nova informação produzdia pelo jornalista António Marujo, "Sete Margens", 19/5/2023

Vd, os primeiros postes da série:

25 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16638: Os nossos capelães (6): Libório [Jacinto Cunha] Tavares, o meu Capelini, capelão dos "Gatos Negros", açoriano de São Miguel, vive hoje, reformado, em Brampton, AM Toronto, província de Ontario, Canadá (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)


17 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13616: Os nossos capelães (4): O bispo de Madarsuma, capelão-mor das Forças Armadas, em Gandembel, no natal de 1968 (Idálio Reis, ex-alf mil, CCAÇ 2317, Gandembel / Balana, 1968/69)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13577: Os nossos capelães (3): O capelão do BCAÇ 619 ia, de Catió, ao Cachil dizer missa... Creio que era Pinho de apelido, e tinha a patente de capitão (José Colaço, ex-sold trms, CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13576: Os nossos capelães (2): Convivi com o ten mil Gama, de alcunha, "pardal espantado"... Muitas vezes era incompreendido, até indesejado por alguns, pois tinha coragem para denunciar os abusos, quando os presenciava (Domingos Gonçalves, ex-allf mil, CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13575: Os nossos capelães (1): Conheci em Bedanda o ten mil Pinho... Ia visitar-nos uma vez por mês para dizer missa... E 'pirava-se' logo que podia (Rui Santos, ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, 1963/65)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 . P27617: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte III: O nº 27, do Colégio Seráfico


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que durante a guerra colonial será capelão militar, 

No capº IV  daquele trabalho académico, ele narra e comenta em 3 dezenas de páginas a história de vida de Francisco Caboz, o mesmo é dizer, a sua autobiografia. 

 Nos dois postes anteriores (*),  ele apresentou-nos. sucintamente,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e  o avô materno  (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara)... 

O avô e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram na sua decisão de "quer ser padre".

É uma história de vida, sofrida bem dura, em tempos muito difíceis (antes, durante e depoois da II Guerra Mundial), que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46,  completou a 4ª classe e seguiu para o seminário dos franciscanos (em Montariol, em Braga). 

A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). 

O Horácio Fernandes seria ordenado padre em 1959. Foi alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969), tendo terminado a sua comissão no HM 241 com uma crise de paludismo. 

Andou ainda na marinha mercante (transporte de ytropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós, Maria Augusta e Maria da Anunciação (nascidas na década de 1860) eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

A história de vida do Horácio é a de muitos de nós, que fizemos o percurso clássico de mobilidade social através da educação, num Portugal rural e pobre dos anos 40/50/60.  Os seminários regulares e diocesanos foram uma  estratégia de sobrevivência e ascensão social para jovens de origens humildes, que não tinham acesso ao sistema de educação, elistista, e socioespacialmente  segregador, do Estado Novo (liceus que sõ existiam nas capitais de distrito e univerdades localizadas em Lisboa, Coimbra e Porto).


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte III:  O nº 27, do Colégio Seráfico  

por Horácio Fernandes


4.O Seminário

 4.1. O Angélico


A ideia de ser padre começou a ganhar vulto, quando se repercutiram à volta de mim calorosos incentivos. Era a professora que repetia que gostava de que algum aluno seu fosse padre e o meu avô, para quem a sua maior dita era ter um neto padre. 

O ser padre aparecia-me como a única saída, para ultrapassar as limitações da minha família de parcos recursos, concentrar em mim as atenções das pessoas que me rodeavam e ser o herói de meu avô. 

É neste contexto que respondo às perguntas insistentes se quero ser padre com o «sim».

A minha única dúvida era se os padres eram «capados», como tinha ouvido dizer a alguns rapazes mais velhos. Desfeita esta dúvida, com uma consulta ao meu tio, que me assegurou que não, ficaram ultrapassados todos os obstáculos.

Este «sim» mobiliza imediatamente em redor de mim todas as atenções, não só da minha família, como das devotas da terra. 

O meu avô retirou debaixo do colchão mais umas notitas, fruto das suas economias, para ajudar a comprar o enxoval para o futuro «ministro» de Deus. As senhoras devotas de Arribas do Mar ofereceram-se para confeccionar alguma roupa e marcar outras,  pois a partir daí tinha um número atribuído pelo Seminário, o 27. 

Mesmo assim, faltavam muitas peças do longo «enxoval» pedido. Meu pai viu-sé obrigado a contrair um empréstimo e fui pagar apenas a mensalidade mínima: cinquenta escudos.
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Com a cabeça cheia de das histórias de missionários, que a professora lia na aula às quartas feiras e os meus 10 anos, lá fui eu, juntamente com mais dois colegas, de abalada até ao Colégio Angélico, que distava mais de 300 quilómetros. 

A acompanhar-me em tão longa viagem de comboio, ia meu pai e a irmã de um desses colegas.

A viagem teve o seu quê de novidade e de cansaço. Chegámos cerca das 10 horas da noite, à última estação de caminho de ferro, que distava cerca de 4 bons quilómetros do Colégio. 

Uma carrejona levou as malas dos meus colegas e o meu saco às riscas, onde levava o enxoval, num carrinho de mão,  e nós fomos atrás dela. Nas subidas, ainda ajudávamos a empurrar o carro.

Como já tinha tocado a sineta para o silêncio obrigatório, o irmão porteiro levou-nos à secção da enfermaria, para não perturbar os outros e mandou meu pai e a irmã do meu colega de regresso à cidade, porque ali era clausura e não podiam entrar pessoas estranhas à comunidade.

 Depois de nos entregarem a Deus lá foram atrás da carrejona, à procura de comida e dormida e fui-me deitar.

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4.1.1 A domesticação do corpo e espírito em vários cenários

 
A domesticação de Francisco, embora operada dia a dia, obedecia a rituais próprios e estava centrada em quatro cenários: 

  • o refeitório, 
  • a camarata, 
  • o salão de estudo 
  • e a sala de aulas. 


Panopticamente situados, os Prefeitos tudo comandavam e vigiavam: comandavam através de gestos ou sinais sonoros, como apito, campainha, sineta, palmas,  e vigiavam todas as conversas, passos e procedimentos dos alunos. 

E quando não podiam estar presentes, o que era raro, lá estava o mais velho ou os graixas, como eram conhecidos os preferidos, prontos a comunicá-lo ao Prefeito.

Desde que Francisco entrou no Colégio Angélico, uma cortina panóptica correu-se sobre o seu quotidiano. A partir daqui, é barro para ser moldado, já não por uma professora catequista, mas pelos oleiros sagrados. 

A interiorização dos rituais do prémio,  do castigo, do silêncio, da subordinação, do aniquilamento do self vão reconvertê-lo de homem velho em homem novo, «criado em justiça, verdade e santidade» (S. Paulo).

O «mandato» do sistema de ensino salazarista para o subsistema de ensino convencional (ver cap. II da dissertação), resulta num aniquilamento do corpo e alma do Francisco e a inculcação de um habitus que o transforme num ser passivo, obediente, conformado, interiormente reconstruído, para ser administrador do sagrado. Tem de deixar de ser Francisco e converter-se numa caricatura de «fradinho» e «padrezinho», traçado pelas hierarquias eclesiásticas, em conúbio com o regime salazarista.

Esta moldagem consistia em cortar com todas as amarras que o ligavam ao mundo, e fazer de cada angélico um eterno devedor do subsistema.

 Para isso, impunha-se o apagamento de todas as referências relacionadas com a sua identidade pessoal e  familiar: correspondência, datas de aniversário, apelidos de família, pares e amigos, opções pessoais, respeitantes à sua apresentação pública, como o cabelo e as vestes [5].

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Em troca, passava a ser um barro moldável nas mãos da instituição religiosa. Os novos pais eram os superiores, representantes de Deus e eleitos com evocação do Espírito Santo. Os amigos eram os Santos, preferencialmente os da respectiva família religiosa, cujas referências biográficas, ainda que reinventadas,  eram exploradas até à exaustão.

O ensino confessional hierarquizava também as mulheres pela excelência simbólica. As não consagradas as Deus eram as inimigas do corpo e da alma dos homens. Aos eleitos, vocacionados, os melhores, ficava vedado subordinar-se aos encantos femeninos. De outro modo, perderiam a supremacia do seu status. Por isso, havia que subalternizá-las, para que o homem não perdesse a excelência da masculinidade. 

Traduzido em linguagem simbólica, o Angélico tinha de combater os três principais inimigos da alma: mundo, demónio e carne.

Cenário 1 [Refeitório]

O dia começava impreterivelmente ao som de uma sineta. Era, aprendi depois, o toque  regulamentar para a formatura em direcção à igreja  para a missa matinal.

 Vesti-me à pressa e mandaram me juntar aos cerca de 200 rapazes que   desciam as escadas em silêncio. Assisti à missa, ainda meio estremunhado, fazendo os gestos que os outros faziam e de novo me integrei na formatura  para o refeitório, em absoluto silêncio e braços  cruzados, como os outros.

O refeitório dos alunos  era um amplo salão, com mesas de madeira surrada,  sem qualquer revestimento, onde,  três vezes por dia,  os alunos comiam em pratos e chávenas de  alumínio, todas amachucadas dos trambolhões e  algumas sem pegas.

Quando os outros viraram a chávena atacaram o meio «papo seco»,  também fiz o mesmo.

De repente, à palavra mágica «prosit» (seja útil!),  pronunciada pelo Prefeito, o silêncio quebrou-se , uma torrente de vozes inundou o salão.

(Continua) 

Cenário 2 [Camarata]

Ao outro dia de manhã acordei às 5 horas e 45 minutos da manhã, excepto aos domingos em que me era concedido o privilégio de ficar na cama, mais uma saborosa hora. 

Um bater de palmas cadenciado indicava que o dia ia começar. De Inverno custava tanto sair do quente para o cimento da camarata! Mas nem S. António me valia!

Se não saltava logo da cama, ou ficava a dormir porque não ouvia as palmas,  tinha uma visita inesperada: a sandália do Prefeito dava um pontapé na perna da cama de ferro que me abalava todo, ou era pegado por uma orelha, apertando pouco a pouco, até que era atirado para fora. 

Meio autómato, devido ao sono, e debaixo dos lençóis, trocava as calças do pijama pelas costumeiras para não faltar a santa modéstia,  como mandava o Regulamento.

(Continua)

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 [5] As únicas referências documentais a Francisco Caboz que se conservam no Colégio Angélico, para além das pautas de classificação escolar, são ; a data de entrada, 3/10/46; o número de ordem 1117; a filiação, local de nascimento e a diocese ( «Livro de Matrículas do Colégio Angélico», 1938-1960).

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Cenário 1 [Refeitório] (continuação)

Os encarregados recebiam as cafeteiras, por um balcão fechado, que separava o refeitório dos padres,   dos alunos e da cozinha. 

Começaram a encher as chávenas, sob o olhar vigilante do Prefeito, não fosse algum servir-se duas vezes de «banacau», uma mistura de leite com um pó a saber a cacau.

 Mesmo assim, para mim,  cujo pequeno almoço era geralmente um bocado de pão com o resto do peixe cozido de véspera, sabia bem. Todos eram obrigados a beber, sem pestanejar. 

Olhava para tudo aquilo, meio pasmado, quando um colega me perguntou de que terra era. Eu disse, ingenuamente, que era da Lourinhã. «Da Lourinhã?!...» replicou o outro numa risota. «Então és da Terra dos Parvos!». Num instante, o remoque foi repetido por toda a mesa: «olha, é da Lourinhã!...». 

Eu nem os ouvia, tão absorto estava na observação de tudo. Só despertei, quando o Prefeito bateu as palmas. Como se tivesse tocado a corneta de um batalhão, todos emudeceram e a ordem veio peremptória:

«Os angélicos que chegaram ontem à noite, vão à portaria buscar as malas!»

Na portaria, esperava-me novamente o meu pai que, entretanto, calcorreara o longo e íngreme caminho da véspera, desde a cidade até ao cimo do monte, onde se erguia o Colégio Angélico.

Uma desagradável surpresa nos esperava: a irmã do meu colega foi notificada que seu irmão tinha sido rejeitado, porque tinham recebido informações de que a mãe, viúva recente, se tinha amantizado com outro homem. 

A decepção para todos foi enorme. Passados uns dias, foi mesmo despedido.

Mas, nova provação havia de me bater à porta. Depois das férias do Natal, fui chamado ao Prefeito. Ainda lembrado da rejeição do meu colega e porque quando o meu pai me chamava, ou a professora, era para me castigar, lá fui a tremer e não me enganei. 

Disse-me que me tinha de ir embora,  porque meu pai tinha escrito a avisar que não podia pagar a mensalidade que já era mínima.

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Sem palavras, comecei a chorar. Por essa razão ou por outra,  mandou-me lá ir no dia seguinte. Comunicou-me, então, que uma benfeitora   do Fundão, que nunca cheguei a conhecer, ficaria  minha madrinha e pagaria a mensalidade, ficando  eu com a obrigação de lhe escrever uma carta  a agradecer, no fim de cada trimestre.  

Fiquei aliviado de um peso de toneladas.

É verdade que sentia muitas saudades da família, mas, às escondidas, ia fazendo versos à terra e à minha mãe, num caderninho que guardava religiosamente dos Prefeitos. Ir-me embora, naquela altura, era dar um tremendo desgosto a toda a família, ao meu avô e a todos os que me ajudaram a ir para o Seminário. 

Por isso, agarrei-me àquela tábua de salvação. A minha vontade era corresponder a tanta bondade dos benfeitores, sem olhar a sacrifícios. Sentia-me um eterno devedor.


Cenário 2 [Camarata] (continuação)

Depois, saltava da cama, punha a toalha ao pescoço e ia a correr à casa de banho e ao lavatório lavar a cara e os dentes. Sempre em rigoroso silêncio, que na camarata era ainda mais exigente.  

Os mais apressados já estavam na formatura para a igreja, não sem antes pedirem a bênção ao Prefeito, beijando-lhe a mão. Este, aos que eram da sua predileção, geralmente dispensados de varrer o Colégio, por serem encarregados, nomeados por si, retribuía com um sorriso, ou dizendo umas graças. Aos outros estendia, impassível, a mão para a beijarem.

Dentro do rol dos sacrifícios, havia o duche em água gelada, ao sábado, fosse inverno ou verão, pois não havia em todo o Colégio água aquecida para os angélicos. 

Ninguém podia apresentar-se diante dos outros em roupas interiores.  Os banhos eram devidamente vigiados, em compartimentos fechados, com chuveiro individual e com o tempo controlado, não fosse algum angélico aproveitar o tempo para coisas indecentes.

Outro pecado que não constava da minha lista e que agora era considerado o mais grave, pois acarretava quase sempre imediata expulsão, eram as chamadas «amizades particulares». 

Os Prefeitos andavam sempre à cata dos incautos. Era perigoso ser amigo de alguém, a não ser do Prefeito. Nos meus inocentes 12 e 13 anos andava distraído com os jogos, a que sempre aderia por gosto e nunca fui acusado por isso. 

Porém, alguns meus colegas que não gostavam muito de jogar à pela, bandeiras, andebol ou voleibol, foram bem incomodados. 

Aliás, as restrições à livre circulação eram evidentes: 

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  • era proibido falar com os padres ou irmãos; 
  • era proibido andar apenas dois alunos; 
  • era proibido  sair campo de recreio; 
  • era proibido gozar  a bela  sombra das árvores da mata;
  •  era proibido ir buscar as bolas, quando estas passavam a rede para os castanheiros do fundo; 
  • era proibido ir à camarata ou ao sótão,  durante o dia; 
  • era proibido ficar muito tempo a tomar banho,
  •  e, até se vigiava o tempo que o aluno   demorava na casa de banho.

Cenário 3 [Salão de estudo] 

 
No salão de estudo, enfileiravam-se as cerca de 200 cadeiras individuais, com uma tampa que  levantava, resguardando um compartimento, onde  se colocavam os livros e os cadernos.

 Todos  os  sábados, devia fazer a limpeza à minha carteira,  deixá-la aberta para trás, para que o Prefeito passasse revista.

  Aliás, fui conduzido a este salão  tal como tinha entrado: atrás dos outros

Na minha qualidade de n° 27  que o Prefeito baptizou de Caboz, coube-me uma carteira, onde guardei os  livros emprestados pelo Colégio, alguns já meio desfeitos. Os cadernos eram adquiridos pela   Prefeitura e englobados nas despesas gerais, a enviar trimestralmente aos meus pais.  

No sótão, onde se guardavam as malas, o ritual foi um pouco diferente. Apenas tinha trazido um grande saco que minha mãe retirara do enxoval    e recebi uma mala velha do comum, onde depositei a roupa que trazia.

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Mas a arrumação não ficou por aqui. Deram-me ainda o lugar n° 27 no refeitório, na capela, na camarata e no cacifo aberto do salão de recreio para guardar o calçado e na formatura depois de o  medirem a rigor e ir ao corte de cabelo, segundo as normas do Colégio.

 Sob a jurisdição de um angélico mais velho, o padrinho, aprendi a fazer a cama. Com o inverno à porta, faltavam-me os cobertores e a colcha,  que eram caros.

 A conselho do preceptor, lá me dirigi novamente ao comum, onde me arranjaram um cobertor de papa e uma colcha meio desfiada. Não era suficiente, mas com a roupa de vestir a fazer peso aos pés e um pijama de flanela, lá me fui aguentando. 

Em altas camaratas viradas a sul e a poente, rasgadas por amplas janelas, onde o vento era rei e senhor e sem qualquer conforto, só o Menino Jesus que presidia no meio da camarata ao sonho dos angélicos, ao colo de Santo António, não tinha frio, porque era de pedra!

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Cenário 4 [Sala de aulas] 


As salas de aula,  de inverno, viradas a norte,  eram outro suplício. Desconfortáveis, com pavimento de cimento e sem qualquer aquecimento, largas janelas mal calafetadas e que deixavam entrar o frio e a chuva gélida vinda dos lados da serra da Espinheira. 

Sem agasalhos suficientes, tiritava de frio. Nem a calça de pijama e dois pares de camisolas de interiores que trazia às escondidas, por debaixo da bata castanha, às riscas, que era o uniforme em dias de semana, me valiam. 

E o inesperado aconteceu: numa das aulas , o professor que era ao mesmo tempo de Música e de Matemática, bem nutrido, aliás dos poucos que se dignavam rir para os alunos, mas que, quando se zangava, dava estalos de arrombar a cara ao mais valente, pôs-me em plena aula o epíteto de «engelhado». 

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Foi uma risota para os outros colegas, geralmente mais bem enroupados que eu. 

Um acidente inesperado veio em meu socorro: um colega, ruído de saudades, fugiu do Colégio, de noite, e seguindo pela via férrea, foi desembarcar sozinho e a pé, à estação de Nine, sua terra natal. Por sorte, deixou o sobretudo.

 Estava regulamentado que quem abandonasse o Colégio, não tinha direito ao enxoval, ficando para o comum: desta vez, fui o beneficiado.

 Depois de suplicar humildemente e de apanhar o sermão do costume, sobre o enxoval que devia ter trazido e não trouxe, lá me dispensaram o sobretudo.

Mas não foi tudo. Em lugar dos sapatos pretos do uniforme, tinha trazido apenas dois pares de botas pretas, dadas pelo meu padrinho, sapateiro, que me recomendou que as engraxasse para passarem por sapatos. 

Na revista da quinta feira e domingo era um castigo! Com os alunos alinhados militarmente, eu bem me escondia atrás dos outros, para que o Prefeito não me visse as botas. A princípio, ainda passava, porque as calças encobriam; mas quanto mais crescia, mais se viam as caneleiras das botas. 

Sistematicamente, era rejeitado para o passeio e aos domingos levava uma descompostura, ou o castigo de ficar a varrer o salão.

- 114 - 
(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 109-114  (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parêrnteses retos, bold, itálicos, título: LG)


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Nota do editor LG:


sábado, 3 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)

Lourinhã > Ribamar/Porto Dinheiro ou Atalaia/Porto das Barcas ? > c. 1920 > A família Maçarico tinha um estaleiro de construção naval, em Ribamar. Com a industrialização e a modernização dos estaleiros navais, o avô paterno do Horácio Fernandes acabou por emigrar para a América, nos anos 20.  Nunca mais voltou nem deu notícias, deixando na terra a mulher e três filhos menores, entre eles o pai do Horácio.  Soube-se, muito mais tarde (por volta de 1959, quando o Horácio estava para ser ordenado padre e o seu passado da família foi escrutinado, por denúncia)  que já tinha morrido na Califórnia.

Fonte: Cortesia do Espaço Museológico de Ribamar: Olhar o Mar (Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Na sua dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), Horácio Fernandes descreve, nas páginas 102-106,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã, que é também a terra da minha bisavó paterna, Maria Augusta (Maçarico) (1864-c.1938), que era irmã da Maria da Anunciação, bisavó paterna do Horácio].

Descreve igualmente as 3 figuras da família que o marcaram: o pai, José Fenandes Nazaré;  a mãe, Elvira Neto; e o avô materno, sacristão  (nascido por volta de 1875)... 

O avô paterno, António Fernandes (Maçarico),  nunca o chegaria a conhecer: quando oo Horácio disse a Missa Nova, em 1959, ele já tinha morrido na América, na Califórnia. Foi um dos últimos construtores navais de Ribamar.

O Horácio nasceu em 1935. É uma história de vida, bem dura, em tempos muito difíceis, que merece ser conhecida dos nossos leitores. 

 A maior parte de nós, que nasceu já dez ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica (aqui resumida, na sua dissertação de mestrado,  em pouco mais de 3 dezenas de páginas). 

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). (O livro está esgotado, não sei se os herdeiros terão intenção de fazer uma 2ª edição ou reimpressão.)

O Horácio Fernandes vestiu o hábito franciscano, tendo sido ordenado padre em 1959. Foi capelão  no exército e na marinha mercante. Deixou o sacerdócio em 1972. Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.

Lourinhã > c. 1920 > Alvarina de Jesus Sousa, da família Maçarico. Morreu em 1922, de tuberculose, a terrível doença da época. Era filha de Francisco José Sousa, da Lourinhã, comerciante de peixe, e de Maria Augusta, de Ribamar.



Maria Augusta de Sousa  (Ribamar, 1864- Lourinhã, c.1934). S/ d.

A  avó materna do meu pai Luís Henriques (1920-2012), Maria Augusta, nasceu em 28 de outubro de 1864, em Ribamar, ou melhor, em Casais de Ribamar, hoje integrados na vila de Ribamar. Pertencia ao clã Maçarico: filha de Manuel Filipe e Maria Gertrudes. ( A sua ascendência está documentada até, pelo menos, a meados do séc. XVIII.)  

Veio a  casar na Lourinhã, com um peixeiro, Francisco José de Sousa (1864-1939). O casal teve 7 filhos.   Terá morrido com “cerca de 88 anos”, segundo o meu pai, ou seja no início dos anos 50, o que ponho em dúvida. Já li ou ouvi  algures outras datas: 1920, 1934…

Fotos: arquivo da família.

 

Excertos da dissertação de mestrado "Francisco Caboz: de angélico ao trânsfuga: uma autobiografia" (FPCE / UP, 1995) 

CAPITULO 4º - A CONSTRUÇÃO DA VOCAÇÃO, A MISSÃO E A DESCONSTRUÇÃO DO HABITUS (pp. 102-136)


Parte I -  Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno) (pp. 102/106)

«Casinha de pobre,
Lareira de altar,
Borralho quentinho
E tudo a rezar. »

 (Afonso Lopes Vieira)

(...) "Este capítulo tem um registo assumidamente duplo: é fenomenológico, biográfico, no tratar a vida de Francisco Caboz, tal como ela foi vivida por si e dita; é sociológico, analítico, na medida em que é significativa de uma ordem económica social e política. Da dialéctica das duas resultará, porventura, a nosso ver, a proficuidade do método que utilizamos." (...) (pág. 102)


1- Arribas do Mar

Arribas do Mar, aldeia de Francisco Caboz, estava predestinada a ser viveiro de três vocações sacerdotais nos anos 30/40. Isolada entre dois concelhos «saloios», Lourinhã e Torres Vedras, a agricultura de subsistência e a pesca sazonal eram os seus únicos recursos.

Lisboa, que distava 50 Km, ficava muito longe, já que as estradas que lhe davam acesso eram intransitáveis e o percurso inseguro, sujeitos os transeuntes a frequentes assaltos. Só a pé ou a cavalo é que era possível transpor tão curta-longa distância. O mar era a única saída possível.

Sempre com o credo-na-boca se o mar embravece, esta gente é ao mesmo tempo desconfiada, crente e devota. Quase todos analfabetos, prostam-se e veneram, temendo alguém que é mais do que eles e que constantemente os ameaça. Santos, bruxos, mulheres de virtude, todos são requisitados em marés de azar: doenças dos homens e dos animais, do corpo e da alma, amores estragados e maresias.

A escola existia, mas secundariamente em relação à omnipresença do Mar: o mais importante era saber:

  • fazer um "côvo" para apanhar lagosta, lavagante ou navalheira;
  • fazer um camaroeiro e uma sartela para atrair o peixe na maré vazia;
  •  consertar uma rede;
  • medir os fundões em braças;
  • lançar a poita;
  • manejar a vela, o remo e o leme;
  •  «safar a tralha», o que não se aprendia nos bancos da escola.
A aldeia de Francisco era, digamos assim, a realização nas suas potencialidades mais substantivas do salazarismo, enquanto projecto político: imobilismo social, pobre, conformada, trabalhadora, disciplinada vivendo o quotidiano ao ritmo do anti-quotidiano (...).

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2. A família de Francisco



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(Continua)

(Seleção, edição, revisão / fixação de texto, título: LG)


Capa da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, 147 pp. (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).