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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27739: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (22): os cubanos que o Amílcar Cabral (i) quis "esconder"; (ii) queria que fossem "escurinhos, como ele; e, mais difícil, (iii) que "não morressem nem se deixassem apanhar" como o Peralta - II Parte






Fotogramas do filme "Madina Boe" (Cuba, 1968, 38'), do realizador José Massip (1926-2014), obtidas a partir da função "print screening" do teclado do PC e da visualização de um resumo, em vídeo ("Amílcar Cabral", 28' 22'') , disponibilizado no You Tube, na conta "José Massip Isalgué".

O documentário foi carregado no You Tube no dia da morte do cineasta (ocorrida em Havana, em 9/2/2014): não tem som direto, é narrado em espanhol, tem subtítulos em espanhol, mas também pequenos diálogos em crioulo e em português (por ex., com o médico dr. Mário Pádua, angolano branco, oficial do exército português, de que desertou, tendo saído de Angola para se juntar mais tarde ao PAIGC). 

Há sequências de cenas que vão da preparação militar a saídas para atacar alegadamente o quartel de Madina do Boé,   do rital da caça à descontração das refeições, das jogatanas de futebol ao quotidiano do hospital de Boké, do outro lado da fronteira, na Guiné-Conacri... Enfim, até uma visita de Amílcar Cabral às "tropas em parada"... É impossível saber onde exatamemnte foram  obtidas as imagens. Parte delas são no Boé, outras em Boké, já na Guiné-Conacri,

Esta média metragem, "Madina Boé" (1968),  foi  financiado pelo Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográficas, de que o José Massip foi cofundador, e pela Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina. O documentário retrata a organização do  PAIGC na região do Boé, e o quotidiano dos seus guerrilheiros. O Boé
é considerado como "área libertada". 
 
O cineasta José Massip e o operador de câmara Dervis Pastor Espinosa  estiveram na zona do Boé em março e abril de 1967,  pelo que as imagens do  alegado ataque ao quartel de Madina do Boé em 10 de novembro de 1966 (trágico para o PAIGC, com a morte de Domingos Ramos e outros militantes) só podem ser de arquivo e, nessa medida, são (ou podem parecer) um embuste: a verdade sobre o que se passou nesse dia trágico foi pura e simplesmente ignorada ou escamoteada, como convinha.

Sabe-se que em março-abril de 1967,  a equipa cubana não filmou nenhuma cena de guerra, alegadamente por razões de segurança. As imagens de guerra que foram incorporadas no filme terão sido obtidas por outra equipa cubana, que estava no terreno em 10 de novembro de 1966, o que ainda está por esclarecer. (Já fizemos referência à operadora de câmara argentina Isabel Larguia, que estava ao lado do guineense Domingos Ramos e do cubano Ulises Estrada.)

De resto, tanto Cuba como  PAIGC mantiveram em segredo, mesmo depois da independência,  a "ajuda estrangeira" em conselheiros, instrutores, médicos e combatentes cubanos... No filme não aparecem combatentes estrangeiros, a não ser o médico Mário Pádua, de costas (que diz no filme: "eu sou um médico português antifascista e anticolonialista"... e acrescenta: a guerra que aqui se trava não é do povo guineense contra o povo português mas contra um regime político fascista...)

O filme do José Massip foi várias vezes premiado (nomeadamente em países do chamado bloco soviético), passou na televisão cubana mas não obteve grande entusiasmo  da crítica interna. Há cenas no filme que não terão agradado ao regime de Fidel Castro. Em contrapartida, foi muito útil à propaganda do PAIGC. Amílcar Cabral era hábil, a explorar, no plano mediático e diplomático, testemunhos como este que devem ter seduzido, por exemplo, os suecos do partido de Olof Palme.

Claro que em Portugal não passaria, antes do 25 de Abril. O filme, aliás, só foi estreado entre nós no doclisboa'16, em 24 de outubro de 2016, às  15h30, na Cinemateca Nacional, Sala M. F. Ribeiro.  Eis a sinopse que vinha no programa, e que não deixa de ser reveladora da santa ignorância ou ingenuidade (é o mínimo que me ocorre dizer) dos organizadores.

"Filmado nas áreas libertadas [sic] da Guiné-Bissau, durante a sua guerra de libertação de Portugal, o filme segue o Exército Popular para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, documentando a educação política dos combatentes, as técnicas de guerrilha e o treino físico."  

Enfim, Cuba não mandou, para o PAIGC, apenas instrutores, conselheiros militares e médicos, mandou também cineastas com o talento de um José Massip. Até nisso Amílcar Cabral foi hábil, soube pôr o cinema e os cineastas de vários países ao seu lado, contrariamente aos políticos e generais portugueses do Estado Novo... que escondiam ao povo a guerra que se travava em África, nomeadamente na Guiné. 

Para vergonha nossa, o cinema português não tem um único filme com a assinatura de um cineasta de prestígo sobre a guerra na Guiné (1961/74), que possamos mostrar aos nossos filhos e netos. 

Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Bissau > HM 241 > 1969 > O capitão cubano Pedro Rodriguez Peralta. Fotograma, sem indicação de fonte (RTP ?). Cortesia da página do Facebook de António José Vale, 26 de maio de 2018. Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024), com a devida vénia...


1. O jornalista Júlio Montezinho publicou no "Expresso das Ilhas" (Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde), edição nº 1260, de 21 de janeiro de 2026, um interessante  artigo sobre a participação dos cubanos, ao lado do PAIGC, na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde... 

 Vamos fazer, em dois ou três postes,  uma síntese  (*) e análise crítica do  artigo cujo iriginal está disponível "on line", aqui: País: A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder | Por Jorge Montezinho, | Expresso das Ilhas, 25 jan 2026 9:14

Temos  cerca de 3 dezenas de referências a Cuba, e cerca de 90 a cubanos

II. Análise crítica: entre a solidariedade e a realpolitik

O artigo é interessante sem ser original. Mas merece ser partilhado com os nossos leitores, e demais público lusófono. Apoia-se fortemente na investigação do historiador italiano Piero Gleijeses: o seu livro de 2002, "Conflicting Missions: Havana, Washington and Africa, 1959–1976",  é uma obra de referência,  uma reavaliação exaustiva do envolvimento cubano na descolonização de África.  

Piero Gleijeses nasceu em Veneza em 1944, foi  professor de política externa dos Estados Unidos  na Universidade Johns Hopkins. 

É considerada uma autoridade em matéria de estudos sobre a política externa cubana sob Fidel Castro. Gleijeses, dizem-me,  é o único investigador estrangeiro a quem foi permitido o acesso aos arquivos governamentais cubanos da era Fidel Castro.

Fez o seu  doutoramento em relações internacionais no Graduate Institute of International Studies, em Genebra, e domina várias línguas:  além do italiano e do inglês, o afrikaans, o francês, o alemão, o português, o russo e o  espanhol.

 "Visions of Freedom" (2013) dá continuidade a "Conflicting Missions", analisando o confronto entre Cuba, os Estados Unidos, a União Soviética e a África do Sul no sul de África entre 1976 e 1991.

Além de revistas académicas, Gleijeses colaborou em publicações como a "Foreign Affairs" e a "London Review of Books" (Fonte:  Wikipedia, em inglês).


(i) Cuba: um ator único, "sui generis", mas não desinteressado

  • Solidariedade vs. estratégia: a ajuda cubana aparentava ser "genuína e desinteressada" em termos económicos, mas não era isenta de cálculo geopolítico; afinal, também aqui não há "almoços grátis".
  • Em nome do chavão do "internacionalismo proletário", a pequena mas "heróica" Cuba procura expandir a sua influência e o seu prestigio em África, em competição com as gigantescas mas rivais URSS e  China.
  • Guiné(zinha) portuguesa parecia ser um bom laboratório para testar, validar, promover e "vender" o  modelo revolucionário cubano, também baseado nos "campesinato".
  • O legado de Guevara: a presença cubana estava profundamente ligada à visão de Guevara de "internacionalismo proletário"; no entanto, a decisão de manter o envolvimento em segredo  deixou de dar dividendos (e teve custos humanos, mortos e feridos, que o PAIGC e Cuba sempre silenciaram, embora em nada comparáveios com o envolvimento em Angola.
  •  Havana, em todo o caso, também quis  evitar conflitos desnecessários com Portugal (com quem mantinha relações diplomáticas e comnercais) bem como com o poderoso vizinho, os EUA, que já monitoravam a região.
  • A célebre frase de Ernesto "Che" Guevara, "Criar dois, três, muitos Vietnames" (Crear dos, tres, muchos Viet Nam), surgiu na sua "Mensagem à Tricontinental" em 1967, apelando à multiplicação de focos de resistência armada para dividir e enfraquecer o "imperialismo".
  • Contexto: a frase foi publicada na revista Tricontinental em abril de 1967, originária de uma mensagem enviada por Che à Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina (OSPAAAL).
  • Significado: Guevara defendia que, se a resistência vietnamita conseguisse dividir as forças dos EUA, outros focos revolucionários no mundo teriam o mesmo efeito, enfraquecendo a dominação global.
  • O objetivo era incitar a luta armada internacional e a solidariedade entre os povos oprimidos contra o imperialismo (e o colonialoismo tardio, como era o caso da África lusófona; e o "apartheid" na África Austral).
  • O Vietname representava o exemplo máximo de um povo pobre a enfrentar com sucesso um exército poderoso, servindo de inspiração para movimentos revolucionários globais.
  • A frase (panfletária) tornou-se um lema para a resistência ao colonialismo e a defesa da soberania, simbolizando a luta colectiva.
(ii) Cabral, um líder pragmático que não foi nos futebóis dos cabuanos
  • Equilíbrio entre autonomia e dependência: Cabral soube gerir a ajuda externa sem comprometer a liderança do PAIGC (ou a sua liderança, que de resto não era contestado nessa época).
  • Cabral defendia que a luta devia parecer genuinamente africana e não parte de um estratégia mais vasta, geopolítica.

  • Ao limitar o número de cubanos e recusar ofertas de mais homens, evitou que o movimento se tornasse um "proxy" de potências estrangeiras, um risco comum em "guerras de libertação".
  • O uso da imagem: a colaboração com o cinema cubano para construir a sua imagem como líder de guerra revela uma compreensão avançada da importância da narrativa, Cabral não era apenas um estratega militar, mas também um construtor de mitos, essencial para a coesão do movimento.
  • Náo se pode diaer que a imagem de Cabral saia diminuída. Mas é inegável que o cinema (e os amigos do PAIGC, e náo apenas os cubanos) deram um bom retique na imagem de Cabral: encenação da sua presença na frente de batalha; construção simbólica do líder revolucionário.  Cabral nunca foi um "cabra-matchu", muiti menos boçal a maioria doso comandantes do PAIGC, a começar por 'Nino' Vieira,  como nem sequer precisava de o ser, para ficar na história de África.

  • (iii) Portugal, aliás, o Portugal de Salazar / Caetano, "orgulhosamente só"

  • A captura de Peralta: Portugal usaou o vaso Peralta para tentar deslegitimar o PAIGC, mas a sua recusa em libertá-lo, mesmo com a oferta de troca de um refém ameriano,  mostra a rigidez do regime de Salazar-Caetano.
  • Lisboa parecia mais interessada em "provar" a interferência estrangeira do que em resolver o conflito da Guiné (que se tenderia a"eternizar").
  • Falta de adaptação: enquanto o PAIGC e Cuba inovavam em táticas e comunicação, Portugal manteve uma estratégia militar rígida e pouco adaptada à guerra de guerrilha, pelo menos até à chegada de Spínola ao território.
  • O 25 de Abril de 1974 veio demonstrar que a solução para a guerra colonial não era militar, mas política (coisa que os militares portugueses, a começar por Spínola, já defendiam há uns anos, contra os "falcões" do regime que, de resto, mal conheciam África, a começar por Salazar que lá pôs os pés).

(iv) Memória e esquecimento

  • O silenciamento cubano: por que é que Cuba manteve o seu papel em segredo, mesmo depois da independência da Guiné-Bissau? 
  • A explicação oficial  ("respeitar os desejos do PAIGC") é plausível, mas também pode refletir uma política de não-confrontação com os EUA ou com os novos governos africanos, muitos dos quais queriam evitar tensões com antigos aliados de Portugal.
  • O 'papel técnico-militar dos cubanos não deve ser subvalorizado mas também náo pode ser sobrevalorizado. Cuba terá mandando ao PAIGC 435 homens, alegadamente todos "voluntários". 9 ou 17 terão morrido, há fontes contraditórias.

  • A memória portuguesa: em Portugal, a guerra colonial ainda hoje, passado ,mais de meio século, é um tema sensível; a narrativa dominante tende a focar-se no "trauma" dos soldados portugueses e na "ingratidão" das ex-colónias, ignorando cpmpletamemnte o papel de atores como Cuba (pelo menos, no cvaso da Guiné e,depois, em Angola, na chamada "guerra da II independència).
  • No nosso blogue, temos dado também voz a uma pluralidade de perspectivas, incluindo a cubana, "naturalmente" mais esquecida e mais difícil de compreender e aceitar pelos antigos combatentes portugueses.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor LG:

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27736: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (21): os cubanos que o Amílcar Cabral (i) quis "esconder"; (ii) queria que fossem "escurinhos, como ele; e, mais difícil, (iii) que "não morressem nem se deixassem apanhar" como o Peralta - Parte I


Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05222.000.243 | Título: Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanosn| Assunto: Fernando de Andrade [irmão de Lucette de Andrade, esposa do Luís Cabral] com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e grupo de internacionalistas cubanos | Data: 1963 - 1973  |  Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografia.

(1963-1973), "Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanos", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43457 (2026-2-14)


Guiné > Alegadamente Região do Boé  > 1968 > Amílcar Cabral revistando as suas tropas

Fotograma do filme "Madina Boe" (Cuba, 1968, 38'), do realizador José Massip (1926-2014), obtido a partir da função "print screening" do teclado do PC e da visualização de um resumo, em vídeo (28' 22'') , disponibilizado no You Tube, na conta "José Massip Isalgué". O documentário foi carregado no You Tube no dia da morte do cineasta (ocorrida em Havana, em 9/2/2014). 

O documentário chama-se "Amílcar Cabral" (e pode ser aqui visualizado) (Imagem reproduzida com a devida vénia).


1. O jornalista Júlio Montezinho publicou no "Expresso das Ilhas" (Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde), edição nº 1260, de 21 de janeiro de 2026, um interessante  artigo sobre a participação dos cubanos, ao lado do PAIGC, na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde (*)... 

Não diz muito mais do que aquilo que a gente já aqui sabia. Por exemplo, não diz quanto cubanos passaram pelo território da Guiné (não terão chegado a meio  milhar),  nem quantos morreram ou foram gravemente feridos (menos de duas dezenas) (**).

Alguns de nós, pelo contrário, começaram a entrar na paranoia de ver cubanos por todo o lado. Às centenas, aos milhares, uma invasão (!) (**)... "Brancos, que só podiam ser cubanos"... Mas não, o Amílcar Cabral não queria "brancos", queria "escurinhos", como ele... Lá tinha as suas razões... Ele,  que nunca foi um grande "cobói", terá acolhido,  porventura um pouco a contragosto, a ajuda dos "bons escoteiros cubanos"... Afinal Cuba dava lições ao mundo em matérias como a guerra de guerrilha... E o PAIGC tinha que aprender com os mestres. 

Enfim, ainda há muitos "mitos" para desmontar. 

Em todo o caso, munca foram particularmemnte queridos os cubanos que, achávamos nós,  nada tinham a ver com aquela guerra (nem com aquela terra). "Dor de corno" ?!...Se calhar, mas alguns cubanos diziam tinham lá antepassados que foram escravizados.

 Bom, sorte, sorte, apesar de tudo, teve o "capitão Peralta" a quem os páras do BCP 12 salvaram a vida, depois de gravemente ferido numa emboscada (Op Jove, corredor de Guileje, em 18 e novembro de 1969). 

O Peralta que, não tendo morrido, acabou por ser uma peça fora do baralho, que veio estragar o arranjinho entre o Amílcar Cabral e o Fidel Castro... E estes dois, que depois se tornaram amigalhaços, lá tiveram que arranjar uma desculpa de mau pagador para a presença, no corredor de Guileje, a milhares de quilómetros de casa (mais de 7 mil), daquele "ovelha tresmalhada".

Afinal, éramos todos bons rapazes, mas o Amílcar Cabral nunca chegou a pagar em vida  os favores que devia aos cubanos, mandando por exemplo os "seus balantas" para Cuba, para ir cortar cana de açucar na altura dela... Amor com amor se paga, diz o provérbio popular português.

Enfim, tem algum interesse em sabermos, pelo menos, como  é que eles, os cubanos, 500 anos depois, voltaram à  Guiné à procura das suas origens... (Esse era um dos argumentos utilizados pelo Cabral para justificar a sua presença em África.)

Vamos fazer, em dois postes,  uma síntese e análise crítica do  artigo cujo original está disponível "on line", aqui: País: A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder | Por Jorge Montezinho, | Expresso das Ilhas, 25 jan 2026 9:14


A. Síntese: o papel de Cuba na luta do PAIGC


(i) Contexto e motivações

  • Autonomia cubana: ao contrário de outros apoiantes do PAIGC (como a URSS, a China ou até a Suécia), Cuba terá agido por iniciativa própria, motivada pela visão de 'Che' Guevara  do "internacionalismo proletário" e da da "luta contra o imperialismo ", pelo empenho pessoal de Fidel Castro e pelo interesse estratégico de Cuba  na África subsaariana como "laboratório revolucionário". 
  • Os contactos com o PAIGC remontam a 1963, mas a "ajuda cubana" só se  materializou  após a viagem de Guevara à África em 1964-65.
  • Primeiros contactos: em agosto de 1963, o PAIGC pediu formação militar e política para cinco combatentes, em Cuba; não se sabe ao certo se houve resposta, nem se esses cinco militantes chegaram a ir a Cuba (quanto mais fosse para provar um "Mojito", um "Daiquiri" ou uma "Cuba Libre"...).
  • Foi preciso esperar ano e meio para que, a partir da reunião entre o 'Che' Guevara e o Amílcar Cabral, em 12 de janeiro de 1965, em Conacri, se desse o início da "cooperação efetiva"entre o PAIGC e Cuba.
  • Em janeiro de 1966, Cabral, que gostava muito de viajar,  foi pela primeira vez a Cuba (não é "á Cuba", no Baixo Alentejo), chefiando a delegação do PAIGG  na  Conferência Tricontinental em Havana.
  • Após aqueles intermináveis discursos panfletários do Fidel Cabral (supomos que o do Amílcar Cabral fosse mais curto e comedido, até  para compensar), o Cabral e Castro foram "tabaquear o caso", como dizem os alentejamos: lá tiveram uma conversa (longa, claro...), a que apenas assistiu o Oscar Oramas,  na altura um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores, mais tarde embaixador de Cuba em Conacri (, de resto, um homem afável, que eu irei conhecer, em Bissau, em março de 2008).  

(ii) A ajuda cubana: logística, militar e humana

  • Em maio de 1965, o navio "Uvero" levou a primeira remessa de ajuda cubana: armas (cerca de 60 caixas), alimentos e medicamentos a Conacri, cumprindo a promessa do 'Che' a Cabral.
  • Em 6 junho de 1966, chegam 31 "voluntários" cubanos, além de charutos, açúcar mascavado e outros mimos ( a revolução também se faz com estas coisas que fazem bem a alma).
  • Desses trinta e um, (i) onze eram especialistas em artilharia; (ii) oito motoristas; (iii) um mecânico; (iv) dez médicos (sete cirurgiões e três de clínica geral); e (v) um oficial de inteligência, o tenente Aurelio Ricard (Artemio), que era o líder do grupo.
  • Não sabemos (o jornalista cabo-verdiano não satisfaz a nossa curiosidade), quantos eram "brancos" e quantos eram "mais escurinhos", de acordo com as recomendações do Amílcar Cabral. A maior parte dos médicos seriam "brancos", mas quem sabe dessa parte é o Jorge Araújo, que é o nosso especialista em "internacionalistas cubanos":   teve, inclusive,  um duelo de morte, no Xime, com um deles  (já aqui contou essa história).
  • A missão mlitar cubana, sediada em Conacri (claro, não podia ser em Dacar, muito menos no Fiofioli...), reportava diretamente a Havana e era liderada por Víctor Dreke (veterano da guerrilha no Congo).
  • Além de formação de guerrilheiros, os cubanos passaram a participar em missões de combate e a fornecer apoio logístico e médico.
  • O grupo reportava diretamente à inteligência cubana em Havana, e em particular a Ulisses Estrada, chefe da Direcção 5 da DGI, que abrangia a África e a Ásia (um veterano, negro, da Sierra Maestra, que depois irá lutar ao lado de Domingos Ramos, no Leste da Guiné; estaria ao lado dele, segundo me confidenciou, em Bissau, em 2008, quando o Domingos Ramos foi mortalmente ferido em 11 de novembro de 1966, no ataque a Madina do Boé, ataque que redundou num enorme desaire para o PAIGC).
  • Apesar da ajuda, que foi bem vinda, Cabral  (que era pobre mas não era mal agradecido e sobretudo era inteligente)  fez questão de restringir o número de cubanos a 5 ou 6 dezenas de cada vez: tratava-se de preservar a autonomia do PAIGC, e não ferir o orgulho dos seus "cabra-matchu", como o 'Nino' Vieiria.
  • Aém disso, preferia "negros ou mulatos escuros para que se misturassem com o seu povo" (sic) (por favor, não venham agora acusar o Cabral de "racista": depois de morto, não se pode defender).
  • A presença cubana foi "mantida em segredo" (sic), a pedido do próprio PAIGC; em 1966 estava em curso uma grande operação contra Madina do Boé: foi adiada para 11 de novembro, no início da época seca; 350 combatentes do PAIGC atacaram o aquartelamento português com a intenção de dar cabo dos "tugas" e libertar  definitivamente o Boé; o PAIGC acabou por sofrer pesadas baixas; morreu o comandante Domingos Ramos (já aqui contámos como foi).
  • “A morte de Ramos foi um golpe duro”, lembrou um líder do PAIGC; issso levou Castro à acção; o líder cubano “sugeriu que fizessemos mais para ajudar”, recordou Oramas, “e Amílcar aceitou com grande prazer a nossa oferta de aumentar a ajuda”.
  • Castro convocou Dreke [Víctor Emilio Dreke Cruz, ex-comandante das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas] que, desde que regressara do Zaire, chefiava o departamento que treinava os cubanos que iam para as missões militares no exterior e os estrangeiros que vinham a Cuba. Fidel confiou a Dreke "o comando da missão militar na Guiné’”. Castro também insistiu para que Dreke levasse alguns dos homens que estiveram com Dreke no Zaire, “os melhores”.
  • "Em fevereiro de 1967, comunicados militares portugueses começaram a mencionar que conselheiros cubanos estavam a operar com os guerrilheiros, e um mês depois a CIA, que estava á  coca, escreveu que 'pelo menos 60 cubanos... treinavam o PAIGC' ", escreveu o autor do artigo, Júlio Montezinho.
  • "Em fevereiro de 1967, Dreke voou para Conacri com Pablito Mena (outro veterano do Zaire) e Reynaldo Batista. Dreke era um comandante, membro do Comité Central e um homem que conhecia África e a guerra de guerrilha"; além disso, inspirava enorme confiança e respeito, diz o jornalista cabo-verdiano.
  • "Aprendemos muito com Moya [nome de guerra de Dreke]”, disse Arafam Mané, um comandante do PAIGC (recordam-se ? o puto biafada que deitou fogo ao capim, em Tite, em 23 de janeiro de 1963.). “Moya foi um líder excepcional”, disse o ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira, por sua vez.
  • Os cubanos, por seu turno, ficaram impressionados com o empenhamento e a disciplina do PAIGC. “Tivemos uma experiência realmente amarga no Zaire e encontrámos algo completamente diferente na Guiné-Bissau”, observou Dreke.


(iii) Impacto estratégico e simbólico
  • Formação e especialização: os cubanos foram "cruciais" no treino dos combatentes do PAIGC, em áreas-chave como artilharia, minagem e uso de armas sofisticadas (ex.: RPG ou bazucas, canhões sem recuo, morteiros, antiaéreas); a sua presença, por outro lado, elevou o moral dos combatentes do PAIGC, que viam neles aliados dispostos a partilhar sacrifícios ( incluindo o da própria vida).
  • "Com o passar do tempo, os combatentes do PAIGC assumiram o papel de artilheiros, mas os chefes de bateria — aqueles que faziam os cálculos e dirigiam os artilheiros — foram, até ao fim, quase sempre cubanos", escreve o jornalista do "Expresso das Ilhas". (Não sei se o Manecas Santos concorda com esta "boca".)
  • Adaptação à estratégia de Cabral: embora preferissem táticas mais agressivas, os "cabra-matchu" cubanos respeitaram a estratégia de desgaste de Cabral, evitando confrontos diretos com os "tugas" que pudessem causar baixas elevadas (e a ira dos irãs).
  • "O estilo de Amílcar Cabral 'não era necessariamente o nosso',  comentou Enrique Montero, que chefiou a Missão Militar Cubana em 1969-70. Embora Cabral mantivesse um controlo rígido sobre a estratégia militar, passava a maior parte do tempo fora do país, em Conacri ou a viajar à procura de apoio estrangeiro. Ora, as actividades diplomáticas de Cabral mantinham-no afastado da linha da frente. Cabral não dirigia pessoalmente as operações militares. “Isto preocupava-nos”, explicou Dreke. 'A nossa formação e a nossa experiência ensinaram-nos que o líder tinha de estar na linha da frente.' "(diz Julio Montezinho)
  • Cinema e propaganda: Cuba vai usar entao o  a arma do cinema (vd. o documentário "Madina de Boé", de José Massip) para construir a imagem de um Cabral como um verdadeiro comandante,  um "cabra-matchu", um  líder presente na  linha da frente de batalha, mesmo que apenas... para russo  e cubano ver ( com a censura, era impossível  o filme passar nos nossos ecrãs). Isso ajudou a legitimar o PAIGC perante críticas internas e externas.
  • "Os cubanos tentaram disfarçar o facto com cinema. Um ano depois do primeiro contingente militar cubano ter chegado à Guiné-Bissau, chegou a primeira equipa de cinema, liderada pelo realizador Jose Massip. Massip realizou o filme Madina de Boé. O filme destaca-se por ser um dos poucos filmes em torno da luta de libertação em que Amílcar Cabral está, aparentemente, presente nas zonas libertadas. Convivendo com a população e os militares, Cabral enverga uma farda militar, partilhando a iconografia de outros líderes revolucionários da época."
  • "O líder do PAIGC voltaria a ser filmado por Massip em 1971 e desta rodagem permanece um diário do realizador. Em "Los Dias del Kankouran", Massip desvenda que Cabral lhe pediu para ser filmado no 'matu', para contornar críticas de que era alvo: a de se estar a transformar num intelectual urbano, baseado em Conacri, que não se expunha aos riscos da luta armada. Porém, o 'matu' onde Cabral foi filmado não era nas zonas libertadas, como a narrativa fílmica deveria conduzir o espectador a “ver”, mas sim o aquartelamento militar cubano em Kandiafara, território da República da Guiné. O cinema cubano colaborou na construção de uma imagem de Cabral como chefe de guerra".

(iv) O  caso Peralta e o segredo cubano

  • Captura e negação: em 1969, o capitão cubano Pedro Rodríguez Peralta foi capturado pelos portugueses,
  • Cabral negou a sua participação militar, como lhe convinha, descrevendo-o como um "visitante" dos médicos cubanos; ou seja, o rapaz veio em viagem turística, mas sem passaporte nem visto dos "tugas".
  • Portugal (leia-se, o Governo de Marcelo Caetano) usou a captura para provar o envolvimento estrangeiro. Mas Cuba manteve o bico calado.
  • Libertação tardia: Peralta só foi libertado uns meses depois do 25 de Abril de 1974,  apesar de tentativas, goradas, de troca com um "espião" dos EUA;
  • O caso ilustra a política de negação do PAIGC e o respeito de Cuba por essa posição, que também lhe convinha.
(Continua)

(Pesquisa, condensação, fixação / revisão de texto, negritos: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 3 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27698: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (20): E se tivesse havido um referendo em 1975 ? (Adriano Miranda Lima, cor inf ref, mindelense, que bebeu a água do Madeiral, a viver na diáspora desde 1963, e atualmente em Tomar)

(**) Vd. poste de 13 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26041: A nossa guerra em números (26): Aceitemos, provisoriamente, o número (oficioso) de 437 "internacionalistas cubanos" que terão combatido ao lado do PAIGC, "de 1966 a 1975"

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27700: Foi há... (5): 65 anos: duas "negas" aos americanos, Fidel Castro e António de Oliveira Salazar (António Rosinha, que tinha então 22 anos, e vivia feliz em Angola)

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1. Mensagem de António Rosinha, ex-colon, ex-retornado de Angola, ex-emigrante no "Brasiu", ex-cooperante na Guiné-Bissau do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, beirão,  portuguès dos sete costados, grão-tabanqueiro de pedra e cal (com  162 referências no blogue)... Mesmo tendo sido expulso do paraíso em 1974, não perde o bom humor... mas também não se esquece..

Data - 3 fev 2026 00:26
Assunto :- 1961: duas negas aos amaricanos


Já fui à inteligência artificial e podia transcrever o que ela diz sobre o assunto, mas prefiro usar a minha linguagem e a minha memória dos meus 22/23 anos.

Nunca pensei aos 22 anos que, passados 65 anos, ver os mesmos senhores do mundo com os mesmos propósitos de continuarem a fazerem "obedecer" o mundo aos seus caprichos.

Vamos às duas "negas", em 1961, sendo que as duas, simultâneas no tempo, eram distantes geopoliticamente.

Quem foram os "heróis" que em 1961 disseram Não ao presidente americano Kennedy?

Muita gente ainda se lembra dos barbudos de Fidel Castro e da Baía dos Porcos onde a CIA bateu com a cara na porta, e a Coca-Cola foi buscar açúcar a outra colónia.

Em 1961, e durante muitos anos, não só Cuba funcionava como pura colónia norte-americana, como praticamente toda a América Latina.

E o herói Fidel Castro, embora caísse na boca de outro lobo, Khrushchev,  disse "bye bye" a Kennedy! Até hoje! "Embora a luta continue", para azar dos cubanos, mas que Fidel foi único na América Latina, é inegável.

E o segundo herói que neste ano, 1961, disse um redondo Não ao presidente Kennedy foi o português António de Oliveira Salazar.

Mais ou menos, muito perto no tempo da Baia dos Porcos em Cuba, Kennedy propôs a Portugal "ajuda" para resolver o problema colonial que se tinha desenvolvido no Norte de Angola com os ataques terroristas pela UPA no "Congo Português".

Para quem não sabe, esse movimento, a UPA, já era conhecido da CIA e das missões religiosas americanas, onde havia muito disso, que já andavam por ali à muitos anos a dilatar a fé e o império.

E o chefe da UPA, que era cunhado de Mobutu, (em África quando se fala em cunhado quer-se dizer que é da mesma tribo) não iniciou a guerra de libertação de Angola, mas exclusivamente daquela região tribal, que era o Congo Português, irmão dos Congos francês e belga.

Ora os americanos já estavam com a CIA e as Missões religiosas, a financiar e fomentar a luta não só anticolonial, como anticomunista, e já tinham liquidado em janeiro, o Lumumba, tudo dentro da política Kennedy.

Como tinham liquidado o sueco Secretário Geral da ONU que, como sempre, ontem e hoje, um organismo-fantoche, e esse senhor andava a levar por maus caminhos os africanos.

Claro que Salazar só podia dar uma "nega" a esse homem que deixou um nome mítico no mundo mas não passava de um  coboi como todos os outros americanos, a lei era o gatilho.

A ajuda norte-americana, só a um povo "perdido" e desesperado e incaracterístico e despersonalizado, talvez para onde hoje a Europa se esteja encaminhando arrastando todos, só assim se deva entregar tal ajuda.

Angola e Moçambique jamais seriam aquilo que conhecemos, não sabemos se angolanos e moçambicanos gostam daquilo que com unhas e dentes Portugal resguardou.

A América conseguiu a paz na Europa, na II Grande Guerra, ajudou o Vietnam, o Chile a Coreia a Somália, agora ajuda a Ucrânia, ajuda sempre quem precisa.

Houve um momento da nossa geração em que na realidade Portugal teve voz própria, com muito sacrifício, foi com um ditador, mas paciência, historicamente o nosso ditador disse Não ao presidente americano que um tiro matou.

Também foi azar, o tiro poderia ter ferido apenas.

Fico por aqui.

Faz agora anos que se diz que seria o MPLA, iniciou a primeira sarrafusca na cidade de Luanda, em 4 de fevereiro de 1961.

Cumprimentos

Antº Rosinha

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Nota do editor LG:

Ultimo poste da série : 28 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26955: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (2): vai estrear, em julho, no dia 4, na Praia, e no dia 11, no Mindelo, o filme "Nós, povo das ilhas", de Elson Santos e Lara Sousa (Documentário em português, 80', 2025, PT, CV, MZ)




Fotograma do filme "Nós, povo das ilhas", de realizadopelo cabo-verdiano Elson Santos e a moçambicana Lara Sousa (Documentário em português, 80', 2025). Trata-se de uma coprodução da Soul Comunicação (Cabo Verde), Midas Filmes (Portugal) e Kulunga Filmes (Moçambique). Terve  antestreia no IndieLisboa, 4 maio, domingo, 19:30,  no Cinema Ideal

 (Cortesia: Midas Filmes)



NÓS, POVO DAS ILHAS
Elson Santos, Lara Sousa
DCP | 80’ | 2025 | PT, CV, MZ 

Sinopse: 

"A partir de uma foto esquecida de um grupo de guerrilheiros cabo-verdianos clandestinos nas montanhas de Cuba, Elson, um jovem cineasta vai em busca dos heróis silenciados desta ousada e pouco conhecida operação militar, cujo principal objectivo era realizar o sonho de Amílcar Cabral de libertar o país das garras do colonialismo.

Num vai-e-vem entre o passado e o presente, o filme estabelece uma conversa com os heróis da Independência do país. Com eles, viaja pelos anos de luta na Guiné e no Cabo Verde pós-independência, reflectindo sobre sonhos, pesadelos e o que é o país hoje, entre a utopia e o esquecimento.

(Fonte: Midas Filmes)




1. Vai fazer 50 anos que Cabo Verde se tornou independente, em 5 de julho de 1975. Nesta série vamos dando apontamento e notícias sobre essa efeméride.  

Como já aqui o dissemos, esta data históricca  é uma boa ocasião para reforçar laços, afetivos e históricos, entre nós, independentemente do lado da barricada onde cada um de nós estava há 50/60 anos. (*)

Ontem recebemos uma mensagem do nosso amigo Nelson Herbert Lopes, que nos enviou o link com a noticia da estreia, na cidade da Praia, e depois no Mindelo,  do documentário, de 80 minutos, "Nós, Povo das Ilhas", do cabo-verdiano Elson Santos (n. 1977) e do moçambicano Lara Sousa.

O Nelson Herbert, guineense de origem cabo-verdiana,  tem 70 referêncvias no nosso blogue: jornalista,  trabalhou na VOA - Voice of America, e viveu nos EUA, estando hoje reformado: vive no Mindelo, São Vicente.

 
Data - 24/06/2025, 10:50 (há 20 horas
Assuto - Documentário "Nós, Povo das Ilhas" estreia em Cabo Verde relembrando a luta pela independência (Cultura - Santiago Magazine (...)


2. Reproduzimos cvom a devida vénia a notícia  publicada no Santiago Magazine




Por SM/Inforpress | 24 de Jun de 2025


Cabo Verde recebe a estreia do "Nós, Povo das Ilhas" no dia 04 de Julho, no Auditório Nacional, na Praia, marcando um momento de revisitação da história do país, conforme indicou Elson Santos, um dos realizadores do filme.

Em comunicado enviado à Inforpress, o realizador explica que o documentário retrata uma janela para a “memória e o debate essencial em desvendar a história por detrás de uma foto esquecida de guerrilheiros cabo-verdianos”.

A narrativa central foca-se numa operação militar da luta de libertação “ousada e pouco conhecida”, que decorreu em Cuba, com a intenção de preparar 31 guerrilheiros cabo-verdianos para uma invasão de Cabo Verde.

Embora a missão não se tenha concretizado, o treino serviu de base preparatória para a luta armada de libertação liderada por Amílcar Cabral e que viria a culminar na proclamação da Independência de Cabo Verde em 5 de Julho de 1975.

“O filme estabelece uma conversa íntima com cinco dos integrantes desse grupo, o ex: presidente Pedro Pires, Agnelo Dantas, Júlio de Carvalho (recentemente falecido e a quem o filme é dedicado), Silvino da Luz e a única mulher do contingente, Maria Ilídia Évora, conhecida por Dona Tutu”, lê-se na nota.

Segundo Elson Santos, a produção do filme enfrentou desafios, nomeadamente a dependência de financiamento externo e as dificuldades no acesso a arquivos audiovisuais que retratam a história de Cabo Verde.

O filme que estreou em Lisboa, Portugal, no dia 4 de maio, vai ser apresentado na cidade da Praia, no Auditório Nacional, a 4 de julho, e em São Vicente, no Auditório Onésimo Silveira, na Uni-Mindelo, no dia 11 de julho.

(Revisão / fixação de trexto, edição da foto: LG)


3. Sobre a estreia do filme em Cabo Verde, ver aqui uma peça da RTC - Rádio Televisão Cabo-verdiana, incluindo uma entrevista com o realizador Elson Santos: disponível no You Tube (7' 07'').
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Nota do editor LG:

(*) Último poste ds série > 11 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26909: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (1): a "nova força africana" e a falta de formação em liderança e sensibilidade sociocultural de oficais e sargentos metropolitanos (José Macedo, ex-2º ten fuzileiro especial RN, DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74)

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25515: O Cancioneiro da Nossa Guerra (17): "Isto é tão bera"! (Letra do sportinguista e "caça-talentos futebolísticos", Aurélio Pereira, música da canção cubana "Guantanamera") (Gabriel Gonçalves, ex-1º cabo cripto, CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71)


Gabriel Gonçalves: um grande voz, 
o "Joselito" de Bambadinca

1. Está por estudar o Cancioneiro da Guiné (*): só por si, é um tema que dá uma boa dissertação de mestrado ou tese de doutoramento... N
ão havia quartel no mato, onde não se cantasse o fado (em geral,  parodiado), um balada, um cantiga da moda (como as do Festival da Eurovisão), muitas vezes com letra adaptada às circunstâncias da vida do pobre Zé Soldado...   Havia sempre uma viola, um voz, um coro. E nalguns casos um acordeão. As letras poderiam ser mais eruditas ou mais "popularuchas", com ou  sem erros ortográficos. O que importava era cantar,  exteriorizar os nossos sentimentos recalcados,  "exorcizar os nossos fantasmas", e por vezes protestar, à boa maneira da época: iludindo a "censura"... Era também uma forma de "matar o tempo", mitigar a saudade, gerir "a usura física e mental" da guerra, enganar as insónias, disfarçar a angústia ou a ansiedade da próxima saída para o mato...

A letra que a seguir republicamos (agora nesta série "O Cancioneiro da Nossa Guerra")  foi-me  enviada pelo Gabriel Gonçalves (ex-1º cabo op cripto,  CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71),  um excelente camarada (para além de uma grande voz) que veio comigo no T/T Niassa, em 24 de maio de 1969... e não regressou no Uíge, em 17 de março de 1971, porque teve que esperar pelo seu "periquito" (**). (Os graduados e especialistas da CCAÇ 12 e das outras companhias com praças guineenses, de recrutamento local,  eram de rendição individual.)

(...) Henriques: Lembrei-me que havia uma música que a malta entoava em tom de protesto, quando das nossas tainadas lá em Bambadinca e também no nosso encontro (da malta de Bambadinca, 1968/71) efectuado na herdade do Vacas de Carvalho (em Montemor-o-Novo) já há um anos. Segue os versos. (...) (***)

Agradeci-lhe: 

(...) Gabriel, que saudades, que maravilha!... Ainda me lembro bem  da letra e sobretudo da música (...)

E acrescento agora mais uns  comentários:  era cantada em noite de copos, de insónias e de raiva, pela noite dentro, suficientemente alto para os gajos do "Comando" [do Batalhão, primeiro, o BCAÇ 2852, e depois o BART 2917] nos ouvirem... 

A canção 'Isto é tão bera' (parodiando a letra da 'Guantanamera' e adaptando a sua música muito em voga nos anos 60 ) era  uma das nossas  preferidas, no bar da messe de sargentos de Bambadinca, em 1969/71, a par da 'Pedra Filosofal', do António Gedeão (letra) e Manuel Freire (música)... 

O poema do António Gedeão foi publicado no livro 'Movimento Perpétuo', em 1956, portanto muito antes da guerra colonial.  Dada a sua excelente ritmo, riqueza imagética, força poética e musicalidade e, apesar a sua extensão, o Manuel Freire pegou nele e fez da 'Pedra Filosofal' um verdadeiro de hino de resistência contra a situação política da época (a ditadura, a guerra colonial, as esperanças frustradas da abertura política com a 'primavera marcelista', etc.)
 

(...) Eles não sabem, nem sonham, 
que o sonho comanda a vida. 
Que sempre que um homem sonha
 o mundo pula e avança 
como bola colorida 
entre as mãos de uma criança.(...)


Foi o GG, o Gabriel Gonçalves  (a quem também chamávamos o "Arcanjo Gabriel", e que tocava viola e cantava divinamente) quem me deu informação sobre o autor da letra, o Aurélio Pereira. Aqui fica  feito o esclarecimento por ele, em 2007 (***):

 (...) Henriques: Ainda bem que te lembras da música. O Aurélio Pereira (n. 1947) é um camarada de Leiria do curso de escriturário no RAL 4. Para que conste trata-se do conhecido e conceituado técnico de futebol do SCP, para as camadas jovens, pois passaram por ele nomes como: Figo, Simão, Quaresma, Ronaldo, estes os mais conceituados. Que pena o Aurélio não ser do SLB. Um abraço, GG. (...)

Confesso que não sabia que o autor da letra da canção "Isto é Tão Bera" era um nome glorioso do nosso futebol (dizem até que foi o maior caçador de talentos futebolísticos do mundo, recentemente homenageado pelo seu clube de sempre.) (...)

Recorde-se, por outro lado, que a "Guantanamera" é uma canção patriótica cubana com letra do poeta José Martí (1858-1895) (herói da independência de Cuba), com música de Joselíto Fernández (1929). 


ISTO É TÃO BERA
(Letra de Aurélio Pereira / música Guantanamera)

I
Eu sou um pobre soldado
E esta farda é o fim,
Andando assim mascarado
Todos se riem de mim.

As minhas moças-meninas
São as malvadas faxinas.

(Refrão)

Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera,
Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera.

II
Logo de manhã cedo
Toca para levantar,
Se não acordas é certo
Logo vais estar a lerpar.

Mais um minuto na cama
Lá vai o fim-de-semana.

(Refrão)

Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera,
Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera.

III
Era um rapaz engraçado
E de carinha mimada,
Sempre tão bem penteado
Mas levou a carecada.

Agora está como o fel
Nem quer sair do quartel.

(Refrão)

Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera,
Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera.

_____________


(...) Coimbra > Claustros do antigo Colégio da Graça, hoje sede no núcleo local da Liga dos Combatentes, Rua Sofia, 136 > 27 de maio de 2023 > 50.º convívio de confraternização da CCAÇ 12 (Bambadinca e Xime, 1971/74) > O Carlos Alberto M. Simões, ex-1º cabo cripto (1971/72), que foi substituir o "nosso" GG - Gabriel Gonçalves, "grande baladeiro", também conhecido pelo "Joselito de Portugal"... Chegou tarde a Bambadinca, em maio de 1971, para desespero do "Arcanjo Gabriel" que já estava completamente passado dos carretos... Vive em Telheiras, Lisboa, e trabalhou nos seguros, tal como o GG... Disse-me que nunca saiu do seu buraco, em Bambadinca... Mas tem um louvor do comando do BART 2917 (...).

(***) Vd. poste de 24 de abril de  2007 > Guiné 63/74 - P1695: Cancioneiro de Bambadinca: Isto é tão bera (Gabriel Gonçalves) 

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Guiné 61/74 - P24725: O segredo de... (39): António Medina: O surpreendente reencontro, em Bissau, em junho de 1974, com o meu primo Agnelo Medina Dantas Pereira, comandante do PAIGC



Foto nº 1



Foto nº 2

Lisboa > Antiga sede do BNU,  na Rua Augusta, que hoje aloja o Museu do Design e da Moda (MUDE). Esculturas de Leopoldo de Almeida (1964), que representam a expansão do BNU como banco emissor pelos antigos territórios ultramarinos portugueses (Foto nº 2), e os respetivos escudos (Foto nº1), incluindo a Guiné (cujo escudo é o da direita, a contar de baixo para cima, inspirado no original, a seguir descrito

"Escudo composto tendo a dextra em campo de prata, cinco escudetes de azul, cada um com cinco besantes de prata em aspa e a ponta, de prata com cinco ondas de verde - pretendiam simbolizar a ligação à metrópole; a sinistra em campo de negro, um ceptro de ouro com uma cabeça de africano, alusão ao ceptro utilizado por D. Afonso V, rei de Portugal à época da exploração da região. Brasão de armas simplificado, de 8 de maio de 1935 a 24 de setembro de 1973."

Fonte: BNU. (Reproduzido com a devida vénia...)




1. O António Medina (ex-fur mil op esp, CART 527, 1963/65) (foto acima)  não é homem para levar segredos para o outro mundo (*)... Desde que aderiu ao nosso blogue, em 15/2/2014, já partilhou aqui connosco alguns, a começar pelo seu "desenfianço" em Bissau, quando estava destacado no Cacheu, e que lhe poderia ter valido uma dura pena de prisão... por "deserção" (**).

Recorde-se que o nosso veteraníssimo António Medina, hoje com 84 anos feitos, já aqui nos contou como é que andou três dias "desenfiado" em Bissau, por causa de uns primos que tocavam no conjunto "Ritmos Caboverdianos"... (Ah! A saudade, quando dá num ilhéu! )

Estávamos em meados de 1964 e o que valeu ao Medina, que já não era "pira", mas já andava "apanhado do clima", foi um taxista, seu patrício, cabo-verdiano, que aceitou o risco de o levar de volta, de Bissau até Teixeira Pinto, por mil pesos, sem qualquer escolta (!)...

A única arma que o Medina levava debaixo do assento da viatura, e0ra a sua pistola-metralhadora FBP (de que pouco lhe valeria em caso de mina A/C ou de emboscada)...

Em João Landim, na travessia do Rio Mansoa, deu boleia a uma mulher que vendia ostras, e que ele já conhecia do Cacheu (onde estava destacado)... E lá seguiu a "coluna solitária" até ao Canchungo: o Medina, a mulher, o taxista... A história, completa, desta "pequena loucura" já foi reproduzida no poste P14945 (**)

Talvez o facto de viver nos EUA há mais de 40 anos, facilite a apetência do Medina para "ir ao confessionário" mais vezes do que outros camaradas, mais contidos.

Mas nem todos os seus segredos, já aqui contados, constam da competente série, "O segredo de...", que já tem 4 dezenas de postes.(*)

Alguns dos segredos aqui partilhados são "segredos de... Polichinelo", que poderiam também ser contados por qualquer um de nós... Todos tivemos, afinal, durante o serviço militar (de pelo menos 3 anos), alguns "pecados e pecadilhos", que nunca confessámos a ninguém, nem às paredes do nosso quarto... Às vezes apenas por falta de interlocutor ou "confessor", ou de ocasião ou de ambiente, e não tanto por autocensura ou receio da censura dos outros...

 Noutros casos nem se trata propriamente de "pecados ou pecadilhos", mas de situações que implicam alguma reserva, pudor, acanhamento,  constrangimento,  medo de ser julgado pelos antigos camaradas de armas, etc.

Mas já se ouviram aqui histórias espantosas que seria uma pena ficarem para sempre no "segredo dos deuses", o mesmo é dizer, perderem-se na voragem do tempo... São histórias que seguramente nunca chegaram (nem chegarão) ao Arquivo Histórico-Militar, ou outr0s arquivos públicos, mas que não sobreviverão ao "guardião da memória", que é cada um de nós, se não forem contadas...

Claro que nenhuma destas histórias vem "alterar" a visão final da História com H grande... Mas essa será sempre mais pobre, e mais descolorida, sem as nossas histórias com h pequeno...

É o caso desta, passada em Bissau, em junho de 1974, já com o PAIGC a preparar-se para se instalar nas cadeiras do poder, ainda dois meses antes da assinatura do acordo de Argel (25 de agosto de 1974) e três meses antes  da partida do "último soldado do império". 

Muitos dos nossos leitores não conhecem ainda este episódio, aqui contado no já  longínquo ano de  2014 (***).

Como está aceite, tacitamente, entre nós, não há críticas negativas ou depreciativas (por parte dos nossos comentadores) em relação a estes "segredos de confessionário". Tal como não há penitèncias...




Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Jolmete > CART 527 (1963/65) > O António Medina à esquerda, de perfil.

Foto (e legenda): © António Medina (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradasas da Guiné]


O segredo de António Medina > O surpreendente reencontro, em Bissau, em junho de 1974, com o meu primo Agnelo Medina Dantas Pereira, comandante do PAIGC


Ano de 1974, da revolução de cravos em Portugal. A voz da liberdade e a derrota do fascismo soaram aos residentes civis em Bissau, Guiné, bastante cedo, na manhã do dia 26 de Abril.

Era eu empregado do BNU desde 1967 e vivia como é obvio em Bissau com a minha mulher e três filhos pequenos, os dois primeiros já quase em idade escolar.

Não me vou alongar nesta estória mas julgo ser um facto bastante interessante que merece ser mencionado, até porque os protagonistas são relacionados com a guerra e tem laços de família.

Depressa reinou uma grande euforia em toda a cidade de Bissau. A caça ao homem e o saneamento começaram, alguns que por qualquer divisionismo familiar eram falsamente acusados, outros por terem sido informadores da PIDE, perseguição e prisão para aqueles que exerciam cargos de chefia nas repartições públicas ou privadas e que não mais mereciam confiança, aqueles que supostamente apoiaram o regime fascista, etc. Arruaças, espancamentos, ofensas, fuzilamentos (o mais notório foi do respeitado Régulo Batican Ferreira, de Teixeira Pinto, que foi do meu conhecimento pessoal quando estive no chão manjaco em 1963/65).

Tempos difíceis vividos sob a pressão constante de ser perseguido, espancado ou aprisionado, aliado à falta de géneros alimentícios que se fazia sentir em todos os aspectos.

Entretanto, chegam as forças do PAIGC a Bissau depois de parte das tropas Portuguesas começarem já a regressar a Lisboa, instalando-se em quartéis e ocupando outras instalações. O Banco Nacional Ultramarino (BNU), esse, lá continuava fazendo as suas operações diárias sem qualquer inconveniente.

Num daqueles dias de calor e humidade, já típico da época das chuvas, depois das 10:00 da manhã, fui chamado para atender um cliente que me procurava - era um militar natural da Guiné, das forças do PAIGC, armado com uma Kalashnikov.

Senti um calafrio pela espinha abaixo quando me aproximei dele que, sem qualquer preâmbulo, apenas me comunicou que eu teria de estar ao meio dia na sede do Partido, ao lado do Palácio. Esperando o pior, prontifiquei-me a estar presente, não perguntando de quem ou de onde vinha tal ordem, o militar mais não disse, retirando-se apressadamente.

Comuniquei imediatamente à minha mulher o assunto, pedindo-lhe que se mantivesse calma, que se me pusessem sob custódia ela deveria seguir quanto antes para Cabo Verde, Ilha do Fogo, onde tinha familiares. Aliás, ia sendo este o procedimento com quantos prontos para embarcarem foram proibidos de seguir viagem, sem justa causa.

Imaginem o meu sofrimento durante aquele tempo de espera, contando os minutos e segundos no meu relógio Cortebert. Foram os piores momentos da minha vida, os nervos e o medo não me deixaram mais trabalhar. Irrequieto e preocupado, sem qualquer concentração, andava de um lado para outro sem saber o que se me adivinhava. Na hora certa, saí correndo em direcção à sede do PAIGC para me apresentar a quem (?), no edifício da antiga messe dos Oficiais da Força Aérea Portuguesa.

Quando chego ao pé do sentinela, deparo-me com um sujeito, a uma curta distância, de meia estatura, barba cerrada, com a farda dos revolucionários mas desarmado, sorrindo para mim. Era o meu primo Agnelo Dantas, filho de uma tia, irmã do meu pai. Fiquei deveras surpreendido quando vi a realidade à minha frente, meu primo, um dos combatentes do PAIGC (#)

Ponderei surpreso por alguns momentos, me aproximei sem qualquer relutância e demo-nos então um caloroso e prolongado abraço fraterno. A convite dele entrámos no edifício e depois de um trago de whisky John Walker Black que me ofereceu, senti-me mais relaxado para se conversar.

O ambiente era confuso e barulhento, alguns deles sentados cavaqueando com outros das mesas ao lado, à espera que o almoço lhes fosse servido, outros de pé, encostados ao balcão do Bar conversando em alta voz, pessoas entrando e saindo, mostrando falta de preconceitos e princípios pela maneira como se sentavam e se comportavam à mesa, fruto de terem andado longe da civilização na floresta da Guiné, durante aqueles anos todos.

Sentamo-nos os dois numa mesa mesmo no canto da sala, foi ele pessoalmente ao balcão, pediu duas cervejas fresquinhas. Falamos da nossa infância e dos familiares que se queixavam da falta de notícias dele desde que seguiu para estudar em França. Atentamente ia eu ouvindo o tecer da sua experiência no mato, satisfazendo a minha curiosidade com as perguntas que lhe fazia.

Fiquei sabendo que não desconhecia a minha presença na Guiné, não só do tempo militar assim como de empregado bancário. Que tinha sido aliciado e recrutado com a idade de 20 anos por Amílcar Cabral, para a luta de Libertação da Guiné e Cabo Verde. Que embarcou para Cuba e se formou na Escola Militar em Havana. Que no tempo do general Spínola foi ele quem numa das noites bombardeou Bissau com três misseis teleguiados disparados da Ponta de Cumeré. Carregava com ele um diário repleto de informações recebidas dos colaboradores do Partido.

Chegam mais elementos, identifiquei-os como cabo-verdianos e reconhecemo-nos como amigos de infância, alguns ex-colegas do Liceu Gil Eanes em S. Vicente, Cabo Verde:

  • Honório Chantre,
  • Silvino da Luz,
  • Júlio de Carvalho,
  • Osvaldo Lopes da Silva, etc.

Era um grupo que também queria exteriorizar a sua alegria pelo fim da guerra e a independência da Guiné, reconhecida por Portugal, aguardando a vez de também lhes ser servido o almoço logo após haver mesas desocupadas.

Reinou grande alegria entre todos nós pelo reencontro e amizade, rejuvenescida no momento. Foi bebida à vontade para quem quisesse, cerveja Sagres bem geladinha, goles de whisky Johny Walker com gelo, eram sobras da velha senhora deixadas aí a custo zero por aqueles que partiram.

Como petisco, ostras e camarões cozidos e temperados com molho de piri-piri forte, mancarra torrada sem casca, tudo para matar a sede e o suor que trazia aquele calor asfixiante. De Jure, não sabia absolutamente nada que fossem filiados no Partido como combatentes. Apenas se ouvia dizer que tinhajm saído à procura de trabalho no estrangeiro.

Quando regresso a casa para o meu almoço, encontro a minha esposa bastante preocupada, com os nervos à flor da pele, sem ainda saber do que se tratava. Teve ela um grande alívio quando pela primeira vez conheceu o primo Agnelo mas discretamente me consciencializou e me convenceu que devíamos deixar a Guiné para outras paragens onde pudéssemos cuidar da educação dos nossos filhos e viver com mais tranquilidade.

Durante algum tempo o primo Agnelo esteve em Bissau e mantivemos ótimas relações. A minha mulher passou a cuidar das roupas dele, com frequência se juntava-se a nós para o nosso rancho.

Depois seguiu para Cabo Verde e ocupou o cargo de Chefe das Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP). Mais tarde foi Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.

Hoje é reformado como Coronel do Exército cabo-verdiano e vive na cidade da Praia. Comunicamo-nos com frequência através da Net mas nunca voltámos a falar da guerra, águas passadas nao movem moinhos.

Antonio Cândido Medina


(Revisão / fixação de texto / negritos: LG)



(#) Nota biográfica baseada em A Semana, [Em Linha], 27 de janeiro de 2007. "Retratos: Agnelo Dantas, soldado de Cabo Verde", por Gláucia Nogueira



Agnelo Medina Dantas Pereira (foto acima)
Fonte: Casa Comum / Arquivo Amílcar Cabral, com a devida vénia)


(i) o pai é da Brava e a mãe de Santo Antão, nasceu nesta ilha em 1945;

(ii) em 1965, ainda com 19 anos, encontrava-se em Paris quando foi contactado por Pedro Pires, e depois por Cabral, e convidado a integrar "o grupo de estudantes e operários" que iria fazer um treino militar em Cuba;

(iii) chegou à ilha, depois de uma passagem pela Argélia, onde já se encontrava uma parte do grupo, formado por 30 homens e uma mulher; o chamado "grupo de Cuba” durante dois dois anos recebeu treino militar, com o objectivo de fazer "um desembarque armado em Cabo Verde";

(iv) “foram cerca de dois anos, isolados nas montanhas, ou em quartéis formados ad hoc, para nós. Foi muito exercício táctico, físico, até o dia do juramento - 15 de Janeiro de 1967 - quando Cabral se desloca a Cuba para se reunir connosco”, conta Agnelo Dantas, que diz, estarem, na altura, todos “prontos para o desembarque”;

(v) pouco tempo depois, com a morte de Che Guevara (em outubro de 1967), os cubanos têm a noção de que os seus serviços de informação estavam infiltrados, já que o próprio cerco a Che terá resultado desse facto; foi então adiada "sine die" a ida para Cabo Verde, e os militantes partiram para a União Soviética para complementar a formação;

(vi) ao longo de 1968, Dantas especializa-se em artilharia e explosivos; a ida para Cabo Verde ia ficando cada vez mais longínqua; para não ficarem indefinidamente inactivos é-lhes proposta, pela direcção do Partido, a ideia de ir para a Guiné;

(vi) tem o seu baptismo de fogo no início de 1969, quando foi aberta a Frente Leste; daí em diante e até 1974, ora ao lado de Nino Vieira, ora de Pedro Pires, participou em todas as frentes de combate, sempre no mato: primeiro, foi chefe de pelotão, depois chefe de bateria; e em 1973 já tinha o seu posto de comando, na Frente Norte;

(vii) depois do 25 de Abril e durante o período de transição para a independência de Cabo Verde, altura de intensa luta política e diplomática, foram trazidas armas da Guiné, "para qualquer eventualidade", sendo nessa altura que se começaram a formar as Forças Armadas cabo-verdianas: a 5 de Julho, de 1975, data da independência de Cabo Verde, "já tínhamos exército";

(viii) em 200, à data da entrevista, era coronel reformado das Forças Armadas de Cabo Verde, foi condecorado a 15 de janeiro de 2007 com a medalha da Estrela de Honra pelo chefe do Estado-Maior das FA (cargo que também ocupou);

(ix) tem página no Facebook: Agnelo Dantas.

2. Comentário do editor LG:

Esta é uma realidade, ignorada ou esquecida por muitos de nós... Na Guiné, no teatro de operações da Guiné, houve familiares e parentes que se combateram de armas na mão, em campos opostos, quer guineenses, quer cabo-verdianos...

Não chegou a ser o caso do nosso camarada António Medina, já que o primo Agnelo era mais novo (cerca de seis anos) e ainda devia estar em Paris (ou já a caminho de Cuba) (#), quando o primo António terminou a sua comissão em 1965 e regressou à vida civil, acabando por se fixar em Bissau e ingressar, como bancário, em 1967, no BNU...

Não temos (eu não tenho...) estatísticas sobre os cabo-verdianos que combateram de um lado e do outro... De qualquer modo, é interessante a referência do António à presença, nesse encontro com o primo Agnelo, em Bissau, em junho de 1974, de outros combatentes do PAIGC, de origem cabo-verdiano, ex-colegas do Liceu Gil Eanes, no Mindelo, em São Vicente... (Nomes sonantes ou pesos pesados do PAIGC como Honório Chantre, Silvino da Luz, Júlio de Carvalho, ou Osvaldo Lopes da Silva.)

No Liceu Gil Eanes, fundado no tempo da I Repúblcia, em 1917, com a designação de Infante Dom Henrique (que manteve até 1938), estudou Amílcar Cabral bem como a "elite portuguesa-cabo-verdiana". Até 1961 era o único estabelecimento de ensino secundário do arquipélago, e por lá passou praticamente toda a elite local...

Os mais afortunados, os filhos das famílias com posses, seguiam depois para a metrópole para prosseguir os estudos superiores na universidade, ou até para o estrangeiro (como fpoi o caso do Agnelo, que em 1965 era estudante em Paris). Eram os/as "m'ninos/as de São V'cente"...

(Fonte: Luís Batalha, investigador do ISCPS, autor do capº 6º ("A elite portuguesa cabo-verdiana: ascensão e queda de um grupo social intermediário") do livro coordenado por Clara Carvalho e João Pina Cabral, "A persistência da história. Passado e contemporaneidade em África" (Lisboa, ICS, 2004, pp. 191-225).


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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 12 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24390: O segredo de... (38): António Branquinho (1947-2023): Passei-me dos carretos... Perante a recusa dos helis em levaram os nossos dois mortos, puxei a culatra atrás da G3 e gritei: 'Levais os mortos ou… dou-vos um tiro nos c….!' (Acção Galhito, 22/6/1971, regulado do Cuor, sector L1)

(**) Vd. poste de 29 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14945: O segredo de... (19): António Medina (ex-fur mil, CART 527, 1963/65, natural de Cabo Verde, mais tarde empregado do BNU, e hoje cidadão norte-americano): Desenfiado em Bissau por três dias, por causa dos primos Marques da Silva, fundadores do conjunto musical "Ritmos Caboverdeanos"... Teve de se meter num táxi, até Teixeira Pinto, que lhe custou mil pesos, escapando de levar uma porrada por "deserção"!

(***) Vd. poste de 21 de fevereiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12753: (De)caras (15): O meu primo Agnelo Dantas, e meu conterrâneo da ilha de Santo Antão, comandante do PAIGC, com quem me reencontrei no pós-25 de abril, em Bissau, era eu empregado bancário, no BNU - Banco Nacional Ultramarino (António Medina, ex-fur mil op esp, CART 527, Teixeira Pinto, 1963/65, a viver nos EUA, desde 1980)