Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta António Dâmaso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Dâmaso. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28435: As nossas histórias aos quadradinhos (1) : o ataque à LFG Hidra (P376), no rio Cacheu, na noite de 20 para 21 de maio de 1973 (António Dâmaso, 1940-2026)










Prompting e orientaçãoo editorial: Luís Graça
Texto: António Dâmaso (2012) + Manuel Lema Santos (2007)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

 

1. Muitos de nós "aprenderam a ler" ou "alimentaram o seu gosto pela leitura", numa época em que não havia bibliotecas públicas na província, com  "O Cavaleiro Andante", uma das primeiras grandes revistas de "histórias aos quadradinhos" dirigidas aos mais jovens:  começou a  ser publicada em 5 de janeiro de 1952 e terminou  em 25 de agosto de 1962; saíram  556 números (!).

Publicada sob a chancela da Empresa Nacional de Publicade (ENP), tinha como diretor  o conhgecido escritor de literatura infabto-juvenil Adolfo Simões Müller (1909-1989). Custava 1$80 e destacava-se por trazer páginas a cores e capa ilustrada, e várias secções . 

Fui um consumidor voraz de "O Cavaleiro Andante" (e de livrinhos de cobóis): geralmente ia lê-lo a casa dos meus colegas e amigos de escola (como o Álvaro de Carvalho ou o Rui Tovar), cujos pais, mais afortunados do que os meus, já tinham ordenado ao fim do mês...Em meados de 1950, a minha mãe governava a casa com uma nota semanal de 20$00. E tinha  arte de saber fazer a multiplicação dos pães, sob a forma de rissóis, pastéis de massa tenra, bolinhos de bacalhau, etc. Com 1 escudo e 80 centavos comprava-se muita coisa, leite, milho, pão, etc. O "Diário de Lisboa" custava 80 centavos.  O salário diário de um trabalhador português andava, por essa época,  enre os 15$00 e os 25$00.

Foi através desta "revista juvenil", emblemática, que conheci alguns dos heróis (e autores) da BD franco-belga, e me afeiçoei à sau linha gráfica e à sua estética. 

 Foi um pouco a pensar nesse passado lá longínquo, em que consumia essa literatura infanto-juvenil, compulsivamente (digamos até aos meus 10 anos, 1957, quando terminei a 4ª classe e fiz o exame de admissão aos liceus),... que me ocorrei a ideia de abrir aqui uma nova série, "A nossa guerra aos quadradinhos".

A série será para já alimentada, preferencialmente,  com  os retatos dos nossos camaradas da Guiné. Com "prompting" (instruções)  e orientação editorial da minha autoria, iremos recorrer a ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa para a criação de pequenas bandas desenhas (BD), com oito a 12 vinhetas... 

Como o nosso blogue não tem publicidade, nem recursos financeiros próprios nem "patrocinadores",  só podemos ter o concurso, mesmo assim, precioso, da IA dos "pobrezinhos"... O resto é... "lápis e borracha", "corte e costura", com muita dose de paciência, imaginação,  bom humor... e alguns ataques de raiva!..

A primeira "história aos quadradinhos" a sair, por mera conveniência (há outras na forja, ou melhor, na "prancha") é o ataque à LFG Hidra (P376) no rio Cacheu, em 20/21 de maio de 1973, a partir do relato do então 1º srgt pqdt, da CCP 121 / BCP 12, António Dâmaso (1943-2026), um dos bravos de Guidage e de Gadamael.

Peço aos nossos "marinheiros" que sejam indulgentes em relação a certos aspetos, mais grosseiros, do nosso "ilustrador gráfico" que nunca conheceu nenhum LFG nem nunca bebeu "água do Cacheu".


2.  Em mensagem do dia 29 de maio de 2012, o nosso camarada António Dâmaso (Srgt-mor pqdt, CCP 121 / BCP 12, na situação de reforma) enviou-nos o seu relato da emboscada perpetrada à LFG Hidra em 21 de maio de 1973, no rio Cacheu, no Norte da Guiné. Houve um primeiro poste, a dar conta dessa efeméride (*). E  que agora reproduzimos, com BD a ilustrar...


No regresso da Op Ametista Real, 
um ataque à LFG Hidra
à meia-noite do do dia 21 de maio de 1973, 
no rio Cacheu

por António Dâmaso (1940-2026)




No dia 20 de maio de 1973,  domingo, depois da CCP 121 ter participado na Operação ”Ametista Real”, cerca das 19h30 (não posso precisar a hora, sei que era de noite), embarcámos em Ganturé, juntamente com alguns Comandos Africanos no Navio Patrulha Hidra  (a LDF com número de amura P376) com destino a Binta. 

Julgava eu que íamos regressar a Bissau.

Entrei à conversa com um camarada da guarnição, o 1.º srgt artilheiro Joanás. Fomos até uma salinha. E, depois de uma cervejinha bem fresca e de uma conversa, estávamos sentados e eu deixei-me vencer pelo sono. 

 Repentinamente cerca das 24h00, sou acordado com uma série de rebentamentos. O convés do navio tinha sido atingido, havia granadas a arder (pólvora), tive a sensação que o paiol tinha sido atingido. Mais tarde li algures que o que foi atingido foi um reservatório das peças Bofors, de um dos canhões que equipavam o navio. (**)

O Joanás agarrou imediatamente num extintor, eu passei-lhe outro e, com um em cada mão, apagou o incêndio naquele local. Fiquei impressionado com a rapidez e destreza dele, não há dúvida que na Marinha, as guarnições dos navios estão muito bem preparadas para combater incêndios a bordo. Quando vi as granadas incendiadas, fiquei com receio que estas rebentassem, o que teria acontecido se não tivessem sido extintas atempadamente.

A reacção ao ataque por parte da CCP 121 foi rápida e eficaz, dando origem a que os guerrilheiros do PAIGC tivessem desistido de mandar mais granadas para o convés do navio, porque se tivessem continuado, teriam provocado mais vítimas e estragos de maior monta. 

Como era de noite não me apercebi bem dos efeitos do ataque. Quanto à localização julgo ter sido na curva de Jagali (**)

De cada vez que eu tentava subir as escadas para o convés, aparecia-me um ferido que eu encaminhava para a enfermaria, tarefa dificultada por ser feita no escuro. Isto repetiu-se várias vezes, um dos feridos era do meu pelotão, apontador do morteiro, atingido  num calcanhar.

Recordo que, no meio daquela confusão toda, alguém ter dito que faltava um zebro (barco de borracha). 

Chegámos a Binta na madrugada do dia 21, segunda feira. Pela manhã os feridos foram evacuados para o HM 241, em Bissau, e nós lá ficámos. 

Ao meu pelotão coube para alojamento um barracão de madeira junto do cais que ficava do lado esquerdo. Binta tinha sido em tempos um entreposto madeireiro.

Depois de ter desembarcado, dei por falta de um rádio ("banana"), que só podia ter desaparecido no Patrulha, uma vez que eu tinha feito conferência de material antes de embarcarmos e o militar que o tinha à guarda fora ferido no ataque. 

Como recebiam prémios por armamento ou equipamento, apreendido ou encontrado, mais tarde o rádio apareceu como tendo sido dado como achado por um Comando Africano na zona de Bigene...

À noite, estava a dormir, pelo quarto dia consecutivo, sou acordado com um ataque dirigido aos barracões, com lança granadas de foguete (RPG 2 e 7), vindo do outro lado do rio Cacheu. Não houve baixas mas,  além de termos ripostado ao ataque, tivemos de apagar um incêndio num dos barracões que ficava em frente ao nosso.

Nesse barracão estava uma viatura carregada com caixões com destino a Guidage. Os ataques já se tinham tornado uma rotina. Ainda ficámos em Binta mais um dia e uma noite, à espera de uma coluna de viaturas que viria de Farim com destino a Guidage.

Mais tarde quando me encontrei com o Joanás em Cacine, quando este andava a apoiar Gadamael Porto, disse-me que tinha sido louvado  e que a CCP 121 tinha tido uma citação elogiosa pela sua acção.

Um Ab
A. Dâmaso

(Revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)



Guiné > Região do Cacheu > Rio Cacheu >  1973 >  A LFG Hidra (P376). Reconstituição:

Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Google / Gemini AI) (2026)


3. NRP Hidra (P 376).  LFG (Classe Argos / 1963)

(i) Tipo: Lancha de Fiscalização Grande (LFG) | Classe: Classe Argos (1963) (Um das 10 unidades da classe Argos, construídas no Arsenal do Alfeite e nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, entre 1963 e 1965; tinham todas nomes de constelações (Cassiopeia, Orion, Sagitário, etc.); estiveram ao serviço da Marinha entre 1963 e 1975;  estão profundamente ligadas às "guerras da descolonização".

(ii) História: Aumentada ao efectivo em 11 de abril de 1964; abatida ao efetivo  em Luanda a 30 de setembro de 1975: serviu em teatros de operações ultramarinas (como na Guiné, em patrulhas nos rios e missões de apoio/transporte entre 1971 e 1973, do rio Cacheu ao rio Cacine).

(iii) Ficha técnica: deslocamento: 210 t | comprimento: 41,7 m | boca: 6,7 m | calado: 2,1 m | propulsão: 2 motores diesel de 1200 hp, 2 veios | Velocidade 17 nós (c. 3,5  km / hora;  19,6 milhas / hora; 8,74 m /s | armamento: 2 peças 40 mmm | Tripulação: 24. 

Fonte: Wikipedia

____________

Notas de  LG/CV:

(*) Vd. poste de 1 de junho de 2012 > Guiné 63/74 - P9975: Efemérides (101): Ataque ao navio Patrulha Hidra, dia 20 de Maio de 1973 (António Dâmaso)


(**) Ver poste de 16 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1665: Operação Larga Agora, Tancroal, Cacheu, local maldito para a Marinha (Parte I) (Lema Santos)

(...) Em 20 de maio de 1973 a LFG Hidra, frente à clareira de Jagali, a juzante da foz do rio Buborim, foi emboscada da margem Norte com RPG, armas ligeiras e morteiro 60 mm. 

O primeiro RPG deflagrou contra os cunhetes de munições da Boffors de vante, provocando rebentamentos e um grave incêndio, tornando a peça inoperativa. 

Reagiu de imediato e tudo acabou por se compor, não sem alguns estragos.

Foi elogiada a colaboração de elementos da CCP 121 e BCmds (Batalhão de Comandos) que, seguindo a bordo, conjuntamente com o navio, reagiram prontamente com o armamento de que dispunham. 

O resultado foram 3 feridos graves (Comandos) e 6 feridos ligeiros (Comandos, Paras e LFG).(...)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28415: In memoriam (592): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VII: Recordações amargas de Gadamael (4)



Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > Fim da Op Dinossauro Preto (2jun73 - 17jul73 > "No rio à espera dos Zebros/sintex para embarcar na LDG Bombarda, rumo a Bissau. Andei a ver as ostras no tarrafo mas eram muito pequenas".
 


Foto nº 2 > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > "Foi neste Patrulha, a LFG "Orion" e noutro  igual, a LFG “Hidra” que me mataram a fome em Cacine, em  junho/julho de 1973" (António Dâmaso).

Foto: A "Oríon" a navegar no rio Cacheu, em janeiro de 1967.  Cortesia de Manuel Lema Santps (1942-2025)
 
 




Foto nº 3B, 3A. 3

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > "Aspeto do aquartelamento à chegada da CCP 122, a 2jun73. Os bombardeamentis seguintes  iriam destruir muito do que aqui ainda se vè de pé (José Moura Calheiros - "A Última Missão". Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pág. 526)
A foto original, a preto e branco, foi restaurada e colorizada com recurso a uma ferramenta de IA (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT Open AI).



Foto nº 4A, 4

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > Junho de 1973 > "Transporte de urnas para o cais, para serem enviadas para Cacine. Nos primeiros dias do assédio a Gadamael, os paraquedistas  usaram capacetes" (José Moura Calheiros - "A Última Missão". Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pág. 528)

A foto original, a preto e branco, foi restaurada e colorizada com recurso a uma ferramenta de IA (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT Open AI).


1. Em 12 de junho de 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do seu 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus homens no Cufeu, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). 

Juntava-se assim às CCP 122 e CCP 123, chegadas a 2 e 5 de junho, respetivamente.  As CCP 121 e 122 regressarão a Bissau a 7 de julho, e a CCP 123 a 17, dez dias depois. Terminava a Op Dinossauro Preto com uma brilhante vitória do BCP 12 sobre o PAIGC ( que deixou de poder ter postos de observação avançados para regulação da artilharia, e teve abandonar as suas  bases de fogos junto á  fronteira).

Quebrado o assédio e a ofensiva IN, os páras podiam regressar a casa...Ficou ainda o cap pqdt João Costa  Cordeiro  (1952-1974) que se voluntariou, com a sua CCP 123, para continuar a dar instrução aos recém-chegados da 3ª C/BCAÇ 4612,   CCAV 8452 e CART 6252  (informação dada pelo nosso camarada João Seabra).

Citando José Moura Calheiros (op. cit. 2010, pág. 541) a "batalha de Gadamael" saltou-se em:

  • 16 mortos e 41 feridos nas tropas da guarnição; 
  • o BCP sofreu 2 mortos (intérpretes) e 35 feridos,  sendo vários graves; 
  • "ao todo,  18 mortos e 76 feridos" (dos quais "cerca um terço graves, alguns dos quais terão mesmo vindo posteriormente a falecer ou ficado estropiados").

O nosso Dàmaso escreveu , na primeira pessoa, como viveu e sobreviveu à batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo debilitado.

 Este texto, que se segue (o último dedicado a Gadamae), foi inicialmente publicado no  Blogue dos  Especialistas da Base Aérea 12. Guiné 65/74 > segunda-feira, 16 de maio de 2011 > Voo 2333: Gadamael Porto (4).

 
O adeus a Gadamael... e ao BCP 12

por António Dâmaso (1940-2026)


Durante o tempo que estive em Cacine, valeram-me os meus amigos dos Patrulhas Orion e Hidra porque a comidinha a bordo era muito melhor, contribuindo para a minha recuperação. 

Passei tanto tempo nos patrulhas que o meu camarada Jota passou gozar comigo chamando-me "Tóino da maruja".

Sentia-me melhor mas não completamente restabelecido. Quando cheguei a Gadamael,  ainda fui fazer a última saída com a Companhia, tratou-se de um patrulhamento com pernoita no mato. 

Pela manhã quando regressámos, a um quilómetro do quartel, fomos corridos à morteirada até chegar ao aquartelamento. 

É  evidente que fiquei logo em último lugar, o meu camarada Jota sempre a chamar à atenção dos homens para não me deixarem ficar para trás mas eu dizia-lhes para continuarem,  para não perderem o contacto. 

Quando se ouvia vir uma granada a zunir pelo ar, eles atiravam-se ao chão e eu continuava a correr como podia,  tentando não me deixar atrasar. Era uma espécie de ”corrida entre a lebre e o sapo-concho".

Cheguei atrasado mas com ligação à vista. Nas entradas e saídas do aquartelamento eramos quase sempre bombardeados, isto quando não estavam à nossa espera com emboscadas montadas.

No dia que saí de Gadamael tinha no meu chapéu camuflado as insígnias de Mecânico e Cavalaria, do Exército em miniatura, a minha Unidade de Origem era Lanceiros 1. À falta das lanças, as espadas serviam e era como que uma antecipação, pois tinha pensado que,  depois de ter desafiado o Comandante do  BCP 12  com um requerimento a pedir uma junta médica, talvez me brindassem com uma guia de marcha para o Exército. Não estava de todo enganado porque quando cheguei a Bissalanca tive a resposta.

Saímos de Gadamael pelo local por onde tínhamos entrado, havia duas diferenças: (i) a maré mais baixa; e (ii) uma acalmia verificada pela ausência de bombardeamentos, o que nos dava muita satisfação.

Relatório médico a que tive acesso uns anos mais tarde, que transcrevo parcialmente.

“Relatório Médico da Situação das Tropas Estacionadas em Gadamael Porto 

(...) Situação Sanitári  das Tropas Paraquedistas Estacionadas em Gadamael, Elaborada a Pedido do Comando Daquele Aquartelamento

(... / ...) 

Os restantes elementos operacionais referem entre sintomatologia objectiva e subjectiva:

a) Sensações de vertigem, lipotimias, cansaço fácil e sobrecarga psicofísica em número anormalmente elevado na ordem dos mais ou menos 70%.

b) Estilhaços ligeiros que receberam tratamento: 4.

c) Alterações do comportamento: 3; sendo uma tentativa de suicídio e dois delírios agudos que foram evacuados para o Hospital Militar de Bissau.

Face dos dados observados, solicita-se análise da condição física e psicológica do pessoal aquartelado.

Guiné, 10 de Junho de 1973”


Tem a assinatura do médico e por baixo o nome escrito à máquina.

Tenho a certeza que,  se este relatório tivesse sido feito depois do dia 20 de junho, depois do médico ter analisado o pessoal da CCP 121, tendo em conta o que tinham penado em Guidage, e ter assistido os feridos da CCP 122, os números do relatório seriam mais elevados.

Aquela fase da guerra foi terrível. Recentemente, falando com um ex-paraquedista que naquela data estava em Angola, este disse-me que a sua Companhia esteve pronta e equipada de armas e bagagens para rumar à Guiné em reforço, mas depois não o chegou a fazer.

Saudações Aeronáuticas

A. Dâmaso

(Seleção, revisão /vfixação de texto,  negritos, título: LG)
 
 _________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 6  de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28407: In memoriam (591): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VI: Recordações amargas de Gadamael (3)

Vd. postes anteriores:

5 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28403: In memoriam (590): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte V: Recordações amargas de Gadamael (2)

1 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28393: In memoriam (589): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte IV: Recordações amargas de Gadamael (1)

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28408: Para bom observador, meia palavra basta (10): Gadamael, 2 de junho de 1973, CCP 122/ BCP 12: Usar ou não usar o capacete, eis a questão... (António Dâmaso / Carmo Vicente / Bernardino Sena)

 








Foto nº 1A , 1B, 1C, 1

Guiné > Região de Tombali  > Gadamael > CCP 123 / BCP 12 > 2 de junho de 1973 > Op Dinossauro Preto > Desembarque em LDM

Foto original, a preto e branco (Fonte: História do BCP 12 + Página do Facebook "Paraquedistas Não São Arreamchos,. 8 de outubro de 2025) + "A Última Missão, de José Moura Calheiros (Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pp. 512/513 e 531) (Com a devida vénia...) 

 Restauro, melhoria técnica e colorização digital: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI) (2026)




Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Op Dissaurso Negro > CCP 122 / BCP 12 >  2 de junho de 1973  >  Desembaeque

Fotos original, a preto e branco,  de baixa resolução, publicada pelo António Dâmaso,oriunda da Hstória do BCP 12.  Disponível também no livro "A Última Missão, de José Moura Calheiros (Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pág. 525) 


Restauro, melhoria técnica e colorização digital: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google) (2026). 


1.  Sabemos que os páras levaram capacetes de aço para Gadamael, no âmbito da Op Dinossauro Negro (2 de junho - 17 de julho de 1973). E que os usavam, nas valas e abrigos que tiveram de escavar, por sua conta e risco.  Os paraquedistas detestavam o capacete. Pelas imagens que temos, do desembarque de alguns Gr Comb da CCP 122  / BCP 12, muitos preferiram levar o "quico", a "boina" ou o "chapéu de pano" (que era usado desde 1972).

Segundo José Moura Calheiros, na altura 2ª cmdt e oficial de operações do BCP 12, a ordem, aparentemente absurda, foi dada, logo à saída de Bissau, pelo comdt da CCP 122, o então cap pqdt Terras Marques. Foi por todos considerada "disparatada, mesmo desumana". Não era normal usar-se o capacete no CTIG, era "incómodo e pesado!"... Nem pelos páras, comandos e fuzas, nem por ninguém dos "infantes" e demais tropa do "arremacho" ou "tropa-macaca!.

"Ao chegar a Gadamael deu instruções para ninguém, em nenhuma circunstância, o tirar". Gadamael estva a ferro e fogo e sujeito a ataques cerrados e certeiros da artilharia pesada do PAIGC. Ele próprio deu o exemplo. "Ao fim do dia já podia ostentar , a quem o visse, uma enorme amolgadela  no capacete, provocada pelo estilhaço de uma granada que vitimou mortalmenteo homem que estava a seu lado"... Entretanto, ao fim de alguns dias, a malta da CCP 122 substitui o capacete pelo 'quico' ou pelo 'chapéu de pano' (vd. "A Última Missão, op. cit,, 2010, pp. 526/527).

Não é preciso ser um "bom observador" (*), para verificar, pelas fotos acima, que muitos paraquedistas não cumpriram a ordem do seu comandante, na hora do desembarque. (Mesmo sabendo que as cópias originais tinham fraca resolução, e o  restauro digitakl feita por recurso ``a IA pode distorcer pormenores, e nomeadamenmte feições.)

2. Vejamos publicar alguns excertos de relatos dos acontecimentos desse tempo, que corresponde à  conhecida Batalha dos 3 G (Guidage, Guileje e Gadamael) e que se estendeu pelos meses de maio, junho e julho de 1973. Pelo volume de efetivos e quantidade de armamento usados pelos dois lados, NT e PAIGC, bem como pelo número de baixas, terá a sido a maior batalha da guerra colonial / guerra do ultramar no CTIG. Mas, na realidade, foi mais curta: José Moura Calheiros aponta a data de 23 de junho de 1973 como a data da vitória, definitva e inequívoca,  das NT  sobre o PAIGC (op. cit., pág. 540).

Como sempre há detalhes, nas narrativas dos antigos combatentes, que não coincidem de todo. É o caso do uso dos capacetes e também do meio de  transporte usado de Cacine para Gadamael: LDG, LDM, LFG, zebros...

Fica o leitor convidado (ou desafiado...) para comentar (*).


(i) António Dâmaso  (1940 - 2026) (1º srgt pqdt, CCP 121 /BCP12, 1972/74 ; natural de Odemira 
 

(...) No dia 2jun73, chegou a Gadamael Porto a CCP 122, depois a CCP 123 a 4jun73 e a minha Companhia, a CCP 121, ainda não completamente refeita dos acontecimentos de Guidage, embarcou no dia 11jun73 pelas 23h30, no cais de Bissau, na LDG Bombarda, rumo a Cacine aonde chegámos no dia 12 de madrugada. Fomos transferidos para um Navio Patrulha (LFG) que nos levou até perto de Gadamael Porto.

Fizemos transbordo para botes de borracha e sintex em virtude da maré estar baixa e da zona do cais estar a ser atacada. 

Fomos deixados na margem mas dentro de água num braço do rio oposto ao cais, choviam granadas que entravam na água à nossa frente mandando um repuxo de água pelos ares.  Primeiro “rebentavam”,  depois ouvia-se o silvo da trajectória e só mais tarde a saída. 

Chamávamos-lhe "supersónicas" , era um tipo de granadas a que não estávamos habituados, mais tarde vim a saber que se tratava dum canhão 130. Não houve estragos por se enterrarem no lodo, fez-me lembrar cenas do filme “ O dia mais longo”, a uma escala muito reduzida (...) (**)

(...) Nós,  nos intervalos quando não estávamos no mato, procuravámos passar o tempo jogando às cartas, loto ou qualquer outro entretenimento. Ele naquele dia queria loto, eu olhei para a altura do Sol e depois para o relógio, disse-lhe que não porque estava na hora do ”lanche”. Uns chamavam-lhe "lanche",  outros chamavam-lhe “o chá das 5”. 


Fui buscar o capacete e a arma e dirigi-me à vala, o pessoal do Pelotão lá estava. (...) (***)


(ii) Carmo Vicente (1º srgt pqdt, CCP 122/BCP 12,  CTIG, 1972/74, DFA, escritor, natural de Arganil, vive em Almada) (****)


(...) Eram aproximadamente dez horas da manhã quando saímos de Cacine com rumo a Gadamael. Desta vez o transporte foi feito em LDM (lancha de desembarque médio), que por serem mais pequenas eram mais facilmente manobráveis no rio que ia estreitando à medida que penetrava em terra. Conforme nos aproximávamos ia-se também acentuando o nosso nervosismo que, em alguns de nós, era já perfeitamente visível. Levaríamos connosco, o equipamento necessário para dois dias. Tudo o resto ficou nas LDM.

A quatro ou cinco quilómetros de Gadamael Porto, passamos ordenadamente das LDM para os Zebros (botes de borracha com motor fora de borda) dos fuzileiros. A partir dali, era extremamente perigoso continuar nas lanchas. Os Zebros, muito mais pequenos e de fácil manobra, permitiam-nos um desembarque rápido debaixo de fogo.

Pela primeira vez, desde há muitos anos, foi ordenado o uso do capacete, que apenas tinha sido usado nos primeiros meses da guerra em Angola. Fiquei irritado com esta ordem. O capacete é, neste estilo de luta, um apêndice que não se justifica de modo nenhum e que não compensa o esforço que o combatente despende para o aguentar. 

Pensei, com uma certa dose de humor negro, que a ordem para usar capacete mais não servia senão para nos dar um aspecto mais viril e mais guerreiro, frente aos militares que em Gadamael, perfeitamente desorganizados, corriam em todas as direcções e tentavam meter-se à força nos barcos que nos levavam a nós.(...)


(iii) Bernardino Sena (natural de Portimão, esteve 4 anos na Marinha, 1970/74); antigo tripulante da LFG Argos, junho de 1973):

(...) Tenho esta imagem na minha memória desde junho de 1973.

A LDM, na foto, esteve abordada à LFG, NRP Argos, navio onde eu fazia parte da guarnição, na altura fundeada no rio Cacine, frente a Gadamael Porto.

Após eu ter feito o quarto à máquina das 4 às 8, fui descansar um pouco, até antes da hora de almoço, ao vir ao convés por essas horas, deparo-me com essa lancha de desembarque abordada por estibordo e dentro do poço vejo um pelotão de militares, formados na posição de "à vontade", com equipamento de combate e capacete de aço na cabeça.

Ainda meio confundido com o que via, pois até aquele momento nunca tinha presenciado nada semelhante, levei algum tempo a recuperar tentando identificar que "tropa era aquela".

Trocando conversa com camaradas de serviço ao convés, fiquei então a saber que faziam parte do Batalhão de Paraquedistas, os mesmos heróis que já tinham dado o seu melhor, no norte da Guiné, onde, infelizmente, tinham perdido alguns camaradas na zona de Guidage/Binta/Bigene, onde nós também andámos envolvidos a partir do rio Cacheu dando apoio aos destacamentos de fuzileiros que também por lá combatiam.

Que tristes dias aqueles de Maio, Junho e Julho de 1973. (...)


(Seleção, revisão / fixação de texto, links, negritos, título: LG)

Guiné 61/74 - P28407: In memoriam (591): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VI: Recordações amargas de Gadamael (3)







Foto nº 1, 1A, 1B, 1C

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Maio / junho de 1973 > BCP 12 > Aquartelamento > O estado em que ficou uma "morança",  após mais um ataque do PAIGC, cuja base de fogos se situava para lá da fronteira, já na Guiné-Conacri. As estruras edificadas eram, em geral, frágeis, construídad com tigolos de adobe e cobertura de chapa de zinco.
 








Doto bto nº 2, 2A, 2B

Guiné > s/l  (Bissalanca, BA 12 ?) > Gadamael > 1973 > BCP 12 >  Rampa de lançamento de foguetões de 122mm, capturada pela CCP 122 / BCP 12  em 1 de janeiro de 1973 durante a acção “Tumarú” (Foto:  História do BCP12).

 Fotos originais, a preto e branco, publicados pelo António Dâmaso, a nº 1, do seu arquivo pessoal, a 2ª oriundas da Hstória do BCP 12.

Restauro, melhoria técnica e coloerização: LG + IA (ChaGPT / Opem AI) (2026)

1. Em 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do seu 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus  homens no Cufeu, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). 

Ele escreveu , na primeira pessoa, como viveu e sobreviveu à batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo doente.   

Este texto, que se segue, foi inicialmente publicado no Blogue Especialistas da Base Aérea 12,
Guiné 65/74 > segunda-feira, 11 de abril de 2011 > Voo 2244: Gadamael Porto (3).
Subtítulo: Pontualidade.

Nesses 45 dias que durou a batalha de Gadamael, também houve lugar a momentos de descontração e de bom humor...Afinal, a morte coabita sempre com a vida. E a vida, afinal, é um jogo de sorte e azar. Como o loto. (A CCP 121 foi a última a chegar, a12 de junho,  depois da CCP 122, a 2, e a CCP 123, a 5 de junho; regressaram a Bissau, a  7 de julho,  as CCP 121 e CCO 122, e a 17, a CCP 123, do cap  pqdt João Costa Cordeiro (1952-1974).

 É agora republicado o texto, com melhoria das imagens (que o acompanhavam, a preto e branco), em homenagem a este camarada do BCP 12 que há dias se depediu da Terra da Alegria e que em vida nos honrou com a sua presença, ativa e produtiva, na Tabanca Grande.  É também a nossa forma de mostrar o respeito e o apreço  que  nos merecem todos os nossos camaradas que participaram na Batalha dos 3 G (Guidaje, Guileje e Gadamael) (maio-julho de 1973).



1º srgt pqdt António Dâmaso
Recordações amargas de Gadamael (3)

por António Dâmaso 

(1940-2026)


Ao longo da minha vida sempre tenho procurado ser pontual. Estávamos no “inferno” de Gadamael Porto onde diariamente éramos brindados com várias flagelações de armas pesadas diversas. Os ataques eram tantos que já estava habituado aos seus horários. No entanto,  em virtude da sua precisão, todas as granadas caiam dentro do aquartelamento, se não queríamos lá ficar, tínhamos de ter muito cuidado.

O meu amigo e camarada Jota tinha chegado à Província quando eu estava no outro inferno chamado Guidage, tinha feito uma comissão em Moçambique em 1966/68, pelo que não estava familiarizado com o chamado ”Vietname Português”. O  Jota tinha sido Condutor Auto 
tal como eu, era do meu Curso de Primeiros Socorros, de Cabos, de Furriel, lançamento de Pessoal e Material, de Mecânica, de Técnicas de Instrução e foi parar ao meu Pelotão (3º / CCAÇ 121 / BCP 12.

Estava no seu primeiro destacamento, não tinha ainda avaliado a dimensão daquela guerra. Um dia à tarde eram perto das 17 horas, ele entre a morança de adobo com telhado de zinco que nos abrigava da chuva e a vala, tinha o pano de tenda estendido e chamou-me:

 
− Tóino, anda para aqui jogar ao loto.

Nós,  nos intervalos quando não estávamos no mato, procuravámos passar o tempo jogando às cartas, loto ou qualquer outro entretenimento. Ele naquele dia queria loto, eu olhei para a altura do Sol e depois para o relógio, disse-lhe que não porque estava na hora do ”lanche”. Uns chamavam-lhe "lanche",  outros chamavam-lhe “o chá das 5”. 

Fui buscar o capacete e a arma e dirigi-me à vala, o pessoal do Pelotão lá estava.

Ele ainda insistiu mas eu disse-lhe que não porque elas (as granadas) tinham olhos. O bom do Jota, contrariado,  acabou por seguir o meu exemplo mas não tão depressa como devia. Foi buscar o capacete e, quando se dirigia para a vala,  foi projectado para a mesma, ajudado pelo sopro provocado pelo rebentamento de uma granada de foguetão 122mm que caiu pouco mais de um metro à frente do pano de tenda,

.
Quando acabou o ataque o Jota foi ver os estragos, não me recordo se o pano de tenda estava estendido no enfiamento da morança, se esta sofreu danos, mas duma coisa tenho a certeza, do pano de tenda e do equipamento pouco restou. 

O Jota,  a chorar de raiva,  começou aos pontapés ao que restava do seu equipamento, dizendo:

− Olha o que eles me fizeram ao equipamento!

Eu, a gozar com ele,  disse-lhe:

−  Com que então querias loto?!

Afinal às vezes respeitar a pontualidade pode salvar vidas. Se tivesse ido na conversa dele tínhamos lá ficado os dois. Mais uma vez não tinha de ser. A partir dali o camarada Jota passou a respeitar o horário imposto pelos guerrilheiros do PAIGC e teve de se mentalizar que aquela guerra era a sério.

Quando encontro o Jota pergunto-lhe se vai um joguinho de loto... Ele responde:

− Tás parvo, ou quê ?!

Saudações Aeronáuticas
A. Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_____________________



segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28405: FAP (127): O elogio dos sargentos do quadro do BCP 12 (Manuel Peredo, ex-fur mil pqdt, CCP 122/BCP 12, CTIG, 1972/74)

 


Foto nº 1, 1A, 1B 


Guiné > CCP 122 / BCP 12 >  s/l  > s /d > Da esquerda, para a direita, o fur mil pqdt  Fernandes, cabo-verdiano; ao centro, o 1º srgt pqdt Carmo Vicente ; à direita, o Manuel Peredo, fur mil---Os três sargentos do 4º Pelotão do CCP 122 estão equipados com armamento do PIAGC...O Manuel Peredo ostenta o RPG-2, o temível LGFog usado pelos guerrilheiros do PAIGC, a par do RPG-7. 

O que será feito dos restantes camaradas ? O Fernandes, o Carmo Vicente ?... Com este último ainda falei há muitos anos atrás, ao telefone, mas nunca conseguimos juntarmo-nos, para "partir mantenhas" e almoçar, na ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, que ele frequentava. Era meu vizinho, no Lumiar, quando eu trabalhava na Escola Nacional de Saúde Pública / Universidade NOVA de Lisboa. (LG).


Foto (e legenda): ©  Manuel Peredo (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google AI)]


1.  A integração do Regimento de Caçadores Paraquedistas no exército foi um duro golpe na sua autoimagem...Estamos a falar de 1994...1 de janeiro de 1994. Claro que estes continuam a ser uma "tropa de elite", como sempre foram...E quem serviu nos "páras" continua a ter muito orgulho nessa pertença. (*)


Os "BoinasVredes" sempre pertenceram à FAP (Força Aérea Portuguesa) desde a sua criação, em 23 de maio de 1956, e foi sob este ramo das Forças Armadas que  combateram galhardamente na guerra colonial.

A  transição definitiva e irreversível foi anunciada no início dos anos 90 e concretizada no primeiro dia do ano de 1994, mantendo-se no Exército até aos dias de hoje. Atualmente, a principal unidade herdeira deste legado é o Regimento de Paraquedistas integrado na Brigada de Reação Rápida,

O Manuel Peredo, ex-fur mil pqdt (CCP 122 / BCP 12, Brá, Bissalanca, 1972/74), vive em França e deixou aqui, em tempos, um justo elogio aos sargentos do quadro do BCP 12 (*), da época da guerra colonial / guerra do ultramar (**).. Homens já esquecidos como o António Dâmaso, o Carmo Vicente, o Manuel Rebocho, e muitos outros.

(...) Se eu tivesse um décimo do talento literário de alguns bloguistas, teria uma participação mais activa. Desde que descobri o blogue, não consigo deixar passar um dia sem o consultar,o que não é muito do agrado da minha mulher e devem imaginar porquê.

Tudo o que aqui se diz sobre Gadamael me toca profundamente porque também eu vivi esses dias terríveis, mas aqueles que vieram de Guileje para Gadamael deviam ter ficado afetados psicologicamente para toda a vida.

O que o João Seabra, José Casimiro Carvalho, Manuel Reis e outros dizem sobre os paraquedistas do BCP 12 deixa-me imensamente orgulhoso de ter pertencido a essa tropa especial. O João Seabra diz que não compreende porque é que nenhum pára foi condecorado pelos serviços prestados em Gadamael. Se calhar ninguém se destacou em especial. Se o José Casimiro Carvalho não teve direito a nada, eu e outros também não merecíamos ser louvados ou condecorados.

O João Seabra faz bem em enaltecer o trabalho dos sargentos paraquedistas que pertenciam ao quadro. Todos eles já tinham uma, duas ou mais comissões no ultramar. Mesmo os oficiais e furrieis milicianos aprendiam muito com eles.

Faço aqui um reparo. Eles não eram promovidos por mérito, salvo talvez em raras exceções. Todos eles começaram como simples soldados e os melhores eram convidados a seguir a carreira militar. Os que aceitavam, tiravam o curso de sargentos, findo o qual passavam a cabos aprovados e depois iam subindo de posto em função dos anos de serviço,o mesmo acontecendo com os milicianos (que ingressavam no quadro).

O 
 Carmo Vicente  foi meu colega no quarto pelotão da CCP 122 / BCP 12 e acho que chegou a ser comandante do mesmo pelotão durante algum tempo. Quando havia falta de alferes milicianos (ou tenentes do quadro), os pelotões eram comandados pelos sargentos mais antigos, mas apenas por um tempo limitado. Raramente um sargento era operacional 24 meses.

Acalento a esperança de ainda um dia poder participar num encontro nacional para poder trocar opiniões, em especial com o João Seabra, José Casimiro Carvalho, Manuel Rebocho, Victor Tavares e outros. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
__________________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 2 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24361: FAP (126): A que altura (quantos pés) voava a DO-27 quando fazia de PCV (Posto de Comando Volante)? (Fernando de Sousa Ribeiro)

(**) Vd. poste de  26 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4251: FAP (26): Em louvor dos sargentos pára-quedistas do BCP 12 (Manuel Peredo, ex-Fur Mil CCP 122, 1972/74)


Guiné 61/74 - P28403: In memoriam (590): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte V: Recordações amargas de Gadamael (2)




Foto nº 1A, 1B, 1




Foto nº 1, 1A




Foto nº 3A, 3B, 3


Legendas: 

Foto nº 1 > Gadamael Porto no tempo dos BCP 12, junho/julho de 1973,
Foto nº 2 > Vista parcial, desoladora,  do quartel de Gadamael Porto: em primeiro plano o Obus 14; o fundo, o reordenamento.
Foto nº 3 > Gadamael Material capturado pela CCP 121 / NCP 12  na acção “Cobra Ondulante” em 23 de junho de 1973
 
Guiné > Região de Tombali > Gadamael > junho / julho de 1973 > BCP 12 >
Fotos originais, a preto e branco, publicados pelo António Dâmaso, oriundas da Hstória do BCP 12 (que julgamos não ser de livre acesso na Net)

Restauro, melhoria técnica e colorização: LG + IA (Gemini / Google) (2026)



1. Em 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus homens no Cufeu, de má memória, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). A CCP 121 chegou a Gadamael, pelo rio, em em LFG e depois em LDM, a 12 de junho de 1973. Foi juntar-se às restantes subuniddaes do BCP 12: CCP 122 e CCP 123.

Ele escreveu, na primeira pessoa do singular, como viveu e sobreviveu à dura batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo doente. (À mesma CCP 121/BCP, 2º Gr Comb, pertenceu o nosso amigo e camarada Victor Tavares. ex-1º cabo pqdt,  do 2º Gr Comb, apontador de MG42, natural de Águeda.)  

Este segundo texto, sobre as recordações amargas de Gadamael, foi inicialmente publicado no Bogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > sábado, 12 de março de 2011 Voo 2197: Gadamael Porto (2)

É agora republicado, com melhoria das imagens (que o acompanhavam, a preto e branco), em homenagem a este camarada do BCP 12 que em vida nos honrou com a sua presença, ativa e produtiva, na Tabanca Grande, bem como em homenagem a todos os nossos camaradas que participaram na Batalha dos 3 G (Guidaje, Guileje e Gadamael) (maio-julho de 1973). Foram, sem dúvida,  os melhores soldados de Portugal durante toda a guerra colonial / guerra do Ultramar. Infelizmente, eram poucos, um batalhão em cada TO. No presente caso, foram eles que aguentaram e salvaram Gadamael, em maio, junho de julho de 1973.

Dâmaso, herói de Guidaje (pela sua atuação sob intenso fogo IN, na emboscada à CCP 121, no Cufeu, em 23 de maio de 1973) rompeu, em vida, 40 anos depois, uma cultura de silêncio, pudor ou  reserva que parecia impedir que certos comportamentos internos dos paraquedistas chegassem ao conhecimento público. E fê-lo sem transformar o seu testemunho numa denúncia genérica dos paraquedistas: fala de situações concretas, de pessoas e sobretudo de uma experiência pessoal  numa situação-limite.

Este excerto é particularmente importante porque não é uma acusação feita hoje por terceiros: é o testemunho, na primeira pessoa, de António Dâmaso, publicado em 2011, sobre acontecimentos que viveu em Gadamael em 1973 (entre 12 de junho e 17 de julho). Não é um testemunho contra os paraquedistas, é, precisamente, o testemunho de um paraquedista.

 Não queremos fazer uma acusão gratuita aos nossos camaradas paraquedistas do BCP 12, e muito menis um "provocação",  falando ostensivamente em  “pacto de silêncio”: nunca ouvimos, vimos  ou lemos um  paraquedista utilizar essa expressão. O que o testemunho do Dâmaso permite constatar é que  ele  quebrou o silêncio sobre aspetos negativos (ou menos positivos) da vida operacional e disciplinar do BCP 12 (problemas disciplinares, conflitos, fragilidades do comando, recusas em ir para o mato, doença, stress físico e psicológico, tratamento das praças, situações de privilégio ou outrasque pudes sem atingir a imagem de coesão e de eficácia do Corpo de Tropas Paraquedistas).

Teremos ocasião de voltar a este tema sempre delicado, mas que náo pdoe ser tabu: afinak, a guerra j+a acabou há mais de meio-século e quem a fez está a desaparecer lenta mas inexoravelmente.


1º srgt pqdt António Dâmaso, CCP 121 / BCP 12, CTIG, 1973

Recordações amargas de Gadamael (2)

por António Dâmaso (1940-2026)


Depois de municiados foi dada ordem à minha Companhia, CCP 121, de preparar para sair. O meu pelotão estava completo de graduados pelo que eu não fazia falta. Sabia que mais um homem,  ainda que debilitado, poderia ser uma mais-valia, mas tinha consciência que a minha capacidade estava muito diminuída e que em vez de mais-valia podia tornar-me num empecilho. 

Devido ao meu estado de saúde, pedi ao Comandante de pelotão para me dispensar, para ir ao médico. Disse que não era com ele,  que era com o comandante de Companhia. Este apontou para o segundo Comandante do batalhão, este por sua vez mandou-me para o primeiro Comandante. 

Aquilo caiu-me mal, até ali tinha dado tudo o que tinha, passei-me e,  numa folha de bloco de carta, fiz um requerimento a pedir para ser submetido a uma junta médica, uma vez que me queriam obrigar a ir para o mato sem estar em condições de saúde para o fazer. Não queria que os homens,  que sabe Deus como se arrastavam, tivessem de andar comigo às costas. 

Enquanto andava nestas andanças,a Companhia saiu sem mim.

Não saí e assumi a responsabilidade. Mais tarde fui chamado ao segundo Comandante para me devolver o requerimento que eu tinha entregado a pedir a junta médica. 

Fiquei à espera e só me deixaram ir ao médico no dia em que a Companhia foi descansar em Cacine. Nessa altura já o meu estado de saúde se tinha agravado mais.  Enquanto estive à espera,  fui-me aguentando como pude. Levavam-me comida que já era difícil de tragar para quem tinha saúde e apetite. 

Como não dispunha dos dois,  fui bebendo umas cervejas bem “quentinhas”,  duma caixa que tinha comprado quando lá cheguei. Cerveja mesmo quente já era um luxo, mas o instinto de sobrevivência lá me ia dando forças para me deslocar para a vala,  sempre que haviam flagelações. 

Neste espaço de tempo em que estive sem assistência, tive conhecimento de dois alferes e de um ou dois furriéis que se negaram a ir para o mato, mas não por motivos de saúde.

Algumas praças de outra Companhia,  por estarem muito debilitadas, ao não acompanharem os seus pelotões na saída para o mato, foram selvaticamente agredidas pelo Comandante de Companhia, que gostava de sovar praças indefesas e “turras” com as mãos atadas atrás das costas.
 
No Quadro do Batalhão havia um médico, mas este ficou no Posto de Socorros de Bissalanca. 
Havia um médico do Exército em Cacine, um alferes miliciano.  Só fui presente ao médico em Cacine no dia 19 de junho de 1973, puseram-me a soro e lá fiquei enquanto o soro corria. Estive a ouvir as queixas dos militares da minha Companhia, pareciam tiradas a papel químico: “Cansaço, falta de apetite, insónias, dores de cabeça, os nervos arrasados, etc.” 

De repente chegou uma catrefada de feridos da CCP 122, uns mais outros menos grave. tinham caído numa emboscada, os ferimentos era quase todos por estilhaços de granadas RPG 2. Lembro-me que um deles era sargento e ficou incapacitado. Com a chegada dos feridos as consultas foram interrompidas até fazer as evacuações para Bissau e tratar dos mais ligeiros, Depois fui medicado e fiquei em convalescença até 27 de junho de 1973.

Entretanto a Companhia acabou o curto período de descanso e regressou novamente a Gadamael Porto, eu ainda estava de convalescença, mesmo assim gostavam tanto de mim que queriam que fosse com eles. Só não fui porque o Comandante da Companhia não me encontrou, mas fui quando esta acabou.

Saudações Aeronáuticas

A. Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
 _________________

Nota do editor LG

Último poste da série > 1 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28393: In memoriam (589): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte IV: Recordações amargas de Gadamael (1)