Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Alberto Branquinho e gen António de Spínola (1969), Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
1. O escritor Alberto Branquinho, alto-duriense de Vila Nova de Foz Coa (uma terra antiga como o caraças), e que faz questão de não esconder que andou na guerra colonial da Guiné, na porrada, é um dos nossos contribuintes (líquidos) desta série, "Humor de Caserna".
Não vive da escrita, é advogado, mas já publicou uma "porrada" de livros, e p0demos dizer que vários se encaixam no polémica categoria da "literatura da (e não sobre a) guerra colonial"...
Acaba de publicar mais um, que ele diz que é o último mas a gente não acredita. Ficou de mandar um exemplar autografado para a Tabanca Grande. Ainda nem sabemos como é o título.
Até lá (até que o livro chegue à Lourinhã, minha terra natal, também velha como o caraças), fui revisitar um dos seus contos da série "Contraponto". Recorde-se quem ele é (ou foi, noutra encarnação):
(ii) nota curiosa: desembracou em Bissau em 1 de maio de \1967, no tempo do governador e comandante-chefe, Arnaldo Schulz; regressou à metrópolke em 2 de março de 1969, já no tempo do gen António Spínokla;
(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante, fixou-se em Lisboa, onde exerce adv0cacia (advogados e médicos trabalham até morrer);
(iv) dizem os críticos literários que é um dos grandes contistas da guerra da Guiné (ou da Guinezinha, como dizia a senhora dona Supico Pinto,m com ternura);
(v) é autor, entre outros, dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz";
(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue, ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós";
(vii) tem 163 referências no nosso blogue.
2. A história que se segue tinha originalmente um título modesto (mas honesto), "O Spínola que eu...entrevi". Ele começa por justificar por que é que, muito sinceramente, nunca poderia enganar o leitor se disssesse "O Spínola que eu conheci". Não é homem para enganar os outros, mesmo sendo causídico, vendendo gato por lebre.
A cena passa-se, nos arredores de Bissau, em Brá, no famoso Depósito dos A(r)didos), num sábado, dia 1 de março de 1969, aquando da despedida de mais um contingente de tropas que cumpriam a sua comissão de serviço e regressavam, no dia seguinte, a casa: BART 1913, CCAV 1693, etc.
Repare-se que, "naqueles bons velhos tempos" (há quem saudades!...), ainda se trabalhava ao sábado e sol a sol... (Não é como agora, em que toda a gente, a começar pela tropa, quer a semana de 4 dias e, de preferência, em teletrabalho).
Humor de caserna > O anedotário da Spinolândia: Oh!, homem, cale-se!
por Alberto Branquinho
Não me pareceu que este texto pudesse ser colocado na série “O Spínola que eu conheci”, porque não o conheci. O que posso dizer é que, por duas vezes, pude entrevê-lo.
A primeira foi durante o período de permanência da minha companhia em Bissau (onde nunca estivera), aguardando o embarque de regresso a Lisboa. Encaminhava-me para a messe em Santa Luzia [no QG/CTIG], quando o vi, ao longe, em frente à messe, entre meia dúzia de oficiais.
A segunda vez foi durante a formatura de despedida das tropas que, no dia seguinte, embarcavam para Lisboa. Que me lembre, na formatura, estava o meu batalhão [BART 1913], outro batalhão [ ou, pelo menos, a CAV 1693] e, lá mais à frente, sob a minha direita, tropas da marinha, impecáveis, nas suas fardas brancas.
Eu estava à frente do meu pelotão e tinha a tapar-me a visibilidade sobre um palanquim de madeira (onde estava um microfone), o meu comandante de companhia e, em frente a ele, o coronel que comandava a tropa em formatura. Chegou o Com-Chefe, acompanhado de um oficial que se colocou mais atrás, sob a sua esquerda. Toque de “Sentido”. A seguir, o coronel fez o cumprimento militar. O Com-Chefe respondeu, elevando a mão direita, enluvada, mais ou menos à altura do rosto. Toque de “À-vontade”.
Colocaram um microfone em frente ao coronel. Compasso de espera para o acertar à altura adequada. O coronel colocou os óculos e retirou umas folhas de papel do bolso direito das calças. (Aproveitei para espreitar discretamente, ora sobre a direita ora sobre a esquerda.) O coronel começou a ler.
Eu não prestava atenção ao que ele dizia, tentando entrever o general, que dava sinais de impaciência. Apurei o ouvido. O coronel falava da arma de Artilharia, da excelência do artilheiro, da história da Artilharia.
O general, que estava cada vez mais impaciente, chegou-se ao microfone do palanquim e ouviu-se, por entre as palavras do coronel, em som nasalado e grave:
O general, que estava cada vez mais impaciente, chegou-se ao microfone do palanquim e ouviu-se, por entre as palavras do coronel, em som nasalado e grave:
— Já chega!
O coronel pareceu não ouvir e continuou a passar folhas e a ler. E o general:
— Shh! Shh!
De cabeça baixa, continuei a procurar entrever o palanquim e o general, olhando por cima do sobrolho e pensando:
De cabeça baixa, continuei a procurar entrever o palanquim e o general, olhando por cima do sobrolho e pensando:
— Vai haver esturro!
O general, de novo:
O general, de novo:
— Já chega! Shh!
O coronel continuou. Acabou. Dobrou e guardou as folhas.
Ouviu-se o toque de “Sentido” e, logo a seguir, o coronel fez continência. O general respondeu, com um gesto, fazendo oscilar o pingalim sobre o seu lado direito. Então recuou um pouco, ficando, assim, visível, olhou o oficial que o acompanhava [talvez oi ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"] e que estava à sua esquerda e, com o pingalim apontando o microfone, disse em voz bem audível, mais ou menos isto:
— Diz lá umas palavras aos rapazes sobre o significado deste ato, que voltam para as famílias, para as mulheres, para os filhos… que era o que o senhor coronel devia ter feito.
(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, título, negritos: LG)
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Nota do editor LG:
Último poste ds série > 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...

6 comentários:
Luís Graça escreveu:
Repare-se que, naqueles bons velhos tempos, ainda se trabalhava ao sábado...
Oh, Luís! Agora fizeste-me rir! Fizeste-me lembrar uma das "guerras do Solnado", em que Raul Solnado telefona para o inimigo e, a dada altura, pergunta ao inimigo:
-- E quando é que vocês tencionam atacar?
-- ...
-- Ai no sábado não, porque temos semana inglesa!
-- ...
-- Sexta-feira a que horas?
-- ...
-- Eeehhh, mas a essa hora ainda está tudo a dormir, homem! Vocês não podiam atacar depois de almoço?
-- ...
-- Pois, ou então vinham pela fresquinha.
-- ...
-- Sim, aproveitam e almoçam cá com a gente.
Agora a sério. Os militares do Comando de Agrupamento de Santa Eulália, no norte de Angola, trabalhavam 364 dias por ano (365 nos anos bissextos), sendo o dia de Natal o único dia do ano em que tinham folga. Assim como a guerra nunca parava para os operacionais, então o trabalho também não podia parar para aqueles que lhes prestavam apoio na retaguarda, mesmo que só fizessem a "guerra dos papéis".
Em Dezembro de 1971, aquando da chegada do BCAÇ3872 e das CCAÇ Independentes CCA3518, CCAÇ3519 e CCAÇ3520 à Guiné , no Cumeré e na apresentação dos militares perante o General Spínola, nosso comandante-chefe. Lembro-me que no discurso do General ele terminou com :"Que a boa estrela vos guie!". Referem outros que no discurso de despedida, de regresso à metrópole, ele referia sempre: ...Chegastes meninos! Partis homens! Ide dizer à nação....!
Fernando, é melhor pôr os "bons velhos tempos" com aspas, não vá algum leitor desprevenido levar a minha afirmação a sério, e chamar.me uma série de nomes feios...Eu ainda sou desse tempo... Trabalhava-se de sol a sol, e toda a semana..E morria-se cedo, que a vida não chegava a netos nem a filhos com barba...
Luís Dias, é verdade tanto o gen Spínola como nós ainda éramos da velha escola, segundo a tropa só fazia bem: entravamos meninos e saíamos homens... Eu acrescentaria: entrávamos meninos alegres, e saíamos homens, macambúzios...
Henk Eggens, 25 de maio de 2026, 12:03 (by email)
Olá, Luís,
Admiro a tua capacidade de criar imagens com o ChatGPT que contam histórias com clareza, como aquela em que Spínola cala um coronel por este não ter mencionado a importância do assunto: o regresso à pátria e os entes queridos. Boa história!
Um AB
Henk
Henk, obrigado pelo simpático comentário. O mérito é sobretudo do Alberto Branquinho, que conseguiu, com o seu talento, passar ao papel esta "cena" com o Spinola, que se repetiu não poucas vezes, no seu mandato, de humilhação pública de oficiais superiores que ele considerava inaptos para "jogar na sua equipa."
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