sábado, 21 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14395: (In)citações (74): Fotos que por acaso não são da minha motorizada nem de uma outra portuguesa (Henrique Cerqueira)



1. Mensagem do nosso camarada Henrique Cerqueira (ex-Fur Mil da 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4610/72, Biambe e Bissorã, 1972/74), com data de 17 de Março de 2015:

Caro camarada Luís Graça
Desta vês lanças o desafio das motos que tínhamos na Guiné e de preferência as Portuguesas.

Ora muito bem, aí vão umas fotos que por acaso não são da minha moto nem de uma Portuguesa.
O  meu Miguel era um exímio condutor. As fotos ilustram o seu percurso. Ou seja, ele começou aos dois anos (aconselhável a todos os próximos condutores) a aprender a conduzir.

Começou por aprender em carrinho de rolamentos, depois passou para veículos militares, mais propriamente os “Mercedes militares” e então, como era a sua maior aspiração, passou às motos de Muito Alta Cilindrada, tão alta que a sua moto, como está representada, dava para tirar o motor enquanto estava parada, não fosse outro qualquer motar qualquer se servir dela.




Desculpem lá mas sinto muito orgulho de ter um filho que aos dois anos já era um excelente praticante das grandes velocidades.

Agora a falar a sério. Eu achei por bem enviar este escrito só para brincar um pouco.
Em Bissorã havia um menino mimado, que creio que era sobrinho do Amílcar Cabral, que tinha uma moto, mas esse preferia as Japonesas (Honda) penso até que era moda lá dos meninos bem da Guiné da altura. Nada de ressentimentos, mas às veses custava um pouco ter de fazer colunas de proteção para esses meninos se deslocarem a Mansoa ou Bissau.

Já a moto do Miguel, que penso que era uma BSA ou Triunf, era altamente ecológica porque gastava zero aos cem (sem motor).
Convém não esquecer que o Miguel nas suas lides motorizadas era sempre supervisionado pelo fiel amigo Inhatna Biofa. Nunca correu perigo de transgressão.

Malta um abraço e desculpem lá qualquer coisinha.
Henrique Cerqueira
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Nota do editor

Último poste da série de 10 de janeiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14136: (In)citações (73): Vive la Liberté! Vive la France" (Francisco Baptista, ex-alf mil, inf, CCAÇ 2616, Buba, 1970/71, e CART 2732, Mansabá, 1971/72)]

Guiné 63/74 - P14394: Memórias da CCAÇ 1546 (Domingos Gonçalves) (10) - Reportagens da Época (1967): Operação Cernelha

1. Mensagem do nosso camarada Domingos Gonçalves, (ex-Alf Mil da CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68) com data de 17 de Março de 2015:

Braga, 15/03/2015Prezado Luís Graça:
Envio mais alguns dados, de vivências da Guiné, após sobre os mesmos terem passado 47 anos.

Com um abraço amigo,
Domingos Gonçalves



MEMÓRIAS DA CCAÇ 1546 (1967)   
REPORTAGENS DA ÉPOCA

10 - Operação Cernelha

Binta, 17/03/1967

São 15 horas. O Sol queima. A estrada até Guidage vai desfazer-se em pó.
Sinto medo.
A operação é arriscada.
Mesmo assim vou.
Todos vamos.

Em mim o temor e a esperança quase se confundem. Mas vou. Melhor, vamos.

Pouco depois das quatro horas da tarde a coluna partiu rumo a Guidage. O destino final chama-se Sambuiá.
Às dezoito horas chegou-se ao destacamento de Guidage.

Às 24, iniciou-se a marcha para o objectivo, seguindo pela estrada que vai por Facã, rumo à base turra de Sambuiá.
É a operação “Cernelha” que está em marcha.

Isto, de facto, não passa de uma tourada. De uma tourada que se repete muitas vezes, mas onde não se percebe muito bem quem são os touros, e quem são os toureiros. É que, às vezes, fica-me a sensação de que desempenhamos aqui um duplo papel: conforme as circunstâncias, tanto toureamos, como até somos toureados.


Dia 18

Pelas três da madrugada, entre Facã e a estrada de Bigene, fizemos uma pequena paragem para descansar.
A essa hora a artilharia de Bigene começou de novo a bombardear a zona onde ao amanhecer deveríamos actuar.
Mete impressão, durante o silêncio da madrugada, só quebrado pela voz da fauna selvagem, o ruído causado pelo detonar das granadas, que deixa, por breves momentos, um silêncio soturno e breve instalar-se em todo este mundo naturalmente belo, e bom.
Até os habitantes da selva sofrem com a guerra, que não respeita os seus habitats naturais, e o sossego de que deveriam beneficiar.
Após o rebentamento de cada granada, que as peças de artilharia disparam, cai sobre a selva um silêncio soturno, enorme, como que de protesto contra esta agressão, de que a própria natureza é vítima.

Pelas três e meia prosseguimos a marcha.
Pelas quatro, atravessámos a estrada de Bigene.
Pelas cinco horas passou-se a ocidente da antiga tabanca de Sambuiá.
Às seis horas atacou-se o objectivo.

Posições relativas de Binta / Guidage / Sambuiá

O fogo foi intenso, e prolongado. Durante cerca de meia hora as nossas armas, e as deles, dispararam um pouco ao acaso, orientadas mais pelo ruído dos tiros do adversário, do que pela localização de um objectivo concreto. Foi uma tempestade de tiros de armas ligeiras, de granadas de morteiro, de bazookadas e roketadas.

E não se conseguiu entrar na base do inimigo.
Os gajos têm, ao que parece, abrigos subterrâneos, o que lhes permite uma boa defesa. Para além disso, ninguém conhece muito bem a localização da base.
Por certo que o local onde nos barraram a passagem com fogo bem conduzido e certeiro, está ainda a uma considerável distância do local onde pretendíamos chegar.
Só uma coluna de blindados teria condições para avançar no terreno, e conseguir alguns resultados, sem ficar sujeita a sofrer muitas baixas humanas. Porém, aqui, os únicos blindados que temos são feitos de carne e osso. Um material tão precioso quanto vulnerável.

As nossas forças sofreram dois mortos, pertencentes à milícia de Binta, e vários feridos, um dos quais com bastante gravidade. Os feridos pertenciam aos “roncos” de Farim.

Durante a retirada, quando fazíamos com paus, e folhas de palmeira, macas para melhor transportar os feridos e os mortos, detectámos uma emboscada dos gajos.
Conseguimos abrir fogo primeiro do que eles, e não tivemos qualquer azar.

Pouco depois das nove horas fomos sobrevoados por uma avioneta.
Era o comandante que, como de costume nestas ocasiões, vinha dirigir lá de cima os acontecimentos.
Pelas dez horas apareceram os bombardeiros, a escoltar os helicópteros que vinham evacuar os feridos e os mortos.
Chegaram depois de estarmos à volta de quatro horas à espera deles. Se por acaso tivéssemos necessitado de apoio aéreo para sair do local onde se iniciou o ataque, bem tramados estávamos. O apoio aéreo é eficaz e moralizador para as tropas terrestres. Porém, raras vezes aparece a tempo e horas, nos locais onde faz falta.

O regresso a Binta fez-se pela estrada que segue de Bigene para Farim. Atravessou-se, a pé, o rio Sambuiá, dado que a ponte que era de madeira foi queimada, já lá vai muito tempo.
Junto à ponte de Boborim estavam as viaturas à nossa espera.

Esta operação, em que participaram as companhias 1546, 1547, 1585 e os “Roncos” de Farim, apenas deu porrada para a nossa Companhia, e para os “Roncos” que seguiam integrados na nossa unidade.

Logo que cheguei a Binta, apesar de fatigado, ainda fui sobrevoar Sambuiá, de avioneta, em missão de reconhecimento.
Mais uma vez fui e regressei.

Enquanto isto acontecer, todos os sacrifícios, e todos os riscos, serão sempre pequenos.
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14361: Memórias da CCAÇ 1546 (1967) - Reportagens da Época (Domingos Gonçalves) (9): Golpe de mão à casa de mato de Mampatás

Guiné 63/74 - P14393: Blogpoesia (406): "Tranquilidade das águas" e "O rio da história", dois poemas para o Dia Mundial da Poesia (J.L. Mendes Gomes)

1. Em mensagem de 19 de Março de 2015, o nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66), enviou-nos dois poemas da sua autoria para publicação no Dia Mundial da Poesia que se comemora hoje.


Tranquilidade das águas…

Gosto de sair à rua
E sentir minha alma calma.
Sem uma névoa ou sombra negra.
Tudo certinho.
De nada dever.
Nem pró corpo,
Nem para o ser.
Sentir a paz
De quem não fez mal.
A ninguém ou a mim.
E o conforto
De quem ajudou.
Naquela hora exacta
Em que foi preciso.
Sei que não sou anjo.
E sou de barro.
Mas se sanar meus erros,
Reparando a dor,
E pedir desculpa,
Posso caminhar de pé
E cabeça erguida.
Viver tranquilo
Amando a vida.

Berlin, 17 de Novembro de 2014
22h30m

Joaquim Luís Mendes Gomes

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O rio da história…

A história é um rio.
Longo.
Ninguém conhece onde ela nasce,
Muito menos onde é a foz.
Tem cascatas. Cachoeiras.
Afluentes e confluentes.
Muitos meandros.
Ora largos.
Quase mares.
Ora estreitos.
Quase laços.
Não tem margens.
Nem tem leito.
Ela banha todo o mundo.
Povoados.
Espaços ermos.
Florestas.
Por desertos.
Sempre a descer.
Não volta atrás.
Inundações.
Convulsões.
Muitas vagas.
Muita tormenta.
Tem lezírias.
Planuras.
A perder de vista.
Muitas barragens.
Dinastias.
Histórias de sangue.
Muitas guerras.
Muitas derrotas.
Muita luz.
Muitas vitórias.
E qual o fim?
Só no fim,
Se irá saber…

O termómetro continua a descer…
Berlim, 18 de Novembro de 2014
7h49m
Joaquim Luís Mendes Gomes
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14392: Blogpoesia (405): Paranóia ou lamentos de veterano - Ah! se eu tivesse uma G3! (Juvenal Amado)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14392: Blogpoesia (405): Paranóia ou lamentos de veterano - Ah! se eu tivesse uma G3! (Juvenal Amado)

1. Mensagem do nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), com data de 14 de Março de 2015:

Carlos e Luís
Vivo num país que não me faz chorar, faz-me enraivecer.

Na verdade esta frase do Pacifico dos Reis(*) na mensagem do José Marcelino Martins encerra um grito surdo. 26% dos portugueses não mexeriam uma palha para defender o nosso país.
Situação que espelha o desgosto, a falta de perspectivas em nos vemos mergulhados e o mau trabalho que a nível de educação se tem feito quanto ao verdadeiro valor da Pátria .
Depois nos jornais lemos que os jovens têm que emigrar para terem futuro, que reformados estão a ser despejados das suas casas, que se comem não podem comprar os remédios, famílias carenciadas com com filhos deficientes que lhes são retirados os subsídios, porque um dos conjugues arranjou um emprego e pasme-se com o ordenado mínimo etc, etc., etc..
Depois temos classe politica em que deixamos de acreditar. Agora pergunto eu, valerá a pena lutar por este país?
Eu, acredito acabaríamos por voltar a lutar, porque o sentimento de nacionalidade, e a defesa do que é a terra dos nossos antepassados, nos levaria novamente a isso.

Juvenal Amado

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PARANÓIA OU LAMENTOS DE VETERANO

Ah! se eu tivesse uma G3!

Porque sou ignorado?
Mal tratado pelo o meu país
Dizem que sou parvo
E que sou maluco
Ninguém me leva a sério
Vozes de burro não chegam ao Céu

Eu lhes dava a maluqueira se tivesse uma G3!

Dizem que bebo demais
Que mal posso com as botas
Que falo sempre do mesmo
Que sabem da dor que tenho no peito?
Esta dor é como a injustiça, nunca passa
Eu é que sei onde o sapato me aperta

Mas eu lhes mostraria se tivesse uma G3!

Sem préstimo dizem
Que não mereço o chão que piso
A sombra que me protege
O pão que como
Que vontade tenho de partir
Não sabem o peso que carrego
Estou farto de palmilhar estrada
Também não sei para onde ir

Tenho as costas contra a parede
Não vejo horizontes
Ninguém ouve o meu lamento
Ninguém me leva a sério
Mas se eu tivesse uma G3 outro galo cantaria

Ah! mas se eu tivesse uma G3 iam ver
Se eu tivesse uma G3...

Juvenal Amado
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Notas do editor

(*) Vd. poste de 13 de março de 2015 > Guiné 63/74 – P14357: Divagações de reformado (Pacífico dos Reis) (7): Vivo num país que não me faz chorar, faz-me enraivecer

Último poste da série de 19 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14386: Blogpoesia (404): No dia do pai, um poema escolhido pelo camarada Armando Faria, "Ter um Pai", de Florbela Espanca (1894-1930)

Guiné 63/74 - P14391: Notas de leitura (694): Mapas da Guiné: existem muitos e estão mal estudados (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Março de 2015:

Queridos amigos,
Temos falado de tudo: das nossas fotografias, da nossa correspondência, das nossas lembranças, dos nossos vivos e dos nossos mortos.
Ao tempo em que combatemos até tínhamos cartas fiáveis, dos anos 1950, as povoações que não encontrávamos tinham-se volatizado entre 1963 e 1964, mas tinham existido.
Os mapas imperiais, com especial relevo a partir do século XIX, referiam as etnias predominantes e os mapas para uso escolar reproduziam-nas por vezes com omissões e besteiras de bradar aos céus. Tome-se como exemplo este mapa que, estou absolutamente convicto, encerado e com réguas, estava pendurado na parede da minha escola primária. E temos que questionar o silêncio dos estudiosos e dos curiosos, como é que engolimos todas estas disparidades e incongruências.
A quem aproveitam? Cabe-vos responder.

Um abraço do
Mário


O Mapa pode ser ampliando clicando em cima


Mapas da Guiné: existem muitos e estão mal estudados

Beja Santos

O nosso blogue tem várias riquezas, que vão desde os mapas, passam pelo acervo fotográfico e chegam aos testemunhos, únicos e irrepetíveis. Possuímos todas as cartas daquela Guiné onde combatemos, e a sua fiabilidade é indiscutível, vieram a seguir os soviéticos e o seu mapeamento tem erros de palmatória, hoje servem para pouca coisa. No que toca à história, temos um alfobre que vai desde a Sociedade de Geografia de Lisboa às inúmeras publicações que esta instituição alberga, bem como o Arquivo Histórico Ultramarino e centros de estudos africanos de algumas universidades. Posso testemunhar que quando andei à procura de cartas pouco ou nada conhecidas, encontrei na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa e pude usar no Roteiro que escrevi com Francisco Henriques da Silva a Carta da Guiné Portugueza de 1902 e a Carta Hydrographica da Guiné Portugueza de 1844. Para o meu livro em preparação sobre a história da Guiné, graças à amável deferência daqueles solícitos técnicos dessa biblioteca já tenho imagens que não foram divulgadas ao público.

Comprei há dias num leilão um mapa de Portugal Insular e Ultramarino, coordenado por J. R. Silva, creio que na escola primária que eu frequentei havia uma versão encerada, é seguramente um mapa ou do fim dos anos 1940 ou elaborado em plena década de 1950. Se formos ao Google é possível encontrar mapas muito semelhantes, por exemplo de 1934, vê-se à légua que se trata de versões escolares. O que para mim é um mistério é ausência de estudos de índole científica (antropologia, sociologia…) sobre o que esses mapas dizem, se eram conformes às realidades que diziam transmitir. Queria só recordar que em tempos fiz referência a uma brochura que era distribuída na Feira Popular de Lisboa, então em Palhavã, em 1945, em que o que ali se mostrava era pouco mais do que a Guiné dos presídios e praças, do século XIX. No Leste, nem uma só uma menção a populações fronteiriças, nem uma palavra sobre o Boé ou o Gabu. Geba tinha mais importância que Bafatá; escarrapacha-se o nome de Sambel Nhantá, no regulado do Cuor, nesse tempo já não existia; toda a região do Corubal era puramente omitida, como o Xime; a região Centro-Norte não mencionava Mansoa, Bula, Bissorã ou Mansabá quando, a este tempo, eram já vilas com algum desenvolvimento; não há uma referência à cidade de Bolama no arquipélago dos Bijagós; no Sul, falava-se de Bolola, certamente por influência do passado e não há uma só menção a Catió, Fulacunda, Bedanda ou Gadamael, que de facto existiam.

Vamos agora ao mapa da Guiné, coordenado por J. R. Silva, não tenho dúvidas que estava na minha sala de aula, era ali que se exaltava o Império. Pois faz uma grande diferença, e para muito melhor, do mapa da Feira Popular de 1945. Já existe o Gabu, já se fala de Nova Lamego, Buruntuma e Sonaco, bem como de Pirada e de Canquelifá (na versão de Cam Quelifá). Quem olha para o mapa vê um predomínio de Mandingas e com menos relevo aparecem Futa Fulas, ora na verdade as diferentes etnias Fulas tinham nestes anos de 1950 já uma expressão predominante. Há nomes de regulados totalmente anacrónicos. No que toca à região de Bafatá, há menção dos regulados de Joladú, Gussará, Xime, Bololi, Cossé, Corubal e junto ao Senegal Sam Corlá (noutra versão Sancorlá). Aqui predominam os Fulas Pretos e refere-se a presença de Futa Fulas, o que é inverosímil na medida em que os Mandingas e os Balantas tinham já grande expressão. No Sul, revela-se a presença dos Nalus, nessa altura já em grande apagamento. Na região de Cacheu destacam-se os Manjacos e depois os Brames, estes eram praticamente inexpressivos. Na fronteira Norte, na parte Oriental, são referidos os Felupes, Baiotes, os Banhuns e os Cassangas, não que não fosse verdade a sua presença neste território, mas o predomínio era Felupe e depois Balanta.

Isto para dizer o quê? Que não é possível estudar história e dar-lhe verossimilhança sem clarificar estes mapas entre o século XIX e o século XX. Não o fazendo, estamos a ficcionar um mosaico étnico, depois desproporcionado aos relatos dos governadores, aos testemunhos dos militares e às cartas que escrevemos para as nossas famílias, pelo menos.

Em resumo, apela-se aos estudiosos da Guiné-Bissau e de Portugal que olhem para estes mapas e cartas confrontando-os com o que se escreveu nos livros de história, pondo dentro do território os seus verdadeiros territórios. A despeito de impetuosas migrações que houve na Guiné, particularmente no século XIX, houve etnias que perderam relevo, caso dos Beafadas, dos Nalus, dos Brames e dos Cassangas, e o peso dos Balantas não surgiu da noite para o dia, decorre de uma evolução e de uma capilaridade na ocupação do território. O resto passa pela beleza de olhar para estes mapas e supor que estavam próximos da verdade… O que é pura fábula. Mas que eram bonitos, eram, esta Guiné era a exótica babel cantada por plumitivos dos anos 1930 e 1940. E era assim que se confundia a Guiné fabulosa e a sua terra ardente com a Guiné das suas verdadeiras gentes.
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14385: Notas de leitura (693): "Neste mar é sempre inverno", romance de Tibério Paradela (edição de autor, 2014) (Parte II): a pesca do bacalhau e o paralelismo com a tropa e a guerra... (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P14390: Agenda cultural (384): Apresentação do livro "Nós, Enfermeiras Paraquedistas", dia 26 de Março de 2015, pelas 18h00, no Auditório do Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, Cais da Fonte Nova, Aveiro (Miguel Pessoa)

1. Mensagem do nosso camarada Miguel Pessoa (ex-Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74, hoje Coronel Pilav Ref), com data de 19 de Março de 2015:

Informámos aqui anteriormente que estão previstas para já duas apresentações deste livro editado pela "Fronteira do Caos Editores", a primeira em Aveiro, a segunda no Porto.

Da primeira apresentação deixamos-vos aqui o respectivo convite. A sessão decorrerá no auditório do Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, pelas 18H00 do próximo dia 26 de Março. Uma oportunidade para o pessoal daquela região (e arredores...) estar presente.

Refira-se que esta sessão conta com a presença, para além de várias das co-autoras (enfermeiras paraquedistas), do Professor Adriano Moreira (autor do prefácio do livro) e do TCor. Aparício, que já tinha igualmente feito a apresentação da obra no Estado Maior da Força Aérea, no final de Novembro do ano passado.


Quanto à segunda apresentação, prevista para a Messe de Oficiais da Batalha, no Porto, aguardamos ainda a confirmação da data inicialmente programada, 9 de Abril. Aqui daremos informação logo que possível.
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Nota do editor

Último poste da série de 10 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14340: Agenda cultural (387): Conversas na Lua com... António Graça de Abreu, dia 13 de Março, às 19h00, na Livraria Lua de Marfim, Amadora

quinta-feira, 19 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14389: Pensamento do dia (24): No Dia do Pai... Mensagem ao meu pai, esse homem duro e autoritário que morreu aos 59 anos para grande pena minha (Francisco Baptista)

1. Em mensagem de hoje 19 de Março de 2015, o nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), fala-nos assim de seu pai:


O meu Pai

As mães são sempre tão sábias, tão carinhosas que desde meninos desarmam as nossas maldades e malandrices. De corpo e alma fomos moldados por elas, para elas não temos segredos. Sofrem muito quando nos desviamos dos bons caminhos que devíamos percorrer mas também sabem que os filhos, pela sua natureza, estão sempre sujeitos a esses desvios.

Os nossos pais com menor conhecimento da nosso intimo e das nossas inclinações, fazem um esforço maior para nos compreender e erram mais nas suas relações connosco. Fazem um grande esforço físico e mental para nos agradar, mas estão sempre em desvantagem em relação às mães que nos moldaram e se sabem moldar para nos aconchegar.

Com os pais há sempre mais choques sobretudo quando somos também homens em competição com eles e não gostamos muito de ser comandados de qualquer forma. Em relação ao meu pai, procuro ser comedido para não entrar em descrédito, tão criticado dentro de portas pelo seu autoritarismo e intolerância, pelos filhos mais velhos (homens) e tão respeitado em toda aldeia, em todo o concelho e fora dele, pela sua honra, pela sua palavra, pela sua verticalidade.

Produtor de cortiça, era por tradição familiar que tinha herdado do seu pai e do seu avô também negociante da mesma. As relações comerciais da minha família com os fabricantes de Lourosa remontam já há mais de um século. Na família conta-se a estória, que eu nunca lhe ouvi, pois ele nunca se vangloriava de nada, que em ano de pouca cortiça, ele conseguiu juntar uma boa rima dela.

Um dia passou por lá um grande fabricante, hoje um dos maiores ricos deste país e lhe disse para lhe pedir um preço, pois ele estava disposto a pagá-la bem. Ele terá respondido, que a ele não lha venderia por preço nenhum, já que ele tinha amigos em Lourosa que lhe compravam a cortiça em anos bons e em anos maus. Nunca enriqueceu, trabalhou muito e poupou muito, deu toda a educação escolar possível aos filhos.
Morreu cedo, aos 59 anos, para grande pena minha, nunca consegui fazer com ele as pazes que gostaria, depois de tantos choques e desavenças, motivados pelo seu autoritarismo e pelo meu orgulho.

Nunca esqueci, as primeiras lágrimas que lhe vi, quando me fui despedir dele, antes de partir para a Guiné.

Esta mensagem ao meu pai, esse homem duro e autoritário, foi o regedor de Brunhoso, mas que me comoveu tanto nessa partida, foi inspirada na mensagem do José Carlos Gabriel, ao pai dele, tão contida, tão profunda tão sentida, que me sensibilizou tanto.

Obrigado José Gabriel por me ajudares a fazer alguma justiça ao meu pai.

Um abraço
Francisco Baptista
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 Nota do editor

Último poste da série de 19 de Março de 2015 > Guiné 63/74 - P14387: Pensamento do dia (23): No dia do pai... "Meu pai, estejas onde estiveres, saberás que te amo muito e te perdoei o nos teres deixado tão prematuramente" (José Carlos Gabriel, ex-1º cabo cripto, 2ª CCaç / BCaç. 4513, Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74)

Guiné 63/74 - P14388: Carta aberta a... (12): ...aos meus netos, neste Dia do Pai (José Martins)

1. Mensagem do nosso camarada José Marcelino Martins (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com uma carta aberta aos seus netos, neste dia do Pai:

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Nota do editor

Último poste da série de 12 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13879: Carta aberta a... (11): Jornalista Sousa Tavares, a propósito do seu artigo no jornal Expresso do dia 8 de Novembro passado (Manuel Luís Lomba)

Guiné 63/74 - P14387: Pensamento do dia (23): No dia do pai... "Meu pai, estejas onde estiveres, saberás que te amo muito e te perdoei o nos teres deixado tão prematuramente" (José Carlos Gabriel, ex-1º cabo cripto, 2ª CCaç / BCaç. 4513, Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74)

1. Mensagem de José Carlos Gabriel, com data de hoje:

 Amigos Luis Graça e Carlos Vinhal.

Sendo hoje o dia do pai não pude deixar de escrever algumas palavras relacionadas com esta data que marca um pouco a minha vida.

Se acharem interessante podem publicar.

Um abraço.

José Carlos Gabriel
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[Foto à esquerda: Guiné > Região de Tombali > Setor S2 (Aldeia Formosa) > Nhala > 2ª CCaç / BCaç. 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973-74) > Nhala, JUN73 > O 1º cabo cripto Gabriel no desempenho de funções, Foto (e legenda) : © José Carlos Gabriel (2011). Todos os direitos reservados]
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Carlos Gabriel, meu pai - Um anigo de pouco tempo


Pela primeira vez na vida vou falar sobre o meu pai. A razão é porque o perdi quando tinha apenas 9 anos e de uma maneira que considero inapropriada (mas que foi consciente da sua parte).

Mas quem sou eu para o julgar?

Dos poucos anos de vida juntos tenho mais boas recordações que o contrário. Não terá sido um pai perfeito pois para o ser não nos teria deixado sozinhos tão cedo (eu com 9 anos a minha irmã com 11 e a minha mãe com 32,  mãe que dedicou o resto da sua vida aos filhos e que ainda vive junto a nós).

Mas será que eu como pai também fui o pai perfeito? E será que ele existe?

Penso que não existe o pai perfeito por muito que nos esforcemos. Aos olhos dos nossos filhos existe sempre algo que eles acham que falhamos.

Tinha-lhe um respeito enorme e que me recorde só uma vez me deu uma palmada em cada mão e muito bem dadas.

Tinha-lhe feito um pedido ao qual não acedeu e eu feito esperto pedi á minha mãe que acabou por ceder sem saber do antecedente. O meu pai ao ver que passado umas horas eu já tinha o que queria simplesmente me perguntou se eu tinha tirado ou se tinha pedido e claro confirmei que tinha pedido á mãe tendo-me interrogado:

- EU NÃO TE TINHA DITO QUE NÃO?

Foi nessa altura que me abriu a porta da escada que dava acesso 
José Carlos Gabriel, hoje
á nossa casa e aí deu-me uma palmada em cada mão mandando-me de castigo para casa.

Não me recordo de outra situação deste género nestes curtos 9 anos de convivência.

Com a idade a avançar cada vez mais sinto a sua falta. Sinto tristeza por não ter dado oportunidade á vida para conhecer a neta e os 2 bisnetos.

Existem datas que me são muito difíceis de ultrapassar a sua ausência tais como: O seu aniversário o meu e o Natal.

Esteja onde estiver saberá que o amo muito e lhe perdoei o nos ter deixado tão prematuramente.

José Carlos Gabriel

PS - Carlos Gabriel a bold e sublinhado é intencional pois era o nome pelo qual o meu pai era conhecido.

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Nota do editor:

Último poste da série > 9 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14336: Pensamento do dia (22): Aprendi na guerra a pôr um pé à frente do outro e continuar a caminhada, mesmo quando tudo era difícil (José Belo)

Guiné 63/74 - P14386: Blogpoesia (404): No dia do pai, um poema escolhido pelo camarada Armando Faria, "Ter um Pai", de Florbela Espanca (1894-1930)

1. O camarada Armando Faria (ex-fur mil inf minas e armadilhas da CCAÇ 4740, Cufar, 1972/74) mandou-nos este poema de Florbela Espanca (1894-1930), para comemorar o dia do pai, uma tradição em Portugal que hoje ainda se mantém, e que está associado ao  calendário litúrgico da religião católica (dia 19 de março,  dia de São José, marido de Maria, mãe de Jesus Cristo).

Na mensagem que nos mandou traz uma dedicatória aos nossos pais (na maior dos casos, já falecidos) mas também aos pais que hoje somos (em muitos casos, duplamente pais e avós): "Com um beijo, um abraço ou uma simples oração"... 

É também, segundo o entendimento dos nossos editores,  uma homenagem a uma grande mulher portuguesa, e uma grande poetisa, nascida em Vila Viçosa, e que em  Matosinhos, aos 36 anos, pôs termo à vida... Uma morte de(a)nunciada!...E, claro, é ainda uma homenagem à nossa bela e amada língua: foi em português que aprendemos a dizer, pai e mãe...

Um pormenor histórico-biográfico siobre a grande Florbela Espanca:  foi registada, de acordo com o código civil da época, com a infamante designação de "filha ilegítima de pai incógnito"... Seu pai, João Maria Espanca só a haveria de perfilhar 18 anos depois da sua morte... Este facto pode ajudar-nos a entender melhor o poema
"Ter um Pai". [Ler aqui a sua biografia, no sítio "Vidas Lusófonas"].



Ter um Pai

Florbela Espanca (1894-1930)

Ter um Pai! É ter na vida 

Uma luz por entre escolhos; 
É ter dois olhos no mundo 
Que vêem pelos nossos olhos! 

Ter um Pai! Um coração 
Que apenas amor encerra, 
É ver Deus, no mundo vil, 
É ter os céus cá na terra! 

Ter um Pai! Nunca se perde 
Aquela santa afeição, 
Sempre a mesma, quer o filho 
Seja um santo ou um ladrão; 

Talvez maior, sendo infame 
O filho que é desprezado 
Pelo mundo; pois um Pai 
Perdoa ao mais desgraçado! 

Ter um Pai! Um santo orgulho 
Pró coração que lhe quer 
Um orgulho que não cabe 
Num coração de mulher! 

Embora ele seja imenso 
Vogando pelo ideal, 
O coração que me deste 
Ó Pai bondoso é leal! 

Ter um Pai! Doce poema 
Dum sonho bendito e santo 
Nestas letras pequeninas, 
Astros dum céu todo encanto! 

Ter um Pai! Os órfãozinhos 
Não conhecem este amor! 
Por mo fazer conhecer, 
Bendito seja o Senhor!

Florbela Espanca 

In: Obras Completas de Florbela Espanca, vol. II, Poesia (1918-1930), prefácio de José Carlos Seabra Pereira, 4.ª ed., Lisboa, Dom Quixote, 1992.
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Nota do editor:

Último poste da série > 10 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14344: Blogpoesia (403): o meu mar da Ericeira (J. L. Mendes Gomes)


quarta-feira, 18 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14385: Notas de leitura (693): "Neste mar é sempre inverno", romance de Tibério Paradela (edição de autor, 2014) (Parte II): a pesca do bacalhau e o paralelismo com a tropa e a guerra... (Luís Graça)




Elementos icónicos da primeira página, na Net, da Fundação Gil Eanes, com sede em Viana do Castelo...  (Reproduzidos com a devida vénia)...

No romance "Neste mar é sempre inverno", o navio hospital que apoiava a frota bacalhoeira chama-se "Angelisse" (pp. 155 e ss). Nome fictício, claro, para designar o Gil Eanes... (que representava para a tripulação dos navios da "frota branca", o que de certo modo representava, para nós, na Guiné, o Hospital Militar de Bissu)... Hoje o Gil Eanes é um navio-museu que merece a nossa visita...


[À esquerda: Imagem da capa do livro de Tibério Paradela, "Neste mar é sempre inverno" > Ficha técnica: ed. autor, agosto de 2014, Aveiro. Depósito legal: 379001/14. Tiragem: 500 ex. 262 pp. Capa de José A. Paradela. O livro pode ser pedido através do mail: paradela.tiberio@gmail.com ]


Mais algumas notas da minha leitura do livro do TibérioParadela (*),.


Já desde 1927, do tempo da  Ditadura Militar, havia legislação que veio  promulgar medidas de incentivo ao desenvolvimento da pesca do bacalhau, e nomeadamente facilitar (e tornafr mais atrativo) o recrutamento do pessoal (vd. Diário do Governo, 1.ª série, Decreto n.º 13441, de 8 de Abril de 1927). Uma dessas medidas era a dispensa do serviço militar aos pescadores e nmarinheiros que tivessem cumprido um mínimo de seis campanhas de pesca consecutivas na frota nacional bacalhoeira. Noutros casos, os mancebos apurados para o serviço militar podiam beneficiar de adiamento até aos 26 anos. Além disso, a falta à junta de recrutamento podia ser relevada desde que os faltosos fizessem prova de que estavam embarcados... Em suma, a pesca do bacalhau na Terra Nova e na Groenlãndia era um desígnio nacional...

Pode todavia perguntar-se se havia algum paralelismno entre a vida a bordo e a tropa (e a guerra colonial) ? Nas notas que tomei, assinalei algumas notórias semelhanças, físicas, simbólicas e culturais:

(i)  Os pescadores, em geral recrutados pelo capitão do navio (ou por recrutadores a seu cargo, e por conta do armador), eram divididos em duas categorias em função da antiguidade (que, tal como na tropa, era um "posto" ou dava "estatuto"): os maduros (com uma ou mais campanha na pesca do bacalhau, em geral de seis meses); e os verdes, diríamos nós os "periquitos"... Competia aos maduros praxar os verdes, mas ao mesmo tempo apadrinhá-los, enquadrá-los, apoiá-los...

"O primeiro bote [dóri] a ser alcançado foi o número 8, o Fangueiro. (...) Sendo a primeira vez que arriava no bote, talvez de algum medo lhe estivesse a pulsar o coração. Quando o Nova Esperança passou à sua ilharga, o verde Fangueiro parou de alar, endireitou-se e rodou, todo ele, na contemplação da sua grande casa ali que, como se o ignorasse, se afastava sorrateiramente" (p. 87).

Mas não ficavam isolados os "verdes".. Por perto havia sempre um "maduro" que o supervisionava:

 (...) "Não muito longe dali, o ti Armando Poveiro, o seu maduro, tinha-o debaixo de olho comoa as feras têm as suas crias. Não só para [o] proteger,mas também para o ensinar... e incitar" (p. 87)

(ii) As alcunhas, tal como na vida militar... Todos ou quase todos têm alcunhas,  em geral ligadas à sua proveniência geográfica ou terra natal, ou a alguma particularidade biográfica;

"Cá em cima, o Nazareno, o Farol [. ilhavense,] , o Mira, o Poveiro, o Penicheiro, o Esquimó e também o Francisco, aliás, o Serrano" (p. 74)...

"O Francisco já se tinha apercebido de que as alcunhas tinham uma relação directa ,nuns casos, com as terras de origem, noutros com o aspecto físico. O Nazareno, o Mira, o Penicheiro, o Poveiro, o Esquimó, o Chino. Outro tomara a alcunha da mãe, era o Gila. O Francisco estava agradado com o seu crisma. Ser da serra parecia que agora lhe dava um orgulho que nunca tinha sentido por não ser motivo para isso nascer-se no meio de cabras e de cumes" (p. 53).

(iii) O navio era a "grande casa", a caserna, o quartel, onde também havia segregação socioespacial... Por exemplo, não era habitual, os oficiais (capitão e imediato) entrarem, a não ser em situações excecionais, na área reservada ao pessoal (pescadores e moços de convés)... 

No bacalhoeiro "Nova Esperança", esse espaço, de "entrada reservada", chama-se rancho (que, segundo o gossário publicado no fim do livro, é o "espaço interior debaixo do castelo da proa", intregando a cozinha, refeitório e dormitório, p. 262).

Um dia, em que os homens andavam na faina na pesca (, cada um com o seu dóri, e os devidos apetrechos), o velho Imediato lembrou-se de ir cozinha e pediu ao cozinheiro um café para ser servido no rancho, que o autor descreve sugestivamente nestes termos:

"Quando entrou no rancho o velho Oficial sentiu-se envolvido por um bafo agradavelmente morno mas acre de vinho e  cachaça. Noutro espectro odoroso, o fumo do cigarro feito na hora, o chulé e os restos de hálitos  não tratados. Tudo isto flutuva no ar havia uma hora, desde que os pescadores tinham partido para a faina" (p. 70)...

E onde não faltavam os calendários eróticos, com lindas raparigas com o corpinho à vela, tal como nas nossas casernas na Guiné, calendários que no caso de um navio balançam de maneira ritmada, "numa dança lasciva, sensual, convite à volúpia estonteante,  interminável" (p. 72)...

Perante o raparo do cozinheiro ("Não sei se eles [,os pescadores,]  iam gostar"), o velho Imediato comentou:

"Eu sei que os soldados não gostam que o Oficial de Dia lhes entre na caserna. Normalmente fazem-no mira de que haja algum desalinho para depois desferirem o castigo. Eu não vim aqui para isso, cozinheiro. Vim, simplesmente para tomar um café ao pé de si. Tenho uma enorme admiração pelos pescadores, mas não tenho menos por si, cozinheiro (...) Você sabe que a comida é motivo de muitas discórdias e guerras (...) (p. 71).

(iv) O mar é o mato... E só ao fim de quarenta dias depois de partirem de Lisboa, é que os homens do "Nova Esperança" , agora a caminho da Groenlêndia, voltam a pisar terra, neste caso o mítico porto de St. John's... 

"Bastaram quatro [dias] no porto de St. John's para lhes retemperar os corpos e tonificar os espíritos, porque pisaram terra firme, encontraram amigos de outros barcos, deambularam pelas ruas da cidade, farejaram o odor dos perfumes das mulheres nas lojas e centros comerciais desafiando as suas sexualidadesd reprimidas" (p. 106)...

(v) Mas o mar (e a pesca à linha do bacalhau) também é a solidão e a violência (dos conflitos, da fúria do mar, da dureza da vida a bordo, do risco de acidente e de naufrágio)... Haveremos de falar disso noutro poste, com mais tempo e vagar...

"Um homem sozinho, assim, num bote, no meio do mar, sente a paixão da liberdade e, ao mesmo tempo, o peso do abandono. É o que eu sinto. Mas o pensamento ninguém mo tira! A minha pobre Rita!"... [Fala do Tio Quico, o mais velho, que tem um filho em França, na emigração, e outro, o mais novo, apanhado na fronteira, recambiado para a tropa e agora nas Áfricas...] (p. 42).

(vi) Refira-se também a importância do correio...

"Agora têm pela frente cinco dias sem faina de pesca [a caminho da Groenlândia]. Só navegar. (....) E nas horas de descanso, sentados nas locas ou deitados nos beliches, a relerem as cartas que tinham recebido das famílias e amigos em St. John's" (p. 106).

(Continua) (**)

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Notas do editor:


Guiné 63/74 - P14384: Os nossos seres, saberes e lazeres (78): Relato de visita a Angra do Heroísmo (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Março de 2015:

Queridos amigos,
Tinha saudades de Angra do Heroísmo, foram sempre estadias meteóricas, sempre um pouco da cidade, sem lhe tomar o peso, sem lhe medir esta dimensão de cidade da Renascença, de encruzilhada das Índias, ponto focal da resistência aos Filipes que, à cautela, aqui mandaram construir uma das maiores fortalezas atlânticas.
Tive sorte com o tempo, foram os dias de Março com aguaceiros espúrios e com a humidade do costume.
Um dia completamente dedicado a Angra, a seguir um passeio costeiro pela Ribeirinha, Feteira, Porto Judeu, Fonte do Bastardo até Praia da Vitória, havia que respirar aqueles ares da juventude de Vitorino Nemésio. E o mais que vos contarei, impante de alegria.

Um abraço do
Mário


A mui leal, nobre e valente Angra do Heroísmo

Beja Santos

Há bem 15 anos que não visitava este rincão que a UNESCO consagrou como património mundial da humanidade e com justeza: encruzilhada das Índias Ocidentais e Orientais que aqui faziam aguada, se abasteciam de mantimentos vários, largavam doentes, aqui morreu Paulo da Gama, no regresso da viagem de 1498, aqui se fundou a primeira cidade moderna do Atlântico, nada das ruas enviesadas dos tempos medievos, são ruas desafogadas, parecem correr em direção à angra dos galeões que traziam a prata de Potosi; aquela Angra da mocidade de Garrett, para onde confluíram os liberais; e daqui partiram para o Mindelo, mais adiante, em Praia da Vitória foi desbaratada a armada miguelista, primeiro ponto para a derrocada no absolutismo. Mas há mais, como é evidente, por exemplo o Monte Brasil, sobranceiro à cidade marcada pela Renascença.


Começo o passeio pela Sé Catedral, profundamente afetada pelo sismo de 1980, e a seguir pelo incêndio de 1983. É também conhecida por Igreja do Santíssimo Salvador da Sé. É de grande imponência, mantém o seu estilo renascentista e vestígios do que escapou ao incêndio. Vale a pena ver a estante de leitura em estilo indo-português, em jacarandá do Brasil com marfim de baleia.


O fotógrafo é amador e canhestro, regula as entradas de luz por puro instinto, e por isso esbanja oportunidades na captação de imagens que contribuiriam para ver a riqueza deste tempo. Fica um detalhe, dá para perceber o tempo antigo e os fulgores de uma riqueza que já houve.


Este Santo António escapou ao incêndio, depois de algumas visitas a igrejas deu para perceber que os terceirenses têm por ele uma indesmentível devoção. Pena é a falta de nitidez da imagem, mas o fotógrafo amador comprazeu-se como o antigo sobressai das paredes restauradas, de uma alvura impressionante.


Do adro da Sé contempla-se esta fachada da Confederação Operária Terceirense, ali se inscreveu: Operários uni-vos! O socialista Antero de Quental, que se correspondeu com Marx, micaelense, seguramente se regozijaria.


Dá gosto ver o aprumo destas fachadas, as suas varandas em ferro, as cores garridas, o desvelo da manutenção, as bonitas calçadas. O visitante tem um prospeto na mão onde lê, a propósito do que tem em frente: “As primeiras casas surgiram nas colinas, em ruas íngremes e tortuosas, tendo no topo do Outeiro longe do mar, um castelo de defesa. Era a forma medieval de viver. Álvaro Martins Homem manda, em 1474, desviar e canalizar a ribeira que corria para a angra. Criada, assim, o indispensável sistema industrial da futura cidade, baseado na força hidráulica. Libertava o vale espaçoso para, de acordo com as normas do urbanismo do renascimento, os arruamentos obedecerem a uma malha reticulada e se organizarem por funções, de acordo com as necessidades do porto, cada vez mais frequentado por navios vindos dos quatro pontos cardeais”. Foi assim a fundação desta Angra, que uma Rainha apôs Heroísmo, em lembrança da muita lealdade às causas pátrias, Angra foi capital de D. António Prior do Crato e alavanca do liberalismo.


A fachada da Igreja da Misericórdia, debruçada sobre Angra, saiu tortinha mas dá para ver duas coisas: a belíssima calçada e o templo do século XVIII, neste local houve o primeiro hospital dos Açores, obra da Confraria do Espírito Santo e um dos seus fundadores chamou-se João Vaz Corte-Real, descobridor da Terra Nova.


Esta imagem é para puro desfrute dos sportinguistas, aqui têm a delegação fraterna. Umas ruas abaixo este fotógrafo apanhou a delegação do Benfica, não menos graciosa. Mas que não se tome esta estampa como um convite a rivalidades clubistas. O que se lê naquela lápide ao nível do primeiro andar é que ali viveu D. Violante do Canto, acérrima defensora da causa de D. António Prior do Crato, chegaram os espanhóis e a senhora não cedeu, e foi então obrigada a ir para Espanha. Que dos bons portugueses reze o nome.


Houve primeira visita ao Palácio dos Capitães Generais, primeiro foi colégio de Jesuítas, desde 1595, sabe-se como foram detestados pelo Marquês de Pombal que aproveitou a reforma dos capitães donatários e criou a titularidade de capitães generais, o primeiro foi D. Antão de Almada, que tem direito a retrato a óleo. Diga-se de passagem que foi uma visita ímpar conduzida por uma jovem cuidadosíssima, finda a visita conduziu-nos à Igreja do Colégio, também muito bela, mas foi num canto da sacristia que se encontrou esta preciosidade, minhas senhoras e meus senhores é tudo azulejaria de Delft, vale a pena descer ao pormenor.


Pede-se desculpa por algum sombreado, se é verdade que somos a potência mundial em azulejaria não se pode desmerecer da genialidade alheia, e aqui dá para perceber que os azulejos de Delft marcaram a história das artes decorativas, pela sua originalidade e cromatismos.


No jardim da cidade há esta memória de Garrett, ele aqui estudou na sua juventude e Angra não o esqueceu. O visitante fez uma pausa, é quase um septuagenário, já deambulou pela Praça Velha, olhou cá debaixo o Outeiro da Memória, calcorreou por estas ruas assombrosas, com nomes como Pisão, Garoupinha e Santo Espírito, falta-lhe energia para ir ao Convento de S. Gonçalo, um dos maiores dos Açores com rico revestimento em talha e tetos pintados, já se degustou no Palácio dos Capitães Generais, amanhã está previsto um passeio por metade da ilha, haverá tempo para pôr os pés no Monte Brasil e ver Angra do cimo, espraiando-se até S. Mateus e o seu belo porto. São mais dois pormenores de flores e plantas.


Sempre ouvi dizer que todas as árvores se dão bem nos Açores, basta recordar o delírio floral criado por José do Canto tanto no Parque Terra Nostra, junto às Furnas, em S. Miguel, como o jardim que tem o seu nome, em Ponta Delgada. A investigadora Filomena Mónica dedicou-lhe um livro espirituoso, foi um contemporâneo à frente do seu tempo. Mas este jardim tem aquelas pequenas jóias com que a natureza nos brindou. Estamos em Março e parece que a Primavera vai despontar, até os catos florescem, parece um cacho luxuriante, um quase centro de mesa, apoteótico.


E esta palmeira chinesa, não é uma delicadeza para os olhos, parece uma palmeira anã, de palmas irradiantes e um deslumbrante centro de mesa, também. A visita está feita, já se ganhou energia para o resto da deambulação, o tempo é açoriano, há assim umas abertas para o sol, abertas fugazes, a cobertura de chumbo é maioritária. Vamos praticar o pluralismo, mostrar o Benfica em construção angrense típica, em espaço da UNESCO, pois claro.


Só mais tarde, no enfiamento das fotos, é que se descobre, e com que pesar, que aquelas imagens do Teatro Angrense foram parar ao éter. E com que satisfação se procurou captá-las, andou-se lá dentro sempre a pensar naqueles teatros italianos de província, de uma riqueza contida, interiores bem decorados e com excelente acústica. Paciência, fica aqui o Benfica, em toda a sua vibração, em tons de rosa velho, há que pensar na maresia forte e constante que enferruja, dessora, calcina, enche de verdete e ferrugem. O Eusébio estaria aqui a meu lado feliz da vida, não tenho dúvidas. Amanhã há mais para ver e contar, ficam aqui pálidas referências à mais linda cidade dos Açores. Entrou-se no lusco-fusco, vejo nuns televisores imagens grotescas de mirones bem marrados nas touradas à corda, ando com os olhos no chão, há sempre novidades nesta calçada portuguesa, e enfio para o porto dos pescadores, para saborear os ruídos oceânicos, dei contas à vida, conheci esta cidade antes do sismo, é sumamente bom ver as diferenças para melhor, este património tão cuidado onde estão esmaltadas algumas das mais poderosas histórias da História de Portugal. Viva Angra e o seu heroísmo!
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Nota do editor

Último poste da série de 4 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14319: Os nossos seres, saberes e lazeres (77): A arquitetura de Haia em visita de médico (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P14383: (Ex)citações (267): Será que nós estamos escrevendo milhares de postes à procura da juventudo "perdida" na guerra? (José Manuel Matos Dinis)

1. Mensagem do nosso camarada José Manuel Matos Dinis (ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71) com data de 12 de Março de 2015:

Olá Carlos,
Peço-te que coloques esta minha interpretação sobre a questão proveniente do outro lado do Atlântico.
O Vasco(*) é muito pertinente na abordagem do tema e, seguramente, valerá a pena conhecer as opiniões dos camaradas.
Também tenho costela de bairradino, pelo lado paterno, por isso evito falar de caçoilas, mas desejo-lhe muitas alegrias.

Com um abraço
JD

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O Vasco lança o repto para respondermos aqui no Blogue, se andamos à procura da juventude "perdida" durante a guerra, e eleva o nível da introspecção pelo cotejo da procura do tempo perdido, de Proust. Também dá tópicos para reflexão, como termos nascido numa "ilha", considerando a localização (influência mediterrânica), e o tempo do pós-guerra, de que o nosso "jardim" ficou imune às devastações ocorridas no resto da Europa.

A propósito da guerra-fria recorda uma linha de orientação adoptada por Salazar, que lançou a ideia neutral do Minho a Timor. Foi uma espécie de realidade da época, pois a neutralidade revelou-se comprometida com os dois lados da contenda, o que ia custando a invasão dos Açores. Também poucos saberão, que depois do 25 de Abril os timorenses, que viviam pacificamente sob a bandeira das quinas, quiseram continuar portugueses, e só uma campanha de dinamização entusiástica os levou à guerra forçada, para escolha do modelo político que a independência exigia.

Sobre a máquina de propaganda de Salazar, provavelmente, não foi tão eficiente para a juventude mais esclarecida que frequentava os meios académicos, quanto tem sido as lavagens aos cérebros desde a revolução, assente nos pressupostos dos 3 dês - descolonização, democratização e desenvolvimento. O primeiro pressuposto foi rápida e miseravelmente realizado, recheado de traições, crimes, e outras ignomínias; o segundo, corresponde a uma quimera, um mito bestial, e a população, nem de perto nem de longe, aceita a acusação de ter vivido acima das possibilidades, nem tem responsabilidades sobre a situação económico-financeira, nem foi consultada e confrontada com a adesão à CE (ex-CEE), nem passou mandatos para a venda de infra-estruturas públicas e estratégicas, pelo que as coisas têm acontecido marginais à democracia, mas em obediência a uma descontrolada "democracia-representativa" que aproveita a espertalhões; e sobre o terceiro pressuposto, como decorre do anterior, tudo tem acontecido sem rei nem ropue, à mercê do investimento estrangeiro (agora a China é que está a dar), ou do crédito internacional, que os sucessivos governos têm desbaratado com vaidade e seleccionada galhardia.

Ah! A nossa juventude?

Durante os 3 anos de tropa que nos eram impostos, dávamos largas à nossa alegria e energia, sempre que as oportunidades o permitiam. Construímos novas amizades e praticamos a solidariedade, de que os encontros de confraternização são bons exemplos, e acabado o serviço militar, entrámos no mercado de trabalho conforme competências, apetências e oportunidades de cada um, e constituímos famílias. Não me refiro aqui aos que tiveram a infelicidade de transportarem sequelas da guerra, que são casos muito especiais que a sociedade, ignorando a solidariedade democrática, parece ignorar.

A guerra parecia perdida "ab initio", mas a generosidade dos jovens portugueses veio a impor-se à admiração do mundo (mau grado algumas artimanhas que contrariaram a dignidade da condição militar pelo aproveitamento pessoal de oportunidades ilegítimas e ilegais. Não se queria saber, ao mesmo tempo, que as maiores colónias mostravam um processo de desenvolvimento económico-social com taxas de crescimento entre os 6 e os 15%, enquanto a metrópole registava médias de 3 a 4%. Outro factor a considerar, é que aquelas colónias registaram o crescimento da população branca para o dobro, pois passaram a catalizar o interesse de uma parte dos ex-combatentes, que ali procuraram futuro, e não usavam chicote, G-3, ou Bazuka. O ambiente era pluri-racial e cada vez mais havia nativos a ombrear com metropolitanos nas diferentes actividades laborais e culturais - mas neste âmbito que consideramos, as coisas não acontecem com a facilidade e velocidade do interruptor.

Meu caro Vasco, as minhas memórias (depois da Guiné fui trabalhar em Angola) incidem na experiência pessoal, na alegria e na realização no trabalho, na segurança e harmonia familiar, mas também na observação atenta (li vários relatórios do Banco de Angola), enquanto cotejava com a propaganda local, nacional, e nacionalista (lia o Comércio do Funchal, esquerdista, e o Expresso desde o n.º 1, para além de alguns ensaios escritos que encontrava), as primeiras eram dinâmicas, a última era muito pobre de ideias e soluções dogmáticas. Também integrei uma reduzida mas interessante tertúlia com interesses no bem comum. E sonhávamos. Deve haver, porém, gente com opinião diferente, sobretudo se vinculada a dogmas ideológicos.

Finalmente, é minha convicção, que aquelas sociedades pujantes caminhavam inexoravelmente para a auto-determinação, talvez com independência soberana.

Abraços fraternos
JD
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Notas do editor

(*) Vd. poste de 12 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14351: Blogoterapia (266): O Senhor M. Proust escreveu milhares de páginas "À la recherche du temps perdu"... Será que nós estamos escrevendo milhares de postes, à procura da juventude "perdida" na guerra? (Vasco Pires, ex-alf mil art. cmdt do 23º Pel Art. Gadamael, 1970/72)

Último poste da série de 17 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14379: (Ex)citações (266): Considero, e para ser objectivo, que todos se estão borrifando para a Guiné-Bissau (Mário Vitorino Gaspar)

Guiné 63/74 - P14382: Convívios (658): Almoço do pessoal da CCAÇ 2464/BCAÇ 2861, dia 18 de Abril de 2015 em Vila Real (António Nobre)

1. Mensagem do nosso camarada António Nobre (ex-Fur Mil da CCAÇ 2464/BCAÇ 2861, Buba, Nhala e Binar, 1969/70), com data de 14 de Março de 201e:

Olá Carlos
Junto envio anuncio da realização de mais um encontro/convivio da rapaziada da CCaç 2464 que no periodo de Fevereiro de 69 a Dezembro de 1970 cumpriu serviço militar obrigatorio da Ex-Guiné Portiguesa.
Solicito pois faças a sua inserção no nosso Blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné.
 Um abraço
Antonio Nobre



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Nota do editor

Último poste da série de 14 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14363: Convívios (657): XXXII Encontro do pessoal da CCAÇ 2317, dia 30 de Maio de 2015, no Restaurante Choupal dos Melros - Quinta dos Choupos - Fânzeres - Gondomar (Joaquim Gomes Soares)

Guiné 63/74 - P14381: Brunhoso há 50 anos (2): As Autoridades - Continuação (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

Brunhoso - Com a devida vénia


1. Em mensagem do dia 10 de Março de 2015, o nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), mandou-nos o segundo episódio de Brunhoso há 50 anos:


Brunhoso há 50 anos

 2 - As Autoridades (Continuação)

Tanto o padre como a professora, não sendo autoridades civis, tinham um poder inegável sobre a formação e o comportamento espiritual e cívico da população. Por esses motivos eram muito respeitados e temidos pela população.

A professora, natural da aldeia, pertencia a uma das famílias mais ricas da terra. Família muito religiosa que ajudava muito o padre, de quem até me parece que seriam parentes, no arranjo da igreja e nas cerimonias religiosas. Cultivavam um distanciamento conveniente e higiénico com a generalidade da população, sobretudo com os mais humildes.

Por caridade cristã, penso eu, davam algumas esmolas aos mais pobres e também reprimendas à mistura. Eram honestos e rigorosos no cumprimento das suas obrigações para com os outros, mesmo quando mais tarde, com a crise provocada pela emigração dos anos sessenta, alguns foram forçados a vender muitos bens.

Com a educação familiar que recebeu e com a formação que lhe deu o antigo regime, a professora tinha que ser autoritária, até um pouco despótica. Era boa professora no sentido do esforço e do trabalho a que não se poupava mas usava todos os meios de coação física, desde palmatoadas, bofetadas, puxões de orelhas e vara.

Os antigos alunos dela, da minha idade, mais velhos e outros mais novos, depois de tantos anos passados, dividem-se no seu julgamento, alguns ainda não esqueceram os maus tratos excessivos e o orgulho pelo cargo que desempenhava e pela família donde provinha, outros agradecem-lhe o esforço feito, apesar dos castigos severos.

O padre Zé merece um tratamento com nome, pois a sua fama perdurará mais do que a dos outros, pela sua bondade, pelo trato cordial que tinha com todos, pelas dádivas desinteressadas que diariamente fazia, pelas famosas zangas que tinha por vezes com o seu rebanho que se queria desviar dos caminhos de Deus.
Sendo filho de famílias ricas de uma aldeia próxima, com bastantes bens também em Brunhoso, manteve o pagamento da côngrua, segundo afirmava, apenas para que o povo não perdesse esse hábito, quando ele fosse substituído por morte ou outro motivo. Todos os ofícios religiosos, batizados, casamentos, funerais etc. eram grátis. Os mais desfavorecidos não pagavam a côngrua indo para ele um ou dos dias à apanha da amêndoa ou da azeitona para a terra dele, que distaria da nossa aldeia cerca de oito quilómetros.

Todos os anos iam também os lavradores com carros de vacas e outros trabalhadores, buscar lenha a essa aldeia para o seu aquecimento e da casa durante o ano. Recordo-me que estas tarefas entusiasmavam muito os meus conterrâneos porque o padre Zé, além de ser muito jovial, também os tratava bem, com vinho à farta, presunto, queijo e outros petiscos. Fumava muito e tinha o hábito de oferecer cigarros a uns e a outros, fumadores ou não fumadores. Os responsos que recebia nas missas por alma dos mortos distribuía-os pelos rapazes que o fossem a ajudar na celebração. Eu fui muitas vezes na esperança, nunca defraudada, de receber um escudo ou dois. Tínhamos que aprender todo aquele latinório e ajudá-lo com as galhetas e a campainha.

Não havia escola para isso, íamos aprendendo com a prática, por vezes era uma confusão terrível mas o padre, com a paciência dele, lá nos ia ensinando. Do latim que lhe ouvíamos e do que lhe tínhamos de lhe responder nada compreendíamos mas o importante era chegar ao fim da missa e que houvesse muitos responsos.

Vivia numa casa grande que à escala da dimensão da freguesia e descontando exageros de vária ordem, eu comparo com o Vaticano. Quando passava à porta da casa, parecia-me que havia sempre gente perto, gente a entrar e a sair, principalmente mulheres. Tinha uma governanta e uma criada efectivas, duas ou três vizinhas e uma sobrinha da governanta que muitas vezes iam lá a ajudar. Calculo o amor e desvelo dessas senhoras, tanto a lavar como a engomar os fatos do padre Zé, as calças, o casaco, a camisa, a roupa interior, mas sobretudo a cuidar-lhe dos paramentos, numa atitude quase devota, a casula, a túnica, a estola, a dalmática, a mitra, a batina, a alva.

Durante alguns anos viveu lá também um rapaz, filho duma mulher muito pobre, que ele recolheu, ainda muito novo que tinha hábitos de muita liberdade e alguma vadiagem. Não se entendiam mal, viveu lá até à idade adulta, com todo o conforto em alojamento e alimentação, a ouvir os bons conselhos do padre Zé, que nunca conseguiu alterar-lhe o gosto pela liberdade. Não sei se era por viver junto do padre mas lembro-me que lhe deram a alcunha de "Vigário". Em adulto, saiu da aldeia para outra terra do distrito e tornou-se um homem responsável e mais calmo.

Brunhoso tinha dois oragos, S. Leão e S. Lourenço, nesse tempo a aldeia guardava feriados nos seus dias, o padre dizia a missa e não havia outras cerimonias ou festividades. O grande dia da festa anual era dedicado a Santa Bárbara, que não era padroeira nem tinha direito a dia de feriado. Santa padroeira dos artilheiros e mineiros, os lavradores procuravam também junto dela defender-se das desgraças provocadas pelas tempestades, raios e trovões.

 Brunhoso - S. Lourenço

Brunhoso - Festa a Santa Bárbara 2007

Fotos: Com a devida vénia a Brunhoso - Mogadouro

De uns anos para os outros eram nomeados os mordomos que se iriam encarregar da organização das festividades. Todos os anos havia grandes zangas entre os mordomos e o padre Zé pois ele nunca queria admitir que houvesse arraial. Bem, ele arraial só com música até podia tolerar, não admitia é que ao som da música andassem rapazes e raparigas, homens e mulheres agarrados a dançar. Houve sempre este braço de ferro entre o padre e mordomos, mas embora todos lhe tivessem muito respeito e amizade, o povo, em tempos de tantas proibições, nunca quis privar os rapazes e raparigas de poderem expressar algum afecto e calor naquele abraço bailado ao som da música, que era a maior proximidade consentida entre solteiros.

Entre a sabedoria antiga das mulheres e dos homens e o puritanismo da Igreja, o Povo de Brunhoso impunha a sua vontade. O padre Zé perdia esse braço de ferro mas no ano seguinte ia tentar novamente impor a lei da Igreja, pois ele era casmurro. Voltava a perder, não se consegue impedir a corrente do rio, não se podem conter as forças da natureza.

Havia outra grande festa sobre a qual não se pronunciava, era o Entrudo, essa festa pagã tão antiga, que os homens do seu rebanho pareciam afastar-se, para passar a adorar outros deuses antigos e pagãos, mais permissivos como Dionísio e Baco, deuses loucos que não tinham as boas maneiras, nem a justiça severa, nem a promessa de salvação do Deus que ele sempre lhes procurava revelar.

Era um dia em que o padre Zé rezava para que eles voltassem de almas manchadas, mas dispostas ao arrependimento e a lavar-se no perdão que a Santa Madre Igreja garantia aos pecadores.

Nas mulheres ele confiava, como na sua mãe, que ficara tão contente quando ele foi padre, o sentimento das suas paroquianas era o mesmo da sua amada mãe, como não amar mais um homem que está tão próximo de Deus, que até pode falar com Ele. Elas não duvidavam dele, elas não queriam os deuses antigos, loucos, devassos, com todos os defeitos dos seus homens, que não lhes garantiam uma vida melhor no fim das suas vidas. O seu Deus tinha que ser o mesmo do padre Zé, o filho duma mulher, Maria, que ela criou com amor, como elas criaram os seus. As mulheres gostam de um Deus Filho, pois os filhos delas são todos deuses que elas adoram.

Já os homens, nesse tempo, não mostravam ter muita fé. Cumpriam os rituais mínimos por tradição, para não desagradar à comunidade e a um Deus desconhecido, porque não sabiam o que havia para além da morte e não lhes agradava que houvesse o silêncio e o nada. Havia ainda outra razão de carácter politico e social que os obrigava a ter alguma pratica religiosa, pelo menos ir à missa ao domingo. É que nesse tempo, todo o que fugia dessa pratica era considerado comunista, e isso era pior do que ser apelidado de ladrão ou desordeiro.

A propaganda anticomunista mais acérrima foi feita pela Igreja no tempo das cruzadas de Fátima como reação às barbaridades que os comunistas cometeram contra a Igreja quando tomaram o poder na Rússia. O antigo regime serviu-se dela para meter todos os opositores no mesmo saco e apelidá-los de comunistas pois a história dos males que tinham causado à Igreja ainda era recente. Era eu ainda menino e crente, por obediência familiar e escolar, recordo-me das novenas de Maio, à Nossa Senhora de Fátima, em que todos rezávamos pela conversão da Rússia. Quem conduzia estas cruzadas apostólicas era a professora primária, mais atenta, sensível e sintonizada com o regime e com o sofrimento da "Igreja do Silêncio", para lá das "cortinas de ferro".

Portugal, um pais tão religioso e católico, que alguns Papas proclamaram de Nação Fidelíssima, com tantas devotas e santas mulheres, somente tem uma santa, nascida e criada no país que se chama Beatriz da Silva.
Homens haverá meia dúzia ou pouco mais. Ou é Deus que não é justo ou os seus representantes no Vaticano. O padre Zé não foi um deus, foi um santo, podia ser canonizado se Portugal fosse um país mais rico e próximo do Vaticano.

Mas meus amigos e camaradas. para tudo são precisas ajudas dos vários poderes, mesmo para ser santo!
Um abraço todos!
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 Nota do editor

Último poste da série de 10 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14342: Brunhoso há 50 anos (1): As Autoridades (Francisco Baptista)

terça-feira, 17 de março de 2015

Guiné 63/74 - P14380: Meu pai, meu velho, meu camarada (44): Meu Velho, meu Amigo e meu Camarada (José Saúde)


1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos mais uma mensagem desta sua magnífica série.

Meu Velho, meu Amigo e meu Camarada.
Pai, honrarei sempre os teus princípios militares e civis.

Francisco Saúde, o meu saudoso pai, nasceu no dia 5 de janeiro de 1914 e faleceu no dia 19 de setembro de 1983. Aldeia Nova de São Bento, em pleno Baixo Alentejo, foi a urbe que o viu nascer e morrer. Faleceu a desfazer a barba e numa manhã quente de verão quando o sol já brilhava com intensidade.

A sua morte deixou a família atónica. Um enfarte agudo no miocárdio foi o seu drástico fim. Tinha eu, na altura, 33 anos e o meu pai 69. Porém, jamais dei conta de um pequeno problema de saúde que tivesse fustigado a vida do meu Velho, meu Amigo e meu Camarada.

Olho, atentamente, a sua Caderna Militar, uma relíquia que guardo religiosamente no meu baú das recordações, e leio o documento já amarelado que diz, em síntese, que Francisco Saúde foi incorporado no dia 8 de Abril de 1935 no Regimento de Infantaria nº 17, em Beja, sendo a sua especialidade atirador.

Numa folha adiante, uma outra nota que refere: “Tirou no sorteio o número duzentos e cinquenta e oito”. “Passou à disponibilidade em 1 de Setembro. Presente para instrução complementar em 2 de Outubro de 1939. Voltou à situação de disponibilidade em 15”.

Acontece, que em termos de ocorrências extraordinárias, existe uma outra nota: “Notado como refractário nos termos do nº1 do artigo 189 do R.S.R. Licenciado nos termos do artº 155 do R.S.R. de 1911, desde 8 de Abril de 1935”.

Refractário! Porquê? O meu Velho, meu Amigo e meu Camarada sempre me disse que a questão militar a que foi submetido prendeu-se “como uma doença a que fora submetido aquando da sua apresentação no Regimento de Infantaria nº17 no dia indicado, sendo que a sua ausência militar foi considerada faltosa”.

Assim sendo, está explicada a razão pela qual o exército lhe aplicou tamanha “coima”. O meu pai contava que esta infração não lhe retirou mérito, pois acabou por ser “impedido” de um capitão que lhe cedeu as suas honras.

O tempo era de Guerra Civil na vizinha Espanha. Estava-se no segundo período da década de 1930. As nossas fronteiras, segundo o meu pai comentava, eram patrulhadas a pente fino pela tropa portuguesa.

E foi justamente nesta fase em que prestou serviço militar que integrou um grupo de jovens soldados do RI 17, Beja, que permaneceu no terreno durante algum tempo. A sua missão, segundo dizia o meu Velho, era impedir as avalanches de gentes que fugiam ao terror da guerra civil de Espanha e se passassem para o outro lado da fronteira. Uma história verídica que o meu Camarada contava com mágoa. Dizia-me, em surdina, que foram muitos aqueles que se fizeram à terra lusa enquanto o sentinela de serviço fingia dormir, ficando a estrada em aberto a caminho de um novo rumo. 

Visível era a premente ansiedade da população a contas com uma famigerada e desumana “guerra às bruxas”. Os franquistas não davam pausas. Resumidamente o conflito deflagrou após um fracassado golpe de estado de um sector do exército contra o governo democrático que havia sido conquistado.

Entretanto, o general Francisco Franco, cabecilha do golpe, reorganizou os militares rebeldes o que levou à instauração de um regime fascista em Espanha. O dia 1 de outubro de 1936 foi o início de uma ditadura que se prolongou até 20 de novembro de 1975, data da sua morte, com 82 anos.

Regista-se que o meu Velho, meu Amigo e meu Camarada teve a oportunidade em assistir a uma franja de uma guerra civil com contornos maquiavélicos, e onde o evidente desespero de pessoas que procuravam a paz e o sossego, entrementes sonegados, eram devolvidas a um conflito interno que teimava em não dar tréguas.

Esta prosa possui o condão, julgo, em conjugar efeitos de duas guerras diametralmente desiguais. Isto é, a nossa guerra na Guiné entre 1963 a 1974, e uma outra civil, Espanha, que o meu pai conheceu nos anos 30.

Fica, para mim, a certeza: Pai, honrarei sempre os teus princípios militares e civis porque fomos, afinal, homens que vivendo em épocas diferentes, fizemos parte de contingentes que conheceram os horríveis conteúdos que a guerra, não obstante a dimensão dos flagelos onde estivemos inseridos, nos impôs.



Um abraço camaradas, 
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
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Nota de M.R.: 

Vd. último poste desta série em: