Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Viseu. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Viseu. Mostrar todas as mensagens

sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28171: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (44): O país que via passar os comboios





Coimbra B, Estação da CP, 25 de março de 2004.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto:  Luís Graça  (2004)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

 

Contos com mural ao fundo: O país que via passar os comboios

por Luís Graça


25 de março de 2004. 14:13h.Coimbra B. Estação da CP. Deprimente. Como todas as estações B do mundo. Como todas as estações da CP. B, de 2ª classe. B, segunda letra do alfabeto. 

Todas as estações de caminho de ferro do mundo são deprimentes. Abres talvez uma exceção para os apeadeiros. São bonitos, os apeadeiros. Ou eram bonitos os apeadeiros da CP. Quando havia o cavador, o burro, o boi e a vaca do presépio, a junta de bois, a charrua. O camponês, o Zé Povinho, camponês e burro. Besta de carga. A horta, a saída direta para os campos. As hortas. Os azulejos azuis  e amarelos da Viúva Lamego. E as quatro estações do ano.

O termo apeadeiro eternece-te, faz-te lembrar os tempos em que se ia às hortas. Tu já não és desse tempo. Mas os alfacinhas iam às hortas dos saloios. Benfica, Porcalhota, Pontinha, Sintra, Caneças, Colares ... Faziam piqueniques, cantavam o fado. Davam vivas à República. E morras ao Rei e ao Papa. E ao Capital. E bebiam vinho pelo palhinhas.

Gostas do termo apeadeiro. E da ideia de ir passear às hortas ao domingo. Quando ainda não havia semana inglesa. E trabalhava-se de sol a sol. Ia-se às hortas ao domingo. Em família, de comboio. Ronceiro, o comboio. Ronceira, a vida da gente.

Leste isso algures numa história qualquer sobre os comboios que unificaram o país de norte a sul. Há uma dívida de gratidão para com os comboios. E para com os homens dos comboios. E os engenheiros das estradas e pontes. E os operários que as construíram.  

Há uma dívida de gratidão, a final, ao Zé Povinho da cidade e dos campos. Pela sua pachorra e paciência. Há uma dívida de gratidão ao engenho e à obra. Ao Fontes. Ao Pereira. Ao Melo. Ao fontismo.  O nome português do capitalismo, leste algures, nas sebentas de história.

Naquele tempo parava-se em todas estações e apeadeiros. E havia tempo, não havia pressa. Não havia stresse naquele tempo, julgavas tu. Colhiam-se papoilas vermelhas no meio do trigo. Não havia tempo para se ter stresse. Morria-se cedo. Até os reis e os regicidas. A esperança média de vida é um artefacto estatístico. Ou nascia-se tarde, fora de horas, sem tempo de ver crescer filhos e netos.

Mas não havia ainda bombas nos comboios. Ao alcance de um qualquer toque de telemóvel.    Que as novas tecnologias quando nascem, (não)  são agora para todos.  

Mentes: há oitenta e tal anos atrás, na França ocupada, os ferroviários também punham bombas. Nas linhas de caminhos de ferro. Sob os carris. Matavam os seus postos de trabalho em nome da liberdade.  

Punham bombas para fazer descarrilar os comboios. Sabotagem. Resistência ao ocupante nazi. Vive la France. Hoje seriam caçados como terroristas internacionais. E julgados no Tribunal Internacional de Haia. Les partisans.

Não és ferroviário nem resistente nem terrorista.  Estás na estação de Coimbra B. Coimbra merecia, pelo menos, uma estação A. Este país, bom aluno da Europa, devia merecer uma letra A. Nem que fosse uma estação de comboios. Coimbra A. Ninguém gosta de ficar em segundo lugar, mesmo no pódio. 

Ouves uma voz gritante, no altifalante: Alfarelos. Com paragem não se sabe  onde. Nunca soubeste, ao certo, onde ficava Alfarelos. Se é que existe no mapa. Mas deve existir. Nunca lá foste. Aprendeste de cor e salteado a dizer todas as linhas do caminho de ferro. E todos as estações e apeadeiras. Na tua 4ª classe. Mesmo que nunca tivesses andado de comboio. Nasceste à beira-mar. Alfarelos é algures no teu país profundo. Assim como Freixo de Espada à Cinta. Que ninguém conhece. Nem onde fica."Isso é para lá de Freixo de Espada à Cinta",diz-se no Algarve.

Vieste de boleia. Muito obrigado. De Viseu. Aguardas o Alfa Pendular para Lisboa. Aliás, Lisboa SA. Deve chegar às 15:16h.
── Lisboa, Santa Apolónia ?
── Não, Lisboa, Sociedade Anónima!
 
Corriges o caixa d'óculos e boné de pala por detrás do guiché. Não, não queres Santa Apolónia. Queres a Estação de Lisboa Oriente. E depois... o que diria o Zé (Cardoso Pires)!
── Lisboa, SA!

Pergunta o míope, caixa de óculos, por detrás do bunker,  e que  fala em nome da CP.
── Conforto ou turística ?

Olha para ti, como se te quisesse tirar as medidas. Ou adivinhar a tua secreta conta bancária.
──  2ª classe, se faz favor!
──  Turística...

... 2ª classe, por defeito. Para quem não ostenta sinais exteriores de riqueza. Classe B.

E tu a pensar ingenuamente que já não havia 2ª classe. Comboios de 2ª classe.  
Gente de 2ª classe. País de 2ª classe no desconcerto das nações. (Ah!, velho José Rodrigues Miguéis, e a tua gente ainda  de 3ª classe. Nos porões nauseabundos dos cargueiros, que rumavam ao Novo Mundo. Às Américas. Aos Brasis.)

Deves ter percebido mal. Os comboios e a CP também se democratizaram. Agora só há conforto e turística. No alfa pendular de todas as emoções e condições. O Portugal SA já não é mais classista.
── Vê-se mesmo que o senhor é um utente acidental da CP. Já não há 2ª classe, meu caro senhor.

Tens tempo. Ou penses que tens tempo. Nada como esperar um comboio  numa estação de tipo B. Para saber o que é isso de ter tempo. É bom ter tempo. Uma hora de avanço. Nada de stresse. Não penses na morte. Nem no barqueiro de Caronte. Que o stresse pode matar como uma bala de Kalash.

Pedes uma sandes manhosa no bar da esquina. Bebes uma topázio que é uma cerveja local. Compras o Zé Cardoso Pires no quiosque. A república dos corvos. Um livro de contos. Colecção Mil Folhas, do jornal 
Público. Cinco euros.   

Deambulas no cais de embarque  Como o prisioneiro no pátio da prisão. E lês a única coisa interessante que está afixada na parede da estação de Coimbra B. Alguém mandou afixar. Crês tu que em bronze (és mau em metais): 

"Neste cais da estação de Coimbra, embarcou,
No dia 15 de Maio de 1982, 
Sua Santidade, o Papa João Paulo II".

O artista não quis desqualificar a estação nem a cidade. Coimbra B ?!...  
O que diria a corte papal! Os grandes deste mundo! E os turistas que visitam a cidade dos doutores! E os vindouros! E até os arqueólogos daqui a mil anos.

Mas lá está a tabuleta. Para a história. Para o viajante distraído, apressado. Ou se calhar para ninguém. Só para a História. Mesmo que já não haja  História com H grande daqui a mil anos.

Afinal, quem lê neste país ? Para mais, placas de bronze. Afixadas em estações B da CP. Aliás, quem lê neste país ? Um dia um arqueólogo, um historiador ou um antiquário desaparafusa a placa e leva-a para casa, para o museu ou para a loja de antiguidades. Ou para a feira da Ladra.

Não, nada acontece em Coimbra B. Mas por aqui passou um peregrino. João Paulo II. Um dia,  em 1982. Por aqui passou Jesus Cristo, na pessoa do seu representante na terra. Diziam que era polaco. Nunca lhe viste o passaporte diplomático ou a certidão de nascimento. És mau em metais e em teologia. Mas esta é a tua leitura. Pede desculpa à CP. E aos edis.  E aos lentes de Coimbra. E, claro,  a Sua Santidade.

Chega o Alfa. Just in time. Como na linha de montagem automóvel pós-taylorista da AutoEuropa. Entras no Alfa e sentes-te quase europeu. Na ponta mais ocidental da Europa acidental. Com o Mondego aqui ao lado. Comparado com os grandes rios da Europa, só pode ser de 2º ou 3ª classe. o rio. Admiras a eficiência das sociedades pós-tayloristas e cosmopolitas. A tua nunca chegou a conhecer o Sr. Taylor, n
em os seus principles of scientific managementProvinciana e ronceira, a tua terra, lá diria o Eça.

Acelera o Alfa. Tens uma secreta vertigem suicidária pela alta velocidade. Dás por bem empregues os teus 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%. Isto faz bem à tua autoestima. Uma voltinha no carrossel da tua infància, na feira de setembro, custava uma moedinha.

Faz bem ao teu ego que não pode ser grande num país que vê passar os combóios.  Sobretudo depois da sandocha manhosa e da topázio morna que engoliste, de pé, ao balcão, do bar manhoso da estação.
── Quanto vai dar ?
──  Chega aos 200 ou mais! ── d
iz-te um puto de brinco na orelha...

Não apostaste. Nem gostas de apostas. Deixaste de ser solidário. Não compras a lotaria nem jogas ao totobola. Que te desculpe a Santa Casa da Misericórdia. E os pobrezinhos que ela sustenta há séculos.
── Umas cartas para passar o tempo ?

Respondes que não, obrigado. Que não tens vícios, não jogas, não apostas, não fumas.  Tens livros para ler. Trabalhos de alunos para rever.

Abranda o Alfa lá para os lados da Albergaria dos Doze.  Regressas à idade média da tua memória pátria. O caminho de Santiago. As albergarias. Já em  terra que foi dos mouros. La folie meutrière de la réligion. Alá é grande e tem muitos profetas. Eram bons hortelãos, os mouros e os moçárabes. 
── Chega à tabela. 
Dezassete e seis na Estação do Oriente, em ponto 
──diz-te o pica, orgulhoso.
── Até que enfim que os comboios partem e chegam à tabela, na nossa terra.

Ficas sempre com um pontinha de  inveja quando vais a Amesterdão e a Leiden. Quando ias à Holanda, que agora já não vais. Queres dizer, ao estrangeiro de fora.
── Vai desejar tomar alguma coisa ? 
── pergunta,  no futuro próximo, o homem do chá-café-laranjada...
── Um Prozac, por favor.
── Lamento, mas já não temos. Esgotou-se.
── Sim ?
── Esgotou-se na última viagem que fizemos ao inferno. 11 de março último. Do ano da graça de 2004. Estação de Atocha. 
── Atocha ?
── Sim, Atocha, Madrid...Não lê os jornais ?!

Respondes que não, não lês jornais nem vês tekevisão. Esclareces que acabas de chegar do Kavaquistão.
── En Madrid existen dos estaciones principales de tren: Chamartín y Atocha. Ambas son estaciones de trenes de largo recorrido y de cercanías...
── Muchas gracias
── respondes tu, que não sabias do caso.

Não sabias. Não vais a Madrid há anos.  Estás de costas para a Europa.
── Atocha está situada en la zona sur de la ciudad, muy cercana al centro. Desde ella salen todos los trenes de largo recorrido que van a levante y al sur de España.

O homem teve pena da tua ignorância.
──También algunos trenes de los que pasan por la estación se dirigen luego a Chamartín. Y luego a destinos en la mitad norte de la península. Dentro de la estación hay otra estación llamada Puerta de Atocha desde donde sale el tren de alta velocidad (AVE) que va a Andalucía...
── Muchas gracias!
── repetiste.

Vê-se que o homem do chá-café-laranjada é viajado.
── Só faço a península ibérica.
── Ah!, a jangada de pedra...
── Perdão ?!... Sabe, nasci no Entroncamento, filho e neto de ferroviários. Os comboios estão-me na massa do sangue... Mas a Espanha para mim es pura emoción. Uma tragédia horrível, aquela...
── E não tem medo do futuro dos comboios ?
── Não... Com os aviões passou-se o mesmo. Piratas do ar. Bombas... Enfim, um homem tem que ganhar a vida. De qualquer jeito.
── Deixe, a vida continua... O terrorismo, as guerras, tudo isso  passa.
 
Acabas por pedir-lhe um compal de maçã. Para te distraíres da conversa sobre Atocha. Não  penses mais  em bombas nas casas de banho das carruagens dos comboios. Não tem graça nenhuma um gajo morrer. E muito menos pulverizado na minúscula casa de banho de um comboio. Sob uma bomba-relógio. 

Não costumas pedir compal de maçã. Não sabes por que razão pediste o raio do compal.   Que é coisa rara, tomar o comboio. E muito menos pensar em bombas. Houve um tempo em que pensavas em minas. Anticarro. Antipessoais. Minas. Bailarinas. O ballet da morte. Debaixo das Berliet, GMC, Unimog. E dos teus pés.

Nasceste numa terra onde não passavam comboios. É um estranho sentimento, esse, que te acompanha desde pequeno. Mas o compal de maçã até não é mau. E dizem que vale mais do que uma chávena de café  para te tirar o sono. Antes de partires às 3 da manhã, para a Ponta do Inglês.
── Ponta do Inglês ?!...

Ali na Foz do Corubal. A 4 mil quilómetros de distância. Na aldeia gflobal. Aonde não chegava o obus do Xime. Que era de 10.5 cm de diâmetro. Era curto, e tenso, o tiro do obus.

Saíste cedo da casa de teus pais,  ainda menino e moço! É a voz do sangue,  o teu lado de marinheiro que nunca foste. Em boa verdade, detestas os entroncamentos. Rodo ou ferroviários. As picadas. Os trilhos. Os cruzamentos. Detestas o Entroncamento. Da primeira vez que lá passaste. Meia de dúzia de casas mal caiadas. Uma feixe de linhas e cheiro a óleo e a sucata. 

Mas tens a nostalgia dos cais de embarque. A nostalgia do mar e da maresia. Uma palavra que mexe comigo. Cais. Cais de embarque. Cais de partida. Niassa. Rocha Conde de Óbidos. Num comboio que veio da noite, silencioso e triste. Do Campo Militar de Santa Margarida. Destino: Lisboa. Com carga para outro destino: Bissau. Mercadoria=carne para canhão, alguém escreveu, a spray. Na calada da noite. Um grafito na última carruagem. Na primavera de 1969. Numa outra primavera que não chegou a haver.
── ... Política, meu estúpido!

A primavera política do Marcelo Caetano. Eras jovem. E não vias a luz ao fundo do túnel do Rossio. Nem muito menos as luzes da cidade-luz. Paris. Perdeste o último comboio para Paris. Com o teu amigo que queria ser pintor. Fernando Nobis. Com paragem, talvez em Atocha. Sabias lá o nome da estação. Nuncas saído do teu país vigiado. Para visitar o Greco, o Velasquez, o Goya, os grandes de Espanha que estão no Prado...
── És doido, ou quê ?! 
Com a Pide à perna, mais os carabineiros da Guardia Civil!

Fazia sol e frio em Viseu. O país profundo. O país que mexe, dizem-te. Gostas sempre de ler os jornais da terra quando estás no hotel. Duas estrelas, o hotel.  
Novo, a cheirar a tinta. Mobiliário reles. Decoração de mau gosto. 
Bom serviço. Comida caseira.  Faces rosadas da moça do bar. Mas faz frio à noite.
── Voyeurismo!  ── pensa ela, a rapariguinha do bar.

Oito páginas, entre notícias locais e os pequenos anúncios classificados. Duas páginas de anúncios pessoais. Cor de rosa.
"A brasileira do bumbum"... "A universitária que faz oral"..."A mulatchinha dengosa"...

Linguagem de código. A semiótica da solidão. Do sexo triste e solitário.
── Ah!, mas Viseu, como cresceu, meu Deus!

E Deus que andava distraído. Não sabes se cresceu bem... Não és de cá. O Politécnico.  O túnel de Viriato. Os colóquios. Os debates.  As ideias.
 Os intelectuais e artistas que vêm de fora. O comércio. O fórum, que há-de vir. A Grande Área Metropolitana de Viseu. Quase 400 mil. O orgulho de se ser do Kavaquistão. E onde mandam os que aqui lá estão.

 O que é feito do RI 14 ? Não sabes ? O glorioso  Regimento de Infantaria ?! A guerra acabou, baby. Foi bom para a cidade. A tropa. O  regimento. Sempre animava o comércio.
── Ruas, estás de granito!  ── diz o grafito. (Ruas é o chefe da tribo, presumes).

Nada como um bom grafito na terra do Grão Vasco:
── Apreciem o lado empreendedor dos beirões. 
── Só falta a Universidade, que mais de 10 mil estudantes do politécnico  já cá temos.
── Tiraram-nos a Faculdade de Medicina, os sacanas da Covilhã.

Outro lóbi beirão, o da Covilhã. Registas o orgulho dos  miúdos e miúdas da Associação de Estudantes  da Escola Superior de Enfermagem de Viseu que realizam anualmente as suas jornadas. E que já andam de capa e batina. Para quando chegar a universidade.

O país mexe. Viseu mexe. O país profundo mexe. O Kavaquistão mexe. Os jovens deste país mexem. Mesmo com capa e batina, vestidos de preto como o corvo do Zé (Cardoso Pires).

16:30h. Passaste o corpo pelas brasas. Perdeste um pedaço de mundo. 
Revisitaste outros infernos. Xime. 
Ponta do Inglês. 
── O Alfa vai a 140, ó puto.

Temperatura: 19º interior. 20º exterior. Lês no tabelau de bord.

── Mas agora abranda. 129, 101, 74, 52... Parou.


Uma placa com um S, outra com um M. Não percebes nada da sinalética dos comboios. Obras. Modernização da linha. Tens um pensamento piedoso e nobre para com os trabalhadores anónimos que constroem as novas linhas dos caminhos de ferro do futuro. Ucranianos. Africanos. Guineenses. Imigras. Clandestinos. Não se lhes vê nem a cara nem o passaporte. Podiam estar a trabalhar na estufas de Almeria. O inferno na terra. Mas aí são magrebinos. O novo proletariado do século XXI.

Desces na Oriente. O empresário a teu lado puxa do telemóvel.
── Mandem alguém da empresa vir buscar-me.
── Eh, cara, dá o Benfica na esporte tê vê.

E de novo o Alfa em marcha... A paisagem muda. A paisagem industrial da bacia do Tejo. A ocupação selvagem da lezíria. Mataram os campinos e o gado bravo. E os flamingos. E as ostras. Les petites portugaises.  O branqueamento de dinheiro que vai por essa nova Lisboa do Próximo Oriente. Depois da Exzpo-98. A luxuriante estação do Oriente. A ostentação dos ricos. Calatrava.

Just in time. 17:06h. Chegaste. Balanço do cliente que, enganado, pensava que já fosse o TGV.
── O TGV é que era!

Não, não  é o TGV, meu caro senhor. Um dia há de chegar. Assegura o caixa d'óculos da CP. E boné de pala. E mangas de alpaca. Sempre ficas mais tranquilo. Não é o TGV. Mas há de chegar um dia. Mesmo que passe ao largo da Coimbra B. A 300 à hora. Mas por ti, não desgostaste. De viajar no Alfa Pendular. Turística, claro. De Coimbra B a Lisboa SA.  

Tiveste tempo para (des)arrumar algumas ideias.

── O país que via passar os comboios...

E o puto tinha razão:
──
Na ponta final, o Alfa Pendular dá mesmo os 210.

Um dia ainda vais ter orgulho na CP. E na terra onde nasceste à beira-mar. E onde nunca viste sequer passar os comboios. Os comboios não passavam na tua terra. Nem ainda chegam a Viseu. 

Um abraço aos Viriatos. Até para o ano. Voltarás, se te convidarem. Virás de autocarro. Expresso. Por esses ipês acima. Com regresso de comboio. Se não sabotarem o comboio que pára em Coimbra B. 

E prometes ao barman que não te esquecerás de Atocha. Sobretudo não esquecerás Atocha. Nem a Ponta do Inglês. Quando voltares a Coimbra B. Outra vez. Não esquecerás as bombas de Atocha. Nem as minas e armadilhas da Ponta do Inglês. Muito menos os RPG. E as Kalash. E o jagudi da morte que te espreitava do alto do poilão.

25/3/2004. Revisto em julho de 2026
________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 25 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27150: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (43): Oficial e cavalheiro

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Guiné 61/74 - P26050: E as nossas palmas vão para... (25): Jéssica Nascimento, neta do nosso camarada Luís Nascimento, de Viseu, ex-1º cabo op cripto, CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim, 1969/71)...Pela sua pronta e generosa colaboração na cedência de imagens do T/T Niassa



Viseu > 2014  > A Jessica Nascimento, que vive em Viseu, é neta do Luís Nascimento (ex-1.º Cabo Cripto na CCAÇ 2533, Canjambari e Farim, 1969/71) e sua "secretária particular" (é ela que nos manda, através do seu email, a correspondência do avô).  Ela tem muito orgulho em dizer que é, naturalmente, a "a melhor neta do mundo"...Avô e neta são dois membros da Tabanca Grande,o que é caso raro... 

Foto (e legenda): © Jessica Nascimento (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Tudo começou, em meados de agosto passado, com um pedido da investigadora Maria José Lobo Antunes (ICS-ULisboa):

terça, 20/08/2024, 15:12

Caro Luis Graça,

Espero-o bem.

Sou investigadora da Universidade de Lisboa e faço parte da equipa da Confederação, colectivo de investigação teatral do Porto, que está a trabalhar no projecto Memoratório... Miragaia foi à guerra. Em pesquisas no vosso blogue, deparámo-nos com esta fotografia do navio Niassa e gostariamos de saber se vos é possível ceder-nos uma digitalização de boa qualidade.

Muito obrigada pela vossa ajuda.

Cumprimentos, Maria José Lobo Antunes

ICS-ULisboa
últimas publicações | latest publications Ninguém faz a guerra sozinho, Topoi (Rio J.) 2023 | Curating the Past, Photography in Portuguese Colonial Africa, 2023 | Instantes da guerra, Mensário do AHS, 2023| A crack in everything, History and Anthropology 2022.



2. Resposta do nosso editor Luís Graça:

22/08/2024, 10:47

Olá, Maria José... (Devemos ter-nos encontrado na Escola Nacional de Saúde Pública, há muitos anos, não ?!)

Quanto ao seu pedido... Temos mais de 60 referências ao N/M Niassa, um ícone da guerra colonial...(também fui nele para a Guiné, em 24 de maio de 1969, eu e mais 1700 militares, entre eles o futuro dirigente do PCP, o Jerónimo de Sousa)... Vou ver se lhe arranjo duas ou três boas fotos...

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2019/11/guine-6174-p20365-album-fotografico-de.html

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2021/11/guine-6174-p22722-nossa-guerra-em.html

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2012/12/guine-6374-p10864-efemerides-114-22-de.html

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/02/guin-6374-p2533-o-cruzeiro-das-nossas.html

... Mas, se calhar, a melhor foto ainda é deste sítio sobre antigos navios da marinha mercantes:

https://www.geocities.ws/naviosvelhos/niassa.jpg


Boa saúde, bom trabalho, Luís Graça



3. Resposta da investigadora:

2 set 2024, 11:54

(...) Muito obrigada pela sua pronta resposta e desculpe a demora na minha reacção, mas estive de férias.

É verdade, cruzámo-nos na Escola Superior de Saúde Pública, provavelmente em 2003 :-)

Para os filmes nos quais estamos a trabalhar, interessar-nos-iam fotografias que mostrem o navio com soldados.

Acha que será possível obter cópias digitaliizadas de boa qualidade das fotos 1 e 2 desta página e a 2ª foto desta página?

Obrigada e um abraço, Maria José

4. Esclarecimento posterior de Luís Graça:

27 set 2024, 16:43

Maria José: logo por azar essa foto é uma reprodução de uma outra, de má qualidade, numa brochura fotocopiada, "Histórias da CCAÇ 2533"... 

Tente entrar em contacto com a Jéssica Nascimento, neta do nosso camarada Luís Nascimento, o editor do livro, que vive em Viseu... A Jéssica pode agora viver fora de Viseu, na altura era estudante. Há anos que não contacto com ela (o avô não tinha email quando entrou para o blogue, ela é que é/era o elemento de contacto). Dou-lhe conhecimento desta mensagem. Ela se puder, ajuda-nos. (...)


5. A Jéssica Nascimento, respondeu-nos logo de imediato, às 22:23:



(...) Olá, boa noite! Espero que se encontrem bem.

Amanhã com mais calma vou ver se consigo arranjar a foto. Obrigada! (...)



6. No dia seguinte, 28, às 9:49, respondi à Jéssica Nascimento, que é membro da nossa Tabanca Grande desde 29/10/2014:


Obrigado, minha querida. Um xicoração para ti, um alfabravo para o avô. Luís Graça.


7. E logo nesse dia, às 14:20, a Jessica responde, mandando-nos as imagens pretendidas:

(...) Juntamente com o meu avô, conseguimos encontrar a foto no livro Histórias da C.CAÇ. 2533. A qualidade não é a melhor, mas espero que ajude. (...)



8. Abreviando a troca de emails (ao todo são 21 os emails trocados...), um elemento da equipa da Confederação, o Miguel Ramos, entrou em contacto com a Jéssica, neta do nosso camarada Luís Nascimento (foto à esquerda)":

30 set 2024, 09:30

Olá, Jéssica.

Daqui o Miguel (faço parte da equipa do "Miragaia foi à Guerra").

Antes do mais, muito obrigado pelo cuidado.

Como está a fazer com estas imagens? Está a digitalizar as mesmas ou a fotografar? Pergunto isso, pois, a qualidade está bem melhor do que a que tinhamos, mas nos parece que fotografou e não digitalizou. Estou certo?

Caso isso lhe seja complicado, nós podemos tentar encontrar o livro e digitalizar as imagens.

Lhe deixo [AQUI] link para anteriores Memoratórios nossos, para que melhor entenda a nossa necessidade de boas digitalizações.

Muito grato por todo o seu cuidado. Miguel Ramos

CONFEDERAÇÃO

Morada Rua de Costa Cabral, nº 120, 4200-208 Porto, PORTUGAL
Site http://www.confederacao.pt
Facebook facebook.com/confederacao.pt | Youtube (Click aqui) | VIMEO (click aqui)





Fotos do T/T Niassa, digitalizadas pelo Miguel Ramos / Confederação, com base no livro "Histórias da CCAÇ 2533" (ed. autor, s/l, s/d)



Capa da brochura "Histórias da CCAÇ 2533, ed. de autor, s/l, s/d, elaborada sob a coordenação de Joaquim Lessa, ex-1º cabo quarteleiro, e impressa na tipografia Lessa (Maia); esta publicação é uma obra coletiva, feita com participação de diversos ex-militares da companhia (oficiais, sargentos e praças).

Como tantas outras publicacões, esta brochura faz parte da "literatura cinzenta da guerra colonial" (que não chega, infelizmente, à Biblioteca Nacional de Portugal, nem à PORBASE - Base de Dados Bibliográficos Nacionais):  um exemplar em papel e em formato digital, chegou-nos às mãos através do empenho do Luís Nascimento.  

Com a autorização do editor e autores demos a conhecer aos nossos leitores as andanças do pessoal da CCAÇ 2533 (Canjambari e Fararim, 1969/71)... Recordo que a minha CCÇ 2590 (mais tarde CCAÇ 12), e a CCAÇ 2533, do Nascimento e do Lessa, viajaram, juntas no mesmo T/T, o Niassa, em 24 de maio de 1969, tendo nós regressámos juntos, a 17 de março de 1971, no T/T Uíga, uma incrível coincidência!... (LG)

9.  Sempre amável e prestável, a Jéssica sugeriu ao Miguel Ramos o empréstimo  do livro para efeitos de digitalização:

30 set 2024, 21:07:

Boa noite Sr. Miguel.

Prefere que lhe envie o livro para a morada em baixo indicada? Talvez seja mais útil. Quando não precisar mais, envia para a minha morada. (...)


10. E assim aconteceu: a Jéssica cedeu o livro, em papel, "Histórias da CCAÇ 2533" (que não existe na Biblioteca Nacional...) e foram feitas as devidas digitalizações:

3 out 2024, 11:32

Bom dia,  cara Jéssica.

Livro recebido e digitalizado.
Partilho abaixo as fotografias:

FOTO 1 [AQUI]
FOTO 2 [AQUI]
FOTO 3 [AQUI]

Hoje mesmo o livro regressa a Viseu com um pequeno souvenir:)

Quando chegar nos avise sff.

PS: estamos em contactos com Viseu, a tentar levar aí o Caderno e as Photo-conversa em 2025.

Abraço nosso desde o Porto, Miguel Ramos (...)
11.  Da nossa parte, podemos dizer que levámos a "carta a Garcia"...
Temos consciência de que o nosso blogue é (ou pode e deve ser também) fonte de informação e conhecimento, prestando, de algum modo, um "serviço público" a todos os antigos combatentes, mas igualmente a todos/as aqueles/as que se interessam pelo estudo da guerra do ultramar / guerra colonial. 
Na medida dos nossos escassos recursos humanos,  financeiros e técnicos (o blogue é uma iniciativa "pro bono", e vive da carolice de alguns de nós),  vamos dando resposta aos pedidos que nos chegam, desde produtores de cinema e televisão a jornalistas, de doutorandos e mestrandos  e demais investigadores (em ciências sociais e humanas) a familiares de antigos combatentes, etc.
A nossa Jéssica Nascimento (e, por tabela, o seu avô) merece as nossas palmas pela forma célere e generosa  como respondeu ao nosso pedido.
Daremos oportunanente notícia do evento “Memoratório… Miragaia foi à Guerra” – Confederação & Maria José Lobo Antunes, a realizar no Porto:
  • Data: Sábado, 4 de novembro de 2024
  • Horário: 17:00
  • Local: Auditório do Grupo Musical de Miragaia
  • Endereço: R. da Arménia, 10-18, Porto
  • Entrada: Gratuito
________
Notas do editor:
Último poste da série > 5 de janeiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25037: E as nossas palmas vão para... (24): Nuno Rubim (1938-2023), autor do Diorama de Guileje, uma pequena obra-prima, que levou dois anos de trabalho, paixão, rigor... Foi oferecido, em 2008, ao Núcleo Museológico Memória de Guiledje

terça-feira, 7 de março de 2023

Guiné 61/74 - P24126: Tabanca Grande (546): António Figueiredo, ex-sold cond auto, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67); natural de Sátão, Viseu, vive em São Domingos de Rana, Cascais; senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 873



O António Figueiredo, hoje e ontem... Senta-se, a partir de hoje, 
no lugar nº 873, à sombra do poilão da Tabanca Grande.


Fotos (e legenda): © António Figueiredo (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do António de Almeida Figueiredo, ex-soldado condutor auto, nº 8563364, CCAÇ 1439 (1965/67):

Data - 06/03/2023, 16:02

Assunto - Pedido de Adesão ao Blogue Combatentes da Guiné

Conforme indicação do Amigo Crisóstomo, junto envio os seguintes elementos:

Duas fotografias, uma antiga (Guiné); a outra é a atual.

Chamo-me António de Almeida Figueiredo, sou natural de Satão, Viseu e resido em S. Domingos de Rana, Cascais.

Fui combatente na Guiné, incorporado no BII 19, CCAÇ 1439 , Funchal, desde 17 de Agosto de 1965 até 18 de Abril de 1967.

Tenho falado várias vezes sobre este tema com o Crisóstomo, que muito estimo e, apesar de só agora solicitar adesão ao blogue, reconheço a sua grande importância.

Na Guiné estive colocado, por mais ou menos tempo, em Bambadinca, Xime, Missirá, Enxalé e também com deslocações a Porto Gole, como condutor auto. Foi numa destas deslocações, em 21-8-1966 que tive a experiência real do risco constante, com a explosão de uma mina anticarro  (**) que eu conduzia e em simultâneo sofremos uma grande emboscada que só terminou com o auxílio da Força Aérea. Felizmente não houve mortos mas houve vários feridos graves, incluindo o nosso médico. Na viatura destruída seguia ao meu lado o Alferes Crisóstomo.

Um abraço, António Figueiredo



CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67): tem 107 referências no nosso blogue. E além do João Crisóstomo e do Júlio Martins Pereira (1944-2022), passa a ter mais um representante na Tabanca Grande, o António Teixeira...


2. Mensagem do João Crisóstomo, ex-alf mil, CCAÇ 1439 (1965/67):

Data - 06/03/2023, 21:53

Meus caros,

Quando pensava que já não valia a pena qualquer esforço meu para trazer mais alguém da CCaç 1439 para a nossa Tabanca, sucedeu o milagre: como o Figueiredo alegava não ser perito em coisas digitais eu pedi à esposa dele, a senhora Emília, que tinha apanhado o telefone quando chamei, que o ajudasse, uma vez que ele afirmava ter gosto em fazer parte do blogue.

Por ocasiões e experiências anteriores,  eu sabia da simpatia e amabilidade da senhora Emília. Este feliz desenvolvimento deve-se a ela. Bem haja. Fico aguardando com antecipação o podermo-nos encontrar pessoalmente de novo para, em nome dos muitos que se regozijam pela entrada do Figueiredo na nossa Tabanca, lhe dar um beijinho de apreço e gratidão. É que este feliz desenlaço vai-me ainda dar a possibilidade de "explorar mais um pouco”: vou telefonar de novo ao Teixeira e outros, que também manifestaram boas intenções de um possível ingresso na Tabanca, na esperança de que o exemplo do Figueiredo sirva de inspiração e motivação...

Como ele menciona na sua apresentação, eu e o Figueiredo estamos de alguma maneira especialmente ligados na nossa experiência da Guiné (Vd. poste P22478,  de 23 de Agosto de 2021) (**) por termos sido projectados pelos ares por uma mina em que houve muitos feridos, possivelmente mortos. E digo possivelmente mortos pois que dos vários que na altura foram evacuados de helicóptero para Bissau (incluindo o médico Francisco Pinho da Costa que tinha partido as pernas), de alguns deles nunca soubemos mais nada. A nós os dois, salvo o grande susto, não nos aconteceu nada.

Além das fotos agora recebidas, encontrei duas fotos feitas num encontro/convívio em 26 de maio de 2012, no restaurante Solar Verde Gaio, em Viseu, da CCaç 1439, Pel Caç Nat
52 e 54 e dois pelotões de  morteiros 81 que foi organizado pelo Figueiredo. 

Tenho uma pena enorme, muito grande mesmo, de já não os poder identificar todos. Com sinceras desculpas àqueles que cujos nomes não me lembro mais (é a tal “…” da idade!) não quero deixar de identificar os que ainda lembro bem (Foto nº 1)
 
«

Foto nº 1 > Viseu > Restaurante Verde Gaio > 26 de maio de 2012 > Convívio do pessoal da CCAÇ 1439, organizado pelo António Figueiredo. 

"Na linha da frente, na Foto nº 1, meio ajoelhados, da esquerda para a direita (entre parênteses o número de ordem atribuído pelos editores): furriel Farinha (já falecido) (1); alferes Freitas (Funchal) (2); o nosso novo tabanqueiro António Figueiredo (3): Pimentel (4), e outros dois cujos nomes me escapam (5 e 6)

Na segunda fila de pé, também da esquerda para a esquerda: furriel Neiva (7); furriel Teixeira (Faro) (8); alferes Sousa (V. N. Famalicão) (9); a seguir não lembro os nomes daqueles com os números 10, 12 e 14; eu sou o número 11 e o falecido furriel Octávio (dos autos) ocupa o penúltimo lugar (13)".


Foto nº 2 > 
Viseu > Restaurante Verde Gaio > 26 de maio de 2012 > Convívio do pessoal da CCAÇ 1439 (mais Pel Caç Nat 52 e 54) e dois pelotões de morteiros 81, um deles o Pel Mort 1028), organizado pelo António Figueiredo.

"Nesta segunda foto aparecem todos os participantes (penso eu), neste convívio. O reduzido número de participantes deve-se ao facto de as praças (soldados) da CCaç 1439 serem todos da Madeira".

Nota do editor LG: do restante pessoal (não pertencente à CCAÇ 1439), reconhecemos na primeira fila,  na ponta esquerda, o nosso saudoso Jorge Rosales (1939-2019), o Manuel Calhandra Leitão, o "Mafra" (do Pel Mort 1028) (o nº 6 da segunda fila, a contar da direita para a esquerda), o Mário Beja Santos (do Pel Caç Nat 52, o penúltimo desta fila, ao lado do João Crisóstomo). O mais alto da terceira, fila, ao centro, é o Henrique Matos, que foi o primeiro comandante, em 1966/68, do Pel Caç Nat 52.

Fotos (e legendas): © João Crisóstomo (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

3. Comentário do editor LG:

Antes de mais um grande abraço de boas vindas ao António Figueiredo, que se passa a sentar no lugar nº 873, e fica sob a protecção do nosso mágico, simbólico, fraterno poilão da Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas, a única em que todos nós, os antigos combatentes da Guiné, cabemos com tudo o que os une e até com aquilo que os pode separar (política, religião, futebol, etnia, armas, postos...).

De acordo com as nossas regras, como antigos camaradas de armas que fomos, tratamo-nos por tu. Já lá vai o tempo do antigo regime de "apartheid" que vigorava na tropa (e depois na Guiné), com as "três ordens (nobreza, clero e... povo)" devidamente segregadas, socioespacialmente falando... 

Depois do João Crisóstomo e do saudoso Júlio Martins Pereira, tu és o terceiro elemento da CCAÇ 1439 a integrar a nossa Tabanca Grande. O que também é uma honra para todos nós, sabendo-se que a maior parte do pessoal era de origem madeirense e está muito provavelmente espalhado pelos quatro cantos do mundo, na diáspora lusófona. 

O "Mafra", o Manuel Calhandra Leitão, que era do Pel Mort 1028, e esteve convosco, ao longo da comissão, também nos dá a honra da sua presença na Tabanca Grande. Somos uma comunidade virtual de antigos combatentes, que desde há 18 anos procura preservar e divulgar as suas memórias da Guiné. De 2006 até 2019, também realizámos encontros anuais (catorze ao todo). Foram interrompidos com a pandemia, vamos lá ver se conseguimos juntar forças para reeditar esta iniciativa. O último, o XIV Encontro Nacional da Tabanca Grande realizou-se em Monte Real, Leiria, em 25 de Maio de 2019.

O teu nome, António Figueiredo, passa a figura na lista alfabética da Tabanca Grande, de A a Z, constante na "badana" (ou coluna estática) do blogue, do lado esquerdo. Dos nosso 873 (contigo) membros, já faleceram, infelizmente, cerca de 15% (132).

Podemos dizer que entras pela mão de um "padrinho", o João, a quem eu trato por mano e com quem falo com frequência, à distância. Ele nasceu perto de mim, em A-dos-Cunhados, Torres Vedras, eu sou do concelho vizinho, Lourinhã. Há muito, desde 1977, como sabes, que ele vive em Nova Iorque. Mas de vez em quando dá-nos o prazer da sua visita, dele e da sua querida Vilma. Pode ser que a gente, um dia destes, se encontre, aqui para os lados do Oeste, já que tu também não estás longe, vives em São Domingos de Rana, Cascais. 

António, também nos podemos encontrar, em Algés, na Magnífica Tabanca da Linha, de que um dos cofundadores e grande animador foi o nosso Jorge Rosales, já falecido o ano passado (vd. foto nº 2). Costumamos anunciar, no nosso blogue, a realização dos convívios da Tabanca da Linha: vê aqui a págjna do Facebook. Há malta de São Domingos de Rana, que costuma aparecer. Os almoços-convívio realizam-se, em geral, de seis em seis semanas, às quintas-feiras, no restaurante A Caravela, D'Ouro, em Algés.

Parabéns à tua esposa Emília, que te ajudou a chegar até nós. Também estamos no Facebook, vê aqui a nossa página, Tabanca Grande Luís Graça. E, claro, parabéns ao teu "padrinho", João Crisóstomo, cuja dedicação ao nosso blogue eu tenho que aqui destacar e agradecer em público. Tomo a liberdade de citar aqui um excerto do mail que ele te mandou a ti e mais camaradas da CCAÇ 1439, convidando-vos, mais uma vez, a juntarem-se à nossa Tabanca Grande:

(...) Tenho mesmo pena que a nossa CCaç 1439 esteja tão pouco representada em meios escritos… Seria bom que mais alguém aparecesse  para que a nossa CCaç 1439 num futuro próximo não passe quase despercebida! 

 Além disso eu gostaria de não me sentir tão sozinho, mas antes ter o gosto de ver a nossa querida CCaç 1439 mais e melhor representada neste blogue que é sem dúvida o melhor meio de nos lembrarmos uns dos outros, de lembrarmos tudo o que passámos e vivemos na Guiné. " (...)

PS 1 - Já agora, António, sendo tu natural de Sátão, distrito de Viseu, sabes quantos conterrâneos teus morreram na guerra do ultramar / guerra colonial? Foram, dezassete, sendo quatro no TO da Guiné. Podes ver aqui os seus nomes.

PS 2 - Se quiseres que a gente te faça, no dia do teu aniversário, um "cartanito de parabéns", tens que nos indicar a tua data de nascimento (sabemos, pelo João, que vais fazer 80 aninhos no próximo daí 11 de novembro)... Comunica connosco, e manda mais fotos e algumas pequenas histórias.

PS 3 - Esqueci-me de te dizer que também andei, em 1969/71, pelos mesmos sítios onde tu e os teus camaradas da CCAÇ 1439 penaram:  Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, entre outros...
___________

Notas do editor:

(*) Último poste da série > 26 de fevereiro de  2023 > Guiné 61/74 - P24098: Tabanca Grande (545): Corrigindo um lamentável lapso nosso, o José António Paradela (1937-2023) fica connosco, no lugar nº 872... pelo seu contributo para a memória da "Faina Maior"... Parafraseando o capitão Valdemar Aveiro, podemos perguntar: "daqui a uma geração, quem se vai lembrar disto, a guerra do ultramar / guerra colonial e a outra guerra, a da pesca do bacalhau"?!

(**) Vd. poste de 23 DE AGOSTO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22478: CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67): A “história” como eu a lembro e vivi (João Crisóstomo, ex-alf mil, Nova Iorque) - Parte XII: Mina A/C em 21/8/1966, e violento ataque ao Enxalé em 9 de setembro

(...) Do rebentamento do engenho explosivo resultaram danos materiais e físicos:

(i) Destruição de uma viatura GMC;

(ii) Feridos das NT:
  • Alf Mil Médico Francisco Pinho da Costa, do BCAÇ 1888, evacuado
  • 1º cabo 682 1364 José Manuel Afonso Ferreira, evacuado
  • 1º cabo aux. enfer. 647 4664, Alexandrino Pestana F. Leitão
  • 1º cabo 182 6865 Carlos Tibúrcio Nunes
  • 1º cabo 7351565, José Luís Fernandes Martins
  • Soldado condutor 8563364, António de Almeida Figueiredo
  • Sold 22665 António Francisco Caneca de Oliveira
  • Sold 651 7665 Álvaro de Sousa
  • Sold 0483065 José Dionísio Vieira de Castro
  • Sold 09/63 Nagna Chete, da 1ª CCaç
  • Sold da Polícia Administrativa 241/64 , Buli Mané. (...)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Guiné 61/74 - P23973: In Memoriam: Cadetes da Escola do Exército e da Escola de Guerra (actual Academia Militar), mortos em combate na 1ª Guerra Mundial (França, Angola e Moçambique, 1914-1918) (cor art ref António Carlos Morais Silva) - Parte XXXVII: Leopoldo Jorge da Silva, maj art (Viseu, 1868 - Moçambique, 1916)

MORTOS EM COMBATE (MOÇAMBIQUE, 1914-1918)



Leopoldo Jorge da Silva. maj art  (1868 - 1916)


Nome: Leopoldo Jorge da Silva

Posto: Major de Artilharia

Naturalidade: Viseu

Data de nascimento: 29 de Março de 1868

Incorporação: 1890 na Escola do Exército (nº 329 do Corpo de Alunos)

Unidade: Regimento de Artilharia de Montanha (1º Grupo)

Condecorações: Medalha de Prata “Rainha D. Amélia” | Cavaleiro da Real Ordem Militar de S. Bento de Aviz | Medalha da Cruz de Guerra de 1ª classe (a título póstumo) | Promoção a Tenente Coronel por distinção (a título póstumo)

TO da morte em combate; Moçambique

Data de Embarque; 15 de Julho de 1916

Data da morte: 10 de Novembro de 1916

Sepultura: Cemitério de Nevala - Tanzânia

Circunstâncias da morte: Comandando a coluna de Mossari atacou denodadamente, em 8 de Novembro, forças alemãs em Quivambo obrigando estas a retirar com perdas significativas. No combate travado foi ferido com gravidade: Evacuado para o fortim de Nevala, faleceu dois dias depois (10 de Novembro).




António Carlos Morais da Silva, hoje e ontem

1. Continuação da publicação da série respeitante à biografia (breve) de cada um dos oficiais oriundos da Escola do Exército e da Escola de Guerra que morreram em combate, na I Guerra Mundial, nos teatros de operações de Angola, Moçambique e França (*).

Trabalho de pesquisa do cor art ref António Carlos Morais da Silva, cadete-aluno nº 45/63 do Corpo de Alunos da Academia Militar e depois professor da AM, durante cerca de 3 décadas; é membro da nossa Tabanca Grande, tendo sido, no CTIG, instrutor da 1ª CCmds Africanos, em Fá Mandinga, adjunto do COP 6, em Mansabá, e comandante da CCAÇ 2796, em Gadamael, entre 1970 e 1972.

_________

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Guiné 61/74 - P23813: In Memoriam (462): Rui Alexandrino Ferreira (ex-Sá da Bandeira, Lubango, 1943 - Viseu, 2022), ten cor inf ref, ex-alf mil inf, CCAÇ 1420 (Fulacunda, 1965/67); ex- cap mil, CCAÇ 18 (Aldeia Formosa, 1970/72); autor de 3 livros de memórias: Rumo a Fulacunda (2000), Quebo (2014) e A Caminho de Viseu (2017)




Viseu > Regimento de Infantaria 14 > 4 de novembro de 2017 > Sessão de apresentação do último livro do Rui Alexandrino Ferreira, "A Caminho de Viseu" (Coimbra, Palimage, 2017, 237 pp. ) > Um abraço do João Marcelino (que vive na Lourinhã, esteve presente no VII Encontro Nacional da Tabanca Grande, em 2012, e que é amigo do autor desde a Guiné, tendo estado os dois juntos em Aldeia Formosa: o Rui como comandante da CCAÇ 18, o João Marcelino, "Joneca", como alf mil, CCS/BCAÇ 3852).


Foto (e legenda): © Márcio Veiga / Rui Alexandrino Ferreira (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. O Paulo Santiago deu-nos ontem à noite a triste notícia e o João Marcelino acaba de a confirmar junto da família: morreu o nosso Ruizinho, como era carinhosamente tratado o Rui Alexandrino Ferreira (1943-2022).

Estava reformado como ten cor inf. Foi alf mil inf, CCAÇ 1420, Fulacunda, 1965/67; cap mil da CCAÇ 18, Aldeia Formosa, 1970/72). É autor de três livros de memórias.



Rui A. Ferreira
Nota biográfica:

1943 - Rui Alexandrino Ferreira nasce na antiga Sá da Bandeira (hoje Lubango), Angola.

1964 - Integra o último curso de oficiais milicianos que reuniu em Mafra a juventude do Império.

1965 - Rende, na Guiné-Bissau, o alf mil Vasco Cardoso [CCAÇ 1420, Fulacunda, 1965/67], dado como um desaparecido em combate.

1970 - Frequenta o curso para capitão em Mafra, seguindo em nova comissão para a Guiné-Bissau [CCAÇ 18, Aldeia Formosa/Quebo, 1970/72].

1973 - Regressa a Angola em outra comissão.

1975 - Retorna a Portugal.

1976 - Estabiliza em Viseu, onde continua a residir. é ten cor ref.

2000 - Publica, na Palimage, o seu 1º livro, Rumo a Fulacunda: crónicas de guerra 

2014 - Publica o seu 2º livro. Quebo: nos confins da Guiné, igualmente sob a chancela da Palimage.

2017 - Lança um 3º livro, A Caminho de Viseu, nas instalações do RI 14 de Viseu, e sob a mesma chancela, a Palimage.

2022 - Morre, em Viseu, de doença crónica degenerativa (Parkinson); tinha inúmeros amigos e camaradas que o estimavam, acarinhavam e admiravam; era um dos históricos  da Tabanca Grande, tem cerca de 80 referências no blogue.

Para a família e amigos e camaradas mais íntimos, fica aqui esta nota de pesar pela sua perda mas também a nossa homenagem a um grande militar, um bom homem e um melhor amigo que soube partilhar, connosco, em vida, as suas memórias da Guiné. LG

PS - Não temos informação sobre o local e a data das cerimónias fúnebres.
__________

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Guiné 61/74 - P23293: Convívios (928): Almoço/Convívio do BCAÇ 3883, dia 4 de Junho de 2022, em Viseu


ALMOÇO/CONVÍVIO DO PESSOAL DO BCAÇ 3883

DIA 4 DE JUNHO DE 2022 EM VISEU

Boa noite.
Divulgação do Almoço/Convívio a realizar dia 04 de Junho de 2022 em Viseu.

Batalhão Caçadores 3883 - Guiné, 72/74

Subscrevo-me com toda a consideração.
Manuela Rodrigues
(filha do camarada Rodrigues)

Cumprimentos,
Rodrigues

____________

Nota do editor

Último poste da série de 19 DE MAIO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23276: Convívios (927): A Magnífica Tabanca da Linha reabre hoje, em Algés, no Restaurante Caravela de Ouro, ao fim de mais de dois anos de pandemia... Uma luzidia representação do Porto, de "O Bando" (incluindo 3 escritores), vem animar este 48º convívio, já histórico...