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sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28172: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (44): O país que via passar os comboios







Coimbra B, Estação da CP, 25 de março de 2004.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto:  Luís Graça  (2004)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

 

Contos com mural ao fundo: O país que via passar os comboios

por Luís Graça


25 de março de 2004. 14:13h.Coimbra B. Estação da CP. Deprimente. Como todas as estações B do mundo. Como todas as estações da CP. B, de 2ª classe. B, segunda letra do alfabeto. 

Todas as estações de caminho de ferro do mundo são deprimentes. Abres talvez uma exceção para os apeadeiros. São bonitos, os apeadeiros. Ou eram bonitos os apeadeiros da CP. Quando havia o cavador, o burro, o boi e a vaca do presépio, a junta de bois, a charrua. O camponês, o Zé Povinho, camponês e burro. Besta de carga. A horta, a saída direta para os campos. As hortas. Os azulejos azuis  e amarelos da Viúva Lamego. E as quatro estações do ano.

O termo apeadeiro eternece-te, faz-te lembrar os tempos em que se ia às hortas. Tu já não és desse tempo. Mas os alfacinhas iam às hortas dos saloios. Benfica, Porcalhota, Pontinha, Sintra, Caneças, Colares ... Faziam piqueniques, cantavam o fado. Davam vivas à República. E morras ao Rei e ao Papa. E ao Capital. E bebiam vinho pelo palhinhas.

Gostas do termo apeadeiro. E da ideia de ir passear às hortas ao domingo. Quando ainda não havia semana inglesa. E trabalhava-se de sol a sol. Ia-se às hortas ao domingo. Em família, de comboio. Ronceiro, o comboio. Ronceira, a vida da gente.

Leste isso algures numa história qualquer sobre os comboios que unificaram o país de norte a sul. Há uma dívida de gratidão para com os comboios. E para com os homens dos comboios. E os engenheiros das estradas e pontes. E os operários que as construíram.  

Há uma dívida de gratidão, a final, ao Zé Povinho da cidade e dos campos. Pela sua pachorra e paciência. Há uma dívida de gratidão ao engenho e à obra. Ao Fontes. Ao Pereira. Ao Melo. Ao fontismo.  O nome português do capitalismo, leste algures, nas sebentas de história.

Naquele tempo parava-se em todas estações e apeadeiros. E havia tempo, não havia pressa. Não havia stresse naquele tempo, julgavas tu. Colhiam-se papoilas vermelhas no meio do trigo. Não havia tempo para se ter stresse. Morria-se cedo. Até os reis e os regicidas. A esperança média de vida é um artefacto estatístico. Ou nascia-se tarde, fora de horas, sem tempo de ver crescer filhos e netos.

Mas não havia ainda bombas nos comboios. Ao alcance de um qualquer toque de telemóvel.    Que as novas tecnologias quando nascem, (não)  são agora para todos.  

Mentes: há oitenta e tal anos atrás, na França ocupada, os ferroviários também punham bombas. Nas linhas de caminhos de ferro. Sob os carris. Matavam os seus postos de trabalho em nome da liberdade.  

Punham bombas para fazer descarrilar os comboios. Sabotagem. Resistência ao ocupante nazi. Vive la France. Hoje seriam caçados como terroristas internacionais. E julgados no Tribunal Internacional de Haia. Les partisans.

Não és ferroviário nem resistente nem terrorista.  Estás na estação de Coimbra B. Coimbra merecia, pelo menos, uma estação A. Este país, bom aluno da Europa, devia merecer uma letra A. Nem que fosse uma estação de comboios. Coimbra A. Ninguém gosta de ficar em segundo lugar, mesmo no pódio. 

Ouves uma voz gritante, no altifalante: Alfarelos. Com paragem não se sabe  onde. Nunca soubeste, ao certo, onde ficava Alfarelos. Se é que existe no mapa. Mas deve existir. Nunca lá foste. Aprendeste de cor e salteado a dizer todas as linhas do caminho de ferro. E todos as estações e apeadeiras. Na tua 4ª classe. Mesmo que nunca tivesses andado de comboio. Nasceste à beira-mar. Alfarelos é algures no teu país profundo. Assim como Freixo de Espada à Cinta. Que ninguém conhece. Nem onde fica."Isso é para lá de Freixo de Espada à Cinta",diz-se no Algarve.

Vieste de boleia. Muito obrigado. De Viseu. Aguardas o Alfa Pendular para Lisboa. Aliás, Lisboa SA. Deve chegar às 15:16h.
── Lisboa, Santa Apolónia ?
── Não, Lisboa, Sociedade Anónima!
 
Corriges o caixa d'óculos e boné de pala por detrás do guiché. Não, não queres Santa Apolónia. Queres a Estação de Lisboa Oriente. E depois... o que diria o Zé (Cardoso Pires)!
── Lisboa, SA!

Pergunta o míope, caixa de óculos, por detrás do bunker,  e que  fala em nome da CP.
── Conforto ou turística ?

Olha para ti, como se te quisesse tirar as medidas. Ou adivinhar a tua secreta conta bancária.
──  2ª classe, se faz favor!
──  Turística...

... 2ª classe, por defeito. Para quem não ostenta sinais exteriores de riqueza. Classe B.

E tu a pensar ingenuamente que já não havia 2ª classe. Comboios de 2ª classe.  
Gente de 2ª classe. País de 2ª classe no desconcerto das nações. (Ah!, velho José Rodrigues Miguéis, e a tua gente ainda  de 3ª classe. Nos porões nauseabundos dos cargueiros, que rumavam ao Novo Mundo. Às Américas. Aos Brasis.)

Deves ter percebido mal. Os comboios e a CP também se democratizaram. Agora só há conforto e turística. No alfa pendular de todas as emoções e condições. O Portugal SA já não é mais classista.
── Vê-se mesmo que o senhor é um utente acidental da CP. Já não há 2ª classe, meu caro senhor.

Tens tempo. Ou penses que tens tempo. Nada como esperar um comboio  numa estação de tipo B. Para saber o que é isso de ter tempo. É bom ter tempo. Uma hora de avanço. Nada de stresse. Não penses na morte. Nem no barqueiro de Caronte. Que o stresse pode matar como uma bala de Kalash.

Pedes uma sandes manhosa no bar da esquina. Bebes uma topázio que é uma cerveja local. Compras o Zé Cardoso Pires no quiosque. A república dos corvos. Um livro de contos. Colecção Mil Folhas, do jornal 
Público. Cinco euros.   

Deambulas no cais de embarque  Como o prisioneiro no pátio da prisão. E lês a única coisa interessante que está afixada na parede da estação de Coimbra B. Alguém mandou afixar. Crês tu que em bronze (és mau em metais): 

"Neste cais da estação de Coimbra, embarcou,
No dia 15 de Maio de 1982, 
Sua Santidade, o Papa João Paulo II".

O artista não quis desqualificar a estação nem a cidade. Coimbra B ?!...  
O que diria a corte papal! Os grandes deste mundo! E os turistas que visitam a cidade dos doutores! E os vindouros! E até os arqueólogos daqui a mil anos.

Mas lá está a tabuleta. Para a história. Para o viajante distraído, apressado. Ou se calhar para ninguém. Só para a História. Mesmo que já não haja  História com H grande daqui a mil anos.

Afinal, quem lê neste país ? Para mais, placas de bronze. Afixadas em estações B da CP. Aliás, quem lê neste país ? Um dia um arqueólogo, um historiador ou um antiquário desaparafusa a placa e leva-a para casa, para o museu ou para a loja de antiguidades. Ou para a feira da Ladra.

Não, nada acontece em Coimbra B. Mas por aqui passou um peregrino. João Paulo II. Um dia,  em 1982. Por aqui passou Jesus Cristo, na pessoa do seu representante na terra. Diziam que era polaco. Nunca lhe viste o passaporte diplomático ou a certidão de nascimento. És mau em metais e em teologia. Mas esta é a tua leitura. Pede desculpa à CP. E aos edis.  E aos lentes de Coimbra. E, claro,  a Sua Santidade.

Chega o Alfa. Just in time. Como na linha de montagem automóvel pós-taylorista da AutoEuropa. Entras no Alfa e sentes-te quase europeu. Na ponta mais ocidental da Europa acidental. Com o Mondego aqui ao lado. Comparado com os grandes rios da Europa, só pode ser de 2º ou 3ª classe. o rio. Admiras a eficiência das sociedades pós-tayloristas e cosmopolitas. A tua nunca chegou a conhecer o Sr. Taylor, n
em os seus principles of scientific managementProvinciana e ronceira, a tua terra, lá diria o Eça.

Acelera o Alfa. Tens uma secreta vertigem suicidária pela alta velocidade. Dás por bem empregues os teus 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%. Isto faz bem à tua autoestima. Uma voltinha no carrossel da tua infància, na feira de setembro, custava uma moedinha.

Faz bem ao teu ego que não pode ser grande num país que vê passar os combóios.  Sobretudo depois da sandocha manhosa e da topázio morna que engoliste, de pé, ao balcão, do bar manhoso da estação.
── Quanto vai dar ?
──  Chega aos 200 ou mais! ── d
iz-te um puto de brinco na orelha...

Não apostaste. Nem gostas de apostas. Deixaste de ser solidário. Não compras a lotaria nem jogas ao totobola. Que te desculpe a Santa Casa da Misericórdia. E os pobrezinhos que ela sustenta há séculos.
── Umas cartas para passar o tempo ?

Respondes que não, obrigado. Que não tens vícios, não jogas, não apostas, não fumas.  Tens livros para ler. Trabalhos de alunos para rever.

Abranda o Alfa lá para os lados da Albergaria dos Doze.  Regressas à idade média da tua memória pátria. O caminho de Santiago. As albergarias. Já em  terra que foi dos mouros. La folie meutrière de la réligion. Alá é grande e tem muitos profetas. Eram bons hortelãos, os mouros e os moçárabes. 
── Chega à tabela. 
Dezassete e seis na Estação do Oriente, em ponto 
──diz-te o pica, orgulhoso.
── Até que enfim que os comboios partem e chegam à tabela, na nossa terra.

Ficas sempre com um pontinha de  inveja quando vais a Amesterdão e a Leiden. Quando ias à Holanda, que agora já não vais. Queres dizer, ao estrangeiro de fora.
── Vai desejar tomar alguma coisa ? 
── pergunta,  no futuro próximo, o homem do chá-café-laranjada...
── Um Prozac, por favor.
── Lamento, mas já não temos. Esgotou-se.
── Sim ?
── Esgotou-se na última viagem que fizemos ao inferno. 11 de março último. Do ano da graça de 2004. Estação de Atocha. 
── Atocha ?
── Sim, Atocha, Madrid...Não lê os jornais ?!

Respondes que não, não lês jornais nem vês tekevisão. Esclareces que acabas de chegar do Kavaquistão.
── En Madrid existen dos estaciones principales de tren: Chamartín y Atocha. Ambas son estaciones de trenes de largo recorrido y de cercanías...
── Muchas gracias
── respondes tu, que não sabias do caso.

Não sabias. Não vais a Madrid há anos.  Estás de costas para a Europa.
── Atocha está situada en la zona sur de la ciudad, muy cercana al centro. Desde ella salen todos los trenes de largo recorrido que van a levante y al sur de España.

O homem teve pena da tua ignorância.
──También algunos trenes de los que pasan por la estación se dirigen luego a Chamartín. Y luego a destinos en la mitad norte de la península. Dentro de la estación hay otra estación llamada Puerta de Atocha desde donde sale el tren de alta velocidad (AVE) que va a Andalucía...
── Muchas gracias!
── repetiste.

Vê-se que o homem do chá-café-laranjada é viajado.
── Só faço a península ibérica.
── Ah!, a jangada de pedra...
── Perdão ?!... Sabe, nasci no Entroncamento, filho e neto de ferroviários. Os comboios estão-me na massa do sangue... Mas a Espanha para mim es pura emoción. Uma tragédia horrível, aquela...
── E não tem medo do futuro dos comboios ?
── Não... Com os aviões passou-se o mesmo. Piratas do ar. Bombas... Enfim, um homem tem que ganhar a vida. De qualquer jeito.
── Deixe, a vida continua... O terrorismo, as guerras, tudo isso  passa.
 
Acabas por pedir-lhe um compal de maçã. Para te distraíres da conversa sobre Atocha. Não  penses mais  em bombas nas casas de banho das carruagens dos comboios. Não tem graça nenhuma um gajo morrer. E muito menos pulverizado na minúscula casa de banho de um comboio. Sob uma bomba-relógio. 

Não costumas pedir compal de maçã. Não sabes por que razão pediste o raio do compal.   Que é coisa rara, tomar o comboio. E muito menos pensar em bombas. Houve um tempo em que pensavas em minas. Anticarro. Antipessoais. Minas. Bailarinas. O ballet da morte. Debaixo das Berliet, GMC, Unimog. E dos teus pés.

Nasceste numa terra onde não passavam comboios. É um estranho sentimento, esse, que te acompanha desde pequeno. Mas o compal de maçã até não é mau. E dizem que vale mais do que uma chávena de café  para te tirar o sono. Antes de partires às 3 da manhã, para a Ponta do Inglês.
── Ponta do Inglês ?!...

Ali na Foz do Corubal. A 4 mil quilómetros de distância. Na aldeia gflobal. Aonde não chegava o obus do Xime. Que era de 10.5 cm de diâmetro. Era curto, e tenso, o tiro do obus.

Saíste cedo da casa de teus pais,  ainda menino e moço! É a voz do sangue,  o teu lado de marinheiro que nunca foste. Em boa verdade, detestas os entroncamentos. Rodo ou ferroviários. As picadas. Os trilhos. Os cruzamentos. Detestas o Entroncamento. Da primeira vez que lá passaste. Meia de dúzia de casas mal caiadas. Uma feixe de linhas e cheiro a óleo e a sucata. 

Mas tens a nostalgia dos cais de embarque. A nostalgia do mar e da maresia. Uma palavra que mexe comigo. Cais. Cais de embarque. Cais de partida. Niassa. Rocha Conde de Óbidos. Num comboio que veio da noite, silencioso e triste. Do Campo Militar de Santa Margarida. Destino: Lisboa. Com carga para outro destino: Bissau. Mercadoria=carne para canhão, alguém escreveu, a spray. Na calada da noite. Um grafito na última carruagem. Na primavera de 1969. Numa outra primavera que não chegou a haver.
── ... Política, meu estúpido!

A primavera política do Marcelo Caetano. Eras jovem. E não vias a luz ao fundo do túnel do Rossio. Nem muito menos as luzes da cidade-luz. Paris. Perdeste o último comboio para Paris. Com o teu amigo que queria ser pintor. Fernando Nobis. Com paragem, talvez em Atocha. Sabias lá o nome da estação. Nuncas saído do teu país vigiado. Para visitar o Greco, o Velasquez, o Goya, os grandes de Espanha que estão no Prado...
── És doido, ou quê ?! 
Com a Pide à perna, mais os carabineiros da Guardia Civil!

Fazia sol e frio em Viseu. O país profundo. O país que mexe, dizem-te. Gostas sempre de ler os jornais da terra quando estás no hotel. Duas estrelas, o hotel.  
Novo, a cheirar a tinta. Mobiliário reles. Decoração de mau gosto. 
Bom serviço. Comida caseira.  Faces rosadas da moça do bar. Mas faz frio à noite.
── Voyeurismo!  ── pensa ela, a rapariguinha do bar.

Oito páginas, entre notícias locais e os pequenos anúncios classificados. Duas páginas de anúncios pessoais. Cor de rosa.
"A brasileira do bumbum"... "A universitária que faz oral"..."A mulatchinha dengosa"...

Linguagem de código. A semiótica da solidão. Do sexo triste e solitário.
── Ah!, mas Viseu, como cresceu, meu Deus!

E Deus que andava distraído. Não sabes se cresceu bem... Não és de cá. O Politécnico.  O túnel de Viriato. Os colóquios. Os debates.  As ideias.
 Os intelectuais e artistas que vêm de fora. O comércio. O fórum, que há-de vir. A Grande Área Metropolitana de Viseu. Quase 400 mil. O orgulho de se ser do Kavaquistão. E onde mandam os que aqui lá estão.

 O que é feito do RI 14 ? Não sabes ? O glorioso  Regimento de Infantaria ?! A guerra acabou, baby. Foi bom para a cidade. A tropa. O  regimento. Sempre animava o comércio.
── Ruas, estás de granito!  ── diz o grafito. (Ruas é o chefe da tribo, presumes).

Nada como um bom grafito na terra do Grão Vasco:
── Apreciem o lado empreendedor dos beirões. 
── Só falta a Universidade, que mais de 10 mil estudantes do politécnico  já cá temos.
── Tiraram-nos a Faculdade de Medicina, os sacanas da Covilhã.

Outro lóbi beirão, o da Covilhã. Registas o orgulho dos  miúdos e miúdas da Associação de Estudantes  da Escola Superior de Enfermagem de Viseu que realizam anualmente as suas jornadas. E que já andam de capa e batina. Para quando chegar a universidade.

O país mexe. Viseu mexe. O país profundo mexe. O Kavaquistão mexe. Os jovens deste país mexem. Mesmo com capa e batina, vestidos de preto como o corvo do Zé (Cardoso Pires).

16:30h. Passaste o corpo pelas brasas. Perdeste um pedaço de mundo. 
Revisitaste outros infernos. Xime. 
Ponta do Inglês. 
── O Alfa vai a 140, ó puto.

Temperatura: 19º interior. 20º exterior. Lês no tabelau de bord.

── Mas agora abranda. 129, 101, 74, 52... Parou.


Uma placa com um S, outra com um M. Não percebes nada da sinalética dos comboios. Obras. Modernização da linha. Tens um pensamento piedoso e nobre para com os trabalhadores anónimos que constroem as novas linhas dos caminhos de ferro do futuro. Ucranianos. Africanos. Guineenses. Imigras. Clandestinos. Não se lhes vê nem a cara nem o passaporte. Podiam estar a trabalhar na estufas de Almeria. O inferno na terra. Mas aí são magrebinos. O novo proletariado do século XXI.

Desces na Oriente. O empresário a teu lado puxa do telemóvel.
── Mandem alguém da empresa vir buscar-me.
── Eh, cara, dá o Benfica na esporte tê vê.

E de novo o Alfa em marcha... A paisagem muda. A paisagem industrial da bacia do Tejo. A ocupação selvagem da lezíria. Mataram os campinos e o gado bravo. E os flamingos. E as ostras. Les petites portugaises.  O branqueamento de dinheiro que vai por essa nova Lisboa do Próximo Oriente. Depois da Exzpo-98. A luxuriante estação do Oriente. A ostentação dos ricos. Calatrava.

Just in time. 17:06h. Chegaste. Balanço do cliente que, enganado, pensava que já fosse o TGV.
── O TGV é que era!

Não, não  é o TGV, meu caro senhor. Um dia há de chegar. Assegura o caixa d'óculos da CP. E boné de pala. E mangas de alpaca. Sempre ficas mais tranquilo. Não é o TGV. Mas há de chegar um dia. Mesmo que passe ao largo da Coimbra B. A 300 à hora. Mas por ti, não desgostaste. De viajar no Alfa Pendular. Turística, claro. De Coimbra B a Lisboa SA.  

Tiveste tempo para (des)arrumar algumas ideias.

── O país que via passar os comboios...

E o puto tinha razão:
──
Na ponta final, o Alfa Pendular dá mesmo os 210.

Um dia ainda vais ter orgulho na CP. E na terra onde nasceste à beira-mar. E onde nunca viste sequer passar os comboios. Os comboios não passavam na tua terra. Nem ainda chegam a Viseu. 

Um abraço aos Viriatos. Até para o ano. Voltarás, se te convidarem. Virás de autocarro. Expresso. Por esses ipês acima. Com regresso de comboio. Se não sabotarem o comboio que pára em Coimbra B. 

E prometes ao barman que não te esquecerás de Atocha. Sobretudo não esquecerás Atocha. Nem a Ponta do Inglês. Quando voltares a Coimbra B. Outra vez. Não esquecerás as bombas de Atocha. Nem as minas e armadilhas da Ponta do Inglês. Muito menos os RPG. E as Kalash. E o jagudi da morte que te espreitava do alto do poilão.

25/3/2004. Revisto em julho de 2026

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 25 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27150: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (43): Oficial e cavalheiro


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