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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28170: Notas de leitura (1935): "Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial (Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Em 30 de maio fui à ADFA apresentar o livro do Coronel Manuel Martins Lopes, foi Ajudante de Campo do Marechal Costa Gomes e devo-lhe uma profunda estima. Lá fiz a minha intervenção com um papelinho de notas, tempos depois o Coronel telefonou-me a dizer que a gravação estava péssima e que eu me desse ao cuidado de alinhavar a escrita, será feito um suplemento do jornal ELO, o órgão da ADFA, nesse dia fez-se uma homenagem ao fundador da associação. Confesso que gostei do que escrevi e estou pronto a partilhar com malta do blogue, se achares útil.

Nada mais por ora a não ser um abraço fraterno,
Mário.



"Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial

(Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026)

Mário Beja Santos

Quando e como se deu um corte radical entre a literatura ultramarina e a da Guerra Colonial

A literatura da Guerra Colonial é um subgénero literário, goza da identidade, a despeito da variedade de cenário que contempla, é do senso comum as discrepâncias geográficas dos três teatros africanos. Quando comecei a refletir sobre as memórias elaboradas pelo Manuel Martins Lopes, que combateu em Angola e que depois teve uma comissão com alta responsabilidade administrativa num ponto chave de Moçambique, julguei ter utilidade em comprovar a este auditório que há um corte radical entre a literatura do antes, durante e o após a Guerra Colonial. Na literatura ultramarina há temas-chave recorrentes, seja qual for o pano de fundo da colónia africana: o deslumbramento daa floresta, amores bem ou malsucedidos, envolvendo feitiços, usos e costumes étnicos, a dura vida de trabalho, em alguns casos a denúncia esquiva do trabalho forçado, a aproximação do colono aos ambientes locais, as páginas de descrição da vida na roça, a chegada do barco a vapor… quero só lembrar "Mariazinha em África", de Fernanda de Castro, "Chuva Braba", de Manuel Lopes, "Kurika", de Henrique Galvão, e "A Estufa", de Luís Cajão. Como é óbvio, nada de minas antipessoal e anticarro, as operações para prender ou aniquilar guerrilheiros, a dor da morte dos entes queridos, a tensão permanente na vida dos destacamentos defendidos por arame farpado.

Só mais uma nota sobre a literatura ultramarina. Permitam-me que exemplifique com o caso da Guiné. Em "Estudos Ultramarinos", publicação do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, no seu número 3, de 1959, João Tendeiro publicou um artigo intitulado “Aspetos Marginais da Literatura na Guiné Portuguesa”. Diz o autor com a maior das clarezas:
“A Guiné não nos deu até agora um escritor nativo. No campo da ficção, as poucas obras de fundo têm sido escritas por europeus ou cabo-verdianos. É o caso dos romances e contos de Fausto Duarte e de vários contos esporádicos de Alexandre Barbosa e outros, publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Mário Pinto de Andrade, se quis inserir, na sua Antologia da Poesia Negra, uma produção poética representativa da Guiné, teve de recorrer a um poema de um jovem cabo-verdiano, Terêncio Anahory Silva.”

Nesta Guiné de que fala João Tendeiro o português era falado por 1157 indígenas analfabetos e escrito por 1153. A literatura que apareceu foi obra de militares ou funcionários coloniais, caso dos "Contos do Caramô", de Viriato Tadeu, os contos publicados por António Carreira, Amadeu Nogueira e outros, em o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Não ficaram testemunhos do uso do crioulo. O mesmo Tendeiro observa:
“O crioulo enferma de todas as características as linguagens faladas e sem grafia independente. Quer dizer: quando transposto para a escrita fica subordinado ao idioma escrito da região. Não existe uma correspondência entre o crioulo e a ortografia portuguesa. Enquanto em Cabo Verde o crioulo assumiu o carácter de uma linguagem substituta dos idiomas nativos primitivos, enfeudada à língua portuguesa oficial, na Guiné reveste apenas o aspeto secundário língua aprendida, desempenhando entre as populações locais um papel semelhante ao dos idiomas utilizados nas relações internacionais entre os povos civilizados.”


Adiciono mais um comentário sobre a essência da trama literária ultramarina: histórias de aculturação, tratamento de fábulas e contos, em circunstância alguma põe em causa conflitos entre colonos e indígenas, operações de pacificação ou a chamada missão civilizadora portuguesa.


As diferentes fases da literatura da Guerra Colonial

Quando surgiram as primeiras obras, no início da década de 1960, ninguém supunha qual o peso da identidade e da autonomia do subgénero literário. Creio não haver contestação que entre 1961 e 1974 se impuseram incursões literárias de pendor apologético, exaltando as qualidades do soldado português, o valor da missão patriótica em defender o Ultramar, episodicamente foram surgindo romances ou contos onde veladamente, a guerra era tratada como tema incandescente. O exemplo que me parece mais flagrante foram as obras que Álvaro Guerra publicou depois de ter vindo da Guiné, onde fragmentariamente se impunham os desastres da guerra. A este escritor se deve o parágrafo que ainda hoje me comove pelo vigor da sua explosão emocional:
“Por lá chafurdei na lama das lalas, debati-me no turbilhão dos tornados, derreti-me na fornalha de um sol invisível, dissolvi-me na chuva vertical, e amei como um danado aquela terra que me injetou a febre, me secou, me expulsou a tiro. Mas nunca o preço do amor é excessivo, nem a presença da morte o pode aniquilar.”
Houve livros apreendidos pela PIDE, caso de "A Praça da Canção", de Manuel Alegre, teve a sua primeira edição em 1965, penso que o mais belo poema que se escreveu nesta literatura é "Nambuangongo, meu amor", veio publicado logo nesta edição.


Há, como não podia deixar de haver, características diferenciadas de quem escreveu sobre a Guiné, Angola ou Moçambique: são paisagens bem distintas, como distinto era o poderia militar e a capacidade de guerrilha dos diferentes nacionalistas, o que confere aos registos da escrita um quase poder intransitável. No entanto, pode argumentar-se que havia a solidão, a angústia, o fragor do fornilho, o matraquear súbito das armas pesadas e ligeiras de quem fazia a flagelação, é evidente que a perceção destes elementos ganhava um cunho universal. Mas o peso da geografia era indeclinável: 10Km na Guiné ainda hoje não são os mesmos 10Km em Angola ou Moçambique. E mais: os palcos de guerra tinham designações muito próprias, as árvores gozam de nomes próprios, havia intempéries, chuvas diluvianas, mas algo que identifica a narrativa: o crioulo, o tornado, o macaréu, a lepra, os ataques com mísseis. Ora os mísseis fazem parte da evolução da guerra, quem, por hipótese, escreveu um romance com as suas memórias baseado numa comissão militar entre 1965 e 1967, tem de se confinar ao armamento português e dos guerrilheiros da época.

Com o 25 de abril, com a liberdade de expressão, foram surgindo obras, até reedições, caso de "Tarrafo", de Armor Pires Mota, que tinha publicado as suas memórias durante a guerra no Jornal da Bairrada, nem a PIDE nem a Censura deram por nada, publicado no livro, deram conta que se falava de bombardeamentos com napalm, isto quando Portugal negava categoricamente nas Nações Unidas o seu uso em África. A grande safra literária eclode nas décadas de 1980 e 1990, impõem-se nomes, alguns vindos do passado, como Carlos de Matos Gomes, Álamo Oliveira, José Brás, António Lobo Antunes, João de Melo e surgiram mesmo grandes surpresas no virar do século, estou a pensar em "Estranha Noiva de Guerr", de Armor Pires Mota, um romance excecional que a crítica praticamente ignora.

Quando chegámos ao século XXI eram múltiplas as manifestações literárias: estudos militares, excursos históricos, reportagens, olhares da memória, visitas depois da guerra, ensaios, poesia, contos. Não é necessário fazer a contagem de tudo quanto se escreveu, o romance e as memórias superam todas as outras manifestações. Como tenho de fazer aqui uma síntese não pretendo adormecer o auditório, quero também recordar que algumas destas obras são hoje motivo de estudos universitários: é o caso de "Lugar de Massacre", de José Martins Garcia, que perto do 25 de abril pôs as letras em polvorosa, caricaturando os grandes ícones em que se constroem as mitologias militares.

Falando dos militares, independentemente do genial "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz, há relatos feitos por militares que se vieram revelar documentos indispensáveis, caso dos escritos de Salgueiro Maia, que esteve na operação em que se rompeu o cerco a Guidaje, torna-se percetível como o teatro de operações da Guiné estava completamente condicionado à plena iniciativa do PAIGC.

Posto isto, quero recordar a importância das investigações monográficas, dos levantamentos da literatura da Guerra Colonial feitos por João de Melo, Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Dou ainda conta que apareceram obras diarísticas, umas raramente escritas em cima da hora, outras recompiladas.

Escrevi em tempos que a despeito de uma maioritária falta de qualidade desta literatura, há parágrafos estranhados, há memórias que nenhum investigador pode enjeitar pelo poder que assumem na atmosfera da descrição da guerra, escrita por gente que combateu em terra, mar e ar.

Chegou hora de fechar o pano a esta literatura? Impossível, a obra que hoje analisamos é uma incontestável prova de vida. Finalizo esta minha cogitação antes de passar para a obra de Manuel Martins Lopes retirando um parágrafo de um livro que escrevi sobre a literatura da Guerra Colonial na Guiné intitulado "Adeus, até ao meu regresso" (a literatura dos e sobre os combatentes da guerra da Guiné), publicado pela Âncora Editora em 2012:
“Até ao lavar dos cestos, até estar vivo o último militar, há que contar com as surpresas da vindima, não há um mês em que não surja um título, um depoimento, um olhar sobre aquela guerra que se travou enquanto se caminhava na farroba de lala, entre cipós e tabás, militares acoitados atrás dos morros das formigas, a resistir à fúria das emboscadas, ou dentro dos aquartelamentos, imprecando em noites de flagelação destruidora. Este subgénero literário está muito longe de ter fechado para obras e muito menos para mudança de ramo.”

A singularidade de um itinerário: a família e o lugar, um desvio na vocação, a aprendizagem da guerra, a comandar no terreno conflitual angolano (a identidade dos lenços negros), comandante da polícia na Zambézia numa cativante operação de paz, era o tempo dos lenços brancos, e resultou.

Não vou aqui repetir o que se disse atrás sobre a natureza caleidoscópica das memórias. Há vigorosos testemunhos memoriais há décadas, mas temos de reconhecer que a memória ganha sempre o amadurecimento, graças também à distância do que foi a experiência de guerra. Voltando à Guiné, foi depois do século XX que surgiram depoimentos de grande calibre, caso do comando guineense Amadú Djaló, do fuzileiro José Talhadas ou do paraquedista Moura Calheiros, não contamos já com os documentos deixados pelo major Lobato (o mais longo cativeiro da Guerra Colonial), algumas histórias de companhias, a torna-viagem de quem combateu e volta ao lugar marcante, isto para já não falar num fenómeno relativamente novo que são as memórias dos filhos de quem combateu e que também vão querer conhecer esses pontos em que viveu o pai ou os pais.

As memórias do Coronel Martins Lopes têm a razão de ser de um itinerário único: o orgulho pela terra que o viu nascer e os valores inculcados pela família; os estudos num liceu longe de casa; a inviabilidade de satisfazer a sua vocação, o dinheiro não chegava para tudo; a ida para a Academia Militar e a confissão de que havia um indisfarçável desajustamento; em minúcia, descreve o seu desempenho angolano, a formação da lenda dos lenços negros, que gerou uma convivência que não abranda ano após ano; a mudança de Angola para Moçambique, coube-lhe na roda do destino ter os sentidos apurados para saber comunicar com os dirigentes da FRELIMO as melhores diligência para chegar à paz, que emergiu com o 25 de abril e as decisões de Lusaka. É ocioso dizer que ele não esconde o seu orgulho no vigor da reconciliação que acompanha toda a sua trama narrativa e que o leitor irá conhecer através da história de uma Bíblia apanhada durante o conflito e que agora regressou ao seu lugar. É o simbolismo de uma manifestação que acompanha toda a narrativa e que ilustra categoricamente esta caminhada dos lenços negros para os lenços brancos, a metáfora do mundo lusófono em que nos cremos todos numa irmandade de boa convivência, a da língua e a da História comum.

Parabéns ao autor e a minha profunda admiração por aqueles que o acompanharam com lenços negros e com lenços brancos.
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Nota do editor

Último post da série de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

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