Pesquisar neste blogue

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28163: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte X : semana de 7 a 13 de abril: Ainda sobre o "barlaque": quem parte e reparte e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não sabe da arte ?!







... Não, em Timor-Leste não se pode aplicar, nas negociações do barlaque, o provérbio popular português: "Quem parte e reparte, e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte". Aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é asimples e tradicional "caça ao dote";  é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan). Não se trata de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. Parece ser uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geraçáo mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é "patriarcal e falocrática"...
 
"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Texto e imagem: Rui Chamusco (2019) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 7 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"


1. Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*),  realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e faz o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar. 

O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).

São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada,   de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue. 

Tem uma história de vida inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência (em 2002). É também um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fubdar (a ASTIL),  de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais  sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia,  o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se Deus Nosso Senhor e a Senhora da Saúde o permitirem. Sem esquecer, claro, o seu mentor,  São Francisco d' Assis, que ele cita amiúde.

Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal)  já construiu a  "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Falta, finalmente, resolver o problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).

Em Díli costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).



Rui Chamusco, professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)

Parte X:  semana de 7 a 13 de abril: ainda "a arte de negociar no barlaque"  


07.04.2019, domingo  - A alegria de dar e de receber...

Hoje foi dia de entregar os donativos que os padrinhos enviaram para os seus afilhados durante o mês de março.

Acredito que quem dá sente uma alegria enorme de poder partilhar com os outros aquilo que lhes faz falta. Mas gostava que imaginassem a grande alegria de quem recebe, de quem não tendo quase nada se vê com uma nota de dez ou vinte dólares na mão. Até os olhos brilham!... Esta gente agradece profundamente com sorrisos abertos e sinceros. Não há melhor paga para quem dá.

Desta vez, porque estava presente, quis fazer pequenos videos aos afilhados que, em
português, mandaram uma pequena mensagem às madrinhas e aos padrinhos. Espero
que todos os tenham recebido em boas condições.
E, como diz uma canção:

 “Dar do pouco que se tem / Ao que tem menos ainda /
Enriquece o doador / Faz sua alma ‘inda mais linda”. 

“ Fica sempre um pouco de perfume / Nas mãos que oferecem rosas / Nas mãos que sabem ser generosas.” 

Não há palavras mais certas para definir a ação de dar. Agora imaginem o nosso mundo se
cada um doasse um terço daquilo que lhe sobra. Tantas necessidades seriam resolvidas; tantas bocas famintas seriam saciadas.

“Ó Mestre, fazei que eu tenha mais prazer em dar do que em receber; em consolar do
que ser consolado; em amar do que ser amado. Porque é dando que recebemos; é
consolando que se é consolado; é amando que se é amado. E é morrendo que se vive
para a vida eterna.” (São Francisco de Assis)

08.04.2019, segunda feira  - Pontos nos iiis... O programa de "apadrinhamento"

O programa de apadrinhamento tem nos colocado algumas questões, por parte dos beneficiários dos donativos. Embora todos saibam que o dinheiro dos donativos deve ser aplicado no processo escolar das crianças/jovens apadrinhadas, nomeadamente no pagamento das despesas escolares ( material escolar, propinas, fardas, etc.), fica-nos a dúvida o que farão as famílias ao dinheiro remanescente. Será gasto em quê? Em necessidades básicas (alimentação)? Em gastos surperfulos?

Foi por isso que nesta entrega de março fizemos questão de lembrar uma vez mais a da boa aplicação dos donativos em dinheiro que os padrinhos/madrinhas lhes vão enviando, e da obrigação de darem sinal do aproveitamento escolar com a apresentação no final de cada período da caderneta.

Sugerimos-lhes também cada afilhado/a peça a abertura de uma conta jovem, na CGD / BNU, onde possa depositar o dinheiro não gasto, constituindo assim um fundo económico que lhe possa ser útil na sua vida de estudante. Nós próprios nos comprometemos em falar com a gerência da Caixa, a fim de serem criadas as condições para estas contas.

Oxalá que o esforço que todos estamos fazendo por melhorar as condições de vida desta crianças e jovens necessitados se traduzam em aproveitamento real e solução dos seus problemas e necessidades.

ASTIL - Projeto de Solidariedade em Timor Leste
Programa de Apadrinhamento de Crianças Necessitadas

Estimadas madrinhas e padrinhos

Esperamos que estejam todos bem. Nós, cá por Timor. também estamos bem. Antes de mais, queremos agradecer a cossa colaboração e generosidade neste Programa de Apadrinhamento. As(os) vossas(os) afilhadas(os) estão vos profundamente reconhecidos, e pena é que a distância não nos permita um encontro com todos eles. Valem-nos ao menos as novas tecnologias para que, de quando em quando, consigamos comunicar. De nossa parte tudo faremos para que a relação de amizade seja fomentada e fortificada.

Esta circular tem a finalidade de vos darmos conta de como este programa se está a desenvolver e de vos informar das medidas que estamos a tomar em relação aos vossos donativos.

Como sabem, os donativos depositados na conta da Astil, em Portugal / Agência de Sabugal, são transferidos da CGD para a conta solidária criada no BNU Timor /CGD. No final de cada mês é feita a folha mensal de donativos, cuja soma será levantada por quem de direito no BNU, a fim de ser entregue pessoalmente a cada beneficiado.

Podemos informar-vos de que, até hoje, já foram entregues 9.259 dólares.

Como está claramente explicado nas orientações deste programa que foram enviadas a cada madrinha e padrinho, estes donativos têm como prioridade ajudar as famílias nas despesas escolares dos seus filhos. Estamos a ser exigentes com essas famílias, explicando-lhes cada vez que vêm receber os donativos, que o dinheiro recebido deve ser aplicado na educação e material escolar dos apadrinhados. Como não temos meios de controlar essa aplicação, foi sugerido que o dinheiro remanescente dessas despesas seja depositado na conta jovem que a CGD/BNU dispõe, para que se constitua um fundo disponível de modo a permitir a continuidade dos estudos, inclusive os estudos universitários. 

Nós mesmos ficámos de nos encontrar com a gerência desta agência da CGD a fim de facilitarem a abertura da conta jovem para estas crianças/jovens.

Não queremos que fiquem dúvidas sobre a aplicação dos vossos donativos. Este programa foi criado de raíz, e portanto com muitas imperfeições. Mas continuaremos sempre a fazer como melhor sabemos, tentando sempre que a honestidade e transparência sejam o nosso guia.

Acreditem, que nem um cêntimo do dinheiro depositado será retirado ou desviado do fim em vista, sendo entregue na íntegra aos seus destinatários.

Queremos continuar a merecer a vossa confiança e, enquanto pudermos, tudo faremos para que o programa seja bem cumprido e obtenha os resultados esperados. Com estima e consideração por todos vós,
Rui Chamusco / João Moniz / Gaspar Sobral


09.04.2019, terça feira  - “ A ver os aviões!"... A despedida 
do comandante Rui Pedro

Tinha prometido ao amigo Rui Pedro que estaria ao meio dia no aeroporto de Díli para lhe dar um abraço. E assim foi. Sem nada mais combinarmos, chegámos ao mesmo tempo. Depois de eu e o Amali apearmos da mota, e preparando-nos para ir até às portas do chek-in, passa ao nosso lado o automóvel que transportava o nosso viajante. Encontro mais fácil não podia haver.

Passados alguns minutos a ver os aviões e a controlar o tráfego aéreo, chegou a hora de dizer adeus a este amigo que, para além de primo, é um “gajo porreiro”. Sei que este dias que irá passar em família serão bem aproveitados. Cá por mim, até começo já a ter inveja. As saudades já apertam e começam a fazer mossa. Quando será a minha vez? Ainda não sei. Mas sei que ela há-de chegar.

Boa viajem,  meu amigo! Que tudo se passe segundo os teus desejos.

Sei que em Lisboa ou no Algarve todos te esperam ansiosamente. Sei que vão ser muitos os beijos e os abraços: sei que a família e os amigos te vão cobrir de atenções.

Sei que será bom, muito bom.

Cá te esperamos de volta, a estas terras do oriente, a este Timor Lorosae que nos enfeitiçou de tal maneira que já não podemos viver sem ele.

Rui meu homónimo: Faz o favor de seres feliz!...

12.04.2019, sexta feira  - Ver para crer... Cinofagia, carnismo...

Que a carne de cão é consumida e apreciada em países asiáticos e do oriente, já não é novidade nenhuma. Nas II crónicas descrevi o que aconteceu aqui em 2018, em Ailok Laran, com a desgraçada Prety, a cadela cá de casa que, num abrir e fechar de olhos, desapareceu do mapa. Foi chorada a sua sorte como tendo sido vítima de um caçador e comerciante de carne de canídeo, cuja alcunha é “cara de cão”.

Hoje, o que vi, veio confirmar esta crença “ver para acreditar”.

A Umbelina, uma moça da montanha de Liquiçá que vive connosco para estudar na UNTL, veio chamar a atenção que estava ali um cão morto. Verificado o óbito do animal, depressa reconheceram que era o cão do Ti Carlos, um vizinho aqui ao lado, que prontamente o procurou e arrastou até à berma do caminho que passa junto a estas casas. Chamou um rapaz da vizinhança, e apontou para o bicho dizendo: "se vos interessa levai e comei.” 

E assim foi. O jovem pegou no animal e levou não sei para onde a fim de ser chamuscado, lavado e preparado para o petisco. Qual visto e carimbo de veterinário, qual quê?! Está morto, e o seu corpo foi levantado do local sem autorização do delegado de saúde. Sem autópsia que explique a causa da sua morte, sem qualquer outra justificação. Vai ser devorado por apetites desenfreados, que nem sequer pensam que o “cão é o animal mais fiel ao homem.”

E, perante a nossa repugnância por tal facto, ainda gozam connosco convidando-nos para saborear esta iguaria. 

- Ti Rui, quer comer que eu vou comprar?

Não! Não quero que a minha mente e o meu corpo se alimentem de tais afetos e sentimentos. Prefiro ementas saudáveis e sem escrúpulos de consciência. Prefiro guardar memórias daqueles animais de estimação que tanto nos ajudaram brincando connosco, fazendo-nos companhia durante anos, dias e horas. Boas lembranças destes amigos que, mesmo ausentes, nos detectam seja onde for, graças ao seu sentido apurado do olfato.

13.04.2019, sábado - Histórias e mais histórias... Ainda o barlaque

Hoje, ao pequeno almoço, tivemos um suplemento extra: histórias que são ou foram realidades, integradas no contexto cultural deste povo timorense. Ainda enquanto bebíamos o café, uma senhora chamou por alguém da casa, e coube ao Eustáquio atendê-la, pois estava próximo do chamamento. 

Era a mãe de um rapaz que lhe vinha pedir para ser negociador da família, no pedido de casamento. O Eustáquio como já referi noutros relatos, é muito solicitado para tal múnus, e tem por isso uma larga experiência nestas negociações. Não aceitou por sobrecarga de trabalhos em mãos, mas indicou alguém para o fazer.

Foi então que o Eustáquio e o Gaspar começaram a contar histórias e mais histórias
ligadas a este evento que antecede o “Barlak” (ou barlaque, em português). O Gaspar diz que, com 21 anos, foi o negociador do seu irmão Zé, o mais velho dos sete manos. Ele também sabe, mas nada que se compare com o Eustáquio. Dizem eles que nenhuma conversa se faz diretamente. É tudo por metáforas, o que exige do negociador uma agilidade mental vonsiderável. Ele tem de entender o que o outro negociador lhe diz por imagens, assim como o seu interlocutor tem de entender as que ele utiliza. 

Por exemplo: "estando eu a regressar de uma longa viajem, passei por aqui e encontrei uma árvore frondosa, carregada de mangas saborosas, etc, etc...” 

Tudo depende da imaginação e do sentido poético dos negociadores. Tudo podem dizer excepto insinuar ou ofender qualquer das partes envolvidas. É uma verdadeira obra de arte.

Os relatos destas negociações darão matéria suficiente para uma verdadeira obra literária. O Gaspar até disse que um dia iria tentar fazer uma gravação (com a devida autorização), tendo em vista uma publicação escrita.

Normalmente, chega-se sempre a bom termo nestas negociações. Como sempre, pede- se mais do que o que se vai receber. Mas o bom senso dos negociadores encontram sempre uma boa solução, que é o meio termo. O negócio envolve dinheiro e bens.

Aqui em Timor são os kraus (bois), os fahis (porcos), as bibis (cabras e cabritos) e os manus (galos). E muitas famílias criam estes animais quase exclusivamente para estas ocasiões. Há que evitar as multas que podem advir por má negociação, nomeadamente qualquer palavra ou atitude que ofenda a família da futura noiva, e que se podem traduzir no dobro do que têm de pagar ou de dar.

Quem sabe, sabe. E vivam os negociadores!...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos,  título: LG)
_________________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de junho de 2026 > 23 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28126 : III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IX : semana de 1 a 7 de abril de 2019: há mais de 40 mil timorenses a pedir a nacionmalidade portuguesa

5 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Cinofagia: o gosto ou o ato de consumir carne de cão. O termo vem do grego: kyon - cão + phagein - comer).

Usa-se o termo carnismo, mais comum e abrangente, para descrever o sistema de crenças que normaliza o consumo de certas espécies animais (como comer cães numa cultura, na China, por exemplo; e porcos noutra, como a Arábia Saudita, ou entre os fulas e mandingas, na Guiné-Bissau).

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Em Timor-Leste, o consumo de carne de cão é uma realidade cultural complexa que divide a sociedade timorense entre a tradição, as questões de saúde pública e os direitos dos animais.

A carne de cão é utilizada para confecionar um prato tradicional muito popular chamado RW (abreviatura de Rintek Wuuk), cozinhado com uma grande variedade de especiarias locais.

Este prato é consumido principalmente em encontros sociais, festas ou celebrações tradicionais em certas regiões do país.

O consumo generalizou-se e intensificou-se em períodos históricos de extrema escassez alimentar (como durante a ocupação indonésia), tornando-se também uma preferência de paladar para parte da população.

Mas não é uma prática consensual!... O consumo de carne de cão não é uma prática uniforme em todo o território. Existem fortes tabus alimentares ligados a linhagens e casas sagradas (Uma Lulik).

E há proibições ancestrais. De acordo com os mitos de origem de determinados grupos, o cão é visto como um animal sagrado ou ancestral, sendo estritamente proibido comê-lo. Noutras comunidades, existem restrições específicas (por exemplo, proibição aplicada apenas às mulheres de certas famílias).

Por outro lado, o consumo e a venda da carne em si não são regulados por leis específicas de segurança alimentar. No entanto, como muitos cães são capturados ilegalmente nas ruas, o roubo de animais de estimação para abastecer este comércio é enquadrado como crime.

E há implicações para a saúd epública...A prática gera grande preocupação devido aos surtos de raiva registados no país. O Governo timorense tem implementado restrições severas à circulação e ao transporte de animais domésticos entre municípios para tentar mitigar e controlar a propagação da doença.

Para saber mais, consultar o Diligente on line

Tabanca Grande Luís Graça disse...

1. Rui, tu que és um homem bom, ecuménico, generoso, solidário, cristão, não vais por certo concordar com a colagem, como subtítulo da tua crónica (*), do provérbio popular português "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte"...

Muitos destes provérbios são de origem fradesca, machistas, migósinos, racistas, e portanto anticristãos... E, pelo que nos contas, o barlaque timorense não tem a ver com "trocas &baldrocas"...Há negociação, há assimetria de poder, há desigualdades, mas há intermediação, há procura de soluções mutuamente satisfatórias, há uma lógica de "win-win" (ganhas tu, ganho eu).

Se bem entendi o essencial do barlaque timorense..., aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é a simples e tradicional "caça ao dote"; é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan).

Não se trata de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. Parece haver e prevalecer uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geração mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é largamente "patriarcal e falocrática"..

2. Rui, este provérbio é um daqueles que, à primeira vista, parece um conselho de sabedoria popular sobre o tema da "astúcia e justiça"... Mas eu, como sociólogo, estou sempre de pé atrás, em relação à chamada "sabedoria popular" que muitas vezes esconde "minas & armadilhas" (ideológicas, morais, filosóficas, sociolinguísticas, políticas, etc.).

Que tal uma primeira análise, no sentido de o "desconstruir" ou "desmontar" ?!

(i) Vejamos a primeira camada, superfícial: a lógica do "ficar com o melhor", o melhor bocado (como acontece com os grupos de animais, predadores, dos leões aos chacais):

O provérbio sugere que quem divide algo (um bem, uma oportunidade, um recurso, uma informação, um "trunfo"...) e não consegue ficar com a melhor parte, é porque é tolo (falta de inteligência), ou não tem engenho & arte (habilidade, malícia, manha e outras ferramentas de poder).

Digamos que é, logo de caras, um elogio à esperteza (ou chico-esperteza, tão nossa, tão humana, táo universal mas também tão saloia, tão portuguesa) : quem não souber garantir a sua vantagem num contexto de crise e escassez é merecedor de desdém (o rótulo de "tolo", "coitadinho", "atrasado mental", "pobre-diabo"...).

Primeira questão crítica: este provérbio "naturaliza" a desigualdade. Parte do falso axioma de que a vida é um jogo de soma zero, onde uns, mais fortes e espertos, ganham inevitavelmente à custa de outros, mais fracos, com menos recursos, "bagagem", "cabedais", "trunfos"...

É a eterna questão: uns nascem em berços de ouro, outros são escumalha; há os pretos e os brancos; há os que nascem para mandar e os que nascem para serem mandados; há os ricos e os pobres; os soldados e os generais; os senhores e os escravos... Nasce-se mulher ou homem, num país atrasado ou desenvolvido; nasce-se já doente ou são; inteligente ou burro; etc.

São tantos os estereótipos a estigmatizar os homens e as mulheres que habitam a nossa "aldeia global"...

Portanto, não há espaço para a cooperação, a solidariedade ou a equidade, o tranalho em equipa, a concertação, o consenso, valores que, a ti, Rui, que és cristão, te são tão caros. E que póes à prova em Timor-Leste, de Díli a Boebau, nas montanhas de Liquiçá. (...)
(Continua)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

(...) (Continuação) (2)

(ii) A origem fradesca e o contexto histórico

Muitos provérbios portugueses têm origem bíblica ou em sermões moralizantes da Idade Média, onde a Igreja (e os frades, em particular) usava a linguagem popular, chã, simplista, metafórica, para transmitir lições de obediência, hierarquia, resignação, submissão. Este, em concreto, soa a uma justificação da fatalidade da desigualdade social, do determinismo fatalista e justiceiro..."Se Deus o marcou, é porque algum defeito lhe achou"; "Deus castiga sem pau nem pedra", etc.

"Ficar com a melhor parte" só pode ser então entendido lido como uma metáfora para justificar o poder, a aquisição e a manutenção dos lugares e do "aparelho" do poder: quem não souber manipular as regras (ou as pessoas e outros recursos) para beneficiar de privilégios, fica sempre na "mó de baixo", na cave, no piso zero do elevador social...(que neste caso só desce, não sobe para os pisos superiores).

"Não ter engenho e arte" pode ser uma crítica aos saloios, aos camponeses, aos pobres, aos marginais, aos "simples de espíríto" (leia-se: os tolos, os idiotas), que não tinham acesso à educação, à "literacia", ao domínio da língua e da cultura e, portanto, à "malícia", à "manha", necessária para subverter um sistema que os oprimia.

É irónico, aliás, que muitos destes provérbios tenham sido criados pela Igreja (/enquanto "instituição e organização" com raízes na terra e antenas no céu) que, ela própria, ficava sempre com a melhor parte: em terras, em dízimos, em poder societal: social, económico, cultural, estético e político...

(iii) O machismo e a misoginia implícitos

Se olharmos para a estrutura do provérbio, há uma associação entre "arte" e "esperteza" que, em muitos contextos, era (e ainda é) "genderizada" (associada ao "género", M/F).

Historicamente, a "arte" de negociar, de enganar ou de garantir vantagens era vista como uma qualidade "masculina", enquanto as mulheres eram incentivadas a ser passivas, obedientes, dóceis e "boas", resigando-se a não "ficar com a melhor parte", a não ter protagonismo, na casa, na rua, na cidade...

Um homem que não soubesse ser astuto era um tolo, não era um "cabra-macho", como se dizia na Guiné dos "libertadores da Pátria". Uma mulher que tentasse sê-lo era uma feiticeira, uma bruxa, uma adúltera, uma prostituta, uma "eva-serpente-tentadora" (acabando, não poucas vezes, na "fogueira", vítima dos "autos de fé" da Santa Inquisição).

Conclusão: o provérbio não só "naturaliza" a desigualdade, como vem reforçar estereótipos de género (que ainda hoje persistem, e estão a ressuscitar por todo o lado, de Portugal aos EUA). (...)

(Continua)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

(...) (Continuação) )3)

(iv) O individualismo e o "struggle for life" (=luta pela sobrevivência)

Este provérbio bem pode ser o título de "manual de sobrevivência", um desses manuais que enchem os escaparates das livrarias das grandes superfícies, de "desenvolvimento pessoal e autoajuda", onde cada um ("chacun") se governa, olha para si, para o seu umbigo, a sua barriga, e em que o sucesso individual é medido pela capacidade de explorar, aldrabrar, submeter os outros ("Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e o resto que se f*da!)...

É a lógica do "salve-se quem puder", que justifica as "bestas negras" das nossas democracias: a corrupção ("se não fores esperto, outros o serão, chegarão primeiro do que tu, como na corrida ao ouro no Faroeste, e ficarão com tudo"); a falta de solidariedade ("se partilhares, ficas sem nada"); a desconfiança generalizada ("todos querem enganar-te, então sê tu a enganar em primeiro lugar"); o dinheiro como medida de todas as coisas"; o cinismo ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo")...

É uma mentalidade que, infelizmente, ainda hoje alimenta o clientelismo, o compadrio. o oportunismo, a ganância, a falta de coesão social, as crescentes desigualdades... em Portugal, na Europa, no Mundo globalizado. E inclusive em Timor, jovem país independente, lusófono.

(v) O anticristianismo (ou o cristão de fachada)

Querido Rui, cronista dos "usos e costumes de Timor Lorosae... À primeira vista, o provérbio parece alinhado com uma moral cristã de justiça e merecimento, que te é cara, mas, na realidade, é o oposto. O cristianismo (pelo menos na sua versão idealizada, no teu franciscanismo) prega: "Amar o próximo como a ti mesmo" (nada de "ficar com a melhor parte"); "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (ou seja, a acumulação e sobretudo a ostentação de riqueza, não é um valor intrinsecamente cristão)...

Mas a Igreja, como instituição e organização, usou e abusou destes provérbios para controlar as massas, dizendo-lhes: "Sê humilde, que o teu lugar é este"; "Se não tens, é porque não mereces", "A pobreza é virtuosa, mas a riqueza dos outros é sagrada", "Dar aos pobres é emprestar a Deus" (... e Deus paga-te com juros e dividendos, a ti que és rico e caridoso...)

Ou seja: o provérbio é anticristão no fundo, mas cristão na forma, é uma ferramenta de dominação ideológica.

(vi) Alternativas: provérbios que combinam contigo, Rui (e connosco)

Se queres um provérbio que reflita os teus valores (liberdade, dignidade, solidariedade, equidade), aqui ficam algumas sugestões reinterpretadas ou alternativas:

"Quem parte e reparte, e fica com a parte que cabe a cada um, esse tem arte e sabedoria." (A justiça não é ficar com o melhor, mas garantir que todos têm o suficiente.);

"A melhor parte é a que se partilha." (Um contraponto direto ao individualismo do provérbio original.);

"Quem não tem arte para partilhar, não tem arte nenhuma." (A verdadeira habilidade é criar abundância, riqueza, não escassez, e saber reparti-la, com equidade.)

(vii) Conclusão: um provérbio a "desconstruir", "desmistificar"...

Este provérbio, Rui (e demais leitores), é um espelho das contradições da sociedade portuguesa: fingimos ser humildes, mas adoramos os espertalhões, os populistas, os demagogos; fingimos ser cristãos, mas idolatramos quem "se safou", quem escapou à justiça; quem está sob asluzes da ribalta ; fingimos ser solidários, mas desconfiamos de quem partilha com generosidade.

É, em suma, um manual de sobrevivência num mundo injusto, mas não um guia para o tornar melhor (ou gradualmente melhor)...