Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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domingo, 23 de agosto de 2026
Guiné 61/74 - P28285: Em busca de... (335): Camaradas do Batalhão de Cavalaria n.º 8320/73 (João Rodrigues de Freitas, BCAV 8320/73, Bissorã e Bissau, 1974)
O meu nome é João Rodrigues de Freitas e sou de Espinho.
Escrevo porque gostava de entrar em contacto com ex-colegas que estiveram na Guiné comigo. Pertencemos ao Batalhão de Cavalaria 8320/73.
Fomos os últimos a abandonar a Guiné. Fomos em Junho de 1974 e viemos em Outubro do mesmo ano, portanto só estivemos lá 4 meses, 2 meses em Bissorã, onde fomos colocados para render um Batalhão que já tinha 26 meses e 2 em Bissau no forte de Amura.
No dia 15 de outubro pelas 00h00, entre alas dos militares do PAIGC, embarcamos em várias barcaças que nos levou até ao navio Niassa. Ao fim de 5 horas estavamos todos a bordo para regressarmos a Lisboa.
De todos os colegas, o que mais gostava de encontrar era o Ferraz de Algés, pois partiu o braço direito e era eu que escrevia à família e namorada o que ele ditava, naturalmente.
Despeço-me agradecendo toda a atenção possível.
João Rodrigues de Freitas.
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Nota do editor
Último post da série de 22 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28045: Em busca de... (334): camaradas que tenham conhecido o meu amigo, do Porto, ex-alf mil Alberto Fontão, comandante de um PINT (Pelotão de Intendência), em Bissau, no período de 1967/69 (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Guiné 61/74 - P28198: Notas de leitura (1941): "Arte de Portugal no Mundo - África Ocidental", por Pedro Dias; Edição do Jornal Público, 2008 (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2026:Queridos amigos,
A obra de Pedro Dias, conceituado professor de História de Arte, tem o seu foco nas relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente. Um dos seus trabalhos de referência é exatamente a Arte de Portugal no Mundo, que o Jornal Público deu à estampa em 15 volumes numa edição muito cuidada. Retirei este texto sobre a Guiné do volume centrado na África Ocidental, que recomendo a quem queira conhecer melhor o nosso património deixado em Arguim, no Senegal, na Guiné e Serra Leoa, S. Jorge da Mina e Benim, S. Tomé e Príncipe, reino do Congo e Angola.
Um abraço do
Mário
A presença portuguesa na Guiné:
A arquitetura colonial
Mário Beja Santos
Pedro Dias é um conceituado historiador de arte, o seu campo preferencial de investigação é o das relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente; foi professor catedrático da História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra os seus livros são referenciais nos domínios da arte portuguesa no mundo. O Jornal Público editou um conjunto de 15 livros deste seu trabalho, o que agora importa é o quarto volume que trata do reconhecimento da costa de África subsariana, das navegações que levaram a dobrar o Cabo da Boa Esperança, o autor estuda as feitorias e posições fortificadas, recorda as artes de marfim e dos metais na Serra Leoa, Benim e Nigéria; a presença portuguesa está testemunhada em Cabo Verde e São Tomé onde se construíram fortalezas, igrejas e habitações à maneira do Reino; a partir do século XVII, na Guiné e Angola, que foi a principal possessão na África Ocidental, criaram-se vilas cujo incremento foi intensivo, a partir de meados do século XIX. Obviamente que nos vamos a ter ao que este conceituado historiador escreve sobre a Guiné.
A Guiné teve a primeira povoação de portugueses em 1588, de Cacheu, fundada pelo cabo-verdiano Manuel Lopes Cardoso, ficando sujeita à jurisdição de Cabo Verde. Em 1642, Gonçalo Gamboa de Ayala fundou Farim e Ziguinchor, ocupando-se pouco a pouco de outras povoações situadas nas margens dos principais rios: o Casamansa, o Geba, o Buba e o Cacheu. Em meados do século XVIII as principais praças fortificadas eram as de Cacheu, Bissau, Geba, Farim e Ziguinchor, importa dizer que eram bastante débeis do ponto de vista construtivo.
Falando da povoação de Cacheu, no final do século XVI, a fortificação resumia-se a uma paliçada e a uma tabanca com doze palmos de altura. Em 1629 já havia a intenção de fortificar a barra de Cacheu, em virtude dos ataques dos holandeses. Em 1644 D. João IV pediu aos moradores de Geba para se mudarem para Cacheu e ajudarem o Capitão Gamboa de Ayala a fortificar este lugar. Há notícia de estar de pé a fortaleza numa pequena elevação, tendo 18 ou 20 peças de artilharia. Era tudo manifestamente insuficiente, por documentação de 1772 sabe-se que em Cacheu havia carência de fortalecimento e de guarnição, que era fechada com paus do mato e a artilharia não tinha os indispensáveis reparos. Os habitantes levantavam pequenas paliçadas de estacaria, sobretudo à borda de água. Ocorreram grandes melhoramentos em 1788, o então Capitão da Praça, engenheiro Luís Pedro de Araújo e Silva deu conta à rainha D. Maria I que lhe faltavam os reparos para os canhões e casas de guerra. A povoação foi sempre muito modesta, em 1850 não teria mais do que 1.800 habitantes. São muitos escassas as informações quanto à arquitetura religiosa em Cacheu. Houve uma residência da Companhia de Jesus, mas em 1733 o capitão queixava-se do estado miserável da Igreja matriz, o edifício estava em ruína.
Ter-se-á fundado o estado de Bissau em 1456, procurou-se um acordo com o rei local para fundar uma fortaleza. Há uma carta para a Corte datada de 10 de janeiro de 1689 onde se diz textualmente ter sido feita a fortaleza de pedra e cal, tinha sete peças de artilharia. Sabe-se que as obras da fortaleza de Bissau não chegaram ao fim e que em 1708 a Capitania foi extinta e a fortificação derrubada. Segue-se um role de peripécias até se chegar à construção da fortaleza definitiva em 1766, a construção estava a cargo do Tenente Engenheiro Bernardino António Alves de Almada, quem ultimou os trabalhos da fortaleza foi António Félix do Amaral. A planta da Praça revela as suas pequenas dimensões, regular, com quatro baluartes poligonais ligados por cortinas retas, com escarpa exterior, parapeito, banqueta e terra pleno, e no interior, na Praça de Armas, os quartéis da tropa dispostos em quadrado. Conserva o essencial da sua estrutura primitiva, mas sofreu alterações significativas. A perda de valor estratégico levou à construção de um maciço de dependências de carácter administrativo, mas no fundo a fortaleza que se pode ver é ainda, no essencial, a de 1767.
A evolução urbana de Bissau deu-se fundamentalmente a partir da transferência da capital do território, deixou-se Bolama. Defendida por uma fortaleza com algum poder, estabeleceram-se outros dispositivos menores do lado do mar e do lado do sertão, o de maior dimensão chamado Forte Nozolini, de planta quadrangular, que ficava no extremo da paliçada, que saía do baluarte da Balança. Está bem visível numa vista da cidade publicada na revista Ocidente, que aqui se mostra. Recorde-se os nomes dos outros três baluartes do Forte de S. José: Bandeira, Poana e Onça. Construíram-se à sombra dos baluartes os principais edifícios administrativos, e também se lançaram as ruas fundamentais da expansão da urbe, com casas de habitação e comércio. A Rua do Fosso e Rua de Alfandega faziam face à fortaleza, mas a frente de água estava desimpedida com a Rua da Praia que ia desde o Largo da Fonte do Pijiquiti até à paliçada da Poana. Depois, a Travessa Larga e a Travessa da Igreja formavam os quarteirões com outras seis ruas ou travesses, entre a Rua do Fosso e a Rua da Tabanca, que as cortavam ortogonalmente. Mais tarde esta vias foram sendo batizadas com outros nomes, normalmente de personalidades que se desenvolveram na colónia, ou governantes portugueses, é o caso da Rua Honório Pereira Barreto, que na transição do século XIX para o século XX era uma das mais prósperas da cidade e dotada dos melhores edifícios.
É esta a matéria do historiador Pedro Dias sobre a Guiné.
Nota do editor
Último post da série de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (Mário Beja Santos)
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Guiné 61774 - P28039: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (3): Vendedora de caju no Mercado Central de Bissau: foto de João Melo (2025)
Fotos (e legenda): © João de Melo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Foto da página do Facebook do nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), que começou a visitar a Guiné-Bissau, regularmente, desde 2017, com uma pausa no tempo da pandemia. Em geral, viaja no fim da estação seca (março / abril / maio).
Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha. O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local. E onde, a partir deste ano, o João Melo passa a ter uma rua com o seu nome. Uma bela e justa homenagem dos cumbijanenses ao seu amigo e benfeitor "tuga".
Costuma também visitar, além do mítico Mercado de Bandim, o Mercado Central, no centro histórico da cidade: foi inaugurado em 2022, depois foi reconstruído de raiz, após os grandes danos sofridos com os bombardeamentos da guerra civil de 1998/99 e do grande incêndio de 2005.
A importância do caju na vida económica e social da atual Guiné-Bissau merece um poste à parte: é praticamente o único produto que o país exporta (90%). (E, em contrapartida, importa arroz, que é a base da alimentação da população. )
terça-feira, 19 de maio de 2026
Guiné 61/74 - P28038: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (2): Ainda as "bideras", sempre "mal vistas" pelo(s) poder(es) (Cherno Baldé / António Rosinha)
Cherno Baldé (tem 330 referências no nosso blogue) |
1. Comentários (*) do nosso colaborador permanente Cherno Baldé que "firma" em Bissau:
Caros amigos,
A palavra "Bideira" vem da palavra portuguesa "vida", isto é, o esforço do "dia a dia", a luta diária, para se sustentar a si e a família. Mas, atenção que ser "Bideira" não significa ser miserável, pois da mesma forma que as "lavadeiras" não forneciam a parte mais importante do sustento das famílias nas localidades com aquartelamentos durante a guerra, a "Bideira" vulgar, sentada à berma da estrada ou que deambula à procura de clientela com uma cesta de mancarra ou outros produtos do quotidiano não pode sustentar uma família, é tão somente um complemento das mulheres para não ficarem em casa sem fazer nada de útil.
Voltando ao retrato da mulher (a Ramatulai), ve-se que ela não tem fome, pelo contrário, está obesa de um certo grau (peso a mais), deve ser mulher casada com um pequeno comerciante, funcionário público ou ainda com o marido no exterior e à espera de agrupamento familiar. Entretanto, precisa fazer alguma coisa para não morrer de ansiedade ou de solidão, como acontece um pouco por toda a parte.
Pelo nome Ramatulai (de origem árabe, Benção/Graça de Alá) percebemos que é fula (subgrupo fula-preto), e há muitas variantes (Rama, Ramatu, Aramatu/a, Tulai, Matu), um nome tipicamente muçulmano e da região da Africa Ocidental e de alguns países do Magrebe (Marrocos, Argélia...)
segunda-feira, 18 de maio de 2026 às 23:39:00 WEST
Em Fajonquito havia uma das minhas primas que tinha esse nome e que, no acto da matrícula lhe atribuiram o nome português "Maria da Graça", logo a junção dos dois dava "Maria da Graca Ramatulai Balde", um nome desnecessariamente comprido e por sinal, também, redundante, mas que sõ estou a descobrir agora, coisas que a ignorância e o mimetismo africano permitiram largamente em contextos de encontros e de integração de culturas e crenças religiosas.
Embora as circunstâncias actuais não permitam proibir a prãtica, o trabalho das "Bideiras ambulantes" não é um trabalho respeitado nem desejado no seio das famílias, independentemente do estatuto (rico, remediado ou pobre) porque está ferido de uma desconfianca generalizada devido ao caráter ambulante e incerto do negócio, de modo que, da mesma forma que as lavadeiras podiam ser "Lava-Tudo", aos olhos do povo, então esta metáfora pejorativa também se aplica às "Bideiras" como vendedeiras "Vende-tudo".
Mas, apesar de tudo isso, a liberdade e as oportunidades sociais que esta atividade proporciona às bajudas e mulheres (noivas) na sua interação com o mundo e o meio envolvente, compensa largamente o desafio de ultrapassar as barreiras sociais impostas e/ou qualquer tentativa de as limitar nos seus movimentos, de modo que é uma dor de cabeçaa social com que os pais, maridos e chefes religiosos e comunitários estão confrontados numa época de grandes e rápidas transformações sociais, culturais e económicas, ou seja, na fase da globalização mais acelerada e mais invasiva da vida em geral e familiar em particular. (...)
terça-feira, 19 de maio de 2026 às 12:43:00 WEST
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António Rosinha (tem 165 referências no blogue) |
2. Comentário de António Rosinha (*):
Curiosamente, com o sistema comunista à PAIGC de Luís Cabral, este tentou acabar com esta atividade, porque todo o comércio tinha que ser através dos Armazéns do Povo.
Até o simples camarão que as próprias mulheres apanhavam com as suas redes, e a mancarra cultivada e torrada por elas, Luís Cabral mandava a polícia impedir de negociar na rua ou de porta a porta.
A colonização e a descolonização das antigas colónias de África e seus autores, tais como Luís e Amílcar Cabral na Guiné, Lucio Lara, Agostinho Neto e Viriato da Cruz em Angola...e seus progenitores, mereciam um historiador isento.
O sistema colonial português foi muito mal substituído, com muitas desvantagens para os guineenses, pelo sistema soviético-berdiano.
Nota do editor LG:
(*) Último poste da série > 17 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28030: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (1): A "bidera" (vendedora ambulante) de Bissau (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)
domingo, 17 de maio de 2026
Guiné 61/74 - P28030: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (1): A "bidera" (vendedora ambulante) de Bissau (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)
1. Publicou o João Melo, no passado domingo, dia 10 de maio de 2026, na sua página do Facebook, esta "retrato da Guiné-Bissau", com a seguinte legenda:
As "bideras" são vendedoras de rua, fundamentais na economia informal da Guiné-Bissau, comercializando frutas, legumes e produtos essenciais, dependendo dessa venda de rua para o sustento familiar.
Esta simpática vendedora, de seu nome Ramatulai, está quase sempre no mesmo local a vender essencialmente bananas e mandioca, onde muitas vezes se compra não só por necessidade, mas também com um sentido de cooperação para complemento de renda familiar.
Obrigado, Ramatulai, por permitires a divulgação da tua foto.
2. Comentário do editor LG:
É uma retrato (des)humano que se multiplica pela África fora, que encontrámos na Guiné do nosso tempo, que voltei a encontrar em março de 2008, quando lá voltei, que eu encontrei em Luanda quando lá fui por várias vezes em trabalho (a partir de 2003), enfim, que os turistas ainda encontram no Mindelo, na Praia, no Sal (embora em menor escala)...
Esta jovem mulher guineense, Ramatulai de seu nome ou apelido (será de origem senegalesa, imigrante, Ramatoulayye ?), sorri com aquela dignidade de quem todos os dias transforma o passeio da cidade de Bissau, no seu "posto de trabalho volante" (e volátil)... A sua banca é "pobre", em variedade de produtos: dois paus de mandioca, uma dúzia de bananas (será que já tinha feito alguns CFA nesse dia ?) ...e um balde de plástico, que parece vazio (mas, não, é onde guarda a garrafa de água)...
As “bideras” não são apenas as simples vendedoras ambulantes de que os turistas gostam de bater uma "chapa" para ilustrar, no regresso a casa, o "exotismo da pobreza" em África: são também uma das colunas invisíveis da chamada economia informal, como bem diz o João Melo. Alimentam bairros, criam redes de solidariedade, dão alma às ruas de Bissau.
No sorriso aberto desta Ramatulai que se deixou fotografar pelo nosso João Melo, deixa transparecer também uma lição que aqueles de nós, que ainda conseguem, hoje na Europa, viver com dignidade e liberdade: a pobreza é um círculo vicioso exasperante, mas nem sempre, como neste caso, consegue derrotar a alegria, a dignidade e a humanidade de quem vive com o muito pouco que tem.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Guiné 61/74 - P28009: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte VII: Bissau e Bolama - Parte I

Ainda não o visionámos na totalidade. É uma reportagem completa do cruzeiro, de dois meses, com imagens e informação muito "interessantes", do ponto de vista da historiografia da presença portuguesa nas quatro "colónias" da África Ocidental visitadas, além de pormenores da partida de Lisboa, da chegada aos vários portos (Mindelo, Praia, Bissau, Bolama, Luanda, Lobito, etc.) bem como da vida a bordo. (*)
Um documentário, raro, com 90 anos, que diz muito (até pelo que omite, por defeito, conveniência, autocensura ou opção) sobre o "império colonial", expressão que se usava na época sem complexos, e até com orgulho.
O filme (feito em 35 mm, ainda sem som) tem algumas erros de montagem (cenas trocadas ou repetidas), e muitas imperfeições de imagem na cópia digitalizada. Mesmo assim, estamos gratos à Cinemateca Nacional por retirá-lo do pó dos arquivos, restaurá-lo e pô-la á disposição do público lusófono, em geral, dos antigos combatentes, em particular.
2. Recorde-se que o realizador é San Payo, nome artístico de Manuel Alves San Payo (Melgaço, 1890-Lisboa, 1974), que contou com a colaboração de Artur Costa Macedo, um conhecido operador e diretor de fotografia (S. Tomé, 1894 - Lisboa, 1966).
O mostra a viagem do paquete "Moçambique" a Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e Angola entre agosto e outubro de 1935. O cruzeiro coincidiu com as férias escolares. O navio, a vapor, "Moçambique", pertencia à CNN, será abatido, quatro anos depois, em 1939, e substituido por um novo "Moçambique", a motor, maior e melhor.
Um dos mentores do projeto foi Marcello Caetano, então com 29 anos, e já brilhante professor de direito administrativo na Faculdade de Direito de Lisboa, e intelectual orgânico do regime. Seria também ele o "diretor cultural" do cruzeiro. O objetivo desta iniciativa era didático e propagandístico: cativar as jovens elites do país para a questão colonial, num altura em que outras potências coloniais deitavam o olho a alguns territórios do império colonial português.
Resumo análitico do filme:
- até 8' > Lisboa (despedida e partida do navio); viagem até Cabo Verde;
- 8' - 23' > Cabo Verde (Mindelo, Praia, interior);
- 23' - 37' > Guiné (Bissau e Bolama);
- 37' - 46' > São Tomé e Príncipe (incluindo em São Tomé, visita às roças Água Izé, Monte Café, e Rio do Ouro; no Príncipe, roça não identificada):
- 46' - 91' > Angola (Luanda, rio Dande, Catete, Dalatando, Casengo, Porto Amboim, Gabela, fazenda de café, Lobito, caminho de ferro de Benguela, empresa de Cassequel, Catumbela, Ganda, Moçamedes, foz do rio Bero, regersso a Luanda, minumento aos mortos da Grande Guerra, batuques, desfile) (incluindo visita à fazenda Tentativa, à granja S. Luiz e outras fazendas não especificadas, além da Estação Zootécnica e missão na Huíla).
3. Registe-se que só as visitas a Luanda, Lobito e Moçâmedes duraram mais do que um dia, nos restantes locais, os "excursionistas" ficaram apenas algumas horas.
Em 1935, a organização do cruzeiro teve de enfrentar muitos problemas logísticos (falta de viaturas automóveis, péssima rede viária e hoteleira, etc.), problemas esses agravados num território como a Guiné, ainda não totalmente "pacificado" (daí que a visita se tenha limitado se a duas cidades costeiras, com cais acostável, Bissau e a capital, Bolama).
Recorde-se que só entre 1925 e 1936 é que foram "pacificados" os últimos povos animistas, no noroeste do território ("chão felupe") e nos Bijagós, tendo a última campanha sido na ilha de Canhabaque, cujos habitantes eram acusados de praticar a pirataria.Nota do editor LG:
3 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27381: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte II
13 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27416: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (12): o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente: Mindelo, agosto de 1935 - II ( e última) Parte
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Guiné 61/74 - P28000: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte IV: Bissau velha renascida, "by air": descendo da Paraça dos Heróis Nacionais até à Catedral
Vídeo (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1, O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) começou a visitar a Guiné-Bissau. regularmente, desde 2017, com uma puasa no tempo da pandemia. Vai sempre acompanhada da esposa Maria do Carmo e, às vezes, de outros camaradas. Este ano, por exemplo, com o Armando Oliveira.
Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha. O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local.
Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra. O João Melo é também um grande conhecedor e divulgador da música da Guiné-Bissau.
2. Os vídeos que o nosso camarada João Melo tem realizado nas suas visitas à Guiné-Bissau, ao longo dos últimos anos (também com o propõsito de nos ajudar a “matar saudades”) mostram que a cidade de Bissau atravessa, desde cerca de 2022, um processo visível de renovação e reabilitação urbana.
O objetivo anunciado pelas autoridades passa pela modernização das infraestruturas e pela melhoria das condições de vida da população. Mal ou bem, parece ter-se salvado uma parte importante da velha Bissau colonial, cujo conjunto arquitetónico e urbanístico há muito mereceria, pelo menos, uma séria candidatura a património da UNESCO.
Continuam em curso obras de reabilitação de estradas, com destaque para a via que liga o Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira ao centro da cidade, abrangendo igualmente a zona portuária e o eixo Quelelé–Bor.
A cidade voltou a ter semáforos funcionais em 2023, situação que aparentemente se manteve em 2024 — um pequeno sinal de normalização urbana que, para quem conheceu Bissau noutras épocas, não deixa de ter significado simbólico.
A Avenida Amílcar Cabral foi requalificada e voltou a afirmar-se como espaço de encontro e convivência dos habitantes da capital. Alguns edifícios públicos e governamentais receberam igualmente obras de recuperação, ainda que por vezes limitadas às fachadas.
Existem também projetos de construção de novas vias rodoviárias, incluindo uma estrada moderna de ligação entre o aeroporto e Safim, executados ou financiados, em parte, por empresas chinesas. Estas intervenções procuram facilitar o escoamento de mercadorias, melhorar a circulação urbana e atrair investimento externo.
Nem todas as obras, contudo, têm sido consensuais. O abate de árvores antigas em algumas avenidas suscitou críticas de urbanistas, ambientalistas e cidadãos, devido à alegada ausência de estudos de impacto ambiental e ao receio de agravamento das temperaturas e da perda de sombra numa cidade já muito exposta ao calor tropical.
Em rigor, continua pouco claro quais são, em detalhe, as fontes de financiamento e os encargos futuros associados a esta renovação urbana, havendo quem tema que parte das intervenções tenha sobretudo um alcance cosmético ou de representação política.
Gostávamos de receber o "feedback" dos nossos amigos de Bissau, e em especial do Cherno Baldé, do Patrício Ribeiro e outros.
Último poste da série > de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27995: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte III: Bissau velha renascida, "by air": subindo a av Amílcar Cabral, do cais do Pijiguiti à praça dos Heróis Nacionais
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Guiné 61/74 - P27995: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte III: Bissau velha renascida, "by air": subindo a av Amílcar Cabral, do cais do Pijiguiti à praça dos Heróis Nacionais
Vídeo (2' 03'') > Guiné-Bissau > Bissau > Abril de 2026 > Sgundo vídeo aéreo (de três), sobre a cidade de Bissau atual, "tentando com isso que, muitos dos que por lá passaram possam matar saudades"...
Vídeo (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Disponível em: Lua Kata Kema | José Carlos Schwarz & Le Cobiana DjazzLua Ki Di Nos (2021)
Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha, e tem viajado regularmente, desde 2017, com a esposa, Maria do Carmo, para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade".
O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local. Este ano a população do Cumbijã fez-lhe uma bonita homenagem, atribuindo o seu nome a uma rua da localidade (*)
Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra (**). O João Melo é também um grande conhecedor e divulgador da música da Guiné-Bissau.
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(´**) Último poste da série > 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27986: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não...Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte I: O Natal do Cumbijã é em Abril
(**) Vd. último poste da série > 5 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27989: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Parte II: Bissau velha renascida, "by air": do Hotel Coimbra ao cais do Pijiguiti
terça-feira, 5 de maio de 2026
Guiné 61/74 - P27989: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Parte II: Bissau velha renascida, "by air": do Hotel Coimbra ao cais do Pijiguiti
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João Melo, nosso grão-tabanqueiro desde 1/3/2009 |
Legenda: Porto de Bissau, ou ponte-cais, o edifício das Alfândegas, à direita, a praça com o monumento a Diogo Cão (derrubada a seguir à independência), a entrada para a Fortaleza da Amura, ao centro, e à esquerda, se não erro, a Casa Gouveia (ou um estabelecimento da Casa Gouveia... Este é que é (era) o coração de Bissau Velho... A marginal chama-se hoje Av. 3 de Agosto.



































