Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
Guiné- Bissau > Bissau > Mercado Central > c. maio de 2025 > Vendedora de caju ... mas também de papaia... num espaço aparentemente às moscas. As "bideras" são as que andam na rua, enxotadas pela polícia camarária. Já no tempo do Luís Cabral, não gostavam delas. No nosso tempo havia os "djubis" que vendiam "mancarra". A tropa ainda não conhecia o gosto do caju...
1. Foto da página do Facebook do nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), que começou a visitar a Guiné-Bissau, regularmente, desde 2017, com uma pausa no tempo da pandemia. Em geral, viaja no fim da estação seca (março / abril / maio).
Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha. O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local. E onde, a partir deste ano, o João Melo passa a ter uma rua com o seu nome. Uma bela e justa homenagem dos cumbijanenses ao seu amigo e benfeitor "tuga".
Costuma também visitar, além do mítico Mercado de Bandim, o Mercado Central, no centro histórico da cidade: foi inaugurado em 2022, depois foi reconstruído de raiz, após os grandes danos sofridos com os bombardeamentos da guerra civil de 1998/99 e do grande incêndio de 2005.
A importância do caju na vida económica e social da atual Guiné-Bissau merece um poste à parte: é praticamente o único produto que o país exporta (90%). (E, em contrapartida, importa arroz, que é a base da alimentação da população. )
Tal como deve merecer a nossa atenção a importância que os mercados têm m na via dos guineenses, sendo o de Bandim um dos maiores de África: é lá que se sente o pulsar da cidade, dizem os viajantes.
Guiné - Bissau > Bissau > Setembro de 2022 > " Uma das bideras no mercado improvisado de Bairro d’Ajuda (Espaço Verde), Decoliciana Malú Mango, Reportagem de Filomeno Sambú
Cherno Baldé (tem 330 referências no nosso blogue)
1. Comentários (*) do nosso colaborador permanente Cherno Baldé que "firma" em Bissau:
Caros amigos,
A palavra "Bideira" vem da palavra portuguesa "vida", isto é, o esforço do "dia a dia", a luta diária, para se sustentar a si e a família. Mas, atenção que ser "Bideira" não significa ser miserável, pois da mesma forma que as "lavadeiras" não forneciam a parte mais importante do sustento das famílias nas localidades com aquartelamentos durante a guerra, a "Bideira" vulgar, sentada à berma da estrada ou que deambula à procura de clientela com uma cesta de mancarra ou outros produtos do quotidiano não pode sustentar uma família, é tão somente um complemento das mulheres para não ficarem em casa sem fazer nada de útil.
Esta é a parte económica e financeira que o justifica. Outra parte, mais social e humana, é a necessidade da interação com o mundo, com as pessoas fora do círculo familiar para efeitos de saúde mental em contextos urbanos menos abertos para pessoas de origem rural, habituadas à interação social permanente com o meio ambiente e com as pessoas e que ficam um pouco perdidas sem esta alimentação da palavra e da "fofoca" habitual nas aldeias e meios urbanos do interior.
Uma particularidade bem marcante dessa realidade é o facto de que, em Bissau, mesmo vivendo numa casa cercada com muros, as pessoas, sobretudo mulheres e crianças, poucos aguentam o sufoco de viver intramuros, preferem a rua, as feiras e a liberdade de deambular com uma cesta de produtos agrícolas com valor abaixo de 1 euro. Vão à cidade, para os mercados dos Bairros ou ao Bandim, muitas vezes à revelia dos maridos e familiares que não concordam com este "nomadismo" com disfarce de "Bideira".
As verdadeiras "Bideiras"encontram-se dentro dos mercados na revenda do pescado, legumes e frutas. Estas, sim, são vendedeiras de verdade e com rendimentos que rivalizam com os comerciantes (homens) de nível médio no mercado nacional, algumas fazendo actividades de import-export de diversos produtos e bens de consumo.
Voltando ao retrato da mulher (a Ramatulai), ve-se que ela não tem fome, pelo contrário, está obesa de um certo grau (peso a mais), deve ser mulher casada com um pequeno comerciante, funcionário público ou ainda com o marido no exterior e à espera de agrupamento familiar. Entretanto, precisa fazer alguma coisa para não morrer de ansiedade ou de solidão, como acontece um pouco por toda a parte.
Pelo nome Ramatulai (de origem árabe, Benção/Graça de Alá) percebemos que é fula (subgrupo fula-preto), e há muitas variantes (Rama, Ramatu, Aramatu/a, Tulai, Matu), um nome tipicamente muçulmano e da região da Africa Ocidental e de alguns países do Magrebe (Marrocos, Argélia...)
É com muito gosto que partilho ideias, opiniões e saberes sobre a minha terra com os veteranos da Guiné nas páginas deste Blogue, uma quase enciclopédia.
Passei quase toda a minha vida a tentar descobrir os pilares em que se assenta a civilização Ocidental e sobre as suas gentes, sem todavia descurar, também, dos nossos.
É sempre justo e útil a partilha para um maior e melhor conhecimento sobre nós e sobre o outro.
(...) Ramatulai como nome feminino ou Aramatulai ( que a paz ou benção esteja contigo) como expressão religiosa é muito presente no meio muçulmano e equivaleria à popular "Maria da Graça" no meio português-
Em Fajonquito havia uma das minhas primas que tinha esse nome e que, no acto da matrícula lhe atribuiram o nome português "Maria da Graça", logo a junção dos dois dava "Maria da Graca Ramatulai Balde", um nome desnecessariamente comprido e por sinal, também, redundante, mas que sõ estou a descobrir agora, coisas que a ignorância e o mimetismo africano permitiram largamente em contextos de encontros e de integração de culturas e crenças religiosas.
A força simbólica do nome está no facto de que, em todas orações, que se fazem cinco vezes durante o dia, as últimas palavras que se ouvem, sistemanticamente, são as seguintes :
"Assalamu-alaikum wa-rahmatullai Wa-barakatuh", ou seja, "Que a paz, a misericordia e as bencãos de Allah estejam convosco".
Embora as circunstâncias actuais não permitam proibir a prãtica, o trabalho das "Bideiras ambulantes" não é um trabalho respeitado nem desejado no seio das famílias, independentemente do estatuto (rico, remediado ou pobre) porque está ferido de uma desconfianca generalizada devido ao caráter ambulante e incerto do negócio, de modo que, da mesma forma que as lavadeiras podiam ser "Lava-Tudo", aos olhos do povo, então esta metáfora pejorativa também se aplica às "Bideiras" como vendedeiras "Vende-tudo".
Mas, apesar de tudo isso, a liberdade e as oportunidades sociais que esta atividade proporciona às bajudas e mulheres (noivas) na sua interação com o mundo e o meio envolvente, compensa largamente o desafio de ultrapassar as barreiras sociais impostas e/ou qualquer tentativa de as limitar nos seus movimentos, de modo que é uma dor de cabeçaa social com que os pais, maridos e chefes religiosos e comunitários estão confrontados numa época de grandes e rápidas transformações sociais, culturais e económicas, ou seja, na fase da globalização mais acelerada e mais invasiva da vida em geral e familiar em particular. (...)
(...) Essa imagem de Bideira não é mais nem menos de uma mulher africana a adaptar-se forçadamente à maneira da mulher das feiras europeias.
Curiosamente, com o sistema comunista à PAIGC de Luís Cabral, este tentou acabar com esta atividade, porque todo o comércio tinha que ser através dos Armazéns do Povo.
Até o simples camarão que as próprias mulheres apanhavam com as suas redes, e a mancarra cultivada e torrada por elas, Luís Cabral mandava a polícia impedir de negociar na rua ou de porta a porta.
A colonização e a descolonização das antigas colónias de África e seus autores, tais como Luís e Amílcar Cabral na Guiné, Lucio Lara, Agostinho Neto e Viriato da Cruz em Angola...e seus progenitores, mereciam um historiador isento.
O sistema colonial português foi muito mal substituído, com muitas desvantagens para os guineenses, pelo sistema soviético-berdiano.
As "bideras" são vendedoras de rua, fundamentais na economia informal da Guiné-Bissau, comercializando frutas, legumes e produtos essenciais, dependendo dessa venda de rua para o sustento familiar.
Há tensões frequentes entre as vendedoras e a Camara Municipal de Bissau, devido à sua ocupação de passeios e vias públicas, especialmente na zona de Alvalade, tentando com isso centralizar o comércio no Mercado de Bandim (a alma de Bissau) ou no Mercado Municipal no centro da cidade.
Esta simpática vendedora, de seu nome Ramatulai, está quase sempre no mesmo local a vender essencialmente bananas e mandioca, onde muitas vezes se compra não só por necessidade, mas também com um sentido de cooperação para complemento de renda familiar.
Obrigado, Ramatulai, por permitires a divulgação da tua foto.
João Melo (ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74); vai todos os anos à Guiné-Bissau, já mais para o fim da época seca (março / abril), em viagem de saudade e solidariedade.
2. Comentário do editor LG:
É uma retrato (des)humano que se multiplica pela África fora, que encontrámos na Guiné do nosso tempo, que voltei a encontrar em março de 2008, quando lá voltei, que eu encontrei em Luanda quando lá fui por várias vezes em trabalho (a partir de 2003), enfim, que os turistas ainda encontram no Mindelo, na Praia, no Sal (embora em menor escala)...
Esta jovem mulher guineense, Ramatulai de seu nome ou apelido (será de origem senegalesa, imigrante, Ramatoulayye ?), sorri com aquela dignidade de quem todos os dias transforma o passeio da cidade de Bissau, no seu "posto de trabalho volante" (e volátil)... A sua banca é "pobre", em variedade de produtos: dois paus de mandioca, uma dúzia de bananas (será que já tinha feito alguns CFA nesse dia ?) ...e um balde de plástico, que parece vazio (mas, não, é onde guarda a garrafa de água)...
Que história de vida será a sua ? A da luta quotidiana pela sobrevivência, uma história feita de lições de coragem, persistência, simpatia, humildade, paciência, sorriso franco mas também manha e pé ligeiro para fugir ao fiscal camarário e à polícia (e, calhar, a outros "predadores sociais").
As “bideras” não são apenas as simples vendedoras ambulantes de que os turistas gostam de bater uma "chapa" para ilustrar, no regresso a casa, o "exotismo da pobreza" em África: são também uma das colunas invisíveis da chamada economia informal, como bem diz o João Melo. Alimentam bairros, criam redes de solidariedade, dão alma às ruas de Bissau.
7 em cada 10 mulheres da Guiné-Bissau vivem na pobreza, pelo que têm de recorrer, para sobreviver, às atividades informais e ao frágeis sistemas comunitários de apoio (incluindo ONGS, nacionais e estrangeiras).
No sorriso aberto desta Ramatulai que se deixou fotografar pelo nosso João Melo, deixa transparecer também uma lição que aqueles de nós, que ainda conseguem, hoje na Europa, viver com dignidade e liberdade: a pobreza é um círculo vicioso exasperante, mas nem sempre, como neste caso, consegue derrotar a alegria, a dignidade e a humanidade de quem vive com o muito pouco que tem.
(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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O filme, feito em parte com dinheiros públicos, não chegou a passar nas salas de cinema: terá sido projetado uma única vez, no S. Luiz, em Lisboa, a 29 de junho de 1936, em sessão destinada aos participantes do cruzeiro.
1. Desde 4/11/2025, temos mostrado alguns fotogramas do documentário, de longa duração (91' 13''), sobre o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente. O filme está disponível, em formato digital, no portal "Cinemateca Digital", da Cinemateca Nacional.
Ainda não o visionámos na totalidade. É uma reportagem completa do cruzeiro, de Dois meses, com imagens e informação muito "interessantes", do ponto de vista da historiografia da presença portuguesa nas quatro "colónias" da África Ocidental visitadas, além de pormenores da partida de Lisboa, da chegada aos vários portos (Mindelo, Praia, Bissau, Bolama, Luanda, Lobito, etc.) bem como da vida a bordo. (*)
Um documentário, raro, com 90 anos, que diz muito (até pelo que omite, por defeito, conveniência, autocensura ou opção) sobre o "império colonial", expressão que se usava na época sem complexos, e até com orgulho. O filme (feito em 35 mm, ainda sem som) tem algumas erros de montagem (cenas trocadas ou repetidas), e muitas imperfeições de imagem na cópia digitalizada. Mesmo assim, estamos gratos á Cinemateca Nacional por retirá-lo do pó dos arquivos, restaurá-lo e pô-la á disposição do público lusófono, em geral, dos antigos combatentes, em particular
2. Recorde-se que o realizador é San Payo, nome artístico de Manuel Alves San Payo (Melgaço, 1890-Lisboa, 1974), que contou com a colaboração de Artur Costa Macedo, um conhecido operador e diretor de fotografia (S. Tomé, 1894 - Lisboa, 1966).
O mostra a viagem do paquete "Moçambique" a Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e Angola entre agosto e outubro de 1935. O cruzeiro coincidiu com as férias escolares. O navio, a vapor, "Moçambique", pertencia à CNN, será abatido, quatro anos depois, em 1939, e substituido por um novo "Moçambique", a motor, maior e melhor.
A iniciativa foi da revista "O Mundo Português", com apoio do Secretariado da Propaganda Nacional e Ministério das Colónias. A revista era editada pela Agência Geral das Colónias e pelo Secretariado da Propaganda Nacional.
Os "excursionsistas" não chegavam às duas centenas, incluindo 7 dezenas de estudantes , considerados os melhores alunos na conclusão do curso geral dos liceus (entre eles, o Ruy Cinatti). E só 20% eram mulheres.
Um dos mentores do projeto foi Marcelo Caetano, então com 29 anos, e já brilhante professor de direito administrativo na Faculdade de Direito de Lisboa, e intelectual orgânico do regime. Seria também ele o "diretor cultural" do cruzeiro. O objetivo desta iniciativa era didático e propagandístico: cativar as jovens elites do país para a questão colonial, num altura em que outras potências coloniais deitavam o olho a alguns territórios do império colonial português.
O documentário dedica menos de 15 minutos à visita à Guiné (Bissau e Bolama). O realizador viveu na 2ª década do séc. XX no Brasil, país onde se iniciou na fotografia e no cinema: fez alguns filmes e documentários. Mas é em Portugal se torna um reputado fotógrafo das elites (políticas, sociais e culturais), sobretudo nos 30, 40 e 50. A clientela reflete também a qualidade técnica e estética do seu trabalho.
Dizia-se, todavia, "apolítico". Mas sua escolha como realizador deste documentário não pode ser vista como "inocente": como fotógrafo das elites (incluindo Salazar), dava garantias que o documentário reforçaria a "narrativa oficial".
Neste filme, o realizador dá sempre maior destaque aos aspetos cénicos do cruzeiro: as chegadas, o cais, a receção das populações locais, com as suas "danças indígenas", o exotismo humano e paisagístico, o anedótico, o "flagrante", ...
Há um ou outro apontamento sobre a história da colonização: por exemplo, um dos intertítulos, referente ao forte de São José da Amura, diz explicitamente que a cidade de Bissau, até aos anos 20, cabia dentro das muralhas... Não sei se a censura terá gostado, ou até pode ser que sim: podia interpretado como uma "bicada" á malfadada República, derrubada em 28 de maio de 1926.
Bissau em 1935 ainda não era a capital, a cidade estava a crescer, segundo um plano urbanístico do tempo da Republiva, mas tinha apenas um cais-acostável... Há poucas imagens da cidade, de resto as obras públicas só virão mais tarde, com o impulso dado pelo governador Sarmento Rodrigues à "modernização" da colónia... Mas um dos fotogramas mostra já a Av da República, com candeeiros de iluminação pública.
Era então governador da Guiné (1933-1941) o major do exército Luís António de Carvalho Viegas (chegará a general em 1948; será deputado na Assembleia Nacional, na IV Legislatura, 1945-1949).
Resumo análitico do filme:
até 8' > Lisboa (despedida e partida do navio); viagem até Cabo Verde;
8' - 23' > Cabo Verde (Mindelo, Praia, interior);
23' - 37' > Guiné (Bissau e Bolama);
37' - 46' > São Tomé e Príncipe (incluindo em São Tomé, visita às roças Água Izé, Monte Café, e Rio do Ouro; no Príncipe, roça não identificada):
46' - 91' > Angola (Luanda, rio Dande, Catete, Dalatando, Casengo, Porto Amboim, Gabela, fazenda de café, Lobito, caminho de ferro de Benguela, empresa de Cassequel, Catumbela, Ganda, Moçamedes, foz do rio Bero, regersso a Luanda, minumento aos mortos da Grande Guerra, batuques, desfile) (incluindo visita à fazenda Tentativa, à granja S. Luiz e outras fazendas não especificadas, além da Estação Zootécnica e missão na Huíla).
3. Registe-se que só as visitas a Luanda, Lobito e Moçâmedes duraram mais do que um dia, nos restantes locais, os "excursionistas" ficaram apenas algumas horas.
Em 1935, a organização do cruzeiro teve de enfrentar muitos problemas logísticos (falta de viaturas automóveis, péssima rede viária e hoteleira, etc.), problemas esses agravados num território como a Guiné, ainda não totalmente "pacificado" (daí que a visita se tenha limitado se a duas cidades costeiras, com cais acostável, Bissau e a capital, Bolama).
Recorde-se que só entre 1925 e 1936 é que foram "pacificados" os últimos povos animistas, no noroeste do território ("chão felupe") e nos Bijagós, tendo a última campanha sido na ilha de Canhabaque, cujos habitantes eram acusados de praticar a pirataria.
Tratando-se de um documentário sem som síncrono, o realizador recorreu aos intertítulos (no fundo, as velhas legendas usadas para apresentar diálogos ou explicar a narrativa entre as cenas ou sequèncias no cinema mudo). Eram cartões de texto filmados e inseridos durante a montagem do filme para ajudar o público a compreender a narrativa, uma vez que não havia som sincronizado.
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Por razões de produção, financeiras e técnicas, os documentários continuarão a fazer-se sem som síncrono até muito tarde, início dos anos 60.
Diversas empresas portuuguesas expuseram os seus produtos a bordo, e fizeram publicidade no roteiro, ajudando assim ao encaixe necessário para o financiamento da viagem, que contou ainda com 150 contos dados pelo governo, mais as receitas das inscrições dos excursionistas (que eram caras para a época, como já vimos).
Vídeo (1' 55'') > Guiné-Bissau > Bissau > Masrço de 2026 > Terceiro e último vídeo aéreo de parte da cidade de Bissau, mais propriamente o trajeto que vai da antiga Praça do Império (atual Praça dos Heróis Nacionais ) até à Sé Catedral, que fica a meio da Av Amílcar Cabral (antiga Av da República, que ia dar ao cais do Pijiguiti).
1, O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) começou a visitar a Guiné-Bissau. regularmente, desde 2017, com uma puasa no tempo da pandemia. Vai sempre acompanhada da esposa Maria do Carmo e, às vezes, de outros camaradas. Este ano, por exemplo, com o Armando Oliveira.
Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha. O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local.
Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra. O João Melo é também um grande conhecedor e divulgador da música da Guiné-Bissau.
2. Os vídeos que o nosso camarada João Melo tem realizado nas suas visitas à Guiné-Bissau, ao longo dos últimos anos (também com o propõsito de nos ajudar a “matar saudades”) mostram que a cidade de Bissau atravessa, desde cerca de 2022, um processo visível de renovação e reabilitação urbana.
O objetivo anunciado pelas autoridades passa pela modernização das infraestruturas e pela melhoria das condições de vida da população. Mal ou bem, parece ter-se salvado uma parte importante da velha Bissau colonial, cujo conjunto arquitetónico e urbanístico há muito mereceria, pelo menos, uma séria candidatura a património da UNESCO.
Continuam em curso obras de reabilitação de estradas, com destaque para a via que liga o Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira ao centro da cidade, abrangendo igualmente a zona portuária e o eixo Quelelé–Bor.
A cidade voltou a ter semáforos funcionais em 2023, situação que aparentemente se manteve em 2024 — um pequeno sinal de normalização urbana que, para quem conheceu Bissau noutras épocas, não deixa de ter significado simbólico.
A Avenida Amílcar Cabral foi requalificada e voltou a afirmar-se como espaço de encontro e convivência dos habitantes da capital. Alguns edifícios públicos e governamentais receberam igualmente obras de recuperação, ainda que por vezes limitadas às fachadas.
Existem também projetos de construção de novas vias rodoviárias, incluindo uma estrada moderna de ligação entre o aeroporto e Safim, executados ou financiados, em parte, por empresas chinesas. Estas intervenções procuram facilitar o escoamento de mercadorias, melhorar a circulação urbana e atrair investimento externo.
Nem todas as obras, contudo, têm sido consensuais. O abate de árvores antigas em algumas avenidas suscitou críticas de urbanistas, ambientalistas e cidadãos, devido à alegada ausência de estudos de impacto ambiental e ao receio de agravamento das temperaturas e da perda de sombra numa cidade já muito exposta ao calor tropical.
Em rigor, continua pouco claro quais são, em detalhe, as fontes de financiamento e os encargos futuros associados a esta renovação urbana, havendo quem tema que parte das intervenções tenha sobretudo um alcance cosmético ou de representação política.
Gostávamos de receber o "feedback" dos nossos amigos de Bissau, e em especial do Cherno Baldé, do Patrício Ribeiro e outros.
Este vídeo, obtido em fim de tarde, foca o trajeto da Av. Amílcar Cabral, desde o Porto de Mar atá à Praça Principal (Heróis Nacionais, antiga Praça do Império, até 1975).
Fundo musical: o "imortal" José Carlos Schwarz (Bissau, 1949 - Havana, 1977) + o seu "mítico" grupo, Le Cobiana Djazz, no álbum "Lua Ki di Nos" (The Moon is Ours | A Lua é Nossa) (2021)
1. O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), voltou de novo na Guiné-Bissau, este ano, na estação seca.
Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha, e tem viajado regularmente, desde 2017, com a esposa, Maria do Carmo, para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade".
O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local. Este ano a população do Cumbijã fez-lhe uma bonita homenagem, atribuindo o seu nome a uma rua da localidade (*)
Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra (**). O João Melo é também um grande conhecedor e divulgador da música da Guiné-Bissau. .
Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Maio de 2025 > João de Melo e Maria do Carmo, ao centro, acarinhados pela equipa de futebol local, "Os Tigres do Cumbijã".
Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Maio de 2025 > O João de Melo com os miúdos da escola (do ensino pré-primnário ao 6º ano) que ele e a esposa estão a ajudar com donativos recolhidos na região centro
1. O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), esteve de novo na Guiné-Bissau, em por volta de março/abril de 2026.
Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha, e tem viajado regularmente, desde 2017, com a esposa, Maria do Carmo, para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade".
A viagem inclui a tabanca de Cumbijã onde distribui ajuda humanitária pelas escolas locais, e apoia o clube de futebol local) (*).
Este ano a população local fez-lhe uma singela mas justa homenagem, atribuindo o seu nome a uma rua da localidade.
Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra
(**).
Este ano fez um vídeo com o seu drone, mostrando esta parte da cidade, renascida com a
Fénix. Os nossos camaradas, que passaram por Bissau, há mais de meio século, ainda reconhecerão alguns dos edifícios e sítios, ruas, praças e cais, desse tempo, a começar pela catedral e o porto do Pijiguiti, e incluindo antiga Casa Gouveia (que ficava em frente ao Café Bento, a famosa 5ª Rep).
Guiné-Bissau > Bissau > s/d > O edifício do Coimbra Hotel & SPA, fundado em 2001, sito no edifício do antigo estabelecimento comercial Nunes & Irmão Lda, na Av Amílcar Cabral (antiga Av República).
É o mais imponente edifício comercial do centro histórico de Bissau, da época colonial. É vizinho da catedral católica de Bissau.
Foto: arquivo do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, cedida por Virgílio Teixeira (2020)
Guiné > Bissau > s/d (c. anos 60) > Sem legenda > Av da República (hoje, Av Amílcar Cabral) > Ao fundo no início da avenida, o Palácio do Governador, e a Praça do Império; do lado direito, a Catedral de Bissau (em segundo plano)...
No final da avenida, tínhamos a Casa Gouveia, à esquerda, em primeiro plano, com a esplanada do Café Bento à direita (e contigua à sede da Administração Civil: deste edifíci, só se vê praticamente o telhado, acima do arvoredo)
Edição (e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010).
Guiné > Bissau > s/d > Vista aérea da Ponte Cais, Bissau. Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 119" . (Edição Foto Serra, COP 239 Bissau. Impresso em Portugal, Imprimarte - Publicações e Artes Gráficas, SARL).
Legenda: Porto de Bissau, ou ponte-cais, o edifício das Alfândegas, à direita, a praça com o monumento a Diogo Cão (derrubada a seguir à independência), a entrada para a Fortaleza da Amura, ao centro, e à esquerda, se não erro, a Casa Gouveia (ou um estabelecimento da Casa Gouveia... Este é que é (era) o coração de Bissau Velho... A marginal chama-se hoje Av. 3 de Agosto.
Bilhete postal da coleção do nosso camarada Agostinho Gaspar / Digitalização, legenda e edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010
Deixamos aqui, com a devida vénia à Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961/1974), a reprodução da pág.317 - Companhia de Caçadores n.º 417 - da Ficha das Unidades - 7.º Volume - Tomo II - Guiné.
Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494
O dia 27 de janeiro de 1972 marcou a fronteira entre o que eu era e o que viria a ser. Embarquei por via aérea num avião dos TAM (transporte aéreo militar) DC 6 em Lisboa com a inquietação de quem parte para o desconhecido. O avião levantou voo pesado, como se carregasse não só homens, mas também os medos que cada um escondia no fundo do peito.
Douglas DC6 dos Transportes Aéreos Militares (TAM)
A viagem até Bissau durou nove horas, uma travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar. A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal, em Cabo Verde. Aquela escala breve, entre o céu e o mar, parecia suspender o tempo - como se fosse o último momento de respiração antes do mergulho definitivo na guerra.
Foi ali, naquele pedaço de terra árida e luminosa, que escrevi e enviei à minha esposa o meu primeiro postal. As palavras eram simples, mas carregavam tudo o que eu não sabia dizer em voz alta: a saudade antecipada, a incerteza, a necessidade de manter um fio de ligação ao mundo que estava a deixar para trás.
Depois da escala, voltámos a levantar voo. O DC6 avançou sobre o Atlântico como se nos empurrasse para um destino inevitável. Quando finalmente aterrámos em Bissau, o ar quente e húmido recebeu-me como um aviso silencioso: a partir daqui, és outro.
Durante o mês que permaneci em Bissau, tive a sorte de ser acolhido na casa do 1.º Sargento, Manuel da Silva Caldas e da sua família. Ele era o chefe do STM (Serviço Telecomunicações Militares) no Agrupamento TRMS no Quartel de Santa Luzia, e abriu-me a porta como se eu fosse um filho que chegava de longe. Aquele lar improvisado, tão distante do meu, deu-me um chão firme num momento em que tudo era novo. A mesa partilhada, as conversas, a normalidade possível - tudo isso ajudou a suavizar o peso da guerra que se aproximava.
Bissau - 1972, 1.º sarg. Caldas em primeiro plano, eu, de costas
Fiquei um mês em Bissau, em estágio de radiotelegrafista. Era um tempo de adaptação, mas também de disciplina. Passava horas a fio a praticar grafia, o velho morse que se tornaria a minha segunda respiração. O som seco dos pontos e traços marcava o ritmo dos dias, como se cada mensagem fosse um pequeno exercício de sobrevivência.
Bissau 1972 - Agrupamento das TRMS
Ali aprendi não apenas a transmitir - aprendi a ouvir. A distinguir interferências, a reconhecer padrões, a perceber quando uma mensagem vinha limpa ou quando escondia urgência. E, acima de tudo, aprendi os procedimentos de segurança: como manter silêncio rádio, como evitar que uma falha minha colocasse homens em risco.
A fonia também fazia parte do treino, mas era a grafia que exigia mais de mim. A fonia era rápida; o morse era preciso. E na Guiné, a precisão salvava vidas.
Em 3 março de 1972, segui para o mato por via aérea. O avião era um Dakota, daqueles que tremiam como se carregassem memórias de todas as guerras anteriores. Aterrámos em Bafatá, e dali seguimos em coluna auto, com paragem em Bambadinca, onde o cheiro a poeira e gasóleo parecia anunciar que o interior da Guiné tinha regras próprias.
O destino final era o Xime. E o Xime não era apenas um aquartelamento - era um teste diário à resistência de cada homem.
Ali, entre o Geba castanho e a mata cerrada, aprendi que o silêncio nunca era silêncio. Havia sempre um rumor, um estalar, um pressentimento. E quando a noite caía, caía mesmo - pesada, espessa, cheia de sombras que pareciam mover-se sozinhas.
O posto de Transmissões, era num local sem segurança, sempre que éramos flagelados tínhamos de procurar um abrigo próximo. Operava em grafia (código morse) com o emissor receptor AN/GRC-9 e em fonia com o AVP-1 conhecido por banana e o TR-28 (Racal). Eu pertencia às Transmissões de Engenharia, e o meu trabalho era feito num posto fixo, dentro do aquartelamento. Não participava nas operações. Essas cabiam aos TRMS de infantaria, que saíam com o Racal (TR-28) e com o AVP-1, acompanhando os grupos de combate nas picadas, nas emboscadas, nos reconhecimentos.
O meu mundo era outro. Eu ficava no coração das comunicações, onde a guerra chegava em forma de sons metálicos, interferências, códigos e urgências. Fazia escuta permanente e transmitia quando era preciso - e era preciso muitas vezes.
Era ali, naquele posto fixo, que mantinha vivas as ligações com Bambadinca, Mansambo, Enxalé e Xitole. Era ali que recebia pedidos, alertas, relatórios, mensagens codificadas. E era dali que partiam as comunicações que podiam decidir se uma operação avançava, recuava ou pedia evacuação.
A guerra, para mim, não era a picada. Era o som seco do morse, a tensão da escuta, o silêncio que precedia uma mensagem urgente, a responsabilidade de não falhar. E, no fim, era a certeza de que, mesmo sem sair do aquartelamento, eu estava ligado a todos os que lá fora arriscavam a vida.
Para além de numerosos contactos com o inimigo no terreno em operações, emboscadas etc., no aquartelamento fomos muitas vezes flagelados com armas pesadas e ligeiras, nomeadamente Canhão s/recuo, morteiro 82 mm, RPG 7, RPG 2 e Foguetões.
A guerra molda-nos sem pedir licença. E quando chegou o dia 3 de abril de 1974, o dia do regresso, senti que deixava para trás uma parte de mim que nunca mais recuperaria.
Voltei por via aérea num Boeing 707, como tinha chegado. Mas o homem que regressou não era o mesmo que partira. Foram 26 meses e 7 dias na guerra da Guiné.
Hoje, tantos anos depois, sei que a CART 3494 não foi apenas uma unidade militar. Foi uma família improvisada, forjada no calor, na lama, no perigo e na necessidade absoluta de confiar uns nos outros.
E cada vez que nos juntamos, cada convívio, cada abraço, cada história repetida, é como se o rádio voltasse a ganhar vida - e a ligação entre nós se mantivesse tão forte como naquele tempo.
Porque, no fundo, a guerra passa, mas os homens que a viveram nunca se perdem uns dos outros.
António Castro,
ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494
07ABR2026
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