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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28149: As nossas geografias emocionais (68): Bambadinca, edifício dos CTT, ao tempo do Jaime Machado (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70)



Foto nº 1 e 1A > Guiné >  Bambadinca >  CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones): à porta, presume-se que seja um funcionário (talvez cabo-verdiano) à espera de...clientes. Naquela época, os clientes seriam, na sua grande maioria, os militares. Só nos CTT podíamos fazer "chamadas particulares" (para a família, a namorada, um ou outro amigo...). Era preciso marcar data e hora. Em geral, de véspera. Era uma exercício de paciência e persistência, de um  lado e do outro...



Foto nº 2  e 2A> Guiné > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT, sito no lado direito, descendente, da rua principal da povoação... A rua, de terra batida,  vinha do quartel (construído num pequeno promontório à cota 33)  seguia para o rio, o porto fluvial e a estrada de Bafatá, a nordeste.


Foto nº 3 > Guiné  > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT  > Outra perspetiva da rua que dividia a tabanca ao meio, e era muito movimentada (peões, animais  e viaturas; vê-se ao fundo um jipe que se dirige ao quartel que ficava num pequeno promontório)


Foto nº 4 > Guiné  > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Vista (parcial)  da tabanca  e da zona ribeirinha de Bambadinca. Pontos de referência: o edifício dos CTT, o fontenário, e o rio Geba Estreito.


Foto nº 5  > Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína  (1)


Foto nº 6  > Guiné-Bissau >  Região de Bafatá > Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína (2) e moranças vizinhas


Foto nº 7  > Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína (3) e aspeto parcial da rua, já então em desuso


Foto nº 8  > Guiné-Bissau > Região de Bafatá >  Bambadinca > 2010  > Antigo edifício dos CTT, em ruína  (4)...  A povoação deve ter passado dos 1500 habitanets em 1970 para os 8 mil em 2010...Hoje, todo o setor de Bambadinca (cidade e comnunidades rurais) deve ter nmais de 32 mil. Bambadinca cresceu ao longo da nova estrada, alcatroada que circunda a bolanha.

Fotos do álbum do Jaime Machado.

Fotos: © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 9 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) >  Vista aérea: do lado esquerdo parte (nordeste) do quartel e posto administrativo; ao centro, a tabanca; ao fundo, o caprichoso rio Geba Estreito, o porto fluvial, o destacamento da intendência (Pel Int) e o início da bolanha de Finete (na margem norte do rio), já no regulado do Cuor; e, do lado direito, a nova estrada em construção que ligará o Xime a Bafatá, e que em Bamdinca, contornava a bolanha (que ficava a sul), a grande bolanda de Bambadinca (cujo nome em mandinga quer dizer "cova do lagarto", ou seja, do crocodilo).


Foto nº 10 > Guiné > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Vista aérea(1): Legendas: 

Parte do recinto do quartel (1) e rede de arame farpado, a leste e nordeste; porta de armas,com cavalo de frisa (4); casa e loja do Rendeiro (3); edifício dos CTT (5) e fontenário (6) (e logo a seguir o edifício do mercado), ambos na antiga rua principal; nova estrada, circundando a tabanca pelo lado leste/nordeste (7); ligação ao porto fluvial à esquerda e à estrada (já existente, alcatroada) de Bafatá (11); porto fluvial / cais (8); rio Geba (9); destacamento da Intendência (10).


Foto nº 11 >  Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Vista aérea (2): Legendas: 

Rio Geba (1), destacamento da Intendência (2), porto fluvial / cais (3), bolanha de Finete (4), rampa de acesso ao quartel e posto administrativo (5), loga e casa do Rendeiro (6), edifício dos CTT (7), fontenário (8) .


Foto nº 12 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Entrada principal, pelo lado nordeste  (sentido Bafatá), do aquartelamento. O fontenário está sinalizado com um círculo a vermelho, ficava a uns 50 metros da casa e estabelecimento comercial do Rendeiro; do outro lado, ficava o edifício dos CTT. Nesta rampa (íngreme)  ia perdendo a vida o major Ribeiro, o "major elétrico", º comandante do BCAÇ 2852 (de nome completo, Ângelo Augusto da Cunha Ribeiro, já falecido):  o seu jipe ficou debaixo de toros de madeira que se desprenderam de uma camioneta (civil ?) que terá perdido os travões ou parado na subida da rampa...


Foto nº 13 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Vista (parcial) da rua principal que atravessava tabanca de Bambadinca, e que descia do quartel (cota 33) até ao Rio Geba... Assinalado com um círculo a vermelho o fontenário... O edifício dos CTT não é visível, mas ficava do lado  direito, logo a seguir ao edifício com muro branco, no canto inferior direito da foto...  No final da rua, do lado direito ficava a loja e o bar do Zé Maria (comerciante branco, de quem se dizia, justa ou injustamente, que jogava com um pau de dois bicos, como qualquer comercinte numa situação de guerra).


Foto nº 14 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Vista (parcial) da tabanca de Bambadinca, com o Rio Geba ao fundo. Foto tirada do lado nordeste. Em primeiro plano, contígua ao arame farpado, a casa e o estabelecimento comercial do Rodrigo Rendeiro, um dos poucos comerciantes  portugueses que conhecemos na Guiné, em 1969/71. (Mas parece que havia 11 estabelecimentos comerciais.) Assinalado com um círculo a vermelho o fontenário de Bambadinca, melhoramento inaugurado em 1948.  Nunca lá parei  para beber água (só hoje sei donde é que vinha...). 

Fotos do álbum do Humberto Reis, ex-fur mil OE/ranger, CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, maio 69/março 1971). 

Fotos: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jaime Machado, foto atual,
na Senhora da Hora,
Matosinhos
1. No tempo do Jaime Machado, alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, maio de 1968/fevereiro de 1970), bem como no meu/nosso tempo (CCAÇ 2590/CCAÇ 12, 1969/71), o edifício dos CTT era um edifício moderno, funcional, bastante utilizado pelo pessoal militar, e nomeadamente para se fazer chamadas telefónicas para a metrópole. 

Nunca lá entrei. As ligações nem sempre eram fáceis, e tinham de ser pedidas de um dia para o outro. 

Havia CTT nas principais povoações da Guiné, e noemdamente das sedes de circunscrição e nalguns postos administrativos mais importantes. No caso de Bambadinca, desconheço a data da sua instalação, mas deve ser de meados da década de 1950.

O Beja Santos, que lá voltou a Bambadinca, também em 2010, recorda o nome da empregada dos CTT, a Dona Leontina ("uma gentil senhora com quem se apalavrava o dia e a hora para telefonar para Lisboa"). Presumo que a senhora fosse cabo-verdiana, tal como a professora da escola primária ,a  Dona Violante, e o chefe de posto (de quem não me lembro o nome).

Contrariamente à capela, à escola  e ao posto administrativo, o edifício dos CTT  ficava fora do recinto do quartel de Bambadinca (como se infere das fotos publicadas acima)... Mais exatamente,  ficava no lado direito da rua principal que, descendo do quartel, atravessava a tabanca de Bambadinca, dando acesso do lado esquerdo ao porto fluvial (e destacamento da Intendência) e do lado direito à  estrada (alcatroada) para que seguia Bafatá (c. 30 km)... 


Mansoa : Anos 60 >Edifício
dos CTT. Fonte: Arquivo do Blogue
O edifício dos CTT ficava do lado oposto da casa e loja do Rodrigo Rendeiro (comerciante, branco, natural da Murtosa)... Mais à frente, também do lado esquerdo ficava o fontenário (foto nº 14). [Vd. também aqui fotos do fontenário, construído em 1948]. 

No nosso tempo (CCAÇ 12, julho 69/mar 71), Bambadinca nunca foi atacada... Desde o último ataque (28/5/1969), melhorou o dispositivo de segurança. E a presença de uma companhia de intervenção, de pessoal fula, mantinha o PAIGC em respeito, à distância... 

Os nossos soldados do recrutamento local viviam nas duas tabancas,  Bambadinca e Bambadincazinha. Com as suas famílias. E a G3 ao alcance da mão. 


2. Ainda não sei a data de construção do edifício dos CTT de Bambadinca. De acordo com  carta de 1: 50 mil, em 1955 Bambadinca já tinha, além de posto sanitário (S), um serviço telégrafo-postal (TP), mas ainda não tinha serviço telefónico (T). 

O edifício dos CTT de Bafatá é de 1969 e é da mesma tipologia do de Nova Lamego/Gabu, Mansoa e Cacheu (iremos comparar as duas tipologias em próximo poste):
Parece poder concluir-se que a rede de postos dos CTT só se desenvolve  nos anos 60, com a guerra... E, de resto, em Portugal, o telefone (particular) ainda era um luxo. Telefonar, do interior da Guiné para a Metrópole, era uma privilégio, só para alguns. Quem tinha telefone em casa ?!... Mas é também dos anos anos 60 a rede de postos de CTT construídos em Portugal nas cidades e vilas mais importantes (recordo-me ainda da construção do da minha terra, Lourinhã).


Bambadinca: fachada do edifício dos CTT,
foto de José Carçlso Lopes, c. 1968/0
O modelo de Mansoa, Gabu, Cacheu, Bafatá, etc., muito divulgado na época, era do "estilo tradicional português", desenhado como os t0dos os edifícios públicos pelos arquitetos do Gabinete de Urbanização Colonial (GUC), criado ainda durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944, por Marcelo Caetano, então ministro das Colónias.

Em 1951 o GUC passa a Gabinete de Urbanização do Ultramar (GUU) e, em 1957, a Direcção de Serviços de Habitação e Urbanismo da Direcção-Geral de Obras Públicas e Comunicações
(DSUH-DGOPC) do Ministério do Ultramar.

O ediffício típico dos CTT, na Guiné (e nos rest5anjtes territórios), nos anos 60/70, era um pavilhão térreo, de composição simétrica, coberto por amplo telhado, apresentando fachada rematada por um frontão curvo, sobrepujado por beiral; uma varanda alongada, ao modo de alpendre, a toda a largura da frontaria...

Sabemos que o de Bafatá é de 1969. É uma arquitetura pública do Estado Novo tardio (anos 60/70).

O de Bambadinca deve ser, anterior, já de meados dos anos 50. Recorde-se que a sede dos CTT, em Bissau, é dessa época:

 (...) Insere-se numa estratégia geral de intervenção do Estado Novo, durante o período em que Sarmento Rodrigues era Ministro do Ultramar (1950-1955), que releva a importância das ligações telegráficas com o propósito de dotar o território guineense de uma infraestrutura de equipamentos e serviços públicos adequados.

" Lucínio Cruz desenha em 1950 a primeira versão e em 1955 o projecto final do Edifício dos C.T.T.. O edifício ocupa o lote inicialmente previsto para construção da Câmara Municipal, um projeto do mesmo arquiteto apresentado em 1948, que acabará por não se concretizar.

"A localização é proposta para o eixo monumental, em frente à Sé, onde se encontram diversos equipamentos públicos." (...) (Fonte: HPIP)



Fontenário de Bambadinca (c. 1968/70).
Crédito fotográfico:  Jaime Machado (2015)


3. Voltando ao edifíicio dos CTT de Bambadinca... Em janeiro de 1974,  foi objeto de arremesso de uma  granada de mão,  defensiva, de origem chinesa... mas sem consequências de maior... Foi mais exatamente no dia 18/1/1974, às 20h45

O efeito foi mais psicológico.  Após buscas pelas NT, foram encontradas mais duas granadas, do mesmo tipo, chinesas, que não rebentaram ou que provavelmente foram arremessadas com cavilha de segurança, por algum tosco aprendiz de guerrilheiro...

Tudo indicava que havia, por esta altura, uma célula ativa do PAIGC na localidade de Bambadinca... Essa hipótese já tinha sido levantada pelo comando do BART 3873 quando em novembnro de 1972,  a PIDE/DGS [, de Bafatá,] efetuara uma prisão, de um elemento ligado à comunidade cabo-verdiana, prisão essa que foi seguida de distribuíção de planfletos denunciando a atuação da polícia política. 

Tanto para o PAIGC como para as NT, Bambadinca era uma posição estratégica, porta de entrada para o leste (mas também para o sul), económica, demográfica e militarmente muito relevante. Mas tudo indica que, nessa altura, o PAIGC estava tentado em multiplicar as ações de "terrorismo urbano":
  • 21/1/1974: primeira acção do PAIGC na cidade de Bissau, com lançamento de engenhos explosivos contra autocarros da Força Aérea; 
  • 26/2/1974: atentado no recinto do café Ronda, em Bissau: duas granadas de mão defensivas com disparador de atraso explodiram no recinto do café, causando cinco feridos graves e 44 feridos ligeiros entre os militares e um morto e 13 feridos entre os civis.
Em 2010, o Jaime Machado voltou a Bambadinca ( tal como o Beja Santos em 2010, e  eu, em 2008). A antiga rua principal, outrora animada e ladeada de casas de habitação e de comércio de estilo colonial, era agora uma desolação... O edifício dos CTT estava em ruínas. O Humberto Reis, em 1997, também por lá passara, e já era tudo  uma ruína... A bonita Bambadinca que nós conhecêramos, já não existia...
 ______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")





Foto nº 1, 1A e 1B > Guiné . Bissau > Bolama > Junho de 2021 > Depósito de água (também conhecido como "castelo"): este é o histórico depósito (em inglês, "water tower") erigido na periferia da antiga capital colonial de Bolama, e recentemente reabilitado (em 2024) para responder à tradicional falta de água na ilha (que tem, de resto, fracos lençóis freáticos). A sua origem remonta aos anos 30/40. Em 2021 estavada degradado, como toda a antiga capital da Guiné. Havia sinais de grafitos, reboco caído, corrosão das estruturas metálicas superiores, infiltrações antigas,  ausência de manutenção regular, etc, tudo sinais de que não era usada há muito. Mas o edifício possui grande valor patrimonial  e merece restauro. Há uma estrutura parecida em Canchungo (antiga Teixeira Pinto), cuha data de construção é de 1946.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nçº2 : Guiné-Bissau > Zona Leste > Gabu > Depósito de água, cuja origem remonta aos anos 80/90. Por isso, não faz parte da memória de nenhum dos antigos combatentes protugueses que passaram por Nova Lamego (hoje, Gabu) durante os anos da giuerra (1961/74).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Entre as duas fotos distam 40 anos. O nosso leitor poderá ter curiosidade em saber  um pouco mais a sua origem, história, arquitetura, estado de conservação, etc.

Comecemos por dizer que, no caso do "castelo" de Bolama (como era conhecido localmente) a sua arquitectura não pode ser britânica, vitoriana, como já vimos por aí escrito (na IA do Google, citando o sítio britânico Medium: "Water tower, built during the British occupation. Photo credit: Brad Yonaka").

Os camaradas que estiveram no CIM de Bolama devem-se lembrar do "castelo", que fica(va) junto ao antigo hospital militar e civil da ilha (e antiga capital de Bissau, entre 1879 e 1941). No entanto, a primeira foto que publicámos no nosso blogue foi da autoria do Patrício Ribeiro, em 2021 (*). (Sobre a localização do antigo hospital e do "castelo",  vd. o roteiro que o nosso saudoso António Estácio elaborou e publicou em livro, bem como no nosso blogue).

Numa primeira análise visual  da foto nº 1 não parece haver qualquer relação com a arquitetura britânica ou vitoriana. E duas ou três ferramentas de IA que consultámos confirmam a nossa opinião. Aqui vão alguns dos factos históricos e arquitetónicos que desmontam esse mito.

Recorde-se que a disputa territorial com os ingleses (a famosa "Questão de Bolama") foi resolvida em 1870 pelo presidente americano Ulysses S. Grant, que deu a razão a Portugal (e daí ter-se constrruído uma estátua  em bronze em sua homenagem, infelizmente vandalizada e roubada).

A presença britânica na ilha de Bolama foi esporádica e precária, caracterizada por duas fases de curta duração que culminaram na disputa diplomática que opôs o Reino Unido a Portugal, e resolvida a favor de Portugal. 

Em maio de 1792 houve uma primeira tentativa de ocupação, oficiais da Armada Britânica (tenentes Philip Beaver e Henry Hood) desembarcaram com cerca de 270 colonos para estabelecer uma "colónia-modelo" após a compra da ilha a um régulo local. O projeto gurou-se ao fim de um ano, devido a a uma série de factores adversos ( clima, doenças,  hostilidade do povo nativo).

 A segunda tentativa foi mais série: a partir de 1834, no contexto da repressão ao tráfico de escravos, o Reino Unido voltou a reclamar a ilha. Os britânicos chegaram a desembarcar, destruir fortificações e marcos portugueses, e a declarar o arquipélago sob a jurisdição da coroa britànica).

De qualquer modo, nessa época (meados do séc. XIX), os depósitos de água de engenharia britânica eram construídos em alvenaria de tijolo maciço, pedra ou estruturas de ferro fundido.

O depósito na imagem é inteiramente construído em betão armado  uma tecnologia construtiva que só começou a ser amplamente utilizada em obras públicas na Guiné Portuguesa bem avançado o século XX.

E quanto ao estilo arquitectónico, o  desenho da torre filia-se claramente no Modernismo/Art Déco tardio e na arquitetura de cariz utilitário do Estado Novo.  
Destacam-se as linhas geométricas simplificadas, as frestas verticais estreitas e alongadas (rasgadas para iluminação e ventilação da escadaria interna) e as varandas circundantes com guarda-corpos maciços ou com pilaretes geométricos de betão.

Aqui há divergências na análise visual da foto, pela IA do Gemini / Google, e pela IA e do ChatGPT Open AI, e na caractrização da estrutura. 

O ChatGPT  diz tratar-se de  estrutura em alvenaria rebocada, de grande massa volumétrica, com composição simétrica e monumental, janelas verticais em arco, de inspiração neoclássica simplificada, varandas com balaustradas decorativas, reservatório superior oculto por uma espécie de torre arquitetónica.

 Inclinamo-nos também mais para a hipótese de a estrutura ter construída em alvenaria rebocada, analisando as fotos acima, do Patrício Ribeiro e outras, disponíveis na Net (Vd. foto nº 3).

Não sabemos a data exata da inauguração do "castelo" (teríamos que ver a  documentação específica do Ministério das Colónias ou das Obras Públicas da época), sabemos, sim, que as s infraestruturas de saneamento e modernização urbana de Bolama foram projetadas e erguidas maioritariamente entre as décadas de 1920 e 1940. 

Trata-se, portanto, de um exemplar genuíno da engenharia e arquitetura colonial portuguesa do segundo quartel do século XX, construído no período que antecedeu ou coincidiu com a transferência definitiva da capital para Bissau (1941). O depósito de água de Teixeira Pinto (hoje Canchungo) segue a mesma tipologia, e data de 1946.

O depósito  tinha capacidade para mais de 70 mil litros. Mas há meios século que estava inativo. Foi reabilitado em 2024, com fundos da União Euriopeia, e por inciativa da ONG espanhola AIDA (vd. foto nº 5).





Fotos nº 3 e 4 > Guiné-Bissau > Bolama > 2018 > "AntigoHospital Militar e Civil"... Fotos  de Helena Maria Pestana (2018). Imagens do domínio público,. Cortesia de Wikimedia Commons.



Foto nº 5 > Guiné-Bissau > Bolama > 2024 > O depósito de água, reabilitado. Fotro da página da ONG espanh0ola, com sede em Madrid, AIDA.- Ayuda, Intercambio y Desarrollo


Da página da AIDA, transcrevemos o seguinte (tradução livre para português):

(...) "Em 16 de setembro, a ONG espanhola AIDA, com o apoio das ONG ACRA e Pro-Bolama e financiamento da União Europeia, pôs em funcionamento a Expansão da Rede de Abastecimento de Água na cidade de Bolama, Guiné-Bissau.

Iniciado em 2021, este projeto representa uma melhoria significativa para a região, incluindo a perfuração do poço mais profundo da ilha, com 195 metros. A iniciativa envolveu a reabilitação de um reservatório de água com capacidade superior a 70 mil litros; construída originalmente na época colonial, a instalação estava sem uso há mais de 50 anos.

O projeto também inclui a instalação de dois sistemas de bombeamento movidos a energia solar, a construção de novas fontes públicas e a ligação dessa infraestrutura à rede de água existente, implantada originalmente pela AIDA em 2008.

Graças a essa expansão, que agora conta com 19 fontes públicas e abastece os dois principais mercados, o hospital e várias escolas, é possível garantir o fornecimento de água potável a uma população que não tinha acesso a ela há mais de 25 anos.

Embora Bolama tenha sido a capital da Guiné-Bissau até 1941, os habitantes não tinham anteriormente de acesso contínuo à água potável. Este projeto marca um grande avanço no desenvolvimento da região, melhorando a qualidade de vida de milhares de pessoas". (...)


2. Com a ajuda do ChatGPT, pode acrescentar-se mais o seguinte sobre as característcias arquitetónicas desta estrutura:


(...) "O objetivo não era apenas armazenar água. Era também afirmar a presença do Estado. Na época colonial, muitos edifícios técnicos eram desenhados para transmitir autoridade e permanência: quartéis, hospitais, administrações, correios, tribunais e até depósitos de água!"(...)

Há uma influência a que se poderia chamar "colonial português tardio", misturando funcionalidade,  neoclassicismo simplificado e alguma influência art déco muito discreta.
 
Bolama, depois de resolvida a questão da soberania, foi concebida e planeada como uma cidade-modelo para funcionar como capital política e administrativa (veremos isso melhor em próximo poste). A rede de abastecimento de água fazia parte do conjunto de infraestruturas urbanas que procuravam demonstrar alguma modernidade: hospital (que já existia em 1908),  câmara municipal (1919),  ponte-cais,  central elétrica, etc,

"O facto de o reservatório estar escondido dentro da torre revela uma preocupação estética pouco comum hoje" (veja-se a foto nº 2, que ilustra outra tipologia de "!castelos de água").
 
Sobre de depósito de água do Gabu, que data já do pós-independência,  falaremos mais detalhamente num próximo poste desta série. (**)

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Net + IA (Gemini / Google | ChatGPT / Opena AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, links, título: LG)

terça-feira, 23 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28124: Humor de caserna (277): Quem são os "ocupas" do histórico edifício dos CTT de Gabu ? Com o telemóvel, este "marco da civilização colonial" tornou-se obsoleto...



Guiné.Bissau  > Zona Leste >  Região de Gabú > Gabu >1998 > Edifício dos CTT do Gabu > Visita realizada por um grupo de ex-combatentes da CART 3494 à Guiné-Bissau. Em primeiro plano,  o Acácio Correia (ex-alf mil, CART 3494, Xime, 1972/74)...No letreiro que encima a imagem, pode ler-se: "Estação de Gabu. Telefone. Posto Público. Em qualquer momento"... 

Ainda não havia telemóveis. Os CTT ainda eram muito úteis. Perderam a sua função social. Hoje tornaram-se obsoletos. Toda a gente tem o mágico "telemóvel" que permite fazer "videochamadas" (coisa completamente impensável) há 30 anos.    Na inscrição ao alto do edifício pode ainda ler-se: "Estação dos C. T."... Já tinha caído o segundo T dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones).
 

Foto (e legenda): © Acácio Correia / Jorge Araújo (2015). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT... Ficava na tabanca de Bambadinca, nas imediações do quartel, já fora do arame farpado. 

Segundo recorda o Beja Santos, o nome da empregada dos CTT era a Dona Leontina ("uma gentil senhora com quem se apalavrava o dia e a hora para telefonar para Lisboa"). 

Sou dos que, a maioria, nunca lá foi telefonar, pelo que não me lembro da senhora. Presumo que  fosse cabo-verdiana, tal como a professora da escola primária local, a Dona Violante, e o chefe de posto (de quem também não me lembro o nome), nem o responsável da Casa Gouveia.

Lamentavelmente não convivivíamos, os civis e os militares. em Bambadinca, nomeadamente com a pequena comunidade cabo-verdiana, cristã. Havia racismo, não tenhamos medo das palavras. Havia preconceitos de parte a parte. As NT punham  em dúvida a lealdade dos cabo-verdianos em relação às autoridades portuguesas... Por outro lado, os comandos de batalhão tinham pouca ou nenhuma sensibilidade "sociocultural"... nem promovendo sequer a interação com a população civil.  Os comandos do batalhão eram uns burocratas que diziam mal da hora em que lhe calhou na rifa a "cova do lagarto" (crocodilo) (signifciado do topónimo Bambadinca, em mandinga). 

 Foto do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria, especialidade essa que ele nunca exerceu (na prática, foi o homem dos reabastecimentos do batalhão, o BCAÇ 2852).

Foto: © José Carlos Lopes (2013). Todos os direitos reservados. (Edição  e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)



Guiné-Bissau > Zona Leste > Região de Gabu > Gabu > Junho de 2026 >  Antigo edifício dos CTT, agora transformado em balcão de uma casa de apostas mútuas desportivas, jogis de azar, etc, ("Bissau Games", com sede em Bissau).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Mensagem de LG:

Querido "embaixador" da Tabanca Grande em Bissau (*), o editor não pode ter "estados de espírito"... Mas o gajo que escreve este comentário, sim, pode rir-se, chorar, indignar-se, inquietar-se, emocionar-se, ou simplesmente sorrir perante estas fotos que nos mandaste no último domingo para o blogue... com legendas lacónicas. As fotos falam por si, ou talvez não: se calhar, falta o contexto ao texto...



Edifício dos CTT de Mansoa, foto de César Dias (c. 1969/71)
Nunca cheguei a ir a Nova Lamego (a 30 km da nordeste de Bafatá), com pena minha, mas ia a Bafatá, a "princesa do Geba", onde também havia "marcos da civilização", com uma estação dos CTT. E,claro, a Casa Gouveia. E até restaurantes como "A Transmontana" que servia o melhor bife com ovo a cavalo e batatas fritas. Tudo por 20 pesos. 

Tal como edifícios dos CTT  noutras terras minimamente importantes, assinaladas nas cartas militares como sedes de circunscrição / concelho... da nossa "Guinezinha", como diria a Cilinha... Havia estação dos CTT em Bissau, a capital, Mansoa, Teixeira Pinto, Farim, Bafatá, Nova Lamego, Catió, etc. Mas também em postos administratrivos como Bambadinca, Contuboel...

Eram terrinhas que podiam ter, algumas, apenas meia dúzia de brancos e "assimilados", mas tinham gente que escrevia e recebia cartas e encomendas postais, e até havia quem utilizasse o telégrafo e o telefone... Um ou outro comerciante, as missões católicas, os chefes de posto, etc., tinham endereço telegráfico e, antes da guerra, até telefone fixo, em casa ou no estabelecimento ou na missão. Coisas inúteis com a guerra.



Guiné-Bissau, Gabu, 2005. Antigo edifício, colonial,
dos CTT, agora recuperado.  Imagem: Tino Neves (1969/71)
..
O primeiro ato revolucionário do Amílcar Cabral foi mandar deitar abaixos os postes telefónicos. Não deitou abaixo os postes de eletricidade, porque ainda não existiam... Era um iconoclasta, o fudmador da Pátria. Queria construir um mundo novo, uma Guiné nova, um homem novo...

Eu fui sempre, como "expedicionário" naquela terra, "malgré-moi" (isto é, não-voluntário), um mau utilizador dos CTT. Nunca entrei lá dentro. Aliás, não utilizei, de todo, os CTT da Guiné. Nunca telefonei, nunca recebi ou mandei um telegrama... Como na maior parte das casas dos portuguesas, a casa dos meus pais náo tinham telefone...

E as poucas cartas que escrevi (e as que recebi), eram encaminhadas pelo Serviço Postal Militar (o famoso SPM), a única coisa de jeito que a tropa fez pelo bem-estar dos seus militares mobilizados para aquelas terras palúdicas...

Hoje sorrio, ao ver a outrora bela estação dos CTT de Nova Lamego, votada ao abandono, como mais uma das velharias da nossa presença histórica em África... No seu túmulo, o Amílcar Cabral também deve estar a dar umas voltas... Mesmo no eterno descanso, também há gente com insónias... e não devem ser pouca. 

Ele e os seus "cabra-matchu", sem esquecer o Aristides Pereira que era funcionário colonial dos  CTT de Bissau... Sem esquecer o Sarmento Rodrigues, o modernizador, o Teixeira Pinto, o "capitão-diabo", o Salazar, o "bota-de-elástico", o Spínola, o "Caco Baldé" e o Marcello (com dois "ll") Caetano, o "empata-f*das", e tantos outros...

Enfim, sem esquecer o homem que "descobriu" esta terra maravilhosa (que dava mancarra, coconote, madeiras exóticas, etc.)  e que foi o primeiro a "lerpar", o Nuno Tristão em 1446 (se bem me lembro do meu tempo de escolinha, não é preciso ir à Wikipedia espreitar  ou perguntar à IA; devia constar da lista dos mortos das guerras coloniais, ,mas esquceram-se dele).

Tal como na natureza, nas sociedadee humanas nada se perde, tudo se transforma... Já vi uma igreja (em Almada) transformada em taberna, outra que agora é livraria (em Óbidos)... Já vi um lazareto transformar-se em asilo de órfãos (em Porto Brandão) e depois bairro clandestino de cabo-verdianos e retornados...

Por que é que os fulas do Gabu não se lembraria também de fazer daquele belo recanto da "cidade" , a antiga estação dos CTT, um muito mais útil "balcão" para as apostas mútuas desportivas ?

Não sei se eles (a "Bissau Games", que deve ser uma manhosa empresa privada de "caça-níqueis" digital, jogos de azar, etc.) têm a "raspadinha"; se não têm, tem que copiar a ideia (genial) da "Santa" Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

 Portugal, país de baixa literacia financeira, é viciado em jogos comnpulsivos, como a "raspadinha" ... Porque é a Guiné-Bissau não imita as "coisas boas" (isto é, "lucrativas") que ainda tem o seu antigo país colonizador ?

Portugal regista níveis recorde de consumo em jogos de fortuna ou azar. A "raspadinha" da SCML é, há já largos anos, o jogo social do Estado mais lucrativo. 

Há quem se preocupe com este fenómeno que tem implicações ma saúde pública e económica devido à sua forte componente aditiva. Eis alguns números: (i) a "raspadinha" movimenta anualmente cerca de 1,9 mil milhões de euros, representando perto de 60% do total das receitas dos Jogos Santa Casa;  (ii) a média de gastos "per capita" atinge valores expressivos, com os portugueses a dedicarem uma parte considerável do seu rendimento a este e outros jogos como o Euromilhões; (iii) a adesão é transversal, mas regista uma prevalência muito significativa nas classes sociais mais baixas e faixas etárias seniores, muitas vezes alimentada pela falsa esperança de colmatar dificuldades financeiras imediaats: joga-se à "raspadinha" hoje para comprar o pão amanhã...

E no Gabu, como é ? 

O vício da raspadinha acarreta graves consequências, desde o isolamento social e  crises financeiras familiares, até situações extremas de criminalidade e violência doméstica.

Enfim,  que Deus, Alá e os bons irãs lhes perdoem, aos "ocupas" do Gabu (**)...Com tanta casa de alvenaria abandonada, depois da independência, sem dono nem usufruto, seria uma pena não se aproveitar estes "marcos da civilização", primorosamente desenhados e tirados a papel químico pelos senhores arquitetos do GAC - Gabinete de Arquitetura Colonial, que nunca puseram os pés no Gabu...

Um deles até era meu conterrâneo, o arquiteto Lucínio Guia da Cruz (1914-1999), do GAC: foi ele que desenhou o edifício dos CTT em Bissau, em 1953... Queria fazer um edifício para a CM de Bissau, saiu-lhe um mastodôntico edifício dos CTT. Feio, mas funcional. Tecnicamente bom, dizem os especialistas.


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Notas do editor LG:

(**) Último poste 22 de junho de 2026  > Guiné 61/74 - P28123: Humor de Caserna (276): No dia em que faz 82 anos, o luso-americano (e nosso camarada, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona) João Crisóstomo recebe das mãos de Aristides Sousa Mendes a Comenda da Ordem da Liberdade...

sábado, 22 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27452: Os nossos seres, saberes e lazeres (710): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Há uma nota curiosa de visita de amigos estrangeiros, tudo quanto se passa em Lisboa trazem completamente listado, desde o elétrico 28, os comes e bebes, os passeios pela Baixa Chiado e Bairro Alto, os miradouros. Uns vêm com o Michelin, outros trazem livros focados na arte, uns querem ver os azulejos, em visita anterior houve alguém que me pediu para ver algo que até então nunca ninguém pedira, a Basílica da Estrela, e não foi por causa dos presépios do Machado Castro. Desta feita, o casal alemão, que não é a 1.ª nem a 2.ª vez que visita Portugal, falou explicitamente em Tomar, Óbidos e Alcobaça. Procurei satisfazer os seus intentos, aqui fica uma síntese desse dia, esta itinerância continuará, pedem-me para no dia seguinte irmos visitar o Museu Nacional dos Coches, custa-lhes a acreditar que Portugal tenha o maior património de viaturas de aparato, como é que é possível um país tão periférico da Europa? Viram e confirmaram, não escondiam o entusiasmo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231):
Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente – 3


Mário Beja Santos

Passeios inusitados ou programados a Tomar, Óbidos e Alcobaça, para mostrar belezas a amigos estrangeiros que me vieram visitar, deram-se a agradável oportunidade de captar imagens com forte apelo cultural, até pretextos houve para tirar fotografias a estes amigos, que depois as colocam nas redes sociais. Vejamos o que resta de três passeios, todos eles me encheram a alma, volto lá se necessário for, há para ali, na arquitetura, na escultura e na pintura dedadas da nossa identidade, ali se exibem as nossas maneiras de ser, tratando carinhosamente algum património, desdenhando de outro.

Vamos começar por uma peça magnífica que nunca foi concluída, a Casa do Capítulo de Tomar, onde, no primeiro andar e no terraço subsequente se aclamou Filipe II de Espanha como Filipe I de Portugal. É obra de João de Castilho, um mestre de obras e arquiteto hispano-português, homem com formação gótica que irá ter um papel determinante no estilo renascentista em Portugal e nos seus últimos anos de vida pendeu para o classicismo sob a forma maneirista. Ele encontra-se ligado a cinco monumentos históricos classificados pela UNESCO como Património Mundial: o Mosteiro dos Jerónimos, o Convento de Cristo, o Mosteiro de Alcobaça e a construção da Fortaleza de Mazagão. Trabalhou duas vezes em Tomar (provavelmente entre 1516 e 1530) e um segundo período que decorre na década de 1930, em que trabalhou no Claustro Grande, vários claustros interiores, como o da Hospedaria, Corvos e Micha, concedeu esta Casa Capitular em mistério a desvendar as razões que impediram a sua conclusão.

O que o leitor vê são as paredes robustas, a fotografia que foi tirada da zona do arco triunfal e do altar, vê-se a antecâmera por onde entravam os frades. Caiu completamente o piso que separava a sala dos frades da sala dos cavaleiros. Aquela porta que se vê na torre dos cavaleiros estava prevista para ser a porta de acesso a esses cavaleiros; ao fundo vemos o topo da Charola e uma nesga da Igreja.

Casa Capitular a requerer com urgência trabalhos de conservação e restauro.
Sempre que acompanho amigos a Óbidos, falo-lhes de uma extremosa pintora de origem espanhola e filha de um artista que deixou obra em Portugal, Josefa de Óbidos, ela tem obra num altar lateral da Igreja Matriz e está também representada no Museu Municipal de Óbidos. Noto que os visitantes vão ali também admirar um túmulo e o impressionante forro azulejar da igreja, a mim cativa-me aquele Santo António bonacheirão e o Menino de braços abertos, gosto particularmente daquele teto pintado com tanta simplicidade, é como o emaranhado de uma renda que faz suspender Nossa Senhora guardada pelos anjos.
Este é um pormenor da pintura do teto do nártex da igreja.
Eram as últimas horas de sol, consultados os visitantes, houve acordo em visitar a igreja do Mosteiro de Alcobaça, deixamos para a próxima visita o precioso Museu. Mesmo habituados a este gigantismo das paredes do gótico-alemão que se pode encontrar desde o mar Báltico até perto de França, o casal alemão estava boquiaberto com a sobriedade da igreja, a solução dos pilares estarem reforçados por botaréus, tomaram nota que as riquezas vieram depois. D. Pedro I tomou esta igreja como seu mausoléu, tratou de igual maneira a sua apaixonada, Inês de Castro, túmulos de uma enorme beleza, marcados pelo vandalismo das invasões francesas.
No altar-mor atraiu-me prontamente esta Virgem de manto barroquizado, parece que pedala, tem umas linhas muito elegantes, gabo-lhe a Majestade e o panejamento em movimento.
Com as limitações da minha câmara foi esta a imagem que consegui da dimensão entre o nártex e o altar-mor.
Túmulo de Dona Inês de Castro, deste lado os danos são menos evidentes.
Conjunto escultórico que dá pelo nome Retábulo da Morte de São Bernardo, é todo em terracota policromada, obra de monges barristas do mosteiro, finais do século XVII.
Túmulo de D. Pedro, aqui o vandalismo é mais do que evidente.
Trata-se do sarcófago de Dona Urraca, mulher de D. Afonso II, está depositado no Panteão Régio, obra concluída em 1782 e atribuída ao engenheiro William Elsden, foi a primeira obra neogótica em Portugal. O panteão primitivo localizava-se na galilé que existiu à entrada da igreja. Posteriormente os túmulos foram transferidos para o transepto sul onde permaneceram até ao final do século XVIII.

Aqui se dá por terminada esta itinerância, segue-se outra que nos fará viajar até ao Museu Nacional dos Coches.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 15 de Novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27423: Os nossos seres, saberes e lazeres (709): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (230): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 2 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 10 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26571: Notas de leitura (1779): Habitação para indígenas em Bissau, 1968 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Novembro de 2023:

Queridos amigos,
A cidade de Bissau que conheci em 1968 ganhou outra fisionomia quando lá estive a última vez, em 2010. Sou capaz de identificar as imagens deste artigo de 1968 e custa-me dizer o que senti quando percorri os bairros de Missirá, Santa Luzia e Militar, instalou-se o caos urbano, via-se à vista desarmada que o crescimento demográfico não era acompanhado de infraestruturas minimamente capazes. Não sei a que título o arquiteto Fernando Varanda estudou os bairros do tempo de Sarmento Rodrigues e Arnaldo Schulz, mas há que reconhecer que faz observações pertinentes e a sua crítica assentava num tipo de habitação aberto à convivência e ao diálogo interétnicos, já que, do que vira em Safim e no Biombo, as etnias revelavam-se fechadas e seccionadas. Fernando Varanda, como poderão ver no Google, teve uma lustrosa carreira internacional em vários continentes trabalhando em planeamento urbano. Pode dar-se o caso de quem trabalha no planeamento urbano na Guiné-Bissau ache interessante as suas propostas.

Um abraço do
Mário



Habitação para indígenas em Bissau, 1968

Mário Beja Santos

A revista Geographica, da Sociedade de Geografia de Lisboa, publicou no número relativo a julho de 1968 um trabalho do arquiteto Fernando Varanda (1941-2023), doutor em Geografia Urbana, com assinalável carreira internacional, um artigo intitulado “Um estudo de habitação para indígenas em Bissau”. 

Refere o autor que no propósito do seu estudo se visa um princípio de organização de habitação para as populações indígenas alojadas em Bissau em condições muito precárias. A guerra provocara um autêntico êxodo para os centros urbanos, a população negra de Bissau aumentara nos últimos 5 anos de 22 mil para 30 mil habitantes (números aproximados). Em Bissorã, a população era de mil habitantes antes do início da guerrilha, ascendia agora a 12 mil. Impunha-se, pois, encontrar soluções para integrar as populações que poderiam não mais voltar aos seus ambientes anteriores.

A população negra envolvia a cidade branca, eram cerca de 30 mil habitantes alojados em construções feitas de materiais de ocasião, a falta de alojamento era enorme, os preços incomportáveis. A população distribuía-se por zonas de afinidade étnica. Tomavam-se medidas administrativas para distribuir os alojamentos por colunas ao longo das vias principais de acesso, tinha-se em linha de conta a segurança das populações e a segurança militar.

O arquiteto começou por observar alguns aspetos da habitação urbana indígena em Bissau e nos arredores – povoações das etnias Papel, do Biombo, Mancanha e Balanta, em Safim. Verificou-se que as zonas habitacionais estavam sombreadas por árvores de grande porte; quanto às zonas suburbanas, fez-se a observação da zona dos Papeis do Biombo, a 60 km de Bissau e a zona dos Mancanhas e Balantas de Safim, a 15 km da cidade. 

O esquema de agrupamento é sensivelmente o mesmo: famílias que se agrupam numa morança, e conjunto de moranças, relativamente próximas, formando uma espécie de povoação. Cada morança tem, em média, de uma a seis famílias. A casa é de planta redonda, na sua forma mais tradicional. Mas por influência de costumes europeus caminha-se cada vez mais pela opção para a planta retangular ou quadrada.

Do inquérito efetuado abrangendo os regulados de Antula, Bandim, Intim, apurou-se haver sensivelmente 28,250 habitantes. O inquérito, na parte referente ao alojamento, foi dirigido a cerca de 200 chefes de família, amostragem pequena, verificou-se a composição do agrupamento familiar, os salários, o valor das rendas, quem tinha casa própria ou arrendada. 

As habitações são quase totalmente de planta retangular em Bissau, a área de cada casa era de cerca de 60 m2, excluindo quintais e zonas sanitárias. Cada casa tem entre quatro a seis divisões, servem de quartos. Os materiais de construção eram dos mais variados, veem-se casas de paredes de adobe e cobertura de folha de palmeira, veem-se outras com paredes em blocos de betão e cobertura de zinco e até de telha; o chão é de terra batida ou de cimento (este em caso de blocos de betão e cobertura de zinco). As instalações sanitárias e de banho existem foram de casa, nos chamados “cercados”. Não há esgotos, não há balneários ou retretes públicas. A cozinha existe no alpendrado ou no quintal. A água é fornecida por poços ou fontes abertas pela administração de Bissau. O mobiliário é escasso, camas ou esteiras, uma arca, bancos e cadeiras. 

Apenas os Fulas e Mandigas se mantêm fiéis às casas de planta circular, a planta retangular deve-se à influência europeia. Os espaços de convivência são praticamente inexistentes: cada família vive para si, dentro de casa ou ao alpendrado sempre existente, as crianças brincam na rua. Os arruamentos são os que a administração europeia criou.

Fernando Varanda analisa a solução apresentada pelas entidades administrativas e procede à sua crítica. O primeiro esquema de organização vinha do tempo do governador Sarmento Rodrigues, pretendeu-se, nessa altura, criar um bairro na estrada de Santa Luzia, uma casa por família, com dois quartos, sala, cozinha e instalações sanitárias, o projeto ficou na construção de umas 38 casas. 

Ao longo do tempo foi-se verificando uma infiltração progressiva de “palhotas” no meio das casas existentes. Estava em construção já muito avançada o bairro da Ajuda, a 6 km do limite da cidade, iniciativa de Arnaldo Schulz depois do bairro original ter sido destruído por um incêndio, em 1965; este bairro da Ajuda situa-se em frente ao Hospital Militar. 

O plano geral deste bairro era o seguinte: numa primeira fase, estavam já construídas 140 casas, numa área de 700 por 300 metros, isto num plano que incluía mercado, estabelecimentos comerciais, escola primária, posto médico, igreja católica, mesquita, centro social, cinema, lavadores públicos, oficina de carpintaria mecânica. São casas de planta quase quadrangular, com um alpendrado em toda a volta. A divisão interior da casa é uma sala grande, dois quartos, um quarto independente (para hóspedes), cozinha e instalações sanitárias, no alpendre.

Na admissão ao bairro privilegiava as vítimas do incêndio. A crítica de Fernando Varanda era de que no caso de Santa Luzia como no caso da Ajuda se escolher um planeamento urbano de régua e esquadro, dividindo regularmente uma área em retângulos e situando-a ao longo de uma grande via de comunicação. 

A solução não tem nada a ver com o sistema de vida em comunidade que faz parte da tradição guineense. Por tal razão, o arquiteto apresenta uma solução. Ele parte de um agrupamento de várias famílias, normalmente da mesma etnia, em disposição mais ou menos concêntrica, núcleo que está em relações de vizinhança próxima com outros. O conjunto de vários núcleos constituirá uma unidade dotada de equipamento próprio. A sua intenção era agrupar núcleos de 10 famílias em unidades de 6 núcleos, constituiria uma zona com serviços públicos bem definidos. As zonas separar-se-ão por amplos espaços verdes, tanto quanto possível naturais, com acessos próprios utilizáveis por viaturas. A intenção é proteger a intimidade dos habitantes permitindo-lhes a criação ou a continuação das suas estruturas tradicionais, mas também para abrir caminho a uma aculturação progressiva e compreendida.

Os núcleos eram concebidos em torno de uma origem de água, o espaço central serviria para recinto de convívio diário entre as famílias. E justifica a essência da sua solução que era a de visar a possibilidade de poderem habitar próximo três tipos de famílias: pequena, média e grande, em que a pequena terá 3 ou 4 elementos e a maior poderá ir dos 12 aos 15. 

Diz ter optado por uma forma poligonal de planta, faz-se assim convergir a vida de cada casa para um pátio interior alpendrado. Justifica dois tipos de casas, conforme a dimensão familiar; as paredes seriam em betão de adobe, assentes sobre uma fundação em betão ciclópico sobre-elevada, para evitar a entrada de água das chuvas no interior da habitação; a cobertura seria em folha de palmeira. Era propósito do arquiteto dar toda a facilidade aos habitantes para serem eles próprios a construir as suas casas, fornecia-se a planta base, o tipo geral de construção, permitindo aos habitantes que adequassem as suas casas à sua maneira de viver.

A evolução dos acontecimentos alterou tudo, os planeadores urbanos que me ditem as soluções propostas por Fernando Varanda como forma de criar condições confortáveis nos bairros caóticos que hoje existem em Bissau. É um estudo que vale como propósito de um tempo, mas a visão do arquiteto, conceituado geógrafo urbano, é merecedora da observação de todos aqueles que pretendem dar mais dignidade à vida dos habitantes em Bissau e em todos os outros aglomerados.

Estrada de Safim, as novas edificações, construídas pela administração. Quilómetros de casas em duas filas largamente separadas por uma faixa de trânsito para veículos
Morança Mancanha (estrada de Safim – embora de um tipo já decadente, aqui ainda é possível a vida com um certo intimismo e conforto). Foram aldeamentos deste tipo que a administração substituiu
Biombo, casa Papel. Trata-se de um agrupamento cuja unidade é a função da unidade familiar. Constrói-se um núcleo; aumentando a família, outro se ergue ligado por um alpendre
Bairro de Santa Luzia, a estrada passa junto à margem esquerda
Bissau, zona indígena, Chão Papel
Cupelom de Baixo
Cupelom de Cima
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Nota do editor

Último post da série de 7 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26561: Notas de leitura (1778): Philip J. Havik, um devotado historiador da Guiné: Negros e brancos na Guiné Portuguesa (1915-1935) (4) – 1 (Mário Beja Santos)