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terça-feira, 21 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27936: Casos: a verdade sobre... (71): Kalashnikovomania - Parte VI: A AK-47 "made in China", que matou camaradas nossos (António Graça de Abreu, sinólogo)

Excerto do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu)


Mais uns excertos do "diário chinês, secreto", ainda inédito, do nosso camarada António [José] Graça de Abreu

Recorde-se que ele viveu na China, em Pequim e en Xangai, entre 1977 e 1983; foi professor de Português em Pequim (Beijing) e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.  

Na altura, ainda era, segundo sabemos, simpatisante ou militante do Partido Comunista de Portugal  (marxista-leninista), o PC de P (m-l), facção Vilar (Eduíno Gomes, mais conhecido por Eduino 'Vilar, n- Ervidel, 1944),   alegadamente o único partido comunista marxista-leninista reconhecido na época pela República Popular da China. Não havia outra maneira de ir entrar na China a não ser com o cartão deste minúsculo partido.

Ex-alf mil, CAOP 1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74), o António Graça de Abreu é membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com cerca de 390 referências. 

Compulsivo  viajante, tem "morança"  em Cascais. É um cidadão do mundo, poeta, escritor, tradutor e reputado sinólogo. Nasceu no Porto em 30 de março de 1947. É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos, João e Pedro, e um neto (deste seu último casamento). 

(...) Pequim, 20 de Maio de 1981

Agora veio à China uma delegação da Frelimo, encabeçada pelo moçambicano Marcelino dos Santos, ministro da Economia. Li Shunbao, o intérprete desta delegação, trabalha comigo na secção portuguesa das Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras e contou-me, com algum desgosto, a visita dos camaradas de Moçambique ao Armazém da Amizade, a maior loja de Pequim reservada apenas a estrangeiros. (...).


Pequim, 22 de Agosto de 1981

Mas quando é que eu ganho juízo? Hoje descubro outra mulher chinesa, quase a beldade perfeita, no lugar certo, passeando-se pelo Vale das Cerejeiras, por detrás do Wo Fo Si 卧佛寺, o templo do Buda Deitado, na Colina Perfumada, arredores oeste de Pequim. Dela, pouco mais fiquei a saber do que o seu nome, Liu Xiaochun, sendo Liu刘 o apelido de família e Xiaochun 小春, o nome próprio que significa "pequena Primavera, ou Primavera Breve."  (...)


Pequim, 30 de Agosto de 1981

Dia de, no Yuanmingyuan 圆明园, o Jardim da Perfeição e da Luz, antigo Palácio de Verão que data dos séculos XVIII e XIX, encontrar uma chinesinha que pega na minha mão, a pousa sobre o seu joelho bonito -- a palma da mão voltada para cima --, e que me lê a sina. Um portento, a mulher, Wu Mei 吴美 de seu nome, nascida em Nanquim, 23 anos, aluna do Instituto de Cinema de Xangai. Bruxa. Com toda a aprendizagem e tiques de actriz, mais a percepção do essencial das coisas da vida. (...)


Pequim, 18 de Novembro de 1981

Esta manhã chego à embaixada da União Soviética e o tovarich de serviço na Intertourist recebe-me com as seguintes palavras:

"Good morning, do you have American dollars?" (...)



Amadora, 15 de Abril de 1982


Comia sossegadamente o meu bife à hora do almoço quando vi, no pequeno écrã  da TV, um general chinês, de visita a Portugal, a depositar um ramo de flores no monumento aos soldados Comando mortos em combate em África, aqui ao lado no Regimento de Comandos da Amadora, o antigo RI 1 que tão bem conheci há dez anos atrás.

As voltas que o mundo dá, ou simplesmente o doce-amargo do fluir dos dias….

Quando em 1972 parti deste quartel para a guerra na Guiné levava o desgosto de, pequeno alferes miliciano, ir combater por uma causa em que não acreditava. Iria encontrar guerrilheiros que, melhor ou pior, lutavam pela independência das suas terras. 

Depois, em Teixeira Pinto e em Mansoa, no meu Comando de Operações, estive com as 35ª. e 38ª. Companhias de Comandos, impressionantes tropas de combate com quem fiz amigos e com quem cheguei a sair para o mato.[1].  Unidos, camaradas, lutávamos pela sobrevivência, pela vida.

Na Guiné-Bissau, em Mansoa, em Junho de 1973, após uma missão da 38ª. Companhia de Comandos, na estrada Jugudul-Bambadinca, vi-os chegar com quatro espingardas Kalashnikov capturadas aos guerrilheiros mortos numa emboscada, duas delas ainda com sangue fresco. 

Tomei uma das armas na mão, culatra atrás, bala na câmara e apontei para o céu. Eram quatro Kalashs fabricadas na República Popular da China, oferecidas pelos comunistas de Mao Zedong para matar tropas portuguesas

Dez anos depois, um general chinês coloca uma coroa de flores no monumento aos militares Comandos, homenageando os portugueses mortos, muito deles caídos diante das balas disparadas por estas armas, made in China. (...)
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(1) Ver o meu Diário da Guiné, 72-74, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2007, pags. 51 a 53.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27932: Casos: a verdade sobre... (70): Kalashnikovomania - Parte V. eram ambas excelentes armas, a AK-47 e a G-3, ,mas a primeira foi a arma mais difundida a nível mundial... (Luís Dias, o nosso especialista em armamento)

terça-feira, 7 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27895: As nossas geografias emocionais (64): Teixeira Pinto, ao tempo do Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 3089 (1971/73)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto  (hoje Canchungo)> c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel e da vila (e depois cidade)


Foto nº 1A > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel (lado esquerdo e direito da imagem)


Foto nº 1B > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel (lado esquerdo) (1)


Foto nº 1C > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea de parte do quartel  (lado direito) (2) e da  vila  (início da avenida principal) (4)


Foto nº 1D > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea da do início da pista e do heliporto (4) e da povoação, mais peerto da bolanha (5)


Foto nº 1E > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea da vila  (avenida principal e, ao fundo, a tabanca de Canchungo (4)

Se dividirmos a foto nº 1, em quatro ou cinco partes, teremos: 

(i) Em baixo, direita  – Aquartelamento (Foto nº 1A) (dividida em 1 e 2);.

(ii)  Aquartelamento, lado esquerdo (Foto nº 1B): oficina e por cima da oficina, ao meio, os gabinetes do comando do batalhão e secretaria, e as comunicações;  linha de edifícios sobre a direita: instalações dos sargentos, refeitório e instalações dos oficiais.

(iii) aquartelamento, lado direito  (Foto nº 9C): instalações dos soldados, refeitório dos soldados e bar dos oficiais; depois da última linha dos edifícios, por entre as árvores ainda se divisam as instalações do CAOP1 e, ao lado, as casernas dos comandos.

(iv)  final do caminho que vem da bolanha e entra pelo aquartelamento, fica a porta de armas;

(v) Em baixo,  esquerda – para baixo, o caminho que vai dar à bolanha, que termina no cais (foto nº  2) e, sobre a esquerda, vê-se o início da pista de aterragem e o heliporto.

(vi) Em cima,  direita (Foto nº 1E) – centro da vila (depois cidade), avenida principal), no final da qual ficava o aldeamento do Canchungo.

 
 Foto nº  2> Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 >   Cais fluvial (Rio Costa Pelundeo, afluente do rio Mansoa


Foto nº  3> Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. janeiro / fevereiro de de 1972 >  Quartel > Pau da bandeira (2)


Foto nº 4 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro / fevereiro de 72 >  Quartel (pormenor), cum uma Berliet em primeior plano, em segundo plano a antena das telecomunicações (2)

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Carta da Província  (1961) > Escala 1/500 mil >Posição relativa de Teixeira Pinto, na zona oeste, entre o rio Cacheu e o rio Mansoa. A nordeste fica Pelundo e a leste Bula e a sudeste Bissau.


Guiné > Carta de Teixeira Pinto (1953) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Teixeira Pinto / Canchungo, capital do chão manjaco (que eram densamenmte povoado antes da guerra)

Infografias: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Francisco Gamelas: nascido em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica (ISEP, 1969), esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado (foi quadro superior da PT),  tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico.
 
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue. (*)


 2. No seu livro, "Outro olhar - Guiné 1971-1973" (AVeitro, ed. autor, 2016, 127 pp.) pode encontrar-se uma detalhada descrição da Teixeira Pinto daqueles tempos (pp. 16 e ss.) (**)


(...) "Implantada na planície, a meio da metade litoral norte da Guiné, entre os rios Cacheu, a norte, e Mansoa, a sul, mais próxima do último e dele recebendo a visita das suas águas na bolanha (...), a sua parte nobre e mais recente desenvolveu-se a partir da abertura de uma larga avenida em linha recta, com orientação aproximada norte-sul, que ligava o primitivo aldeamento do Canchungo ao quartel erguido a sul do povoado, a cerca de seiscentos metros de distância. 

"O quartel albergava as sedes de uma batalhão [o BCAÇ 3863] e de um CAOP [CAOP1]. Este com uma companhia de forças especiais - comandos [a 35ª CCmds]. 

"Na avenida, ou a ela chegados, sediavam-se os serviços disponibilizados, próximos do quartel. (...) 

"De ambos os lados erguiam-se casas de habitação de aspecto colonial, tendencialmente as melhores da cidade. Que me recorde, em nenhuma delas habitava uma família nativa". (...)

3. Em 1 de julho de 1972, havia cerca de 380/400 homens em armas na vila de  Teixeira Pinto (Zona Oeste, Setor O5)

CAOP1 - Comando + 35ª CCmds
BCAÇ 3863 - Comando Sector 05 + CCS
1 Pel / CCAÇ 3461
Pel Rec Daimler 3089

(**) Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27751: Excertos do Diário de António Graça de Abreu (CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) (25): A coluna de Teixeira Pinto, 31 de outubro de 1972


Guiné > Região de Tombali > Cufar > CAOP1 > c. 1973/74 >O António Graça de Abreu no rio Cumbijã. Tem c. 390 referèncias no blogue

Foto (e legenda) : © António Graça de Abreu (2007). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário do  António Graça de Abreu, ex-alf mil, CAOP1 (Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) ao poste P27749 (*)


"Esta história parece-me mal contada.

No meu 'Diário da Guiné0 tenho o relato de um ataque do PAIGC à coluna Teixeira Pinto-Bissau. Aí vai."

2. Nota do editor LG:

Desde o Natal de 2011 que temos vindo a publicar a série "Excertos do Diário do António Graça de Abreu (CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) (**). 

Já lá vão 25 postes com este. Temos a competente autorização (e sobretudo a manifestação  da amizade e da camaradagem) do autor para publicar excertos do seu livro que sejam de interesse para o nosso blogue e os nossos leitores. 

Temos o ficheiro em word, completo (com exceção das fotos) do seu "Diário da Guiné", bem como um exemplar do livro com uma dedicatória autografada, datada de março dr 2007... A brincar, já lá vão quase vinte anos!...

Estamos a falar do livro Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp), que é uma referência absolutamente obrigatória para quem quiser aprofundar o conhecimento da situação político-militar no CTIG nos últimos 3 anos (1972, 1973, 1974), vista por um alferes miliciano de um CAOP, com formação universitária, 
culto, vivido, informado e mais velho (25/26 anos) do que a média dos outros milicianos, tendo passado por  regiões nevrálgicas e sensíveis da Guiné, na zona Oeste (Mansoa / setor O1 e Teixeira Pinto / sector O5) e Sul (Cufar /S3).


3. Diário da Guiné > Canchungo, 31 de outubro de 1972 (**)


Esta manhã às seis e vinte, acordei de maneira diferente. Era pum, pum, pum, catrapum, os rebentamentos secos na distância.

Acordámos os três alferes, o que é, estão a atacar o quê? Era longe daqui, mas não muito. Eu disse: “Deve ser a coluna para Bissau.” 

O Tomé telefonou para as transmissões do CAOP1. Trava-se mesmo da coluna, a tal que não era atacada há imenso tempo e hoje pumba, um festival de fogo. 

A emboscada foi entre Pelundo e Có, a uns quinze quilómetros daqui. Passei por lá duas vezes, com a 35ª CComandos, em setembro, e outra vez há três semanas atrás quando vim de Bissau.

O IN concentrou o fogo sobre as primeiras viaturas, só cinco é que foram atingidas num total de quarenta. 

E quem ia à frente? A abrir a coluna, um Unimog com pessoal armado cujas armas parece que não funcionaram, depois o jipe com o meu coronel Rafael Durão que caiu na zona de morte e nada sofreu, a seguir outro jipe com dois tenentes-coronéis e um major, tendo ficado um dos tenentes-coronéis muito estilhaçado, mas sem gravidade. 

Atrás vinham as viaturas pesadas cujo pessoal levou com mais estilhaços, tendo alguns deles partido pernas e braços ao saltarem para o chão. A coluna seguia a razoável velocidade,  o que contribuiu para a confusão.

Houve cerca de dez feridos, alguns graves. Um alferes do Pelundo que ia na primeira viatura saltou com os primeiros tiros e por azar foi atropelado pelo jipe do meu coronel, mas dizem-me que debaixo de fogo o coronel mostrou uma coragem e sangue-frio notáveis.

Quando acontecem estas coisas, pedem-se logo os helicópteros de Bissau para a evacuação dos feridos e vem também o helicanhão que faz fogo sobre os itinerários de retirada do IN. 

Foi então abatido um guerrilheiro que veio de heli para Teixeira Pinto. Eu sabia que havia feridos e lá estava na pista. 

O fuzileiro do PAIGC chegou ainda vivo, com o uniforme azul manchado de sangue e um estilhaço na cabeça, de bala de helicanhão. 

O médico [Mário Bravo?] e um furriel enfermeiro fizeram-lhe massagens no coração que de nada valeram, o homem morreu ali. Foi o primeiro guerrilheiro que vi, e logo agonizando numa maca de lona.

António Graça de Abreu

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos,  negritos, itálicos: LG)

Fonte:   António Graça de Abreu  - Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, il, 220 pp. ), pág. 62
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 19 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)