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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)


Oeiras > Algés > Magnífica Tabanca da Linha > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Joaquim Pinto Carvalho (Cadaval) e o Luís da Cruz Ferreira (o "Beatle") (Cascais),  autor do livro de memórias "Os Có Boys" (ed. autor, Cascais, 2025, 184 pp.), e próximo grão-tabanqueiro nº 913, apadrinhado pelo Pinto Carvalho.

Foto © Manuel Resende (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legtendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 

1. Retomando a nossa leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhos da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)

Sinopse dos postes anteriores (*):

(i) o Luís, de alcunha o "Beatle", empregado de hotelaria e restauração, nascido na Benedita, Alcobaça;

(ii) é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972);

(iii) não tendo sido "repescado" para o CSM, tira a especialidade de 1º cabo auxiliar de enfermeiro, em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972);

(iv) parte para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972;

(v) no CIM de Bolama, faz a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional.



(vi) após a realização da IAO, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308;

(vii) um mês depois, em 25Nov72, assumiria a responsabilidade do subsector de Có, ficando os "periquitos" entregues a si próprios.
(viii) a 2ª C/BART 6521/72 também teve que adotar um nome de guerra, neste caso "Os Có Boys"; a companhia dos "velhinhos", que eles foram render, a CCAÇ 3308, eram os "Jagunços de Có" ( o nome não poderia sugerido pela personagem da novela brasileira Roque Santeiro, uma vez que esta só foi produzida pela TV Globo em 1985 e exibida em Portugal, na RTP1, entre outubro de 1987 e agosto de 1988).


2. Uma das partes notáveis do livro, pela vivacidade da descrição, a riqueza de detalhes e também sua dose de humor de caserna,  é "a coluna de Teixeira Pinto" (hoje, Canchungo) (pp. 73-80). 

Num troço de estrada já alcatroada (entre o Pelundo e o Có), e ainda na altura da sobreposição da 2ª C/BART 6521/72 com a CCAÇ 3308, o PAIGC monta uma emboscada com fornilhos, à coluna que seguia  de Teixeira Pinto para Pelundo, Có, Joâo Landim e Bissau (havia duas por semana).

É o batismo de fogo de alguns  "periquitos" (2ª C/BART 6521/72) e a despedida dos "velhinhos" (CCAÇ 3308). O autor não ia na coluna, que de resto não era atacada há muito, mas reconstituiu a "cena" a partir dos depoimentos de quem viveu os acontecimentos.

Vamos selecionar agluns excertos. 

Recorde-se que o BART 6521/72 veio render, em 25Nov72,  o BCaç 3833, passando a assumir a responsabilidade do Sector 07 (Oeste 7), com sede em Pelundo (1ª Comp: Pelundo. 2ª Comp: Có: 3ª Comp: Jolmete.

Pormenor importante: as estradas alcatroadas da "Guiné Melhor" não vieram resolver o problema das "minas & armadilhas"... Resolveram, sim,  a "chatice" da picagem, penosa, cansativa, perigosa... E cruaram uma perigosa sensação de liberdade de movimentos e de segurança.

Nas novas estradas, andava-se a maior velocidade (por evezes exessiva)  e o alcatrão não impedia que, nas bermas, o IN instalasse traiçoeiros e perigosíssimos  fornilhos, com fios de tropeçar de muitos metros...

Meia-dúzia de atiradores do PAIGC, apoiados na retaguarda por armas pesadas de infantaria, podiam dar cabo de uma coluna ou gerar o pânico (entre civis e militares)...E sobretudo obrigavam  um esforço redobrado (e desmedido) das NT em termos de segurança. 

Parafraseando o autor, mais do que "desvastadora", aquela guerra era sobretudo "desmoralizadora"... De resto, para ambos os lados...Mas, para os "periquitos", acabados de chegar da Metrópole, aquela emboscada na "curva da morte", na estrada Pelundo-Có, era de mau agoiro, começava-se mal...Como dizia, na chalaça e para desanuviar o ambiente, um dos "có boys", que seria de etnia cigana, também o seu povo "não gostava de ver bons princípios aos filhos" (pág. 79).

Curiosamente, são raras as referências à participação de militares, oriundos da minoria étnica cigana, na guerra que a elite dirigente do país, na época, dizia que era uma guerra de todos nós, portugueses da metrópole e do ultramar, de Angola a Goa, de Cabo Verde a Timor, "brancos, pretos, mestiços, amarelos"...



Guiné > Carta de Pelundo (1953) (Escala 1/50 mil) >
 Troço Pelundo - Có - Rio Mansoa; a nrodeste, Jolmete; este triángulo formava o Sector O7.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)









pp. 73-77 (**)



Esta emboscada à coluna oriunda de Teixeira Pinto (que em princípio se fazia duas vezes pro semana), foi mais perto de Có, na chamada "curva da morte" (havia muitas, nas estradas e picadas da Guiné). Os feridos mais ligeiros foram tratados em Có, o aquartelamento mais próximo. Entre eles, estava o 2º cmdt do BCAC 3833, que o BART 6521/72 vinha render. 

O major (maj inf Bernardino Rodrigues dos Santos ou maj inf  Manuel Basílio de Almeida Teixeira de Aguiar da Câmara, um deles) terá sido cuspido do jipe (não se usava cinto de segurança nesse tempo, ironiza o nosso "Beatle"). 

Depois de uma massagem com a "milagrosa pomada Synalar", foi-lhe recomendado que se dirigisse ao bar de oficiais para tomar a segunda dose da medicação, o "reconfortanto xarope James Martin" (pp. 78/79).

E aproveita o autor para descrever o a cantina das praças, com o traço grosso da caricatura, e a imagem deliciosa do "bordel do mato":

"Na cantina a abarrotar de velhos e novos de garganta seca e fumando como comboios a carvão, a luta para se abeirarerm do balcão era intensa. Ali, a  sede era menos exclusiva, contudo mais extensa, e necessitava de mais quantidade de líquido para se apaziguar" (pág. 79).

Fazendo juz à sua experiência e ao seu saber de "barman" na vida civil, o "Beatle" acrescentaem tom pícaro e  com um delicioso sarcasmo:

"O sistema na cantina era como aquele velho ditado sobre a mais velha profissão do mundo: «cú no chão, dinheiro na mão". 

Não havia fiados para as praças. Soldados e cabos não usufruíam desse direito que era comum aos restantes  militares graduados. O que é certo  é que, por isso, só se abeirava do balcão da cantina quem tinha algum dinheiro, para comprar a sua 'bazuca' ou para oferecer uma ao camarada." (pág. 79).




(...) 

pág. 80

Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, pp. 73-77 e 80

(Revisão/fixação de texto: LG)
______________




A Metralhadora Ligeira Degtyarev RPD, se é essa a que te referes, era alimentada por um ambor com fita no seu interior com 100 projécteis.

8 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

De acordo com a CECA (6.° VOLUME - Aspectos da Actividade Operacional, Tomo II, Guiné
Livro III, 1.a edição, Lisboa, 2015, pág 7), há graves lacunas na documentação sobvre o período de 1971 a 1974:

(...) "Circunscrevemo-nos à consulta dos documentos produzidos à data na Metrópole e aos que na altura foram efectivados e encaminhados para Portugal Continental. Os que foram elaborados e arquivados nos CCFAG e CTIG, embora tenham sido enviados de lá e armazenados no extinto BCaç n" 5, acabaram por ser destruídos num incêndio. Devido a este, não se pode lucrar com o conhecimento dos seus conteúdos. As fontes de consulta ficaram limitadas aos arquivos dos SGDN, AHM, CECA e do testemunho de alguns militares". (...)

Por isso é de saudar e valorizar testemunhos dos nossos camaradas dessa época, como o caso do Luís da Cruz Ferreira. Infelizmente, em cada 150/160 militares (os efetivos de uma companhia) há apenas 1 que escreve, na melhor das hipóteses...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Convenhamos, o emboscador tem sempre uma vantagem sobre o emboscado.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O do efeito surpresa.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Mas enfrentar o fogo de três panhards também é obra...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A nossa sorte é que o Zé Turra, apesar da ajudinha cubana, tinha fraca pontaria.

Anónimo disse...

Esta história parece-me mal contada.
No meu Diário da Guiné tenho o relato de um ataque do Paigc à coluna Teixeira pinto-Bissau.
Aí vai:
Canchungo, 31 de Outubro de 1972

Esta manhã às seis e vinte, acordei de maneira diferente. Era pum, pum, pum, catrapum, os rebentamentos secos na distância.
Acordámos os três alferes, o que é, estão a atacar o quê? Era longe daqui, mas não muito. Eu disse: “Deve ser a coluna para Bissau.” O Tomé telefonou para as transmissões do CAOP. Trava-se mesmo da coluna, a tal que não era atacada há imenso tempo e hoje pumba, um festival de fogo. A emboscada foi entre Pelundo e Có, a uns quinze quilómetros daqui. Passei por lá duas vezes, com a 35ª. de Comandos, em Setembro, e outra vez há três semanas atrás quando vim de Bissau.
O IN concentrou o fogo sobre as primeiras viaturas, só cinco é que foram atingidas num total de quarenta. E quem ia à frente? A abrir a coluna, um Unimog com pessoal armado cujas armas parece que não funcionaram, depois o jipe com o meu coronel Rafael Durão que caiu na zona de morte e nada sofreu, a seguir outro jipe com dois tenentes-coronéis e um major, tendo ficado um dos tenentes-coronéis muito estilhaçado, mas sem gravidade. Atrás vinham as viaturas pesadas cujo pessoal levou com mais estilhaços, tendo alguns deles partido pernas e braços ao saltarem para o chão. A coluna seguia a razoável velocidade o que contribuiu para a confusão. Houve cerca de dez feridos, alguns graves. Um alferes do Pelundo que ia na primeira viatura saltou com os primeiros tiros e por azar foi atropelado pelo jipe do meu coronel, mas dizem-me que debaixo de fogo o coronel mostrou uma coragem e sangue-frio notáveis.
Quando acontecem estas coisas, pedem-se logo os helicópteros de Bissau para a evacuação dos feridos e vem também o helicanhão que faz fogo sobre os itinerários de retirada do IN. Foi então abatido um guerrilheiro que veio de heli para Teixeira Pinto. Eu sabia que havia feridos e lá estava na pista. O fuzileiro do PAIGC chegou ainda vivo, com o uniforme azul manchado de sangue e um estilhaço na cabeça, de bala de helicanhão. O médico e um furriel enfermeiro fizeram-lhe massagens no coração que de nada valeram, o homem morreu ali. Foi o primeiro guerrilheiro que vi, e logo agonizando numa maca de lona.
António Graça de Abreu

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Obrigado, Antonio. Vou confrontar o autor com a tua versão.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

António, ainda náo falei com o Luis que estavaca em Có e tu no CAOP1, em Teixeira Pinto / Canchungo, nesse dia 31 de outubro de 1972. O Luís ia como enfermeiro nessa coluna, que tu dizes no teu diário que era consituída por 4 dezenas de viaturas e só as 5 primeiras é que foram atingidas. E ele era capaz até de vir nas últimas...

Eu não diria que "a história está mal contada". Ambos usam a memória, ou melhor diferentes "camadas" da memória. A do Luís é a "memória episódica (autobiográfica ou vivencial): refere-se à recordação consciente de uma experiência pessoal, no CTIG, incluindo o "quê", "onde" e "quando" desse evento (que foi a emboscada à coluna de Teixeira Pinto, em 31 de outubro de 1972, era ele "periquito").

Viver uma situação traumática, como uma emboscada na guerra, ou o "batismo de fogo" (como foi aqui o caso), cria uma memória episódica intensa e emocional, que é fundamentalmente diferente de "apenas ouvir contar o que se passou" a 15 km de distância.

São duas situações distintas:

(i) Viver uma situação (emboscada/guerra): experiência na "primeira pessoa" (envolve "consciência autonoética", ou seja, a capacidade de viajar mentalmente no tempo e reexperimentar/reconstruir o evento e imaginar cenários futuros).

(ii) Ouvir contar o que se passou (relato): remete para a memória semântica/narrativa (aquisição de um conhecimento fático, um relato ou um dado histórico; não envolve a vivência sensorial na primeira pessoa), enquanto a tua é "memória semântica", narrativa ou histórica...

As duas, no nosso blogue, são fundamentais...

Acredito que a tua narrativa é mais completa, integra mais dados/factos do que aqueles que o Luís possui como memórias fragmentadas, traumáticas...Ele, ao escrever este livro, socorreu-se apenas da "memória episódica", não consultou livros, relatórios, arquivos, náo tnha nenhum diário como tu, etc.

Claro que a tua memória também é episódica: foste acordado, de manhá cedo, com o pum-pum-pum da emboscada. O teu comandante ia na coluna, etc. E também passavas por essa estrada de vez em quando quando tinhas que ir a Bissau e não havia boleia "by air"...

Um abraço e parabéns, ao teu Pedro, que foi pai, e a ti, que voltaste a ser avô...babado. Extensível à família, que tu muito prezas. E um bom novo ano chinês para todos. Luis