Juvenal Amado, ex-1.º cabo condutor auto, CCS/BCAÇ 3872
(Galomaro, 1972/74)
Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L5 > Galomaro, aquartelamento.
1. Revisitando um divertido poste da série "Estórias do Juvenal Amado", agora republicado na série "Humor de caserna" (*)
O bom do Sardeira (1) tinha por missão ir às Duas Fontes (2), local a 6 km do quartel, com o Unimog, mais conhecido por "burro do mato", encher o autotanque de água.
E assim durante muito tempo, logo de manhã, com uma secção de homens armados, lá ia ele, picada fora, aproveitando para dar boleia às bajudas (3) que, nisto de andar de carro, estavam sempre prontas.
Iam... e depois vinham.
O meu amigo Sardeira usava uns óculos que mais pareciam o fundo de duas garrafas, tal era a grossura das lentes.
Mais tarde, no nosso primeiro almoço de confraternização, passados vinte anos, em Seia, reparei que ele não trazia os famosos óculos. Quando lhe perguntei por eles, com ar maroto respondeu-me que os tinha deitado fora, mal tinha saído do T/T Niassa, em Lisboa.
Verdade ou não, não deixa de ser sempre tema de conversa e brincadeira, entre nós quando nos juntamos.
Mas voltando atrás no tempo, o camarada Sardeira ia encher o autotanque, duas vezes de manhã e duas vezes de tarde. Assim foram passando os meses e, como foram passando, ele foi abrandando o cuidado e assim, de vez em quando, pegava na viatura e lá ia ele direito às Duas Fontes, sem escolta.
Escusado será dizer que, em situação de guerra de guerrilha, esta atitude era uma tonteira e era assunto de conversa entre nós. Até que ele passou a ir mais vezes sem escolta do que com ela.
Nós, meio a sério meio a brincar, dizíamos:
− Qualquer dia ainda te lixas! − e ele respondia a gozar que nós éramos uns medricas e que não havia perigo nenhum.Olha a Maria Turra, Sardeira!
por Juvenal Amado
O bom do Sardeira (1) tinha por missão ir às Duas Fontes (2), local a 6 km do quartel, com o Unimog, mais conhecido por "burro do mato", encher o autotanque de água.
E assim durante muito tempo, logo de manhã, com uma secção de homens armados, lá ia ele, picada fora, aproveitando para dar boleia às bajudas (3) que, nisto de andar de carro, estavam sempre prontas.
Iam... e depois vinham.
O meu amigo Sardeira usava uns óculos que mais pareciam o fundo de duas garrafas, tal era a grossura das lentes.
Mais tarde, no nosso primeiro almoço de confraternização, passados vinte anos, em Seia, reparei que ele não trazia os famosos óculos. Quando lhe perguntei por eles, com ar maroto respondeu-me que os tinha deitado fora, mal tinha saído do T/T Niassa, em Lisboa.
Verdade ou não, não deixa de ser sempre tema de conversa e brincadeira, entre nós quando nos juntamos.
Mas voltando atrás no tempo, o camarada Sardeira ia encher o autotanque, duas vezes de manhã e duas vezes de tarde. Assim foram passando os meses e, como foram passando, ele foi abrandando o cuidado e assim, de vez em quando, pegava na viatura e lá ia ele direito às Duas Fontes, sem escolta.
Escusado será dizer que, em situação de guerra de guerrilha, esta atitude era uma tonteira e era assunto de conversa entre nós. Até que ele passou a ir mais vezes sem escolta do que com ela.
Nós, meio a sério meio a brincar, dizíamos:
O tempo foi passando. Um dia lá vinha ele a chegar do seu passeio, o João Caramba gritou-lhe que ele estava a forçar a sorte. Ele riu-se e disse que não havia azar, ao que o Caramba retorquiu:
− Ah, pois, vai ter com o Narciso das transmissões que ele diz-te o que a Maria Turra disse sobre apanhar o condutor da água de Galomaro à mão!
O Sardeira mudou de cor e, num riso um bocado amarelo, ainda disse:
− Estás a gozar!
O Caramba disse muito sério, na sua forma falar de alentejano dos quatro costados:
− Não s'tá vendo? !... Andas brincando com a sorte.
Nós entretanto fartámo-nos de rir, mas a mentira passou a ser uma verdade e nenhum de nós se desmanchou.
A estória correu o quartel e, à boa maneira de quem conta um conto, acrescenta um ponto, a peta alastrou.
O que foi certo é que o camarada Sardeira passou a querer mais segurança e nunca mais lá foi buscar o precioso líquido, sozinho.
Juvenal Amado
Ex-1.º Cabo Condutor
CCS/BCAÇ 3872
(Revisão / fixação de texto, título: CV/LG)
_______
Notas do autor JA:
(1) O primeiro encontro entre nós, passado vinte anos, deve-se em grande parte ao trabalho desenvolvido pelo Sardeira que, a par com o Alfredo Chapinhas, fizeram um trabalho notável para que o almoço se realizasse. Ele veio de propósito encontrar-se comigo em Alcobaça, para que eu fornecesse os números de telefone dos camaradas que ainda estavam em contacto comigo.
(2) Duas Fontes: local onde abastecíamos de água perto de Bangacia. Era um local que inspirava confiança, mas não podemos esquecer que essa mesma confiança custou a vida a seis camaradas do Batalhão antigo, que ali foram emboscados. (**)
Bangacia foi também destruída por um ataque durante a nossa comissão. Nós reconstruímos a povoação com ordenamento tipo Baixa Pombalina, com escola, posto médico e o PAIGC nunca mais atacou. Deve ter considerado que era uma coisa boa a manter para quando a paz chegasse. E tinham toda a razão.
(3) Bajudas: nome dado as moças solteiras da Guiné.
________________
Notas do editor LG:
_______
Notas do autor JA:
(1) O primeiro encontro entre nós, passado vinte anos, deve-se em grande parte ao trabalho desenvolvido pelo Sardeira que, a par com o Alfredo Chapinhas, fizeram um trabalho notável para que o almoço se realizasse. Ele veio de propósito encontrar-se comigo em Alcobaça, para que eu fornecesse os números de telefone dos camaradas que ainda estavam em contacto comigo.
(2) Duas Fontes: local onde abastecíamos de água perto de Bangacia. Era um local que inspirava confiança, mas não podemos esquecer que essa mesma confiança custou a vida a seis camaradas do Batalhão antigo, que ali foram emboscados. (**)
Bangacia foi também destruída por um ataque durante a nossa comissão. Nós reconstruímos a povoação com ordenamento tipo Baixa Pombalina, com escola, posto médico e o PAIGC nunca mais atacou. Deve ter considerado que era uma coisa boa a manter para quando a paz chegasse. E tinham toda a razão.
(3) Bajudas: nome dado as moças solteiras da Guiné.
________________
Notas do editor LG:
Bangacia (ou Duas Fontes) ficava a meio caminho entre Galomaro e Dulombi, a sul de Bafatá, a sudeste de Bambadinca, a oeste do Xitole, a sudoeste do Saltinho. Com a retirada de Madina do Boé, em 6/2/1969, o sector L5 tornou-se mais vulnerável a incursões do PAIGC. (...)


Sem comentários:
Enviar um comentário