Juvenal Amado, ex-1.º cabo condutor auto, CCS/BCAÇ 3872
(Galomaro, 1972/74).É membro da Tabanca Grande desde 1/8/2008.Natural de Alcobaça, é um dos pais fundadores da Tabanca do Centro
Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L5 > Galomaro, aquartelamento.
1. Revisitando um divertido poste da série "Estórias do Juvenal Amado", agora republicado na série "Humor de caserna" (*)
O bom do Sardeira (1) tinha por missão ir às Duas Fontes (2), local a 6 km do quartel, com o Unimog, mais conhecido por "burro do mato", encher o autotanque de água.
E assim durante muito tempo, logo de manhã, com uma secção de homens armados, lá ia ele, picada fora, aproveitando para dar boleia às bajudas (3) que, nisto de andar de carro, estavam sempre prontas.
Iam... e depois vinham.
O meu amigo Sardeira usava uns óculos que mais pareciam o fundo de duas garrafas, tal era a grossura das lentes.
Mais tarde, no nosso primeiro almoço de confraternização, passados vinte anos, em Seia, reparei que ele não trazia os famosos óculos. Quando lhe perguntei por eles, com ar maroto respondeu-me que os tinha deitado fora, mal tinha saído do T/T Niassa, em Lisboa.
Verdade ou não, não deixa de ser sempre tema de conversa e brincadeira, entre nós quando nos juntamos.
Mas voltando atrás no tempo, o camarada Sardeira ia encher o autotanque, duas vezes de manhã e duas vezes de tarde. Assim foram passando os meses e, como foram passando, ele foi abrandando o cuidado e assim, de vez em quando, pegava na viatura e lá ia ele direito às Duas Fontes, sem escolta.
Escusado será dizer que, em situação de guerra de guerrilha, esta atitude era uma tonteira e era assunto de conversa entre nós. Até que ele passou a ir mais vezes sem escolta do que com ela.
Nós, meio a sério meio a brincar, dizíamos:
− Qualquer dia ainda te lixas! − e ele respondia a gozar que nós éramos uns medricas e que não havia perigo nenhum.Olha a Maria Turra, Sardeira!
por Juvenal Amado
O bom do Sardeira (1) tinha por missão ir às Duas Fontes (2), local a 6 km do quartel, com o Unimog, mais conhecido por "burro do mato", encher o autotanque de água.
E assim durante muito tempo, logo de manhã, com uma secção de homens armados, lá ia ele, picada fora, aproveitando para dar boleia às bajudas (3) que, nisto de andar de carro, estavam sempre prontas.
Iam... e depois vinham.
O meu amigo Sardeira usava uns óculos que mais pareciam o fundo de duas garrafas, tal era a grossura das lentes.
Mais tarde, no nosso primeiro almoço de confraternização, passados vinte anos, em Seia, reparei que ele não trazia os famosos óculos. Quando lhe perguntei por eles, com ar maroto respondeu-me que os tinha deitado fora, mal tinha saído do T/T Niassa, em Lisboa.
Verdade ou não, não deixa de ser sempre tema de conversa e brincadeira, entre nós quando nos juntamos.
Mas voltando atrás no tempo, o camarada Sardeira ia encher o autotanque, duas vezes de manhã e duas vezes de tarde. Assim foram passando os meses e, como foram passando, ele foi abrandando o cuidado e assim, de vez em quando, pegava na viatura e lá ia ele direito às Duas Fontes, sem escolta.
Escusado será dizer que, em situação de guerra de guerrilha, esta atitude era uma tonteira e era assunto de conversa entre nós. Até que ele passou a ir mais vezes sem escolta do que com ela.
Nós, meio a sério meio a brincar, dizíamos:
O tempo foi passando. Um dia lá vinha ele a chegar do seu passeio, o João Caramba gritou-lhe que ele estava a forçar a sorte. Ele riu-se e disse que não havia azar, ao que o Caramba retorquiu:
− Ah, pois, vai ter com o Narciso das transmissões que ele diz-te o que a Maria Turra disse sobre apanhar o condutor da água de Galomaro à mão!
O Sardeira mudou de cor e, num riso um bocado amarelo, ainda disse:
− Estás a gozar!
O Caramba disse muito sério, na sua forma falar de alentejano dos quatro costados:
− Não s'tá vendo? !... Andas brincando com a sorte.
Nós entretanto fartámo-nos de rir, mas a mentira passou a ser uma verdade e nenhum de nós se desmanchou.
A estória correu o quartel e, à boa maneira de quem conta um conto, acrescenta um ponto, a peta alastrou.
O que foi certo é que o camarada Sardeira passou a querer mais segurança e nunca mais lá foi buscar o precioso líquido, sozinho.
Juvenal Amado
Ex-1.º Cabo Condutor
CCS/BCAÇ 3872
(Revisão / fixação de texto, título: CV/LG)
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Notas do autor JA:
(1) O primeiro encontro entre nós, passado vinte anos, deve-se em grande parte ao trabalho desenvolvido pelo Sardeira que, a par com o Alfredo Chapinhas, fizeram um trabalho notável para que o almoço se realizasse. Ele veio de propósito encontrar-se comigo em Alcobaça, para que eu fornecesse os números de telefone dos camaradas que ainda estavam em contacto comigo.
(2) Duas Fontes: local onde abastecíamos de água perto de Bangacia. Era um local que inspirava confiança, mas não podemos esquecer que essa mesma confiança custou a vida a seis camaradas do Batalhão antigo, que ali foram emboscados. (**)
Bangacia foi também destruída por um ataque durante a nossa comissão. Nós reconstruímos a povoação com ordenamento tipo Baixa Pombalina, com escola, posto médico e o PAIGC nunca mais atacou. Deve ter considerado que era uma coisa boa a manter para quando a paz chegasse. E tinham toda a razão.
(3) Bajudas: nome dado as moças solteiras da Guiné.
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Notas do editor LG:
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Notas do autor JA:
(1) O primeiro encontro entre nós, passado vinte anos, deve-se em grande parte ao trabalho desenvolvido pelo Sardeira que, a par com o Alfredo Chapinhas, fizeram um trabalho notável para que o almoço se realizasse. Ele veio de propósito encontrar-se comigo em Alcobaça, para que eu fornecesse os números de telefone dos camaradas que ainda estavam em contacto comigo.
(2) Duas Fontes: local onde abastecíamos de água perto de Bangacia. Era um local que inspirava confiança, mas não podemos esquecer que essa mesma confiança custou a vida a seis camaradas do Batalhão antigo, que ali foram emboscados. (**)
Bangacia foi também destruída por um ataque durante a nossa comissão. Nós reconstruímos a povoação com ordenamento tipo Baixa Pombalina, com escola, posto médico e o PAIGC nunca mais atacou. Deve ter considerado que era uma coisa boa a manter para quando a paz chegasse. E tinham toda a razão.
(3) Bajudas: nome dado as moças solteiras da Guiné.
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Notas do editor LG:
Bangacia (ou Duas Fontes) ficava a meio caminho entre Galomaro e Dulombi, a sul de Bafatá, a sudeste de Bambadinca, a oeste do Xitole, a sudoeste do Saltinho. Com a retirada de Madina do Boé, em 6/2/1969, o sector L5 tornou-se mais vulnerável a incursões do PAIGC. (...)


7 comentários:
Juvenal, uma história pícara... e pedagógica!...O Sardeira podia bem ter uma surpresa desagradável se continuasse a ir a fonte, sozinho ou acampanhado da sua "Leonor"... O Zé Turra gostaca muito de montar surpresas do Zé Tuga , nas fontes... Lembro-me de uma emboscada em Mansambo, em que houve mortos e um camarada nosso apanhadado unha...
Sardeira ou Cerdeira ? Não, não é um nome invulgar. Sardeira devia ser Cerdeira no português antigo... Em Candoz chamamos "cerdeiras" às cerejeiras... Nas Aldeias de Xisto, da Serra da Lousã, há uma delas que é Cerdeira.
Cerdeira ou Sardeira é pois um topónimo, local onde há ou havia muitas cerejeiras. Mas também um antropónimo, nome próprio de pessoa.
O teu Sardeira desta história devia ser beirão ou transmontano. Já o Caramba só podia ser "chaparro", sem ofensa para os alentejanos. A tropa e a guerra, apesar de todas as misérias, deram para nós nos conhecermos melhor uns aos outros e criar laços fortes de camaradagem e até de amizade para a vida. Tu, o Sardeira, o Caramba, são bons exemplos disso.
Juvenal, o Narciso das transmissões é que era o jornal da caserna. Era assim em todo o lado, as notícias sabiam-se através da malta das transmissões que tinham tempo e vagar para sintonizar as rádios em onda curta... (E, sobretudo, tinham os recetores de rádio!)...
Durante a noite, com o pessoal a dormir...
De manhã, à hora do casqueiro, retransmitiam o que tinham podido captar, escutar ou ouvir... Era assim, em Galomaro, em Bambadinca, em Bafatá, em Piche, em Teixeira Pinto, em Bissau...em todo o lado.
Luís julgo que Cerdeira e o nome da terra dele. Felizmente é vivo e vive para os lados de Almeida. É dos que não falta todos anos a chama e foi ele o Alfredo (chapinhas) o percursor do primeiro encontro em Seia 20 anos depois do regresso
Juvenal Amado
Com o abandono de Beli, em 1968, e depois Madina do Boé e Cheche, em 6/2/69, o regulado do Cosse e outros do sul do chão fula ficaram mais vulneráveis.
Sem duvida nenhuma os efeitos sentiram-se no final da comissão do bat 2912 que fomos render agravando-se durante a comissão do 3872. Cancolim e Saltinho com mortes no Quirafo , Dulombi com com um encontro cara a cara, por fim com minas que se levantaram e a que explodiu no carro do Falé no caminho de Dulombi , a mina que vitimou o sol. PelRec Teixeira e o ataque ao arame em Galomaro de 1 de Dezembro de 72.
O Luís Dias Ex alferes da 3491 do Dulombi tem uma bem estruturada crónica dos factos.
Faltou-me referir os ataques a tabancas em auto defesa como Cansamba, Bangacia, Anhanbé e Campata . Possivelmente me esqueci de alguma
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