Foi o padeiro do pelotão. Talvez o padeiro mais famoso do CTIG. Tal como muitos de nós, de resto, no TO da Guiné, chamava à G3 a sua "namorada" (*). Além de padeiro, também era o municiador do morteiro médio 81.
As fotos que acima publicamos, de verdadeira declaração de amor à G3 e demais acessórios de qualquer atirador de infantaria (cinturão com 4 cartucheiras, com 20 munições cada, de calibre 7,62; baioneta; cantil; faca de mato; granada ofensiva e defensiva...) devem constar em milhares de álbuns de camaradas nossos que passaram pelo TO da Guiné e que tratavam religiosamente o seu álbum fotográfico...
Devem-se ter vendido milhares de fotos destas. Nunca tive álbum fotográfico, nem mandei, para a metrópole, nenhuma foto destas... Nem sei se a malta mandava fotos destas, pelo correio, às namoradas, madrinhas de guerra, irmãs, mães, amigas... Aqui a G3 aparece como um verdadeiro fetiche, um talismã, um escudo protector, uma companheira inseparável, uma namorada, uma amante. qie vivia 24 horas ao nosso lado: andámos juntos, fomos unha com carne na Guiné, amei-te muito, devo-te a vida, jamais te esquecerei...
Em termos físicos, simbólicos, psicológicos e até culturais, a G3 é, antes de mais uma figura feminina, uma arma de defesa; é uma amante, mas também uma mãe: não sei se a interpretação... algo freudiana, é abusiva; para outros combatentes, poderia ser vista também sob uma perspectiva mais falocrática: usandoo um palavrão, nestas fotos e nestes discursos dos antigos combatentes, um fenómeno de antropomorfização de uma objeto inamado, uma arma de guerra, quue passa a adquirir formas ou características humanas, uma extensão do nosso corpo, a nossa "canhota", o nosso pénis mortífero... (LG)
Meu Caro Furriel Mário Dias,
Não é o Luís, sou eu, o Briote, que assumo o encargo de publicar a tua (minha também) defesa da G3, essa namorada que, tanto quanto me lembre, me foi fiel durante a minha comissão na Guiné.
Não dei muitos tiros em combate. Ainda hoje me lembro que foram 22, em toda a comissão. Só que de uma vez, logo no início da comissão, quando me encontrava ainda em Cuntima, na CCAV 489, despejei o carregador até ao fim numa emboscada entre Faquina Fula e Faquina Mandinga.
Depois nos Comandos, a minha história com a G3 quase dava um romance. Na carreira de tiro que havia lá para os lados do aeroporto (lembras-te?), esvaziei um cunhete. Há quem diga que foram cinco, não acredito. Certo é que o cano, sem tapa-chamas, rachou. E o Saraiva obrigou-me a pagar a asneira.
Achei, na altura, que ela me tinha sido ingrata, pela vergonha que me fez passar. E que o cap Saraiva era um exagerado. Troquei-a por uma FN, também sem tapa-chamas (ainda estou para saber porque é que eu as preferia assim).
Meses depois, reconciliámos-nos, fizemos as pazes e foi a minha namorada até ao fim. Custou-me tanto a liquidação da dívida que, a partir daí, passei a ser eu a tratar dela. Como tu dizes, com as mãos na massa.
Mário, foste um dos instrutores que me ensinaste a pegar nela. A pôr os meus olhos no cano, a usá-la o estritamente necessário, a trazê-la no colo, com meiguice.
Não vou aqui falar de outras coisas que me ensinaste, que a hora é de honrar a G3. Mas é sempre tempo para publicamente reconhecer que foste um instrutor que nos deixou marcas muito positivas, nomeadamente pelo teu saber e conhecimento daquela terra e daquelas gentes que, eu sei, tanto apreciavas.
vb
(Revisão / fixação de texto, tíitulo, negritos: LG)
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Notas do editor LG:
Notas do editor LG:
(*) Último poste da série > 15 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27921: Casos: a verdade sobre... (68): Kalashnikovmania - Parte III: Continuo fã incondicional da G3 (Mário Dias)
(**) Vdf. poste de 17 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2445: Em louvor da G3, no duelo com a AK47 (Mário Dias)






