Pesquisar neste blogue

terça-feira, 14 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27929: Casos: a verdade sobre... (68): Kalashnikovmania - Parte III: Continuo fã incondicional da G3 (Mário Dias)




 Guiné > Bolama > 1959 > 1º CSM >  O Mário Dias, à direita, assinalado com um círculo verde: no extremo oposto, à esquerda, a vermelho,  o Domingos Ramos (1935-1966, hoje herói nacional da Guiné-Bissau, morto em combate em 10/11/1966, em Madina do Boé; foram camaradas de armas e amigos, tendo frequentado o 1º Curso de Sargentos Milicianos, Bissau.

Foto do álbum do  Mário Dias ou Mário Roseira Dias, sargento comando na situação de reforma, histórico membro da Tabanca Grande (para onde entrou em 17/11/2005);  no TO da Guiné, foi comando e instrutor dos primeiros comandos da Guiné (1964/66), entre os quais alguns dos nossos camaradas da Tabanca Grande, como o Virgínio Briote, o João Parreira, o Luís Raínha, o Júlio Abreu, etc. Passou também por Angola e Macau.  Estava de sargento de dia, no Regimento de Comandos, no dia 25 de Novembro de 1975. 

É uma figura muito respeitada entre os comandos. Na vida civil, é também um conceituado arranjador e compositor musical, a par de maestro de coros. (Tinha um página no sapo.pt sobre partituras corais, que foi descontinuada cpom o fim dos alojamemntos naquele servidor, mas que pode ser consultada em arquivo morto, aqui: https://arquivo.pt/wayback/20071020033005/http://partiturascorais.com.sapo.pt:80/ )

 


Lisboa > Belém > Forte do Bom Sucesso > 24  de Setembro de 2005 > Um reencontro de velhos camaradas, 'comandos', militares portugueses que estiveram na Guiné, tendo participado na Op Tridente (Ilha do Como, de 14 de Janeiro a 24 de Março de 1964)... Quarenta anos depois, tiraram uma foto para a História estes seis bravos da mítica batalha do Como onde a G3 foi posta à prova mas não levou a melhor sobre a AK 47... simplesmente porque esta arma, de fabrico soviético, ainda não equipava a guerrilha.

Entre eles, está o nosso Mário Dias (o segundo, a contar da direita)... Já agora aqui fica a legenda completa (os postos, referentes a cada um, são os que tinham à época dos acontecimentos): 

Da esquerda para a direita: 

(a) sold cond auto João Firmino Martins Correia (CCAV 487 / BCAV 490, e Gr Cmds "Camaleões". 1963/65) (era comandado pelo alf mil 'cmd' Justino Godinho, já falecido, sendo o fur mil 'cmd Mário Dias um dos chefes de equipa):

(b) 1º cabo' cmd0  Marcelino da Mata (já falecido) (pertenceu, neste período,  ao Gr Cmds "Panteras", tal como o fur mil Vassalo Miranda);

(c) 1º cabo Fernando Celestino Raimundo (originalmenmte 1º cabo fotocine); 

(d) fur mil António M. Vassalo Miranda (Gr Cmds "Panteras"); 

(e) fur mil Mário Fernando Roseira Dias (hoje sargento na reforma); 

(f) sold Joaquim Trindade Cavaco (CCAV 487 / BCAV 490, e Gr Cmds "Camaleões", 1963/65).

Fotos (e legendas): © Mário Dias (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Sobre o nosso camarada Mário [Fernando Roseira] Dias, acrescente-se mais o seguinte:

(i) nasceu em 1937 em Lamego;

(ii) foi para a Guiné, com a família, em 1952, ainda adolescente (com 15 anos);

(iii) assistiu à modernização e crescimento de Bissau, capital da Província desde 1943;

(iv) conheceu, entre outros futuros dirigentes e combatentes do PAIGC, Domingos Ramos, de que se vai tornar amigo, na recruta e depois no 1º Curso de Sargentos Milicianos [CSM], que se realizou na Guiné, em Bolama, em 1959;

(v) com o posto de fur mil, partiu, em 29 de outubro de 1963, para Angola, integrando num grupo de Oficiais, Sargento e Praças, do CTIG, a fim de frequentarem um curso de Comandos, no CI 16 na Quibala - Norte, e on se incluía o major inf Correia Diniz; alf mil Maurício Saraiva; alf mil Justino Godinho, 2º srgt Gil Roseira Dias (irmão do Mário), fur mil cav Artur Pereira Pires, fur mil cav António Vassalo Miranda, 1.º cabo at inf Abdulai Queta Jamanca e Sold. At. Inf.ª Adulai Jaló.

(vi) este grupo esteve na origem da criação, em julho de 1965, da Companhia de Comandos do CTIG (CCmds/CTIG), tendo sido nomeado seu comandante o cap art Nuno Rubim, substituído em 20 de fevereiro de 1966 pelo cap art Garcia Leandro;

(vii) em 1966, seguiu para Angola, onde prestou serviço, seguindo a carreira militar;

(x) depois de reformado dedicou-se à música: dotado de grande sensibilidade e talentos artísticos, é mais conhecido por M. Roseira Dias, no meio musical, é autor de inúmeros arranjos musicais de canções populares como a açoriana Olhos Negros, e tantas outras que por aí circulam em Portugal e no Brasil.


2.  Texto de Mário Dias, enviado em 15 de Janeiro de 2008, publicado originalmente a seguir sob o título Em louvor da G3 (edição de Virgínio Briote, com um belíssimo comentário que merece também ser relido ). 

 Justifica-se a repescagem e republicação deste poste: é uma peça fundamental para o debate sobre a G3 "versus" AK47, no contexto da guerra colonial no CTIG, tratando-se para mais de um combatente  com grande experiência operacional. Mas no decurso da Op Tridente (jan/mar 1964), o PAIGC

Sobre a G3 temos 40 referências no blogue. Sobre a AK 47 (ou Kalash), 25. A primeira Kalash capturada pelas NT terá foi no  TO da Guiné em 29/11/1964.  Por outro lado,  e como é sabido, a G3 não  +e mais a arma-padrão do Exército Português.

Passados tantos anos sobre a guerra, continuo fã incondicional da G3

por Mário Dias


É muito vulgar e frequente tecerem-se comentários depreciativos à espingarda G3, quando comparada à AK 47. Em minha opinião, nada mais errado. Analisemos, à luz das características de cada uma e da sua utilização prática, os prós e contras verificados durante a guerra em que estivemos empenhados em África:

(i) Comprimento: G3 - 1020mm; AK47 - 870mm
(ii) Peso com o carregador municiado: G3 - 5,010Kg; AK 47 – 4,8Kg
(iii) Capacidade dos carregadores: G3 – 20 cartuchos; AK47 – 30 cartuchos
(iv) Alcance máximo: G3 – 4.000m; AK47 – 1.000m
(v) Alcance eficaz (distância em que pode pôr um homem fora de combate se for atingido): G3 – 1.700m; AK47 – 600m
(vi) Alcance prático: G3 – 400m; AK 47 – 400m

Passemos então a comparar.
(A) No comprimento e peso:
 A AK47 leva alguma vantagem. A capacidade dos carregadores, mais 10 cartuchos na AK47 que na G3, será realmente uma vantagem?

Se, por um lado, temos mais tiros para dar sem mudar o carregador, por outro lado esse mesmo facto leva-nos facilmente, por uma questão psicológica, a desperdiçar munições. E todos sabemos como o desperdício de munições era vulgar da nossa parte apesar de os carregadores da G3 serem de 20 cartuchos.

O usual era, infelizmente, “despejar à balda” sem saber para onde nem contra que alvo. 
Sem pretender criticar a maneira de actuar de cada um perante situações concretas, eu, durante todas as acções de combate em que participei ao longo de 4 comissões, o máximo que gastei foi um carregador e meio (cerca de 30 cartuchos). 
Por tal facto, em minha opinião, a dotação e capacidade dos carregadores da G3 é mais que suficiente, além de que os próprios carregadores são mais maneirinhos e fáceis de transportar que os compridos e curvos carregadores da AK47.
(B) Quanto ao poder balístico:
Também aqui a G3 leva vantagem pois, embora na guerra em matas e florestas seja difícil visar alvos para além dos 100/200 metros, tem maior potência de impacto e perfuração sendo a propagação da onda sonora da explosão do cartucho muito mais potente na G3, o que traz uma maior confiança a quem dispara e muito mais medo a quem é visado. 
A G3 a disparar impõe muito mais respeito.

Porém, os principais motivos que me levam a preferir a G3 à AK47 (creio que a fama desta última é mais uma questão de moda) são as que a seguir vou referir ilustradas, dentro das possibilidades, com as gravuras acima publicadas.
(C) A importância do silêncio e da rapidez de reacção

Deixem-me, então, começar a vender o meu peixe em louvor da G3. Todos sabemos a importância do silêncio e da rapidez de reacção numa guerra de guerrilha e de como o primeiro a disparar leva vantagem.

Normalmente o combatente numa situação de contacto possível em qualquer lado e a qualquer momento leva geralmente a arma com um cartucho introduzido na câmara e em posição de segurança. Eu e o meu grupo tínhamos bala na câmara e arma em posição de fogo desde a saída à porta de armas do aquartelamento até ao regresso e nunca houve um único disparo acidental. 

Mas, partindo do princípio que nem todos teriam o treino necessário para assim procederem, a arma iria então com bala na câmara e na posição de segurança.

Quando dois combatentes se confrontam, o mais rápido e silencioso tem mais possibilidades de êxito e, nesse aspecto, a G3 tem uma enorme vantagem sobre a AK47. Talvez poucos se tivessem dado conta dos pequenos pormenores que muitas vezes são a diferença entre a vida e a morte.


Um caso concreto:

Vou por um trilho no meio do mato e surge-me de repente um guerrilheiro. Levo a arma em segurança e tenho rapidamente de a colocar em posição de fogo. Do outro lado o guerrilheiro terá de fazer o mesmo. Em qual das armas esta operação é mais rápida e fácil?

 Sem dúvida alguma na G3.

Se olharmos para as gravuras observamos que na G3, levando a arma em posição de combate, à altura da anca com a mão direita segurando o punho dedo no guarda mato pronto a deslizar para o gatilho, utilizando o polegar sem tirar a mão do punho com toda a facilidade e de forma silenciosa passo a patilha de segurança para a posição de fogo e disparo.

E o portador de AK47?

 Sendo a alavanca de comutação de tiro do lado direito da arma e longe do alcance da mão terá que, das duas uma: ou larga a mão do punho para assim alcançar a alavanca de segurança ou então tem que ir com a mão esquerda efectuar essa manobra. Em qualquer das soluções, quando a tiver concluído já o operador da G3 terá disparado sobre ele.

Suponhamos agora que o homem da G3 vê um guerrilheiro e não é por este detectado. A passagem da posição de segurança à posição de fogo, além de rápida, é silenciosa pois a patilha de segurança é leve a não faz qualquer ruído ao ser manobrada. O guerrilheiro não se apercebe de qualquer ruído suspeito e mais facilmente será surpreendido. 

Ao contrário, um guerrilheiro que me veja sem que eu o veja a ele e tenha que colocar a sua AK47 em posição de fogo para me atingir, de imediato me alerta para a sua presença pois a alavanca de segurança dá muitos estalidos ao ser accionada. Assim, não é tão fácil a um portador de AK47 surpreender alguém a curta distância.

Outro caso concreto:

Todos certamente estaremos recordados de quantos vezes era necessário combinar o fogo com o movimento nas manobras de reacção a emboscadas ou na passagem de pontos sensíveis. Nessas ocasiões, em que fazíamos pequenos lanços em corrida para rapidamente atingirmos um abrigo para o qual nos teríamos de lançar de forma a ficarmos automaticamente em posição de podermos fazer fogo (a chamada queda na máscara), a G3, devido à sua configuração era de grande ajuda,  pois, não tendo partes muito salientes em relação ao punho por onde a segurávamos, (o carregador está ao mesmo nível) permitia que de imediato disparássemos com relativa eficácia.

E a AK47? 

Reparem bem naquele carregador tão comprido e saliente do corpo da arma. Como fazer manobra idêntica? Impossível. Mesmo colocando a arma com o carregador paralelo ao solo para facilitar a “aterragem”, isso faz com que tenhamos que perder tempo a corrigir a posição de forma a estarmos aptos a disparar. E em combate cada segundo é a diferença entre a vida e a morte.


(D) Defeitos

Um defeito geralmente apontado à G3 é que encravava facilmente com areias e em condições adversas.

Quero aqui referir que ao longo dos muitos anos da minha vida militar, tanto em combate como em instrução ou nas carreiras de tiro, tive diversas armas G3 distribuídas e nunca nenhuma se encravou. 

A G3 possui de facto um ponto sensível que poderá impedir o seu funcionamento se não for tomado em conta. Trata-se da câmara de explosão, onde fica introduzido o cartucho para o disparo, que tem uns sulcos longitudinais (6 salvo erro)* destinados a facilitar a extracção do invólucro.

 Acontece que se esses sulcos não estiverem limpos e livres de terra ou resíduos de pólvora não se dá a extracção porque o invólucro fica como que colado às paredes da câmara. Se houver o cuidado em manter esses sulcos sempre livres de corpos estranhos,  nunca a G3 encravará. 

Outra coisa que poderá levar a um mau funcionamento é as munições estarem sujas ou com incrustações de calcário ou verdete.

Nós tínhamos por hábito, como forma de prevenir este inconveniente, untarmos as mãos com óleo de limpeza de armamento, para esfregarmos as munições na altura de as introduzirmos nos carregadores. E resultou sempre bem.

São pequenos pormenores que deveriam ter sido ensinados na recruta mas, pelos vistos, nem sempre havia essa preocupação bem como muitas outras que foram, a meu ver, causa de algumas (muitas) mortes desnecessárias.



CONCLUSÃO

Depois de passados tantos anos sobre a guerra, continuo fã incondicional da G3. Se voltasse ao passado e as situações se repetissem, novamente preferia a G3 à AK47.


Mário Dias


[ Revisão / fixação de texto /  negritos / título: LG]

Sem comentários: