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sábado, 18 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27930: Os nossos seres, saberes e lazeres (731): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (252): Imprevistos em dó maior, a empatia dos ambientes, felicidade é ter algo que amar (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Março de 2026:

Queridos amigos,
São mesmo imprevistos, entrar num auditório de música e ficar embevecido com aquele espetáculo de 3D, como se o piano navegasse na floresta; os painéis azulejares da estação ferroviária do Bombarral (coitadinha, aguarda há anos as obras de Santa Engrácia na linha do Oeste) que falam de um passado porventura glorioso da vitivinicultura, quando hoje as potencialidades agrícolas estão canalizadas para peras e maçãs; alguém envia uma imagem impressionante de uma escultura românica, vai-se à procura do sítio e aparece o tímpano de uma Igreja que nos enche as medidas... até aqui aparece aquele lustre encomendado pelo Czar russo a uma fábrica de Murano, terá desistido ou esqueceu-se da encomenda, passou por lá D. Fernando II e comprou aquela maravilha de artes decorativas que ilumina com todo o fulgor a sala dos embaixadores do Palácio de Belém. São imprevistos, nada mais.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (252):
Imprevistos em dó maior, a empatia dos ambientes, felicidade é ter algo que amar


Mário Beja Santos

No âmbito da Rising Stars, uma esplendida iniciativa da Fundação Gulbenkian para nos mostrar jovens talentos que têm a sua carreira em ascensão, fui ouvir o pianista georgiano Giorgi Gigashvili, trouxe um repertório que permitiu todas as pirotecnias específicas, de compositores barrocos a contemporâneos. A envolvente do palco é de uma beleza deslumbrante, esteja aqui uma orquestra, um coro, um grupo de música de câmara, um solista, há uma particular comunhão entre a sala e o palco, parece um espetáculo em 3D. o jovem pianista georgiano foi muito aplaudido, agradeceu e deu-nos a saber que levava consigo a mais espetacular sala de concertos que lhe fora dado a conhecer.
Esta tapeçaria é de José de Almada Negreiros (1893-1970), foi feita em Portalegre e intitula-se Artista e Modelo, data de 1953, está patente na ampla sala que dá acesso ao grande auditório, há ali espaço para comes e bebes e pode desfrutar-se dos encantos do jardim. Fica-se pregado a ver a genialidade modernista de Almada, a contorção dos corpos, o enigmático cavalete, o espetador não tem nada que saber o que é que está a ser pintado, se acaso já começou o trabalho do artista, o chão serve de parede, há uma luz impossível por baixo da mesa e aquele sóbrio biombo que parece um harmónio delimita o espaço da composição quem escolheu aquela parede no fundo da sala e aqui mandou afixar a tapeçaria de Almada não pode imaginar o consolo que dá a quem por aqui ciranda.
Andava a tirar fotografias no portal sul da Igreja do Convento de Cristo, em Tomar, trabalho de João de Castilho, um dos génios da arquitetura que privilegiaram a arte em Portugal, é uma porta cheia de tardo-gótico e de alvores renascentistas, bem própria da época temos a figura monstruosa devoradora, fica-se sem saber qual a mensagem que o genial arquiteto queria dar a quem entrasse por esta porta, será ganância, a cupidez, a natureza do mal? Resposta não tenho, mas não desmereço do impressionante aporte escultórico.
Abadia Sainte-Foy, Conques (Aveyron), França

Não conheço esta abadia, para ela fui despertado quando alguém me mandou esta imagem, aquele rosto dissimulado discretamente colocado no tímpano de uma porta. Eram assim os artistas românicos, introduziam pormenores aparentemente incompreensíveis ou intrigantes na cantaria, trata-se de uma assinatura de artista, alguém que partiu para os céus ou entrou em redenção? Para cada um a sua explicação. Como não conhece esta região nem, portanto, a abadia, fui à procura de pormenores e fiquei sem fala quando vi o deslumbramento do tímpano da porta principal, como aqui se mostra.
Tímpano da abadia de Sainte-Foy de Conques, França, construída entre 1041 e 1135, representando o Juízo Final. 
O que aqui se mostra, meu caro leitor, são os belos painéis azulejares da estação ferroviária do Bombarral. Eu tinha saído no terminal rodoviário, queria depois boleia para ir para o meu casebre no Reguengo Grande, mas tomei a decisão de descer a Alameda que leva à estação ferroviária, alguém me referira que os azulejos tinham sido restaurados e eram mais que dignos de serem vistos. Havia naqueles anos de 1930 uma intenção decorativa das estações ferroviárias de certa importância, é por isso que encontramos bela azulejaria em Vila Franca de Xira, na Ribeira de Santarém ou em Aveiro. O ponto que me parece curioso é que aqui se mostram fainas agrícolas, mas ainda não se fala das riquezas frutícolas que referenciam hoje o Bombarral, os peros e as maçãs, naquele tempo Bombarral aparecia referenciado pelo vinho. Enquanto via estes painéis, pensava na pera-rocha, conto resumidamente a história. Coordenava em Portugal uma iniciativa chamada Concurso Europeu do Jovem Consumidor, naquele ano de 1991 a Comissão Europeia propusera o tema da promoção de um produto alimentar são. A escola do Bombarral candidatou-se com o tema da pera-rocha, trazia bastante originalidade com as danças dos jovens e temas musicais de Vivaldi. Conversei com a professora para ajustarmos a comunicação, e havia imagens destes painéis azulejares na apresentação. Tive a grande alegria de ver esta escola do Bombarral ser premiada com o segundo lugar, depois da sua cativante apresentação no Heysel, em Bruxelas.
Entrei no histórico estabelecimento que dá pelo nome de Casa Havaneza, no Chiado, para pedir uma informação, fiquei embasbacado com este belo painel assinado por aquele que eu considero ter sido o mais importante gravador português do século XX, Bartolomeu Cid dos Santos, era uma lembrança daquela Havaneza do século XIX, que foi conhecendo alterações até ao presente.
A imagem da Sala dos Embaixadores do Palácio de Belém. O guia da visita lembrou que aquele lustre de Murano fora inicialmente uma encomenda do Czar russo, basta ver a caminho do teto a águia bicéfala, o rei D. Fernando II passou pela fábrica onde a encomenda fora esquecida e comprou o lustre, é imponente, parece mesmo que foi feito para engrandecer o fausto desta sala onde até o belo tapete foi renovado.
De vez em quando entro no Museu do Bombarral só para ver uma peça, desta vez escolhi um quadro de Josefa d’Óbidos, representa Santa Justina e Santa Rufina, a talentosa pintora que nos legou impressionantes naturezas-mortas também tinha pendor para temas religiosos, o que mais aprecio nesta composição não é o barroquismo dos vestidos ou a perfeição dos corpos, é o enquadramento espacial das duas santas, não é preciso mais um sentido para a esquerda ou para a direita, e destaco igualmente a luminosidade que vem do fundo e que parece que acende o quadro, dando-lhe fulgor.
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Nota do editor

Último post da série de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27913: Os nossos seres, saberes e lazeres (730): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (251): Uma sonata para a primavera, imagens para canonizar a terra úbere e um marionetista genial (Mário Beja Santos)

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